MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SANEAMENTO BÁSICO

O marco regulatório do saneamento básico foi aprovado pelo senado federal na semana passada e já suscitou uma série de críticas de oposicionistas. Importante lembrar que 13 senadores votaram contra e todos eles de partidos de esquerda. Acredito que não votar um projeto faz parte da prerrogativa do parlamentar, assim como o eleitor tem o direito de votar nulo ou votar em branco, no entanto, o parlamento cabe, a ele, muito mais do que dizer que não apoia, por isso se não concorda com determinado projeto, apresente alternativa.

O pessoal que torce contra, logo se apressa a esbravejar a idiotice histórica de que “estão vendendo o patrimônio do Brasil para empresas privadas” ou que “querem privatizar a água” e ganham espaços na mídia de forma assustadora. A água é um bem público. Mas, por quê? Porque da mesma forma que o ar ou que a defesa nacional, o uso de um consumidor adicional não gera custos marginais (desculpem o termo técnico, mas custo marginal é aquele que é incorrido na produção de uma unidade adicional de produto).

Ao invés de falar em privatização, as pessoas deveriam se perguntar: por que de determinados produtos não são ofertados por empresas privadas? Pergunta a Dilma, que é economista, por que não temos empresas privadas estocando ar? O motivo é simples: uma empresa privada só vai ofertar um produto se ele conseguir precificar esse produto. Não tem como vender “ar” porque não tem como precificar esse bem. De modo igual, não tem como colocar preço na defesa nacional e com isso decorre que tais serviços devem ser prestados pelo governo. Eu entendo o mercado dessa forma: o governo deveria fornecer aquilo que a iniciativa privada não é capaz.

Nesse contexto já ouvi muito “imagine, se nessa pandemia, não tivesse o SUS”. Falam assim como se o SUS fosse vacina. Já falei aqui sobre essa imbecilidade de “ser contra a privatização do SUS”. Só se privatiza entidades com capital social e não é o caso do SUS. Essa preocupação vem da discussão do papel do estado. O pessoal da esquerda acha que as coisas só funcionam se o estado for dono. Faço aqui uma analogia: até hoje a melhor seleção brasileira que vi jogar foi a de 1982, comandado por Telê Santana. Um futebol primoroso, harmônico, mas não ganhou a Copa. Tudo bem: a Itália foi mais eficiente naquele jogo. Mas, Telê não jogava com ponteiro direito. Cortou Renato Gaúcho e quando lhes perguntavam sobre não ter ponteiro, ele respondia “o importante não é ter ponta, é jogar pelas pontas”. O importante não é o estado ser dono, importante é o estado estar presente.

Outro detalhe, decorrente da cegueira política, é que o projeto não privatiza, mas permite que a iniciativa privada obtenha concessão, através de um processo licitatório e que a empresa pública ou de economia mista também possa participar do certame. Em seguida surge aqueles pensam apenas com um lado do cérebro pra dizer que o serviço vai aumentar a tarifa e que as pessoas pobres serão afetadas. Pura burrice. Hoje, estamos todos nós enfurnados dentro de casa com um monte de equipamentos elétricos ligados. Minha conta de luz aumentou 30% e as pessoas pobres que consomem até determinada quantidade de Kwh, tem seu consumo pago pelo governo.

Em meio a tudo isso, as pessoas contrárias – diga-se que até agora só vi opinião contrária de esquerdistas – que muito criticaram a privatização das Teles não encontram respostas para explicar o motivo de a telefonia ter dado certo. O mundo não acabou. Hoje, no Brasil há mais celulares do que pessoas. Queria ver se estivesse no governo o quanto de dinheiro de corrupção já tinha rolado porque, no fundo, esse é retrato do Brasil: empresas públicas criadas para abrigar corruptos que sustentam os corruptos que criaram as empresas.

O problema que devemos ficar atento e no contrato. Algumas privatizações são desfeitas porque os contratos são falhos, mas o caminho é esse. Retirar o estado de atividades nas quais a iniciativa privada é capaz de ofertar. Não custa lembrar que o senador Alcolumbre disse que a 30 anos se esperava por isso. Ele tem razão porque o governo, nesse campo, sempre foi paradoxal: não fazia saneamento porque a obra não aparecia e “fazia” saneamento porque o se fosse questionado como gastou somas acreditava que ninguém seria capaz de cavar para os canos. Enquanto isso, o dinheiro ficava registrado como obra e se desviava pelos dutos onde passam um boi, uma boiada e um monte de dinheiro.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

QUAL É A NOVIDADE?

O senador Flávio Bolsonaro, acho que o zero-um, destronou o senador Lindbergh Farias com uma votação extraordinária e eu me lembro de algumas frases do eleitorado, dentre elas uma que dizia “senador, nós confiamos em você. Não nos decepcione!”. Não sabia FB que seria abatido em pleno voo com as denúncias da imprensa, pouco antes da posse, sobre a movimentação de R$ 1,3 milhão nas famosas rachadinhas. Esse montante não chega a ser escabroso quando comparado aos R$ 49,3 milhões movimentados pelo presidente da assembleia legislativa do Rio de Janeiro, o deputado petista André Ceciliano, ou seja, o cara 37,92 vezes mais do o gabinete de FB.

Independente de valores movimentados, o ato é condenável porque são recursos públicos que vão parar na conta do parlamentar e se configura como enriquecimento ilícito. Acho que FB foi bastante ingênuo em esperar que tudo isso ficasse encoberto e que Queiroz não fosse investigado. Não falo nem sobre o fato do pagamento das mensalidades porque, como dinheiro não tem carimbo, Queiroz pode ter sido apenas o portador ou ter havido aquele “pago que eu te restituo”. Não há como, no curto prazo, mapear moeda. Se o dinheiro transitar no sistema financeiro, tudo bem. O COAF pega a movimentação, mas dinheiro de corrupção transita fora do sistema. É aquele transita em meias, cuecas, malas e que fica no teto de gesso ou nas caixas antitérmicas como se viu Belém, então vamos coletar as digitais e ai … todo mundo de luvas! Vamos transformar tudo em moeda digital. Beleza, mas e que não tem acesso a tecnologias?

Se formos olhar a progressão patrimonial dos nossos políticos, vai perceber que o dinheiro se multiplica feito colônia de bactérias. Só pra eles. O cara chega “puxando uma cachorrinha” e um ano depois o patrimônio cresceu. Primeiro, o cara faz uso da verba de gabinete para questões pessoais. A despesa com combustível, por exemplo, passa a ser paga com a verba de gabinete e os recursos próprios são utilizados para aumentar patrimônio. O então ministro Orlando Dias, no carnaval de Recife pagou tapioca com cartão corporativo. Num segundo momento, o esquema passa a ser mais intenso com as rachadinhas, que muitas vezes alcançam projetos sociais, tráfico de influência, etc. até que o cara se capacita para um cargo executivo. Chegou ao paraíso, sem precisar desencarnar.

As doações de empresas eram um prato cheio para corrupção. Basta ver a Lava Jato que alcançou centenas de políticos de todos os partidos e botou Lula na cadeia. Acho que todos se lembram de Paulo Preto, o operador do PSDB, ex-diretor da Dersa e que recebeu uma doação de R$ 4 milhões para a campanha de Serra. Este dinheiro nunca apareceu. Simples assim. Quem diabos vai reclamar de dinheiro não contabilizado? O cara pode dizer que recebeu qualquer valor e está tudo bem. E com isso vão se formando famílias milionárias. Salvo engano, a Suíça bloqueou recursos de Paulo Preto.

Lendo algumas coisas sobre o assunto Queiroz me deparei com uma revelação de que a filha do juiz que decretou a prisão trabalha no gabinete do governador do Rio de Janeiro. É possível que se trate de uma retaliação, afinal o WW do Rio já virou um WC e a fedentina é alta. O que reforça essa ideia de retaliação é que muitos deputados, como o caso do presidente da assembleia, ter uma movimentação absurdamente superior e não ser incomodado. Eu acredito que pesou a decisão de atingir o presidente, mas se WW está no limiar de um impeachment, a quem interessa essa exposição? Essa orquestra tem muitos maestros.

Acho que o momento é o senador se posicionar. Ao que se sabe a PRG vai intimá-lo e ele terá 30 dias para marcar o depoimento. Não adianta tapar o sol com a peneira. Assuma as bobagens que fez ou contrate os advogados dos filhos de Lula que roubaram muito e continuam soltos. Minha preocupação é a questão econômica. Ao longo de 2019 vi o país tomar medidas importantes para retomada do crescimento econômico. A confiança do mercado fez a Bolsa de Valores atingir mais de 114 mil pontos e este ano vai ter uma queda no PIB da ordem de 8%, dizem os otimistas, mas isso pode chegar a 10%. Quais são os problemas?

A instabilidade jurídica onde o STF resolveu assumir as diretrizes do país através de medidas estapafúrdias que hoje não se sabe quem governa, de modo que a política econômica prometida em 2018 pode ser interrompida e isso traz desconfiança para o investidor externo. A imagem de Bolsonaro, no mundo, é criticada de tal forma que uma simples indicação do governo para um cargo no Banco Mundial, do qual o Brasil é signatário e cliente, gerou uma onde de protestos com uma carta pedindo para o banco rejeitar a indicação!!!. Conversando com uma ex-aluna ela me falou que não deveriam aceitar o Weintraub. Perguntei o motivo. “Porque não deviam”.

No meu entendimento a questão de FB é um problema dele, não de governo. Bolsonaro deve ter consciência disso e quem deve socorrer FB é o pai, não o presidente. De modo claro, ele deve fazer o possível, como pai, para apoiar, mas não deve usar máquina administrativa para resolver uma questão que cabe a advogados acompanhar. Advogados particulares, não a CGU.

No meu entendimento existe uma farta documentação que liga FB aos recursos movimentados por Queiroz. Então, que ele trate diretamente com seu advogado como vai ser sua defesa. Prisão em segunda instância foi revogada, logo, se condenado FB terá uns 10 anos pela frente para postergar o processo. O que não pode é sua ação afetar a vida de milhares de brasileiros que estão desempregados. Principalmente, neste cenário pós pandemia, cuja única certeza que temos é a esperança de continuarmos vivos.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

PANDEMIA E POLÍTICA

Desde o começo da pandemia que me debrucei na análise de dados divulgados pelo Ministério da Saúde. No começo uma planilha simples de Excel com o estado, a data, o número de casos novos, casos acumulados, óbitos novos e óbitos acumulados. Depois, modificaram a planilha colocando filtros nestas variáveis (fica mais fácil analisar) e acrescentaram a semana epidemiológica. Analisar dados é inerente a minha formação e é o que ensino na pós graduação: econometria, que poderia soar como “medida da economia” e não deixa de ser uma mistura de Matemática e Estatística aplicada ao entendimento das variáveis econômicas.

Dois ensaios eu fiz em 20.04 com dados até uma semana antes e uma das coisas que escrevi era que o crescimento exponencial tão divulgado na mídia era dos casos acumulados, dos óbitos acumulados e não de casos ou de óbitos novos. Produzi dos artigos acadêmicos, um deles já submetido para uma revista e outro deve ser encaminhando, no máximo amanhã (09.06). Pelas análises que fiz me sinto à vontade de tecer alguns comentários técnicos e políticos sobre o assunto.

O primeiro deles diz respeito ao uso de cloroquina, ou hidroxicloroquina, para o tratamento da covid-19. Não há a menor dúvida de que, no Brasil, o uso foi politizado por se tratar do “remédio de Bolsonaro”. Consideraram crime ele ter indicado um remédio sem ser médico, autorizar o exército fabricar um remédio ineficaz, e tudo mais. Pelas redes, conversei com alguns dos acusadores, indagando qual o crime cometido pelo presidente nesse caso do remédio? “Exercício ilegal da medicina”. Eu quase me estouro de rir. Para não estender o assunto, a revista Lancet publicou os resultados de uma pesquisa com 96 mil atestando que o remédio, além de não servir, aumentava o risco de morte. A OMS suspende os testes com cloroquina e auditoria nos dados da pesquisa releva inconsistência dos dados, os pesquisadores se recusam a liberar o banco de dados e depois dizem que “não estão mais seguros em relação a eficiência dos dados”. OMS autoriza a retomada das pesquisas.

Nesse meio termo quem perdeu, e muito, foi a população. Seria interessante se mostrar a quantidade de óbitos durante esse debate cientifico. No caso do Brasil, como disse, eu não tenho dúvidas que a questão é política, mas lá fora, só tem uma coisa que justifique: lucros dos laboratórios farmacêuticos. A Rússia, por exemplo, disponibilizou um remédio que não pode ser tomado por mulheres grávidas e nem por quem esteja em planejamento familiar, ou seja, se está pensando em casar, ter filhos, não tome esse remédio.

Do ponto de vista político, Bolsonaro não soube lidar com a adversidade. Diante da decisão do STF em delegar aos governadores e prefeitos a estratégia do enfrentamento da covid-19, o governo não soube reverter o jogo da cobrança e não conseguiu mostrar que suas ações estavam limitadas por decisão legal. No mundo todo o Brasil é tido como péssimo exemplo a ser seguido, embora ninguém leve em consideração de que cinco estados (AM, CE, PE, RJ e SP) sejam responsáveis por 68,70% dos casos e por 79,66% dos óbitos.

O erro se segue quando o presidente adota medida de atrasar boletins com dados da pandemia para que não haja tempo de sair no “Jornal da Globo”. Quem alimenta as informações do Ministério da Saúde são as secretarias estaduais de saúde que, por sua vez, são alimentadas pelas secretarias municipais. Esse tipo de ação é, absolutamente, desnecessária e gerou uma reação dos secretários de saúde estaduais que vai desmoralizar o presidente. O Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde, criou um site com divulgação de dados com fechamento das informações entre 16 e 17h e às 18h sai a divulgação. O governo federal perde o protagonismo de estar lidando com a situação. Todos os canais de TV vão fazer uso dessa informação porque o que se quer é “notícia em primeira mão”. Em adição, a universidade John Hopikns, que tem produzido boas análises, declarou que vai deixar de analisar o Brasil; Trump disse que se “tivesse seguido o Brasil os EUA teriam 2 milhões de mortes” e a assessoria do presidente, ou ele próprio, não perceber que a estratégia não está dando certo?

A realidade é que Bolsonaro alimenta a insatisfação da comunidade internacional sem avaliar o prejuízo que isso terá na recuperação da economia. Pode ser sincero, não pode é ser burro. No momento em que engrossar lá fora o coro dos insatisfeitos, os impactos serão na economia e o “posto Ipiranga” não vai ter combustível para sustentar.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

A SAGA DA MORTE

Fiz algumas análises sobre a covid-19 baseadas em números do Ministério da Saúde e, no caso de Pernambuco, dados da SEPLAG – Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado. Uma dessas foi submetida hoje para uma revista na forma de artigo acadêmico; a outra, falta um pequeno ajuste numas contas. Espero terminar hoje. A impressão que fiquei é que o protocolo adotado, no início, pelos estados era adquirir respiradores e deixar a população infectada nestes respiradores até que período de incubação do vírus se concluísse e o paciente tivesse a sorte de se recuperar. Se morresse, a culpa era do vírus.

Não sabemos ao certo o protocolo, mas no caso de Pernambuco há posicionamento público do secretario de saúde dizendo que cada hospital tinha seu protocolo e que a hidroxicloroquina (HCQ) era uma decisão do médico. Acho que nesse ponto ele está correto: é um médico quem decide que tratamento um paciente vai seguir. Em 2006 eu perdi uma irmã que estava fazendo um tratamento com uma medicação que estava dando bons resultados. A médica responsável pelo tratamento me chamou e falou de uma medicação nova, revolucionária, me consultando sobre usar. Eu respondi que não tinha dados (minha maldita mania de querer dados de tudo para medir resultados) para saber a taxa de sucesso do remédio, ou a eficiência do remédio. e cientificamente ela teria mais respaldo do que eu para decidir. Mudou o remédio. Ele não fez os efeitos prometidos. Se alguém me perguntar eu direi que não trouxe resultados para minha Irmã. Continua sem dados para saber se ele foi eficiente em outras situações.

Análises e previsões estatísticas não são infalíveis. A gente trabalha com uma margem de erro, caso contrário seria onisciência. Dizer que, estatisticamente, uma pessoa com câncer de pulmão tem dez meses de vida, não é uma sentença. Há casos de pessoas que tiveram sobrevida maior. Dizer que HCQ causa arritmia cardíaca não é uma sentença. A observação pode falhar. Eu verifiquei que 29.704 pessoas com malária e delas 169 óbitos. HCQ é indicado para malária e olhando os sintomas dessa doença a gente encontra: calafrios, febre, fadiga, dor de cabeça, falta de ar, ritmo cardíaco acelerado, dentre outros. Então, se cloroquina acelera o coração, isso também vale para quem tem malária.

Obviamente, que não vou travar uma queda de braços com cientistas. Um laboratório disse que a HCQ é ineficiente no combate ao covid-19. Imediatamente, a OMS mandou suspendeu testes com cloroquina e o resultado disso foi comemorado largamente aqui no Brasil. Francamente, não consigo entender como se deseja que tudo aqui dê errado. Ao invés de ouvir “que pena” a gente ouve as palmas. Estranho isso, principalmente porque há relatos de pessoas que tomaram esse remédio e se recuperaram. Que se investigue o que há por trás dessas curas.

Minha formação acadêmica é fria e é como base nela que eu encaro decisões. Por exemplo: o ministério da saúde solicitou ao INPI, órgão que registra patentes, pressa na análise de 46 pedidos feitos para remédios como remdesivir, tocilizumabe, favipirarvir, que são remédios testados no tratamento da covid-19. Duas particularidades: nenhum deles teve comprovado sua eficiência, ou seja, é uma tentativa tal qual a HCQ e todos eles são fabricados por laboratórios estrangeiros.

É ai que entra meu lado maldoso. Vou repetir o que escrevi na minha dissertação de mestrado. “Um remédio que cure uma doença é um desastre para indústria farmacêutica”. Economicamente, é mais vantagem manter o paciente tomando remédio para o resto da vida do que dá um remédio que cure a doença. A AIDS e o câncer estão aí para provar minha tese. O soropositivo toma, diariamente, um coquetel antiviral e vai continuar assim para o resto da vida. O tratamento quimioterápico custa, em média, R$ 5 mil por sessão. Qual o sentido lógico de curar isso? Só se for burro. Quem quiser entender o que é a indústria farmacêutica procure na internet um livro chamado Medicamentos e Crime Organizado: Como a Indústria Farmacêutica corrompeu a assistência médica.

Adicionalmente, temos diversas polêmicas entre cientistas. A primeira em relação a origem do vírus. Quem disser que foi criado em laboratório é excomungado pela OMS. O francês Luc Montagnier, prêmio Nobel de Medicina pela descoberta do vírus da AIDS, entendeu que os chineses estavam tentando uma vacina contra a AIDS. Tem os defensores de que origem é animal; tem os defensores de que foi a natureza que criou isso. Mas, como amante da ciência, gosto muito da frase de Lavoisier “na natureza, nada se cria, nada se perde e tudo se transforma”.

No meu entendimento o que parte dos cientistas querem é chamar a atenção para seu próprio trabalho em busca de reconhecimento internacional ou de uma indicação para Nobel. Eu imagino que seria mais salutar se estas pessoas trocassem informações sintonizadas com o mesmo fim. Sabe aquele caso no qual Cristovão Colombo chegou à América, mas ela tem esse nome por conta de outro cara chamado Américo Vespúcio?

Jô Soares criou um personagem, baseado em Marco Maciel, que era indicado para ser candidato a vice-presidente. Ela perguntava “quem é vice-presidente da França?” Os assessores respondiam “é o … é o….”. Ele arrematava: “Se eu não puder ser o “o”, o é “o”, não quero ser”. Eu penso que a discórdia entre cientistas tem isso, também.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

HIPOCRISIA

A última bobagem dita por Lula, dando louvores a essa desgraça mundial que freou a política econômica do governo atual demonstra o tamanho da hipocrisia da esquerda em politizar essa pandemia. Lula pede desculpas e todo mundo acena a cabeça positivamente lhe perdoando, afinal ele pediu desculpas pelo mensalão e foi reeleito presidente. Quando perguntou onde estava as “mulheres de grelo duro”, ninguém o chamou de machista. Eu não vi nenhuma crítica da classe política. Rodrigo Maia, Alcolumbre, Dória, não sei se o sistema Globo fez uma editorial sobre isso. Se Ciro Gomes for indagado sobre o baixo volume de chuva no Ceará começaria dizendo “esse desgoverno que está aí é incapaz…”, mas nesse caso nenhuma palavra. Cadê Marina? O STF? Ninguém chegou a dizer que o comentário foi infeliz e se fosse Bolsonaro seria mais um crime para compor o impeachment.

Há um mês escrevi dois relatórios sobre a covid-19 mostrando dados e fazendo análises dos números. Publiquei no facebook perguntando ao Secretário de Saúde aqui do estado qual era o protocolo de atendimento das vítimas. Naquele momento eu já externava minha desconfiança de que o estado não tinha uma linha de atendimento que atenuasse o número de mortes. Nitidamente, o estado se preocupou em adquirir respiradores, a preços exorbitantes, e eu disse que esse não era o melhor caminho, afinal o que seria feito com a quantidade de respiradores depois que o surto passasse? Parece que a melhor estratégia seria comprar um respirador para cada habitante, mas em relação ao tratamento a coisa estaria na base do paracetemol e água para hidratar. Desse pelo menos um chá de limão de com mel, uma cabeça de alho e reza.

A grande discussão do país, ao invés de busca de soluções, passou a ser a cloroquina. O não reconhecimento cientifico da eficiência do remédio contra a doença, embora as evidências mostrem pessoas sendo curadas com o uso. Se eu tivesse liderando uma pesquisa já teria procurado entender o porquê do remédio está servindo, mas as pessoas não fazem isso pela politização da doença. O mundo inteiro se despiu de ideologia para tratar do problema. Aqui não. Comemorasse o número de mortos como com a mesma alegria de acertar os números da mega sena acumulada.

Pra entender essa questão da cloroquina olhei uns dados do DATASUS em relação à malária. De janeiro de 2008 até março de 2020, o Brasil registrou 29.704 internações com 169 óbitos, ou seja, taxa de mortalidade de 0,57%. Quem tem malária toma uma dose inicial de cloroquina, segundo a bula, de 800 a 1200 mg e depois doses diárias de 200 a 400 mg. Se fosse tão letal não teria matado todo mundo que usa diariamente? Houve uma experiência assassina em Manaus, na qual pesquisadores selecionaram 81 pacientes e deram doses elevadas de cloroquina a alguns. Resultado: 11 morreram. No meu entendimento de projeto de pesquisa, esta foi a mais imbecil que já vi na vida. A China fez isso e pessoas morreram. Precisava replicar aqui? Remédios fitoterápicos também trazem suas contraindicações.

Todo dia chove um monte de informação sobre o perigo de usar a cloroquina. A mais recente que recebi tratava no posicionamento de 9 entidades médicas desaconselhando o uso do remédio. Eu fui ler o parecer assinado conjuntamente pelas entidades. Não tem nenhum experimento comprovado, apenas um compêndio da opinião de cientistas que são contrários ao uso. Nenhuma opinião dos médicos que estão fazendo uso.

Noutro extremo a questão da saída dos ministros da saúde. Lula criticou Nelson Teich na sua nomeação dizendo que ele não conhecia o SUS. O cara esqueceu que botou um médico para ser Ministro da Fazenda, mas a gente sabe que “O Italiano” tinha um papel importante na administração de R$ 50 milhões dados pela Odebrecht. O MS teve dois bons ministros: o primeiro foi Adib Jatene, que era cardiologista e, prevendo dificuldades orçamentárias para o SUS, propôs a criação da CPMF. Nos dois primeiros anos os recursos foram utilizados na saúde e depois disso FHC desviou a finalidade e ficou assim até o fim do segundo governo Lula. O segundo foi José Serra é economista e deu ao SUS a visão de viabilidade econômica. No primeiro governo Lula, o ministro foi Humberto Costa. Prosperou a máfia das sanguessugas e ele foi premiado com o codinome de “Drácula” nas famosas planilhas. De Lula prá, o sistema de saúde foi aparelhado com pessoas incompetentes em cargos de gestão, de modo que, sem medo de errar, o SUS tem uma conotação esquerdista muito grande.

Nesse sentido digo que quanto maior o número de mortes, melhor porque vai se atribuir a Bolsonaro, não importando se o STF delegou aos governadores e prefeitos as decisões sobre o combate a pandemia. Cabe a eles, e tão somente eles, fechar ruas, comércio, decretar lokdown, etc. As pessoas esqueceram que o Brasil é uma unidade federativa composta de 26 entidades e um Distrito Federal. Policiam os atos e as palavras do presidente e não enxergam o que o governador do seu estado e o prefeito da sua cidade está fazendo com as dispensas de licitação. Vai faltar doente para tanto hospital de campanha e vai ter gente milionária depois disso.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

FATOS E SUSPEIÇÕES

Desde a confirmação do covid-19 aqui no Brasil que nós passamos, ao que parece, para a nova etapa, como se fosse um vídeo game, mas sem pontos acumulados e com vidas perdidas. Não bastasse o tormento ameaçador do desemprego, veio a saída barulhenta de Moro do governo e um monte de revelações absolutamente estranhas, tais como o fato de ter gravado conversas com o presidente. Isso criou uma rede de conspiração que vai se estender até 2022 com a eleição presidencial.

Para além da saída de Moro, precisamos enxergar outros pontos fundamentais. O primeiro recai sobre o interesse de Bolsonaro em trocar Valeixo e, pela mensagem exposta, querer apenas a superintendência do Rio de Janeiro. A dedução mais rápida é a proteção dos filhos, mas isso pode se estender para investigação contra aliados, contra adversários ou contra a majestosa Rede Globo. O sentimento que tenho é que Bolsonaro sabe mais do que deixa transparecer.

Numa sequência de fatos vem a nomeação de Ramagem e o diferimento de uma liminar, numa decisão monocrática, de Alexandre de Morais suspendo a posse. Uma ação fora de todo princípio legal porque ela se baseou em ações futuras do, então, nomeado. Alexandre de Morais viu desvio de conduta num cara que não responde processo, não é investigado, nada. Por uma amizade e uma foto ele deduziu que o cara iria cometer crimes. Vai ser bom assim na casa da puta que o pariu. O desgaste só aumentou a fragilidade da relação entre poderes. Até Marco Aurélio chegou a pedir que decisões semelhantes não deveriam ser monocráticas. Ele está certo. O STF é um colegiado e não pode ficar à mercê da vontade individual de nenhum ministro.

Não dá pra esquecer, por exemplo, que o próprio Marco Aurélio soltou o assassino confesso da irmã Dorothy Stang ou que Gilmar Mendes soltou o cunhado de Beto e seu cunhado que aproveitou para fugir para o Líbano, ou que soltou, diversas vezes, o Rei do ônibus do Rio de Janeiro. Não dá para esquecer que o STF formou maioria contra a prisão em segunda instância. Não dá para fechar os olhos para as diversas intervenções do STF contra o executivo, algumas delas interferindo em atribuições exclusivas da presidência da república. A questão da lista tríplice, por exemplo, para determinados cargos, como a PGR ou reitores de universidades e institutos federais, foi desrespeitada por Temer na escolha de Raquel Dodge para o PGR. A escolha é prerrogativa do presidente. O IFRN, por exemplo, teve um reitor escolhido pela comunidade e o governo nomeou outro. O reitor preterido entrou na justiça e o STJ suspendeu a posse do reitor interino. Cabe dizer que nas instituições de ensino superior, não há uma eleição propriamente, mas uma consulta à comunidade. O fato é que o cara mais votado, submete ao conselho universitário nomes que serão votados no conselho e daqui sai a tal lista tríplice. Nessa lista tem nome de pessoas que não participaram da consulta a comunidade. Isso é feito para garantir que o primeiro seja indicado.

Como se não bastasse tudo isso, veio a declaração recente de Celso de Mello, de conduzir os depoentes, ministros militares, de forma “coercitiva ou debaixo de vara” é algo que extrapola o bom senso. Até onde sei, a condução coercitiva foi proibida por Gilmar Mendes a pedido do PT que ficou indignado com aquela condução de Lula para depor. Como resultado dessa sugestão de levar “debaixo de vara” há uma insatisfação natural por parte dos militares, aumentando a tensão entre os poderes. Não como negar que existe essa retração do STF em relação ao governo, mas o pior é incerto, pois Celso de Mello sai do STF em novembro desse ano.

A preocupação, pelo menos a minha, é do que esse “juiz de merda”, como designou Saulo Ramos, tem 174 dias ou 4.176 horas pra fazer o que quiser no STF. Cada hora que ele passar lá vai provocar a sensação de estarmos sentado à beira de um vulcão. Celso de Mello, o juiz de merda, pode começar, literalmente, a feder. Ele não vai perder a oportunidade de apagar o fogo jogando gasolina.

O que resta é torcer para que os poderes entrarem num entendimento em busca da governabilidade. Bolsonaro tem se aproximado de figuras nefastas em busca de sustentabilidade contra ação de impeachment. Isso enfraquece a proposta do governo em relação ao tema corrupção e dá margens para que a esquerda aproveite a fragilidade e procure crescer, embora meu sentimento é que quem votou em Bolsanaro jamais votará num candidato de esquerda, principalmente, dentre as opções que estão aí. Para mudar vai ser necessário surgir alguém que não esteja contaminado. Alguém se habilita a sugerir um nome?

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

ACEITAM CARTÃO DE CRÉDITO?

É sabido que desde a eleição de Bolsonaro o país continuou com o terceiro turno das eleições. Palanques continuaram armados e agressões entre vencidos e vencedor esticou a corda até onde a elasticidade, dificilmente, permitirá uma volta ao ponto de equilíbrio. O inicio do governo foi marcado por ações econômicas inovadoras que atraiu investimentos externos, fez a Bolsa de Valores bater recordes e fez a taxa de desemprego começar a cair. Os vencidos continuavam fazendo de tudo para desacreditar o governo e analistas já falavam sobre uma nova candidatura do presidente Bolsonaro.

A pandemia foi o atropelo de Bolsonaro. Sua postura bateu de frente com orientações do mundo inteiro sobre isolamento. Como a economia já estada arruinada mesmo, ele poderia ter apoiado o isolamento, afinal a derrocado econômica era culpa do vírus e não dele. Teria saído por cima. Preferiu instigar desmerecendo o que estava acontecendo no resto do mundo. Não sabemos se fizemos o isolamento no momento certo (se foi cedo ou não) porque tudo que se diz sobre o covid-19, é cercado de incertezas. O médico francês Luc Montagnier, ganhador do Nobel em medicina pela descoberta do vírus HIV, declarou que o covid-19 foi criado na China, em laboratório, quando se tentava uma vacina contra a AIDS e que foi libertado acidentalmente. Outros renomados nomes da ciência se apressaram em apontar equívocos nessa declaração.

Todos nós fomos informados pelo Ministério da Saúde que o pico da pandemia seria agora em maio e hoje já recebi um artigo da STUD – Singapore University of Technology and Design que aponta o pico em 12.06 e imediatamente outro diz que “ninguém é capaz de prever quando será o pico” e, ironicamente, é nesse que eu acredito. Escrevi dois relatórios sobre o covid-19 no Brasil e em Pernambuco e vou colocar nas redes, brevemente. A cidade de São Lourenço da Mata tem 18,55 óbitos por 100 mil habitantes. Isso é muito grave.

No auge desse debate da pandemia, sobre a atitude do PR em participar de ações e desrespeitar o isolamento, vem a saída de Moro do Governo. Certo, que os eleitores votaram em Bolsonaro e não em Moro, mas não tem como negar que seu nome representava 45% do governo. Os outros 45% era Guedes e os 10% era o restante que, cresceu ao longo do tempo com o bom ministro Tarcísio de Freitas.

A saída de Moro poderia ter se dado de outra forma, com muito menos ruído do que foi. Eu já disse aqui: se era uma questão administrativa que fosse resolvida internamente. Bolsonaro não deveria ter exonerado Valeixo sem esgotar as conversas com Moro e este deveria ter tido um pouco mais de paciência. Não falo isso como uma forma de esconder falcatruas, mas pela defesa do Brasil que virou esse cabaré. Hoje, por uma decisão monocrática, Alexandre de Morais concedeu liminar ao PDT cancelando a nomeação de Ramagem para o cargo de Diretor da Polícia Federal. E aí que reside a questão. Até que ponto um ministro tem esse poder? Não deveria ser uma decisão colegiada?

Gilmar Mendes suspendeu a posse de Lula porque viu indícios de irregularidade na nomeação, ou seja, Dilma mandou “ Bessias” entregar um termo de posse, com data a ser preenchida por ele, caso fosse incomodado pela Polícia Federal. Até onde me lembro foi uma decisão monocrática. O governo poderia ter recorrido, mas Dilma optou por outro nome. Alexandre de Morais fez a mesma coisa. No governo FHC, a filha dele, Luciana Cardoso tem uma nomeação suspensa pelo TRF-4. Agora, tudo soa bastante estranho porque o presidente não pode nomear um delegado, mas pode nomear um ministro para o STF. O próprio Alexandre de Morais foi nomeado num momento terrível para o governo Temer e foi por ser um fiel escudeiro de Temer desde quando era secretário de segurança de São Paulo.

Embora seja prerrogativa do PR nomear e exonerar alguns cargos na administração, o principio da moralidade e da impessoalidade, que deveria ser observado, não é, nunca foi e dificilmente será. No Brasil cada ministro do supremo é um tribunal superior. Cada ministro traz vínculos com partidos políticos. Celso de Mello, “o juiz de merda” foi indicado por Saulo Ramos, Marco Aurélio, pelo primo Collor, Gilmar Mendes por FHC (alguém lembra quantos processos contra Aécio ele arquivou?), Lewandowski, Cármem Lúcia, Dias Toffoli, Fux, Rosa Weber, Barroso, Fachin, todos por Lula e Dilma e Alexandre de Morais, por Temer. O que tem em comum? Peregrinações pelos gabinetes do senado.

No STF, decisões colegiadas são desrespeitadas diariamente, a constituição é tripudiada todos os dias a ponto de faltar, apenas, o uso de suas páginas para higienização das bundas dos digníssimos ministros. Eu não consigo entender como um presidente vai nomear um inimigo político, mas me parece que é isso que a oposição quer. Bota Ciro Gomes ou Carlos Lupi (investigado) como diretor da PF.

Agora, uma parcela imensa de políticos é formada por canalhas, ladrões, trapaceiros, vigaristas, etc. Qualquer que seja o delegado que tiver lá e começar a mostrar serviço, a pressão para tirá-lo vai ser imensa. Ou tira ou o governo não tem apoio. Quem não se lembra de Aécio Neves querendo trocar o diretor Daniello da PF? Ele chegou a dizer que “se o João é simpático a Aécio, bota o João pra conduzir o processo”. E é isso que ocorre aos olhos de todos. Proteção para os grandes. Para os políticos. Só para eles.

A realidade do Brasil é essa: um congresso corrupto que só apoia governo em troca de dinheiro entregue em caixas de sapatos, malas, meias ou cuecas. Os urubus já sentiram o cheiro de fragilidade do governo e estão sobrevoando. Roberto Jerfferson, Valdemar da Costa Neto e Paulinho da Força. Um já ganhou o Banco do Nordeste que daqui a pouco será o Bando do Nordeste; o outro já pediu o Porto de Santos, que é subordinado ao bom ministro Tarcísio de Freitas, homem sério, incorruptível. Como vai’ ser essa convivência? Tarcisio não fica e Bolsonaro vai ter que explicar aos eleitores porque trocou um incorruptível por um corrupto. Simplesmente isso.

Esse é o Brasil. Um país grande, rico, capaz de avançar, metido num emaranhado de interesses pessoais. Eu não acredito que essa ruptura com Moro seja apenas fruto de inquérito dos filhos. Flávio teve sua investigação suspensa por ordem de Toffoli e o caso dele é investigado pela polícia do Rio de Janeiro. A movimentação de suas contas era analisada pelo COAF que era subordinado a Moro, mas migrou para o Ministério da Justiça. Eu prefiro acreditar que a pressão maior veio de aliados. O seu líder de governo no senado é investigado.

Vamos ter interferência dos poderes uns nos outros, a cada dia, e pressão para Rodrigo Maia aceitar um, dos tantos, pedido de impeachment do presidente vai aumentar. Para mim, as declarações públicas dele negando isso, já são indícios do que vem por ai. Um desgaste político sem fim para um país que estava voltando a crescer e que agora virou um cabaré. Minha dúvida: esse cabaré aceita cartão de crédito ou só dinheiro à vista em caixas de sapatos, malas, meias ou cuecas?

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

QUANDO NÁO É QUEDA …. É COICE

Provavelmente a saída de Sérgio Moro será, por alguns dias, o assunto mais comentado nas redes sociais. No meu entender pode até a nos levar esquecer a pandemia do covid-19 e isso é extremamente preocupantes porque só no dia 17 passado morreram 217 pessoas no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, por covid-19. Não vou nem entrar no mérito de que os dados estão inflados ou não. Sei que estamos, desde 16.03, presos em casa com a economia parada e sem sabermos quantos, quem são e onde estão os eventuais de contaminações assintomáticas. Saiu o Ministro da Saúde, mas o Brasil continuou e saiu o Ministro da Justiça e vamos continuar a vida, pois como diz o ditado “o cemitério está cheio de insubstituíveis”.

Temos que reconhecer que há uma grande diferença nessas demissões. Mandetta, como político, buscou capitalizar o papel pensando em 2022. Foi duro nas colocações – como uma resposta dada a um jornalista durante a coletiva -, incluindo as reuniões que teve com Bolsonaro na qual chegou a dizer que “os caminhões do exército estavam capacitados a carregar os mortos”. Depois de uma entrevista no Fantástico sentiu que tinha avançado demais e logo na segunda feira avisou aos seus auxiliares que seria demitido. A demissão de Mandetta só teve protesto por parte da esquerda.

O caso de Moro é mais emblemático. Como juiz da Lava Jato, Moro trouxe a crença para a população de que era possível colocar poderosos na cadeia. Era a constatação de que a corrupção dos governos anteriores tinha encontrado um combatente. Sua ação correu o mundo e seu convite para o Ministério da Justiça trouxe, para Bolsonaro, um apoio maciço de parte da população que não compactua com falcatruas. Inúmeros foram os movimentos em defesa de Moro e da Lava Jato de modo que, naturalmente, ele se transformou num pilar fundamental na continuidade do governo. Sua saída terá implicações sérias.

O primeiro impacto vem, quem diria?, da economia. Com o anúncio da entrevista de Moro, o dólar abriu o mercado a R$ 5,65 e num minuto chegou a R$ 5,72. Parece pouco, mas o mercado cambial vem sofrendo desde o final do ano passado. Embora o Banco Central faça leilão para reduzir a cotação, o efeito tem sido muito pouco e isso, pra mim, tem um significado muito forte: o mercado deixou de acreditar no governo. Em adição, a credibilidade conseguida no mercado externo vai ser duramente abalada. Por diversos motivos. O primeiro deles é que Moro alegou intromissão de Bolsonaro nas ações da Polícia Federal e fez isso publicamente, devidamente registrado por todos os canais de televisão. Não foi um desabafo. Foi uma acusação. Em segundo lugar, o papel do substituto será menosprezado porque quem aceitar o cargo passará a ideia de que vai atender as demandas particulares de Bolsonaro e vai frear a investigação da PF sobre acusações sobre Eduardo Bolsonaro com a propagação de fake news. O país volta para assumir o tal “jeitinho brasileiro”.

O cenário é caótico porque Bolsonaro não cumpriu metade do mandato e, salvo engano, sua saída do cargo implica novas eleições. Aí, vem o discurso da esquerda pra mostrar que seus adeptos são melhores. Há uma segunda implicação que vai fragilizar ainda mais Bolsonaro: a reação dos agentes da Policia Federal. Insatisfeitos com a saída do diretor e do ministro, eles podem começar a vazar informações que possam comprometer, ainda, mais os filhos do presidente.

No Brasil, o candidato a presidente perfeito deve ser filho único, com pais também filhos únicos ou já falecidos. Não deve ter tios, nem primos. Sem qualquer ascendente. Não deve ter filho, noiva ou namorada. Só poderá namorar, casar e ter filhos após cumprir o mandato. Deve ser auditada a ponto de ter cursado o ensino fundamental em casa, sem professor presencial. Deve ter cursado a graduação por EAD. Não ter amigos de infância. Qualquer violação desses princípios é uma brecha para corrupção.

Em linhas gerais, a conclusão lamentável que chego é que faltou sensibilidade ao presidente para perceber a dimensão do feito de ter derrotado a esquerda. Lógico, que não tenho bola de cristal para saber o que vai acontecer amanhã, mas tudo leva a crer que a decisão de impeachment fica mais forte agora ou vai crescer a pressão para renúncia. De qualquer modo, um fato importante que devemos lembrar é que os corruptos irão se aproveitar disso para voltar ao poder. Observemos se o STF vai apressar o julgamento de suspeição de Moro, já sinalizado por Gilmar que pautaria após o fim do isolamento, porque isso é a chave para anular a condenação de Lula e torná-lo capaz de concorrer novamente à presidência.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

EFEITOS COLATERAIS

O covid-19 arrasou economias mundo a afora, até o momento, e não se tem ainda noção do tamanho do estrago. Não se sabe a velocidade de recuperação dos sistemas econômicos e nesse instante a preocupação maior tem sido no sentido de evitar mais mortes ou atenuar o número de mortes. Para alguns, a doença será um grande susto, mas para todos será uma necessidade de reaprendizagem econômica, sem precedentes.

Embora as ações do governo sejam na direção de manter renda das pessoas, não se vislumbra nenhuma garantia de manutenção de empregos. Por uma razão simples: o emprego aumenta (cai) se a produção aumentar (diminuir) e a renda que está sendo transferida só sustenta consumo em bens específicos. Serviços como turismo, gastronomia, lazer, responsáveis pela empregabilidade em regiões como o Nordeste, não são contemplados por essa renda emergencial.

Uma das ações do governo foi a redução do depósito compulsório. Foram R$ 135 bilhões injetados na economia que causaram pouco efeito porque a liquidez dos bancos não aumentou, como esperado, o volume de empréstimos, pelo contrário, prevendo aumento de risco em função do desemprego que ronda a economia, os bancos aumentaram a taxa de juros. Uma forma de atenuar o problema do consumo, sem a necessidade de bancos, seria através de cartão de crédito. O aumento do Bolsa Família, por exemplo, poderia ser um limite de credito concedido no cartão do beneficiário para pagamento exclusivamente na modalidade débito. Nesse mesmo sentido, o governo deveria flexibilizar as regras do cartão de crédito. Hoje, uma pessoa que amortiza o saldo devedor num mês, no outro deve liquidar o saldo remanescente de uma única vez. Fica difícil para quem está com a renda achatada e também porque os encargos cobrados pelas administradoras é muito alto. Assim, bastaria determinar que o consumo realizado nesse período, via cartão de crédito, poderia ser liquidado em 12 parcelas sem qualquer incidência de encargos.

O lado cruel da história é a politização da doença. O uso de cloroquina, assim como de qualquer medicamento, precisa ser assegurado pela Anvisa e para isso se testa a eficiência, a toxicidade, pra verificar a janela terapêutica, ou seja, a diferença entre a dose que mata e a dose que cura. Todo remédio tem seus efeitos colaterais. Uns podem trazer lucros, outros podem trazer indenizações. O Viagra era um remédio para tratar de doença cardíaca e serviu para disfunção erétil (em vez de angina, vagina). A Pfizer lucrou US$ 1 bilhão só no primeiro ano de lançamento. A talidomida gerou indenizações porque criou deformidades em fetos.

Existe uma pressão muito grande, em alguns pontos do país, para a reabertura das atividades econômicas. Existem cidades no Brasil que não registraram qualquer incidência e, mesmo assim, permanecem sem atividade. Os “especialistas midiáticos” alertavam que o horror de mortes no Brasil seria no fim de março e começo de abril. Estamos terminando a primeira quinzena e a quantidade de óbitos segue numa linha abaixo do que o resto do mundo. Junte tudo isso, que já não é bom, a participação do congresso e do judiciário.

Os cenários para a economia, tanto nacional quanto local, estão envoltos de incertezas. O mercado vai retomar suas atividades, os shoppings voltarão, mas as vendas não serão instantâneas e como no comércio as vendas via cartão são, geralmente, parceladas. Isso significa que a receita principal só entrará no caixa 30 dias após a venda e pra vender o comércio precisa estar funcionando.

Como atores nesse circo de horrores, o deputado Rodrigo Maia escancarou de vez a opção de se colocar contra o governo. Ele foi responsável por um sem número de medidas provisórias que, deliberadamente, caducaram, além de sua ferrenha oposição em liberar o fundo partidário para combater a pandemia. Um juiz bloqueou o fundo eleitoral, mas a decisão foi revogada a pedido da mesa do senado. O mais interessante foi um comentário que vi atribuído ao deputado Raul Henry aqui de Pernambuco. Segundo ele “como pagar a militância sem o fundo partidário?”. Gostaria muito de encontrar o nobre deputado para lhe dizer que “militância” se move por ideais, não por dinheiro. No fundo isso é retrato natural da nossa política: apoio por dinheiro.

O cenário que temos para sair da crise tem essa cara: o presidente da câmara com contas abertas com a justiça; o presidente do senado recuperado da doença já disse a boca miúda “que o governo acabou” e o ministro Lewandowski envolvendo sindicatos nos possíveis acordos entre empregados e empregadores trouxe, como consequência, a cobrança de um percentual sobre o valor homologado que vai induzir demissões, não negociações. Importante destacar que sindicatos são erguidos nas promessas de luta pelos direitos dos trabalhadores, mas o que fazem na prática é isso: extorsão.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SUS

A atuação do Ministro Mandetta nessa crise do covid-19 traz um simbolismo muito forte para o SUS – Sistema Único de Saúde. Mandetta trocou o paletó e a gravata pelo colete do SUS e acho que isso implica num reconhecimento pela instituição. Eu trago esse debate por dois motivos: o primeiro é que minha dissertação e tese são na área de economia da saúde e esse assunto me interessa bastante do ponto de vista acadêmico; o segundo é que pessoas, até mesmo doutores com vasto trabalho científico publicado e professores universitários, fazem um terrorismo muito grande falando sobre a “privatização do SUS”. É a partir desse conceito que quero comentar.

O SUS está previsto nos artigos 196 a 200 da Constituição Federal com regulamentação dada pela Lei Nº 8080/90. O SUS é um sistema e compreende todas as instituições de saúde da administração direta e indireta, incluindo autarquias e fundações públicas, produtores de hemoderivados, insumos e equipamentos. O artigo 199 da CF permite que a iniciativa privada atue de forma COMPLEMENTAR. Uma decisão do STJ definiu que a “iniciativa privada pode participar de forma complementar, mas não substituta, ao sistema de saúde”. Artigo 4º da lei proíbe transferências de recursos ou subvenções para empresas com fins lucrativos.

Agora vem a questão que é ensinada e debatida por muito pesquisadores: a privatização do SUS. Como é que se pode privatizar uma instituição que não tem capital social? Privatizar significa que o poder público está abrindo mão do controle do capital social da empresa. Empresas públicas ou de economia mista podem ter seu capital social vendido à iniciativa privada. O sistema Telebrás, cujo monopólio era do estado, foi vendido porque tinha capital social, porque tinha ações na Bolsa de Valores, mas o SUS? Alguém sabe qual é o CNPJ do SUS? Ganha um vacina contra o covid-19 quem informar.

É nesse contexto de desinformação que as pessoas são formadas nas universidades. E o pior que isso está no trabalho científico de medalhões, de grandes estudiosos da área, que são citados em teses, dissertação, monografias e artigos. Propaga-se uma imbecilidade sem tamanho.

Outra coisa que salta aos olhos, mas a cegueira ideológica não deixa ver, é que o SUS atende, aproximadamente, 75% da população, ou seja, 158 milhões de pessoas usam o SUS, porque não possuem plano de saúde particular. Então, como é que a iniciativa privada vai comprar um sistema no qual o cliente não tem dinheiro pra pagar? Só se for muito burro, mas muito burro mesmo, para fazer um negócio desses. Mas, as pessoas insistem: querem que a iniciativa privada explore o sistema sacrificando os pobres. Imbecilidade. Só isso.

Em 1994 o governo FHC regulamentou através da Lei Nº 9736/94 as OS – Organizações Sociais e parte delas passaram a atuar na gestão de unidades de saúde do SUS, principalmente na área de atenção básica. A ideia desse contrato de gestão é que a OS pode contratar pessoas, via CLT e não concurso público – embora o processo de seleção seja público, pode comprar insumos e equipamentos sem licitação, mas segundo as regras definidas na lei. Tem que prestar contas e não são imunes à corrupção haja vista que uma OS desviou R$ 134 milhões para a conta de Ricardo Coutinho, ex-governador da Paraíba. Este modelo de gestão é objeto de uma tese que oriento. Antes de falar bobagem, a gente vai avaliar o modelo, vai submeter a uma banca que vai definir se o resultado é factível ou não. Não vai ser minha opinião nem da minha orientanda. Vai ser dito o que os números sinalizam.

Outra questão sobre esse idiotice de privatização é a EBSERH – Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares que foi criada para gerir os hospitais universitários. Todos eles sucateados. O Hospital Clementino Fraga (tio de Armínio Fraga) ligado a UFRJ tinha sido alvo de uma pesquisa, feita uma pessoa de reconhecido destaque no meio acadêmico, que expressava a “eficiência” do hospital. Eu fiz uma análise de eficiência dos hospitais universitários e o Clementino ficou nos últimos lugares no ranking. O hospital eficiente quase fecha. Quando a EBSERH chegou parte dos estudantes, professores, técnicos das universidades se colocaram contra. O motivo: queriam privatizar a pesquisa!. Puta que o pariu!!!!!!! Hoje os hospitais que são geridos pela EBSERH possuem melhor capacidade de investimento e de atendimento do que os demais.

Não consigo entender o motivo de não se usar a iniciativa privada para desafogar o SUS. Pessoas esperam meses na fila para fazer um exame ou uma consulta, enquanto a iniciativa privada vive dos convênios com planos de saúde que perdem usuários ano a ano em função da crise econômica. De um lado se tem ociosidade e do outro excesso de demanda e no meio a intransigência que cega e mata a inteligência por inanição.

Em termos gerais, eu concordo que, em alguns cursos, alguns professores, ensinam ideologia. Ensina-se o ódio. Não se ensina o aluno enfrentar os desafios do mercado de trabalho, ensina-se o aluno afrontar o mercado desafiando seus empregadores. O aluno chega numa entrevista com ódio do emprego no qual ele vai se explorado. Quem estuda comigo usa HP 12C e Excel e nas minhas provas colocam exemplos reais, não acadêmicos. Eu peguei uma propaganda de um consorcio de veículo e botei na prova para o aluno decidir o que seria melhor: ser sorteado no primeiro mês, no trigésimo mês ou no penúltimo mês. Se souber responder está no caminho certo para o mercado. Penso assim.

Então, aos doutores, mestres, especialistas, PHDeuses da academia, relaxem: o SUS não pode ser privatizado porque não tem capital social pra ser vendido e não tem nenhum dono de hospital privado que queria comprar um hospital público para atender pessoas gratuitamente. Reflitam e mudem seus discursos. Ademais, como a lei diz, a iniciativa privada atua de forma complementar e não substituta ao sistema. E pelo amor de Deus entendam que o sistema é único. Privado e público são dois setores.