DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SCHIRLEY – CURITIBA-PR

Mais uma Copa do Mundo se aproxima.

“Não acredito em bruxas mas que elas existem, existem”.

Bruxos também.

E dizer que a seleção brasileira já foi temida ao entrar em campo.

Nem isso temos mais.

Ô saudade!

Melhor nem falar da seleção de 70.

Ô saudade.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

PROMOÇÕES E EVENTOS

O COMERCIAL DO EDITOR

Quando do seu lançamento, em outubro de 1984, este livro ganhou dois prêmios de Melhor Livro do Ano:

Prêmio Literário Nacional – Instituto Nacional do Livro/MEC

Prêmio Guararapes – União Brasileira de Escritores

Adquira a quarta edição da Editora Bagaço, com toda tranquilidade e segurança, e receba pelos correios.

Não apenas este, mas todos os outros título do autor.

Basta clicar aqui para acessar a página da editora.

Clique aqui e acesse o trabalho O realismo maravilhoso e a cultura popular em O Romance da Besta Fubana, da Professora Virgínia Celeste Carvalho da Silva, um dos vários estudos acadêmicos que foram feitos sobre o livro.

DEU NO JORNAL

INSTITUIÇÃO DOENTE

Segundo Osmar Terra (PL-RS), quem precisar de consulta no Sistema Único de Saúde corre o risco de esperar até 800 dias para ser atendido, como num caso que conhece.

“O SUS está doente”, conclui o deputado.

* * *

Fazendo as contas, 800 dias correspondem a mais de 2 anos.

Besteira. Os doentes esperam poquinho.

Quase nada.

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PROMOÇÕES E EVENTOS

LIVRO DO COLUNISTA FUBÂNICO XICO BIZERRA

Dia desses andei relendo esse livrinho e me encantei, de novo. 30 conversas interessantes com gente do Nordeste, tipo Dom Hélder, Manoel Bandeira, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Jackson do Pandeiro, Sivuca, dentre outros.

Como se não bastasse tem prefácio e apresentações de Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, Maciel Melo, Luiz Berto e Paulo Rocha.

Gostei e recomendo.

É só pedir pelo imeio xicobizerra@gmail.com – que eu entrego em todo o Brasil.

E custa só R$ 46,00, frete incluso.

DEU NO JORNAL

CRESCIMENTO MÍNIMO

Em 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê crescimento de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

No ano que vem, a previsão é que a situação não vai melhorar muito: 2%.

* * *

A taxa de 1,9 deste ano deveria ser de 1,3.

O número 13 é perfeitamente coerente com a atual situação deste nosso sofrido país.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

A MÃE DO MENINO QUE ESTUDAVA INGLÊS (*)

Essa é a história da mãe de um menino chamado Francisco. Mas é difícil falar da mãe de Francisco sem falar dele. É mais ou menos como no Evangelho de Mateus, quando se fala da mãe dos filhos de Zebedeu. A diferença é que da mãe de Francisco sabe-se o nome: Maria José. Embora ela mesma não gostasse desse nome, preferindo ser chamada apenas de Mazé.

Comecemos, então, falando de Francisco, um menino pobre, nascido em Crateús, no interior do Ceará. Franzino, com a pele queimada pelo sol que açoita o sertão nordestino, era parecido, nessas características, e em muitas outras, com os meninos com quem compartilhava a infância.

O que ele tinha de diferente dos seus amigos era um interesse pouco comum, naquele tempo e lugar, pelo idioma que tem seu berço no Reino Unido da Inglaterra.

Qualquer livro, qualquer revista, qualquer recorte de jornal que trouxesse algo escrito em inglês, chamava a atenção de Francisco. À noite, quando o rádio captava melhor as frequências que vinham de longe, era comum encontrar o menino colado àquele aparelho mágico, ouvindo programas da BBC de Londres.

Não entendia nada, mas gostava de ouvir. Aliás, não entendia nada no começo. Mas depois começou a entender.

Naquele tempo, havia um pequeno cinema em Crateús, onde Francisco assistia a alguns filmes americanos, prestando menos atenção ao enredo que às legendas e às falas dos atores. Assim, foi juntando os rudimentos adquiridos na escola com o que aprendia nesses filmes, e logo estava entendendo frases inteiras, inclusive algumas captadas através das ondas curtas da emissora londrina.

E, talvez por causa dos filmes que via no cinema, nasceu em Francisco um sonho: ser ator. Mas, não em novelas ou no cinema brasileiro. Queria ser ator no cinema americano.

É a partir deste ponto que se abre o espaço para falar da personagem central da história: Dona Mazé, mãe de Francisco.

Essa mulher, acostumada à dura lida da atividade agrícola, teve sensibilidade suficiente para perceber que Francisco não era como os seus outros nove filhos. Todos frequentaram a escola, mas vontade mesmo de estudar, somente Francisco, o caçula, a demonstrava. Seus irmãos aprenderam a ler, escrever, fazer algumas contas, mas nada que os levasse além dos primeiros anos do ensino fundamental. Gostavam mais dos trabalhos manuais ou de ajudar os pais na roça.

Com Francisco acontecia o contrário. Até ajudava os pais no trabalho pesado, mas gostava mesmo era de estudar, principalmente a língua inglesa. E gostava de ouvir músicas em inglês também. Não era fácil conseguir, nas suas condições, discos de bandas e cantores estrangeiros, mas ele conseguia. Fosse em bancas de revistas ou lojas de produtos usados, Francisco sempre garimpava alguma coisa. Para isso, contava com o apoio de sua mãe.

Aliás, não era só assim que Dona Mazé ajudava o filho a buscar seu sonho. Com muito jeito, ela também conseguia afastar Francisco dos trabalhos mais pesados, dando-lhe mais tempo livre para estudar e ouvir aquelas músicas que ela não entendia.

Foi assim que, quando Francisco ainda era um rapazinho, Dona Mazé, articulou para que ele fosse morar com uma prima sua, na capital cearense.

– Prima Ciça, eu queria lhe fazer um pedido – anunciou Mazé. – Deixe o Francisco morar na sua casa uns tempos, pra ele ter uma condição melhor de estudar em Fortaleza.

Dona Ciça atendeu o pedido de bom grado. Já estava com seus filhos criados, e sabia que Francisco não lhe daria trabalho ou preocupação. Era um bom menino.

O certo é que não foi preciso mais que aquele empurrão da mãe e da tia para que Francisco pusesse em prática seus próprios planos de dominar totalmente o idioma bretão. Sempre no propósito de, um dia, mudar-se para os Estados Unidos e tentar a sorte no cinema americano.

-*-

Em Fortaleza, Francisco mergulhou no seu sonho. Frequentava o colégio pela manhã, fazia as tarefas obrigatórias após o almoço, e passava o resto da tarde estudando inglês. À noite, ouvia música em discos e fitas K7, e, no rádio, a programação da BBC.

Receberia outro apoio decisivo antes de terminar o primeiro ano estudando na capital. O professor de inglês do colégio, impressionado com a dedicação de Francisco, convidou-o para tomar aulas grátis no cursinho onde ensinava:

– São três dias por semana, Francisco. Segunda, quarta e sexta. As aulas vão das quatro às cinco e meia da tarde. Fale com sua mãe que, se ela autorizar, a bolsa é sua.

– Ela autoriza! – respondeu Francisco eufórico, quase sem acreditar no que estava acontecendo.

Na semana seguinte, lá estava ele, sem caber em si de tanta felicidade, para ter sua primeira aula no cursinho de inglês. Entrou em uma turma no meio do semestre, mas isso não foi dificuldade para quem vinha se preparando a vida toda por um momento assim.

A partir daí, nada mais seguraria Francisco. Continuava sendo um bom aluno em todas as matérias do colégio, mas no estudo da língua inglesa era simplesmente insuperável. Nas tardes livres – terças e quintas – frequentava a biblioteca do cursinho e deleitava-se com livros e filmes. Além das músicas que ouvia. A essa altura, já sabia de cor letras inteiras de canções dos Beatles, Pink Floyd e da sua banda preferida, o Iron Maiden. Passou a auxiliar o professor. Até ganhava algum dinheiro com aulas de reforço.

Toda essa evolução era acompanhada à distância por Dona Mazé, que continuava morando em Crateús. Francisco lhe escrevia quase toda semana. Cartas que eram lidas com certa preguiça por algum de seus irmãos, mas que deixavam a mãe cada vez mais feliz, por saber dos bons resultados de sua aposta.

Nas férias, Francisco passava alguns dias em Crateús, enchendo Dona Mazé de alegria e orgulho. Mas, logo que podia, voltava às atividades na capital.

-*-

A conclusão do segundo grau (hoje ensino médio) trouxe novo impulso para o sonho de Francisco, já então chamado pelos colegas de Frank. Fora selecionado para um curso de inglês… Nos Estados Unidos da América!

Seriam seis meses de duração. A escola americana cobriria todos os custos, inclusive de passagens aéreas, hospedagem e alimentação. Parecia um sonho. Até a cidade onde ficaria morando tinha seu nome: São Francisco, na Califórnia.

Na noite da premiação, Francisco escreveu duas cartas para a mãe. Uma, mais curta, falando sobre a alegria de ir estudar nos Estados Unidos, a maneira como fora selecionado e a gratidão que tinha a ela, à tia e ao professor, por tudo que estava vivendo.

A outra carta, mais longa, ele somente enviaria depois que estivesse estabelecido na América. Nela, Francisco revelava seus verdadeiros planos. Não pretendia voltar. Tentaria tudo o que fosse possível para ficar por lá e seguir seu sonho de trabalhar em Hollywood. Tornar-se-ia um imigrante ilegal, se fosse o caso. Por isso, talvez ficasse muito tempo sem dar notícias. Dona Mazé deveria estar pronta para longos períodos sem saber onde Francisco estava.

E foi exatamente o que aconteceu. Concluído o curso na Califórnia, Francisco sumiu. Ninguém, nem de sua família, nem do cursinho onde estudara, sabia de seu paradeiro.

Em Crateús, Dona Mazé seguia sua vida, carregando dentro de si um vazio que nada era capaz de preencher. Nem a companhia do marido e dos outros filhos era suficiente para suprir a falta que Francisco lhe fazia.

-*-

Passaram os anos. Dona Mazé ficou viúva. Os irmãos de Francisco já haviam casado e lhe dado alguns netos. Alguns ainda moravam em Crateús, outros em Fortaleza, mas sempre davam um jeito de visitar a mãe.

E nada de notícias de Francisco. Cada vez que membros da família se reuniam, o irmão caçula era assunto das conversas. As crianças ficavam maravilhadas com as histórias do tio desaparecido. Estaria ainda vivo? Uns diziam que sim. Outros duvidavam.

Até que, alguns dias antes do Natal do ano de 1999, em uma ocasião na qual quase todos os irmãos de Francisco estavam em Crateús, chegou à casa de Dona Mazé uma correspondência misteriosa.

Uma caixa grande, com coisas escritas em inglês. Colada em um dos seus lados, uma etiqueta com a anotação do que parecia ser o nome do remetente: Frank Patterson.

Juntou gente para ver a encomenda. Filhos, netos e vizinhos de Dona Mazé puseram-se em volta da caixa. O próprio gerente da loja dos Correios, senhor Herivaldo, ajudou a abri-la, para garantir que seu conteúdo não seria danificado. Com muito jeito, foi cortando o papelão com um estilete e revelando o que havia ali dentro.

Eram três itens: uma carta, um aparelho de videocassete e uma fita de vídeo do filme “O Resgate do Soldado Ryan”.

Nas várias páginas da carta, Francisco contava em detalhes a sua trajetória nos Estados Unidos. A vida como imigrante, as diversas profissões que aprendera trabalhando ilegalmente, as cidades onde morou, um casamento mal sucedido, a mudança do nome, a legalização de sua situação, e, finalmente, a razão de não ter dado notícias antes:

Minha mãe, já estou vivendo de cinema faz um tempo, mas sempre atrás das câmeras. E eu tinha tomado a decisão de só lhe escrever quando conseguisse trabalhar como ator.

É por isso que só agora estou escrevendo. Porque eu consegui.

O aparelho de videocassete, que estou enviando junto com essa carta, é para a senhora poder assistir. E o filme é esse que também vai no mesmo pacote.

O ator principal é muito famoso, inclusive aí no Brasil. Eu apareço só um pouco, mas para mim já é a realização de um sonho.

E seguia para a parte final da missiva, mandando lembranças para irmãos, amigos e a Tia Cícera.

-*-

“O Resgate do Soldado Ryan” havia sido lançado no Brasil há mais de um ano, mas, por aquele tempo, o pequeno cinema que tinha despertado os sonhos de Francisco havia fechado. Pouca gente na cidade havia assistido ao filme. Dos que estavam na casa de Dona Mazé, naquela tarde, ninguém.

Talvez por isso, enquanto uma vizinha lia a carta para Dona Mazé, alguns dos irmãos de Francisco empenhavam-se em ligar o vídeo cassete e fazer as conexões com o televisor.

O sol já havia se posto quando tudo ficou pronto. Uma pequena multidão acomodava-se em cadeiras e no chão da sala para ver o filme. Que já não era mais o filme de Tom Hanks ou de Steven Spielberg, e sim o filme de Francisco. A prova da vitória de um filho de Crateús na América!

A Dona Mazé coube uma posição privilegiada, em uma cadeira de balanço, bem à frente do aparelho de TV.

E fez-se um silêncio praticamente absoluto quando as barcas apinhadas de soldados começaram a se aproximar da Praia de Omaha. Alguns, de patente mais alta, davam orientações aos seus comandados. Tentavam passar segurança. Mas era possível ver a tensão e o medo nos seus semblantes. A mão trêmula do personagem interpretado por Tom Hanks, mostrada em close, fez alguns telespectadores se encolherem em seus lugares.

Começa o desembarque. E o tiroteio. O filme é famoso pelos seus vinte e sete minutos de batalha na costa da Normandia, logo no começo.

Alheia à importância histórica do desembarque, e com os olhos fixos na tela da TV, Dona Mazé concentrava-se em um objetivo único: encontrar Francisco. Procurava, em cada um daqueles jovens, um sinal, uma característica do seu filho. Um rosto, uma mão, algo no jeito de andar… Emocionou-se ao ver um jovem com as vísceras expostas, gritando pela mãe. Mas os chamados eram para outra mãe.

Na cena seguinte, surgiu a inusitada imagem de um soldado transportando nas mãos uma máquina de escrever. Falava alguma coisa com o seu comandante – aquele da mão trêmula. Dona Mazé praticamente não os viu. Estava completamente absorta, observando o soldado posicionado logo à frente deles.

Era apenas mais um dos que tentavam se proteger atrás de uma das muitas estruturas de ferro espalhadas pela praia. Mas, não para Dona Mazé. Enquanto olhava para aquele soldado, soltou a voz de maneira emocionada, mas quase imperceptível:

– Francisco!

Sim, aquele era seu filho! Não havia dúvida. A altura, o perfil, a maneira como se punha de pé, tudo denunciava a presença de Francisco.

E Dona Mazé reconheceria seu filho caçula em qualquer lugar, a qualquer hora. Ainda que ele estivesse em meio a uma tempestade, ou a um tiroteio, como, de fato, era o caso.

Naquele momento, era como se Francisco estivesse novamente na sala de sua casa…

Mas, isso foi só por um segundo, no máximo dois. Subitamente, um disparo atingiu o capacete do soldado, atravessando-o e atingindo-lhe o crânio. Dois outros disparos perfuraram-lhe o tórax, um o atingiu no braço, outro ainda arrebentou-lhe a perna.

O soldado Francisco caiu morto.

Dona Mazé baixou a cabeça, com o rosto entre as mãos. As lágrimas, que já haviam brotado desde o primeiro instante em que reconhecera o filho, pela emoção, molhavam agora de tristeza o vestido.

Demorou-se com a cabeça abaixada ainda por uns minutos. Quando reuniu forças, levantou-se da cadeira e procurou ar puro na calçada de casa.

A exibição do filme prosseguia na sala. Somente o Seu Herivaldo foi até lá fora, perguntar se Dona Mazé precisava de alguma coisa. Ela disse que estava bem.

– Mas é difícil, Seu Herivaldo, pra uma mãe, passar tantos anos sem saber do filho… e, quando ele aparece, a gente vê ele morrer assim… crivado de bala…

– É filme, Dona Mazé…

– Eu sei, Seu Herivaldo. Mas, pra mim, que sou mãe, a dor é de verdade… mãe nenhuma merece ver o filho morrer assim…

E não falou mais nada. Apenas ficou ali, olhando a rua.

Seu Herivaldo entrou novamente na casa. Trouxe-lhe um copo d’água e foi ver o restante do filme.

-*-

Semanas depois, chegou outra carta de Francisco, que voltara a escrever regularmente para a mãe. Ele a visitou ainda uma vez em Crateús, poucos meses antes de ela falecer.

Mas aquele foi o único filme em que ela o viu atuando como figurante. Dona Mazé não se arriscaria a ver o filho morrer de novo.

(*) Dedicado ao querido amigo Zico. Que também é um Francisco, filho de Dona Mazé, nascido em Crateús. O maior conhecedor da língua inglesa que conheci até hoje.

DEU NO X