RODRIGO CONSTANTINO

SUPREMAS DIFERENÇAS

Nesta quarta-feira, dia 21, vimos a “sabatina” de Kassio Nunes Marques no Senado Federal. Coloco entre aspas, pois foi para inglês ver. E não só por se tratar de um jogo de cartas marcadas, já que o centrão apoia o indicado por Bolsonaro, mas porque não vemos, de fato, sabatinas em nosso país faz tempo.

Ao menos nada que se pareça com as sabatinas reais que ocorrem nos Estados Unidos, e a diferença ficou ainda mais gritante porque a sabatina de Amy Coney Barrett, indicada por Trump para a vaga de Ruth Ginsburg, havia sido feita poucos dias antes.

O deputado Paulo Eduardo Martins, em desabafo, resumiu o quadro lamentável: “Apenas três senadores fizeram perguntas ao sabatinado. Independentemente do voto sim ou não, não é essa a postura que se espera da Casa que abriga os parlamentares mais experientes da nação. Os senadores reduziram o papel do Senado a uma casa que carimba papel”.

Em artigo de 2015 sobre as diferenças entre a Suprema Corte americana e nosso STF, o advogado Leonardo Corrêa constatou: “Nos Estados Unidos, os indicados pelo presidente passam por uma devassa em sua vida, inclusive no caráter pessoal, e por uma sabatina duríssima”. Nada parecido ocorre no Brasil.

Nem mesmo o trabalho da imprensa de identificar supostos plágios em teses do indicado foi suficiente para criar uma sabatina mais verdadeira, que merecesse tal nome. Já nos Estados Unidos, a pressão é enorme, tanto sobre a reputação ilibada como sobre o notório saber jurídico. Um senador chegou a se impressionar com o fato de Amy Barrett não consultar coisa alguma para suas respostas embasadas, firmes.

Eis como Corrêa explica o processo americano: “Nos EUA, assim como no Brasil, o presidente indica os justices (ministros) da Suprema Corte. Os escolhidos, então, passam pelas confirmation hearings (equivalentes – mas nem tanto – à nossa sabatina). Vale destacar que os questionamentos recentes duraram, em média, mais de 22 horas. Após esse procedimento, no qual muitos senadores pedem auxílio aos mais renomados professores das principais universidades americanas – que, inclusive, prestam testemunhos nas confirmation hearings -, o indicado somente será aprovado após a votação no Senado”.

Para sobreviver a esse “corredor polonês”, é preciso estar, de fato, muito preparado, e demonstrar equilíbrio emocional também. No caso de Brett Kavanaugh, o segundo indicado por Trump, os democratas tentaram desestabilizá-lo de toda forma com acusações vazias sobre abuso sexual, com base na fala de uma mulher sobre um episódio supostamente ocorrido décadas antes, sem testemunhas, sem provas, sem nada. A senadora Kamala Harris foi a mais incisiva, levantando a bandeira feminista e usando seus dons de promotora da Califórnia para colocar o juiz contra a parede. Kavanaugh se saiu bem, mas vários indicados desistem antes do término, e houve um caso em que a esposa deixou o recinto aos prantos.

Como conclui Corrêa, o Brasil precisa tratar essa matéria de modo mais sério, pois, de outra maneira, perdemos os “freios e contrapesos”. E, como agravante, temos as “sabatinas” da era petista com um Senado acusado de receber mensalão. O que explica uma aprovação de alguém como Dias Toffoli, claramente sem condições de ocupar tal cargo? Além da sabatina, outro instrumento de freio a abusos é o impeachment, mas nunca foi utilizado, apesar de evidentemente desejável em certos casos. A razão parece simples: os senadores, com foro privilegiado, são julgados pelo STF, e são eles que podem aprovar, por sua vez, o impeachment dos ministros. Ou seja, há um círculo vicioso, em que uns protegem os outros.

Enquanto a Suprema Corte americana é a instituição mais respeitada pelos americanos, nosso STF é “vergonha nacional”, o principal fator de insegurança jurídica, por mais que os ministros usem toga e vocabulário rebuscado. Os “guardiões” da Constituição são os primeiros a rasgá-la, aprovam inquéritos arbitrários que perseguem apoiadores do presidente, preservam direitos políticos de uma presidente que sofreu impeachment, reinterpretam uma vez mais a Carta Magna para soltar o ex-presidente corrupto, decidem pela soltura de um traficante perigoso e muito mais, tudo isso regado a bons vinhos com lagostas.

Além disso, como se não bastasse, nosso STF parece ser 11 “supremos”, já que decisões monocráticas, individuais, têm sido a regra. Sobre isso, Corrêa comenta, em outro texto publicado pelo ConJur:

“Sem qualquer crítica ao nosso Supremo, parece que seria apropriado adotar o modelo utilizado pela Suprema Corte americana – julgando em conjunto as questões de relevância nacional. Nossos ministros poderiam levar, imediatamente, as liminares ao plenário, decidindo-as em sessão aberta, com todos votando. Assim, diversas questões seriam pacificadas, dando uma segurança jurídica maior ao país e reforçando o papel institucional do Supremo. O que a Suprema Corte americana nos ensina? Ela reconhece sua importância institucional, sendo maior do que os justices que – por um lapso temporal – ocupam seus respectivos cargos. Talvez, apenas talvez, o Brasil esteja precisando disso, uma Corte com posicionamento mais institucional do que meramente jurisdicional”.

Somando-se ao individualismo das decisões, nosso Supremo peca pelo excesso de ativismo de um lado, por ministros que se enxergam como legisladores no papel de “empurrar a história”, e o garantismo à brasileira do outro, tema do meu artigo da semana passada. Esse garantismo foi importado da Itália, onde, por sua vez, surgiu para proteger camaradas revolucionários das Brigadas Vermelhas, que cometiam crimes em nome do comunismo. Seus juízes companheiros passaram a encontrar brechas nos labirintos legais para garantir a impunidade dos criminosos. Como as leis são muitas vezes vagas, confusas e dúbias, dão margem a esse tipo de manobra, de interpretação elástica (hermenêutica) que permite abandonar o espírito da lei. Não há como comparar isso ao “originalismo” americano de um Antonin Scalia e sua herdeira intelectual, Amy Barrett.

Para dar um exemplo recente, a Segunda Turma do STF decidiu nesta terça-feira, dia 20, por unanimidade, conceder prisão domiciliar a presos preventivos que sejam os únicos responsáveis pelos cuidados de crianças menores de 12 anos e de pessoas com deficiência. O novo entendimento também pode beneficiar outros presos que, mesmo não sendo pais ou mães, demonstrem ser imprescindíveis para o sustento de menores de 6 anos ou de pessoas com deficiência. Os ministros acompanharam o voto do relator Gilmar Mendes.

Pergunta: vai restar alguém preso em nosso país? O ministro Alexandre de Moraes disse, em entrevista recente, que os ministros não são progressistas, e sim a Constituição. É verdade que a Constituição Cidadã (ou Besteirol, como Roberto Campos a chamava) é progressista, promulgada um ano antes da queda do Muro de Berlim e repleta de boa vontade esquerdista, distribuindo muitos direitos e poucos deveres. Mas os ministros, quase todos escolhidos pelo PT, também são de esquerda, e parecem adotar essa visão paternalista do “coitadismo”, que trata bandidos como “vítimas do sistema”.

Ora, não quer ficar longe dos filhos? É simples: não cometa crimes! A marginalidade é uma escolha, e quem diz o contrário, associando a conta bancária à bandidagem, precisa explicar essa ofensa à imensa maioria honesta dos pobres. Os trabalhadores das periferias não merecem tanto escárnio de um sistema feito para garantir a impunidade dos marginais.

Diante desse quadro resumido, não chega a ser um espanto o fato de a população confiar tão pouco em nosso Supremo. E seu futuro membro, indicado por Bolsonaro e aprovado pela “sabatina” do Senado, não chega a despertar grandes esperanças de mudança, não é mesmo? Ao comparar Brasil e Estados Unidos nessa seara, só há uma coisa a constatar, e lamentar: que suprema diferença!

RODRIGO CONSTANTINO

POR QUE SOCIALISTAS ODEIAM O CRISTIANISMO?”

Durante seu discurso de abertura na ONU este ano, o presidente Bolsonaro falou da cristofobia, e foi bastante atacado, até ridicularizado por parte da imprensa.

Para essa turma, qualquer crítica legítima ao Islã já vira islamofobia, mas não há nada como cristofobia no mundo, isso mesmo quando milhões de cristãos são perseguidos e mortos em diversos países.

Pois bem: semanas depois, eis que vemos igrejas chilenas incendiadas, enquanto alguns, até mesmo jornalistas, fazem vista grossa ou chegam até mesmo a justificar os atos. O presidente aproveitou para relembrar sua fala, com todo direito.

Aliás, no eterno duplo padrão da mídia, esses ataques terroristas são chamados de “manifestações”, enquanto uma mulher que colocou um pedaço de bacon em frente a uma mesquita virou manchete como “crime de ódio”.

O duplo padrão é evidente. A chamada fala de “crime de ódio” por colocar um bacon numa mesquita, mas em “manifestantes” quando tacam fogo em igrejas. Na Folha de SP, uma colunista fez um baita esforço para minimizar o ocorrido e atacar… Bolsonaro! Eis a chamada:

Por que tanto ódio ao cristianismo? Não é difícil entender o motivo. Marx falava que a religião é o ópio do povo, e seu verdadeiro alvo era o cristianismo. O socialismo só pode vingar onde o cristianismo é enfraquecido, inexistente ou deturpado. Vide a Teologia da Libertação, um casamento forçado entre Marx e Cristo, em que este desaparece por completo, sendo substituído por aquele.

Se a religião é o ópio do povo, o que é falso, então o marxismo é o crack! As “religiões políticas” não gostam de concorrência, e prometem o paraíso terrestre de olho na sedução populista de seus crentes.

Mas eis a razão verdadeira: No cerne do cristianismo está o indivíduo, com certos direitos inalienáveis, como o direito à vida e à liberdade. Não há como fazer uma revolução comunista respeitando esses direitos.

O cristianismo sempre foi, ainda é e sempre será o maior obstáculo às pretensões revolucionárias dos “progressistas”. Para levar a cabo sua visão “redentora” do mundo, eles precisam subverter os valores cristãos, diluir a moral tradicional e destruir a família.

É por isso que eles se calam, ou até aplaudem igrejas em chamas. Seu Deus é outro: a ideologia!

RODRIGO CONSTANTINO

QUAL A ALTERNATIVA?

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que o senador Chico Rodrigues, do DEM, pego com dinheiro na cueca em uma operação da Polícia Federal, não faz parte de sua administração, apesar de ser vice-líder do governo no Senado. Aos apoiadores, Bolsonaro disse: “Vocês estão há quase dois anos sem ouvir falar em corrupção no meu governo”. E acrescentou: “O meu governo são os ministros, as estatais e bancos oficiais”.

Bolsonaro tem um ponto. Uma coisa é o núcleo do governo federal, outra, bem diferente, é a base parlamentar que o governo precisa montar para conseguir governar. Muitos reclamavam que Bolsonaro tinha pouca articulação com o Congresso, diziam que ele não negociava, tentava governar por meio de pressão das ruas ou bancadas temáticas.

É curioso que quem temia um viés autoritário do presidente, acusando-o até mesmo de fascista que pretendia atropelar o Congresso, agora aponte o dedo para qualquer escândalo envolvendo algum parlamentar ligado à base do governo como se fosse culpa direta de Bolsonaro.

Ora, o Parlamento que temos foi eleito! O presidente precisa governar, tem reformas estruturais para aprovar, que dependem dos deputados e senadores. O que ele pode fazer? Como governar só com freiras e santos em nosso Congresso poluído? Qual partido grande não está com problemas? Os caciques do PSDB, por exemplo, estão todos encalacrados na Justiça. O DEM, do senador do dinheiro nas nádegas, é o mesmo partido de Rodrigo Maia, presidente da Câmara e queridinho da imprensa. Qual a real alternativa concreta?

Para essa pergunta realista, nunca temos uma resposta satisfatória daqueles que só querem detonar Bolsonaro, sem oferecer soluções práticas. Será que sentem saudades do mensalão e do petrolão do PT? Desejam a volta de um Congresso comprado pelo Executivo? Ou será que acham mesmo que é possível persuadir nossos congressistas com base em argumentos e senso patriótico, criando uma base somente com deputados e senadores limpinhos?

Trazer essas questões à tona é derrubar narrativas oportunistas, e daí o incômodo da oposição. Bolsonaro fez o que tinha de fazer: afastou o vice-líder, que deveria ter pedido para sair. Mas atacar o presidente o tempo todo é mais fácil do que governar um país complexo como o Brasil, não é mesmo?

Política não é ambiente para puristas românticos e ingênuos, e infelizmente pululam os corruptos. Quem for pego com batom – ou dinheiro – na cueca, deve ser punido. Mas esperar que seja possível formar uma base parlamentar de apoio só com políticos honestos, sem qualquer mancha no currículo, é viver no mundo de Nárnia, incompatível com a realidade. O Congresso não é um convento.

RODRIGO CONSTANTINO

O GARANTISMO DE PRIVILÉGIOS E O ATIVISMO MILITANTE

Existe um bom debate acerca da postura adequada de um juiz. Aqueles mais “garantistas” entendem que o papel do juiz é aplicar a “letra fria da lei”, enquanto os mais consequencialistas preferem tratar a Constituição como um “organismo vivo” e conceder boa dose de elasticidade à interpretação do juiz, de acordo com as circunstâncias e os resultados esperados de suas decisões. Onde fica o equilíbrio?

É difícil dizer. O mais fácil é rejeitar os extremos. Um juiz que jamais leva em conta as consequências práticas de suas decisões acaba se tornando um mero despachante, um robô incapaz de julgar de fato. No limite, adere à máxima romana fiat justitia, pereat mundus, ou seja, faça-se justiça, ainda que o mundo pereça. Seria mesmo justiça nesse caso?

Podemos pensar no personagem Shylock em O Mercador de Veneza, de Shakespeare. O agiota exigiu que o contrato com Antônio fosse cumprido exatamente como estava escrito, ignorando o contexto, o senso de justiça, o espírito da lei. Ele tinha direito a uma libra de carne do inadimplente, e ponto final.

Como ficaria a confiança dos comerciantes no sistema inglês caso o contrato não fosse executado? Ocorre que Shylock foi vítima do próprio purismo legal: se é para fazer valer estritamente o que prega o contrato, sem nenhuma nuança ou razoabilidade, então ele tem direito ao seu naco de carne, mas sem deixar cair uma só gota de sangue. Afinal, nada consta sobre isso no contrato!

Faltou bom senso ao vilão da peça, como falta aos “garantistas” mais obstinados. Por outro lado, não há nada pior do que um juiz ativista, do tipo que defende o “direito achado nas ruas”, que segue a “opinião pública” em vez da lei, e que deseja “empurrar a história” na direção da “justiça social”. Quem quer legislar por meio do Poder Judiciário atenta contra a independência dos poderes, quer criar leis sem ter votos, representatividade.

Antonin Scalia, “justice” da Suprema Corte americana apontado por Ronald Reagan em 1986, era um conservador originalista, ou seja, levava muito a sério a intenção dos “pais fundadores” ao legarem a Constituição como espinha dorsal da lei no país que criaram, em vez de considerar o documento um “organismo vivo” a ser moldado pelo modismo do momento. Ele dedicou sua vida ao combate desse ativismo pernicioso no Poder Judiciário.

Scalia destacava a importância vital do “rule of law”, um Estado de direito em que todos devem responder às mesmas regras. Ele citava em seus discursos um trecho de A Man for All Seasons, filme de Robert Bolt sobre Thomas More, em que o santo justifica o benefício legal até para o Diabo. A passagem é memorável, pois More faz uma defesa incrível do império das leis dos homens, lembrando que não é Deus para julgar acima delas, e que atalhos ilegais para punir quem se sabe ser uma pessoa ruim põem em risco o próprio arcabouço que protege os inocentes:

“Oh? E quando a última lei caísse, e o Diabo se virasse para você – onde você se esconderia, Roper, as leis estando todas abaixo? Este país está enraizado com leis de costa a costa – as leis do homem, não as de Deus – e, se você derrubá-las – e você é o homem certo para isso -, você realmente acha que poderia ficar de pé contra os ventos que soprariam então? Sim, eu daria ao Diabo o benefício da lei, para minha própria segurança”.

Não é por acaso que Scalia ficou conhecido como “o leão da lei”: ele abominava o ativismo judicial. Para Scalia, um juiz que não decide contra seus desejos não é um bom juiz. Ele não está lá para fazer valer a sua visão de mundo, a sua vontade, mas sim para aplicar as leis existentes. E para mudá-las existe todo um rito legislativo previsto na própria lei.

Amy Coney Barrett, indicada por Trump para a vaga de Ruth Ginsburg na Suprema Corte, trabalhou com Scalia e também é uma “originalista”. Por ela não ser uma ativista militante que pretende usar a Corte para legislar em vez de aplicar a Constituição, isso a torna alvo dos “progressistas”. Incapazes de desconstruir sua sólida reputação ilibada e seu notório saber jurídico, os opositores apelam para picuinhas, e com isso expõem o grau do radicalismo democrata.

Não toleram juízes na Suprema Corte, pois sua visão para o Judiciário é a de uma extensão do Poder Legislativo. Na verdade, até mais: desejam governar por meio da Suprema Corte, pois assim podem até perder eleições nas urnas, mas preservam o poder de fato. Querem alguém ali que vai “empurrar a história”, não respeitar as leis. É um abismo em relação ao que os “pais fundadores” desejavam para o Poder Judiciário.

Algum embate entre originalistas e consequencialistas será natural, e até saudável. O perigo é quando o pêndulo extrapola para um lado, especialmente para o lado ativista, que destrói de vez com qualquer respeito ao império das leis, substituído por um império do arbítrio, dos juízes “ungidos”. Nesse caso temos a ditadura do Judiciário, a pior de todas, pois não há mais a quem recorrer, como alertava Rui Barbosa.

Para piorar a situação, no Brasil nossos “garantistas” querem preservar leis abusivas, injustas, querem garantir a impunidade de poderosos, de privilegiados, não o império isonômico das leis. O direito legítimo deve ser universal, válido para todos. Nossas leis não se parecem nada com isso.

Meu colega da revista Oeste Bruno Garschagen mostra bem isso no livro Direitos Máximos, Deveres Mínimos. Ele recupera o contexto revolucionário que deu origem à nossa Carta Magna, que abriga “uma agenda ideológica oculta ao estabelecer um leque amplo de direitos abstratos na forma de políticas distributivas e um generoso Estado de bem-estar incompatível com a realidade econômica do país”.

Para Garschagen, a Constituição de 1988 “consagrou um modelo de crescente ampliação na concessão de direitos abstratos e de benesses pelo Estado, que foi retirando gradativamente a responsabilidade da sociedade”. Nossa Constituição em vigor é “extensa, detalhada, confusa e desequilibrada”. Amparada por uma utopia, ela gerou resultados perigosos: “desejos ilimitados para realizações limitadas”, que geram “insatisfação, impotência, ressentimento”.

Um dos efeitos disso é criar uma cultura de servidão e de disputa por direitos e privilégios. Quem não chora não mama. Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. E por aí vai, cada um lutando para se encaixar em alguma categoria de privilégio, para ser “amigo do rei”, já que não temos um governo de leis igualmente válidas para todos, mas sim uma seletividade arbitrária na distribuição de direitos, em que uns são mais iguais do que os outros. Garschagen avalia o perigo disso:

“No ensino jurídico, na magistratura e na promotoria, uma parcela dos seus profissionais passou a agir como militantes de uma causa cujo propósito era produzir mudanças endógenas a partir das universidades e do Poder Judiciário. Segundo esse novo entendimento, de que a hermenêutica jurídica – a ciência da interpretação – passou a ser instrumento poderoso, a lei não é só o que está escrito, mas o que pode (e deve) ser interpretado.

Se no passado, porém, a hermenêutica era instrumento usado para compreender o espírito da lei e do legislador, hoje parece ser usada para enquadrar a lei na ideologia do magistrado e numa forma legítima de cometer justiça social por meio da concessão de direitos e privilégios. Num país onde as leis são muitas e ruins e seus intérpretes fazem delas uma arma ideológica, não se pode esperar que nasçam bons frutos de uma árvore envenenada”.

E é assim que o brasileiro fica entre o “garantismo”, que gera a impunidade até de traficantes de alta periculosidade já condenados em segunda instância, e o ativismo militante do “direito alternativo”, que pretende “empurrar a história” rumo ao “progresso”, segundo a visão dos “iluminados”. Raro é encontrar um juiz de verdade nessa barafunda toda!

RODRIGO CONSTANTINO

GARANTISTA DA IMPUNIDADE

A soltura de um traficante ligado ao PCC por decisão de Marco Aurélio Mello gerou muita polêmica esses dias. Acompanhei um intenso debate técnico entre advogados, inconclusivo. Após idas e vindas de juridiquês, eis o que fica para nós, reles mortais: o excesso de “garantismo” legal pode significar, na prática, a completa impunidade de marginais perigosos.

Marco Aurélio diz, na decisão, que caberia à Polícia Civil ou ao Ministério Público solicitar uma reavaliação da prisão preventiva, para evitar uma possível ilegalidade com o fim do prazo. Marco Aurélio ainda ressalvou na decisão que, caso houvesse alguma pena de prisão transitada em julgado – ou seja, sem possibilidade de recurso -, o traficante deveria ser mantido preso. Caso contrário, a ordem era para que fosse colocado em liberdade imediatamente.

O presidente do STF, ministro Fux, afirmou em sua decisão contra Marco Aurélio que a soltura “compromete a ordem e a segurança públicas”, por se tratar de paciente “de comprovada altíssima periculosidade” e com “dupla condenação em segundo grau por tráfico transnacional de drogas”. O ministro diz ainda que o investigado tem “participação de alto nível hierárquico em organização criminosa, com histórico de foragido por mais de 5 anos”. O presidente do Supremo argumentou que, se a soltura for mantida, ela “tem o condão de violar gravemente a ordem pública, na medida em que o paciente é apontado líder de organização criminosa de tráfico transnacional de drogas”.

Parece puro bom senso, mas nossos “garantistas” usam as brechas legais para proteger marginais, o que pega ainda pior quando sabemos que o sócio do escritório que pediu a soltura de André do Rap foi assessor de Marco Aurélio por 2 anos.

Que as leis precisam melhorar por meio do poder Legislativo, para impedir essas manobras, não resta dúvida. Mas certos garantistas parecem ávidos para encontrar filigranas legais e, com isso, atentar contra o verdadeiro sentido de Justiça. Agora o traficante já pode estar no Paraguai, foragido. Enquanto isso, tem bolsonarista usando tornozeleira eletrônica só por ter criticado de forma dura o STF…

RODRIGO CONSTANTINO

CAPITAL POLÍTICO E REFORMAS

Pesquisas mostram a aprovação ao governo Bolsonaro em alta, e somando quem julga o trabalho regular, bom e ótimo, temos quase 70% dos entrevistados, segundo o Ibope. Apenas 29% consideram o governo ruim ou péssimo, e isso mesmo com toda a artilharia pesada de parte da imprensa, que chega a pintar o presidente como um genocida culpado pelas mortes da pandemia e pelos incêndios no Pantanal.

Diante dessa realidade, que produziu clima de velório em certas redações, a resposta é reduzir o fenômeno ao auxílio emergencial. O que era antes louvável e tinha até pressão de “paga logo”, virou símbolo do populismo. É verdade que a maior queda na rejeição veio do nordeste, mas ali o presidente tem sua menor taxa de aprovação ainda. Ou seja, na margem pode ter surtido algum efeito, claro, mas está longe de explicar a história toda.

A verdade, que essa ala da mídia se recusa a admitir, é que o governo vem fazendo um bom trabalho em várias áreas, a despeito de críticas legítimas pontuais, e faz isso sem escândalos de corrupção. Como os jornalistas não criticam o presidente, mas sim o demonizam, distorcendo fatos e forçando narrativas, o público percebe e se coloca na defensiva.

A perda de credibilidade dessa turma é diretamente proporcional ao ganho de apoio do presidente. Para mais de 40% dos entrevistados as notícias sonbre o governo são desfavoráveis, enquanto apenas 25% consideram que são imparciais. O viés partidário é evidente, mas negado pela patota, o que só gera mais desgaste para a mídia e adesão ao tom crítico do presidente.

A grande questão que surge é o que Bolsonaro fará com essa popularidade maior. Se ele achar que já está reeleito, entrar num clima só de palanque e acreditar que pode abrir mão das reformas, aí a crise econômica poderá ser inevitável e, na frente, essa aprovação estará em xeque.

Mas se o presidente usar esse capital político para formar uma nova base de governo, não permitir o enfraquecimento de seu “posto Ipiranga” na economia, e avançar com a pauta liberal, ainda que parcialmente desidratada pela necessidade política, aí a economia volta aos trilhos, a recuperação será rápida, e seu governo terá um bom legado para mostrar quando chegar 2022.

Bolsonaro precisa fazer malabarismo, equilibrar-se entre a lógica econômica de Paulo Guedes e o realismo da governabilidade, tudo isso sem flertar demais com a tentação populista. Não é trivial, mas é viável. E se assim for feito, teremos um país melhor, e o eleitor saberá reconhecer os méritos do governo – aqueles que parte da imprensa se recusam a enxergar mesmo quando evidentes.

RODRIGO CONSTANTINO

TRUMP MARCA GOLAÇO NA ESCOLHA DE JUÍZA PARA SUPREMA CORTE

O presidente americano Donald Trump bateu o martelo e escolheu Amy Coney Barrett para a vaga de Ruth Ginsberg na Suprema Corte. Ela é uma mulher jovem, bonita, mãe de sete filhos e com um currículo invejável.

Tinha tudo para ser enaltecida pelas feministas, portanto, que falam do tal empoderamento da mulher. Acontece que Barrett é cristã e conservadora, ou seja, alvo da patota esquerdista.

Os jornais já a chamam de “ultraconservdora”, pois para essa mídia não existe alguém simplesmente conservador: já pula direto da esquerda para o tal ultraconservador. Quem chama Amy Barrett dessa forma, só por ser cristã e originalista, já sabe: é um ultraesquerdista!

Barrett segue a tradição de Antonin Scalia, o juiz apontado por Ronald Reagan e um dos mais respeitados da história. Scalia não desejava ser um ativista, tratar a Constituição como “organismo vivo”, e dizia que o juiz que não decide contra sua vontade eventualmente não é um bom juiz. Ele não está lá, afinal, para legislar, fazer leis ou interpretar de forma elástica a Constituição, e sim para fazer valer a lei escrita, que possui os devidos ritos para ser alterada pelo Congresso, o corpo Legislativo.

Que diferença para nossos ministros do STF, ativistas arrogantes como Barroso e outros. Barroso é aquele que quer “empurrar a história” para a direção da “justiça racial”, ou seja, o ministro se enxerga como um “ungido” que deve impor sua visão de mundo “progressista”, sem ter votos por trás para sustentar tal arbítrio.

O comitê nacional do Partido Republicano está colocando a batalha pela confirmação de Amy Barrett na Suprema Corte como questão primordial para eleitores poucas semanas antes do dia da eleição. Se ela for logo aprovada, será um golaço de Trump, que indicou três juízes no seu primeiro mandato. E foram ótimas escolhas, para desespero da esquerda ativista.

O que espanta é “liberal” com nojinho de Trump por conta do seu estilo “fanfarrão”, sua retórica acalorada. Decisões como estas, de apontar Gorsuch, Kavanaugh e agora Barrett para a Suprema Corte, valem MUITO mais do que qualquer fala polêmica ou intriga com jornalistas. É preciso ter senso de proporção e de prioridade…

RODRIGO CONSTANTINO

BOULOS, O RADICAL CHIC DA ELITE CULPADA

“Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é dos funcionários públicos. São estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT. Os pobres não fazem nada disso. São uns chatos…” (Roberto Campos)

Quem sempre financiou movimentos revolucionários marxistas foram os capitalistas. Nunca foi diferente, e basta pensar até mesmo na origem do troço: foi o herdeiro da indústria têxtil Engels quem bancou o desocupado Marx. A extrema esquerda nunca encantou trabalhadores humildes, mas sempre acalentou, com seus discursos inflamados sobre “justiça social”, os corações culpados de uma elite hipócrita.

Claro que não seria diferente hoje. Quem banca movimentos baderneiros e terroristas como a Antifa e Black Lives Matter é justamente a elite. A turma que flerta com o caos, com a bagunça e com a anomia não vem do andar de baixo, e sim das famílias mais abastadas que podem pagar cem mil dólares por ano para o filho mimado “estudar” numa universidade de ponta. E eis o resultado:

No Brasil, o PT sempre foi um partido de “intelectuais”, professores, e herdeiros culpados, como Petra Costa, que fez aquele “documentário” patético enaltecendo Lula, o demiurgo que usava homens como sua “argila”. O PSOL segue a mesma trilha, fazendo sucesso no Leblon e na Vila Madalena, mas não muito nas periferias e favelas.

Nova pesquisa Datafolha mostra exatamente isso. Feita a ressalva de que não confio nessas pesquisas, que sempre inflam a esquerda e diminuem a direita, Boulos bateu nos 9% de intenção de votos. O invasor do MTST, que anda circulando de jatinho por aí, não seduz os pobres, porém. Quando abrimos o número, temos 17% entre os mais ricos e míseros 2% entre os mais pobres:

Sim, a extrema esquerda é uma afetação da elite culpada e entediada, como mostrei em Esquerda Caviar. O mesmo ocorre com o Black Lives Matter, com Antifa etc. O povo não quer saber de radicalismo, de quebra-quebra, de invasões, de “implosão do sistema”; o povo quer segurança, trabalho e respeito aos valores morais decentes. Tudo aquilo que a esquerda radical mais despreza no mundo!