ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

O ROUBO E O DEBOCHE

Não vou fazer aqui como Stendhal fez, escrevendo O Vermelho e o Negro (Le Rouge et le Noir) para mostrar uma divisão histórica e social de um país em um determinado tempo. Minhas pretensões são mais modestas. Todavia, segue a mesma desfaçatez da obra Os Irmãos Karamazov – e aposto que muito de vocês já estejam com os bagolinos cheios de tanto ler, aqui em minha coluna, sobre essa obra -.

Antes de eu me adentrar no tema em si, é bom fazer uma distinção clara, para o leigo, sobre roubo e furto. O roubo é um ato que envolve a presença da vítima, conjugado com o uso de uma arma e mediante força, ou seja, em uma linguagem mais castiça, ou roubo é a subtração de um bem de alguém com o uso de arma e concurso de força. Já o furo é tirar algo de alguém, de forma sutil, sem que a vítima esteja presente e sem o concurso de arma e de força bruta. Ou seja, é o famoso “aliviar” alguém de seus pertences, na surdina. Porém, para efeito de dramaticidade, ainda que de forma equivocada, quero deixar claro, vou utilizar o termo “roubo”, ainda que tecnicamente esteja falando sobre furto.

O brasileiro somos acostumados a ser roubados cotidianamente. O roubo à luz do dia incorporou-se à dinâmica nacional que, quando não ocorre, nos sentimos órfãos de algo, ou acabamos virando motivo de admiração por parte de outras pessoas. Prova disso é quando vamos aos mercados, lojas, camelódromos, shoppings e outros pontos de comércio. Vocês já repararam que os preços são sempre quebrados? R$9,99, R$ 10,99. O incauto penso que está pagando R$ 9,99 por algo, quando está pagando, na verdade, R$ 10,00. Ou seja, aquele um centavo que deveria vir de troco é furtado, na cara do consumidor. E alega-se que, como o país não tem mais esse meio circulante (não confundir com dinheiro, que é um conceito mais amplo e o Doutor Maurício Assuero pode explicar melhor isso do que eu), então, ninguém reclama desse roubo (na verdade um furto).

E isso ocorre em qualquer lugar. Virou uma praga a apresentação desse número quebrado. Nos postos de combustíveis esse roubo chega ao extremo bizarro, pois se acrescenta até três números após a vírgula. Aqui na gloriosa Campo Grande já vi posto de combustível vendendo gasolina a R$ 5,699 (acredito que se leria cinco reais e seiscentos e noventa e nove miliavos, se é que isso existe). Porém, se você comprar um litro de gasolina e der seis reais, só te voltarão trinta centavos. Aquele um centavo virou fumaça.

Nos acostumamos a esse tipo de engodo porque temos um pensamento limitado e reduzido a nós. Ou seja, sempre medimos o impacto dos fatos a nós mesmos, e não em escala, ou em muitos “um centavo”. Imaginemos um posto de gasolina que vende um milhão de litro de gasolina por mês. Se a cada litro um centavo some, o quanto isso representaria sobre esse milhão de litro em trinta dias? Depois multiplique esse valor pelos doze meses do ano e teremos uma ideia do que um centavo faz, em escala macrométrica.

Em vista disso, quando se leva essa mesma característica para o Brasil entenderá porque o PT (Partido dos, Deus que me perdoe, Trabalhadores) caiu em desgraça. Enquanto o PT apenas roubava o brasileiro, surfou uma onda de bonança e prosperidade que acontecia no planeta. Loteou estatais, distribuiu dinheiro brasileiro, à tripa forra, a tudo quanto foi ditadura, sempre levando um “por fora”, para azeitar as engrenagens da burocracia, financiou obras em outros países, deixando a infraestrutura nacional se deteriorarem, garroteou o sofrido povo do meu querido Nordeste, com promessa de água que nunca chegou.

Mas tudo isso era passável porque havia esse mítico esporte nacional do ser roubado com conivência da vítima. A coisa desandou quando, além do roubo, o PT passou a debochar do cidadão. Isso aconteceu quando o líder da missa negra, o dono do partido impôs um boneco de mamulengo, um ser que, em qualquer país sério estaria trancafiado em um manicômio, na cadeira de presidente.

Quem não se lembra daquela deputada gordinha, com tudo em cima – os peitos estavam em cima da barriga, a barriga estava em cima da bacurinha, e por aí vai -, dançando no plenário da Câmara? Ou daquele asqueroso deputado que defendia o gigolô da fome alheia da Venezuela, mas que está escondido nos Estados Unidos e recebendo no hediondo dólar, acusando blogueiros e jornalistas daquilo que era prática dele? Ou mesmo dos acólitos do patrão petista, aboletados em outros partidos, tramando e apoiando as vilanias do PT?

Quando cresceu a prática do deboche dos ladrões sobre os roubados, eles caíram. E caíram de forma fenomenal. Ainda está fresco, pelo menos em minha memória, marcos legais patrocinados pelo PT para pegar corruptos e ladrões, desde que fosse de outro partido. Lei de Ficha Limpa, condenação em segunda instância apoiada pelo PT, entre outros, pois tinham a arrogância certa de que, como ele estava acima das leis e do próprio país, essa lei era para os outros, e não para eles.

O Mensalão – aquele roubo que o STF definiu como crime, mas sem a existência de criminosos e pegou apenas lambari, em um aquário com tubarão baleia, tubarão tigre -, provou que, enquanto estava apenas se roubando o brasileiro, ele perdoou os ladrões. Era uma espécie de mercadinho de R$ 9,99 só que usando uma estatal. Quando estourou o escândalo do petrolão, não foi o valor do roubo, ou mesmo os envolvidos, mas sim o modo como petistas e acólitos trataram o assunto, que levaram à cadeia a maior ratazana da história do planeta, como também levou ao impedimento de uma presidente sabidamente incapaz de construir uma oração com começo, meio e fim, quanto mais comandar uma nação.

Disso tudo, pode-se dizer que o brasileiro, temos o hábito, ate mesmo a cultura de sermos roubados, com nossa conivência, mas quando o ladrão que nos rouba começa a debochar de nossa cara, e isso, em rede nacional, então a queda e o coice são certos. O corolário disso, é ver a Gleisi Lula Hoffmann – ela gosta de ser insultada dessa forma – fazendo discurso para o vento, já que ninguém quer saber as lorotas do partido, muito menos voltar a ser debochado por aqueles que, mentirosamente, dizem defender os mais fracos. Viva o roubo institucionalizado, mas não ao deboche.

COLUNA DO BERNARDO

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BANDIDOLATRIA

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

JÓ PATRIOTA E UM DOCUMENTÁRIO SOBRE ROGACIANO LEITE

A GENIALIDADE DE JÓ PATRIOTA:

Eu comparo a nossa vida
Com o mar irritado e forte
Alguma bússola indicando
Leste, oeste, sul e norte
Dum lado a praia da vida
Do outro o porto da morte.

* * *

A gaivota sai da praia
Vai voando de mansinho
As estrelas são faróis
Que iluminam seu caminho
Se encanta tanto com os astros
Que finda esquecendo o ninho.

* * *

O meu prazer foi extinto
Hoje no meu pensamento
Passam como passa o vento
As alegrias que eu sinto
Fiz do mundo um labirinto
E saí em busca do amor
Encontrei um dissabor
Me oferecendo agonias
Porque minhas alegrias
São intervalos da dor.

* * *

A dor de mim se aproxima
E pra não perder a calma,
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma.

* * *

Sinto que estou delirando
Tal qual o cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia!

* * *

Mote:

Na frieza da gruta o Deus Menino
Teve o bafo de um boi por cobertor.

Num recanto afastado de Belém
Fora onde uma Virgem Imaculada
Deu a luz à pessoa mais sagrada
Que se chamou de Cristo, o Sumo Bem…
Nessa noite Maria um prazer tem
De rezar o rosário com fervor
Contemplando seu fruto, o Redentor
Santo Corpo Sacrário Pequenino
Na frieza da gruta o Deus Menino
Teve o bafo de um boi por cobertor.

Foi assim que o rebento de Maria
No silêncio da simples manjedoura
Teve a mãe como santa defensora
E seu pai adotivo como guia
Nessa pobre e humilde hospedaria
Estalagem pequena sem valor
Entre pedra, capim, garrancho e flor,
Diferente de um prédio bizantino
Na frieza da gruta o Deus Menino
Teve o bafo de um boi por cobertor.

* * *

Mote:

Eu quero os teus seios puros
Nas conchas das minhas mãos!

Estes teus seios pulados
Nossos olhos insultando
São dois carvões faiscando
No fogão dos meus pecados…
São dois punhais aguçados
Ameaçando os cristãos
Para meus lábios pagãos
São dois sapotis maduros
Eu quero os teus seios puros
Nas conchas das minhas mãos!

* * *

Mote:

Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

* * *

Mote:

Tudo quanto eu sofrer na minha vida
Só me queixo da tua ingratidão.

Eu pensei que tu eras inocente
Como a Virgem quando foi anunciada
Por mim mesmo tu foste comparada
Com a estrela Dalva refulgente
Que guiou os três reis do Oriente
A visita do Pai da Criação
Mas agora provaste a revelação
Que tiveste comigo foi perdido
Tudo quanto eu sofrer na minha vida
Só me queixo da tua ingratidão.

Tu de falsa roubaste o meu amor
Tu não tens coração mulher ingrata
Teu fingir cada vez mais me maltrata
Mais eu sofro, mais gemo, tenho dor
Se ao menos não fosse um cantador
Não conhecesse saudade nem paixão
Pois quem é desprezado sem razão
Perde até o direito da dormida
Tudo quanto eu sofrer na minha vida
Só me queixo da tua ingratidão.

* * *

O documentário “Reminiscência em prosa e versos” foi produzido em 2007 pela jornalista itapetinense Tarcianna Lopes, contando uma história de Rogaciano Leite, saudoso poeta pernambucano, artista sensível, notável orador, jornalista, exímio declamador de poesia.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ISABELLA VIEIRA – RIO DE JANEIRO-RJ

Olá,

Meu nome é Isabella Vieira, sou uma representante da Jooble, um motor de busca de empregos em Portugal e no Brasil.

A Jooble é um motor de busca de empregos internacional que trabalha ativamente em mais de 70 países e está na lista dos 5 melhores sites de busca de emprego no mundo.

Poderiam me avisar, por favor, com quem eu poderia entrar em contato para discutir uma cooperação?

Estou no aguardo da resposta de vocês.

Estou sempre pronta para responder todas as suas perguntas.

Cumprimentos,

R. Como eu sempre digo, aqui nesta gazeta aparece de tudo e mais alguma coisa.

“Motor de busca de emprego”.

Uma expressão arretada.

Bom, o leitor que tiver interesse no assunto, é só me pedir que eu envio o e-mail de Isabella, a remetente desta mensagem aí de cima.

E o resto é por conta de vocês.

Pelo menos uma coisa eu encontrei no Google: existe mesmo a Jooble.

Cliquem na imagem abaixo para conferir.

J.R. GUZZO

UM SUPREMO QUE VIROU PARTIDO

Uma das ficções mais prodigiosas da política brasileira de hoje, e que está presente em cada gesto, palavra ou pensamento da mídia, das classes intelectuais e de quem mais acredita que há “instituições democráticas” de verdade em funcionamento no Brasil atual, sustenta o seguinte: o Supremo Tribunal Federal é a entidade que cuida da prestação de justiça no país, garante que a Constituição Federal e as leis sejam cumpridas e faz disso aqui uma nação civilizada, diferente das ditaduras, países governados por gângsteres e repúblicas bananeiras que existem por este mundo afora. É bonito. Ao mesmo tempo, é tão falso como um relógio suíço fabricado em Pedro Juan Caballero.

O STF, de acordo com essa miragem, é uma força imparcial; pode agradar a uns e desagradar a outros, como acontece com os verdadeiros tribunais de Justiça do planeta, mas não tem lado. Pode errar neste ou naquele caso, como é próprio das organizações humanas, mas também pode acertar. Toma decisões que são disparates integrais, é verdade, mas cada disparate é independente do outro; não têm nada em comum entre si, não vão sempre na mesma direção e não chegam a formar uma tendência. Seus juízes, segundo o credo vigente em nossa elite, não têm nenhum interesse político, ideológico ou pessoal nas sentenças que assinam; jamais, aliás, dão qualquer opinião política. Não interferem em nada que seja atribuição óbvia dos outros dois poderes, Legislativo e Executivo. Não mantêm relações de amizade com advogados, empresários ou políticos – nem acham que possa haver alguma coisa de errado quando julgam causas patrocinadas por escritórios de advocacia nos quais trabalham pessoas de sua família. Não conversam com jornalistas, não dão entrevistas e não mantêm assessorias de imprensa. Em suma: parecem, por fora e pelo jeito da toga, com os magistrados supremos dos países que deram certo no resto do mundo.

Nenhuma das afirmações feitas ao longo do parágrafo anterior tem a mais remota relação com a realidade. De todas essas fantasias, porém, nenhuma chega perto, em matéria de credulidade em estágio terminal, de algo que é dado como verdade científica pelo Brasil considerado “bem-pensante”. Segundo esse teorema, é impossível que os onze ministros do STF atual, algum dia ou em algum caso, tomem qualquer decisão em obediência ou por fidelidade à orientação do presidente da República que lhes deu o cargo. Isso não, indignam-se os vigilantes das instituições – digam o que quiserem, mas, na hora de dar um despacho, ninguém no Supremo sequer se lembra de quem o indicou para a função. Estamos, aí, diante da imaginação em estado puro. Acreditar nisso é o equivalente a dizer que os cinco evangelistas eram três – Esaó e Jacu.

No caso, os ministros do STF que temos no momento formam um partido político de “A” a “Z” – partido que até tem as suas alas, rivalidades e facções internas, mas é partido, sim, na cabeça, corpo e membros. É muito simples. O STF, na vida real, é um grupo de pessoas que agem na mesma direção de forma intencional, clara e constante. Têm os mesmos objetivos gerais. Dividem os mesmos interesses. É assim que se comporta um partido – e é assim que se comporta o Supremo. No caso do STF atual, a atividade em comum é a linha ideológica, política e partidária que se vê no PT, nos seus satélites no Congresso e em tudo aquilo que, de forma geral, se identifica com a chamada “esquerda”.

O tribunal, em suas sentenças, atende de forma quase automática a tudo o que lhe pedem o Psol, as “organizações sociais” e o universo contido no “campo progressista”. Decide, também de maneira praticamente sistemática, contra o governo. Anula leis e outras decisões do Poder Legislativo quando a esquerda, derrotada no plenário e no resto da ação parlamentar, pede que suas derrotas sejam convertidas em vitórias; diz quem ganha o jogo num campeonato disputado o tempo todo no tapetão. Prende um deputado e um jornalista, militantes de direita, por terem dito e escrito coisas que desagradaram os ministros. Conduz há quase dois anos um inquérito inteiramente ilegal contra adversários políticos. Tem um candidato à Presidência da República nas eleições de 2022 – o ex-presidente Lula. Falta alguma coisa?

Dos onze ministros atuais do STF, sete foram indicados por Lula e Dilma Rousseff: Ricardo Lewandowski, Antonio Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Edson Fachin, Luís Roberto Barroso e Luiz Fux. A ficção, em seu modo mais extremado, pede que você acredite no seguinte: o fato de três deles terem sido colocados nos seus cargos por Lula e outros quatro por Dilma não tem nada a ver com nada. Sim, estão lá por causa deles, mas na hora de darem uma liminar esquecem quem os nomeou e decidem puramente de acordo “com os autos”, segundo manda a lei. Chegam, até mesmo, ao extremo de se convencer – e convencer uma multidão de advogados criminais, professores de ciência política e jornalistas – que estão lá pelos próprios méritos como juristas. A militância política e partidária de cada um deles pode ser vista em público, por meio de suas decisões. De qualquer forma, seu histórico é o que é.

Lewandowski é ligado a Lula desde os tempos de São Bernardo. Toffoli foi advogado privado do PT e advogado-geral da União durante seu governo. Fachin foi advogado do MST e trabalhou na campanha eleitoral de Dilma; ainda há pouco, disse que a última eleição presidencial teria sido mais justa se Lula, que na ocasião estava na cadeia, estivesse entre os candidatos. Luís Roberto Barroso foi advogado do terrorista italiano Cesare Battisti, herói do PT e da esquerda brasileiro-europeia. Enfim: um dos quatro que não foram nomeados por Lula-Dilma é, justamente, o ministro Gilmar Mendes – o construtor número 1 da destruição da Lava Jato e autor principal da candidatura Lula. Dizer mais o que, depois disso?

O STF anula as quatro ações penais que Lula tinha nas costas, inclusive a que o condenou em terceira e última instância pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro – condenação assinada por nove juízes diferentes, um depois do outro. Declara legalmente “suspeito” o magistrado que comandou a maior operação anticorrupção da história do Brasil. Transformou-se numa vara penal para absolver acusados de ladroagem e para perseguir “a direita”. Proíbe a construção de uma estrada de ferro entre Mato Grosso e Pará. Dá ordens para que o Exército, ou ministros de Estado, ou o presidente da República, “se expliquem” em tantos dias e horas – chega até a ameaçar de prisão, só para ameaçar, os que são convocados para dar as explicações. Impede que entre em vigor uma lei aprovada legitimamente pelo Congresso que estabelece o voto impresso e auditável nas eleições de 2022. Manda o governo federal entregar vacinas que não fabrica nem controla. Em seu último surto, suspendeu todas as operações de reintegração de posse, legalmente decididas na Justiça, enquanto durar “a pandemia” – negando com isso a aplicação da lei em sua manifestação mais elementar. Nem Lula e Dilma, que foram eleitos para os seus cargos, conseguiram sequer uma parcela de tudo o que o STF tem imposto ao Brasil.

A sociedade brasileira tem uma extraordinária capacidade de dizer mentiras para si mesma. Está fazendo isso, mais uma vez, ao considerar que o STF é um tribunal de Justiça.

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

OS LENÇÓIS

Na sua venda, que na verdade era um armazém de Secos e Molhados, Francisco, meu pai, vendia em grosso e a varejo.

No grande depósito, entre diversas mercadorias, ele estocava açúcar da Usina “Estivas”, comprado em sacas de 60 quilos, feitas de tecido de algodão rústico. À medida que o açúcar ia sendo despejado num depósito de madeira com tampa, para ser vendido a granel, ou seja, no peso, as sacas vazias eram levadas para nossa casa por dona Lia, minha mãe, que as colocava de molho e depois de bem lavadas, secas e passadas, as transformava em panos de chão, para serem usados na limpeza doméstica.

Como eram muitas sacas, minha mãe costumava doá-las, ainda sujas de açúcar às pessoas que lhe pediam. Algumas donas de casa usavam essas sacas, para confeccionar lençóis e fronhas, para uso da família, e ainda panos de prato, tudo isso ornamentado com bonitos bordados, feitos pelas donas de casa habilidosas nessa arte. Segundo elas, não havia lençóis mais macios do que esses feitos com sacas de açúcar, de puro algodão.

Nesse tempo, a roupa de cama era costurada em casa, numa máquina de costura, quase sempre da marca “Singer”, movida a pedal. Não havia máquina a motor, já que ainda não havia energia elétrica na cidade. Comprava-se em peças um tecido de algodão, apropriado para esse fim (bramante).

Antigamente, últimas décadas do século passado, quando ainda não havia chegado o estrondoso desenvolvimento tecnológico, os armazéns ou “vendas” existiam em cada esquina. Esses pequenos mercados eram a maior, e, às vezes, a única fonte de venda de mantimentos para a população, principalmente nas cidades do interior do Estado.

Nesse tempo, os dias eram calmos e não havia violência. As mães podiam mandar um filho sozinho a alguma venda, comprar alguma coisa de última hora e pedir ao dono para anotar na caderneta.

Esse era o único sistema de crediário que havia na época. Era muito seguro e, dificilmente, um freguês não cumpria a obrigação de pagar a caderneta, no dia em que recebia “o ordenado”.

Era um tempo em que a desonestidade ainda não tinha nascido. A palavra empenhada valia mais, do que o papel e a letra.

O dono da venda, geralmente, sabia de cor os dias em que cada freguês recebia seu ordenado (palavra usada para “salário” ou “vencimento”, naqueles tempos). Com tranquilidade, esperava o pagamento das dívidas do mês, para aquela data.

As crianças iam àquelas vendas aconchegantes, “compravam” o que a mãe havia pedido, e mais um chocolate ou um drops, com a sua autorização. Ficava tudo anotado na “caderneta”.

Nas cidades do interior, todos se conheciam pelo nome, e todos confiavam uns nos outros.

Nas vendas, ou “armazéns de Secos e Molhados”, havia sempre uma balança sobre o balcão, para pesar as mercadorias, que seriam vendidas a granel.

Com o tempo, as balanças antigas foram substituídas pelas da marca “Filizola”, mais modernas e bonitas, com o marcador do peso à mostra, em ponteiros. Os antigos “pesos”, aos poucos, foram abolidos.

A “Caderneta”, portanto, era o “cartão de crédito” de antigamente. Todas as pessoas da cidade tinham conta corrente em alguma venda ou armazém. Compravam o mês todo e pagavam quando saía o “ordenado”. Os calotes quase não existiam. Também não existia o supérfluo, que hoje, com as “parcelinhas” do verdadeiro “cartão de credito” “enlouquece” os compradores compulsivos e desordenam as finanças da família.

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARCELO ALCOFORADO – RECIFE-PE

DANIEL E OS LEÕES

Não se trata daquele Daniel que, por ordem do rei, foi atirado à cova dos leões e dali saiu sem nenhum ferimento. Sabe por quê? Porque confiava no seu Deus, ensina a Bíblia. Aqui não se fala, porém, de personagem bíblica, mas de uma figura notória na vida nacional, hercúlea na compleição física, franzina na conduta.

Como é singular a política! Em que pese estar cumprindo a pena de prisão domiciliar determinada pelo Supremo Tribunal Federal, o deputado Daniel Silveira gastou em março nada menos que 19,1 mil reais com o dinheiro da cota parlamentar a que todo deputado é facultada.

Ocorre, no entanto, que para justificar as despesas, os pedidos de reembolso, foram apresentados à Câmara comprovantes que chamam a atenção. Uma nota fiscal no valor de 10 mil reais referiu-se à prestação de consultoria jurídica, enquanto o saldo, R$ 9 mil supriu os desembolsos com taxas de pedágio, combustível, passagens aéreas e, – pasme – hospedagem em hotel de Teresópolis, no Rio de Janeiro, onde reside o nobre parlamentar.

Pergunta-se: o deputado se deslocou tanto (mesmo em prisão domiciliar), usando automóvel ou avião?

Pondere-se que a simples apresentação das notas fiscais não quer dizer, necessariamente, que foi o próprio deputado que realizou as despesas.