1990 – It Must Have Been Love

Sarney personifica o Brasil velho: o senhor que controla eleitores, cargos e favores, e que, quando conveniente, se alinha a quem está no poder. O PT de Lula que um dia se apresentou como antítese desse mundo, há muito tempo convive com ele.
A visita de Lula a José Sarney, em São Luís, poucos dias antes do segundo turno, não foi gesto de cortesia a um ex-presidente de 96 anos. Foi o retrato, em cores vivas, do que ainda governa partes do Brasil: o coronelismo arcaico abraçado ao populismo de Estado. Lula, acompanhado de Janja, Roseana Sarney e outros aliados de sempre, foi prestar homenagem ao patriarca de um clã que por décadas tratou o Maranhão como propriedade privada. O encontro, registrado em fotos de sorriso largo, ocorreu depois de ato de campanha e à beira de uma eleição em que o petista precisa de cada voto do Nordeste. Não é nostalgia. É cálculo.
Sarney personifica o Brasil velho: o senhor que controla eleitores, cargos e favores, e que, quando conveniente, se alinha a quem está no poder. O PT de Lula que um dia se apresentou como antítese desse mundo, há muito tempo convive com ele. No Maranhão, as alianças com o sarneysismo já atravessaram governos e oposições. O populismo atual apenas modernizou o método: em vez de cabresto puro, combina a estrutura oligárquica local com a distribuição massiva de benefícios federais. O resultado é o mesmo de sempre – a perpetuação da dependência.
Os números do Maranhão mostram o preço dessa política. O estado tem o menor IDHM do país (0,745 em 2024) e o menor PIB per capita, em torno de R$ 22 mil – menos da metade da média nacional. A extrema pobreza (renda inferior a US$ 2,15 por dia) atinge cerca de 10% da população, a mais alta do Brasil; a pobreza (US$ 6,85) chega a quase 46%. Quatro dos cinco municípios com menor PIB per capita do país estão no Maranhão. Décadas de domínio familiar e de clientelismo federal não produziram desenvolvimento; produziram eleitorado cativo e elites locais que se renovam no poder.
Esse modelo só se sustenta porque as instituições que deveriam fiscalizar o uso da máquina pública e a igualdade eleitoral estão aparelhadas ou paralisadas. A coluna de Roseann Kennedy no Estadão descreveu com precisão o esvaziamento do TSE neste período eleitoral: o tribunal, que deveria ser protagonista, tem seu poder reduzido enquanto ministros do STF alinhados a interesses do governo tendem a neutralizar decisões de Nunes Marques e André Mendonça. O resultado é previsível – condutas que em tese violam a legislação passam sem consequência efetiva.
Reportagem da Gazeta do Povo deixa o quadro ainda mais claro. Especialistas em direito eleitoral, como Alexandre Rollo, apontam que o pacote de bondades anunciado por Lula às vésperas da eleição – reajuste do Bolsa Família, subsídios a combustíveis, Desenrola 3.0, Pix MEI, perdão de dívidas de MEIs e outras medidas – fere o artigo 73 da Lei 9.504/97, que proíbe condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos. O impacto fiscal estimado pela Instituição Fiscal Independente do Senado beira R$ 300 bilhões. Há ainda risco de abuso de poder político (Lei da Inelegibilidade) e descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. O governo nega; o TSE, até agora, tem sido leniente. A ação do Novo pedindo cassação já está no tribunal, mas o histórico recente sugere pouca disposição para enquadrar o ocupante do Planalto.
O voto de cabresto, portanto, não morreu. Apenas mudou de instrumento. Onde antes havia o coronel e o jagunço, agora há o cartão do Bolsa Família, a antecipação de pagamento, o crédito subsidiado e a propaganda institucional disfarçada de política social. Tudo isso em um Estado cuja estrutura política local continua sob influência das mesmas famílias. O TSE, cego ou amordaçado por composições políticas superiores, não enxerga – ou não quer enxergar – a assimetria. A igualdade de armas na disputa eleitoral vira ficção.
O Maranhão é o caso extremo, mas o método se espalha. Onde a pobreza é profunda e o Estado é o principal provedor, o populismo eleitoral encontra terreno fértil. A combinação de oligarquia tradicional e máquina federal clientelista não é acidente; é o modelo de poder que ainda rende votos e cargos. Enquanto as instituições de controle permanecerem submetidas a cálculos partidários, o ciclo se renova.
O Brasil não precisa de mais abraços entre o velho coronelismo e o novo populismo. Precisa de ruptura com essa política suja – a que compra voto com recurso público, protege clãs locais e neutraliza a Justiça Eleitoral quando convém. Sem isso, o desenvolvimento continuará a ser promessa e a dependência, realidade. A libertação começa quando o eleitor deixa de aceitar o cabresto, seja ele de couro ou de benefício social.
Lula vai renunciar…🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣 https://t.co/7zoXvx1ZjN
— Lueci (@luecifabretti) October 21, 2026
Guilherme Fiuza

Lula durante o debate na Band: entre reclamações e gafes, o presidente se complicou com as próprias palavras
Lula encerrou sua participação no debate da Band afirmando que aspira a um quarto mandato para poder anunciar que “o Brasil acabou”. Foi a gafe mais famosa do duelo com Flávio Bolsonaro, mas houve quem considerasse que se tratou, na verdade, de um ato falho.
Ato falho é quando a pessoa diz sem querer aquilo que realmente pensa ou sente. É uma boa questão: o que será que Lula pensa, de fato, da sua presença no comando da nação? Segundo Roberta Luchsinger, em entrevista à CNN, afastando-se a hipótese de senilidade, Lula seria mentiroso. Ela não especificou de qual tipo: o mentiroso que só mente para os outros? Ou o que mente para si mesmo — e acredita na própria mentira?
Às vezes, Lula parece confiar no seu discurso — e talvez a assessoria consiga de fato convencê-lo da veracidade do que está dizendo. Especialmente sobre economia, o presidente tem sido enfático, nos debates e sabatinas, sobre a premissa de que seu governo não é deficitário. É um ponto para os especialistas se debruçarem, considerando-se que o próprio Banco Central assinala expansão fiscal exagerada, gerando pressão inflacionária e endividamento crescente. É verdade, esse bilhete?
Lula já admitiu usar números fantasiosos no terreno dos indicadores sociais, quando disse que apresentou dados exagerados sobre crianças vivendo nas ruas brasileiras. Chegou a contar de forma irreverente que foi alertado pelo arquiteto Jaime Lerner de que aqueles dados eram irreais. Não ficou claro se até então Lula acreditava na informação equivocada que estava transmitindo.
O processo de endividamento é bastante claro e indisfarçável, mesmo com bons filtros da assessoria. Numa entrevista, o presidente disse que não se preocupava com isso. Em outra, para a mesma emissora, declarou que a situação da dívida o preocupa.
Pode ser que não o preocupe de fato. Pode ser que ele considere ser um efeito colateral administrável — e tenha manifestado preocupação para sinalizar responsabilidade. Se “o Brasil acabou” tiver sido apenas uma gafe, e não um ato falho, pode ser que o presidente acredite que o país vá resistir bem aos solavancos administrativos. E talvez acredite que a deterioração dos indicadores seja consequência da conjuntura — e não resultado direto da forma como seu grupo político exerce o poder.
Sem dúvida, o apoio propagandístico oferecido ao PT por setores influentes da sociedade — do meio acadêmico ao meio artístico, passando pelo meio jornalístico — deve contribuir para uma certa anestesia de consciência presidencial. Notadamente no meio artístico, o alcance da adesão a Lula cria um discurso bastante estimulante para o governo.
Mas há quem considere isso uma fantasia pueril. É o caso do músico Carlos Maltz, integrante da banda Engenheiros do Havaí. Ele gravou um vídeo sobre o assunto — do qual vale destacar o trecho a seguir:
“Não é nem uma questão política isso, senhores. Essa mudança de ares é uma questão da gente poder sobreviver. O problema maior do nosso país não é a direita e a esquerda. É a superficialidade, senhores. É a infantilidade com que as pessoas lidam com as coisas. Quando eu vejo declaração política de artista aí, dá vontade de pegar os caras no colo e cantar ‘nana nenê’. Um monte de ideia, um monte de slogan: ‘A liberdade!’, ‘a democracia!’, ‘a arte!’, ‘em nome da cultura eu vou votar em não sei quem’… Meu amigo, dá vontade de pegar no colo.”
Para Carlos Maltz, a eleição presidencial é de fato um momento de vida ou morte. Ele está falando em sobrevivência. Se “o Brasil acabou” tiver sido um ato falho, Lula concorda com ele.
A sequência de medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que beneficiam parte expressiva da população ou com forte apelo popular neste ano de disputa eleitoral configura infração a uma série de dispositivos legais, segundo especialistas em Direito Eleitoral e contas públicas.
* * *
O descondenado praticando infração a dispositivos legais…
Não há motivo pra espantos.
Só pra emputecimento.
Tá tudo dentro dos conformes lulo-petralhas.
Sobre o desafio das contas abertas do Lula, um poeta anônimo mandou versos lá do Nordeste:
Lula diz que abre as contas,
Eu acho uma coisa certa.
No entanto, eu desconfio
Que em qualquer conta aberta
Que o Lula apresentar
Não vai ter saldo a mostrar.
E o motivo é muito claro:
Nos negócios que ele explora,
Recebe tudo por fora
Como fez com o Vorcaro.
Lula diz que quer expor
Os dados do celular
Mas nesse caso também
Não vai ter o que mostrar.
Pois o próprio Lula disse:
“Celular é uma chatice,
Que me deixa incomodado”.
Pra fazer uma ligação,
Ele sempre lança mão
De um telefone emprestado.