MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

IGUALDADE

Se tem uma coisa que o brasileiro odeia, é a afirmação “todos são iguais perante a lei”. Ver esta idéia ser colocada em prática, então, traz um sofrimento só comparável a ver seu time perder com um gol impedido aos quarenta e sete do segundo tempo.

Para o brasileiro, a sociedade tem que ser organizada em camadas, como um bolo. Lá em cima, os ricos e famosos. Lá embaixo, pobres e putas. A grande maioria fica no meio, e está sempre tentando um jeitinho para chegar perto do andar de cima e se afastar do andar de baixo.

Todos sabem que os políticos ganham apartamento de graça, auxílio-moradia, auxílio-paletó, auxílio-escola-pros-filhos, auxílio-passagem-de-avião, auxílio-gasolina para os carros que ele também ganha de graça, com motorista incluído, e mais um monte de penduricalhos. Muitos funcionários do governo também.

Alguém acredita que se nossa sociedade fosse, DE VERDADE, contra isso, já não teria acabado? Mas quem é louco de querer que acabe, e sepultar a esperança de um dia conseguir uma boquinha dessas para si mesmo ou para um parente? Quantos brasileiros seriam contra, de verdade, se seu filho anunciasse que arranjou um emprego de assessor para ganhar muito sem fazer nada?

Uma coisa em que nós somos bons, é achar culpados. São os outros, sempre. Sempre tem um grupo que serve de bode expiatório. Um grupo que tem que pagar os pecados dos outros. E se alguém ousar sugerir que o restante de nós talvez tenha uma parcela de culpa, apanha.

Poderia continuar; poderia falar de quem acha que placa de “proibido estacionar” só vale para os outros; de quem acha que a calçada das outras casas é via pública mas a sua é garagem particular; de quem diz que a justiça é horrível mas não se constrange em empurrar seu processo à custa de recursos fajutos; de quem reclama de jeitinhos mas tem sempre à mão o telefone daquele amigo que trabalha no gabinete do deputado.

Nossa sociedade é hierárquica, não acredita na igualdade, valoriza o status e o privilégio. Isso é uma questão cultural, de raízes profundas, e coisas assim não se modificam em pouco tempo (exceto, às vezes, em situações extremas, como uma guerra). E qualquer tentativa de “mudar o país” sem levar em conta esta realidade, estará condenada ao fracasso.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

RICOS E “RICOS”

José e Antônio moram na mesma rua em um bairro nobre da capital. A vida dos dois é parecida, embora suas atividades sejam diferentes. José é autônomo, “trabalha por conta”, como se diz na gíria. Antônio, por outro lado, é político e ocupa um cargo de confiança em um órgão governamental.

José mora em uma casa grande e bonita. Ele pagou imposto quando comprou a casa, paga imposto todo ano por ter a casa, e provavelmente vai pagar imposto quando vender a casa.

Antônio também mora em uma casa grande e bonita, mas ele não gastou nada. Ele ganha auxílio moradia e o aluguel da casa é pago pelo contribuinte.

José tem um carro importado. Ele pagou de imposto mais do que o valor do carro. Ele também paga imposto todo ano por ter o carro.

Antônio também anda de carro importado, mas ele não paga nem a gasolina. O carro é pago pelo contribuinte, e trocado todo ano.

José gosta de comer fora com a família. Ele frequenta restaurantes caros e paga a conta.

Antônio também come em restaurantes caros com frequência, mas a conta é paga com alguma das verbas a que ele tem direito, nunca sai do bolso dele.

José paga um dos melhores planos de saúde do país para ele e para sua família. Não é nada barato, mas José acha que com saúde não se brinca.

Antônio e sua família também têm um excelente plano de saúde. Adivinhe se ele paga? Claro que não, quem paga é o contribuinte.

José tira férias todo ano. Ele gosta de viajar com a família para o exterior. Para isso, ele precisa pagar as passagens, os hotéis e os restaurantes.

Antônio também viaja ao exterior várias vezes ao ano, mas nunca pagou uma passagem ou um hotel. Quem paga são empresas que costumam fazer negócios com o governo e que mantém um relacionamento “próximo”, digamos assim, com pessoas como Antônio.

Observando tudo isso, chegamos a uma conclusão interessante: do ponto de vista patrimonial, José é rico, já que possui bens valiosos como sua casa e seu carro; Antônio, por outro lado, não é, já que não têm esse tipo de patrimônio. É inegável, certamente, que ambos vivem como ricos, mas isso não é relevante para boa parte da opinião pública, para quem apenas os ricos como José são a causa dos males do mundo.

Recentemente, uma autoridade do G20 declarou que “um imposto de apenas 5% sobre a fortuna dos bilionários poderia trazer uma receita anual de um trilhão de dólares, o que seria suficiente para acabar com a fome no mundo”.

Uau, “apenas” 5% ao ano. 5% de um patrimônio que já pagou imposto várias vezes. Vejamos a casa de José: o dinheiro que ele usou para comprar a casa pagou imposto de renda. Ao comprar a casa, ele pagou ITBI. Anualmente ele paga IPTU (que para os “malvados” ricos costuma ter alíquotas bem salgadas). Se precisar vender sua casa para pagar impostos, José provavelmente pagará imposto de renda sobre o “lucro”, mesmo que esse lucro seja apenas o efeito da inflação. Matematicamente, vale lembrar que o governo tomar 5% do patrimônio a cada ano significa tomar metade desse patrimônio em 16 anos.

Se realmente é possível acabar com a fome no mundo com um trilhão de dólares por ano, existe outro caminho: esse um trilhão corresponde a apenas 4% do valor que os países do G20 arrecadam todo ano, e que é usado para manter o padrão de vida de milhões de Antônios mundo afora – Antônios esses que não levam a culpa pela fome no mundo, porque afinal eles não são ricos, não é mesmo?

Repetindo: se os governos de apenas 20 países reduzissem seus gastos em quatro por cento, sobraria um trilhão de dólares por ano e isso poderia acabar com a fome no mundo, segundo eles mesmos. Por que não fazem isso?

Não fazem por uma questão de princípio: para os Antônios que fazem parte dos governos, os gastos do governo não podem diminuir, só aumentar. E a arrecadação de impostos também não pode diminuir, só aumentar. E o governo nunca “tira do seu” para resolver alguma questão; se surge uma nova necessidade, cria-se um novo imposto, porque os que já existem já tem destino certo e esse destino é intocável.

E para completar esse circo de horrores, é preciso destacar que propostas desse tipo são vistas com simpatia por boa parte da população. Décadas de doutrinação estatista na mídia e no sistema educacional tranformaram o cidadão médio em alguém que sente que é “injusto” algumas pessoas serem ricas enquanto a maioria é pobre. E uso o verbo “sentir” porque a doutrinação os transformou em seres incapazes de pensar ou de raciocinar; eles se movem apenas por sentimentos, impulsos, instintos básicos. A opinião do cidadão médio sobre uma notícia que acabou de assistir na TV não depende do fato em si, mas do tom de voz e da expressão facial do locutor. Falar em redução de impostos para esse “cidadão médio” é uma espécie de pecado ou heresia. Afinal, o governo é uma entidade mágica, que na sua bondade fornece aquilo que precisamos para viver (o famoso saúde-educação-segurança). Pedir a uma destas pessoas que pare de dar dinheiro ao governo é como pedir a um religioso que pare de frequentar a igreja: é algo que ofende, que causa repulsa, é algo que simplesmente não se pode conceber. O resultado final é que aumentos de impostos “para os outros” são vistos com simpatia e pessoas que defendem a redução dos impostos são xingadas.

Se no início do século 20 fosse tentado cobrar o volume de impostos que é cobrado hoje o mundo teria entrado em colapso. Governos têm aumentado a carga tributária baseados no aumento de produtividade trazido pelo desenvolvimento tecnológico. Este processo poderá continuar indefinidamente? Só o tempo dirá.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MOLLY BLOOM E O ESTADO

Estava zapeando pela TV quando me deparei com o filme “Molly’s Game” (em português, “A Grande Jogada”), que conta a história real de Molly Bloom, uma ex-atleta olímpica que entrou para o mundo dos jogadores milionários de pôquer. Explicando melhor, ela organizava as noites de jogo para esses milionários: locais luxuosos, bebidas caras, as mordomias de costume. Depois de dez anos e de ganhar e perder muitos milhões de dólares, ela foi presa sob a acusação de ter ligações com mafiosos russos (porque alguns deles supostamente participaram dos seus jogos) e em seguida da tradicional ladainha que o governo alega quando quer prender alguém: atividade ilícita, evasão de impostos, lavagem de dinheiro, etc, etc.

Alguém pode dizer “Calma aí! O que há de ilícito em organizar uma sala onde pessoas adultas participam, de livre e espontânea vontade, do mesmo jogo que é praticado 24 horas por dia em centenas de cassinos?” A resposta, claro, é que os cassinos pagam o arrego para o governo e aceitam que ele mande e desmande nos seus negócios (quem quiser entender, recomendo outro filme: Cassino, com Sharon Stone e Robert de Niro). E governos odeiam quando alguém faz concorrência para os seus protegidos. Assim, quando descobriu o que Molly fazia, enviou 17 agentes do FBI armados com metralhadoras para prendê-la em sua casa. Quando a mãe de Molly penhorou a casa para pagar a fiança, Molly foi solta e descobriu que precisava arranjar um bom advogado para enfrentar a equipe de promotores que havia decidido transformá-la em um escândalo público. Só que bons advogados custam caro, e Molly também descobriu que todo o seu dinheiro havia sido confiscado pelo governo.

Bem, não vou aqui contar todo o filme (deixo isso para Cícero Tavares, o especialista em cinema aqui do JBF). Minha reflexão é sobre os métodos adotados pelo governo para quem não se comporta como ele gosta. Afinal, não aprendemos que todos são inocentes até prova em contrário? Não está na constituição, em linguagem mais rebuscada, “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença”? Não, não. Isso pode valer quando a vítima é uma pessoa comum, mas quando o governo se considera a vítima, aí não há “suspeito” ou “suposto crime”; aí o método é atirar primeiro e perguntar depois. Duvida? Então vamos deixar a ficção de lado e mostrar um caso real:

Alguns anos atrás, em uma região rural próxima à grande São Paulo, a Polícia Rodoviária parou um motorista que trafegava na rodovia, e encontrou no veículo uma maleta contendo quinhentos mil reais. O motorista foi levado à delegacia para depoimento, e teve o dinheiro, o carro e o telefone celular apreendidos. A polícia informou que o dinheiro ficará retido “até a comprovação de sua origem lícita” e a Polícia Federal investigará “o crime de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos e valores”. (pense por um momento como seria ruim perder o celular. Agora pense como seria ser largado em outra cidade sem o seu celular, sem o seu carro e sem o seu dinheiro)

Carregar dinheiro é crime? Não, não é. Aliás, o dinheiro brasileiro é de “uso obrigatório”, o que é crime é recusar-se a usá-lo. E quanto a “comprovar a origem lícita”, isso significa o quê? Quem anda com dinheiro na carteira deve ter um papel grampeado em cada nota explicando de onde o dinheiro veio? E como andar de carro com uma maleta seria “ocultação de bens”, se a maleta nem ao menos estava escondida?

Todas essas perguntas, obviamente, são inúteis. O que acontece é que a tal “presunção de inocência” vale para quem é suspeito de um crime contra outra pessoa, como um assassinato, roubo ou estupro. Nestes casos, o culpado se safa com facilidade, porque para isso a justiça é lenta, burocrática, detalhista e incrivelmente desconectada da realidade. Mas quando o governo suspeita que foi prejudicado, a situação é completamente diferente: todos são culpados até que consigam provar que são inocentes. Até mesmo para algo trivial como vender um imóvel, o cidadão brasileiro é considerado culpado. Tem que correr atrás de cartórios e repartições públicas, juntando certidões, para provar que não deve nada, e só então seguir com a venda.

Para mostrar melhor a desproporcionalidade, outro caso: “A Polícia Federal prendeu nesta segunda-feira, 12, um homem que portava pepitas de ouro de procedência ilegal com aproximadamente 19 gramas, no porto fluvial de Santo Antônio do Iça, no Amazonas.” Segundo a notícia, o homem foi levado à delegacia para “prestar esclarecimentos” (outro eufemismo que já faz parte do inconsciente coletivo).

Certamente é espantoso ser ilegal portar 19 gramas de ouro em pepitas, quando qualquer colar ou pulseira contém mais que isso. De fato, nos tempos do Brasil Colônia, quem achava uma pepita de ouro era dono dela, devendo pagar 20% de imposto ao governo. Hoje, dois séculos depois, quem acha uma pepita de ouro comete crime se ficar com ela. Mais espantoso, porém, é constatar que a pena por homicídio culposo – ou seja, causar a morte de uma pessoa – é de um a três anos de prisão, enquanto a pena por guardar no bolso uma pepita de ouro – sem matar ninguém – é de até cinco anos de prisão, mais multa.

Essa idéia de que causar prejuízo ou incômodo ao governo é o pior dos crimes já está bem assimilada pela sociedade. Assim que terminei de assistir o filme da Molly, pulei para outro canal e vi um “especialista” qualquer em um noticiário, exatamente no momento em que ele dizia que era necessário “apertar o cerco” contra as empresas (todas as empresas), porque “muitos” dos criminosos envolvidos em tráfico de drogas, tráfico de armas, pedofilia e prostituição lavam seu dinheiro usando empresas como fachada. Tendo sido empresário por vinte anos, de repente me senti acusado de ser um criminoso. Aí lembrei-me que prostituição não é crime no Brasil, e que tráfico de drogas e de armas só são crime quando ninguém do governo está levando sua parte. Quando o pagamento está em dia, tudo certo. E dessa reflexão surgiu a idéia deste pitaco.

Então ficamos assim: quem mata, rouba ou estupra é inocente “até o trânsito em julgado”, o que costuma levar vários anos. Mas ao mesmo tempo todo mundo acha normal e razoável que alguém tenha as contas bancárias bloqueadas e os bens apreendidos antes mesmo de saber que foi considerado suspeito. Afinal, isso só acontece com os outros, não é mesmo?

P.S. Em poucos anos, o dinheiro digital será implantado e o dinheiro de papel deixará de existir. Aí, será literalmente impossível para os suspeitos tomar um táxi, pagar um advogado, fazer compras no supermercado, comer em um restaurante ou comprar um chicabo

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FRASES ALHEIAS – Jakub Bozydar Wisniewski

Um homem livre sabe que tem direitos. Um escravo acha que precisa merecer direitos. Um homem livre sabe que é livre. Um escravo quer permissão para ser livre.

Um escravo de verdade odeia a liberdade dos outros mais que a sua própria escravidão.

Alguém que acredita no governo é alguém que não se importa de ser trancado numa cela com um assassino psicopata, se o assassino prometer bater nele apenas de vez em quando e com muita delicadeza.

Um escravo perfeito não acredita que a escravidão seja boa e que a liberdade seja ruim; ele acredita que a escravidão é inevitável e a liberdade é impossível.

Um escravo perfeito é alguém que acredita que liberdade é a capacidade de administrar a própria cela.

Um prisioneiro é alguém que perdeu a liberdade. Um escravo é alguém que a entregou.

Um escravo de verdade não é alguém cuja liberdade foi restringida, mas alguém que se sente restringido pela sua liberdade.

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MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A TAL DEMOCRACIA, DE NOVO

Recentemente, o colunista do JBF Percival Puggina fez em sua coluna a seguinte citação:

João Camilo de Oliveira Torres ensinou em Harmonia Política (1961): “democracia é o Estado em que todos os poderes estão sujeitos à Lei e que tem como fundamento e condições para exercício o consentimento dos cidadãos, como finalidade, o bem comum do povo e como limite, os direitos fundamentais do homem”.

Todas as definições desta citação estão erradas. A tal democracia é usada como uma palavra mágica que pode resolver todos os problemas, e quando não resolve, é porque “não é democracia”. É sim, infelizmente. A democracia “ideal” poderia existir em um mundo de anjos, mas em um mundo de humanos imperfeitos, é isso que temos. Platão, 2400 anos atrás, já dizia em sua obra “A República” que a democracia é o pior dos sistemas de governo, e que sempre degenera em tirania.

Mas voltemos à citação do Percival para ver porque ela é irreal, parte por parte:

“todos os poderes estão sujeitos à Lei”

Como os poderes estarão sujeitos à lei se eles fazem a lei, modificam a lei sempre que desejam e interpretam a lei na forma que acham conveniente? E quando alguém resolve contestar, também são eles que julgam se a lei está sendo cumprida ou não.

“como fundamento o consentimento dos cidadãos”

Que consentimento? Os cidadãos são obrigados a votar, e aqueles que são eleitos ganham o poder de fazer o que quiserem. Ao cidadão, resta apenas pagar a conta. Ou algum cidadão foi consultado quando nossos deputados decidiram conceder a si mesmos os 5 bilhões do fundo partidário? Não existe nada na constituição ou em lei alguma que diga que o governo deve pedir o consentimento dos cidadãos para fazer o que quer que seja.

Disse certa vez um prefeito de São Paulo: “Governar é como cuidar do filho adolescente. Temos que fazer o que é bom para ele, não o que ele pede. Ele vai reclamar, mas um dia vai entender”.

Para deixar bem claro: o prefeito afirmou que sua função não é fazer o que o povo deseja. É fazer o que ele, prefeito, acha certo, mesmo contra a vontade do povo. O que nos leva ao ítem seguinte:

“como finalidade, o bem comum do povo”

O problema aqui é óbvio: quem define o que é “bem comum”? E por quê o “bem comum” deve ser único para todos? Por quê algumas pessoas devem ter o direito de impôr a todas as outras a sua noção de certo e errado?

“como limite, os direitos fundamentais do homem”

Falso. Os direitos fundamentais não definem o limite da lei, a lei é que define limites para os direitos fundamentais. Para o governo, os direitos fundamentais não são nem direitos nem fundamentais: são bondades que o poder concede, condicionados ao bom comportamento do cidadão que os recebe e às circunstâncias políticas, podendo ser cancelados a qualquer momento.

Isso foi dito claramente alguns anos atrás pelo ministro da justiça:

“Princípios básicos do Estado de Direito:

1.Há direitos fundamentais.
2.Não há direitos fundamentais absolutos.
3.As liberdades de expressão e imprensa são direitos fundamentais.
4.Tais direitos são limitados pela lei.”

Então, qual a solução? A solução é parar de pedir “mais democracia”, porque na prática isso significa mais governo, mais normas, mais decretos, mais órgãos públicos, mais estatais, mais impostos e menos liberdade. Deveríamos pedir menos governos, menos leis e menos impostos, porque isso traria o que realmente importa: a liberdade.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AINDA SOBRE A LIBERDADE

Diz uma velha piada que existem dois tipos de pessoas: aquelas que dividem as pessoas em dois tipos, e as que não dividem. Piadas à parte, existem (obviamente) infinitas características humanas que podem ser medidas para classificar as pessoas em dois ou mais grupos. No mundo de hoje, eu vejo como muito importante uma distinção de caráter político e econômico: as pessoas que defendem a liberdade e as pessoas que defendem o governo.

Muitos podem dizer que essas posições não são opostas, e podem até mesmo afirmar que o governo é necessário para garantir a liberdade. Seria verdade no mundo teórico das boas intenções, não na prática. É justo afirmar que é da natureza humana viver em sociedade, e toda sociedade tem líderes. Mas existe uma grande diferença entre a liderança e o governo: a liderança surge espontaneamente, e se baseia na confiança dos liderados. Já os governos, assim que surgem, se atribuem o monopólio da força e montam grupos armados para garantir esse monopólio; e daí em diante, apoiados nesta força armada, se atribuem o monopólio de todos os outros poderes, extinguindo direito por direito até que o cidadão seja reduzido a um mero pagador de impostos.

Nenhum governo na história reduziu seu tamanho ou seu poder por vontade própria. Ao contrário, todo governo cresce continuamente, através de novas leis, novos departamentos, ministérios, secretarias e agências, tudo sustentado por novos impostos. Um governo só diminui quando desmorona sob seu próprio peso (levando o país junto) ou quando é derrotado por outro governo mais forte, geralmente em uma guerra.

Quem defende a liberdade individual não deve acreditar que existam governos bonzinhos. A existência de um governo, seja “ditatorial” ou “democrático”, sempre será uma ameaça para a liberdade, e aqueles cujas idéias e ações se tornarem inconvenientes serão perseguidos, processados, presos e até mesmo mortos. Os demais verão sua liberdade sendo tolhida migalha por migalha, com cada pequeno detalhe da vida particular sendo regulamentado, controlado, fiscalizado e taxado pelo governo, até o ponto em que o mundo real e o mundo das leis e decretos se confundam como uma coisa só.

Não se trata de acreditar que poderemos ter a extinção do governo em curto prazo. É mais uma questão de postura: lembrar sempre que o governo é apenas um funcionário do povo; lembrar sempre que um governo não detém poderes, e sim atribuições, e que seus integrantes devem ser responsabilizados quando estas atribuições não são cumpridas.

Infelizmente o poder excessivo que os governos conquistaram ao longo do tempo lhes permitiu moldar a sociedade e as instituições a seu favor, de modo que hoje em dia ser subserviente ao governo é algo que é introduzido na mente das pessoas desde a tenra infância, e com grande sucesso (“dê-nos a criança em seus primeiros anos de vida, e ela será nossa por toda a vida”, diziam os jesuítas). Em muitos casos, essa subserviência é quase inconsciente, mas em outros casos ela se manifesta como uma forma específica de pensar. As mais comuns são:

– O humanitário: é aquele que acredita que o governo é “bonzinho” e ajuda os mais necessitados com saúde, educação, segurança, justiça, etc, etc, etc – tudo de graça. (Não é de graça, óbvio, pelo contrário; tudo que o governo fornece é pior e mais caro do que se fosse fornecido pela iniciativa privada.)

– O igualitário: é aquele que se incomoda com a idéia de alguns terem mais que outros. Para “corrigir” isso, ele deseja um governo que está permanentemente tirando dos mais ricos para supostamente dar aos mais pobres. (Todos sabemos que governos distribuem o que tomam dos ricos para si mesmos, e os mais pobres ficam apenas com os restos.)

– O paternalista: é aquele que não gosta de ver as pessoas sendo adultas, tomando decisões por si mesmas, e prefere que o governo trate todos como crianças e decida por eles. (Claro que é uma péssima idéia, até mesmo porque em uma sociedade que infantiliza as pessoas, em pouco tempo o governo também será formado por pessoas infantis.)

– O privilegiado: é aquele que quer um governo forte para garantir para si privilégios que acredita ter por fazer parte de algum grupo especial. Idade, sexo, cor, tudo é motivo para se considerar “especial”, para não falar dos ciclistas, vegetarianos, pais e mães de pet, ecologistas, moradores de comunidade, artistas da TV, ex-participantes do Big Brother e muitos outros.

– O utilitarista: é aquele que considera o estado útil para “consertar” as supostas falhas que a liberdade traria. (A prática, porém, demonstra que cada suposta “solução” imposta pelo estado gera três ou quatro novos problemas.)

– O teocrata: é aquele que deseja um governo forte que transforme a sua religião – e muitas vezes a sua interpretação pessoal da religião – em lei e que imponha as suas regras a todos. (Não é, obviamente, uma boa idéia, mas as pessoas que defendem essa idéia tendem a ser completamente surdas e cegas a qualquer argumento. Pior ainda: quando um grupo teocrata consegue chegar ao poder, costuma se fragmentar em pequenos sub-grupos que lutam entre si pelo poder e promovem discussões ásperas sobre pequenas divergências de interpretação das supostas regras sagradas.)

– O resignado: é aquele que acha que ter um governo mandando em todos é inevitável, e portanto não vale a pena se preocupar com o assunto. (É importante ter em mente que governos não são sempre iguais, e sempre é possível trocar um governo péssimo por outro um pouco melhor.)

Conscientes ou não, o fato é que o número dos subservientes ao estado vêm crescendo, e a liberdade, juntamente com os direitos fundamentais, corre o risco de novamente ser reduzida a um conceito semi-esquecido, em uma nova idade das trevas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

BALANÇO

Ano acabando, outro ano começando. Hora de fazer um balanço geral da situação.

Nos Estados Unidos, maior economia do mundo, a coisa está assim: 33 TRILHÕES de dívida (120% do PIB), que causa uma despesa anual de mais de um trilhão só de juros. A renda média está caindo e o mercado de trabalho está bem ruim, mas os noticiários continuam divulgando estatísticas que são produzidas pelo próprio governo com a finalidade específica de mostrar que tudo vai bem.

O governo precisa de dinheiro para pagar suas contas, só que: Não tem coragem de aumentar impostos. Não pode imprimir dinheiro mais rápido do que já está fazendo para a inflação não sair de controle de vez. Sobra pedir emprestado, só que isso faz aumentar os juros e virar uma bola de neve. Para complicar, é ano de eleição e nenhum político fala a verdade em ano de eleição.

Previsão: sombria, possivelmente com uma severa depressão em 2024 (ou 2025 se eles conseguirem empurrar até depois da eleição).

***

Na Europa, todos se esforçam ao máximo para não ver que o modelo de “estado de bem-estar social” está falido e sem chance de recuperação. Enquanto as dívidas e a inflação aumentam, os políticos brincam de mudar o nome dos impostos na esperança de conseguir arrecadar um pouquinho mais e empurrar o problema até depois da próxima eleição. Enquanto isso, os imigrantes continuam chegando e formando famílias cada vez maiores e cada vez mais isoladas do restante da população.

Há dois tipos de países na Europa: os que já admitiram que estão quebrados, como Grécia, Espanha, Itália e Portugal, e os que ainda têm esperanças de achar uma saída, como França, Alemanha, Suécia, Finlândia e vários outros. Salvam-se alguns poucos que devem conseguir escapar da quebradeira, pelo menos por um tempo, como Noruega, pela sua produção de petróleo, e Suíça, com sua moeda forte e governo pequeno.

Previsão: um lento declínio, esperando para saber se a falência completa chegará ou se antes disso os imigrantes terão votos suficientes para eleger os seus políticos e transformar a Europa em um califado islâmico.

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Na Ucrânia, a guerra vai continuar até que os políticos e os fabricantes de armas do ocidente estejam satisfeitos. A posição de Joe Biden repete uma fala do filme “Shrek”: “Nós queremos fortalecer a OTAN e enfraquecer a Rússia. Muitos ucranianos irão morrer, mas esse é um sacrifício que eu estou disposto a fazer”.

A Rússia se enfiou em um atoleiro. Se desistir, perde tudo. As chances de ganhar são mínimas, mas vai permanecer lutando para tentar salvar alguma coisa. Enquanto isso, perdeu o acesso ao comércio internacional e passou a depender da China para vender seu petróleo, que é sua maior fonte de renda.

Previsão: a guerra irá sumir aos poucos dos noticiários e vai acabar também aos poucos, por exaustão de ambos os lados. Ninguém sairá ganhando, exceto, talvez, o Zelenski.

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A China está tranquila, aguardando com paciência chinesa os resultados do seu planejamento de longo prazo. Graças à OTAN e sua guerra, ganhou a Rússia como aliada e está comprando petróleo barato. Tornou-se parceira estratégica de quase todo o mundo – ninguém hoje pode se dar ao luxo de cortar relações com a China. Tem os problemas que toda ditadura tem, mas tem conseguido manter as coisas sob controle. Sua economia tem alguns números preocupantes, mas até agora o governo tem mostrado competência para administrá-los.

Previsão: será a próxima superpotência mundial. Não será nos próximos anos, mas eles não têm pressa.

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E o Brasil? Ora, o Brasil vai continuar sendo o que sempre foi: pobre, improdutivo, inculto, colecionando maus resultados em todos os rankings (o último PISA saiu esse mês: pioramos em relação ao anterior, claro). Continuaremos a ser um conjunto de panelinhas onde cada panelinha só pensa em obter vantagens à custa das outras panelinhas. Continuaremos a acreditar com todas as forças que a culpa é sempre dos outros. Continuaremos a praticar o paradoxo de Garschagen: não confiamos nos políticos mas achamos que o governo é a solução para tudo. E nossa política e nossa economia continuarão em avançado processo de futebolização.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DOIS DOMINGOS

Em apenas uma semana, a América do Sul assistirá dois eventos que terão enorme influência em seu destino. Hoje, a posse de Javier Milei como presidente da Argentina. No próximo domingo, o Chile realizará um plebiscito para aprovar ou rejeitar o segundo projeto de uma nova constituição.

Os desafios que aguardam o presidente Milei são muitos, e ele certamente precisará mostrar resultados em pouco tempo. Uma parte de seus eleitores não votou por afinidade política ou ideológica, mas simplesmente por vontade de mudar e por rejeição ao governo atual. Esse tipo de eleitor não está disposto a um período de sacrifício em nome da reconstrução do país: ele quer um milagre, e logo.

O maior problema argentino é seu enorme déficit, causado por décadas de estatismo excessivo e uso generalizado do “cabide de emprego”. A fonte básica de recursos para cobrir esse déficit sempre foi a emissão de dinheiro, o que fez a Argentina conviver com crises periódicas de hiper-inflação. Milei precisa achar um caminho político para zerar esse déficit e interromper a emissão de dinheiro, de forma a conseguir uma moeda forte. Esse é o passo mais importante, e o mais difícil. Como ele será realizado (ou não), veremos a partir de amanhã. Em caso de sucesso, será um exemplo gigantesco para o mundo. Em caso de fracasso, será um argumento poderoso para os amantes do governo e inimigos da liberdade.

Nos últimos anos, enquanto a Argentina penava, seu vizinho Chile se meteu em uma novela constitucional. Em outubro de 2020 foi realizado um plebiscito que perguntou ao povo “Deseja uma nova constituição?”. O “sim” obteve 78% dos votos, mas apenas 51% dos eleitores compareceram. Como quem cala consente, no ano seguinte uma eleição escolheu 155 representantes encarregados de escrever a nova constituição. Depois de um ano, surgiu uma proposta com 387 artigos, que pretendia cobrir todos os temas da moda: igualdade de gênero, proteção ao meio ambiente, direitos dos povos indígenas, e naturalmente as promessas de que quase tudo (saúde, educação, moradia, segurança, etc) seria um “direito” fornecido gratuitamente pelo estado – mais especificamente, são enumerados 59 “direitos fundamentais”. Em setembro de 2022, a nova constituição foi rejeitada por 62% dos eleitores.

No início deste ano teve início a segunda tentativa. O congresso nomeou uma comissão de “especialistas” para elaborar um rascunho. Fez-se uma nova eleição para formar uma nova comissão para escrever, com base no tal rascunho, uma nova constituição. Ao contrário da primeira tentativa, onde os eleitores votavam diretamente nos candidatos, sem participação dos partidos, nesta nova eleição o voto era por lista fechada dos partidos. Os partidos de direita conquistaram mais de dois terços das cadeiras e em consequência fizeram tudo do seu jeito. Tendo sido feita por políticos, a nova proposta cria mais de vinte novos órgãos dentro do estado.

No próximo domingo o Chile colocará em plebiscito a nova proposta. As pesquisas indicam que será rejeitada como foi a primeira. Será um grande vexame, mas também poderá ser o começo de uma nova mentalidade. Alguns jornalistas já se atrevem a dizer que “uma parte do povo está começando a achar que mudar a constituição pode não ser o mais importante a fazer para resolver os problemas”. Daí a pensar que possa haver uma constituição que se limite a definir a estrutura do estado, sem ser uma lista de promessas mágicas, é um longo caminho. Mas talvez, porém, contudo, oxalá, quem sabe, a Argentina de Milei possa ser um bom exemplo.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FANÁTICOS

Eric Hoffer foi um filósofo e escritor, premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade. Em 1951 Hoffer publicou seu primeiro livro, “O Verdadeiro Crente: Pensamentos sobre a Natureza dos Movimentos de Massa”, onde analisa a questão do fanatismo. As citações destacadas ao longo do texto são dele.

Segundo Hoffer, os movimentos de massa surgem de um sentimento coletivo de frustração. O desespero ou a revolta levam a ações imediatas, ainda que improdutivas; a frustração, por outro lado, acumula-se aos poucos e faz surgir o fanatismo, que não é uma ação em si, mas uma postura ou uma atitude.

“O fanático não é realmente um defensor de princípios. Ele abraça uma causa não por causa de sua justiça ou santidade, mas por causa de sua necessidade desesperada de algo para se apegar.”

“É surpreendente ver como os oprimidos quase invariavelmente se moldam à imagem de seus odiados opressores.”

“É pela sua promessa de um senso de poder que o mal freqüentemente atrai os fracos.”

Embora o livro tenha foco na Europa durante a primeira metade do século 20, as suas conclusões servem como uma luva ao Brasil de hoje; se há coisa que não falta por aqui são motivos para alguém se sentir frustrado. Nunca fomos um país de grandes catástrofes: nem naturais, como terremotos, vulcões ou furacões, nem humanas, como guerras e revoluções. E mesmo sem catástrofes, paira sempre aquela sensação de derrota, de inferioridade, de problemas não solucionados, de situações que não deveriam existir mas existem. Em outras palavras, frustração.

“As pessoas assombradas pela falta de propósito de suas vidas tentam encontrar um novo conteúdo não apenas dedicando-se a uma causa santa, mas também nutrindo uma queixa fanática. Um movimento de massa oferece oportunidades ilimitadas para ambos.”

“A paixão pela igualdade é, em parte, uma paixão pelo anonimato: ser um fio dos muitos que formam uma túnica; um fio não distinguível dos outros. Ninguém pode nos apontar, nos medir contra os outros e expor nossa inferioridade.”

O irônico aqui é que o fanatismo que nasce do sentimento de frustração se torna rapidamente mais uma causa para ela. Como Hoffer explica, o fanático não deseja resolver nenhum problema; deseja apenas transferir a culpa para os outros e livrar-se das responsabilidades e das escolhas. Quanto mais fanáticos na sociedade, menos espaço existe para solucionar qualquer coisa, porque o fanático prefere viver com o problema do que aceitar uma solução que não seja exatamente a que ele defende.

“Fé em uma causa é em grande parte um substituto para a fé perdida em nós mesmos.”

“É mais fácil amar a humanidade como um todo do que amar o próximo. Algumas das piores tiranias de nossos dias se dizem a serviço da humanidade, mas podem funcionar apenas colocando o vizinho contra o vizinho.”

Os vários tipos de fanatismo tendem a se misturar e a se igualar. A religião, por exemplo, cada vez mais é vista como um buffet, onde cada um se serve apenas do que gosta e ignora o resto. A consequência é que as igrejas se transformam em um clubinho de fanáticos, onde não se cultivam a sabedoria e a virtude, mas apenas os sentimentos básicos do fanatismo. Na política, o debate intelectual dá lugar a uma briga de torcida, onde cada lado cultiva o ódio ao adversário acima de tudo. O resultado é sempre o mesmo: o fanático se vê como parte de um grupo que é superior ao restante da humanidade, e se arroga o direito e a sabedoria para “consertar o mundo”.

“A qualidade das idéias parece desempenhar um papel menor na liderança do movimento de massa. O que conta é o gesto arrogante, a total desconsideração da opinião dos outros, o desafio individual do mundo.”

“Para os frustrados, a liberdade da responsabilidade é mais atraente do que a liberdade da restrição. Eles negociam sua independência para aliviar os fardos da vontade, de decidir e ser responsáveis pelo inevitável fracasso. Eles voluntariamente abdicam do direcionamento de suas vidas para aqueles que querem planejar, comandar e arcar com toda a responsabilidade.”

“É duvidoso que os oprimidos lutem pela liberdade. Eles lutam por orgulho e poder – poder para oprimir os outros. Os oprimidos querem acima de tudo imitar seus opressores; eles querem retaliar.”

Segundo Hoffer, o fanatismo nasce com “homens de palavra”, mas se consolida com “homens de ação”. Explicando: os movimentos de massa nascem a partir da retórica de algum bom orador (às vezes até involuntariamente), mas à medida em que crescem, serão usados por líderes que os usarão como instrumentos de poder. Pode-se dizer que a maior parte da história humana foi escrita por pessoas que souberam colocar as massas a seu serviço na busca pelo poder.

“Ao observar os homens de poder em ação, deve-se ter sempre em mente que, quer eles saibam ou não, seu objetivo principal é a eliminação ou neutralização do indivíduo independente – o eleitor independente, consumidor, trabalhador, proprietário, pensador – e que todo dispositivo que eles empregam tem como objetivo transformar os homens em um instrumento de animação manipulável, que é a definição de Aristóteles para um escravo.”

“O líder personifica a certeza do credo e o desafio e a grandeza do poder. Ele articula e justifica o ressentimento condenado nas almas dos frustrados. Ele acende a visão de um futuro de tirar o fôlego, de modo a justificar o sacrifício de um presente transitório. Ele encena um mundo de faz de conta tão indispensável para a realização do auto-sacrifício e da ação unida.”

“O salvador que quer transformar os homens em anjos é tão inimigo da natureza humana quanto o déspota totalitário que quer transformá-los em marionetes.”

Os elementos fundamentais em qualquer movimento de massa são as certezas absolutas e o inimigo absoluto. Estes elementos tiram dos ombros do fanático o peso de pensar por si mesmo. É muito mais fácil ser adepto de um grupo onde as verdades já estão prontas para serem simplesmente aceitas. É mais fácil odiar alguém do que assumir responsabilidades.

“Todos os movimentos de massa se esforçam para interpor uma tela à prova de fatos entre os fiéis e as realidades do mundo. Eles fazem isso alegando que a verdade absoluta e suprema já está incorporada em sua doutrina e que não há verdade nem certeza fora dela. Os fatos sobre os quais o verdadeiro crente baseia suas conclusões não devem ser derivados de sua experiência ou observação, mas do ato sagrado.”

“O fanático se recusa a acreditar em qualquer notícia desfavorável, e não ficará desiludido ao vê-la com seus próprios olhos. A capacidade do verdadeiro crente de fechar os olhos e tapar os ouvidos aos fatos é a fonte de sua inigualável fortaleza e constância. Ele não se assusta com o perigo, não desanima com obstáculos nem é confundido por contradições, porque nega sua existência.”

“Dê orgulho às pessoas e elas viverão de pão e água, abençoarão seus exploradores e até morrerão por eles.”

“O orgulho nacionalista, como outras variantes de orgulho, pode ser um substituto para o respeito próprio.”

“Os absurdos grosseiros e as verdades sublimes são igualmente potentes em preparar as pessoas para o auto-sacrifício, se forem aceitas como a única e eterna verdade.”

“Movimentos de massa podem se elevar e se espalhar sem um deus, mas nunca sem um demônio.”

“Estamos prontos para morrer por uma opinião, mas não por um fato”

“Há muitos que têm sérios escrúpulos em enganar os outros, mas não se importam em enganar a si mesmos.”

Como combater o fanatismo? Com conhecimento e liberdade. O conhecimento substitui as idéias prontas e o pensamento de manada. A liberdade substitui o medo de pensar por si mesmo e de encarar as consequências das próprias decisões.

“Não pode haver liberdade sem liberdade para errar.”

“A aspiração à liberdade é a mais essencialmente humana de todas as manifestações humanas.”

“Uma minoria dissidente só se sente livre quando pode impor sua vontade à maioria: o que mais abomina é a dissensão da maioria.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HERÓIS, MÁRTIRES E MITOS

Todo povo tem os seus heróis. Heróis de guerra, heróis mitológicos, heróis políticos, o tipo varia. O Brasil não parece gostar de heróis vencedores: prefere os heróis derrotados, os mártires, e gosta dos mitos, em que a fantasia é mais relevante que a realidade.

O herói maior das aulas de Educação Moral e Cívica é Tiradentes, participante (e suposto líder, segundo alguns) de um movimento que acabou antes de começar e sobre o qual não sabemos quase nada, a Inconfidência Mineira. A ausência de documentos e de fontes é útil, permite construir o mito da forma mais conveniente. Na vida real, historiadores parecem concordar que Joaquim José da Silva Xavier era um mero participante entusiasmado da Inconfidência. Quando a monarquia foi substituída pela república, em 1889, Tiradentes era um bom candidato à mártir, e assim foi construído um personagem, que incluía pinturas em que Tiradentes aparece como um sósia de Jesus, de barba longa e túnica branca.

Um segundo mito, quase do mesmo escalão, é Zumbi dos Palmares. Como no caso de Tiradentes, não há nenhum documento confiável sobre ele. Sua história é um conjunto de lendas que se tornaram “fato” após aparecerem em ensaios acadêmicos e livros de escritores importantes. Essa história condensa praticamente todos os clichês que costumam acompanhar os mitos: a origem nobre (Zumbi e seu tio Ganga Zumba seriam descendentes do rei do Congo), a superioridade precoce (Aos vinte anos Zumbi era reconhecido como grande comandante e estrategista militar, além de ser “muito forte” e “excelente guerreiro”), os ideais puros e incorruptíveis (teria assassinado seu tio Ganga Zumba que defendia uma política “pragmática” com Portugal). A história de Zumbi tem um traidor (Antônio Soares), assim como Tiradentes, e um final heróico, resistindo até a morte contra forças muito superiores (as tropas comandadas por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo).

Pode-se ter uma boa visão do conceito brasileiro de “herói” na lista oficial: o “Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria”, mantido no Panteão Tancredo Neves em Brasília. Nos primeiros nomes, destacam-se dois tipos: Em primeiro lugar, os políticos, que na visão deles mesmos são sempre merecedores de honrarias. Em segundo, os mártires, aquelas personalidades muito conhecidas mas que pouca gente sabe explicar por quê, exceto pelo fato de terem morrido ou, de preferência, terem sido assassinados. Fazendo companhia a estes, algumas celebridades aleatórias. O livro se inicia justamente com Tiradentes, seguindo com o Marechal Deodoro da Fonseca, Zumbi dos Palmares e D. Pedro I. A lei diz que uma pessoa só pode ser homenageada dez anos após a sua morte, mas nossos deputados ignoram isso e adiantam as indicações: Pelé e Olavo de Carvalho já têm seus nomes tramitando pela burocracia do congresso. Nos nomes já inscritos, existem 15 políticos, 5 militares da Guerra do Paraguai e ao menos 25 mártires, pessoas “famosas por terem morrido”, se me perdoam o cinismo.

Aliás, quem buscar alguma lógica ou coerência no tal livro vai se decepcionar. D. Pedro II está lá, herói da pátria. Deodoro da Fonseca, que liderou um golpe militar que depôs e expulsou do país este herói da pátria? É herói da pátria também. Frei Caneca, executado por liderar a Confederação do Equador? Herói da pátria. D. Pedro I, que mandou executá-lo? Herói da pátria também. Anita Garibaldi, que participou de uma guerra que buscava a independência de uma parte do país? Heroína da Pátria. Duque de Caxias, que lutou do lado oposto? Herói da Pátria também. Para alguém ser herói no Brasil não importa o que fez, o que pensava ou o que defendia: basta ser uma “celebridade” conhecida ou político influente, ou ter carteirinha de “vítima”.

Outra característica forte do “heroísmo” brasileiro é o antagonismo: um bom herói deve ter um bom inimigo. Assim como Tiradentes teve seu Joaquim Silvério dos Reis e Zumbi teve seu Antônio Soares, é difícil achar um fã de Ayrton Senna que não se empolgue ao xingar Nelson Piquet.

Um dos casos mais típicos desse raciocínio envolve Santos Dumont (inscrito no Livro de Aço desde 2006): praticamente todo brasileiro o considera um herói, um gênio, um grande vulto da humanidade. Mas pouquíssimos são capazes de dizer mais de duas sentenças sobre ele sem desviar o assunto para os irmãos Wright e recitar as três ou quatro frases-feitas contra eles que se repetem milhares de vezes pela internet brasileira. Santos Dumont como tema de redação no ENEM seria reprovação certa para quase todos, porque as suas realizações (e são muitas) são ignoradas pela mídia, pelo povo e até mesmo pelas escolas. O que entusiasma, o que inflama o ego do brasileiro é enaltecer o pobre Alberto apenas por aquilo que ele não fez: ser o primeiro a voar em um aparelho mais pesado do que o ar.

Existem casos internacionais, que são aceitos com entusiasmo pelos brasileiros. É o caso de Nikola Tesla, um cientista que combinava erudição e excentricidade em grandes doses. Após uma juventude produtiva, Tesla morreu na miséria depois de passar várias décadas envolvido em idéias cada vez mais confusas e impraticáveis. Após anos de quase esquecimento, foi redescoberto recentemente, mas não por suas boas idéias: Tesla foi declarado “mártir” em oposição a Thomas Edison, empresário e inventor que, a despeito de suas grandes contribuições para a ciência, foi declarado “do mal”. Edison teria “explorado” ou “roubado as idéias” de Tesla, que por isso foi alçado à categoria de herói. É uma tarefa dificílima encontrar um brasileiro que saiba citar corretamente uma só descoberta de Tesla, mas é fácil encontrar quem se refira a ele como o gênio que inventou a roda, descobriu o fogo e colocou anéis em Saturno.

Para uma visão completa desse apego dos brasileiros aos mártires e aos mitos, faltaria observar como isso se reflete na política, mas nessa areia movediça eu não vou pisar. Encerro por aqui.