
Segundo Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente” (Autopsicografia”). Versos que recitamos sem perceber que, lidos como estão, não fazem nenhum sentido. Que nem o coitado desse poeta imaginário, nem ninguém, pode fingir que é dor uma dor que sente de verdade (deveras). Porque ou se finge uma dor que não se sente, ou verdadeiramente se sente uma dor que então já não é fingida. Tempos depois ouvi em obra um pedreiro pedir, a seu ajudante, “areia de fingir”; compreendendo afinal ser essa areia tirada dos leitos do rio, que se mistura ao cimento, não é de fingir – no sentido estrito em que hoje empregamos o termo, de esconder o pensamento. Mas de construir. E também compreendi que esse verso Pessoa destinou a iniciados ‒ o que fazia com freqüência. Pois fingir, em português arcaico, é também construir. Retomando o sentido, em latim, do verbo fingere. Sem contar que fingidor era profissão comum na belle époque portuguesa do século XIX, para designar artesões que esculpiam salas e telhados, em gesso e nessa areia, com colherinhas de fingir. No fundo, o próprio fingimento não é senão a construção de uma outra realidade – algo comum a poetas e outros seres ungidos com o dom de iludir. Gente que vaga pela vida vencendo batalhas misteriosas, sofrendo sofrimentos inauditos e amando amores implausíveis. Só que ditos sonhos lhes pertencem apenas enquanto guardados nas suas almas; porque, postos no papel, ganham vida própria e passam a ser de todos nós, indeterminados cidadãos comuns. Com os pintores acontece o mesmo. Até porque, segundo os dicionários, fingidor quer dizer também pintor.
Essa enfadonha e longa introdução tem somente o sentido de homenagear nosso grande pintor José Cláudio – que, amanhã, estará fazendo 90 anos. Viva Zé Cláudio!!! E faço isso contando essa historinha.
Ligou Caetano Veloso e marcaram encontro às três da tarde. Na casa do próprio Zé Cláudio, em Olinda. Dando-se que, como todo bom baiano, Caetano gosta de rede. Chegou tarde, já escuro. E encontrou na casa somente Cícera.
– Zé Cláudio está?
Aqui, parêntese para dizer quem é Cícera, personagem de romance. Soberana em sua cozinha, é a dona da casa. Tanto que se alguém chegar, e não for logo cumprimentá-la, está perdido. Zé Cláudio pede para servir cafezinho, ela traz só um e diz
– Esse é para o senhor. Seu amigo sirvo não, que ele é muito mal-educado.
Está explicado, pois. Mais ou menos. Voltando à pergunta de Caetano, Zé Cláudio está?, Cícera respondeu sem maiores preocupações
– No dentista.
– Posso esperar por ele aí dentro?
– Claro que não.
E voltou a se preocupar com sua sopa. Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo. Pedindo apenas o acesso, à casa, para uma amiga que precisava fazer suas necessidades.
– Ela que faça aí fora mesmo.
Nesse ponto da conversa bom dizer que a casa fica em Olinda, no alto de um morro. Depois da casa de Abel, é como ensina o caminho, sem que se saiba quem seria o tal Abel. A quase 10 minutos da rua em que passam taxis. E o músico teve a infeliz ideia de não ficar com aquele no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu
– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?
– Digo sim.
Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta
– A senhora desculpe mas sabe quem sou?
– Sei. É Caetano Veloso. Mas eu prefiro Tarcísio Meira.

Pintor pernambucano José Cláudio da Silva, nascido em 27 de agosto de 1932
Prezado Editodos,
hoje vamos ter um sanfoneiro no Cabaré!
Magella Almeida é um apaixonado-amante da boa música que há 20 anos começou a dar seus primeiros acordes no teclado e depois adotou o acordeon como instrumento e tem acompanhado diversos artistas, e bandas, aqui no nosso estado.
Magella tem um projeto intitulado “Magella Almeida – Forró da MA” , onde toca sanfona e solta a voz. Em junho de 2020 lançou 5 músicas e desde então participa de lives e shows.
Agradecemos bastante a disponibilidade de Magella em participar do nosso encontro semanal e vamos nos colocar à disposição para divulgar o trabalho desse artista, esperando que ele deslanche no cenário regional/nacional.
Avise aos cabarelistas que o furdunço será hoje, das 19h30 às 20h30, e que para participar basta clicar aqui.
As portas do cabaré serão abertas às 19h25, horário de Brasília, e não carece bater na porta.
R. O recado está dado, meu nobre gerente cabarelístico.
Hoje teremos mais uma sexta-feira arretada, com boa música e a presença do grande artista Magella Almeida .
A comunidade fubânica está convidada para nos reunirmos logo mais, a partir das sete e meia da noite.
Até mais tarde!
A fome é uma doença crônica, que somente a comida pode controlar.
É estranho o comportamento de pessoas, portadoras de doenças crônicas como hipertensão arterial e diabetes, que se recusam a procurar tratamento médico. Mesmo sendo doenças crônicas, para o resto da vida, essas doenças podem ser controladas. Para isso, o doente terá que se submeter a uma rotina diária de tomar a medicação prescrita pelo médico.
A doença crônica da fome, se não for tratada diariamente, pode levar o doente a óbito em um mês. E o remédio diário é um farto prato de comida, no mínimo, três vezes ao dia.
Esses pacientes que tem medo de médico devem ser adeptos da filosofia dos avestruzes. Dizem que quando um avestruz avista um leão, enfia a cabeça na areia para não vê-lo.
Acham que ignorando a doença, ela não existe. Ledo engano. O leão existe e está sempre à espreita.
Entretanto, para a doença da fome, o único remédio que existe é a comida, como o feijão com arroz e carne, leite, ovos etc. diariamente.
Há pessoas que brincam com a saúde e dizem ter medo de médicos. “Esquecem” de tomar os remédios por eles prescritos, e adotam a filosofia do avestruz. Acham que médico só faz descobrir doença. E usam o velho ditado popular: “o que os olhos não veem, o coração não sente.”
Acham que escondendo a doença, ela não existe.
Conheço pessoas que evitam ir a médicos, com medo de que eles descubram nelas alguma doença incurável. Fogem do tratamento precoce ou preventivo, como o diabo foge da cruz, e só procuram o médico, quando a doença já avançou.
Acontece que o leão é verdadeiro e vive à procura de caça. Por isso, não adianta o avestruz enfiar a cabeça na areia, para não ver o leão, pois terminará sendo devorado por ele.
Os avestruzes são injustiçados. Seus detratores declaram que aquelas aves são de uma estupidez sem paralelo. Dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia, como quem diz: “se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim, desde que eu continue com a cabeça enfiada na areia.”
Não haveria problema nenhum, se o leão não existisse. Mas o leão existe, é caçador, e termina devorando o avestruz. Entretanto, é estranho que o avestruz, pelo instinto de conservação, não fuja do leão, ao invés de enfiar a cabeça na areia. Mas o que não se admite é que a pessoa humana evite ir ao médico, mesmo com sintomas de uma doença.
“É melhor prevenir, do que remediar”