XICO COM X, BIZERRA COM I

NUVEM É CASA DE ANJO…

Tenho ouvidos moucos para o Streaming. Até já coloquei uns discos meus nos Spotify da vida, por insistência de amigos, mas hoje não mais o faço. Quem quiser ouvir música minha, que compre meus discos. Outro dia percebi que o CD de um cantor querido não existe, no formato físico. Está nas plataformas virtuais, ocupando espaço nas nuvens. Para mim, do tempo do antigamente, nuvem é casa de anjo. Músicas moram nos discos. É lá que as encontro. Irei às nuvens um dia, quando aprender a voar. Por enquanto, fico no chão, com meus CDs, letras, fichas técnicas, fotos … Como acompanhar a letra das cantigas, saber quem tocou, ver as fotos e os textos se não entendo a linguagem dos anjos, se não me acostumo às nuvens? Deixem-me com meus CDs, físicos. Assim quero ouvi-los, senti-los, curti-los à exaustão. E nem me importo se disserem que sou cafona. Sou. Que nem Maciel Melo, que gosta de sanfona, de forró e, tenho certeza, de um CDzinho à moda antiga, arcaico, ultrapassado e caduco. Assim que nem eu.

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O MAIOR BARATO

O baião estava pela metade, quase pronto, ideias jorrando por todos os fios do juízo, quando me aparece a intrusa, a inoportuna, cascuda e antenada. Joguei nela um CD de Bruno e Marrone que a namorada de um sobrinho esqueceu lá em casa. Errei. Peguei o livro de auto ajuda que um amigo tem mania de me presentear, nos meus 4 de novembro. Tiro e queda. Pelo menos para isso serviu aquela sopa de letras inúteis. Não mais havia barata a cercear minha inspiração. Ainda hoje não entendo a eficiência dessas empresas de dedetização que prometem acabar com as baratas e, ao contrário do prometido, só fazem com que elas procriem com maior assiduidade. Quantos baiões não se perderam por conta delas. Não seria de todo errado às baratas atribuir o nível atual em que se encontra a nossa pobre música popular brasileira. Música que alguns ainda acham o maior barato! Nem todos possuem a pontaria que eu possuo.

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EE-4080

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. De qualquer coisa. Parece que é verdade. O meu primeiro carro foi um Fuscão 73, EE 4080, motor 1500, Branquinho. Uma Fera! Tinha sido de um Padre e estava com 7000 kms quando o comprei em 1974. De pronto, coloquei rodas de liga leve, pneus largos, volante esportivo e, enfeitando seu painel, um super roadstar autoreverse comprado na Zona Franca de Manaus. Uma Fera, repito. Perdeu-se na cheia de 75, na Encruzilhada, sob água e lama. Bem feito: quem mandou eu ir namorar com dona Dulce em plena cheia e num local em que a água batia na capota do carro? Dentro dele, e não prestou para mais nada, o último LP da Orquestra Armorial e um livro de Pablo Neruda. O livro, depois eu comprei outro. O disco, não consegui. Hoje, tanto tempo depois, deu saudades do meu branquinho! Fui ler Neruda para esquecer.

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HOSPITAL ESPERANÇA, APARTAMENTO 217

De que me vale o relógio no pulso, se ele não me informa se é dia ou noite. São 9 e 15, diz o apetrecho em meu braço, mas da manhã ou da noite? Não sei. Como também não sei se chove ou faz sol, calor ou frio do lado de fora daquele quarto escuro, cortinas fechadas, na solidão de um apartamento hospitalar. Só sei que as 4 horas que meu relógio marca são da tarde quando a enfermeira chega, pontualmente, para aplicar-me uma injeção subcutânea na barriga, para evitar eventual trombose. Às seis, descubro ser quase noite, quando adentra a responsável pela alimentação, trazendo a sopa, os pãezinhos, um bolo, café e leite para servirem de jantar. O iogurte sobrava todo santo dia e ainda hoje não suporto ver o danado na prateleira do supermercado. Nunca tinha experimentado solidão tão brutal, impedido de receber visitas (Covid é terrível até nisso), totalmente ausente do mundo exterior por 30 dias, sem rádio ou ‘notiça das terra civilizada’. Nunca liguei a TV. Sentia-me acuado, condenado, encarcerado em minha própria solidão. Por outro lado, nunca valorizei tanto a vida depois que tive alta e voltei para casa, curado. Resta-me agradecer a Deus por ter esse COVID bem longe de mim e, num futuro próximo, vê-lo como coisa do passado, não mais presente entre nós. Que os anjos me defendam, e aos que quero bem, da solidão do 217.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE:

Dentre os inúmeros defeitos que tenho, não relaciono a ingratidão como tal. E seria um proceder ingrato não registrar o atendimento que recebi do corpo técnico – médicos, enfermeiros e técnicos do Hospital Esperança durante minha estada por lá. A todos, pelo interesse, carinho e competência, e ao pessoal do apoio (copa, hotelaria, limpeza), minha eterna gratidão e agradecimento sincero, por estar vivo e curado.

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O CINEMA PARADISO DO MEU LUGAR

Cine Cassino, Cine Moderno e Cine Educadora. Cinemas de minha cidade, Crato. Tio Amarílio, o meu Alfredo, não era o projecionista: abusado, mas talentoso em seu ofício, era quem desenhava as letras nas tabuletas espalhadas na cidade, anunciando o filme do dia. No Cassino assisti Marcelino Pão e Vinho e quase toda a série de Marisol, uma espanholazinha galega, linda. Infância longínqua. Parecida com a de Totó, um personagem do filme Paradiso, cuja doçura, ingenuidade e amor traduzem como é bom amar com o coração de uma criança. Logo depois passou a não nos interessar, crianças de então, o filme que iria passar. Bastava-nos o escurinho do cinema e a namoradinha ao lado, desencabulada e safadinha, no bom sentido. Aliás, no melhor sentido. Saudades do Cassino, do Moderno e do Educadora. Saudades, também, da namoradinha sapeca.

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CHEIA INCLEMENTE

o rio,
de tão denso,
esconde seus degraus.
e o que era raso
agora é profundo …
tanta água
deixa as margens
uma com saudade da outra,
distantes entre si,
cada qual em seu mundo …

nas enchentes,
o rio é o rei,
a tudo alheio,
soberano de tão cheio,
rumo ao mar …

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ANDUIÁ

Assim era ele conhecido em toda a região do Cariri cearense: Anduiá. Esse era o seu nome. 1 metro e 80 de pura classe, artilheiro nato, faro de gol aguçado, terror dos goleiros. Camisa 9 do Esporte do Crato, time treinado pelo meu tio Almir. Ao lado de Chico Curto, este com pouco mais de 1 metro e 50 e melhor que Zico, dizem, deixava os zagueiros do Crato Futebol Clube com insônia na noite anterior ao clássico local, contra o Esporte, no campo do Seminário. Digo que a sorte de Pelé foi o apego do craque cearense a sua terra, ao Cabaré de Glorinha e à cachaça local, fatores que o impediram de ir tentar a sorte num Vasco ou Palmeiras da vida. Se assim tivesse feito, certamente Guadalajara teria aplaudido o cabeça chata na Copa de 70. E Pelé teria sentido na bunda a dureza de um banco mexicano. Verdade. Os Deuses do futebol não me deixam mentir. Sumiu, ataque cardíaco, numa ladeira do Bairro do Gesso, no Crato, depois de mais uma noitada com as ‘meninas’ do cabaré de Glorinha. No domingo seguinte fez-se um minuto de silêncio antes do jogo do Esporte Clube do Crato contra a seleção de Juazeiro do Norte. Resultado: 0x0. Anduiá não fez gol.

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CHICO E LUIZ: CORAÇÕES E TALENTOS, TÃO DISTINTOS, TÃO IGUAIS

O universo político de Gonzaga era incolor, totalmente desprovido de matiz ideológico. Seu baião, sua música, seu talento, uma bandeira desfraldada acima de qualquer regime dominante à sua época. Compromissos políticos por ele assumidos durante a ditadura devem ser atribuídos à inconsistência de sua formação política e à vontade de, através de apoios pontuais, trazer ao seu chão progressos por ele desejados. Nunca misturei essas querelas tão pequenas com a grandeza artística do Rei. Nem acho que se deva misturar. São coisas distintas, a meu modesto ver. Transportando para os dias atuais: a imensidão poética de Chico Buarque diminui ou cresce ante seu posicionamento político? Nem uma coisa nem outra. Pouco importa a cor de seu coração partidário. Ele, por sua obra, é imenso. Como imenso seria se outra preferência tivesse seu poético coração. Viva Chico e Luiz!

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DIA DOS AVÓS

Inventaram o dia dos Avós. Foi ontem. Penso que todo dia é o dia deles. Ainda que assim não seja, é muito bom ser avô, todo dia. Sobre isso, disse Rachel de Queiróz (e quem sou para dela discordar?) “Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu… É como dizem os ingleses, um ato de Deus” … “Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é devolvido.“ …Disse ainda Rachel: “E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: “Vô!”, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!” Salve Bernardo, faz 7 anos em 07.10, que me dá a alegria de ser avô. Salve Vinícius, faz 2 meses em 01.08, que redobrou esta alegria.

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VIDA E VIDA

Me gosto quando estou
fértil de versos, prenhe de luz,
fecundado de amor,
grávido de poemas, de estrofes, sonetos,
partejando poesias,
para ser vida e alegrias parir …

Me gosto ao deixar
penetrar no útero da alma
o sêmen da letra,
a sílaba que germina e dá a luz à palavra
para se reproduzir
para ser vida, e, gerada, fluir …

Me gosto, enfim,
ao permitir-me o prazer
do profundo ventre
deixar emergir rimas de afeto,
outrora feto, agora amor,
para ser vida, a luzir ….

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