XICO COM X, BIZERRA COM I

UM TRAGO DE POESIA

POESIA: BEBA SEM MODERAÇÃO

Tragam-me um trago de Poesia, por favor. Gelada ou natural, não importa. De preferência, frapée. Está ali, naquela garrafa bonita. Basta-me um trago de Poesia, líquida, fluida. Quero que as palavras escoem, com todas suas vírgulas, pontos e reticências, acentos graves e circunflexos e, principalmente, traços de união. Desejo que as estrofes flutuem entre um gole e outro fazendo com que latejem sorrisos azuis e sonhos de toda cor. Que se prendam os versos fugidios, e, recolhidos ao curral das rimas, encontrem alguém de boa vontade que os sopre ao vento para que todos, bêbados de amor e paz, se inebriem da felicidade que só a poesia pode propagar. E assim, mais são que são todos os sãos, o Poeta taxado de louco sairá pelo mundo na tentativa vã de fazê-lo melhor. Quiçá consiga. Se não, valerá a pena ter tentado.

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MEDO?

MEDO? SÓ DO ADEUS E DO AVIÃO

Apesar do medo,
Nunca ter medo de ter medo.
Nem do mistério, nem do segredo …
Nao ter medo de acertar
ainda que para alguns o seu acerto pareça um erro …
Nao ter medo de ouvir o não
quando se quer ouvir o sim, mas,
quando preciso,
também saber dizer um não …
Não ter medo de Deus …
Nem do Adeus, tarde ou cedo.
Ah, do Adeus. Desse eu tenho medo!

Nunca ter medo de amar …
Nem do mar, do rio ou do riacho …
Não vale a pena, acho.
Nem de uma poça d’água, ainda que suja:
Não fuja, ela pode refletir a lua
Que acende a rua …
De nada ter medo, nada temer.
Medo da sorte, medo da morte, medo sem norte …
E, quando nenhum medo restar,
Gritar bem alto, em alto e bom som,
que não tem medo de nada, nem de Avião …
Ah, do Avião. Desse eu tenho medo!

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SER BOM É TÃO BOM

E FAZ BEM AO CORAÇÃO, AO PÂNCREAS e À ALMA

Desaprendi o ‘Sinal da Cruz’ e o ‘Em nome do Pai’ que me ensinaram nos catecismos infantis. Salve-Rainhas e o Credo em Deus Pai são coisas do passado. Já os esqueci, ambos, por inúteis que são. Só me restou, de todos essas rezas e aprendizados que de nada servem, o respeito e a crença em Deus. Conversar com Ele, o faço todo dia, a meu modo, e sei que Ele me ouve. Igrejas para mim são todas iguais com seus vendilhões ávidos por lucros e metais. Iguais a todo e qualquer prédio, de quartéis a cabarés, de bares a teatros, aglomerado de tijolos e cimento, que abrigam soldados ou putas, bêbados ou artistas. Minha religião independe de templos: basta fazer o bem, respeitar a crença alheia e ajudar a quem precisa, na medida do possível. Ser bom, ou tentar sê-lo, não é ser rato de sacristia nem provedor material de falsos profetas. Também não é frequentar centros de umbanda ou mesa branca, saber de cor o Alcorão ou raspar a cabeça e virar Rare Krishna. Ser bom não é tampouco decorar o Bhagavad-Gita e saber Sânscrito de trás para frente e da frente para trás. Não! Ser bom é muito mais simples. Começa por não ser mau. O coração, o pâncreas e a alma agradecem. E meus joelhos não se ralam.

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CONVERSA COM DEUS

Também tenho o direito de ser meio louco vez em quando e, assim, já fui acometido de uma vontade grande de conversar com Deus, mesmo sabendo do meu não-merecimento. E marquei audiência confiando na misericórdia dEle. Não pensava que ia enfrentar uma fila enorme de banguelos e desdentados, de sujos e maltrapilhos, de esfarrapados de todo tipo. Me assustei. Ao lado, em outra fila, apenas poucas pessoas. Aí que percebi estar na fila errada. Naquela em que entrei estavam os que iam pedir. Na outra, em que deveria ter entrado e para onde fui, estavam poetas, cantadores e gente que estava ali apenas para agradecer a vida. E foi o que fiz quando me vi, frente a frente, com aquela figura tão luzente e sábia, sempre sorridente e a todos ouvindo. Parecia um Poeta. Agradeci por tudo e, aproveitando, pedi por todos aqueles da outra fila, e mais, pelos que moram vizinho à guerra, pelos que convivem com a fome e pelos deserdados da sorte, tantos. Tentei conversar mais com Deus. As lágrimas não deixaram. Disse apenas muito obrigado e rezei uma oração na minha linguagem pessoal que só eu e Ele entendemos. Desci as escadas do céu mais leve e feliz, mas percebendo o quão difícil é a tarefa dEle.

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MOLHANDO O BUCHO POR DENTRO

A cada dia vou ficando menos novo (adoro desse eufemismo: a gente disfarça a ideia de estar ficando mais velho) e aprendendo o que vale e o que não vale a pena. Antes, brigava por qualquer bobagem, não levava desaforo para casa. Uma ‘fechada’ no trânsito era suficiente para expulsar meu bom humor e jogar ao léu impropérios desnecessários. Hoje, quase todo desaforo eu engulo, faço de conta que não ouço ou vejo, me faço de besta, me benzo, molho o bucho por dentro com uma cerva bem gelada e sigo a vida. Para que complicar se a vida já é tão complicada? Ato consciente que se reforça quando espio no espelho e vejo meus cabelos brancos, devido à brincadeira de mau gosto do senhor Tempo com as tintas dos anos e os pincéis da vida. Até poucos anos eu dizia tudo o que me vinha na boca. De uns tempos para cá, quem se senta ao meu lado jamais ouve um desaforo meu. Ao contrário: calo, faço o sinal da cruz em silêncio, e assim benzido, vou em frente, alegre e sorridente, respeitando o tempo e sua pressa. E para não perder o costume, enxáguo o bucho, já molhado por dentro, com outra cerva, mais gelada que a primeira. Que a vida é curta e só vale a pena o que é bom. Vivo e aprendo com os sábios. Desaprendo tudo que não vale a pena.

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MEU ALFORJE

Guardados empoeirados na janela do tempo se aninham no alforje da alma, num cantinho todo especial. Embalados com papel celofone, cor do sol em fim de tarde, os beijos e abraços pululam na varanda da memória enquanto os afetos se aboletam na sala de estar dos sonhos, fazendo a festa para a lua e as estrelas. No quintal em que plantei alegrias hoje colho a ‘bença’ de mãe e a saudade de pai, rezando uma novena pessoal de boas lembranças com uma Salve-Rainha imaginária ao final e um amém sem firmeza, mas em alto e bom som. Dar tantos passos para trás me fez andar outros tantos para frente, cabeça erguida, peito estufado de orgulho pelos caminhos andados, pelos erros corrigidos, pelos amores todos, os já vividos e os por viver (Vinícius ‘tá chegando) … Nas estradas da vida, vou com Deus e não lhe solto a mão, que não sou besta!

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MEIA DÚZIA DE FÃS (OU SEIS GATOS PINGADOS)

Um Poeta deixou de sê-lo, pensando agredir-me, quando disse que ‘faço música e disco apenas para meia dúzia de amigos’. De estranhar se as fizesse para inimigos. Não as faria. Até porque não os tenho, por mais que alguns se esforcem para assim se tornarem. Sou da Paz, do Amor e a fita que mede o sucesso para alguns é diferente da minha. Se fazer sucesso for ter minha obra cantada pelos Safadões ou Anitas da vida, esse sucesso não me interessa. Reconheço não ter o sucesso que alguns pensam que tem e que seus egos exigem, embora nunca tenham sido gravados por Michel Jackson ou Madona e sejam nacional e internacionalmente desconhecidos além das fronteiras do nosso Estado. Esse ‘sucesso’ jamais terei. Posso até não ter fãs. Amigos, com certeza os tenho. A julgar pelos lançamentos dos meus ‘disquinhos’: só gente da melhor qualidade, saindo pelo ladrão. Esse meu ‘severo juiz’ nunca compareceu a um lançamento, embora tenha cantado músicas minhas em meus discos. Deixem-me com meus seis amigos (acho que uma dezena) que gostam de mim e para quem faço minhas ‘musiquinhas’ que só eles ouvem. Sou feliz assim, sem inveja, sem ter meus colegas como concorrentes (na pior acepção da palavra) e respeitando a todos que trabalham com a arte. Sucesso para mim é isso. O resto é presunção, arrogância, desmedida ambição. Ou seria recalque e complexo? Talvez tudo isso junto. Sou muito mais minha dezena de fãs.

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POETAS: O TRISTE E O FELIZ

“- Vai, velho ano, vai-te embora, a passos largos, amparado em raios de escuridão, ancião do tempo que quase já não há. Deixa-me em paz, contigo longe de mim. Vai com as lágrimas que me vistes derramar, com os choros e soluços de que fostes testemunha. Deixa-me só com alguns versos que me alegraram nas noites negras e com os risos, poucos, que iluminaram meu rosto por breves instantes. Mergulhado estás no areal da ampulheta, terra seca, casca de um ovo que nunca se abriu, que nunca virou vida. Que sejas diferente do novo, que está por vir”.

Assim dizia um Poeta triste, sem perceber o quão é bonita a vida, bastando-lhe para tal percebimento apenas abrir os olhos e ver em volta que o cheiro da flor está a nosso alcance, que o amor é próximo e possível e que o bem ainda é o combustível da vida. Assim pensam os Poetas felizes, que enxergam em cada romper de ano um dia novo e um sol nascente cheio de luz e de alegrias.

Sejamos Poetas felizes. Ainda se permite a alegria.

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ANO NOVO

A cada ano que se finda – e vez por outra eu falo sobre isso – a soma do querer-bem adquirida no decorrer do tempo multiplica a vontade de viver. No percurso são adicionadas coisas boas e a parte que se subtrai, por não prestar, entra no vale do esquecimento e se irriga de perdões. O bom é sentir-se grande, do tamanho de uma criança que sorri ao desembrulhar um brinquedo qualquer na noite de Natal. Ter gente que a gente ama por perto é sempre muito bom. Estando perto de quem se ama estaremos bem junto de Deus. Queres vizinhança melhor? Por isso, começo de ano é tempo de desejar Feliz todos os dias no ano criança que nasce e nos outros todos que estão por vir, com abraços bons para os do bem e com perdões concedidos para aqueles que não merecem um abraço. Mas, ainda assim, se pudermos, até a estes abracemos, lembrando-lhes que na vida há o abraço, o amor e o perdão. Feliz Ano Novo!

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URSINHO DE OLHAR TRISTE

O ursinho Paul, de olhar triste e com o nome bordado em sua roupa azul clara, repousava solitário na cadeira 17-A do avião. Alguma criança o esquecera ali. Na pressa para descer ao chegar em seu destino, provavelmente a mãe da criança esquecera o bichinho na poltrona. Seu pequeno dono talvez dormisse àquela hora e só sentiria sua falta na esteira da bagagem, no interior do aeroporto quando acordasse. Tarde demais. Com o ursinho na mão, olhei para um lado e para o outro na esperança de encontrar seu dono por ali. Nada. Nenhuma criança estava por perto. No avião, feito um ‘abestalhado’, mas cheio de boas intenções, fui do início ao fim do corredor procurando pela criança que pudesse ser dona do ursinho Paul. Perguntava, aflito, a todas as crianças embarcadas, se por acaso era uma delas a dona do ursinho. Em vão. Uma mãe se antecipou ao filho e respondeu um ‘não’ tão antipático que quase me arrependo de ter tentado ser bom. Quando já no meu destino e sem nada a fazer, desci e levei Paul para casa. Ainda hoje o tenho. Lembro sempre de um outro ursinho, este de minha Mariana, que nunca foi por ela esquecido em nossas viagens de avião. Este nunca me pareceu triste. Seu nome, esqueci, mas não era Paul.

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