DEU NO X

ZONA TOTAL: BACURINHAS E PAJARACAS NO MESMO BANHEIRO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

LANGUIDEZ – Florbela Espanca

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar …

E a minha boca tem uns beijos mudos …
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar …

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

DEU NO JORNAL

A CAMINHO DO FUNDO DO POÇO

As duas grandes derrotas do governo Lula (PT) no Congresso Nacional semana passada, primeiro com a rejeição histórica do seu indicado ao Supremo Tribunal Federal Jorge Messias e depois com a derrubada do veto à lei que vai reduzir penas dos condenados pelo 8/jan, prenunciam dificuldades que as pesquisas já indicam que o presidente vai enfrentar nas eleições.

* * *

As pesquisas estão ótimas: o Descondenado está afundando ligeiro, ligeiro.

Em tudo quanto é recanto deste sofrido país.

Uma excelente notícia para levantar o astral da banda decente do Brasil neste domingo.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTANTE – PARTE DO MEU TODO

Estante onde está depositado um vasto aprendizado

A sala, como muitas de antigamente, ficava na parte frontal da casa. Uma casa grande, como eram as casas antigas. Ao lado daquela sala, uma entrada que conduzia à sala de estar que era usada também como sala de jantar. Dependências antigas, simples, mas muito arejadas e confortáveis.

Uma porta que, aberta, conduzia à sala em questão – alguns chamavam também de biblioteca. Mas não era nada disso.

Um pequeno abat-jour, era o único objeto de decoração sobre a mesa, sempre limpa e servindo de apoio a leitura. Ao lado, uma cadeira espreguiçadeira de vime contendo alguns almofadados para apoio e conforto do usuário.

A estante era a peça principal da sala. A peça mais importante. Uma mobília do estilo Luiz XV, transportada no século passado diretamente de Carcassonne, por mais de noventa dias de uma viagem de navio na travessia do Atlântico.

Mas, a estante de importante e significativo valor sentimental, tivera sua importância quadruplicada pelo conteúdo. Pelo que guardava nas prateleiras internas. Vidas, ensinamentos, conselhos e valores morais e religiosos indubitáveis.

Livros e objetos colecionados

Claro, as enciclopédias Lello Universal e Barsa tinham lugar de destaque. Almanaques de revistas em quadrinhos do Mandrake, Fantasma, Tarzã, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira e o impagável Homem de Borracha, carinhosamente encapados. Um pacote com mais de 200 charges do Amigo da Onça, autoria de Péricles, publicadas pela revista O Cruzeiro.

Medalhas conquistadas, troféus, algumas lembranças familiares e, claro um lugar de destaque para um “retrato” da Vovó. Vovó, parte de mim, minha raiz firme e segura que ainda hoje cresce para o centro da Terra.

Livros da Editora Nova Aguilar: poesia completa de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira, Eça de Queiroz.

A vida e bibliografia esmiuçada – e lida – de Machado de Assis: Quincas Borba, O Alienista, Dom Casmurro, O Enfermeiro.

Eça de Queiroz: O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro, A Ilustre casa de Ramires.

Entre os preferidos, lidos, relidos, trilidos: Os elefantes não esquecem, Dando milho aos pombos, O caso dos dez negrinhos, Os relógios, Mistério no Caribe, todos da impagável Agatha Christie.

Ali, naquela estante, tinha vida, experiência, aprendizado e a luz necessária para iluminar meu caminho durante décadas, e me ajudar fortemente na construção da minha família.

Parte do muito que conquistei e aprendi

Por anos seguidos Deus me permitiu praticar parte do que aprendi nos livros. Criei em mim o hábito da leitura e o vício de ler. Aprendi no curso de Jornalismo. A gente precisa ler tudo que nos cai às mãos. Usar, na prática, é alternativa e arbítrio de cada um.

Ler é viajar sem fazer check-in, viajando sempre no luxo e usufruto do leito – ônibus, navio, trem ou avião.

Ler é viver – e ninguém jamais conseguirá escrever, sem ler.

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ruth Escobar

Maria Ruth dos Santos Escobar nasceu em 31/3/1935, em Porto, Portugal. Atriz, produtora e diretora teatral e política como deputada estaual. Na segunda metade do século XX, tornou-se personalidade destacada do teatro de vanguarda brasileiro.

Emigrou com sua mãe Marília do Carmo para o Brasil em 1951, aos 16 anos. Dois anos depois já estava trabalhando como repórter e editora de revistas, enquanto exercia atividades como ativista cultural. Casou-se com filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar e, juntos, partiram para a Europa, em 1958, onde fez cursos de interpretação. Ao retornar para o Brasil, montou sua própria companhia – Novo Teatro – em parceria com o diretor Alberto D’Aversa. Em 1962, encenou Mãe coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht e Males da juventude, de Ferdinand Bruckner, ambas dirigidas por D’Aversa.

Pouco depois encenou Antígone América (1962), com texto de seu marido, dirigido por Antonio Abujamra. Foi uma peça fundamental em sua trajetória, abordando as tensões sociais da época pré-golpe militar de 1964. Em seguida separou-se do marido e passou a reunir recursos para criar seu próprio teatro. Em 1964, resolveu fazer teatro popular e adaptou um ônibus, transformando-o em palco, levando-o à periferia de São Paulo, com o nome de Teatro Popular Nacional (TPN). A experiência contou com Antônio Abujamra, que dirigiu A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna, e Silnei Siqueira, que encenou As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, entre outros.

Pouco antes de o TPN encerrar suas atividades, deu-se a inauguração do Teatro Ruth Escobar, em 1964, no local onde se encontra até hoje no bairro da Bela Vista. Logo casou-se com o arquiteto Wladimir Pereira Cardoso, que se tornou seu cenógrafo e seguiram-se outras encenações: A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, dirigida por José Renato (1964); O Casamento do Sr. Mississipi, de Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares (1965); As Fúrias, de Rafael Alberti, encenada por Antonio Abujamra, (1966); O Versátil Mr. Sloane, de Joe Orton, dirigida por Antônio Ghigonetto (1967) e Lisístrata (ou a Greve do Sexo), de Aristófanes e encenação de Maurice Vaneau (1968).

Convidou o diretor Victor Garcia para uma nova montagem da peça Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, em 1968, numa antiga oficina remodelada, onde participou como atriz e produtora. No ano seguinte, teve o prestígio ampliado com a produção de O Balcão, de Jean Genet. Com esta peça, arrebatou todos os prêmios importantes do ano, e foi agraciada com o troféu “Roquette Pinto” como a personalidade do ano. Pouco depois criou o Centro Latino-Americano de Criatividade, que durou pouco por falta de recursos. Em seguida liderou manifestações contra o regime militar e fundou o Comitê da Anistia Internacional.

Com o 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974, passou a apresentar o melhor da produção cênica mundial. São Paulo pôde conhecer o trabalho de Bob Wilson (Time and Life of Joseph Stalin – David Clark), a premiada montagem de Yerma, por Victor García, com Nuria Espert; além dos encenadores Andrei Serban e Jerzy Grotowski. Produziu Autos Sacramentales, outra encenação de Victor García baseada em Calderón de la Barca. Depois de estrear em Shiraz, no Irã, a peça teve êxito na Bienal de Veneza, Londres e Lisboa. No 2º Festival Internacional, de 1976, trouxe para o Brasil o grupo catalão Els Joglars, com Allias Serralonga; os City Players, do Irã, com uma inusitada montagem de Calígula, de Albert Camus; a companhia Hamada Zenya Gekijo, do Japão; o grupo G. Belli, da Itália, com Pranzo di Famiglia, dirigida por Tinto Brass, entre outros. Em seguida voltou à cena para interpretar “Ilídia” em A Torre de Babel e trouxe o autor Fernando Arrabal para dirigi-la.

Entre as grandes atrações do 3.º Festival Internacional, de Teatro, em 1981, estavam o grupo norte-americano Mabu Mines; o belga Plan K; o La Cuadra, de Sevilha; além do uruguaio Galpón e do português A Comuna. Na década de 1980 afastou-se um pouco do teatro, quando foi eleita deputada estadual para 2 legislaturas, vindo a dedicar-se a projetos comunitários. Pouco depois, retornou aos festivais internacionais, ampliando sua abrangência ao trazer grupos de dança, de formas animadas ou aqueles que uniam todas essas linguagens. Em 1986, foi agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal e no ano seguinte recebeu a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, de Portugal.

Logo decidiu publicar Maria Ruth – Uma Autobiografia (1987), contando sua trajetória, mesclando a produção cultural com sua atuação social. Entre 1994 e 1997, voltou a produzir festivais internacionais, com o nome Festival Internacional de Artes Cênicas. Em seguida recebeu, do governo francês, a condecoração da Legião de Honra. Em 2001, criou uma versão de Os Lusíadas, de Camões, seu último trabalho nos palcos, como produtora. Em 2000, foi diagnosticada com a doença de Alzheimer, que agravou-se comprometendo sua memória e atividade profissional. Em 2006, sua filha Patrícia Escobar, conseguiu interditar seu patrimônio na justiça e acusou o escritório de advogados de não estar cuidando devidamente do seu patrimônio. Faleceu em 5/10/2017 aos 82 anos.

O velório se deu no teatro que leva o seu nome. Em 2021, o pesquisador Álvaro Machado retratou sua vida e obra em “[…] metade é verdade – Ruth Escobar, publicado pela Edições SESC. um calhamaço de 624 páginas e 347 imagens. O título recorre a uma pergunta que ela costumava dirigir aos novos colaboradores de suas diversas atividades. Ciente das fantasias e dos mitos a seu respeito, ela prevenia: “Sabe todas aquelas histórias que você já ouviu sobre mim? Pois, metade é verdade”.

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CANTE POR MIM, PASSARINHO!

Patativa Golada. Ave que emprestou o nome ao poeta Patativa do Assaré

* * *

Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Mote deste colunista

Assoviar não sei não,
Cantarolar nem um pouco.
Eu já nasci quase rouco
Não sei tocar violão.
Do ritmo, sou um vilão,
Não sei nem mesmo solar,
Mas para lhe acompanhar
Vou ligar o meu radinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Cabal Abrantes

Sem saber tocar violão
O pássaro já vai cantando,
Sua alegria espalhando
Por toda a imensidão.
Não estudou uma lição,
Já eu tive que estudar,
Por não saber imitar
Eu lhe peço com carinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Leo Brasil

Sou muito desafinado,
A minha voz é ruim.
Sou gago, nasci assim
Já estou acostumado.
Meu canário é afinado
Peço pra me auxiliar
Só não pode me ensinar,
Mas, tem vontade, o bichinho!
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Poeta Nascimento

Sempre quis ser um cantor,
Era um sonho de criança,
Trago ainda na lembrança,
Rememoro com rubor.
Cantar a dor e o amor
A mulher e o seu olhar
Uma plateia encantar,
Mas não canto direitinho…
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Raniery Abrantes

Não tenho a capacidade,
Que dirá tanto talento!
Perto de ti, sou rebento,
Menino de pouca idade.
Admiro a liberdade,
Pois no céu podes voar.
Aprendi a te escutar
E por ti nutro carinho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Ytalo Mota

Meu passarinho sem medo,
Solto no mundo a voar,
Ah! Se eu pudesse cantar
Pra desfiar meu enredo!
Mas há no canto um segredo,
Que eu não sei desvendar
E pra não desafinar,
Peço com todo carinho:
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Melchior SEZEFREDO Machado

Oh! Canora Patativa
Golada do pé da serra,
Chame o Canário da Terra
Pra comporem uma toada.
Meu Sabiá da estrada,
No dia em que eu passar,
Pode me acompanhar
Cantando pelo caminho.
Cante por mim, passarinho!
Pois nunca aprendi cantar.

Wellington Vicente

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