Zé Vicente da Paraíba, pai deste colunista; recorte da capa do LP “Repentes e Repentistas”, Gravadora Rozenblit, Recife, 1973; Arte do amigo Michelângelo Wandrol.
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Em um banco na calçada, Depois da hora da janta, Meu pai tocava a viola Já cansado da garganta. No canto que ele cantava Hoje a saudade é quem canta.
Poeta João de Lima
A minha se agiganta Quando vou a casa dele. Recito uns versos que um dia Eu fiz inspirado nele. Volto sem ter avistado Nem a viola e nem ele!
Fui fazer uma faxina no armário Que há anos é depósito de ilusões Encontrei amarelas as canções Que saíram do meu mundo imaginário E das peças que já foram vestuário Tinham umas mofadas, outras pretas, Estouradas encontrei doze canetas Que narraram meus amores infantis Numa caixa entreguei para os garis As tristezas entulhadas nas gavetas.
Foi em Mil e Setecento Quando o meu tataravô Há muito tempo morô Aqui nesse apartamento. A cangalha e o jumento: Algumas coisas que tinha, Meia dúzia de galinha, Um gato e um papagái. O pai do pai de papai Morava nessa casinha.
Poeta Fifia da Cabeça de Boi
A casa foi construída De vara, barro e cipó. Por minha tataravó Foi muitas vezes varrida. A paz viveu escondida Nesta humilde taperinha Quando chego à porteirinha A lágrima no olho cai. O pai do pai de papai Morava nessa casinha.
Tem na paixão de verdade De um amor do passado, Tem no velhinho cansado Com o peso da idade. Tem na palavra saudade, Na dor sentida no peito, No casamento desfeito, Numa orquestra em sinfonia. Em tudo tem poesia Só precisa olhar direito.
Severino Damasceno
Tem na benção que mãe dá, Com sua voz já cansada, Tem nas notas da toada Do cantador sabiá, Tem na fruta do juá, No trabalhador no eito, No frade que traz no peito A devoção por Maria. Em tudo tem poesia Só precisa olhar direito.
Eu nasci pra ser alguém Com luz própria no trajeto E não pra ser objeto Pessoal de seu ninguém. Nunca mais serei refém Dos teus covardes papéis E dos teus atos infiéis Eu prefiro nem lembrar. Não pude mais aturar Os teus abusos cruéis.
Zé de França
Você pediu que eu ficasse, Contra a vontade, fiquei, Que nem um monge rezei Pra que tudo suportasse. Percebi que nosso enlace Constava só nos papéis Pode vender os anéis E a minha parte negar Não pude mais aturar Os teus abusos cruéis.
Quando eu quero lhe falar Entro em transe e oração Falo pelo coração Sei que ele vai me escutar Começo então a rezar Foi assim desde menino Ouço voz escuto o sino No ouvido em paralelo A oração é o elo Que nos contata ao Divino.
Cabal Abrantes
Quando faltar esperança, Quando sobrar desespero, Reze com fé e esmero, Peça a Deus-Pai confiança. Quem é com Ele não cansa, Tem o vigor de menino… Proteja, pois, seu destino, Seja qual for o duelo, A oração é o elo Que nos contata ao divino.
Melchior SEZEFREDO Machado
Em silêncio no meu peito Logo de manhã cedinho Acordo com passarinho Falo com Deus do meu jeito. As vezes nem sei direito E choro igual menino Contando os meus “pepino” Vejo quanto Deus é belo. A oração é o elo Que nos contata ao Divino.
Novo Abrantes
Minha mãe me ensinou A rezar desde pequeno Eu pedia ao Nazareno Ele nunca me faltou E até hoje inda estou Pedindo pro Deus-Menino Que proteja o meu destino Da tristeza do flagelo. A oração é o elo Que nos contata ao Divino.
Patativa Golada. Ave que emprestou o nome ao poeta Patativa do Assaré
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Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Mote deste colunista
Assoviar não sei não, Cantarolar nem um pouco. Eu já nasci quase rouco Não sei tocar violão. Do ritmo, sou um vilão, Não sei nem mesmo solar, Mas para lhe acompanhar Vou ligar o meu radinho. Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Cabal Abrantes
Sem saber tocar violão O pássaro já vai cantando, Sua alegria espalhando Por toda a imensidão. Não estudou uma lição, Já eu tive que estudar, Por não saber imitar Eu lhe peço com carinho. Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Leo Brasil
Sou muito desafinado, A minha voz é ruim. Sou gago, nasci assim Já estou acostumado. Meu canário é afinado Peço pra me auxiliar Só não pode me ensinar, Mas, tem vontade, o bichinho! Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Poeta Nascimento
Sempre quis ser um cantor, Era um sonho de criança, Trago ainda na lembrança, Rememoro com rubor. Cantar a dor e o amor A mulher e o seu olhar Uma plateia encantar, Mas não canto direitinho… Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Raniery Abrantes
Não tenho a capacidade, Que dirá tanto talento! Perto de ti, sou rebento, Menino de pouca idade. Admiro a liberdade, Pois no céu podes voar. Aprendi a te escutar E por ti nutro carinho. Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Ytalo Mota
Meu passarinho sem medo, Solto no mundo a voar, Ah! Se eu pudesse cantar Pra desfiar meu enredo! Mas há no canto um segredo, Que eu não sei desvendar E pra não desafinar, Peço com todo carinho: Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Melchior SEZEFREDO Machado
Oh! Canora Patativa Golada do pé da serra, Chame o Canário da Terra Pra comporem uma toada. Meu Sabiá da estrada, No dia em que eu passar, Pode me acompanhar Cantando pelo caminho. Cante por mim, passarinho! Pois nunca aprendi cantar.
Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
Mote de Vanilson de Souza Silva
Uma prece que chegou ao Pai Eterno Do roceiro mais contrito do sertão Faz com que O Divino olhe pro chão E mande abrir as torneiras do inverno E o que foi até pouco aquele inferno Vira logo um recanto de bonança, Pois a fé quando chega na balança Pesa mais que o prato do pecado. Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
É daí que a terra entra no cio Esperando a semente no seu ventre, A lagoa pede ao sapo que concentre Mais coaxos no grande desafio, Os peixinhos desovam pelo rio, A devota reza mais e não se cansa, À noitinha, vem a lua e também lança Um sorriso ao lugar abençoado. Cai a chuva no colo do roçado Germinando o pendão da esperança.
Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Mote do poeta Asa Branca do Ceará
Já fui moço e já fui belo, Já esbanjei elegância, Na areia da arrogância Edifiquei meu castelo. Hoje o meu riso amarelo, Meio nicotinizado, É o retrato-falado Dos meus dias obscuros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Aos conselhos paternais Eu nunca dei atenção, Qualquer orientação Era intromissão demais. O que fiz com os meus pais Hoje recebo dobrado: O meu filho revoltado Só me traz grandes apuros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Cada paixão desprezada Por este meu coração Transformou-se em tropeção Que sofro na caminhada. Espinhosa é minha estrada, Pois o trajeto traçado Parece até desenhado Por promotor de enduros. Estou pagando com juros Tudo o que fiz no passado.
Começa com o tico tico Taco taco chuá chuá Cai aqui cai acolá Tingolingo no penico Que linda orquestra! Diz Chico E o povo fica encantado Reza à beira do roçado Que está de verde vestido Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Merlanio Maia
Deitado na minha rede Olhando pra cima eu vejo Quando dá um relampejo Meto meu pé na parede. Me balanço, tenho sede Abro a boca e o respingado Cai na rede e eu molhado Só escuto no ouvido. Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Cabal Abrantes
Mistério da natureza E fonte de toda vida, A água jorra incontida Num bailado de beleza, Em fúria ou delicadeza, Do céu todo acinzentado. Num dia fresco e molhado, Afino o meu ouvido… Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Melchior SEZEFREDO Machado
É de assustar, no início; Logo após, tudo se acalma. Os pingos tilintam na alma, Ao amor fico propício; Do friozinho é o indício, Da natureza, um recado. Observo, fico calado. O som acalenta o ouvido… Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Ytalo Mota
Escuto no meu ranchinho A chuva que cai na telha E do relâmpago a centelha Que clareia o escurinho Logo de manhã cedinho O terreiro tá molhado Biqueira por todo lado Vem da mulher o “muído” Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.
Poeta Nascimento
A chuva é a mensageira Da bonança pro roceiro É o bem mais prazenteiro Para o povo da ribeira Que quando olha a biqueira Colhendo o que foi mandado Por Deus Pai santificado Fica muito agradecido Como é bonito o tinido Da chuva sobre o telhado.