MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FUNDAMENTAIS

Nosso ministro da justiça tuitou o seguinte:

“Princípios básicos do Estado de Direito:
1.Há direitos fundamentais.
2.Não há direitos fundamentais absolutos.
3.As liberdades de expressão e imprensa são direitos fundamentais.
4.Tais direitos são limitados pela lei.”

Nosso ministro está completamente errado. Os direitos fundamentais de uma pessoa não devem ser limitados pelas leis. As leis é que devem ser limitadas pelos direitos fundamentais, como aliás o próprio nome já diz: eles são o fundamento de nossa sociedade, enquanto uma lei é simplesmente algo que um vereador ou um deputado escreveu num papel. Os direitos fundamentais foram estabelecidos pelo estudo da ética ao longo de milênios de experiência e de evolução de nossa sociedade. Já as leis surgem aos milhares do dia para a noite, incoerentes, contraditórias entre si, diferentes de um lugar para outro. Achar que as leis estabelecem o certo e o errado implica admitir que se uma pessoa caminhando cruzar uma linha imaginária que separa um município de outro, ou um país de outro, o certo pode passar a ser errado e o errado pode passar a ser certo.

É claro que interessa muito aos políticos que seus “súditos” acreditem nessa bobagem. Não é por engano ou ignorância que eles dizem que a lei está acima do ser humano, é pelo mais puro interesse. Seus privilégios e sua vida boa dependem de uma boa parte das pessoas acredite ser subordinada ao governo e necessitar dele para viver. Como disse Bertrand de Jouvenel, “uma sociedade de cordeiros gera um governo de lobos”.

Acreditar que direitos fundamentais estão subordinados às leis significa dizer que minha vida e minha liberdade dependem da vontade de Rodrigo Maia, Dias Toffoli ou Bolsonaro. Nenhum deles é um deus ou um ser perfeito e à prova de erros; pelo contrário, são apenas seres humanos como eu e você, com qualidades e defeitos. A mais simples lógica diz que direitos fundamentais devem ser iguais para todos. Como aceitar que uma pequena minoria tenha o direito de limitar o direito dos outros escrevendo leis?

O tuíte do ministro contém mais uma frase, muito esclarecedora:

“Diante disso, quem defende a democracia deve repudiar o artigo ‘Por que torço para que Bolsonaro morra’.”

É lógico que o tal artigo é uma estupidez que deve ser repudiada, mas por uma questão de bom-senso e ética. A democracia não tem nada a ver com isso. Aliás, se aplicarmos os conceitos democráticos, o tal artigo passaria a estar certo se fosse apoiado por 51% dos brasileiros, o que obviamente é uma bobagem.

Acontece que democracia é um sistema de governo, não uma referência de moral, muito menos de ética. Serve para escolher os governantes e definir uma forma de tomar decisões de interesse coletivo. Não serve para dizer o que é certo e o que é errado.

Aliás, este raciocínio “a democracia é perfeita e inquestionável, portanto as leis de uma democracia são perfeitas e inquestionáveis” tem sido usado por todas as ditaduras do mundo. Todo regime opressor toma o cuidado de escrever leis que justifiquem seus atos.

Pelos critérios da época, o Brasil de D.Pedro II era uma monarquia democrática, com Câmara de Deputados, Senado e eleições periódicas e livres. E nesta democracia a escravidão era perfeitamente legal, amparada pelas leis e pela constituição. O partido nacional-socialista de Hitler chegou ao poder em eleições democráticas, e mandar judeus para campos de concentração era algo previsto em lei. Na África do Sul dos anos 1950/1960, havia eleições democráticas e os políticos eleitos fizeram leis instituindo o Apartheid. Fico tentando imaginar nosso ministro dizendo a um judeu na Alemanha em 1939 ou a um zulu na África do Sul em 1960: “Pare de reclamar, meu caro, os seus direitos fundamentais não são absolutos, eles são limitados pela lei. Você é contra o Estado de Direito?”

Por último, vale lembrar que direitos fundamentais são coisas como vida, liberdade e propriedade. Misturá-las no mesmo tacho com populismos do governo como escola ou posto de saúde “de graça” é mais uma estratégia dos políticos para misturar os conceitos e nos fazer acreditar que nossos direitos são apenas favores concedidos por eles.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MEU PITACO SOBRE EDUCAÇÃO

Já me contive várias vezes em escrever sobre os problemas da educação no Brasil, porque acho que o tamanho do problema é mais próximo de um tratado com vários volumes do que de um pitaco aqui no JBF. Mas vou usar uma notícia recente para delimitar o assunto a alguns pontos específicos.

Como todos sabem, governos grandes adoram fazer planejamentos e programações de longo prazo, e costumam gastar bastante em comitês e sub-comitês para escrever estes planos e programas (depois gastam de novo em novos comitês que produzem novos relatórios explicando porque os planos não funcionaram).

No Brasil, a lei manda que a cada dez anos seja produzido um Plano Nacional de Educação, definindo metas para estes dez anos. Nosso plano atual saiu em 2015 e vale até 2024. Esta semana foi divulgado um relatório dizendo que no passo atual as tais metas dificilmente serão cumpridas.

Então aí vão alguns pitacos sobre algumas destas metas:

Meta 1 – 50% das crianças até 3 anos em creches.

Colocar crianças com menos de três anos em creches, em minha opinião, mostra um problema social mais profundo, e deveria ser visto não como uma meta, mas como um mau sintoma: mostra que há crianças em famílias que não reúnem as condições básicas para criá-las. Falando mais claro: crianças devem ser educadas, primordialmente, pela sua família (embora os professores de hoje gostem de se intitular educadores – aliás, educadorxs). Colocar crianças de dois ou três anos em creches indica duas possibilidades:

– Os pais não podem dedicar-se à criança, por necessidade financeira ou outra qualquer; ou, pior:

– Os pais não querem dedicar-se à criança, porque é mais fácil “terceirizar” a responsabilidade para o estado.

Qualquer que seja o motivo, deixar a educação de uma criança inteiramente nas mãos do estado inevitavelmente criará uma sociedade de adultos submissos ao estado. Na creche, as crianças serão separadas em grupos homogêneos em idade, e serão condicionadas a agir de modo grupal: na hora de comer, todas comem; na hora de brincar, todas brincam; na hora de tomar banho, todas ficam em fila esperando sua vez. Agir e pensar igual aos outros será estimulado e recompensado; agir ou pensar por si próprio será reprovado e eventualmente punido.

E quando essas crianças virarem adultos? Serão seres sem individualidade. Pensarão e desejarão aquilo que todo mundo pensa e deseja. Seguirão regras sem jamais questioná-las. Quando o governo disser “todo mundo usando máscara”, obedecerão sem hesitar, e ainda acreditarão com todas as forças que “é para o seu próprio bem”. Quando o governo disser “agora todo mundo usando canga”, provavelmente acontecerá a mesma coisa.

Meta 5 – Atingir 100% de alfabetização dos alunos até o terceiro ano.

Meta 15 – Todos os professores da educação básica com licenciatura.

Meta 16 – 50% dos professores da educação básica com pós-graduação.

Sobre estas três, vou usar exemplos familiares: minha mãe foi professora, e suas duas irmãs também. As três lecionavam em colégios públicos. Nem elas, nem nenhuma outra professora destes colégios tinha cursado licenciatura: eram todas normalistas (aquelas cantadas por Nélson Gonçalves: Vestida de azul e branco/Trazendo um sorriso franco/No rostinho encantador…)

No ensino particular não era diferente: eu estudei em colégio marista, minha esposa em “colégio de freiras” dominicanas. A formação padrão de todos os professores ou professoras era o curso normal.

Não apenas funcionava, como a alfabetização era de 100%, ou quase isso, no primeiro ano. No terceiro ano, os alunos já estavam aprendendo noções básicas de gramática, e um aluno de terceiro ano não ser alfabetizado seria algo completamente insólito.

Comparemos os livros sem gravuras e as provas impressas em mimeógrafo a álcool daquela época com os computadores e a internet de hoje. Faz sentido as “metas” atuais estarem abaixo do que já existia meio século atrás? É como se os padrões da Volkswagen para produzir um carro hoje estivessem abaixo de um fusca 1960. Para deixar bem claro: minha esposa cursou o segundo grau em escola pública, sem internet e sem computador, e aprendeu a ler e escrever em inglês, francês, latim e grego. Por que um estudante de hoje, mesmo passando o dia com o smartphone na mão, não é capaz de escrever três parágrafos em inglês?

Meta 12 – 50% da população entre 18 e 24 anos matriculada no ensino superior.

Meta 13 – 75% dos professores do ensino superior com mestrado, 35% com doutorado.

Meta 14 – Formar 60.000 mestres e 25.000 doutores por ano.

Estas metas me dizem que o bilionário sistema de ensino público brasileiro não tem como objetivo ensinar: seu objetivo é conceder títulos.

Um irônico pensador americano disse uma vez: “Os políticos e administradores do sistema educacional acreditam em escolaridade da mesma forma que as pessoas acreditam em Jesus ou em Marx ou em Trump, e agem e planejam como se um mandamento divino dissesse que todos devem ter um diploma, mesmo que sejam incapazes de ler um jornal ou fazer uma multiplicação. O resultado óbvio é que na hora de se candidatar a um emprego, um diploma vale o mesmo que um papel higiênico usado.”

Bem sintomático dessa “crença” em diplomas: as metas pedem mais graduados, mais pós-graduados, mais mestres, mais doutores. Mestres e doutores em quê? Não importa. Precisamos apenas de diplomas e de títulos. Penso cá comigo: será que algum problema brasileiro é causado pela falta de sociólogos ou filósofos? Será que o caminho para a prosperidade de um país é ter mais bacharéis em letras, ciências políticas, linguística, relações públicas, música?

Como nossas universidades tem autonomia para criar seus próprios cursos, tudo vira um jogo de compadres, onde a universidade produz seus próprios doutores e estes doutores se dedicam a defender os interesses corporativistas da universidade, com um discurso que prega que os assuntos do mundo acadêmico só podem ser debatidos dentro do mundo acadêmico. Ao restante da sociedade, cabe apenas pagar a conta.

Meta 20 – Ampliar o gasto público em educação para 10% do PIB.

Qualquer notícia sobre o assunto, em qualquer lugar que se leia, diz que a necessidade de gastar mais é um consenso absoluto. Será que faz sentido?

Segundo dados do Banco Mundial, que assim como os governos tem um departamento só para produzir relatórios e “planos”, o Brasil gasta 6,2% do PIB com sua educação. Isto é bem mais que Canadá (5,5%), Austrália (5,3%), Suíça (5,1%), Coréia do Sul (5,1%) e Alemanha (4,8%). Por outro lado, os países que gastam mais do que nós não são muitos, e alguns deles não são exatamente bons exemplos na hora de dizer que aumentar gasto significa progresso, como Botsuana (7,8%), Bolívia (7,3%), Suazilândia (7,1%) e Moldova (6,7%). Vale lembrar que o gasto brasileiro com educação quadruplicou nos últimos vinte anos e os resultados só pioraram.

Todos os políticos, jornalistas, acadêmicos e celebridades em geral garantem que devemos gastar mais, bem mais, como mostra a meta oficial de atingir 10% do PIB em 2024. Existem exemplos disso? Algum país desenvolvido gasta 10% do PIB em educação? Não. Nem mesmo países onde o estado é gigantesco, como França, Suécia e Dinamarca gastam isso. Na verdade, segundo a lista do Banco Mundial, apenas um país do mundo diz gastar mais de 10% de seu PIB na educação: Cuba. Se isso é um bom exemplo, e se os números do governo cubano merecem crédito, eu deixo por conta dos meus leitores.

Em minha opinião, o ensino público, especialmente o de nível superior, tornou-se um estado paralelo dentro do estado brasileiro: administra a si próprio, produz suas próprias verdades, declara-se imune a qualquer crítica externa, arroga-se o direito de avaliar e de julgar a si próprio. Não crê existir para servir à sociedade, mas que a sociedade existe para servi-lo. Aumentar ainda mais as bilionárias verbas que esta monstruosidade recebe servirá apenas para fazê-la crescer ainda mais e tornar-se mais poderosa, mais influente, mais arrogante e mais ambiciosa.

A educação brasileira precisa ser completamente repensada, desde o início. Não será com metas numéricas manipuláveis que resolveremos algum problema; muito menos com aumento de verbas. Nosso sistema educacional tornou-se um parasita da sociedade brasileira, e não se combate um parasita dando-lhe fortificante.

P.S. É possível que algum leitor se pergunte se é válido comparar gastos como porcentagem do PIB entre diferentes países, já que os PIBs, e principalmente os PIBs per capita, são diferentes. Creio que se falássemos em saúde a preocupação se justificaria, já que equipamentos e remédios são comercializados no mundo todo e tem preços em dólar. Mas a educação depende muito pouco de produtos importados, e não faz muito sentido, por exemplo, comparar em números absolutos o salário de um professor brasileiro com o de um professor alemão. O que importa é analisar o salário de um professor brasileiro dentro da realidade brasileira.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PALAVRAS, NADA MAIS QUE PALAVRAS

Uma ditadura é, por definição, algo que destrói a liberdade. Ditaduras e ditadores nos tiram a liberdade de escolher, a liberdade de trabalhar, e, mais importante, a liberdade de pensar. Há duas formas de acabar com a liberdade: a primeira é usando a força bruta, através de polícias e exércitos. É difícil, caro e de pouca eficiência. A segunda forma é criando um ambiente onde ninguém pensa por si mesmo e cada um é a polícia do outro: funciona muito melhor.

O mundo moderno está cheio de palavras que funcionam como uma censura instantânea a qualquer idéia que discorde da maioria. Não se pode falar mal do governo porque é contra a democracia. Não se pode questionar a democracia porque fere a constituição. Não se pode discordar da constituição porque ameaça as instituições que garantem a democracia. E assim segue, em um círculo vicioso em que se repetem as mesmas coisas como se fossem palavras mágicas.

Vamos deixar de frescura. Podemos e devemos questionar coisas como “instituições”, “democracia” ou “constituição”. Principalmente em nosso pobre país, onde as instituições são uma porcaria, a democracia é uma porcaria e a constituição é uma porcaria.

Não dá para exigir “respeito às instituições” quando o congresso nacional tem duas centenas de deputados e senadores sendo investigados pelos crimes mais diversos ou quando os membros do supremo são nomeados por indicação política.

Não dá para exigir respeito a uma constituição absurda, que só se preocupa em defender privilégios ou prometer “direitos” para todos sem que ninguém saiba quem paga a conta.

Não dá para exigir respeito a um sistema que se proclama “democrático” só porque periodicamente o povo é obrigado a votar em deputados e senadores, sabendo que assim que eleitos estes deputados e senadores irão atuar para manter as coisas como estão. Pior: se alguém se atreve a questionar as atitudes do poder, escuta de volta “você votou, então não pode reclamar”.

Gosto muito de uma frase de Einstein que diz que não se pode resolver um problema usando o mesmo raciocínio que criou o problema. Não resolveremos nenhum problema enquanto todos os debates forem cerceados e interrompidos por este respeito beato por coisas indefinidas e abstratas como “democracia” e “instituições”. Muito menos enquanto as pessoas aceitarem como verdade a tolice de considerar que uma critica a algum político é uma ameaça a estas abstrações.

Nossas instituições funcionam muito mal e precisam não apenas ser questionadas, mas rebaixadas ao seu devido lugar: elas existem para servir à sociedade, não o contrário.

Nossa constituição precisa ser jogada no lixo o mais breve possível e substituída por algo que preste, o que não é uma tarefa fácil dada a ignorância política de nosso povo. Mas já jogamos no lixo seis constituições, não custa nada tentar mais uma vez – pior que essa é improvável.

Nossa suposta democracia precisa ser substituída por um regime que coloque em primeiro lugar a liberdade de cada pessoa de tomar suas próprias decisões e de ser responsável por sua vida. Dar a um grupo de políticos o poder de se meter em cada detalhe da vida das pessoas não é democracia, é ditadura, mesmo quando se tenta manter as aparências realizando eleições periódicas.

Mas para tudo isso acontecer, é preciso que o povo queira ser livre. Quando um povo tem medo da liberdade e prefere que um governo cuide dele como um adulto cuida de uma criança, ele conseguirá exatamente isso. Daí, não adianta reclamar das consequências.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TRABALHO

Minha família do lado paterno é 100% descendente de italianos. Meus antepassados emigraram de várias regiões do norte da Itália para a Serra Gaúcha, estimulados por um programa do governo brasileiro da época (1876). Eu sempre procuro ter em mente como foi a vida dos meus tataravôs, como padrão de comparação com a vida de hoje.

Os pais ou avós de meus bisavôs tinham tão pouca esperança no futuro de sua terra que preferiram vender o pouco que tinham e embarcar na terceira classe de um navio a vapor rumo a uma outra terra, sem saber direito onde ficava ou que língua se falava lá. Chegando aqui, descobriram que as terras mais planas já estavam ocupadas, e que eles seriam acomodados em terras montanhosas, cobertas por mata virgem e praticamente sem estradas – e eles teriam que pagar por estas terras. Até onde sei, nenhum deles desistiu.

Sua primeiras casas foram feitas de troncos de árvores partidos a machado, pois não havia ferramentas para cortar tábuas. Mas com o tempo estas ferramentas vieram, e surgiram casas de tábuas bem serradas e também de pedra. E surgiram pequenas oficinas que viraram fábricas, e pequenos armazéns que viraram mercados, e pequenas pousadas que viraram hotéis, e pequenos bares que viraram restaurantes, e muitos pequenos negócios que prosperaram, porque seus donos trabalhavam duro, dia e noite, sem jamais reclamar; ao contrário, eram GRATOS por poder trabalhar e construir seu futuro, e até sonhar com um mundo melhor para seus filhos.

Nunca um destes imigrantes se orgulhou de viver às custas dos outros, ou reclamou de ter muitos problemas. Problemas eles tinham, aos montes, mas a solução para todos eles era uma só: trabalho. Com trabalho, vontade, responsabilidade, persistência, os problemas se resolviam. Para as crianças, os mais velhos ensinavam frases como “Um dia sem trabalho é um dia sem comida” ou “A vida é dura para quem é mole”.

Mas chegou um dia em que os mais jovens deixaram de escutar os “mais velhos” e passaram a escutar outras pessoas. Estas pessoas diziam que não era preciso trabalhar para conseguir as coisas; existia uma coisa chamada governo que dava coisas de graça. Também não era preciso disposição e coragem para enfrentar os problemas: bastava transferir os problemas para os outros. E para viver bem, trabalhar muito não era o melhor caminho: bom mesmo era ser “funcionário do governo”, onde não fazia muita diferença entre ser esforçado ou não, nem entre trabalhar muito ou “enrolar”: o salário era garantido todo mês.

Os jovens mais entusiasmados com estas idéias “fizeram faculdade”, e se tornaram professores, para poder repetir estas idéias para as gerações mais novas. Dentro das universidades, especialmente as públicas, discordar deste pensamento passou a ser algo mal-visto, sujeito a boicotes e perseguições.

Em pouco tempo, este modo de pensar se tornou uma maioria absoluta: todos têm a certeza de que nasceram com um monte de direitos. A idéia de que “ter direito” a algo significa uma obrigação para uma outra pessoa não passa pela cabeça de ninguém. Através dessa abstração chamada “estado” (eu prefiro usar “governo”, que é mais direto) todos fingem que é possível ter coisas “de graça”.

Pior que o direito de ter coisas, é o direito de não ter responsabilidades. As pessoas acreditam com toda a convicção que a vida deve ser composta apenas de alegrias e prazeres; tudo que é aborrecido, chato, preocupante, perigoso, desagradável, deve ser resolvido pelos outros.

Não gosta de estudar? Não tem problema, o governo inventa uma escola onde todo mundo passa de ano mesmo sem saber nada. Dá até para entrar na faculdade sendo semi-analfabeto, e sair de lá um semi-analfabeto diplomado.

Acha trabalhar muito cansativo? Não tem problema, como todo mundo tem diploma universitário, o governo inventa um monte de normas para obrigar os outros a contratar os diplomados para não fazer nada. Na lingua do povo, isso se chama “pagar alguém para assinar”.

Não quer trabalhar, mas é tão preguiçoso que não conseguiu ter um diploma? Não tem problema, faz um cadastro na prefeitura e ganha um dinheiro do governo todo mês. Se tiver filho, ganha mais, então simbora fazer filho.

Criar filhos é trabalhoso e cansativo demais? Não tem problema, o governo providencia creches e escolas em tempo integral, e explica para todo mundo que a função da escola não é ensinar, é “educar”. Como educar era função dos pais, fica estabelecido que os pais não tem mais obrigação nenhuma a não ser largar o filho da creche as sete da manhã e buscar às seis da tarde, de preferência jantado e de banho tomado.

Há também as coisas minúsculas: o governo deve regular o preço da pizza, criar regras sobre a bagagem nos aviões e manter toda uma estrutura burocrática de “defesa do consumidor” que garanta que todos possam ser tolos, fúteis e inconsequentes em cada minuto de sua vida.

Claro que às vezes as coisas saem do combinado, como agora: “Como assim eu posso ficar doente e morrer? Não, não admito. Alguém tem que tomar alguma providência. Eu, sujeito a pegar um vírus? Absurdo! Eu tenho direitos.”

Nada agrada mais um político do que ver seus eleitores exigindo “direitos”. Ele sabe que a esmagadora maioria destes eleitores não tem noção do que está pedindo e se contenta com qualquer coisa que o político disser. Se além de agradável, a fala do político der ao eleitor a chance de se fazer de poderoso, com direito a impôr a sua verdade aos outros, então o eleitor chegou ao paraíso. Quer coisa melhor que ficar em casa sem trabalhar, com salário garantido e ainda poder bancar o gostosão no facebook postando “Fica em casa, babaca!” ?

Claro que mesmo que todo mundo finja que não, toda ação tem consequências. As consequências dessa ilusão coletiva de que todo mundo pode passar o ano de férias (mas com os pobres trabalhando para manter os mercados abastecidos) estão se aproximando. Indústrias, já não tínhamos: foram para a China. Comércios, estão fechados para que as autoridades possam fingir que estão resolvendo o problema. Muitos deles não voltarão a abrir. Os impostos que eles pagavam vão fazer muita falta para os prefeitos e governadores daqui a alguns meses, e os empregos perdidos não voltarão em um passe de mágica. Não é difícil ver que tempos muito difíceis se aproximam.

O irônico disso tudo é que as gerações passadas sabiam exatamente o que fazer em uma crise como essa: arregaçar as mangas e trabalhar. Mas nos dias de hoje, falar isso é tão grave quanto xingar a mãe dos outros. Trabalhar? Que horror! E os meus direitos?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HONG KONG

Hong Kong é, ou foi, um país no sul da China. Fez parte do Império Britânico até 1997, quando, cumprindo um tratado assinado um século antes, foi incorporado à China. O que será que este minúsculo país pode nos ensinar?

Em 1841, durante a chamada Guerra do Ópio, a Grã-Bretanha ocupou uma pequena ilha de pescadores situada na foz do Rio das Pérolas e implantou um porto e entreposto comercial. Mais tarde, em 1898, um tratado entre Londres e Pequim incorporou ao novo país uma área da península de Kowloon e mais de duzentas minúsculas ilhas ao redor da ilha de Hong Kong. O tratado tinha uma validade de 99 anos.

Hong Kong nasceu e cresceu como uma colônia do império britânico, administrada segundo as leis inglesas. Como não tinha nenhum recurso natural, sendo pobre até em água potável, seu desenvolvimento era baseado exclusivamente na indústria e comércio. Em 1865 surgiu o primeiro banco, chamado HSBC, que é hoje um dos maiores do mundo.

A liberdade de comércio proporcionada pela filosofia britânica atraía muitos imigrantes, especialmente da China. A população de 125.000 em 1865 saltou para 725.000 em 1925 e 1.600.000 em 1941.

Em dezembro de 1941, no mesmo dia do ataque à Pearl Harbor, o Japão invadiu Hong Kong. Sem recursos para se defender, e sem poder contar com ajuda de outros países, o país permaneceu ocupado pelo exército japonês até 1945. Quando a guerra acabou, a população havia caído para 600.000 pessoas. O restante havia morrido de fome ou fugido a nado para a China continental.

Após a guerra, um homem de sobrenome complicado destacou-se como crucial para o futuro de Hong Kong: John James Cowperthwaite. Como funcionário do Departamento de Comércio, e mais tarde Secretário de Finanças, ele manteve o país no rumo da liberdade de mercado, resistindo às pressões inglesas para aumentar o tamanho do estado e cobrar mais impostos.

Em 1949 começou a revolução comunista na China, e Hong Kong passou a receber dezenas de milhares de imigrantes todos os meses. Em poucos anos a população passou de dois milhões. Em 1970 já eram quatro milhões. Mas mesmo com este explosivo aumento da população, a economia de Hong Kong não parou de crescer, produzindo riqueza e empregos para os seus cidadãos e para os imigrantes que não paravam de chegar.

E o que eu acho interessante é que Hong Kong fez tudo exatamente ao contrário do que hoje é considerado “consenso” como receita para um país se desenvolver:

“Os governos devem adotar políticas de estímulo à economia”

Após a II Guerra, Cowperthwaite repetidamente ignorou ordens do governo britânico para elaborar planos ou programas econômicos governamentais. Quando perguntado, respondia que a economia estava crescendo mesmo sem o governo mandar. Em 1963, o economista americano Milton Friedman perguntou a Cowperthwaite porque não havia estatísticas sobre a economia no país. A resposta foi “se eu deixar os burocratas coletarem dados, eles vão querer usar estes dados para planejar a economia”. Tempos depois, o governo de Londres mandou uma comissão à Hong Kong para investigar a falta de estatísticas econômicas. Cowperthwaite literalmente os mandou de volta no primeiro vôo disponível.

“Os governos devem manter a moeda desvalorizada para estimular as exportações e equilibrar a balança comercial”

A moeda de HK era atrelada à libra esterlina (a moeda mais forte do mundo na época). Em 1967 a Grã-Bretanha subitamente desvalorizou a libra em 14%, o que obrigou todos as colônias a fazer o mesmo. Cowperthwaite desafiou o governo britânico e em menos de uma semana permitiu que a moeda se valorizasse novamente. A moeda de Hong Kong tem mantido o mesmo valor frente ao dólar durante os últimos quarenta anos.

“Os governos devem investir em obras públicas para aquecer a economia”

A única área onde Hong Kong investiu durante a época de Cowperthwaite foi na construção de prédios residenciais para evitar a proliferação de favelas, devido à maciça imigração da época. No restante, sua política era “se uma obra é viável, a iniciativa privada irá fazê-la”. Essa foi a resposta, por exemplo, quando políticos pediram que o governo construísse um túnel atravessando a baía; o túnel foi construído por uma empresa privada, sem o gasto de um tostão do governo. Cowperthwaite disse uma vez: “quando o governo entra em um ramo de negócios, ele normalmente torna este ramo inviável para todos os demais.”

“Os governos devem fornecer serviços gratuitos à população”

Durante o mandato de Cowperthwaite, não havia escolas gratuitas; a política oficial dizia que educar os filhos era uma responsabilidade dos pais. Resultados? A quantidade de crianças que frequentavam a escola era estimada em 99,8% do total.

“Os governos devem restringir as importações para proteger a indústria local”

Nunca houve restrições à importação em Hong Kong. Qualquer pessoa pode comprar o que quiser no exterior, sem restrições de quantidade e sem impostos de importação. Ninguém seria obrigado a comprar um produto pior ou a pagar mais caro apenas porque seu fabricante é protegido pelo governo. Cowperthwaite disse “Uma indústria pequena, se for protegida, tende a permanecer fraca para sempre, e nunca se torna grande nem eficiente”.

“Os governos devem regulamentar os contratos de trabalho para proteger os empregados”

Na Hong Kong de Cowperthwaite, não havia nenhuma regulamentação trabalhista: nem salário mínimo, nem limite de horas, nem regras sobre horas extras ou contribuições sindicais. Não havia justiça do trabalho nem ministério do trabalho. O resultado? Na década de 60, o salário médio subiu 50% e a população pobre caiu de 50% para 15% do total.

Cowperthwaite se aposentou em 1971; Hong Kong permaneceu no caminho do liberalismo, embora tenha feito algumas concessões praticamente inevitáveis no mundo moderno, como escolas pagas pelo governo. Em 2010, este país minúsculo, sem riquezas naturais, pressionado pela imigração massiva de refugiados chineses, tinha uma renda per capita 40% maior que a da Inglaterra. A explicação de Cowperthwaite continua valendo: “Os pilares do desenvolvimento econômico de Hong Kong são impostos baixos, poucas leis trabalhistas, ausência de déficit do governo e livre mercado”.

Será que podemos aprender algo dessa história?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

QUEM CONTROLA O PASSADO CONTROLA O FUTURO

Você conhece o filme “E o vento levou”? Se não conhece, a partir de agora ficou mais difícil conhecer. A HBO está retirando o filme de sua plataforma de streaming (equivalente ao Netflix). Por quê? Ora, porque o filme é racista.

E quem decide que um filme de oitenta anos atrás, e que deu o primeiro Oscar a uma atriz negra na história, é racista? As redes sociais, obviamente. No mundo de hoje, tuítes têm o mesmo peso e repercussão que decisões da suprema corte quando se trata de condenar alguém.

É inevitável, quando se fala nesse assunto, lembrar do livro “1984”, de George Orwell, de onde aliás vêm o título deste pitaco. A expressão completa é “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. A primeira frase explica que quem manipula a história pode moldar o comportamento da população; a segunda, que o privilégio de manipular a história pertence a quem está no poder, e isso é que torna o conceito tão importante: se alguém se torna tão poderoso a ponto de reescrever a história, cria as condições para se perpetuar no poder.

Naturalmente, o que está em jogo aqui não têm nada a ver com o filme da Scarlett O´Hara. Como comentou alguém, nem mesmo os mais descerebrados podem pensar que alguém vai assistir “E o vento levou” e dizer “nossa, esse filme me mostrou que ser racista é bacana”. Por trás de coisas como essa estão interesses muito poderosos (embora não tão organizados como sugerem algumas teorias da conspiração).

O que está em jogo, então? Duas coisas:

A primeira é reforçar o espírito de manada, ou seja, levar as pessoas a não se ver como indivíduos, mas como membros de um grupo, sem idéias que não sejam as deste grupo. As multidões repetem as palavras de ordem que as redes sociais mandam, e se sentem poderosas ao acharem que estão sendo obedecidas. Ou seja, o sujeito vai na passeata, carrega cartaz com a frase copiada do facebook, repete as frases que lê no twitter e vai para casa se achando o máximo. É o que eu chamo de “poder do porteiro”: o sujeito não manda em nada, apenas obedece ordens, mas ao barrar a entrada de alguém se sente como se fosse o dono do prédio.

A segunda, mais importante: solidificar a idéia de que censurar filmes, livros e pessoas é algo normal, e transformar o ato de reescrever a história em algo corriqueiro. Os verdadeiros alvos não são filmes como esse, mas tudo que mostre e documente a verdadeira história, para que possa ser substituída por algo mais conveniente. A bem da verdade, este filme, assim como os livros de Mark Twain nos EUA ou de Monteiro Lobato aqui no Brasil, não está sendo criticado por ser racista, mas por ser inconveniente para a “nova realidade” que se pretende criar. São apenas distrações, cortinas de fumaça para disfarçar o trabalho principal, que é substituir os fatos históricos por versões inventadas, condenando ao esquecimento ou banindo as opiniões indesejadas e ao mesmo tempo promovendo e enaltecendo as opiniões desejadas. Quando bem sucedida, esta tática cria verdades “do nada”, através de lugares-comuns que todos repetem e acreditam, baseados no argumento “todo mundo sabe disso”.

A tática do “dividir para conquistar” é tão antiga quanto a humanidade. Foi citada (e usada) por Napoleão, Júlio César e Filipe da Macedônia. Marx pregava a divisão de classes. Hitler, a divisão de raças. Mussolini, e vários outros políticos, a divisão de nacionalidades. No mundo moderno, a luta pelo poder instiga a luta entre grupos que se contrapõem alegando diferenças de cor, raça, opção sexual ou classe social, mas que no fundo diferem entre si apenas nos líderes que seguem.

Deixando um pouco de lado a realidade dos outros países e pensando na nossa: quando um jovem brasileiro semi-alfabetizado quer saber algo sobre a história do Brasil, que fontes ele buscará? Um livro de história que ele mal consegue compreender ou um filme do Wagner Moura? Irá constatar que a história é algo complexo, que pode ser visto sob muitos pontos de vista, ou vai preferir acreditar em uma versão arrumadinha, onde os “bons” e os “maus” estão pré-definidos e claramente rotulados? A resposta é óbvia e mostra a importância de se tentar combater este processo, que por aqui já está bem adiantado: na escola brasileira de hoje, o que se ensina como “história” é na verdade uma coleção de mitos, criados e cultivados para colocar em prática uma velha máxima: quem não conhece o passado não pode entender o presente. E quem não entende o presente e o mundo em que vive, não é dono de seu destino.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

COISAS QUE SÓ SE VÊ NO BRASIL

Jabuticaba.

Fã de Getúlio Vargas se declarar anti-fascista e defender a legislação trabalhista copiada da Itália de Mussolini.

Liberal dizer que o BNDES deve salvar a economia distribuindo dinheiro.

Conservador dizer que as instituições não funcionam e pedir golpe de estado.

Intelectual defender que assassino e estuprador não deve ser preso porque “política de encarceramento não resolve”, mas que quem diz algo políticamente incorreto no facebook deve ser preso porque “palavras ferem”.

Acadêmico afirmar que crime é fruto da pobreza, mas a polícia suspeitar de pobre é preconceito.

Governo fecha comércio e indústria porque não pode haver aglomerações, mas mantém ônibus e metrô funcionando (e com frota reduzida).

Ministério Público, órgão que representa o povo, não tem um único integrante escolhido pelo povo nem um único mecanismo pelo qual o povo possa opinar sobre sua atuação.

Militante que gritou “Fora Sarney”, “Fora Collor” e “Fora FHC” dizer que impeachment da Dilma foi golpe.

Socialite posta “Fica em casa” todo dia nas suas redes sociais mas quer sua doméstica, o porteiro e a faxineira do prédio trabalhando.

Congresso cujo presidente pode engavetar qualquer projeto de lei indefinidamente.

Adolescentes de dezesseis ou dezessete anos que matarem alguém não podem ser julgados porque são “de menor”, mas são considerados maduros o bastante para votar.

Poder judiciário decidir que um artigo da constituição é inconstitucional.

Jornalista não dar a menor importância aos 150 homicídios diários de seu próprio país, mas ficar horrorizado por semanas se um maluco nos EUA matar cinco pessoas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

CHEGA DE DEMOCRACIA!

Sim, digo e repito: chega de democracia. Chega de falar em democracia, chega de achar que democracia vai resolver alguma coisa.

Para começar, o que é democracia? É aquele negócio que os gregos inventaram? Não, a democracia dos gregos era algo bem diferente. Em Atenas, o governo era escolhido pelos cidadãos – isso todo mundo aprendeu na escola. O que esqueceram de dizer na escola é que “cidadão” era o termo grego para a elite que votava. Na democracia grega, pobre não votava, soldado não votava, operário não votava, mulher não votava, escravo não votava (é, a democracia grega tinha até escravos).

Já nos tempo modernos, democracia virou uma espécie de palavra mágica que resolve qualquer problema e encerra qualquer discussão. Se você não gosta de uma coisa, é só chamar de anti-democrática que ninguém vai ter coragem de contestar. Se você quer mandar nos outros (e todo mundo quer), é só dizer que é em nome da democracia e todo mundo concorda.

Meu leitor está pensando: “Mas o Churchill não disse aquele negócio da democracia ser o melhor sistema de todos”? Vamos com calma. Frases de políticos podem ser bonitas, mas não se resolve um problema em uma frase só. Mas, até por brincadeira, vamos olhar a frase do Churchill de perto? “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Ou seja, ele mesmo diz que a democracia não é grande coisa. É só a menos pior das formas “que têm sido experimentadas”. E as não experimentadas? Já se tentou, por exemplo, ter MENOS GOVERNO? Ter um governo que tenha por objetivo se intrometer cada vez menos na vida das pessoas, e não mais? Um governo que tente diminuir seu tamanho sempre que possível, não um que aproveite cada chance para ficar maior, mais caro e mais intrometido?

Na prática, aquilo que chamamos democracia tem funcionado assim: você é obrigado a votar a cada X anos. Daí, como você votou, perde o direito de mandar na própria vida, e é obrigado a aceitar tudo que o governo mandar, porque o tal governo “foi eleito democraticamente”. É como se os escravos deixassem de ser escravos se pudessem periodicamente escolher qual o feitor que vai chicoteá-los.

A tal democracia virou simplesmente uma desculpa para nos obrigar a aceitar de boca fechada tudo que o governo nos impõe. Reclamar é anti-democrático. Obedecer ao governo é nossa obrigação, porque está na constituição, dizem eles. E eu com a constituição? Constituição só serve para alguma coisa quando funciona. Se não funciona, é preciso consertar ou trocar. O Brasil já teve sete constituições diferentes, pode perfeitamente trocar de novo. A constituição deve atender ao país, não o contrário. Senão, vira um tolo raciocínio circular: não pode falar mal da constituição porque é antidemocrático. Não pode falar mal da democracia porque é inconstitucional.

Eu não anseio por democracia. Eu anseio por liberdade. Sabe aquela velha frase que ouvíamos na infância, “nosso direito vai até onde começa o direito do outro”? Pois é, porque agora toda “maioria” tem obsessão por impôr suas regras aos outros? Por que precisamos ter regras “democráticas” dizendo o que podemos fazer, o que podemos falar, o que podemos vestir, o que podemos comer? Duas respostas possíveis:

A primeira é que todo mundo gosta de mandar. Já dizia Spinoza, filósofo do século 16: “É desejo de cada um conseguir que todos sejam obrigados a gostar daquilo que ele gosta, e proibidos de gostar daquilo que ele não gosta.” Usar a maioria para impôr regras aos outros é só um jeito de conseguir satisfazer o desejo por poder.

A segunda, óbvio, é o governo. Metade das leis serve apenas para criar secretarias, departamentos, agências e outras burocracias que aumentem as vagas disponíveis. A outra metade das leis serve para cobrar impostos para pagar os salários dos que ganharam emprego público graças à primeira metade.

Neste ponto, muitos dos meus leitores estão pensando: “mas não diz na constituição que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido? Os políticos não estão representando o povo? As leis não são legítimas?” Não, caro leitor, não, não e não.

Por acaso é “vontade do povo” que os deputados tenham plano de saúde grátis para toda a família? É “vontade do povo” que os juízes tripliquem seu salário com gratificações e auxílios? É “vontade do povo” que os políticos possam indicar, à sua livre escolha, dezenas de milhares de pessoas para “cargos de confiança” e “funções gratificadas”? É “vontade do povo” que os políticos possam inventar as leis mais absurdas e usar nosso próprio dinheiro para pagar pessoas apenas para nos vigiar e nos punir em caso de desobediência?

A suposta autoridade da maioria, hoje em dia, é uma mentira conveniente, usada apenas para justificar o abuso. Sim, todos nós votamos na eleição. O que isso tem a ver com o judiciário e o ministério público se comportando como ditadores que podem tudo? Eles nem sequer foram eleitos, mas quem se atreve a contestá-los é perseguido pelo poder do estado, com a desculpa que não ser bovinamente submisso a eles é “atentar contra a democracia”. Em nome da democracia, juízes, promotores e políticos podem tudo; até mesmo dizer que, em nome da democracia, nós não podemos nada.

A liberdade é algo inerente à vida. Sem liberdade, o ser humano se iguala aos animais, que são seres vivos mas não sabem que são. Nada justifica que alguém seja obrigado a fazer algo ou proibido de fazer algo só porque outras pessoas querem, mesmo que estas outras pessoas sejam a “maioria” de algum grupo, seja ele qual for. Aliás, eu sei que já é um argumento velho, mas continua válido: Pilatos colocou o destino de Jesus e de Barrabás nas mãos da “maioria”, em um procedimento supostamente “democrático”. Só isso já serve de exemplo para contestar os que alegam que a maioria sempre tem razão, e as minorias devem sempre obedecer ao que a maioria quer.

“Ah, mas toda sociedade precisa de governo”, pensa o leitor. Sim, mas quanto? Será que realmente precisamos que o governo regule, controle e fiscalize cada mínimo aspecto de nossa vida, quase sempre cobrando por isso? Seria o fim da civilização se eu pudesse andar de bicicleta ou ir ao açougue comprar carne sem estar sujeito a milhares de normas?

Ao longo dos tempos, e com intensidade cada vez maior nas últimas décadas, as pessoas foram sendo doutrinadas a pensar que o certo e o errado são definidos pelo estado; que só pode existir o bem obedecendo ao que o estado determina; e que discordar do estado é uma ameaça para todos. Recentemente, um prefeito brasileiro disse “Governar é como cuidar do filho adolescente. Temos que fazer o que é bom para ele, não o que ele pede. Ele vai reclamar, mas um dia vai entender e reconhecer.”. Ele estava falando de patinetes, mas poderia estar falando de qualquer coisa. Pense um pouco, leitor: você realmente se considera um adolescente, que não sabe distinguir o bom do ruim? Você acha que um político vai cuidar de sua vida melhor do que você mesmo? E o mais importante: Você tem o direito de achar que as outras pessoas também são irresponsáveis que devem ser, democraticamente, tratadas como adolescentes?

Precisamos parar de usar a democracia como argumento para justificar este circo absurdo de gente que vive às nossas custas com a desculpa de cuidar de nós. Não precisamos entrar em acordo sobre tudo. Podemos e devemos aceitar que os outros tenham idéias diferentes das nossas. Não importa se 51%, ou 90%, ou 99% acha que uma coisa é ruim. Mesmo que exista apenas uma pessoa no mundo que discorde, ele deve ter a liberdade de gostar (Se o que ele gosta prejudica alguém, é outra história).

Para resumir a história: Governo, pare de mandar em mim! Você não tem o direito de restringir minha liberdade, mesmo que você alegue que o João, a Maria e o Antônio votaram em você. O João, a Maria e o Antônio não são donos da minha liberdade, do mesmo jeito que eu não sou dono da liberdade deles. A opinião deles não autoriza ninguém a tirar minha liberdade em nome de uma tal democracia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

NOSSAS LEIS

Existe uma página no Facebook chamada “Leis Absurdas do Brasil”. Deveria ser leitura obrigatória nas escolas e transmitida em todos os canais de TV. Como não é, faço aqui minha modesta contribuição para o país com uma amostra parcial da produção de nossos 512 deputados federais, 81 senadores, 1059 deputados estaduais e 57931 vereadores, que juntos custam ao país mais de duzentos bilhões de reais por ano.

Onde aparece “Lei” é algo já aprovado e em vigor. “PL” é projeto de lei, que pode ter sido rejeitado ou ainda está em tramitação. Quando não é indicado o local (cidade ou estado), trata-se de lei federal.

Na categoria “inutilidade”:

PL 013/2019: declara o Filé a Parmegiana como Patrimônio Cultural do município de Itú/SP.

Lei 10944/2019: declara o Pacú como prato típico da culinária de Várzea Grande/MT.

PLS 72/2018: Muda o nome do Estatuto do Idoso para Estatuto da Pessoa Idosa, e obriga a troca da expressão em todos os documentos legais. (Sim, todas as leis e documentos oficiais que tenham a palavra “idoso” terão que ser modificados para “pessoa idosa”)

Lei 9506/2019 de Belém/PA: obriga estabelecimentos com escada rolante a manterem um cartaz com instruções para o uso.

PL 487/2019 de Pernambuco: obriga estabelecimentos públicos e privados a manterem no banheiro cartaz de 21 x 29,7 cm com informações sobre como utilizar a descarga de maneira correta.

Lei 3757/2015 de Balneário Camboriú/SC: Obriga agências bancárias a manter material de leitura, atualizado diariamente, disponível aos clientes.

Lei 15988/2013 de Santa Catarina: Estabelece que o crack deve ser chamado de “crack, a pedra da morte”.

PL 307/2019 de Salvador/BA: declara o táxi como Patrimônio Histórico e Cultural do município de Salvador.

PLS 5923/2019: Obriga a divulgação de todos os áudios e videos utilizados pelo VAR em todas as partidas de futebol realizadas no Brasil.

PL 1580/2019 do Rio de Janeiro/RJ: proíbe o VAR.

Na categoria “imbecilidade”:

PL 043/2019 de Campinas/SP: obriga a impressão da data de validade na casca dos ovos (não é na caixa; é na casca!).

Lei 9440/2018 de Belém/PA: Proíbe menores de 18 anos de empinar pipa (papagaio, pandorga, etc)

PL 535/2019 do Rio de Janeiro: Exige prova do Detran e seguro para uso de patinete elétrico. As empresas de aluguel devem exigir, caso o usuário não tenha o seguro, um depósito-caução de R$ 1710,00.

Lei 11644/2008: Proibe empresas de exigir experiência superior a seis meses de candidatos a emprego.

PL 162/2019 de Campina Grande/PB: estabelece valor mínimo para corrida do Uber.

PL 23314/2019 da Bahia: obriga órgãos públicos a reservarem 20% das vagas de seus estacionamentos para advogados.

PL 241.5/2019 de Santa Catarina: proíbe a tecnologia 5G, com base em denúncias na internet de que as ondas eletromagnéticas desta tecnologia fazem mal à saúde.

PL 054/2018 de Porto Alegre/RS: Regulamenta o pagamento de pensão alimentícia a animais de estimação em caso de divórcio dos donos.

Lei 1331/2019 de Governador Celso Ramos/SC: Determina o número máximo de pessoas que podem dormir no mesmo quarto em imóveis alugados.

PL 1508/2019 do Rio de Janeiro: Proíbe a margarina.

Lei 077/2019 de Vacaria/RS: Proíbe dar e receber esmola.

PLS 369/2015: Exige que técnicos de futebol sejam formados em Educação Física.

PL 138/2018 : regulamenta a profissão de DJ, incluíndo limites de trabalho de 6 horas diárias, 30 horas semanais e proibição de trabalhar no mesmo local em intervalo inferior a 60 dias.

Na categoria “dinheiro público não é de ninguém”:

PL 363/2019 de Goiânia/GO: Inclui o Show do Gusttavo Lima do calendário oficial de eventos da cidade.

Na categoria “tudo pode ser de graça se a lei mandar”:

PL 05/2019 de Curitiba/PR: determina que as vagas de estacionamento sejam gratuitas em universidades particulares.

Lei 10036/2006 de Porto Alegre/RS: todo edifício com área acima de 2000 m2 deve ter, em local visível, uma obra de arte produzida por artista plástico cadastrado na prefeitura. A obra não pode ser retirada, substituída ou modificada sem autorização, e em caso de demolição do edifício, a obra passará a ser de propriedade da prefeitura.

Lei 3060/2010 de Balneário Camboriú/SC: Obriga restaurantes a oferecer fio dental gratuitamente, “sendo proibido incluir seu valor na conta”.

PL 1200/2019: Proíbe o aluguel de máquinas de cartão de crédito.

PL 670/2019: Prevê gratuidade para idosos em estacionamentos públicos e privados.

Lei 6324/2019: Prevê carregadores de celular gratuitos em Shopping Centers.

PL 1053/2019 de Vila Velha/ES: Obriga hospitais, bancos, supermercados, escolas e shopping centers a oferecerem wifi gratuito.

Na categoria “benefícios para todos”:

PL 1143/2019: três dias de licença remunerada por mês para mulheres durante a menstruação.

PL 2372/2019: cota de empregos para mulheres vítimas de violência doméstica.

PL 812/2019 do Rio de Janeiro: cota de empregos para transsexuais e travestis.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HISTÓRIAS QUE OUVI

Eram dois irmãos. O mais velho era sério, sisudo, daqueles que parecem nunca ter dado um sorriso na vida. Acreditava que a vida de um homem de bem se resumia a acordar cedo e trabalhar duro o dia inteiro. O mais novo era brincalhão, risonho, amigo de toda a cidade. Gostava de fazer negócios de todo tipo, para raiva do irmão que achava que isso não era coisa de gente séria.

Um dia surgiu para o irmão mais novo a oportunidade de um ótimo negócio com umas terras que estavam à venda, mas ele não tinha o capital necessário. Ele sabia que o irmão tinha dinheiro guardado, mas o orgulho o impedia até de pensar no assunto. Alguns parentes souberam da situação e resolveram ajudar. Com jeito, procuraram o irmão mais velho e falaram da situação, mostrando que ele poderia ajudar o irmão e ainda ganhar uns trocados (nenhum dos dois consideraria a hipótese de um empréstimo sem juros: negócios são negócios). Depois de algum tempo, o primogênito concordou. Faltava convencer o outro. Com mais alguma conversa dos parentes, tudo se resolveu.

No dia marcado, o mais novo chegou à casa do irmão, cumprimentou-o com um “bom dia” meio constrangido, mandou outro “bom dia” para a cunhada na cozinha, e sentou-se à mesa da sala. O irmão já tinha preparadas as promissórias, preenchidas e devidamente seladas, esperando sua assinatura.

Após recolher as promissórias assinadas, o irmão foi até o quarto de dormir, guardou-as em uma gaveta e voltou com um maço de notas. Entregou-as ao irmão. Enquanto este contava o dinheiro, o mais velho não aguentou mais e expressou seu desagrado:

“Mano, você me perdoe, que eu não tenho nada com sua vida, mas você sabe que eu só estou fazendo isso porque nossa família pediu. Mas com essa crise, se meter em um negócio desses fazendo dívida? Você é maluco de pedir dinheiro emprestado.”

O mais novo permaneceu em silêncio, contando as notas. Quando acabou, colocou o dinheiro no bolso, foi até a porta, voltou-se para o irmão e respondeu, já indo embora:

“Maluco é você de emprestar!”

*  *  *

Era um namoro que já durava mais de ano. Passeios no domingo, sorvete na praça, cinema. Mas a moça começou a achar o namorado muito indeciso. Um dia, final de dezembro, chamou o namorado às falas:

“Você vai na missa do galo, não vai? Quando terminar, dê a volta na igreja e me encontre na rua dos fundos. E ai de você se não aparecer!”

Terminada a missa, toda a cidade se despedindo na pracinha em frente à matriz, o namorado se esgueirou até os fundos da igreja. Encontrou o caminhão de seu cunhado, com o próprio sentado na boléia e sua namorada no lugar do carona. Deu boa noite, abriu a porta do Ford e entrou. Foram para a casa do cunhado.

Lá chegando, o rapaz abraçou apertado a namorada, achando que teria sua noite de núpcias. Levou um empurrão e a ordem: “Sossega o facho. Não casamos ainda.” Dormiu no chão da sala.

Bem cedinho foi acordado pelo cunhado e pela namorada. Embarcaram no caminhão e desceram a serra até a cidade vizinha. Pararam em frente à igreja. A namorada entrou na frente e foi procurar o padre. “Queremos casar”, disse ao encontrá-lo na sacristia.

Subiram a serra casados, e assim permaneceram por mais de cinquenta anos.

*  *  *

Dois primos, se criaram juntos, quase como irmãos. Um ficou na sua terra, o outro se mudou para outro estado após enviuvar ainda jovem, mas nunca perderam o contato. Se visitavam com frequência.

Certa vez, lá nos anos setenta, um deles pegou a estrada para visitar o outro. Já sabia que o primo viúvo estava de namorada nova, mas não esperava ver o que viu.

Estava fechando a porta do carro quando o primo apareceu na porta de casa. Rejuvenescido pela namorada, vinte anos mais moça, o primo estava com os cabelos compridos, quase chegando nos ombros, e pintados de loiro. A camisa estampada estava desabotoada até a altura do estômago, deixando à mostra o peito cabeludo onde reluzia uma grossa corrente de ouro.

O primo espantado deu um murro no automóvel e começou a berrar:

“Filho da puta, virou viado depois de velho! Não tem mais vergonha na cara, seu porco! Que cabelo de bicha é esse, animal! Você não é mais homem!”

O dono da casa ficou parado, boquiaberto. E o primo não parava de gritar os palavrões mais cabeludos, num tom de voz que alcançava vários quarteirões. Foi só quando alguns vizinhos apareceram, atraídos pela gritaria, é que conseguiram acalmá-lo. Os dois primos, constrangidos, foram para a casa de outro parente, onde a família costumava se reunir. Um não olhava para o outro. O restante dos parentes, sem saber do ocorrido, batia papo animadamente.

Ninguém reparou quando o primo recém-chegado saiu de fininho da sala. Fuçou vários cômodos da casa até achar o que procurava: uma tesoura grande, daquelas de corte e costura. Voltou como quem não quer nada, foi se chegando até ficar ao lado do primo. Num gesto rápido, agarrou um chumaço das longas madeixas e passou a tesoura. Todos os parentes precisaram agarrar os dois para que a coisa não terminasse em sopapos.

Ficaram uns seis meses sem se falar. Depois, a voz do sangue falou mais alto e voltaram a ser grandes amigos.