XICO COM X, BIZERRA COM I

ATÉ QUANDO?

Infinito-me em divagações percebendo nas ruas vazias de gente a esperança pedindo passagem, sonhando com uma seringa, desejando uma vacina. Os crápulas fingem não ouvir e continuam sua saga do mal, rindo da miséria alheia, provocando aglomeração sem máscara. Fingidores. Não o fingidor poeta, aquele de Pessoa, que, em nome da Poesia e do bem, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Muito ao contrário, usam a máscara do fingidor que finge não perceber o sofrimento do semelhante. Até quando? O passado já passou e o futuro não existe, nos ensinava o sábio Francisco Brennand. Resta-nos, pois, este hoje que temos, esse tempo triste, cruel e desolador. Pergunto de novo: até quando? Somos coniventes ao permitir o inferno.

XICO COM X, BIZERRA COM I

VIVER POR SOBRA DE AR OU MORRER POR FALTA DELE

À Ciência falta descobrir a vacina contra a dor da solidão. Acho que os cientistas não sofrem desse mal ou, por não lhes sobrar tempo e preocupados com a cura de outras mazelas, não se importam com o amor, com o namoro, com a paixão. Em seus laboratórios, tão limpos e assépticos, entre tubos de ensaio e microscópios, não há espaço para experiências com afetos, beijos e abraços. Por isso, respeito a alma simples do borracheiro, em seu ambiente de trabalho sujo e sebento, que a cada cusparada na válvula da capsulana verifica o ar de um pneu. A ele, basta a vida e seu ofício para abastecer-se de esperança pela cura da melancolia, da saudade e da dor da solidão, vírus piores que qualquer outro. Sobra-lhe ar, a ele e ao seu equipamento precário e débil. Ao final, ele é mais feliz que o dono do banco. Esta semana o rico banqueiro do Amazonas não resistiu à falta de ar. Ao borracheiro, sobra-lhe esse artefato tão valioso.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

A CAPELINHA DE SANTA LUZIA

No meio do caminho de minha casa até a Vila União, chão de terra batida que percorria a cada domingo, pela manhã, havia a pequena capelinha de Santa Luzia, sempre de portas fechadas, mesmo domingo sendo. Nunca entendi porque fechadas, sempre, mas assim era. A parada era obrigatória na minha rotina dominical para rezar uma Ave-Maria em intenção àquela Santa, protetora da visão, agradecendo a dádiva do ver, o dom do enxergar, a graça do olhar. Ficava a imaginar o quão triste devia ser não vislumbrar o degrau entre o chão e a calçada da capela ou a espessura daquela porta sempre cerrada ou, ainda, a desventura do não poder se deleitar com o futebol daqueles meninos magros, pés descalços, camisas rotas, a correr atrás de uma bola gasta no campinho de areia fofa que ficava bem atrás da capelinha. Em minha inocente prece pedia que Santa Luzia olhasse por aqueles meninos franzinos e por todos nós, privilegiados, olhos atentos ao belo, corações sensíveis à fé.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

SILÊNCIOS E BARULHOS

Para onde vão nossos silêncios quando calamos nosso sentir? Acho que se arraigam em nosso peito e se escondem nos vazios da alma até que alguém os descubra, antes que virem pesadelos. E então descobertos, eles tagarelam com toda a zoada que o silêncio liberto pode permitir. É quando os sentimentos se mostram presentes para iluminar, colorir e perfumar nossa vida, tornando-a um poço de possibilidades alvissareiras em que o barulho silencioso de um abraço torna-se tão envolvente quanto o silêncio ensurdecedor de um reencontro desejado. É quando silêncios e barulhos se desimportam e se confundem ante a importância das zoadas e calares do todo ao redor, da pequenina e distante estrela à imensidão de um mar próximo.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

O BESOURO E O CASAL DE MARIBONDOS

Na antena esquerda da borboleta amarela, no quadro dependurado na varanda do primeiro andar da casa de Gravatá, mora um besouro pequenino. Ali, ele achou de fazer sua minúscula casinha. Lá está ele, feliz, apesar de solitário. Tempos atrás, ao lado, fez-lhe companhia, certamente por inveja de tão privilegiado lar, um casal de maribondos, tão pacíficos quanto seu vizinho. Nunca nenhum deles aperreou o plácido besourinho, companheiro da paz e inimigo dos malfazeres. Foi respeitado o seu direito de viver em Paz. Tudo acumpliciado pelo olhar terno de minha Pata-de-Elefante. E assim viveram, besouro e maribondos, estranhos ao que acontecia fora de seus mundos tão diferentes e iguais, saboreando profanos mistérios e absorvendo sagradas descobertas de respeito mútuo entre eles, com mais raciocínio e inteligência que nós, humanos, doidos por uma briguinha, loucos por uma guerra. Acho que São Francisco de Assis, que me protege e a minha casa vela, é o responsável por esse clima de união. Certamente o Santo Chico, o Santo dos bichos, também é protetor de besouros e maribondos. Eles, o Santo, minha Pata-de-Elefante, o besouro e os maribondos, nos ensinam que a Paz é possível.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

POUSADA DA ESPERANÇA

Nesses tempos de Pandemia e seguindo o sábio conselho do Poeta Maciel Melo deixei hospedar-se em minha pousada interior, além da Poesia, a Esperança de dias melhores. Para ela reservei o melhor cômodo, a melhor cama e a flor mais cheirosa. Deixei uma penteadeira sortida à sua disposição e uma quartinha de água bem friinha, do tanto que ela merece, além de uma imagem bonita do meu santo protetor, São Francisco de Assis. Não tem desculpa. Se à minha Poesia essa esperança não se aliar e prosperar de vera, se a vacina não chegar, se os homens do Planalto continuarem insensatos e donos da verdade aí, de vez, entrego os pontos. Não dá mais para segurar. O coração ‘tá pra explodir, de angústia e tristeza. Mas meu santo Chico é muito competente e dona Esperança até hoje não falhou. Tardou, às vezes, mas falhar, nunca! E não vai ser agora.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

APRENDER A VOAR

Sou vizinho do sonho. Vez por outra tropeço num Pessoa esquecido no vão da escada, abraçado com um Drumond meio amarelado pelo tempo. No mais recôndito esconderijo do ouvido me ternuro, quando em vez, com um verso solto de Vinícius, um refrão bonito cantado pelos Beatles ou um bolero de Aldir. Não com dificuldade descubro um grilo trocando ideias com uma rã sobre Manoel de Barros. Que bom que encontremos tantas boas coisas espalhadas nos arquivos da memória, nas prateleiras afetivas da saudade, no armazém das maravilhas. Prefiro assim a mandar minhas boas lembranças morar nas nuvens, como fazem os jovens de hoje, que desconhecem os Pessoas, os Vinícius e os Lennons e só conhecem, com intimidade excessiva, os HDs e pendrives da era pós Anita, coisas que minha alma não alcança. No meu país de sonhos ainda não me ensinaram a chegar nas nuvens da tecnologia. Ainda bem. Não me interessa aprender a voar. Isto é para os pássaros. Ou os anjos. Não sou uma coisa nem, muito menos, a outra.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

VACA PRETINHA

O menino tinha sua vaquinha de estimação, numa distante Arapiraca, em meio à plantação de fumo. O leite branquinho de Pretinha, seus chifres afiados e sua bosta cheirosa fazem parte de um passado que teima em não passar, de tão bom que foi. A farinha ficou sem gosto ao não mais misturar-se ao leite de Pretinha. Restou muita saudade depois que ela partiu, enterrada como gente, com todas as honras merecidas, pelo bem que fez, pelas coalhadas ao fim da tarde. Faltou-lhe a cruz, no quintal em que ela foi repousar eternamente. Menos por desmerecimento, mas muito mais pelo receio de que viesse o menino a ser punido pelos Deuses, se julgassem o ato uma heresia e, por castigo, não permitisse que outras Pretinhas viessem a ocupar o lugar daquela que se foi. E levou consigo seu leite branquinho. (Crônica dedicada a Valdir Oliveira).

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

ARQUIVOS DA DOR

No meu NoteBook eu nunca deixo para amanhã o que posso deixar pra lá. Não vale a pena salvar e ocupar memória com coisas que não agregam, que nada acrescentam à vida. Para que ficar remoendo as mágoas, as dores, os ressentimentos, as desalegrias e os desgostos se posso deles me livrar? Prefiro ocupar o HD de minha memória afetiva com o que de bom vivi. E assim configurei meu coração e criei uma senha secreta que só ela e eu temos acesso. Arquivos da dor, deleto-os todos. Mando-os à lixeira. Prefiro acessar os programas de alegria e gargalhar no site das coisas boas. Sob o domínio dela, sonho forró e danço xote cheirando o seu cangote. E minha senha secreta não conto pra ninguém (só a ela contei). Ao resto do mundo, apenas digo que começa com Paz e termina com Amor. Impossível deletá-la, pois.

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

XICO COM X, BIZERRA COM I

ADEUS, ANO VELHO. HÁ DEUS, ANO NOVO

Cantemos as lindezas todas, deixando no lixo as impurezas da maldade e o mau cheiro do que não serve para o bem. E em cada luz que encontremos em nossa ‘buscação’ saibamos ser grandes para dividi-la com os que não a tem. Que sejamos sábios para repartir o bem maior que existe entre os homens: o AMOR. Que se achegue o 2021 e que ele seja bom pra nós todos. Menos medonho que 2020, com todos esses coisos e vírus que estiveram soltos por aí. Que O NOVO ANO venha e chegue logo. Pode se avexar que eu ‘tô de braços abertos aguardando sua chegada, com um balaio de esperança e fé de que dias melhores virão e que virá um bom tempo. Venha! Precisa nem bater na porta, é só chegar, entrar e se abancar. ‘Tô lhe esperando com roupa branca de Paz e sorriso de ‘urêia a urêia’. Que venha contigo a cura que o mundo precisa e que os anjos aproveitem a viagem e sejam portadores da Paz que tantos necessitam e da sabedoria que a alguns falta. Abração para todos que bebem esperança e respiram alegrias.

LUZ!