O Poeta pernambucano de Caruaru Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade
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Ivanildo Vilanova glosando o mote:
No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
No sertão quando o solo está enxuto Sofrem dois elementos de uma vez Falta líquido pra língua de uma rês Chovem gotas dos olhos do matuto Ser humano padece, sofre o bruto O segundo bem mais que o primeiro Se dos olhos caísse um aguaceiro O problema estaria saneado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Dá um nó emotivo na garganta Quando a época da chuva vai embora Sobra lágrima nos olhos de quem chora Falta água na cova de quem planta Se dos olhos cair não adianta Que não enche cacimba e nem barreiro Cresce mais a angustia e o desespero Vendo o bicho sofrer sem ser culpado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Se repete esse drama no sertão Fortaleza abissal dos aperreios Os olhares humanos estão cheios Mas os rios e poços não estão Uma gota do céu não cai no chão Ressecando inda mais o tabuleiro Muge o boi mas da água nem o cheiro Chora o homem com pena do coitado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Um vaqueiro soluça de manhã Sem ter água no poço ou na cascata Anda até seis quilômetros com uma lata Perde as forças na aventura vã Vê tombando de sede uma marrã Uma vaca uma cabra ou um carneiro E um garrote pertinho de um facheiro À espera do líquido esverdeado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
O talentoso cantador pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina da atualidade
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Oliveira de Panelas
No silente teclado universal Deus pôs som nas sutis constelações, e na batida dos nossos corações colocou a pancada musical, quando a harpa da brisa matinal vai fazendo concerto pra aurora, nessas lindas paisagens que Deus mora em tecidos de nuvens está escrito: é a música o poema mais bonito que se fez do princípio até agora.
Quando as pétalas viçosas das roseiras dançam juntas com o sol se levantando, vem a brisa suave carregando pólen vivo das grávidas cerejeiras, verdejantes, frondosas laranjeiras, soltam hálito cheiroso à atmosfera, toda mãe natureza se aglomera: de perfume, verdume, que beleza!… É o canto da própria natureza, festejando o nascer da primavera!
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Valdir Teles
Eu não posso negar que sou feliz Carregando a viola em minha mão A viola levou-me até Milão, Antuérpia, Bruxelas e Paris. Fiz primeiro uma base em meu País Pra depois pelo mundo viajar Meu estoque de glórias não tem par Meu sucesso rompeu Brasil a fora “Do começo da arte até agora Tenho muitas estórias pra contar”.
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Odilon Nunes de França
Acho bom a mocidade Não querer envelhecer Velho ninguém quer ficar Moço ninguém quer morrer Sem ser velho não se vive Bom é ser velho e viver
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Dimas Batista
Alguém já me perguntou: o que são mesmo os poetas? Eu respondi: são crianças dessas rebeldes, inquietas, que juntam as dores do mundo às suas dores secretas.
Nossa vida é como um rio no declive da descida, as águas são a saudade duma esperança perdida, e a vaidade é a espuma que fica à margem da vida.
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Diniz Vitorino Ferreira
Qualquer dia do ano se eu puder para o céu eu farei uma jornada como a lua já está desvirginada até posso tomá-la por mulher; e se acaso São Jorge não quiser eu tomo-lhe o cavalo que ele tem e se a lua quiser me amar também dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo deixo o santo com dor de cotovelo sem cavalo, sem lua e sem ninguém.
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Canhotinho
Acho tarde demais para voltar estou cansado demais para seguir, os meus lábios se ocultam de sorrir, sinto lágrimas, não posso mais chorar; eu não posso partir e nem ficar e assim nem pra frente nem pra trás, pra ficar sacrifico a própria paz, pra seguir a viagem é perigosa, a vereda da vida é tão penosa que me assombro com as curvas que ela faz.
Te prepara, ladrão da consciência, Que tuas dívidas de monstro já estão prontas, Quando o Justo cobrar as tuas contas, Quantas vezes pagarás à inocência? Teu período banal de existência Se compõe de miséria, dor e pragas; Em teu corpo, se abrem vivas chagas, Que tu’alma de monstro não suporta… Se o remorso bater à tua porta, Como pagas? Com que? E quanto pagas?
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Antonio Marinho
Quem quiser plantar saudade Escalde bem a semente Plante num lugar bem seco Quando o sol tiver bem quente Pois se plantar no molhado Ela cresce e mata a gente.
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Toinho da Mulatinha
Em Sodoma tão falada Passei uma hora só Lá vi a mulher de Ló Numa pedra transformada Dei uma talagada Com caldo de mocotó E saí batendo o pó Adiante vi Simeão Tomando café com pão Na barraca de Jacó.
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Pinto do Monteiro
Admiro um formigão Que é danado de feio Andando ao redor da praça Como quem dá um passeio Grosso atrás, grosso na frente E quase torado no meio.
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Odilon Nunes de Sá
Admiro a mocidade Não querer envelhecer Velho ninguém quer ficar Moço ninguém quer morrer Quem morre moço não vive Bom é ser velho e viver.
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Léo Medeiros
Ensinei Ronaldinho a jogar bola Fui o mestre de Zico e Maradona Seu Luiz aprendeu tocar sanfona Bem depois que saiu da minha escola Caboré no pescoço eu botei mola Também fiz beija-flor voar pra trás Conquistei cinco copas mundiais Defendendo a nossa seleção Inventei em Paris o avião O que é que me falta fazer mais?
Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)
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Cego Aderaldo
(atendendo a um pedido do Padre Cícero)
À ordem do meu padrinho Vou colher algumas flores… Fazer minhas poesias Cheias de grandes louvores Saudando, primeiramente, A Santa Virgem das Dores.
O nome do santo Padre Anda pelo mundo inteiro, A cidade está crescendo Com este povo romeiro, Devido às grandes virtudes Do santo de Juazeiro.
Nossa Senhora das Dores É que nos dá proteção, Ordena ao nosso bom Padre, E ele cumpre a Missão, Ensinando a todo mundo O ponto da salvação.
Deixo aqui no Juazeiro Todos os sentidos meus Juntamente ao meu Padrinho Que me limpou com os seus, Vou correr por este mundo Levando a bênção de Deus.
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Louro Branco
Cantador como eu ninguém num fez Deus deixou pra mandar muito depois Que se cabra for grande eu dou em dois E se o cabra for médio eu dou em três E se for bem pequeno eu dou em seis Que a minha riqueza é bem total Cantador como eu não nasce igual Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito Repentista só canta do meu jeito Se for fora de série ou genial.
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Otacílio Batista Patriota
Ao romper da madrugada, um vento manso desliza, mais tarde ao sopro da brisa, sai voando a passarada. Uma tocha avermelhada aparece lentamente, na janela do nascente, saudando o romper da aurora, no sertão que a gente mora, mora o coração da gente.
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O cantador violeiro longe da terra querida, sente um vazio na vida, tornando prisioneiro, olha o pinho companheiro, aí começa a tocar, tem vontade de cantar, mas lhe falta inspiração. Que a saudade do sertão faz o poeta chorar.
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João Paraibano
Vê-se a serra cachimbando… Na teia, a aranha borda; O xexéu canta um poema; Depois que o dia se acorda, Deus coloca um batom roxo Na flor do feijão de corda.
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Do nevoeiro pra o chão a nuvem faz passarela; o sapo pinota n’água, entra na lama e se mela; faz uma cama de espuma pra cantar em cima dela.
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Sempre vejo a mão divina no botão de flor se abrindo, no berço em que uma criança sonha com Jesus sorrindo; a mão caçando a chupeta que a boca perdeu dormindo.
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Roberto Queiroz
Admiro o Zé Ferreira Um cantador estupendo Se a roupa se suja, lava Se rasga, bota remendo Gasta menos do que ganha Que é pra não ficar devendo.
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Luciano Carneiro
Eu não tive vocação Pra diácono nem vigário Tornei-me então um poeta Não muito extraordinário Mas sou com muita alegria No campo da poesia Um verdadeiro operário.
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Leonardo Bastião
Ontem vi uma coruja, Sentada numa cancela, Demorei trinta segundos, Olhando a feiura dela, Quando me vi no espelho, Tava mais feio do que ela.
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Admiro o juazeiro, Nascido na terra enxuta, A fruta é pequena e ruim, A madeira é torta e bruta, Mas a bondade da sombra, Cobra a ruindade da fruta.
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Eu não vou plantar saudade, Que não estou mais precisando, A caçamba da saudade, Toda vez que vai passando, Ao invés de levar a minha, Derrama a que vai levando.
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Josué Romano
Eu já suspendi um raio E já fiz o tempo parar. Já fiz estrela correr, Já fiz sol quente esfriar. Já segurei uma onça Para um moleque mamar!
João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote:
O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Cada verso que o repentista faz, para mim tá presente em toda hora, no tinido do ferro da espora, na passada que vem dos animais, na cor verde que tem nos vegetais nas estrelas que têm no firmamento, tá na cruz do espinhaço do jumento, e no vaqueiro correndo atrás do gado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é um gênio que crepita no espaço azul esmeraldino, percorrendo as estradas do destino, sem saber o planeta aonde habita, sua mente pra o canto é infinita, cada verso que faz é seu sustento, é quem sabe cantar o parlamento, sem ter voto pra ser um deputado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Uma vida vivida no sertão, uma fruta madura já caindo, um relâmpago na nuvem se abrindo, um gemido do tiro do trovão, meia dúzia de amigos no salão, nem precisa de um piso de cimento, minha voz, as três cordas do instrumento, o meu quadro de louco está pintado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é um simples mensageiro, que acaba uma guerra e um conflito, ele sabe cantar o infinito, todas pedras que têm no tabuleiro, a passagem do fim do nevoeiro, que ultrapassa o azul do firmamento, que conhece o impulso desse vento, todas as rosas que enfeitam o nosso prado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Foi mamãe que me deu a luz da vida e me ensinou a viver da humildade, eu nasci para ter felicidade, porque toco na lira adquirida, poesia me serve de bebida, um concerto me serve de alimento, uma pedra me serve de assento e todo rancho de palha é meu reinado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é uma criatura que procura mostrar, no seu caminho, toda uva do fabrico de vinho, e toda planta que faz nossa fartura, é quem sabe cantar a amargura da pessoa, que está num sofrimento, é quem sabe cantar o regimento do quartel, que Jesus é delegado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
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Adalberto Claudino Pereira glosando o mote:
As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Fui criança e vivi muito feliz Recebendo carinhos dos meus pais, Os brinquedos ficaram para trás, E também outras coisas que eu fiz, Sempre tive tudo aquilo que eu quis, Nunca tive momentos descontentes, Estudei, sempre fui inteligente, Também fui por meus pais bem educado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Sempre fui um exemplo na escola, Estudando história e português, Dava show em desenho e francês, Pra passar nunca precisei de cola, No esporte também fui bom de bola, Mas agora não dou um passo à frente, A velhice atrapalha muita gente É por isso que sempre estou lembrado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Quando eu era pequeno eu vivia Mais feliz, com amor por todo o lado, Pelas moças eu era bajulado, Em seus braços babava de alegria, Dava pulos, dançava e sorria, Pois ali eu ficava mais contente, Mas agora, já velho e descontente, Na bengala eu vivo escorado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Na infância a vida é mais gostosa, Apesar dos momentos de castigos, Não esqueço também os meus amigos E mamãe cada vez mais carinhosa, A vizinha andando bem charmosa, Meu cachorro, pequeno mas valente E meu pai, que falava duramente, Parecendo estar mal humorado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Era bom namorar a menininha E brincar de peteca nas calçadas, Beliscar as meninas assanhadas E sonhar com a filha da vizinha, A tristeza era coisa que eu não tinha, Apesar de ser pouco inocente, A certeza de ser velho é patente, Mas ninguém se declara conformado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Se nós somos crianças inseguras, Nosso sonho é ganhar a liberdade, E lutar para ter felicidade E viver uma vida de fartura. Não sabia que havia a amargura De ser velho, caduco e impotente, É melhor ser criança novamente, Para ser outra vez paparicado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Vi meu pai comentando certa vez: “Sinto falta da minha mocidade, Ai, meu Deus, como eu tenho saudade Quando eu tinha apenas vinte e três, Eu invejo esta vida de vocês, Mas espero encontrá-los lá na frente, Como eu, velho, fraco e impotente E dizendo assim desesperados: As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Poeta João Paraibano, um dos gênios da cantoria nordestina (1952/ 2014)
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João Paraibano glosando o mote:
Jesus salva a pobreza nordestina, Com três dias de chuva no Sertão.
O bezerro mamando a cauda abana; A espuma do leite cobre o peito; Cada estaca de cerca tem direito A um rosário de flor da jitirana. No impulso do vento a chuva espana A poeira do palco do verão; A semente engravida e racha o chão, Descansando dos frutos que germina. Jesus salva a pobreza nordestina, Com três dias de chuva no Sertão.
Quando Deus leva em conta a nossa prece O relâmpago clareia, o trovão geme, Uma nuvem se forma, o vento espreme, Pelos furos do véu, a água desce; A campina se enfeita, a rama tece Um tapete de folhas sobre o chão; Cada flor tem formato de um botão No tecido da roupa da campina. Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
No véu negro da barra, o sol se esconde; Um caniço amolece e cai no rio; Nos tapetes de grana do baixio, Um tetéu dá um grito, outro responde; A frieza da terra faz por onde Pé de milho dar nó no esporão E a boneca, na sombra do pendão, Lava as tranças com gotas de neblina. Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
A presença do Sol é por enquanto. Onde vinga uma fruta, a flor desprende; Cada nuvem que a mão de Deus estende Cobre os ombros do céu, de canto a canto. Camponês não precisa roubar santo, Nem lavar mucunã pra fazer pão; Faz cacimba na areia com a mão Onde o pé deixa um rastro, a água mina. Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão. A cabocla mulher do camponês Caça ninho nas moitas quando chove Quando acha dez ovos, tira nove, Deixa o outro servindo de indez; As formigas de roça fazem vez De beatas seguindo procissão; As que vêm se desviam das que vão, Sem mão dupla, farol e nem buzina. Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
Sertanejo apelida dois garrotes, Bota a canga nos dois e desce a serra; Passa o dia no campo arando terra, Espantando mocó pelos serrotes; Sabiá, pra o conforto dos filhotes, Forra o ninho com pasto de algodão; Bebe o suco da polpa do melão, Limpa o bico nas varas da faxina Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
Treme o gado na lama do curral, Sopra o vento, cheirando a chão molhado; Cada pingo de chuva, congelado, Brilha mais do que pedra de cristal. Uma velha, durante o temporal, Se ajoelha, rezando uma oração, Fecha os lhos com medo do trovão E abre a porta, depois que a chuva afina Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
Cresce a planta, viçosa, e frutifica Com um cacho de flor em cada galha; Vê-se o milho mudando a cor da palha E o telhado chorando pela bica; A cigarra emudece, a acauã fica Sem direito a fazer lamentação; Deus afina a corneta do carão, Só depois de três meses, desafina. Jesus salva a pobreza nordestina, Com três meses de chuva no Sertão.
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MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL – Salete Maria da Silva
O folheto de cordel Que o povo tanto aprecia Do singelo menestrel À mais nobre academia Do macho foi monopólio Do europeu foi espólio Do nordestino alforria
Desde que chegou da França Espanha e Portugal (Recebido como herança) De caravela ou nau O homem o escrevia Fazia a venda e lia Em feira, porto e quintal
José Antônio do Nascimento Filho, o Zeto do Pajeú, Canhotinho-PE (1956-2002)
A vileza do destino Espedaçou meu futuro, O meu viver é obscuro Desde o tempo de menino. Hoje sou um peregrino, Não sei o que é riqueza, Bruxuleia a luz acesa, Perdi a perseverança … E o retrato de minha infância Está na minha pobreza.
Na terra dos marechais, Sem ter quem me queira bem, Ó morte, por que não vens Tirar meus dias finais? Vivo gemendo meus ais, Só sei o que é aspereza, Não apresento nobreza, Sou igual a uma balança … E o retrato da minha infância Está na minha pobreza.
Zeto do Pajeú
Nas gotas fracas da chuva Que a terra vai borrifando E faz levantar o cheiro De chuva que vou cheirando Eu sonho dias melhores E levo a vida cantando.
Nildo Cordel
ANDARILHO
Vou cantar com total atrevimento Imitar os ciganos andarilhos Percorrer os caminhos dos trocadilhos Vendo Louro inventar um novo invento Misturar poesia e andamento Construir uma estradeira Ter um sonho normal numa esteira Numa noite no lindo Moxotó Caminhar nas estrelas vendo o pó Das passadas da glosa derradeira
Imitar o pavão com suas cores Vou vestir colorido em minha vida Tratarei como sábio esta ferida P’ra lembrar a loucura dos amores Pois os loucos os grandes sabedores Dão ao lúcido a loucura do real Pra mostrar que o bem intencional Faz morada em lugar bem diferente Qualquer cor, qualquer dor é sempre gente Sugerindo a paixão o seu aval
A tarefa é não ter nenhum caminho P’ra encontrar o caminho do não ter Ser irmão do bonito amanhecer Ser agulha seguindo o seu alinho Encontrar multidões quando sozinho Colocar tom menor no violão Ser maior entoando uma canção Perceber quanto tempo falta ainda Colocar no cabelo a fita linda Como fosse uma estrofe de canção.
Francisco Nunes de Oliveira
Ser poeta não é pensar de ser Que quem pensa que é finda não sendo Diz que sabe de tudo não sabendo Que quem sabe não gosta de dizer Pois que diz o costume é não saber Que o sabido sabendo se aquieta Mas o erro maldito do pateta É querer um lugar que não lhe cabe Diz ao povo que sabe, mas não sabe O dever ideal de ser poeta.
Zé Maria
O que mais me admira É vêr-se um sapo inocente Que gosta de lama fria Mas detesta a terra quente Vendo da cobra o pescoço Pinota dentro do poço Pra se livrar da serpente.
João Paraibano
Eu acho que esse louro Dos outros é diferente Não tem asa mas tem boca Não tem bico mas tem dente Não tem pena mas tem pena De vir dar dinheiro a gente.
Zé de Almeida
Alagoas tem Quilombo Belas praias, tem coqueiro Berço de Apolônio Belo E de Vicente Granjeiro Famosa nas duas coisas Marechais e violeiro.
Noel Calixto
Admiro o Zé Ferreira Um cantador estupendo Se a roupa se suja, lava Se rasga, bota remendo Gasta menos do que ganha Que é pra não ficar devendo.
Roberto Queiroz
O meu pai não tem estudo Mamãe é analfabeta Eu pouco fui à escola Somente Deus me completa Com esse sublime dom De repentista e poeta.
Miro Pereira
A patativa de gola Nos campos da providência Uma pequena figura Uma larga inteligência Canta com tanta certeza Sem precisar de ciência.
João Abel
Meu sonho de alpinismo No precipício caiu Quando eu caí todos viram Quando escalei ninguém viu Os monstro feitos de mármore Que a mão de Deus esculpiu.
Biu Dionísio
No varal do infinito Uma nuvem pendurada Parece com uma roupa Bem confeccionada Que Deus coseu com maestria Para o corpo da madrugada.
Raimundo Borges
Eu já passei tanta coisa Que na vida nem pensava Pra minha felicidade A mulher que eu procurava Deus teve pena de mim Mostrou aonde ela estava.
João Lourenço
O mínimo precisaria Aumentar uns cem por cento Quem recebe no salário Quinze reais de aumento É mesmo que receber Nota de falecimento.
O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)
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A resposta de Pinto de Monteiro numa cantoria com João Furiba:
João Furiba:
Cruzei o velho Saara montado numa bicicleta. Matei leão de tabefe, Crivei serpente de seta. Fiz das penas d’uma hiena Um blusão pra minha neta.
Pinto do Monteiro:
João até que é bom poeta Mas sabe ler bem pouquinho. Vou fazer-lhe uma pergunta, responda meu amiguinho : – Quem diabo foi que te disse que hiena é passarinho ?
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Alguns improvisos de Pinto de Monteiro:
O meu cavalo é dum jeito Que nem o diabo aguenta, Entra no mato fechado, Toda madeira arrebenta, Dá tapa em bunda de boi Que a merda sai pela venta.
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Lá no meio da caatinga, Sem moradia vizinha Bem na beira de um riacho Um pé de palmeira tinha. Meu avô, nesse lugar, Começou a trabalhar E chamar de Carnaubinha. Parece que estou vendo Um homem cortando cana; Uma engenhoca moendo Os três dias da semana. Fazer cerca, queimar broca, Raspar milho e mandioca, Da massa, fazer farinha; Comer com mel de engenho, Ai, que saudades que eu tenho Da minha Carnaubinha.
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Ovo de pato e marreca Quebrar na beira do poço, Abrir milho, na boneca, Pra ver se tinha caroço; Ir pra beira da estrada Jogar pedra e dar pancada Em cabra, bode e suíno; Em cachorro, pontapé, Que isso tudo foi e é Brincadeira de menino.
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Mas essa estória de dente, Para mim, nada adianta; Eu não preciso de dente; Eu quero é peito e garganta: Pois sabiá não tem dente, É quem mais bonito canta!
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Eu sou Severino Pinto Da Paraíba do Norte Sou feio, porém sou bom Sou magro, mas muito forte Depois d’eu tomar destino Temo a Deus não temo à morte.
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Há vários dias que ando, Com o satanás na corcunda: Pois, hoje, almocei na casa Duma negra tão imunda, Que a prensa de espremer queijo Era as bochechas da bunda!
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Eu admiro o tatu Com desenho no espinhaço Que a natureza fez Sem ter régua nem compasso E eu com compasso e régua Tenho planejado e não faço.
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Esta palavra saudade conheço desde criança saudade de amor ausente não é saudade, é lembrança saudade só é saudade quando morre a esperança.
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Gostei muito de mulher No meu tempo de rapaz Mas depois que fiquei velho A trouxa envergou pra trás Sentou-se em cima dos ovos Que a ponta encostou no ás.
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Admiro o vagalume Enxergando de mato a dentro Com sua lanterna acesa Sem se importar com o vento Apaga de vez em quando Poupando seus elementos.
(“elemento” no linguajar nordestino é pilha)
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No tempo da mocidade Eu também já fui vaqueiro. Não tinha jurema grossa, Mororó nem marmeleiro. Fui cabra de vista boa, Negro de corpo maneiro.
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SEVERINO PINTO E LOURIVAL BATISTA
Uma cantoria improvisada de Meia-Quadra nos anos 70
Constante da coleção Música Popular do Nordeste, organizada por Marcus Pereira
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)
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FLORES MURCHAS
Depois do nosso desejado enlace Ela dizia, cheia de carinho, Toda ternura a segredar baixinho: – Deixa, querido, que eu te beije a face!
Ah! se esta vida nunca mais passasse! Só vejo rosas, sem um só espinho; Que bela aurora surge em nosso ninho! Que lindo sonho no meu peito nasce!
E hoje, a coitada, sem falar de amor, Em vez daquele natural vigor, Sofre do tempo o mais cruel carimbo.
E assim vivendo, de mazelas cheia, Em vez de beijo, sempre me aperreia Pedindo fumo para o seu cachimbo.
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AMANHÃ
Amanhã, ilusão doce e fagueira, Linda rosa molhada pelo orvalho: Amanhã, findarei o meu trabalho, Amanhã, muito cedo, irei à feira.
Desta forma, na vida passageira, Como aquele que vive do baralho, Um espera a melhora no agasalho E outro, a cura feliz de uma cegueira.
Com o belo amanhã que ilude a gente, Cada qual anda alegre e sorridente, Como quem vai atrás de um talismã.
Com o peito repleto de esperança, Porém, nunca nós temos a lembrança De que a morte também chega amanhã.
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AUTOBIOGRAFIA
Mas porém como a leitura É a maió diciprina E veve na treva iscura Quem seu nome não assina, Mesmo na lida pesada, Para uma escola atrasada Tinha uma parte do dia, Onde estudei argum mês Com um veio camponês Que quase nada sabia.
Meu professô era fogo Na base do português, Catálogo, era catalôgo, Mas grande favô me fez. O mesmo nunca esqueci, Foi com ele que aprendi Minhas premêra lição, Muito a ele tô devendo, Saí escrevendo e lendo Mesmo sem pontuação.
Depois só fiz meus estudo, Mas não nos livro escola Eu gostava de lê tudo, Revista, livro e jorná. Com mais uns tempo pra frente, Mesmo vagarosamente, ; – Não errava nenhum nome. Lia no claro da luz As pregação de Jesus E as injustiça dos home.