DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

CEGO ADERALDO, UM GÊNIO DA POESIA POPULAR NORDESTINA

Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)

* * *

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

Jesus a mim quis fazê
Neste caso que se deu:
Eu perdê a minha vista
Meus olhos escureceu
Mas estou cantando as virtudes
Que a natureza me deu

Deus a mim deu a bola
Para levar a cantoria
Tirou a luz dos meus olhos
Eu não vejo a luz do dia
Porém eu levo a palavra
Transcrita em poesia

Oh! Santo de Canindé!
Que Deus te deu cinco chagas,
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas;
Uma sucedendo as outras
Como o mar soltando vagas!

Só nos falta ver agora
Dar carrapato em farinha,
Cobra com bicho-de-pé,
Foice metida em bainha,
Caçote criar bigode,
Tarrafa feita sem linha.

Muito breve há de se ver
Pisar-se vento em pilão,
Botar freio em caranguejo,
Fazer de gelo carvão,
Carregar água em balaio,
Burro subir em balão.

Ah! Se o passado voltasse,
Todo cheio de ternura.
Eu ainda tinha vista,
Saía da vida escura…
Como o passado não volta
Aumenta minha tristeza:
Só conheço o abandono
Necessidade e pobreza.

A lagarta tem forma de serpente
Quando vai viajando numa estrada,
Mas, depois de metamorfoseada,
Ela toma uma vida diferente:
Cria asas de cor bem transparente,
Verdadeiro vislumbre de beleza.
Nem ciência, nem arte, nem riqueza
Poderia pintar beleza igual.
Isto é lei do Juiz Universal
E é impulso da mão da natureza.

Quis casar-me, que loucura !
Quando pensei em casar,
Deixei e fui meditar,
Fui pensar na vida escura,
Nesse cálice de amargura,
Que recordo dia a dia,
Mas ouvindo a melodia
Fui sentindo a flor do goivo,
De repente fiquei noivo
Me casei com a poesia.

DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

JK? DE NOVO? (1 de 2)

Vésperas de eleição, no próximo outubro, e era mesmo de esperar. Requente de bolo, em um confronto desnecessário. Ano passado, todos os grandes jornais do país já diziam “O governo Lula decidiu reabrir o caso” (Globo e, em manchetes quase iguais, todos os outros, inclusive o JC).

Nessas matérias se via que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com militantes do PT nomeados pelo governo em Brasília, estava correndo o país a fazer audiências públicas e tentar reabrir o caso, indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.

Para lembrar em 22/4/2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB (Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores, segundo a PF), que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E realizando novos exames.

Acompanhei pessoalmente os trabalhos, no caso, por uma razão de foro íntimo. A de ser padrinho em nosso casamento. E por muito gostar dele. Tanto que sempre nos encontrávamos, quando íamos ao Rio.

Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da FolhaSP informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos. Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas preferiram divulgar alguns minutos antes…

Agora vem a notícia, em toda Grande Mídia, de um “parecer” da historiadora Maria Cecília Adão, relatora, daquela mesma comissão. Para esta senhora, teria sido um atentado político: “o veículo perdeu o controle em razão de uma ação externa, como sabotagem mecânica, disparo de arma de fogo ou até envenenamento do motorista”. A mesma tese de antes. Requentada.

Suspeitas são até naturais, no imaginário coletivo. Posto que morreram em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição à ditadura, no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio.

Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por conta de um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. Numa cama de hospital. Tanto que nem autorizou qualquer investigação. Para esses familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.

Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese. Falta ver o caso JK (o que faremos na próxima coluna).

DEU NO X

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UCPM

Nos anos 50/60, Maceió vivia uma época áurea de tranquilidade, excelente qualidade de vida, parecia uma enorme família. Nós adolescentes formávamos turmas de bairros, inventávamos brincadeiras, jogos, festas de rua onde a moçada torcia no pastoril pelo azul ou encarnado, ou nos campos de futebol pelo CRB ou CSA. Havia a turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, do Gramado da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras. Todas tinham um time. Era grande a rivalidade entre os jovens no futebol na areia da praia, nas festas, nos clubes e nas namoradas. Contudo, todas as turmas convergiam para as mesmas praias: Avenida ou Pajuçara; mesmos clubes: Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; mesmos colégios: Diocesano, Liceu, Guido ou Batista. Resultava numa integração de amizade. Todos se conheciam na província de Maceió.

Apesar de morador na praia da Avenida da Paz, eu circulava por toda cidade com minha bicicleta. Certa vez eu namorava uma bela morena na Praça Centenário. Depois do jantar subia de bicicleta pela Ladeira da Catedral pedalando, na ânsia de abraçar a morena.

Minha namorada era gêmea. Um dia a irmã veio me avisar que ela estava doente, de repente resolveu tomar seu lugar, calada, segurou minha mão. Não percebi, abracei e beijei a cunhada. Caminhamos pelas ruas escuras do Farol, vez em quando parando, xumbregando, sem saber que beijava a irmã gêmea da namorada. Quando foi para casa, sorrindo me contou o engano proposital,

Tornou-se um segredo.

Certa noite, no Parque Gonçalves Ledo, encontrei um amigo. Depois de um papo informal, convidou-me para reunião de uma associação que a turma do Farol tinha criado com muita imaginação e bom humor. Assisti a reunião, gostei, fui aprovado e tornei-me sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, (naquela época nós adolescente chamávamos de Peniqueira, sem menosprezar, a empregada doméstica).

Tinha regulamentação. Havia uma escala hierárquica. Os sócios para ganharem pontos e serem promovidos, relatavam as aventuras, as conquistas com as empregadas domésticas. Conforme o tipo da aventura e o número de conquistas, ganhava-se pontos e promoção aos postos dentro da hierarquia, como se fosse militar. Cheguei a Capitão no Exército, mas não consegui ser Tenente na UCPM. Havia alguns amigos dedicados. José foi galgado ao posto de Marechal por merecimento. Este posto tornou-se cargo privativo; era o comandante, chefe geral. Apenas dois associados conseguiram promoção a general. Por coincidência, esses dois generais da UCPM, moram hoje no mesmo edifício na praia de Ponta Verde.

Naquela época namorada era só beijinhos, abraços, no máximo. Quando dava 10 da noite a namorada entrava em casa. Nós pobres mortais jovens, saíamos excitadíssimos do xumbrego. A solução era descarregar nas profissionais dos casarões de Jaraguá, ou ir à cata das gentis empregadas, generosas, amadas, inigualáveis. Geralmente morenas do interior, do sertão, aonde a seca matava. As moças vinham para a cidade por uma vida melhor. Na capital tinha pouco emprego, para sobreviver elas tinham dois caminhos: a prostituição ou ser empregada doméstica. Sempre cheirosinhas, saíam de casa perfumadas em busca de amor e carinho.

A mais famosa e bonita era a Nega Odete, parecia uma rainha africana, a rainha de Sabá, lábios carnudos, bunda rebitada e riso debochado. Trabalhava numa casa na Praça Sinimbu. À noite dedicava-se de corpo e alma, literalmente, ao que mais gostava, ao que mais sabia fazer, o amor. Era a Vênus Calipígia de ébano dos sonhos da juventude da Praia da Avenida, uma rainha. Não queria compromisso, nem cobrava, ela escolhia seu parceiro. Toda a noite arranjava um namorado. Sua cama de amor eram as plantas ralas da praia, olhando o céu com um milhão de estrelas. A maioria da juventude da Avenida da Paz perdeu a virgindade nas areias mornas da praia, nos braços e sabedoria da Nega Odete.

É necessário uma homenagem, um reconhecimento aos serviços prestados pela divina criatura, que merecia uma estátua na Praça Sinimbu, junto ao Joãozinho Mijão. É merecedora da gratidão de várias gerações.

Bendita juventude, bendita UCPM, bendita Nega Odete.

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O ENXOFRE ESTÁ NO AR

Como diz a música de Chico Buarque “Meu Caro Amigo”, “a coisa aqui está preta”.

“Meu Caro Amigo” é uma das canções mais icônicas de Chico Buarque, lançada em 1976 no álbum Meus Caros Amigos. Composta em parceria com Francis Hime, a música é uma “carta musical” enviada ao dramaturgo Augusto Boal, exilado em Portugal, relatando de forma irônica e esperançosa a situação do Brasil durante a ditadura militar.

Os boatos e a perseguição dirigida a um homem de bem e sua família, especialmente seus filhos, estão tornando o nosso País um antro de gente ruim, bandidos e ladrões de colarinho branco. O clima está ficando irrespirável, com tanta maldade espalhada pelo ar. Na verdade, “a coisa aqui está preta…”

O arrastão que fizeram com o dinheiro do INSS ficou por isso mesmo. Disse o Poderoso Chefão, que quem foi prejudicado, ou seja, roubado, vai ser ressarcido até o último centavo. Mas não disse quando nem por quem. Mas fiquem calmos! Sabem quando será o ressarcimento?

– No dia em que a galinha criar dentes. Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde! Esperem sentados, porque em pé, cansa…. E a catinga de enxofre, o perfume do diabo, continua no ar…

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendem velas para espantar o Demônio, quando sentem o mau cheiro de flatos espalhados pelo ar. Deve ser o mesmo odor das quadrilhas de ladrões que roubaram o dinheiro do INSS e que estão acabando com a soberania do Brasil. É humilhante demais, os pobres do INSS terem seu pouco dinheiro roubado por ladrões de colarinho branco, que já não tem onde guardar suas botijas de dinheiro roubado. É gente que fede e causa nojo a quem estiver por perto. Para esses ladrões, todo castigo é pouco.

Nos tempos antigos, havia o costume de se riscar um palito de fósforo, para acabar com o mau cheiro de flatulência que empestasse qualquer ambiente.

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico), enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

O odor fétido dos flatos é causado por pequenas quantidades de compostos de enxofre produzidos por bactérias intestinais, especificamente sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico – \(H_{2}S\)), metanotiol (um tipo de mercaptana) e dimetilsulfeto.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais esses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, exalando odor cada vez pior, de ovos podres.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases putrefatos.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.

Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e a catinga de enxofre fez com que o povo se dispersasse.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu, cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Nenem, que morava na Rua do Sapo, tinha fama de soltar gazes irrespiráveis, e era viciada em Comícios Políticos, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz forte de homem respondeu indignada:

– AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU, DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que, aliás, nunca teve, e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, a jovem botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação violenta e passou 15 dias para se curar.

Nunca mais Lúcia quis saber de comício político.

Dona Neném já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném ganhou a fama reiterada de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. A ideia infeliz que a mulher teve de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque”.

Este caso é Verdade e dou Fé.

DEU NO X