O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se apropriou da PEC da Segurança Pública como mais uma bandeira de campanha para tentar virar votos às vésperas do segundo turno
No momento de maior exposição na campanha de segundo turno, durante entrevista na noite desta quinta-feira (15) na TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou apresentar-se como candidato descolado dos próprios erros e engajado com pautas que historicamente rejeitou.
Ao longo de dois blocos de perguntas, se esquivou de temas espinhosos, ora culpando o tempo insuficiente para sanar passivos deixados pela gestão anterior, ora alegando incompreensões do público e até chegando a se dizer desinformado de fatos, como a falta de reajuste no Bolsa Família desde 2022.
O petista buscou mostrar-se como cidadão indignado com o noticiário, mesmo que os fatos digam respeito a escolhas relacionadas à sua própria estratégia para governar. Escândalos como o do Master foram apresentados como estarrecedores, mas alheios à sua alçada.
A responsabilização de colaboradores mereceu boa dose de escapismo, reforçado pela tese de que erros morais precisam de reformas institucionais, o que o coloca numa posição acima das polêmicas. Nesse ponto, ensaiou o discurso da direita, ao condenar juízes do Supremo Tribunal Federal (STF).
Lula driblou ainda o questionamento de medidas orientadas pelo calendário eleitoral, desfiando propaganda de pretensas realizações e cedendo em pontos que mostram preferência popular, como a redução da maioridade penal, algo a que sempre se posicionou contrariamente. Agora, admite.
O presidente foi coerente com sua história somente no terreno econômico, ao tentar justificar o caos fiscal em que meteu o país nos últimos tempos. Para responder, recolocou a tese teimosa de que age em favor do crescimento econômico, visto como a única solução para os déficits.
Lula ainda chamou os ajustes necessários nas despesas federais de punição aos mais pobres, sem levar em conta desperdícios, desvios e má gestão. Uma fala que serve para anular as próprias falhas e ainda jogar sobre a alternativa de poder, representada pelo adversário Flávio Bolsonaro (PL), a pecha de insensibilidade.
Sem apelar tanto à costumeira arrogância de suas supostas entregas passadas, Lula fez questão de encobrir a realidade da sua escassez de apoio parlamentar e das tensões geopolíticas que produz no Ocidente. Para ele, a população deveria lhe reconhecer habilidades que os fatos não sustentam.
Demandas graves como segurança pública e endividamento das famílias foram tratadas pelo candidato como assuntos com os quais já vem lidando e propondo soluções, deixando para um eventual novo mandato o deslinde das promessas não realizadas. Lula e suas medidas excepcionais e eleitoreiras chegam a poucos dias das urnas premidos pela rejeição e pelo embuste.
Lula foi entrevistado pela jornalista Renata Lo Prete
Lula voltou a nos brindar com um de seus clássicos. Desta vez, na sabatina da Globo, afirmou que “não sabia” que o Bolsa Família estava sem reajuste havia quase quatro anos em seu próprio governo. “É inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas”, disse, com a expressão de quem acaba de descobrir a pólvora. O homem que gosta de se apresentar como o pai dos pobres simplesmente não sabia que o benefício, principal programa assistencialista do país, estava congelado desde o início de seu mandato.
Não é a primeira vez. Na verdade, a biografia política de Lula pode ser resumida em uma única frase: “Eu não sabia”. Não sabia do mensalão. Não sabia do petrolão. Não sabia das obras no tríplex do Guarujá nem no sítio de Atibaia. Não sabia quem era a pilantra sócia do filho, não sabia do tráfico de influência envolvendo seus familiares, não sabia das tramoias de seu chefe de gabinete. O país inteiro via, os jornais publicavam, as delações descreviam, mas o presidente era sempre o último a ficar sabendo, como um marido traído.
Agora, o Bolsa Família entrou na lista e, claro, também as bets. Lula regulamentou o setor em 2023. Anos depois, já em plena campanha, descobriu que as apostas on-line estão destruindo famílias, gerando dívidas milionárias e até casos de suicídio. “Por que eu não fiz antes? Porque eu não sabia”, explicou em um podcast, sem ruborizar. O homem que assinou a lei que colocou o mercado sob controle do governo simplesmente não tinha noção do que estava acontecendo no país que preside. Ficou “estarrecido” ao ouvir relatos de pessoas que perderam tudo. Aparentemente, até então, ninguém havia contado nada a ele.
E, claro, o presidente também não sabe de nada sobre Alexandre de Moraes. Na sabatina desta quinta-feira, Lula resumiu a pressão pelo impeachment do ministro a uma simples vingança: querem cassá-lo apenas porque prendeu Bolsonaro. As denúncias de proximidade com o banqueiro Vorcaro, o jatinho, o contrato milionário do escritório da esposa, as mensagens e todo o restante da promiscuidade que explode no STF simplesmente não entram na conta. Lula não viu os arbítrios de Moraes. Para ele, tudo isso é detalhe irrelevante. O que importa é a narrativa de que Moraes prestou “grandes serviços à democracia”. Os abusos, a censura, o uso da toga como instrumento político e as relações que cheiram a corrupção? O presidente, como sempre, não sabia. Ou prefere não saber.
O padrão é tão consistente que já virou piada na internet. Daqui a pouco, Lula vai dizer que não sabia que tinha um filho. Ou que não sabia que Lulinha existia. Ou, ainda, que não sabia que o filho estava envolvido em investigações sobre tráfico de influência e esquemas relacionados ao INSS. Quem sabe até diga que Lulinha é, na verdade, filho de Jair Bolsonaro! Já chegou perto: afirmou que “só ele sabe a verdade” sobre o que o filho fez ou deixou de fazer. O pai, presidente da República, permanece no escuro, como sempre.
É uma performance impressionante. Enquanto o país discute escândalos, endividamento e benefícios sociais, o presidente vive em um estado permanente de descoberta tardia. Tudo o que acontece de ruim no governo é novidade para ele. Tudo o que dá certo é mérito seu. A memória seletiva funciona com precisão cirúrgica.
No fundo, o “eu não sabia” é a maior ferramenta de gestão do lulismo. Serve para tudo: escapar da responsabilidade, reescrever o passado e apresentar como heroísmo aquilo que deveria ser obrigação básica de quem ocupa o cargo. O problema é que, depois de tantos anos, a desculpa já não convence nem os mais fiéis. E deixa apenas duas opções: Lula está gagá ou é cínico de uma forma que beira a psicopatia. Ao povo, resta apenas o sarcasmo de quem assiste, mais uma vez, ao mesmo filme patético.