WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

INVERNADA

Foto de Klênio Costa

Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

Mote de Vanilson de Souza Silva

Uma prece que chegou ao Pai Eterno
Do roceiro mais contrito do sertão
Faz com que O Divino olhe pro chão
E mande abrir as torneiras do inverno
E o que foi até pouco aquele inferno
Vira logo um recanto de bonança,
Pois a fé quando chega na balança
Pesa mais que o prato do pecado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

É daí que a terra entra no cio
Esperando a semente no seu ventre,
A lagoa pede ao sapo que concentre
Mais coaxos no grande desafio,
Os peixinhos desovam pelo rio,
A devota reza mais e não se cansa,
À noitinha, vem a lua e também lança
Um sorriso ao lugar abençoado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CONSEQUÊNCIAS…

Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Mote do poeta Asa Branca do Ceará

Já fui moço e já fui belo,
Já esbanjei elegância,
Na areia da arrogância
Edifiquei meu castelo.
Hoje o meu riso amarelo,
Meio nicotinizado,
É o retrato-falado
Dos meus dias obscuros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Aos conselhos paternais
Eu nunca dei atenção,
Qualquer orientação
Era intromissão demais.
O que fiz com os meus pais
Hoje recebo dobrado:
O meu filho revoltado
Só me traz grandes apuros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

Cada paixão desprezada
Por este meu coração
Transformou-se em tropeção
Que sofro na caminhada.
Espinhosa é minha estrada,
Pois o trajeto traçado
Parece até desenhado
Por promotor de enduros.
Estou pagando com juros
Tudo o que fiz no passado.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A CHUVA SOBRE O TELHADO

Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Mote deste colunista

Começa com o tico tico
Taco taco chuá chuá
Cai aqui cai acolá
Tingolingo no penico
Que linda orquestra! Diz Chico
E o povo fica encantado
Reza à beira do roçado
Que está de verde vestido
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Merlanio Maia

Deitado na minha rede
Olhando pra cima eu vejo
Quando dá um relampejo
Meto meu pé na parede.
Me balanço, tenho sede
Abro a boca e o respingado
Cai na rede e eu molhado
Só escuto no ouvido.
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Cabal Abrantes

Mistério da natureza
E fonte de toda vida,
A água jorra incontida
Num bailado de beleza,
Em fúria ou delicadeza,
Do céu todo acinzentado.
Num dia fresco e molhado,
Afino o meu ouvido…
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Melchior SEZEFREDO Machado

É de assustar, no início;
Logo após, tudo se acalma.
Os pingos tilintam na alma,
Ao amor fico propício;
Do friozinho é o indício,
Da natureza, um recado.
Observo, fico calado.
O som acalenta o ouvido…
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Ytalo Mota

Escuto no meu ranchinho
A chuva que cai na telha
E do relâmpago a centelha
Que clareia o escurinho
Logo de manhã cedinho
O terreiro tá molhado
Biqueira por todo lado
Vem da mulher o “muído”
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Poeta Nascimento

A chuva é a mensageira
Da bonança pro roceiro
É o bem mais prazenteiro
Para o povo da ribeira
Que quando olha a biqueira
Colhendo o que foi mandado
Por Deus Pai santificado
Fica muito agradecido
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

O CORDEIRO IMOLADO

Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Mote deste colunista

Após breve julgamento
Em virtude dos seus atos,
Condenado por Pilatos
E um povo virulento,
Crucificou-se o rebento
De Deus, três horas após.
Tendo o povo por algoz,
No seu voto derradeiro,
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Melchior SEZEFREDO Machado

É necessário entender
Que a missão de Jesus
Não foi só morrer na cruz
Nem as curas por dever
Os corpos devem morrer
Deixando a matéria após
A grande missão é a voz
Do Evangelho verdadeiro
Jesus o Santo Cordeiro
Foi imolado por nós.

Merlanio Maia

Lavou as mãos o Pilatos
Após condenar um Santo
Santa Cláudia pediu tanto
Pra evitar os maltratos
Ao Messias, mas seus atos
Vieram de forma atroz
Judas foi o seu algoz
O trocando por dinheiro.
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Leo Brasil

Enviado para salvar
Ele foi crucificado
Não tinha nenhum pecado
A lição foi nos mostrar
Que ia ressuscitar
Da sua morte logo após
Até hoje a sua voz
Ecoa no mundo inteiro
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Cabal Abrantes

Foi levado até a cruz
Para a crucificação
De cada lado um ladrão
Crucificaram Jesus
Mas veio a divina Luz
Ofuscando o seu algoz
E do céu ouviu-se a voz
De Deus, Seu Pai verdadeiro.
Jesus, o Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Poeta Nascimento

O profeta Jeremias
Há muito profetizava
Que Deus-Pai já preparava
A chegada d’O Messias.
Foi em suas profecias
Que a verdade teve voz:
Seiscentos anos após
Concretizou-se o roteiro.
Jesus, O Santo Cordeiro,
Foi imolado por nós.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A FAZENDA DO LETREIRO

Vista aérea da fazenda do meu tio Zezinho Maurício, Sítio Letreiro no município de Altinho-PE 

Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Mote deste colunista

Com as porteiras fechadas
Pra não molhar o meu rosto
Senti na boca um gosto
A língua e boca travadas
Com as fotos espalhadas
A mente foi lá na idade
Quando eu tinha mocidade
Do rosto abri a janela
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Cabal Abrantes

A porta estava fechada
Depois que ela foi embora
Resolvi abrir agora
Às duas da madrugada
Uma saudade danada
Mudei até de cidade
Pra ter mais tranquilidade
Mas, vivo pensando nela!
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Poeta Nascimento

Passei um tempo esquecendo
Do meu passado feliz.
Fui eu, de fato, quem quis
Deixar de estar remoendo
E outras coisas fazendo
Viver com tranquilidade.
Passou o tempo, é verdade,
Ficou, porém, a cancela,
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Melchior SEZEFREDO Machado

Meu tio José Maurício,
Foi criador e roceiro,
Chegou ao sítio Letreiro
Para exercer seu ofício.
Com a família Simplício
Fez muito boa amizade,
Tinha como habilidade
Chicote, “macaca” e sela.
Hoje tirei a “tramela”
Da porteira da saudade.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

REFLEXÃO…

Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Mote deste colunista

Vá devagar, meu amigo,
Que a vida não volta atrás!
O tempo é sempre fugaz…
Em pouco, o novo é antigo
E eu vivo a pensar comigo:
Correr pra quê pela estrada?!
Se é sempre na caminhada
Que a gente colhe poesia,
Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Melchior SEZEFREDO Machado

Para que tanto cifrão
VSó somar não dividir
Por que não subtrair
Ajudando seu irmão
Se não leva no caixão
O que juntou na jornada
Deixa tudo na morada
Vai morar no céu um dia
Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Cabal Abrantes

Não adianta se estressar
Perder sua paciência
E ir parar numa Urgência
Em um bloco hospitalar
Se tudo aqui vai passar
Vem o final da jornada
E o fim dessa caminhada
Terminará qualquer dia
Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Poeta Nascimento

Não adianta tanta pressa
Tampouco ter alvoroço
Pra ir ao fundo do poço
Pois pouca coisa interessa
E se o nada é promessa
Dessa curta caminhada
Vou evitar na jornada
Levar tudo o que queria
Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Leo Brasil

Pra que dinheiro de Emenda,
Desvio e corrupção
Pra comprar uma mansão,
Um iate, uma fazenda?
E perder a vaga na Tenda
Da mais sublime morada
Ter a alma encarcerada
Na infernal enxovia.
Pra que tanta correria
Se Tudo vem a ser Nada?

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

PAISAGEM SERTANEJA

Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Mote deste colunista

Espetáculo todo dia
Foto imagem uma beleza
São coisas da natureza
Mas parece uma magia
Da natura é poesia
Temos a revelação
Do dia é terminação
Quando a noite vai chegando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Cabal Abrantes

Eu vi num entardecer
O sol indo descansar
Depois de muito brilhar
Sem ninguém reconhecer
O valor do seu poder
Fez ele parecer ser tão
Amável nesta questão
De ver o dia findando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Leo Brasil

Quatro horas da manhã
Já começa a clarear
A passarada a cantar
É disso que eu sou fã
O canto do maracanã
Olho e avisto o clarão
Dar até a impressão
Que Jesus está voltando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Poeta Nascimento

Um risco de luz se traça
Na escuridão do horizonte,
E antes que o sol desponte
Um tênue brilho já grassa
De forma inda um pouco baça.
Voltando a minha visão
Pro céu em transformação,
No parto do sol raiando,
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Melchior SEZEFREDO Machado

Vi um canário da terra
Na copa do umbuzeiro
Parecendo um seresteiro
No palco do pé da serra
Enquanto o torino berra
Já reclamando a ração
O vaqueiro passa a mão
Numa vaca amamentando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

POESIA É ALIMENTO

Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Mote deste colunista

Já amanheço pensando
No verso que vou fazer
Aí começo escrever
A mente vai clareando
Assim vou me alimentando
Com a métrica e oração
Rima e inspiração
É meu pão de cada dia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Poeta Nascimento

Da manhã é o café
É o almoço e o jantar
É no sonho pra sonhar
Acompanha a mulher
Pro poeta é sem mister
Vem de Deus inspiração
Entrando no coração
Mais parece uma magia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação.

Cabal Abrantes

Vamos plantar sentimentos
Na alma boa de lavra…
Vamos regar a palavra
Com bons e mais suprimentos…
Com olhos sempre atentos,
Plantar os versos no chão
Para colhermos então
O pão da sabedoria:
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Melchior SEZEFREDO Machado

Ela é minha vitamina
Minha vitalidade
É arte é vontade
Que a mim contamina
A poesia nos ensina
A espalhar emoção
Nutrindo o coração
Da mas bela fantasia
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Leo Brasil

Poesia é alimento,
É o que tem de melhor
Como disse Melchior,
Leo, Cabal e Nascimento.
Eu mesmo só me contento
Quando vem inspiração
Alço voo que nem Falcão
Na selva da fantasia.
Cuida, que a poesia
É nossa alimentação!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

TRÂNSITO EM JOÃO PESSOA

João Pessoa está ficando
Movimentada demais!

Mote deste colunista

Quando cheguei por aqui
Não tinha corre, nem fila,
A cidade era tranquila,
Confusões eu pouco vi.
Agora daqui pra ali
A gente já perde a paz,
De carro nem ando mais,
E a coisa só piorando,
João Pessoa está ficando
Movimentada demais!

Melchior SEZEFREDO Machado

Só tô saindo de casa
De Uber com a “muié”
Pois não posso andar a pé
A coluna me arrasa
Não posso mais bater asa
O tempo me botou pra trás
Véi, tem vontade, não faz
Termina se acomodando
João Pessoa tá ficando
Movimentada demais!

Poeta Nascimento

É culpa de Juliete
Que disse no BBB
Vão pra lá vocês vão ver
E isso virou chiclete
Todo ano se repete
Gente que nem satanás
Perdemos a nossa paz
Cada vez mais tão chegando
João Pessoa está ficando
Movimentada demais!

Ronaldo Barbosa

Está difícil de sair
Pelas ruas caminhar
De ir nas lojas comprar
E seu carro dirigir
Tá difícil ir e vir
Pelo que vi nos jornais
Turistas e marginais
O povo só reclamando
João Pessoa está ficando
Movimentada demais!

Leo Brasil

Quem pegar a João Maurício,
Meio dia, noite ou à tarde
Perceberá o alarde
E o nível do sacrifício
O motora em seu ofício
Grita: -Aqui não cabe mais!
O cobrador perde a paz,
Passageiro sai bradando:
-João Pessoa está ficando
Movimentada demais!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

HOMENAGEM AO POETA DAUDETH BANDEIRA

Conheci, pessoalmente, o poeta Daudeth Bandeira em Porto Velho, Rondônia, numa apresentação em dupla com Oliveira de Panelas, no SESC daquela capital.

Salvo engano, o ano era 1996.

Meu pai, Zé Vicente da Paraíba, falava muito nele e do seu talento na criação de poemas e canções e das andanças poéticas que ambos faziam, como consta neste recorte de jornal que está a seguir, do ano de 1975, em Aracaju-SE:

Poetas repentistas na redação de um jornal sergipano, em 1975. Da esquerda para a direita: Neve Branca, Zé Vicente da Paraíba, Pedro Bandeira, Palmeirinha da Bahia e Daudeth Bandeira.

Ao vir morar em João Pessoa, o reencontrei no Quiosque da Poesia, no bairro Oceania, onde poetas, declamadores, músicos e cantores de vários estilos, se encontravam aos sábados à tarde.

Fui ao seu aniversário de 80 anos, muitos poemas, músicas e fotos naquela noite em sua homenagem.

Oliveira de Panelas, este colunista e o poeta Daudeth Bandeira no SESC de Porto Velho, Rondônia, no ano de 1996.

Hoje, sétimo dia da sua partida, presto-lhe uma singela reverência, lembrando da sua pessoa e da sua obra para o Repente e para a música popular nordestina.

Siga em paz, poeta Daudeth!

Este colunista ao lado do poeta Daudeth Bandeira

* * *

Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!

Mote de Marciano Medeiros

O mastro da poesia
Amanheceu sem o pano
Parte o vate veterano
Da arte da cantoria
Findou-se a sua agonia
Em meio à humanidade
E o passo pra eternidade
Fez a flexão primeira
Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!

Sua “Nordestinação”
Defendida em Festivais
Entrará para os anais
Da história da canção.
Quem decantou o sertão,
O agreste e a cidade
Inspirará, na verdade,
Uma geração inteira.
Partiu Daudeth Bandeira
Deixando forte saudade!