MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PEJORATIVO

Aqui em Curitiba existe o hábito de perguntar às pessoas “O que você é?”. E nenhum curitibano responde “sou curitibano”. Está subentendido que a pergunta refere-se aos ancestrais da pessoa; assim a resposta pode ser alemão, italiano, português, libanês, ucraíno, polaco, japonês, russo, ou qualquer outra descendência. Eu, por exemplo, respondo que sou metade italiano e metade ucraíno, já que meu pai nasceu na serra gaúcha e é 100% descendente de imigrantes italianos, e minha mãe, curitibana, é neta de imigrantes ucraínos. Aliás, ela é a única da família que casou com alguém de etnia diferente, porque as duas irmãs dela casaram com ucraínos. Com a família do meu pai lá no Rio Grande do Sul, eu me criei no meio de ucraínos, ouvindo minha avó me chamar de malenkyy e kotunyo.

Se eu postasse o parágrafo acima em uma rede social, em questão de minutos apareceria alguém, provavelmente aqui de Curitiba mesmo, dizendo que eu não devo usar a palavra “ucraíno”, que é pejorativa, mas sim “ucraniano”. É uma idéia bastante difundida, mas é uma grande bobagem.

O gentílico de quem é da Ucrânia sempre foi “ucraíno”. É a palavra usada em Portugal e também é o termo usado em espanhol, só que sem o acento. Na língua de lá, “eu sou ucraíno” é Я українець, que se transcreve como “Ya ukrayinets” e se lê mais ou menos como “ya ucraíne”, com o ts final quase mudo.

“Ucraniano”, por outro lado, é o que os gramáticos chamam de galicismo: é uma imitação do francês ukrainien, que antigamente era usado por quem queria parecer chique. Aliás, ocorre o mesmo com os vizinhos polacos: hoje em dia se diz que “polaco” é feio e que o certo é “polonês”, outro galicismo.

E a história do “pejorativo”, de onde veio? Veio de uma moda dos tempos modernos que poderíamos chamar de “coitadismo”, misturada com o velho costume do ser humano de querer mandar nos outros. Hoje em dia não pega bem fazer isso pela força; ao invés disso, usa-se uma mistura de culpa e vaidade, proclamando que determinadas idéias, costumes ou palavras são “erradas” e condenáveis, enquanto outras são “corretas” e devem ser incentivadas. Em um mundo carente de auto-estima, essas diretrizes são obedecidas com alegria por quem precisa alimentar o ego. Daí favela vira comunidade, deficiente vira pessoa portadora de necessidades especiais e cachorro vira-lata vira cão comunitário.

Nessa linha, alguém resolveu achar que “ucraíno” e “polaco” não devem ser usados porque supostamente eram usados por pessoas que menosprezavam imigrantes, e quem adota essa linha de raciocínio acha que resolve-se um problema mudando o seu nome.

Sim, é verdade que imigrantes sempre foram maltratados por determinadas camadas da sociedade, tanto aqui como no resto do mundo. E nesse caso específico, até mesmo entre os dois grupos citados: quem acha que existe uma grande rivalidade entre corinthianos e palmeirenses é porque nunca viu um ucraíno e um polaco juntos. E também podemos notar que esse preconceito se estende a todos os imigrantes, e que palavras como “italiano”, “alemão” e “português” já foram usadas pejorativamente da mesma forma. Se ninguém na internet as declarou “proibidas”, talvez seja só porque não acharam um galicismo para colocar no lugar.

Rivalidades e maledicências à parte, nunca conheci um ucraíno que reclamasse de ser chamado de ucraíno. Estavam muito ocupados com coisas mais importantes, como trabalhar. E seu exemplo deveria ser seguido pelos frequentadores de redes sociais que parecem não ter nada melhor para fazer do que ficar reclamando daquilo que os outros falam, pensam ou fazem.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TREZENTOS TRILHÕES

Os Estados Unidos devem 36 trilhões de dólares. A China deve 15 trilhões. O Japão, 10 trilhões. A Alemanha, 3 trilhões. O Reino Unido, também 3 trilhões. A França deve 3 trilhões e meio. O Brasil está chegando aos 2 trilhões. Praticamente todos os países do mundo estão endividados. Estima-se que a soma das dívidas governamentais passe dos 150 trilhões. Empresas devem mais 90 trilhões, e pessoas físicas, mais 60 trilhões. O total passa dos 300 trilhões. Em 2024, essa dívida gerou o pagamento de 15 trilhões em juros, o que corresponde a 13% do PIB global. Mas quem são os credores dessa dívida?

1 – Os Bancos Centrais: O FED tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo dos EUA. O Banco do Japão tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo japonês. O Banco do Povo da China tem 3 trilhões de dólares em dívida do governo chinês. Bancos centrais globalmente detêm aproximadamente 25 trilhões em títulos dos governos de seus países. Isso representa menos de 10% da dívida total, mas essa dívida é a base do sistema: é a partir da emissão de títulos que todo o mecanismo se sustenta.

2 – Investidores institucionais: São instituições que usam os títulos como reserva financeira. Fundos de pensão: 50 trilhões. Seguradoras: 35 trilhões. Fundos mútuos: 25 trilhões. Fundos soberanos: 10 trilhões. Total: 120 trilhões.

3 – Governos estrangeiros: Governos detêm aproximadamente 30 trilhões em dívidas emitidas por outros países. A China possui 3,2 trilhões em ativos estrangeiros, incluindo 850 bilhões em títulos dos EUA. O Japão possui 1,1 trilhão em títulos dos EUA. A principal fonte disso é o comércio. Os EUA, por exemplo, compram da China muito mais do que vendem. Se a China exigisse pagamento em dinheiro, as vendas diminuiriam e ambos os lados seriam prejudicados no curto prazo. Assim, a China compra os títulos dos EUA e os EUA usam esse crédito para pagar a China. Em outras palavras, a China entregou produtos e recebeu em troca papéis que supostamente serão pagos no futuro.

4 – Famílias ricas: O 1% mais rico do mundo detém aproximadamente 40 trilhões em ativos financeiros, grande parte deles em títulos. E um quarto disso, 10 trilhões, pertence a aproximadamente 500.000 pessoas que constituem o 1% mais rico dentro do 1% mais rico. Em 2024, estas 500.000 pessoas repartiram 500 bilhões de dólares em juros.

5 – Pequenos investidores: Perto de 100 trilhões de dívida estão nas mãos de pequenos investidores e fundos de investimento, como por exemplo o Tesouro Direto no Brasil.

A questão importante é que as dívidas dos países foram planejadas para serem impagáveis. Na verdade, a dívida da maioria dos países é muito superior à sua base monetária, o que faz com que simplesmente não exista dinheiro suficiente para pagá-la. Exemplo: o Brasil deve 9 trilhões de reais, mas existem apenas 440 bilhões de reais em dinheiro. Se somarmos o “dinheiro virtual”, quantias que só existem nos computadores dos bancos, chegamos a 7,3 trilhões, o que ainda é menos do que a dívida. Ou seja, se o saldo de todas as contas bancárias e aplicações financeiras de todas as pessoas e todas as empresas do país fosse transferido para os credores, ainda ficaríamos devendo. Ao invés de chamar de empréstimo, o mais exato é dizer que os credores usaram seu dinheiro para comprar uma renda eterna.

Em 2024, os pagamentos globais de juros sobre a dívida foram de aproximadamente 15 trilhões de dólares. E este dinheiro não está pagando a dívida, nem mesmo uma pequena parte dela. Na verdade, nas últimas décadas a dívida de praticamente todos os países vem crescendo, às vezes mais lentamente, às vezes mais rápido, mas sempre crescendo, e sempre aumentando o valor que os pagadores de imposto entregam aos credores. Até quando?

A dívida global hoje representa 300% do PIB, e está crescendo 7% ao ano. O PIB está crescendo 3% ao ano. Matematicamente, a dívida global chegará a 500% do PIB por volta de 2035 se as tendências atuais continuarem. Isso não é sustentável. Em algum momento, algo vai quebrar. Aí, ou os governos dão calote, o que elimina a dívida mas colapsa o sistema financeiro, ou aumentam a emissão de dinheiro, que reduz a dívida por meio da desvalorização da moeda, mas destrói as poupanças, ou tentam “renegociar” a dívida, o que no fundo significa apenas empurrar o problema para frente, de preferência para depois da eleição.

Isso tem solução? Não. Na verdade, isso é uma consequência inevitável de um modelo de sociedade que permite que políticos façam o que bem entendem e deixem as consequências nas costas dos eleitores. Bancos centrais, moedas inflacionáveis sem lastro, governos que concedem a si mesmos o poder de fazer e modificar as leis que eles deveriam obedecer, tudo isso foi criado para substituir a escravidão antiga, aquela das senzalas e chibatas, pela moderna, dos impostos sempre crescentes e da obediência voluntária. Modificar isso não passa por decisões econômicas; passa por decisões políticas, quase inimagináveis hoje em dia, que começariam por tirar de Executivo, Legislativo e Judiciário o nome de “poderes” e colocá-los na posição de empregados da população. Não vai acontecer. Ao contrário, o que vai acontecer é que o sistema vai se sofisticar ainda mais para extrair o nosso dinheiro com maior eficiência.

Como disse um ministro do rei francês Luís XIV, “Cobrar impostos é como depenar gansos: devemos sempre tentar conseguir o máximo de penas com o mínimo de gritos.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A NOVA MOEDA DOS BRICS

Fala-se muito na hegemonia do dólar, e no fim dessa hegemonia, e também no provável substituto que seria a nova “moeda do BRICS”. Ela já existe, embora muita gente se recuse a admitir, e chama-se bitcoin.

Vários economistas já definiram as propriedades desejáveis de uma moeda: deve ser estável, difícil (ou de preferência impossível) de falsificar, fácil de manusear, segura para guardar e, talvez o mais importante, não deve estar sob o controle de um governo que possa usar esse controle para inflacioná-la. Desnecessário dizer que praticamente todos os países ignoram esses economistas e mantém suas moedas próprias, inflacionadas e confiscáveis.

O dólar foi adotado como a moeda de referência para o comércio mundial em 1944, quando as demais potências estavam quebradas pelas despesas da 2ª Guerra Mundial. Isso seria fortalecido logo depois com o acordo firmado por Henry Kissinger com os países produtores de petróleo do Golfo Pérsico onde estes se comprometeram a só vender petróleo em troca de dólares.

Por algum tempo o arranjo funcionou, e com a progressiva informatização da economia, os títulos do tesouro norte-americano ocuparam o lugar que já havia sido das barras de ouro como reserva financeira dos países. O Brasil, por exemplo, tinha no ano passado 150 bilhões de dólares investidos nestes títulos.

Mas o mundo gira, a Lusitana roda, e hoje o dólar não é mais estável, nem seguro, nem está à salvo da inflação. Quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, uma das primeiras providências do governo dos EUA foi congelar (ou confiscar, para quem preferir) os títulos que pertenciam à Rússia. Na mesma época, sob a desculpa de proteger a economia dos lockdowns da COVID, o FED produziu em dois anos mais dólares do que já haviam sido produzidos nos duzentos anos anteriores (mais de cinco trilhões).

O bitcoin não tem nenhum destes problemas: sua taxa de inflação é pré-determinada e conhecida por todos (atualmente, 0,8% ao ano, e diminuindo). Nenhum governo pode controlar, regulamentar, congelar ou confiscar bitcoins. Roubá-los é, na prática, impossível (salvo algum descuido do dono, o que nenhuma tecnologia pode resolver). Eles são uma reserva de valor que simplesmente ignora fronteiras e governos.

O mundo está percebendo que o sistema atual é insustentável. A maioria dos países ricos já está devendo mais de 100% do seu PIB, e todos continuam inflacionando suas moedas. A China, que na prática é quem importa dentro dos BRICS, já disse que pretende que sua moeda, o yuan, seja uma alternativa ao dólar, e que será lastreada em ouro. Seria um pequeno avanço. Mas continuaria sendo uma moeda estatal, controlada por um governo. E no mundo de hoje, o lastro em ouro seria complicado de colocar em prática: será que seria viável ficar transportando toneladas de barras de ouro de um lado para outro, de avião ou de navio?

O bitcoin resolve todas estas questões. Mas o ser humano tem uma propensão natural para não acreditar em coisas que sejam muito diferentes daquelas a que ele está acostumado, e o bitcoin é muito diferente do sistema que todos nós conhecemos nos últimos séculos. Por isso, muita gente duvida que ele sirva para grandes transações, ou acha que moedas digitais são coisa de contrabandistas e outros criminosos.

Bem, um acontecimento recente está agitando bastante essas convicções. Como se sabe, existe uma guerra não-declarada (mais uma!) entre Irã e Estados Unidos. Os EUA, como estão acostumados a fazer, estão impondo sanções econômicas a todos os aliados do Irã, sejam governos estrangeiros ou empresas privadas. O Irã, por outro lado, tem como maior trunfo o seu controle sobre o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto da produção mundial de petróleo. Como retaliação às sanções norte-americanas, o Irã interrompeu o trânsito de navios no estreito e posteriormente anunciou que cobraria um pedágio (fala-se em um dólar por barril) para os navios que desejassem passar.

Mas como pagar e receber valores da ordem de milhões de dólares sem correr o risco de ter o dinheiro rastreado e bloqueado pelo governo dos EUA? Isso mesmo: o Irã está cobrando o pedágio em bitcoin. Grandes empresas da maior indústria do mundo, a indústria do petróleo, estão fazendo negócios com um governo soberano em bitcoin. E está funcionando.

O sistema de moedas fiduciárias, aquelas que são criadas e controladas pelos governos, se sofisticou tanto sob controle dos políticos que está desabando sob seu próprio peso. Cada vez mais pessoas estão percebendo que existem dois futuros possíveis: bitcoin ou caos.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DEFLAÇÃO

É atribuída a Henry Ford a frase “Se um dia as pessoas entendessem o sistema monetário, uma revolução começaria na manhã seguinte”.

Se as pessoas não entendem, isso certamente não é acidental. É necessário para que banqueiros e políticos possam continuar fazendo o que fazem, e existe todo um sistema encarregado de manter essa situação, do qual fazem parte a imprensa, a escola, o mundo acadêmico e as celebridades em geral. Esse sistema substitui idéias por dogmas e coloca narrativas no lugar dos fatos.

Uma destas narrativas, e uma das mais prejudiciais, gira em torno das palavras “inflação” e “deflação”. A segunda é vista como um perigo assustador. A primeira, como um perigo menor, que não traz grandes males se for pequena e controlada pelo governo.

Isso é totalmente falso. O governo é a causa da inflação, não a cura. Ao criar dinheiro do nada, o que eles não deveriam ter permissão para fazer, os governos desequilibram a relação oferta-demanda da moeda e causam a sua desvalorização. É o mais perverso dos impostos: de um lado criam uma fonte quase infinita de dinheiro para gastar, de outro lado desvalorizam as contas que devem pagar ao mesmo tempo em que valorizam os impostos que arrecadam e que são calculados pelo preço de mercado. A inflação é tão boa para os políticos que praticamente nenhum país vive mais sem ela. Alguns ainda mantém a “produção” de dinheiro em níveis baixos, o que os faz menos errados mais ainda assim errados. Outros já perderam a vergonha e inflacionam o quanto lhes dá na telha, geralmente de forma cíclica em função das conveniências eleitorais.

A ironia nisso tudo é que para tornar a inflação menos assustadora aos olhos do povo, a máquina de propaganda decidiu dizer que o contrário, a deflação, é um perigo maior e que deve ser evitado a qualquer custo. As pessoas acreditam sem questionar e se sentem seguras ao ouvir o governo dizer que está se esforçando para “manter a inflação dentro da meta”, como se fosse moralmente possível ter uma meta de inflação que não seja de 0,00 %.

Desde que a humanidade descobriu o poder da tecnologia e os ganhos de eficiência possíveis com a divisão do trabalho e a especialização, a diminuição de preços tornou-se algo natural. O progresso consiste basicamente em produzir mais por preço menor. Coisas que eram artigos de luxo no passado, privilégio dos mais ricos, hoje são acessíveis a todos.

Dados do governo dos EUA mostram que nas três décadas entre 1870 e 1900 os preços ao consumidor caíram 47% e a economia cresceu em média 4,5% ao ano, o que mostra que deflação não tem nada a ver com recessão ou crise. Claro que naquela época o governo não inflacionava o dinheiro, que tinha valor fixo em ouro (e um grama de ouro custava menos de um dólar, enquanto hoje custa mais de 150).

Ainda sobre ouro, uma curiosidade: em 1926 um Ford modelo T custava 360 dólares, o que equivalia a 540 gramas de ouro. Hoje, 540 gramas valem 80.000 dólares, o que dá para comprar (lá nos EUA) três Honda Civic zero km. Ou seja, em ouro, o preço dos carros deflacionou bastante nos últimos cem anos, mesmo com os carros de hoje sendo muito mais sofisticados que um modelo T. Nos inflacionados dólares, o preço subiu 7000%. No Brasil, apenas de 1980 para cá a inflação já acumulou 97.498.392.029.617,90%, segundo o site do IBGE.

Do mesmo jeito que a linguagem politicamente correta finge solucionar um problema chamando favela de “comunidade” e mendigo de “morador de rua”, o economês diz que o Banco Central faz “política monetária” quando na verdade o que ele faz é pura e simplesmente imprimir mais dinheiro e causar mais inflação. É curioso que mesmo jornalistas sérios acreditam (ou fingem acreditar) que o BC é um remédio quando na verdade ele é a origem da doença. É verdade que sem um BC o governo pode inflacionar a moeda do mesmo jeito, é só uma questão de organograma.

Em resumo, se voltássemos a ter moeda não-inflacionada como no passado, o progresso tecnológico se encarregaria de fazer os preços baixarem continuamente. No sistema econômico de hoje, o governo se apropria desses ganhos através da desvalorização proposital da moeda, enquanto o povo acredita que ele nos protege de ver as coisas ficarem mais baratas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UM PAÍS DE MENTIRAS

O primeiro artigo da nossa constituição diz que um dos valores da república é a “livre iniciativa”. Todos os outros artigos, bem como as outras leis, decretos, normas, regulamentos, portarias, etc, etc etc, contrariam esse princípio. Na prática, nossa república segue o princípio fascista do “tudo dentro do estado, nada fora do estado, nada contra o estado”.

Os valores que são considerados “direitos fundamentais” do ser humano, basilares para a construção de uma sociedade funcional, aqui são tratados como favores concedidos pelo governo, podendo ser retirados a qualquer momento por conveniências políticas ou eleitorais.

Por exemplo: comemorou-se muito a assinatura, após anos de espera, do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Européia. Mas logo em seguida, ambos os lados começaram os estudos sobre as “exceções” e “salvaguardas”. O apoio popular deixa claro que as pessoas são a favor do livre comércio, desde que esse livre comércio não seja livre.

Alguns políticos (e os fãs desses políticos) gostam de fazer elogios ao livre mercado e ao que eles chamam de “capitalismo”. Mas ao mesmo tempo aproveitam qualquer oportunidade para defender a intervenção e o controle estatal sobre tudo.

Outro exemplo: não é segredo que o mundo inteiro está vivendo uma crise no fornecimento de petróleo. Uma das leis mais básicas da economia é a que relaciona oferta e demanda, e se a oferta torna-se menor que a demanda, isso faz os preços subirem. Tentar lutar contra isso é quase tão inútil quanto lutar contra a gravidade ou contra as leis da termodinâmica, mas isso não impede os políticos de tentar. Recentemente, um deles disse: “O sujeito fica especulando. [..] e o diesel sobe de preço. Ele não tinha motivo [..] mas ele sobe também para ganhar mais. Isso é caso de polícia”. Repetindo: em um país que se diz democrático e favorável à livre iniciativa, um membro do governo acha que um empresário aumentar o preço de seu produto é “caso de polícia”. Sua opinião é compartilhada pelos PROCON´s que se arvoram o direito de emitir multas a empresas que praticam preços “abusivos”, sem que exista nenhuma lei definindo o que é ou não “abusivo”.

Outro princípio fundamental, o do respeito ao direito de propriedade, já nasce morto quando a constituição diz que esse direito está subordinado à “função social” da propriedade, função essa que, mais uma vez, é estabelecida pelo governo ao seu bel-prazer. A constituição estabelece que o dono de um imóvel só pode usá-lo da forma que o “planejamento urbano” da prefeitura determinar. De novo: quando a vida das pessoas deve obedecer ao planejamento governamental, isso não é democracia, é fascismo ou socialismo.

E quanto à liberdade de expressão? A constituição diz que há, mas também diz que não há. Mais uma vez, os brasileiros são a favor, exceto quando são contra. Ou seja, a liberdade é só para dizer o que eles gostam. Se eles não gostam, não pode, porque é ofensa, é injúria, é preconceito, é blasfêmia, é vilipêndio, é machismo, é feminismo, é discurso de ódio, é apologia ao crime, é incitação à violência, é ataque ao estado democrático de direito, é contra a moral e os bons costumes, é antidemocrático, é desrespeito às autoridades constituídas, é inconstitucional, é contrário às normas vigentes, é, enfim, proibido.

Em resumo, existe a realidade e existe o país fictício formado por narrativas, mentiras e muita hipocrisia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PARTIDOS, ELEIÇÕES E DEMOCRACIA

Na Espanha, o partido que ganhou as últimas eleições não está no governo. Isso acontece porque, embora tenha sido o mais votado, não conseguiu o apoio de nenhum outro partido para formar uma coligação que atingisse a maioria de 50%. O segundo partido mais votado, por outro lado, anunciou que topava qualquer acordo para conseguir a maioria. O resultado foi uma coalizão com partidos nanicos, a maioria deles separatistas, que somam 51% das cadeiras. O partido mais votado ficou na oposição.

Portugal, em maio do ano passado, realizou eleições para o congresso. A AD, de centro-direita, passou de 80 para 91 cadeiras, enquanto o PS, de centro-esquerda, caiu de 78 para 58 cadeiras. No mês passado, houve eleições para presidente. O vencedor, por ampla maioria, foi o candidato do PS – o mesmo que saiu derrotado nas eleições legislativas oito meses antes.

Na Alemanha, o governo entrou em crise no final de 2024. O primeiro-ministro demitiu o ministro das finanças, o que causou o rompimento da coalizão que governava. Foram convocadas novas eleições. Os três partidos mais votados foram exatamente os mesmos da eleição anterior, com resultados parecidos, e o novo governo foi formado com os mesmos três partidos que haviam se desentendido meses antes.

Não é difícil notar que estes casos não se ajustam ao que normalmente se chama “democracia”. Do que se trata, então?

Do jeitinho que aprendemos na escola, eleições funcionam assim: vários candidatos se apresentam, mostram suas idéias e debatem em programas de TV. Os jornalistas fazem perguntas sobre as propostas de cada um para resolver os problemas existentes e sobre o posicionamento em relação às questões mais relevantes. O eleitor escolhe o candidato com as melhores propostas e vota nele.

Hoje em dia, claro, não acontece nada disso. O que acontece é:

– Os políticos se juntam em partidos e cada partido passa a se manifestar de forma única.

– Os eleitores simpatizam com as idéias de um determinado partido e passam a apoiá-lo.

– Os partidos, por vários mecanismos, detectam as preferências dos eleitores e concentram seu discurso nessas preferências.

– Os eleitores, vendo seus interesses pessoais representados por um determinado partido, tornam-se cada vez mais fiéis a ele.

– Os partidos eliminam o debate e a troca de idéias e passam a repetir sem parar aquilo que os marqueteiros determinaram ser o que mais agrada ao eleitor. Assim, os nomes e as propostas originais de cada partido perdem a importância. Os partidos passam a ser, na prática, o Partido dos Taxistas, o Partido dos Professores, o Partido dos Agricultores, o Partidos dos Comerciantes, etc., todos agrupados nas designações genéricas de “esquerda” e “direita”.

– O eleitor deixa de olhar os políticos de forma crítica e se torna um fã (abreviação de fanático) que defende incondicionalmente o “seu” partido e ataca todos os outros, usando como argumentos os clichês e frases prontas elaboradas pelos marqueteiros.

– O debate eleitoral se transforma em um concurso de memorização, onde os candidatos competem para ver quem decorou melhor as respostas elaboradas pelos mesmos marqueteiros. Os fãs de cada partido nem precisam assistir ao debate para ter a certeza de que o “seu” candidato venceu o debate porque é o mais inteligente, o mais preparado, o mais honesto, o mais tudo.

– O noticiário torna-se irrelevante porque o fã, ao ouvir qualquer notícia contrária ao “seu” candidato ou favorável aos “outros”, imediatamente grita “fake news!” e encerra o assunto.

É fácil notar que o processo se realimenta: quanto mais o eleitor se torna fã de um partido, mais ele exige que o partido repita sem parar as frases que ele gosta de ouvir, sobre os assuntos que ele gosta de ouvir. E o partido fica feliz em atender a essa exigência, porque isso o livra da obrigação de ter idéias ou propostas reais sobre qualquer assunto.

O resultado final é que eleições tornam-se inúteis. Não há propostas, não há idéias, há apenas troca de acusações e raiva, muita raiva. O irônico disso tudo é que muitas vezes a eleição acaba sendo decidida por uma minoria que não se interessa por nada e vota em qualquer número que vêm na cabeça.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESCÂNDALOS

“Tirando nossa completa incapacidade de relacionar causa e consequência, tudo vai bem no Brasil”

Já não lembro onde ou quando li a frase acima, mas ela continua verdadeira e tão atual como sempre. A nossa incapacidade de perceber a relação entre as decisões que tomamos e as consequências dessas decisões é tão grande como nosso talento em achar culpados externos para todos os nossos problemas.

Um exemplo dessa dissonância é a sucessão de escândalos que se sucedem desde que D. Pedro deu o grito do Ipiranga, e nossa completa incapacidade de ligar esses escândalos à impunidade que acompanha as autoridades que produzem esses escândalos.

O Banco do Brasil quebrou pela primeira vez em 1829 – faltam só três anos para o bicentenário. Nossa monarquia também produziu escândalos de venda de títulos de nobreza, nepotismo, superfaturamento de obras como a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e muitos outros. Veio a república e com ela o escândalo da Central do Brasil, o atentado a Carlos Lacerda, Delfin, Capemi, Lutfalla, Ferrovia do Aço, Ferrovia Norte-Sul, Casa da Dinda, Anões do Orçamento, Projeto SIVAM, Sede do TRT-SP, Mensalão, Petrolão, Dossiê dos Aloprados, quebra do sigilo do caseiro Francenildo, Erenice Guerra, Rocha Loures correndo com a mala de dinheiro, Fabrício Queiroz e os cheques, e tantos outros.

Em cada um deles, o país vivia um sentimento de “desta vez será o fim do mundo”. Claro que o mundo nunca acabou e todos eles viraram piada em questão de meses ou mesmo semanas. Em nenhum deles alguém lembrou de um fato que está na origem da maior parte, senão de todos os escândalos brasileiros: o fato de que aqui, desde sempre, juiz faz o que quer, deputado faz o que quer, senador faz o que quer, ministro faz o que quer, enfim, quem faz parte da chamada “alta cúpula” sempre teve a plena convicção de que pode fazer o que quiser com total impunidade. Aliás, vamos ser francos: no Brasil até estudante de direito do primeiro ano acha que pode tudo.

Duzentos e três anos de escândalos mensais, semestrais e anuais trouxeram uma certeza a todos que fazem parte desses escândalos: haverá muitos gritos, muito barulho, intensa competição na imprensa pelas manchetes mais escandalosas, intensa competição entre as personalidades públicas para se mostrar mais indignado e mais ofendido que todo mundo. E depois disso, o esquecimento e a impunidade.

No nosso país, vigora a certeza de que todos nossos problemas vêm de fora: somos vítimas do imperialismo, do capitalismo, do comunismo, das multinacionais, dos banqueiros estrangeiros, dos illuminati. Nenhum problema brasileiro é consequência daquilo que fazemos.

Por exemplo, ninguém vê nada de errado ao constatar que praticamente todos os juízes e desembargadores, de todos os setores do judiciário, têm como cônjuge um advogado/advogada. No meu estado, Paraná, tivemos um secretário da fazenda (cuja função básica é cobrar impostos) cuja esposa era dona do maior escritório de advogados tributaristas do estado.

Da mesma forma, ninguém vê nada de errado quando membros do executivo, legislativo, judiciário e ministério público aceitam convites “desinteressados” de grandes corporações e bancos para comparecer a eventos, palestras, seminários e congêneres, sempre em hotéis de luxo ou resorts paradisíacos. Também é normal quando essas mesmas empresas contratam essas mesmas pessoas do alto escalão do governo para proferir palestras em troca de cachês de seis dígitos.

Definir a causa disso é assunto para muito debate sociológico e antropológico, mas vou citar dois palpites: de um lado, a tradição absolutista que herdamos de Portugal no século 18 e que se mantém pelo controle que o poder exerce sobre a educação e a mídia.

De outro lado, existe a eterna esperança dos brasileiros de um dia chegar ao andar de cima. Como dizia um antigo colega meu, quando o brasileiro vê uma manchete de jornal sobre um escândalo e diz “Que absurdo!”; ele não está pensando “que absurdo, isso têm que acabar”, ele está pensando “que absurdo, eu não consigo fazer parte desse esquema”.

Tentativas de explicação à parte, também registro meu palpite para o mais recente escândalo: excetuando o caso de alguém “sair da linha” e ser tomado como bode expiatório, em questão de algumas semanas o caso estará dado como resolvido e ninguém do alto escalão dos três poderes será responsabilizado. E, em breve, um novo escândalo tomará as manchetes.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ACONTECEU EM CURITIBA

No centro de Curitiba, na esquina das ruas Emiliano Perneta e Voluntários da Pátria, encontra-se o majestoso e centenário prédio do Instituto de Educação do Paraná. Nele, minha mãe e minhas duas tias estudaram e se formaram professoras. Após formar-se, minha tia mais velha lecionou lá por vinte e cinco anos.

Naquele tempo, quase todo colégio tinha um coral, e havia até uma certa rivalidade entre os colégios mais importantes. No Instituto de Educação, minha tia acumulava as aulas com o cargo de assistente da maestrina do coral.

Um certo dia, já no final da tarde, minha tia foi procurada pela diretora, que lhe disse, aflita: Morreu o Bento Mossurunga!

Bento Mossurunga era um maestro e compositor paranaense, autor do hino do estado e famoso professor de música. O coral do Instituto devia prestar sua última homenagem, disse a diretora.

Em uma época onde ter telefone em casa era privilégio dos mais ricos, minha tia e a maestrina do coral demoraram algum tempo até localizar seis alunas integrantes do coral e “convocá-las” para a missão. As duas professoras usaram seus automóveis particulares (o da minha tia era um Fuscão vermelho) para apanhar as alunas em casa.

Já era noite quando chegaram às capelas mortuárias do Cemitério Municipal. As alunas vestiram os uniformes do coral e receberam as instruções das duas professoras para portar-se com discrição e respeito. Entraram no recinto do velório, a maestrina na frente, de cara muito séria, cumprimentando os presentes com leves acenos de cabeça, as alunas em fila atrás dela de cabeça baixa. Alinharam-se junto a uma parede e começaram a cantar a música mais triste que encontraram no repertório do coral. O burburinho da sala rapidamente cessou, todos escutando e tentando adivinhar quem eram aquelas moças que chegaram sem falar com ninguém.

Terminada a música, a maestrina virou-se e caminhou lentamente até o caixão no meio da sala, na atitude tradicional dos velórios. Mas ao olhar para o falecido, deu um pulo para trás e fez uma careta de susto. Caminhou até minha tia, que estava junto das alunas, e cochichou em seu ouvido: “O Bento Mossurunga tinha barba?”

“Não tinha barba e não tinha cabelo”, respondeu minha tia.

“Mas esse defunto é barbudo e cabeludo”, disse a maestrina, começando a rir.

Minha tia sabia que sua colega, quando ria, não parava mais. Rapidamente abraçou-a como se a consolasse, enquanto tapava sua boca com a mão. Ao mesmo tempo, olhou para as alunas e balançou a cabeça na direção da saída.

As alunas se retiraram em fila, com a mesma atitude séria e circunspecta com que entraram. Atrás, minha tia praticamente agarrando a maestrina que já começava a se sacudir de tanto tentar rir mesmo com a boca tampada.

Já na rua, após o ataque de riso terminar, e constatando que haviam cantado para o defunto errado, o consenso foi que não havia mais clima para outra homenagem. Todas entraram nos automóveis e rumaram para casa.

Bento Mossurunga foi enterrado sem a homenagem.

Por outro lado, em alguma família curitibana existe a história do velório de um antepassado em que, ninguém sabe de onde, umas moças apareceram, cantaram e foram embora sem falar com ninguém.

***

P.S. Em qualquer dicionário de português, consta que o feminino de “maestro” é “maestrina”. Recentemente, porém, a onda politicamente correta decretou que o termo é machista e preconceituoso e deve ser substituído por “maestra”. Eu, naturalmente, recuso-me a endossar tal tolice, e me pergunto: será que o mesmo raciocínio se aplica ao uso de “heroína” como feminino de “herói”? Deveríamos então usar “heroa”?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

THANKS, TRUMP

“Nenhum governo na história desistiu voluntariamente de seu poder” – Murray Rothbard

Eu não acho que Trump esteja fazendo um bom governo. A enorme confusão com tarifas de importação acabou ficando parecida com tosquia de porco, como diria meu avô: muito grito e bem pouca lã. Trump também não conseguiu nada de positivo nas brigas entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestina. De forma geral, ele parece estar mais preocupado em aparecer na mídia do que em governar seu país. Não é o primeiro nem será o último: Obama passou oito anos fazendo isso.

Este comportamento midiático, porém, acabou gerando um resultado positivo, talvez até involuntário, mas bastante importante. Podemos dizer que é uma mudança de paradigma.

Nos últimos cem anos, o “estado”, que é apenas uma entidade jurídica, tornou-se na cabeça das pessoas algo real, que tem vontades, interesses, direitos e até mesmo “soberania”. Acredita-se que o estado deve ser sempre obedecido e sempre ter a última palavra. E acredita-se também que se isso for seguido por todos, o mundo será um lugar pacífico e justo, e em cada país o tal estado soberano resolverá todos os problemas.

É curioso que as pessoas não percebam a contradição: acreditam que é necessário que em cada lugar exista uma autoridade única, absoluta, com poder ilimitado sobre o resto da sociedade – o estado. E não percebem que o conjunto desses estados convive em completa anarquia, sem nenhuma autoridade única que possa impôr aos demais o cumprimento das regras supostamente em vigor. Sim, existe a ONU e um monte de órgãos vinculados, mas trata-se apenas de um imenso cabide de emprego multi-nacional que não tem nenhum poder prático. Como escrevi há algumas semanas, os países criaram um monte de regras para as guerras, e agora fogem das regras dizendo que as guerras não são guerras.

Quem deveria ser soberano é o povo, não o governo. Mas o discurso corrente fala sempre em soberania do estado ou em soberania do país, o que de certa forma reproduz o feudalismo da Idade Média, quando a maioria das pessoas era chamada de “servo” e era considerada como propriedade de um determinado lugar. O dono do lugar poderia mudar, via guerra, herança ou casamento, mas a servidão dos moradores continuava. Como continuação dessa idéia, as pessoas foram levadas a acreditar que fronteiras desenhadas em mapas são coisas concretas e inquestionáveis, que devem ser respeitadas e veneradas com fervor religioso e que concedem ao governo dentro de cada fronteira o poder absoluto de mandar.

Aí chega Trump, e faz todos relembrarem um antigo conceito: manda quem pode e obedece quem precisa. O mundo sempre foi e sempre será governado pelos mais fortes. O direito de mandar é conquistado, não surge de discursos de “soberania nacional” e “auto-determinação dos povos”, direito que aliás é negado sistematicamente pelos governos: a própria carta da ONU fala no direito de secessão como consequência lógica do princípio da auto-determinação, mas também inventa um “princípio da integridade territorial” que na prática justifica o hábito dos governos de escreverem nas constituições que seus territórios são “indivisíveis”. O resultado é que para o povo a tal auto-determinação é só uma piada.

Recentemente o governo Trump divulgou uma versão atualizada de sua Doutrina de Segurança Nacional, onde é citada a Doutrina Monroe, criada duzentos anos atrás e conhecida pela expressão “A América para os americanos”. No mundo de hoje, o novo documento serviu, de um lado, para memes e piadas nas redes sociais, e de outro, para discursos emocionados dos defensores da soberania nacional mundo afora. Na prática, o que Trump está fazendo é explicando de forma bem didática aquilo que o restante do mundo já deveria saber: que os fortes não negociam com os fracos; os fortes negociam entre si, e aos fracos resta obedecer.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DEMOCRÁTICO

A postagem acima é de 31 de outubro, mas eu só a vi essa semana. A idade não altera o seu significado.

Nos primeiros tempos da internet, no século passado, um escritor americano chamado Mike Godwin criou o que ficou conhecido como a Lei de Godwin: “À medida em que um debate na internet prossegue, a probabilidade de que alguém faça uma comparação envolvendo Hitler ou o nazismo cresce até chegar a 100%.” Em pouco tempo, generalizou-se na internet a idéia de que quem recorre a este tipo de comparação está demonstrando não ter argumentos e deve ser visto como derrotado no debate.

Com a facilidade das redes sociais, esse tipo de consenso tornou-se impossível, até mesmo porque a grande maioria das pessoas que posta nas redes sociais não está interessada na opinião dos outros. Mas em se tratando de um jornalista com décadas de carreira como Kupfer, o apelo ao Reductio ad Hitlerum, como foi jocosamente batizado o ato descrido por Godwin, traz implicações importantes.

O senso comum predominante é que fascismo e nazismo são ruins. Compreensível, já que Itália e Alemanha perderam a guerra e a tradição diz que são os vencedores que escrevem a história. Menos disseminado é o fato de que Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha, chegaram ao poder de forma legal e democrática. Então, estaria Kupfer dizendo que não acredita na democracia? Ou afirmando que o povo não sabe escolher?

Provavelmente sim. Trata-se de uma “pirueta retórica” muito comum nos dias de hoje: a palavra “democracia” significa, literalmente, “poder do povo”, em contraste com “aristocracia”, que significa “poder dos melhores” ou “burocracia”, que significa “poder dos escritórios”. Mas nos dias de hoje estamos mais interessados em narrativas do que em fatos, e tornou-se trivial “ressignificar” as palavras, substituindo seu significado original por outro, geralmente carregado de influência ideológica.

Assim, a palavra “democrático” deixou de indicar um sistema de governo e transformou-se em um elogio universal, uma característica quase sagrada e que não pode ser questionada. Se algo é democrático, é porque é bom, é justo, é correto, é – repito – inquestionável. Só que esse “democrático” não tem nada a ver com o povo.

O povo não foi consultado sobre um fundo eleitoral de seis bilhões, mas falar mal dele é antidemocrático. O povo também não é a favor dos milhares de salários acima do teto constitucional ou dos milhares de cargos inúteis e bem remunerados distribuídos aos parentes e amigos dos políticos, mas questionar isso também é antidemocrático. E por aí vai. Todo mundo defende a democracia, desde que ela não obedeça à vontade do povo. Afinal, o povo não sabe escolher, não é mesmo?

Ao mesmo tempo, todo governo, por pior que seja, tem seus simpatizantes, que têm se tornado cada vez mais parecidos com torcidas de futebol; para estes simpatizantes-barra-torcedores, tudo que o governo fizer está certo e quem discordar é antidemocrático. A cada dois anos temos eleições e assim a cada dois anos, com a troca de alguns políticos, o que era correto e democrático pode virar errado e antidemocrático. E assim continua a briga entre torcidas adversárias, todas brigando por uma palavra que na verdade ninguém sabe o que significa.

P.S. O tema deste pitaco foi escolhido (também) por uma razão histórico-sentimental. Vinte e tantos anos atrás, quando a internet estava nascendo, havia um portal chamado No Mínimo, onde José Paulo Kupfer era um dos colunistas. Certo dia ele resolveu “abrir um espaço” para os leitores publicarem suas idéias e o primeiro a aparecer foi justamente esse pitaqueiro que vos fala. Foi a primeira vez que alguma coisa que eu escrevi foi publicada na internet.