DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A NOSSA CASA – Florbela Espanca

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro – tão bom! – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

DEU NO X

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

FAÇA O QUE DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

Acredito que a falta de coerência no ambiente político é uma consequência, também, do processo eleitoral e tenho minhas dúvidas sobre esse modelo proporcional que permite um determinando candidato ser responsável pela eleição de outros, de acordo com o quociente eleitoral. Com base nisso, os partidos pegam alguém famoso, como Clodovil, Tiririca, Romário e, agora, o compositor/cantor da música “Caneta Azul” como puxadores de votos. Clodovil, justiça seja feita, tinha um grau de conhecimento acima dos demais citados. Tiririca, por exemplo, sofreu para provar que sabia ler e escrever.

A legislação enxerga méritos na proporcionalidade, mas não deixa de haver críticas contundentes em vários casos. um deles é cada estado ter apenas 3 senadores. Há muitas críticas em relação a isto porque as pessoas comparam São Paulo – maior PIB do Brasil – com o Roraima cujo PIB representa uma fração de 0,2% do PIB nacional. Alguns defendem que a representatividade deveria pelo grau de importância econômica do estado, mas isso pode ser, de fato, um meio de aumentar desigualdades socioeconômicas.

Em meio a tudo isso, o que mais me incomoda são as coligações partidárias e o discurso medíocre dos pretensos candidatos. No primeiro caso, existem situações de dois partidos contrários, nacionalmente, formarem uma coligação no estado/município. Não era para ser de forma. As discordâncias deixam ser em termos de pautas, projetos etc. no âmbito em que se está. O partido A discorda das propostas do partido B numa eleição presidencial, mas são aliados na eleição para governador. Vejam: cada partido tem sua orientação político-partidária e suas metas.

Em relação ao discurso político há uma vastidão de exemplos, tanto no passado, quanto no presente, que dá nojo. Marina, Boulos, Tebet, Alckmin, Ciro Gomes, dentre outros, chamaram Lula de ladrão, o tempo inteiro. Todos admitiram a corrupção no PT, mas, exceto Ciro, todos estão no governo. Tábata Amaral construiu seu discurso criticando a corrupção – dos outros – , mas esqueceu que seu marido, João Campos, que se envolveu em denúncias de desvio de recursos públicos e o mais graves, mudou a ordem de classificação num concurso para beneficiar o filho do juiz que engavetou um processo contra ele.

Ciro Gomes bateu exaustivamente na corrupção de Lula. Disse nos debates que participou, e em entrevistas que deu, que “viu Lula se corromper”, no entanto, há duas semanas esteve ao lado de Aécio Neves, envolvido até a alma com a JBS, pedindo R$ 2 milhões que o “primo Fred” pegaria com Wesley Batista. Ciro, estava explicando o “chamado” do partido para ser candidato a presidente e não ao governo do Ceará. Ele fala abertamente da relação do pai do governador, Elmano de Freitas, com o PCC.

É nesse contexto que surgem os focos de incoerência: não tem como fechar um olho para os desmandos de quem lhe apoia, enquanto joga nas redes sociais as mazelas de quem está em disputa.

A incoerência abraça as decisões do STF. Alexandre de Moraes, não tem condições morais de condenar, mesmo merecido, quem quer que seja, por atos de corrupção. O grande decisor que defendeu com afinco o estado democrático de Direito, condenando pessoas que estavam no dia 08/01 vendendo água ou com uma bíblia na mão, está mergulhado no mais podre lamaçal de corrupção. E pior em tudo isso são os pares que “não enxergam crime” nas ações de Alexandre. De modo igual a Procuradoria Geral da República, entregue a mero paspalho que atua mais a serviço do descaso do que em benefício da sociedade.

Como se não bastasse, temendo as consequências da delação premiado, Alexandre desenterrou uma decisão do STF, a pedido do PT, sobre deleção premiada com o fito de se enquadrar nos termos daquele penduricalho de desmandos. Ocorre que cabe ao presidente da corte a decisão sobre a pauta de julgamentos e, ao que se sabe, Edson Fachin já avisou que a pauta está definida pelos próximos dois meses, fato que anula a possibilidade de arremedo de lei chegar até o plenário. Uma vitória parcial, mas para que não seja instrumento de proteção de Alexandre, seria importante que as tais delações ocorressem no curto prazo.

No mais, precisamos ter cuidado com tudo que dissermos em público, porque qualquer crítica aos ministros do STF é considerada afronta à instituição e ameaça à democracia. Gilmar Mendes solicitou que Romeu Zuma fosse investigado no âmbito do inquérito das fakes News. Exatamente aquele inquérito aberto de ofício por Toffoli e entregue, sem distribuição aleatória, para a relatoria de Alexandre de Morais e que até hoje, passados 7 anos, não produziu absolutamente nada.

DEU NO X

FOI ONTEM: TRUMPÃO É RETIRADO ÀS PRESSAS E ESCAPA DE ATENTADO

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINO “MALINO” – AS BRINCADEIRAS DA ROÇA

Libélula, também conhecida como “Mané-Mago”!

Vou continuar na roça. Saí da roça, mas a roça nunca saiu de mim. Não quero sair, nem vou deixar que ela saia. Me faz bem e massageia o ego, relembrar os momentos da construção da minha vida vivida na roça.

– O papeiro é meu!

É. Era assim que eu gritava alto, para que os outros irmãos ouvissem, quando minha velha e falecida Mãe estava na cozinha preparando a papa ou o mingau da minha irmã mais nova – hoje também falecida.

– Tá certo. O papeiro é seu, mas vai ter que lavar depois!

Era assim que minha Mãe concedia a preferência pelo papeiro – e talvez fosse pela obrigação de ter que lavar, que nenhum outro irmão se aventurava a gritar “o papeiro é meu”.

E foi lavando aquele papeiro que, desde os 22 anos de idade aprendi a cozinhar tudo numa cozinha. E, acreditem, não sou nenhum Master Chef, mas não faço vergonha. Posso garantir que sou “especialista” em feijão. Por isso me interessei tanto pela “fava rajada” que, certa vez, como convidado, comi num encontro no Apipucos.

Mas, o assunto da roça é outro. É como a gente brincava – pelo menos eu – e como a gente se envolvia psicologicamente com as brincadeiras que, quase na sua totalidade, eram inventadas por nós mesmos.

Tudo começava com a preparação de uma garrafa. Tinha que ser branca e estar bem lavada por dentro e por fora. Uma rolha feita de sabugo de milho servia de lacre.

Tudo preparado e lá íamos nós, pegar “Mané-Mago” que, depois, na escola e estudando Ciências Naturais, aprendi que o nome científico era “Libélula”, também conhecida popularmente como tira-olhos ou libelinha em Portugal, e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado pertencente à subordem Anisoptera. É considerado um dos primeiros insetos a surgir na Terra. No meu Ceará é conhecida como “Mané-Mago”, independentemente de ser macho ou fêmea.

Eu jogava um “campeonato” comigo mesmo. Era campeão “aquele” que conseguisse pegar o “Mané-Mago” mais bonito e mais colorido. Passei a estranhar que eu mesmo era sempre o campeão.

O troféu era sempre uma mariola ou um pedaço de rapadura roubado na despensa da Avó. Ao vice-campeão, sempre eu também, era garantido um troféu muito estranho: uma pequena cuia de farinha seca misturada com açúcar. Isso tudo sem direito a coroa de louros!

Eis que, hoje, sei o significado de tudo aquilo: o amor pela roça e suas coisas que nos fazia crianças saudáveis.

Calango verde sempre teve a minha preferência nas brincadeiras

Outra brincadeira – ou entretenimento – habitual, era “pegar calango verde”. Bicho arisco que fugia rápido, ou se deixava pegar por entender que nenhuma criança o faria mal algum.

A “armadilha” era preparada com um palito de coqueiro. Verde e flexível, o palito tinha sua ponta mais fina transformada num laço que, seguro – para o calango não conseguir escapar, quando laçado – nos proporcionava alegria.

Para alguns, não sei precisar, mas essas coisas transformadas em brincadeiras infantis, nos aproximavam tanto da Natureza, quanto a maravilha que é “cagar no mato”!

DEU NO JORNAL

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

INVERNADA

Foto de Klênio Costa

Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

Mote de Vanilson de Souza Silva

Uma prece que chegou ao Pai Eterno
Do roceiro mais contrito do sertão
Faz com que O Divino olhe pro chão
E mande abrir as torneiras do inverno
E o que foi até pouco aquele inferno
Vira logo um recanto de bonança,
Pois a fé quando chega na balança
Pesa mais que o prato do pecado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.

É daí que a terra entra no cio
Esperando a semente no seu ventre,
A lagoa pede ao sapo que concentre
Mais coaxos no grande desafio,
Os peixinhos desovam pelo rio,
A devota reza mais e não se cansa,
À noitinha, vem a lua e também lança
Um sorriso ao lugar abençoado.
Cai a chuva no colo do roçado
Germinando o pendão da esperança.