MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O X DA QUESTÃO

A recente polêmica entre Alexandre de Morais e Elon Musk sobre bloqueio de contas no X, tem reações favoráveis e contra. Reações favoráveis por parte de todos aqueles que entendem que o ministro tem esse poder e que pode impedir, tranquilamente e seu bel prazer, qualquer pessoa de se pronunciar publicamente. A liberdade de expressão tem limite na lei e não na opinião particular e pessoal de um ministro. O limite da liberdade de expressão está claramente tipificado no Código Penal: calúnia, injuria e difamação.

Seria engraçado, se não fosse tétrico, as ações de Alexandre de Morais diante a negativa de Musk em bloquear as contas sugeridas e mais ainda sua irritação à pergunta sobre o motivo de ele querer implantar a censura no Brasil? O cara não gostou e imediatamente incluiu Elon Musk no inquérito das mídias digitais. Vejam, a extensão da questão: o cara não é brasileiro, não mora no Brasil, emitiu uma opinião de quem vive num país, absolutamente democrático, e deixou claro que o bloqueio de uma conta no X é decorrente da violação do termo de uso. Nenhum dos pedidos de Alexandre se enquadrava nesse questão, mas apenas na sua vontade megalomaníaca de considerar qualquer palavra contra ele, o STF, o presidente ou membros da esquerdas, como violações constitucionais irreversíveis.

Vamos fazer uma breve comparação: a constituição americana tem 7 artigos, vigente a pouco mais de 200 anos, e ao longo desse tempo recebeu 27 emendas. A primeira emenda, veja bem, a primeira emenda diz que o congresso não pode criar leis que impeça a liberdade de expressão. Este é o mundo de Elon Musk. Agora, a constituição brasileira tem 250 artigos, 36 anos de vigência, e 127 emendas. Esse é o mundo de Alexandre de Morais.

O inciso IV do artigo 5º da nossa constituição diz que “é livre a liberdade de expressão, sendo vedado o anonimato”. Até onde sei, todas as pessoas que publicam no X são plenamente identificadas. Logo, descarta-se o anonimato. O que sobra então? Alexandre de Morais prende, julga e condena qualquer pessoa com base no que ele classificou com crime de opinião. O que vem a ser um crime de opinião? Nada que esteja tipificado no Código Penal. Não existe uma linha no CP que trate de crime de opinião, portanto, a falta de cabelo na cabeça aqueceu demais os neurônios e onde havia sinapses passou a ter cola de PVC.

Dito isso, cabe trazer algumas perólas sobre o X da questão começando pelo senador medíocre Ranolfo Rodrigues. O cara fez uma defesa impressionante de Alexandre de Morais – a que ele no passado queria o impeachment – e publicou sua lamúria…no X. absolutamente ridículo, mas compreensível para uma mente que é capaz de entrar numa piscina usando máscara.

Outros membros do governo se apressaram em condenar Musk, mas ganharam o esforço supremo da mídia que recebe Pix do governo para dizer que tudo está bom, que a gente vive num país democrático, que a imprensa é imparcial, mas até o momento, por exemplo, nem imprensa, nem polícia, nem deputadas, feministas ou qualquer coisa semelhante, ocupou as redes para falar das porradas que Luís Cláudio deu na esposa. “Dura lex, sed látex”… a lei é dura, mas estica.

Cabe lembrar que o X foi banido de alguns países como China, Mianmar, irã, Cuba, Coreia do Norte, Rússia e Turcomenistão, ou seja, o que há de comum nesses países é que a informação que chega à população deve ser aquela que o governo oferece. Não há liberdade de expressão nesses países e muita gente está querendo que o Brasil siga pelo mesmo caminho.

Sem sombra de dúvidas, Elon Musk vai perder dinheiro. O governo, por exemplo, já comunicou que não usará mais o X para divulgar suas ações. Outras empresas suspenderão seus anúncios, por absoluto receio de perseguição, não por discordar do ponto de vista de Musk, entretanto, ele declarou que a questão não é apenas lucro.

Em adição a esta decisão, foram retiradas 27 antenas de internet da Starlink que fornecia acesso as escolas e a população ribeirinha da amazonas. Agora, numa necessidade essa polução fará sinais de fumaça. Não tem perigo porque os focos de inocência por lá estão muitos elevados.

Finalmente, eu digo como Caetano Veloso: “é proibido proibir”. Ele pode ter mudado de opinião. Eu, não.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

DESMORONOU

Tudo mundo sabia que a possível eleição de Lula representaria um período de revanche contra todos aqueles que lhe colocaram na cadeia. Todos nós devemos nos lembrar que durante o papo inicial de uma entrevista que lhe daria a correligionários, num determinado momento ele disse que “queria fuder o Moro”. No esteio desse caminho de ódio, Deltan Dallagnol foi cassado pelo TSE, com parecer favorável de Benedito Silva, aquele mesmo do tapinha na cara que disse “missão dada é missão cumprida”. Ressalve-se que Dallagnol não teve nenhum processo administrativo contra ele e teve uma determinação da TER-PR dizendo que o mesmo não tinha restrições.

O assunto dos últimos tempos é o caso de Sérgio Moro. Cotejado pelo PODEMOS de Álvaro Dias para ser candidato a presidente, Moro embarcou nessa proposta, mas acabou concorrendo ao cargo de senador, sendo eleito com milhões de votos e agora, o PT, certamente por interesse do presidente e o PL, certamente por não perdoar ele ter saído do governo Bolsonaro, entraram com esse pedido de cassação e isso só não foi avante porque faltava um juízo para compor o colegiado. O juiz foi nomeado pelo presidente e seu voto, lógico, foi favorável à cassação.

Quando o sistema judiciário de um país passa a ter dono, ou seja, passa a ser subordinado ao presidente da república, os direitos individuais, a equidade e justiça social deixam de ser meios para o equilíbrio democrático para se transformar numa caricatura grotesca do estado de direito. Na Venezuela, quem manda no judiciário é Maduro e lá todos agem para mantê-lo no cargo indefinidamente. Aqui, o filho de Lula que esta semana encheu de porrada sua esposa, ao que foi divulgado, disse que o pai dele manda na justiça. Qualquer pessoa de bom senso, imparcial, sabe que as peripécias judiciais para tirar Lula da cadeia são semelhantes àquelas que o presidente Maduro usa desde sempre.

Nesse sentido, o objetivo desse texto é apontar alguns erros cometidos por Moro para chegar nessa situação extrema. O primeiro deles foi deixar a vaidade interferir nas suas decisões enquanto juiz. Claro, que tudo que ele mostrou jamais vai deixar de ser uma comprovação de toda corrupção praticada por Lula e seus correlegionários. Foi vergonhoso ver e ouvir depoimentos de pessoas envolvidas, como Joesley Batista, Marcelo Odebrecht, Antônio Palocci, dentre outros. Moro acreditou, assim como Bolsonaro, que a luta contra o sistema seria vencida. Ledo engano. A operação Mãos Limpas que ele usou como referência também foi engolida pelo sistema na Itália.

Eu queria deixar claro que nunca entendi aquelas conversas com Deltan como algo pernicioso. Eu sempre disse que o que ouvi ali era uma conversa de pessoas dispostas a combater o crime, ao contrário das conversas dos investigados que tratava de praticar crimes. Mas, entendo que ter saído do cargo para ser ministro de Bolsonaro foi uma escolha equivocada. Moro era um juiz experiente, mas como político era um cego por natureza. Sua primeira tentativa foi lutar para que Fernando Bezerra Coelho, investigado por desvios de valores da ordem de R$ 5 milhões, não fosse designado como líder do governo no senado. Perdeu e passou a ver o quão seria difícil conviver com políticos que ele tinha condenado.

A hostilidade do ambiente político passou a desgastar Moro e, acredito, foi nesse ponto que ele percebeu que não adiantaria ser ministro porque pouco ele teria capacidade de resolver, mas com a possibilidade de ser presidente talvez fosse mais lógico o jogo político. Saiu do governo e com isso externou fragilidades que deveria ter permanecido de forma interna no governo ou no partido.

Agora, o que mais me chocou foi a procura dele por um ser asqueroso como Gilmar Mendes para ouvir algo como “a coisas mais certa que Bolsonaro fez foi lhe tirar de Curitiba!”. O caro poderia ter enfrentado o processo de cassação com altivez. Morrer de fome ele não vai porque sua esposa se elegeu como deputada federal e ele, particularmente, tem um currículo muito bom a ponto de atrair convites da iniciativa privada.

Infelizmente, Moro fraquejou e na tentativa de manter o cargo foi pedir auxílio na fonte da sua derrocada como juiz. Foi o STF contando com apoio de decisões de Gilmar Mendes que a Lava Jato foi devidamente enterrada. Não custa lembrar que Gilmar Mendes voltou favorável a prisão em segunda instância, em 2016, mas quando seu chefe foi preso, em novembro de 2019, Gilmar Mendes voltou contra a prisão em segunda instância. Não custa lembrar que como ministro do TSE, Gilmar Mendes deu provimento a cassação da chapa Dilma – Temer, mas com o impeachment de Dilma, ele correu para salvar Temer.

Foi este ser abjeto que Moro procurou abrigo. É triste constatar que Moro DesMOROnou. Não é um herói que morre por overdose, mas um que sucumbe ao poder do sistema.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

GREVE

Corria o ano de 2012 e na cidade de São Paulo impuseram um reajuste de R$ 0,20 na passagem do transporte urbano. Passou de R$ 3,00 para R$ 3,20. Eu uso bastante esse exemplo para mostrar como se perde dinheiro quando não se sabe fazer contas. Esse aumento, por exemplo, gerou uma receita, por passagem, de 6,67%. Os estudantes foram às ruas, o Brasil parou. Meus alunos me pediram para liberá-los da aula para que pudessem participar dos protestos. Eu permiti. Uma semana depois, as empresa reduziram a passagem dos R$ 3,20 para R$ 3,00 e o argumento é que não houve ganho, o que é mentira. Basta notar que a perda de receita é 6,25%, portanto, os empresários ganharam 0,42%, por passagem, num sistema de transporte urbano do tamanho da cidade de São Paulo.

Naquela ocasião, os caminhoneiros reforçaram o movimento paredista e não era apenas pelo descontrole da política de preços adotada pelo governo Dilma, mas porque havia uma promessa de a economia “bombar” e os caras adquiriram caminhões novos com financiamento da FINAME e quando a economia entrou em recessão, ficaram endividados e sem fretes.

A greve é um instrumento previsto na constituição, embora alguns casos a justiça declara a ilegalidade e manda voltar ao trabalho sob pena de pagamento de multa. Acrescento, ainda, que a greve se tornou um instrumento dos servidores públicos. Não é comum greve por parte de trabalhadores da iniciativa privada fizeram greve, mas isso depende bastante do setor de atividade. Por exemplo: greve dos bancários. O pessoal não encara uma greve sozinho sem a participação dos funcionários dos bancos públicos e, em geral, quando eles aceitam o dissídio oferecido, os funcionários dos bancos privados acabam a greve.

No momento atual, técnicos administrativos das universidades estão em greve e em algumas universidades os professores já estão com indicativos. As reivindicações são as mesmas: melhores condições de trabalho, valorização da carreira, reajuste salarial. O interessante, é que a sociedade nem percebe que professor está em greve, nem tampouco o governo. Em 2012, por exemplo, houve a famosa greve de 100 dias e tudo que se obteve foi um aumento de 15% sobre o salário, de forma linear, ou seja, 5% a cada três anos. Quando o setor de saúde ou os policiais decidem fazer greve, o transtorno é imediato, chamam os sindicatos, vão pra justiça e todo mundo se mobiliza. Educação, foda-se!

O lado irônico da história é o comportamento dos sindicatos. Como se sabe a maioria deles é vinculado à CUT, que é um braço petista. Então, as negociações com que está no governo deveriam ser mais céleres, mas não. Essa gente que elegeu essa gente pra governar, fica sem o menor argumento para protestar. É um tronco de imbecilidade acreditar-se que governo eleito vai atender demanda de funcionário. Pelo contrário, o que se faz é demagogia da grossa.

O governo atual, por exemplo, anunciou a construção de 100 unidades a mais do Instituto Federal, seis dos quais em Pernambuco e um, particularmente, simbólico: em Santa Cruz do Capibaribe que é o maior centro produtor têxtil do Nordeste e um dos dois municípios onde o presidente atual não teve maioria dos votos. Acredito que isso é mais um jogo político do que uma política séria de educação. Serão necessários professores, estrutura, gastos com dinheiro que o governo não tem.

O fato é que esses lances pra “galera” continua sendo um instrumento de enrolação. O caso mais esquisito que eu vejo na atualidade é o caso dos motoristas de transporte alternativo. O governo mandou um projeto para regulamentar a profissão e os motoristas estão dizendo que não querem. Hoje, com toda desgraça, o cara tem uma renda e liberdade para fazer essa renda. Da forma que o governo colocou, vai inviabilizar o setor. A Uber, por exemplo, encerrou suas atividades, salvo engano, na Califórnia por conta de reconhecimento de vínculo empregatício. No Brasil, foi multada em R$ 1 bilhão e recorreu. Se perder, sai do Brasil.

Em resumo: o Brasil não consegue crescer porque o cérebro de alguns é do tamanho de uma ervilha. Eu, particularmente, nunca fiz greve. Dizia aos meus alunos que se eles quisessem assistir as aulas, a gente fixava um dia por semana, pra ficar mais barato o deslocamento deles, e juntava a aula da semana. Hoje, tendo em vista que grande parte deles escolheram esse governo, então eu já avisei: serei o primeiro a entrar em greve.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

IMBECIRO

Creio que esta seja a 3ª vez que falo aqui sobre Ciro Gomes, a quem passarei a designar como Imbeciro. O nome é extremamente justo e adequado porque eu nunca vi alguém com o poder de reunir tanta imbecilidade na mesma mente vazia. Imbeciro perdeu quatro eleições presidenciais, mas até hoje não se acredita que o povo brasileiro não o quer como chefe da nação. A primeira candidatura, em 1998, lhe rendeu 10% dos votos, enfrentando FHC, de quem ele foi ministro da fazenda por 100 dias e acredita que isso foi suficiente para deixar o QI dele superior ao de Einstein.

Em 2002, mesmo com o apoio de uma frente de partidos de oposição, com direito a lançamento de candidatura em Pindamonhangaba, salvo engano, sua terra natal, com a presença de Brizola e tudo, Imbeciro aproveitou o momento econômico desfavorável para o governo achou que seria presidente. Foi nessa campanha que ele foi desmascarado por José Serra sobre o fato de ter estudado em escolas públicas. Ele dizia isso publicamente, com orgulho, e disse no programa de Jô Soares e foi aí que no guia eleitoral Serra pegou essa entrevista e mostrou que ele estudou em escola privada. Moral da história: acabou a eleição com 12% dos votos, atrás, pasmem, de Garotinho, um corrupto governador do Rio de Janeiro. Ganhou um ministério no governo Lula.

Com a instalação da Operação Lava Jato, Imbeciro procurou capitalizar votos através de apoio. Quando Lula foi preso ele viu a chance de ser o nome aglutinador de todas as forças de esquerda. Num evento em Fortaleza, ao lado de Cid Gomes, ele soltou o famoso “Lula tá preso, babaca!” e, arrependido, começou a prometer que daria indulto a Lula, caso fosse eleito presidente. Não convenceu ninguém e acabou em 3º lugar com pouco mais de 12% dos votos. Para não se estender muito, chega 2022 e Imbeciro termina com 3%, menos do que teve Simone Tebet.

Não é fácil entender que o problema de Imbeciro é caráter. Ele não sabe o que isso. Não sabe o que é coerência. Além disso, tem dois defeitos que ninguém suporta: o primeiro é não deixar ninguém falar. Eu vi uma entrevista dele no qual o cara começou fazer a pergunta e ele interrompeu já com a resposta. O entrevistador disse “não era isso que eu ia perguntar”. O segundo defeito é que Imbeciro acredito ser a inteligência maior do universo superando Jesus em larga escala. Ele usa a técnica de Maluf: fica jogando dados na cara das pessoas para impressionar, mas nenhuma das teorias tem sustentação.

Após esse longo preâmbulo, toco no ponto principal: um vídeo no qual ele declarava um escândalo no governo de R$ 93 bilhões que era maior do o mensalão, do que o petrolão e que envolvia os precatórios. Parei para ver o quadro demonstrativo que ele fez e, sinceramente, é muita imbecilidade sendo vendida como verdade absoluta.

A lógica dita era que o governo estava transferindo dinheiro do povo para os bancos, através de precatórios. Uma pessoa que tinha R$ 20 mil pra receber, o banco procurava essa pessoa oferecendo R$ 10mil, mas recebia R$ 20 mil. Para quem foi diretor financeiro do Beach Park, ministro da fazenda, presidente do BNB e por aí vai… é muita imbecilidade.

A base do mercado financeiro é a intermediação financeira. Os bancos compram créditos oferecendo desconto sobre o valor nominal (valor que o título tem na data do vencimento). Por exemplo: uma empresa faz uma venda de R$ 1.000,00 para receber o valor em 40 dias. Necessitando de dinheiro, hoje, ela vende o crédito ao banco, portanto, considerando a taxa de descontos que o banco está trabalhando, digamos que o banco descontará R$ 50,00 e o passará R$ 950,00 para a empresa. Quando o comprador efetuar o pagamento, o banco ficará com o dinheiro porque ele comprou esse crédito.

Estamos já época de imposto de renda e os bancos oferecem antecipação da restituição do IR. Os bancos também descontam vendas realizadas com cartões de crédito e do mesmo jeito funciona a questão dos precatórios. Se o cara tem dinheiro a receber e o banco adquire esse crédito, não tem corrupção, falcatrua nenhuma nisso. É uma operação absolutamente normal. Agora, se o cara tem direito a receber R$ 20 mil e aceita R$ 10 mil, é porque não sabe fazer contas, mas quando existe uma massa falida, o síndico negocia o passivo da empresa mais ou menos nesses termos: Você tem R$ 100,00 a receber, mas não temos perspectiva para pagamento, aceita receber R$ 50,00?

Mais uma vez, Imbeciro se supera enganando as pessoas. O fato é que ele é podre por dentro. Lembro quando ele disse publicamente que no escândalo do mensalão iam chamar o filho de Lula para depor e ele falou com Aécio para parar não fazer isso. Diz isso com a naturalidade de quem fez um bem enorme ao Brasil.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

THE POST – A GUERRA SECRETA

Ontem, por volta das 16h senti o cansaço dominar o corpo e a mente. Um dia extremamente exaustivo, de um trabalho meticuloso que é orientação de tese, dissertação ou artigo, além de tantas demandas administrativas dos projetos do mestrado, que resolvi parar. Liguei a TV e saí procurando algo que valesse a pena, até que parei num filme, que já havia começado, e que tinha o título em epígrafe. Já vi pedaços e resolvi acompanhar.

O enredo trata do escândalo do Water Gate, lá do governo de Richard Nixon que também foi adaptado para o cinema e gerou o bom filme Todos os Homens do Presidente. A invasão do Water Gate era colocar escutas telefônicos no partido Democrata e o trabalho investigativo dos repórteres foi imparcial e graças ao que foi divulgado, Nixon renunciou.

O The Post foi jornal que começou a divulgar os indícios de falcatruas forjadas dentro da Casa Branca e este filme traz a perspectiva de uma pressão sobre o jornal para que não utilizasse determinadas provas. O caso vai parar na Supremo Corte e por 6 x 3 os juízes decidem que a imprensa livre é uma das bases fundamentais da democracia.

Imediatamente veio a comparação com nossa suprema corte e com nossa imprensa. Primeiro, olhe para a imprensa brasileira. É só uma “impressão”. A dependência de recursos públicos mantém qualquer veículo na obrigação de aplaudir até mesmo as baboseiras ditas publicamente pelo presidente. A grana é a motivação mais clara para ser contra ou favor qualquer partido. Existem ressalvas? Acho que sim, mas desconfio que não!

Certa ocasião, nos idos de 2012, eu estava dando aula num curso de graduação quando 4 alunos me pediram para falar com a turma. Concordei e eles entraram e se identificaram como integrantes da UNE. Destilaram mensagens doutrinárias e se posicionaram favorável ao financiamento de campanha e convidaram os alunos para uma “plenária” e depois de uns 10 minutos, perguntaram se os alunos tinham alguma pergunta. Silêncio absoluto. Daí eu perguntei se poderia fazer uma pergunta e eles disseram tudo bem. Então eu mandei essa:

“Por que a UNE era tão combativa no passado e agora eu não ouvi uma nota de protesto contra os escândalos de corrupção do governo? Foi porque a UNE recebeu R$ 25 milhões para construir sua sede e isso acabou com a combatividade?”

Eles se entreolharam e não responderam absolutamente nada. Tentaram dizer que a UNE continuava combativa, mas cada vez mais eu mostrava exemplos contrários. Saíram da sala e foram confabular do lado de fora. Meus alunos tentaram me aplaudir, mas eu não permiti. Disse que eles deveriam se posicionar e questionar as coisas para não servir de cobaias. De modo igual é a imprensa. A grana transferida pelo o governo veda os olhos das redações a ponto de se encontrar repórteres dispostos a defender o indefensável.

Eu vi um vídeo onde o jornalista Reinaldo Azevedo fazia uma intepretação da queda de popularidade do governo e do presidente atual. Dizia ele que a pesquisa foi realizada entre os dias 25 e 27 de fevereiro e que por conta do evento na Paulista, o povo ainda estava na rua se lembrando a Lava Jato – era esse o contexto, não as palavras. A imbecilidade é tanta parece que foram entrevistados apenas as pessoas que participaram do 25/02. Não custa lembrar que esse mesmo Reinaldo era o cara que tratava com Andrea Neves notícias que elevassem a figura de Aécio Neves. Como uma pessoa com esse caráter se acha probo para opinar sobre qualquer coisa? Acrescente-se que ele era crítico ferrenho de Lula, mas agora é defensor público sem procuração. Eu era assinante da Veja e ele colunista. Fiz dois comentários à coluna dele e foram publicados. Depois fiz uma crítica mais contundente e ele não publicou. Esse mesmo paspalho confundiu prisão em segunda instância com prisão preventiva.

Na extensão disso vem a suprema corte. Lá no passado, quando invadiram o capitólio contra o resultado suspeito da eleição norte-americana, ministros do STF foram às redes sociais defender a “essências da democracia”, enquanto não se ouviu uma palavra sequer dos membros da suprema corte americana. O grau de proibições feitas pelo STF em relação a parte da imprensa, a blogueiros, etc. é algo fora do padrão. Viola os preceitos mínimos do Direito e das garantias constitucionais. Liberdade de imprensa, liberdade de expressão, direito de ir e vir, me parecem mecanismos acessórios de um mecanismo podre que é esse espectro de democracia a qual estão nos impingindo.

Bloqueio de contas correntes tem sido uma praxe e tudo isso sob o manto de que estamos defendendo a democracia. Caramba! Morro de medo das escolhas que fazem por mim. Gostaria, imensamente, de continuar sendo responsável pelas decisões que tomo.

O pior é que não vejo sinais de mudança. Vejo um país enorme, com um potencial enorme, atolado na merda.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SEGUE O BAILE

Não é mais surpresa ver, ouvir ou ler notícias sobre corrupção aqui no Brasil. Em outros países também existem corruptos, mas a diferença é que eles são punidos, algumas vezes com bastante rigor. O aproveitamento do dinheiro público vem de inúmeras formas diferentes e é fruto da ação de profissionais ditos “dignos” de confiança e ilibada reputação.

Como sou da área de educação, com experiência também em projetos de pesquisas, muito me chocou a notícia de que um pesquisador da Fiocruz – uma respeitada instituição no campo das pesquisas – simplesmente utilizou R$ 310 mil para viajar, juntamente com sua esposa, para França, Portugal e Estados Unidos. De onde vem o dinheiro? De um projeto na área de saúde indígena no qual esse professor é coordenador e a esposa, simplesmente, participa como integrante da equipe.

Sinceramente, fosse eu o presidente da instituição isso não passaria. Lembro de um problema semelhante no qual um professor – semideus – queria colocar a esposa na equipe de um projeto e eu não permiti. Ela até poderia ficar, mas sem receber nenhum tipo de bolsa. Lógico que esse cidadão subiu pelas tamancas, mas a esposa dele ficou fora. Dava apoio como uma espécie de secretária, sem receber um tostão por isso.

Um ponto que é importante esclarecer é que os projetos contemplam diárias e passagens, nacionais ou internacionais, para integrantes da equipe, desde que isso esteja no plano de trabalho. Pode ser, inclusive, que o referido professor esteja cumprindo alguma meta de alguma etapa do projeto, mas é estranho que ele e mulher tenham o mesmo interesse no objeto do projeto, com viagens para lugares comuns. Isso me lembra uma passagem de “O auto da compadecida” no qual Chicó dizia ter um cavalo bento que corria, o dia inteiro, atrás de um garrote e um boi e João Grilo pergunta diz: “como é possível Chicó? E os dois corriam juntos, era?”. “Não sei, só sei que foi assim!”.

Em meados da década passada, a Polícia Federal desencadeou uma operação chamada “Pós-doc” na qual descobriu desvios de recursos de projetos para conta pessoal de coordenadores de projetos. A coisa era simples: o coordenador colocava na equipe um aluno como bolsista, o crédito era realizado na conta do bolsista, mas o professor ficava com o dinheiro, ao estilo das famosas “rachadinhas” bem conhecidas nas câmaras legislativas desse país. O pior de tudo isso é que não há punição. O cara não é demitido, não tem suas verbas suspensas, nada. Segue o baile.

Confesso que estou me sentido igual a Kleber Bambam na luta contra Popó. Todos os dias eu levo socos diretos de esquerda no queixo, no baço, na alma. Não tem como recorrer ou a quem recorrer e muitos dizem “confiem na justiça divina!”… eu gostaria de ver essa gente pagando por aqui mesmo, para dar um belo ensinamento aos jovens. Tem aquela história de que “educai as crianças, para não punir os adultos”, mas Pitágoras, não sabia que haveria de ter um país chamado Brasil, onde o quadrado da hipotenusa pode ser furtada quando se fizer a soma dos quadrados dos catetos.

O que mais me choca, de verdade, é a leniência das pessoas, a concordância integral ou o simples desviar a vista das coisas que acontecem. As pessoas olham para outra direção para não ver as falcatruas, mas cobram posturas de honestidade, hombridade, dignidade, dos outros.

Ontem vi um vídeo no qual um repórter esportivo da globo – do canal a cabo – comentava que Robinho foi visto num churrasco no Santos, time no qual ele foi projetado. Dizia, esse repórter, que Robinho tinha levado ao filho para treinar no Santos e lá chegando estava rolando um churrasco e ele foi convidado. Após essa contextualização, o repórter rasgou o verbo contra a justiça lembrando que Robinho havia sido condenado a 9 anos de prisão e que a justiça espanhola havia solicitado extradição – a constituição federal não permite, mas não se surpreenda se o STF mudar de opinião – o fazer que ele cumpra a pena aqui. Salvo engano, dia 20/03 deve ter um desfecho disso.

Eu fiquei vendo a indignação e me perguntando: “como você não se indignou dessa forma quando votou num candidato corrupto?” Isso é apenas um pequeno exemplo de que a justiça, a dignidade, a coerência, são fatores alargados apenas quando temos interesse em algo. O resto é vala comum.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

OCUPAÇÕES

Sem sombra de dúvida o comentário que o presidente brasileiro fez sobre o tratamento de Israel ao grupo terrorista Hamas bateu recorde de comentários, num mundo inteiro. Tanto por pessoas, quanto por instituições ou governos. Se o presidente americano fosse Trump, Lula – difícil pronunciar esse nome – não entraria nos Estados Unidos nem para comer um MacDonald.

Não é a primeira vez que o pessoal da esquerda faz crítica a Israel pela “ocupação” que eles fizeram desde de 1948 quando a ONU propôs a criação do Estado de Israel. Em relação ao mundo árabe, tem-se uma área que representa algo como 0,4%. É nesse ponto que me foge parte do entendimento. Acredito que minha racionalidade se emburre quando leio teoria da esquerda.

A foto abaixo mostra Guilherme Boulos com outros integrantes do PSOL defendendo a “causa palestina” que vem a ser, exatamente, a tal ocupação de Israel na Palestina.

Qual a tônica da vida de Boulos? Favorecer invasões, para nós, porque para eles são “ocupações”. Então, um bando de gente pode “ocupar” um imóvel ou uma fazenda que está tudo bem. Ao longo de toda existência dessas figuras, o incentivo a “ocupação” quer seja de terras, quer seja imóveis, é parte da proposta do partido. Aqui, pode!

O que o nazismo fez com o povo judeu é algo que supera o entendimento humano. Lembro de um cara que morava próximo a mim no passado e era meu colega de faculdade. Certa vez a gente conversando ele disse uma frase que nunca esqueci: “o erro de Hitler foi matar os judeus daquela forma. Deveria ter matado tudo de uma vez só”.

Mais recentemente li uma frase de um cara preguiçoso, e incompetente, que eu conheço. Disse ele: “não sei porque os evangélicos defendem tanto Israel se eles não acreditam em Jesus!”. Apesar da titulação acadêmica, trata-se nitidamente, de um asno. Só isso. A crença religiosa, a fé em Deus ou em Jesus é um problema de cada um, sendo judeu ou não. Para os evangélicos, os judeus eram os escolhidos e ao recursarem essa fé, abriram a porta para outros. Eles estão aproveitando a oportunidade.

O que se destaca, na verdade, é o interesse vil de confundir e a maneira mais prática da esquerda agir é acusando os outros daquilo que eles praticam. Inúmeras vezes vi o presidente acusar os outros de corrupção. Lembro de Zé Dirceu batendo com o indicador numa mesa e dizendo que “esse partido não rouba e não deixa roubar”. O próprio Boulos foi acusado de cobrar taxa de ocupação. Cobrar dinheiro de quem não tinha onde morar.

O fato é que algumas pessoas saíram em defesa das palavras do presidente. Faz gosto ver o conflito vivido pelos jornalistas que apoiam o presidente. As curvas que eles fazem pra afirmar, negando, que o presidente disse merda. Como diria o personagem Chaves: “foi sem querer, querendo”.

O resultado disso aqui, internamente, foi pedido de impeachment do presidente. Ao que se sabe já há 139 assinaturas, mais do que no caso de Dilma. Isso vai adiante? Eu não acredito porque o congresso é formado por pulhas que não pensam no país, mas, sim, nos próprios interesses. Arthur Lira não é macho suficiente para fazer isso e no caso de Dilma, Eduardo Cunha só fez porque não foi atendido nas suas demandas.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

SUCESSÃO E SUCESSORES

Um dos lemas mais comuns e exaustivamente repetidos em diversas situações nas quais uma pessoa se coloca como a única capaz de conduzir determinadas soluções é: “o cemitério está cheio de insubstituíveis”. Nada mais objetivo, nada mais simples e direto. Não aceita quem não quer, mas uma passada rápida no passado vai trazer constatações irrefutáveis. Eu lembro de uma complô armado para matar Idi Amim Dadá, ditador de Uganda. Diante dos “conspiradores” ele chegou a vociferar: “vocês não sabem que EU escolho o dia de minha morte?”.

Existe uma cobrança, natural, muito grande sobre os sucessores. Algumas vezes o compromisso é manter a qualidade de um trabalho que estava sendo bem feito; outra, é refazer tudo que estava sendo feito com uma guinada de 180 e convencer as pessoas mediante a credibilidade dos resultados. As cobranças sempre ocorrerão, as comparações, idem. Há muitos anos, a rede globo (minúsculo mesmo) apresentava nas manhãs do domingo o programa “Som Brasil” comandado por Rolando Boldrini e quando ele saiu, Lima Duarte assumiu e muita gente falava que Boldrini era melhor, apesar de Lima fazer um bom trabalho. Na verdade, Lima Duarte apresentou o programa antes de Boldrini.

Isso se espalha em vários outros ambientes. Um cantor chamado Luiz Américo, lá nos idos de 1974 gravou uma música chamada “Camisa 10” (torcer para Peninha ler esse texto e nos brindar com um vídeo dessa música) na qual ele perguntava a Zagalo, então técnico da seleção brasileira, quem iria no lugar de Pelé. “10 é a camisa dele, quem é que vai no lugar dele?”. Zico honrou magistralmente essa substituição, outros nem tanto. Messi e Maradona guardam esse mesma proporção, mas quem virá depois de Messi?

Na política a coisa não é diferente. A cada quatro anos nós vamos às urnas escolher representantes (sic!). A maioria escolhe fulano e o resto segue a vida. Infelizmente nós perdemos, em 1993, uma oportunidade extraordinária de adotar nesse país um regime parlamentarista. Pare e pense: governo não é do presidente, governo é um gabinete, mas a ideologia é a parte tenebrosa da vida política. Há um sentimento de que o país, quiçá o mundo, deve ser esquerdista.

O mapa político do Brasil, desde a chamada redemocratização, começou com um presidente que passava léguas de distância do esquerdismo. Contra Collor, Lula se apresentou e Maria Amato, então presidente da “poderosa” FIESP chegou a dizer que “se Lula fosse eleito, 800 mil empresários deixariam o Brasil”. Em tese era uma oportunidade de se mostrar algo sustentável para o país, mas as duas coisas mais marcantes do governo Collor foi o fim dos títulos “ao portador” e a abertura das importações que cutucou a indústria automobilística a fazer carros com tecnologia de ponta.

Collor saiu sob o manto da corrupção denunciada por seu irmão, Pedro Collor, e gerenciada por PC Farias, morto em circunstâncias absolutamente estranhas. Itamar preparou FHC para a presidência e ganhou de Lula, duas vezes, por se apresentar como um esquerdista mais brando do que Lula. É aí que nasce o cerne da esquerda no Brasil. O PT sabia que nunca ganharia uma eleição com a pauta partidária que defendia e Zé Dirceu começou a formatar um plano de governo, ou melhor de poder, que pudesse levar o PT à presidência. Deu no que deu. Além dos indícios de corrupção já no primeiro ano de governo, estoura o escândalo do mensalão. Mas, o objetivo aqui é falar sobre sucessão.

Lula sempre foi o único candidato de esquerda no Brasil. Não por competência, mas por sagacidade. Aniquilou Ciro Gomes, humilhando-o em diversas ocasiões. Não formou um sucessor ao longo desse tempo inteiro. Quando Lula morrer, o PT servirá de matéria prima na cremação do corpo. Seguramente, o PT ficará com alguns cargos proporcionais, mas não majoritários. O petista que voltou em Dilma, Haddad o fez com a consciência de quem o mandatário dos governos seria Lula.

De modo igual, com Bolsonaro inelegível até 2030, um cara com seus 66 anos de idade, vai disputar uma eleição com 72 anos? Pode ser. Lula o fez. Mas, dentre todos os apoiadores de Bolsonaro, quem é visto como sucessor? Tarcísio de Freitas? Talvez, mas não para 2026. A questão é a seguinte: Barroso discursou dizendo “nós derrotamos o bolsonarismo”, mas, de fato, não existe esse movimento. Existem pessoas simpatizantes a Bolsonaro e isso é muito pouco para se formar uma base estruturada. Este ano teremos eleições municipais e o PT temendo a influência do ex-presidente, articular pela sua prisão.

Não há sucessores e isso é o quem mais me angustia. Em 2022, inúmeros partidos apoiadores de Bolsonaro lançaram candidatos. Esfaleceram os votos permitindo a coesão esquerdista. Falta muito para termos competividade. Falta uma pauta que convença o trabalhador e o empresariado de que este país é possível.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

UM PAÍS DE MENTIRAS

São mais de 8 milhões de quilômetros quadrados perdidos no meio do nada! O nada parece um pântano de areia movediça que engole o caráter das pessoas e as transforma em simples fantoches. Já há algum tempo venho externando minha indignação com isso tudo e tudo que vejo é um cerco jurídico se fechando cada vez mais em torno de alguns e deixando, outros, totalmente livres. A sensação é de confinamento, para alguns, num grande círculo, enquanto outros apenas observam do lado de fora. A claustrofobia de uns será o remédio para a autofobia de outros.

Buscando frases de Roberto Campos para colocar no rodapé de uma lista de exercícios (sempre coloco em lista de exercícios, provas ou atividades, uma frase de alguém, algumas das vezes, frases minhas) e me deparei com uma frase de Roberto Campos que dizia: “Haverá salvação para um país que se declara “deitado eternamente em berço esplêndido” e cujo maior exemplo de dinâmica associativa espontânea é o Carnaval?”

Ao deitar-se em berço esplêndido, o gigante tornou-se algo diferente daquilo que preconizava a coragem do filho que não foge à luta. A sensação é que ou não existe luta, ou chegamos atrasados ou estamos nos recusando a participar e enquanto isso somos conduzidos de forma bem comportada para dentro do círculo do qual só sairemos curados.

Não sei ao certo qual a fobia que nos contagia, mas os sintomas são bem específicos e estão associados com a rejeição à: corrupção, aparelhamento do estado, justiça seletiva que libera corruptos e prende inocentes, poder absoluto da lei que desrespeita o “quantum” de 1/3 da república. Sim, ter tais sintomas nos transforma em doentes desenganados. Somos a reencarnação dos leprosos que há dois mil anos eram apedrejados nas ruas e precisavam se abrigar nas cavernas. Talvez seja isso: vamos isolar quem pensa diferente e tratar como se tratavam os leprosos.

Confesso que passa pela minha cabeça que a instrumentalização para a cura é o bisturi cirúrgico da lei. Vi um vídeo (no grupo do zap do Cabaré do Berto) que me assustou: um programa desenvolvido especificamente para o STF captar nas mídias sociais tudo que se referir ao órgãos, ao seus deuses e quiçá, aos órgãos dos seus deuses e dependentes também. Liberdade de expressão? Teremos, desde que não pronunciemos tais palavras ou que não chamemos um ladrão de ladrão.

Fica cá com meus pensamentos restritos que teimam em se materializar na forma de perguntas, mas as respostas me assustam, posto que, alguma delas eu deduzo facilmente. Não encontro resposta para “o que fazer?”. Não estou incitando a balbúrdia, a desobediência civil, nada disso, mas o que deve ser feito quando os órgãos institucionais se ergueram contra um governo legitimamente eleito e seus membros, que constitucionalmente deveria ficar isentos de partidarismo, foram os principais responsáveis por esse estado de incerteza?

Vamos fazer uma breve recapitulação: em 1988 o colégio eleitoral elegeu Tancredo Neves presidente com a proposta de fundar uma Nova República, mas quem governou foi José Sarney que vinha de um partido que deu sustentação ao governo militar que ora se findava. Em 1989, Sílvio Santos entrou na disputa pela presidência e deixou Collor de Melo em segundo lugar nas intenções de votos. A diferença era superior a 20 pontos percentuais. A campanha de Sílvio Santos durou dez dias e mediante decisão do TSE a candidatura foi cassada. O resultado é que Collor foi eleito porque naquele tempo o PT de Lula assustava até o bicho papão. Tratava-se de um governo de direita, mas com o impeachment assumiu Itamar que colocou Fernando Henrique Cardoso no ministério da fazenda, que convidou uma equipe – competente – de economistas para implantar o Plano Real e que com isso ganhou a eleição para Lula, em duas ocasiões. Resultado: de 1994 a 2018, o Brasil foi governado por partidos de esquerda.

Eu acredito que o pessoal que se diz de direita não consegue compreender e aproveitar as oportunidades que surgem. Bolsonaro montou um gabinete digno de referência. Teresa Cristina, Tarcísio Freitas, Moro, Paulo Guedes, mas tinha outros bem fracos em outras áreas prioritárias com saúde e educação. Perdeu tempo, dedicou parte do seu tempo a confrontos bobos e com isso perdeu a oportunidade de transformar o pensamento do país e continuar com a política econômica de Guedes que se apoiava na redução da inflação, no equilíbrio fiscal e no crescimento da economia com a redução do tamanho do estado.

Se você observar, Milei está fazendo algo extremamente parecido na Argentina e em poucos meses de governo já se vê protestos da população com medidas que deveriam ser adotadas de modo gradual. Já trocou um ministro por, supostamente, ser um “espião”. A Argentina é uma ilha na América do Sul: cercada de governos de esquerda por todos os lados!

Finalizo, chamando a atenção para a frase do Roberto Campos. Os fatos são assim mesmo: a única expressão espontânea é o carnaval. Talvez o poder espere que ele refresque a cabeça dos rebeldes. Talvez, quando a quarta-feira de cinzas chegar, tenha somente as cinzas de sonho ousado. Até o próximo carnaval vamos dizendo: “louco? Eu já fui louco! Me trancaram num quarto com ratos e os ratos me deixam louco”. Repete isso diariamente até o carnaval de 2025. É melhor.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

A IGREJA E SEU PAPEL: PARTE 2

Na semana passada falamos sobre a questão sexual na Igreja Católica. O desejo sexual reprimido cria um monte de alternativas para pedófilos ou tarados. Hoje vamos falar sobre a questão política da Igreja. Começo dizendo que há uma interpretação errada do Evangelho no que concerne ao posicionamento de Cristo em relação aos ricos. Jesus não condenou ninguém, apenas esclareceu que a riqueza é um óbice à evolução espiritual porque deixa as pessoas presas ao materialismo.

Há uma passagem na qual um jovem rico pergunta o que deveria fazer para chegar ao reino de Deus e Jesus responde dizendo que ele cumprisse os mandamentos e que vendesse tudo que dia e distribuísse com os pobres. Diante da recusa, Jesus sentenciou: “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar nos reinos dos céus”. Muitos ainda pensam que a “agulha” é essa usada para costurar. Agulha eram as ruas estreitas de Jerusalém. Tão estreita que um camelo não conseguia dobrar uma esquina.

A intepretação do Evangelho ao pé da letra levou, sempre, as pessoas a temer a Deus e isso foi um instrumento importante de dominação. Mas, desde a Idade Média que a Igreja exerce um poder político, basta lembrar que o Papa fazia a coroação de reis. Eu entendo que a Igreja tem o direito de cobrar políticas públicas, de se preocupar com a população carente, etc., entretanto, discordo da posição ideológica. Não há como ser cristã assumindo uma ideologia que fere diretamente os preceitos do Cristo.

Uma das representações mais intensas da Igreja Católica é a CNBB – Confederação Nacional de Bispos do Brasil. Essa confederação foi criada em outubro de 1952 e teve como seu primeiro secretário o conhecido Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife durante 21 anos, ou seja, igual período que durou o regime militar no Brasil. Durante esse período surgiram segmentos dentro da Igreja que, eventualmente, ao buscar a defesa de uns, incitava a luta armada de outros.

Uma das vertentes mais fortes na igreja foi a Teologia da Libertação defendida por Leonardo Boff que acabou sendo excomungado da Igreja em 1977 pelo Papa João Paulo II. A base para a expulsão de Boff foi que a Teologia da Libertação era de cunho marxista e violava os preceitos da Igreja. Eu era estudante universitário e havia me tornado fã de Frei Betto e hoje eu digo veementemente que ao ler os livros de Frei Betto eu troquei o Cristo que eu conheci em Tabira – que falava de perdão, amor ao próximo, e por aí – por esse de cartucheira atravessada no tórax e uma submetralhadora em cada mão. Mais tarde, a decepção foi intensa e eu perdi a referência de Cristo que eu tinha.

As pautas da ideologia marxista são, frontalmente, contra aquilo que a igreja prega. Contracepção, por exemplo. Mesmo durante o período de propagação da AIDS no começo dos anos 1980, a igreja se colocou contra o uso de camisinha e essa semana um juiz negou provimento de uma causa movida contra o Hospital São Camilo, em São Paulo, por uma paciente que queria a implantação de um DIU, mas o hospital disse que era contra os princípios que pregados pela instituição e não fez. O juiz entendeu que o hospital tinha razão.

A questão do aborto é colocada como uma política pública e as pessoas que defendem querem que a igreja aceite e até apoie. Dom José Cardoso quando era arcebispo de Olinda e Recife, excomungou um médico e um monte de outros profissionais que fizeram o aborto de uma criança de 9 anos. Esse procedimento foi realizado na maternidade da Encruzilhada, uma das mais conhecidas do Recife.

Eu penso que a questão é simples: se não concorda com os preceitos impostos, saia, concorra a cargo eletivo e procure aprovar projetos de acordo com sua convicção. O padre, o bispo, o Papa, quem quer que seja, tem o direito de defender uma linha de pensamento, mas na hora que faz isso no cargo, mistura homem e instituição e aí fica-se a ideia de que é a instituição quem defende tal proposta.

Uma coisa eu acho interessante: que defende o comunismo, nunca viveu num país comunista. Essa foi uma das coisas que mais me incomodou quando era estudante universitário com a cabeça voltada para o socialismo: o único revolucionário que saiu do Brasil para viver num país comunista foi Gregório Bezerra, enquanto os demais usufruíram das benesses de país capitalista. Miguel Arraes foi para a Argélia, Francisco Julião foi para o México, Leonel Brizola foi para o Uruguai e vai por aí.

Cabe lembrar, no entanto, que um cardeal chamado Karol Wojtyla, viveu na Polônia quando jovem, quando lá havia o regime comunista e que quando se tornou Papa João Paulo II trabalhou, ao lado de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, para acabar com o comunismo no leste europeu. E conseguiram. As repúblicas socialistas soviéticas derretam ao calor da liberdade democrática; o muro de Berlim caiu, unificando a Alemanha. Pergunta-se: existem pessoas na Igreja Católica que gostariam de ver tudo como antes?

Confesso que a linha é muito tênue. Alertar sobre direitos e garantias individuais não parece semelhante a doutrinar. No meu entendimento quando a igreja incentiva invasões ela está trabalhando por coisas terrenas e para mim seria de vital importância lembrar: “Dai a César o que é de César. Dai a Deus o que é de Deus”. É por isso que carrego minha igreja nas costas.