MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

INFLAÇÃO, DE NOVO

O presidente do Banco Central declarou que “Temos inflação de curto prazo bem alta, com expectativas subindo. O Banco Central acreditava em inflação temporária, que não se mostra verdade.”

Para mim isso soa como se a Tereza Cristina falasse “o Ministério da Agricultura acreditava que as bananeiras produzem abacaxi, o que não se mostra verdade.”

A ministra Tereza Cristina não vai falar uma bobagem dessas, lógico, mas a área econômica do governo atual continua mentindo descaradamente como fizeram todos os governos anteriores praticamente desde D.Pedro I.

Roberto Campos Neto sabe perfeitamente o quanto o governo fabricou de dinheiro: o M1, termo em economês para isso, subiu 50% desde o início do ano passado (já mostrei esse gráfico antes, mas não custa nada mostrar de novo). Sabe também que a redução maluca e injustificável da SELIC fez o dólar disparar. Juros baixos refletem a solidez da economia, e no ano passado nossos juros estavam menores que os da Suíça. Alguém acha que a economia brasileira é mais sólida que a suíça? Os investidores não acharam.

Ou seja, nossos governos continuam fazendo o que sempre fizeram, que é culpar a vítima: misturam os termos “inflação” e “aumento de preço” para fingir que a culpa é do comerciante, do empresário ou da chuva que afetou a produção do chuchu. O povo, que é proibido pelo Ministério da Educação de aprender na escola os conceitos básicos de economia, acredita.

De uma vez por todas: Inflação é o aumento da quantidade de dinheiro, e o governo é o único culpado, porque só ele pode fabricar dinheiro. Aumento de preços não é inflação, é consequência da inflação, de acordo com a lei da oferta e procura.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SÍNDROME DE VIRA-LATA

A expressão foi inventada por Nelson Rodrigues, e tinha a ver com futebol. Hoje em dia, virou um xingamento corriqueiro, cujo significado é variável. Alguns o usam para quem fala bem de outros países comparando-os com o Brasil. Outros, ao contrário, o usam para quem faz a comparação falando mal de outros países.

Por causa dessa indefinição, eu sempre evitei usar a expressão. Mas lembro-me dela sempre que vejo uma manifestação de algo muito difundido em nossas plagas, embora certamente não seja exclusividade nossa: o orgulho da própria ignorância. O assunto que se segue é um bom exemplo: já tive vontade de escrever sobre isso outras vezes, mas o meme que encontrei finalmente me convenceu:

É fato que a grande maioria dos brasileiros não consegue escrever uma redação de quinze linhas no padrão ENEM sobre Santos Dumont, muito menos sobre os irmãos Wright. Sobre o assunto, tudo que sabem é repetir como papagaios “catapulta! catapulta! catapulta!”. Alguns se dão ao trabalho de fazer um copia-e-cola de frases sobre “alçar vôo por meios próprios” ou “reconhecimento por órgão oficial” (sempre o imenso amor do brasileiro pelo governo e seus órgãos reguladores) para proclamar que o avião foi inventado por um brasileiro e que os americanos são mentirosos e imperialistas.

De tanto repetir “catapulta”, alguns passaram a adivinhar que o avião dos irmãos Wright não tinha motor e era “jogado ao ar”. Isso é postado pelos twitter e facebook da vida e passa a ser considerado um fato por muitos, fundamentado na idéia do “todo mundo sabe disso”. Na verdade, o autor do quadrinho acima, em sua ignorância, criou uma situação constrangedora: sim, o avião dos irmãos Wright tinha um bom motor, que eles mesmos construíram, mesmo não tendo qualquer experiência anterior. Santos-Dumont, por outro lado, era rico e preferiu comprar um motor pronto.

Para deixar claro, segue aqui a história toda:

– Entre 1899 e 1902, os Wright fizeram muitas experiências usando pipas e planadores para pesquisar maneiras de controlar o vôo.

– Em 1903 os Wright construíram um motor e um novo avião, que realizou dois pequenos vôos em 17 de dezembro. Ao contrário do que afirmam muitos aqui no Brasil, que seguem o princípio do “se eu não conheço, então não existe”, os vôos tiveram testemunhas, notícias no jornal e até uma fotografia. Não foi usada catapulta.

– Em 1904 os Wright construíram um segundo avião, com diversas melhorias. Após realizar mais de vinte vôos em agosto, eles decidiram no início de setembro usar uma catapulta para tornar as decolagens mais seguras e rápidas. Até dezembro eles realizaram 105 vôos, o mais longo deles durando cinco minutos e percorrendo 4,5 km em três círculos completos. Como a intenção dos irmãos era conseguir uma patente pela invenção e iniciar um negócio, eles não se interessavam em mostrar os vôos aos jornalistas.

– Notícias chegaram à França sobre os Wright. Em uma época de nacionalismo exacerbado, a imprensa francesa ironizou as notícias vindas dos EUA e chamou os Wright de mentirosos. O Aeroclube da França, formado por entusiastas ricos, anunciou que daria um troféu de prata para a primeira máquina mais pesada que o ar que voasse por 25 metros, e depois anunciou um prêmio de 1000 francos para o primeiro vôo de mais de 100 metros.

– Em 14 de outubro de 1905, foi fundada em Paris a Federação Aeronáutica Internacional, com o propósito de “regular o esporte da aviação”. Seus regulamentos sobre o reconhecimento de recordes definem que “a aeronave deve ser capaz de decolar por meios próprios”, o que serve de base até hoje para a polêmica. Como já disse, dois meses antes da fundação da FAI, os irmãos Wright já estavam voando seu segundo avião, decolando por meios próprios, e passaram a usar uma catapulta porque não tinham nada a provar quanto a isso.

– Em 1905, os Wright construíram um terceiro avião, mais aprimorado. Em 5 de outubro, este avião realizou um vôo de 39 minutos, percorrendo 39 km com total controle nas curvas.

– Em 23 de outubro de 1906 Santos-Dumont realizou um vôo de 50 metros, ganhando o primeiro dos prêmios do Aeroclube da França. Ao pousar, o 14-bis quebrou as rodas, impedindo novas tentativas. Em 12 de novembro, após implementar algumas melhorias, o 14-bis completou um vôo de 220 metros em linha reta, conquistando os 1000 francos de prêmio – e novamente danificando as rodas ao pousar.

– O 14-bis era incapaz de realizar curvas controladas. Em outubro de 1904 (dois anos antes) o Aeroclube da França havia anunciado um terceiro prêmio, de 50.000 francos (contra os 1.000 do anterior) para o avião que completasse um percurso circular de um quilômetro, retornando ao ponto de partida. Como vimos, o segundo avião dos Wright conseguiu isso em 1905. Santos-Dumont sequer tentou conquistar o prêmio, que foi vencido por Henri Farman em janeiro de 1908.

– Em 1908 os Wright levaram seu terceiro avião para a França e fizeram várias demonstrações públicas, incluíndo vôos com passageiros, com grande repercussão na imprensa. Ernest Archdeacon, do Aeroclube da França, que havia sido um dos mais eloqüentes detratores dos irmãos, admitiu publicamente que havia cometido uma injustiça. Quando, após um vôo, um jornalista questionou o uso da catapulta, Orville Wright simplesmente voltou a subir no avião, decolou sem usar a catapulta, voou por mais alguns minutos, tornou a pousar e foi embora sem dizer uma só palavra ao jornalista.

– Em 1909 Santos-Dumont realizou um projeto muito mais relevante que o 14-bis: o Demoiselle, que teve mais de trezentas unidades produzidas na Europa e nos EUA. Deveria ser muito conhecido por aqui, mas como não tem o chamariz da polêmica, é ignorado.

– Também em 1909, os irmãos Wright conseguiram um contrato com o exército dos EUA e fundaram uma empresa chamada Wright Company para produzir os aviões.

Santos-Dumont foi um genial inventor, mas sua paixão eram os balões, não os aviões. O 14-bis foi construído para atender aos pedidos do Aeroclube da França, que sabia dos aviões dos Wright e tinha pressa em mostrar ao mundo uma conquista francesa. É uma pena, quase uma vergonha, que os brasileiros nada saibam de sua história e de suas conquistas, e se dediquem a sustentar um mito sobre um feito que ele não conquistou: o primeiro “mais pesado que o ar” a voar.

Mais assustador ainda é ler pela internet gente dizendo que devemos considerar Santos-Dumont como o primeiro a voar por “patriotismo”. Não consigo entender o que há de patriótico em ignorar a realidade e acreditar em mentiras e lendas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

IMPOSTO É ROUBO?

A internet está cheia de gente que gosta de passar o tempo discutindo, mesmo sabendo que nunca chegarão a uma conclusão. Têm discussão sobre futebol, sobre celebridades, sobre política e até sobre economia. Para cada assunto existem algumas provocações que são certeza de um debate interminável. Uma delas é o título deste pitaco: Imposto é roubo?

Do ponto de vista puramente gramatical, não há dúvida: roubo é tomar algo de alguém contra a sua vontade. Imposto é exatamente isso. Ou, para ser mais meticuloso ainda, imposto é extorsão; roubo é praticado com uso de violência, enquanto na extorsão há apenas a ameaça de violência em caso de desobediência. E antes que digam que o estado não usa de violência, eu conheci pessoalmente duas pessoas que foram presas em suas próprias casas pela polícia federal e levadas de camburão, algemadas, para a prisão, por não pagar impostos.

Por que então as pessoas reclamam se alguém lhes furta um objeto mas consideram normal entregar quase metade do que ganham ao governo em impostos, contribuições e taxas? Basicamente, porque acreditam que ser roubado pelo governo “é diferente” de ser roubado por um assaltante. Mas diferente como, e por que? Algumas respostas comuns são:

“É para ajudar os necessitados”

Não justifica. Se um assaltante distribuir o dinheiro que roubou entre as crianças pobres, ele não deixa de ser assaltante. Aliás, nas favelas brasileiras as milícias e as organizações criminosas (que também cobram seus impostos) ajudam mais os moradores do que o governo.

“O dinheiro volta para nós”

Também não justifica. Se um bandido assaltar um açougue, uma padaria e uma lanchonete e no dia seguinte voltar para gastar o dinheiro nestes mesmos lugares, ele não deixa de ser bandido. Além disso, basta observar a realidade para constatar que governos, invariavelmente, gastam a maior parte do que arrecadam com eles mesmos, e a parte que “volta para o povo” sempre fica cada vez menor.

“Mas como o governo vai construir hidroelétricas (ou aeroportos, ou pontes, etc)”

Nos lugares onde o governo não proíbe (são cada vez menos, infelizmente) a iniciativa privada constrói todas estas coisas, e quase sempre por preço menor e em menos tempo. As proibições existem justamente para que o governo finja ser indispensável, e para evitar o constrangimento das comparações.

Dá para notar que os que “defendem” a cobrança de impostos não negam que eles são cobrados à força e que isso, por definição, é roubar. O que estes argumentos fazem é alegar uma situação especial em que uma entidade específica, o governo, pode fazer isso em nome do “bem comum” ou algo parecido. Em outras palavras, o que diferencia o ladrão do governo é que o governo tem “legitimidade” para roubar.

Mas de onde vêm essa tal legitimidade? “da lei”, dizem seus defensores. Mas quem faz a lei? “O governo”. Então o governo dá legitimidade a si mesmo? “Ah, mas tem a democracia”. Mas na nossa democracia é o governo quem controla as eleições, define quem pode ser candidato, determina como os candidatos podem fazer campanha… Então a dúvida continua: de onde veio a legitimidade para o governo se considerar o dono da democracia?

Só para exemplificar: alguns militantes dizem que todos os presidentes desde 1889 são ilegítimos porque a proclamação da república foi um golpe. Golpe por golpe, podemos dizer que D.Pedro também deu um golpe ao se declarar imperador, contra as leis portuguesas e sem consulta ao povo. Aliás, essa coisa de “independência” é curiosa: em todo o mundo, quando uma parte de um país quer se separar, é chamada de golpista, traidora, criminosa, anti-patriótica. Mas depois que a separação acontece, os separatistas viram heróis, libertadores, “pais da pátria”.

Fiz essa divagação para mostrar que essa questão de legitimidade é complicada. Pedro Álvares Cabral e o rei D.Manuel não tinham legitimidade para ocupar o Brasil, mas passamos a ser parte do reino português mesmo assim. D.Pedro não tinha legitimidade para virar imperador, mas virou. Depois veio o Mal. Deodoro, depois Getúlio Vargas, depois Dutra, depois Costa e Silva… todos eles agiram fora das leis vigentes, mas conquistaram sua pretensa legitimidade à força. Ou seja, a legitimidade só vem da lei quando convém. Na prática, ela vem da força, e a força vem justamente da cobrança de impostos, que é usada para pagar exércitos e armas.

De minha parte, eu gosto de pensar que governo é como cabelo: têm que ser cortado com frequência, porque cresce sozinho. E quando o governo cresce, inevitavelmente os impostos crescem junto. Então, fazendo outra comparação, podemos dizer que impostos são como as doenças: não sabemos (ainda) como acabar com eles, mas não devemos parar de tentar.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

COMPARAÇÃO

Tenho visto notícias de que nosso congresso está discutindo mudanças no sistema eleitoral; voltaram as coligações, rejeitaram o fim do sistema proporcional, modificaram a “cláusula de barreira”.

Talvez eu seja muito pessimista, mas acho que uma reforma eleitoral feita pelos nossos deputados e senadores é algo como uma reforma do código penal feita pelo Comando Vermelho e pelo PCC.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O MITO DA SUÉCIA

Para os brasileiros que amam o estado (a maioria), “Suécia” é uma espécie de palavra mágica, que serve de comprovação para qualquer teoria do lado progressista. Cita-se a Suécia para provar que impostos são bons (e quanto mais altos, melhor), para provar que é possível um governo dar tudo de graça para todo mundo, e até para provar que “o socialismo funciona”. Na prática, a maioria dos que usam esse tipo de argumento não consegue achar a Suécia num mapa, quanto mais apresentar fatos concretos sobre ela. Vejamos alguns dos mitos mais comuns:

A Suécia é socialista?

Não. A Suécia é capitalista, o respeito à propriedade privada é absoluto, a facilidade de comércio é enorme (incluíndo comércio exterior) e qualquer um pode abrir uma empresa privada sem precisar obedecer a planejamentos estatais. Mais ainda: em uma pesquisa de alguns anos atrás, 42% dos norte-americanos disseram ter “uma visão positiva” do socialismo. Na Suécia, esse número foi de 9%.

A Suécia enriqueceu com um estado grande?

Não. A Suécia enriqueceu entre as décadas de 1870 e 1910, graças a uma política liberal que aboliu as antigas guildas, desregulamentou os negócios e o setor financeiro e abriu o comércio para o exterior. Neste período, o PIB per capita aumentou 2% ao ano, e os gastos públicos não ultrapassaram 10% do PIB. Vieram as duas guerras mundiais, das quais a Suécia saiu praticamente ilesa. Mas após a 2ª guerra, uma onda de socialismo varreu a Europa, e desta desgraça a Suécia não escapou.

Em 1960 o partido social-democrata iniciou a montagem do “estado de bem-estar social”, com o estado tomando o controle da educação, da assistência à saúde e das aposentadorias, e oferecendo generosos benefícios como seguro-desemprego, licenças maternidade e paternidade e creches gratuitas. Em 1980 os gastos públicos alcançaram 60% do PIB, e como os impostos sozinhos não conseguiam pagar a conta, o governo imprimia dinheiro, gerando inflação. A economia ficou paralisada. Para fugir dos impostos cada vez maiores e da interferência cada vez maior do governo, empresas importantes como a Ikea e celebridades como o tenista Bjorn Borg e o cineasta Ingmar Bergman fugiam do país.

Em 1990 tudo despencou rapidamente. O desemprego aumentou. O déficit orçamentário chegou a 11% do PIB. O país não conseguia mais rolar a enorme dívida feita para sustentar os quase infinitos benefícios. Felizmente, os políticos de lá não são suicidas como em outros países, e houve consenso para mudar o rumo da economia. As despesas do governo foram reduzidas em mais de 30%. Uma lei estabeleceu uma meta de superavit. Estatais foram privatizadas, as pesadas regulamentações foram extintas, o número de funcionários do governo foi reduzido. O tamanho do governo hoje é similar aos demais países da Europa.

Infelizmente, décadas de controle estatal sobre a educação deixaram sua marca: os suecos ainda adoram e desejam um estado grande e generoso, e poucos desejam empreender. A economia está estabilizada, mas pouco dinâmica. Tomando como exemplo o setor de veículos, que já foi um orgulho nacional: a Saab abandonou a fabricação de automóveis, e a Volvo automóveis e a Scania não são mais suecas.

Em resumo: a Suécia enriqueceu com um estado pequeno e um estado grande quase destruiu toda esta riqueza.

Os suecos são incorruptíveis?

Não. Embora o governo funcione de modo muito melhor do que a maioria dos países, a “generosidade” estatal corrompeu a ética de trabalho no nível individual. A proporção de suecos que disseram que é aceitável mentir para obter benefícios do governo aumentou de 5% em 1960 para 43% em 2000. É recorrente na imprensa a constatação de que as faltas ao trabalho por motivo de doença disparam em vésperas de feriados ou em dias de jogos importantes ou shows de artistas famosos.

A Suécia cobra imposto sobre herança?

Não. Na loucura socialista dos anos 60/70, o imposto sobre herança chegou a ser de 70%. Em 2004, esse imposto foi abolido por votação unânime no parlamento sueco, por ser considerado inconveniente no aspecto social e inútil no aspecto financeiro.

A Suécia cobra imposto sobre grandes fortunas?

Não. Aliás, o sistema tributário sueco é pouco progressivo. Enquanto nos EUA, por exemplo, os 10% mais ricos pagam 45% do total arrecadado de imposto de renda, na Suécia os 10% mais ricos contribuem com apenas 25% do total. Além disso, boa parte da arrecadação vêm de imposto sobre consumo, onde o rico e o pobre pagam a mesma alíquota. Nas palavras do jornalista Johan Norberg, “O sistema tributário não é construído para espremer os ricos; eles são muito poucos, e a década de 1970 mostrou que a economia é muito dependente deles. Em vez disso, a Suécia aperta os pobres. Eles são contribuintes leais, não podem pagar advogados e nunca transferem seus ativos para as Bahamas.”

O sistema público de saúde da Suécia é o melhor do mundo?

Não. Na verdade, não é nem mesmo um dos melhores da Europa. Por ser totalmente estatal, o sistema de saúde da Suécia é caro e burocrático. No mais recente relatório da organização Health Consumer Powerhouse, que analisou 35 países europeus, a Suécia ficou em 4º lugar em gasto por paciente e em último lugar no quesito “rapidez para marcar uma consulta”. Vale lembrar que, ao contrário do que muitos brasileiros acreditam, os sistemas de saúde da Europa não são todos estatais. Na Suíça e na Holanda, os dois melhores colocados no relatório da HCP, o sistema se baseia em planos de saúde privados, com livre concorrência e com o mínimo de interferência estatal.

A educação da Suécia é totalmente pública?

Não. A Suécia adota um sistema de “voucher” onde os pais escolhem livremente a escola para seus filhos e a mensalidade é paga pelo governo, não importando se a escola é pública ou privada.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SIM, 2021 É 1984

No mês passado, publiquei um pitaco fazendo comparações entre nossa realidade de hoje e a descrita por Orwell no romance “1984”.

Eis que no Canadá, país que é ardorosamente fã de governos grandes e do pensamento politicamente correto, um funcionário do governo confirma minha suspeita. Em uma coletiva de imprensa realizada em 31 de maio, o Diretor de Saúde da província de Nova Escócia foi questionado sobre a proibição da reunião de pessoas mesmo com os números indicando o declínio da pandemia por lá. O diálogo foi o seguinte:

Jornalista: Estou me perguntando se a liminar [que proíbe] reuniões públicas, se realmente existe a necessidade de uma medida tão abrangente.

Dr. Robert Grant: Você sabe que nós ainda temos… Reunir um grande número de pessoas ainda pode apresentar algum risco, nós iremos continuar tomando conta disto. E outro propósito da liminar é o de prevenir grupos que estão deliberadamente espalhando informações falsas que criam riscos. As informações, se levadas a sério, criam riscos para o público. Certamente temos a necessidade de gerenciar esta campanha de desinformação.

Sim, é o que você leu: o governo proibiu as pessoas de se reunirem para impedir que elas “deliberadamente” espalhem informações “falsas”. E quem determina que as tais informações são falsas? O próprio governo, claro. Exatamente como em “1984”, o governo é o dono da verdade e qualquer um que discorde do governo está necessariamente errado, e provavelmente cometendo um crime – no romance, esse ato de discordar daquilo que o governo determinou ser verdade é chamado “crimidéia”, contração de “crime” e “idéia”. Para evitar que as pessoas cometam o horrível crime de discordar do governo, o governo proíbe que as pessoas se encontrem para conversar. Todo mundo trancado em casa, para seu próprio bem: é o que o Dr. Grant chamou de “gerenciar a desinformação”.

Se no romance de Orwell a censura de tudo que discordasse do governo ficava a cargo do MINIVER (sigla do Ministério da Verdade), no mundo de hoje surgiram entidades que se auto-denominam (com o indispensável estrangeirismo) “agências de fact-checking”. Algumas são ligadas a grandes empresas de mídia, outras a ONGs, mas todas têm em comum o fato de se acharem a autoridade definitiva para definir o que é certo e o que é errado, sem que ninguém saiba de onde veio essa suposta autoridade. E nessa típica câmara de ecos que se tornou a imprensa mundial, basta que uma dessas agências decrete que uma informação qualquer é “fake news” para que todo o restante dê o assunto por encerrado, redes sociais incluídas.

Um exemplo brazuca? A agência “Estadão Verifica” carimbou como “fake news” um trabalho de Luc Montagnier sobre o risco da disseminação de novas variantes do covid.

Quem é Luc Montagnier? É nada menos que o ganhador do Nobel de Medicina de 2008, e um dos mais renomados virologistas do mundo. Mas para a agência “Estadão Verifica”, a opinião de um ganhador do Nobel pode ser questionada por um jornalista freelance sem qualquer conhecimento na área e carimbada como inválida. Com isso, todo o restante da imprensa e das redes sociais pode banir o Dr. Montagnier simplesmente dizendo “declarado fake news por uma agência de fact-checking”.

Não faltam idéias dentro do governo para dar reconhecimento oficial para as tais agências de fact-checking. Em outras palavras, grupos que ninguém sabe de onde surgiram e que não prestam contas a ninguém passariam a ter o poder oficial de determinar o que pode e o que não pode ser dito.

1984 já chegou.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MAIS IMPOSTO

Aqueles brasileiros, cada vez mais numerosos, que acreditam que um estado grande resolve todos os problemas e que mais impostos são o caminho da prosperidade (desde que sejam os outros que paguem) têm se concentrado em repetir três clichês: tributar dividendos, tributar heranças, tributar grandes fortunas.

Nosso ministro Guedes acaba de atender a um destes desejos: em troca da “bondade” de alterar o limite de isenção do imposto de renda anunciou orgulhosamente que dividendos pagarão 20% de imposto. Coisa de primeiro mundo, segundo ele.

Ninguém vai falar que esse aumento no limite do IR não chega nem perto de compensar aquilo que a inflação comeu: se acompanhasse a inflação nos últimos 20 anos, a faixa isenta hoje estaria em mais de 6.000 reais.

Da mesma forma, nem ele nem ninguém no governo vai explicar que a tributação sobre empresas no Brasil é a quarta maior do mundo segundo pesquisa da OCDE. Nem dirá que a nossa carga tributária sobre as empresas é 50% maior que a média dos países membros da mesma OCDE (repetindo um argumento que já usei em outro pitaco, provavelmente todos eles estão errados e só nós estamos certos).

Para entender como funciona: um brasileiro resolve investir seu dinheiro em uma empresa. Ele já começa a pagar taxas, licenças e alvarás antes mesmo da empresa poder abrir. Quando começa a funcionar, cada real que ele recebe é taxado com ICMS, IPI ou ISS, mais PIS e COFINS (e só a legislação oficial em pdf sobre PIS e COFINS têm 1826 páginas). Daí ele vai descobrir se sobrou algum lucro, e pagar imposto de renda sobre isso. Aí, sobre o que sobrou, que é chamado “lucro líquido”, ele paga CSLL. E agora, graças ao Guedes, se ele quiser receber esse lucro para recuperar o capital que investiu, vai entregar 20% disso para o governo.

Nenhum brasileiro deslumbrado com “distribuição de renda” e “redução da desigualdade”, destes que acham que aumentar o tamanho do estado é o caminho para nos tornarmos a Suécia, vai atentar para o fato que, para imitar a Suécia, precisaríamos, ao invés de aumentar a taxação das empresas, diminuí-la em nada menos que um terço: cobramos 34% enquanto a Suécia cobra 22%. Com a taxação de dividendos, uma empresa que distribua seu lucro integralmente para os sócios no ano que vem estará pagando 45%!

No fundo, nenhuma novidade. Seguimos no mesmo rumo desde 1822: o governo vê empresas e empresários como uma galinha dos ovos de ouro da qual sempre se pode tirar mais um pouco; o povo acha lindo aumentar impostos, porque acredita quando o governo diz que só quem vai pagar são os outros; os empresários vão se tornando ex-empresários, como eu. E assim vamos nos tornando mais colônia do que já somos.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

NÓS E O DÓLAR

Depois do 11 de setembro, o governo dos EUA tinha duas preocupações: estimular a economia para evitar uma recessão, e pagar a conta das guerras no Afeganistão e no Iraque. A solução para as duas questões foi uma que qualquer político adora: imprimir dinheiro. Eles têm prática em aparecer como os responsáveis pela parte boa – distribuir dinheiro – e fingir que não têm nada com isso quando a parte ruim aparece: o dinheiro vale cada vez menos, e os preços sobem. O pior é que a parte boa acaba logo, mas a parte ruim, a inflação, fica para sempre, e vai acumulando a cada surto de populismo do governo.

Mas o dólar tem algo de diferente de todas as outras moedas: ele é a referência para praticamente todo o comércio mundial. E se o dólar passa a valer menos, todo o resto passa a valer mais, comparativamente. Ou seja, as outras moedas se fortalecem e ao mesmo tempo o preço em dólar de tudo tende a subir.

Foi o que aconteceu na década passada. Para citar as duas commodities que mais interessam ao Brasil, já que são a base de nossas exportações: o minério de ferro foi de 38 dólares em 2004 para 65 em 2005, 106 em 2007 e 196 no início de 2008, para desabar para 70 no final deste mesmo 2008. O óleo de soja foi de 560 dólares em 2005 para 630 em 2006, 890 em 2007 e 1500 no início de 2008, para também desabar para 745 no final do ano.

Para quem não lembra, este período de 2005 a 2008 foi uma época de bons ventos para a economia brasileira: com os preços nas alturas e a China comprando tudo que houvesse para vender, nossas exportações estavam bombando. Quando os preços caíram em 2008, nós continuamos gastando à base de crédito, até que tudo estourou em 2014, logo após a eleição.

A pandemia que começou ano passado deu a desculpa que os EUA esperavam para começar tudo de novo, dessa vez de forma mais doida ainda: no ano passado, o FED (o Banco Central deles) aumentou a base monetária em mais de 30%. Isso significa 5 TRILHÕES de dólares, e o presidente Biden já disse que pretende pagar mais 10 trilhões em auxílios.

Como não podia deixar de ser, o mercado mundial já se ajustou aos fatos, e os preços voltaram a disparar. Minério de ferro e óleo de soja subiram quase 100% nos últimos doze meses, e a maioria das demais commodities agrícolas e minerais está na mesma média. O índice de preços nos EUA já bateu os 5% ao ano, um número escandaloso para uma economia madura como a deles. A distribuição de dinheiro está tão grande que as empresas estão com dificuldade para contratar. Segundo o Ministério do Trabalho deles, em abril havia 9,3 milhões de vagas em aberto, número jamais visto antes. Os políticos, e o povo, parecem estar acreditando piamente que não é necessário produzir para gerar riqueza: basta o governo “jogar dinheiro de um helicóptero”.

No Brasil, as consequências são as mesmas da década de 2000: as ações da Vale estão em alta, os produtores de soja do Centro-Oeste estão rindo à toa, e nossos políticos estão esfregando as mãos na espera dos bons tempos que virão.

Seria um excelente momento para darmos um grande passo: aproveitar os bons tempos para reduzir o déficit e a dívida do governo, baixar impostos, facilitar a abertura de novas empresas, incentivar todo tipo de empreendedorismo, aumentar nosso comércio exterior, que é pífio. Quando a bonança acabar – e ela vai acabar, isso é certo – estaríamos em boa posição para continuarmos crescendo.

Ou podemos repetir a receita já vista: usar o dinheiro para distribuir dinheiro em bolsas-família e auxílios emergenciais, aumentar salários do funcionalismo, fazer mais concursos para aumentar ainda mais esse funcionalismo, construir algumas obras bilionárias, e incentivar as famílias a se endividarem com crédito fácil. Quando o dólar voltar a se fortalecer, a escada sumirá debaixo de nossos pés e ficaremos agarrados no pincel de novo.

Será que será desta vez que deixaremos de ser “o país que nunca perde a oportunidade de perder uma oportunidade” ?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SÓ CONSTATANDO

Nossa Câmara dos Deputados, em mais uma daquelas votações que tratam dos temas que interessam a eles, no estilo “quando a gente vai ver já foi”, aprovou uma proposta que praticamente acaba com a Lei de Improbidade Administrativa.

Pela nova proposta, a lei só abrange os casos em que for “comprovada a intenção de causar dolo”, os prazos de prescrição passam a ser ínfimos em comparação com a velocidade da nossa justiça, e não pode haver nenhuma punição até o famoso “trânsito em julgado”, o que pode levar décadas.

O placar da votação foi de 408 a 67.

Votaram em peso a favor da proposta a “esquerda”, a “direita” e o “centrão”, incluindo os seguintes deputados que são considerados “alinhados com o governo”:

– Eduardo Bolsonaro
– Bia Kicis
– Carla Zambelli
– Carlos Jordy
– Hélio Lopes
– Major Vítor Hugo

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

CASSINOS

Todo país gosta de turismo. Produz empregos, gera renda, produz riqueza. Cassinos são um elemento importante do segmento turístico no mundo inteiro.

Mas não no Brasil. Aqui, sete décadas atrás, um presidente os baniu, do dia para a noite, com uma canetada (segundo a lenda, atendendo aos pedidos de sua esposa beata). Arruinou a vida de milhares de pessoas que trabalhavam dentro da lei e de repente se viram no olho da rua. E, claro, transferiu o setor para aqueles grupos que têm o privilégio de poder fazer o que os outros não podem, graças às suas conexões, amizades e conchavos. Ou será que alguém é tão ingênuo a ponto de achar que existe cidade grande no Brasil que não tenha suas “casas de jogo” funcionando sob o sigilo e a proteção das autoridades, mediante uma conveniente distribuição dos lucros?

Não é de estranhar que nas esferas do governo qualquer tentativa de discutir o assunto fracasse: boa parte das pessoas que se beneficiam com a atual situação está justamente dentro do governo ou muito próxima dele.

O que me espanta é a quantidade de gente que, sem ganhar nada com isso, faz côro e aplaude a situação. Mais do que impor sua vontade, o que pedem (na verdade exigem, e aos gritos) é simplesmente que se proíba até mesmo falar no assunto.

Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha e Suíça têm cassinos. Portugal e Espanha, mais próximos culturalmente de nós, também. Suécia e Dinamarca, que alguns julgam ser os países mais desenvolvidos do planeta, também. Austrália e Nova Zelândia, exemplos de países “jovens” como nós, também. Nossos vizinhos – Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Perú, Colômbia – todos têm cassinos.

Todos eles estão errados e só nós estamos certos?

Duas explicações me vêm à cabeça, e ambas me deixam triste.

A primeira é que existe gente tão preocupada com as aparências que acha que políticos assinarem um papel dizendo que algo é proibido é mais importante do que este algo existir ou não na realidade.

A segunda é que existe gente que acredita que nós, brasileiros, somos vítimas de alguma maldição ou defeito genético que nos faz inferiores ao restante da humanidade, e portanto somos incapazes de lidar com coisas que são triviais para o restante do mundo. É como se fôssemos as únicas crianças no meio dos adultos, e certos assuntos fossem proibidos para nós.