MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FRASES ALHEIAS – AS IDÉIAS DE WALTER WILLIAMS

Walter Edward Williams (1936-2020), foi um economista, comentarista e acadêmico americano

Democracia e liberdade não são sinônimos. A democracia é apenas a irracionalidade das multidões; a liberdade é a soberania do indivíduo.

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Os especialistas da elite intelectual substituíram aquilo que funcionava por aquilo que “soava bonito”. A sociedade era muito mais civilizada antes dos intelectuais assumirem o controle de nossas escolas, nossas universidades, nossos programas sociais, nossas polícias, nossos tribunais. Já passou da hora de descartarmos essas pessoas e retornarmos ao bom senso.

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Os multiculturalistas e proponentes da diversidade estão corretos quando dizem que pessoas de todas as raças, religiões e culturas devem ser tratadas igualmente aos olhos da lei. No entanto, todo o argumento deles se esfacela quando eles próprios afirmam que determinadas culturas não podem ser julgadas de maneira crítica.

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A minha definição de justiça social é a seguinte: o que eu ganho com o meu trabalho é meu, o que você ganha com o seu trabalho é seu. Discorda? Então me diga qual parte daquilo que eu ganho é sua, e por quê?

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Algo que é considerado imoral quando feito individualmente se torna moral quando feito coletivamente? Basta uma lei para estabelecer a moralidade? A escravidão era legal. Os confiscos stalinistas eram legais. A perseguição dos nazistas aos judeus era legal. O apartheid na África do Sul era legal. A legalidade tornava esses atos morais? Claro que não. A legalidade, por si só, não pode ser o talismã das pessoas morais.

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O teste definitivo para se saber o comprometimento de uma pessoa para com a liberdade de expressão é ver se ela permite que outras pessoas digam coisas que ela considera profundamente ofensivas, seja sobre raça, gênero ou religião. Não é mérito nenhum chamar de “liberdade de expressão” a vocalização apenas daquelas ideias que nos agradam.

Infelizmente, o que temos hoje é uma defesa assimétrica da liberdade de expressão: aquilo que me agrada é lícito, aquilo que me ofende deve ser proibido. Ou a liberdade de expressão é absoluta, ou ela não existe.

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Um estabelecimento que proíbe a entrada de negros é tão válido quanto um que proíbe a entrada de brancos. Um estabelecimento que proíbe a entrada de homossexuais é tão válido quanto um que proíbe a entrada de heterossexuais. Um estabelecimento que proíbe a entrada de judeus é tão válido quanto um que proíbe a entrada de neonazistas.

O verdadeiro teste para determinar se um indivíduo é sinceramente comprometido com a defesa da liberdade não está em ele permitir a liberdade de uma maneira que ele aprova. O verdadeiro teste ocorre quando ele permite às pessoas serem livres de maneiras que ele considera desprezíveis.

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Tentativas de tornar as pessoas iguais por meio de alterações nas leis produzem resultados que destroem a civilidade e o respeito pela lei. O governo só pode criar uma vantagem para uma pessoa se, ao mesmo tempo, ele criar uma desvantagem para outra pessoa.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

VACINAS

Vacina é um dos assuntos da moda no Brasil (e no mundo). E muita gente não gosta de ver o país importando vacinas.

O que pouca gente sabe é que existe uma ativa e próspera indústria de vacinas no país, com quase 30 fabricantes produzindo mais de 300 milhões de doses por ano – só que para vacas, não para humanos.

Por que a diferença? Provavelmente porque o mercado de vacinas bovinas é uma relação comercial com duas partes: o vendedor e o comprador; nas vacinas humanas, existe o comprador, o vendedor e o governo, e relacionamentos a três só funcionam bem em filme pornô (porque é tudo fingimento e segue um roteiro). Falando sério, quanto mais o governo se intromete em um setor, menos pessoas existem querendo investir nele – em geral, sobram apenas aqueles que mantêm “relações íntimas” com deputados e ministros.

A fabricação de vacinas no país começou no tempo dos militares, com todos os ingredientes de costume: um nome pomposo (PASNI – Programa de Autosuficiência Nacional em Imunobiológicos), comitês, planejamentos, metas e vultosas verbas distribuídas para institutos como Manguinhos, Butantan e Vital Brasil. Também como de costume, o que no começo parecia funcionar aos poucos vira um sem-fim de prejuízos e pedidos de “mais verba”. Quando o país se abriu um pouco para o resto do mundo, nos anos 90, descobriu que as vacinas produzidas nos outros países eram muito mais baratas do que as produzidas aqui, e a fabricação local começou a encolher.

Em 1999 veio uma novidade que pesquisadores da área chamam de “a pá de cal” ou “o prego no caixão” da produção brasileira: a criação da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A ANVISA estabeleceu um monte de exigências técnicas e burocráticas na área farmacêutica, e as estatais que ainda fabricavam vacinas não conseguiram atender a essas exigências, alegando, mais uma vez, que precisavam de “mais verba”. Não é curioso ver um órgão do governo reclamar que não consegue atender a exigências feitas por esse mesmo governo?

O Instituto Butantan produz atualmente sete vacinas (incluindo a da COVID), mas apenas uma, contra a gripe, tem o insumo básico fabricado aqui. Todas as demais usam matéria-prima importada, que é apenas processada e embalada aqui. A Fiocruz mostra números um pouco melhores: dos dez tipos de vacina produzidos, quatro usam insumos nacionais (ainda assim, menos da metade).

Por que isso acontece? É difícil explicar de forma específica, mas a explicação genérica é bem simples: governos não são eficientes em produzir coisas. Como qualquer empresário sabe, uma empresa só aprende a ser eficiente quando sente a presença da concorrência. Uma empresa estatal, com mercado cativo e planejado pelo governo, e sem compromisso com o lucro, desaprende: ao invés de se tornar mais eficiente, tende a se esquecer do objetivo para o qual foi criada (seja produzir vacinas, computadores ou livros escolares) e se preocupar cada vez mais com sua própria burocracia e com os salários e benefícios de seus funcionários. Para contornar a falta de eficiência e de produtividade, a solução é sempre a mesma: declarar que o governo precisa “investir mais”. Funcionários de empresas estatais geralmente acreditam piamente que o dinheiro do governo é infinito.

Outro problema que também afeta esse e outros setores no Brasil é que a pesquisa científica costuma ser concentrada nas universidades públicas, que de modo geral não são eficientes na hora de transformar a pesquisa em produção. Um professor da USP chamou de “Vale da Morte” a distância que existe entre o laboratório e a indústria, expressando que essa distância hoje é praticamente intransponível. A solução apontada, como sempre, é “mais investimento”. Aliás, aqui no JBF temos vários representantes do mundo acadêmico que podem falar do assunto com mais propriedade do que eu.

O que fica claro é que, independente de preferências ideológicas, a função do governo deve ser governar, não produzir. A razão básica do socialismo não funcionar é que, ao pregar a “ausência de propriedade privada dos meios de produção”, deixa os tais meios de produção, ou seja, a indústria, sem dono e sem rumo. Nesse sentido, o Brasil sempre flertou com o socialismo. Nos anos 70/80, criou uma pomposa indústria estatal de computadores (onde trabalhei por oito anos). Não deu certo. Criou, como vimos, uma indústria estatal de vacinas (aliás, mais de uma). Não deu certo. O governo de São Paulo foi dono de uma empresa de aviação, a Vasp. Não deu certo. Empresas que hoje são consideradas por alguns “orgulho nacional”, como Vale e Embraer, enquanto foram estatais acumulavam prejuízos, lentidão, projetos que nunca chegavam ao fim, desperdícios, tudo isso enquanto os funcionários, fossem produtivos ou não, recebiam todo tipo de benefícios.

Enquanto isso, setores como o de vacinas veterinárias, entre muitos outros, mostram que o empreendedor brasileiro pode ser tão produtivo e competitivo quanto qualquer outro. Basta o governo não atrapalhar.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A SAÚDE, LÁ E AQUI

“A história é escrita pelos vencedores” é uma realidade tão antiga como o mundo. Mas a última década trouxe uma “overdose” de informação sem precedentes na história, e com isso a disseminação de mentiras tomou uma intensidade e velocidade também sem precedentes. Coisas completamente falsas, mentiras sem pé nem cabeça tornam-se dogmas incontestáveis literalmente do dia para a noite.

Uma destas “fake news” que têm se espalhado como fogo morro acima é a suposta ausência de saúde pública nos EUA. Com base no argumento “todo mundo sabe disso”, as redes sociais se enchem de histórias contando que lá apenas os ricos podem ficar doentes, porque os pobres morrem aos milhões pela rua sem assistência, enquanto outros milhões perdem tudo que têm por causa de uma unha encravada. Tudo mentira.

Começando pelo básico: o sistema de saúde pública dos EUA é dividido em vários programas, sendo o mais importante conhecido como Medicaid. Existem programas específicos para idosos (Medicare), crianças (CHIP), militares (MHS), ex-militares (VHA), índios (IHS) e funcionários do governo (FEHBP), isso considerando apenas o âmbito federal.

A militância no Brasil repete sem parar “mais verbas” e “mais investimento” como se fossem palavras mágicas. Bem, só o Medicaid recebe do governo federal e dos estados a quantia de 600 BILHÕES DE DÒLARES por ano. Ao câmbio de hoje, isso corresponde a 3,3 TRILHÕES de reais, aproximadamente 30 vezes mais do que o nosso orçamento federal reserva para a saúde.

Se “mais verba” resolve tudo e a verba deles é tão grande, deve ser um sistema ótimo, certo? Errado. O atendimento do Medicaid é quase tão ruim quanto o do nosso SUS. Por quê? Na minha opinião, é porque sistemas pagos e gerenciados pelo governo tendem a ser (com raras exceções) ineficientes, burocráticos, esbanjadores, e mais preocupados com seus próprios interesses do que com os dos seus usuários.

Visto como um todo, o sistema de saúde dos EUA padece de vários problemas similares aos do Brasil, e todos eles têm algo em comum: acontecem porque o sistema deixa de lado o objetivo fundamental, que é a relação entre um fornecedor (o médico ou o hospital) e um cliente (o paciente) visando atender a uma necessidade. Ao invés disso, a preocupação passa a ser com procedimentos, regulamentações e metas estabelecidas por burocratas que não têm nenhuma ligação com os problemas do paciente, mas apenas com totais e sub-totais em uma planilha.

O primeiro problema é o enorme e insensato controle do governo sobre os planos de saúde privados, tanto lá como cá. Embora o tal controle alegue as melhores intenções, ele restringe a concorrência, cria burocracias inúteis e faz os preços subirem. No Brasil, existe ainda a insegurança jurídica, já que o governo, através da ANS, modifica os contratos existentes sempre que sente vontade. Quanto mais caros os planos de saúde privados, mais gente fica sem poder pagá-los e passa a depender do governo, menos eficiente.

Um segundo problema, mais grave lá que aqui, é a chamada “judicialização”. Processar médicos e hospitais pedindo indenizações milionárias é quase um esporte nacional por lá. Existem estimativas que, em determinadas áreas da medicina, metade daquilo que o usuário paga vai para seguros de responsabilidade civil. Nenhum médico se atreve a atender um paciente sem pagar esse tipo de seguro.

Isso gera um terceiro problema. Para tentar reduzir os riscos, as seguradoras exigem que os médicos sigam à risca as normas e protocolos elaborados pelos seus departamentos jurídicos, tentando não deixar brechas para reclamações. O resultado é que o médico atende um paciente com prisão de ventre, e ao invés de receitar um leite de magnésia, é obrigado a pedir uma dúzia de exames completamente desnecessários, mas que são exigidos pelos advogados da seguradora.

Se o médico é obrigado a pedir os exames, e o plano de saúde é obrigado a pagar, surge o quarto problema: que incentivo os fornecedores de exame têm para cobrar pouco? Nenhum, é claro. Nos EUA, o setor de exames é considerado o mais lucrativo de todo o sistema de saúde, exatamente porque sabe que seu faturamento é garantido, e portanto se sente à vontade para cobrar quanto quiser.

Um quinto problema: os burocratas estão constantemente tentando “otimizar” o sistema através de regras obtidas a partir de estatísticas, o que significa querer que os problemas se adaptem às soluções, e não o contrário. (uma velha expressão se aplica aqui: para quem só tem martelo, todo problema é prego). Em resposta a isso, os médicos passam a buscar formas de burlar as regras para conseguir resultados. Vou citar um exemplo: uma vez, em certo local, um burocrata queria reduzir os custos com internamentos, e determinou que os exames de pacientes internados deveriam ter prioridade em relação aos outros. Os médicos rapidamente perceberam que os exames de pacientes não-internados começaram a demorar mais, e passaram a internar todo mundo como forma de conseguir que os exames fossem feitos mais rapidamente. O resultado, óbvio, foi que os custos, ao invés de diminuir, dispararam. Pode parecer ridículo, mas idéias “geniais” como essa surgem o tempo todo, em todos os lugares.

E a história das pessoas que perdem até a casa onde moram por causa de uma doença? Sim, existem, embora longe de ser os “milhões” que muitos brasileiros repetem. O problema é que o Medicaid só atende pessoas que estão dentro de uma determinada faixa de renda, e esta faixa de renda é determinada pelos políticos, estado por estado. Nos discursos, políticos sempre amam o povo e fazem tudo por ele, mas no dia-a-dia das decisões a coisa é diferente. O cobertor sempre é curto para tanta despesa, e alguns estados forçam a barra ao estipular o tal limite. O resultado é que algumas pessoas acabam ficando no meio do caminho: são “ricas demais” para ser atendidas pelo governo, mas pobres demais para conseguir pagar um bom plano de saúde. Aliás, a classe média é sempre a maior vítima das trapalhadas do governo: os ricos sempre garantem seus interesses, e os pobres são vistos pelo governo como votos baratos para comprar. E também existem casos de gente que teria direito ao Medicare, mas prefere pagar um hospital particular do que correr o risco de morrer na fila.

Em resumo, o sistema de saúde dos EUA não serve de exemplo para nós em quase nada. O setor privado é tolhido e burocratizado pelo governo, como aqui; o setor público é ineficiente como o nosso, com o agravante de ser muito mais caro. Mas cantar louvores ao SUS acreditando na fantasia do “inferno capitalista onde os pobres morrem na porta do hospital” continua sendo uma grande burrice.

Se estamos procurando modelos, eles estão em países como Suíça e Holanda, totalmente privados e considerados os melhores da Europa. Mas aí já é assunto para outro dia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

APRENDENDO (OU NÃO) COM A HISTÓRIA

Alemanha, 1923

Com o fim da I Guerra Mundial, 1918, a Alemanha foi obrigada a pagar pesadas indenizações aos vencedores. Como não tinha com que pagar, o governo começou a imprimir dinheiro. O resultado (óbvio) foi a perda de valor de sua moeda: Um dólar valia 4 marcos em 1917, 8 em 1918, 50 em 1919, 90 em 1921, 320 no inicio de 1922. Daí em diante, a inflação virou hiperinflação. Quem tinha alguma coisa, não queria trocá-la por papéis que não valiam nada, então o comércio praticamente parou. Os fazendeiros guardavam os alimentos que produziam, ao invés de mandá-los para os mercados. No final de 1923, um dólar valia 4 trilhões de marcos e o preço de um pão chegou a 200 bilhões.

Com o país em completo caos e muita gente passando fome (embora a produção agrícola continuasse relativamente normal), o ministro Hans Luther propôs uma medida simples: uma nova moeda com valor fixado em ouro, e a proibição de emissão de dinheiro pelo governo. Em 13 de outubro de 1923, passou a existir o Rentenmark, com o valor de 0,358 gramas de ouro.

Quando a população viu que podia confiar na nova moeda, o comércio rapidamente voltou ao normal. Dois anos depois, a Alemanha já era um país economicamente forte na Europa.

Estônia, 1992

Em 1991, depois de cinco décadas sob domínio da URSS, a Estônia voltou a ser um país independente. Infelizmente, a herança soviética era desastrosa: a economia, que obedecia ao planejamento central de Moscou, era caótica; havia poucas indústrias economicamente viáveis; toda a agricultura era estatizada; quase um terço da população era de russos que sequer falavam a língua local (e a maioria acreditava que tinha direito a um emprego garantido pelo governo); e para completar, o país não tinha moeda que prestasse: o rublo, que era usado anteriormente, havia se esfacelado junto com a União Soviética, e a inflação estava perto do 80% ao mês.

A fórmula seguida pela Estônia para reconstruir sua economia foi bem simples: a nova moeda local, o Kroon, foi fixada em 0,12 marcos alemães (a moeda mais forte da Europa na época); o governo não pode fabricar dinheiro nem gastar mais do que arrecada; quase todas as empresas estatais foram privatizadas; a constituição garante liberdade de comércio.

Hoje, a Estônia é uma das economias que mais crescem na Europa, a dívida pública é de menos de 10% do PIB (a terceira menor do mundo), a liberdade de importação e exportação é total e o desemprego é um dos menores da UE.

Zimbábue, 2008

Desde seu “nascimento” em 1980 o Zimbábue viu sua economia enfraquecer, fruto de um governo corrupto, populista e com tendências socialistas. Ao longo dos anos 90, estatizações no setor agrícola e envolvimento militar em países vizinhos pioraram a situação. O governo adotou a solução fácil de imprimir dinheiro. A inflação ultrapassou 100% ao ano em 2001 e continuou crescendo ao longo da década. Em 2007 a coisa toda saiu de controle, com uma inflação estimada em 600000%. No ano seguinte, a economia do país chegou ao caos: havia cédulas de 100 trilhões, e os ônibus urbanos reajustavam a tarifa três vezes por dia. Nas empresas e nos bancos, os computadores paravam porque os programas não conseguiam operar números com tantos zeros. O governo decretou um congelamento, o que ajudou no sumiço das mercadorias. O PIB do país encolheu 14% neste ano.

Em janeiro de 2009, o governo do país reconheceu o óbvio: sua moeda não valia nada e ninguém a queria. O ministro das finanças editou uma lei tornando legal o uso de moeda estrangeira no país. Em pouco tempo, a economia se estabilizou, com as pessoas usando dólares ou rands da vizinha África do Sul. Em 2010 e 2011, o PIB cresceu mais de 9% ao ano.

O Zimbábue permaneceu sem ter moeda própria até 2018, quando o governo tentou dar o mesmo golpe de novo, criando uma moeda nacional de uso obrigatório. Em 2019 a inflação foi de 500% e a previsão para 2020 era de 600 a 700%. Com os problemas causados pelo COVID, a situação tornou-se crítica e o governo parece ter desistido da idéia e liberado novamente o uso de outras moedas.

Hong Kong, 1945

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, Hong Kong era um país devastado por quatro anos de ocupação japonesa. A população havia caído 50%. Grande parte dos prédios e indústrias estavam destruídos. A receita para a recuperação não tinha nada de complicado: liberdade de comércio, liberdade para trabalhar, o mínimo possível de intervenções e regulamentações do governo. A moeda? Era atrelada à libra esterlina, a moeda mais forte do mundo na época. Vinte anos mais tarde, quando o Reino Unido desvalorizou a libra em 14%, Hong Kong se recusou a acompanhar a medida, o que tornou sua moeda mais forte que a libra inglesa. Desde 1945 até hoje, a moeda de Hong Kong nunca se desvalorizou em relação às outras moedas “fortes”, e a liberdade de comércio continua ampla.

Equador, 2000

Entre 1980 e 2000, a inflação anual no Equador oscilou entre 20 e 60%, com picos chegando a 100%. Os déficits do governo eram constantes e crescentes. Em 98, houve uma “quebradeira” de bancos que piorou tudo. Em 99, a dívida do governo chegou a 85% do PIB, e o governo anunciou um calote na dívida externa. A economia entrou em colapso. Quando 2000 começou, a aprovação do presidente Mahuad era de apenas 7%.

A solução adotada foi simplesmente acabar com o Sucre, a moeda nacional, e adotar o dólar. Políticos da oposição e economistas ortodoxos foram contra, e os militares tentaram um golpe para depor Mahuad. O golpe falhou e Mahuad manteve sua decisão.

Sem “moeda nacional”, o PIB do Equador subiu 19% em sete anos, a taxa de juros paga pelo governo caiu para menos de um terço do que era, as exportações mais do que dobraram, o governo teve sete superávits seguidos (o que não acontecia há mais de seis décadas) e a dívida do governo (que era 85% do PIB, lembram?) caiu para 27% em 2007.

No início de 2007, tomou posse o novo presidente, Rafael Correa, defensor entusiasmado do socialismo e do bolivarianismo. Nos dez anos seguintes, aconteceu uma coisa interessante: embora criticasse ferozmente o “neoliberalismo” e se declarasse inimigo dos EUA, fazendo côro aos seus amigos Hugo Chávez e Evo Morales, Correa manteve o uso do dólar. Com o bolivarianismo de Correa, os tempos de superávit acabaram, e o orçamento voltou a ser cronicamente deficitário. A dívida voltou a crescer. O governo ia de mal a pior. E o povo? Nem tanto: a inflação, depois de um pico inicial, se manteve abaixo dos 6% ao ano; o desemprego não aumentou; os salários médios subiram.

Eu considero os números do Equador muito importantes para mostrar um erro comum em análises econômicas: misturar economia com política. É óbvio que a condução da economia depende dos políticos, mas o que é certo ou errado em economia não depende do crachá ou da bandeira do político. No caso do Equador, os números mostram que, mesmo com um governo ditatorial, incompetente e populista, o simples fato da população ter uma moeda forte manteve a economia funcionando razoavelmente bem, imune aos números ruins do governo.

Em 2017 Correa foi sucedido por Moreno, que abandonou a amizade com a Venezuela e tentou ser mais a favor do livre mercado. Infelizmente, a economia do Equador ainda é frágil e moeda forte sozinha não consegue fazer milagres. O crescimento ainda é lento. Mas o simples fato de o governo não poder fabricar dinheiro já é uma enorme vantagem. Hoje, a inflação acumulada em doze meses no Equador é de 0,1%. Pense no preço da gasolina, do óleo de soja ou do leite por aqui e compare.

Quem quiser saber mais sobre a dolarização do Equador, com dados e gráficos, clique aqui.

Conclusões

Se um país tem moeda forte, sua economia será forte e o povo irá prosperar.

Esta moeda não precisa ser “controlada”, “administrada” ou “gerenciada” pelo governo.

Na verdade, quanto menos poder o governo tiver sobre a moeda, melhor.

Um país não pode ter moeda forte se o governo insiste em fabricar dinheiro.

“Moeda estável não é tudo; mas sem moeda estável, todo o resto sempre dará em nada.” – Karl Schiller, Ministro das Finanças da Alemanha de 1966 a 1972.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A SELIC SUBIU

O que é a tal SELIC?

Governos geralmente estão pedindo dinheiro emprestado, porque gastam mais do que arrecadam. Pessoas físicas, quando querem dinheiro emprestado, vão ao banco e assinam um contrato de empréstimo. O governo faz um pouco diferente: ele vende títulos, ou seja, vende um papel (virtual) que promete devolver o dinheiro, com juros, no futuro. A SELIC é uma das taxas que servem de referência para o mercado de títulos (que é bastante complexo). Serve para o governo fingir que é ele quem manda no negócio, como se dissesse “quem quiser emprestar dinheiro para nós, vai ganhar X de juros”. Claro que na prática não é assim que funciona, porque quem manda é quem têm o dinheiro na mão, não quem está pedindo emprestado.

Qual o valor ideal da SELIC?

A situação ideal, ao menos na visão mais liberal, é o governo não pegar dinheiro emprestado; aí a SELIC simplesmente não existiria. A segunda opção seria o governo emprestar dinheiro como qualquer cidadão, indo ao banco e pedindo. Aí, os políticos teriam limites para suas irresponsabilidades. O que se faz hoje é a pior escolha: o governo interfere no mercado, tabelando os juros. Embora muita gente acredite que o governo, através de seus ministérios e comitês, “regule” o mercado, a verdade é que o mercado regula a si próprio e o poder do governo é bem menor do que ele tenta aparentar.

Se é difícil saber o valor certo, é fácil saber o valor errado: é onde a SELIC está agora. É importante lembrar que a SELIC é uma taxa nominal, que não inclui a inflação. A combinação da SELIC com a inflação futura resulta no que se chama “juro real”. Pois bem, com a SELIC em 2% e a inflação subindo, o juro real brasileiro estava abaixo do da Suíça. Será que nossa economia é mais sólida que a da Suíça? O mercado financeiro certamente não acha.

A SELIC baixa economizou juros?

Na verdade não. Existem basicamente três tipos de título: os pré-fixados, que como o nome diz têm juros fixos, independentes da SELIC; os indexados à SELIC; e os indexados ao IPCA, que é o índice de inflação mais usado. Acontece que a SELIC baixa demais aumenta o IPCA, e a redução da despesa com um é anulada pelo aumento da despesa com o outro. Além disso, os investidores passaram a rejeitar os títulos SELIC e dar preferência aos IPCA. E, principalmente, não podemos olhar apenas a redução de despesas do governo sem olhar as consequências da inflação e da desvalorização do real para a economia como um todo.

Em termos práticos, podemos ver nos dados do próprio governo como a redução da SELIC mudou pouco a despesa com juros:

Por que a SELIC baixa aumenta a inflação?

Basicamente por dois motivos: o primeiro é que a SELIC influencia a capacidade dos bancos de conceder crédito. Com a SELIC mais baixa, eles podem emprestar mais e lucrar mais. Quando os bancos emprestam muito dinheiro, ocorre um aumento na demanda sem o correspondente aumento na oferta, e isso faz os preços subirem (não dá para fugir da lei da oferta e procura, por mais que os políticos estejam tentando há milhares de anos). Este aumento de preços vai direto para o IPCA. É sempre bom lembrar que expansão do crédito costuma formar bolhas: as pessoas gastam o dinheiro que não têm, os preços sobem, as vendas aumentam e há uma sensação de “agora vai!”, até que de repente a bolha estoura e sobram só as dívidas para pagar.

O segundo motivo é que uma parte dos títulos do governo é comprada por investidores estrangeiros. Quando a remuneração (ou seja, os juros) dos títulos deixa de ser atraente, os investidores vendem estes títulos e levam seu dinheiro para outro lugar. Para levar o dinheiro embora, eles trocam reais por dólares, e isso faz o “preço” do dólar aumentar e o real desvalorizar. O processo se realimenta: os outros investidores vêem seu investimento rendendo menos e ainda se desvalorizando, então cada vez mais investidores levam seu dinheiro embora. O que sobra é um real mais fraco, a cotação do dólar mais alta, e o preço de tudo subindo. Algumas pessoas que se orgulham da própria ignorância gostam de repetir coisas como “eu não almoço dólar”, mas a verdade é que o preço do dólar afeta diretamente o preço da comida, da roupa, da gasolina, do remédio, de praticamente tudo, e a única forma de evitarmos isso é nos tornando uma segunda Coréia do Norte, totalmente isolada do resto do mundo.

É interessante notar que quando os investidores estrangeiros trazem seus dólares para cá, o governo sempre comemora, com frases como “É uma prova da confiança em nossa economia”. Quando as coisas vão mal e os investimentos vão embora, o discurso muda: “Não queremos capital especulativo! Não vamos privilegiar rentistas à custa do sofrimento do povo!”. Na verdade, existem investimentos de prazo menor ou de prazo maior, mas o objetivo é sempre o mesmo: ganhar dinheiro. Ninguém investe para perder, e se um país é atrativo para um tipo de investimento, também é para outro. Não há como separar “investimento do bem” e “investimento do mal”, embora os políticos tentem.

Por que baixaram tanto a SELIC?

Aí só olhando dentro da cabeça do Paulo Guedes para saber. “Forçar juros para baixo causa desvalorização da moeda e inflação” é algo tão óbvio e que já foi demonstrado tantas vezes, que é difícil imaginar que gente supostamente qualificada cometa esse erro. Mas podemos pensar em algo que sempre ronda as decisões do governo: populismo.

Um autor de quem gosto muito disse “não há coisa que console mais o pobre do que a desgraça do rico, mesmo que a ele não traga benefício algum”. Nesse caso, nem é verdade, mas mesmo assim muitos pobres gostam de acreditar que a SELIC baixa “acabou com os rentistas” ou “deu fim aos especuladores”. No Brasil, rentistas e especuladores estão sempre na frente, com o governo correndo atrás, e cada vez que o governo faz uma trapalhada eles ganham mais dinheiro.

Alguns dizem que nosso Ministério da Economia segue a Escola de Chicago, e que esta coloca o equilíbrio fiscal acima de todo o resto. Nunca estudei nenhum autor “chicaguista”, mas quem acha aceitável prejudicar a vida do povo com inflação para manter as contas do governo equilibradas tem obrigação de ser a favor do aumento de impostos, o que no fundo é a mesma coisa. Eu já acho que deveria ser o contrário: o governo deveria se sacrificar pelo bem-estar do povo, não o povo se sacrificar pelo bem-estar do governo.

Outra observação: fala-se muito sobre a “independência do Banco Central”. Bem, recentemente o presidente do BC, Campos Neto, disse o seguinte: “A dívida nominal muito grande com taxas de juros muito baixas gera risco maior. O mundo começa a melhorar, os juros sobem e criam um efeito pobreza tão grande que cancela o crescimento antes de ele nascer. Podemos entrar em um círculo vicioso nesse sentido”.

Essa fala mostra que a tal independência é totalmente inócua. A única função do BC, e é por isso que ele é supostamente independente do governo, é manter o valor da moeda. Isso é importante porque, ao contrário de um déficit nas contas do governo ou uma variação da SELIC, a perda do valor da moeda afeta diretamente, e rapidamente, todos os negócios e toda a população do país. Repetindo: o BC deve ser o “guardião do real”, e apenas isso. Taxa de juros, déficit ou dívida do governo são problemas do governo federal, não do BC. Quando o presidente do BC mistura tudo, é porque o BC não é independente, é apenas um puxadinho do Ministério da Economia.

E daqui para frente?

O estrago já foi feito. Voltar ao patamar de alguns anos atrás não resolve mais, porque o déficit hoje é maior, a dívida é maior, a economia está mais fraca. Se (grandissíssimo se) o governo quiser que o real volte a ser uma moeda forte e estável (sinônimos), a SELIC vai ter que subir bastante. Se o governo se contentar em não deixar a inflação explodir até a próxima eleição, não precisará subir tanto, mas vai subir. E é bom lembrar que, se SELIC errada causa estragos, SELIC certa não resolve muita coisa se existem outras coisas erradas na economia (por exemplo, o governo fabricando dinheiro em excesso).

Para encerrar: talvez alguém esteja pensando “mas e a pandemia?”. A economia é uma ciência que analisa os fatos e as ações, e mostra as consequências. As leis da economia não mudam com pandemia, terremoto, tsunami, guerra ou invasão alienígena. Com ou sem pandemia, as consequências são as mesmas, e certamente virão.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O PREÇO DA GASOLINA

Todo mundo fala do preço dos combustíveis. Muitos têm prontinhos os culpados e as soluções. Mas para não correr o risco de confundir soluções simples com soluções simplistas, vamos ver ítem por ítem os fatores que influenciam os preços da gasolina e do diesel.

O petróleo

Sim, eu sei que estou me repetindo, e que já falei disso meia dúzia de vezes. Mas é um fato: não é o petróleo que está caro, é nosso dinheiro que não vale nada. Em reais, o preço do barril de petróleo nunca esteve tão alto. Mas em francos suíços, o petróleo hoje custa o mesmo que custava vinte anos atrás. A conclusão é simples: se tivéssemos uma moeda forte, não estaríamos preocupados com o preço do petróleo (e nem com muitas outras coisas).

A Petrobrás

Se houvesse concorrência na produção e principalmente no refino, haveria mais eficiência e o preço poderia ser um pouco menor, mas sabemos que isso não vai acontecer. Enquanto isso a troca do presidente da Petrobrás virou mais uma “polêmica da semana”. A questão é que não importa quem é o presidente ou se ele usa terno ou farda, só podem acontecer duas coisas com a Petrobrás: se a receita for maior que a despesa, ela tem lucro. Se for menor, ela tem prejuízo. Achar que dá para inventar outra coisa, ou que a contabilidade aceita mágicas, só acontece na cabeça de quem acredita em “vontade política”.

O melhor caminho para que a despesa não fique maior que o lucro, claro, seria tirar o poder do governo e dos políticos sobre a Petrobrás. Sem isso, não teriam sido jogados fora quatro bilhões de reais em refinarias que nunca existiram no Maranhão e no Ceará, a refinaria Abreu e Lima não teria custado dez vezes mais que o previsto, o COMPERJ não seria o buraco sem fundo que vem sendo, etc, etc, etc.

Os impostos

A metáfora do cobertor curto é perfeita para o caso dos combustíveis. Os governos querem cobrar o máximo possível de imposto sobre os combustíveis, porque é um dinheiro fácil e garantido; por outro lado, têm medo de “passar do limite” e animar os caminhoneiros para outra greve. Resultado: ficam puxando o cobertor para lá e para cá, fingindo que não sabem que se cobrir os braços vai descobrir os pés, e vice-versa. A solução, aí, não depende do petróleo: depende do governo reduzir suas despesas, o que é algo que nunca aconteceu no Brasil. A experiência mostra que países com governos menores cobram menos imposto, impostos menores aumentam a competitividade das empresas, a economia cresce e o ciclo se realimenta. O Brasil faz o contrário: cobra imposto demais, as empresas encolhem ao invés de crescer, e o governo reage tentando tirar cada vez mais dinheiro de uma economia cada vez mais fraca.

Cabe também falar de outra questão: no Brasil, a gasolina sempre subsidiou o diesel. Ou seja, dada uma certa quantia de impostos de que o governo necessita, a divisão nunca foi meio-a-meio; a gasolina sempre pagou a maior parte enquanto o diesel tinha impostos bem menores, às vezes até zerados. Sob essa alegação, o Brasil é o único país do mundo civilizado onde o cidadão comum não pode comprar um automóvel movido a diesel (que é mais eficiente, mais econômico e até mais ecológico). Esse privilégio é dado apenas ao “andar de cima”, que anda de Hilux e Range Rover à custa dos pobres que andam de Celta e de Uno. O rico, que pode usar combustível melhor, paga mais barato porque o governo tem medo dos caminhoneiros. O pobre é obrigado a usar gasolina exatamente para pagar a conta.

O Brasil já fabrica automóveis diesel, mas só para exportação. São quase 50% mais econômicos que os similares a gasolina. Se os brasileiros pudessem comprá-los, a Petrobrás iria importar mais diesel e menos gasolina, mas no balanço final importaria menos. Seria bom até para a balança comercial. Mas o tal do cobertor curto não deixa.

Os postos

Os postos de combustível são responsáveis por aproximadamente 10% do preço final dos combustíveis (variando de estado para estado e de cidade para cidade). É uma área onde volta e meia acontecem denúncias de cartel e combinação de preços. Isso acontece porque o mercado é bastante fechado: se uma pessoa comum quiser abrir um posto de gasolina, ela terá que enfrentar uma burocracia absurda de um monte de órgãos municipais, estaduais e federais. Isso tende a deixar o mercado nas mãos de pequenos grupos que têm “boas relações” com o governo, e se sentem confiantes para fazer o que querem, sem medo de concorrência.

Os biocombustíveis

O ponto menos falado talvez seja o mais importante. Gasolina e diesel fornecem duas reservas de mercado para setores privilegiados de nossa economia: o etanol e o óleo vegetal/biodiesel. A Petrobrás é obrigada a comprar estes produtos mais caros e usá-los para piorar a gasolina e o diesel, respectivamente. Por incrível que possa parecer, se um posto no Brasil vender gasolina ou diesel puros, de melhor qualidade do que aquilo que normalmente os postos vendem, o posto será fechado e o proprietário será preso por “crime contra o consumidor”. Provavelmente somos o único país no mundo onde vender produto ruim é obrigatório e vender produto bom é proibido.

Gasolina e diesel são commodities cujo preço é único no mundo todo, e o preço que a Petrobrás cobra segue esse padrão. Hoje, este preço é de aproximadamente 2,60 o litro tanto para um como para outro. Mas a Petrobrás compra biodiesel por seis reais o litro para misturar no diesel, e quanto mais biodiesel, pior o produto fica. No caso da gasolina, é exatamente a mesma coisa, só que com etanol ao invés de biodiesel, e, da mesma forma, quanto mais etanol, pior fica o resultado, porque o poder calorífico dos combustíveis vegetais é menor do que o dos destilados de petróleo.

Como sempre acontece quando se criam privilégios, as intenções anunciadas eram nobres: no caso do biodiesel, era para ajudar os pobres do nordeste que iriam plantar mamona no quintal. Claro que na prática as coisas são diferentes, e hoje mais de 90% do biodiesel vêm de grandes produtores de soja, e o preço nunca diminui, só aumenta. No caso do etanol, os beneficiados foram os usineiros de cana, que vivem de arrancar privilégios do governo desde os tempos do Brasil-colônia. Não é por acaso que em nosso congresso existe a Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético, que reúne nada menos que 212 deputados.

Na minha modesta opinião, a questão dos biocombustíveis seria a mais importante para tentar desatar o nó. Parando de comprar biodiesel dos produtores de soja, o diesel ficaria mais barato e renderia mais no tanque. Parando de comprar etanol dos usineiros, a gasolina ficaria mais barata e também renderia mais. Como já conhecemos o país em que vivemos, sabemos bem quais as chances de um privilégio de alguns ser eliminado em benefício de todos: zero.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

Como meu talento para a poesia e o lirismo é escasso, presto minha homenagem ao dia da mulher com esta crônica publicada em 2007 pelo jornalista Xico Sá.

* * *

CRÔNICA PARA TODOS OS DIAS DA MULHER

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.

Como elas pedem gostoso.

Como elas são boas nisso.

Resistir, quem há de?

Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico. É o jeito de pedir, o ritmo da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.

Pede que eu dou.

Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!

Estou pedindo: pede!

Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.

Pede a bolsa mais recente da Louis Vuiton, pede o shopping inteiro, pede o Iguatemi, pede a Daslu, melhor ainda, pede a Daspu e veste só para o teu homem.

Pede que compro nem que seja no camelô, na 25 de Março, nas galerias dos coreanos, compro da Orenilda, minha prima sacoleira de São Miguel Paulista.

O que importa é o requinte e o atendimento da demanda.

Não me pede nada simples, faz favor, please.

Já que vai pedir, que peça alto. Você merece, uma mulher como essa não tem preço.

Amor sincero?

Fácil, fácil.

Fidelidade?

Acabo de criar o seu exclusivo cartão de milhagem.

Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.

Podemos não ter adonde cair morto, mas damos um jeito, um truque, 12 vezes sem juros, no pré-datado, no cheque sem fundos.

Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim no braço, são lindamente barulhentos.

Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.

Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.

Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”

Um jantar no D.O.M. ou no Fasano?

É pouco para o meu bico.

Flores de helicóptero?

Como na filosofia do pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!

Que eu faça o trânsito de São Paulo andar?

A sua rua, só a sua, está livre,com pedrinhas de brilhantes para o meu amor pisar.

Pede, benzinho, pede tudo.

Que eu largue a boemia, pare de beber e me regenere???

Pede, minha nega, que o amor tudo pode.

Mesmo as que têm mais poder de posse que todos nós não escapa de um belo pedido.

Com estas, as mais poderosas, tem ainda mais graça. Elas pedem só por esporte ou fetiche, o que não lhes comprometem a pose e muito menos a independência.

Não é questão de poder ou dinheiro.

O que importa é o pedido em si, o romantismo que há guardado no ato.

Os melhores cremes da Lancôme? Vamos a Paris comprar juntos.

Eu lhe peço: me pede.

Não pede mimos baratos, pede atenção, por exemplo, essa mercadoria tão cara ao mundo das moças. Pede que corrija os erros do meu português ruim, que eu deixe de alternar a segunda e terceira pessoa, que falta de classe, na boa, pede, nem que eu chame o Pasquale para ficar de “vela” corretiva entre eu e você, digo, entre tu e eu, melhor, entre nós dois…

Pede, amorzinho, pede gostoso, hoje sou o senhor de todas as tuas demandas, aproveita a febre, a efeméride, de diamante para baixo o céu é o limite.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UM POUCO DE MATEMÁTICA

A TV está repetindo a cada instante que o estado de São Paulo tem uma internação a cada dois minutos por causa do covid.

Como os exames do PISA já mostraram que somos fracos em matemática, sempre é bom explicar mais um pouquinho.

Uma internação a cada dois minutos significa 30 por hora.

O dia tem 24 horas, então são 720 por dia.

O mês tem 30 dias, então são 21.600 por mês.

O estado de São Paulo tem 44 milhões de habitantes, então este 21.600 significa 0,049% da população internada por mês.

Se parecia muito e agora parece pouco, é porque algumas notícias não são escritas para informar, e sim para chamar a atenção.

Quem simplesmente engole sem questionar o que a imprensa diz é uma vítima fácil. Fiquemos atentos!

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GUERRA

Muitos filmes já foram feitos sobre a guerra. Alguns condenando, alguns glorificando, alguns justificando. Poucos mostram tão bem o quanto as guerras são fundamentalmente estúpidas quanto um recente filme francês intitulado Joyeux Noel (em português, “Feliz Natal”).

“Joyeux Noel” se passa em dezembro de 1914, o primeiro natal da Primeira Guerra Mundial, que havia começado cinco meses antes. Enterrados em trincheiras, sem ver motivo para matar pessoas que nem conheciam, os soldados declaram por conta própria uma trégua e passam a noite de natal confraternizando. Isso aconteceu na “vida real” em inúmeros pontos dos 700 km do front de batalha, que se estendia do Atlântico até a Suíça. Pouco se sabe dos detalhes, que foram censurados e “expurgados” da história por oficiais e políticos horrorizados com a “indisciplina” e a “falta de patriotismo” dos soldados. O filme reúne estes fatos, acrescenta a inevitável dose de romance e de coincidências improváveis, e o resultado é uma história bonita, mostrada de forma simples e despretensiosa (geralmente as mensagens mais fortes são assim).

Sempre existiram guerras. Durante toda a história da humanidade, houve escassez, e lutar pelo pouco que havia era de certa forma inevitável. Bom senso e boa vontade poderiam ter sido mais proveitosos, sem dúvida, mas ao menos os soldados sabiam, de certa forma, pelo quê estavam lutando: por comida, água, terra para plantar. Também cabe lembrar que durante muitos séculos os reis e príncipes também participavam da batalha – bem protegidos, é verdade, mas ainda assim arriscando a vida juntamente com seus súditos.

Ao longo do século 19 o mundo mudou drasticamente. A revolução industrial e o primeiro combustível fóssil, o carvão, trouxeram um grau de fartura até então desconhecido. Coisas que antes eram produzidas à mão e acessíveis apenas aos ricos, passaram a ser produzidas por máquinas e tornaram-se baratas e acessíveis a todos. A força humana ou animal foi substituída pela força do vapor. Viagens pelo mar deixaram de ser aventuras perigosas. Nas viagens por terra, o trem substituiu as carroças e carruagens.

Neste mundo de riqueza (pouca se comparada aos dias de hoje, mas muita se comparada a tudo que existiu antes), as guerras deveriam estar se reduzindo. Infelizmente não estavam, porque o que as motivava não era a necessidade das pessoas comuns, mas a vaidade dos governantes. Conquistar terras era uma espécie de passatempo dos nobres e dos políticos, mesmo que isso trouxesse pouco proveito próprio. Para dar um exemplo: o sul da Itália, incluindo a Sicília, “pertenceu” a reis austríacos, espanhóis e franceses, mesmo sem ter fronteiras com nenhum destes reinos, e mesmo que ninguém lá falasse alemão, espanhol ou francês. Para o vencedor de cada guerra de conquista, o benefício obtido se resumia em mais súditos para pagar impostos e para ser alistados como soldados para a próxima guerra; eventualmente estava em jogo o controle de algum porto importante ou alguma cidade que tinha importância comercial. Naturalmente, os reis não compareciam mais ao campo de batalha; ficavam abrigados em seus palácios, planejando a guerra com seus generais. Longe dali, os soldados, recrutados à força, ouviam discursos sobre coragem e sobre as glórias de morrer pela pátria, e o restante do povo passava fome e pagava impostos aumentados para sustentar a guerra, também em nome da pátria.

O progresso do século 19 trouxe um século 20 completamente diferente de cem anos antes: automóveis, eletricidade, tratores agrícolas, raio-x. A Europa vivia em paz, havia liberdade de comércio e de viagens (no filme, o tenente alemão é casado com uma francesa, e relembra sua lua-de-mel em Paris). As pessoas comuns não viam os outros países como inimigos, e sim como vizinhos, e todos concordavam que conviver em paz com os vizinhos torna a vida mais agradável. Só os governantes insistiam em ver os vizinhos como inimigos.

A última guerra importante na Europa havia acontecido em 1870, entre a França e a Prússia (que estava se transformando na Alemanha). Deste então, os reis e políticos estavam fazendo suas guerras à distância: era o auge do período colonial, e as potências européias disputavam o domínio de cada pedaço da África e da Ásia.

É bastante difícil para os historiadores explicar as causas da Primeira Guerra Mundial. Havia prosperidade. O povo estava contente e bem-alimentado, com exceção, talvez, da Rússia, que sempre esteve um passo atrás do restante da Europa nesse sentido. Não havia um representante “do mal” a ser combatido. Para justificar a guerra havia, apenas, a vaidade dos governantes e o interesse dos políticos (os mais críticos do capitalismo podem acrescentar os lucros dos fabricantes de armas). E o desenvolvimento da tecnologia bélica fornecia poderosos argumentos contra a guerra: ao invés dos mosquetões de 1870, a guerra de 1914 teria metralhadoras, canhões de longo alcance e aviões.

Se não havia motivos, havia desculpas, claro. Uma das mais comuns era a de “reconquistar” algum território perdido em uma guerra anterior. Em 1914, a França queria retomar a Alsácia, que havia sido tomada pela França entre 1630 e 1670 e retomada pela Alemanha em 1870. É interessante notar que em nenhuma destas “conquistas” a população local foi consultada. Em 1871, após a reanexação alemã, o escritor Heinrich von Treitschke escreveu “Nós alemães sabemos o que é melhor para os alsacianos melhor do que os próprios coitados. Na perversão de sua vida francesa eles não têm uma noção correta das coisas.” Naturalmente, com a vitória francesa, a Alsácia voltou para o domínio da França em 1918, embora 90% da população falasse alemão. É interessante lembrar que hoje, cem anos depois, em um país vizinho ao nosso, as crianças são obrigadas a aprender na escola que “Las Malvinas son Argentinas!”.

Também é interessante notar como a história sempre esteve sujeita à influência fortuita de aspectos pessoais dos poderosos, que não deveriam interessar a mais ninguém.

O imperador da Alemanha, Guilherme II, era primo do rei da Grã-Bretanha, Jorge V. Vítima de um problema no parto que deixou seu braço esquerdo atrofiado, Guilherme culpava a mãe, que era inglesa, e por tabela todos os ingleses, tendo dito certa vez “um médico inglês matou meu pai, e um médico inglês destruiu meu braço; minha mãe foi a culpada” (o pai de Guilherme morreu de câncer, e é verdade que era a mãe dele quem escolhia os médicos da família). Quando jovem, Guilherme se apaixonou por uma prima, Elizabeth, neta da rainha Vitória como ele. Elizabeth recusou sua proposta e casou-se com o irmão do imperador Nicolau da Rússia, que também era primo de Guilherme, mas por parte de pai. Ou seja, Guilherme tinha razões pessoais para odiar tanto os britânicos como os russos, seus inimigos na guerra. A isso somava-se um certo fanatismo religioso-nacionalista unido a preconceitos comuns na Europa de então (ele declarou certa vez “A Alemanha é uma verdadeira nação cristã, enquanto a Inglaterra é a terra do anticristo, governada por maçons e judeus”).

Seja por birras pessoais ou não, o fato é que a guerra começou após um pretexto tolo (o famoso assassinato do arquiduque Francisco por um terrorista sérvio) e custou a vida de mais de vinte milhões de pessoas. Quatro anos depois, quando acabou, o mundo estava mudado: o império austríaco foi despedaçado; o império otomano, idem. O imperador Nicolau foi deposto e assassinado, e a Rússia tornou-se a União Soviética. O imperador Guilherme também foi deposto, e a Alemanha virou uma república. A França, que venceu, fez o possível para humilhar a Alemanha derrotada como “vingança” pela guerra franco-prussiana de meio século antes, e isso foi a semente para a próxima guerra, que viria vinte anos depois.

Em outubro de 1914, foi dito que “Sem dúvida esta guerra é a mais estúpida, desnecessária e sem sentido dos tempos modernos”. Para quem acha que guerras, mesmo estúpidas, são inevitáveis, assistir “Joyeux Noel” mostra como é fácil imaginar um mundo sem elas.

Um último adendo: para quem, como eu, se impressionar com a cena do sermão do bispo para os jovens soldados, cabe informar que não se trata de ficção: o diretor conta que esse “discurso de ódio” foi reproduzido de documentos históricos, mas que para o filme ele retirou “os trechos mais abjetos”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SOBRE ARMAS, MENTIRAS E IMBECIS

Certa vez um jornalista português disse “Nesse país, o bom não é ser ministro. É ter sido.” Nessa ex-colônia do lado de cá do Atlântico, vale o mesmo, e não apenas para ministros. Ter sido deputado, ou prefeito, ou professor de universidade, ou cantor famoso, ou campeão de futebol, ou participante do Big Brother vale como uma licença vitalícia para falar bobagem.

Li na imprensa uma declaração do ex-ministro Raul Jungmann, reclamando dos novos decretos do governo sobre a compra e posse de armas:

“Ao longo da história, o armamento da população serviu a interesses de ditaduras, golpes de Estado, massacre e eliminação de raças e etnias, separatismos, genocídios e de ovo da serpente do fascismo italiano e do nazismo alemão”

Gostaria de perguntar ao jornalista imbecil que publica sem questionar uma frase como essa quais exemplos ele conhece de ditaduras que armaram a população. Para o ex-ministro, não vale a pena perguntar, é claro. Ele sabe perfeitamente que está mentindo, tanto quanto tem a certeza da impunidade. Dizer que o fascismo italiano e o nazismo alemão promoveram o armamento da população é de uma desonestidade tão abjeta que qualquer jornalista deveria se sentir obrigado a desmentí-la. Mas nesse país jornalistas não contestam, apenas publicam qualquer coisa que um ex-ministro, ex-jogador de futebol ou ex-celebridade da revista Caras diga.

Algum tempo atrás, em um site americano sobre cinema, li um sujeito, aparentemente europeu, queixando-se que os filmes “made in USA” refletiam uma sociedade “obcecada por armas”. Em resposta, outro sujeito escreveu: “Sim, nós cidadãos dos EUA gostamos muito de armas. Acontece que no século 20 mais pessoas foram mortas por seus próprios governos do que em todas as guerras que aconteceram. E um povo só pode evitar tornar-se vítima do governo se possuir uma arma para se defender.”

Fiquei tão curioso com a afirmação que fui pesquisar os números. Sim, ele está certo. A Primeira Guerra Mundial matou vinte milhões, a Segunda matou mais setenta. Segundo alguns autores, a revolução comunista na China matou cinquenta milhões de pessoas, e a revolução russa, mais sessenta. E em termos proporcionais, nenhuma guerra na história chega perto do Khmer Vermelho no Camboja, que matou aproximadamente 40% da população do país – do seu próprio país.

Todos as “ditaduras”, “golpes”, “massacres” e “genocídios” de que o ex-ministro fala foram precedidos de desarmamento da população. Uma população armada e disposta a defender sua liberdade não será nunca vítima de opressão, por uma simples questão numérica: como um pretendente a tirano vai reunir um exército maior que a população do país?

Dizem que pouco antes do início da Segunda Guerra, um general alemão conversava com um militar suíço. “Quantos homens vocês têm?”, perguntou ele. “Quatrocentos mil”, foi a resposta. “E se vocês forem atacados por um exército de oitocentos mil soldados?”, provocou o alemão. “Cada um dos nossos soldados terá que atirar duas vezes”, respondeu o suíço. A Suíça não foi atacada durante a guerra, como já havia acontecido em muitas outras guerras. Não foi por sorte: os Suíços têm uma longa tradição de estarem sempre prontos a defender sua terra e a si mesmos. Aliás, em tempos antigos, as eleições eram realizadas nas praças, e só votava quem portasse uma espada. Quem não estivesse preparado e disposto a defender o país não tinha o direito de dar palpite.

Claro que por aqui essa discussão é imaterial. Nenhum brasileiro acha que o povo deve defender-se de governos tirânicos, muito pelo contrário. O povo daqui reclama quando acha que o governo não está sendo tirânico o suficiente, ou está concedendo liberdade demais. O brasileiro acredita que faz parte de um povo que é inerentemente imaturo e irresponsável, e que deve ser vigiado, guiado e controlado em tudo que faz. Nenhum brasileiro considera a hipótese de portar uma arma para defender-se da tirania, ao contrário: acha que a posse de uma arma é uma generosa concessão do governo, que só deve acontecer se o cidadão, mansamente, se submeter a todas as exigências, burocracias e cadastros.

O ex-ministro pode ficar tranquilo: o cidadão de bem vai comprar seu Taurus de calibre obsoleto, guardá-lo descarregado no fundo de uma gaveta trancada a chave, e continuar obedecendo às ordens do governo.