MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A DURA VIDA DO MILITANTE NO BRASIL

Você conhece Roberto Mangabeira Unger? É um sujeito que fala esquisito, e que já foi considerado um “intelectual” em outros tempos. Em novembro de 2005, ele publicou um artigo com o título “Pôr fim ao governo Lula”, que continha frases como “Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional” e “o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou”. Qualquer militante lulista, ao ouvir o nome Mangabeira Unger, ficava imediatamente com os olhos vermelhos e a boca espumando de ódio.

Menos de dois anos depois, Lula colocou Mangabeira no governo em um cargo criado especialmente para ele: a “Secretaria de Ações de Longo Prazo” (que foi maldosamente abreviada pelos jornalistas para “SEALOPRA”). Os militantes ficaram sem ar, meio zonzos, mas logo se recuperaram e passaram a desmentir tudo que tinham dito antes, reconhecendo que Mangabeira era muito gente boa e que Lula tinha toda razão em dar a ele uma boquinha.

Do outro lado, a história se repete como em um espelho. Os militantes pró-Bolsonaro falavam com orgulho de seu ministério, repleto de nomes célebres e de reputação ilibada. Até que um dia Sérgio Moro chamou a imprensa para avisar que estava saindo, o que o transformou instantaneamente em um traidor abjeto, merecedor dos piores xingamentos – exatamente como Mangabeira Unger para os lulistas. E, da mesma forma, o mundo girou e agora o militante que xingou Moro precisa parecer contente ao vê-lo abraçado com Flávio Bolsonaro, se apresentando como pré-candidato ao governo do Paraná.

É que vida de militante no Brasil é dura mesmo. As reviravoltas podem vir a qualquer momento e de onde menos se espera – até mesmo dentro da própria família que o militante idoliza, como mostrou o recente affair entre o sucessor ungido do clã Bolsonaro e sua madrasta.

O fato é que políticos, especialmente no Brasil, tendem a ser iguais, e a repetir os mesmos comportamentos. Apenas os militantes acreditam que o “seu” político é completamente diferente dos demais, e para isso se agarra em qualquer frase de efeito, raciocínio ilógico ou apelo emocional que apareça. No fundo, é uma espécie de “futebolização” da política: o militante não pensa em termos de idéias, propostas ou mesmo ideologias, pensa apenas em termos de “nós contra eles”, e dá a impressão de dedicar mais esforço em odiar os adversários do que em apoiar seu escolhido. Não é injusto dizer que o comportamento do militante tem muito de infantil.

Para quem alimenta esperanças na democracia, fica a triste constatação de que o voto do militante vale tanto quanto os outros.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A LINGUIÇA E A LIBERDADE

A foto acima é de uma linguiça Blumenau. De origem alemã, é muito conhecida e apreciada nos estados do sul do país. Mas ela está em risco porque o governo, obedecendo determinações de algum burocrata, quer estabelecer uma regulamentação reduzindo a quantidade de gordura. Faz tanto sentido quanto querer um sorvete pouco gelado ou uma rapadura pouco doce, mas sabemos que a burocracia não se preocupa com fazer sentido. Afinal, já faz algum tempo que o governo proíbe comer ovos com gema mole.

Mas junto com coisas prosaicas como a linguiça Blumenau, o governo também está ativo em proibir coisas bem mais importantes. A partir deste mês, o funcionamento do comércio em feriados depende de autorização dos sindicatos. Isto inclui o comércio em geral, incluindo lojas em shoppings, hotéis e aeroportos. Para abrir nos feriados, cada empresa precisará “negociar” um acordo coletivo com o sindicato local.

Em princípio faz sentido, já que os sindicatos teoricamente servem para apoiar os funcionários na negociação com os empregadores. Mas no Brasil teoria e prática são coisas bem diferentes. Sindicatos aqui gozam de reserva de mercado: um único sindicato atua em cada local, segundo definido lá em Brasília, e suas decisões valem para todos os trabalhadores do setor, incluíndo aqueles que não são filiados ao sindicato. Aliás, para muitos sindicatos, quanto menos filiados melhor: eles podem reeleger à vontade as mesmas pessoas e tomar as decisões que quiserem, com a garantia de ser obedecidos por todo mundo. É comum encontrar pelo país sindicatos onde a diretoria é eleita com o voto de menos de 1% dos filiados, em eleições praticamente secretas. Depois de eleitos e reeleitos, os sindicalistas podem arbitrar seus próprios salários, podem contratar funcionários a seu critério (mas em várias cidades existem sindicatos de funcionários de sindicato) e de modo geral podem fazer o que quiser com o dinheiro que recebem. Quando se trata de carimbar uma permissão para que uma empresa possa abrir em um feriado, é possível que o interesse dos funcionários envolvidos fique condicionado a uma troca de favores, ou coisa pior, sem falar na possibilidade de que essa permissão seja simplesmente negada.

Pode parecer estranho que pessoas possam ser impedidas de trabalhar sem que sua vontade seja sequer ouvida em um país onde se fala tanto em “democracia”, mas é que existem outras palavras menos faladas porém mais poderosas, como por exemplo “hipossuficiência”. É a palavra que o governo usa para dizer que o brasileiro não é capaz de cuidar de sua própria via ou de tomar suas próprias decisões, e por isso ele, o governo, pode se meter na vida de todo mundo. Aliás, vale notar que as duas decisões acima, a da linguiça e a do trabalho em feriado, não passaram pela mãos dos “representantes do povo”. Ambas foram implementadas por portaria, assinadas por burocratas que não foram eleitos por ninguém.

No final das contas, em um país onde tudo se proíbe e o que não é proibido depende de autorização do governo, a proibição da linguiça Blumenau acaba sendo simbólica: Há muito tempo se diz (embora a autoria seja desconhecida) que “a liberdade não se perde de uma vez, mas em fatias, como uma linguiça.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ENDIVIDANDO

Existe uma expressão muito comum no linguajar brasileiro: “Vender o almoço para comprar a janta”.

Mas na realidade o raciocínio aqui é o contrário: está na hora do almoço e o sujeito descobre que o dinheiro só dá para comprar um PF com arroz, feijão, ovo e uma coxa de galinha. Aí surge a idéia: se juntar o dinheiro da janta, dá para ir num restaurante legal e encher a pança. Na hora do jantar, aplica-se o mesmo raciocínio e usa-se o dinheiro que seria para o almoço do dia seguinte. E assim por dia, empurrando o problema para mais longe, porque, como disse um ministro da fazenda certa vez, “divida não se paga, dívida se rola”.

Os economistas têm uma expressão chique para essa questão: “preferência temporal”. Eles a usam quando uma pessoa compra um carro novo parcelado em 72 vezes e acaba pagando o dobro do preço, ao invés de juntar o dinheiro primeiro e comprar o carro à vista depois.

Os bancos ficam felizes com esse tipo de cliente. Dão a ele tanta preferência que as pessoas que pensam em tomar um empréstimo para investir em uma empresa são deixadas de lado. É que um investidor faz contas para saber se o retorno do investimento vai compensar os juros pagos, enquanto o consumidor comum só quer saber quanto é a prestação, ou às vezes nem isso. Quanto ele está dando de lucro para o banco é algo que definitivamente não lhe interessa.

Com tudo isso, não é surpresa nenhuma constatar que metade da população adulta do país está inadimplente – 81,7 milhões de pessoas segundo o Serasa, com uma dívida média por consumidor de seis mil e seiscentos reais. O Serasa também informa que 42% dos inadimplentes já estiveram com o nome sujo anteriormente, ou seja, são reincidentes na inadimplência.

O governo diz estar preocupado, mas no fundo também gosta dessa situação. Por um lado, o lucro dos bancos é altamente taxado, o que transforma o governo em um sócio privilegiado dos bancos, participando do lucro sem participar do risco. E do outro lado, o alcance da visão dos políticos é sempre limitado à próxima eleição, o que faz com que eles se preocupem em deixar os eleitores felizes no curto prazo. Além disso, quando a situação parece estar ruim, especialmente em ano eleitoral, é sempre uma boa oportunidade para o governo inventar uma nova medida populista que traga alegria imediata e adie o problema para o ano seguinte.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PEJORATIVO

Aqui em Curitiba existe o hábito de perguntar às pessoas “O que você é?”. E nenhum curitibano responde “sou curitibano”. Está subentendido que a pergunta refere-se aos ancestrais da pessoa; assim a resposta pode ser alemão, italiano, português, libanês, ucraíno, polaco, japonês, russo, ou qualquer outra descendência. Eu, por exemplo, respondo que sou metade italiano e metade ucraíno, já que meu pai nasceu na serra gaúcha e é 100% descendente de imigrantes italianos, e minha mãe, curitibana, é neta de imigrantes ucraínos. Aliás, ela é a única da família que casou com alguém de etnia diferente, porque as duas irmãs dela casaram com ucraínos. Com a família do meu pai lá no Rio Grande do Sul, eu me criei no meio de ucraínos, ouvindo minha avó me chamar de malenkyy e kotunyo.

Se eu postasse o parágrafo acima em uma rede social, em questão de minutos apareceria alguém, provavelmente aqui de Curitiba mesmo, dizendo que eu não devo usar a palavra “ucraíno”, que é pejorativa, mas sim “ucraniano”. É uma idéia bastante difundida, mas é uma grande bobagem.

O gentílico de quem é da Ucrânia sempre foi “ucraíno”. É a palavra usada em Portugal e também é o termo usado em espanhol, só que sem o acento. Na língua de lá, “eu sou ucraíno” é Я українець, que se transcreve como “Ya ukrayinets” e se lê mais ou menos como “ya ucraíne”, com o ts final quase mudo.

“Ucraniano”, por outro lado, é o que os gramáticos chamam de galicismo: é uma imitação do francês ukrainien, que antigamente era usado por quem queria parecer chique. Aliás, ocorre o mesmo com os vizinhos polacos: hoje em dia se diz que “polaco” é feio e que o certo é “polonês”, outro galicismo.

E a história do “pejorativo”, de onde veio? Veio de uma moda dos tempos modernos que poderíamos chamar de “coitadismo”, misturada com o velho costume do ser humano de querer mandar nos outros. Hoje em dia não pega bem fazer isso pela força; ao invés disso, usa-se uma mistura de culpa e vaidade, proclamando que determinadas idéias, costumes ou palavras são “erradas” e condenáveis, enquanto outras são “corretas” e devem ser incentivadas. Em um mundo carente de auto-estima, essas diretrizes são obedecidas com alegria por quem precisa alimentar o ego. Daí favela vira comunidade, deficiente vira pessoa portadora de necessidades especiais e cachorro vira-lata vira cão comunitário.

Nessa linha, alguém resolveu achar que “ucraíno” e “polaco” não devem ser usados porque supostamente eram usados por pessoas que menosprezavam imigrantes, e quem adota essa linha de raciocínio acha que resolve-se um problema mudando o seu nome.

Sim, é verdade que imigrantes sempre foram maltratados por determinadas camadas da sociedade, tanto aqui como no resto do mundo. E nesse caso específico, até mesmo entre os dois grupos citados: quem acha que existe uma grande rivalidade entre corinthianos e palmeirenses é porque nunca viu um ucraíno e um polaco juntos. E também podemos notar que esse preconceito se estende a todos os imigrantes, e que palavras como “italiano”, “alemão” e “português” já foram usadas pejorativamente da mesma forma. Se ninguém na internet as declarou “proibidas”, talvez seja só porque não acharam um galicismo para colocar no lugar.

Rivalidades e maledicências à parte, nunca conheci um ucraíno que reclamasse de ser chamado de ucraíno. Estavam muito ocupados com coisas mais importantes, como trabalhar. E seu exemplo deveria ser seguido pelos frequentadores de redes sociais que parecem não ter nada melhor para fazer do que ficar reclamando daquilo que os outros falam, pensam ou fazem.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TREZENTOS TRILHÕES

Os Estados Unidos devem 36 trilhões de dólares. A China deve 15 trilhões. O Japão, 10 trilhões. A Alemanha, 3 trilhões. O Reino Unido, também 3 trilhões. A França deve 3 trilhões e meio. O Brasil está chegando aos 2 trilhões. Praticamente todos os países do mundo estão endividados. Estima-se que a soma das dívidas governamentais passe dos 150 trilhões. Empresas devem mais 90 trilhões, e pessoas físicas, mais 60 trilhões. O total passa dos 300 trilhões. Em 2024, essa dívida gerou o pagamento de 15 trilhões em juros, o que corresponde a 13% do PIB global. Mas quem são os credores dessa dívida?

1 – Os Bancos Centrais: O FED tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo dos EUA. O Banco do Japão tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo japonês. O Banco do Povo da China tem 3 trilhões de dólares em dívida do governo chinês. Bancos centrais globalmente detêm aproximadamente 25 trilhões em títulos dos governos de seus países. Isso representa menos de 10% da dívida total, mas essa dívida é a base do sistema: é a partir da emissão de títulos que todo o mecanismo se sustenta.

2 – Investidores institucionais: São instituições que usam os títulos como reserva financeira. Fundos de pensão: 50 trilhões. Seguradoras: 35 trilhões. Fundos mútuos: 25 trilhões. Fundos soberanos: 10 trilhões. Total: 120 trilhões.

3 – Governos estrangeiros: Governos detêm aproximadamente 30 trilhões em dívidas emitidas por outros países. A China possui 3,2 trilhões em ativos estrangeiros, incluindo 850 bilhões em títulos dos EUA. O Japão possui 1,1 trilhão em títulos dos EUA. A principal fonte disso é o comércio. Os EUA, por exemplo, compram da China muito mais do que vendem. Se a China exigisse pagamento em dinheiro, as vendas diminuiriam e ambos os lados seriam prejudicados no curto prazo. Assim, a China compra os títulos dos EUA e os EUA usam esse crédito para pagar a China. Em outras palavras, a China entregou produtos e recebeu em troca papéis que supostamente serão pagos no futuro.

4 – Famílias ricas: O 1% mais rico do mundo detém aproximadamente 40 trilhões em ativos financeiros, grande parte deles em títulos. E um quarto disso, 10 trilhões, pertence a aproximadamente 500.000 pessoas que constituem o 1% mais rico dentro do 1% mais rico. Em 2024, estas 500.000 pessoas repartiram 500 bilhões de dólares em juros.

5 – Pequenos investidores: Perto de 100 trilhões de dívida estão nas mãos de pequenos investidores e fundos de investimento, como por exemplo o Tesouro Direto no Brasil.

A questão importante é que as dívidas dos países foram planejadas para serem impagáveis. Na verdade, a dívida da maioria dos países é muito superior à sua base monetária, o que faz com que simplesmente não exista dinheiro suficiente para pagá-la. Exemplo: o Brasil deve 9 trilhões de reais, mas existem apenas 440 bilhões de reais em dinheiro. Se somarmos o “dinheiro virtual”, quantias que só existem nos computadores dos bancos, chegamos a 7,3 trilhões, o que ainda é menos do que a dívida. Ou seja, se o saldo de todas as contas bancárias e aplicações financeiras de todas as pessoas e todas as empresas do país fosse transferido para os credores, ainda ficaríamos devendo. Ao invés de chamar de empréstimo, o mais exato é dizer que os credores usaram seu dinheiro para comprar uma renda eterna.

Em 2024, os pagamentos globais de juros sobre a dívida foram de aproximadamente 15 trilhões de dólares. E este dinheiro não está pagando a dívida, nem mesmo uma pequena parte dela. Na verdade, nas últimas décadas a dívida de praticamente todos os países vem crescendo, às vezes mais lentamente, às vezes mais rápido, mas sempre crescendo, e sempre aumentando o valor que os pagadores de imposto entregam aos credores. Até quando?

A dívida global hoje representa 300% do PIB, e está crescendo 7% ao ano. O PIB está crescendo 3% ao ano. Matematicamente, a dívida global chegará a 500% do PIB por volta de 2035 se as tendências atuais continuarem. Isso não é sustentável. Em algum momento, algo vai quebrar. Aí, ou os governos dão calote, o que elimina a dívida mas colapsa o sistema financeiro, ou aumentam a emissão de dinheiro, que reduz a dívida por meio da desvalorização da moeda, mas destrói as poupanças, ou tentam “renegociar” a dívida, o que no fundo significa apenas empurrar o problema para frente, de preferência para depois da eleição.

Isso tem solução? Não. Na verdade, isso é uma consequência inevitável de um modelo de sociedade que permite que políticos façam o que bem entendem e deixem as consequências nas costas dos eleitores. Bancos centrais, moedas inflacionáveis sem lastro, governos que concedem a si mesmos o poder de fazer e modificar as leis que eles deveriam obedecer, tudo isso foi criado para substituir a escravidão antiga, aquela das senzalas e chibatas, pela moderna, dos impostos sempre crescentes e da obediência voluntária. Modificar isso não passa por decisões econômicas; passa por decisões políticas, quase inimagináveis hoje em dia, que começariam por tirar de Executivo, Legislativo e Judiciário o nome de “poderes” e colocá-los na posição de empregados da população. Não vai acontecer. Ao contrário, o que vai acontecer é que o sistema vai se sofisticar ainda mais para extrair o nosso dinheiro com maior eficiência.

Como disse um ministro do rei francês Luís XIV, “Cobrar impostos é como depenar gansos: devemos sempre tentar conseguir o máximo de penas com o mínimo de gritos.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A NOVA MOEDA DOS BRICS

Fala-se muito na hegemonia do dólar, e no fim dessa hegemonia, e também no provável substituto que seria a nova “moeda do BRICS”. Ela já existe, embora muita gente se recuse a admitir, e chama-se bitcoin.

Vários economistas já definiram as propriedades desejáveis de uma moeda: deve ser estável, difícil (ou de preferência impossível) de falsificar, fácil de manusear, segura para guardar e, talvez o mais importante, não deve estar sob o controle de um governo que possa usar esse controle para inflacioná-la. Desnecessário dizer que praticamente todos os países ignoram esses economistas e mantém suas moedas próprias, inflacionadas e confiscáveis.

O dólar foi adotado como a moeda de referência para o comércio mundial em 1944, quando as demais potências estavam quebradas pelas despesas da 2ª Guerra Mundial. Isso seria fortalecido logo depois com o acordo firmado por Henry Kissinger com os países produtores de petróleo do Golfo Pérsico onde estes se comprometeram a só vender petróleo em troca de dólares.

Por algum tempo o arranjo funcionou, e com a progressiva informatização da economia, os títulos do tesouro norte-americano ocuparam o lugar que já havia sido das barras de ouro como reserva financeira dos países. O Brasil, por exemplo, tinha no ano passado 150 bilhões de dólares investidos nestes títulos.

Mas o mundo gira, a Lusitana roda, e hoje o dólar não é mais estável, nem seguro, nem está à salvo da inflação. Quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, uma das primeiras providências do governo dos EUA foi congelar (ou confiscar, para quem preferir) os títulos que pertenciam à Rússia. Na mesma época, sob a desculpa de proteger a economia dos lockdowns da COVID, o FED produziu em dois anos mais dólares do que já haviam sido produzidos nos duzentos anos anteriores (mais de cinco trilhões).

O bitcoin não tem nenhum destes problemas: sua taxa de inflação é pré-determinada e conhecida por todos (atualmente, 0,8% ao ano, e diminuindo). Nenhum governo pode controlar, regulamentar, congelar ou confiscar bitcoins. Roubá-los é, na prática, impossível (salvo algum descuido do dono, o que nenhuma tecnologia pode resolver). Eles são uma reserva de valor que simplesmente ignora fronteiras e governos.

O mundo está percebendo que o sistema atual é insustentável. A maioria dos países ricos já está devendo mais de 100% do seu PIB, e todos continuam inflacionando suas moedas. A China, que na prática é quem importa dentro dos BRICS, já disse que pretende que sua moeda, o yuan, seja uma alternativa ao dólar, e que será lastreada em ouro. Seria um pequeno avanço. Mas continuaria sendo uma moeda estatal, controlada por um governo. E no mundo de hoje, o lastro em ouro seria complicado de colocar em prática: será que seria viável ficar transportando toneladas de barras de ouro de um lado para outro, de avião ou de navio?

O bitcoin resolve todas estas questões. Mas o ser humano tem uma propensão natural para não acreditar em coisas que sejam muito diferentes daquelas a que ele está acostumado, e o bitcoin é muito diferente do sistema que todos nós conhecemos nos últimos séculos. Por isso, muita gente duvida que ele sirva para grandes transações, ou acha que moedas digitais são coisa de contrabandistas e outros criminosos.

Bem, um acontecimento recente está agitando bastante essas convicções. Como se sabe, existe uma guerra não-declarada (mais uma!) entre Irã e Estados Unidos. Os EUA, como estão acostumados a fazer, estão impondo sanções econômicas a todos os aliados do Irã, sejam governos estrangeiros ou empresas privadas. O Irã, por outro lado, tem como maior trunfo o seu controle sobre o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto da produção mundial de petróleo. Como retaliação às sanções norte-americanas, o Irã interrompeu o trânsito de navios no estreito e posteriormente anunciou que cobraria um pedágio (fala-se em um dólar por barril) para os navios que desejassem passar.

Mas como pagar e receber valores da ordem de milhões de dólares sem correr o risco de ter o dinheiro rastreado e bloqueado pelo governo dos EUA? Isso mesmo: o Irã está cobrando o pedágio em bitcoin. Grandes empresas da maior indústria do mundo, a indústria do petróleo, estão fazendo negócios com um governo soberano em bitcoin. E está funcionando.

O sistema de moedas fiduciárias, aquelas que são criadas e controladas pelos governos, se sofisticou tanto sob controle dos políticos que está desabando sob seu próprio peso. Cada vez mais pessoas estão percebendo que existem dois futuros possíveis: bitcoin ou caos.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DEFLAÇÃO

É atribuída a Henry Ford a frase “Se um dia as pessoas entendessem o sistema monetário, uma revolução começaria na manhã seguinte”.

Se as pessoas não entendem, isso certamente não é acidental. É necessário para que banqueiros e políticos possam continuar fazendo o que fazem, e existe todo um sistema encarregado de manter essa situação, do qual fazem parte a imprensa, a escola, o mundo acadêmico e as celebridades em geral. Esse sistema substitui idéias por dogmas e coloca narrativas no lugar dos fatos.

Uma destas narrativas, e uma das mais prejudiciais, gira em torno das palavras “inflação” e “deflação”. A segunda é vista como um perigo assustador. A primeira, como um perigo menor, que não traz grandes males se for pequena e controlada pelo governo.

Isso é totalmente falso. O governo é a causa da inflação, não a cura. Ao criar dinheiro do nada, o que eles não deveriam ter permissão para fazer, os governos desequilibram a relação oferta-demanda da moeda e causam a sua desvalorização. É o mais perverso dos impostos: de um lado criam uma fonte quase infinita de dinheiro para gastar, de outro lado desvalorizam as contas que devem pagar ao mesmo tempo em que valorizam os impostos que arrecadam e que são calculados pelo preço de mercado. A inflação é tão boa para os políticos que praticamente nenhum país vive mais sem ela. Alguns ainda mantém a “produção” de dinheiro em níveis baixos, o que os faz menos errados mais ainda assim errados. Outros já perderam a vergonha e inflacionam o quanto lhes dá na telha, geralmente de forma cíclica em função das conveniências eleitorais.

A ironia nisso tudo é que para tornar a inflação menos assustadora aos olhos do povo, a máquina de propaganda decidiu dizer que o contrário, a deflação, é um perigo maior e que deve ser evitado a qualquer custo. As pessoas acreditam sem questionar e se sentem seguras ao ouvir o governo dizer que está se esforçando para “manter a inflação dentro da meta”, como se fosse moralmente possível ter uma meta de inflação que não seja de 0,00 %.

Desde que a humanidade descobriu o poder da tecnologia e os ganhos de eficiência possíveis com a divisão do trabalho e a especialização, a diminuição de preços tornou-se algo natural. O progresso consiste basicamente em produzir mais por preço menor. Coisas que eram artigos de luxo no passado, privilégio dos mais ricos, hoje são acessíveis a todos.

Dados do governo dos EUA mostram que nas três décadas entre 1870 e 1900 os preços ao consumidor caíram 47% e a economia cresceu em média 4,5% ao ano, o que mostra que deflação não tem nada a ver com recessão ou crise. Claro que naquela época o governo não inflacionava o dinheiro, que tinha valor fixo em ouro (e um grama de ouro custava menos de um dólar, enquanto hoje custa mais de 150).

Ainda sobre ouro, uma curiosidade: em 1926 um Ford modelo T custava 360 dólares, o que equivalia a 540 gramas de ouro. Hoje, 540 gramas valem 80.000 dólares, o que dá para comprar (lá nos EUA) três Honda Civic zero km. Ou seja, em ouro, o preço dos carros deflacionou bastante nos últimos cem anos, mesmo com os carros de hoje sendo muito mais sofisticados que um modelo T. Nos inflacionados dólares, o preço subiu 7000%. No Brasil, apenas de 1980 para cá a inflação já acumulou 97.498.392.029.617,90%, segundo o site do IBGE.

Do mesmo jeito que a linguagem politicamente correta finge solucionar um problema chamando favela de “comunidade” e mendigo de “morador de rua”, o economês diz que o Banco Central faz “política monetária” quando na verdade o que ele faz é pura e simplesmente imprimir mais dinheiro e causar mais inflação. É curioso que mesmo jornalistas sérios acreditam (ou fingem acreditar) que o BC é um remédio quando na verdade ele é a origem da doença. É verdade que sem um BC o governo pode inflacionar a moeda do mesmo jeito, é só uma questão de organograma.

Em resumo, se voltássemos a ter moeda não-inflacionada como no passado, o progresso tecnológico se encarregaria de fazer os preços baixarem continuamente. No sistema econômico de hoje, o governo se apropria desses ganhos através da desvalorização proposital da moeda, enquanto o povo acredita que ele nos protege de ver as coisas ficarem mais baratas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UM PAÍS DE MENTIRAS

O primeiro artigo da nossa constituição diz que um dos valores da república é a “livre iniciativa”. Todos os outros artigos, bem como as outras leis, decretos, normas, regulamentos, portarias, etc, etc etc, contrariam esse princípio. Na prática, nossa república segue o princípio fascista do “tudo dentro do estado, nada fora do estado, nada contra o estado”.

Os valores que são considerados “direitos fundamentais” do ser humano, basilares para a construção de uma sociedade funcional, aqui são tratados como favores concedidos pelo governo, podendo ser retirados a qualquer momento por conveniências políticas ou eleitorais.

Por exemplo: comemorou-se muito a assinatura, após anos de espera, do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Européia. Mas logo em seguida, ambos os lados começaram os estudos sobre as “exceções” e “salvaguardas”. O apoio popular deixa claro que as pessoas são a favor do livre comércio, desde que esse livre comércio não seja livre.

Alguns políticos (e os fãs desses políticos) gostam de fazer elogios ao livre mercado e ao que eles chamam de “capitalismo”. Mas ao mesmo tempo aproveitam qualquer oportunidade para defender a intervenção e o controle estatal sobre tudo.

Outro exemplo: não é segredo que o mundo inteiro está vivendo uma crise no fornecimento de petróleo. Uma das leis mais básicas da economia é a que relaciona oferta e demanda, e se a oferta torna-se menor que a demanda, isso faz os preços subirem. Tentar lutar contra isso é quase tão inútil quanto lutar contra a gravidade ou contra as leis da termodinâmica, mas isso não impede os políticos de tentar. Recentemente, um deles disse: “O sujeito fica especulando. [..] e o diesel sobe de preço. Ele não tinha motivo [..] mas ele sobe também para ganhar mais. Isso é caso de polícia”. Repetindo: em um país que se diz democrático e favorável à livre iniciativa, um membro do governo acha que um empresário aumentar o preço de seu produto é “caso de polícia”. Sua opinião é compartilhada pelos PROCON´s que se arvoram o direito de emitir multas a empresas que praticam preços “abusivos”, sem que exista nenhuma lei definindo o que é ou não “abusivo”.

Outro princípio fundamental, o do respeito ao direito de propriedade, já nasce morto quando a constituição diz que esse direito está subordinado à “função social” da propriedade, função essa que, mais uma vez, é estabelecida pelo governo ao seu bel-prazer. A constituição estabelece que o dono de um imóvel só pode usá-lo da forma que o “planejamento urbano” da prefeitura determinar. De novo: quando a vida das pessoas deve obedecer ao planejamento governamental, isso não é democracia, é fascismo ou socialismo.

E quanto à liberdade de expressão? A constituição diz que há, mas também diz que não há. Mais uma vez, os brasileiros são a favor, exceto quando são contra. Ou seja, a liberdade é só para dizer o que eles gostam. Se eles não gostam, não pode, porque é ofensa, é injúria, é preconceito, é blasfêmia, é vilipêndio, é machismo, é feminismo, é discurso de ódio, é apologia ao crime, é incitação à violência, é ataque ao estado democrático de direito, é contra a moral e os bons costumes, é antidemocrático, é desrespeito às autoridades constituídas, é inconstitucional, é contrário às normas vigentes, é, enfim, proibido.

Em resumo, existe a realidade e existe o país fictício formado por narrativas, mentiras e muita hipocrisia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PARTIDOS, ELEIÇÕES E DEMOCRACIA

Na Espanha, o partido que ganhou as últimas eleições não está no governo. Isso acontece porque, embora tenha sido o mais votado, não conseguiu o apoio de nenhum outro partido para formar uma coligação que atingisse a maioria de 50%. O segundo partido mais votado, por outro lado, anunciou que topava qualquer acordo para conseguir a maioria. O resultado foi uma coalizão com partidos nanicos, a maioria deles separatistas, que somam 51% das cadeiras. O partido mais votado ficou na oposição.

Portugal, em maio do ano passado, realizou eleições para o congresso. A AD, de centro-direita, passou de 80 para 91 cadeiras, enquanto o PS, de centro-esquerda, caiu de 78 para 58 cadeiras. No mês passado, houve eleições para presidente. O vencedor, por ampla maioria, foi o candidato do PS – o mesmo que saiu derrotado nas eleições legislativas oito meses antes.

Na Alemanha, o governo entrou em crise no final de 2024. O primeiro-ministro demitiu o ministro das finanças, o que causou o rompimento da coalizão que governava. Foram convocadas novas eleições. Os três partidos mais votados foram exatamente os mesmos da eleição anterior, com resultados parecidos, e o novo governo foi formado com os mesmos três partidos que haviam se desentendido meses antes.

Não é difícil notar que estes casos não se ajustam ao que normalmente se chama “democracia”. Do que se trata, então?

Do jeitinho que aprendemos na escola, eleições funcionam assim: vários candidatos se apresentam, mostram suas idéias e debatem em programas de TV. Os jornalistas fazem perguntas sobre as propostas de cada um para resolver os problemas existentes e sobre o posicionamento em relação às questões mais relevantes. O eleitor escolhe o candidato com as melhores propostas e vota nele.

Hoje em dia, claro, não acontece nada disso. O que acontece é:

– Os políticos se juntam em partidos e cada partido passa a se manifestar de forma única.

– Os eleitores simpatizam com as idéias de um determinado partido e passam a apoiá-lo.

– Os partidos, por vários mecanismos, detectam as preferências dos eleitores e concentram seu discurso nessas preferências.

– Os eleitores, vendo seus interesses pessoais representados por um determinado partido, tornam-se cada vez mais fiéis a ele.

– Os partidos eliminam o debate e a troca de idéias e passam a repetir sem parar aquilo que os marqueteiros determinaram ser o que mais agrada ao eleitor. Assim, os nomes e as propostas originais de cada partido perdem a importância. Os partidos passam a ser, na prática, o Partido dos Taxistas, o Partido dos Professores, o Partido dos Agricultores, o Partidos dos Comerciantes, etc., todos agrupados nas designações genéricas de “esquerda” e “direita”.

– O eleitor deixa de olhar os políticos de forma crítica e se torna um fã (abreviação de fanático) que defende incondicionalmente o “seu” partido e ataca todos os outros, usando como argumentos os clichês e frases prontas elaboradas pelos marqueteiros.

– O debate eleitoral se transforma em um concurso de memorização, onde os candidatos competem para ver quem decorou melhor as respostas elaboradas pelos mesmos marqueteiros. Os fãs de cada partido nem precisam assistir ao debate para ter a certeza de que o “seu” candidato venceu o debate porque é o mais inteligente, o mais preparado, o mais honesto, o mais tudo.

– O noticiário torna-se irrelevante porque o fã, ao ouvir qualquer notícia contrária ao “seu” candidato ou favorável aos “outros”, imediatamente grita “fake news!” e encerra o assunto.

É fácil notar que o processo se realimenta: quanto mais o eleitor se torna fã de um partido, mais ele exige que o partido repita sem parar as frases que ele gosta de ouvir, sobre os assuntos que ele gosta de ouvir. E o partido fica feliz em atender a essa exigência, porque isso o livra da obrigação de ter idéias ou propostas reais sobre qualquer assunto.

O resultado final é que eleições tornam-se inúteis. Não há propostas, não há idéias, há apenas troca de acusações e raiva, muita raiva. O irônico disso tudo é que muitas vezes a eleição acaba sendo decidida por uma minoria que não se interessa por nada e vota em qualquer número que vêm na cabeça.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESCÂNDALOS

“Tirando nossa completa incapacidade de relacionar causa e consequência, tudo vai bem no Brasil”

Já não lembro onde ou quando li a frase acima, mas ela continua verdadeira e tão atual como sempre. A nossa incapacidade de perceber a relação entre as decisões que tomamos e as consequências dessas decisões é tão grande como nosso talento em achar culpados externos para todos os nossos problemas.

Um exemplo dessa dissonância é a sucessão de escândalos que se sucedem desde que D. Pedro deu o grito do Ipiranga, e nossa completa incapacidade de ligar esses escândalos à impunidade que acompanha as autoridades que produzem esses escândalos.

O Banco do Brasil quebrou pela primeira vez em 1829 – faltam só três anos para o bicentenário. Nossa monarquia também produziu escândalos de venda de títulos de nobreza, nepotismo, superfaturamento de obras como a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e muitos outros. Veio a república e com ela o escândalo da Central do Brasil, o atentado a Carlos Lacerda, Delfin, Capemi, Lutfalla, Ferrovia do Aço, Ferrovia Norte-Sul, Casa da Dinda, Anões do Orçamento, Projeto SIVAM, Sede do TRT-SP, Mensalão, Petrolão, Dossiê dos Aloprados, quebra do sigilo do caseiro Francenildo, Erenice Guerra, Rocha Loures correndo com a mala de dinheiro, Fabrício Queiroz e os cheques, e tantos outros.

Em cada um deles, o país vivia um sentimento de “desta vez será o fim do mundo”. Claro que o mundo nunca acabou e todos eles viraram piada em questão de meses ou mesmo semanas. Em nenhum deles alguém lembrou de um fato que está na origem da maior parte, senão de todos os escândalos brasileiros: o fato de que aqui, desde sempre, juiz faz o que quer, deputado faz o que quer, senador faz o que quer, ministro faz o que quer, enfim, quem faz parte da chamada “alta cúpula” sempre teve a plena convicção de que pode fazer o que quiser com total impunidade. Aliás, vamos ser francos: no Brasil até estudante de direito do primeiro ano acha que pode tudo.

Duzentos e três anos de escândalos mensais, semestrais e anuais trouxeram uma certeza a todos que fazem parte desses escândalos: haverá muitos gritos, muito barulho, intensa competição na imprensa pelas manchetes mais escandalosas, intensa competição entre as personalidades públicas para se mostrar mais indignado e mais ofendido que todo mundo. E depois disso, o esquecimento e a impunidade.

No nosso país, vigora a certeza de que todos nossos problemas vêm de fora: somos vítimas do imperialismo, do capitalismo, do comunismo, das multinacionais, dos banqueiros estrangeiros, dos illuminati. Nenhum problema brasileiro é consequência daquilo que fazemos.

Por exemplo, ninguém vê nada de errado ao constatar que praticamente todos os juízes e desembargadores, de todos os setores do judiciário, têm como cônjuge um advogado/advogada. No meu estado, Paraná, tivemos um secretário da fazenda (cuja função básica é cobrar impostos) cuja esposa era dona do maior escritório de advogados tributaristas do estado.

Da mesma forma, ninguém vê nada de errado quando membros do executivo, legislativo, judiciário e ministério público aceitam convites “desinteressados” de grandes corporações e bancos para comparecer a eventos, palestras, seminários e congêneres, sempre em hotéis de luxo ou resorts paradisíacos. Também é normal quando essas mesmas empresas contratam essas mesmas pessoas do alto escalão do governo para proferir palestras em troca de cachês de seis dígitos.

Definir a causa disso é assunto para muito debate sociológico e antropológico, mas vou citar dois palpites: de um lado, a tradição absolutista que herdamos de Portugal no século 18 e que se mantém pelo controle que o poder exerce sobre a educação e a mídia.

De outro lado, existe a eterna esperança dos brasileiros de um dia chegar ao andar de cima. Como dizia um antigo colega meu, quando o brasileiro vê uma manchete de jornal sobre um escândalo e diz “Que absurdo!”; ele não está pensando “que absurdo, isso têm que acabar”, ele está pensando “que absurdo, eu não consigo fazer parte desse esquema”.

Tentativas de explicação à parte, também registro meu palpite para o mais recente escândalo: excetuando o caso de alguém “sair da linha” e ser tomado como bode expiatório, em questão de algumas semanas o caso estará dado como resolvido e ninguém do alto escalão dos três poderes será responsabilizado. E, em breve, um novo escândalo tomará as manchetes.