XICO COM X, BIZERRA COM I

ENSACADORES DE BUFAS

O dia estrebuchando e Zeca de Dôra a enfiar bufa em saco de feira, com toda a displicência que a tarefa exige. Do franzido da testa aos alicerces do calcanhar, uma fome danada e seu pensamento só se endereçando para o bode posto à mesa, prontinho para matar quem estava lhe matando. Língua chocalhando no céu da boca sem ter com quem conversar. Era um Julho em agonia, já quase virando Agosto.

Eis que chega a visita da amiga Maria José Bezerra Carneiro Leão, Mariinha de Zé Camelo (seu nome mais parecia um jardim zoológico), exímia na arte do nada fazer e também enfiadora de bufa, aposentada como Zeca. Resolveram espalhar a perna e dar uma andada pelo sítio.

E foram, andando e jogando conversa fora. Afinal de contas era um tempo em que as ventosidades caladas, também conhecidas por peidos silenciosos, podiam ser tranquilamente expelidas e enfiadas num saco de feira sem o risco de um assaltante que as levasse. Sim, porque hoje em dia até isto se rouba na falta de um celular ou de uma carteira recheada de cédulas e cartões. Ladrões de bufas é o que são.

E aí, tão boa a conversa virou que a lua, descompromissada com as nuvens, deu-lhes a dica de que o ponteiro do relógio já cortejava as 11 horas da noite.

– E o bode?, pergunta Mariinha.

– Isso lá é hora de comer bode, sô! Amanhã nóis come – combinou Zeca.

De barrigas ocas foram dormir com seus sacos de feira repletos de bufas.

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O PAVÃO E O ESPANADOR

O espanador estava ali, jogado a um canto, empoeirado. Cumprira sua missão diária de espanar o pó, a poeira, o sujo. Ninguém sequer olhava para ele. Antes, enquanto penas do pavão bonito, a ave imodesta julgava-se a maior e tratava mal as outras aves, por não serem tão belas quanto. Não imaginava, em seus desvarios, que também a beleza pode ser passageira, que a boniteza das cores pode ser efêmera se não tratada com a dignidade e com o respeito que merecem seus pares.

Depreciou o galo, por não ter toda a sua boniteza colorida. Achava que o capote, em seu branco e preto nada colorido, só agradava a meia dúzia de outros capotes que lhe cercavam e lhe dedicavam amizade. Fazia-se belo para o mundo esquecendo sua origem humilde e tratava com arrogância quem dele discordasse. Pobre pavão. Hoje é apenas um espanador, sujo, que se limita a tentar limpar a sujeira por ele mesmo deixada.

O capote, em preto e branco, continua no terreiro, alegrando os companheiros do sem-cor. E o galo canta todas as manhãs.

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O AZUL E O AZUL

Era só uma quarta-feira, igual a tantas outras quartas-feiras já vividas. Estava eu a soletrar sílabas, embalar palavras e transformá-las em versos, quando acendi o escuro e meus olhos enxergaram um azul mais azul que aquele que o Poeta Carlos Pena Filho tanto gostava. Acho que até meus sapatos, ainda que que em mim descalçados, estavam azuis. Meus cabelos, revoltos e também azuis, voavam ao sabor dos ventos anunciadores da chuva que estava por vir.

A lua, escondida entre nuvens, de quando em vez teimava em costurar bordados num céu azul, como que a anunciar que naquela noite ela estava preguiçosa e sem vontade. Estava também azulada, observei. Ali permanecia apenas por obrigação de ofício, embora soberana como sempre.

O relógio bateu meia-noite e naquele instante respirei o cheiro de uma quarta-feira de passado tão recente. Além disso,já era madrugada de uma nova quinta-feira.

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NEBLINAS E TEMPESTADES

Antes de tornar-me chuva, lentamente neblinei-me em meio às nuvens cinzentas que flutuavam acima do meu chapéu. Ao primeiro pingo mais grosso, pressenti o brotar de um pé de verso, carregado de poesia, rimas e amor, no jardim de minha casa, bem ao lado do meu pé de manacá. Tratei de regar. A semente do bem-querer virou flor.

Já quase tempestade, deixei-me envolver no lençol das lembranças boas e dormi o sono dos que acreditam que pode haver um mundo feliz. E sonhei. E ainda sonho. E sonharei até quando for possível sonhar. Até onde a Poesia permita e os versos embalem. Ainda que venham tempestades, permanecerei neblina. No máximo, chuva fina a molhar o chão de minh’alma.

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DOMINGOS DE SOL PLENO E ALMA LEVE

Não obstante sua disciplina de vida, ele abominava as burocracias da arte: não suportava ensaios, desprezava passagens de som e detestava partituras. A bem da verdade, ele estava bem acima disso tudo e não precisava dessas ‘bobagens’. Este o homem que aprendi a admirar ainda mais com a convivência próxima nos seus derradeiros anos de vida. Alguns, não sei o porquê, tentavam atribuir-lhe cores ideológicas. Perda de tempo: os bons de coração, os homens de bem, ainda que tenham preferências partidárias, suas qualidades como homem/artista se sobrepõem ao colorido dos partidos políticos, tornando-os, os partidos, menores ainda do que são.

Ele transpirava arte. Certa feita ousei perguntar-lhe quanto tempo ele, Sivuca e Oswaldinho ensaiaram para a gravação de CADA UM BELISCA UM POUCO e, ele, com um sorriso maroto do anjo que é, respondeu-me com toda a candura que só os doces anjos possuem, que não tinha havido necessidade de ensaio. Perguntei por perguntar: em se tratando dele e de seus dois companheiros, claro está que ensaios não passavam de mera formalidade, uma perda de tempo. O talento inato substituía qualquer ensaio.

Na fila de entrada do céu, passou na frente de um monte de gente e São Pedro, ao permitir sua entrada, o aplaudiu de pé. Aquele céu era o lugar merecido de quem na vida foi um exemplo de humildade, de quem viveu espalhando bondade e fazendo o bem. Era o sinônimo perfeito de generosidade com todos os que o rodeavam, eu, inclusive. Como exemplo, relato que recebi dele 12 cantigas e um pedido dele para que colocasse letra nas suas canções: missão mais honrosa? O resultado foi o LUAR AGRESTE NO CÉU CARIRI, disponível nas plataformas virtuais. Este, o Domingos que valia por todos os domingos do calendário, o músico e homem extraordinário de todos os dias da semana, de segundas a domingos. Salve Dominguinhos, sempre.

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GORDINHOS E FELIZES

Para justificar o mau hábito alimentar próprio das crianças de minha época – doces, chocolates e afins, dizíamos, em alto e bom som, que ‘o que não mata, engorda’. Hoje, conscientes de que a alimentação saudável é responsável pelo ‘esticamento’ da vida, uma ‘garantia estendida’ do bom viver, dizemos o contrário: ‘o que engorda, mata’. E haja regimes, caminhadas, academias, remédios e renúncias alimentares. Uma dobradinha ou uma picanha das boas são sinônimos de veneno. A endocrinologista é como uma delegada da Polícia Federal investigando deslizes alimentares para nos condenar à distância das mesas fartas e saborosas, usando tornozeleira estomacal.

E vamos, nós, camaleões humanos, nos empanturrando de verduras, nos enchendo do verde, de nutrientes essenciais (carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais). ‘Alimentos in natura, frutas, vegetais, legumes e grãos integrais são bons’, dizem os entendidos. E o paladar reclamando de sua não satisfação. Nada de açúcar ou sal. Bebida, nem pensar. Em compensação, a diabetes e a obesidades demorarão alguns dias, apenas alguns dias, até nos fazer a visita inescapável e indesejada.

Eu mando às favas os conselhos médicos, à merda os compêndios tratando do assunto. Agora mesmo vou ali na feijoada de Candeias, tomar minha cervejinha e saborear a feijoada bem temperada. Com muito bacon, por favor. Depois, a madorna tradicional, também condenada por especialistas, todos escravos do peso exato das balanças, mas infelizes por completo. Pode ser coincidência, mas eu percebo dificuldade dos magrinhos para sorrir. Nunca vejo um magrinho sorridente, ao contrário dos gordinhos, sempre alegres, sorridentes e felizes. Coincidência ou não, prefiro ser feliz.

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A MAIOR INVENÇÃO DE DEUS

A casa toda arrumada, aquela coisa chata de cada coisa em seu lugar. É sexta e eles só chegam amanhã. O riso de alegria já começa no canto do olho: sei o que é isso quando me olho no espelho, nas minhas manhãs do sábado, à espera de LEONARDO, VINÍCIUS e BERNARDO.

Neto é a maior invenção de Deus. Acho até que, impossível, eles deveriam vir antes dos filhos para nos pegar mais jovem, possibilitando melhor curtição dos risos, corre-corres e guerra de almofadas que promovem. Na segunda, Quando a casa retoma o tamanho antigo, a gente abraça a saudade rezando para que o outro fim-de-semana seja amanhã e que eles estejam de volta.

Para eles eu fiz LÉOS, VINAS e BERNARDOS, também no repertório de nosso disco de Samba, em gestação, MEU SAMBA É ASSIM. Eu digo:

o amanhã é de vocês: Léo, Vinícius e Bernardo,
voem livres, soltos, sem cordas ou cadeados

que cresçam felizes, sem medos, temores,
cantando amores, andando e sorrindo,
falando de flores, seguindo a canção,
a paz ganhadora vencendo o canhão

o vinho amargo será derramado,
presente abraçado, futuro porvir,
sabendo que o céu se escuro se vê
é um dia mais claro que está por nascer

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UM QUASE POETA

No álbum que estou gravando – MEU SAMBA É ASSIM, sob a regência e direção musical do mestre Jorge Simas (já gravou com Chico Buarque, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Agepê, Clara Nunes, dentre outros menos votados) uma das letras que mais gosto é esta, quando me reconheço na posição de mero aprendiz, um pretenso Poeta e exalto a excelência dos grandes vates. Poderia falar de muitos outros, tão geniais e imensos quanto: MANOEL DE BARROS, PINTO DE MONTEIRO, LOURO DO PAJEÚ e outros tantos … São do mesmo quilate. Sintam-se homenageados, pois, todos os Poetas.

Digo assim:

o olhar dela, tão singelo,
puro e belo, é tudo de bom,
eu, vate inventado,
tudo a dizer, nada a falar,
calo e foge-me o som:
sou muito menor que qualquer DRUMOND …

atrevo-me a fazer verso,
é a inspiração passageira …
tão ambicioso,
tudo a dizer, nada a falar,
e só bobageio asneira:
distante de todo e qualquer BANDEIRA …

tento juntar as palavras
transformá-las em canções
é só um desejo!
tudo a dizer, nada a falar,
muitos e tantos senões
e longe de todo e qualquer CAMÕES

e há tão pouca rima em minha não-poesia
que ao pretenso esteta que há em mim
resta a certeza, aí sim, de ser nenhum poeta,
tudo a dizer, nada a falar.
meu grito preso não ecoa,
é voz calada em cena muda
muito apartado de qualquer NERUDA,
sou falso bardo, um nunca PESSOA,
fingidor poeta de versos à toa …

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O PET E SEU TUTOR

O ‘tutor’ do Pet que mora no 23° Andar do meu prédio se indispôs comigo apenas por que reclamei que o seu animalzinho – um Pitbull de corpanzil aproximado ao de um jumento, fez seu ‘cocozinho’ bem na calçada em frente à entrada do Edifício e ele, seu guardião, o tal vizinho, deixou lá a titica produzida por seu tutorado, grave ameaça aos sapatos de algum desprevenido.

A propósito, me disseram – e só soube porque me contaram, não vou atrás dessa praga hoje existente – que um ‘influencer’ publicou em suas redes que ações como a minha, interpretada como desrespeito aos animais, pode vir a se constituir crime se deletadas ao Gabinete de Defesa e Proteção dos Animais. Ser processado por desrespeito a um inofensivo cachorro é minha última aspíração. Ante o risco, pedi desculpas ao vizinho, e alisei carinhosamente a ‘cabecinha’ de seu dog como forma de prevenção a eventual e feroz mordida. E passei a ter mais cuidado com as calçadas em que piso.

Por falar em ‘influencers’, são tantos hoje em dia, tratando de banalidades diversas e com milhões de seguidores, que fico tonto. Eles influenciam o quê? No meu tempo, meu pai e meu avô eram meus fiéis influenciadores, estes sim, me ensinando o caminho do bem, de ser bom, do respeito e outras virtudes que guardo até hoje. Os atuais vão de propaganda de cosméticos à venda de imóveis ou automóveis. Alguns até ‘trabalham’ em lavanderias financeiras para ‘masterizar’ suas riquezas.

Como diz uma amiga querida, eles provocam profundas modificações no comportamento social, e se encarregam de reduzir a importância do que é importante, engordando suas contas bancárias ao tempo em que esvaziam a cabeça de nossas crianças e jovens ao ocupá-las mentalmente com assuntos sem nenhum conteúdo, quando não induzindo-os a processos viciantes como jogos e apostas.

Pois é: eu sou do tempo em que professoras eram mestras e não simplesmente ‘tias’; do tempo em que treinadores de futebol eram técnicos e não ‘professores’ ou ‘mister’. Do tempo em que cachorros e gatos eram apenas cachorros e gatos. Só existem ‘influencers’ porque existem ‘idioters’. E eu, que sei que nada sei – como pensava um ‘influencer’ grego, fico na minha escolhendo o que ler e o que ver. Talvez um dia eu me arrependa de não ter dado ouvidos ao Gil do Vigor ou a Virginia do Vini, sabedorias plenas a espalhar ao mundo um imenso saber …

Triste ter que reconhecer que meu tempo passou … Melhor cuidar da publicação do livro que estou pensando. Acho que um e-book. Os influenciadores, certamente, não o lerão. E não me farão nenhuma falta.

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MEU SOL CONTINUA REI

Desde pequeno, tempos do Externato Santa Izabel, dona Silvina Diretora e Dona Luíza professora (naquele tempo não chamávamos de tia) me ensinaram que o sol era uma bola enorme de fogo a brilhar no céu e a iluminar nossos dias. E assim eu o desenhava, soberano, pairando sobre a paisagem, com traços amarelos que nem labaredas arrodeando-o. Igual fazia um cronista que admiro e que andou abordando o tema, recentemente.

Agora vem um fela-da-puta de um cientista maluco, por falta de coisa melhor a fazer, dizer que não, que o Sol nosso de cada dia é apenas uma estrelinha qualquer, menor que a maioria delas e que em algumas das quais caberia até duzentos sóis. Que mania mais besta a desse estudioso de bobagem de querer destruir sonhos infantis. Para mim, ele continua a reinar absoluto no meu céu de criança. Fosse assim tão inexpressivo, como justificar a luz e o calor que dele emana …

Não entendi a razão de querer tornar república besta a monarquia solar tão decantada. Ou não seria o sol o rei do firmamento, como tão bem decantou Wilson Batista, para Nelson cantar: ‘ô, Sol, tu que és o rei dos astros’? Não vou ligar pras baboseiras desse cientista desocupado. Vai ver ele descobre, qualquer dia desses, que o céu é vermelho e que as nuvens são verde cor de capim, antes de querer comê-las. E se ele achar que a lua não é dos namorados?

Apenas por ferir meus princípios morais mais elementares não vou desejar que esse doido e sua absurda tese apodreçam sob o sol quente e cáustico de um deserto árido e inclemente. Mas que ele não invente nada contra dona lua … Aí ele vai ter que se ver comigo!