PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

OLIVEIRA DE PANELAS - GENTE DA TERRA

O talentoso cantador pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina da atualidade

* * *

Oliveira de Panelas

No silente teclado universal
Deus pôs som nas sutis constelações,
e na batida dos nossos corações
colocou a pancada musical,
quando a harpa da brisa matinal
vai fazendo concerto pra aurora,
nessas lindas paisagens que Deus mora
em tecidos de nuvens está escrito:
é a música o poema mais bonito
que se fez do princípio até agora.

Quando as pétalas viçosas das roseiras
dançam juntas com o sol se levantando,
vem a brisa suave carregando
pólen vivo das grávidas cerejeiras,
verdejantes, frondosas laranjeiras,
soltam hálito cheiroso à atmosfera,
toda mãe natureza se aglomera:
de perfume, verdume, que beleza!…
É o canto da própria natureza,
festejando o nascer da primavera!

* * *

Valdir Teles

Eu não posso negar que sou feliz
Carregando a viola em minha mão
A viola levou-me até Milão,
Antuérpia, Bruxelas e Paris.
Fiz primeiro uma base em meu País
Pra depois pelo mundo viajar
Meu estoque de glórias não tem par
Meu sucesso rompeu Brasil a fora
“Do começo da arte até agora
Tenho muitas estórias pra contar”.

***

Odilon Nunes de França

Acho bom a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Moço ninguém quer morrer
Sem ser velho não se vive
Bom é ser velho e viver

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Diniz Vitorino Ferreira

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Canhotinho

Acho tarde demais para voltar
estou cansado demais para seguir,
os meus lábios se ocultam de sorrir,
sinto lágrimas, não posso mais chorar;
eu não posso partir e nem ficar
e assim nem pra frente nem pra trás,
pra ficar sacrifico a própria paz,
pra seguir a viagem é perigosa,
a vereda da vida é tão penosa
que me assombro com as curvas que ela faz.

Te prepara, ladrão da consciência,
Que tuas dívidas de monstro já estão prontas,
Quando o Justo cobrar as tuas contas,
Quantas vezes pagarás à inocência?
Teu período banal de existência
Se compõe de miséria, dor e pragas;
Em teu corpo, se abrem vivas chagas,
Que tu’alma de monstro não suporta…
Se o remorso bater à tua porta,
Como pagas? Com que? E quanto pagas?

* * *

Antonio Marinho

Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Quando o sol tiver bem quente
Pois se plantar no molhado
Ela cresce e mata a gente.

* * *

Toinho da Mulatinha

Em Sodoma tão falada
Passei uma hora só
Lá vi a mulher de Ló
Numa pedra transformada
Dei uma talagada
Com caldo de mocotó
E saí batendo o pó
Adiante vi Simeão
Tomando café com pão
Na barraca de Jacó.

* * *

Pinto do Monteiro

Admiro um formigão
Que é danado de feio
Andando ao redor da praça
Como quem dá um passeio
Grosso atrás, grosso na frente
E quase torado no meio.

* * *

Odilon Nunes de Sá

Admiro a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Moço ninguém quer morrer
Quem morre moço não vive
Bom é ser velho e viver.

* * *

Léo Medeiros

Ensinei Ronaldinho a jogar bola
Fui o mestre de Zico e Maradona
Seu Luiz aprendeu tocar sanfona
Bem depois que saiu da minha escola
Caboré no pescoço eu botei mola
Também fiz beija-flor voar pra trás
Conquistei cinco copas mundiais
Defendendo a nossa seleção
Inventei em Paris o avião
O que é que me falta fazer mais?

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)

* * *

Cego Aderaldo

(atendendo a um pedido do Padre Cícero)

À ordem do meu padrinho
Vou colher algumas flores…
Fazer minhas poesias
Cheias de grandes louvores
Saudando, primeiramente,
A Santa Virgem das Dores.

O nome do santo Padre
Anda pelo mundo inteiro,
A cidade está crescendo
Com este povo romeiro,
Devido às grandes virtudes
Do santo de Juazeiro.

Nossa Senhora das Dores
É que nos dá proteção,
Ordena ao nosso bom Padre,
E ele cumpre a Missão,
Ensinando a todo mundo
O ponto da salvação.

Deixo aqui no Juazeiro
Todos os sentidos meus
Juntamente ao meu Padrinho
Que me limpou com os seus,
Vou correr por este mundo
Levando a bênção de Deus.

* * *

Louro Branco

Cantador como eu ninguém num fez
Deus deixou pra mandar muito depois
Que se cabra for grande eu dou em dois
E se o cabra for médio eu dou em três
E se for bem pequeno eu dou em seis
Que a minha riqueza é bem total
Cantador como eu não nasce igual
Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito
Repentista só canta do meu jeito
Se for fora de série ou genial.

* * *

Otacílio Batista Patriota

Ao romper da madrugada,
um vento manso desliza,
mais tarde ao sopro da brisa,
sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
aparece lentamente,
na janela do nascente,
saudando o romper da aurora,
no sertão que a gente mora,
mora o coração da gente.

*

O cantador violeiro
longe da terra querida,
sente um vazio na vida,
tornando prisioneiro,
olha o pinho companheiro,
aí começa a tocar,
tem vontade de cantar,
mas lhe falta inspiração.
Que a saudade do sertão
faz o poeta chorar.

* * *

João Paraibano

Vê-se a serra cachimbando…
Na teia, a aranha borda;
O xexéu canta um poema;
Depois que o dia se acorda,
Deus coloca um batom roxo
Na flor do feijão de corda.

*

Do nevoeiro pra o chão
a nuvem faz passarela;
o sapo pinota n’água,
entra na lama e se mela;
faz uma cama de espuma
pra cantar em cima dela.

*

Sempre vejo a mão divina
no botão de flor se abrindo,
no berço em que uma criança
sonha com Jesus sorrindo;
a mão caçando a chupeta
que a boca perdeu dormindo.

* * *

Roberto Queiroz

Admiro o Zé Ferreira
Um cantador estupendo
Se a roupa se suja, lava
Se rasga, bota remendo
Gasta menos do que ganha
Que é pra não ficar devendo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário.

* * *

Leonardo Bastião

Ontem vi uma coruja,
Sentada numa cancela,
Demorei trinta segundos,
Olhando a feiura dela,
Quando me vi no espelho,
Tava mais feio do que ela.

*

Admiro o juazeiro,
Nascido na terra enxuta,
A fruta é pequena e ruim,
A madeira é torta e bruta,
Mas a bondade da sombra,
Cobra a ruindade da fruta.

*

Eu não vou plantar saudade,
Que não estou mais precisando,
A caçamba da saudade,
Toda vez que vai passando,
Ao invés de levar a minha,
Derrama a que vai levando.

* * *

Josué Romano

Eu já suspendi um raio
E já fiz o tempo parar.
Já fiz estrela correr,
Já fiz sol quente esfriar.
Já segurei uma onça
Para um moleque mamar!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote:

O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Cada verso que o repentista faz,
para mim tá presente em toda hora,
no tinido do ferro da espora,
na passada que vem dos animais,
na cor verde que tem nos vegetais
nas estrelas que têm no firmamento,
tá na cruz do espinhaço do jumento,
e no vaqueiro correndo atrás do gado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é um gênio que crepita
no espaço azul esmeraldino,
percorrendo as estradas do destino,
sem saber o planeta aonde habita,
sua mente pra o canto é infinita,
cada verso que faz é seu sustento,
é quem sabe cantar o parlamento,
sem ter voto pra ser um deputado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Uma vida vivida no sertão,
uma fruta madura já caindo,
um relâmpago na nuvem se abrindo,
um gemido do tiro do trovão,
meia dúzia de amigos no salão,
nem precisa de um piso de cimento,
minha voz, as três cordas do instrumento,
o meu quadro de louco está pintado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é um simples mensageiro,
que acaba uma guerra e um conflito,
ele sabe cantar o infinito,
todas pedras que têm no tabuleiro,
a passagem do fim do nevoeiro,
que ultrapassa o azul do firmamento,
que conhece o impulso desse vento,
todas as rosas que enfeitam o nosso prado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

João Paraibano

Foi mamãe que me deu a luz da vida
e me ensinou a viver da humildade,
eu nasci para ter felicidade,
porque toco na lira adquirida,
poesia me serve de bebida,
um concerto me serve de alimento,
uma pedra me serve de assento
e todo rancho de palha é meu reinado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

Severino Feitosa

O poeta é uma criatura
que procura mostrar, no seu caminho,
toda uva do fabrico de vinho,
e toda planta que faz nossa fartura,
é quem sabe cantar a amargura
da pessoa, que está num sofrimento,
é quem sabe cantar o regimento
do quartel, que Jesus é delegado.
O poeta é um ser iluminado
que faz verso com arte e sentimento.

* * *

Adalberto Claudino Pereira glosando o mote:

As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Fui criança e vivi muito feliz
Recebendo carinhos dos meus pais,
Os brinquedos ficaram para trás,
E também outras coisas que eu fiz,
Sempre tive tudo aquilo que eu quis,
Nunca tive momentos descontentes,
Estudei, sempre fui inteligente,
Também fui por meus pais bem educado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Sempre fui um exemplo na escola,
Estudando história e português,
Dava show em desenho e francês,
Pra passar nunca precisei de cola,
No esporte também fui bom de bola,
Mas agora não dou um passo à frente,
A velhice atrapalha muita gente
É por isso que sempre estou lembrado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Quando eu era pequeno eu vivia
Mais feliz, com amor por todo o lado,
Pelas moças eu era bajulado,
Em seus braços babava de alegria,
Dava pulos, dançava e sorria,
Pois ali eu ficava mais contente,
Mas agora, já velho e descontente,
Na bengala eu vivo escorado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Na infância a vida é mais gostosa,
Apesar dos momentos de castigos,
Não esqueço também os meus amigos
E mamãe cada vez mais carinhosa,
A vizinha andando bem charmosa,
Meu cachorro, pequeno mas valente
E meu pai, que falava duramente,
Parecendo estar mal humorado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Era bom namorar a menininha
E brincar de peteca nas calçadas,
Beliscar as meninas assanhadas
E sonhar com a filha da vizinha,
A tristeza era coisa que eu não tinha,
Apesar de ser pouco inocente,
A certeza de ser velho é patente,
Mas ninguém se declara conformado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Se nós somos crianças inseguras,
Nosso sonho é ganhar a liberdade,
E lutar para ter felicidade
E viver uma vida de fartura.
Não sabia que havia a amargura
De ser velho, caduco e impotente,
É melhor ser criança novamente,
Para ser outra vez paparicado,
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

Vi meu pai comentando certa vez:
“Sinto falta da minha mocidade,
Ai, meu Deus, como eu tenho saudade
Quando eu tinha apenas vinte e três,
Eu invejo esta vida de vocês,
Mas espero encontrá-los lá na frente,
Como eu, velho, fraco e impotente
E dizendo assim desesperados:
As lembranças que guardo do passado
Me confortam para viver o presente.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM CORDEL FEMININO

Poeta João Paraibano, um dos gênios da cantoria nordestina (1952/ 2014)

* * *

João Paraibano glosando o mote:

Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

O bezerro mamando a cauda abana;
A espuma do leite cobre o peito;
Cada estaca de cerca tem direito
A um rosário de flor da jitirana.
No impulso do vento a chuva espana
A poeira do palco do verão;
A semente engravida e racha o chão,
Descansando dos frutos que germina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

Quando Deus leva em conta a nossa prece
O relâmpago clareia, o trovão geme,
Uma nuvem se forma, o vento espreme,
Pelos furos do véu, a água desce;
A campina se enfeita, a rama tece
Um tapete de folhas sobre o chão;
Cada flor tem formato de um botão
No tecido da roupa da campina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

No véu negro da barra, o sol se esconde;
Um caniço amolece e cai no rio;
Nos tapetes de grana do baixio,
Um tetéu dá um grito, outro responde;
A frieza da terra faz por onde
Pé de milho dar nó no esporão
E a boneca, na sombra do pendão,
Lava as tranças com gotas de neblina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

A presença do Sol é por enquanto.
Onde vinga uma fruta, a flor desprende;
Cada nuvem que a mão de Deus estende
Cobre os ombros do céu, de canto a canto.
Camponês não precisa roubar santo,
Nem lavar mucunã pra fazer pão;
Faz cacimba na areia com a mão
Onde o pé deixa um rastro, a água mina.
Jesus salva a pobreza nordestina,

Com três meses de chuva no Sertão.
A cabocla mulher do camponês
Caça ninho nas moitas quando chove
Quando acha dez ovos, tira nove,
Deixa o outro servindo de indez;
As formigas de roça fazem vez
De beatas seguindo procissão;
As que vêm se desviam das que vão,
Sem mão dupla, farol e nem buzina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Sertanejo apelida dois garrotes,
Bota a canga nos dois e desce a serra;
Passa o dia no campo arando terra,
Espantando mocó pelos serrotes;
Sabiá, pra o conforto dos filhotes,
Forra o ninho com pasto de algodão;
Bebe o suco da polpa do melão,
Limpa o bico nas varas da faxina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Treme o gado na lama do curral,
Sopra o vento, cheirando a chão molhado;
Cada pingo de chuva, congelado,
Brilha mais do que pedra de cristal.
Uma velha, durante o temporal,
Se ajoelha, rezando uma oração,
Fecha os lhos com medo do trovão
E abre a porta, depois que a chuva afina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Cresce a planta, viçosa, e frutifica
Com um cacho de flor em cada galha;
Vê-se o milho mudando a cor da palha
E o telhado chorando pela bica;
A cigarra emudece, a acauã fica
Sem direito a fazer lamentação;
Deus afina a corneta do carão,
Só depois de três meses, desafina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

* * *

MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL – Salete Maria da Silva

O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria

Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

José Antônio do Nascimento Filho, o Zeto do Pajeú, Canhotinho-PE (1956-2002)

A vileza do destino
Espedaçou meu futuro,
O meu viver é obscuro
Desde o tempo de menino.
Hoje sou um peregrino,
Não sei o que é riqueza,
Bruxuleia a luz acesa,
Perdi a perseverança …
E o retrato de minha infância
Está na minha pobreza.

Na terra dos marechais,
Sem ter quem me queira bem,
Ó morte, por que não vens
Tirar meus dias finais?
Vivo gemendo meus ais,
Só sei o que é aspereza,
Não apresento nobreza,
Sou igual a uma balança …
E o retrato da minha infância
Está na minha pobreza.

Zeto do Pajeú

Nas gotas fracas da chuva
Que a terra vai borrifando
E faz levantar o cheiro
De chuva que vou cheirando
Eu sonho dias melhores
E levo a vida cantando.

Nildo Cordel

ANDARILHO

Vou cantar com total atrevimento
Imitar os ciganos andarilhos
Percorrer os caminhos dos trocadilhos
Vendo Louro inventar um novo invento
Misturar poesia e andamento
Construir uma estradeira
Ter um sonho normal numa esteira
Numa noite no lindo Moxotó
Caminhar nas estrelas vendo o pó
Das passadas da glosa derradeira

Imitar o pavão com suas cores
Vou vestir colorido em minha vida
Tratarei como sábio esta ferida
P’ra lembrar a loucura dos amores
Pois os loucos os grandes sabedores
Dão ao lúcido a loucura do real
Pra mostrar que o bem intencional
Faz morada em lugar bem diferente
Qualquer cor, qualquer dor é sempre gente
Sugerindo a paixão o seu aval

A tarefa é não ter nenhum caminho
P’ra encontrar o caminho do não ter
Ser irmão do bonito amanhecer
Ser agulha seguindo o seu alinho
Encontrar multidões quando sozinho
Colocar tom menor no violão
Ser maior entoando uma canção
Perceber quanto tempo falta ainda
Colocar no cabelo a fita linda
Como fosse uma estrofe de canção.

Francisco Nunes de Oliveira

Ser poeta não é pensar de ser
Que quem pensa que é finda não sendo
Diz que sabe de tudo não sabendo
Que quem sabe não gosta de dizer
Pois que diz o costume é não saber
Que o sabido sabendo se aquieta
Mas o erro maldito do pateta
É querer um lugar que não lhe cabe
Diz ao povo que sabe, mas não sabe
O dever ideal de ser poeta.

Zé Maria

O que mais me admira
É vêr-se um sapo inocente
Que gosta de lama fria
Mas detesta a terra quente
Vendo da cobra o pescoço
Pinota dentro do poço
Pra se livrar da serpente.

João Paraibano

Eu acho que esse louro
Dos outros é diferente
Não tem asa mas tem boca
Não tem bico mas tem dente
Não tem pena mas tem pena
De vir dar dinheiro a gente.

Zé de Almeida

Alagoas tem Quilombo
Belas praias, tem coqueiro
Berço de Apolônio Belo
E de Vicente Granjeiro
Famosa nas duas coisas
Marechais e violeiro.

Noel Calixto

Admiro o Zé Ferreira
Um cantador estupendo
Se a roupa se suja, lava
Se rasga, bota remendo
Gasta menos do que ganha
Que é pra não ficar devendo.

Roberto Queiroz

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

Miro Pereira

A patativa de gola
Nos campos da providência
Uma pequena figura
Uma larga inteligência
Canta com tanta certeza
Sem precisar de ciência.

João Abel

Meu sonho de alpinismo
No precipício caiu
Quando eu caí todos viram
Quando escalei ninguém viu
Os monstro feitos de mármore
Que a mão de Deus esculpiu.

Biu Dionísio

No varal do infinito
Uma nuvem pendurada
Parece com uma roupa
Bem confeccionada
Que Deus coseu com maestria
Para o corpo da madrugada.

Raimundo Borges

Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava.

João Lourenço

O mínimo precisaria
Aumentar uns cem por cento
Quem recebe no salário
Quinze reais de aumento
É mesmo que receber
Nota de falecimento.

Ismael Pereira

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

PINTO DE MONTEIRO, UM GÊNIO DA CANTORIA

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

A resposta de Pinto de Monteiro numa cantoria com João Furiba:

João Furiba:

Cruzei o velho Saara
montado numa bicicleta.
Matei leão de tabefe,
Crivei serpente de seta.
Fiz das penas d’uma hiena
Um blusão pra minha neta.

Pinto do Monteiro:

João até que é bom poeta
Mas sabe ler bem pouquinho.
Vou fazer-lhe uma pergunta,
responda meu amiguinho :
– Quem diabo foi que te disse
que hiena é passarinho ?

* * *

Alguns improvisos de Pinto de Monteiro:

O meu cavalo é dum jeito
Que nem o diabo aguenta,
Entra no mato fechado,
Toda madeira arrebenta,
Dá tapa em bunda de boi
Que a merda sai pela venta.

* * *

Lá no meio da caatinga,
Sem moradia vizinha
Bem na beira de um riacho
Um pé de palmeira tinha.
Meu avô, nesse lugar,
Começou a trabalhar
E chamar de Carnaubinha.
Parece que estou vendo
Um homem cortando cana;
Uma engenhoca moendo
Os três dias da semana.
Fazer cerca, queimar broca,
Raspar milho e mandioca,
Da massa, fazer farinha;
Comer com mel de engenho,
Ai, que saudades que eu tenho
Da minha Carnaubinha.

* * *

Ovo de pato e marreca
Quebrar na beira do poço,
Abrir milho, na boneca,
Pra ver se tinha caroço;
Ir pra beira da estrada
Jogar pedra e dar pancada
Em cabra, bode e suíno;
Em cachorro, pontapé,
Que isso tudo foi e é
Brincadeira de menino.

* * *

Mas essa estória de dente,
Para mim, nada adianta;
Eu não preciso de dente;
Eu quero é peito e garganta:
Pois sabiá não tem dente,
É quem mais bonito canta!

* * *

Eu sou Severino Pinto
Da Paraíba do Norte
Sou feio, porém sou bom
Sou magro, mas muito forte
Depois d’eu tomar destino
Temo a Deus não temo à morte.

* * *

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda!

* * *

Eu admiro o tatu
Com desenho no espinhaço
Que a natureza fez
Sem ter régua nem compasso
E eu com compasso e régua
Tenho planejado e não faço.

* * *

Esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança.

* * *

Gostei muito de mulher
No meu tempo de rapaz
Mas depois que fiquei velho
A trouxa envergou pra trás
Sentou-se em cima dos ovos
Que a ponta encostou no ás.

* * *

Admiro o vagalume
Enxergando de mato a dentro
Com sua lanterna acesa
Sem se importar com o vento
Apaga de vez em quando
Poupando seus elementos.

(“elemento” no linguajar nordestino é pilha)

* * *

No tempo da mocidade
Eu também já fui vaqueiro.
Não tinha jurema grossa,
Mororó nem marmeleiro.
Fui cabra de vista boa,
Negro de corpo maneiro.

* * *

SEVERINO PINTO E LOURIVAL BATISTA

Uma cantoria improvisada de Meia-Quadra nos anos 70

Constante da coleção Música Popular do Nordeste, organizada por Marcus Pereira

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

POEMAS DE PATATIVA DO ASSARÉ

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

* * *

FLORES MURCHAS

Depois do nosso desejado enlace
Ela dizia, cheia de carinho,
Toda ternura a segredar baixinho:
– Deixa, querido, que eu te beije a face!

Ah! se esta vida nunca mais passasse!
Só vejo rosas, sem um só espinho;
Que bela aurora surge em nosso ninho!
Que lindo sonho no meu peito nasce!

E hoje, a coitada, sem falar de amor,
Em vez daquele natural vigor,
Sofre do tempo o mais cruel carimbo.

E assim vivendo, de mazelas cheia,
Em vez de beijo, sempre me aperreia
Pedindo fumo para o seu cachimbo.

* * *

AMANHÃ

Amanhã, ilusão doce e fagueira,
Linda rosa molhada pelo orvalho:
Amanhã, findarei o meu trabalho,
Amanhã, muito cedo, irei à feira.

Desta forma, na vida passageira,
Como aquele que vive do baralho,
Um espera a melhora no agasalho
E outro, a cura feliz de uma cegueira.

Com o belo amanhã que ilude a gente,
Cada qual anda alegre e sorridente,
Como quem vai atrás de um talismã.

Com o peito repleto de esperança,
Porém, nunca nós temos a lembrança
De que a morte também chega amanhã.

* * *

AUTOBIOGRAFIA

Mas porém como a leitura
É a maió diciprina
E veve na treva iscura
Quem seu nome não assina,
Mesmo na lida pesada,
Para uma escola atrasada
Tinha uma parte do dia,
Onde estudei argum mês
Com um veio camponês
Que quase nada sabia.

Meu professô era fogo
Na base do português,
Catálogo, era catalôgo,
Mas grande favô me fez.
O mesmo nunca esqueci,
Foi com ele que aprendi
Minhas premêra lição,
Muito a ele tô devendo,
Saí escrevendo e lendo
Mesmo sem pontuação.

Depois só fiz meus estudo,
Mas não nos livro escola
Eu gostava de lê tudo,
Revista, livro e jorná.
Com mais uns tempo pra frente,
Mesmo vagarosamente, ; –
Não errava nenhum nome.
Lia no claro da luz
As pregação de Jesus
E as injustiça dos home.

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM CLÁSSICO DO CORDEL

Davi Calisto Neto glosando o mote

Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Se o final é normal pra que correr
E se morrer é ruim mais é comum
Se o caixão vai levar de um em um
Se o dinheiro não pode socorrer…
Eu só quero o bastante para comer
Para viver para vestir e pra calçar
Mesmo sendo pouquim se não faltar
Eu só quero esse tanto todo dia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Todo homem podendo tem que ter
Moradia, saúde e alimento
Um pouquinho também de investimento
Que um dia ele pode adoecer
Necessita também de algum lazer
Para o corpo cansado descansar
Mas tem gente que pensa em enricar
Não descansa de noite nem de dia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Pra que tanta ganância por poder
Exibir a fortuna adquirida
Se o que a gente ganhar durante a vida
É preciso deixar quando morrer
Se na cova não tem como caber
E no caixão ninguém tem como levar
Lá no céu não tem banco para guardar
O que o morto juntou quando vivia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Sei que a vida da gente se encerra
E muita gente se esquece com certeza
E é por isso pensando na riqueza
Que alguns loucos estão fazendo guerra
O pior é que brigam pela terra
Para depois nela mesma se enterrar
Toda essa riqueza vai ficar
E só o corpo é que vai para a terra fria
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Pra que tanta ganância e ambição
Se essa vida é bastante passageira
Tudo finda num monte de poeira
Na mortalha, na cova e no caixão
Ninguém pode pedir prorrogação
Quando o jogo da vida terminar
A não ser uma vela pra queimar
O destino é partir de mãos vazia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

A ganância infeliz desenfreada
Deixa o mundo sem paz e sem sossego
Pois tem gente com mais de um emprego
E muita gente morrendo sem ter nada
Mas a vida da gente é emprestada
E qualquer dia o seu dono vem buscar
Qualquer vida que a morte carregar
Ninguém pode tirar segunda via
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

* * *

UMA VIAGEM AO CÉU – Leandro Gomes de Barros

Uma vez eu era pobre
vivia sempre atrasado
botei um negócio bom
porém vendi-o fiado
um dia até emprestei
o livro do apurado.

Dei a balança de esmola
e fiz lenha do balcão
desmanchei as prateleiras
fiz delas um marquezão
porém roubaram-me a cama
fiquei dormindo no chão.

Estava pensando na vida
como havia de passar
não tinha mais um vintém
nem jeito pra trabalhar
o marinheiro da venda
não queria mais fiar.

Pus a mão sobre a cabeça
fiquei pensando na vida
quando do lado do céu
chegou uma alma perdida
perguntou era o senhor
que aí vendia bebida?

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM CORDEL DOS CORNOS

O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

* * *

João Paraibano glosando o mote

Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Já nasci inspirado no ponteio
Dos bordões da viola nordestina
Vendo as serras banhadas de neblina
Com uma lua imprensada pelo meio
Mãe fazendo oração de mão no seio
E uma rede ferindo um armador
Minha boca pagã cheirando a flor
Deslizando no bico do seu peito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Me criei com cuscuz e leite quente
Jerimum de fazenda e melancia
Com seis anos de idade eu já sabia
Quantas rimas se usava num repente
Fui nascido nas mãos da assistente
Na ausência dos olhos do doutor
Mamãe nunca fez sexo sem amor
Papai nunca abriu mão do seu direito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Fiz farofa de pão de mucunã
Me inspirei com o velhinho do roçado
O sertão é o palco esverdeado
Que eu ensaio as canções do amanhã
Minha artista da seca é acauã
No inverno o carão é meu cantor
Um imbu espremido é meu licor
Um juá eu não dou por um confeito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

Minha vida do campo foi liberto
Merendando café com milho assado
Vendo a lua nas brechas do telhado
E o vento empurrando a porta aberta
Um jumento me dando a hora certa
Já o galo era meu despertador
Meu mingau foi pirão de corredor
Eu cresci forte e gordo desse jeito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador.

* * *

A.B.C. DOS CORNOS – Luiz Alves da Silva

A cornura está na moda
O corno hoje é moderno
Até o diabo tem chifres
E reina lá no inferno
O que ninguém ignora
Os do diabo é pra fora
E os do homem são interno

Besta é o corno que acha
Que a mulher dele é honesta
Se chega no outro dia
Depois que findou-se a festa
E ele bem sossegado
Não vê que de cada lado
Tem um calombo na testa

Corno só é quem tem sorte
Tem quem não é e deseja
Bota um detetive e diz: –
Siga a mulher, olhe e veja
Depois venha mim chamar
Que vou a ela encontrar
Em qualquer lugar que esteja

Depois que o chifre nasce
Não morre mais nem mocheia
Se o corno inconformado
Matar um vai pra cadeia
De lá demora a sair
Não pode se divertir
E a mulher com a casa cheia

Continue lendo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE PINTO DE MONTEIRO

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

A resposta de Pinto de Monteiro numa cantoria com João Furiba

João Furiba:

Cruzei o velho Saara
montado numa bicicleta.
Matei leão de tabefe,
Crivei serpente de seta.
Fiz das penas d’uma hiena
Um blusão pra minha neta.

Pinto do Monteiro:

João até que é bom poeta
Mas sabe ler bem pouquinho.
Vou fazer-lhe uma pergunta,
responda meu amiguinho :
– Quem diabo foi que te disse
que hiena é passarinho ?

* * *

Improvisos de Pinto de Monteiro:

O meu cavalo é dum jeito
Que nem o diabo aguenta,
Entra no mato fechado,
Toda madeira arrebenta,
Dá tapa em bunda de boi
Que a merda sai pela venta.

* * *

Lá no meio da caatinga,
Sem moradia vizinha
Bem na beira de um riacho
Um pé de palmeira tinha.
Meu avô, nesse lugar,
Começou a trabalhar
E chamar de Carnaubinha.
Parece que estou vendo
Um homem cortando cana;
Uma engenhoca moendo
Os três dias da semana.
Fazer cerca, queimar broca,
Raspar milho e mandioca,
Da massa, fazer farinha;
Comer com mel de engenho,
Ai, que saudades que eu tenho
Da minha Carnaubinha.

* * *

Ovo de pato e marreca
Quebrar na beira do poço,
Abrir milho, na boneca,
Pra ver se tinha caroço;
Ir pra beira da estrada
Jogar pedra e dar pancada
Em cabra, bode e suíno;
Em cachorro, pontapé,
Que isso tudo foi e é
Brincadeira de menino.

* * *

Mas essa estória de dente,
Para mim, nada adianta;
Eu não preciso de dente;
Eu quero é peito e garganta:
Pois sabiá não tem dente,
É quem mais bonito canta!

* * *

Eu sou Severino Pinto
Da Paraíba do Norte
Sou feio, porém sou bom
Sou magro, mas muito forte
Depois d’eu tomar destino
Temo a Deus não temo à morte.

* * *

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda!

* * *

Eu admiro o tatu
Com desenho no espinhaço
Que a natureza fez
Sem ter régua nem compasso
E eu com compasso e régua
Tenho planejado e não faço.

* * *

Esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança.

* * *

Gostei muito de mulher
No meu tempo de rapaz
Mas depois que fiquei velho
A trouxa envergou pra trás
Sentou-se em cima dos ovos
Que a ponta encostou no ás.

* * *

Admiro o vagalume
Enxergando de mato a dentro
Com sua lanterna acesa
Sem se importar com o vento
Apaga de vez em quando
Poupando seus elementos.

(“elemento” no linguajar nordestino é pilha)

* * *

No tempo da mocidade
Eu também já fui vaqueiro.
Não tinha jurema grossa,
Mororó nem marmeleiro.
Fui cabra de vista boa,
Negro de corpo maneiro.

* * *

SEVERINO PINTO E LOURIVAL BATISTA

Uma cantoria improvisada de Meia-Quadra nos anos 70

Constante da coleção Música Popular do Nordeste, organizada por Marcus Pereira