COLUNA DO BERNARDO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO (III)

Orlando Tejo (1935- 2018), e o seu livro, que já vai na 11ª edição, e foi tema de vários documentários, teses, artigos e estudos

* * *

Frei Henrique de Coimbra
Sacerdote sem preguiça
Rezou a Primeira Missa
Na beira duma cacimba
Um índio passou-lhe a bimba
Ele não quis aceitá
E agora veve a berrá
Detrás dum pau de jureme
O bom pescador não teme
As profundezas do mar.

* * *

No tempo do Padre Eterno
Getúlio já governava
Prantava feijão e fava
Quando tinha bom inverno
Naquele tempo moderno
São João viajou pra cá
Dom Pedro correu pra lá
Escanchado num tratô
Canta, canta, cantadô
Que teu destino é cantá.

* * *

Eu cantei lá no Recife
Dentro do pronto socorro
Ganhei 500 mil réis
Comprei 500 cachorros
Morri no ano passado
Mas neste ano, não morro.

* * *

Frei Henrique descansou
Nas encosta da Bahia
Depois fez a travessia
Pra chegá onde chegou
Pegou a índia, champrou
Ela não pôde falá
Assou carne de jabá
Misturou com querosene
O bom pescador não teme
As profundezas do mar.

* * *

Um General de Brigada
Com quarenta grau de febre
Matou um casal de lebre
Prá comê uma buchada…
Quando fez a panelada
Morreu e não logrou dela
Porco que come em gamela
Prova que não tem fastio
Peixe só presta de rio
Piau de tromba amarela.

* * *

Na corrida de mourão
Quem corre mais é quem ganha
São Thomé vendia banha
Na fogueira de São João
Foi na guerra do Japão
Que se deu essa ingrizia
Camonge quage morria
Da granguena berra-berra
Quem se morre é quem se enterra
Adeus, até outro dia.

* * *

Às tantas da madrugada
O vaqueiro do Prefeito
Corre alegre e satisfeito
Atrás da vaca deitada
Deitada e bem apojada
Com a rabada pelo chão
A desgraça de Sansão
Foi trair Pedro Primeiro
O aboio do vaqueiro
Nas quebradas do Sertão.

* * *

Jesus foi home de fama
Dentro de Cafarnaum
Feliz da mesa que tem
Costela de guaiamum
No sertão do cariri
Vi um casal de siri
Sem compromisso nenhum.

* * *

Jesus ia rezar missa
Na capela de Belém
Chegou Judas Carioca
Que viajava de trem
Trazia trinta macaco
Botou tudo num buraco
Não tinham nenhum vintém.

* * *

Jesus saiu de Belém
Viajando pra o Egito
No seu jumento bonito
Com uma carga de xerém
Mais tarde pegou um trem
Nossa Senhora castiça
De noite Ele rezou Missa
Na casa dum fogueteiro
Gritava um pai-de-chiqueiro:
Viva o Chefe de Puliça!

* * *

São Pedro, na sacristia
Batizou Agamenon
Jesus entrou em Belém
Proibindo o califom
Montado na sua idéia
Nas ruas da Galiléia
Tocou viola e pistom.

* * *

Um professor de francês
Honestamente dizia:
Tempo bom era o moderno
Judas só foi pro inferno
Promode a virgem Maria.

* * *

Minha muié chama Bela
Quando eu vou chegando em casa
O galo canta na brasa,
Cai o texto da panela
Eu fico olhando pra ela
Cheio de contentamento
O satanás num jumento
Pra mordê a Mãe de Deus
Não mordeu ela nem eus
Diz o novo testamento.

* * *

Eu vi numa gavetinha
Da casa de João Moisés
Mais de cem contos de réis
Só de ovo de galinha
Ela comeu uma tinha
Da carcaça de um jumento
Que bicho mais peçonhento
É lacrau e piôi de cobra
Não pode mais fazer obra,
Diz o novo testamento.

* * *

Eu me chamo Zé Limeira
Cantadô qui num é tolo
Sei tirá couro de bode
Sei impaiolá tijolo
Sô o cantado milhó
Qui a Paraiba criou-lo.

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POETA MERLÂNIO MELO FALA SOBRE ZÉ LIMEIRA

DEU NO JORNAL

UM MARGINAL JORNALISTEIRO SEM UM PINGO DE VERGONHA NA CARA

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No dia de hoje, a briosa classe dos trabalhadores caminhoneiros está protestando em massa contra as absurdas medidas restritivas baixadas por Agripino Doria, o ditadorzinho de quinta categoria que oprime e sacaneia a população do mais rico estado da federação.

Marginal, Diogo Mainardi, é um fela-da-puta assim feito você, que ofende a operosa classe dos caminhoneiros, cujo trabalho é fundamental pra toda a população do Brasil, inclusive pra você, seu idiota da cara-de-pau.

Marginal é qualquer canalha do teu porte, Diogo Mainardi, que defende outro marginal do porte de Agripino Doria

Vai tomar no olho do teu rabo, Diogo Mainardi, seu jornalisteirinho safado!!!

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ELIEL MUNHOZ – JOINVILLE-SC

Um absurdo.

Não consigo entender isso.

O Brasil não é mesmo um país para amadores.

Dois anos e três meses de governo e não pareceu nenhum escândalo de corrupção no governo federal até agora!!!

Algo muito sem graça.

Que é que está acontecendo???

Exijo a volta do PT em 2022.

GUILHERME FIUZA

PIB DECEPCIONA AS CASSANDRAS

O resultado do PIB foi uma decepção. Depois das projeções que chegavam a quase 10% de queda, como a do FMI, o recuo de apenas 4,1% desapontou a todos os que trabalham sem descanso pela destruição do país. Não pense que é fácil você achar que está no meio da tempestade perfeita, com a ajuda de um vírus muito contagioso e a concorrência de medidas totalitárias tão contagiosas quanto, e após um ano de esforço ainda ficar na dúvida se a quebradeira vai se impor em definitivo ou não. É desanimador.

Mas as cassandras são persistentes e não vão desistir facilmente. Não é de hoje que elas estão aí no front. Você achou que fosse só para derrubar o governo? Sabe de nada, inocente. É claro que é para derrubar o governo. Mas Bolsonaro é só a caricatura da vez. Fora, Temer! Você se esqueceu?

Então vamos lembrar. Não tinha covid, não tinha Bolsonaro, não tinha gabinete de ódio, mas a resistência cenográfica já estava em fúria, com a faca entre os dentes. Depois do impeachment de Dilma Rousseff, iniciou-se a agenda de reconstrução do país – agenda de quem trabalha e não quer viver para sustentar parasitas fantasiados de progressistas, empáticos, humanitários etc. Uma agenda de reformas – com destaque, naquele momento, para a fiscal, a trabalhista e a previdenciária.

Michel Temer não era o proponente dessa agenda nacional (que alguns chamavam de programa Ponte para o Futuro). Era o executor possível, com o afastamento da presidente. Ele poderia ter virado as costas para esse conjunto de ações até óbvias – após mais de década de rapinagem petista – e instaurado o governo das raposas do PMDB, mas não fez isso.

Montou uma equipe majoritariamente técnica, que acabaria consagrando Ilan Goldfajn como o melhor presidente de bancos centrais do mundo em 2018 (ranking do grupo Financial Times) – após uma série de conquistas macroeconômicas em tempo recorde, como a redução histórica (e consistente) dos juros, em contraponto ao ruinoso populismo monetário anterior.

Naquele momento o Brasil saiu da maior recessão de sua história também em tempo recorde, com recuperação impressionante da Petrobras, a empresa estuprada por Lula e seu bando. O risco-país despencou e os investidores externos voltaram a confiar – inclusive pela retomada da responsabilidade fiscal (após o show das pedaladas) com a recomposição do teto de gastos. Mas isso tudo já era o fim do mundo – para você que acha que o mundo só está acabando agora. Aliás, a PEC do Teto de Gastos foi apelidada por essa resistência cenográfica – com apoio até daqueles subcomitês panfletários da ONU – de “PEC do Fim do Mundo”. Pesquisa aí. Se a limpa dos Senhores da Verdade ainda não tiver corrigido essa parte da História, você haverá de encontrar.

Omundo estava acabando porque Temer era branco e velho. Tinha uma mulher jovem e bonita, mas era “recatada e do lar” — enfim, um conjunto de problemas intoleráveis para os democratas de folhetim, que não paravam de gritar “Fora, Temer” e fizeram até passeata por “Diretas já”. Contando ninguém acredita. Sem a ajuda da covid, tiveram de lançar mão do Janot. Era o procurador-geral da época, que montou uma delação vagabunda (depois suspensa) com um bilionário laranja do PT (depois preso) para tentar derrubar o presidente. Viu como o problema deles não é o Bolsonaro?

O problema é o PIB. Ele tem que ser o pior possível para ajudar os vendedores de histórias tristes, de institutos salvacionistas, de terrenos na Lua, de ONGs e partidos novinhos em folha. Muitos dos defensores da agenda liberal de reforma do Estado fizeram cara de nojo quando elas entraram em marcha em 2016/17. Surfaram vergonhosamente no “Fora, Temer” — que garantia manchetes e aparições na TV. Fernando Henrique Cardoso, a quem o país deve uma das principais reformas da sua História, era visto pedindo a renúncia do presidente a partir da conspiração Tabajara de Janot, Joesley e cia. Esse presidente não era o Bolsonaro e o pecado não era a cloroquina.

Já entendeu que tanto faz? Ou quer conversar mais um pouco? Não adianta colocar no leme uma equipe técnica capaz de elaborar e aprovar junto com o Parlamento uma reforma vital como a da Previdência. Isso foi feito em pouco mais de seis meses e matou de raiva os acionistas da destruição. Como esses fascistas ousam fazer reformas tão boas, de forma tão democrática? Só prendendo e arrebentando mesmo.

Então aí estão eles. Prendendo e arrebentando. O pretexto atual é sanitário. Mas ele vai passar, e virá outro. Até as girafas da Amazônia sabem disso.

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DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

EU E A PANDEMIA NAS ASAS DO CORDEL

1
Na mais serena rotina
Mansa a vida transcorria
Futuro bem programado
E um presente de alegria
Pois começava a colher
O que fiz por florescer
Tudo que plantei um dia.

2
No entanto quis o destino
Modificar meu traçado
Vi cada sonho ruir
E o presente destroçado
O caos chegou de repente
Deixando o povo impotente
E o mundo inteiro abalado.

3
Do covid 19
Dessa grande Pandemia
Hoje nós somos reféns
Vivemos essa agonia
Enfrentando isolamento
Adestrando o pensamento
Pra fugir da distimia.

4
Prosseguir era preciso
Nunca fui de esmorecer
Tentei sentar a cabeça
Pensando no que fazer
A Deus pedi direção
E fui fazendo oração
Buscando me proteger.

5
O começo foi difícil,
Eu tenho que concordar.
E muitos dos meus costumes
Tive que modificar.
Sem varinha de condão
Para a modificação
Fui obrigada a lutar.

6
Vesti-me de paciência
Pra viver sem liberdade
E mudei-me para o campo
Deixei de lado a cidade
Fui treinando meu olhar
Pra novo mundo abraçar
E acatar a realidade.

7
Os compromissos rompidos
Sem condições de assumir
O meu sorriso desfeito
Eu tenho que admitir
A única solução
Seria a transformação
Resolvi nisso insistir.

8
Bem distante dos perigos
A roça me adaptei
E com internet em casa
Logo me conectei
Fui ligando minha antena
E mesmo de quarentena
Meu trabalho continuei.

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JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE MEIO MINUTO (6)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna). Como os amigos leitores parecem ter apreciado as da terrinha, seguem outras.

* * *

DUDA GUENNES, filósofo. No elevador, só uma velha horrorosa. E Duda com cigarro na mão. Apagado. Ela, mostrando placa de Proibido Fumar, protestou:

– Não está vendo que é proibido fumar?

– O cigarro está apagado, minha senhora.

– Para mim, é a mesma coisa.

– Quer dizer que se estiver com um rolo de papel higiênico, na mão, eu estaria a cagar? E, se estivesse com um durex (no Brasil seria camisinha), nós estaríamos a fazer amor?

* * *

FLÁVIO BIERRENBACH, Ministro do STM. No restaurante A Severa, estavam ele e o Ministro José Carlos Dias com suas mulheres. Vendo chouriços com batatas ao murro, na mesa vizinha, pediram ao garçom:

– Queremos aquele prato.

– Lamento, mas não poderá ser, pois aquele já está servido a outros clientes.

* * *

JESSIER QUIRINO, poeta. Anotou propaganda de uma ótica, em Lisboa, com dois homens conversando:

– Vai fazer o que?, amanhã de manhã.

– Vou comprar óculos.

– E de tarde.

– Vou ver.

* * *

JOÃO RAMADA, com antiquário no Alvalade. Em sua terra, Trás-os-Montes, o padre da freguesia começou assim um sermão:

– Caros fiéis. Juro, pela felicidade dos meus filhos, que nunca pequei nessa vida.

* * *

Padre REIS. Na igreja de São Mamede (onde casou, em segunda núpcias, a mãe de Fernando Pessoa), bem pertinho de nosso apartamento, um cartaz dizia: “Até sempre, Sr. Padre Reis. Bem-vindo, Sr. Padre Ismael”. Perguntei a um velho, sentado na entrada,

– Que aconteceu ao Padre Reis?

– Foi-se.

– Morreu?

– Não, senhor, ainda não morri não.

* * *

RENATINHO MAIA, empresário. Hospedado no Lapa Palace (Lisboa), acordou com uma dor de cabeça monumental. Desceu e perguntou, ao porteiro,

– Há farmácias?, aqui perto.

– Sim, senhor, logo após virar a esquina.

Agradeceu, foi e estava fechada. Voltou irritado e interpelou o homem. Para ouvir,

– Mas o senhor queria saber só se havia alguma farmácia. Não perguntou se estava aberta.