XICO COM X, BIZERRA COM I

VALE DO CATIMBAU

Eu vi o Vale do Catimbau e é verdade tudo o que dele se diz. Visto de cima e de tão longe nada parece tão intensamente verde como é. Do alto, o cinza azulado (ou o azul acinzentado, como queiram) domina o horizonte visual, composto de pedra, mato e muito silêncio. Durante todo o tempo a Paz ali faz morada. Permanente. Ao final do dia, um resquício de luz aparta-se do ocaso deixando uma réstia de vida naquele lugar tão belo quanto isolado. E o vale dorme, aproveita o não-barulho e se ornamenta com toda a pouca claridade que ainda lhe chega, como em reverência pela beleza do lugar. Dia seguinte, o azul acinzentado (ou o cinza azulado, como queiram) volta a encantar tantos outros que, como eu, descobriram o lindo Vale, no meio do Agreste, beirando o Sertão. Vê-lo, vale a pena. Se vale! Lindo Vale!

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UM HOMEM NU

Nem Deus, nem Diabo, nem estrela, nem breu. Apenas um homem, nu, se esconde na rua, na escuridão de um dia que amanheceu sem sol. Na noite, num caminho só de ida, o homem nu vagueou buscando a si mesmo. Não se encontrou. Sozinho, perdido, abraçou o vazio e lhe ofereceu o braço. De mãos dadas, ele e o vazio, saem em busca da lua e de um clarão, de um infinito longínquo, cada vez mais longe de Deus. Em pouco tempo encontrarão, ermos, o nada além dos céus, a solidão das galáxias distantes e inalcançáveis. E o homem nu assim permanecerá até que o dia vista sua roupa e cumpra sua missão de abrigar os homens nus que por aqui vagueiam …

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MEU AMIGO JARDINEIRO

Tenho uma pata-de-elefante enfeitando a entrada de minha casinha em Gravatá. Foi presente do meu jardineiro preferido. Ele, agrônomo por formação, gosta de plantas e de música. Cuidou de alguns jardins até se dedicar a sua segunda paixão, montando uma loja de discos que só vendia disco bom. Não adiantava procurar CDs de forrozeiros plastificados ou de sertanejos de araque: na loja do meu amigo não tinha esse tipo de lixo. Samba travestido de pagode, também não. Preconceito? Não sei. Acho que era apenas questão de bom gosto musical. Foi lá onde lancei quase todos os meus discos e livros, encontrando amigos para jogar conversa alma adentro.

Além das plantas e da boa música meu amigo jardineiro também gosta de Poesia. Aliás, com certo orgulho e vaidade, confidenciou-me ser sobrinho-neto de João Cabral de Melo Neto. Como não gostar de Poesia tendo nas veias a correr sangue de tão ilustre Poeta? Mas voltando ao assunto: com a virtualidade do sistema e o surgimento das plataformas meu amigo viu-se obrigado a fechar sua loja e ir viver dedicado às plantas e ao sossego em meio às orquídeas, jasmins, bromélias e helicônias que com ele e a mulher habitam o apartamento no Espinheiro (até o bairro em que mora faz menção às coisas da natureza).

Música, já não existe no formato antigo. Uma pena! Conforta saber que ainda há pessoas sensíveis, que, sem CDs para tocar, se deixam tocar pelos perfumes e cores do verde. Jardineiros que resistem à frieza do asfalto e do cimento, da internets e afins. É a forma que meu amigo jardineiro encontrou para fazer brotar poesia da terra.

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CEM FORMIGUINHAS

Sonhei com Manoel de Barros
À beira de um formigueiro,
Num domingo alvissareiro:
Foi conversa sem esparros.
No lugar não tinha carros.
Um caminho das antigas,
Avenida das formigas,
Distante das coisas más,
Longe dos tamanduás,
Sem formicidas ou brigas

Se ainda espaço houver nessa estrada de areia branquinha darei boas vindas às cem formiguinhas que se achegam para passear por onde passeia o sol, o vento e a lua. No mesmo lugar por onde passa a luz vou ter todo o cuidado de desviar de cada uma delas, alegrantes passeadoras, para não lhes machucar. Elas, algumas com folhas em suas bocas, andarão a passos lentos junto às flores do meu jardim. A lhes fazer companhia, borboletas com suas mil e uma cores para alegrar todos os caminhos. Tamanduás, longe, sonham delirantes sonhos, pesadelos terríveis, por distantes que estão do formigueiro, formicidas que são. Deus salve as inofensivas formiguinhas!

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OS ANJOS E AS PENAS DE ARARAS COLORIDAS

Quando o primeiro anjo pousou em frente a nossa casa a grama ao redor ficou mais verdinha. Ele aquietou-se ali, perto do pé de manacá e fingiu ser estátua. O melhor dos anjos, quando eles fingem ser estátua, é não resistirem às cócegas no nariz, com penas de araras coloridas. Eles, por um instante, se permitem mexer um pouco, depois se mexem mais e põem-se a rir, mas nem por isso abdicam de ser doces anjos: apenas deixam de ser imóveis esculturas. Passam a ser estátuas alegres, sorridentes querubins.

Que a grama de nossas casas continuem sempre da cor que deve ser e o todo resto desarrumado: a cama, com seus travesseiros fofos, bagunçada. Que as coisas mexidas, sala, varanda, quartos e cozinha, assim permaneçam, desde que o autor das peraltices tenha nome, forma e cheiro de anjo, dos mais celestiais possíveis. Aqui em casa acontecia isto, quando apenas um anjo tomava conta de tudo e promovia a bagunça boa. Ouvi dizer que o nome dele é Bernardo.

Aí, dois outros anjos se achegaram, ainda muito pequenos, se ajuntando a Bernardo na boa bagunça … Final de semana, Bernardo, Vinícius e Leonardo, três das maiores invenções de Deus, tomam conta da ‘zona’ em que se transforma nossa casa com a chegada deles. Uma ‘zona’ arretada de boa! Viva a bagunça que eles promovem! Que Deus olhe sempre pelos anjos sorridentes e felizes. Pra que foi inventá-los?

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SONHO É PARA SER SONHADO

Um sonho voava alto e sem destino na terra triste dos sonhos não sonhados. Procurava alguém que o adotasse. Ninguém o desejava, por triste que era. Mas era um sonho, apenas um sonho, como outro qualquer, e desejava ser sonhado.

Uma menina bonita apiedou-se e resolveu sonhá-lo, fazer do sonho perdido um sonho verdade naquela noite de sono pouco. E sonhou. E aí, águias enormes povoaram o céu denso e cinzento da menina e sobrevoaram sua cabeça fazendo com que seu travesseiro ficasse duro como pedra.

Antes do despertar, as águias voltaram a ser pequenos pássaros cantantes, sabiás e curiós, que alegraram a manhã da menina sonhadora em sua cama de lençol branco, cambraia de cheiro bom.

Ao acordar, o travesseiro agora fofo da menina percebeu seu sorriso largo. Foi quando ela fechou os olhos e entendeu, a partir daquele dia, que qualquer sonho, ainda que pareça um pesadelo, é para ser sonhado por ser esse o destino de todos os sonhos.

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ENSACADORES DE BUFAS

O dia estrebuchando e Zeca de Dôra a enfiar bufa em saco de feira, com toda a displicência que a tarefa exige. Do franzido da testa aos alicerces do calcanhar, uma fome danada e seu pensamento só se endereçando para o bode posto à mesa, prontinho para matar quem estava lhe matando. Língua chocalhando no céu da boca sem ter com quem conversar. Era um Julho em agonia, já quase virando Agosto.

Eis que chega a visita da amiga Maria José Bezerra Carneiro Leão, Mariinha de Zé Camelo (seu nome mais parecia um jardim zoológico), exímia na arte do nada fazer e também enfiadora de bufa, aposentada como Zeca. Resolveram espalhar a perna e dar uma andada pelo sítio.

E foram, andando e jogando conversa fora. Afinal de contas era um tempo em que as ventosidades caladas, também conhecidas por peidos silenciosos, podiam ser tranquilamente expelidas e enfiadas num saco de feira sem o risco de um assaltante que as levasse. Sim, porque hoje em dia até isto se rouba na falta de um celular ou de uma carteira recheada de cédulas e cartões. Ladrões de bufas é o que são.

E aí, tão boa a conversa virou que a lua, descompromissada com as nuvens, deu-lhes a dica de que o ponteiro do relógio já cortejava as 11 horas da noite.

– E o bode?, pergunta Mariinha.

– Isso lá é hora de comer bode, sô! Amanhã nóis come – combinou Zeca.

De barrigas ocas foram dormir com seus sacos de feira repletos de bufas.

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O PAVÃO E O ESPANADOR

O espanador estava ali, jogado a um canto, empoeirado. Cumprira sua missão diária de espanar o pó, a poeira, o sujo. Ninguém sequer olhava para ele. Antes, enquanto penas do pavão bonito, a ave imodesta julgava-se a maior e tratava mal as outras aves, por não serem tão belas quanto. Não imaginava, em seus desvarios, que também a beleza pode ser passageira, que a boniteza das cores pode ser efêmera se não tratada com a dignidade e com o respeito que merecem seus pares.

Depreciou o galo, por não ter toda a sua boniteza colorida. Achava que o capote, em seu branco e preto nada colorido, só agradava a meia dúzia de outros capotes que lhe cercavam e lhe dedicavam amizade. Fazia-se belo para o mundo esquecendo sua origem humilde e tratava com arrogância quem dele discordasse. Pobre pavão. Hoje é apenas um espanador, sujo, que se limita a tentar limpar a sujeira por ele mesmo deixada.

O capote, em preto e branco, continua no terreiro, alegrando os companheiros do sem-cor. E o galo canta todas as manhãs.

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O AZUL E O AZUL

Era só uma quarta-feira, igual a tantas outras quartas-feiras já vividas. Estava eu a soletrar sílabas, embalar palavras e transformá-las em versos, quando acendi o escuro e meus olhos enxergaram um azul mais azul que aquele que o Poeta Carlos Pena Filho tanto gostava. Acho que até meus sapatos, ainda que que em mim descalçados, estavam azuis. Meus cabelos, revoltos e também azuis, voavam ao sabor dos ventos anunciadores da chuva que estava por vir.

A lua, escondida entre nuvens, de quando em vez teimava em costurar bordados num céu azul, como que a anunciar que naquela noite ela estava preguiçosa e sem vontade. Estava também azulada, observei. Ali permanecia apenas por obrigação de ofício, embora soberana como sempre.

O relógio bateu meia-noite e naquele instante respirei o cheiro de uma quarta-feira de passado tão recente. Além disso,já era madrugada de uma nova quinta-feira.

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NEBLINAS E TEMPESTADES

Antes de tornar-me chuva, lentamente neblinei-me em meio às nuvens cinzentas que flutuavam acima do meu chapéu. Ao primeiro pingo mais grosso, pressenti o brotar de um pé de verso, carregado de poesia, rimas e amor, no jardim de minha casa, bem ao lado do meu pé de manacá. Tratei de regar. A semente do bem-querer virou flor.

Já quase tempestade, deixei-me envolver no lençol das lembranças boas e dormi o sono dos que acreditam que pode haver um mundo feliz. E sonhei. E ainda sonho. E sonharei até quando for possível sonhar. Até onde a Poesia permita e os versos embalem. Ainda que venham tempestades, permanecerei neblina. No máximo, chuva fina a molhar o chão de minh’alma.