MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

BILIONÁRIOS

A relação dos nomes dos mais ricos do mundo volta-e-meia aparece na mídia, e eu já tinha sentido vontade de pitaquear a respeito. Na semana passada, meu colega fubânico Sancho Pança publicou a lista dos “dez mais”, e eu decidi “matar a vontade”.

Como o Sancho disse, a lista muda constantemente. Os dados que eu usei estão na página Forbes (atualização diária!).

Jeff Bezos (Amazon), 180 bilhões: A mãe de Bezos era uma estudante de 17 anos, e seu pai era dono de uma loja de bicicletas. Eles se divorciaram quando ele ainda era bebê, e sua mãe casou-se então com um imigrante cubano que se formou em engenharia nos EUA. Na vida escolar, Bezos destacou-se como um aluno brilhante, acumulando prêmios e títulos. Abandonou o cargo de vice-presidente de um fundo de investimentos, aos trinta anos, e fundou a Amazon com suas economias.

Bernard Arnault e família (LVMH), 140 bilhões: O pai de Bernard presidia uma empresa de engenharia fundada pelo sogro. Bernard formou-se engenheiro em uma faculdade de prestígio na França e começou a trabalhar na empresa da família aos 22 anos. Aos 35 adquiriu uma empresa que era proprietária de várias marcas de luxo, e que através de aquisições posteriores se transformou no grupo LVMH (Lois Vuitton – Mouton – Hennessy).

Bill Gates (Microsoft), 118 bilhões: Filho de um advogado bem-sucedido, Bill descobriu a informática aos 13 anos, quando sua escola usou o dinheiro arrecadado em um bazar para adquirir um terminal de computador (em 1968). Um ano depois, ele e mais três colegas já trabalhavam “profissionalmente” na área. Aos vinte anos, trancou sua matrícula na Universidade de Harvard para fundar a Microsoft.

Elon Musk (Tesla), 110 bilhões: Filho de um engenheiro sul-africano, Elon teve seu primeiro computador aos dez anos de idade. Aos 18 anos, mudou-se para o Canadá e aos 21, para os Estados Unidos, onde graduou-se em economia e física. Aos 24 anos, interrompeu seu doutorado para fundar uma empresa de informática com seu irmão.

Mark Zuckerberg (Facebook), 98 bilhões: Filho de um dentista, Mark foi considerado um aluno brilhante. Quando cursava o segundo grau recebeu vários prêmios e falava francês, hebraico, latim e grego. Abandonou a faculdade em Harvard para lançar o Facebook.

Warren Buffet (Berkshire Hathaway), 86 bilhões: O pai de Warren, embora tenha sido eleito deputado quatro vezes, não era rico. Warren teve uma educação austera e quando criança trabalhou entregando jornais e vendendo doces, entre outras coisas. Ao terminar o segundo grau, cogitou não cursar uma faculdade para poder trabalhar em tempo integral, mas foi proibido por seu pai. Após formar-se em Administração, começou a trabalhar no mercado financeiro.

Larry Ellison (Oracle), 76 bilhões: Filho de uma mãe solteira, Larry foi criado pelos tios de sua mãe. Foi um bom aluno, mas nunca chegou a se formar em uma faculdade. Trabalhou em várias empresas de informática e fundou a Oracle com 33 anos, com um capital inicial de dois mil dólares.

Larry Page (Google), 75 bilhões: Filho de dois professores universitários, Larry esteve em contato com computadores desde a infância. As pesquisas que fez para sua tese de doutorado em Stanford deram origem ao Google.

Amancio Ortega (Zara), 75 bilhões: Filho de um ferroviário espanhol, Amancio só estudou até os 14 anos, quando começou a trabalhar em uma loja de roupas. Tornou-se empresário aos 27 anos, e 12 anos depois criou a marca Zara, a mais conhecida do grupo.

Mukesh Ambani (Reliance), 74 bilhões: Filho de um pequeno comerciante, Mukesh formou-se em engenharia química na Índia e começou uma pós-graduação nos EUA, que interrompeu para trabalhar na empresa de seu pai. Em cinco décadas, a empresa transformou-se em um conglomerado que atua nas áreas de petróleo, petroquímica, telecomunicações, finanças e entretenimento.

Algumas constatações:

– Quatro deles atuam na área de software, um atua em comércio eletrônico, um na área financeira e quatro no tradicional indústria-e-comércio.

– Nenhum deles nasceu em família milionária nem herdou um império já pronto, como gostam de se queixar os panfletários do coitadismo.

– Uma carreira acadêmica brilhante não parece ter sido determinante na história de nenhum deles, embora a maioria tenha demonstrado inteligência acima da média quando estudante.

– Nenhum deles enriqueceu graças a benefícios do governo ou reservas de mercado. Ao contrário, todos eles estão expostos à concorrência.

– Todos eles assumiram o risco de dedicar-se a um projeto, alguns abandonando a escola, outros abandonando um emprego seguro.

Mas o mais importante, na minha opinião, é lembrar que nenhum deles têm estes bilhões de dólares guardados em uma gaveta ou em uma conta bancária. A maior parte de sua riqueza consiste nas ações de suas empresas, e ações só valem alguma coisa quando são de empresas lucrativas. Ou seja, ao invés de vê-los como “donos de uma fortuna”, eu prefiro vê-los como “donos de uma empresa que satisfaz seus consumidores”. E quando invejosos reclamam que dez bilionários concentram não sei quantos por cento da riqueza do mundo, eu prefiro pensar que estes dez bilionários concentram alguns por cento da produção do mundo.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

“Na nossa cultura deformada pelo “coitadismo”, ou (para falar mais academicamente) pelo ethos igualitarista moderno, teimamos em achar que a Universidade é para todos. Nunca foi e nunca será. Essa é uma das maiores mentiras da modernidade.

A decadência da civilização se iniciou com a universalização do ensino, com a troca da formação espiritual e intelectual puras, “ars gratia artis”, no sentido aristotélico, pelo adestramento meramente utilitarista para fins de sobrevivência.

Universidade é para uma elite intelectual. É para quem realmente tem talentos, gosta de estudar e tem uma inteligência privilegiada. Sua prioridade é produzir conhecimento e não formar mão de obra, e, muito menos ainda, formar militantes revolucionários que pretenderão implantar no País regimes ultrapassados e falidos.

Para formar profissionais e mão de obra, existe o ensino profissionalizante e técnico. As oportunidades que devem ser oferecidas a todos, é a de uma boa formação de base onde, por meio da meritocracia, serão revelados aqueles mais capazes de ir para a Universidade e, lá, PRODUZIREM CONHECIMENTO.

Transformar todo mundo em universitário apenas para não ferir a autoestima do jovem que usa piercing no nariz e alargador na orelha, é algo completamente estúpido! Tudo que o governo conseguiu, foi queimar centenas e centenas de bilhões de reais, para produzir o pior, o mais idiota, o mais ignorante, o mais analfabeto, e por consequência, o mais mimado, alienado e arrogante aluno do mundo!

Nivelaram todo mundo por baixo, destruíram qualquer possibilidade de formar uma verdadeira elite intelectual para o País. São mais de duas décadas jogadas inteiramente no lixo! Trocaram a meritocracia (de alunos e professores) pela “universalização”, pela “política de cotas” e pela “ideologização”.

Não reconhecem que as pessoas são essencialmente diferentes, umas mais inteligentes, mais capazes, mais interessadas e mais esforçadas que as outras. E tentam enfiar, goela abaixo de todos, o maldito igualitarismo que favorecerá o vulgar, o grosseiro e o ignorante, e sempre nivelará por baixo, rebaixará a tudo e a todos, e produzirá os piores resultados.

Numa era em que a humanidade enfrenta a sua mais radical transformação tecnológica, a civilização cibernética põe em cheque toda a cultura humanista, havendo uma mudança profunda de quase todos os paradigmas científicos, sociais e econômicos. Nanotecnologia, microbiologia, projeto genoma, matriz energética, 5G e 6G, Internet das coisas etc.

Gastamos trilhões em 20 anos para produzir uma geração “Nem-Nem” de mimados, estúpidos, deprimidos, vazios, idiotas e arrogantes que morrem de medo de se tornarem adultos. Uma legião de falsos graduados, sem possibilidade de emprego, endividados com o FIES, caminhando para a meia idade, morando com os pais e frequentando a marcha da maconha.”

* * *

Achei esse texto na Internet, sem identificação do autor. Posto aqui do jeito que encontrei, porque não discordo em nada. Apenas acrescento:

– O programa governamental de enriquecimento das universidades particulares chamado FIES já acumula uma dívida de vinte bilhões; aproximadamente metade dos ex-alunos estão inadimplentes (dando calote, para ser mais direto).

– Temos um Plano Nacional de Educação que estabelece como meta para 2025 termos 50% dos brasileiros cursando faculdade. Talvez o objetivo seja entrar para o Guinness Book como o país com o maior número de motoristas de Uber diplomados.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

JURO QUE NÃO FUI EU !

Duas semanas atrás, eu dei um pitaco sobre o “linhão” que foi construído na região norte para levar eletricidade das usinas de Tucuruí e Belo Monte para o Amazonas e o Amapá, e que pretende chegar a Roraima. Pois não é que uma semana depois acontece uma zica em Macapá e o estado inteiro fica no escuro? Então, deixa eu tirar o meu da reta: A CULPA NÃO É MINHA! Eu só estava mostrando os fatos e dando minha opinião. Então, para quem quiser saber, a história do Amapá é a seguinte:

– Desde 1975 existe a hidroelétrica Coaracy Nunes, que fornecia 48 MW e foi ampliada em 2000 para 78 MW.

– Como isso não era suficiente para abastecer o estado, o restante era fornecido por uma termoelétrica a óleo (cara e poluente) em Macapá e alguns geradores pequenos (também caros e poluentes) nas cidades do interior.

– Já estavam identificados dois locais para construção de hidroelétricas no rio Araguari, além da Coaracy Nunes. Mas por aquelas coisas que acontecem em país pobre, as coisas não saíam do papel. Alguém me disse uma vez que o governo é como uma onça em um milharal: ela não come milho mas não deixa ninguém mais comer. O governo não faz e não deixa ninguém fazer.

– Para dar uma idéia do prejuízo: em 2009 o consumo de óleo diesel para a termoelétrica de Santana era de 18 MILHÕES DE LITROS por mês, ou seiscentos mil litros por dia. O custo desse óleo estava embutido nas contas de luz de todos os brasileiros, através de uma coisa chamada CCC – Conta de Consumo de Combustíveis.

– Em 2011 começaram as obras da segunda usina do Araguari, a hidroelétrica Ferreira Gomes, que ficaria pronta em 2014 com uma potência total de 252 MW.

– Mas com tanta demora, o sistema elétrico do Amapá estava sobrecarregado, com apagões rotineiros, e não dava para esperar a usina ficar pronta.

– Assim, em janeiro de 2012 foi inaugurada, com festa e foguetório, a unidade II da termoelétrica de Santana, que custou 53 milhões de reais e acrescentou 47 MW de capacidade ao sistema; as novas máquinas também eram alimentadas com óleo diesel.

– Apenas dois anos depois, em 2014, ficou pronta a linha 230 kV que interligou o Amapá ao Sistema Integrado Nacional. A termoelétrica não era mais necessária e foi desligada.

– No mesmo ano, entraram em operação as hidroelétricas Ferreira Gomes no rio Araguari e Santo Antônio do Jari no rio Jari. Com isso, o Amapá tornou-se exportador de energia para o restante do país. Em 2016, ficou pronta mais uma hidroelétrica no Araguari, chamada Cachoeira Caldeirão. O Amapá, hoje, produz mais que o dobro da energia que consome; a sobra vai para os estados vizinhos, especialmente o Amazonas (através do famoso linhão).

– Tudo parecia ótimo e maravilhoso, mas ninguém percebeu que o sistema do Amapá estava ligado à rede nacional e às quatro hidroelétricas através de uma única subestação, chamada Macapá II. As coisas ficaram assim por seis anos, até que…

– Em novembro de 2020, um dos três transformadores 230 kV da subestação pegou fogo, e sofreu “perda total”. O incêndio danificou um segundo transformador. O terceiro estava “parado para manutenção” fazia onze meses. Sem esses transformadores, mais de 90% do estado ficou no escuro.

– Cinco dias depois uma operação de emergência conseguiu reparar os danos causados pelo incêndio no segundo transformador, mas ele sozinho não dá conta da demanda. Até hoje, o estado está funcionando em regime de rodízio. A solução completa exigirá transportar um novo transformador (que pesa quase cem toneladas) e deve demorar uns quinze dias.

– Uma pequena observação: as perdas do sistema (a diferença entre a energia que é produzida e aquela que é paga pelos usuários) são de aproximadamente 40%. Ou seja, 40% da energia do estado é perdida através dos famosos “gatos”.

– Embora existam um Ministério, uma Agência Reguladora, uma Eletrobrás e um monte de empresas estaduais, nenhum destes órgãos é responsável pelo planejamento do sistema elétrico brasileiro; para isso existe a EPE – Empresa de Pesquisa Energética (se alguém souber por quê ou para quê, por favor me avise). A resolução nº 25/2020/PR/EPE, de 9 de novembro de 2020 criou um Grupo de Trabalho na EPE para “avaliação de propostas de planejamento que visam ao aumento da segurança de suprimento de energia elétrica ao Estado do Amapá”. Ou seja, parece que a empresa que existe só para planejar nosso sistema elétrico só descobriu agora que o sistema elétrico do Amapá não é seguro.

– Eu tentei bastante descobrir o que aconteceu com a termoelétrica Santana. É verdade que a unidade I já estava “no bagaço”, mas a unidade II foi inaugurada faz apenas oito anos, e só funcionou por dois anos. O que foi feito com as suas máquinas? Por que não estavam em condições de funcionar em uma situação de emergência como essa? Não consegui descobrir. A notícia de sua inauguração aparece até no site do Ministério Público do Amapá, que deve entender muito de energia elétrica. O seu destino depois de 2014, ao contrário, é um mistério. Para imitar o mestre Berto, a usina desapareceu mais rápido que peido de paraquedista.

Então, resumindo: toda a pompa e circunstância do governo federal e suas autarquias planejadoras e regulamentadoras deixaram um estado inteiro dependente de uma única subestação, deixaram um transformador parado por quase um ano e não conseguiram evitar que um incêndio em um transformador atingisse o outro. Isso não é um caso isolado: existem dezenas ou centenas de lugares no Brasil que também dependem de uma única subestação e correm o risco de ficar na mesma situação. Por último, uma termoelétrica que custou 53 milhões e que poderia estar disponível para ajudar em uma emergência como essa, desapareceu.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

INDEPENDÊNCIA?

Noticiaram essa semana que o senado vai votar um projeto sobre “independência do Banco Central”. Mas o que isso quer dizer, na prática?

Muito pouco.

O tal projeto basicamente estabelece mandatos fixos para a diretoria do BC, com a alegação de que assim os diretores não estariam subordinados ao executivo. Na prática, não muda nada se os diretores voluntariamente fazem o que o governo quer.

Na teoria, a função do BC é ser o “guardião da moeda” e o “controlador da inflação”. No fundo é a mesma coisa, porque inflação é simplesmente o aumento da quantidade de moeda, e quem “fabrica” a moeda é justamente o BC. Para manter a inflação sob controle, tudo que o BC precisa fazer é não aumentar a quantidade de moeda.

Só que governos sempre querem mais dinheiro para gastar, e existem três formas de obter esse dinheiro: cobrando impostos, pedindo emprestado ou fabricando. Para evitar (ou fingir que evita) a terceira hipótese é que existe o Banco Central e sua suposta independência.

Funciona assim: o governo não pode fabricar dinheiro, mas pode fabricar “títulos da dívida” e vender esses títulos com a promessa de recomprá-los no futuro. São como as velhas notas promissórias. A maioria destes títulos é vendida para os bancos, que têm autorização legal para fabricar crédito. Crédito não é exatamente a mesma coisa que dinheiro, mas é bem parecido. A diferença está justamente na atuação do Banco Central.

Se o BC não existisse, o governo receberia dos bancos, em troca de seus títulos, créditos eletrônicos, que são apenas bytes nos computadores. O governo usa estes créditos para pagar suas contas, transferindo estes créditos para outras contas, e assim por diante. Só que estes créditos que circulam pelos bancos não são dinheiro. Se de repente um monte de gente for ao banco sacar o que existe em suas contas, o banco poderá não ter o dinheiro para entregar. Esse risco limita a quantidade de crédito que os bancos podem fabricar.

Onde entra o BC nessa história? O BC pode fabricar dinheiro do nada (dinheiro mesmo, impresso na Casa da Moeda, e não apenas créditos eletrônicos) e usar esse dinheiro para comprar os títulos que os bancos compraram do governo (mais exatamente, do Tesouro), resolvendo o problema dos bancos. Resumindo:

Sem BC: o governo (através do Tesouro Nacional) emite títulos e vende para os bancos. Os bancos geram créditos e compram os títulos. Com o passar do tempo, a quantidade de créditos produzida pelos bancos (também chamada “alavancagem”) fica muito alta e os bancos ficam com medo de comprar mais títulos. Para convencer os bancos a comprar, o governo oferece juros maiores. Quanto mais juros, mais caro fica para o governo “rolar” a dívida.

Com BC: o governo emite títulos e vende para os bancos. Os bancos fabricam créditos e compram os títulos. Depois, vendem para o Banco Central, que paga com dinheiro vivo que ele – e só ele – pode produzir. Os bancos podem continuar comprando títulos à vontade, sem medo de serem pegos sem dinheiro.

Parece que com o BC tudo fica lindo e maravilhoso, certo? Sim, para o governo, os bancos e o BC tudo está lindo. O único “probleminha” é que a moeda, como qualquer outro bem, está sujeita à famosa lei da oferta e procura: quanto maior a quantidade existente, menor o valor. Então o que acontece é que quanto mais o BC fabrica dinheiro, menos ele vale. Quem paga o pato, naturalmente, não é o governo nem os bancos: é o povo que fica com o dinheiro na mão vendo ele perder valor dia a dia.

Voltando ao início, um Banco Central independente não se importaria com a quantidade de títulos que o governo quer vender para os bancos. Sua preocupação seria apenas de manter o valor da moeda estável, sem inflação. Para isso, o BC não deve fabricar moeda em ritmo maior do que o crescimento da economia, e em muitos casos, não deve fabricar moeda nenhuma (era assim que funcionava no século 19, sob o padrão-ouro).

Manter a moeda estável não acontece na prática: para o governo, saber que poderia fabricar dinheiro e não aproveitar é como uma criança saber que têm sorvete na geladeira e não comer. Para resolver isso, o governo convence todo mundo que um pouquinho de inflação é bom, e estipula uma “meta”, que hoje no Brasil é de 4% ao ano. Embora pareça pouco, significa que o governo (sempre com a conivência do BC, não esqueça) pode produzir, do nada, 4 reais para cada 100 reais que já existem. Como já existem centenas de bilhões de reais, dá para produzir bastante. Vendo de outro lado, isso significa que o governo está autorizando ele mesmo a roubar 4% do dinheiro que cada brasileiro tiver no bolso ou na conta bancária.

Um BC independente que cumprisse a meta de inflação até que seria bom. No momento, o que temos é um BC que faz tudo o que o governo quer, e que está jogando a nossa moeda no lixo. Pior, colabora com as mentiras do governo:

“Em entrevista ao canal do Youtube Me Poupe, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, minimizou a alta dos preços. Ele disse que a inflação está sendo influenciada pela elevação do dólar, principalmente. Campos Neto também atribuiu a carestia ao aumento do preço de matérias-primas alimentícias, em razão de uma demanda maior na Ásia.”

A inflação não é influenciada pelo dólar. O dólar é que é influenciado pela inflação; quanto mais o governo fabrica reais, menos eles valem. Por isso são precisos cada vez mais reais para comprar a mesma coisa, seja um dólar ou um quilo de arroz.

Colocando em números: a quantidade de dinheiro existente (denominada em economês de M1) aumentou nesse ano de 409,9 bilhões em fevereiro para 565,4 bilhões em setembro. Isso dá um aumento de 38% em sete meses, ou 5% ao mês, enquanto a tal “meta de inflação” que deveria nortear a atuação do BC é de 4% ao ano. No mesmo período em que o BC aumentou a quantidade de dinheiro em quase 40%, a cotação do dólar aumentou também quase 40%: isso não é uma coincidência, é uma consequência.

A inflação e a desvalorização da moeda (que são a mesma coisa) afetam primeiro o setor produtivo primário (indústria e agricultura/pecuária). Com a economia parada e sufocada pela quarentena, a inflação demora mais para chegar ao consumidor. Assim, enquanto o IGP-M já acumula 20,93% de aumento nos últimos doze meses, o IPCA, que mede apenas os preços do varejo, ainda está em 4%.

Uma parte dos aumentos será absorvida pela cadeia produtiva, que não consegue repassar integralmente os aumentos de custo. Se considerarmos que as coisas não surgem do nada, e que tudo deve vir de algum lugar, é fácil ver que a riqueza que o governo obteve fabricando dinheiro será paga pela redução das margens de lucro das empresas. Como o povo que acredita que inflação é bom também acredita que lucro é uma coisa nojenta e horrorosa, ninguém se importa.

Para encerrar: a cotação internacional do arroz, que atingiu um pico no início de junho, já caiu 43% desde então, e está hoje apenas 5% acima do que estava em novembro do ano passado. A soja estava, até agosto, na mesma faixa de preços que 2018 e 2019, e mais barata que em 2016 e 2017. A desculpa do Roberto Campos Neto não cola.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PRIVATIZAÇÃO

Aconteceu de novo. Alguém do governo mexe no que não devia, talvez achando que “ninguém vai perceber”, a oposição percebe, faz uma gritaria com “Bolsonaro vai privatizar o SUS”, o governo se apavora e corre para voltar atrás e dizer que não é nada disso. Além de mostrar mais uma vez um governo inseguro, “perdido” e inábil em se comunicar com a população, o caso traz duas constatações:

1 – O povo não sabe o que é privatização, mas acha que é algo ruim.

2 – Os políticos preferem ser acusados de bater na própria mãe do que de ser a favor de privatização.

Dentro de uma visão de livre mercado, privatizações no Brasil são mais raras que eclipses. Podemos citar a Embraer, que como estatal se arrastava com projetos intermináveis e depois de privatizada se tornou a terceira maior empresa do ramo no mundo. A Embraer foi privatizada de verdade, o que significa estar exposta à concorrência, ter liberdade para decidir e arcar com as consequências destas decisões.

O que tem muito no Brasil é aquilo que a esquerda chama de privataria (um trocadilho entre privatização e pirataria, creio eu). Significa pegar uma empresa pública e monopolista e entregar para algum amigo, que na maioria das vezes não precisa nem botar a mão no bolso, o BNDES paga tudo. A empresa, sendo “privada”, está livre para fazer os negócios que quiser e da maneira que quiser. O lucro está garantido porque o governo garante o monopólio e “regulamenta” as operações, definindo inclusive qual vai ser a margem de lucro. É bom para o novo dono, que ganha uma boa grana (dividida com seus amigos do governo, claro). É bom para o político, que pode fingir que não têm culpa dos serviços ruins e reafirmar a velha falácia do “se não fosse o governo, as coisas estariam muito piores”. Na próxima eleição reestatiza-se a empresa, o antigo dono embolsa uma fortuna, os novos governantes abaixam demagogicamente as tarifas (e cobrem o rombo com subsídios), e o povo continua mal-atendido.

A coisa chega ao nível do fanatismo religioso quando se fala a palavra mágica “direito à saúde”. Para insistir na metáfora, acusar um político de defender privatização na saúde é como dizer que o político surrava a mãe com um rabo de tatu. A opinião do brasileiro médio se baseia nas seguintes “verdades” que ele leu no tuíter e no feicebúqui:

1 – Empresas privadas só pensam no lucro e tratam mal os seus clientes.

2 – Nos Estados Unidos malvados e capitalistas o governo deixa a saúde a cargo do mercado e portanto só os milionários tem direito à saúde e os pobres morrem jogados na porta dos hospitais.

3 – A Suécia e a Inglaterra tem o melhor atendimento do mundo porque é feito pelo estado.

Para acreditar no ítem 1, o brasileiro ignora alegremente o fato de que ele todo dia é atendido (e bem atendido) por empresas privadas, cada vez que compra pão, leite, carne, roupa ou jornal. É a iniciativa privada quem corta o cabelo, conserta a lavadora, abastece o carro e faz balanceamento nos pneus. O jardineiro, o serralheiro e o pintor são iniciativa privada. Em todos estes casos, o atendimento é bom porque existe concorrência: quem não gostar do atendimento, vai para o concorrente. É fácil notar que quando um setor é regulado pelo governo, a concorrência diminui e a qualidade do atendimento também; é o caso do setor de telefonia e internet (quatro empresas) e dos bancos (dois estatais e três privados). Sobre a qualidade do atendimento no setor público, nem vou falar. Mas o brasileiro continua repetindo que se um setor for privatizado, “a qualidade vai piorar” e “os preços vão subir”.

O ítem 2 é apenas uma “ficção conveniente”, para não dizer “mentira deslavada”. Nos EUA, o setor de saúde é rigidamente controlado pelo governo e não tem nada de livre mercado. As regras restringem a concorrência e protegem as empresas ineficientes, uma das razões para os planos de saúde privados serem caros – as outras são a insegurança jurídica e, mais recentemente, a maluquice do Obamacare. Mas ninguém fica sem atendimento médico por não ter plano de saúde: um sistema estatal constituído pelos programas Medicaid e Medicare fornece atendimento a qualquer pessoa pobre (a um custo anual para os contribuintes de 1,4 TRILHÃO de dólares). O atendimento não é tão bom quanto o das empresas privadas? Claro que não, nenhum serviço do governo é. Mas os brasileiros fingem não ver a contradição e continuam falando (gritando, na verdade) que os EUA são a prova que nosso SUS deve continuar estatal.

O ítem 3 já é algo mais complexo. Suécia e Reino Unido são sempre citados aqui no Brasil como modelos, provavelmente porque são os mais estatizados: todos os hospitais são públicos, todos os médicos são funcionários do governo. Por lá, não são bons modelos. São vistos como burocratizados e ineficientes, com longas filas de espera e todas as coisas esquisitas e sem explicação que são típicas de sistemas estatais. Por outro lado, os países mais bem avaliados na Europa têm a operação do sistema de saúde totalmente (ou quase) privada, com livre concorrência.

Como não gosto de argumentos não-embasados, fui pesquisar sobre avaliações sérias sobre os sistemas de saúde na Europa. Encontrei o Euro Health Consumer Index, produzido pela ECP, uma organização da Suécia (que não recebe dinheiro do governo, ao contrário das ong´s daqui). Dá para fazer um artigo inteiro sobre o assunto (talvez na semana que vem), mas aqui vão alguns fatos só para encerrar a questão. (Os dados são do último relatório, de 2018)

– A Suécia ficou em 8º lugar. Motivo: longas filas de espera, causadas pela burocracia.

– O Reino Unido ficou em 16º, atrás da Estônia e da República Checa. Motivo: longas filas de espera e um sistema administrativo descrito como “caótico”. O NHS, equivalente ao nosso SUS, têm um milhão e meio de funcionários, e a ECP “suspeita” que uma estrutura estatal deste tamanho pode acabar se preocupando mais com seus próprios interesses do que com o interesse dos pacientes.

– O melhor colocado, Suíça, é baseado em planos de saúde privados e obrigatórios. As seguradoras operam com livre concorrência, não tendo qualquer “garantia” de mercado por parte do governo. Existem subsídios para pessoas de baixa renda, mas basicamente todo suíço paga pelo seu serviço de saúde.

– O segundo melhor colocado, Holanda, foi o vencedor nos três relatórios anteriores da ECP. Assim como na Suíça, o sistema é totalmente privado. Cada cidadão escolhe uma seguradora e paga um plano de saúde, com o governo subsidiando os mais pobres. As seguradoras competem entre si, porque as pessoas que estiverem insatisfeitas podem mudar para outra empresa a hora que desejarem. O relatório enfatiza que o governo não tem interferência nenhuma na administração das seguradoras de saúde.

Em resumo, os países da Europa com os melhores sistemas de saúde fazem exatamente o contrário do que os brasileiros querem: entregam a execução dos serviços de saúde a empresas privadas, e o papel do governo é apenas definir as regras básicas e operar alguns subsídios. Deveríamos estar todos pedindo a “privatização do SUS”, mas, como sempre, estamos na contramão do progresso.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PENSANDO DIFERENTE

No Brasil, estamos habituados a ver coisas acontecerem sem que ninguém saiba o porquê, e ninguém parece se interessar. Por mera curiosidade minha, segue um caso:

Todos sabem que a cidade de Manaus fica isolada no meio da floresta amazônica. Tudo que se relaciona com infra-estrutura é complicado por lá, incluindo energia elétrica. Por muito tempo, a eletricidade de Manaus era produzida por geradores a diesel, poluentes e caros. Há algum tempo, nosso governo decidiu que todas as capitais brasileiras (porque só as capitais, não se sabe) deveriam ser interligadas, em um conjunto chamado SIN – Sistema Integrado Nacional. Após muitos anos de atraso, em 2011 ficou pronto o chamado “linhão” que interligou Manaus ao SIN.

Esta ligação consiste de duas linhas paralelas de 500 kV, com aproximadamente 1300 km de extensão, ligando a usina de Belo Monte à Manaus através da floresta, passando por três subestações. Uma derivação fornece energia para o estado do Amapá, que têm três hidroelétricas no Rio Araguari e não precisa dela.

O tal linhão custou 3,5 bilhões de reais, e custa em manutenção 250 milhões por ano, que estão “embutidos” na conta de luz de todos os brasileiros (o sistema é integrado justamente porque os custos são divididos entre todos, não por quem efetivamente usa).

Acontece que a região de Manaus produz mais de 400 milhões de metros cúbicos de gás natural por mês, o suficiente para gerar aproximadamente 2500 MW de eletricidade – bem mais do que Manaus consome atualmente. Não faria mais sentido, ao invés de construir linhas gigantescas pela floresta, construir usinas para aproveitar este gás? Para mim, seria. Por que nosso governo pensa diferente, eu não sei. Só sei que sempre que o governo fala, a construção da tal linha foi mostrada como a única solução para resolver a questão da energia em Manaus, até mesmo do ponto de vista da segurança. Eu não me sentiria seguro sabendo que minha energia depende de 1300 km de linhas no meio do mato, mas quem sou eu diante da sabedoria de nossos governantes?

O projeto incluía a interligação de Boa Vista, em Roraima, através de mais duas linhas paralelas de 700 km. Não foi construída até hoje, segundo consta, por problemas de licenciamento ambiental em terras indígenas. É o caso de agradecer aos índios, caso consigam mesmo impedir um gasto ainda mais absurdo.

Enquanto a tal linha não sai, Boa Vista é abastecida com diesel a um custo que varia de 1,5 a 2,5 bilhões por ano, segundo a fonte. Claro que este valor é usado como argumento para justificar a construção urgente das tais linhas, embora ninguém explique que o gasto com óleo será substituído pelo pagamento às usinas geradoras e à dona da tal linha. Ou seja, a economia será menor do que os tais 1,5 ou 2,5 bilhões – quanto menor, não se sabe e o governo não se preocupa em dizer.

O maior problema: linhas de 500 kV são adequadas para transportar entre 1500 e 2000 MW de energia. Duas linhas teriam portanto capacidade para 3000 a 4000 MW. Acontece que o consumo médio do estado de Roraima inteiro é de 300 MW. Significa que as tais linhas, com custo previsto de 1,5 bilhão, serão usadas em menos de 10% de sua capacidade. Outro problema: o abastecimento de energia de Boa Vista passaria a depender de quase dois mil quilômetros de linhas que ficam no meio da floresta; chamar isso de “segurança” é uma hipocrisia.

Alternativas? O governo fala em construir uma usina no Rio Branco, próximo à capital, que teria uma capacidade de 650 MW, custaria 6 bilhões, e levaria 5 anos, no mínimo, para ficar pronta. Eu modestamente sugiro algo diferente: Um grupo privado construiu no Piauí o Parque Eólico Lagoa do Barro, com 195 MW de capacidade. A construção levou dois anos e custou 1,3 bilhões. Um pouco de matemática mostra que dois parques destes abasteceriam Roraima inteiro, a um custo 30% menor que a hidroelétrica, em bem menos tempo, com a vantagem adicional da segurança: dois é mais garantido que um. Geradores eólicos são muito mais simples que uma hidroelétrica, não exigem um monte de estudos ambientais, e podem ser construídas próximos aos consumidores, evitando as caras e complicadas linhas de transmissão. Talvez os ventos em Rio Branco não sejam os ideais. Mas não é melhor ter algo que funcione, ainda que um pouco menos eficiente, do que esperar uma década por uma solução ruim, e enquanto isso jogar dinheiro fora com diesel?

Desde 2011, todo ano alguém do governo fala que a construção da linha começa logo. A última desculpa é que as negociações com os índios foram interrompidas pela pandemia, mas o governo promete que a obra estará pronta no fim de 2023. Os parques eólicos ficariam prontos antes, se começassem agora, e sem problemas indígenas. Quem sabe alguém de Brasília mostra esse modesto pitaco ao presidente ou a um de seus filhos?

Uma última informação: quem ganhou a licitação e vai construir a linha será a Alupar em sociedade com a Eletronorte. O dono da Alupar também era dono da Alusa, que prestava serviços para a Petrobrás e está enrolada na Lava-Jato, como praticamente todas as empresas que executam as obras bilionárias que o governo faz sem nos dar explicações.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

EU PENSO, PENSO, E NÃO ENTENDO

Não existe uma Comidabrás, mas em qualquer lugar do Brasil tem comida para vender.

Não existe um Ministério da Roupa, mas em qualquer lugar do Brasil tem um lugar que vende roupa.

Não existe uma Agência Reguladora de Material de Construção, mas em qualquer lugar do Brasil você encomenda “um metro” de areia, três sacos de cimento, um milheiro de tijolo, e recebe em casa no dia seguinte.

Por outro lado…

O governo deveria “cuidar da saúde”, mas temos essa piada que é o SUS.

O governo deveria “cuidar da segurança”, mas os criminosos fazem o que querem.

O governo deveria “cuidar do saneamento básico”, mas metade dos brasileiros não têm rede de esgoto em casa.

E entretanto, sempre que alguém sugere que seja permitido que a iniciativa privada faça algo que é considerado “obrigação do governo” – Correios, Petrobrás, Aeroportos, Casa da Moeda, as pessoas ficam apavoradas, dizendo que não vai funcionar e que os pobres serão prejudicados.

Se alguém puder me explicar, eu agradeço.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

POR QUE SOMOS POBRES?

Antigamente, no tempo dos neandertais, todo mundo era pobre. Ninguém tinha carro, smartphone ou casa própria (no máximo, uma caverna). Mas o homo sapiens aprendeu que unindo trabalho e inteligência, é possível produzir coisas, e que estas coisas melhoram a vida, e que por isso são chamadas coletivamente de “riqueza”.

Mas olhando o presente, não é difícil perceber que alguns lugares são mais ricos e outros são mais pobres. Especificamente, nós brasileiros somos mais pobres do que os moradores de vários países. Por quê?

1. PORQUE SOMOS BURROS

Essa não precisa explicar muito, é só olhar nossos números em qualquer ranking internacional. Acontece que nossa cultura (herança ibérica) enxerga os diplomas como um equivalente moderno dos antigos títulos de nobreza, e os acadêmicos e bacharéis são valorizados não pelo que sabem, mas pela quantidade de títulos e diplomas que ostentam. A missão de nosso sistema educacional não é produzir ou transmitir conhecimento, mas separar nobres dos plebeus, ou seja, definir quem pertence à classe que só tem privilégios e quem pertence à classe que só tem obrigações.

O resultado é óbvio: sem estudar português, somos deficientes em escrever e interpretar textos, o que dificulta a transmissão do conhecimento. Sem estudar matemática, não sabemos usar raciocínio lógico para resolver problemas e não sabemos avaliar idéias e propostas de forma objetivamente (o tal do “povo cordial”, que pensa com o coração e não com o cérebro). Sem estudar história, não entendemos o mundo em que vivemos e continuamos a acreditar em utopias e repetir erros que já foram cometidos muitas vezes. Sem estudar ciências, não sabemos produzir coisas, o que nos torna meros consumidores daquilos que povos mais inteligentes produzem.

2. PORQUE NÃO TEMOS CAPITAL

Bens de capital são coisas que facilitam nosso trabalho e aumentam a produtividade. Quem tem um trator produz mais alimentos do que quem só tem uma enxada. Quem tem uma máquina de costura produz mais roupas do que alguém que costura à mão. E assim por diante.

Um exemplo prático: uma pessoa que mora em um país rico chama alguém para consertar um vazamento ou uma porta emperrada. O profissional chegará de botas, capacete, e com tantas ferramentas penduradas no cinto que parece uma árvore de natal. Graças a estas ferramentas (e ao seu conhecimento) ele fará o serviço de forma rápida e bem-feita. Na mesma situação no Brasil, o “profissional” (aspas obrigatórias) chegará de camiseta e havaiana, trazendo uma chave de fenda espanada e um martelo com o cabo frouxo. E, portanto, o serviço vai demorar mais e talvez não fique bom.

Porque não temos capital? De certa forma, é um círculo vicioso: a pessoa produz pouco porque não pode comprar ferramentas, e não pode comprar ferramentas porque produz pouco. Mas há um elemento externo nesse círculo: de tudo que a pessoa ganha, o governo fica com uma parte, e na hora de comprar a ferramenta, a pessoa tem que pagar uma ferramenta para ele e outra para o governo. Aí fica difícil. (A tarifa média de importação no Brasil é a maior da América Latina, dados do Banco Mundial. Em todo o mundo, ficamos atrás apenas de Camarões, Etiópia e Chade, pelo critério da média simples/não-ponderada. Já falei sobre as consequências do protecionismo: não podemos comprar produtos bons, e os fabricantes locais não precisam se esforçar nem reduzir preços, já que não têm concorrência.)

3. PORQUE MUITO DAQUILO QUE PRODUZIMOS É DESPERDIÇADO

Em lugares pobres, as coisas são feitas sem planejamento. Muitas vezes, de improviso. Quase sempre atendendo a alguma necessidade específica e urgente ou a algum interesse pessoal. Claro que o resultado é desperdício.

Em países de “primeiro mundo” a pavimentação das rodovias é projetada para durar cinquenta anos. Aqui, ano após ano joga-se asfalto sobre uma base inadequada apenas para vê-lo ir embora na primeira chuva. Países ricos planejam a longo prazo, países pobres como nós empilham um “quebra-galho” em cima de outro. Se é necessário fazer uma obra de cem milhões, corta-se vinte porque o orçamento sempre está curto. O resultado são oitenta milhões jogados fora, porque o problema continua, e logo em seguida começa-se a planejar gastar mais cinquenta para remendar a obra inadequada onde economizaram vinte.

Vou contar uma historinha que ouvi de um fornecedor de minha ex-empresa. Ele estava em outro cliente, onde a equipe de manutenção estava sofrendo para trocar uma peça de difícil acesso em uma máquina de um milhão de dólares. Na hora de remontar a peça, ao invés de recolocar os cinco parafusos, colocaram só quatro. Esse meu conhecido estava observando junto com um funcionário de outro setor, que estava indignado: “bando de incompetentes! Se os alemães colocaram cinco parafusos, é porque precisa de cinco parafusos!”. Mas como não era assunto do setor dele, não podia fazer nada. Trocada a peça, colocaram a máquina para funcionar. Duas horas depois, a peça recém-trocada quebra e danifica várias outras. Máquina parada por dois dias, dez mil reais em peças, perda de faturamento estimada em mais de cem mil reais, fora a insatisfação dos clientes com os pedidos atrasados. Por um parafuso que “dava muito trabalho” para recolocar.

4. PORQUE ENQUANTO OS OUTROS ESTÃO TRABALHANDO NÓS ESTAMOS PARADOS NA FILA

Isso é algo que me intriga desde meus dezoito anos, quando abri minha primeira conta no banco. A quantidade de pessoas que passam horas e mais horas sem produzir nada porque estão paradas em uma fila é um incrediente importante da nossa pobreza. O tempo não é infinito. Cada hora que uma pessoa perdeu em uma fila é uma hora improdutiva que jamais será recuperada. Pior ainda é pensar que boa parte destas filas é inútil, serve apenas para cumprir uma obrigação completamente dispensável que alguém (geralmente o governo) inventou. Pelo que me lembro, meu recorde pessoal aconteceu a muitos anos atrás, para conseguir uma segunda via de um documento no detran: foram nove filas e três horas e meia de espera para conseguir um papelzinho que a rigor nem precisaria existir.

Enquanto em outros países as pessoas usam seu tempo para produzir riqueza, nós usamos nosso tempo para cumprir rituais que não sabemos por que ou para que existem. Enquanto eles estão construindo máquinas, fazendo projetos, pesquisando tecnologias, nós estamos preocupados em “pagar uma guia”, “pegar um carimbo”, “pedir um alvará”, “dar entrada num requerimento”, “conseguir autorização”, “reconhecer firma”, “tirar certidão”, “protocolar a solicitação” e “anexar cópia autenticada do rg, cpf e comprovante de endereço”.

5. PORQUE QUANDO ALGUÉM DIZ ONDE ERRAMOS, AO INVÉS DE PARAR DE ERRAR PREFERIMOS FICAR OFENDIDOS COM QUEM DISSE

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TRÊS DICAS

Você sabe identificar quando um político está mentindo ou manipulando você? É fácil: sempre que ele estiver falando.

Piadas à parte, acostume-se a usar estas dicas para filtrar as lorotas que os políticos nos contam:

1 – Substitua a palavra “crédito” por “dívida”. É a mesma coisa, afinal quem usa crédito automaticamente fica com uma dívida. Veja como as frases otimistas dos políticos ficam diferentes:

“Nossa recuperação econômica será fortalecida pela expansão do crédito”
“Nossa recuperação econômica será fortalecida pela expansão da dívida”

“Com mais crédito, a vida dos pobres vai melhorar”
“Com mais dívida, a vida dos pobres vai melhorar”

2 – Sempre que um político disser que o governo está dando algo, acrescente a expressão “com o dinheiro dos outros”, porque o governo não produz riqueza.

“Em nosso país, todos têm direito a receber saúde, educação e segurança”
“Em nosso país, todos têm direito a receber saúde, educação e segurança com o dinheiro dos outros”

“Nossa cidade está se beneficiando das obras feitas pelo governo federal”
“Nossa cidade está se beneficiando das obras feitas pelo governo federal com o dinheiro dos outros”

“A previdência garante a aposentadoria do pobre”
“A previdência garante a aposentadoria do pobre com o dinheiro dos outros”

3 – Quando ouvir “lei”, “regulamentações legais” ou expressões semelhantes, substitua por “deputados”, “vereadores” ou “políticos”, porque são eles que fazem as leis.

“Se você trabalha, deve pagar impostos de acordo com as determinações legais”
“Se você trabalha, deve pagar impostos de acordo com o que os deputados querem”

“Você é dono de um terreno mas só pode construir nele o que as regulamentações legais permitem”
“Você é dono de um terreno mas só pode construir nele o que os vereadores permitem”

“Nossas escolas ensinam às crianças que nossos direitos são limitados pela lei”
“Nossas escolas ensinam às crianças que nossos direitos são limitados pelos políticos”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O QUE SE VÊ E O QUE NÃO SE VÊ

Alguns anos atrás, eu visitei um grande asilo para idosos aqui em Curitiba. Trata-se de uma instituição quase centenária, que graças a muitas pessoas generosas e uma administração séria formou um patrimônio rentável. Esse patrimônio, na forma de imóveis alugados, mantém em funcionamento vários asilos gratuitos, sendo o maior deles esse que visitei.

Imaginem minha surpresa quando um dos funcionários me contou que quase metade dos quartos do asilo estavam vazios! Naturalmente, perguntei o porquê. A resposta foi mais surpreendente ainda: ordens da prefeitura.

Acontece que pelas normas municipais, os asilos devem ter médico, enfermeiro, dentista, psicólogo, assistente social e nutricionista em seu quadro de funcionários, de acordo com uma tabela definida pelos burocratas. O asilo tinha um de cada, o que permitia manter exatamente 80 idosos. Se fossem 81, seria preciso contratar mais um médico, mais um dentista, mais um psicólogo… vocês entenderam.

Mas espera: não existem pessoas precisando? Claro que sim. Se você ainda não entendeu: para a prefeitura, ter 130 idosos (o número de leitos disponíveis) recebendo cama, comida e banho e sendo cuidados por um médico, um dentista e um nutricionista é inaceitável. É preferível manter apenas 80 e deixar os outros 50 na rua, sem comida, sem roupa, sem médico e sem dentista.

O nome disso é cegueira seletiva: ver apenas o que se quer e ignorar o restante. É feito o tempo todo por políticos, e muita gente não percebe (e até apoia).

Esse caso serve de introdução para um assunto bem mais importante: salário mínimo. Vejam essa notícia recente:

“Eleitores em Genebra, na Suíça, concordaram em introduzir um salário mínimo equivalente a US$ 25 por hora. Considerando-se 41 horas trabalhadas por semana, são US$ 4.347 (cerca de R$ 24.700) por mês – o que se acredita ser o mais alto salário mínimo em todo o mundo. A medida foi apoiada por uma coalização de grupos sindicais, que tem como objetivo “lutar contra a pobreza, favorecer a integração social e contribuir para o respeito da dignidade humana”. Esse novo salário mínimo vai se aplicar a cerca de 6% dos trabalhadores do cantão a partir de 1º de novembro. A adoção da iniciativa do salário mínimo em Genebra era “necessária”, uma vez que o desemprego representa uma ameaça à existência para muitos dos trabalhadores de baixa renda na cidade.”

Digamos que uma cidade constate que as pessoas de baixa renda não estão conseguindo ir ao dentista anualmente como recomendado: a solução seria aumentar o preço dos dentistas? Parece estúpido, não parece? Mesmo assim, o jornalista que escreveu a notícia acima não viu problema em dizer que aumentar o salário mínimo – ou seja, aumentar o preço do trabalho – é uma solução para o desemprego.

Os bons livros de história mostram que as primeiras leis de salário mínimo eram explicitamente xenofóbicas e racistas: visavam impedir pessoas consideradas “indesejáveis”, em geral imigrantes, de conseguir emprego. O recado era: “não venham para cá”. Funcionou, e funciona até hoje. Os motivos não são exatamente os mesmos. Antigamente, as sociedades eram muito mais fechadas, e barrar estrangeiros era considerado normal, e bom para a economia. Hoje, isso é politicamente incorreto e não pode ser dito, mas manter os pobres desempregados através do salário mínimo traz outras vantagens: de um lado, mantém estes pobres dependentes do governo, o que significa votos garantidos e de baixo custo. De outro lado, criam uma imagem de bondade e “amor aos pobres” que ganha votos daqueles que não sofrem as consequências e podem se dar ao luxo de abdicar da lógica para parecer bondosos. De quebra, garante ao político o apoio de sindicatos e ONGs que costumam ser bons em fazer propaganda.

Basicamente, salário mínimo significa dizer ao pobre exatamente o seguinte: Para nós, é melhor que você fique desempregado do que ganhar novecentos reais por mês. É mil ou nada. Exatamente como no caso do asilo: melhor ficar na rua do que descumprir as sagradas exigências burocráticas.

Nosso sistema educacional, como o de boa parte do mundo, se esforça em tirar das pessoas qualquer ideia lógica no que se refere a conceitos econômicos. É mais conveniente para o governo que as pessoas acreditem em clichês ilógicos do tipo “o patrão malvado paga sempre o mínimo possível”. Ora, a mesma imprensa que difunde estas ideias se contradiz quando admite, como no caso acima, que o novo salário mínimo de Genebra vai afetar 6% dos empregados. Isso quer dizer que 94% dos empregados de Genebra já ganham mais do que o novo mínimo estabelecido. Ué, mas não era um dogma que “as empresas só pagam mais se forem obrigadas pela lei”? Claro que não. Empresas pagam aquilo que cada um vale. Funcionários melhores, mais especializados, com mais conhecimento ou maior competência ganham mais do que os que não tem estas qualidades. E quem não tem qualidades suficientes para justificar o valor mínimo que a lei exige, perde o emprego.

Só essa pergunta “se os empresários malvados pagam sempre o mínimo possível, por que existe gente que ganha mais que o mínimo?” já serve para desmentir praticamente toda a argumentação a favor do salário mínimo. Pode-se complementar com outra: “se o salário mínimo é tão bom e só tem vantagens, por que todos os países não aumentam continuamente o salário mínimo e se tornam ricos?” A resposta, claro, é que aumentar salário mínimo não traz riqueza nem progresso, traz desemprego.

Os exemplos mais claros desse efeito em tempos recentes aconteceram na era Obama nos EUA. Entusiasmados pelo clima progressista, estados como Califórnia, Washington e Nova Iorque criaram leis estaduais estipulando salários mínimos bem maiores que o piso nacional. O efeito foi imediato, especialmente na população mais jovem: desemprego. Vejam este gráfico do Wall Street Journal: a linha vermelha é o salário mínimo, a linha azul o desemprego na faixa 17-25 anos.

Acontece que a realidade econômica não se importa com demagogias, populismos e palavras bonitas como “bondade”, “empatia”, “dignidade”. Empresários que investem seu próprio dinheiro não gostam de ver políticos dizendo a eles como administrar sua empresa. O resultado do populismo é sempre o desestímulo ao empreendedorismo, e a concentração do mercado na mão do governo e de seus amigos, que podem se dar ao luxo de praticar demagogia porque têm outras formas de garantir seu lucro.

O que vai acontecer em Genebra? Provavelmente quase nada, já que é uma cidade riquíssima com uma população altamente produtiva, e que já ganha mais do que o salário mínimo. Talvez um ou outro jovem tenha mais dificuldade em achar um emprego de salário mínimo e tenha que procurar em outra cidade.

Mas em países pobres como o Brasil, a política populista traz consequências desastrosas: literalmente milhões de possíveis pequenos empreendedores são impedidos de criar ou manter seus negócios porque não podem pagar o mínimo que o governo exige. Outros milhões de pessoas que poderiam ter um emprego e um salário são obrigadas a permanecer desempregadas.

E para muita gente, deixar uma pessoa trabalhar por oitocentos ou novecentos reais por mês seria feio, faria mal à “dignidade” dessa pessoa. Mas não é ruim para a dignidade dessa mesma pessoa permanecer improdutiva e viver com seiscentos reais de “auxílio”, auxílio esse que é bancado, a duras penas, por toda a sociedade.