WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

BODEGA NORDESTINA

Na bodega nordestina
Tem, além da aguardente,
Anzol, espoleta, charque,
Cajuína, escova, pente,
Tem Conhaque de Alcatrão
E um rádio Campeão
Pro dono escutar Repente.

O colunista fubânico Jesus de Miúdo na bodega do também colunista Jessier Quirino

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

PARTIDA

Foi com dor no coração
Que eu deixei o meu lugar.

Mote de Normando

Registrei aquela cena,
Na mente igual uma tela,
Mãe chorando na janela
Com a minha irmã pequena.
Tive tanta dó e pena
Que até me faltou o ar,
Pra trás evitei olhar
Disfarçando a emoção,
Foi com dor no coração
Que eu deixei o meu lugar.

Jr Adelino

Era dia vinte e seis
De junho de oitenta e sete…
A saudade, essa gillete,
Cortou-me a primeira vez.
Mamãe com sua altivez
Disse: – Vou lhe abençoar!
Vendo meu pai abraçar
A viola e o meu irmão.
Foi com dor no coração
Que eu deixei meu lugar.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

JESUS CRISTO, O SALVADOR (Fragmentos)

Autor: Zé Vicente da Paraíba, pai deste colunista

A Virgem, no coração
Conservava a sua fé,
Com Pedro e com Salomé,
Junto Madalena e João;
A Santa Ressurreição
Esperava outra Maria:
Chegava o terceiro dia,
De Jesus ressuscitar
Para se realizar
O que Cristo lhes dizia.

Quando o tempo se venceu,
Entre a mofa dos soldados
Que saíram, apavorados,
Quem estava ali correu.
Quando o anjo apareceu,
Direto a eles falou:
– A pedra se levantou!
O anjo disse também:
– Digam em Jerusalém
Que Jesus ressuscitou!

Madalena foi levar
Aromas à Sepultura;
O Mártir da Escritura
Não estava no lugar…
Começou a indagar
A dois mancebos que via,
Na tristeza que sentia
Um homem se apresentou
E a ela perguntou:
– Por que tu choras, Maria?

Madalena perturbou-se
Diante o olhar sereno;
– Meu Senhor, o Nazareno!
E dando um grito, prostrou-se.
Ela bastante alegrou-se,
Por ser quem primeiro o via
(Ela também não sabia
Que a primeira visita
Jesus fez à Mãe aflita,
Bendita Virgem Maria).

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

DOIS ZÉS

Este meu gosto poético
Que trago desde menino,
Fincado em tantas raízes
Do meu rincão nordestino.
Devo a dois Josés, somente:
Metade pra Zé Vicente,
Metade a Zé Laurentino.

Por Decreto do Destino,
Dois homens do interior:
Um, cantador de viola;
O outro, exímio escritor.
Quanta sensibilidade…
Sem título de Faculdade
E nem anel de Doutor.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

MIRAGENS

Só vejo você chegando
Nos meus sonhos, nada mais!

Mote de Fátima Marcolino

Como um José do Egito,
Na minha rede deitei,
Adormeci e sonhei
Com o seu rosto bonito.
Naquele sublime rito
Tive perfeitos sinais
E quando corri atrás
Você foi se afastando.
Só vejo você chegando
Nos meus sonhos, nada mais!

Igualzinho um garimpeiro
Procurando uma pepita,
Vago na noite esquisita
Buscando, em vão, teu roteiro.
Lá na Praça do Coqueiro
É que aumentam os meus ais,
Revendo os cartões postais
Deito no banco chorando.
Só vejo você chegando
Nos meus sonhos, nada mais!

Essa procura não finda
Lhe procurei em Itu,
No Vale do Pajeú,
Caruaru e Olinda.
Será que lhe vejo ainda?
Peço ajudas divinais
E forças celestiais
Para seguir procurando.
Só vejo você chegando
Nos meus sonhos, nada mais!

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

PORTO VELHO DAS ANTIGAS

Velho “Tartaruga Clube”,
(Foste Mercado do Amor!).
Teus boêmios já morreram,
As damas? Não têm vigor…
Veio abaixo o teu reinado,
Hoje és chão malassombrado
Sem teto e sem morador.

Famosa esquina da Afonso Pena com Marechal Deodoro, onde por muitos anos, existiu o “Tartaruga”, um dos mais antigos cabarés de Porto Velho, Rondônia

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CONDOREIROS

Nos Alpes do bom humor
Eu sou ave condoreira…
Alçando voos longíquos,
Vivendo sem ter besteira.
Quando caio me levanto,
Sigo em frente, enxugo o pranto
E depois sacudo a poeira.

Jr. Adelino

Eu sou da mesma maneira
Também me sinto um condor
Nas cordilheiras da vida
Voando com destemor
Sobre o reinado do ser
Ouvindo o povo dizer!
– Ô! Cabra véi sonhador!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

GLOSAS VIRTUAIS

Sou poeta prosador
Declamo por todo canto.

Mote de Raniery Abrantes

Gosto muito de uma prosa
Quando se fala em amor,
Como gosto de uma flor
Que muitos chamam de rosa.
Uma mulher carinhosa
Confesso, nem sei o tanto!
Com meus versos eu encanto
Me chamam conquistador.
Sou poeta prosador
Declamo por todo canto.

Poeta Nascimento

Não sou poeta de versos
Que se prendam ao papel…
Passarinho, sonho o céu
E os cantos mais diversos.
Partituras, sons imersos,
Me provocam desencanto…
Meus versos canto, portanto,
Sem cantá-los sinto dor:
Sou poeta prosador,
Declamo por todo canto.

Melchior SEZEFREDO Machado

Sou um matuto roceiro
Não sei andar na cidade
Mas com sensibilidade
Vejo além do meu terreiro.
A choupana é meu mosteiro,
Cantoria, o acalanto,
Minha devoção por Santo?
– Santo Antônio, com fervor!
Sou poeta prosador
Declamo por todo canto.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

SAUDADE

Não ter saudade de nada
É burrice, creio eu.
Saudade revive as cenas
De tudo o que aconteceu.
Sem saudade dolorida
Só se passou pela vida,
Vegetou, mas não viveu.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CEGO ADERALDO

O poeta Sebastião Dias contava que em uma cantoria no Mercado de Fortaleza, Cego Aderaldo cantava com um cantador jovem que, sabendo que Aderaldo, mesmo solteiro, criava sete filhos adotivos, cutucou:

Não sei por que este cego
Nunca pensou em casar.

Cego Aderaldo respondeu na deixa:

Até pensei em casar
Falo a verdade, não nego!
Mas com minha experiência
Batata quente eu não pego.
Quem tem vista leva chifre
Imagine eu que sou cego!

Cego Aderaldo em foto de 1949. Publicada na revista O Malho em maio de 1953