XICO COM X, BIZERRA COM I

RISCOS E RABISCOS

Uma folha só permanece em branco se o rabiscador que lhe dá vida não encontrar algum lápis pelo caminho. Daí, então, outras folhas também deixarão de estar em branco e todos os riscos se transformarão em rabiscos para alegria do papel. Alegrias que se desenharão em letras, sorrisos que, rabiscados sob a forma de palavras e frases, ajudarão a superar a tristeza de alguns, ou até mesmo estancar lágrimas representadas por eventuais desconfortos daquele que tiver acesso ao papel rabiscado.

RISCAR É BOM

Riscar faz bem às almas, a de quem risca e a de quem vê os riscos. Por isso rabisco de vez em quando, nos blogs, nos jornais, na mídia social (só sei mexer no Facebook) na esperança de que meu texto se preste para minorar a desalegria de quem os vê, para aumentar a esperança de quem os lê. Se isso ocorrer pelo menos uma vez, já valeu a pena rabiscar.

MEU LÁPIS VIVE DE PONTA AFIADA

Se essa for a condição de alegrar alguém, nenhum papel permanecerá em branco à minha frente. Para isso, só ando com um lápis no bolso. E de ponta bem aprumada, riscando e rabiscando minhas besteiragens e bobagices, meus textos e poemas ou simplesmente desenhando curvas e retas, paralelas e perpendiculares. Tanto quanto amar, o importante é ver alguém feliz. Para isso risco e rabisco.

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ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS?

No ócio pleno, eterno dolce far niente, sem ter o que fazer de mais proveitoso e com quase nenhuma inspiração para cantigas e versos, resolvi procurar as botas que Judas perdeu não se sabe onde. Logo, logo estava eu também perdido, alma malograda, próximo da esquina onde o vento faz a curva, bem pra lá de Marrakesh, além das distantes Cucuias.

NO MATO SEM CACHORRO

Muito mais que a sensação de estar no mato, senti-me na floresta sem cachorro, naquele ermo lugar que fazia fronteira com o brejo para onde as vacas se escondem quando as coisas começam a não acontecer. Por fim, num entardecer sem sol, terminei por desistir da empreitada ao me deparar com uma placa que me indicava estar a cinco quilômetros de distância de uma tal Raios Que o Parta do Sul. Voltei. Não gosto do sotaque do pessoal daquelas bandas do Sul.

PRÁ LÁ DO FIM DO MUNDO

A bem da verdade, acho que a placa estava errada: eu já estava pra lá do fim do mundo. Pior que voltei sem cumprir a missão a que me atribuíra: não encontrei as botas perdidas por Judas. Mas não desisto: continuarei em busca delas. Quem sabe um dia as encontre?

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“CONVERSINHA” DE 1/2 MINUTO

Meu neto Bernardo, apenas 8 anos, sentado em poltrona frontal a minha, percebe todo o meu relaxamento de fim de semana traduzido pelo calção velho, de pernas frouxas, tão confortável quanto indiscreto, deixando liberto tudo aquilo que preso deveria estar.

Com toda elegância, discrição e sabedoria, adverte o velho avô, com a cara muito séria de quem sabe repreender quem uma boa repreensão merece:

– Vovô, sabia que quando você cruza as pernas aparece tudo que não deveria aparecer?

Feche-se a cortina, descruzem-se as pernas, vista-se uma bermuda decente. Foi o que fiz.

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GUSTAVO COM DOIS ‘TÊS’

Engana-se quem pensa que sou preconceituoso em questão de música. Não sou. Adoro Sertanejo. Eu, forrozeiro juramentado, fole com firma reconhecida no cartório das brejeirices puras, estaria cometendo, aos olhos de alguns amigos, pecado mortal ao proferir essa declaração. Não entendi. Que há de mal nisso? Um amigo mais afoito, radical em seu gosto musical, não se deu por satisfeito e quis me por à prova perguntando de qual sertanejo eu mais gostava, esperando, talvez, um Wesley Safadão ou Marília Mendonça como resposta. Sem titubear, repliquei, na bucha: – Sertanejos, tem muitos, mas eu gosto mais de Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca. Incrédulo, insistiu: – E esses são sertanejos? dúvida decorrente do fato de ele nunca ter escutado uma cantiga sequer desses ‘cabras’ do Sertão. Tive que informar, sem me constranger e ao mesmo tempo constrangendo-o: – Sertanejos, sim, da gema. Gonzaga é do Exu, Dominguinhos de Garanhuns e Sivuca de Itabaiana. Queres mais sertanejo que isso? Com a dignidade do diferencial de que eles nunca receberam pagamentos milionários provenientes de recursos públicos sugados de municípios pobres nem se envolveram em esquemas de corrupção com superfaturamento de cachê justificado pela celebridade que são, fabricada pelos Faustões e Hucks da mídia interesseira. Quem nunca desconfiou de que por detrás do sertanejo universitário (alguns frequentaram, quando muito, os bancos escolares do primeiro grau) existe muita coisa ruim, além da música de extremo mau gosto e de péssimos cantores e cantoras. Há o famigerado “bate e volta” dessa grana que sustenta eleição e reeleição de corruptores. No autofalante do bar e alheio a tudo, alienados ouviam uma cantiga ‘sertaneja’ interpretada por um tal de Nivaldo Batista, mais conhecido nos paredões do interior como Gusttavo Lima que, com seus dois ‘tês’ é muito querido pelos Prefeitos, Secretários, Empresários e Produtores de shows espalhados Brasil afora.

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SAUDADE BOA (Estão de volta os abraços)

A saudade quase nunca é boa, ao contrário do que diz o verso de um Poeta. Mas ela pode ser menos ruim, sim, quando ainda for possível deixar de ser saudade para ser substituída por um desejado rever. Apenas essa possibilidade que está por vir altera o gosto e o sabor de uma saudade, tornando-a boa. Basta! Será a hora de se gritar, a plenos pulmões, que a distância ingrata não foi capaz de arrefecer o querer bem. Amigo é, e nunca deixará de ser, motivo para que a gente celebre a ventura da amizade. E o abraço sincero se faz mais necessário quando a saudade aumenta na mesma proporção da vontade do encontro que está por acontecer. E dá-se a beleza intensa do acaso, que não marca hora nem dia para a festa, para o afeto, o afago. É chegado o momento certo de dizer, como disse um dia o Poeta Maciel: isso vale um abraço, companheiro. Vale, sim, muito mais que apenas um abraço. Vale mil abraços acompanhados de sorrisos mil.

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ROMA OU GRAVATÁ: EIS A QUESTÃO

Roma, não! Vou à Gravatá.
Lá não tem Papa, mas tem bons papos.
O Francisco de lá é o Chico da Roberta
que nem argentino é e adora uma cerveja.
Tem também o Chicão, que cuida do jardim.
É lá que armo minha rede branquinha
de varandas da mesma cor.
E o melhor: não preciso de avião:
a estrada é no chão.

Não, não vou à Roma.
O Papa argentino que me perdoe.
Sou mais o friozinho do mais perto.
Aguardem-me as rãs, as flores e os passarinhos.
Nosso pé de manacá está lá, elegante,
Cortejado pela Pata-de-Elefante …

O vinho sempre está no ponto
a cada adeus do sol,
alegrando o arrebol.
A alegria vive por lá
(nem preciso convidá-la)
e a Paz mora ao lado.
O ipê já arroxeou suas flores
para me dar boas-vindas e adoçar minha chegada …
E o roxo dos ipês é muito mais bonito
que o vermelho da boina dos cardeais …
Gravatá é o meu Vaticano.
E é pra lá que eu vou.
Depois, se der tempo, eu vou a Roma …
Ou não!

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Dia 1º de junho, terça-feira, 19 horas, na PASSADISCO,  Rua da Hora, 385, Recife, lançamento de nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS, juntamente com o FOGO NA PELE, do Grupo CASCABULHO

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SORVETE, DE CREME OU DE BAUNILHA?

A gente nem percebe, mas nossa vida é um eterno desfilar de decisões a serem tomadas. Café, com açúcar ou adoçante? Feijão, preto ou mulatinho? Filme, comédia ou drama? Eu, particularmente, me defronto com a maior das frequências com todas as dúvidas quando tenho que decidir, principalmente com relação à arte. A palavra mais adequada em um poema, o título de uma crônica, a repetição ou não de um refrão naquela música e por aí vai. Quando resolvo fazer um disco (ao invés de escrever um livro, a primeira das dúvidas) abatem-me, de princípio, dúvidas cruciais: 1. A escolha do repertório, que começa com um total de 40 a 50 canções que se reduzem, ao final, às 12 ou 15 que comporão o CD; 2. A ordem em que essas músicas serão inseridas no disco, com dificuldade maior para a escolha da primeira e da última faixa, para não ferir susceptibilidades ou cometer injustiças na escolha; 3. O nome do CD. Neste caso, fiz uma enquete nas redes sociais para decidir o título que deveria dar nome ao último CD (terminei atribuindo-lhe o título de SABIÁS. JARDINS e ARREBÓIS). Menos mal que, a exemplo do técnico de futebol que dispõe de excelentes jogadores, mais de um para cada posição, as dúvidas persistem quanto à escolha dos músicos que trabalharão no disco e dos cantores que interpretarão as canções: nesse quesito estamos tão bem servidos tecnicamente que a dúvida, apesar de cruel, é saborosa, pois qualquer que seja a escolha ela será a acertada. Como tem sido.

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Dia 26, quinta-feira, na PASSADISCO – Rua da Hora, 385, Recife, lançamento, com audição e autógrafos, do nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS – a partir das 19 horas.

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SEGREDOS, AMORES E SORRISOS

E assim levava a vida, bebendo segredos, sonhando amores e catando sorrisos nesse mundão de meu Deus. Achava mais desejos vazios que qualquer outra coisa. Era assim o dia-a-dia de Maria Flor nos cabarés escuros e enfumaçados. Mas não reclamava: era a sua vida, o destino não lhe dera outra opção. A cada segredo perdido, um sorriso achado em meio a tantos amores sonhados. Sorrisos que se iam com a mesma velocidade dos sussurros e gemidos que também iam e vinham. A fumaça e os copos, cheios e vazios, vazios e cheios, matavam a sede da angústia, aliviavam a dor da espera infinda por dias melhores que aqueles. Na mesa ao lado, Rosa e Margarida também vendiam carinhos aos homens do lugar, carentes de carícias. E entre segredos, amores e sorrisos, a orquestra tocava um bolero sob a sombra densa de um salão cheio de pouca cor, de tanta dor e de quase nenhuma luz. Um jardim em que habitava a tristeza das flores, das rosas e das margaridas.

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Dia 26.05, 19 horas, na PASSADISCO, aqui no Recife, lançamento de nosso SABIÁS, JARDINS E ARREBÓIS, juntamente com o FOGO NA PELE, do Grupo CASCABULHO

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SAUDADE DE NETO É A SAUDADE MAIOR QUE HÁ

Semana passada o meu neto caçula, Leonardo, completou seu primeiro aninho de vida. De todas os efeitos perversos provocadas pela Covid, excetuado o imenso sofrer pelas perdas definitivas, nenhum se compara à impossibilidade da convivência próxima e presencial com os entes queridos. Privar um avô de ver seus netos, de acarinhá-los, é uma tortura sem igual. Experimentei isso quando, amainada a pandemia e depois de longo tempo sem vê-los, abracei-os em afago triplicado, confirmei a ventura e a alegria de ser avô. Longe deles, um minuto vira uma década. Ao lado deles o dia passa rápido, a noite se avexa e o dia seguinte é logo ali. Assim mesmo é que as horas se diluem em minutos fugazes e passam sem que a gente perceba que a vida dura segundos apenas … E o minuto que se foi é um taco de tempo que não volta nunca mais. Quando menos se espera eles crescem e a gente percebe o tempo que perdeu em não ser criança com eles, quando podia. Que pena que a gente fique adulto.

PARA LEONARDO, VINÍCIUS e BERNARDO

Saudade maior que grande
A saudade que avô sente
Que machuca tanto a gente
Não tem remédio que abrande
Ainda que a gente mande
Passear na noite escura
Ela volta, não trás cura
Judiante, dói que só
Não existe dor maior
Que dum neto a lonjura

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O ESPELHO DA ALMA

A última vez que me vi estava com sono e muito assanhado. Além de cansado, claro. Espantei-me com o que vi. Não era um jovem que estava ali. Afinal de contas havia muito tempo desde que me deparei, pela primeira vez, com a luz do mundo. Passei água nos olhos, penteei os cabelos, mas ainda assim, insatisfeito com a imagem que me foi ofertada, quebrei o espelho e nunca mais quis me ver. Preferi assim para não mais me assistir tão assustado com esse mundo violento e cheio de desesperanças. As olheiras e rugas, lembro bem, estavam ali retratadas, testemunha ocular da maldade do tempo, das transformações estéticas por que passamos em nosso caminhar. Preferi não mais vê-las, por desnecessário ser. A idade pesa muito. Menos mal que a alma, que o velho espelho é incapaz de refletir, é leve, sem peso. Ou, melhor dizendo, ela terá o peso que nos encarregarmos de atribuir-lhe durante a vida. Além do que a alma não tem imagem que possa ser refletida em um espelho. Falta nenhuma, pois, me fará esse artefato adorado pelos narcisistas de plantão. Procurarei, cada vez mais, acreditar no que ouvia de vovô, quando comigo conversava em nossos encontros de fim de tarde: ‘os olhos são o espelho da alma’, dizia-me. Nunca entendi direito o que isto significa, mas ante a sabedoria de meu saudoso avô, acredito piamente na verdade de sua máxima. Seja o que isso queira dizer, espelhos, só os da alma.

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