WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A MÃO DO TEMPO

A mão do tempo rasgou
Meu manto de ilusão.

Mote de George Alves (Major)

Sem querer o tempo furta
A juventude da gente,
E o vigor de antigamente
Cada dia mais encurta.
A vontade anda curta
Para brincar no colchão,
Que o gás da disposição
Parece que evaporou,
A mão do tempo rasgou
Meu manto de ilusão.

Jr. Adelino

Meus castelos fictícios
Um a um desmoronaram,
Os anos duros mostraram
Incontáveis sacrifícios.
Hoje rezo meus Ofícios
Implorando a Deus perdão,
Quando feri meu irmão
Meu íntimo também chorou.
A mão do tempo rasgou
Meu manto de ilusão.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

DEIXE O POETA CANTAR

Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Mote de Zé de França

Seu doutor, não prive a fala
Que ecoa nas emoções…
Dos sofridos corações
Cujo a solidão faz sala.
Não cale aquele que cala
O sofrer e o penar…
De quem sofreu por amar
E foi taxado de pateta,
Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Jr. Adelino

Deixe que as suas rimas
Sigam pela amplidão,
Que as cordas do bordão
Façam duetos com as primas.
Deixe falar sobre climas,
De sertão, agreste e mar,
Da beleza do luar,
Das orações do profeta.
Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

TRÊS CORAÇÕES “SEM FUTURO”

Meu coração sofredor
Já se acostumou no tédio
Inquilinas do amor
Abandonaram seu prédio
E nas clínicas das paixões
Não encontra um só remédio.

Francisco Evangelista

Meu coração sofre assédio
Diário da solidão
Quando quer se levantar
Vem outra desilusão
E bota pra beijar a lona
De novo meu coração.

Jr. Adelino

O meu não tem jeito não
Parece que por pirraça
Se ilude com toda dama
Tropeça em qualquer trapaça
Se não surgir quem lhe salve
Termina em banco de praça.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

SUPERAÇÃO

Ela pensou que eu iria
Rastejar por causa dela.

Mote deste colunista

Fui seu amante exclusivo
Lhe dei carinho, dei flores
Ela só me causou dores
Mas hoje, sem dores vivo,
Outra botou curativo
Com Band-Aid de donzela,
Sem cicatriz, nem sequela
Sendo feliz, quem diria,
Ela pensou que eu iria
Rastejar por causa dela.

Pedro Fernandes

Deixou de ser dama honrada,
Bem prendada e exemplar
Para ser um “avatar”
Dos bares da madrugada.
Eu segui por nova estrada
Ao conhecer Antonela.
Ela vive na favela
No ramo da putaria.
Ela pensou que eu iria
Rastejar por causa dela.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A VIOLA E OS NOSSOS PAIS

Zé Vicente da Paraíba, pai deste colunista; recorte da capa do LP “Repentes e Repentistas”, Gravadora Rozenblit, Recife, 1973; Arte do amigo Michelângelo Wandrol.

* * *

Em um banco na calçada,
Depois da hora da janta,
Meu pai tocava a viola
Já cansado da garganta.
No canto que ele cantava
Hoje a saudade é quem canta.

Poeta João de Lima

A minha se agiganta
Quando vou a casa dele.
Recito uns versos que um dia
Eu fiz inspirado nele.
Volto sem ter avistado
Nem a viola e nem ele!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

FAXINA

Fui fazer uma faxina no armário
Que há anos é depósito de ilusões
Encontrei amarelas as canções
Que saíram do meu mundo imaginário
E das peças que já foram vestuário
Tinham umas mofadas, outras pretas,
Estouradas encontrei doze canetas
Que narraram meus amores infantis
Numa caixa entreguei para os garis
As tristezas entulhadas nas gavetas.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A CASINHA

Sítio Espinho Branco, Altinho-PE – Foto Almir Altinho

* * *

O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Mote do Poeta Fifia da Cabeça de Boi

Foi em Mil e Setecento
Quando o meu tataravô
Há muito tempo morô
Aqui nesse apartamento.
A cangalha e o jumento:
Algumas coisas que tinha,
Meia dúzia de galinha,
Um gato e um papagái.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Poeta Fifia da Cabeça de Boi

A casa foi construída
De vara, barro e cipó.
Por minha tataravó
Foi muitas vezes varrida.
A paz viveu escondida
Nesta humilde taperinha
Quando chego à porteirinha
A lágrima no olho cai.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

EM TUDO TEM POESIA…

Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Mote deste colunista

Tem na paixão de verdade
De um amor do passado,
Tem no velhinho cansado
Com o peso da idade.
Tem na palavra saudade,
Na dor sentida no peito,
No casamento desfeito,
Numa orquestra em sinfonia.
Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Severino Damasceno

Tem na benção que mãe dá,
Com sua voz já cansada,
Tem nas notas da toada
Do cantador sabiá,
Tem na fruta do juá,
No trabalhador no eito,
No frade que traz no peito
A devoção por Maria.
Em tudo tem poesia
Só precisa olhar direito.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

NOVOS RUMOS

Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Mote de Zé de França

Eu nasci pra ser alguém
Com luz própria no trajeto
E não pra ser objeto
Pessoal de seu ninguém.
Nunca mais serei refém
Dos teus covardes papéis
E dos teus atos infiéis
Eu prefiro nem lembrar.
Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Zé de França

Você pediu que eu ficasse,
Contra a vontade, fiquei,
Que nem um monge rezei
Pra que tudo suportasse.
Percebi que nosso enlace
Constava só nos papéis
Pode vender os anéis
E a minha parte negar
Não pude mais aturar
Os teus abusos cruéis.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A FORÇA DA ORAÇÃO

A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Mote deste colunista

Quando eu quero lhe falar
Entro em transe e oração
Falo pelo coração
Sei que ele vai me escutar
Começo então a rezar
Foi assim desde menino
Ouço voz escuto o sino
No ouvido em paralelo
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Cabal Abrantes

Quando faltar esperança,
Quando sobrar desespero,
Reze com fé e esmero,
Peça a Deus-Pai confiança.
Quem é com Ele não cansa,
Tem o vigor de menino…
Proteja, pois, seu destino,
Seja qual for o duelo,
A oração é o elo
Que nos contata ao divino.

Melchior SEZEFREDO Machado

Em silêncio no meu peito
Logo de manhã cedinho
Acordo com passarinho
Falo com Deus do meu jeito.
As vezes nem sei direito
E choro igual menino
Contando os meus “pepino”
Vejo quanto Deus é belo.
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Novo Abrantes

Minha mãe me ensinou
A rezar desde pequeno
Eu pedia ao Nazareno
Ele nunca me faltou
E até hoje inda estou
Pedindo pro Deus-Menino
Que proteja o meu destino
Da tristeza do flagelo.
A oração é o elo
Que nos contata ao Divino.

Wellington Vicente