Poeta cantador pernambucano Otacílio Batista Patriota (1923-2003)
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O VALOR QUE O PEIDO TEM – Otacílio Batista Patriota
O peido é bom toda hora Sem peido não há quem passe A criança quando nasce Tanto peida como chora Um peido ao romper da aurora Eu não troco por ninguém Há noites que eu solto cem Peidos grandes e pequenos Já conheço mais ou menos O valor que o peido tem.
Um velho já moribundo Nas agonias da morte Soltou um peido tão forte Que se ouviu no outro mundo O peido gritou no fundo Que só apito de trem O velho sentiu-se bem Levantou-se no outro dia Dizendo a quem não sabia O valor que o peido tem.
Pela porta do bufante Para não morrer de volvo Diariamente eu devolvo Peido grande a todo instante O sujeito ignorante Não me compreende bem Fecha a porta do sedem Deixa o peido apodrecer Esse morre sem saber O valor que o peido tem.
Mote e glosas do poeta paraibano José de Anchieta Batista.
Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
Diz que é servo de Deus, mas o demônio Deve ser o seu guia e companheiro. Do Tesouro, roubou muito dinheiro, Pra formar este enorme patrimônio… Debaixo da camada de ozônio, Não existe um sujeito mais vilão, Procurar outro igual será em vão, No grande lamaçal da improbidade: – Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
No domingo o safado está na Missa Como um anjo aos pés do Criador, Faz ofertas também a algum pastor, Diz que a Deus sua alma é submissa, Prega paz, prega amor, prega justiça, Prega tudo o que traz a salvação, Diz que Cristo foi sua redenção E que vive na luz e na verdade: – Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
É comprando seus votos que é eleito, E assim, nunca perde o seu mandato. O safado é ligeiro igual a um rato, E na arte do roubo ele é perfeito, Pois aí ele encontra sempre um jeito De burlar os caminhos da prisão. Não vai longe uma só acusação… “É coisa de inimigo, é só maldade!” – Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
É por isso que nossa humilde gente, Sem remédio, sem médico, sem leito… Nos hospitais mendiga seu direito, Mas nada importa a dor que o povo sente. E este bandido zomba impunemente Da indigência da população… Que sem comida, emprego e habitação É por ele assaltada sem piedade… – Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
Porém Deus que não tem olhos fechados E não deixa um pecado sem cobrança… Vai fazê-lo subir numa balança, Pra medir quanto pesam seus pecados… Os tostões, um por um, serão cobrados… Eu não sei de que jeito, mas serão! Roubar do povo é crime sem perdão, Pois só os pobres sofrem de verdade… – Passa o tempo pregando honestidade, Todo mundo sabendo que é ladrão.
Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei.
Regressei ao lugar que fui criado Como quem vai cumprir um juramento Avistei os arreios do jumento Pendurados na cerca do cercado. No curral que papai trancava o gado O chocalho da vaca eu procurei Bem ao lado da casa encontrei Os resquícios da minha mocidade Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei.
Avistei o meu cabo de enxada Encabando uma velha Tramontina A ferrugem comendo a lamparina E uma cela de couro empoeirada. Mas chorei quando vi uma latada E o cavalo de pau que eu montei No cavalo da História disparei Retornei aos quarenta de idade Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei.
Encontrei bem no “pé” do casarão O meu carro de flandre na poeira Adentrando avistei uma roqueira Dos folguedos de noite de São João. Vi meu rádio de pilha campeão Meu cachorro de caça não achei Mas a cama velhinha que deitei Inda mora comigo na cidade Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei.
Vi pedaços de bola canarinho Enganchados em cima do telhado Vi um saco de estopa amarelado Que a galinha de mãe fazia ninho. A “camisa” bonita do meu pinho Que nas noites de lua dedilhei O balanço que um dia despenquei Lembrarei para toda eternidade Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei.
Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)
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A prisão deve ter sido Invenção de Lúcifer Eu só aceito a prisão Nos braços duma mulher Aguentando o que ela faz E fazendo o que ela quer.
Jesus a mim quis fazê Neste caso que se deu: Eu perdê a minha vista Meus olhos escureceu Mas estou cantando as virtudes Que a natureza me deu
Deus a mim deu a bola Para levar a cantoria Tirou a luz dos meus olhos Eu não vejo a luz do dia Porém eu levo a palavra Transcrita em poesia
Oh! Santo de Canindé! Que Deus te deu cinco chagas, Fazei com que este povo Para mim faça as pagas; Uma sucedendo as outras Como o mar soltando vagas!
Só nos falta ver agora Dar carrapato em farinha, Cobra com bicho-de-pé, Foice metida em bainha, Caçote criar bigode, Tarrafa feita sem linha.
Muito breve há de se ver Pisar-se vento em pilão, Botar freio em caranguejo, Fazer de gelo carvão, Carregar água em balaio, Burro subir em balão.
Ah! Se o passado voltasse, Todo cheio de ternura. Eu ainda tinha vista, Saía da vida escura… Como o passado não volta Aumenta minha tristeza: Só conheço o abandono Necessidade e pobreza.
A lagarta tem forma de serpente Quando vai viajando numa estrada, Mas, depois de metamorfoseada, Ela toma uma vida diferente: Cria asas de cor bem transparente, Verdadeiro vislumbre de beleza. Nem ciência, nem arte, nem riqueza Poderia pintar beleza igual. Isto é lei do Juiz Universal E é impulso da mão da natureza.
Quis casar-me, que loucura ! Quando pensei em casar, Deixei e fui meditar, Fui pensar na vida escura, Nesse cálice de amargura, Que recordo dia a dia, Mas ouvindo a melodia Fui sentindo a flor do goivo, De repente fiquei noivo Me casei com a poesia.
O Poeta pernambucano de Caruaru Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade
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Ivanildo Vilanova glosando o mote:
No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
No sertão quando o solo está enxuto Sofrem dois elementos de uma vez Falta líquido pra língua de uma rês Chovem gotas dos olhos do matuto Ser humano padece, sofre o bruto O segundo bem mais que o primeiro Se dos olhos caísse um aguaceiro O problema estaria saneado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Dá um nó emotivo na garganta Quando a época da chuva vai embora Sobra lágrima nos olhos de quem chora Falta água na cova de quem planta Se dos olhos cair não adianta Que não enche cacimba e nem barreiro Cresce mais a angustia e o desespero Vendo o bicho sofrer sem ser culpado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Se repete esse drama no sertão Fortaleza abissal dos aperreios Os olhares humanos estão cheios Mas os rios e poços não estão Uma gota do céu não cai no chão Ressecando inda mais o tabuleiro Muge o boi mas da água nem o cheiro Chora o homem com pena do coitado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
Um vaqueiro soluça de manhã Sem ter água no poço ou na cascata Anda até seis quilômetros com uma lata Perde as forças na aventura vã Vê tombando de sede uma marrã Uma vaca uma cabra ou um carneiro E um garrote pertinho de um facheiro À espera do líquido esverdeado No sertão falta água para o gado Porém sobra nos olhos do vaqueiro.
O talentoso cantador pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina da atualidade
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Oliveira de Panelas
No silente teclado universal Deus pôs som nas sutis constelações, e na batida dos nossos corações colocou a pancada musical, quando a harpa da brisa matinal vai fazendo concerto pra aurora, nessas lindas paisagens que Deus mora em tecidos de nuvens está escrito: é a música o poema mais bonito que se fez do princípio até agora.
Quando as pétalas viçosas das roseiras dançam juntas com o sol se levantando, vem a brisa suave carregando pólen vivo das grávidas cerejeiras, verdejantes, frondosas laranjeiras, soltam hálito cheiroso à atmosfera, toda mãe natureza se aglomera: de perfume, verdume, que beleza!… É o canto da própria natureza, festejando o nascer da primavera!
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Valdir Teles
Eu não posso negar que sou feliz Carregando a viola em minha mão A viola levou-me até Milão, Antuérpia, Bruxelas e Paris. Fiz primeiro uma base em meu País Pra depois pelo mundo viajar Meu estoque de glórias não tem par Meu sucesso rompeu Brasil a fora “Do começo da arte até agora Tenho muitas estórias pra contar”.
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Odilon Nunes de França
Acho bom a mocidade Não querer envelhecer Velho ninguém quer ficar Moço ninguém quer morrer Sem ser velho não se vive Bom é ser velho e viver
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Dimas Batista
Alguém já me perguntou: o que são mesmo os poetas? Eu respondi: são crianças dessas rebeldes, inquietas, que juntam as dores do mundo às suas dores secretas.
Nossa vida é como um rio no declive da descida, as águas são a saudade duma esperança perdida, e a vaidade é a espuma que fica à margem da vida.
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Diniz Vitorino Ferreira
Qualquer dia do ano se eu puder para o céu eu farei uma jornada como a lua já está desvirginada até posso tomá-la por mulher; e se acaso São Jorge não quiser eu tomo-lhe o cavalo que ele tem e se a lua quiser me amar também dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo deixo o santo com dor de cotovelo sem cavalo, sem lua e sem ninguém.
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Canhotinho
Acho tarde demais para voltar estou cansado demais para seguir, os meus lábios se ocultam de sorrir, sinto lágrimas, não posso mais chorar; eu não posso partir e nem ficar e assim nem pra frente nem pra trás, pra ficar sacrifico a própria paz, pra seguir a viagem é perigosa, a vereda da vida é tão penosa que me assombro com as curvas que ela faz.
Te prepara, ladrão da consciência, Que tuas dívidas de monstro já estão prontas, Quando o Justo cobrar as tuas contas, Quantas vezes pagarás à inocência? Teu período banal de existência Se compõe de miséria, dor e pragas; Em teu corpo, se abrem vivas chagas, Que tu’alma de monstro não suporta… Se o remorso bater à tua porta, Como pagas? Com que? E quanto pagas?
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Antonio Marinho
Quem quiser plantar saudade Escalde bem a semente Plante num lugar bem seco Quando o sol tiver bem quente Pois se plantar no molhado Ela cresce e mata a gente.
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Toinho da Mulatinha
Em Sodoma tão falada Passei uma hora só Lá vi a mulher de Ló Numa pedra transformada Dei uma talagada Com caldo de mocotó E saí batendo o pó Adiante vi Simeão Tomando café com pão Na barraca de Jacó.
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Pinto do Monteiro
Admiro um formigão Que é danado de feio Andando ao redor da praça Como quem dá um passeio Grosso atrás, grosso na frente E quase torado no meio.
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Odilon Nunes de Sá
Admiro a mocidade Não querer envelhecer Velho ninguém quer ficar Moço ninguém quer morrer Quem morre moço não vive Bom é ser velho e viver.
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Léo Medeiros
Ensinei Ronaldinho a jogar bola Fui o mestre de Zico e Maradona Seu Luiz aprendeu tocar sanfona Bem depois que saiu da minha escola Caboré no pescoço eu botei mola Também fiz beija-flor voar pra trás Conquistei cinco copas mundiais Defendendo a nossa seleção Inventei em Paris o avião O que é que me falta fazer mais?
Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)
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Cego Aderaldo
(atendendo a um pedido do Padre Cícero)
À ordem do meu padrinho Vou colher algumas flores… Fazer minhas poesias Cheias de grandes louvores Saudando, primeiramente, A Santa Virgem das Dores.
O nome do santo Padre Anda pelo mundo inteiro, A cidade está crescendo Com este povo romeiro, Devido às grandes virtudes Do santo de Juazeiro.
Nossa Senhora das Dores É que nos dá proteção, Ordena ao nosso bom Padre, E ele cumpre a Missão, Ensinando a todo mundo O ponto da salvação.
Deixo aqui no Juazeiro Todos os sentidos meus Juntamente ao meu Padrinho Que me limpou com os seus, Vou correr por este mundo Levando a bênção de Deus.
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Louro Branco
Cantador como eu ninguém num fez Deus deixou pra mandar muito depois Que se cabra for grande eu dou em dois E se o cabra for médio eu dou em três E se for bem pequeno eu dou em seis Que a minha riqueza é bem total Cantador como eu não nasce igual Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito Repentista só canta do meu jeito Se for fora de série ou genial.
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Otacílio Batista Patriota
Ao romper da madrugada, um vento manso desliza, mais tarde ao sopro da brisa, sai voando a passarada. Uma tocha avermelhada aparece lentamente, na janela do nascente, saudando o romper da aurora, no sertão que a gente mora, mora o coração da gente.
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O cantador violeiro longe da terra querida, sente um vazio na vida, tornando prisioneiro, olha o pinho companheiro, aí começa a tocar, tem vontade de cantar, mas lhe falta inspiração. Que a saudade do sertão faz o poeta chorar.
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João Paraibano
Vê-se a serra cachimbando… Na teia, a aranha borda; O xexéu canta um poema; Depois que o dia se acorda, Deus coloca um batom roxo Na flor do feijão de corda.
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Do nevoeiro pra o chão a nuvem faz passarela; o sapo pinota n’água, entra na lama e se mela; faz uma cama de espuma pra cantar em cima dela.
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Sempre vejo a mão divina no botão de flor se abrindo, no berço em que uma criança sonha com Jesus sorrindo; a mão caçando a chupeta que a boca perdeu dormindo.
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Roberto Queiroz
Admiro o Zé Ferreira Um cantador estupendo Se a roupa se suja, lava Se rasga, bota remendo Gasta menos do que ganha Que é pra não ficar devendo.
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Luciano Carneiro
Eu não tive vocação Pra diácono nem vigário Tornei-me então um poeta Não muito extraordinário Mas sou com muita alegria No campo da poesia Um verdadeiro operário.
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Leonardo Bastião
Ontem vi uma coruja, Sentada numa cancela, Demorei trinta segundos, Olhando a feiura dela, Quando me vi no espelho, Tava mais feio do que ela.
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Admiro o juazeiro, Nascido na terra enxuta, A fruta é pequena e ruim, A madeira é torta e bruta, Mas a bondade da sombra, Cobra a ruindade da fruta.
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Eu não vou plantar saudade, Que não estou mais precisando, A caçamba da saudade, Toda vez que vai passando, Ao invés de levar a minha, Derrama a que vai levando.
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Josué Romano
Eu já suspendi um raio E já fiz o tempo parar. Já fiz estrela correr, Já fiz sol quente esfriar. Já segurei uma onça Para um moleque mamar!
João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote:
O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Cada verso que o repentista faz, para mim tá presente em toda hora, no tinido do ferro da espora, na passada que vem dos animais, na cor verde que tem nos vegetais nas estrelas que têm no firmamento, tá na cruz do espinhaço do jumento, e no vaqueiro correndo atrás do gado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é um gênio que crepita no espaço azul esmeraldino, percorrendo as estradas do destino, sem saber o planeta aonde habita, sua mente pra o canto é infinita, cada verso que faz é seu sustento, é quem sabe cantar o parlamento, sem ter voto pra ser um deputado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Uma vida vivida no sertão, uma fruta madura já caindo, um relâmpago na nuvem se abrindo, um gemido do tiro do trovão, meia dúzia de amigos no salão, nem precisa de um piso de cimento, minha voz, as três cordas do instrumento, o meu quadro de louco está pintado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é um simples mensageiro, que acaba uma guerra e um conflito, ele sabe cantar o infinito, todas pedras que têm no tabuleiro, a passagem do fim do nevoeiro, que ultrapassa o azul do firmamento, que conhece o impulso desse vento, todas as rosas que enfeitam o nosso prado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
João Paraibano
Foi mamãe que me deu a luz da vida e me ensinou a viver da humildade, eu nasci para ter felicidade, porque toco na lira adquirida, poesia me serve de bebida, um concerto me serve de alimento, uma pedra me serve de assento e todo rancho de palha é meu reinado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
Severino Feitosa
O poeta é uma criatura que procura mostrar, no seu caminho, toda uva do fabrico de vinho, e toda planta que faz nossa fartura, é quem sabe cantar a amargura da pessoa, que está num sofrimento, é quem sabe cantar o regimento do quartel, que Jesus é delegado. O poeta é um ser iluminado que faz verso com arte e sentimento.
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Adalberto Claudino Pereira glosando o mote:
As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Fui criança e vivi muito feliz Recebendo carinhos dos meus pais, Os brinquedos ficaram para trás, E também outras coisas que eu fiz, Sempre tive tudo aquilo que eu quis, Nunca tive momentos descontentes, Estudei, sempre fui inteligente, Também fui por meus pais bem educado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Sempre fui um exemplo na escola, Estudando história e português, Dava show em desenho e francês, Pra passar nunca precisei de cola, No esporte também fui bom de bola, Mas agora não dou um passo à frente, A velhice atrapalha muita gente É por isso que sempre estou lembrado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Quando eu era pequeno eu vivia Mais feliz, com amor por todo o lado, Pelas moças eu era bajulado, Em seus braços babava de alegria, Dava pulos, dançava e sorria, Pois ali eu ficava mais contente, Mas agora, já velho e descontente, Na bengala eu vivo escorado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Na infância a vida é mais gostosa, Apesar dos momentos de castigos, Não esqueço também os meus amigos E mamãe cada vez mais carinhosa, A vizinha andando bem charmosa, Meu cachorro, pequeno mas valente E meu pai, que falava duramente, Parecendo estar mal humorado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Era bom namorar a menininha E brincar de peteca nas calçadas, Beliscar as meninas assanhadas E sonhar com a filha da vizinha, A tristeza era coisa que eu não tinha, Apesar de ser pouco inocente, A certeza de ser velho é patente, Mas ninguém se declara conformado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Se nós somos crianças inseguras, Nosso sonho é ganhar a liberdade, E lutar para ter felicidade E viver uma vida de fartura. Não sabia que havia a amargura De ser velho, caduco e impotente, É melhor ser criança novamente, Para ser outra vez paparicado, As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.
Vi meu pai comentando certa vez: “Sinto falta da minha mocidade, Ai, meu Deus, como eu tenho saudade Quando eu tinha apenas vinte e três, Eu invejo esta vida de vocês, Mas espero encontrá-los lá na frente, Como eu, velho, fraco e impotente E dizendo assim desesperados: As lembranças que guardo do passado Me confortam para viver o presente.