MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DOIS PITAQUINHOS PARA ENCERRAR A SEMANA

Em decisão recente, nossa suprema corte determinou que as regras da constituição não são “taxativas”, e sim “exemplificativas”. Alexandre de Moraes, que é um dos mais ativos na construção de argumentos desse tipo, junto com Roberto Barroso, disse em seu voto:

“Limitar as possibilidades de atuação do Estado mediante interpretação literal da atual redação do art. 149, § 2º, III, da CF não me parece a melhor exegese para a consecução dos desígnios constitucionais de viabilizar a promoção do desenvolvimento das micro e pequenas empresas”.

Tirando as exegeses, consecuções e outras palavras difíceis que só refletem a arrogância e a intenção de colocar-se acima do restante da sociedade, o que o ministro disse é que não acha que o governo deve obedecer à constituição “literalmente”. Ele prefere que o governo (e sem dúvida ele está pensando nos três poderes, não em um só) faça o que der na telha, desde que possa dizer que está buscando os “desígnios constitucionais”. Em outras palavras, eles podem fazer tudo, desde que jurem que as intenções são boas. E aquilo que você acha que a lei garante, na verdade é apenas um exemplo, que pode ou não ser válido, dependendo de como o governo enxergue os tais desígnios.

Isso não começou ontem. É apenas o resultado de décadas, para não dizer séculos, de um povo que sempre se ajoelhou voluntariamente diante do poder, ansioso por receber um benefíciozinho. Que sempre aceitou calado os desmandos e humilhações das “autoridades”. Que sempre teve repulsa a uma sociedade de iguais e amor por uma sociedade dividida em classes.

Já estamos no ponto em que mudar de direção será muito difícil. Os poderosos usarão o poder que receberam para tornar-se ainda mais absolutos.

* * *

Sobre o batido tema da economia, da inflação e do preço do arroz, gostei dessa frase de Solange Srour, do banco Credit Suisse:

“A história é repleta de casos de países que se endividam, quebram e se recuperam. A cada crise, é comum a narrativa de que as velhas regras de análise não se aplicam ao momento em questão, que é visto como diferente dos desastres anteriores.”

A crise que se aproxima é igualzinha às outras: governo gasta mais do que pode, emite dívida, fabrica dinheiro, inflação sobe, governo fabrica mais dinheiro, aumenta imposto, economia desacelera, governo diz que a culpa é dos outros, não dele.

A desculpa do momento é dizer “A culpa é do covid, e a crise afetou todos os países, não só nós”. Só que nem todos os países viram sua moeda enfraquecer da mesma forma, como podemos ver no gráfico abaixo (Argentina e Venezuela não aparecem porque sua taxa de câmbio é só uma ficção).

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O INVENTOR DA INFLAÇÃO

O assunto do meu último pitaco está tão na moda que resolvi continuar, mostrando outros enfoques desse “troço” chamado inflação. Mas para começar, é necessário que você leitor esteja de acordo comigo em uma afirmação. Sem isso, nada do que vem depois fará sentido. É o seguinte:

DINHEIRO NÃO É RIQUEZA

Se você instintivamente pensou “como assim? que absurdo?”, raciocine comigo: você conhece alguém que tenha um monte de dinheiro e não gaste absolutamente nada? Você conhece alguém cujo sonho seja ter muito dinheiro mas não usá-lo para comprar coisas? Você se acharia rico fosse largado no meio do mato, sem casa, sem roupa, sem comida, mas com um saco cheio de notas do lobo-guará?

Antes de inventarem o dinheiro já existia riqueza; havia pessoas que tinham casas, roupas e objetos melhores que os outros. Na medida em que qualquer sociedade evolui (através do acúmulo de bens de capital e do progresso tecnológico, sempre é bom lembrar), é natural a substituição do sistema de escambo, ou troca, pelo uso de um “símbolo de valor” ou moeda. A característica da moeda é que ela não tem utilidade por si só, mas serve para ser trocada por outras coisas. Ou seja, não é riqueza, é um meio para que a riqueza seja comprada, vendida e mensurada.

Que características deve ter uma moeda? Instintivamente, as pessoas tendem a achar que uma moeda deve ser:

– Duradoura, ou seja, não-perecível (bananas não são boa idéia, apodrecem rápido)

– Resistente (vidro também não é boa idéia, quebra fácil)

– Fácil de dividir (o que exclui a cerâmica, muito difícil de cortar)

– Escassa (pedregulhos e areia não servem)

– Difícil de falsificar

Existem dois metais que são bons em todos estes requisitos: ouro e prata. Não estragam, não quebram, não enferrujam, duram para sempre; podem ser derretidos e reutilizados infinitas vezes; existem em quantidade relativamente constante (é pouco provável que alguém encontre de repente uma mina com tanto ouro ou prata que chegue a causar diferença – mas aconteceu com Portugal e Espanha no século 16/17). Ouro e Prata rapidamente se tornaram quase sinônimos de moeda em todo o mundo.

Naquela última propriedade é que a coisa complica. Não dá para falsificar ouro ou prata, A NÃO SER QUE exista um governo que faça moedas falsas e obrigue as pessoas a aceitá-las. O denário de prata começou a ser utilizado em Roma no século 3 a.C. e era feito, obviamente, de prata. No governo de Nero, passou a ser uma mistura de 88% de prata com 12% de outros metais (geralmente cobre ou estanho). Dali para frente, cada novo imperador reduzia a quantidade, para poder fabricar mais moedas com a mesma quantidade de prata. No final do século 3 d.C. foram fabricados denários que continham apenas 0,5% de prata! Obviamente, ao longo deste tempo a quantidade de denários necessária para comprar as coisas não parou de aumentar. É o que popularmente se chama inflação, embora seja mais correto dizer que é a consequência da inflação, que por sua vez é o ato de inflar, ou aumentar, a quantidade de dinheiro.

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MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ELA VOLTOU

Sim, ela está de volta. A temida. A amaldiçoada. A indesejada das gentes. A inflação.

Mas o que é a tal da inflação? Como eu já disse em outros pitacos, em termos de economia é algo muito simples, mas quando se mistura outras coisas no meio a coisa pode ficar bem complicada.

A lei da oferta e procura é um dos fundamentos mais básicos da economia: determina o preço de tudo, inclusive do dinheiro (talvez seja melhor dizer “das moedas”). Só que ao contrário dos demais bens e serviços cuja oferta é sempre limitada porque produzi-los exige trabalho, as moedas são criadas do nada e portanto não há limites para sua oferta. E qual a consequência disso?

Por exemplo: se a quantidade de tomate disponível nos mercados aumentar, o preço diminui. Mas ninguém vai gostar menos de tomate por causa disso. Isso significa que a variação na oferta não afeta a demanda. Mas no caso do dinheiro, a coisa é pior: quando o governo aumenta a quantidade de moeda, aumenta a oferta. Mas isso faz com que as pessoas percam a confiança e não queiram mais essa moeda, trocando-a por dólares, euros, ouro ou qualquer outra coisa que conseguirem. Ou seja, a inflação aumenta a oferta e ao mesmo tempo diminui a demanda. Por isso que o valor da moeda desaba.

E de quem é a culpa? Repito: em termos de economia, é simples, desde que não se misture ideologia ou política:

A culpa não é do capitalismo

Basta constatar que os países normalmente lembrados quando se fala em capitalismo não têm inflação: Suíça, por exemplo, ou Estados Unidos (que nem é mais tão bom exemplo assim). Capitalismo tem a ver com liberdade de comércio, e quando existe liberdade o preço de tudo, incluindo o dinheiro, tende a se estabilizar em um valor de “consenso” determinado pelo equilíbrio entre oferta e procura.

A culpa não é do neo-liberalismo

Nem do liberalismo sem neo. O Brasil não tem e nunca teve liberalismo. No Brasil, o governo controla o preço dos combustíveis, da energia elétrica, do gás de cozinha, dos remédios, das escolas, dos planos de saúde, do transporte público, dos pedágios. Existe tabela de frete rodoviário. E o restante da economia está sujeito às ameaças de um monte de órgãos do governo que “requisitam explicações” e ameaçam com processos qualquer um que faça algo que eles não gostam. Perdoem a pobreza da comparação, mas culpar o liberalismo por algo no Brasil é como culpar as praias em Minas Gerais ou a neve no Maranhão.

A culpa não é dos empresários malvados

A reclamação do momento não é o preço dos alimentos? Mas não estamos celebrando recordes de produção agrícola? Então algo está errado. Seria normal esperar aumentos no setor industrial, que foi fortemente afetado pelo “lock-down”. Mas vegetais não deixaram de crescer por causa da COVID, não há falta de produto; é que na verdade os alimentos não ficaram mais caros, é nosso dinheiro que está valendo menos.

Mas explicando de forma mais geral: existe o dogma de que os empresários aumentam os preços sempre que sentem vontade. Qualquer um que já tentou empreender sabe que isso é uma tolice. No livre mercado, os preços tendem a cair, não subir, por causa de uma coisa chamada concorrência. Neste pitaco de fevereiro (clique aqui para ler) eu mostrei que desde o início do Plano Real, os preços de mercado subiram 440% enquanto os preços que o governo “controla” para “proteger o consumidor” subiram 850%. Além disso, há quem acredite que a subida de um preço faz todos os outros subirem. É o contrário: Mesmo que exista um empresário, ou grupo de empresários, com poder suficiente para subir arbitrariamente os preços de determinado produto, o que vai acontecer é: se o produto não é essencial (em economês: demanda elástica), sua venda vai cair. Se as pessoas precisam desse produto (em economês, demanda inelástica), elas vão diminuir o consumo de outros produtos para compensar a despesa, e isso força o preço dos outros produtos para baixo, não para cima. Não há fundamento econômico para achar que aumento de preço causa inflação (a menos que o governo se meta, é claro).

Para deixar bem claro: aumento de preço de UM produto específico, seja causado por seca, enchente, guerra ou qualquer outro motivo, não é inflação. Inflação é aumento da oferta monetária e causa aumento de TODOS os preços.

A culpa não é dos outros países

Sim, este ano nossas exportações agrícolas foram grandes. E daí? Os políticos e os economistas do governo não vivem repetindo que dólar alto é bom para a economia porque estimula as exportações? Foi exatamente o que aconteceu: o valor da nossa moeda desabou e estamos exportando como nunca. Não era para estar dando certo? Sinceramente, caro leitor: essa idéia de que moeda fraca fortalece a economia e o mercado interno me parece tão irracional que eu custo a acreditar que existem adultos que acreditem nela.

A culpa não é do Trump

Vi bastante gente pelos facebook da vida falando que “o Trump subiu o dólar”. Bobagem, não foi o dólar que subiu, foi o real que baixou, e não foi o Trump que mandou (nem precisaria). Aliás, a inflação do dólar também está aumentando, porque o governo dos EUA também está fabricando dinheiro aos montes esse ano. A última vez que o dólar esteve fraco, entre 2005 e 2010, foi ótimo para o Brasil, mas dessa vez provavelmente vamos perder a chance.

A culpa não é do COVID

As consequências econômicas de uma situação como a do COVID – fábricas sem produzir, comércio fechado, empresas falindo – são recessivas: tendem a causar diminuição nos preços, não aumento. Lógica básica: se está todo mundo sem dinheiro, como os preços vão subir? Inúmeros casos históricos mostram que se o governo não interferisse absolutamente nada na economia durante a pandemia, teríamos uma recessão, que causaria uma redução generalizada de preços, que impulsionaria a recuperação assim que a quarentena acabasse. Quer um exemplo? Estados Unidos em 1920, explicado num pitaco que escrevi em janeiro deste ano (clique aqui para ler). Com o governo interferindo, o que seria uma crise curta vira uma crise sem data para acabar.

Sim, a culpa é do governo

Não há como fugir da conclusão: inflação é causada pelo dono do dinheiro, ou seja, o governo. Por qualquer lado que se olhe, há um conceito econômico básico que mostra isso.

Pelo lado da moeda, basta olhar o gráfico abaixo, fornecido pelo Banco Central, para ver a quantidade de dinheiro que foi “fabricada” neste ano. Como falei no início, a definição básica de inflação é o aumento da quantidade de dinheiro. O governo “inunda” o mercado com dinheiro surgido do nada, o valor deste dinheiro cai, o que faz o preço de todo o resto subir – arroz, óleo de soja, dólar.

O gráfico mostra a evolução da base monetária, que é um termo em economês para a quantidade de dinheiro existente. Estão vendo a subida brusca no lado direito do gráfico? É o ano de 2020. Saltamos de 306 bilhões em março para 423 bilhões em julho (ainda não temos os números de agosto). É um aumento de 40% em quatro meses. Estão vendo que não há nenhuma subida parecida no restante do gráfico? Falando com todas as letras (sei que certos fãs vão reclamar e me xingar): nem FHC, nem Lula, nem Dilma, nem Temer fizeram o que o governo Bolsonaro esta fazendo em termos de inflação.

Olhando pelo lado do equilíbrio produção-consumo: a quarentena afetou fortemente a produção, ou seja, a oferta. Nosso governo, ao invés de corrigir a oferta (por exemplo, facilitando as importações) preferiu estimular a demanda, distribuindo dinheiro. Ou seja, ao invés de buscar o reequilíbrio, demanda e oferta foram empurradas ainda mais longe uma da outra. Imagine um zôo onde há uma certa quantidade de macacos e uma certa quantidade de bananas. Aí um gênio sugere diminuir a quantidade de bananas e ao mesmo tempo aumentar a quantidade de macacos. Alguém duvida que vai dar problema?

Outro fator em que até os economistas estatizantes modernos concordam: taxa de juros. Quem assistia TV em 1992 talvez lembre que um dos primeiros discursos de Itamar Franco quando virou presidente foi falar que iria baixar os juros. Alguém da área econômica deve tê-lo chamado num canto e explicado, e em pouco tempo ele parou de falar no assunto. Já a nossa equipe econômica atual parece que não sabe disso, porque forçou os juros para muito abaixo da realidade (para dar uma ideia, a taxa real de juros fixada pelo nosso governo é menor que a da Suíça). Consequência óbvia, prevista e confirmada tanto na teoria quanto na prática: queda do câmbio e aumento de preços.

Nas últimas décadas, nosso país evoluiu um pouquinho (não muito) em termos de funcionamento institucional. Não chegamos a ter câmbio fixo, o que significaria uma moeda forte e estável, mas o Banco Central chegou a estar próximo de sua função de “guardião da moeda”, que exige independência de pressões políticas. Infelizmente voltamos a piorar, e o Banco Central voltou a atuar como “puxadinho” do Ministério da Fazenda. “Inflação” e “subida do dólar” são na prática sinônimos, já que sempre andam juntos, e confirmam uma antiga frase: “Em país mal governado, o câmbio flutuante não flutua, afunda”.

Conclusão

Inflação existe desde que existem governos controlando a moeda. Surtos inflacionários aconteceram no Império Romano, na Idade Média, na Revolução Francesa, e se tornaram rotina no século XX, quando quase todos os governos do mundo adotaram a prática de ser os donos do dinheiro. No mundo de hoje, falar contra o “direito” dos governos de destruir as economias do povo, como eu estou fazendo, é pregar no deserto. O que podemos fazer é entender do que se trata para tentar se proteger. Se você tem alguns trocados guardados, compre ouro.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DATA VENIA, GUZZO

A edição de ontem da Besta Fubana publicou um artigo do Guzzo contando que as escolas brasileiras completaram 200 dias fechadas, e tem gente querendo mais. O senso comum diz que isso é um absurdo, não discordo, mas acho que pode ser uma oportunidade para irmos um pouco mais fundo no assunto.

O Brasil, embora seja um dos países que mais gastam com educação, e com intenções de gastar mais, está cada vez pior em tudo que diz respeito ao assunto. Quem quiser pode pegar os números de estudos internacionais como o PISA. Quem preferir, basta assistir à TV ou ler as mensagens do facebook para constatar que o brasileiro médio é incapaz de acertar uma concordância, ignora mais da metade das conjugações verbais e não consegue compreender frases com construção mais complexa que o básico sujeito-verbo-predicado (orações subordinadas, nem pensar). Então é o caso de se perguntar: escola para quê?

Alguns dos problemas de nosso sistema de ensino são óbvios: gasta-se mais com três milhões de alunos de universidade do que com quarenta milhões de alunos do ensino fundamental; os burocratas de Brasília insistem em controlar e regulamentar cada detalhe das milhares de escolas pelo país; a família é vista como inimiga e não como parceira indispensável do processo de educar uma criança.

Vou fazer uma pausa para mostrar um exemplo da vida real, relatado pela minha querida ex-funcionária Cida: Ela foi chamada um dia para uma conversa na escola municipal onde seu filho, na faixa dos dez anos, estudava. A coitada ficou uma meia hora ouvindo a diretora e a pedagoga da escola discursarem sobre os “direitos” de seu filho, a importância de respeitar sua “individualidade” e sua “privacidade” e suas “escolhas” e estimular a “tolerância”, a “diversidade” e a “inclusão”, evitando atitudes “repressivas” ou “opressivas” que blá, blá, blá, blá, blá. Quando elas deram uma pausa, Cida se levantou e disse: “Bom, já que vocês sabem melhor que eu como criar meu filho, eu acho melhor deixar ele morando aqui. Me dêem um minutinho que eu vou lá em casa buscar as coisas dele e já volto.” E enquanto falava, já foi levantando da cadeira e saindo. A diretora e a pedagoga correram atrás, aos pedidos de “Calma, dona Aparecida, não é bem assim”, mas só conseguiram parar a Cida já na calçada do lado de fora da escola. Aí ela virou para as duas e disse: “Então eu posso criar o MEU filho do MEU jeito? Vocês deixam? Então ficamos assim: vocês ensinam ele a ler, escrever e fazer conta, que eu ensino ele a ser uma pessoa honesta e trabalhadora. Estamos conversados.”

Claro que seria muito melhor escutar a história do jeito que a Cida me contou do que ler essa transcrição que meu parco talento produziu, mas vocês entenderam o básico: a escola de hoje quer ensinar aos pais como criar seus filhos. Aliás, os burocratas da educação brasileira mal disfarçam que no mundo com que eles sonham, crianças só iriam para casa para dormir. O mantra básico de todos eles é “mais verba!”, e entre as justificativas, sobressaem duas: as crianças devem ir para a escola cada vez mais jovens, e ficar lá cada vez mais tempo. Para quê? Para ensinar é que não é: o mundo acadêmico concorda que crianças com menos de sete anos são incapazes de raciocínios abstratos, o que torna impossível ensinar matemática, ciências ou mesmo gramática. Algumas crianças aprendem a ler aos quatro ou cinco anos, mas a capacidade de compreender e interpretar o que lêem demora mais.

Por outro lado, na hora de impôr modelos de comportamento, quanto mais cedo melhor. Frequentando creches desde alguns poucos meses de idade, ao chegar ao ensino fundamental as crianças já estão perfeitamente condicionadas a não ter individualidade, a se comportar como membros de um grupo homogêneo em que todos agem e pensam da mesma forma, e obedecem sem questionar a todos os rituais estabelecidos: fila para entrar, fila para sair, hora para comer, hora para brincar, hora para ir ao banheiro, sempre submissos e inofensivos.

Costuma-se falar da escola contrapondo os conceitos de “educar” e “ensinar”. Na minha opinião, o que a escola brasileira faz é ADESTRAR, de forma muito parecida com o que se faz com cachorros e cavalos. A razão de ser de todo o sistema é impôr a todos um padrão de comportamento que atenda ao politicamente correto, desestimule o pensamento crítico e, acima de tudo, produza pessoas dóceis, obedientes e dependentes do governo. Escolas e universidades não são lugar para pensar: são lugares para repetir incessantemente o comportamento esperado. No adestramento canino, as ordens são “Junto”, “Senta”, “Deita”. Para os alunos, “Decore”, “Repita”, “Copie”. Como prêmio, ao invés de um biscoitinho, ganha-se um diploma.

O problema é que já estamos pelo menos na terceira geração formada por esse modelo. O pai que frequentou durante anos uma escola que não ensinou nada, apenas exigiu que ele cumprisse o ritual de ficar X horas sentado na cadeira para acumular N créditos e conseguir um diploma, não vai se preocupar se seu filho está aprendendo ou não: ele vai aconselhar o filho a seguir o mesmo caminho e não reclamar.

E como o “dinheiro da educação” no Brasil é coisa de centenas de bilhões de reais por ano, há muita gente que tem todo o interesse do mundo em manter a coisa desse jeito. Já imaginaram se todo mundo descobre que um jovem motivado pode aprender mais com um tablet ligado à internet do que com o professor funcionário público que dá a mesma aula faz vinte anos? Então aparece todo tipo de apelação e mentira para manter a farsa do jeito que está.

Quando se chega nesse ponto, os supostos argumentos não passam de clichês incoerentes, que não resistem a alguns segundos de raciocínio. Exemplo: Quando se quer elogiar a “democracia” (democracia no Brasil só existe entre aspas), a vontade do povo é soberana e cada eleitor é um cidadão modelo, portador das maiores virtudes e com uma perfeita noção de certo e errado. Na hora de falar da escola, aí o governo é necessário para garantir a vida das pobres criancinhas, porque os pais e mães brasileiros (os mesmos que são eleitores tão conscientes) são completamente incapazes de cuidar de seus filhos, e se pudessem os venderiam como escravos para carvoarias ou como matéria-prima para fabricas de salsicha. Da mesma forma, em um momento o brasileiro é trabalhador, é criativo, e se esforça para viver com dignidade, mas no momento seguinte a escola do governo é indispensável porque sem a merenda as crianças do país não teriam sequer um pão velho para comer em casa.

Afinal, somos uma potência mundial ou um país miserável? Afinal, somos um país que erradicou a pobreza ou um país em que as famílias não têm o que comer? Para muita gente, somos as duas coisas alternadamente, conforme a conveniência do momento. Não é com argumentos assim que vamos encontrar uma solução. Aliás, “solução”, no singular, talvez nem exista. O que existem são pequenas mudanças que podem ir se acumulando, até criar uma realidade diferente da que temos hoje. Encerro com algumas idéias soltas sobre algumas possíveis mudanças:

– Não sei como é o currículo do primário hoje, mas eu estudei o nome de todos os ossos e músculos do corpo humano (esternocleidomastóideo!), as características fisiológicas dos platelmintos, nematelmintos e moluscos e as diferenças entre plantas dicotiledôneas e monocotiledôneas. Como eu me formei em eletrônica e fui trabalhar com computadores, tudo isso foi tempo perdido. Nada contra a cultura geral, mas será que biologia, física e química não poderiam ficar para um segundo grau segmentado, como existia antigamente? (Alguns cursavam o “científico”, outros o “clássico”)

– Por outro lado, que tal algumas noções de economia, para o jovem entender como funciona o mundo “dos adultos”, incluindo matemática financeira?

– História e Geografia no meu primeiro grau consistiam simplesmente em decorar nomes e datas. De novo, que tal deixar para uma idade em que o aluno já possa compreender coisas mais complexas, como por exemplo saber que a história é escrita pelos vencedores e deve ser lida com uma pitada de ceticismo?

– Seja com o nome de Filosofia ou Sociologia, seja como Educação Moral e Cívica, doutrinação sempre vai existir. Quase todo adulto é a favor desde que a doutrinação seja do lado que ele acha certo. Aliás, a palavra “doutrinação” parece meio pejorativa, então fica só para as que ele não gosta.

– No mundo conectado de hoje, estudar a sério pelo menos duas línguas estrangeiras é fundamental. Mas é para ser sério, não para ficar um ano inteiro ensinando o verbo To Be.

– Crianças precisam aprender o mais rápido possível a ler e a interpretar o que leram. Depois disso, o resto fica fácil. Mas na escola, corre-se para enfiar goela abaixo a maior variedade possível de conteúdos sem que o aluno esteja pronto para digerí-los. O resultado é indigestão.

– Para encerrar com um toque de polêmica, o currículo escolar dos meus sonhos: dos seis aos dez anos, matemática básica (aritmética e lógica), um pouco de gramática, um pouco de artes e muita interpretação de texto, em português e mais uma ou duas línguas. Dos onze aos treze, um pouco mais de matemática (álgebra, geometria e matemática financeira), um pouco mais de gramática e artes, e muita interpretação e produção de textos (conhecida como redação). Aos quatorze e quinze, história e geografia juntas, mas feito para ser entendido, não decorado. E dos dezesseis aos dezoito, uma espécie de pré-faculdade já segmentada por áreas: ciências exatas, ciências biológicas, ciências sociais (sobre o ensino superior, fica para outro pitaco).

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PIB = PORCARIA INÚTIL E BESTA

Você acha que pode existir uma família rica em que todos os integrantes desta família são pobres? Não faz sentido, não é? E um país rico onde todos os cidadãos deste país são pobres, faz mais sentido? Não, não faz, mas essa bobagem, ao contrário da outra, muita gente engole. Vou tomar a ousadia de dizer que esse é o dilema fundamental da vida em sociedade: o estado existe para atender às pessoas ou as pessoas existem para atender ao estado?

Falando assim, parece óbvio, mas o interessante é que muita gente diz que prefere a primeira opção, mas age de acordo com a segunda. O estado se esforça muito para que as coisas continuem assim; é importante que as pessoas acreditem que o estado está sempre certo, e que é do estado que vêm todas as coisas boas. Isso é ensinado nas escolas desde o primeiro dia de aula, e um monte de artifícios do dia-a-dia está sempre reforçando essa idéia.

Um destes artifícios é uma porcaria matemática chamada PIB – essa mesma que é repetida por economistas, jornalistas, políticos e por todo mundo que acredita que o governo cuida de nós. A fórmula do PIB foi criada nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, e é justamente durante as guerras que os políticos levam ao extremo a idéia de que países estão acima de tudo, e pessoas existem para trabalhar e morrer por ele. A idéia é que “PIB maior” é uma coisa boa, então quando o governo fala que o PIB aumentou, todo mundo fica feliz e acredita que o governo está certo. Mas está mesmo?

O conceito do PIB (que significa Produto Interno Bruto) é o de país rico com povo pobre: ele valoriza o total de dinheiro gasto, não importando se esse gasto foi útil ou não para a população. O que importa é acreditar que um número grande significa algo bom.

Qualquer um que tenha tido aulas de economia na faculdade conhece a fórmula: PIB = C + I + G + X – M. Na fórmula, C e I representam os gastos e investimentos privados. G é o gasto do governo. X é o total de exportações e M o total de importações.

Um dos problemas básicos é que o cálculo não mostra a utilidade dos gastos: para o PIB,não há diferença entre as pessoas comprarem coisas que sejam úteis ou o governo obrigá-las a comprar kits de primeiros socorros para seus carros, para ficar em um exemplo simples. Ou, como gostam de dizer os adeptos da escola austríaca, se o governo contratar metade da população para cavar buracos no meio da rua e a outra metade para tampá-los, o país teria um PIB maravilhoso.

Outro problema é que, na fórmula, quanto mais o governo tira dinheiro das pessoas para gastar, mais o total cresce. Então quanto mais o governo faz o que não devia fazer, que é tomar o dinheiro das pessoas, mais parece que ele está certo. Aliás, os governos costumam adotar políticas que tem a intenção específica de aumentar o número do PIB, como forma de mostrar ao povo que é eficiente. Claro que isso torna o resultado ainda mais inútil. Esse efeito é conhecido na ciência como Lei de Goodhart: Quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.

Se, por exemplo, o governo dinamitasse a ponte Rio-Niterói e gastasse um bilhão de reais para reconstruí-la exatamente do mesmo jeito, o PIB subiria um bilhão de reais. E se o governo fizesse isso três vezes seguidas, o PIB subiria três bilhões. E, para completar o absurdo, o dinheiro gasto para limpar o entulho das pontes dinamitadas também melhoraria o PIB.

Se milhares de pequenos empresários, em conjunto, produzem cinco bilhões de reais por ano em produtos, eles contribuem para o PIB com cinco bilhões. Mas se o governo toma 20% do faturamento destes empresários e usa o dinheiro para construir uma arena padrão FIFA em Cuiabá ou Manaus, o PIB aumenta mais um bilhão. E quanto mais dinheiro o governo toma das pessoas que trabalham, mais o PIB sobe, não importa se o dinheiro foi usado para construir pontes, pagar aspones ou comprar lagostas para os juízes.

Aliás, os adeptos das teorias keynesianas costumam dizer que não importa se os gastos do governo (feitos com nosso dinheiro, nunca esqueça) são eficientes ou não: o que importa é que o dinheiro irá circular na economia. Por essa lógica, assaltos e corrupção também são coisas boas, porque ladrões e políticos também irão gastar o dinheiro que roubaram, e movimentar a economia.

Falta falar da última parte da fórmula: a que considera exportações como “positivas” e importações como “negativas”. Mais uma vez, isso significa colocar artificialmente o estado acima das pessoas, porque na verdade países não exportam ou importam: quem faz isso são os seus habitantes. Mas a lógica do PIB diz que se um agricultor do Rio Grande do Sul vender seus produtos para um supermercado em Montevidéu ao invés de um em Porto Alegre, isso afetará a vida de todos os outros brasileiros. E se o mesmo agricultor, com o dinheiro que ganhou, comprar uma garrafa de vinho uruguaio, a lógica do PIB também diz que isso afetará a vida de todos os brasileiros. Por outro lado, a realidade econômica mostra que todos os países desenvolvidos e prósperos importam e exportam muito. Mas para a fórmula do PIB, um país que importa cem e exporta cem é igual a um país que exporta dois e importa dois.

Cada vez que um trabalhador autônomo no Brasil compra um celular, algo que vai melhorar sua produtividade e ajudá-lo a melhorar de vida, o PIB piora (não esqueça que o Brasil não fabrica celulares; no máximo, aperta os parafusos das peças importadas). Isso também acontece cada vez que um trabalhador compra uma ferramenta, um computador, uma máquina ou qualquer coisa que vai melhorar sua vida, se essa coisa for contaminada pelo “pecado” de ter sido fabricada em outro país.

Em resumo: o cálculo do PIB é uma aberração econômica que serve apenas para dar importância a governos inchados e gastadores. Deveria ser esquecido, substituído por algo que faça sentido, mas isso não acontecerá, porque toda a burocracia que mantém esta estrovenga é paga pelo governo – com nosso dinheiro.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PARA QUE SERVE A ANVISA?

Você sabe o que é Lenalidomida? Eu desejo que você nunca precise saber: lenalidomida é um medicamento usado para combater um tipo de câncer chamado mieloma múltiplo. Foi aprovado nos EUA em 2005, e é utilizado em mais de 70 países, mas não no Brasil: a ANVISA negou duas vezes o pedido de registro. Não deixa de ser interessante notar que a OMS, que muitos hoje consideram uma fonte de sabedoria divina (pelo menos no que diz respeito ao COVID), não apenas reconhece a eficácia da lenalidomida como a inclui em sua “Lista de remédios essenciais”, considerada referência para políticas públicas de saúde em todo o mundo. Mas por aqui quem têm mieloma múltiplo precisa recorrer a um contrabandista que traga o medicamento do exterior ou tentar conseguir uma liminar na justiça que permita importá-lo legalmente.

A lenalidomida é apenas um exemplo aleatório entre as centenas ou talvez milhares de casos de remédios que são utilizados por todo o mundo, mas são proibidos no Brasil por essa entidade chamada ANVISA. Para citar uma situação mais genérica: se você precisa de um exame de raio-x, tomografia, ressonância magnética ou outro qualquer, você gostaria de usar o equipamento mais moderno e avançado possível, certo? Errado: o prazo médio para a ANVISA aprovar a venda de equipamentos médicos no país é de quatro anos. Em outras palavras, um hospital ou clínica no Brasil só consegue comprar um equipamento quando ele já está quase fora de linha em outros países.

Por que uma aberração como essa existe? Pelo mesmo motivo que existem todas as outras aberrações criadas pelo governo: as pessoas acreditam cegamente que órgãos criados pelos políticos e que empregam pessoas indicadas pelos políticos são perfeitos, honestos, imaculados e existem para nos proteger dos empresários malvados e do capitalismo selvagem. Claro que a realidade é exatamente o contrário: a ANVISA, assim como as demais agências e órgãos reguladores do governo, zela pelo interesse das empresas amigas e do próprio governo, e não dá a mínima para o interesse da população.

A população também não ajuda: qualquer político que defender a redução do poder da ANVISA será xingado e escrachado como “inimigo do povo”. O povo brasileiro adora que existam órgãos do governo proibindo-o de ter acesso às coisas que existem em outros países. Essa adoração não vê problema nenhum em ser contraditória, como aconteceu quando nossos deputados decidiram passar por cima da ANVISA e liberar na marra um medicamento duvidoso chamado fosfoetanolamina, que foi carinhosamente apelidado pelo povo de “fosfo”. Neste caso específico, a maioria da população defendia que o remédio fosse liberado, mesmo sem nenhum estudo científico que mostrasse sua eficácia, mas ninguém lembrou de expandir o argumento para os outros medicamentos que a ANVISA proíbe. Aliás, arrisco dizer que a maioria dos defensores da “fosfo” acha certo que a ANVISA proíba os outros remédios – mas não peça uma explicação racional.

Duas políticas orientam as decisões da ANVISA: a primeira, como já disse, é defender as grandes corporações amigas do governo, bloqueando a concorrência. Ao impedir a venda dos remédios mais modernos, ela obriga a população a usar os remédios mais antigos, menos eficazes, mas que trazem lucros muito maiores para os seus fabricantes. O maior custo de um remédio é a fase de pesquisa. Depois de aprovado e lançado, boa parte do preço de um remédio serve para repor o dinheiro investido em seu desenvolvimento, e depois que este desenvolvimento está amortizado, a margem de lucro cresce muito.

A segunda política que norteia a ANVISA serve como remendo para outra política infeliz do governo: a idéia que remédios devem ser pagos com dinheiro público. Dizer que o governo deve bancar (com nosso dinheiro) qualquer tratamento que alguém necessite é música para os ouvidos das indústrias farmacêuticas. Como o governo não têm a coragem ou a inteligência de explicar que o dinheiro público não é infinito nem nasce em árvores, usa-se o quebra-galho de alegar que o medicamento não está aprovado como desculpa para não pagá-lo. Claro que tudo acaba na justiça, e como não podia deixar de ser, os pobres é quem saem perdendo. Os ricos podem pagar advogados caros, que têm acesso aos tribunais superiores, sempre mais generosos, e conseguem que os impostos de todos banquem seus tratamentos superfaturados.

Para encerrar, volto à lenalidomida com uma informação interessante, vinda do sistema de saúde britânico, que é totalmente estatal e consequentemente adorado por todos os brasileiros fãs de governos grandes: Em 2013, o NICE, órgão do ministério da saúde inglês, vetou o seu uso em casos de síndrome mielodisplásica da medula (MDS), argumentando que (tradução literal) “o fabricante não apresentou evidências suficientes que justifiquem o custo de 3780 libras por mês da lenalidomida para o tratamento de MDS”. Repetindo: o governo inglês não disse que o medicamento não funciona, ou que têm efeitos colaterais. Disse, com todas as letras, que o remédio “não justifica o custo”.

Convém lembrar disso sempre que ouvirmos o governo (ou a ministra Carmem Lúcia) dizendo que “saúde não é mercadoria” e que o SUS protege os pobres dos capitalistas malvados.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FALÁCIAS

Debater é trocar idéias. Ou deveria ser. Infelizmente, o clima das redes sociais desestimula a troca de idéias como forma de produzir conhecimento, e estimula a competição. Cada vez mais, as pessoas vêem o debate como uma guerra que deve ser vencida, e os debatedores como inimigos que devem ser destruídos a qualquer preço; se não for com argumentos sinceros e verdadeiros, que seja pela mentira, pela malícia, pela apelação ou pelo xingamento. O que importa é sair do debate achando-se vencedor. A consequência, claro, é que ninguém aprende nada, porque todos participam do debate firmemente decididos a não mudar de opinião em hipótese alguma.

Entre as mentiras e apelações que aparecem nessa situação, estão as falácias. A definição técnica diz que falácia é um argumento que contém uma falha lógica, ou seja, que não faz sentido, embora tenha a aparência de um raciocínio válido. Os estudiosos da linguagem definem dezenas de tipos específicos de falácias. Vamos conhecer as mais importantes:

Apelo à ignorância: É usar o próprio desconhecimento como prova de alguma coisa. Pode se dar de forma geral, quando alguém apoia certo modo de pensar porque é o único que conhece, e acredita que não existem outros, ou de forma específica, quando alguém que desconhece determinado fato acha que isso prova que o fato não existe. É comum em pessoas que defendem políticos (“não sei de nenhuma acusação contra fulano”, “nunca vi fulano envolvido em um caso de corrupção”).

Falsa dicotomia: É o pensamento estrito do tipo ou-isso-ou-aquilo. No sentido mais específico, é quando se reduz qualquer situação a apenas duas opções, uma certa e uma errada, implicando a sua idéia é a única opção contra uma determinada coisa (“Todos os políticos são bandidos, menos o meu”). De forma mais abrangente, pode-se também usar o termo para o radicalismo de grupo que têm se espalhado da política para outras áreas da sociedade (“Quem não concorda comigo é bandido/desonesto/corrupto/ignorante/fascista/comunista”).

Argumento da Autoridade: É dizer que os títulos ou cargos de alguém tornam a sua opinião superior à dos outros, como no popular “você sabe com quem está falando?”. Quem não tem argumentos consistentes para defender uma idéia sempre tem uma lista de autoridades e doutores que supostamente concordam com ele.

Ad hominem – significa “ao homem” em latim. Consiste em afastar um argumento atacando a pessoa que argumentou. Coisas do tipo “Quem defende o político X tem mais que ficar quieto” ou “Se você defende a ideologia Y, não tem moral para falar nada”, ou ainda “Quando tinha cinco anos você comeu uma bolacha do colega na escola, então nada do que você disser tem valor”.

Espantalho – consiste em assumir como verdade uma série de mentiras ou exageros em relação a uma idéia ou pessoa, e atacar essas mentiras. Muito usado em acusações pessoais: “Você apóia o político X? Então você é a favor do crime, da corrupção, da imoralidade, de comer criancinhas?”

Ladeira escorregadia – significa “esticar” uma idéia até o absurdo para tentar mostrá-la como ridícula. Exemplos: “Se flexibilizarem o Estatuto do Desarmamento, as pessoas vão andar com bazucas pela rua”; “Se descriminalizarem a maconha, vão distribuir heroína na merenda escolar”.

Verdadeiro escocês – A expressão vem de uma piada sobre um escocês em um pub que disse “nenhum escocês de verdade põe gelo no uísque”. Seu companheiro apontou para o McDougall, um sujeito no bar usando kilt, com uma gaita de fole pendurada no ombro e tomando uísque com gelo. O outro respondeu “McDougall não é um verdadeiro escocês”. No mundo moderno, significa excluir do grupo os exemplos ruins, como na expressão popular “filho feio não tem pai”. A esquerda já se tornou caricata com clichês como “Deturparam Marx” e “A Venezuela não é o verdadeiro socialismo”. Obviamente, isso não impede que a direita faça o mesmo nas situações inconvenientes (“fulano não é conservador de verdade”).

Monopólio da virtude – complementa o anterior. Significa incluir no seu grupo qualquer pessoa que pareça ser um “bom exemplo”. Albert Einstein disse certa vez “Se minhas teorias estiverem certas, a Alemanha dirá que sou alemão, enquanto a França dirá que sou um benfeitor de toda a humanidade. Mas se meu trabalho fracassar, a França apontará que sou alemão e a Alemanha lembrará que sou judeu”.

Non sequitur – significa “não se segue”. Usado para mostrar uma lógica falha, que não faz sentido. Uma forma comum é mostrar um fato verdadeiro e em seguida fazer uma segunda afirmação que parece ser uma consequência lógica da primeira. Exemplo: “Existe muita corrupção no Brasil, portanto é preciso votar no partido X”. Que existe corrupção é certo, mas isso por si só não prova que o partido X seja uma solução. Outro modo é fazer uma afirmação questionável e usá-la como base da segunda afirmação: “É preciso acabar com a desigualdade, portanto é preciso votar no partido X”. Mas será mesmo que “é preciso acabar com a desigualdade” é uma verdade estabelecida?

Por último, vale lembrar que muitas vezes a diferença entre uma figura de linguagem e uma falácia como estas está apenas na boa vontade e na capacidade de compreensão do receptor, e que em decorrência disso, também existe a falácia de rebater um argumento válido com “isso é falácia do ….”.

Como disse no início, a diferença está em debater com sinceridade ou não.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DESIGUALDADES

Uma relação de emprego pode ser vista sob dois pontos de vista completamente diferentes. No primeiro, é um negócio fechado de comum acordo entre duas pessoas adultas e responsáveis por si mesmas. De um lado, um empresário que precisa que determinado serviço seja feito. De outro, um empregado disposto a fazer o serviço em troca de um pagamento. Os dois lados chegam a um consenso, elaboram um contrato especificando os termos, e todos ficam felizes. Como se dizia antigamente, “o que é combinado não é caro para ninguém”.

O outro ponto de vista parte de princípios completamente diferentes. Seus defensores acreditam que um emprego é, antes de tudo, um “direito”, que deve vir acompanhado do maior número possível de “benefícios”. Saúde, educação, transporte, moradia, filhos e mais alguma coisa devem ser uma preocupação e uma responsabilidade não de cada pessoa, mas de seu empregador. É este quem deve arcar com as consequências das escolhas e decisões dos empregados.

Os defensores deste segundo ponto de vista costumam defender que alguns devem ganhar mais, mas detestam a idéia de alguém ganhar menos. Reclamam da desigualdade, e defendem que todos são “iguais” e todos merecem ganhar a mesma coisa. Ao mesmo tempo, acham que o salário não deve ser determinado pelo que cada um produz, mas pelas “necessidades”, e daí o salário deve ser maior para quem tem mais filhos, ou sustenta os pais, ou mora na favela, ou usa óculos, ou outra coisa qualquer. É ilógico, claro, mas em um país onde não se ensina matemática nas escolas, não é surpresa as pessoas acharem que A pode ser maior que B sem que B seja menor que A.

Não é preciso dizer que o primeiro ponto de vista combina com o livre mercado: cada um ganha de acordo com o que produz, e todos são livres para buscar o que acham melhor para si mesmos. O segundo ponto de vista combina com socialismos e intervencionismos, e é difícil de analisar porque não se baseia na lógica. Sempre que escuto um defensor do comunismo dizendo “de cada um segundo sua capacidade, para cada um segundo sua necessidade”, fico pensando quem, e com que parâmetros, vai determinar qual a capacidade e qual a necessidade de cada um. Conheci na Internet um ferrenho defensor desta teoria, que morava em uma cobertura de frente para o mar em Fortaleza. Como não é fisicamente possível que todas as pessoas do planeta morem em coberturas de frente para o mar, perguntei a ele várias vezes qual critério seria usado, caso suas propostas de igualdade universal fossem implantadas, para determinar quais pessoas teriam esse direito. Infelizmente, ele nunca me respondeu.

Uma das desigualdades “da moda” é a suposta diferença salarial entre homens e mulheres. Jornalistas, sendo jornalistas, fuçam pesquisas e trabalhos acadêmicos para encontrar o número mais escandaloso e estampá-lo em manchetes bombásticas.

Será que a tal desigualdade existe? Tenho cá comigo três argumentos que dizem que não:

1 – Se fosse encontrada uma empresa onde esta disparidade fosse comprovada, alguém duvida que as redes sociais fariam um grande escândalo, com passeatas, manifestações, pedidos de boicote e talvez algumas depredações? Se até hoje nunca aconteceu, deve ser porque nunca encontraram, e garanto que não foi por falta de procurar.

2 – Se fosse verdade, os índices de desemprego para as mulheres deveriam ser significativamente menores que para os homens. Afinal, os empregadores não são capitalistas malvados que só buscam o lucro? Porque então contratariam mão-de-obra mais cara (os homens) se poderiam contratar uma mulher para a mesma função e pagar menos?

3 – Várias leis brasileiras impõem a igualdade salarial. Uma mulher que ganhasse menos que um colega homem só precisaria contratar um advogado trabalhista (e são muitos) para receber via Justiça do Trabalho um bom dinheiro.

Mas existem pesquisas que dizem que o salário médio das mulheres é menor que o dos homens? Sim, existem. Por que? Porque estão falando de atividades diferentes. Se existem pesquisas que mostrem desigualdade salarial entre os sexos na mesma função, eu desconheço. Mas é um fato que, estatisticamente, homens e mulheres fazem escolhas diferentes no que diz respeito à sua vida profissional (e pessoal também, porque não?). Basta olhar as pesquisas para constatar que muito mais mulheres que homens dizem colocar outras prioridades acima do salário (satisfação pessoal, ambiente agradável, horário flexível, etc). Vendo pelo outro lado: é maior o número de homens que aceitam abrir mão dessas vantagens em troca de um salário maior.

Nos níveis mais altos, os salários são definidos pelas qualidades individuais. Não há um salário padrão para gerentes, diretores, planejadores, analistas; no máximo um valor inicial médio que serve de referência. Daí para cima, o salário varia de acordo com o valor que cada um produz. Empresas sempre querem os melhores funcionários, e pagam por isso. Achar que empresas se dão ao luxo de desperdiçar bons empregados por machismo (ou outro preconceito qualquer) é no mínimo ingênuo – e no máximo, uma mentira consciente e intencional.

Nas funções inferiores, o processo é mais coletivo que individual. Nesta área, o maior causador da desigualdade salarial entre homens e mulheres é a legislação. Ao criar “direitos” para as mulheres, a lei cria “obrigações” para as empresas que custam caro. Podendo escolher entre pagar mais caro e se incomodar mais ou pagar mais barato e se incomodar menos, muitas empresas (mesquinhas, gananciosas, etc, etc, etc) preferem contratar homens. Havendo menos vagas para as mulheres, pela inevitável lei da oferta e procura, o salário médio cairá. Além disso, a oferta de empregos já é naturalmente menor para as mulheres por excluir uma gama de atividades penosas e perigosas, que vão de carregar e descarregar caminhões a escavar túneis.

As pesquisas, estas mesmas que os indignados usam ao gritar suas supostas “denúncias”, mostram claramente, para quem souber examiná-las de forma lúcida, que diferenças salariais são consequência de decisões pessoais. Uma pessoa que se dedica a fazer algo que é valorizado, e se torna competente nisso, certamente ganhará bem. Um pessoa que resolve fazer o que gosta, não se importando se isso é valorizado ou não pelos outros, provavelmente irá ganhar menos. Algumas pessoas certamente dirão que não é “justo” que uma pessoa ganhe menos por fazer algo que ninguém quer. Infelizmente, por mais que alguns gritem até perder o fôlego que o direito A ou B “é possível, basta querer”, a realidade costuma mostrar o contrário.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PROTECIONISMO

Em 2012, em seu discurso anual no Congresso, o presidente Obama declarou que “mais de mil empregos na indústria de pneus foram salvos graças à ação do governo para limitar a importação de pneus da China”. Não foram milhões, ou centenas de milhares. Ele disse apenas “milhares”. Segundo um estudo do Peterson Institute for International Economics, o número exato de empregos “salvos” foi de 1200. O estudo também concluiu que graças à ação do governo, os cidadãos dos EUA gastaram naquele ano 1,1 bilhões de dólares a mais para comprar os pneus, o que significa que cada emprego “salvo” custou 926 mil dólares por ano.

Um exemplo mais completo: até o final dos anos 70, praticamente todos os “chips” de memória para computadores eram fabricados nos EUA. No início dos anos 80, os fabricantes japoneses começaram a ganhar mercado. Em 1985, os grandes fabricantes norte-americanos procuraram o governo com as queixas de sempre: o governo deveria “proteger a indústria local”. Os fabricantes estrangeiros estariam adotando “práticas desleais” e supostamente vendendo seus chips por preços abaixo do custo de produção. Estes argumentos são como música para os ouvidos dos políticos. O governo Reagan negociou com o Japão um acordo para “regular” o mercado através de cotas de importação, preços mínimos e tarifas especiais. O resultado? Uma memória 256K que custava 2,50 em maio de 1987 passou a custar 12,50 em junho do ano seguinte, quando as restrições entraram em vigor. Vários fabricantes de computadores enfrentaram crises na produção por falta de componentes. Os preços subiram, e os consumidores foram prejudicados.

O que havia de verdade nas alegações das indústrias norte-americanas? Nada, apenas a choradeira de sempre. Os fabricantes japoneses estavam ganhando mercado porque seu produto era melhor e mais barato. Um estudo da Hewlett-Packard (que é americana) mostrou que em 1980 a taxa média de defeitos dos chips fabricados nos EUA era de 0,78 ppm, contra 0,16 dos fabricantes japoneses. E as fábricas japonesas vendiam mais barato porque sua produção era mais eficiente. Após dois anos de crise e muito prejuízo para o consumidor, o mercado voltou a se estabilizar, e a bagunça que o governo inventou não ajudou em nada a indústria local: até o final da década, todas as grandes indústrias eletrônicas dos EUA desistiram de fabricar chips de memória RAM, incapazes de concorrer com as indústrias japonesas. Estas, por sua vez, também viram sua alegria durar pouco: no início do século 21, dois terços do mercado mundial já estava nas mãos de fábricas sul-coreanas.

Claro que isso não é novidade. Na verdade, governos meterem os pés pelas mãos ao tentar “corrigir o mercado” é a regra do que a exceção. Na Europa já é tradição os ricos mudarem de país conforme os diversos países mudam seus impostos, sempre com uma míope visão de curto prazo. Nos anos 60, por exemplo, a Inglaterra aumentou a alíquota máxima do imposto de renda para 95%. Todos os milionários, incluíndo celebridades da música e do cinema, saíram de lá. A Inglaterra desistiu, mas o exemplo não serviu para a França, que recentemente adotou a mesma medida populista de “cobrar mais dos ricos”. Serviu para gerar a publicidade negativa de ver Gerard Depardieu adotar a nacionalidade russa.

Aqui no Brasil, histórias como essa não são ensinadas nas escolas. Pelo contrário, histórias sobre a “maldade” dos empresários e a “sabedoria” dos governos ao regular o mercado são considerados dogmas que não admitem questionamento, e devem ser repetidos com fé e crença inabalável.

Por exemplo: temos, faz muito tempo, um acordo comercial com o México para importação e exportação de veículos. O mercado entre os dois países deveria ser totalmente aberto, mas sempre esteve sujeito a cotas “temporárias”. Recentemente, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) pediu ao governo “a prorrogação, por mais três anos, do sistema de cotas, por que a competitividade da indústria brasileira é muito inferior à do parceiro, que tem carga tributária interna menor, infraestrutura mais eficiente e elevada escala, por exportar a maior parte de sua produção”. Em outras palavras: somos incompetentes para produzir; as pessoas devem ser proibidas de comprar automóveis fabricados por gente mais competente que nós e obrigadas a pagar mais caro pelos automóveis que nós, os incompetentes, produzimos.

É um círculo vicioso: se a indústria local tem comprador garantido para seu produto mais caro, porque ela vai se esforçar para ser eficiente? Na verdade, ela vai tentar ser cada vez menos eficiente, para ter mais argumentos para pedir ainda mais proteção ao governo. Cada vez que o governo obriga as pessoas a pagar mais caro do que seria necessário por algo, ele prejudica todas as pessoas e todas as outras empresas, já que quem gasta mais em uma coisa precisa gastar menos em outra.

Para quem gosta de analisar a economia a partir de números, existem vários índices e parâmetros para comparar as opções que diferentes países fazem. Comparando diferentes parâmetros (em economês, “correlacionando”), é possível dizer quais as escolhas boas e ruins. Existe uma correlação quase impossível de refutar: países ricos tem a economia aberta, sem restrições à importação; países pobres são o contrário, o governo impõe um sem-fim de obstáculos, tarifas, normas e proibições ao comércio exterior.

O Brasil, obviamente, está no segundo grupo. Os otimistas podem dizer que estamos melhorando: no ranking 2020 da Heritage Foundation, subimos para a 144ª posição e ultrapassamos o Haiti.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

VINTE E QUATRO ANOS DEPOIS

Em 1º de agosto de 1996, 24 anos atrás, durante as Olimpíadas de Atlanta, eu saí mais cedo do trabalho, cheguei em casa e liguei a TV. Era a semifinal do vôlei feminino, Brasil e Cuba.

Que jogo bonito foi aquele. Para quem não lembra ou não era nascido, era a época de Fernanda Venturini, Ana Moser, Leila, Ana Paula, Márcia Fu, Sandra. Uma jogadora em especial me impressionou muito: Virna. Era a personificação daquilo que os jornalistas esportivos antigos chamavam de “raça” (e os novos, tão bobinhos, chamam de “entrega”). Em cada jogada, o rosto dela parecia dizer “Se eu precisar ficar aqui a noite inteira jogando, eu fico. Se eu precisar jogar até arrebentar meu braço, eu fico, mas EU NÃO VOU DESISTIR”.

Lá pelas tantas, comentando a boa performance da Virna, o locutor disse “que belo jogo, e pensar que no Brasil ela está sem time. É, Brasil, a Virna está desempregada!”. Naquele momento, meus olhos se embaçaram de lágrimas – e agora, enquanto escrevo estas linhas, também.

O resultado do jogo foi 3 x 2 para Cuba e o fim do sonho do ouro, restando a esperança do bronze.

Mas a questão não é apenas o jogo, mas todo o contexto em que ele ocorreu.

No dia anterior, 31 de julho, o “glorioso” futebol brasileiro também havia disputado sua semifinal, contra a Nigéria. Sabem aquela expressão do futebol “jogar de salto alto”? Bem, para nossa seleção, salto alto era pouco. Eles entraram em campo com um salto agulha de pelo menos 10 cm, meia fina de seda, uma mini-saia bem justa e um top enfeitado com cristais Svarowski. Ou seja, roupa de puta, mas puta muito bem paga, que é o que eles eram.

O Brasil começou o jogo com a postura “a gente ganha esse jogo a hora que quiser”. Fez três gols no primeiro tempo e a soberba virou desdém. Na volta para o segundo tempo, a atitude estava mais para “ai, que saco ter que ficar jogando em vez de ficar na piscina do hotel”. Já os nigerianos mostravam a mesma vontade de vencer que a Virna mostraria no dia seguinte.

Para não encompridar a história, a Nigéria virou e ganhou de 4 x 3. O time brasileiro saiu de campo com uma cara ofendidíssima, como se o adversário tivesse cometido uma grave indelicadeza ao vencer o jogo.

No dia seguinte, o da semifinal do vôlei, a TV deu a notícia (não me recordo se durante o jogo ou depois, no noticiário): o Brasil pediu aos organizadores em Atlanta para (caso ganhassem o jogo, naturalmente) receber as medalhas de bronze no mesmo dia, alegando que queriam retornar logo ao Brasil. O motivo verdadeiro era óbvio: a Nigéria disputaria a final com a Argentina, favorita, e os brasileiros não queriam correr o risco de ter que ficar no degrau inferior do pódio ao lado dos argentinos campeões.

No dia 2, a seleção de futebol ganhou de Portugal, recebeu suas medalhas de bronze sozinha no pódio e voltou correndo para o Brasil.

No dia seguinte, o vôlei feminino ganhou da Rússia em outro jogo épico e também conquistou o Bronze.

Neste mesmo dia, a seleção da Nigéria ganhou da Argentina (que também entrou em campo achando que o jogo já estava ganho). No pódio, Nigéria no alto, recebendo o ouro. De um lado, Argentina recebendo a prata. De outro lado, onde deveriam estar os covardes, medíocres, vagabundos, venais, indignos, infelizes e patéticos representantes do Brasil, havia um lugar vazio.

Eu senti uma enorme e profunda vergonha de ser brasileiro. E prometi que um dia, em algum lugar, faria meu desagravo às valentes mulheres do vôlei que representaram seu país com dignidade.

Obrigado, Berto, por me proporcionar essa chance.