MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

EXPLICANDO O BÁSICO

Notícia do G1, que é da Globo:

A prefeitura de São Roque (SP), com base em um decreto de “estado de calamidade pública”, retirou sete respiradores do Hospital São Francisco, recém-inaugurado, transportando-os para a Santa Casa da cidade.

O responsável pela Santa Casa chamou a medida de “impensada”, informando que a Santa Casa não tem pessoal treinado para operar os equipamentos.

O assessor jurídico da prefeitura afirmou que “tudo foi feito dentro da lei”, e afirmou “É uma medida de exceção sim, porque nós vivemos um momento de exceção.”

Até o dia da ação realizada pela guarda municipal, não havia nenhum caso confirmado de COVID na cidade.

Segundo o proprietário do hospital, que começou a funcionar em fevereiro, a UTI estava passando por testes e ajustes nos equipamentos e os médicos intensivistas estavam em processo de seleção. A previsão era começar a funcionar no início de abril.

Esta é a notícia. Agora, a análise:

– Se você tiver um parente passando mal e, com o stress, levantar a voz para um atendente do posto de saúde, corre o risco de ser posto para fora e apanhar do “segurança”. Mas o prefeito pode usar capangas armados (com o nome mais simpático de “guarda municipal”) para conseguir o que quer, inclusive roubar propriedade alheia.

– O prefeito escreveu um papel dizendo que ele pode fazer aquilo que ele quer fazer. Basicamente, o prefeito pode escrever um papel dizendo que ele pode fazer qualquer coisa. Aí ele faz esta coisa e manda o assessor dizer que “está tudo dentro da lei”. Para começar, decreto não é lei. Em segundo lugar, é princípio básico das democracias que todo poder é exercido dentro de limites estabelecidos. Um prefeito assinar decretos dando poderes para si mesmo é a falência total do que se costuma chamar de “Estado de Direito”. Mas é comum por aqui, e não são só prefeitos: funcionários públicos também adoram assinar portarias, resoluções e outras papeladas concedendo poderes para si mesmos.

– O dono do hospital terá que procurar advogados para tentar ser indenizado do prejuízo. Mas é uma situação bem peculiar: ele irá pagar os seus advogados, mas também irá pagar, via impostos, os advogados da prefeitura. Corre o risco de ser julgado por um juiz demagogo que acredita em “justiça social” e perder tudo. Mas mesmo se levar sorte e ganhar (depois de muitos anos, com certeza), o prefeito e seus capangas não tirarão um centavo do bolso. Quem pagará o prejuízo será ele mesmo, juntamente com os demais moradores de São Roque.

Para ficar bem claro que este é apenas UM exemplo do que acontece no dia-a-dia, vou resumir como a coisa funciona:

– VOCÊ paga o salário do prefeito.

– VOCÊ paga o salário dos capangas do prefeito.

– O prefeito faz o que dá vontade porque ele assinou um papel dando poderes para si mesmo.

– As vítimas das ações do prefeito têm que procurar a justiça, gastar dinheiro e esperar anos.

– VOCÊ paga o salário do juiz que vai julgar a causa.

– VOCÊ paga o salário dos advogados que vão defender o prefeito.

– Se por sorte as vítimas ganharem a causa, VOCÊ paga os prejuízos causados pelo prefeito.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DEU NO NEW YORK TIMES: A SUÉCIA NÃO PAROU

Ao contrário da maioria dos países, a Suécia decidiu não enfrentar a pandemia do Covid com quarentenas. Todo o comércio continua funcionando normalmente, incluindo as escolas. Os dados do último sábado mostram um número de casos em relação à população menor que seus vizinhos Noruega e Dinamarca, que optaram pela política de isolamento e interrupção do comércio. (Suécia, 10 milhões de habitantes, 3060 casos; Noruega, 5.3 milhões de habitantes, 3770 casos; Dinamarca, 5.6 milhões de habitantes, 2200 casos)

Claro que o governo sueco pediu à população que tome cuidado, evite aglomerações, cuide da higiene, e que os suspeitos se mantenham em isolamento. A diferença é que o governo preferiu confiar no bom-senso das pessoas, ao invés de se comportar como o papai-sabe-tudo. (para constar, a República Socialista Islâmica da França baixou um decreto que obriga seus cidadãos a preencher um formulário via internet cada vez que saírem de casa).

Anders Tegnell, epidemiologista do governo sueco, explica suas idéias:

“Regras e limitações não funcionam. As pessoas encontram formas de contornar as regras.”

“Fechar fronteiras quando praticamente todos os países já tem casos da doença não faz nenhum sentido.”

Elisabeth Hatlem, empresária, diz que está dividida quanto à questão: De um lado, ela está feliz por poder manter aberta sua empresa, e diz que o fechamento obrigatório seria “um desastre”. De outro lado, ela não se sente confortável em mandar seus filhos para a escola: “eu me sinto vivendo em um enorme experimento, e ninguém perguntou se eu queria participar.”

Este pitaqueiro tem apenas uma coisa a dizer: aqui no Brasil, todos nós estamos sempre participando de enormes experimentos, e nunca se cogitou perguntar se queremos participar, porque os condutores dos experimentos tem a mais absoluta certeza de que estão absolutamente certos em absolutamente tudo que fazem. A nós, cabe apenas participar do experimento felizes e gratos por pessoas tão sábias estarem tomando conta de nós.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FUTURO

Palácio do Planalto, Brasília, outubro de 2020. O presidente Lula cumprimenta os jornalistas da Globo, CNN Brasil e BandNews e senta-se à mesa para dar início às declarações.

“Companheiras e companheiros. Quero dizer que estou muito feliz de estar de volta à presidência defte país, que sofreu tanto nestes quatro anos depois do golpe que afastou nossa companheira Dilma. Eftou de volta, eleito pelo voto dos brasileiros, numa eleição eftraordinária. Não posso deixar de agradecer, não por mim mas por todo o povo do Brasil, à firme e correta atuafão do Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, no impíxi daquele presidente que eu nem quero dizer o nome. Quero também destacar a atuafão do presidente do Supremo, Dias Toffoli, que compreendeu a urgência do caso e criou as regras para o julgamento sumário que permitiu concluir o profefo do impíxi em apenas quinze dias. Quero também agradecer ao Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que honrou seu cargo determinando de maneira monocrática que o impíxi devia incluir o vice, o que permitiu a realizafão de novas eleifões. E, para concluir, agradecer à presidenta do TSE, Rosa Weber, que liberou minha candidatura com um argumento perfeito: “este troço da lei da ficha limpa é bobagem”.

“Como todos sabem, o país pafou por um momento muito difícil, com a epidemia do Corona Vírus. Que o digam todos os funcionários públicos federais, estaduais, municipais e das empresas estatais, que eftão se sacrificando pelo país ao permanecer em casa, sem trabalhar, recebendo salários integrais, até julho do ano que vêm.”

“Mas todo problema deve ser visto como uma oportunidade, dizem os bons políticos. Essa pandemia fez o Brasil melhorar. Qualquer um sabe que empresários são todos exploradores, gananciosos, egoístas e fascistas. A quarentena quebrou centenas de milhares de empresas e libertou milhões de trabalhadores da injustiça e da humilhação que era ganhar o sustento de sua família com seu próprio trabalho. Hoje, tanto os empregados quanto os empresários vivem do bolsa família, esta maravilhosa invenfão do Partido dos Trabalhadores, que está ajudando o Brasil a acabar com a desigualdade e a injustiça. As poucas empresas que sobraram depois dos meses de paralisação forçada logo serão fechadas pelos aumentos de impostos. Como disse meu companheiro Haddad, nosso lema deve ser “tudo dentro do estado, nada fora do estado, nada contra o estado”. Não sei quem é o autor da frase, mas dá para ver que é gente boa.”

“Claro que a oposição neo-liberal fascista não se conforma, e está nos acusando de privatizar nossos recursos naturais para pagar a conta. É mentira! O PT é e sempre será contra as privatizações! O que fizemos foi concessão, que é completamente diferente. Sim, foram concedidos o petróleo do pré-sal e o minério de Carajás, e foi liberada a mineração nas terras indígenas, mas está tudo de acordo com a constituifão, como já decidiu nosso querido ministro Lewandowski.”

“Em nome de meus companheiros de governo, quero agradecer à todos e garantir que estamos trabalhando sem descanso por um país melhor e mais justo. Que o Brasil permaneça sempre um país Livre, Independente e Soberano !”

Ao lado do presidente Lula, seu vice Wu Xing, o Ministro da Justiça Lao Tang, o Ministro da Economia Xi Ling e o presidente do Banco Central, Chang Mao, balançam a cabeça, concordando.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DIVAGAÇÕES DE UM PITAQUEIRO EM QUARENTENA

Muita gente já disse que essa pandemia, assim como as outras que já aconteceram, só vai acabar quando a maioria da população do mundo for exposta ao vírus e adquirir imunidade. A outra alternativa seria isolar todos os doentes e impedir a transmissão: seria possível com literalmente meia dúzia de infectados, mas com dezenas de milhares de casos pelo mundo (fora os não detectados), é impossível.

A estratégia do isolamento, da quarentena, tem por objetivo diminuir o ritmo de propagação do vírus (“achatar a curva”, dizem os especialistas), para retardar ou mitigar o inevitável colapso dos sistemas de saúde. Mas enquanto esta estratégia não conseguir uma redução (e não apenas um aumento menor) no número total de casos, ela estará ao mesmo tempo reduzindo a expansão da epidemia e atrasando seu término. Afinal, se o fim depende de uma boa parte da população desenvolver imunidade, quanto mais lenta a exposição mais lento será este processo.

A mídia viu uma boa forma de fazer sensacionalismo, e com isso ganhar audiência. Boa parte dos políticos também aderiu à estratégia de fazer barulho, por acreditar, com boa dose de razão, que muitos eleitores não observam o que o político faz, e sim o que o político diz que está fazendo. Boa parte da população, que trata política da mesma forma que trata futebol, está torcendo pelos seu políticos favoritos e xingando os outros.

Enquanto isso, a estratégia do “todo mundo em casa” segue até quando? O bom senso diz que não por muito tempo. As sociedades modernas funcionam como um relógio incrivelmente complexo, onde a maioria das partes não é sequer visível, mas uma pequena falha em uma delas pode fazer tudo parar. Claro que alguns acreditam que o governo (sempre o santo governo) pode “planejar” e “regulamentar” o funcionamento de tudo através de decretos e pronunciamentos. Uma dica: este tipo de planejamento sempre foi o sonho dourado de toda ditadura socialista, da União Soviética de Lênin até o Chile de Allende. Nunca funcionou. Como alguém acredita que vai funcionar agora, de improviso, eu não sei.

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Enquanto isso, quem tem a sorte de ter uma renda garantida está em casa, se auto-elogiando nas redes sociais, mostrando para todos que é uma pessoa consciente, responsável, íntegra, preocupada com o bem estar de todos. Talvez seja má vontade ou preconceito de minha parte, mas não pude deixar de notar no facebook de meus conhecidos que aqueles que tem empregos públicos, além de ter sido os primeiros a se auto-declarar em féri…, quer dizer, quarentena, também são os primeiros em exigir que o governo decrete que esta quarentena dure até o fim de 2021, no mínimo. Talvez seu sub-consciente, no fundo, saiba que sua ausência no trabalho não fará falta para ninguém.

Quem não tem um patrão generoso está em situação diferente. Milhões de brasileiros que trabalham por conta própria, de jardineiros e motoristas de uber até dentistas e engenheiros, sabem que não dá para ficar em casa indefinidamente vivendo de suas economias, que para alguns são bem reduzidas, e sabem também que não para para confiar em políticos que prometem que o governo, o santo governo, vai tomar conta de todo mundo.

Claro que o “fecha tudo”, o “fica em casa” da classe média também contém implícito um monte de exceções. O transporte coletivo não parou. O pedágio não parou. Os porteiros e as faxineiras não podem parar. O motoboy tem que comparecer ao trabalho, para entregar a pizza para o sujeito “consciente” que está em casa se sentindo o salvador da humanidade, e dando pito nos outros pelo facebook.

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Por outro lado, aqueles sonhadores que acham absurdo que existam empresários, e que esperam com fé o dia em que teremos “tudo dentro do estado, nada fora do estado, nada contra o estado”, estão em êxtase com a chance: o governo decreta o fechamento das empresas até o dinheiro delas acabar, e em seguida “salva” o país estatizando tudo, dos supermercados até as borracharias. Já que a luta de classes não funcionou como o motor da história, que o Corona Virus seja este motor.

O sonho dos estatistas não será realizado, óbvio, mas muita bobagem será feita. Talvez nem tanto no Brasil; as finanças do estado estão, como sempre, debilitadas, o que limita seu apetite e seu poder. Como a queda na arrecadação deverá ser substancial, a área econômica do governo deverá informar os políticos que a hora não é de bravatas.

Mas em outras plagas (não confundir com pragas!) a coisa pode ir longe. EUA e Europa estão falando em distribuir trilhões como quem fala em distribuir chocolate para as crianças. Quase todos os governos da Europa assinaram um documento propondo a criação urgente de um novo tipo de título de dívida para financiar a generosidade. No fim das contas, como sempre, tudo que o governo der será tomado de volta via impostos.

O famoso jornal “O Antagonista”, que ultimamente anda meio sem rumo, publicou ontem uma frase certeira: A farra com o dinheiro dos outros será o pior efeito colateral do Corona Virus.

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Em todo o mundo governos estão falando em distribuir dinheiro e crédito para proteger a economia dos efeitos da paralisação forçada. De acordo com meus modestíssimos conhecimentos de economia, é uma catástrofe certa: Redução da oferta seguida de expansão forçada da demanda é receita infalível para uma bolha. Se o tamanho que EUA e Europa estão falando for verdade, será uma bolha épica. Na melhor das hipóteses, teremos inflação, aumento da dívida pública e uma desorganização geral da economia. Na pior, teremos a desculpa perfeita para um aumento gigantesco da intervenção estatal na economia, com controles de preço, estatizações, regulamentações, tudo isso que já conhecemos. Políticos dos Estados Unidos já estão falando em “um novo New Deal”. Se você quer saber o que foi o New Deal, expliquei em “Reescrevendo a História”, publicado em 20 de janeiro.

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Mas afinal, se “vírus” é singular, por que tem s no final? E qual é o plural de vírus?

A língua portuguesa veio do latim, em um processo de vários séculos de transformação. Mas a palavra vírus, no sentido moderno, foi “emprestada” diretamente do latim. Em latim, a terminação “us” indica o singular de um substantivo da segunda declinação, e o plural é viri. Em português, o plural de vírus é vírus mesmo.

Agora que você tem esta importantíssima informação, boa quarentena!

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FRASES ALHEIAS

Thomas Sowell:

“Um dos mais lamentáveis sinais de nossos tempos é que xingamos aqueles que produzem, subsidiamos aqueles que se recusam a produzir, e elogiamos aqueles que só sabem reclamar.”

“É difícil imaginar uma maneira pior e mais perigosa de tomar decisões do que colocar essas decisões nas mãos de pessoas que não pagarão preço nenhum por estarem erradas.”

“O fato mais fundamental sobre as idéias da esquerda política é que elas não funcionam. Por isso, não surpreende que a esquerda esteja majoritariamente concentrada naquelas instituições onde idéias não precisam funcionar.”

“O fato de que muitos políticos de carreira são mentirosos descarados não é apenas uma característica da classe política; é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, só os mentirosos podem satisfazê-las.”

“No cerne da visão de mundo da esquerda jaz a tácita presunção de que pessoas imbuídas de elevados ideais e princípios morais — eles próprios — sabem tomar decisões para outras pessoas de forma melhor e mais eficaz do que estas próprias pessoas.”

“Nunca entendi por que é ganância querer ficar com o dinheiro que você ganhou trabalhando, mas não é ganância querer tomar o dinheiro dos outros.”

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Lawrence Reed:

“Os estatistas estão constantemente “reformando” seu próprio trabalho. Reforma tributária, reforma trabalhista, reforma política, reforma da previdencia, reforma da educação, reforma sindical, reforma da saúde. O simples fato de eles sempre estarem ocupados “reformando” suas obras é uma admissão implícita de que eles não acertaram nada nas outras 50 vezes que tentaram.”

“Ser um progressista significa jamais ter de pedir desculpas. Suas boas intenções valem mais que todos os resultados efetivamente obtidos.”

“Quanto mais o governo cresce, mais pessoas sem caráter ele atrai. Óbvio: o prêmio é o poder de mandar em nossas vidas e a licença para controlar um orçamento trilionário, comprando favores com o dinheiro dos outros e ganhando agrados. A consequência inevitável disso é a deterioração do caráter de quem está em busca desse prêmio.”

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Hans-Hermann Hoppe:

“A idéia de se ter um governo “pequeno” ou “limitado” é uma utopia, um sonho impossível. É ingênuo achar que se pode dar a alguém o monopólio da lei e da ordem e esse alguém não usará seu poder para legislar em causa própria. É ingênuo achar que se pode estabelecer um monopólio da emissão de dinheiro e o dono do monopólio não o usará para imprimir mais e mais dinheiro.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

JOVENS

O governo dos EUA divulgou no final do ano passado uma pesquisa sobre a situação financeira dos cidadãos norte-americanos. Alguns dados interessantes (para não dizer assustadores):

– A população na faixa etária entre 24 e 39 anos hoje é dona de 3% do total da riqueza do país.

– Quinze anos atrás, a mesma faixa etária concentrava 6% da riqueza.

– Trinta anos atrás, as pessoas entre 24 e 39 anos representavam 20% da riqueza nacional.

– A faixa entre 24 e 39 anos hoje representa 16% da dívida privada.

– A dívida média de um jovem hoje é o dobro da média de quinze anos atrás.

– É a primeira vez desde o início do século 20 que a geração entre 24 e 39 anos é mais pobre do que seus pais.

Os motivos parecem bastante óbvios: os jovens demoram cada vez mais para entrar na vida adulta. No século passado, praticamente todos os alunos universitários trabalhavam durante as férias, em atividades que iam de cortar grama a fritar hamburgers. Hoje, universitários que trabalham são raros. Também aumenta sem parar o número de jovens que termina uma faculdade, recebe um diploma e não sabe o que fazer com ele.

Li um comentário de um produtor agrícola norte-americano um tempo atrás que dizia “Hoje em dia qualquer um que consiga chegar aos vinte e cinco anos fora da cadeia acaba conseguindo um diploma, mesmo sendo incapaz de fazer contas ou ler um manual de treinamento. Em consequência, para as empresas um diploma tem o mesmo valor de um pedaço de papel higiênico usado.” Por outro lado, o jovem, mesmo semi-analfabeto, acredita que seu diploma lhe dá o direito de obter um emprego em que se trabalhe pouco e se ganhe muito, e mostra-se ofendido quando lhe oferecem empregos que não atendam a estas expectativas.

Contribui para o problema a postura cada vez mais comum de que a época da universidade é a época de “aproveitar a vida”, de participar do maior número possível de festas, baladas, churrascadas e qualquer outra forma de diversão. Estudar é relegado ao último plano, porque o diploma passou a ser visto como um “direito”, que exige apenas o ritual de assistir X horas de aula – e “assistir” é geralmente um eufemismo para “estar sentado em uma cadeira dentro de uma sala de aula”. Nesta visão, ser reprovado é visto como uma violação deste direito, e para evitar dramas as faculdades adotam a postura de aprovar todo mundo, desde que o dinheiro das mensalidades continue entrando.

Durante muito tempo, as famílias americanas tinham o hábito de “guardar dinheiro para a faculdade” desde o nascimento dos filhos. Hoje este hábito diminuiu, enquanto as mensalidades aumentaram, e cada vez mais estudantes pagam sua faculdade com crédito estudantil. O problema é que cada vez menos jovens conseguem, após se formar, uma ocupação produtiva que permita pagar os empréstimos. O total de empréstimos estudantis nos EUA hoje é de um trilhão e meio de dólares, com uma dívida média por estudante de aproximadamente trinta mil dólares. Muitos estão prevendo uma grande crise nos próximos três ou quatro anos devido à inadimplência cada vez maior no pagamento destes empréstimos.

O relatório aponta que os jovens de hoje estão morando com os pais por muito mais tempo do que antes. Também é cada vez maior a idade média dos casamentos e do primeiro emprego. Por outro lado, a quantidade de jovens que são donos de um imóvel tem aumentado, mas 20% destes imóveis foram comprados com dinheiro dos pais. E quase 20% destes jovens (até 39 anos, não esqueça) recebe dinheiro dos pais para ajudar nas despesas.

E no Brasil?

Se existem estatísticas semelhantes, eu não as encontrei. Mas me parece óbvio que estamos no mesmo caminho. Temos 48 universidades federais e 42 universidades estaduais onde se estuda de graça, e muitos alunos não demonstram a menor pressa em concluir o curso. Nas universidades particulares, mais de um quarto dos alunos tem as mensalidades financiadas pelo governo, através do FIES, cuja inadimplência também vêm crescendo.

Hoje, ser estudante virou profissão, com jovens acreditando em seu direito de passar anos à fio (quanto mais, melhor) vivendo às custas do governo ou da família, esperando o dia em que ele receberá o diploma que o transportará (supostamente) à elite da população. O fato de, mesmo tendo seu nome escrito no diploma, o tal jovem não possuir nenhum conhecimento produtivo parece não ter nenhuma importância.

Isso não vai acabar bem.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AS SOLUÇÕES PARA O CÂMBIO

Meu último artigo reclamou da desvalorização do real, mas não mostrou o caminho. Vou tentar consertar o erro.

Em primeiro lugar, os conceitos fundamentais da economia são sempre os mesmos e valem para o preço do pão e para o preço do dólar da mesma forma: oferta e procura. Ou seja, o preço das coisas depende da quantidade que existe desta coisa e do quanto as pessoas querem desta coisa. É importante lembrar que as pessoas querem pão para comer, mas querem dinheiro para comprar outras coisas. Em economês, o pão é um bem de consumo, o dinheiro é um meio de troca. Mas as regras continuam valendo.

Então, por que a moeda brasileira praticamente só caiu desde que o Brasil existe? Por causa destes dois fatores.

O primeiro é a oferta: um produto vale menos quanto maior for a sua abundância. No caso do dinheiro, só quem pode criar mais é o governo. E todos os governos que o Brasil já teve criaram dinheiro, e com isso causaram a desvalorização da moeda. Basta dizer que nos últimos oitenta anos já foram cortados quinze zeros da moeda nacional, o que significa uma inflação acumulada de 375.099.022.128.526.834 %, segundo o site do Banco Central.

O segundo fator é a procura: um produto vale menos na medida em que as pessoas gostam menos deste produto. No caso do dinheiro, como sua utilidade é comprar coisas, as pessoas passam a não gostar quando percebem que seu valor está caindo, ou quando não confiam nele. Note que se forma um círculo vicioso: se o valor da moeda cai, as pessoas perdem a confiança. Ao perder a confiança, param de usá-la. E ao parar de usá-la, o valor cai ainda mais.

Uma boa forma de entender este processo é estudar os casos de hiperinflação da história, como a Alemanha dos anos 20 ou a Venezuela de agora. Nestes casos, o dinheiro perde valor tão rapidamente e com tanta intensidade que chega literalmente a não valer nada. Na Alemanha, pessoas queimavam dinheiro nas lareiras ao invés de lenha.

Quando não há hiperinflação, o processo é mais sutil, mas a essência é a mesma. Não estamos queimando reais na lareira, mas o mundo dos negócios está “fugindo” do real, ou seja, quem tem reais está usando-os para comprar dólares, ou ouro, ou qualquer coisa que acreditem que dê mais segurança contra a perda de valor. E quando muita gente quer entregar reais e receber em troca dólares, o valor do real cai e o valor do dólar sobe.

Mas então, o que o governo poderia fazer para que o real parasse de cair?

A primeira medida, mais de curto prazo, é basicamente psicológica. Seria preciso que nosso ministro Guedes parasse de fazer declarações infelizes, e falasse em alto e bom som que nosso governo deseja ter uma moeda forte. Se necessário, o Banco Central venderia dólares para suprir a demanda, mantendo a estabilidade – afinal, zelar pela estabilidade e solidez da moeda nacional deveria ser uma das obrigações básicas de um banco central. Fazendo isso, o governo “manda um recado” aos que esperam ganhar dinheiro com a desvalorização: Não tentem, porque não vamos deixar. É a aplicação prática de um velho ditado romano: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Em latim fica mais bonito: “Si vis pacem, para bellum“.

Mas a medida importante, a única que importa no longo prazo, é parar de inflacionar, ou seja, parar de criar dinheiro. Claro que seria muito dolorido para o governo e para os políticos perder esta fonte de renda tão prática, mas é uma medida fundamental. Não há na literatura econômica casos de países em que a moeda se desvalorize sem que haja expansão da base monetária, que é o termo em economês para quando o governo liga a maquininha de fazer dinheiro. Atenção: estou falando de longo prazo, não das flutuações diárias.

Para ir mais longe, eu pessoalmente gostaria muito que nosso país voltasse a um sistema que funcionou muito bem em outros tempos: o câmbio fixo. Entre outras vantagens, não precisaria mais de Banco Central, o que já seria uma economia.

Câmbio fixo, simplificadamente, é quando a moeda é simplesmente uma representação (um “vale”, por assim dizer) de outro bem qualquer. “Qualquer” não, claro, tem que ser um bem que seja aceito como sólido e confiável por todos. Basicamente há duas opções: ouro ou dólar.

Funciona como se estivesse escrito nas cédulas: esta nota vale x gramas de ouro. Quem quiser, basta chegar no banco designado pelo governo e trocar. Para isso funcionar, é imprescindível que as pessoas acreditem nesta promessa. É quase um paradoxo: se todo mundo acredita que pode trocar seus reais por ouro quando quiser, ninguém vai trocar. Mas basta surgir uma desconfiança, para todo mundo correr para os bancos “antes que seja tarde”. Como o governo tem a obrigação de manter uma quantidade de ouro equivalente à quantidade de dinheiro em circulação, fica impossível inflacionar, a menos que descubra uma forma de fabricar ouro. A literatura econômica recomenda que este sistema seja implementado através de um órgão chamado “caixa de conversão” que deve ser o mais independente possível do governo, e cuja única função é guardar as reservas e efetuar as trocas para quem desejar. O governo fica proibido de imprimir dinheiro.

Como hoje em dia não é prático usar ouro, é possível adotar um sistema mais simples: fixar (ou “lastrear”) o valor das moedas em dólares, ou euros, ou francos suíços. Da mesma forma, o governo fica obrigado a manter em reserva uma quantidade da moeda-lastro equivalente à quantidade de reais em circulação, e efetuar a troca para qualquer um que pedir. E, da mesma forma, o sistema funciona enquanto houver a confiança da população de que esta promessa será cumprida. Um exemplo de sucesso deste sistema é a Estônia, que com o fim da União Soviética no início dos anos 90 precisou reconstruir seu sistema financeiro praticamente do zero; a moeda da Estônia era lastreada no marco alemão.

Países pequenos tem uma terceira opção, que é usar a moeda estrangeira diretamente; Panamá e Equador, entre outros fazem isso. Para países com população grande, surge o problema de obter a quantidade necessária de notas e repor as notas desgastadas.

É bom citar o caso da Argentina, que promoveu uma fraude clássica. Em 1991, o presidente Menem abandonou a moeda antiga, o Austral, e criou uma nova moeda, o Peso, com a garantia de que seu valor seria sempre o mesmo de um dólar. Os resultados foram ótimos, o que já era previsto pela teoria econômica básica: com moeda forte, a economia também é forte. A inflação caiu, exportações e importações aumentaram. Mas o governo não conseguiu reduzir seus gastos, e continuou fabricando dinheiro para cobrir seu déficit. Ainda assim, o arranjo durou dez anos. No final de 2001, começou a ficar claro que o governo não podia cumprir sua promessa: não havia dólares suficientes para lastrear o volume de pesos.

O famoso ministro Cavallo baixou um decreto (conhecido como “corralito”) determinando que só seriam trocados por dólares 1000 pesos por mês para cada pessoa. Imediatamente a população percebeu que havia sido roubada. O presidente De la Rua renunciou em menos de um mês e a Argentina mergulhou no caos, onde está até hoje. Em seis meses o valor do peso despencou para 25 centavos de dólar. E os argentinos nunca mais confiaram no governo e até hoje trocam seus pesos por dólares sempre que podem.

Então, fica o alerta: um regime de câmbio fixo resolve um monte de problemas, mas exige uma virtude básica do governo: honestidade.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

CIRO GUEDES E A DESVALORIZAÇÃO DO REAL

No ano passado, antes da eleição, havia gente entusiasmada com o discurso “progressista” e “desenvolvimentista” do Ciro Gomes, que ficou em terceiro e não foi para o segundo turno. Mas este pessoal não precisa ficar triste, porque suas idéias estão sendo seguidas pelo nosso ministro Guedes, que já foi apelidado de Ciro Guedes pela turma do mercado financeiro.

A ideia é simples e qualquer aluno de primeiro grau sabe repeti-la de cor, porque a escutou centenas de vezes de todos seus professores engajados e admiradores do socialismo: “câmbio valorizado é ruim, a moeda deve ser fraca para favorecer as exportações”. Alguns mais empolgados chegam a fixar valores: com Ciro Gomes presidente, o dólar ia custar cinco reais e o Brasil ia virar uma superpotência de tanto exportar.

Infelizmente, o dólar está subindo e está acontecendo o contrário. As exportações de janeiro foram 20% menores que as de janeiro do ano passado.

Na verdade, é quase instintivo pensar que moeda forte é bom. O governo se esforça para nos doutrinar, desde criancinhas, para conseguir que a maioria acredite no contrário. Por quê? Ora, porque é um princípio básico do governo dizer que só faz o que é melhor para nós, enquanto faz coisas que são boas para ele e ruins para nós.

Basta uma simples olhada nos dados sobre comércio mundial para constatar que os países mais abertos são ricos, e os países mais fechados são pobres. Importante: país aberto é aquele que exporta e importa, não aquele que só exporta – esse quase sempre é pobre. Os economistas podem explicar isso de várias formas (e até mesmo negar os fatos, se forem partidários do Ciro Gomes), mas eu prefiro as explicações simples: um país que é aberto às importações pode ter tudo do melhor, sem ter que bancar o especialista em tudo. Pode comprar computadores do Japão, smartphones da Coréia, automóveis da Alemanha, máquinas da Suíça. E ao exportar, tem que ser eficiente, porque está concorrendo com o mundo todo. E é mais fácil produzir algo bom se você pode importar as melhores máquinas e os melhores computadores.

O país fechado, por outro lado, não pode ter o melhor. Só pode ter o que o governo permite, que é o produto nacional. E como é difícil ser tão bom como o Japão, a Coréia, a Alemanha e a Suíça ao mesmo tempo, as pessoas só podem ter computadores ruins, smartphones ruins, automóveis ruins, máquinas ruins. E caras, porque se as empresas tem um mercado garantido, porque se esforçar?

Para participar do mercado global, há dois caminhos. O primeiro, o dos países bem-sucedidos, é ser bom em alguma coisa. Fazendo isso, o resto do mundo vai querer seus produtos, e com isso a população vai poder comprar o que quiser. A Nova Zelândia é boa em produzir ovelhas. A Escócia, em uísque. A Coréia do Sul produz aparelhos eletrônicos. O Japão é bom em automóveis. O Chile produz vinhos e cobre. E por aí vai. Nenhum deles quer produzir tudo. A Nova Zelândia não tem fábricas de automóveis nem de eletrônicos: eles preferem comprar dos melhores (e veja que interessante: eles não importam automóveis nem computadores do Brasil).

O segundo caminho é seguido pelos que não querem ou não conseguem ser bons em nada: vender barato. O jeito mais fácil de fazer isso é justamente desvalorizando a moeda. Quanto mais “forte” for o dólar ou o euro, mais vantajoso parece ser o negócio. Parece, mas não é, porque exportar com câmbio desvalorizado é simplesmente trabalhar por mixaria. O que adianta dizer “minhas exportações este mês renderam trocentos bilhões de merrecas”, se estes trocentos bilhões de merrecas não valem nada?

Também há um outro lado a considerar: a moeda fraca “incentiva as exportações”, certo. Mas por que os exportadores, que são uma pequena parte da sociedade, devem ser os únicos privilegiados? Afinal, existem muitas pessoas que não trabalham no setor de exportações, mas que consomem produtos importados, porque no Brasil, quase tudo depende de insumos importados: remédios, automóveis, telefones, computadores, geladeiras, e um sem-fim de etc. Produtos importados afetam os custos da passagem de ônibus, da comida e da roupa. Em resumo: enfraquecer a moeda para incentivar exportações significa prejudicar uma grande maioria, e ao mesmo tempo colocar uma minoria à serviço dos outros países, que são os que realmente se beneficiam. Participar do mercado de soja, milho e minério de ferro baixando o preço não é o caminho para enriquecer ninguém.

Isso não quer dizer que não podemos ser um grande exportador de soja ou minério de ferro. Podemos, mas desde que nossa competitividade venha da eficiência, da tecnologia, da produtividade. Produzindo com eficiência, não precisamos baixar o preço. A Escócia não precisa de moeda desvalorizada para vender uísque para o mundo todo. A Suíça tem uma moeda fortíssima e mesmo assim todos os países querem comprar seus produtos. E sempre é bom lembrar: não acredite na imprensa chapa-branca que diz que a China conquistou mercado desvalorizando a moeda. É mentira. Durante todo o período em que a China cresceu a passos de gigante, sua moeda se valorizou frente ao dólar (e nos últimos anos, quando sua economia desacelerou, a moeda voltou a cair). Aliás, na grande maioria dos países, a relação é sempre a mesma: economia crescendo, moeda valorizando; economia piorando, moeda desvalorizando. É quase inacreditável que economistas e jornalistas continuem repetindo que moeda desvalorizada é bom para a economia.

Concluindo: algumas pessoas votam por ideologia: para elas, o seu político é sempre perfeito. Outras votam por impulso ou simpatia. Mas a maioria vota com o bolso. Se nosso ministro da economia seguir com essa política, o governo não vai ter muito o que mostrar nas próximas eleições.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O PÚBLICO E O PRIVADO

Uma das crenças que fazem parte de nossa cultura diz que o estado é necessário para atender aos interesses da população, e que os empreendedores privados atendem apenas os poucos locais onde o lucro é farto e garantido. Mas será verdade?

Vamos começar pelos monopólios do estado: saneamento, por exemplo, que nunca foi permitido à livre iniciativa. 66% das residências em áreas rurais não recebem água encanada. Em metade dos estados brasileiros, a rede de esgoto cobre menos de 50% da população (no caso mais extremo, o Piauí, apenas 7% das residências tem o esgoto tratado). O ministério da saúde estima que trezentas mil pessoas por ano são internadas por doenças relacionadas a essa deficiência. Também vale citar que, de acordo com o próprio governo, 38% da água tratada é perdida por vazamentos ou ligações clandestinas.

Outro exemplo? Transporte. Não é segredo que nossas estradas estão na sua maioria saturadas, esburacadas, mal sinalizadas. Considerando rodovias federais, estaduais e municipais, apenas 13% têm asfalto. E já estamos acostumados a pensar que “para ter estrada sem buraco, só privatizando”. Só que a privatização não é privatização. É concessão por tempo determinado, com regras impostas pelo estado, valor do pedágio idem, sujeita à negociações e conchavos por baixo dos panos. E não vamos nem falar de transporte ferroviário, fluvial ou marítimo.

Saúde e educação, óbvio. Nestes casos temos dois sistemas paralelos: o estatal e o privado. Alguma dúvida sobre qual o melhor? Qual é aquele que é objeto de desejo por parte de todos, e qual aquele que só é usado por necessidade e falta de opção? Mas não custa lembrar que tanto a educação quanto a saúde privadas são fortemente reguladas pelo governo. Aliás, seria o caso de perguntar porque os serviços que o próprio governo oferece não passam pelas mesmas exigências que o governo cobra dos serviços particulares.

Como exemplo do “privado mas regulado pelo estado”, temos telefone e internet. Não são estatais, mas vivem à sombra do governo, que diz o que pode, o que não pode e quanto custa. Funciona, está disponível para todos, mas é melhor não ter esperanças sobre bom atendimento e qualidade. Afinal, o governo está a postos para impedir novos concorrentes, com suas licenças e burocracias. Sem concorrência, por que as empresas vão se esforçar?

E livre-mercado, existe? Pode-se dizer que sim, ou quase, em setores como alimentação e vestuário, ítens fundamentais na vida de todos, mas que não causam grandes preocupações justamente por estarem disponíveis e livres das amarras do governo. É verdade que restaurantes são importunados pelos fiscais do governo preocupados em conferir fichas e etiquetas, mas o mercado informal supre as deficiências. Da mesma forma, boa parte do comércio de roupas é informal e livre das fiscalizações estatais, e por isso funciona e atende a todo mundo. Se o lugar-comum do “a iniciativa privada só vai onde os lucros são maiores” fosse verdadeiro, nas pequenas cidades as pessoas estariam famintas e nuas. O que ocorre é o contrário: alimentos e roupas estão disponíveis literalmente em qualquer lugar, até mesmo onde o governo não cumpre suas obrigações.

Em resumo: aquilo que é fornecido “de graça” pelo governo é quase sempre ruim, insuficiente, demorado, quando não é simplesmente inexistente. Aquilo que é fornecido pelo livre mercado é farto, se encontra em qualquer lugar, e tem preços para todos os gostos.

Então por que tanta gente continua idolatrando o governo e querendo que ele tome mais e mais dinheiro de todos em troca de coisas que ele promete mas não faz? Isso eu não sei responder.