XICO COM X, BIZERRA COM I

O BICHINHO SORRIDENTE E O POLÍTICO INDECENTE

Que me perdoe Pitágoras, mas mais um dia que se vai e eu não precisei usar o cateto da hipotenusa para absolutamente nada. Em contrapartida, tive a grata satisfação de, através do excelente CRÔNICAS PANDÊMICAS, de Zé Teles, tomar conhecimento do sorridente Quokka. Que diabo é Quokka e de que ele ri? Calma! Não enfiem o dedo e rasguem a boca em X se classificando ignorantes antes que lhes esclareça: trata-se de um pequeno marsupial que vive na Austrália, primo legítimo dos cangurus, de tamanho similar a um gato doméstico e que vive permanentemente a sorrir. E eu que pensava que no reino dos bichos, além dos humanos, apenas a hiena era um animal que sabia rir. Ledo engano! Achei tão interessante a existência desse tal de Quokka que, deliberadamente, assumi correr o risco de ser acusado de ter plagiado Teles ao abordar o simpático animalzinho nesta croniqueta. Não foi minha intenção. Resta a primária questão: ele ri de felicidade ou por outro qualquer motivo? Não creio que nele resida o riso do cinismo e desfaçatez tão comuns a alguns políticos em período eleitoral, época de caça aos votos. Para não deixar pela metade o compêndio de cultura inútil, informo que os Quokkaa são herbívoros, de hábitos noturnos e possuem uma bolsa na barriga onde as fêmeas carregam e amamentam seus filhotes. Se quiserem conhecê-los melhor e tiverem preguiça de consultar o Google é só comprar uma passagem para a Ilha Rottnest, lá pras bandas da Oceania, mas já sabendo que o bichinho é considerado uma espécie vulnerável, protegida pelas leis australianas, sendo proibido tocá-lo ou alimentá-lo. Distância deles, pois. Dos homens que riem por cinismo, também. Estes, ao contrário daqueles, são nocivos à boa alma.

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SER OU NÃO SER

Nesse País que leva o nome de Pindorama e alguns o chamam pelo apelido de um pé de pau, como diz Teles, ‘Biu’ Shakespeare não se criaria. Quando ele dissesse ‘Ser ou Não Ser’ não faltaria um gaiato tupiniquim levantando o dedo e gritando:

– Nem uma coisa nem outra, seu Galego. Deixe de onda e fique na sua!

Eis a crucial questão. Todo esse preâmbulo, sem beira nem beira, apenas para comentar as pequenas dúvidas (ou grandes dilemas) que enfrentamos no dia-a-dia: ir ou não ir, cerveja ou whisky, que roupa vestir? Tudo bobagem: terminamos por ir ao lugar mais próximo, a beber o que estiver mais perto, a escolher uma ou outra vestimenta aleatoriamente, comonum par ou ímpar e a vestir a primeira roupa que pegar no armário.

Desde os tempos em que Eva só enxergava Adão à sua frente, que não via outro homem naquele imenso Paraíso – até porque só existia ele, além das serpentes – que é assim: sempre temos que decidir entre pelo menos duas opções. Até Eva, longínquo tempo, teve de decidir entre Adão e a fruta: deu preferência à maçã, mas isso já é outra história. Então, na vida, isto ou aquilo, escolhamos. Sábado à tardinha, por exemplo, surge a dúvida, outra necessidade de decidir: jantar fora ou pedir uma pizza? calabrezza ou mussarella? Feita a opção, pede-se acessoriamente uma coca-cola. Ou um guaraná.

Ontem mesmo, lembrando o tempo em que se fumava um cigarrinho que passarim não fuma, ocorreu-me a dúvida cruel que confirma minha tese aqui exposta: assistir o programa do Ratinho ou escrevinhar minhas baboseiras e besteiragens semanais para encher o saco de meus 5 ou 6 leitores. Perdeu o leitor. Também, quem mandou o protótipo de roedor ser tão ruim apresentando seu programa? Daí, escrevi este sem-assunto, estas mal tecladas linhas, pelo que já me desculpo perante aqueles que tiverem a infeliz ideia de lê-las ao invés de escolherem algo melhor a fazer. Da próxima, prometo, vou optar pela TV: dos males, o menor.

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EUTRÓPIO

Vulgarizou-se o título, banalizou-se a expressão: todos são Poetas, todos se tratam por Poeta como se Poetas fossem. Assim como Eutrópio, que se dizia Poeta, se achava Poeta e adorava assim ser chamado. Fazia uns versinhos, de quando em vez, utilizava rimas mais que pobres e não obedecia qualquer métrica ou ritmo em seus poemas (se é que assim podemos chamá-los). Tampouco poderiam seus pretensos versos ser classificados como modernos, tão banais que eram. Eutrópio era tão Poeta quanto seu homônimo romano, um burocrata de Constantinopla, pouco afeito às rimas e aos versos.

Incautos o chamavam de Poeta e Eutrópio, de peito cheio e ego lotado, dizia, num auto-elogio, ser o Poeta mais importante de sua rua. Eutrópio não mentia: na rua em que morava só havia uma casa, a sua. E ele morava só. Era, pois, não apenas o mais importante, mas opúnico na rua em que morava. Viva Eutrópio (que me desculpem os Eutrópios, mas que mau gosto dos pais ao escolher esse nome pro filho. Vôte!).

Em Tempo: apenas para que não existam dúvidas e repetindo o que já disse em crônicas anteriores: me incluo entre os indevidamente chamados de Poeta. Não sou nem tenho a menor pretensão de sê-lo. Apenas escrevo, de quando em vez, letras de música popular, versos quaisquer, coisa de quem não tem o que fazer. Poeta é uma coisa muito maior. Salve Louro do Pajeú, Pinto do Monteiro, Manoel Bandeira, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa …

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CASAMENTO MATUTO

O fato aconteceu no Cartório de Registro Civil de uma cidadezinha chamada Crato, lá pras bandas do sul do Ceará, na beira da Serra do Araripe. Era semana pré-carnavalesca e o Anjo da Guarda de Bastião, ainda que de ressaca, nesse dia ‘tava de prontidão vigiando os foliões retardatários. Foi ele quem segurou a mão de seu Bené de Dora, já se coçando em procura da lambe-suvaco amolada, um monte de polegadas nos cós, deixando à mostra só o cabo da bendita. O ‘bigodim de beiço de gato mijado’ do caba fazedor da mal à filha de Seu Bené chega arrepiou-se todinho, imaginando aquela peixeira fina nas brenhas de seu intestino grosso.

E Francisquim, ali quieto no útero de Ceiça, embuchado que fora já há cinco meses, só assistindo, de camarote, à solenidade. O cabra do Cartório, já meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório, a tudo assistia por dever de ofício. Foi quando Padre Luiz, afinal, perguntou se tinha alguém contra aquele casamento. Francisquim arretou-se, levantou a venta, e de dedo em riste dentro do bucho da buchuda, cutucou o umbigo de Ceiça, a mãe menininha do Crato, e gritou em alto e bom som pra todo o sertão do Araripe escutar: ‘tem não, seu Pade, e se avexe, acabe logo esse babado que eu ‘tô querendo descansar um tiquim’. Descansou por mais quatro meses, e, sonolento e preguiçoso, desembuchou.

Faz quase 20 anos e hoje está aí, contando história, fazendo poesia bonita que só a gota serena e aumentando a prole. Benedito Neto que o diga. E até hoje Bigodim e Ceiça são felizes que só a mulesta! Seu Bené, bisavô igual nunca se viu!

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COLHEITAS DO BEM

Toda semente plantada por um Poeta há de se transformar em frondosa árvore que frutifica sabores diversos, doces e saudáveis. Nem importa o tempo da gestação pela certeza da colheita num tempo de luz e paz.

Os versos se dependurarão na sombra dos sonetos, se juntarão às rimas, enfeitando pomares da ventura e alegrando o paladar dos homens de bem. Estrofes de um vento feliz se espalharão pelos ares.

Que passe o mal, que a cura não se demore, que os ventos sejam de felicidade plena. Os abraços reclamam e o sorrir precisa libertar-se de máscaras. O bem há de prevalecer. A gente merece ser feliz.

Que o vinho amargo seja derramado e a Paz vencedora vença o canhão, como digo no meu samba Léos, Vinas e Bernardos. Plantemos o Bem!

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ORIGAMIS AZUIS

Minha cor preferida era o verde até Bernardo me confessar que sua cor predileta é o azul. Então vi como estava errado: claro que o azul é a cor mais bonita, muito mais bonita que o verde. A partir dessa constatação, minha cor preferida passou a ser o azul, não importa se o claro ou o escuro, se o marinho ou o da Pérsia, mas o azul, qualquer que seja o tom. Não há como discordar da sabedoria de Bernardo.

Meu barquinho azul hoje navega no mar tão azul quanto ele e as estrelas azuis povoam o azul do céu. E nós, eu e Bernardo, conseguimos vislumbrar barquinhos e estrelas ainda que o azul do céu e do mar não tenha a tonalidade do azul que desejamos. Nossos olhos veem o que queremos ver. Doce e singelamente.

Hoje, todos os meus lápis de cor são de uma cor só que eu não posso revelar. Ganha um presente azul quem descobrir a cor dos meus lápis azuis. São tão coloridos quanto os lápis azuis de Bernardo e os origamis que a avó, a mãe e a tia fazem para ele. Todos azuis. Viva o azul!

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RELIGIOSO SEM RELIGIÃO

Conheço um cara de origem extremamente católica, criado dentro dos mais rigorosos preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana, de família totalmente dedicada aos princípios religiosos. Criança, não perdia uma missa aos domingos. Foi coroinha e depois, para satisfazer a vontade da mãe que queria vê-lo Padre, ingressou no seminário. Nas duas atividades permaneceu por apenas 6 meses. Isso tudo juntado talvez seja o responsável por ele hoje detestar as igrejas, todas elas, não importa, evitando até botar os pés em suas calçadas.

Sua Fé é muito mais intensa: é íntima, é uma parceria com a natureza e com os valores do bem, é o perseguir a filosofia e os ensinamentos de Francisco, aquele de Assis, um Santo de e da Verdade que pregava a caridade como obrigação humana. É o fazer o bem sem olhar a quem e nunca desejar o mal ao semelhante.

A religião desse cara se sustenta em três pilares: a importância da família, a serenidade da música e a liturgia da palavra. E assim tem sido ao longo de sua vida. Nunca sentiu falta de altares e de estátuas, de homilias e de religiosos, de dogmas e outras enganações. Santos, estão lá por merecimento, não para atender ou intermediar pedidos de nós, terrenos errantes. Por isso, não lhes ‘enche o saco’. Sacerdotes, alguns ele até admira, como João Paulo II e um ou outro Lancelotti dos tempos atuais, bem diferentes dos Padres e Freis cantores.

E assim segue, religioso a seu modo, temente a um ser superior, um Deus em que acredita, e fazendo o que acha que deve ser feito, respeitando o próximo, em primeiro lugar. Esse é um cara do bem. Modéstia à parte, dá para desconfiar de quem estou falando?

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O JUMENTO E O COMPUTADOR

Sou sertão. Sertão que já pariu tanta poesia e verso e continua a inspirar quem conhece o sagrado terreno dessas terras. E daí saem cantigas e prosas a motivar os cabras e as cabrochas carentes de um abraço ou cafuné. É um tocador de fole numa esquina qualquer, um cego de feira ou um cantador versejando palavras, um poeta inspirado que bebe no bar a cachaça da alegria e tira gosto com pedaços de saudade, e assim mantém a claridade divina das coisas do interior, que não saem do nosso interior. Feliz de quem, como eu, teve a ventura de desabrochar no sertão e conhecer a luz do sol debaixo de um céu azul, que só se vê por lá. Anjos e Deuses haverão de cuidar sempre desse pedaço de chão. Chão em que vive o jumento amigo, injustiçado quando a ele se concede a falta de compreensão que lhe é culturalmente atribuída. Por isso, faço questão de destacar meu apreço pelo animal e a antipatia natural que tenho pelas ‘modernagens’ cibernéticas. Vai ver o problema é do USB – Usuário Super Burro. Viva o Sertão, o jumento e dane-se a máquina de fazer doido chamada computador, com seus imeios, zaps e facebooks.

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CHEGADAS E PARTIDAS

Ele habita, como ave silenciosa e solitária, os céus do Porto em que acontecem chegadas e partidas. Assiste a alegrias e tristezas, lágrimas e sorrisos, ‘adeuses’ chorosos e bem-vindos apertos de mãos. É testemunha da bênção sentida da mãe que vê seu filho partir para outros chãos, sem nenhuma certeza da volta. Da mesma forma testemunha o abraço apertado do pai no filho pródigo que ao seu lar retorna. Do alto, sente o cheiro da saudade e se embriaga com o sabor dos sonhos bons que mora em cada um dos corações dos que por ali transitam, para buscar ou para deixar esperanças, desejos e vontades. No olho lacrimejado de alguém ele percebe um brilho diferente do que se observa no olho de quem mantém um sorriso que vai de canto a canto do rosto. É o riso e o pranto desenhando o momento de cada um. Ao final, destino definido, a vida seguirá e outras chegadas e partidas acontecerão no porto da vida. Do alto, como ave solitária e silenciosa, ele a tudo assiste. Lágrimas e sorrisos se sucederão e um Deus silencioso vela por nós.

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SEU FRANCISCO E SEU LUIZ

O universo político de Gonzaga era incolor, totalmente desprovido de matiz ideológico. Discutível, dizem alguns. Não importa muito diante de seu baião, sua música, seu talento, uma bandeira desfraldada acima de qualquer regime dominante à sua época. Amizades e compromissos por ele assumidos durante a ditadura devem ser atribuídos à inconsistência de sua formação política e à vontade de, através de apoios pontuais, trazer ao seu chão progressos por ele desejados. Conseguiu. Nunca misturei essas querelas tão pequenas com a grandeza artística do Rei. Nem acho que se deva misturar. São coisas distintas, a meu modesto ver.

Transportando para os dias atuais, diante da imensidão da obra poética e literária de Chico Buarque, é de se perguntar: seu conceito diminui ou cresce ante o posicionamento político por ele adotado? Nem uma coisa nem outra. Lógico que não se pode desprezar a convicção ideológica do Buarque, homem de esquerda, defensor consciente e intransigente de pautas favoráveis ao povo brasileiro. Mas pouco importa a cor de seu coração partidário. Ele, por sua obra, é imenso e muito maior que qualquer discrepância de princípios. Como imenso seria se outra preferência tivesse seu poético coração. Francisco e Luiz, cabeças e pensamentos talvez conflitantes, diferentes entre si, são imensamente iguais no talento. Viva Chico, Viva Luiz, corações semelhantes, talentos similares.