MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PRIVATIZAÇÕES

Cada sociedade tem seus gostos. Coisas que quase todo mundo gosta e coisas que quase ninguém gosta. Uma coisa que no Brasil pouca gente gosta é a tal da privatização. Até mesmo os que não sabem do que se trata são contra. Aliás, principalmente estes.

A cultura de nossa sociedade e de nosso estado veio do reino português. É uma cultura fortemente centralizadora, que concentra o poder nas mãos do governo central e reprime qualquer iniciativa que não seja submissa a ele. Nossa história como país independente passou por uma monarquia onde o imperador exercia o “poder moderador” e “não estava sujeito a responsabilidade alguma”, por uma república guiada pelo positivismo e por uma ditadura que admirava a Itália de Mussolini. Foi esta ditadura, que durou de 1930 a 1945, quem solidificou as bases do domínio estatal sobre praticamente todos os setores da vida nacional. Outra ditadura, nos anos 1960/1970, reforçou o processo.

Sempre foi usual por aqui o governo “brincar de empresário”, criando empresas que se intrometem em coisas que em outros países (em especial os mais bem sucedidos) pertencem à iniciativa privada. Sempre foi visto como normal o governo fabricar aço ou vender bujões de gás, ser dono de banco, seguradora ou hotel, transportar pessoas e mercadorias por ar, mar e terra. As grandes obras, então, sempre foram privilégio exclusivo: construir refinarias, aeroportos, hidroelétricas, ou mesmo uma simples ponte, é proibido aos reles mortais. Interessante ver que essa exclusividade do estado nunca é exercida “em pessoa”: a execução das obras é privilégio de um grupo de empresas privadas, genericamente chamadas “empreiteiras”, escolhidas para a tarefa através de um procedimento chamado licitação. A melhor definição que já vi para essa palavra foi em uma antiga revista dos anos 60, feita por um jornalista mexicano: “Licitação é um processo pelo qual os governantes repassam o dinheiro público para as empresas de seus amigos e parentes de forma legal e transparente”.

Tão certo quanto o verão sucede à primavera, empresas estatais adquirem um quadro de funcionários inchado, inoperante e de certo modo ingerenciável. Existe o organograma oficial. Existe também o parentograma, que mostra quais os funcionários que gozam de privilégios especiais por relações familiares, sexuais ou afetivas com funcionários de escalões superiores. Existe ainda o politicograma, que indica os funcionários que estão a serviço não da empresa em questão, mas de um partido ou de um político interessado no uso eleitoral da dita empresa. Administrar os conflitos de interesse dá tanto trabalho que não sobra muito tempo para as tarefas para as quais a empresa foi criada. Às vezes a coisa fica tão feia que os políticos decidem que a única saída é privatizar.

Quando ouve a palavra “privatização”, o brasileiro médio tende a reagir como se tivesse sido xingado. Anos de doutrinação que começam na escola primária e prosseguem todos os dias pela imprensa, fazem com que ele automaticamente pense em expressões como “dilapidar o patrimônio público”, “abrir mão dos interesses nacionais” e outras, incluindo até algumas com aquele horrível palavrão que começa com “L”: lucro. Empresário tendo lucro é algo que dói fundo na alma do brasileiro. As raízes disso vêm de séculos atrás, quando os reis perceberam que empresários que ganhassem seu próprio dinheiro não precisariam ser subservientes ao poder, e ordenaram que o povo fosse instruído a não gostar disso. As ordens foram cumpridas com absoluto sucesso.

Mas na verdade, o que se chama de privatização no Brasil quase nunca é privatização de verdade. É apenas uma transferência da administração para mãos privadas, mas com a empresa continuando a funcionar “como se fosse” estatal: com regras estabelecidas pelo governo, em um mercado regulado pelo governo, e muitas vezes com preços determinados pelo governo.

Exemplo: falou-se muito das privatizações dos aeroportos. Pelos planos atuais, praticamente todos os aeroportos brasileiros passarão para mãos privadas até 2024. Mas o que é exatamente essa privatização, que aliás é tecnicamente chamada de concessão? As empresas vão operar o aeroporto de acordo com as regras do governo, cobrando tarifas estipuladas pelo governo. No contrato, o governo se compromete a não autorizar a construção de outro aeroporto que possa fazer concorrência ao concedido. Ou seja, a empresa concessionária não precisa mover um dedo para agradar o cliente, porque têm a garantia do monopólio. E como ela sabe que a concessão é temporária (normalmente 30 anos), ela fará apenas as obras necessárias para manter tudo em funcionamento até o fim do prazo e devolver o negócio tão judiado como um carro alugado.

A privatização do momento é a da Eletrobrás, comemorada com foguetórios e fanfarras. Infelizmente é a mesma coisa, talvez até pior. Como assim? O que aconteceu é que o governo colocou à venda a chance de ser sócio de uma empresa que continuará, na prática, fazendo parte do estado. O governo não terá mais o controle administrativo, o que permite que a empresa seja mais funcional e lucrativa. Mas ela não atuará no mercado: continuará a serviço do estado, obedecendo às ordens do estado, seguindo o planejamento do estado. Liberdade para decidir onde ou como investir? Praticamente nenhuma. Aliás, quem se der ao trabalho de ler, por exemplo, um edital de licitação de uma subestação poderá constatar que a ANEEL e o Ministério de Minas e Energia literalmente especificam até o tamanho dos parafusos. Isso não é privatizar, é simplesmente delegar a execução dos trabalhos.

Porque a privatização da Eletrobrás foi um sucesso? Ora, para a iniciativa privada, todo investimento é um risco, algo que pode trazer lucro ou não. Mas comprar ações de uma empresa estatal que funcionará, sozinha e sem concorrência, sob as ordens do governo, é lucro certo, porque o lucro da Eletrobrás será aquele que o governo determinar que seja, e o governo não costuma ser ingrato com os empresários que o apoiam em suas iniciativas.

Como exemplo oposto, talvez o único, temos a Embraer. Como fabricar aviões só é viável visando o mercado externo, a Embraer teve que virar empresa privada de verdade e enfrentar a concorrência. Mostrou que é possível. Talvez seja o caso de dizer que além de privatizar uma empresa, é preciso desestatizá-la, ou seja, tirá-la da área de influência do governo. Mas ninguém por estas plagas gosta da idéia, então o mais provável é que continuaremos a ter empresas que são privatizadas mas continuam, na prática, estatizadas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DINHEIRO DE VERDADE

Desde o final da Segunda Guerra, o dólar tornou-se a referência da economia mundial. O antigo padrão-ouro foi substituído pelo padrão-dólar (que durou até 1971) e os títulos do tesouro dos EUA substituíram as barras de ouro como reserva financeira de todos os governos. O Brasil, por exemplo, tem aproximadamente 360 bilhões de dólares em reservas internacionais, e quase tudo está na forma destes títulos. Isso significa que nossas reservas não estão fisicamente no país: são apenas bytes nos computadores dos bancos dos EUA.

Até o ano passado, ter títulos dos EUA era tão seguro quanto ter o dinheiro no bolso. Ninguém no mundo cogitava a possibilidade do governo norte-americano faltar com sua palavra ou dar um calote. Mas aí os EUA decidiram dar em si mesmos um dos maiores “tiros no pé” de todos os tempos. Em uma canetada, o presidente Biden apreendeu nove bilhões de dólares do governo talibã do Afeganistão. A grande mídia e o público não notaram, mas o mundo das finanças ficou de orelha em pé. E daí, animado pelo “poder”, os EUA também bloquearam todos os títulos do governo russo. A expressão “o mundo está em choque” foi usada por ninguém menos que o Wall Street Journal. De repente, todos os países perceberam que deixar o seu dinheiro nas mãos do governo dos EUA não era uma coisa muito segura. Todos os países estão pensando em um jeito de tirar seu dinheiro de lá sem provocar um “estouro da boiada”.

A história já mostrou repetidas vezes que nos momentos de crise, as pessoas acreditam muito mais no metal amarelo do que em papéis coloridos. A Rússia tem dito que seus estoques de ouro estão em 2300 toneladas, um dos maiores do mundo. A China não diz quanto tem, mas todos apostam que é mais do que a Rússia. Além disso, a China é o maior produtor mundial (370 toneladas em 2021) e a Rússia é o terceiro, com 300 toneladas (o segundo é a Austrália, com 330 toneladas produzidas no ano passado).

Uma das maiores “âncoras” do dólar sempre foi o mercado de petróleo. Os EUA sempre trataram a Arábia Saudita como “parceiro preferencial” e em troca os sauditas só aceitam vender petróleo em troca de dólar. Isso pode estar mudando. A bolsa de Xangai, na China, já tem funcionando um sistema de compra de petróleo em yuan, com uma vantagem adicional: ela garante ao comprador a possibilidade de converter os yuans em ouro, aproveitando o fato de que a bolsa de Xangai é o maior mercado de ouro físico do mundo. A China compra um quarto do petróleo saudita e quer comprar mais, mas prefere pagar em yuan e não em dólar. Os sauditas estão meio “de mal” com os EUA por causa do Iemen, do Afeganistão e do Irã. O resultado é que as conversas entre chineses e árabes sobre deixar o dólar de lado já apareceram até no Wall Street Journal (ele de novo).

Dizem que Saddam (do Iraque) e Kaddafi (da Líbia) foram derrubados porque queriam quebrar a hegemonia dos petrodólares e vender seu petróleo em outras moedas. Mesmo que seja verdade, não dá para fazer a mesma coisa com a Arábia Saudita, porque ela representa mais de 20% do mercado mundial, e mexer com isso poderia levar o preço do óleo nas alturas e jogar a economia ocidental no caos.

Outro problema para o dólar: nos últimos dois anos, o FED criou nada menos que 4 TRILHÕES de dólares. Para ter uma idéia de quanto é isso: imagine um milhão de dólares. É uma bela grana. Bem, um milhão de dólares em notas de cem pesa 10 kg, e cabe em uma mala média. Nestas mesmas notas de cem, 4 trilhões pesam quarenta mil toneladas e ocupam mil e seiscentas carretas de três eixos. A consequência dessa emissão, óbvio, é a maior inflação dos últimos quarenta anos. O governo de lá tem insistido que essa inflação é “transitória”, mas não é: um aumento dessa magnitude vai causar inflação por muito tempo, e a situação fica muito pior se a demanda internacional pelo dólar diminuir. Qualquer economista sabe o que deveria ser feito, mas convencer os políticos é sempre uma tarefa muito difícil.

Será que veremos em breve o fim do dólar norte-americano como moeda global? Isso vai depender do que o governo dos EUA fizer daqui para frente, e também vai depender do que acontecer na Ucrânia. Quanto mais tempo a guerra durar, mais tempo a União Européia terá para implementar alternativas para o gás e petróleo russos. Se isso acontecer, o único cliente que sobrará para a Rússia será a China, e muito provavelmente os negócios serão feitos em yuan. Se outros países seguirão o exemplo e deixarão de usar o dólar para importar e exportar dependerá, de novo, do andamento da guerra. Embora pouco provável, um colapso do dólar não é impossível.

Enquanto isso, dinheiro de verdade continua sendo o ouro. Quem tem ouro guardado está bem mais tranquilo do que os outros.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O PAÍS DA BAGAGEM GRÁTIS

Pensando bem, até que demorou. Nossos excelentíssimos congressistas voltaram a colocar na lei que empresas aéreas devem transportar bagagem de graça, seguindo o exemplo de Rússia e Venezuela. Explicar que “de graça” significa, na verdade, “embutido no preço”, seria inútil: o congresso está refletindo com precisão o pensamento do brasileiro médio. Quem quiser outro exemplo pode ver o caso dos telefones da Apple e Samsung que eram vendidos sem o carregador incluído, quer dizer, “grátis”.

Destes dois casos podem-se observar três coisas:

– Décadas ou séculos de doutrinação eliminaram a capacidade de raciocínio econômico de boa parte da população. Basta ver a repercussão do caso da “bagagem grátis” para constatar que a maioria que está comemorando não está dizendo que prefere ter o custo da bagagem incluído no preço: eles realmente são incapazes de compreender este conceito. Eles realmente acreditam que o governo pode fazer que algo seja grátis simplesmente escrevendo isso em um papel e chamando de “lei”. Eles realmente acreditam que o governo pode fazer coisas surgirem do nada. Muitas dessas pessoas estão nas escolas ensinando (ou doutrinando) as crianças a pensar da mesma forma.

– A desorganização do funcionamento do estado brasileiro acaba sempre cobrando seu preço, nem que seja através de detalhes burocráticos. Embora todos falem muito nos poderes “independentes e harmônicos”, na prática os três (quatro se contarmos o ministério público, que também age como um poder) tentam ser tudo: todos querem legislar, querem governar e querem julgar. No caso específico: o executivo quis implantar uma série de alterações na legislação do setor aéreo. Poderia (e deveria, na minha opinião) ter enviado um projeto de lei ao congresso, mas preferiu editar uma medida provisória, que deveria ser um instrumento para situações excepcionais, mas é usado rotineiramente pelo executivo para legislar. O congresso “enxertou” o assunto da bagagem na MP. Ocorre que quando o congresso altera uma MP, o presidente não pode vetar artigos específicos como nas leis comuns: só pode vetar tudo ou sancionar tudo. Se sancionar, volta a bagagem de graça para mais uma vez irmos na contramão do mundo. Se vetar, todas as boas intenções do projeto original vão para o lixo.

– O caso dos carregadores de celular conseguiu mais uma vez ultrapassar as barreiras do absurdo. Sobre o mérito da questão, é só lembrar que em toda a Europa nenhum celular é vendido com carregador. Se a pessoa quer um celular, ela compra um celular. Se ela quer um carregador, ela compra um carregador. Ninguém acredita em coisas grátis, e todos acham interessante reduzir o desperdício. Já por aqui, os órgãos de defesa do consumidor acharam que as fábricas estão “lucrando” ao não vender os dois juntos, e fizeram um verdadeiro carnaval sobre o assunto. Mas quando eu achava que não dava para ficar mais ridículo, surge a notícia de que o ministério da justiça “orientou” todos os PROCONs do país a abrirem processos administrativos contra a Apple e a Samsung. Sim, o ministério não quer uma ação nacional, nem uma ação em conjunto: ele quer mais de 900 processos separados sobre a mesma coisa. Explicação? Talvez a única plausível seja a que se intui da notícia de onde tirei a informação: “se metade dos PROCONs do país multasse em dez milhões as duas empresas, o fundo de recursos do PROCON receberia nada menos que nove bilhões”. Eu entendi que o governo quer simplesmente arrecadar o máximo possível, já que os funcionários que vão fazer 900 vezes a mesma coisa são pagos pelo contribuinte. O que o consumidor ganha? Nada. Nem um centavo das multas vai para o consumidor, fica tudo para o PROCON. O que o consumidor pode “ganhar” é um aumento no preço dos telefones para cobrir o prejuízo, já que a Apple e a Samsung ainda são livres para definir o preço dos seus produtos. Resta esperar que nenhum gênio resolva criar a Applebrás e a Samsungbrás para fornecer celulares “públicos, gratuitos e de qualidade” para nós.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PROTECIONISMO, DE NOVO

Eu tinha começado a escrever o pitaco desta semana muito contente e até um pouco orgulhoso. Logo depois da publicação do meu artigo da semana passada sobre protecionismo, o governo anunciou a eliminação dos impostos de importação sobre o aço, uma medida que seria extremamente benéfica para nossa economia, não apenas pelo fato em si mas por mostrar que o governo, finalmente, enxergou as vantagens de uma economia aberta ao exterior. Claro que eu não sou maluco de achar que meus pitacos influenciam a equipe econômica do governo, mas fiquei feliz por ter, sem querer, acertado o “timing” sobre um assunto tão importante.

Infelizmente, alegria de pobre dura pouco. Tive que jogar fora os rascunhos e começar de novo, porque Paulo Guedes e sua equipe já voltaram atrás e estão “conversando” com os executivos das siderúrgicas. As últimas notícias são de o governo agora está propondo não mais eliminar, mas apenas reduzir as alíquotas de importação, e apenas para alguns produtos específicos. Ou seja, o mercado vai continuar basicamente fechado, com alguns tipos de aço custando aqui até 25% mais caro do que o preço internacional, segundo os noticiários econômicos.

O que me deixa mais espantado é que as declarações dos executivos do setor reproduzidas na imprensa parecem ter como argumento principal as eleições do segundo semestre.

Ou seja, ao invés de as pessoas votarem em função do plano de governo de cada candidato, parece que os planos de governo é que são feitos em função dos votos. É o rabo abanando o cachorro, a carroça puxando o cavalo e o queijo correndo atrás do rato.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PROTECIONISMO, NACIONALISMO E OUTROS ISMOS

Volta e meia, por uma desculpa qualquer, o assunto renasce. Agora, a desculpa é a guerra na Ucrânia e os fertilizantes. E volta toda a ladainha sobre “não depender dos outros” e “proteger a indústria nacional” para defender que o governo proíba, dificulte ou aumente impostos sobre as importações. O tal do protecionismo, como política econômica, sempre tem quem o defenda. Alguns poucos, porque levam vantagem; muitos, por simples ignorância. O problema é que ele não funciona, nem na teoria nem na prática. Vou tentar mostrar bem explicadinho os porquês.

Só é bom para um lado

Quem defende o protecionismo para o seu país fala em “soberania nacional”, “recursos estratégicos” e outras expressões ufanistas. Mas quando os outros países fazem o mesmo, aí eles são “imperialistas”, “arrogantes”, “agressivos”. Não é ilógico (e hipócrita) achar que uma coisa é boa quando nós fazemos com os outros mas é ruim quando os outros fazem com a gente? Isso sem falar que se todos os países levassem a idéia a sério, o comércio internacional simplesmente acabaria.

Gera uma escalada de retaliações

O protecionismo dos outros é ruim para nós, e a maneira mais garantida de incentivar esse protecionismo é dando o exemplo. Se nós impedimos outro país de vender para nós, podemos esperar que este país também nos impedirá de vender para eles, e talvez impeça outros países também. Estes outros também vão retaliar, e assim por diante. Várias guerras começaram assim. O exemplo mais óbvio foi causado pelos Estados Unidos em 1929, com um anúncio de tarifas protecionistas que deflagrou a quebra da bolsa e deu início à Grande Depressão, e também causou uma escalada de medidas protecionistas entre os países da Europa que prejudicou a economia de todos eles e criou a base para a Segunda Guerra Mundial.

Cria cartéis

O protecionismo cria uma reserva para empresas que fabricam produtos piores e mais caros (se fossem melhores e mais baratos, não precisariam de proteção). Com o mercado “reservado” para elas, a tendência é que estas empresas passem a ter margens de lucro cada vez maiores, aumentando ainda mais a diferença de preço, e usando essa diferença como argumento para a necessidade de manter a reserva. É, evidentemente, um círculo vicioso. Claro que uma parte dessa margem de lucro também irá para o bolso dos políticos, que retribuirão o favor defendendo os cartéis. É tudo muito semelhante à máfia. Quem quiser ver como certos setores ficam tão poderosos nesse conluio com o estado que se tornam intocáveis, pode pensar no transporte coletivo, por exemplo.

Garante empregos de uma minoria às custas da maioria

Os que enxergam a economia de forma ideológica tendem a se agarrar neste ponto, mas ele não resiste à matemática básica. Protecionismo significa obrigar toda a população a pagar mais caro por algo. Esta diferença será retirada de todo o restante da economia, embora de forma menos visível. Ou seja, para “preservar” um setor, todos os outros setores serão prejudicados. Se, ao contrário, a população tivesse acesso ao produto mais barato, sobraria dinheiro que beneficiaria o restante da economia. E o setor “não protegido”? Talvez, expostos à competição, os empresários se preocupassem menos em fazer lobby junto aos políticos e mais em melhorar a eficiência de suas fábricas, e eles se tornassem competitivos. Se não, talvez fosse o caso de dizer aos funcionários que eles devem procurar outra atividade. Afinal, não estamos mais na Idade Média, onde cada um nascia com seu destino pré-definido, e não é justo obrigar o restante da sociedade a pagar a conta de um setor ineficiente.

Não é muito fácil medir esse efeito em números simples, porque no mundo real todos os setores se relacionam e os efeitos se misturam, mas existe um caso interessante de um decreto protecionista para a indústria de pneus dos EUA: um estudo de uma universidade de lá concluiu que para cada emprego “salvo” pelo decreto, três empregos foram perdidos em outras áreas, devido ao dinheiro que deixou de ser gasto por causa dos pneus mais caros. Outra conclusão foi que cada emprego “salvo” custou aproximadamente um milhão de dólares – cada cidadão pagou um pouquinho, cada vez que foi obrigado a pagar mais caro por um pneu.

E, por último, toda a economia está interligada. Se alguém me disser que comprando um celular Xiaomi eu estou “gerando emprego na China”, eu respondo: “Ótimo. O chinês vai comer frango e gerar emprego aqui no Brasil.”

Transforma países amigos em inimigos

Atribui-se ao grande economista francês Frédéric Bastiat a frase “Quando as mercadorias param de cruzar as fronteiras, os exércitos começam”. Países que comercializam entre si têm excelentes motivos para ser amigos e não pensar em guerras. Mas quando não existe comércio, existe inveja, desconfiança, competição, tudo que políticos precisam para criar uma das coisas que eles mais gostam: um inimigo externo em quem botar a culpa de tudo que acontece de errado. O protecionismo é irmão do nacionalismo, e os dois levam facilmente ao militarismo. Pior: o militarismo também provoca reações em cadeia nos outros países, e a consequência é uma escalada de despesas inúteis que só beneficiam os fabricantes de armas e os políticos ligados a eles.

Na teoria, não funciona para enriquecer um país

A origem da riqueza é a produção. Esse é um conceito fundamental na economia. Mas produzir dá trabalho, demora e exige esforço. Políticos não gostam de falar nisso. Então inventou-se uma espécie de “teoria alternativa” que diz que a origem da riqueza é o consumo. É como se as coisas surgissem por mágica nas prateleiras das lojas, e bastasse chegar lá e comprar para se tornar “rico”, isto é, possuidor de riquezas. Os políticos adoram esse conceito, porque eles conhecem um jeito de fazer todo mundo comprar sem ter dinheiro: chama-se crédito. Só funciona por algum tempo, depois dá uma baita encrenca, mas como a mente de um político só enxerga até a próxima eleição, para eles funciona.

Quem acredita que crédito cria riqueza, acredita que o protecionismo faz a riqueza se “perpetuar” dentro do país (mas sem o protecionismo a riqueza “iria embora”). É mais ou menos como alguém acreditar que se agarrar os próprios cabelos e puxar para cima vai sair voando. Como na verdade a riqueza nasce da produção, a produção depende de capital, e capital é coisa que países pobres não têm, a consequência é que o protecionismo serve apenas para criar uma pequena casta de privilegiados às custas da maioria.

E na prática, também nunca funcionou

O Brasil colônia era completamente fechado ao comércio. Em 1808, aprendemos na escola, D. João VI chegou aqui e assinou “a abertura dos portos às nações amigas”. Geralmente na escola não explicam que as “nações amigas” se limitavam à Inglaterra, amiga de fé e irmã camarada de Portugal. Não era uma grande abertura. Veio a independência, que está completando 200 anos agora e sempre fomos um país extremamente fechado. Tivemos uma reserva de mercado extremamente rígida em informática e nossa indústria de informática sempre foi só uma apertadora de parafusos. Temos uma indústria automotiva protegida há meio século por uma das maiores tarifas de importação do mundo e o mais perto que chegamos de uma indústria automobilística brasileira foi a Gurgel. Para nós, é óbvio que não funcionou. E para os outros?

Três exemplos modernos: em 1950, a Coréia, após décadas de ocupação japonesa, tinha sido palco de uma “guerra por procuração” entre EUA e URSS da qual saiu destruída e dividida ao meio. Em 1945, após ter sido ocupada pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, Hong Kong era praticamente um monte de escombros: cerca de 70% das construções do país estava em ruínas e metade da população havia sido morta ou fugido para a China. Em 1965, Cingapura separou-se da Malásia; com uma área de 733 km2, era praticamente um porto rodeado por uma favela.

O que estes três países, hoje ricos, têm em comum? Todos eles, desde o início que citei, foram completamente abertos ao capital estrangeiro e não adotaram nenhuma política protecionista. Aliás, no artigo que escrevi sobre Hong-Kong e seu primeiro-ministro Cowperthwaite, está uma citação dele: “Uma indústria pequena, se for protegida, tende a permanecer fraca para sempre”.

“Ah, são países pequenos, não vale…” Bem, as leis da economia não funcionam ao contrário para um país pequeno e um país grande, mas vamos lá: os EUA, país grande como o nosso, sempre foi aberto ao comércio (e costuma ter déficit na balança comercial, que horror!). Houve dois surtos protecionistas: o primeiro, na metade do século 19, causou a Guerra de Secessão (ou Guerra Civil). O segundo, em 1929, causou o crash da Bolsa e iniciou uma recessão de 15 anos.

Europa? Tarifas de importação baixíssimas e livre comércio absoluto entre todos os países da UE. Japão? Idem. Canadá? Idem.

Não tem jeito. Protecionismo não funciona, nunca funcionou, nunca vai funcionar.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS – RON PAUL

Ron Paul foi candidato independente à presidência dos Estados Unidos em 1988 e disputou a indicação pelo partido republicano em 2008 e 2012, ficando em segundo lugar nas primárias em ambas as ocasiões.

Ron é médico, capitão da Força Aérea dos EUA e autor de 17 livros. Foi deputado pelo Texas quatro vezes.

Atenção: a observação marcada com (*) no final do texto é minha, não de Ron Paul.

* * *

A GUERRA DA UCRÂNIA É UMA FRAUDE –Ron Paul

A propaganda continua a mostrar a guerra na Ucrânia como a de um Golias que resolveu atacar um inocente Davi, e a afirmar que nós (os EUA e a OTAN) devemos contribuir com enormes quantidades de equipamento militar para a Ucrânia para derrotar a Rússia. Como sempre acontece com a propaganda, essa versão dos eventos é manipulada para trazer uma resposta emocional em benefício de alguns interesses particulares.

Quem lucra maciçamente com a guerra é o complexo industrial militar dos EUA. O CEO da Raytheon, Greg Hayes, disse recentemente em uma reunião de acionistas: “Tudo o que está sendo enviado para a Ucrânia hoje, claro, está saindo dos estoques, seja do Departamento de Defesa americano ou de nossos aliados da OTAN, e isso é uma ótima notícia. Em algum momento, teremos que reabastecê-los.”

Ele não estava mentindo. A Raytheon, juntamente com a Lockheed Martin e inúmeros outros fabricantes de armas, estão desfrutando de um lucro inesperado que não viam há anos. Os EUA já se comprometeram com mais de três bilhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia. Eles chamam de ajuda, mas na verdade é bolsa-empresário: Washington pagando bilhões para fabricantes de armas pelas armas enviadas ao exterior.

De acordo com muitos relatos, esses carregamentos de armas estão sendo atacados e destruídos assim que chegam à Ucrânia. Isso não incomoda a Raytheon. Quanto mais armas a Rússia explode na Ucrânia, mais pedidos vêm do Pentágono.

Os ex-países do Pacto de Varsóvia, agora membros da OTAN, também estão envolvidos no golpe. Eles descobriram como descartar suas armas enferrujadas de fabricação soviética e receber substituições modernas dos EUA e de outros países ocidentais da OTAN. (*)

Enquanto muitos simpatizantes da Ucrânia estão aplaudindo, este pacote de armas multibilionário fará pouca diferença. Como o ex-oficial de inteligência da Marinha dos EUA Scott Ritter disse no Ron Paul Liberty Report na semana passada: “Posso dizer com absoluta certeza que mesmo que essa ajuda chegue ao campo de batalha, não terá impacto na guerra. E Joe Biden sabe disso.”

O que vemos é que os russos estão capturando toneladas de armas modernas dos EUA e da OTAN e até mesmo as usando para matar mais ucranianos. Que ironia. Além disso, que tipo de oportunidades serão oferecidas aos terroristas, com milhares de toneladas de armas mortais de alta tecnologia flutuando pela Europa? Washington admitiu que não tem como rastrear as armas que está enviando para a Ucrânia e não tem como mantê-las fora das mãos dos bandidos.

A guerra é uma fraude, com certeza. Os EUA estão se intrometendo na Ucrânia desde o fim da Guerra Fria, chegando ao ponto de derrubar o governo em 2014 e plantar as sementes da guerra que estamos testemunhando hoje. A única maneira de sair de um buraco é parar de cavar. Não espere isso tão cedo. A guerra é muito lucrativa.

(*) Por exemplo, a Polônia acaba de ganhar dos EUA um esquadrão inteiro de tanques novinhos. Em agradecimento, a Polônia anunciou que vai doar seus tanques velhos para a Ucrânia. Me veio à cabeça a imagem de minha avó dizendo potselui meni v sraku.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O DINHEIRO DIGITAL

Existem dois tipos de dinheiro: aquele que é criado pelo povo e aquele que é criado pelo governo. O dinheiro criado pelo povo se baseia na confiança, ou seja, todo mundo acredita que ele será aceito pelas outras pessoas. Tradicionalmente esse tipo de dinheiro era feito de ouro ou prata, mas no mundo moderno surgiram versões digitais chamadas criptomoedas, das quais a mais conhecida é o bitcoin.

As moedas criadas pelo governo desfrutam de uma vantagem: não precisam da confiança das pessoas, porque são de uso obrigatório por lei – pode-se dizer que todo mundo é obrigado a confiar nelas. Essa obrigatoriedade permite que os governos, que são os donos da moeda, pratiquem um truque sujo, do qual já falei várias vezes: a inflação. Como eles têm o monopólio da fabricação do dinheiro, e o dinheiro é só um pedaço de papel pintado, eles podem simplesmente imprimir mais e mais sempre que querem. Fazendo isso, eles ganham duas vezes: a primeira, quando usam esse dinheiro criado do nada para gastar onde quiserem. Quando esse dinheiro chega à economia, ele faz o preço de tudo subir (por causa de um princípio básico da economia, a lei da oferta e procura), e como os impostos são calculados sobre o preço das coisas, a arrecadação sobe junto com a inflação, e o governo ganha de novo.

Por causa disso, nenhum governo gosta de abrir mão do direito de emitir moeda e de tornar o seu uso obrigatório (sem essa obrigação, as pessoas se recusariam a usar moedas inflacionadas). Mas mesmo com a obrigatoriedade, a paciência do povo acaba. Quando um governo passa dos limites e a inflação vira hiperinflação, as pessoas simplesmente passam a ignorar a moeda “podre” e usar outra coisa no lugar, geralmente dólares ou euros (antigamente usava-se o ouro). Achar uma forma de impedir isso sempre foi o sonho dos ditadores, para que possam fabricar dinheiro à vontade.

A criação do bitcoin, duas décadas atrás, foi vista como um golpe fatal nas pretensões inflacionárias dos governos. Até então, fugir de moedas inflacionadas implicava usar dinheiro físico (ou ouro), que sempre é trabalhoso e arriscado para armazenar ou para transportar, especialmente em países cujo governo já perdeu a vergonha de ser uma ditadura. Uma criptomoeda como o bitcoin pode ser acessada em qualquer parte do mundo, transferida eletronicamente, e é impossível de rastrear ou de confiscar. É a proteção perfeita contra governos arbitrários, e exatamente por isso desde sua criação governos de todo o mundo falam mal dele, tentando associá-lo a negócios escusos e à criminalidade – um pouco como culpar os sofás e as camas pelos adultérios.

Mais recentemente, governos e bancos centrais começaram a aproveitar a simpatia que as criptomoedas despertaram para falar em moedas digitais estatais. A idéia é acabar com o dinheiro físico, de papel, e deixar apenas o dinheiro digital nas contas dos bancos, movimentadas apenas eletronicamente, de uma conta para outra, sem jamais sair de dentro dos computadores da rede bancária. Aqui no Brasil, o PIX é o primeiro passo nesse sentido.

Embora o conceito já estivesse sendo discutido há vários anos, ainda parecia um pouco radical demais para ser levado a sério; tinha um quê de teoria da conspiração. Aí veio a Guerra da Ucrânia e de repente tudo começou a parecer bem real. Quem falou em implantar uma moeda digital não foi algum ditador sul-americano, mas o presidente dos EUA, Joe Biden. As conversas entre Arábia Saudita e China para negociar petróleo em yuans e não em dólares apareceram no Wall Street Journal. E os complicados negócios entre a União Européia e a Rússia precisam achar caminhos para transformar euros em rublos para pagar o gás e o petróleo, sob pena de deixar países como a Alemanha no escuro de um dia para o outro. Em poucas semanas o mundo percebeu que o moderno mundo das finanças não era aquela coisa sólida e confiável que parecia ser, muito pelo contrário. E é justamente porque a guerra fez muita gente correr para o bitcoin que os governos do mundo passaram a ter muita pressa em passar para as moedas digitais.

Mas como funcionará a tal moeda digital? Até estar tudo implantado, parecerá ótimo. Sistemas como o PIX serão ampliados para facilitar ao máximo as operações digitais e torná-las parte da rotina. Então o governo anunciará o fim do dinheiro físico, provavelmente com as tradicionais desculpas sobre “sonegação de impostos”, “lavagem de dinheiro”, “negócios ilegais” e coisas assim. Será dado um prazo para todos depositarem suas notas no banco, e após esse prazo todas as notas perderão a validade, e todas as movimentações passarão a ser digitais.

E então? E então seremos todos escravos do governo, ao melhor estilo “1984”. A partir do momento em que o dinheiro só existir nos computadores dos bancos, o governo poderá determinar o que pode e o que não pode ser feito com ele. Comprar dólares? Não pode. Comprar ouro? Não pode. Enviar dinheiro para o exterior? Não pode. Comprar qualquer coisa que o governo não queira, como bitcoins? Não pode. Impostos poderão ser debitados automaticamente de sua conta. O governo saberá tudo o que você faz, tudo o que você gasta e tudo o que você ganha. E se ele quiser inflacionar a moeda, azar o seu. Você até poderá ir embora do país (se o governo deixar você comprar uma passagem), mas o seu dinheiro ficará aqui. Você não pode sacar em um caixa 24 horas. Aliás, caixas 24 horas não existirão mais. O controle do governo sobre a economia passará a ser absoluto, e quem controla o dinheiro controla tudo, inclusive o que é ilegal e o que não é.

Com a possibilidade de controlar a movimentação e impedir qualquer transação indesejável, o governo fica livre para criar impostos ou aumentar os que já existem. Se um empresário desistir de seu negócio e decidir fechá-lo, por exemplo, pode ter seu dinheiro confiscado por alguma taxa populista, sem chance de escapar. Qualquer um pode ser obrigado a fazer o que o governo determinar, sob pena de ter seu patrimônio bloqueado ou expropriado. E naturalmente, aqueles que desfrutam de boas amizades receberão importantes isenções e privilégios inacessíveis ao cidadão comum. Em resumo, teremos a tecnologia garantindo a ditadura perfeita.

Não é uma questão de SE vai acontecer. É uma questão de QUANDO vai acontecer, e qual país será o primeiro.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MENTIRAS

Imagine que você ouvisse um médico dizendo “a cirurgia não era o caminho mais indicado para o paciente, mas eu precisava do dinheiro”. Ou ouvisse um engenheiro declarar “havia formas melhores e mais baratas de fazer essa obra, mas essa garantiu um faturamento melhor para meu escritório”. Certamente você, como eu, acharia uma atitude bastante reprovável, para dizer o mínimo.

Mas existe uma classe profissional que não se acanha de dizer que coloca os interesses financeiros acima da verdade. Que não se importa de ultrapassar os limites da ética para vencer o concorrente. Que admite estar sempre esticando mais um pouco os limites da honestidade. Estou falando da imprensa. Aquela que não se envergonha de ser sensacionalista em busca da audiência. Que não se importa de apelar ao mau-gosto e à baixaria, e que acha que 1% de verdade bastam para justificar 99% de mentira. E que nos últimos tempos resolveu achar que pode dizer a todos o que pensar e como se comportar.

Para quem vinha há tempos brincando de todo-poderoso, uma pandemia caiu como uma luva para os interesses da imprensa. Nada melhor do que o pânico criado por uma ameaça invisível para tornar as pessoas obedientes. A grande mídia declarou-se profeta e guardiã do trio sagrado máscara-isolamento-vacina e decretou que só os seus seguidores seriam salvos.

Por dois anos, eles repetiram suas certezas absolutas: a obediência às suas ordens salvava, a desobediência significava morte certa. Os números provavam isso, só que ninguém explicava os números. O que eles diziam era “ciência”, quem não concordasse era “negacionista”, e isso também não precisava ser explicado ou demonstrado.

No final do ano passado, começaram a acontecer coisas inconvenientes. Como todo o mundo comemorando os altos índices de vacinação e o sucesso das políticas oficiais, os casos começaram a atingir picos muito acima do que havia acontecido antes: Itália, Espanha, França, EUA, Canadá, Austrália, Japão. Praticamente todos os países do “primeiro mundo”, com a grande maioria da população orgulhosamente portando suas máscaras e seus passaportes de vacinação, apresentaram entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano uma média diária de casos três vezes maior que qualquer pico anterior. Você lembra de ter ouvido falar disso? Aposto que não.

Também aconteceram casos inconvenientes como o Ruby Princess, um navio de cruzeiro que partiu de São Francisco com passageiros e tripulantes 100% vacinados e testados antes do embarque, e que precisou ser isolado na volta devido a um surto de covid que surgiu durante a viagem.

Era óbvio que havia algo errado com a solução que deveria ser infalível. O jeito foi parar de falar nestes números inconvenientes e continuar apenas elogiando as salvadoras vacinas, e as virtudes e vantagens da terceira dose, da quarta, da quinta…

Mas o fim definitivo do problema veio em março (quem quiser achar que não foi coincidência, pode): uma guerra. Agora podemos todos esquecer a covid.

Infelizmente uma guerra é bem menos prática para a mídia do que um vírus invisível. A guerra pode ser filmada, suas consequências e seu desenvolvimento são vistos por todos. Mas a imprensa decidiu desde o primeiro dia que não deixaria a realidade atrapalhar seus planos: eles mostrariam a guerra que eles querem, e se os fatos desmentirem as notícias, azar dos fatos.

Então, segundo todos os noticiários, aconteceu mais ou menos o seguinte: havia uma terra mágica chamada Ucrânia, onde fadas e unicórnios passeavam entre cachoeiras douradas e arco-íris resplandecentes. Mas além das montanhas nevadas havia um bruxo malvado chamado Putin que, como todos os bruxos malvados das histórias infantis, era mau simplesmente porque era mau. E um dia o bruxo mau mandou suas tropas invadirem o reino mágico da Ucrânia e atacarem hospitais, orfanatos e escolas, porque ele é mau e portanto não precisa fazer sentido. O povo da Ucrânia, indefeso, abraçou-se em um canto e murmurou “quem poderá nos salvar?” Em resposta, um bravo cavaleiro de um reino distante chamado Joe Biden montou em seu cavalo, ergueu sua espada e gritou a palavra mágica “Sanções!”.

No momento, os noticiários estão divididos entre os que juram que as sanções de Biden irão vencer a guerra a qualquer momento e os que preferem reafirmar a maldade do bruxo malvado Putin, garantindo que ele está prestes a usar armas nucleares, ou químicas, ou biológicas, ou qualquer outra coisa que a imaginação dos jornalistas inventar. Também há os que juram que os civis ucranianos que receberam armas dos países da OTAN vão derrotar o exército russo, e os que garantem que a Europa Ocidental deixará de necessitar do gás e petróleo russos nos próximos dias. O que definitivamente não existe são jornalistas dispostos a explicar o contexto histórico da guerra, os acontecimentos que levaram a ela, ou de modo geral fornecer qualquer explicação que permita ao leitor pensar por si mesmo.

O quanto as pessoas aceitarem essa versão “conto de fadas” da realidade servirá de parâmetro para a imprensa saber até onde poderá ir no futuro.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DIVAGAÇÕES SOBRE O PODER

Certa vez, quando eu ainda era empresário, estava conversando com o dono da agência que cuidava da publicidade da minha microempresa. Eu comentei que achava estranho a quantidade de dinheiro que as várias marcas de cerveja gastavam em propaganda, considerando que os bebedores contumazes (pelo menos os que eu conheço) costumam ser apaixonadamente fiéis a uma marca. “Será que a publicidade consegue mudar esta fidelidade?”, perguntei a ele. Ele respondeu: “Marcelo, a Brahma não quer convencer você a tomar Brahma, nem a Skol quer te convencer a tomar Skol. O que todas as marcas querem é que você tome cerveja. O resto vem sozinho.”

Eu tenho pensado muito nessa ideia quando vejo nosso cenário político. Não é segredo que o Brasil está cada vez mais polarizado e que cada vez mais gente torce por um político do mesmo jeito que torce por um time de futebol: com 100% de emoção e 0% de lógica. Mas olhando as ações e os discursos dos políticos e dos seus principais “propagandistas” que são a imprensa e a escola, cada vez mais me convenço de que no fundo as divergências entre eles não são tão profundas assim. O que eles querem é que o eleitor esteja convencido de que precisa do governo, de que não pode viver sem o governo, de que o governo é sempre bom, de que o governo está sempre certo. O resto, como disse meu amigo, vem sozinho. Claro que eles querem votos, mas no fundo eleição é que nem ônibus: perde-se um, é só esperar que vem outro.

O importante é manter o “status quo”, ou aquilo que o José Padilha chamou de “mecanismo”. Perder uma eleição é apenas um aborrecimento tolerável quando se tem uma posição de destaque no partido, assessores fiéis instalados dentro do governo, empresários amigos com quem já foram trocados inúmeros favores. O que seria grave seria o povo deixar de aceitar passivamente a atividade principal de todo político, que é governar em causa própria. Seria um problema se os eleitores deixassem de acreditar que um governo cada vez maior é a solução para tudo, que todo problema precisa de “mais investimento” e “mais regulamentação”, que é preciso ser “mais rigoroso” ao exigir o cumprimento das milhares de normas que os políticos e seus asseclas produzem todos os dias.

Um dos problemas, apontado por Friedrich Hayek na sua espetacular obra “O Caminho da Servidão”, é que o exercício do poder dentro do governo tende a beneficiar os piores. Por quê? Ao exercer o poder, qualquer político em um momento ou outro fará uma escolha errada, seja por ganância, corrupção ou simples ignorância. Quando as consequências chegam, surgem duas hipóteses: admitir o erro e suportar o provável revés na carreira, ou negar, mentir, enganar e jogar a culpa em qualquer um que estiver por perto. Os que nasceram com talento natural para a mentira serão mais bem-sucedidos nisso que os outros.

A isso, claro, se soma outra constatação antiga: quando o eleitor quer ouvir promessas impossíveis, só os mentirosos poderão satisfazê-lo. Ao colocar-se como inerentemente justo, bondoso e à prova de erros, o sistema democrático de governo garante uma vantagem imensa aos mentirosos, aos populistas, aos demagogos e aos irresponsáveis: suas mentiras e irresponsabilidades se transformarão em votos, enquanto os políticos sérios que tentarem dizer a “dura verdade” ao povo serão chutados para fora nas eleições.

O primeiro grande passo rumo aos governos onipotentes foi dado com a Primeira Grande Guerra. Até 1914 o poder dos políticos era limitado pelo padrão-ouro, pelos orçamentos equilibrados e pela liberdade de comércio. A guerra forneceu o pretexto para trocar o padrão-ouro pelo papel-moeda inflacionado, o orçamento equilibrado pelo déficit constante, a liberdade de comércio pelo protecionismo (nisso os EUA já estavam adiantados). As pessoas se acostumaram a ver o governo diariamente roubar um pouquinho do seu dinheiro através da inflação, e a ver os políticos não apenas gastando o dinheiro que tomaram dos eleitores mas também gastando antecipadamente aquilo que vão tomar no futuro.

O segundo grande passo aconteceu em 11 de setembro de 2001 e se consolidou com a penetração da internet e das redes sociais no dia-a-dia de todos. Em nome da segurança, o governo declarou que o direito à privacidade não existia mais, que cada pessoa poderia ser espionada pelo governo (para o bem de todos, naturalmente) e que todos são suspeitos até prova em contrário. Ninguém lembrou da frase atribuída a Churchill: Quem abre mão de um pouco de liberdade em troca de um pouco de segurança não merece ter nem uma nem outra.

O terceiro passo está acontecendo agora: uma terrível ameaça invisível chamada covid-19 nos ameaça e pode exterminar a humanidade, a menos que todos desliguem o cérebro e obedeçam cegamente às ordens que receberem. Os resultados até agora tem sido positivos: a grande maioria está contente em seguir as determinações das autoridades, dos “especialistas” e da grande mídia em geral.

E depois? Aldous Huxley disse “O melhor estado totalitário é aquele onde os escravos não precisam ser acorrentados, porque amam a escravidão”. Viveremos o suficiente para ver esta realidade?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O EXEMPLO DA ESPANHA

Visitei a Espanha duas vezes, e gostei muito. É um país bonito com uma gente bonita. Como todo país europeu hoje em dia, nos dá exemplos de como as coisas podem funcionar muito melhor do que funcionam aqui. Mas não é apenas o presente, mas também o passado da Espanha que tem muito a nos ensinar.

A Espanha como a conhecemos nasceu na passagem do século 15 para o 16, quando o casamento dos “reis católicos” Fernando e Isabel uniu os reinos de Castela e Aragão. O neto deles, Carlos V, consolidou esta unificação criando um estado altamente centralizado, onde o governo mandava em tudo, controlava tudo, e, na prática, era dono de tudo. Seus sucessores Felipe II, Felipe III e Felipe IV controlaram um império que abrangia boa parte das Américas, além das Filipinas na Ásia. Das Américas, a Espanha recebia ouro e prata, em enormes quantidades, que faziam com que a Espanha fosse considerado o reino mais rico da Europa.

Mas o dinheiro fácil corrompe, e a Espanha não escapou dessa sina. O ouro das Américas sustentava um governo gigantesco e controlador, que exigia ter a exclusividade da riqueza. Empreendedores podem ficar ricos, então o empreendedorismo era proibido. Banqueiros também podem ficar ricos, então não havia banqueiros – e o governo emprestava dinheiro de banqueiros holandeses, suíços e alemães. Um povo inteligente pode questionar seus governantes, então o povo era mantido na ignorância. Para completar a tarefa de manter o povo quieto, o governo fez uma parceria com a igreja, que ameaçava os súditos com o inferno se não reconhecessem a autoridade inquestionável do rei. Em troca, a igreja era dona de boa parte das melhores terras do país, e seus mais de um milhão de membros eram isentos de impostos.

(Esse medo da riqueza privada pode ser visto até hoje no Brasil. Nossos governantes, tão intrometidos e mandões como os antigos espanhóis, adoram o cidadão pobre que vive de mendigar benefícios em troca de votos, mas odeiam qualquer empreendedor que consiga progredir, a menos que ele se torne amigo e “parceiro” do governo.)

Talvez a realidade da Europa de séculos atrás seja um pouco distante para ser vista como exemplo, então saltemos para a Espanha do século 20. Entre 1936 e 1939, o país viveu uma guerra civil que custou trezentos mil mortos e quase meio milhão de exilados, e destruiu o pouco que havia de infra-estrutura no país. Quando a guerra civil terminou, a Europa estava se lançando na Segunda Guerra Mundial, da qual a Espanha ficou de fora por ser irrelevante. E como o vencedor da guerra civil, o general Francisco Franco, havia sido aliado da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, a partir de 1945 a Espanha tornou-se um pária dentro da Europa.

A política adotada por Franco foi de isolamento. Dizia-se que importar era anti-patriótico, para disfarçar o fato de que não havia dinheiro para importar. O nacionalismo era tão forte que até um nome prosaico como “salada russa” foi mudado para “salada imperial”. A auto-suficiência, batizada em espanhol de “autarquia”, era a palavra de ordem.

Os partidários do nacionalismo defendem que ser auto-suficiente e fechado ao comércio é bom para um país: evita “fuga de capitais” e serve para “gerar empregos”. Os economistas keynesianos defendem, usando a famosa alegoria da janela quebrada, que é necessário “estimular a demanda”. Se uma janela quebrada é bom para a economia, três anos de guerra civil devem ser o paraíso: havia praticamente tudo para reconstruir. Será então que a combinação de nacionalismo econômico e estímulo à demanda transformou a Espanha pós-guerra civil em um país rico? Vou deixar a resposta para um dos meus autores favoritos, o espanhol Juan Eslava Galán:

“A fome e o contrabando foram o acompanhamento de uma década de miséria e sofrimento, epidemias, sarna, percevejos, piolhos, lampiões de carbureto, oficinas de conserto de escovas de dente, filas para receber sobras de sopa em frente aos quartéis, bondes lotados, roupas esfarrapadas, retalhos, sobras, sub-locações… Os estrangeiros que visitaram a Espanha naqueles tempos registraram seu cheiro de trapo úmido, de miséria, de sujeira acumulada, de gordura rançosa.”

Por que não funcionou? Porque os dois conceitos são equivocados.

A produtividade depende da existência de capital, que forma o que se chama “meios de produção”. Sem capital, a produção depende apenas da mão-de-obra, e a produtividade é baixa. Se um país não tem capital próprio, precisa abrir sua economia para o investimento estrangeiro, para que a produção de riqueza aumente. O processo se realimenta: quanto mais bens de capital, mais produtividade; quanto mais produtividade, mais riqueza é gerada, e uma parte dessa riqueza se transforma em mais bens de capital, e assim por diante. Para exemplos práticos da mesma época pós-segunda guerra, basta olhar Japão e Coréia do Sul. Obviamente, não adianta receber dinheiro estrangeiro se o ambiente local não valoriza a produtividade e o reinvestimento, ou se o governo usa o dinheiro para obras faraônicas e inúteis.

Os que amam governos grandes, e vivem à sombra deles, costumam dizer que um país fechar-se para o mundo é bom porque “gera empregos”. Ora, o que interessa é gerar riqueza, não gerar empregos. Obrigar o consumidor a dar dinheiro para um empregado improdutivo é apenas uma forma disfarçada de esmola ou talvez de assalto. Economias fechadas como a Espanha dos anos 40 ou o Brasil de hoje são boas apenas para aqueles empresários amigos do governo, que enriquecem vendendo produtos caros e ruins a consumidores proibidos de escolher. Não se trata de um “defeito crônico” de nossa mão-de-obra, mas de uma simples questão de estímulos: quem não tem concorrência, não precisa se esforçar para melhorar. Com o tempo, a própria incompetência se torna argumento, e os empresários passam a ameaçar: “se abrirmos o mercado, não poderemos competir e haverá desemprego!”. A “solução” é obrigar o povo a pagar cada vez mais caro por produtos cada vez piores, para que se torne cada vez mais inegável nossa inferioridade diante do resto do mundo.

Quanto ao “estímulo à demanda”, é evidente que quebrar vidraças não é “bom para a economia”. O que a economia precisa é aumento de oferta, não de demanda. Se existe produção, alguém produziu e ganhou com isso, e a demanda surge naturalmente. Mas sem produção, só pode haver demanda com dívida ou com dinheiro criado pelo governo, dois modos garantidos de gerar inflação e bolhas. Claro que em um país devastado pela guerra, existem oportunidades, mas estas oportunidades devem ser vistas pelo lado da produção: é necessário trabalhar para recriar a riqueza que foi destruída.

Mas voltando à Espanha, como ela se safou? Abrindo a economia, óbvio. Na metade da década de 50, o país começou a se abrir para o mundo. Vieram indústrias estrangeiras; bancos estrangeiros trouxeram capital para financiar empreendimentos locais; o comércio aprendeu a receber turistas de outros países. Novamente citando Galán:

“…a nave pátria seguia, de vento em popa, no rumo do desastre. Era renovar-se ou morrer. Urgia deixar de lado o orgulho e lançar-se nos braços do sistema capitalista e da economia de mercado.”

“… após quinze anos de de difícil equilíbrio no trapézio da escassez, estávamos saltando às redes da abertura, da liberalização, do neocapitalismo, da abundância consumista, da sociedade do conforto. Em um estalar de dedos se abriram as comportas […] Era preciso ser muito ingrato para negar que o povo desfrutava de um bem-estar sem precedentes. Fogão a gás, conjunto estofado adornado com paninhos de crochê, secador de cabelo, batedeira Turmix, geladeira Frigidaire, rádio transistor japonês, móveis de fórmica em estilo nórdico, água quente em metade das moradias. Um novo mundo amanhecia.”

A ditadura de Franco durou até 1975, relembrando uma tese na qual insisto muito: não devemos misturar política quando analisamos economia. Na economia, o certo é o certo, seja em uma ditadura, democracia, república ou monarquia. A economia segue princípios simples (embora alguns intelectuais insistam em tentar complicá-la) e, mais importante, fixos. A política, ao contrário, não tem nada de fixo, e o inimigo de ontem é o aliado de hoje. Olhar a economia sob influência política só traz confusão. Basta ver o quanto já se gastou de tempo e esforço discutindo se o nazismo era “de esquerda” ou “de direita”, como se essa definição servisse para algo ou alterasse alguma coisa da realidade.

Com a morte de Franco, a Espanha tornou-se uma democracia e passou a fazer parte da União Européia. Que exemplos ela nos dá? Hoje, um espanhol pode viajar até a França, Alemanha ou Itália e voltar de lá trazendo uma TV, uma geladeira ou mesmo um carro novo, e não haverá ninguém na fronteira para olhar. Se um brasileiro viajar para a Argentina ou o Paraguai, membros do Mercosul como nós, ao passar pela fronteira será revistado como um criminoso, e corre o risco de voltar a pé se por azar seu carro estiver com pneus novos. Outra diferença: enquanto por aqui se proclama a necessidade da “independência do Banco Central” e de seu direito de fabricar dinheiro e inflação, a Espanha não tem nem Banco Central nem moeda própria: usa o Euro, sobre o qual os políticos espanhóis não têm poder nenhum.

Os exemplos estão aí para quem quiser aprender. Infelizmente, uma velha frase diz “a primeira coisa que aprendemos com a história é que as pessoas não aprendem com a história”.