…E eu que fui enjeitada Só porque era furada. Me botaram um pau na boca, Sabão grudaram no furo, Me obrigaram a levar água Muitas vezes pendurada, Muitas vezes num jumento.
Era aquele sofrimento, As juntas enferrujadas. Fiquei com o fundo comido. Quando pensei que tivesse Minha batalha cumprido, Um remendo me fizeram: Tome madeira no fundo E tome água e leva água, E tome água e leva água.
Daí nasceu minha mágua: O pau da boca caía, Os beiços não resistiam. Me fizeram um troca-troca: Lá vem o fundo pra boca, Lá vai o pau para o fundo. Que trocado mais sem graça Na frente de todo mundo. E tome água e leva água E tome água e leva água.
Já quase toda enfadada, Provei lavagem de porco, Ai mexeram de novo: Botaram o pau na beirada. E assim desconchavada, Medi areia e cimento, Carreguei muito concreto Molhado duro e friento, Sofri de peitos aberto, Levei baque dei peitada.
Me amassaram as beiradas, Cortaram minhas entranhas. Lá fui eu assar castanha, Fui por fim escancarada. Servi de cocho de porco Servi também de latada.
Se a coisa não complica, Talvez eu seja uma bica Pela próxima invernada. E inverno é chuva, é água, E eu encherei outras latas Cumprindo minha jornada.
Entro no mercadinho do bairro, busco o essencial para sobreviver alguns dias … no passar dos itens para cobrança a mocinha operadora do caixa – nome mais correto nos dias atuais para quem vai me levar um rim na conta – pergunta se preciso de sacolinhas, aquelas de plástico consideradas o grande problema da sobrevivência humana, a vilã número um da hecatombe do mundo e, diante da minha necessidade me encara como se fosse eu um vilão a derrocar a humanidade: custam R$ 0,35 cada…
Passo meus parcos itens, conto os dias – antigamente eram moedas, hoje são os dias de fechamento do cartão, ou cartões – e concluo que para quem está todo borrado, apenas um simples vento não me derrubará.
Filosofo no caminho de casa:
1. Por que as sacolinhas são vilãs, já que impossível carregar a compra sem elas…
2. Por que a implicância com serem de plásticos; dentro do mundo atual quase tudo depende desse que um dia foi considerado uma grande descoberta…
3. E, impossível viver sem essa “coisa” …afinal, está presente em todos os produtos, ferramentas e segue uma longa lista…
4. Mas, qual solução? Abraçar o que podemos e carregamos…ou deixar tudo escorrerem sem poder conter, sujando o que queremos para nos alimentar?
5. Enfim, não sei…ou sei, mas me envergonho da solução que imagino…afinal, nem sempre existem plasticidade x sinceridade nas relações humanas …
Ah…consegui pagar a conta e não precisei como outros pais de família retirar algum item no caixa…por enquanto…
Com a nota divulgada tão logo desembarcou para seu exílio nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro se declarou presidente eleito, denunciando perseguição e fraude eleitoral, e revelou sua tentativa de preservar o patrimônio eleitoral do bolsonarismo, materializado nos quase 60 milhões de votos de domingo (25).
Mas não será fácil ser líder da oposição, à distância, até porque a primazia será de quem, no Brasil, exercerá a atividade insalubre de enfrentar um regime de crescente viés autoritário.
* * *
Esta nota aí de cima fala em “crescente viés autoritário”, se referindo ao regime brasileiro.
Dia desses andei relendo esse livrinho e me encantei, de novo. 30 conversas interessantes com gente do Nordeste, tipo Dom Hélder, Manoel Bandeira, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Jackson do Pandeiro, Sivuca, dentre outros.
Como se não bastasse tem prefácio e apresentações de Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, Maciel Melo, Luiz Berto e Paulo Rocha.
Gostei e recomendo.
É só pedir pelo imeio xicobizerra@gmail.com – que eu entrego em todo o Brasil.
Uma sátira sobre a embriaguez do mando, a liturgia da vaidade e a curiosa dificuldade de certos governantes em compreender que o poder tem prazo de validade.
Há uma curiosa metamorfose que acomete determinados homens quando chegam ao topo da hierarquia política. No princípio, apresentam-se como intérpretes dos anseios populares, servidores de uma causa coletiva, paladinos da justiça social e incansáveis defensores dos desvalidos. Discursam com a solenidade de quem acaba de descobrir a fórmula definitiva para redimir a humanidade. Prometem inaugurar uma era de prosperidade, decência e grandeza. A pátria, dizem, precisa deles. O povo, garantem, não pode prescindir de sua iluminada presença. O tempo, entretanto, costuma ser um examinador implacável. A retórica perde o viço, as promessas começam a apresentar rachaduras e a realidade, essa criatura inconveniente que não obedece a pronunciamentos oficiais, insiste em aparecer à porta. É nesse momento que o estadista, se realmente o for, compreende a dimensão de suas responsabilidades. O governante menor, por sua vez, descobre um problema muito mais grave: o mundo não parece suficientemente agradecido por tê-lo no comando. E eis que surge a questão fundamental: quando o exercício do poder deixa de ser um instrumento a serviço da sociedade e passa a ser tratado como uma necessidade pessoal de quem o ocupa? A resposta pode ser encontrada na conduta daqueles que parecem enxergar a Presidência não como uma função temporária, submetida à Constituição e à vontade dos eleitores, mas como uma espécie de patrimônio existencial. Um trono republicano, por assim dizer, no qual o ocupante se imagina indispensável, insubstituível e, por algum inexplicável equívoco de interpretação histórica, acima do desgaste que inevitavelmente acompanha qualquer trajetória política. A República, convém recordar, não é uma propriedade particular. O mandato não constitui escritura de posse. A faixa presidencial não é uma relíquia hereditária, e o Palácio não se transforma em extensão da sala de estar de quem ali trabalha. O cargo pertence à ordem institucional; o ocupante, ao calendário eleitoral. Essa distinção, embora elementar, parece escapar a certas personalidades políticas com a mesma facilidade com que lhes escapam as consequências de suas próprias palavras.
A fadiga seletiva dos poderosos: De tempos em tempos, surgem relatos e comentários segundo os quais determinado governante estaria cansado de tudo: das pessoas, dos aliados, dos adversários, do Congresso, do Senado, dos tribunais e até das engrenagens institucionais que deveria respeitar. É uma narrativa que merece reflexão, mas também cautela. Sem evidências diretas, não há como transformar impressões jornalísticas em diagnóstico sobre o estado íntimo de ninguém. A hipótese, contudo, oferece excelente matéria para a sátira política. Imagine-se um governante exausto da população que pretende continuar governando; aborrecido com o Parlamento cuja cooperação lhe é necessária; impaciente com os demais Poderes que integram o sistema constitucional; contrariado com as críticas que constituem parte indispensável da vida democrática. Imagine-se, ainda, que, apesar de tamanha indisposição com quase tudo o que o cerca, ele conserve uma disposição admirável para permanecer exatamente onde está. Eis uma modalidade peculiar de cansaço: aquele que aflige o indivíduo diante de todas as obrigações do cargo, mas desaparece misteriosamente quando se menciona a possibilidade de deixá-lo. A ironia praticamente se escreve sozinha. Se governar se tornou um fardo insuportável, por que insistir na permanência? Se os interlocutores são insuportáveis, os mecanismos institucionais são irritantes e a sociedade não corresponde às expectativas do governante, talvez o problema não esteja exclusivamente nos outros. Pode haver uma diferença considerável entre estar cansado de governar e estar cansado de não conseguir governar sem resistência. A democracia, afinal, possui esse defeito imperdoável aos olhos dos temperamentos autorreferentes: ela não oferece obediência absoluta. O Congresso não é um departamento subordinado à vontade presidencial. O Senado não é uma plateia convocada para aplaudir. O Judiciário não existe para ornamentar solenidades. E a população, essa entidade frequentemente invocada nos palanques, tem o péssimo hábito de conservar opiniões próprias depois que termina a campanha eleitoral. O governante que deseja apenas aplausos talvez devesse considerar uma carreira no teatro. Mesmo ali, porém, a plateia pode abandonar o espetáculo.
O Brasil aprendeu nos últimos anos que existe inflação e “sensação de inflação”. A realidade dos fatos, a partir desse fenômeno, adquiriu um novo status: assim é, se lhe parece (ou se assim te contam). Será que estamos entrando também na era da “sensação de democracia”?
O motivo mais visível para se pensar nessa hipótese surgiu na campanha presidencial. Um setor muito esclarecido da sociedade – que poderia ser classificado como “elite cultural” ou algo assim – passou a ter uma conduta ostensiva em defesa do seu candidato. Basicamente, intelectuais e artistas saíram apontando o dedo para colegas famosos e exigindo deles que declarassem publicamente seu voto para presidente da República.
Pode-se dizer que foi exigência, porque hoje em dia uma cobrança em rede social, entre usuários de grande alcance, é uma mensagem que chega para todo mundo. Ou seja: ninguém pensou em discrição ou privacidade. O jogo é expor o alvo ao julgamento geral.
Sobreveio então uma verdadeira campanha para estigmatizar aquele que não “se posicionasse” na eleição. Ou seja: integrantes da classe artística (os mais ruidosos) passaram a jogar no ventilador o nome de colegas que ainda não haviam declarado publicamente seu voto em Lula. Por que em Lula? Porque para o comando propagandístico que outorgou a si mesmo o posto de porta-voz da cultura nacional, Lula é a única possibilidade de democracia para o Brasil.
Em nome da democracia, portanto, figuras célebres do showbiz passaram a patrulhar, à luz do dia, quem não havia declarado voto no PT. Existe perseguição democrática? Se os valores forem transplantados para o campo das sensações, pode até existir.
Numa reação bastante rara nos dias de hoje, o cantor Falcão, do grupo O Rappa, disse o seguinte sobre a chegada dos patrulheiros ao seu quintal:
“Vocês têm seu político de estimação que é o sistema (kkkkk). Tiram foto, abraçam e botam camisa. Que piada. ‘Geral’ atolado nos impostos, supermercado caro, crimes, saidinha de estuprador, zero segurança e vocês insistem (kkkkk). Aqui é suor e trabalho. Canto pra todos e não pra um lado. Eu sou e sempre fui contra esse sistema que vocês idolatram. Aqui é sem privilégios, suor, trabalho e sem Lei Rouanet. Vai lá perturbar o João Gomes”.
Ou seja: uma voz quase solitária surgiu em meio à patrulha para dizer que os “democratas” que andam caçando colegas por aí são, na prática, defensores do sistema. Exatamente isso: usam discurso libertário para defender o poder – e todas as suas emanações deletérias, como nas áreas econômica e criminal, citadas por Falcão.
Qual seria o nome adequado para essas brigadas culturais que perseguem o pensamento alheio? Rebeldes a favor? Libertários oficiais? Revolucionários do sistema? Governistas de oposição?
Escolha você mesmo o seu paradoxo preferido. Com uma certeza: se a sociedade normalizar a perseguição às consciências individuais como forma de “responsabilização política”, ela estará de fato decidindo substituir a democracia pela sensação de democracia.
Para a oposição, agora faz sentido a ameaça de Lula, no debate, dizendo para Flávio se cuidar após o término do mandato, porque “perderia a imunidade”.