MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

FAÇA O QUE DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

Acredito que a falta de coerência no ambiente político é uma consequência, também, do processo eleitoral e tenho minhas dúvidas sobre esse modelo proporcional que permite um determinando candidato ser responsável pela eleição de outros, de acordo com o quociente eleitoral. Com base nisso, os partidos pegam alguém famoso, como Clodovil, Tiririca, Romário e, agora, o compositor/cantor da música “Caneta Azul” como puxadores de votos. Clodovil, justiça seja feita, tinha um grau de conhecimento acima dos demais citados. Tiririca, por exemplo, sofreu para provar que sabia ler e escrever.

A legislação enxerga méritos na proporcionalidade, mas não deixa de haver críticas contundentes em vários casos. um deles é cada estado ter apenas 3 senadores. Há muitas críticas em relação a isto porque as pessoas comparam São Paulo – maior PIB do Brasil – com o Roraima cujo PIB representa uma fração de 0,2% do PIB nacional. Alguns defendem que a representatividade deveria pelo grau de importância econômica do estado, mas isso pode ser, de fato, um meio de aumentar desigualdades socioeconômicas.

Em meio a tudo isso, o que mais me incomoda são as coligações partidárias e o discurso medíocre dos pretensos candidatos. No primeiro caso, existem situações de dois partidos contrários, nacionalmente, formarem uma coligação no estado/município. Não era para ser de forma. As discordâncias deixam ser em termos de pautas, projetos etc. no âmbito em que se está. O partido A discorda das propostas do partido B numa eleição presidencial, mas são aliados na eleição para governador. Vejam: cada partido tem sua orientação político-partidária e suas metas.

Em relação ao discurso político há uma vastidão de exemplos, tanto no passado, quanto no presente, que dá nojo. Marina, Boulos, Tebet, Alckmin, Ciro Gomes, dentre outros, chamaram Lula de ladrão, o tempo inteiro. Todos admitiram a corrupção no PT, mas, exceto Ciro, todos estão no governo. Tábata Amaral construiu seu discurso criticando a corrupção – dos outros – , mas esqueceu que seu marido, João Campos, que se envolveu em denúncias de desvio de recursos públicos e o mais graves, mudou a ordem de classificação num concurso para beneficiar o filho do juiz que engavetou um processo contra ele.

Ciro Gomes bateu exaustivamente na corrupção de Lula. Disse nos debates que participou, e em entrevistas que deu, que “viu Lula se corromper”, no entanto, há duas semanas esteve ao lado de Aécio Neves, envolvido até a alma com a JBS, pedindo R$ 2 milhões que o “primo Fred” pegaria com Wesley Batista. Ciro, estava explicando o “chamado” do partido para ser candidato a presidente e não ao governo do Ceará. Ele fala abertamente da relação do pai do governador, Elmano de Freitas, com o PCC.

É nesse contexto que surgem os focos de incoerência: não tem como fechar um olho para os desmandos de quem lhe apoia, enquanto joga nas redes sociais as mazelas de quem está em disputa.

A incoerência abraça as decisões do STF. Alexandre de Moraes, não tem condições morais de condenar, mesmo merecido, quem quer que seja, por atos de corrupção. O grande decisor que defendeu com afinco o estado democrático de Direito, condenando pessoas que estavam no dia 08/01 vendendo água ou com uma bíblia na mão, está mergulhado no mais podre lamaçal de corrupção. E pior em tudo isso são os pares que “não enxergam crime” nas ações de Alexandre. De modo igual a Procuradoria Geral da República, entregue a mero paspalho que atua mais a serviço do descaso do que em benefício da sociedade.

Como se não bastasse, temendo as consequências da delação premiado, Alexandre desenterrou uma decisão do STF, a pedido do PT, sobre deleção premiada com o fito de se enquadrar nos termos daquele penduricalho de desmandos. Ocorre que cabe ao presidente da corte a decisão sobre a pauta de julgamentos e, ao que se sabe, Edson Fachin já avisou que a pauta está definida pelos próximos dois meses, fato que anula a possibilidade de arremedo de lei chegar até o plenário. Uma vitória parcial, mas para que não seja instrumento de proteção de Alexandre, seria importante que as tais delações ocorressem no curto prazo.

No mais, precisamos ter cuidado com tudo que dissermos em público, porque qualquer crítica aos ministros do STF é considerada afronta à instituição e ameaça à democracia. Gilmar Mendes solicitou que Romeu Zuma fosse investigado no âmbito do inquérito das fakes News. Exatamente aquele inquérito aberto de ofício por Toffoli e entregue, sem distribuição aleatória, para a relatoria de Alexandre de Morais e que até hoje, passados 7 anos, não produziu absolutamente nada.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

PREMONIÇÃO

Nossa constituição federal traz, inclusive como cláusula pétrea, o chamado princípio da presunção de inocência ou, se preferir, da não culpabilidade, que em termos diretos diz que qualquer pessoa é considerada inocente até que haja uma sentença penal condenatória definitiva, isto é, transitada em julgado. Na época da Lava Jato, a prisão ocorria depois da condenação em segunda instância e isso favoreceu muitas delações que colocaram corruptos na linha de investigação.

Esse preceito consta no art. 5º, inciso LVII da constituição e em 2016 o STF julgou como constitucional o fato de que após a segunda instância só havia protelação do processo, mas quando o ocorreu a prisão do atual presidente da república, o STF mudou o entendimento e revogou o que havia decidido antes. Lewandowski, esse mesmo que recebeu R$ 6 milhões do banco Master, babava ao enfatizar que a presunção de inocência era cláusula pétrea e por isso não poderia ser objeto de emenda constitucional.

Essa introdução serve para um entendimento da acusação que integrantes do PT fazem ao ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Todos usam o mesmo jargão: Campos Neto aprovou o funcionamento do Banco. Esse pessoal é tão imbecil que não busca a origem dos fatos para fazer qualquer afirmação. O Banco Master não surgiu no mercado financeiro como um banco criado do zero, como uma empresa aberta num determinado instante, mas sua origem decorre de uma transformação societária e estratégica, a partir de uma instituição financeira de menor porte, cuja atuação se dava em nichos específicos e a partir de 2018, quando Daniel Vorcaro assumiu o controle da instituição, sua atuação passou a ser mais agressivo.

Uma coisa interessante é que o banco pagou R$ 11 milhões a uma empresa da nora de Jacques Wagner para prospectar operações de crédito consignado com o governo da Bahia e há relatos de que o governo do estado, mediante, decreto, proibiu a portabilidade de crédito consignado, ou seja, o servidor público baiano que realizasse empréstimo consignado com o Master, não seria autorizado trocar de banco.

Acusam Campos Neto de ter autorizado o funcionamento de uma instituição. Parece que exigem dele o dom da profecia, ou seja, em 2018 ele teria que saber que um banco iria corromper integrantes do governo atual. A lista é extensa, mas a gente pode destacar alguns: Michele Temer, ex-presidente e parceiro de Dilma Rousseff do PT; Henrique Meirelles, ex-presidente do banco Central no primeiro governo do PT. Dois fatos merecem destaque em relação a Meirelles: o primeiro é que havia suspeição contra ele por negócios em Goiás e Lula deu ao presidente do Banco Central status de ministro, para ele tivesse foro privilegiado. A segunda questão é Heloísa Helena saiu do PT por conta da nomeação de Henrique Meirelles.

Guido Mantega foi ministro do governo Dilma e ficou ao alcance da Lava Jato também; a esposa de Alexandre de Morais recebeu R$ 80 milhões e nas conversas do telefone de Vorcaro, não um registro sequer de conversa entre ambos, mas como o ministro tem o famoso “bloqueou?”; Lewandowski (não precisa apresentar), ACM Neto, Antônio Rueda, presidente do partido União Brasil e tem outras figuras incluindo o grupo Massa (Ratinho, apresentador de televisão).

A dúvida que fica é a seguinte: culpam Campos Neto porque todos os envolvidos são petistas ou possuem ligação com o PT? É como se fosse algo assim: você aprovou o funcionamento do banco e os integrantes do nosso governo foram corrompidos pelo dono do banco. Vamos aquietar esse pessoal dizendo o seguinte: relaxem! Os integrantes do governo são suficientemente inteligentes para desviar dinheiro público e enriquecer ilicitamente. O rombo no INSS, que cresceu 64% no governo atual é culpa do governo passado.

Cabe ressaltar que o pessoal não perde tempo e “como quem está morrendo afogado se agarra até com jacaré”, já tentaram tudo para envolver Nikolas Ferreira e agora, Flávio Bolsonaro. O primeiro porque seu nome estava na “agenda” Vorcaro. Eu tenho o contato de dois deputados, um estadual e outro federal, por trabalhos desenvolvidos com eles, mas nunca ligo para nenhum dos dois. Talvez não achando argumentos para essa bobagem, veio o uso de aviões, ou seja, Nikolas teria viajado através das empresas de Vorcaro.

No caso de Flávio, a questão repousa sobre um empréstimo autorizado pelo diretor do BRB que tentou comprar as aplicações fajutas do Master. Veja, um empréstimo definido com garantia, encargos, prazo de pagamento, ou seja, uma operação bancária como outra qualquer.

De forma direta, objetiva, clara, a corrupção é única e exclusiva dessa gente que faz, ou fez, parte do governo, ou seja, pessoas que possuem um cordão umbilical com o PT. O nutriente desse cordão é a corrupção. É ela que dá vida a estes fantoches.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

GUERRA À VISTA

O vulcão prestes a entrar em erupção, no Brasil, chama-se Daniel Vorcaro. Num país sério, o poder de destruição de suas trocas de mensagens com autoridades máxima do país, já teria feito algumas cabeças rolar, mas no nosso caso, não é bem assim. Todos os citados nas trocas de mensagens com Vorcaro, continuam com seus trabalhos, com suas poses de intocáveis e de marco da honestidade humana.

Em meio ao turbilhão provocado pela falta de dignidade, pela falta de caráter, de diversos membros da política nacional, a mídia divulgou uma relação de pessoas que receberam recursos de Vorcaro, a título de pagamento de honorários. O interessante é que ao longo tempo, a medida que as denúncias contra ele ganhavam contornos sérios, os gastos com bancas de advogados cresciam verticalmente. Em meio a tudo isso, a gente lembra da hombridade de Lewandowski ao afirmar que seu escritório recebeu R$ 5 milhões do banco Master, mas ele já havia saído do quadro societário. O cara era ministro do STF e passou a ser ministro da justiça do governo. Pense um pouco e veja o quanto é válido essa declaração dele, principalmente, quando se sabe, agora, que não foram R$ 5 milhões, mas R$ 61 milhões.

Na verdade, para as pessoas coniventes com o governo, não importa se Lewandowski, Temer, a esposa de Alexandre de Morais, o Rueda – que é presidente do União Brasil – , ACM Neto e tantos outros receberam recursos do Master, sabe-se lá para quê! O que importa é que o número do telefone de Niklas Ferreira está na agenda de Vorcaro e tudo isso se deve ao ex-presidente do Banco Central, Campos Neto. Todos sabem que o governo reproduzia como um mantra que o Master era obra de Campos Neto, era uma comprovação de corrupção do governo passado e bastava ver que Tarcísio de Freitas tinha recebido dinheiro do Master.

Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central foi cirúrgico em enterrar essa narrativa isentando de culpa o ex-presidente. Não era isso que o governo esperava e, de modo inconteste o deputado federal Lindbergh Farias passou a atacar, nas redes sociais, Gabriel Galípolo, tecendo-lhe duras críticas por sua opinião isenta de ideologia e reforçada no tecnicismo que o Banco Central deve ter. Como sempre, esse deputado conhecido como “Lindinho” nas planilhas da Odebrecht e investigado por corrupção quando prefeito de Duque de Caxias, não consegue mais discernir mentira e verdade, caráter e a falta dele.

Sempre que a gente pensa num vulcão em erupção, a gente pensa na lava vulcânica queimando tudo ao redor. Se a gente levar em conta o tempo no qual a nossa terra balança ao sabor desse escândalo, essa lava não queimará absolutamente nada. Não é possível que após tantas revelações, Alexandre de Morais continue ditando ordens como se digno fosse de fazer isso. Enigmático foi o recado público dado pelo presidente da república: “não deixe que isso macule sua biografia!”. Alguém entendeu? O presidente está pedindo para Alexandre de Morais renunciar?

Dura lex sed lex, é dito sobre a lei. A lei é dura, mas é lei, no entanto, no Brasil essa máxima pode ser aproximada para algo como “dura lex, sed látex” – a lei é dura, mas estica – porque é sabido que em 2027 o presidente do STF será Alexandre de Morais. Portanto, ele só precisa sobreviver este ano com o apoio dos pares para que, em 2027 ele crie uma couraça de kriptonita em torno dele com capacidade para afastar, até mau-olhado.

Mais uma vez, a esperança recai sobre a capacidade de mudança no congresso nacional, principalmente no Senado. Não é possível ter um presidente canalha como Alcolumbre que, por ter o rabo preso, não é capaz de assumir uma postura condizente com a vontade de parte da população. A esperança é que tenhamos candidatos contrários a este lamaçal como no caso do Paraná onde dois candidatos despontam com chance de eleição.

Infelizmente, a região Nordeste continuará sendo obediente a canalhice atual. Pernambuco, por exemplo, concede 56% dos votos ao atual presidente. Há 25 anos o estado do Piauí é governado pelo PT e tudo que ele representa é algo como 0,5% do PIB nacional. Em 3 anos este estado tomou emprestado quase R$ 20 bilhões e continua na mesa miséria. São Paulo, com empréstimos da ordem de R$ 18 bilhões, no mesmo período, tem feito uma administração de dá inveja.

Eu não sei mais o que dizer para mostrar as pessoas o quanto estamos votando errado. A única explicação que tenho é que corruptos votam em corruptos.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O QUANTO FALTA PARA SERMOS

O Brasil vive um momento de tensão gerado tanto por crises internas quanto por crises externas que se entrelaçam, fortalecendo a sensação de incerteza e de um futuro sólido. Todos nós crescemos ouvindo que o “Brasil é o país do futuro”. Para minha geração o futuro chegou, mas o país não mudou o status e seria ideal que o sentimento que nos reveste fosse de um pensamento coletivo onde as oportunidades pudessem se transformar em produtos e que estes chegassem às mesas, que estes gerassem renda e emprego.

Há muito que tempo que penso o Brasil como um cano furado em diversas partes, onde os dedos são insuficientes para tampar os buracos e estes, geralmente, são buracos cavados em tempos diferentes que nem todos os dedos alcançam mais. É extremamente dizer algo que a gente bata no peito e diga que aquilo nos traz orgulho.

No plano internacional, os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã elevam o grau de instabilidade global. A escalada de tensões no Oriente Médio pressiona mercados, impacta o preço do petróleo e reverbera diretamente em economias dependentes, como a brasileira. A inflação importada e a volatilidade cambial tornam-se ameaças constantes, exigindo respostas rápidas de um governo que já enfrenta limitações fiscais e dificuldades de coordenação política.

Não custa lembrar que a situação de penúria em Cuba ressurge como um símbolo dramático do colapso econômico e social prolongado, catapultado com a saída de Maduro da Venezuela. Aquela simbiose mórbida mantinha um regime coeso onde a escassez de alimentos, energia e medicamentos expuseram, não apenas os limites de um modelo econômico exaurido, mas também os efeitos de décadas de isolamento. Mesmo que se diga que tal isolamento foi fruto das sanções, também é verdadeiro que as sanções foram frutos do regime. Para o Brasil, os cenários de Cuba e da Venezuela servem como um farol para a eleição desse ano, por um simples motivo: se estes países apresentarem melhoria na qualidade de vida das pessoas, o fracasso dos regimes servirá como argumento real de que esse modelo é fadado ao fracasso.

No campo político, o ambiente permanece polarizado, com instituições frequentemente tensionadas e uma agenda pública fragmentada, marcada mais por disputas narrativas do que por consensos estruturantes. O debate político, muitas vezes, tem se afastado das demandas concretas da população, como emprego, renda e segurança, dando lugar a conflitos simbólicos que pouco contribuem para soluções práticas. O assistencialismo continua sendo instrumento de persuasão de eleitores e resgato aqui um caso absurdo para fazer um paralelo: o suicídio coletivo de quase mil pessoal na Guina Francesa, conduzidas por um pastor Chamado Jim Jones. O mais surpreendente era uma pessoa ver outra morrer e repetir o gesto! É assim com o assistencialismo: as pessoas votam no governo para continuar na miséria recebendo ajuda do governo.

A educação, por sua vez, permanece como um dos maiores desafios estruturais. Indicadores de aprendizagem seguem aquém do esperado, desigualdades regionais persistem e políticas públicas carecem de continuidade e avaliação rigorosa. A evasão escolar, agravada por fatores como insegurança e vulnerabilidade social, compromete o futuro de uma geração e limita o potencial de desenvolvimento do país. O Brasil não consegue atingir uma boa nota no exame do PISA, não consegue sair das últimas colocações no conhecimento de Matemática e Leitura.

Não se pode deixar de lembrar que temos pesquisas extremamente promissoras, como no caso do trabalho de Tatiana Sampaio, mas tudo isso acaba sendo uma gota de água num oceano. Falta apoio, falta verbas, o contingenciamento de crédito imposto pelo governo tem a área de educação como um dos setores, sempre, incluídos para esse fim.

O que é interessante é que o mundo é evolutivo. As gerações que chegam tendem a fazer coisas mais preponderantes do que a anterior, não porque é formada por gênios, mas porque existem modelos e trabalhos desenvolvidos anteriormente que são aprimorados com novos conhecimentos e novas técnicas. É natural o processo evolutivo, mas no caso do Brasil, a coisa degenerou. Veja o caso do futebol.

Houve um tempo no qual um simples amistoso da seleção brasileira, parava o país. O futebol tinha vida no país do futebol. Para gente a coisa era como refúgio da identidade nacional e, para não me estender por muito tempo, convido a olhar a seleção de 1982. Perdemos a copa, mas lembro que um repórter disse “toda seleção tem uma estrela, o Brasil tem uma constelação”.

Não temos mais Zico, Eder, Roberto Carlos, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho, Sócrates etc. Não temos mais jogadores de preocupados em entrar em campo e jogar, temos jogadores preocupados com o corte de cabelo, com o brinco ou com a largam tatuagem à amostra. Não que isso, por si só, seja motivo de crítica, mas os valores são absolutamente diferentes.

A nossa seleção brasileira vive uma fase de desempenho medíocre que frustra torcedores e especialistas. A falta de padrão tático e não existem lideranças claras dentro de campo refletem, de certa forma, a desorganização mais ampla que se observa em outras esferas do país. O futebol, outrora símbolo de excelência e criatividade, hoje espelha dúvidas e inconsistências.

Diante desse cenário multifacetado, o Brasil parece caminhar entre oportunidades e riscos. A capacidade de articulação política, a responsabilidade fiscal e o investimento em áreas estratégicas serão determinantes para definir os rumos do país nos próximos anos. Mais do que nunca, será necessário transformar diagnósticos recorrentes em ações efetivas, sob pena de perpetuar um ciclo de crises que se retroalimentam.

O desafio central está em reconstruir a confiança — nas instituições, na economia e no próprio projeto de nação. Sem isso, qualquer avanço será frágil e temporário, incapaz de responder às demandas de uma sociedade que já demonstra sinais claros de cansaço e descrença. Eu já não sei mais o quanto falta para sermos alguma coisa.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

NÃO SOMOS IGUAIS

Dedicado aos amigos que me encorajam, Jesus, Luiz Xavier, Roque, Nonato, dentre tantos, mas, particularmente a Matilde Urbach Le Regret d’ Hèraclite, ‘la abuela más guapa del mundo’, pelo xero na bochecha e a Peninha, pelo carinho.

A constituição federal diz que “todos somos iguais perante a lei”. Poderia até dizer “todos somos felizes”. Papel aguenta tudo. Quem não aguenta muito são as pessoas que, dia a dia, sentem na própria pele o descaso do Estado em qualquer área, preferencialmente, saúde, educação e segurança. Uma pesquisa do Programa Nacional de Saúde do Escolar divulgada semana passada pelo IBGE, indica que 12,5% dos estudantes com idade entre 13 e 17 deixam de ir para escola, pelo menos uma vez por mês, por falta de segurança no caminho. Nitidamente, temos esse tripé – saúde, educação e segurança – abraçados com a desgraça.

Não tem como sermos iguais perante a nada quando o tratamento que se dá a pessoas diferentes, mas decorrente da mesma ação, não segue um padrão lógico, criterioso, formal, legal. Um cidadão que rouba uma caixa de leite num supermercado porque o filho está em casa com fome, difere muito de um Sérgio Cabral que foi condenado a 400 anos de prisão por corrupção e que hoje está curtindo a vida em prisão domiciliar e, ainda, mais dando conselhos financeiros a diversos seguidores.

Não somos iguais quando a maior corte do país decide enterrar uma operação como a Lava Jato e, agora, não permitir que a CPMI do INSS tivesse seu prazo prorrogado. Apesar de toda a podridão que envolve ministros com a derrocada de Vorcaro, essas pessoas continuam decidindo destinos no Brasil, sem dar a menor importância ao lamaçal que suja suas botas e putrifica suas togas. A certeza da impunidade e corporativismo imoral dá essa tranquilidade aos corruptos.

Os seguidos casos de corrupção nesse país e as seguidas decisões dos guardiões constitucionais me conduziram a uma frase do escritor italiano Giusepe Tomasi di Lampedusa num livro chamado O Leopardo, publicado em 1958. A frase original diz: “Se vogliamo che tutto rimanga com’è, bisogna che tutto cambi”, ou seja, “Se queremos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”. A intepretação mais corriqueira de tudo isso é palco do cenário que o Brasil vive hoje.

Observe que, desde a Lava Jato, temos observados mudanças aparentes que, de fato, não passam de meras estratégias de conservação do poder nas mesmas mãos que se lavam mutuamente. A conservação do poder é a garantia de que o esforço de isolar e oprimir que pensa diferente deve ser permanente e cada vez mais aterrador, para que não surjam outros sonhadores utópicos. Quantos não foram presos no mensalão e quantos permanecem na cadeia?

As eventuais reformas acabam não causando efeitos reais porque existem uma nítida proteção na manutenção da ideologia de esquerda como, sem ela, todas as almas arderão no fogo do inverno. O pior é a passividade da população que se compraz em receber benefícios sociais ao invés de obter cidadania pelo trabalho, embora o trabalho não dignifique ninguém, ele faz parte do processo de produção de qualquer economia e gera renda.

A gente, diariamente, um bando de leis e reformas institucionais que não alteram estruturas profundas. A Lei de Ficha Limpa foi uma luta árdua da população no anseio de proibir que políticos condenados por improbidade se candidatassem a cargos eletivos no Brasil. Gilmar Mendes disse que essa lei foi escrita por um bando de bêbados, mas nunca apresentou uma alternativa para fazer valer seus efeitos.

As decisões judiciais são instrumentos visíveis de manutenção das desigualdades. Em que país sério ministros envolvidos e desvios de conduta moral continuam atuando na mais alta corte do país, sem que isso cause o menor constrangimento? O Chile prendeu, recentemente, Ángela Vivanco, ex-ministra da suprema corte, por corrupção. As acusações passam por suborno, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e, por muito mais do que isso, aqui no Brasil, ninguém está na cadeia.

Procure na internet que você verá que outras autoridades chilenas também foram afetadas por envolvimento em atos de corrupção e, de modo igual, no Equador, diversas autoridades na cadeia pela mesma operação Lava Jato que foi enterrada aqui no Brasil. O Peru não fez glu glu.

O que se depreende é que “é preciso que tudo mude para que tudo continue como está” parece ser a sustentação do cenário político brasileiro. A população está cansada de sucessivas promessas de combate à corrupção, de um lado, e o país vivendo, por outro lado, movimentos que, na prática, pouco alteram as engrenagens mais profundas do poder. Mudam-se as peças da Polícia Federal, o Procurador Geral da República, adotam-se programas de compliance, abrem-se investigações, mas os resultados concretos frequentemente ficam aquém das expectativas da sociedade.

O encerramento sumário da CMPI do INSS, comemorada abertamente por políticos do PT, reacendem a necessidade de se debate o papel das instituições. O STF, que se coloca como guardião da Constituição, não parece atuar dentro de limites jurídicos claros, posto que tal atuação é, constantemente. interpretada à luz do ambiente político. Parece que sistema funciona mais para conter crises do que para enfrentá-las em profundidade.

O resultado é uma sensação difusa de permanência: escândalos vêm e vão, atores mudam, mas a estrutura de incentivos e a dinâmica do poder permanecem semelhantes. Entre avanços pontuais e retrocessos, o combate à corrupção no Brasil segue marcado por ambivalências — e a frase de Lampedusa continua ecoando como um retrato incômodo de um país onde, muitas vezes, mudar é apenas outra forma de continuar igual.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

INCERTEZAS

Essa semana li que o Ministério Público entrou com uma ação para afastar o presidente do IBGE das suas funções. É público e notório que suas atitudes são muito próximas de tudo que ele praticou quando foi presidente do IPEA, ou seja, tirou de cargos importantes técnicos capacitados para colocar, em seus lugares, pessoas sem muito conhecimento, mas agradecidos pela oportunidade de estar produzindo “resultados” importantes para o Brasil.

Tanto o IPEA quanto o IBGE trabalham com série de dados macroeconômicos que são fundamentais para o entendimento das políticas econômicas. Há quem não goste de usar estatística, mas a questão não é o uso da estatística, mas a forma como os dados são processados e relatados. Os números do IBGE são fantásticos! Colocam o Brasil à mesa das grandes economias, mas há fatores que não se modificam ao longo dos anos como, por exemplo, a lista de classificação municípios em miséria absoluta.

Não é raro o aproveitamento do conhecimento específico para criar cenários falsos. O caso do Banco Master, por exemplo, vai mais ou menos nessa direção, posto que o banco forjou uma carteira de depósito a prazo que, simplesmente, inexistia. As Lojas Americanas não colocaram no balanço o endividamento, fato ao ser descoberto revelou um rombo de R$ 20 bilhões.

A manipulação de dados econômicos se configura como um dos grandes, e graves, problemas das economias, ou seja, qualquer economia, por mais sólida que seja, perde a credibilidade quando adota práticas nada salutares. O comportamento das instituições públicas e privadas, vai impactar diretamente nas decisões governamentais, colocando em risco a atração de investimentos, a formulação de políticas públicas e a confiança da sociedade nos indicadores que orientam a economia.

Um dos casos mais impactantes aconteceu no ano 2000 e envolveu a Grécia que, tentou por diversas vezes entrar na União Europeia, mas são contas públicas representavam um risco expressivo para o grupo. Naquela ocasião, para conseguir se integrar à zona do euro, o governo grego manipulou o tamanho real do déficit público e da dívida nacional e forneceu a União Europeia dados falsos, fato que foi descoberto em 2009. Em outras palavras: foi descoberto que para atender às exigências do Tratado de Maastricht e, com isso, permitir que a Grécia passasse a fazer parte da zona do euro. Os dados verdadeiros, quando publicados, gerou uma crise fiscal que levou a medidas severas de austeridade e à intervenção de organismos internacionais.

Outro fato de grande magnitude (feito medida de terremoto), ocorreu na Argentina, entre 2007 e 2015, e envolveu o instituto oficial de estatísticas do país (INDEC). Nesse período quem governava a Argentina era Cristina Kirchner – que coisa, não? – e havia um protesto público, de economistas e organismos internacionais, contra os dados divulgados, principalmente em relação aos índices oficiais de inflação que foram – que coisa, não? – artificialmente reduzidos. O impacto dessa manipulação era, direto, sobre títulos públicos indexados e negociações salariais e o caso gerou perda de credibilidade nas estatísticas oficiais. A situação tornou-se tão grave que o Fundo Monetário Internacional chegou a emitir uma censura formal ao país.

Tudo isso não é exclusivo de governos. Falei do caso das Lojas Americanas, mas outro famoso, ocorrido no início dos anos 2000, envolveu a empresa Enron – Estados Unidos – que fez uso de mecanismos contábeis para esconder dívidas e inflar artificialmente seus lucros. Quando a fraude foi descoberta, a empresa entrou em colapso, milhares de funcionários perderam seus empregos e investidores sofreram prejuízos bilionários. O caso levou à criação da Lei Sarbanes–Oxley, que reforçou regras de governança corporativa e transparência contábil.

Outro escândalo corporativo relevante foi o da WorldCom, também nos Estados Unidos. A empresa manipulou seus balanços ao registrar despesas operacionais como investimentos de capital, inflando seus lucros em bilhões de dólares. A fraude foi descoberta em 2002 e resultou em uma das maiores falências da história empresarial norte-americana.

Além dessas situações, existem casos em que governos manipulam indicadores macroeconômicos de maneira mais sutil, alterando metodologias estatísticas, atrasando a divulgação de dados ou selecionando quais informações divulgar ao público. Embora nem sempre configurem fraude direta, tais práticas podem distorcer a percepção da realidade econômica e prejudicar a formulação de políticas públicas.

A manipulação de dados econômicos também pode ocorrer no setor financeiro, mas eu nunca vi algo da natureza do banco Master. Não foi apenas uma fraude na captação de recursos, foi um avanço intricado nas relações de poder. O Banco Central tem capacidade de investigar desvios de conduta dos bancos e, ao que me lembro, Banco Econômico, Bamerindus, Bandeirantes, Banorte, Mercantil de Pernambuco, foram bancos liquidados extrajudicialmente, mas nenhum dos seus acionistas majoritários mantinha qualquer relação com o agente público.

Hoje, a gente sabe que Vorcaro pagou milhões com festinhas para nossas autoridades competentes. Só de degustação de whisky foram US$ 640 mil, o que dá, mais ou menos, R$ 3,3 milhões. Nós temos, absoluta, certeza de que amanhã teremos outro escândalo envolvendo nossas autoridades competentes. O que é incerto é apenas o tamanho dos fatos.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

“OBRIGADO, LULA!”

Conheço uma mulher, atualmente com 59 anos, separada, um filho de 20 anos, que mora com uma irmã e uma senhora que ambas cuidam. Ao que parece a família recebe alguma ajuda financeira dos familiares dessa senhora e o filho tem um trabalho que não deve gerar uma renda fabulosa. Em meio a tanta necessidade, sugeri que ele procurasse a justiça para tentar receber alguma ajuda do ex-marido e ele me disse que já tinha feito isso, mas que ele alegou não ter condições, por não ter emprego certo, e contribui com R$ 150,00, quando pode. Ao que parece, a questão judicial morre aqui.

Uma ocasião, ela alegou dificuldade para ler, para enxergar, e eu orientei como ela deveria fazer para marcar uma consulta no posto de saúde e ser encaminhada a um oftalmologista. Algumas pessoas amigas que atuam na área de saúde pública, também orientaram como fazer. Em suma: acho que ela não soube fazer porque não conseguiu marcar nada, mas independente disso, conseguiu uma consulta numa clínica popular e, também, conseguiu os óculos.

Mais recentemente, ela falou sobre problemas dentários e eu orientei os mesmos passos: procure o posto de saúde que lá você será encaminhada. Foi diversas vezes e não consegui, até que alguém conseguiu um tratamento e hoje ela está com diversos pontos na boca, mas, o importante é que resolveu. Mais uma vez ela fez críticas a não conseguir nada pelo SUS e eu, inocentemente, disse: “Pois é! E o presidente ainda fica falando que o SUS é uma maravilha. Ele não precisa do SUS, por isso, fala besteira”. Pronto: segundo Newton toda “a toda ação corresponde uma reação igual e oposta”. O que se seguiu foi um texto contundente de agradecimento ao presidente. Começou assim: “Não é o presidente! São os prefeitos. Graças a Lula eu tenho meus remédios de graça.”

Trago esse relato para apoiar, mais uma vez, minha argumentação da falta de visão coletiva de grande parte da população. Uma pessoa com recursos limitados, com necessidade de atendimento médico urgente, inclusive ela usa medicação para problemas cardíacos, agradecer um fato que é obrigação do Estado, segundo reza a constituição federal. São comportamentos assim que não permitem avanços na gestão pública do Brasil. A população se contenta uma caixa de enalapril – que custa R$ 8,65 – e por isso fica sem capacidade de cobrar agilidade na fila do atendimento do SUS que hoje está perto dos 60 dias. Isso mesmo: quase dois meses para um atendimento no SUS após a marcação da consulta.

O país mergulhado num caos, sem precedentes, com prejuízo de R$ 55 bilhões nas estatais, com um poço de areia movediça que engole o supremo tribunal federal, com ministros sendo beneficiados, financeiramente, com valores superiores a uma premiação da megasena acumulada, com ministros proibindo acesso a sigilo fiscal, bancário e telemático de determinadas figuras, e parte da população, principalmente aqui no Nordeste, agradecendo a miséria na qual vive.

Fique claro: sou nordestino, tenho orgulho disso, sou absolutamente contra preconceitos de qualquer natureza e, lamento muito aos apupos de xenofobia de algumas pessoas do sudeste ou do sudeste. Não é o local de nascimento que te faz melhor do que outra pessoa. São Paulo elegeu Adhemar de Barros (“roubo mais faço”), Paulo Maluf, Celso Pitta. O Rio de Janeiro elegeu Cabral, Pezão, Garotinho. O Rio de Janeiro teve 7 governadores presos. Minas elegeu, Aécio Neves, Pimentel, Azeredo que foi o responsável pelo mensalão mineiro e capacitou Marcos Valério a implantar um sistema idêntico de âmbito nacional. Então, isso demonstra, nitidamente, que a escolha política equivocada não é privilégio do nordestino ou do nortista miserável.

Todos dizem que num país sério por parte dos nossos políticos estariam na cadeia. O caso do Peru é notório. Políticos na cadeia por conta da corrupção da Odebrecht. Apenas para resgatar casos escabrosos, não custa lembrar que a ex primeira-dama do Peru foi resgatada pela força aérea brasileira e ganhou a proteção do governo brasileiro, não como foragida, mas com status de ação humanitária. De modo igual, Cesare Batistti, terrorista italiano, foi considerado como perseguido politicamente, quando famílias de pessoas assassinadas por ele denunciavam e pediam extradição. Foi preso na Bolívia e ao chegar na Itália, confessou que participou dos atos terroristas que mataram 4 e deixaram uma pessoa paraplégica.

Não mudaremos esse país com a essa mentalidade absurda de agradecer pela miséria que vivemos, pela falta de médicos e equipamentos nos postos de saúde ou nos hospitais públicos, pelos remédios comprados pelos governos com prazo de validade próximos ao vencimento. Não mudaremos esses país enquanto fecharmos os olhos ao absurdo que a corrupção provoca ou ao fato de um ministro se considerar acima da lei.

Não mudaremos esse país se a gente não conseguir mudar o congresso nacional. Tirar de lá pessoas compromissadas com esses desvios de conduta e colocar pessoas que não tenha crimes a responder, para que não fique sob a vigilância da lei. Talvez não estejamos falando de procurar inocentes, mas de coerentes.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

CREDIBILIDADE

Semana passada fiz um comentário sobre termos tratamento diferentes, apesar de sermos “iguais perante a lei”. Logicamente, que crimes de natureza diferente, devem ser julgados de forma e de intensidade diferente. Um cara que rouba um sorvete não deve ter deve a mesma pena de outro que cometeu um feminicídio ou como num caso de estupro coletivo de uma garota de 13 anos que foi confundida com a namorada de um rival de uma facção criminosa.

O que se espera, de fato, é que, independente, de quem cometeu o feminicídio ou de quem roubou o sorvete, o rito processual seja observado e que não haja interferência de poderes maiores no andamento do processo. Nesse sentido, temos dois casos recentes a comentar: a quebra do sigilo fiscal de Lulinha e das empresas de Dias Toffoli e a interferência de Gilmar Mendes suspendendo a entrega de documentos relativos às empresas “toffolianas”.

Na sessão da CPMI havia 7 integrantes do partido dos trabalhados, ou seja, metade do total de participantes. Durante a chamada para votar na quebra do sigilo de Lulinha, estes 7 integrantes votaram contra e, por ser minoria, foi aprovado a pauta. Ação imediata os deputados Paulo Pimenta e Rogério Correia – este agrediu com um soco o deputado Luiz Lima – partiram para cima do presidente da CMPI para agredi-lo. O mais interessante foram os comentários posteriores de simpatizantes com a máxima: “Golpe do presidente da CMPI do INSS”. É engraçado como essa palavra “golpe” tem aplicações vastas na atualidade. Qualquer coisa que não esteja de acordo com minhas pretensões, é uma tentativa de golpe ou um golpe executado.

Tenho minhas desconfianças em relação aos efeitos dessa quebra de sigilo de Lulinha. Parece, a meu ver, algo bastante orquestrado. Num debate acalorado como esse tem, simplesmente, 7 integrantes do partido do governo, para quem não há o menor interesse em tais convocações? Pense um pouco: Na casa de Roberta Luchsinger foram encontrados documentos fazendo referência ao “filho do rapaz” e ao “sócio oculto”, alcunhas que são atribuídas a Lulinha. Daí, vem um relatório da Polícia Federal afirmando que não há nada que ligue Lulinha ao material apreendido na casa de Roberta.

O fato gerador da desconfiança é que esta quebra de sigilo pode dar com os burros n’água, como se diz por aqui. De repente, dos 14 integrantes ligados ao PT na CMPI, apenas 7 estão presentes quando o assunto é quebra do sigilo do filho do presidente. A sensação que tenho é que, em não conseguindo definir movimentações financeiras, o resultado disso seja objeto da campanha que se avizinha. Chancelada pela limpeza de sigilo fiscal do principal elo entre o presidente e sua reeleição. Quem pratica ações ilegais, não faz Pix, não usa telefone celular nem tampouco, usa cartão de crédito.

A segunda questão colocada aqui, a ação de Gilmar Mendes proibindo quebra de sigilo das empresas de Toffoli, mostra a incapacidade do congresso de cumprir suas obrigações. O STF tem assumido o papel de legislador discutindo pautas que, notadamente, são obrigações do legislativo. Esse papo de guardiãs da constituição federal já deixou de ser uma vitrine de aprovação e referência. Aparentemente, o STF se igualou a um escritório de advocacia espacializado. Hoje, no STF, a principal medida de atuação dos ministros é proteção e blindagem dos amigos da corte.

Embora exalte a democracia e a defesa do estado de direito – seja lá que isso quer dizer – o STF, ao proibir que a CPMI use documentos da Receita Federal, passa a reforçar a convicção de que há largas diferenças entre os pobres mortais e seus ministros. Não permitir a quebra de sigilo, simplesmente impede que o Brasil saiba o que ocorreu, quem estava envolvido, quem pagou, quem recebeu, o que foi dado em troca, dentre outros argumentos, simplesmente descredibiliza a instituição. Carmen Lúcia disse recentemente que “os motoristas de táxi estão reclamando da postura do STF”, mas eu imagino um ministro do STF, cercado por seguranças para onde vai, tomando um táxi para se deslocar.

Volta-se ao ponto de partida já dito por tantos em diversos outros momentos: isso acontece pela cumplicidade e falta de dignidade dos congressistas. Os representantes do povo são parlamentares envolvidos em processo de improbidade administrativa e cada vez que um se insurge contra algo, o STF coloca na pauta o julgamento do parlamentar. Resultado: tudo muda em um minuto.

Observe o caso de Renan Calheiros: 17 processos de improbidade administrativa no STF, proibido de ficar na linha sucessória da presidência da república, por Marco Aurelio, quando Temer assumiu o mandato, Renan participa de uma comissão de senadores que está percorrendo caminhos entre o STF e a Polícia Federal para tratar do caso do banco Master. Renan quer salvaguardar os documentos para evitar que estes sejam “contaminados” ou perdidos. Segundo ele, para apurar de forma isenta tudo que há envolvendo o banco Master.

Não se sei alguém acredita numa lorota dessa magnitude, mas o que Renan quer mesmo é ter em mãos documentos que o colocam numa posição superior a dos seus julgadores. Em outras palavras: Renan quer dispor de elementos formais, legais, para manter o STF longe dos seus interesses ou de interesse de aliados. Agora a coisa será assim: se o STF sugerir que irá pautar determinado julgamento, Renan tirará do cofre uma documentação produzida pela Polícia Federal e não será culpa sua no caso isso caia nas redes sociais.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

RELAÇÕES PERIGOSAS

O caso do Banco Master virou uma ferida exposta de relações pecaminosas entre membros do poder no Brasil. Primeiro, o ministro Toffoli declara não ter relações pessoais com Daniele Vorcaro e não ter recebido nenhum valor repassado por ele. Momento seguinte, reconhece que é sócio de uma empresa – justifica que isso é possível desde que não seja diretor – e eis que surgem, das mensagens apagados do celular de Vorcaro, R$ 20 milhões repassados a Toffoli e depois mais R$ 15 milhões, até que se descobre, pelo menos, dez encontros entre eles.

O PT nunca teve culpa de nada, basta ver pelas defesas feitas nas redes sociais de quaisquer mazelas que se descobre nesse país. O escândalo do INSS começou no governo anterior e foi desbaratado pelo governo atual, muito embora o governo anterior tenha editado medida provisória, que virou lei, que teve artigos alterados pelo congresso com enorme anuência dos deputados petistas. Procure na internet e verá discursos inflamados dos petistas criticando a lei porque iria quebrar as associações dos coitados dos inativos. Embora 64% dos descontos indevidos tenham acontecido no atual governo, a culpa é do governo anterior.

O caso do Banco Master também é culpa de Campos Neto, embora em dezembro de 2024 Daniel Vorcaro tenha tido reunião, fora da agenda, com o atual presidente e outras autoridades. Também é culpa de Temer a perda da patente do remédio polilaminina, da pesquisadora Taciana Sampaio, seja fruto da decorada econômico do governo Dilma.

Acredito ser um problema de cultura. Não somos capazes de pensar na sociedade, nos problemas sociais. Atualmente, obter um cargo público significa uma oportunidade de ficar rico com dinheiro público. Todos os dias, a gente se depara com um novo escândalo. Todos os dias gestores são afastados dos seus cargos por conta de improbidade administrativa. No cerne da questão, licitações fraudadas, sobrepreço nos bens e serviços adquiridos pelo poder público, despesas escandalosas. Se formos catalogar os escândalos que ocorrem nesse país, a gente não termina. O pior é saber que determinado político está envolvido em tais escândalos e votar nele.

Olhando a composição do STF, vamos encontrar 8 ministros que possuem escritórios, ou seja, estes ministros atuavam antes em escritórios de advocacia e foram galgados ao STF e se afastaram do escritório que, normalmente, ficou sob a gerência da família. Daí chega uma demanda judicial desses escritórios no STF e mesmo que o ministro não se envolva diretamente, o corporativismo vigente indica que outro ministro não será capaz de negar, de não recohece o mérito do processo.

Essas relações são perigosas demais, entretanto, não é fácil encontrar uma pessoa totalmente isenta. Só se for filho único de pais que também eram filhos únicos, de modo a não ter tios e nem primos. Não pode ter estudado em escolas ou cursado faculdades para não ter formado laços de amizades. Não ter relacionamento amoroso com ninguém para não abrir a possibilidade de fazer favores à família da companheira, ou companheiro. Nunca pode ter trabalho para não ter formado vínculos com o mercado.

Dito isso, o que pesa não é, propriamente, a relação com o mercado. O problema está na descoberta do que o mercado pode fazer pelo seu bem-estar e aí o cara entra na rede da relação agente-principal, que se estuda em Economia, como assimetria de informação. O salário no funcionalismo público obedece a um teto previsto na constituição que é naturalmente desrespeitado. Francamente, se um ministro do STF recebe um salário de R$ 94 mil, o problema não passa a ser dele, mas da lei que permite. O que me incomoda, e muito, é o fato de um ministro manter relações espúrias com o mercado e se locupletar com isso, assumindo que ele pode porque é ministro.

A constituição diz que “todos são iguais perante a lei”, mas isso é uma cilada fora do comum. Não somos iguais porque alguns se colocam acima da lei. São intocáveis e inimputáveis. Não faz muito tempo que Gilmar Mendes deu uma demonstração disso que, de forma monocrática, declarou que apenas a PGR pode pedir impeachment de ministro do STF.

Não somos iguais e temos tratamento diferente para o mesmo ato. Tudo bem, poderia até se admitir que o mesmo ato pode não ser necessariamente igual, mas não compreensível, por exemplo, Marcos Valério ser condenado a 37 anos de prisão por crime contra o sistema financeiro e José Genuíno que, como presidente do PT, assinou os contratos de financiamento do PT junto ao banco Rural. Ficou claro que tais contratos eram apenas fachada para pagar o mensalão.

As relações perigosas com Daniel Vorcaro, também gerou relações sexuais de autoridades com garotas trazidas da Holanda, Ucrânia etc. A garota vinha apenas fazer um programa. Não entendia o idioma e não conhecia o parceiro. Não vejo, não falo, não escuto. Não deixa de ser uma boa estratégia.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

ACORDA BRASIL

O desfecho da liquidação extrajudicial do Banco Master, pelo Banco Central, bem como a prisão de Daniel Vorcaro no aeroporto, saindo do Brasil com destino a Dubai, teve o mesmo efeito de uma boa mexida num formigueiro. No primeiro ato, de forma inédita, um ministro do TCU quase suspende o processo de liquidação, num flagrante contraponto tantos às funções do Banco Central, quanto do próprio TCU.

O segundo ato foi divulgado um contrato no valor de R$ 129 milhões firmado entre o escritório da esposa de Alexandre de Morais e o banco Master e daí se começou a perceber que o ministro agiu, junto ao Banco Central, em defesa do banco Master, mas o melhor ainda estava chegando.

Terceiro ato trouxe a decisão de Dias Toffoli de levar o processo para o STF e todos nós sabemos que isso ocorre quando se tem alguém de foro privilegiado envolvido. O interessante é que o processo não foi distribuído, foi reivindicado pelo ministro para que ele relatasse. E a coisa começa de forma espetacular: Dias Toffoli viaja para o Peru, sob o pretexto de assistir um jogo, com ninguém menos, que o advogado do banco Master. Entre Brasília e Lima tem, aproximadamente 3.195 km, um voo direto leva algo como 4:25 h, mas nessas 8:30 horas, juntos, eles falaram apenas de futebol. Deus é testemunha.

Concatenando o primeiro e o terceiro ato, pela interferência do TCU nessa jogada, acreditava-se tratar do envolvimento de deputados ligados ao Centrão e o envolvimento da família de Dias Toffoli, naquele instante, pareceu algo superficial. Era simples a explicação: seu irmão, proprietário de um resort no norte do Paraná, tinha vendido as cotas da empresa para um fundo ligado ao banco Master. Dias Toffoli não tinha participação na empresa e a blindagem que ele fez do processo, chegando até proibir que a CPMI do INSS tivesse acesso a algumas coisas do banco Master.

Não tardou muito e começaram a aparecer fotos de Dias Toffoli recebendo banqueiros, como o André Esteves e os funcionários do resort – ô raça – começaram a falar sobre a “casa do ministro”. Não tardou muito e eis que foi divulgado uma reunião fora da agenda do presidente da república com o Daniel Vorcaro e Augusto Lima, com a presença de Galípolo e Rui Costa. Veja bem: ninguém registrou o encontro na agenda.

O lado engraçado vem agora: não faz muito tempo, o presidente da república disse que o caso do banco Master envolvia “os magnatas” da corrupção e que o governo estava desvendando isso. Por que isso é engraçado? Pelo seguinte: durante muito tempo se perguntou – pausadamente e com dedo em riste – quem man-dou ma-tar Ma-ri-elle? Era a pergunta mais acusatória que se tinha conhecimento naquele momento. E aí descobriram que os responsáveis pela morte dessa jovem eram dois aliados do PT e eleitores e cabos eleitorais de Dilma. Ao se referir “aos magnatas” da corrupção, o presidente estava se referindo ao advogado das campanhas do PT em 1998, 2002 e 2006.

A fritura de Toffoli começou com fogo brando. O presidente da república sugeriu que Toffoli saísse do caso. Era uma forma de minorar o problema e isso não respingar na sua campanha. O ministro se fez de mouco e continuo proibindo, limitando, ameaçando, até que, as mensagens apagadas do celular de Vorcaro apontam pagamento de R$ 20 milhões para o ministro. Bom, considerando o teto constitucional, R$ 46 mil, e o fato de que algo da ordem de 50% são descontos, vamos admitir que o ministro receba R$ 23 mil/mês. Se ele aplicasse esse dinheiro, a taxa de 15% ao ano (SELIC), ele iria juntar R$ 20 milhões em 208 meses, ou seja, 17 anos e pouco. O detalhe: ele não poderia tirar nenhum centavo do valor líquido para nada. Então, considerando que isso é impossível, fica claro que esse montante é inatingível, nessas condições.

Toffoli deixa a relatoria do processo sob uma condição: apoio dos ministros e defesa do seu nome público. Os jornais noticiaram como ocorreram e quem participou das reuniões entre ministros para negociar a saída de Toffoli. Não poderia parecer que ele estava sendo substituído, tinha que parecer que ele – com seu espírito magnânimo – preferiu afastar-se do processo para manter a lisura. A coisa ainda tem muito a se conhecer, mas não deixa de trazer fatos intrigantes: Renan Calheiros, 17 processos de improbidade administrativa e nunca condenado pelo STF porque sempre obedeceu aos interesses da corte, numa comitiva para solicitar que não do processo fosse alterado, perdido ou afim. É de morrer de rir.

O lado realista da história: tudo caminha para o abandono do ministro. O relatório de 200 páginas produzido pela PF – e que foi chamado de lixo jurídico pelos pares – de acordo com o próprio sentimento do ministro, é fruto de autorização do presidente da república. Eu não tenho dúvidas sobre isso. O presidente sempre agiu na defesa dos seus próprios interesses e sacrificar um ou outro não significa, absolutamente, nada para ele.

Nesse sentido, não custa a gente “curtir” a cara de paisagem de Geraldo Alckmin ao ser, publicamente, abandonado. Alckmin passou dez anos acusando o presidente de roubo, de falcatrua. Num debate ele chegou a perguntar: “de onde veio R$ 1,7 milhão que foi usado para produzir um dossiê fajuto contra ele?” Lula não respondeu e eu espero, com todas as forças da minha alma, que esse FDP saiba hoje essa resposta.

O presidente quer força completa para enfrentar Tarcísio em São Paulo. Coisa como Alckimin para governador, Haddad e Marina Silva para o senado. O interesse é nítido: evitar uma vitória de Tarcísio no primeiro turno para que ele não tenha tempo para apoiar um opositor. Lula só pensa em Lula. ACORDA BRASIL!