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PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MISTÉRIO – Florbela Espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ANA PAULA HENKEL

TEMPORADA DE CAÇA ÀS BRUXAS

Foram quatro ininterruptos anos de uma perseguição histórica. Desde a campanha presidencial, Donald Trump vem sendo caçado pelos democratas como nunca se viu com qualquer outro presidente. E falo isso com muita tranquilidade, o bufão laranja não era meu candidato favorito nas primárias republicanas em 2016. Em novembro daquele ano, confesso que não estava animada com o desfecho da eleição presidencial. A corrida para a Casa Branca, entre Donald Trump e Hillary Clinton, ficou marcada como uma corrida de dois nomes ruins para os norte-americanos.

Mas Donald Trump me surpreendeu com a sua administração. E acredito ter surpreendido muita gente que comprou a embalagem, e não o conteúdo. É verdade que o conteúdo só pôde ser conhecido, de fato, depois de vê-lo por algum tempo no Salão Oval. Mas, rapaz… que conteúdo. Não vou me estender aqui desmiuçando as políticas dos quatro anos de Trump na Casa Branca, há vários artigos honestos na internet sobre esse período, mas hoje atesto sem vergonha (e também com vergonha por não ter apostado que ele seria um bom “CEO da América”!) que os Estados Unidos estariam em lençóis muito piores se o malvadão do século não tivesse entrado na rota dos norte-americanos como Commander in Chief.

Pois bem, mesmo depois de uma conturbada – e ainda cheia de mistérios – eleição presidencial em 2020, os democratas voltaram ao poder. Além da Presidência, eles retomaram também a Câmara e o Senado. Bufão fora da Casa Branca, vamos tocar nossa agenda radical e jogar Trump no esquecimento! Certo? Errado. Donald Trump continua fazendo estragos no caminho político dos democratas até hoje.

A volta do malcriado do Twitter

O movimento MAGA (Make America Great Again), iniciado por Trump em 2016, parece estar mais forte do que nunca, e isso pode ser medido pelos resultados de eleições locais nos Estados. Desde 2021, os republicanos vêm tomando territórios importantes do tabuleiro político norte-americano, como o governo do Estado da Virgínia e quase todos os cargos eletivos importantes, região que votava com os democratas havia muitos anos. No caminho das eleições de midterms agora em novembro, Trump continua incomodando democratas e até republicanos que torcem o nariz para ele. Depois da rodada do último fim de semana para as cadeiras da Câmara e do Senado, dos 187 candidatos apoiados por Trump dentro das primárias do partido republicano, 173 saíram vitoriosos e 14 foram derrotados. Um impressionante aproveitamento de 93% em suas indicações.

Mas há muito mais nesse caminho, além das eleições de midterms, que apavora os democratas. Diante de tamanho engajamento – mesmo com toda a demonização de sua figura política durante os quatro anos na Casa Branca -, Trump ameaça com uma cartada que pode ser devastadora para o partido do senil Joe Biden, hoje sem nenhum legado ou herdeiro político com porte presidencial: sua volta a Washington e ao Salão Oval em 2024. Trump sofreu algumas tentativas de impeachment enquanto presidente, e pelas razões mais ridículas que os norte-americanos poderiam ver. Um processo até passou na Câmara, mas foi derrubado no Senado. Mais um plano de impeachment, um seguro arquitetado por Nancy Pelosi usando o 6 de janeiro, foi colocado em prática para evitar a volta do malcriado do Twitter e se iniciou logo após sua saída da Presidência, mas também não obteve sucesso. Nesta semana, mais uma tentativa de impedir que o 45º presidente dos Estados Unidos se torne o 47º presidente de sua história entrou em curso.

Na segunda-feira 8 de agosto, a casa do ex-presidente em Mar-a-Lago, Flórida, sofreu uma incursão sem precedentes do FBI. A operação, que continha um enorme número de agentes, foi desencadeada por uma investigação em andamento do Departamento de Justiça sobre caixas de materiais que Trump levou consigo para a Flórida quando deixou a Casa Branca. Os agentes entraram na residência de Trump enquanto ele não estava em casa, para confiscar documentos de propriedade pessoal, cofre e registros. Seus advogados alegam que também não puderam acompanhar a operação. Tudo isso por causa de uma disputa de arquivo de papéis presidenciais comum a muitos ex-presidentes.

Residência de Trump em Mar-a-Lago

Os agentes ocuparam e vasculharam a casa inteira, incluindo o guarda-roupa da ex-primeira-dama Melania Trump. A incursão do FBI à casa do ex-presidente Donald Trump – algo nunca visto na história dos Estados Unidos – pode energizar ainda mais os eleitores republicanos que não esqueceram que Hillary Clinton excluiu 33 mil e-mails de quando era secretária de Estado e ganhou apenas um tapinha na mão. Em 2016, o então diretor do FBI, James Comey, anunciou que a candidata Hillary Clinton era culpada de destruir os e-mails – um provável crime relacionado ao seu mandato como secretária de Estado. No entanto, ele praticamente prometeu que ela não seria processada devido ao seu status de candidata presidencial.

O evento na Flórida é apenas mais uma razão pela qual os republicanos devem lutar mais para reformar uma burocracia politizada e poderosa. Por três anos, a falsa teoria da conspiração do conluio com a Rússia ajudou a atrapalhar a Presidência de Trump, mas o problema não eram apenas as mentiras de seus inimigos democratas e seus líderes de torcida da velha imprensa. A disposição dos agentes do FBI e funcionários do Departamento de Justiça em perseguir essa trama partidária demonstrou que a ideia de que essas agências são compostas de funcionários públicos apolíticos é um mito. O “deep state” não é um mito da direita.

Durante décadas, o serviço federal tornou-se cada vez mais um bastião para os democratas progressistas (leia-se regressistas). Absolutamente todos os estudos mostram que seus membros estão quase uniformemente à esquerda. Para dar apenas um exemplo, em 2016, 95% dos burocratas federais que fizeram doações registradas para um candidato na eleição presidencial doaram para Hillary Clinton. O controle dos democratas sobre a lealdade dos burocratas significa que esses funcionários podem atrapalhar e até parar qualquer tentativa dos conservadores de implementar políticas de que não gostam. Isso foi particularmente problemático para um presidente como Trump, que não queria jogar pelas regras convencionais estabelecidas pelos sociais-democratas em Washington e establishment que também inclui republicanos como Mitt Romney e Liz Cheney. Os presidentes podem fazer 4 mil nomeações políticas para cargos do governo, com cerca de 1,2 mil delas sujeitas à confirmação do Senado. Mas 50 mil burocratas têm autoridade para tomar decisões sobre questões políticas, e isso implode a lisura de um sistema justo de dentro para fora.

Um ato político

Há menos de 90 dias de uma eleição de meio de mandato, e com a possibilidade de os republicanos retomarem ambas Casas legislativas (a Câmara com um “banho de sangue”, como dizem os analistas), o evento em Mar-a-Lago fica caracterizado não apenas como um ataque, mas um ato político. Para Adam Geller, especialista em pesquisas internas para o Partido Republicano, o ataque e a maneira como foi orquestrado e relatado dão aos eleitores republicanos e indecisos um choque que essencialmente respingará nas eleições de midterms e talvez além: “Não há dúvida de que os republicanos e o presidente Trump podem aproveitar isso para seu benefício político até 2024”. Para a estrategista democrata Carly Cooperman, Trump, com razão, transformará isso em uma oportunidade política: “Ele está reunindo sua base e alimentando seus apoiadores. Isso se encaixa perfeitamente com o que ele gosta de argumentar sobre o exagero do governo. Se isso não for nada muito sério, o evento realmente ajudará sua estratégia.”

O cenário político para 2022 na América está se definindo rapidamente. O Partido Democrata deverá sofrer perdas históricas em novembro. Donald Trump estava prestes a anunciar sua candidatura presidencial para a corrida de 2024. No último domingo em Dallas, Texas, ele falou por quase duas horas no encerramento do CPAC, evento conservador norte-americano, e mostrou que em muitas pesquisas continua sendo o republicano favorito para a indicação — e bem à frente do atual presidente Joe Biden em uma suposta revanche em 2024.

Assim como no Brasil, uma atual republiqueta devido ao ativismo porco de membros judiciário e do atual STF, o “deep state” pode ser de enorme ajuda para os democratas, que buscam de maneira radical transformar o governo e a economia para se adequarem à sua agenda ideológica de extrema esquerda sem a presença de membros do Congresso. Os republicanos (assim como milhões de brasileiros) que querem drenar o pântano de Washington (e de Brasília) hoje se deparam com um serviço público não eleito, ativista e irresponsável que atua como um quarto Poder extraconstitucional do governo, e com veto efetivo sobre as políticas dos políticos eleitos.

É por isso que um número crescente de republicanos e independentes (e brasileiros) percebe que, se quiserem realizar alguma coisa na próxima vez que estiverem na Casa Branca (e no Planalto), terão de reformar o serviço público e a política. Os esquerdistas, nos Estados Unidos ou no Brasil, completamente desconectados da realidade, sabem que urnas aferidas não estão elegendo seus oficiais e, por isso, estão pavimentando um caminho em direção a um regime autoritário.

As Américas começam a ver uma divisão política nacional permanente. Não é uma simples ruptura entre democratas e republicanos, ou lulistas e bolsonaristas. Isso é simples demais. O que estamos vendo é a divisão entre pessoas que estão dispostas a usar o poder do Estado para silenciar seus oponentes e aquelas que estão preocupadas com a liberdade e o império das leis. O que manteve a América unida desde a Guerra Civil não foi a Constituição ou a Declaração de Direitos (Bill of Rights), por mais importantes que sejam esses documentos. A União Soviética possuía “leis de direitos” que garantiam a “liberdade de expressão e direitos iguais”. E os bolcheviques assassinaram seus adversários políticos e enviaram seus dissidentes aos gulags. Lavrentiy Beria, o chefe da polícia secreta mais implacável e mais antigo no reinado de terror de Joseph Stalin na Rússia e na Europa Oriental, se gabava de poder provar uma conduta criminosa contra qualquer pessoa, até mesmo um inocente: “Mostre-me o homem e eu lhe mostrarei o crime”. Essa era a infame ostentação de Beria.

O que nos mantém funcionando, mesmo com todos os defeitos detectados em nossas leis, diferentemente dos bolcheviques, é que nossas Constituições separaram os Poderes para impedir uma união partidária em torno de apenas um. Eleições têm consequências. As espinhas dorsais das eleições no Brasil, em outubro, e nos Estados Unidos, em novembro, nunca estiveram tão próximas e talvez nunca foram tão importantes não apenas para as Américas, mas para o Ocidente.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PENINHA – TUPI PAULISTA-SP

Esta é a mais uma pequena homenagem a este grande amigo, José Batista Patuto.

Um irmão que nos deixa um legado de força, fé, esperança e acima de tudo e de todos a bela amizade que nos une.

Patuto faleceu no último dia 9.

A apresentação é feita por outro grande amigo, Antonio Luiz Pioltine.

José Batista Patuto é mais uma estrela que brilha no céu!

GUILHERME FIUZA

FASCISMO DE ARAQUE

Fascistas do mundo inteiro estão furiosos com o presidente brasileiro. Ele deu uma entrevista de cinco horas para um canal independente, falando abertamente sobre todos os assuntos, com uma audiência instantânea de meio milhão de pessoas. Assim não há fascismo que aguente.

Mas a resistência democrática no Brasil continua firme. Composta de banqueiros sensíveis, ladrões honestos, egoístas solidários, carreiristas conscientes, juízes partidários, lobistas empáticos, liberaloides iluminados e subcelebridades revolucionárias, a frente de resistência contra o fascismo deixa claro em seu manifesto (o documento mais importante desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem): o perigo permanece.

Dispostos a tudo para salvar a democracia, os heróis da resistência já mostraram que é preciso cortar o mal pela raiz. Nem que para isso seja necessário rasgar a Constituição, atropelar as leis, barrar a liberdade de expressão, instigar um novo atentado contra o presidente – em filmes, discursos e performances -, impedir a atualização do sistema eleitoral e instaurar inquéritos ilegais para perseguir pessoas. Vale tudo para salvar a democracia do fascismo.

Mesmo assim, o comando planetário da ordem fascista está preocupado com o Brasil. A entrevista de cinco horas do presidente foi a gota d’água. Pegou muito mal nas altas esferas totalitárias essa história de ficar dando assunto para entrevistador. “Porra, isso é coisa de democrata!”, teria esbravejado o CEO da Fascismo S.A. A chapa esquentou mais ainda quando alguém informou que o líder da oposição democrática – que esteve preso por causa da ladroagem de um amigo dele — não dava entrevistas quando era presidente.

“Isso desmoraliza o fascismo”, teria dito uma alta fonte da conspiração ditatorial. Alguém tentou amenizar, dizendo que o tal ex-presidente até dava uma entrevista ou outra, se fosse para jornalista amestrado. Isso não dissolveu, no entanto, o mal-estar no comando internacional fascista. Uma outra fonte logo assinalou que a entrevista de cinco horas do atual presidente não foi um fato isolado: ele era reincidente, já tendo cometido uma série de deslizes do tipo.

O que mais chocou os desavisados foi a revelação de que o presidente brasileiro instituiu uma rotina de cafés da manhã com toda a imprensa. “Isso é um escândalo!”, bradou uma alta fonte nazifascista, defendendo a imediata eliminação do traidor. Surgiu a ponderação de que o ritual tinha sido interrompido, e a alta fonte furiosa quis saber se o presidente do Brasil tinha então finalmente fechado os veículos de comunicação.

Com a informação de que o café da manhã foi suspenso porque as palavras do presidente ganhavam sentidos exóticos nas manchetes, mas que toda a imprensa do país continuou funcionando normalmente, sem qualquer interferência, o clima ficou ainda pior. E tinha mais.

Caiu como uma bomba a descoberta de que, durante três anos e meio, o governante brasileiro tinha sofrido ataques públicos em série – incluindo ameaças à sua vida – e não tinha censurado ninguém. “Onde esse homem está com a cabeça?!”, bradou irado o primeiro-secretário da Internacional Fascista. Alguém respondeu: “Ele está com a cabeça servindo de bola para encenações da sua decapitação”. “E os delinquentes já estão presos?”, quis saber o dirigente fascista. O interlocutor respondeu baixinho que ninguém tinha sido preso, nem punido.

A indignação da cúpula totalitária já estava batendo no teto, quando surgiu a informação de que, como se não bastasse, o chefe de Estado brasileiro tinha negociado suas medidas e reformas com o Parlamento – sem uma única imposição autoritária. Aí o caldo entornou.

“Esse cara vai desmoralizar o fascismo!”, explodiu uma alta fonte da Onda de Ódio. “Temos que substituí-lo já. Existe algum político no Brasil disposto a controlar a mídia, subjugar o Parlamento usando o Judiciário e sujeitar o mercado às rédeas do Estado?” “Tem o líder da oposição democrática”, respondeu encabulado um assessor. “Ok. Então vamos com ele.”

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GUSTAVO GAYER

DEU NO JORNAL

QUE ELE NUM MEXA CUM NÓIS

Presente no plano de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), a regulação da mídia é uma bandeira antiga de Lula.

O tema está presente no discurso político do ex-presidente há alguns anos, recorrente principalmente desde o período em que o petista enfrentou denúncias sobre corrupção.

A regulação da mídia aparece no item 118 das diretrizes do programa de governo de Lula, em tópico que descreve o tema como uma espécie de esforço para favorecer o debate democrático.

* * *

Que o ladrão descondenado pelo S-PT-F não invente de censurar esta gazeta escrota.

O jumento Polodoro, nosso mascote, já avisou que o bandidão vermêio vai se arrepender se fizer isso.

Polodoro garantiu que enfiará sua pajaraca todinha no furico do ladrão se ele inventar de mexer cum nóis.

Num vai sobrar uma única prega!!!!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O HARAS E O JARDIM

O mais belo cavalo do Haras Pequeno Príncipe

Para o meu orgulho, nunca será exagero dizer: nasci no mato, “aparado” por uma parteira leiga das horas do aperreio (minha Avó), que em vida me disse que – no dia 30 de abril daquele ano -, a água era “morna” apenas por conta do calor abrasador. Não houve aquela preparação.

Foi aquela parteira leiga das horas da necessidade, que também me disse certa vez, que: “Fio, que eu lembre, fazia um calor insuportável. Apenas três coisas tinham ligações com a vida: a sua chegada e o seu choro; a saúde e a disposição da sua mãe em lhe dar à luz; e, naquela latada da frente da casa, a graúna cantava feito uma disgramada. Parece inté que ela que tava fazendo o parto ou nascendo.”

Andei cedo e também cedo tive o privilégio de ouvir e entender as verdades da vida, que muitos pais (avós) escondem dos filhos (netos): a vida, a partir do nascimento.

Sem aquela de ser trazido pela cegonha.

Sábia, minha Avó apregoava: “Se hoje, sem necessidade, mentimos e enganamos nossos descendentes, quando teremos o direito de querer que algum dia eles acreditem em nós”?

Vovó. Sem graduação ou doutorado. E era ela, a mesma que conversava com as aves do quintal ou os pássaros, tendo a pretensão de achar que era compreendida.

Aquele foi o meu mundo inicial. Fui uma semente bem plantada. Regada. Cuidada e recebendo a quantidade de água que precisava para crescer e para enraizar. A água da verdade para enfrentar a vida com coragem nas adversidades. Sem as frescuras de hoje.

Cresci. Vivi. Viajei e aprendi.

Aprendi que aprendemos mais ainda, quando dividimos o aprendizado com alguém. É o milagre da multiplicação.

Meu Avô, cantador de viola e repentista sem fama, que já se contentava em ser ouvido e escutado por nós, os netos, nas noites das ladainhas e dos ensaios profanos, me disse: “Ser feliz, é poder enxergar o brilho e a luz da felicidade nos olhos de quem te ouve.”

Pois, hoje, tens um haras. Mereces tê-lo. Sei. Tu tens um haras e, nele, crias alguns cavalos de raças ímpares. Espécies bonitas, raras. És herdeira. Estás rica.

Pois eu, tudo que consegui na vida como resposta ao trabalho desde a roça até hoje, foi cultivar um pequeno jardim que, vez por outra transformo num canteiro de verduras.

Nesse canteiro, sem que eu saiba o motivo, apareceram umas lagartas. E isso me fez imaginar que, involuntariamente, crio lagartas. É. Lagartas. Lagartas que voam – ou, que pretendem voar algum dia. É a natureza delas. Querer voar.

Já me flagrei várias vezes repetindo a pretensão da minha Avó. Também converso com uma lagarta. Preferencialmente, uma. A que vive dizendo que, um dia, se eu continuar cuidando dela como cuido, ela vai alçar voo.

Não tenho certeza se acredito. Tem horas que duvido. Mas, por algumas vezes passei a acreditar que ela vai voar.

É, voar. Batendo asas (quais?) e voando.

A lagarta se alimentando para crescer e um dia voar

Ontem li nas redes sociais que um dos teus cavalos foi premiado. O nome que mais recebe elogios é o do cavalo – muito mais que o cavaleiro.

Será que algum dia essa lagarta vai voar mesmo e eu receberei algum prêmio?

Ora, se o teu cavalo é premiado, como que tu que recebes o prêmio?

É isso que me faz pensar que, se a lagarta algum dia voar, eu também posso receber prêmio. Mas, por que eu receberia prêmio por uma lagarta que um dia resolveu voar?

Ontem pela manhã lembrei da Vovó dizendo que, no dia que nasci fazia um calor insuportável. Ontem o calor também estava insuportável e isso me fez molhar o canteiro. Iludido, chamei a lagarta e ela não respondeu. Fiquei aflito, embora ela nunca tivesse respondido mesmo. Procurei debaixo das folhas maiores e não a encontrei.

Continuei procurando enquanto chamava. Sem resposta.

Ora, se eu estava procurando uma lagarta bonita, colorida e falante (pelo menos comigo!), como poderia perceber que algo parecido com o bicho da seda fosse a “minha lagarta” candidata a voar e a receber prêmios?

Mas era. Não era um “bicho da seda”. Era um casulo!

É, um casulo.

Os dias se passavam e eu pouca importância dava ao casulo, sempre que molhava as plantas.

Na manhã do dia seguinte, quando eu molhava as plantas por conta daquele sol abrasador, não olhei mais o casulo.

Mas, como há raios que caem duas vezes no mesmo lugar, também inexplicavelmente, a minha graúna cantava desesperada. Um cantar diferente e sempre que saía da banheira com água e se sacodia.

Minha Avó dizia que, quando os pássaros cantam da forma que a graúna estava cantando, estão querendo dizer alguma coisa. Falar com alguém. Ser compreendido e entendido. E, creia, havia motivo sim para aquele cantar ao mesmo tempo alegre e desesperado da graúna.

A lagarta voou!

Digo, a lagarta que virou casulo, saiu dele e voou!

Será que é justo, também, que eu receba um prêmio?

Mesmo que eu não receba um prêmio, ganhei o aprendizado que não devemos duvidar da Natureza. Os cavalos do haras são bonitos, mas precisam de cuidados.

Os pássaros e as aves de consumo da Vovó conversavam com Ela, sim. Ela, a Vovó, acreditava nisso, e jamais parou de dar a devida atenção os “bichinhos dela”.

Eu, claro, fiquei em dúvida se algum dia aquela lagarta conseguiria voar mesmo. Mas, Ela, a lagarta, acreditava na sua Natureza – e a Natureza das lagartas é, um dia virar borboleta e voar.

Voar a caminho da vida e dos girassóis.

A lagarta que acreditou que voaria

Acredite. As lagartas podem voar, sim!

E a premiação não é de quem as criou. É da Natureza!