Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
Mote de Vanilson de Souza Silva
Uma prece que chegou ao Pai Eterno Do roceiro mais contrito do sertão Faz com que O Divino olhe pro chão E mande abrir as torneiras do inverno E o que foi até pouco aquele inferno Vira logo um recanto de bonança, Pois a fé quando chega na balança Pesa mais que o prato do pecado. Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
É daí que a terra entra no cio Esperando a semente no seu ventre, A lagoa pede ao sapo que concentre Mais coaxos no grande desafio, Os peixinhos desovam pelo rio, A devota reza mais e não se cansa, À noitinha, vem a lua e também lança Um sorriso ao lugar abençoado. Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Mote do poeta Asa Branca do Ceará
Já fui moço e já fui belo, Já esbanjei elegância, Na areia da arrogância Edifiquei meu castelo. Hoje o meu riso amarelo, Meio nicotinizado, É o retrato-falado Dos meus dias obscuros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Aos conselhos paternais Eu nunca dei atenção, Qualquer orientação Era intromissão demais. O que fiz com os meus pais Hoje recebo dobrado: O meu filho revoltado Só me traz grandes apuros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Cada paixão desprezada Por este meu coração Transformou-se em tropeção Que sofro na caminhada. Espinhosa é minha estrada, Pois o trajeto traçado Parece até desenhado Por promotor de enduros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Começa com o tico tico Taco taco chuá chuá Cai aqui cai acolá Tingolingo no penico Que linda orquestra! Diz Chico E o povo fica encantado Reza à beira do roçado Que está de verde vestido Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Merlanio Maia
Deitado na minha rede Olhando pra cima eu vejo Quando dá um relampejo Meto meu pé na parede. Me balanço, tenho sede Abro a boca e o respingado Cai na rede e eu molhado Só escuto no ouvido. Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Cabal Abrantes
Mistério da natureza E fonte de toda vida, A água jorra incontida Num bailado de beleza, Em fúria ou delicadeza, Do céu todo acinzentado. Num dia fresco e molhado, Afino o meu ouvido… Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Melchior SEZEFREDO Machado
É de assustar, no início; Logo após, tudo se acalma. Os pingos tilintam na alma, Ao amor fico propício; Do friozinho é o indício, Da natureza, um recado. Observo, fico calado. O som acalenta o ouvido… Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Ytalo Mota
Escuto no meu ranchinho A chuva que cai na telha E do relâmpago a centelha Que clareia o escurinho Logo de manhã cedinho O terreiro tá molhado Biqueira por todo lado Vem da mulher o “muído” Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Poeta Nascimento
A chuva é a mensageira Da bonança pro roceiro É o bem mais prazenteiro Para o povo da ribeira Que quando olha a biqueira Colhendo o que foi mandado Por Deus Pai santificado Fica muito agradecido Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Após breve julgamento Em virtude dos seus atos, Condenado por Pilatos E um povo virulento, Crucificou-se o rebento De Deus, três horas após. Tendo o povo por algoz, No seu voto derradeiro, Jesus, O Santo Cordeiro, Foi imolado por nós.
Melchior SEZEFREDO Machado
É necessário entender Que a missão de Jesus Não foi só morrer na cruz Nem as curas por dever Os corpos devem morrer Deixando a matéria após A grande missão é a voz Do Evangelho verdadeiro Jesus o Santo Cordeiro Foi imolado por nós.
Merlanio Maia
Lavou as mãos o Pilatos Após condenar um Santo Santa Cláudia pediu tanto Pra evitar os maltratos Ao Messias, mas seus atos Vieram de forma atroz Judas foi o seu algoz O trocando por dinheiro. Jesus, O Santo Cordeiro, Foi imolado por nós.
Leo Brasil
Enviado para salvar Ele foi crucificado Não tinha nenhum pecado A lição foi nos mostrar Que ia ressuscitar Da sua morte logo após Até hoje a sua voz Ecoa no mundo inteiro Jesus, O Santo Cordeiro, Foi imolado por nós.
Cabal Abrantes
Foi levado até a cruz Para a crucificação De cada lado um ladrão Crucificaram Jesus Mas veio a divina Luz Ofuscando o seu algoz E do céu ouviu-se a voz De Deus, Seu Pai verdadeiro. Jesus, o Santo Cordeiro, Foi imolado por nós.
Poeta Nascimento
O profeta Jeremias Há muito profetizava Que Deus-Pai já preparava A chegada d’O Messias. Foi em suas profecias Que a verdade teve voz: Seiscentos anos após Concretizou-se o roteiro. Jesus, O Santo Cordeiro, Foi imolado por nós.
Vista aérea da fazenda do meu tio Zezinho Maurício, Sítio Letreiro no município de Altinho-PE
Hoje tirei a “tramela” Da porteira da saudade.
Mote deste colunista
Com as porteiras fechadas Pra não molhar o meu rosto Senti na boca um gosto A língua e boca travadas Com as fotos espalhadas A mente foi lá na idade Quando eu tinha mocidade Do rosto abri a janela Hoje tirei a “tramela” Da porteira da saudade.
Cabal Abrantes
A porta estava fechada Depois que ela foi embora Resolvi abrir agora Às duas da madrugada Uma saudade danada Mudei até de cidade Pra ter mais tranquilidade Mas, vivo pensando nela! Hoje tirei a “tramela” Da porteira da saudade.
Poeta Nascimento
Passei um tempo esquecendo Do meu passado feliz. Fui eu, de fato, quem quis Deixar de estar remoendo E outras coisas fazendo Viver com tranquilidade. Passou o tempo, é verdade, Ficou, porém, a cancela, Hoje tirei a “tramela” Da porteira da saudade.
Melchior SEZEFREDO Machado
Meu tio José Maurício, Foi criador e roceiro, Chegou ao sítio Letreiro Para exercer seu ofício. Com a família Simplício Fez muito boa amizade, Tinha como habilidade Chicote, “macaca” e sela. Hoje tirei a “tramela” Da porteira da saudade.
Vá devagar, meu amigo, Que a vida não volta atrás! O tempo é sempre fugaz… Em pouco, o novo é antigo E eu vivo a pensar comigo: Correr pra quê pela estrada?! Se é sempre na caminhada Que a gente colhe poesia, Pra que tanta correria Se Tudo vem a ser Nada?
Melchior SEZEFREDO Machado
Para que tanto cifrão VSó somar não dividir Por que não subtrair Ajudando seu irmão Se não leva no caixão O que juntou na jornada Deixa tudo na morada Vai morar no céu um dia Pra que tanta correria Se Tudo vem a ser Nada?
Cabal Abrantes
Não adianta se estressar Perder sua paciência E ir parar numa Urgência Em um bloco hospitalar Se tudo aqui vai passar Vem o final da jornada E o fim dessa caminhada Terminará qualquer dia Pra que tanta correria Se Tudo vem a ser Nada?
Poeta Nascimento
Não adianta tanta pressa Tampouco ter alvoroço Pra ir ao fundo do poço Pois pouca coisa interessa E se o nada é promessa Dessa curta caminhada Vou evitar na jornada Levar tudo o que queria Pra que tanta correria Se Tudo vem a ser Nada?
Leo Brasil
Pra que dinheiro de Emenda, Desvio e corrupção Pra comprar uma mansão, Um iate, uma fazenda? E perder a vaga na Tenda Da mais sublime morada Ter a alma encarcerada Na infernal enxovia. Pra que tanta correria Se Tudo vem a ser Nada?
Espetáculo todo dia Foto imagem uma beleza São coisas da natureza Mas parece uma magia Da natura é poesia Temos a revelação Do dia é terminação Quando a noite vai chegando Eu vi a barra quebrando Nas quebradas do sertão.
Cabal Abrantes
Eu vi num entardecer O sol indo descansar Depois de muito brilhar Sem ninguém reconhecer O valor do seu poder Fez ele parecer ser tão Amável nesta questão De ver o dia findando Eu vi a barra quebrando Nas quebradas do sertão.
Leo Brasil
Quatro horas da manhã Já começa a clarear A passarada a cantar É disso que eu sou fã O canto do maracanã Olho e avisto o clarão Dar até a impressão Que Jesus está voltando Eu vi a barra quebrando Nas quebradas do sertão.
Poeta Nascimento
Um risco de luz se traça Na escuridão do horizonte, E antes que o sol desponte Um tênue brilho já grassa De forma inda um pouco baça. Voltando a minha visão Pro céu em transformação, No parto do sol raiando, Eu vi a barra quebrando Nas quebradas do sertão.
Melchior SEZEFREDO Machado
Vi um canário da terra Na copa do umbuzeiro Parecendo um seresteiro No palco do pé da serra Enquanto o torino berra Já reclamando a ração O vaqueiro passa a mão Numa vaca amamentando Eu vi a barra quebrando Nas quebradas do sertão.
Já amanheço pensando No verso que vou fazer Aí começo escrever A mente vai clareando Assim vou me alimentando Com a métrica e oração Rima e inspiração É meu pão de cada dia Cuida, que a poesia É nossa alimentação!
Poeta Nascimento
Da manhã é o café É o almoço e o jantar É no sonho pra sonhar Acompanha a mulher Pro poeta é sem mister Vem de Deus inspiração Entrando no coração Mais parece uma magia Cuida, que a poesia É nossa alimentação.
Cabal Abrantes
Vamos plantar sentimentos Na alma boa de lavra… Vamos regar a palavra Com bons e mais suprimentos… Com olhos sempre atentos, Plantar os versos no chão Para colhermos então O pão da sabedoria: Cuida, que a poesia É nossa alimentação!
Melchior SEZEFREDO Machado
Ela é minha vitamina Minha vitalidade É arte é vontade Que a mim contamina A poesia nos ensina A espalhar emoção Nutrindo o coração Da mas bela fantasia Cuida, que a poesia É nossa alimentação!
Leo Brasil
Poesia é alimento, É o que tem de melhor Como disse Melchior, Leo, Cabal e Nascimento. Eu mesmo só me contento Quando vem inspiração Alço voo que nem Falcão Na selva da fantasia. Cuida, que a poesia É nossa alimentação!
Quando cheguei por aqui Não tinha corre, nem fila, A cidade era tranquila, Confusões eu pouco vi. Agora daqui pra ali A gente já perde a paz, De carro nem ando mais, E a coisa só piorando, João Pessoa está ficando Movimentada demais!
Melchior SEZEFREDO Machado
Só tô saindo de casa De Uber com a “muié” Pois não posso andar a pé A coluna me arrasa Não posso mais bater asa O tempo me botou pra trás Véi, tem vontade, não faz Termina se acomodando João Pessoa tá ficando Movimentada demais!
Poeta Nascimento
É culpa de Juliete Que disse no BBB Vão pra lá vocês vão ver E isso virou chiclete Todo ano se repete Gente que nem satanás Perdemos a nossa paz Cada vez mais tão chegando João Pessoa está ficando Movimentada demais!
Ronaldo Barbosa
Está difícil de sair Pelas ruas caminhar De ir nas lojas comprar E seu carro dirigir Tá difícil ir e vir Pelo que vi nos jornais Turistas e marginais O povo só reclamando João Pessoa está ficando Movimentada demais!
Leo Brasil
Quem pegar a João Maurício, Meio dia, noite ou à tarde Perceberá o alarde E o nível do sacrifício O motora em seu ofício Grita: -Aqui não cabe mais! O cobrador perde a paz, Passageiro sai bradando: -João Pessoa está ficando Movimentada demais!
Conheci, pessoalmente, o poeta Daudeth Bandeira em Porto Velho, Rondônia, numa apresentação em dupla com Oliveira de Panelas, no SESC daquela capital.
Salvo engano, o ano era 1996.
Meu pai, Zé Vicente da Paraíba, falava muito nele e do seu talento na criação de poemas e canções e das andanças poéticas que ambos faziam, como consta neste recorte de jornal que está a seguir, do ano de 1975, em Aracaju-SE:
Poetas repentistas na redação de um jornal sergipano, em 1975. Da esquerda para a direita: Neve Branca, Zé Vicente da Paraíba, Pedro Bandeira, Palmeirinha da Bahia e Daudeth Bandeira.
Ao vir morar em João Pessoa, o reencontrei no Quiosque da Poesia, no bairro Oceania, onde poetas, declamadores, músicos e cantores de vários estilos, se encontravam aos sábados à tarde.
Fui ao seu aniversário de 80 anos, muitos poemas, músicas e fotos naquela noite em sua homenagem.
Oliveira de Panelas, este colunista e o poeta Daudeth Bandeira no SESC de Porto Velho, Rondônia, no ano de 1996.
Hoje, sétimo dia da sua partida, presto-lhe uma singela reverência, lembrando da sua pessoa e da sua obra para o Repente e para a música popular nordestina.
Siga em paz, poeta Daudeth!
Este colunista ao lado do poeta Daudeth Bandeira
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Partiu Daudeth Bandeira Deixando forte saudade!
Mote de Marciano Medeiros
O mastro da poesia Amanheceu sem o pano Parte o vate veterano Da arte da cantoria Findou-se a sua agonia Em meio à humanidade E o passo pra eternidade Fez a flexão primeira Partiu Daudeth Bandeira Deixando forte saudade!
Sua “Nordestinação” Defendida em Festivais Entrará para os anais Da história da canção. Quem decantou o sertão, O agreste e a cidade Inspirará, na verdade, Uma geração inteira. Partiu Daudeth Bandeira Deixando forte saudade!