MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GUERRA

Muitos filmes já foram feitos sobre a guerra. Alguns condenando, alguns glorificando, alguns justificando. Poucos mostram tão bem o quanto as guerras são fundamentalmente estúpidas quanto um recente filme francês intitulado Joyeux Noel (em português, “Feliz Natal”).

“Joyeux Noel” se passa em dezembro de 1914, o primeiro natal da Primeira Guerra Mundial, que havia começado cinco meses antes. Enterrados em trincheiras, sem ver motivo para matar pessoas que nem conheciam, os soldados declaram por conta própria uma trégua e passam a noite de natal confraternizando. Isso aconteceu na “vida real” em inúmeros pontos dos 700 km do front de batalha, que se estendia do Atlântico até a Suíça. Pouco se sabe dos detalhes, que foram censurados e “expurgados” da história por oficiais e políticos horrorizados com a “indisciplina” e a “falta de patriotismo” dos soldados. O filme reúne estes fatos, acrescenta a inevitável dose de romance e de coincidências improváveis, e o resultado é uma história bonita, mostrada de forma simples e despretensiosa (geralmente as mensagens mais fortes são assim).

Sempre existiram guerras. Durante toda a história da humanidade, houve escassez, e lutar pelo pouco que havia era de certa forma inevitável. Bom senso e boa vontade poderiam ter sido mais proveitosos, sem dúvida, mas ao menos os soldados sabiam, de certa forma, pelo quê estavam lutando: por comida, água, terra para plantar. Também cabe lembrar que durante muitos séculos os reis e príncipes também participavam da batalha – bem protegidos, é verdade, mas ainda assim arriscando a vida juntamente com seus súditos.

Ao longo do século 19 o mundo mudou drasticamente. A revolução industrial e o primeiro combustível fóssil, o carvão, trouxeram um grau de fartura até então desconhecido. Coisas que antes eram produzidas à mão e acessíveis apenas aos ricos, passaram a ser produzidas por máquinas e tornaram-se baratas e acessíveis a todos. A força humana ou animal foi substituída pela força do vapor. Viagens pelo mar deixaram de ser aventuras perigosas. Nas viagens por terra, o trem substituiu as carroças e carruagens.

Neste mundo de riqueza (pouca se comparada aos dias de hoje, mas muita se comparada a tudo que existiu antes), as guerras deveriam estar se reduzindo. Infelizmente não estavam, porque o que as motivava não era a necessidade das pessoas comuns, mas a vaidade dos governantes. Conquistar terras era uma espécie de passatempo dos nobres e dos políticos, mesmo que isso trouxesse pouco proveito próprio. Para dar um exemplo: o sul da Itália, incluindo a Sicília, “pertenceu” a reis austríacos, espanhóis e franceses, mesmo sem ter fronteiras com nenhum destes reinos, e mesmo que ninguém lá falasse alemão, espanhol ou francês. Para o vencedor de cada guerra de conquista, o benefício obtido se resumia em mais súditos para pagar impostos e para ser alistados como soldados para a próxima guerra; eventualmente estava em jogo o controle de algum porto importante ou alguma cidade que tinha importância comercial. Naturalmente, os reis não compareciam mais ao campo de batalha; ficavam abrigados em seus palácios, planejando a guerra com seus generais. Longe dali, os soldados, recrutados à força, ouviam discursos sobre coragem e sobre as glórias de morrer pela pátria, e o restante do povo passava fome e pagava impostos aumentados para sustentar a guerra, também em nome da pátria.

O progresso do século 19 trouxe um século 20 completamente diferente de cem anos antes: automóveis, eletricidade, tratores agrícolas, raio-x. A Europa vivia em paz, havia liberdade de comércio e de viagens (no filme, o tenente alemão é casado com uma francesa, e relembra sua lua-de-mel em Paris). As pessoas comuns não viam os outros países como inimigos, e sim como vizinhos, e todos concordavam que conviver em paz com os vizinhos torna a vida mais agradável. Só os governantes insistiam em ver os vizinhos como inimigos.

A última guerra importante na Europa havia acontecido em 1870, entre a França e a Prússia (que estava se transformando na Alemanha). Deste então, os reis e políticos estavam fazendo suas guerras à distância: era o auge do período colonial, e as potências européias disputavam o domínio de cada pedaço da África e da Ásia.

É bastante difícil para os historiadores explicar as causas da Primeira Guerra Mundial. Havia prosperidade. O povo estava contente e bem-alimentado, com exceção, talvez, da Rússia, que sempre esteve um passo atrás do restante da Europa nesse sentido. Não havia um representante “do mal” a ser combatido. Para justificar a guerra havia, apenas, a vaidade dos governantes e o interesse dos políticos (os mais críticos do capitalismo podem acrescentar os lucros dos fabricantes de armas). E o desenvolvimento da tecnologia bélica fornecia poderosos argumentos contra a guerra: ao invés dos mosquetões de 1870, a guerra de 1914 teria metralhadoras, canhões de longo alcance e aviões.

Se não havia motivos, havia desculpas, claro. Uma das mais comuns era a de “reconquistar” algum território perdido em uma guerra anterior. Em 1914, a França queria retomar a Alsácia, que havia sido tomada pela França entre 1630 e 1670 e retomada pela Alemanha em 1870. É interessante notar que em nenhuma destas “conquistas” a população local foi consultada. Em 1871, após a reanexação alemã, o escritor Heinrich von Treitschke escreveu “Nós alemães sabemos o que é melhor para os alsacianos melhor do que os próprios coitados. Na perversão de sua vida francesa eles não têm uma noção correta das coisas.” Naturalmente, com a vitória francesa, a Alsácia voltou para o domínio da França em 1918, embora 90% da população falasse alemão. É interessante lembrar que hoje, cem anos depois, em um país vizinho ao nosso, as crianças são obrigadas a aprender na escola que “Las Malvinas son Argentinas!”.

Também é interessante notar como a história sempre esteve sujeita à influência fortuita de aspectos pessoais dos poderosos, que não deveriam interessar a mais ninguém.

O imperador da Alemanha, Guilherme II, era primo do rei da Grã-Bretanha, Jorge V. Vítima de um problema no parto que deixou seu braço esquerdo atrofiado, Guilherme culpava a mãe, que era inglesa, e por tabela todos os ingleses, tendo dito certa vez “um médico inglês matou meu pai, e um médico inglês destruiu meu braço; minha mãe foi a culpada” (o pai de Guilherme morreu de câncer, e é verdade que era a mãe dele quem escolhia os médicos da família). Quando jovem, Guilherme se apaixonou por uma prima, Elizabeth, neta da rainha Vitória como ele. Elizabeth recusou sua proposta e casou-se com o irmão do imperador Nicolau da Rússia, que também era primo de Guilherme, mas por parte de pai. Ou seja, Guilherme tinha razões pessoais para odiar tanto os britânicos como os russos, seus inimigos na guerra. A isso somava-se um certo fanatismo religioso-nacionalista unido a preconceitos comuns na Europa de então (ele declarou certa vez “A Alemanha é uma verdadeira nação cristã, enquanto a Inglaterra é a terra do anticristo, governada por maçons e judeus”).

Seja por birras pessoais ou não, o fato é que a guerra começou após um pretexto tolo (o famoso assassinato do arquiduque Francisco por um terrorista sérvio) e custou a vida de mais de vinte milhões de pessoas. Quatro anos depois, quando acabou, o mundo estava mudado: o império austríaco foi despedaçado; o império otomano, idem. O imperador Nicolau foi deposto e assassinado, e a Rússia tornou-se a União Soviética. O imperador Guilherme também foi deposto, e a Alemanha virou uma república. A França, que venceu, fez o possível para humilhar a Alemanha derrotada como “vingança” pela guerra franco-prussiana de meio século antes, e isso foi a semente para a próxima guerra, que viria vinte anos depois.

Em outubro de 1914, foi dito que “Sem dúvida esta guerra é a mais estúpida, desnecessária e sem sentido dos tempos modernos”. Para quem acha que guerras, mesmo estúpidas, são inevitáveis, assistir “Joyeux Noel” mostra como é fácil imaginar um mundo sem elas.

Um último adendo: para quem, como eu, se impressionar com a cena do sermão do bispo para os jovens soldados, cabe informar que não se trata de ficção: o diretor conta que esse “discurso de ódio” foi reproduzido de documentos históricos, mas que para o filme ele retirou “os trechos mais abjetos”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SOBRE ARMAS, MENTIRAS E IMBECIS

Certa vez um jornalista português disse “Nesse país, o bom não é ser ministro. É ter sido.” Nessa ex-colônia do lado de cá do Atlântico, vale o mesmo, e não apenas para ministros. Ter sido deputado, ou prefeito, ou professor de universidade, ou cantor famoso, ou campeão de futebol, ou participante do Big Brother vale como uma licença vitalícia para falar bobagem.

Li na imprensa uma declaração do ex-ministro Raul Jungmann, reclamando dos novos decretos do governo sobre a compra e posse de armas:

“Ao longo da história, o armamento da população serviu a interesses de ditaduras, golpes de Estado, massacre e eliminação de raças e etnias, separatismos, genocídios e de ovo da serpente do fascismo italiano e do nazismo alemão”

Gostaria de perguntar ao jornalista imbecil que publica sem questionar uma frase como essa quais exemplos ele conhece de ditaduras que armaram a população. Para o ex-ministro, não vale a pena perguntar, é claro. Ele sabe perfeitamente que está mentindo, tanto quanto tem a certeza da impunidade. Dizer que o fascismo italiano e o nazismo alemão promoveram o armamento da população é de uma desonestidade tão abjeta que qualquer jornalista deveria se sentir obrigado a desmentí-la. Mas nesse país jornalistas não contestam, apenas publicam qualquer coisa que um ex-ministro, ex-jogador de futebol ou ex-celebridade da revista Caras diga.

Algum tempo atrás, em um site americano sobre cinema, li um sujeito, aparentemente europeu, queixando-se que os filmes “made in USA” refletiam uma sociedade “obcecada por armas”. Em resposta, outro sujeito escreveu: “Sim, nós cidadãos dos EUA gostamos muito de armas. Acontece que no século 20 mais pessoas foram mortas por seus próprios governos do que em todas as guerras que aconteceram. E um povo só pode evitar tornar-se vítima do governo se possuir uma arma para se defender.”

Fiquei tão curioso com a afirmação que fui pesquisar os números. Sim, ele está certo. A Primeira Guerra Mundial matou vinte milhões, a Segunda matou mais setenta. Segundo alguns autores, a revolução comunista na China matou cinquenta milhões de pessoas, e a revolução russa, mais sessenta. E em termos proporcionais, nenhuma guerra na história chega perto do Khmer Vermelho no Camboja, que matou aproximadamente 40% da população do país – do seu próprio país.

Todos as “ditaduras”, “golpes”, “massacres” e “genocídios” de que o ex-ministro fala foram precedidos de desarmamento da população. Uma população armada e disposta a defender sua liberdade não será nunca vítima de opressão, por uma simples questão numérica: como um pretendente a tirano vai reunir um exército maior que a população do país?

Dizem que pouco antes do início da Segunda Guerra, um general alemão conversava com um militar suíço. “Quantos homens vocês têm?”, perguntou ele. “Quatrocentos mil”, foi a resposta. “E se vocês forem atacados por um exército de oitocentos mil soldados?”, provocou o alemão. “Cada um dos nossos soldados terá que atirar duas vezes”, respondeu o suíço. A Suíça não foi atacada durante a guerra, como já havia acontecido em muitas outras guerras. Não foi por sorte: os Suíços têm uma longa tradição de estarem sempre prontos a defender sua terra e a si mesmos. Aliás, em tempos antigos, as eleições eram realizadas nas praças, e só votava quem portasse uma espada. Quem não estivesse preparado e disposto a defender o país não tinha o direito de dar palpite.

Claro que por aqui essa discussão é imaterial. Nenhum brasileiro acha que o povo deve defender-se de governos tirânicos, muito pelo contrário. O povo daqui reclama quando acha que o governo não está sendo tirânico o suficiente, ou está concedendo liberdade demais. O brasileiro acredita que faz parte de um povo que é inerentemente imaturo e irresponsável, e que deve ser vigiado, guiado e controlado em tudo que faz. Nenhum brasileiro considera a hipótese de portar uma arma para defender-se da tirania, ao contrário: acha que a posse de uma arma é uma generosa concessão do governo, que só deve acontecer se o cidadão, mansamente, se submeter a todas as exigências, burocracias e cadastros.

O ex-ministro pode ficar tranquilo: o cidadão de bem vai comprar seu Taurus de calibre obsoleto, guardá-lo descarregado no fundo de uma gaveta trancada a chave, e continuar obedecendo às ordens do governo.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

NIÓBIO

O jornalista Tutty Vasquez costumava chamar de “notícia enguiçada” esses assuntos que nunca acabam, que parece que já passaram mas voltam. Um deles, que já me atraiu a atenção faz muito tempo, é o tal do nióbio. Como muita gente, eu tinha muitas dúvidas sobre ele. Aí vão as respostas que encontrei para minhas perguntas:

Afinal, o que é nióbio?

Nióbio é um metal do grupo 5 da tabela periódica, símbolo Nb e número atômico 41. Sua aparência não tem nada de especial, com uma cor acinzentada igual a vários outros metais, mas suas características o tornam bastante útil em várias aplicações. A maior delas (estimados 90%) é na fabricação de aços de alta resistência. Também é usado na fabricação de eletroimãs supercondutores em aparelhos de ressonância magnética e em ligas especiais usadas na indústria aeroespacial.

Por que no Brasil se fala tanto em nióbio?

Porque o Brasil é o maior produtor mundial. Em Araxá (MG) existe uma empresa chamada Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração que produziu 110.000 toneladas em 2019 e planeja aumentar a produção para 150.000 toneladas este ano. A CBMM é uma empresa privada, mas com participação do governo estadual através da Codemig. Em Catalão (GO) existe outra mina, com produção bem menor.

As estimativas da fatia brasileira no mercado mundial variam entre 75 e 90%, conforme a fonte e o ano de referência. Como a maioria das vendas são efetuadas entre empresas privadas, não há dados públicos confiáveis a respeito.

Só o Brasil tem nióbio?

Não. Embora a CBMM domine o mercado mundial, sabe-se que existem minérios contendo nióbio (pirocloro é o mais comum) em vários lugares ao redor do mundo, como Canadá, Austrália, Moçambique e Rússia.

É preciso tomar cuidado com uma coisa: é comum ouvir que “o Brasil detêm 90% (ou 92%, ou 99%) das reservas mundiais”; o significado dessa frase não é o que parece. A palavra “reserva” nesse contexto significa uma jazida avaliada segundo critérios pré-estabelecidos, e considerada “explorável” do ponto de vista técnico e financeiro. É nessa última palavra que está o X da questão. Digamos que uma empresa possui uma mina em algum lugar do mundo, e calculou que pode produzir nióbio a um custo de $50/kg. Se o preço de mercado está abaixo de 50, as reservas dessa empresa são zero, não importa quantas toneladas de minério existam. Mas se o preço subir, a exploração passa a ser economicamente viável e as reservas passam a “existir”. Em outras palavras, a quantidade de reservas no mundo depende do preço.

O nióbio é insubstituível?

Embora cada elemento químico seja único, é difícil falar em materiais insubstituíveis. Sempre há uma relação custo-benefício envolvida, e o nióbio é bastante usado justamente porque tem um preço competitivo em relação a outros metais similares. Isso significa que se o preço do nióbio começar a subir, haverá uma tendência de reduzir o seu uso, substituindo-o por vanádio, tântalo, titânio, etc.

Além disso, mesmo quando não há substituto, o uso pode deixar de ser viável em função do preço. Um exemplo: aços contendo nióbio vêm sendo usados na construção de motores de avião mais leves e mais econômicos. Mas não adiantaria nada usar nióbio se a economia obtida durante a vida útil do motor não pagar o aumento do custo de fabricação.

O Brasil está perdendo (ou deixando de ganhar) dinheiro com o nióbio?

Depende do ponto de vista. A CBMM com certeza está contente com sua participação no mercado. Na sua posição, ela poderia facilmente aumentar o preço, mas sabe que isso poderia ser “um tiro no pé”. De um lado, como já disse, incentivaria seus clientes a pesquisar materiais alternativos. De outro, poderia estimular a implantação de outras minas no restante do mundo, aumentando a concorrência. Seria a velha história de matar a galinha dos ovos de ouro para tentar pegar todo o ouro de uma vez só.

Por outro lado, há os que acham que sempre que alguém está trabalhando e produzindo algo, é um direito natural do governo tomar uma parte. Claro que há gente no governo com os olhinhos brilhando ao ver o próspero negócio da CBMM, pensando em como ficar com um naco, seja por meio de mais impostos, seja por meio de uma estatização forçada. Pelos mesmos motivos explicados no parágrafo acima, seria um tiro no pé.

Existe contrabando de nióbio no Brasil?

Pouco provável. É algo que só faria sentido em um volume de milhares de toneladas por mês, e isso não é como levar pacotinhos de cocaína na mochila. Existe uma logística envolvida, e em pequenas quantidades o custo ficaria mais alto que a operação legal. Além disso, uma operação como a da CBMM envolve escavar vários milhões de toneladas de minério por mês, o que não é algo que possa ser feito escondido em um fundo de quintal.

Existem países querendo roubar nosso nióbio?

Não. Já faz algum tempo que o mundo descobriu que fazer negócios é mais fácil e mais barato que fazer guerras. Se uma empresa quer comprar nióbio e outra empresa tem para vender, é só combinar o preço e assinar o pedido. Além do mais, como é que se rouba um minério que está embaixo da terra? Alguém iria erguer com um guindaste o município de Araxá, sub-solo junto, colocar em um caminhão e levar embora? Os compradores de nióbio, como toda empresa, só querem um mercado livre onde se possa fazer negócios sem políticos atrapalhando.

O Brasil deveria guardar o nióbio para o futuro?

Não. Minério embaixo da terra não vale nada. Extraído, processado e vendido, ele se transforma em riqueza que se espalha pela economia e beneficia a todos. Além disso, não há nenhuma garantia de que qualquer mineral vai valer mais no futuro do que vale hoje, pelo contrário, ele pode se tornar obsoleto. Como disse alguém, “a idade da pedra não acabou por falta de pedra, acabou porque descobrimos opções melhores”.

Afinal, de onde vem tanta falação sobre o nióbio?

Vêm de políticos e “intelectuais” sensacionalistas que não sabem fazer contas e gostam de fazer discursos bombásticos e vazios para eleitores que acreditam mais em milagres do que no trabalho. Um exemplo é o famoso Enéas Carneiro, que em 2006 afirmou que “a riqueza do nióbio equivalia ao PIB brasileiro”. De fato, a CBMM têm reservas provadas de 40 milhões de toneladas, que valem hoje aproximadamente 2 trilhões de dólares. Só que essas reservas vão ser exploradas ao longo de várias décadas. Falar como se esse dinheiro estivesse disponível, dependendo apenas de “vontade política” para ser gasto, é apenas uma mentira típica de discursos políticos.

Resumindo: o nióbio não é diferente da soja ou do café: são simplesmente bens que produzimos e vendemos para outros países, e quanto menos oba-oba se fizer a respeito, melhor.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

VEM AÍ O DINHEIRO DIGITAL

Eu já falei bastante sobre dinheiro em outros pitacos. Tem o dinheiro de verdade, aquele em que todo mundo confia, e tem o dinheiro de mentira, que é aquele que o governo fabrica, e as pessoas são obrigadas a usar.

Existem muitos casos na história em que o governo “perdeu a mão” na hora de fabricar dinheiro, e caiu em um círculo vicioso de hiperinflação: A França do Luís XV (contada aqui na minha coluna do JBF de 21/Set/2020), a Alemanha dos anos 1920, o Zimbábue dos anos 1990, a Argentina quase o tempo todo desde o Perón. Todas estas crises tiveram muitas coisas parecidas: começam quando o governo se desespera por não conseguir pagar as contas. A inflação, ou fabricação de dinheiro, fica grande demais, e a população perde a confiança neste dinheiro.

A primeira consequência é a paralisação do comércio: quem têm um produto qualquer nas mãos, não vai querer trocá-lo por um papel pintado que pode não valer nada daqui a alguns dias. Melhor guardar o produto, que não vai perder o valor. À medida em que os produtos somem das prateleiras, as pessoas começam a correr para trocar o dinheiro por alguma coisa que tenha valor: os preferidos são ouro e prata ou então moedas estrangeiras. Quando isso começa a acontecer, o governo em geral proíbe. E aí geralmente a coisa desanda, porque as pessoas vêem isso como o governo confessando que sua moeda é uma porcaria.

Nos dias de hoje, a fabricação do dinheiro é escondida do povo por um complexo sistema financeiro, bastante difícil de entender. Muita imaginação e muito trabalho foram investidos para ajudar o governo a disfarçar o que ele faz. Mas os fundamentos básicos continuam lá: quando a inflação começa a sair de controle, as pessoas correm para se livrar daquele dinheiro fajuto. Na Islândia, durante a crise de 2008, o medo da desvalorização da moeda fez a população comprar relógios Rolex aos milhares; era algo fácil de comprar e de guardar, que pode ser revendido em qualquer lugar do mundo, e bastante improvável de perder o valor. Na Argentina, o dólar é uma segunda moeda usada por todos, apesar dos patéticos esforços do governo para proibir.

Conseguir acabar de vez com essa “fuga” para outras moedas é o sonho dourado de todo governo. E agora, graças à tecnologia, ele está perto de conseguir. Como? Transformando a moeda em digital.

Em um país onde tudo que é feito pelo governo atrasa e não funciona direito, é até estranho constatar a velocidade e a eficiência com que o PIX, o novo sistema de pagamentos, foi implantado. Mas é que aqui não se trata do interesse da população, e sim do interesse do governo: todos os países “ricos” estão em marcha acelerada para colocar todo o dinheiro das pessoas sob o seu controle, nos computadores dos bancos. Sistemas como o PIX são uma etapa desse processo: serve de um lado para acostumar as pessoas com a idéia, e de outro para implantar e testar a tecnologia.

Hoje em dia, existem duas realidades econômicas que caminham lado a lado e se misturam. A primeira é a “oficial”, que funciona através dos bancos. Nas empresas em geral, quase 100% das suas operações são assim, porque a receita federal têm o poder de investigar cada real que uma empresa recebe ou dá a alguém. Pessoas com emprego registrado também recebem o salário pelo banco, e através do próprio banco pagam a maioria das contas. Isso significa que boa parte da economia já está “digitalizada”.

Mas ainda existe a parte que não está: muita coisa ainda é negociada em dinheiro vivo, como a maioria dos serviços prestados por autônomos e as vendas de pequeno valor. No comércio com endereço fixo, a opção foi a de incentivar o uso de cartões, mas o dinheiro ainda é usado para pagar jardineiros, encanadores e empregadas domésticas, por exemplo. Claro que o governo adoraria ter todas estas pessoas usando cartões ou pix, porquê ao passar pelo sistema bancário o dinheiro deixa rastros e permite ao governo cobrar impostos. Mas essa não é a razão principal.

A grande razão é que, enquanto existir o dinheiro físico, as pessoas poderão, se necessário, trocá-lo por ouro, ou dólares, ou bitcoins. Depois que as notas foram sacadas do banco, não há como o governo controlar o que as pessoas farão com ele. E quanto mais o governo tenta proibir ou controlar essas coisas, mais a população percebe que elas são necessárias, porque é sinal de que as coisas vão piorar.

Mas no momento em que o dinheiro em papel deixar de existir, TODOS os negócios serão feitos através dos computadores dos bancos, e portanto controláveis pelo governo. Se antes uma lei proibindo a compra de ouro ou dólar era apenas letra morta, agora é algo sem escapatória: mesmo que exista alguém que receba os reais eletrônicos em troca de ouro, isso será instantaneamente detectado pelos computadores. Uma vez que o governo tenha esse poder, ele não precisa ter medo de confessar suas intenções: ele pode simplesmente bloquear as operações que quiser, e ainda explicar ao povo que está fazendo isso para “proteger nossa soberania”, “evitar a sonegação e a lavagem de dinheiro” ou “combater a especulação financeira”. Sempre haverá quem acredite.

Em toda a história conhecida, nenhuma hiperinflação durou mais de dois anos. Chega uma hora em que o governo desiste de fabricar dinheiro e permite que as pessoas usem outras moedas. É isso o que vem permitindo à Venezuela se manter viva: o governo está simplesmente fingindo que não vê as pessoas usando dólares, e isso permite que a economia continue funcionando.

O dinheiro digital levará a economia para terreno desconhecido. Não há precedentes na história que nos indiquem o que pode acontecer. No limite, podemos imaginar países completamente fechados para o exterior, com a população obrigada a usar uma moeda sem valor que o governo fabrica na quantidade que quiser. A única alternativa que uma pessoa terá será fugir do país deixando para trás tudo que têm: não adiantará vender seus bens se não há como levar o dinheiro com ela.

A teoria econômica sugere que uma sociedade forçada a uma situação dessas regredirá para a economia do escambo. Sem uma referência de preço para comprar e vender, retornaremos ao tempo que se trocava três pães por uma galinha e cinco galinhas por um par de sapatos. Dólares, euros ou qualquer outra moeda serão extremamente valorizados, mas e se chegarmos a um mundo onde notas de dólar ou euro também não existam mais?

Os mais ousados estão sugerindo que em breve teremos países com duas sociedades convivendo em separado: uma sob o controle do governo, usando a moeda digital imposta por ele; outra, operando clandestinamente com moedas de outros países (os que não seguiram o mesmo caminho) e com moedas virtuais como o bitcoin.

De minha parte, só posso dizer que entre agosto de 2019 (quando publiquei um pitaco sobre ele) e hoje, a cotação do bitcoin subiu 400%. Isso quer dizer alguma coisa.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

QUEM PAGA?

Saiu no jornal:

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tem rejeitado a vacina da Pfizer sob o argumento de que a empresa quer “isenção completa de responsabilidade por efeitos colaterais de hoje ao infinito”.

Para o advogado Eduardo de Sampaio Leite Jobim, mestre em Direito pela USP, o que a empresa busca “é que a União assuma os efeitos da responsabilidade civil advindas de litígios propostos, no Brasil e no exterior”.

É justo? Para Jobim, sim. “Ao assim estabelecer, o governo estaria atendendo aos pedidos da Pfizer e garantindo aos brasileiros que danos sofridos pela vacinação serão devidamente reparados”.

Na prática, isso já ocorre quando a Anvisa aprova uma vacina ou medicamento, que depois é distribuído pelo SUS. Mas, claro, o ideal seria a aprovação pelo Congresso de uma lei garantindo isso, como ocorreu com a Lei da Copa.

“Problemas contratuais deste gênero já foram equacionados pelo governo brasileiro, quando das negociações para a realização da Copa do Mundo. O auxílio do Congresso Nacional foi fundamental, pois aprovou dentre outros pontos o art. 23 da Lei da Copa, que autorizou que a União assumisse a responsabilidade por todo e qualquer evento de responsabilidade civil que recaísse sobre a FIFA, seus representantes, empregados ou consultores, por qualquer incidente ou acidente de segurança relacionado ao evento.”

O mestre em direito só não lembrou de dizer que “a União” significa nós, os pagadores de impostos. “União” é apenas uma abstração jurídica, econômica e política. A União não produz nada, apenas toma o dinheiro dos outros.

Para quem não entendeu direito a comparação:

Na lei da copa, nossos queridos deputados disseram assim: “A FIFA vem aqui e organiza a copa do jeito que ela quiser. Todos nós obedecemos. O lucro dela é sagrado. Qualquer prejuízo que houver, será rateado entre todos os brasileiros.”

A idéia do mestre em direito é a seguinte:

A Pfizer faz uma vacina. O governo compra a vacina e rateia a conta entre todos os brasileiros. A Pfizer e o governo garantem que a vacina é segura e não existe qualquer risco. Mas por via das dúvidas, os deputados deveriam fazer uma lei garantindo que se daqui a alguns anos descobrirem que a vacina causa calvície, nó nas tripas ou impotência sexual, a A Pfizer fica com o dinheiro dela todinho e o governo rateia o prejuízo entre todos os brasileiros, de novo.

Só para fazer mais uma comparação: Eu não torturei ninguém durante a ditadura. Estou certo que você que me lê agora também não. Mas eu e você pagamos a indenização por coisas que outras pessoas fizeram sem nos consultar. Já está perto de 15 bilhões, e aumenta mais ou menos 1 bilhão por ano.

Não esqueça: sempre que alguém disser que “a União”, “o Estado”, “o Poder Público” ou algo parecido vai pagar alguma coisa, na verdade quem vai pagar é você.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MONOPÓLIOS

Existem muitas palavras que foram despidas do seu significado, e transformaram-se em meras exclamações. São como palavras mágicas, que não precisam ser explicadas; basta segurar a varinha com força e enunciar a palavra dramaticamente, e o feitiço acontece. Uma destas palavras de que as pessoas têm medo, mesmo sem entender o que significam de verdade, é “monopólio”.

Todo mundo ouviu na escola que um empresário malvado chamado Rockefeller tinha o monopólio do petróleo, mas o bondoso governo agiu para “proteger o povo” e quebrou o monopólio. Pouca gente se interessa em saber mais do que isso. A verdade, como sempre, é mais complicada.

Nos anos 1860, o óleo de baleia, o produto preferido para alimentar lampiões, estava subindo de preço por causa da super-exploração: as baleias estavam acabando. Isso abriu o mercado para o petróleo que havia sido descoberto na Pensilvânia. Isso, somado a um subsídio do governo, fez com que empresas de petróleo surgissem uma após a outra, muitas sem a menor estrutura técnica e financeira para funcionar.

A maioria das empresas refinava o petróleo para extrair querosene, que era usado nos lampiões, e jogava o restante fora, muitas vezes no rio mais próximo. Rockefeller, ao contrário, buscava a máxima eficiência e procurava mercado para todos os produtos da refinaria: a gasolina era transformada em gás, o piche usado para pavimentar ruas. Rockefeller também buscava eficiência na verticalização, integrando todos as etapas da cadeia produtiva, desde a contrução de oleodutos até a distribuição por ferrovias. No processo, seus custos eram menores e muitos concorrentes não tiveram opção a não ser fechar ou vender suas empresas para Rockefeller.

O povo foi prejudicado? Muito pelo contrário. Em 1870, quando Rockefeller começou a vender querosene, o preço era de 30 centavos o galão. Trinta anos depois, quando sua empresa era a maior do país, o preço havia caído para 6 centavos. Além disso, as suas empresas vendiam mais de cem produtos diferentes obtidos do petróleo – nem uma gota era desperdiçada. Não é de se admirar que os concorrentes reclamassem: eles simplesmente não conseguiam acompanhar os preços da Standard Oil. (se você acha que os consumidores devem ser obrigados a pagar mais caro para proteger os produtores menos eficientes, aí é outra história).

O governo, que costuma decretar monopólio para si mesmo em tudo que faz, não gosta de empresas ricas e bem sucedidas que possam desafiar seu poder. Também não faltaram concorrentes e ex-concorrentes invejosos para articular lobbies contra Rockefeller. Da união dos dois, nasceu uma batalha jurídica que acabou determinando que a corporação de Rockefeller fosse dividida em 34 empresas separadas. Uma aparente vitória para os invejosos da fortuna alheia, mas o que realmente aconteceu foi: Rockefeller continuou sendo o sócio majoritário de todas elas, e sua fortuna aumentou 500% nos dez anos seguintes. Por outro lado, o preço do querosene nunca mais diminuiu para os consumidores da forma como acontecia nos tempos do “malvado monopólio” de Rockefeller.

Um outro caso, mais antigo: Em 1798, o governo estadual de Nova Iorque concedeu o monopólio do transporte fluvial a Robert Livingstone e Robert Fulton. Em 1824 o empresário Cornelius Vanderbilt (que é normalmente citado junto com Rockefeller como exemplo de “capitalista malvado”) conseguiu na justiça a quebra do monopólio. O resultado foi que a passagem Nova Iorque – Albany caiu de sete para três dólares, e a Nova Iorque – Filadélfia caiu de três para um dólar. Quando conseguiu operar navios entre Nova Iorque e a Califórnia, Vanderbilt começou a cobrar 150 dólares, enquanto os concorrentes cobravam 600.

Novamente, Vanderbilt é apresentado como vilão monopolista nos livros de história, enquanto seus concorrentes ineficientes, que cobravam muito mais caro, são mostrados como vítimas que mereciam ser protegidos pelo estado.

O Brasil é um país sem memória, então é difícil encontrar exemplos parecidos aqui; mas eles existem – por exemplo, este excelente trabalho de pesquisa do professor Alexandre Macchione Saes, da UNIFAL. Recomendo a leitura. Basta clicar aqui

Um pequeno resumo: em 1899 uma empresa canadense conhecida como Light obteve a concessão para fornecer eletricidade e iluminação pública na cidade de São Paulo. Cinco anos depois, o empresário Eduardo Guinle, que era dono da concessão do porto de Santos, pediu ao prefeito para também atuar no ramo “no sistema de livre-concorrência”. O prefeito assinou um decreto autorizando, mas isso foi só o início de uma longa guerra travada na câmara de vereadores e na imprensa (um pequeno exemplo, publicado como editorial no jornal A Platéia: “Nunca chegamos a compreender como um serviço público indispensável [..] pudesse ser entregue aos azares da livre-concorrência [..] Pareceu-nos sempre mais conforme a boa razão e conveniente ao interesse público, que fosse esse serviço confiado a uma empresa que o executasse em condições estabelecidas por contratos, com obrigações de todos servir nos termos estipulados.”)

Guinle prometia oferecer os serviços a preços mais baixos. A Light, dona do monopólio, alegava que isso era uma demagogia impossível, e que seus preços eram os mínimos viáveis, em função dos “vultosos investimentos” que o serviço implicava.

Em 1909, a Light anunciou uma redução de preços, o que deu argumentos a Guinle para acusá-la de mentirosa, já que até então ela dizia que os preços não podiam diminuuir. O preço residencial da Light caiu de 800 para 500 réis, mas Guinle prometia cobrar 200. Para empresas, a Light reduziu o preço de 700 para 300 réis, e Guinle prometia cobrar 70.

A batalha durou vários anos, com vereadores discutindo minúcias das leis e decretos para descobrir (ou inventar) a interpretação “correta”. Sem nenhuma surpresa, a maioria dos políticos era favorável à empresa que detinha o monopólio e cobrava mais caro. Quem mora em São Paulo sabe que, de uma forma ou outra, a Light está aí até hoje.

O resumo da história é que somos todos ensinados a ter medo de um bicho-papão. Não existem monopólios sob o livre mercado. Os monopólios que existem, e nos exploram, são concedidos e garantidos pelo estado, esse mesmo que muita gente acredita que é necessário para nos defender deles.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESTAMOS QUEBRADOS?

Já é lugar-comum dizer que brasileiro trata tudo como se fosse futebol. Por outro lado, acho que não é injusto dizer que as coisas estão chegando a níveis absurdos. Tudo no Brasil hoje se transforma em briga de torcida: a torcida organizada do político A contra a torcida organizada do político B. Fatos são coisas sem importância; só servem quando associados ao “mérito” ou à “culpa” de cada lado. Notícia boa só serve quando é a favor do político de preferência. Notícia ruim, por outro lado, pode ser comemorada e saudada com foguetório, desde que esteja associada ao político adversário.

O pobre coitado que ousar divulgar um fato sem associá-lo ao lado A ou B, apanha dos dois lados. Os torcedores do político A o acusarão de ser parcial ao político B. Já a torcida do político B o acusará de estar do lado do político A. Os fatos? Ora, danem-se os fatos! O que interessa é politizar tudo, reduzir tudo a uma disputa rasteira de “nós contra eles”. A adesão a um dos lados da política transforma cada um em gênio, com profundos conhecimentos em química, medicina, farmacologia, epidemiologia, climatologia, agronomia, comércio internacional, direito constitucional, engenharia aeronáutica, extração de petróleo e decoração de bolo. Em cada um desses assuntos, o torcedor opina com segurança e desembaraço, para chegar sempre à mesma conclusão em todos eles: o seu político está certo, o político adversário está errado.

Aquilo que é divulgado como “noticiário político e econômico” é apenas uma coluna de fofocas: quem apoiou quem, quem se uniu a qual partido. Mais importante ainda é saber quem brigou com quem. A torcida A imediatamente decretará que um dos envolvidos é um herói e o outro é um traidor. A torcida B dirá exatamente a mesma coisa, mas invertendo os nomes. E que ninguém queira meter bobagens como lógica, coerência ou bom senso nessa discussão, por favor! O que interessa é a briga; aplaudir as piadinhas, as tiradas sarcásticas e os auto-elogios do “seu” político, e vaiar e xingar o político adversário por fazer a mesma coisa.

Em um contexto desses, uma declaração aparentemente séria como “o país está quebrado” é apenas mais uma “bola na área” para continuar a briga. Se estamos quebrados ou não, ninguém se importa. O que interessa é saber como a frase pode ser usada a favor do seu político e contra o adversário. Da mesma forma, uma epidemia de covid é apenas mais uma oportunidade de mostrar que o seu político sempre faz as coisas certas e o outro político só faz coisas erradas. Uma semana de apagão no Amapá? Pode ser uma boa notícia, desde que se possa afirmar que a culpa é do adversário. Queda no PIB, aumento do desemprego, preço do arroz? De tudo isso, o que importa é extrair argumentos. O PIB pode continuar caindo, o desemprego aumentando e o arroz encarecendo, mas o importante é repetir que o político A avisou, mas o político B não quis ouvir e o resultado é esse aí.

Mas a pergunta permanece: estamos quebrados? Para responder, não vou falar nada a favor ou contra o político A ou o político B; vou apenas mostrar dados fornecidos pelo Banco Central.

A maioria dos jornalistas fala “o pib subiu tantos porcento” ou “o pib foi de tanto” sem a menor idéia do que está falando (é comum misturar variação anual com variação trimestral). O fato está aí: levamos um tombo em 2014-2015 e outro em 2020. Precisamos crescer mais ou menos 50% só para voltar ao nível em que estávamos em 2011-2014.

Esse eu já mostrei em outro pitaco. Mostra o quanto de dinheiro o governo está “fabricando” para pagar suas contas. Esse aumento, ou inflação, na quantidade de dinheiro, inevitavelmente irá aparecer na desvalorização do real e no aumento dos preços. Exemplo:

O gráfico acima mostra que na minha cidade, Curitiba, o preço da cesta básica subiu 12% em 2019 e 22% em 2020. Para quem não gostar, o site do Banco Central têm mais de setenta índices de preços diferentes para escolher.

Para encerrar, este gráfico mostra quanto estamos devendo. A pontinha do gráfico no lado direito está em 4,5 trilhões. Isso significa que cada brasileiro hoje já nasce devendo mais ou menos vinte mil reais.

Então, estamos quebrados? Na minha opinião, sim, e não é de agora. Na verdade, desde os tempos de Dom João VI o Brasil nunca mudou muito de rumo: governo gastando cada vez mais, cobrando cada vez mais imposto, dívida aumentando e inflação desvalorizando o dinheiro das pessoas. É preciso muita retórica e muita paixão ideológica para negar que um país onde o PIB não cresce, a dívida aumenta sem parar e o dinheiro vale cada vez menos é um país quebrado.

As soluções são óbvias para qualquer um que veja os exemplos da história. Nenhum país enriqueceu com sua moeda desvalorizando e sua dívida aumentando, que é o que sempre aconteceu aqui. Não há país pobre com moeda forte e liberdade de comércio externo, coisas que o Brasil nunca teve. Então é só seguir a receita que deu certo no resto do mundo: reduzir despesa do governo, reduzir impostos, reduzir (na verdade, acabar) com a fabricação de dinheiro. As consequências serão moeda valorizada, inflação baixa ou quase nenhuma, e muito comércio com os outros países.

Ou podemos ficar apontando o dedo uns para os outros e dizendo “a culpa é dele!”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A FORD VAI EMBORA

Nos anos 90, o governador do Paraná, Jaime Lerner, criou uma política de incentivos ficais para trazer indústrias para o estado. No setor automotivo, ele conseguiu que a Renault, a Volkswagen e a Chrysler instalassem fábricas aqui, recebendo vantagens no pagamento de impostos.

O governador seguinte, Roberto Requião, logo que assumiu “comprou briga” com as três. Fazia discursos populistas dizendo ser absurdo o coitadinho do pequeno empresário ter que pagar impostos enquanto as multinacionais malvadas não pagavam. Prometeu que iria mudar isso.

Certo dia, chegou na sede da Renault junto com um bando de secretários e aspones, para uma reunião com os diretores da montadora. Repetiu o mesmo discurso. Quando terminou, um dos diretores da Renault respondeu calmamente: “Senhor governador, uma fábrica como a nossa exige constantes investimentos para manter-se moderna e competitiva. O custo do terreno e da prédio em si são ínfimos diante do custo dos equipamentos. Agora, se o governo do Paraná não pretende cumprir o contrato que assinou com a Renault, nós cancelaremos os reinvestimentos nesta fábrica e usaremos o dinheiro para construir outra, mais moderna, em outro lugar. Daqui a dois anos fechamos esta e nos mudamos para a nova, e isso não nos custará um centavo a mais.”

Dizem que a cara de bunda do governador Requião foi algo épico. Ele olhava para seus assessores em busca de uma resposta, mas todos apenas balançavam a cabeça como quem diz “é isso mesmo”. Restou levantar e ir embora. A Renault continuou sem pagar impostos, como previa o contrato.

Tudo isso, claro, tem a ver com o anúncio da Ford de fechar suas fábricas no Brasil. Afinal, isso é bom ou ruim?

Na modesta opinião deste pitaqueiro, é bom.

A indústria de automóveis é viciada em incentivos e benefícios. Pelo seu tamanho e por ter um produto que mexe com os sentimentos básicos das pessoas (o sonho do tal do “carro novo”), as fábricas desfrutam de um prestígio e um poder que lembram os antigos “senhores de engenho”. A explicação que o diretor da Renault deu é correta: nos tempos de hoje, os equipamentos de uma fábrica ficam obsoletos em poucos anos, e precisam ser trocados. Instalar os novos no local dos antigos ou em outro, dá quase na mesma (na verdade, em muitos casos é mais fácil e barato construir uma fábrica nova a partir do zero do que trocar as máquinas de uma unidade em funcionamento). Com esta facilidade de trocar de endereço, e mais o apoio da opinião pública, que vê uma fábrica como uma espécie de “vaca sagrada” que deve ser paparicada e protegida, as indústrias estão sempre chantageando o governo em busca de mais incentivos e facilidades.

Se esse fenômeno é mundial, o Brasil o leva ao absurdo: embora não exista nenhuma indústria “brasileira”, as estrangeiras aqui instaladas gozam de privilégios que não existem em nenhum outro país civilizado: o mercado é praticamente reservado para elas. As importações, ínfimas, existem apenas para atender à classe mais alta, que não se importa de pagar extorsivos impostos de importação (na verdade, até gosta: o alto preço mantém a aura de “exclusividade” que é um critério importante na compra, como acontece na indústria da moda). O resultado é que pagamos caro para ter carros ruins. Isso prejudica a todos, e não apenas no aspecto da satisfação pessoal; pensemos em quantas oportunidades são perdidas por pessoas que poderiam trabalhar em determinada coisa mas não conseguem porque não conseguem obter (e manter) um carro para se deslocar.

Nossos governos sempre acreditaram que o progresso de um país depende de apertar parafusos, não do conhecimento técnico. Por isso, nunca se preocuparam em criar tecnologia ou em ter capacidade de desenvolvimento própria; se preocuparam, isso sim, em obrigar as empresas estrangeiras a montarem seus produtos aqui, algo que foi levado às últimas consequências na vital área da informática, onde uma estúpida reserva de mercado isolou o país do caminho do progresso por quinze anos. O motivo principal, além da simples burrice e de um nacionalismo tosco, é provavelmente a conveniência de criar um grupo de empresas privilegiadas que sabem ser gratas aos políticos que criam os privilégios.

E qual seria a alternativa? Bem, para começar, o Brasil tem provavelmente o maior potencial de produção de alimentos do mundo. São milhões de quilômetros quadrados de terras férteis e com boas chuvas, algo que não pode ser movido de um lugar para outro como uma fábrica. Mas ganhar dinheiro com agricultura e pecuária implica em exportar, e politicos não gostam muito da idéia, porque o mercado externo não pode ser controlado por eles. Isso, combinado com um pensamento “isolacionista” que prospera com facilidade em mentes fechadas, fez com que o Brasil se dedicasse a repetir o mantra de que comércio exterior é ruim, bom mesmo é mercado fechado e “protegido”. De tanto tentar, conseguimos ficar nos últimos lugares dos rankings de comércio mundial: em 2017, segundo o World Bank, entre 178 países estávamos em 176º, ou seja, ante-penúltimo, ganhando apenas de Sudão e Nigéria.

Já posso ver meu leitor pensando “mas meu professor disse que um país não pode se desenvolver exportando commodities, precisa exportar produtos com valor agregado!”. Sim, eu sei que a doutrinação é intensa e vai do jardim-de-infância até a faculdade. Mas vamos pensar um pouco.

Em primeiro lugar, alguns exemplos: Chile, Nova Zelândia, Austrália. Todos muito melhores que o Brasil em desenvolvimento econômico e social. O Chile exporta cobre e vinho. A Nova Zelândia, ovelhas. A Austrália exporta carne bovina, lã e carne de ovelha, carvão, gás natural e minério de ferro (e vinho também). Nenhum deles tem sequer uma única fábrica de automóveis. Os três exportam commodities (e são bons nisso) e com o dinheiro compram o restante de quem sabe fazer melhor. Nenhum dos três importa carros do Brasil, por exemplo; importam Toyotas do Japão e BMWs da Europa.

Em segundo lugar, se exportar produtos com alto valor agregado é bom, quando é que vamos começar? Porque hoje não fazemos isso, e não fazemos por um motivo simples: não temos competitividade. E porque as indústrias daqui iriam se esforçar para ser competitivas se têm o mercado interno reservado para elas, podendo vender produtos de qualidade inferior pelo preço que quiserem? A verdade é que o povo brasileiro é obrigado a pagar caro em nome de algo que não existe, que é a competitividade de nossa indústria, que por sua vez está desde 1808 pedindo “só mais um pouquinho” de privilégios, e prometendo que a sonhada competência demorará “só mais um pouquinho” também.

Meu leitor deve estar pensando em outro argumento: “mas a indústria é necessária para gerar empregos!”. Outra falácia. Gerar empregos é a coisa mais fácil, e ao mesmo tempo mais inútil do mundo. O que uma sociedade deve fazer, se quiser prosperar, é gerar VALOR, ou seja, produzir algo pelo qual as pessoas, voluntariamente, queiram pagar. Sem gerar valor, um emprego é simplesmente tirar dinheiro de um para dar para outro, mas criando um faz-de-conta para não parecer esmola. Qualquer governo pode acabar com o desemprego do dia para a noite, com uma canetada. Se o governo proibir os carrinhos-de-mão, surgirão milhares de empregos na construção civil para carregar coisas nas costas. Se o governo proibir os tratores agrícolas, milhões de pessoas terão um emprego, de enxada na mão. O governo pode obrigar todo prédio a ter dez porteiros, pode obrigar cada ônibus a ter cinco cobradores, pode colocar um guarda de trânsito em cada cruzamento, com apito e tudo. Mas isso não resolverá nada porque, de novo, se o emprego não cria valor, ele é inútil, é um desperdício. Se o emprego não cria valor, o pagamento dele terá que ser tirado de algum outro lugar; isso é destruir riqueza, não construir. Em outras palavras, é obrigar duzentos milhões de brasileiros a pagar mais caro por tudo para dar dinheiro a pessoas improdutivas de uma forma mais hipócrita e menos eficiente do que se eles recebessem para não fazer nada.

Em suma, os australianos decidiram que não são bons em fabricar carros, mas sim em criar bois. Eles com certeza estão mais prósperos que nós. Está mais do que na hora de olharmos seriamente para nosso país, descobrirmos em que nós somos bons e decidirmos, afinal, o que vamos fazer de nossas vidas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SUBMISSOS

Dizem que nos tempos do Brezhnev na extinta URSS, um grupo de pesquisadores resolveu fazer um estudo científico para confirmar se o povo russo era mesmo tão submisso como se dizia. Escolheram uma pequena cidade em uma região isolada e começaram as experiências.

A primeira foi divulgar decretos absurdos que proibiam quase tudo: andar na rua, tomar banho, plantar flores no jardim. O povo obedeceu sem reclamar. Próxima tentativa: retirar os produtos do mercado. Numa semana, sumiu a carne. Na outra, sumiu o leite, depois os legumes e verduras, até que uma hora não havia praticamente nada para comprar. O povo, quieto e resignado.

Cortaram a água da cidade inteira: nenhuma reclamação. Cortaram a eletricidade: nada. Cortaram as duas juntas: todo mundo quieto. Os chefes deram o estudo por concluído e avisaram que no fim da semana voltaria todo mundo para a universidade.

Foi aí que um dos pesquisadores resolveu fazer uma “brincadeira”: espalhou panfletos pela cidade inteira avisando que toda a população deveria comparecer à praça principal no sábado: o governo iria escolher um membro de cada família para ser enforcado. Impossível não haver alguma reação, pensou o pesquisador.

Na sexta-feira, ele foi até a prefeitura e perguntou como estavam as coisas. O funcionário respondeu que estavam atarefados, porque os telefones não paravam de tocar. Era a reação que o pesquisador queria ver. “O quê eles dizem?”, perguntou. O funcionário da prefeitura respondeu: “Todos perguntam se vai ter corda na praça ou se cada um precisa levar a sua”.

Quando eu escutei essa história, décadas atrás, era só uma piada. Nem eu nem ninguém podia imaginar que veríamos uma situação como essa acontecer na realidade, e não apenas em um vilarejo soviético mas em quase todo o mundo civilizado.

As estatísticas divulgadas sobre o tal covid-19 são uma fantasia digna de Alice no País das Maravilhas, mas para muita gente eles são verdades tão inquestionáveis quanto o mar ser salgado e o céu ser azul.

Não fica só nisso: o tal vírus é um perigo para toda a humanidade, mas esse perigo pode ser evitado obedecendo cegamente às ordens de alguns iluminados. Não importa que as ordens não façam sentido: têm que obedecer e pronto. Aglomerar no ônibus pode; receber visita em casa não. Andar de avião lotado também pode, um cotovelo encostando no outro, mas antes de embarcar precisa respeitar as fitinhas coladas no chão para “respeitar o distanciamento”.

Se aqueles pesquisadores da piada estivessem aqui, constatariam que os cidadãos exigem ser proibidos de fazer alguma coisa. Não importa muito o quê, mas a falta de proibições os deixa revoltados. Já faz tempo que a principal atividade das prefeituras é proibir coisas e dizer “não pode”, mas o pânico coletivo levou a coisa a níveis absurdos. Prefeitos e secretários que ousem proibir pouco são esculachados, chamados de irresponsáveis e genocidas.

Como resultado, as empresas precisam obedecer aos cronogramas mais absurdos, numa espécie de concurso de originalidade entre as prefeituras: para uma, de segunda a sexta pode, fim de semana não; para outras, sábado pode, mas só até as seis para uma, até as sete para outra e até as oito para uma terceira. Uma falou que os bares podem abrir, mas só com mesas do lado de dentro, na calçada não pode. Tem uma cidade em que os restaurantes podem funcionar até as dez da noite, mas só podem vender bebidas até as oito. E a cada semana muda a lista daquelas que podem funcionar e aquelas que simplesmente não podem abrir.

Também faz parte dos mandamentos divinos usar um paninho no rosto: não precisa ser algo que atenda a algum requisito técnico ou que tenha sido aprovado por alguém. Qualquer coisa serve, e dá ao portador o título de pessoa do bem, cidadão com empatia, ser humano consciente e responsável. Faz parte do ritual achar que qualquer um que discorde é um inimigo da humanidade, uma mistura de Thanos, Gêngis Khan e Josef Mengele.

Agora veio um novo passo: vacina. Algumas vozes tentam mostrar o risco de uma distribuição maciça de algo que não foi testado, e lembram que o tempo necessário para a aprovação de um medicamento novo é de vários anos. Se várias vacinas diferentes chegam ao mercado em pouco mais de seis meses, é evidente que não existe qualquer certeza sobre seus efeitos de longo prazo.

Obviamente, quem diz isso também é xingado: genocida, irresponsável, sem empatia, além de alguns epítetos criativos como terraplanista ou obscurantista. Afinal, receber vacina será como receber a cura diretamente das mãos de seu deus preferido. Se o governo afirma que a vacina é segura, quem poderá ter a audácia de contestar? Quem será o fascista, nazista, machista a duvidar de algo que o governo afirma? Não, isso não pode ser admitido. É preciso criar mecanismos para isolar da sociedade esses contestadores. Marcá-los, para que todos saibam quem são (Os reis da Espanha no século 15 e o governo da Alemanha na metade do século 20 fizeram isso com os judeus, certamente com a mais nobre das intenções).

Os pesquisadores da historinha nunca imaginariam encontrar pessoas que não apenas irão contentes e felizes à praça para ser enforcados, mas que irão voluntariamente patrulhar as ruas nas noites anteriores para denunciar os que tentarem fugir.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

COMO A TIRANIA NASCE?

Uma resposta infantil diria que enquanto os outros estão distraídos cuidando de suas vidas, as pessoas malvadas chegam escondidas e se apossam do poder. Ao povo resta submeter-se em silêncio, escravizado, enquanto sonha com a chegada de um herói salvador que irá liderar uma revolução e reestabelecer a liberdade.

Infelizmente, esta resposta “infantil” reflete a atitude da maioria dos adultos: tirania só acontece com os outros. Tirania é algo que aconteceu em 1790 na França, ou na Alemanha de Hitler, ou no Iraque de Saddam Hussein, não aqui.

Esta atitude é perigosamente imatura, porque todo tirano chega ao poder com o apoio do povo. Sem esse apoio, nenhum aspirante a tirano dura muito. Todo tirano aponta para algum perigo (real ou imaginário, mas sempre exagerado) e diz ao povo que o único caminho para fugir desse perigo é o que ele, tirano, indica. Em seguida, ele explica ao povo que é necessário que ele, como único líder, receba amplos poderes, sem restrições legais ou éticas. Trêmulos de medo, mas confiantes na promessa de proteção, as pessoas se submetem, mansas como ovelhas.

Algumas pessoas, claro, reconhecem a estratégia e denunciam a arbitrariedade e a falsidade das intenções do ditador. Mas a maioria acredita que as arbitrariedades são necessárias para o bem comum, e acreditam nas boas intenções que o tirano declara ter. Se o tirano causa sofrimento e humilhação agora, vale a pena, porque livrará a todos de um futuro muito mais terrível, dizem eles.

E assim a tirania se instala: com a aceitação e o entusiasmado apoio da maioria. Essa maioria não acredita que vive numa tirania. Tirania só acontece com os outros, os menos informados, menos inteligentes, que não percebem que os tiranos tem a maldade estampada na cara. Não é, claro, o caso deles, que seguem um líder virtuoso e de intenções puras, como qualquer pessoa de bom senso pode perceber. Aliás, os que duvidam das virtudes do líder provam não ter bom senso, nem boas intenções, e devem ser ignorados – e se necessário, calados e suprimidos.

O apoio ao tirano dá ao homem comum um benefício: o prazer de ser, ele próprio, um mini-tirano. Ao adotar as palavras e ações do tirano como verdades incontestáveis e declarar-se um apoiador da causa, ele usa essa autoridade para ameaçar e humilhar qualquer um que discorde dele, sabendo que a maioria estará do seu lado.

Os apoiadores do tirano repetem um argumento simples: “Nós não somos vítimas da tirania. Nós obedecemos voluntariamente ao nosso líder, porque isso é o melhor para nós. Se um tirano tentasse nos oprimir, nós não aceitaríamos. Afinal, somos um povo esclarecido, forte, valoroso, amamos a liberdade. Se necessário, lutaríamos contra qualquer tentativa de tirania. Mas não estamos resistindo e protestando contra as ordens de nosso líder, porque ele não é um tirano. É um guia sábio e virtuoso em quem devemos confiar.”

Com o tempo, a quantidade dos que deixam de acreditar nas boas intenções do tirano pode aumentar. Mas aí o tirano, já instalado, não depende tanto da aceitação popular para sobreviver: ele já formou seu exército que usará a força para calar os descontentes. Já montou sua equipe de intelectuais e celebridades que controlará a opinião pública. Já organizou seus coletores de impostos para assegurar que não lhe faltará dinheiro. E sempre haverá na sociedade um grupo de pessoas, maior ou menor, que o apoiará fanaticamente em tudo que fizer, por mais indefensável que seja, pelo simples orgulho de não admitir que estava errado.

Adaptado de um artigo de Donald Boudreaux.