XICO COM X, BIZERRA COM I

ESTRELAS: MILHÕES E BILHÕES DELAS

As estrelas, são milhões e bilhões, bilhões e milhões, as estrelas. Elas barroam umas nas outras até que se dão as mãos e dançam uma ciranda, alegres e felizes. E aí até a Lua entra na dança, bela e cintilante. Ainda cedo, aproveitando os últimos raios do sol, deixam-se refletir com sua luz e resplandecem junto às estrelinhas menores. Aí, é quando o céu se clareia de lua e a terra fica feliz com tanta beleza. Depois, finda a noite, as estrelinhas dormem, descansando para o recomeço do logo mais. É quando a estrela maior, dona do dia, mais uma vez surgirá no horizonte anunciando a manhã que se achega com todo o seu fulgor. É a dança dos astros, coreografia das estrelas num cenário de Deus. Logo mais meu chão será salpicado de milhões e bilhões de estrelas, bilhões e milhões delas. Serão benvindas.

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A DONA DO SIM

Dia desses Tico marcou encontro com Teco, esbarraram-se na sala do meu juízo. Foi quando resolvi escrever esta croniqueta. Desculpem vocês, a culpa é dos neurônios travessos que costumam brincar na parte superior do meu corpo, pouco abaixo dos meus embranquecidos cabelos.

O sim era a única palavra que Estefânia aprendera a dizer quando lhe pediam algo. Desde a mais tenra idade, sempre sim, sempre assim. Foi criada consentindo e desconhecia a não-confirmação, fosse do que fosse: só existia essa palavra em seu parco dicionário. Em casa, na escola, em seus dias, tardes e noites.

Desde cedo, quando sua mãe lhe levava à igreja e ela, sem nenhuma vontade de ir, ia sempre. À contragosto, seguia com a mãe e até comungava, por exigência dela. Mocinha, mesmo sem querer, disse sim à proposta de namoro do filho do Coronel, que tinha as piores das intenções com aquele namoro concordado.

Tantos sins disse na vida sem nunca ter aprendido a dizer não que se tornou escrava do consentimento. O do altar foi apenas um começo de vários outros que se seguiriam, atestado de conformismo firmado com a conveniência.

Quando aprendeu a dizer não já era tarde: o de acordo tantas vezes dito e repetido não lhe permitiu definir, a seu favor, os desejos e vontades no plebiscito do destino. Escrava da não identidade, da aceitação incondicional, Estefânia nunca foi feliz. Aceitou tudo e facilitou a vida de muitos, complicando a sua própria. E assim se foi, sem identidade, postura de aceitação incondicional, escrava do sim, tantas vezes desejosa do não. Pobre Estefânia.

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O FILHO DA FILHA DE DONA DULCE

Neto, a maior invenção de Deus, é filho lambuzado de doçura

Mariana dorme o sono de recém-mãe. Dona Dulce, eu e o pai Clécio sorrimos. Era Outubro, um final de tarde, dia 7. Deus amanheceu inspirado e inventou Bernardo. Ele dorme o sono da vida, mas já enternecendo meus dias futuros. Seu sono inocente é um acalanto para um homem, cabelos algodoados, que descobriu, em 2013, a ventura de ser avô do filho da filha de dona Dulce.

E ele, em seu berço primeiro, olha para mim, como que a balbuciar a meus ouvidos a palavra Amor, deixando escapar na ternura de seus olhinhos a canção de Paz por que tanto lutei. Fez-me sentir na pele o amanhecer do dia ao preparar os meus milhares de colos e braços para recebê-lo, enquanto começavam a surgir as notas da canção que pensei criar e que o desassossego da vida só permitiria compor os primeiros acordes algum tempo depois.

Bê continua a inspirar um avô cada dia mais apaixonado. São 4.750 dias e ele continua enfeitando meu viver. Como não me plantar num inverno de alegrias para florar risos nesse meu olhar de avô? Salve Bernardo, que me dá a alegria de tê-lo como neto. Feliz 13 anos, meu amiguinho/amigão, meu imenso companheiro. São tantos dias emanando cheiros no meu pé de alegrias. E ele hoje, no jardim da felicidade, crescido e florado, já está carregado de bons frutos. Que assim continue! Que a vida lhe sorria, sempre. Parabéns, Bernardo! Beijos mil!

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DOUTOR DOS PNEUS – (ou DE COMO VIVER SOB PRESSÃO)

Sua mãe queria que ele fosse médico. Até porque seu irmão não quis estudar e administrava a borracharia da família. Cuidava de pneus. Para atender à mãe e não frustrar a tradição familiar, estudou Medicina especializando-se em PNEUmologia. Sócio do irmão, vive hoje dividido entre o consultório – onde calibra a pressão das pessoas e a borracharia – onde afere a pressão de pneus.

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O BANQUEIRO ÁVARO E O PESCADOR FELIZ

Extraído da sabedoria popular

Beira do mar, o homem se balança em sua rede à sombra de um coqueiro,, com seus dois peixes recém-pescados ainda frescos no samburá ao lado. Sombra, água de coco e paz, muita paz. Eis que chega aquele banqueiro rico, em seu iate reluzente, e pergunta ao pobre homem se tinha sido boa a pesca e quantos peixes foram fisgados naquela manhã.

– A pesca foi ótima. Muitos peixes. Pesquei duas ciobas das grandes em pouco tempo. Uma levo pra casa e comemos, eu, a mulher e nossos 4 filhotes. A outra, levo pra barraca de seu Amaro e troco por mantimentos para a família. Arroz, Feijão, farinha e um taco de carne. Dá certinho.

O ricaço, ‘sabido’ e ávaro, ao mesmo tempo, não controla seu instinto e sugere:

– Por que você não pesca ao invés de duas, dez ciobas. Come uma, troca 1 com seu Amaro e vende 8. Com o apurado vai juntando, vai juntando, compra um barco maior, depois pesca 30, amplia a frota, daí a pouco você vai ter um monte de gente trabalhando pra você e aí não precisará mais pescar. Ficará aqui deitado na sua rede, tomando água de coco e vendo o tempo passar.

– Ôxente, mas isso eu já faço pescando minhas duas ciobas diariamente.

Quem é mais sabido, o banqueiro ou o pescador?

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VALE DO CATIMBAU

Eu vi o Vale do Catimbau e é verdade tudo o que dele se diz. Visto de cima e de tão longe nada parece tão intensamente verde como é. Do alto, o cinza azulado (ou o azul acinzentado, como queiram) domina o horizonte visual, composto de pedra, mato e muito silêncio. Durante todo o tempo a Paz ali faz morada. Permanente. Ao final do dia, um resquício de luz aparta-se do ocaso deixando uma réstia de vida naquele lugar tão belo quanto isolado. E o vale dorme, aproveita o não-barulho e se ornamenta com toda a pouca claridade que ainda lhe chega, como em reverência pela beleza do lugar. Dia seguinte, o azul acinzentado (ou o cinza azulado, como queiram) volta a encantar tantos outros que, como eu, descobriram o lindo Vale, no meio do Agreste, beirando o Sertão. Vê-lo, vale a pena. Se vale! Lindo Vale!

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UM HOMEM NU

Nem Deus, nem Diabo, nem estrela, nem breu. Apenas um homem, nu, se esconde na rua, na escuridão de um dia que amanheceu sem sol. Na noite, num caminho só de ida, o homem nu vagueou buscando a si mesmo. Não se encontrou. Sozinho, perdido, abraçou o vazio e lhe ofereceu o braço. De mãos dadas, ele e o vazio, saem em busca da lua e de um clarão, de um infinito longínquo, cada vez mais longe de Deus. Em pouco tempo encontrarão, ermos, o nada além dos céus, a solidão das galáxias distantes e inalcançáveis. E o homem nu assim permanecerá até que o dia vista sua roupa e cumpra sua missão de abrigar os homens nus que por aqui vagueiam …

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MEU AMIGO JARDINEIRO

Tenho uma pata-de-elefante enfeitando a entrada de minha casinha em Gravatá. Foi presente do meu jardineiro preferido. Ele, agrônomo por formação, gosta de plantas e de música. Cuidou de alguns jardins até se dedicar a sua segunda paixão, montando uma loja de discos que só vendia disco bom. Não adiantava procurar CDs de forrozeiros plastificados ou de sertanejos de araque: na loja do meu amigo não tinha esse tipo de lixo. Samba travestido de pagode, também não. Preconceito? Não sei. Acho que era apenas questão de bom gosto musical. Foi lá onde lancei quase todos os meus discos e livros, encontrando amigos para jogar conversa alma adentro.

Além das plantas e da boa música meu amigo jardineiro também gosta de Poesia. Aliás, com certo orgulho e vaidade, confidenciou-me ser sobrinho-neto de João Cabral de Melo Neto. Como não gostar de Poesia tendo nas veias a correr sangue de tão ilustre Poeta? Mas voltando ao assunto: com a virtualidade do sistema e o surgimento das plataformas meu amigo viu-se obrigado a fechar sua loja e ir viver dedicado às plantas e ao sossego em meio às orquídeas, jasmins, bromélias e helicônias que com ele e a mulher habitam o apartamento no Espinheiro (até o bairro em que mora faz menção às coisas da natureza).

Música, já não existe no formato antigo. Uma pena! Conforta saber que ainda há pessoas sensíveis, que, sem CDs para tocar, se deixam tocar pelos perfumes e cores do verde. Jardineiros que resistem à frieza do asfalto e do cimento, da internets e afins. É a forma que meu amigo jardineiro encontrou para fazer brotar poesia da terra.