MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A REPÚBLICA DOS CARRASCOS DE SOFÁ OU COMO EXECUTAR UM HOMEM SEM JAMAIS TER CARREGADO SUA CRUZ

Há uma profissão em franca expansão no mundo moderno. Não exige diploma. Não exige inteligência. Não exige coragem. Não exige experiência. Basta uma língua afiada, uma memória seletiva e uma impressionante incapacidade de enxergar além do próprio umbigo. É a profissão de juiz da vida alheia. Jamais houve tantos. Estão por toda parte. Nas famílias. Nas igrejas. Nos grupos de WhatsApp. Nas mesas de jantar. Nas redes sociais. Nos corredores das empresas. São criaturas curiosas. Nunca aparecem quando a casa está pegando fogo. Mas surgem pontualmente para comentar as cinzas.

Desaparecem durante a batalha. Retornam para avaliar os estragos. Jamais carregam o piano. Mas possuem opiniões detalhadas sobre a qualidade da música. Observava-se um homem sentado diante desse espetáculo grotesco. Um homem que já havia conhecido o desemprego. A humilhação. A rejeição. A escassez. A solidão. As noites em que o amanhã parecia uma ameaça. As manhãs em que levantar da cama exigia mais coragem do que muitos imaginam. Mas nada disso interessava ao tribunal. Os tribunais populares não apreciam contextos. Contextos atrapalham condenações. Explicações humanizam. E a humanidade é uma inconveniência para quem deseja apontar o dedo.

Por isso a sociedade desenvolveu uma técnica extremamente eficiente. Apaga-se a história. Preserva-se apenas a acusação. Décadas inteiras são comprimidas até caberem numa frase miserável: “Ele sempre foi assim.” Que maravilha. Que prodígio intelectual. Que demonstração espetacular de preguiça mental. Uma existência inteira reduzida a um slogan. Os anos desaparecem. As lutas desaparecem. Os sacrifícios desaparecem. As renúncias desaparecem. As noites sem dormir desaparecem. As contas pagas com dinheiro inexistente desaparecem. Os empréstimos feitos para ajudar filhos desaparecem. Os sonhos adiados desaparecem. Tudo desaparece.

Exceto o erro. O erro permanece. Brilhante. Intacto. Polido diariamente pela memória seletiva dos acusadores. A sociedade possui um estranho fetiche por falhas. Uma pessoa pode passar vinte anos construindo pontes. Basta um único tropeço para que a multidão passe a descrevê-la como especialista em quedas. É fascinante. Os mesmos indivíduos incapazes de administrar a própria existência tornam-se especialistas em administrar retrospectivamente a vida dos outros. E o fazem com a arrogância característica dos ignorantes. Porque o ignorante possui uma vantagem invejável. Ele desconhece a própria ignorância. Por isso fala com tanta convicção.

O homem observava tudo aquilo e chegava a uma conclusão amarga. Poucas pessoas querem conhecer a verdade. A verdade é trabalhosa. A verdade possui camadas. A verdade exige escuta. A verdade exige humildade. A verdade frequentemente destrói preconceitos. E preconceitos são móveis confortáveis. Pouca gente deseja levantar-se deles. É muito mais fácil construir caricaturas. O irresponsável. O fracassado. O sonhador inútil. O pai ausente. O incompetente. Os rótulos são baratos. A investigação é cara. A multidão prefere promoções. E então acontece o fenômeno mais perverso de todos. Os beneficiários dos sacrifícios transformam-se em auditores dos resultados. Não sabem quanto custou. Não sabem o que foi perdido. Não sabem quantas vezes o homem precisou engolir o orgulho para continuar de pé. Não sabem quantas humilhações foram suportadas em silêncio. Não sabem quantas derrotas foram escondidas para não preocupar ninguém.

Mas apresentam-se diante dele com a segurança de quem acredita possuir o monopólio da verdade. A verdade. Essa palavra magnífica. Tão frequentemente usada por quem jamais se deu ao trabalho de procurá-la. O homem percebeu então uma das grandes tragédias da maturidade. Chega uma idade em que você descobre que algumas pessoas não querem compreender sua história. Elas querem apenas confirmar a versão que inventaram sobre você. São coisas completamente diferentes. A compreensão procura fatos. A condenação procura munição. E munição nunca falta para quem decidiu atirar.

O mais irônico de tudo é que muitos desses juízes ocasionais se consideram virtuosos. Falam de bondade. Falam de empatia. Falam de justiça. Falam de amor. Mas não conseguem oferecer cinco minutos de escuta honesta. Pregam compreensão enquanto distribuem sentenças. Defendem misericórdia enquanto afiam guilhotinas emocionais. São pacifistas armados até os dentes. E talvez seja por isso que o mundo esteja tão cansado. Não pela falta de opiniões. Mas pelo excesso delas. Não pela falta de julgamentos. Mas pela abundância deles. Não pela escassez de palavras. Mas pela miséria de compreensão. O homem olhou para os escombros das próprias memórias. Ali estavam os fracassos.

Sim. Ele os possuía. Como qualquer ser humano minimamente real. Mas ali também estavam as tentativas. Os recomeços. As renúncias. As batalhas invisíveis. As derrotas suportadas sem testemunhas. As responsabilidades assumidas quando seria mais fácil fugir. E percebeu algo libertador. Os seus acusadores conheciam seus erros. Mas ignoravam seu percurso. Conheciam os resultados. Mas desconheciam os custos. Conheciam os boatos. Mas jamais estudaram os fatos. E foi então que compreendeu a insignificância moral de muitos julgamentos. Afinal, uma sentença pronunciada por quem desconhece a história vale tanto quanto um diagnóstico feito por quem nunca examinou o paciente. Produz barulho. Não produz verdade. E enquanto os carrascos de sofá continuavam distribuindo veredictos, o homem fez algo que eles jamais compreenderiam: Continuou vivendo. Continuou escrevendo. Continuou criando. Continuou sonhando. Porque descobriu uma verdade terrível para os seus detratores.

O valor de uma vida não é determinado pelos que a julgam. É determinado pela coragem de continuar quando todos já decretaram o seu fim. E não existe vingança mais elegante do que essa: Prosseguir. Enquanto os juízes falam. Enquanto os acusadores apontam. Enquanto os ingratos esquecem. Enquanto os covardes comentam. Prosseguir. Porque a história tem um hábito curioso. Muitas vezes ela absolve aqueles que a multidão condenou. E condena aqueles que acreditavam possuir o direito de julgar.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

MANUAL DEFINITIVO PARA IDENTIFICAR MÁQUINAS ONDE EXISTEM PESSOAS

Há algo de profundamente curioso em nossa época. Nunca tivemos acesso a tantas ferramentas intelectuais, tanta informação e tantos recursos de análise. E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil para algumas pessoas admitir a simples possibilidade de que um ser humano possa escrever bem.

Diante de um texto elaborado, de um vocabulário mais amplo ou de uma construção argumentativa minimamente sofisticada, surge imediatamente o novo inquisidor digital. Não lê para compreender. Não debate para refutar. Não analisa para aprender. Seu primeiro impulso é submeter o texto a uma inteligência artificial, como um sacerdote antigo consultando oráculos em busca de uma verdade revelada. O fenômeno é fascinante.

Durante séculos, a humanidade ensinou literatura, filosofia, retórica, gramática, lógica e argumentação. Formou escritores, poetas, ensaístas, pesquisadores e professores. Hoje, porém, uma parcela dos leitores parece acreditar que qualquer frase que ultrapasse a média da comunicação instantânea só pode ter sido produzida por uma máquina. O empobrecimento intelectual é tão profundo que a qualidade passou a ser considerada evidência de fraude.

A situação se torna ainda mais irônica quando observamos o método empregado. O indivíduo entrega um texto a uma inteligência artificial e recebe dela uma interpretação estatística. Em seguida, apresenta essa interpretação como prova definitiva de autoria artificial. Trata-se de um raciocínio circular tão perfeito que quase poderia ser apreciado como obra de arte. A ferramenta analisa padrões linguísticos. O usuário interpreta essa análise como um veredito. E então transforma uma hipótese probabilística em certeza absoluta. A lógica desaparece. A convicção permanece.

Nenhum crítico literário sério trabalha dessa maneira. Nenhum linguista respeitável trabalha dessa maneira. Nenhum pesquisador sério consideraria aceitável determinar autoria com base em impressões estatísticas produzidas por sistemas que os próprios desenvolvedores reconhecem como falíveis. Mas o analista de ocasião não precisa de evidências robustas. Basta-lhe a aparência de cientificidade. Afinal, uma conclusão frágil parece muito mais sólida quando vem acompanhada de termos técnicos.

Há também uma dimensão cultural particularmente preocupante nesse comportamento. Ele revela uma crescente incapacidade de reconhecer a singularidade humana. O sujeito já não consegue conceber que alguém tenha estudado, lido, amadurecido intelectualmente ou desenvolvido um estilo próprio ao longo de décadas. A hipótese da inteligência artificial lhe parece mais plausível do que a hipótese do esforço humano. Talvez porque admitir a existência de talento, dedicação ou erudição em outra pessoa exija uma humildade que nem todos estão dispostos a cultivar. É mais confortável atribuir o mérito a um algoritmo. Mais confortável e mais rápido.

Não é preciso discutir ideias. Não é preciso enfrentar argumentos. Não é preciso formular contrapontos. Basta insinuar que o texto foi produzido por uma máquina e declarar encerrado o debate. O recurso é intelectualmente conveniente. E intelectualmente pobre. O mais curioso é que os mesmos indivíduos que depositam fé quase religiosa nesses diagnósticos costumam ignorar um detalhe elementar: as inteligências artificiais foram treinadas justamente com textos produzidos por seres humanos. Livros, artigos, ensaios, pesquisas, crônicas, discursos, poemas e tratados filosóficos escritos ao longo de séculos.

Quando uma IA identifica semelhanças entre um texto e os padrões presentes em sua base de treinamento, ela está, em grande medida, reconhecendo características da própria tradição intelectual humana. A acusação, portanto, frequentemente produz um efeito involuntário. O acusador imagina estar demonstrando artificialidade. O que acaba demonstrando é que o texto possui elementos encontrados na boa escrita. Chega a ser uma homenagem involuntária. Talvez o aspecto mais triste de tudo isso seja a substituição do julgamento crítico pela terceirização do pensamento. Em vez de ler, compreender e avaliar, muitos preferem perguntar a uma máquina o que devem pensar sobre aquilo que acabaram de ler.

Não buscam conhecimento; buscam confirmação. Não procuram a verdade; procuram um carimbo. E assim chegamos a um paradoxo extraordinário: pessoas que denunciam uma suposta submissão intelectual à tecnologia tornam-se, elas próprias, completamente dependentes dela para formular seus juízos. No final, a questão jamais foi a inteligência artificial. A questão continua sendo a inteligência humana.

E nenhuma ferramenta, por mais sofisticada que seja, conseguirá compensar a ausência desta.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

NÃO TENHO PACIÊNCIA PARA CATEQUESE SOCIAL

Há pessoas que não conversam; catequizam; não expõem ideias: distribuem mandamentos; não debatem: evangelizam; não argumentam: recitam; não refletem: repetem. E o mais curioso é que quase sempre se imaginam extraordinariamente livres. Vivemos uma era singularmente sofisticada na arte da domesticação. Nunca se falou tanto em liberdade, autonomia, pluralidade, consciência crítica e emancipação intelectual — e, paradoxalmente, talvez nunca tenha havido tamanho culto à obediência emocional, à filiação automática e à reprodução mecânica de consensos fabricados.

O homem moderno aprendeu a trocar algemas de ferro por algemas de aplauso. Antes, a submissão vinha pela força bruta. Hoje, ela chega perfumada de virtude, acompanhada de slogans, hashtags, manifestos, reuniões enfadonhas, discursos de auto importância e uma legião de pedagogos morais improvisados que decidiram, com espantosa generosidade narcísica, ensinar o restante da humanidade a existir corretamente. Chamam isso de conscientização. Muitas vezes, é apenas catequese social com verniz acadêmico. Há uma espécie particularmente fascinante nesse ecossistema: o missionário da opinião inevitável. Ele não aceita que discordes; ele tolera tua existência apenas enquanto assumes o dever moral de concordar com ele. Caso contrário, és declarado ignorante, alienado, retrógrado, elitista, radical, ingênuo, perigoso, confuso ou — esse clássico tão elástico quanto intelectualmente preguiçoso — “problemático”.

É admirável a criatividade vocabular de quem possui tão pouca tolerância ao dissenso. O catequista social não argumenta para compreender; argumenta para converter. Seu objetivo nunca foi diálogo. Seu objetivo é adesão. Ele entra em qualquer tema com o mesmo fervor burocrático de um funcionário espiritual encarregado de distribuir certificados de pureza ideológica: Se falas de arte, ele politiza; se falas de Ciência, ele ideologiza; se falas de música, ele sociologiza; se falas de silêncio, ele suspeita; se não falas nada, ele interpreta teu silêncio como posicionamento estratégico. Nada escapa.

A chuva precisa ter narrativa, a literatura precisa ter utilidade social, a música precisa servir a alguma bandeira, o pensamento precisa obedecer a alguma corrente e até o café, se der tempo, talvez precise declarar filiação ética. Falta apenas regulamentarem o bocejo. E talvez o façam em alguma conferência internacional sobre expressões faciais socialmente responsáveis. Há nisso uma comicidade sutilmente trágica, porque os mesmos que proclamam pluralidade costumam demonstrar profundo desconforto diante da pluralidade real. Gostam de diversidade — desde que ela venha cuidadosamente domesticada, higienizada e aprovada pelo departamento central das opiniões permitidas.

Divergência, para muitos, é linda em teoria e intolerável na prática. A liberdade é celebrada com entusiasmo quase religioso… até que alguém a exerça de maneira inconveniente. A partir daí, começam os rituais: vêm os olhares escandalizados, as correções paternalistas, as aulas não solicitadas, as pregações com ar de superioridade filantrópica, as exortações performáticas e os sermões laicos de quem se imagina guardião da sensatez universal. E é curioso como certos indivíduos combatem dogmas com o fervor exato de novos dogmáticos. É simples: mudam os altares e permanecem os sacerdotes. E então surgem os devotos da coletividade obrigatória: aqueles que parecem sofrer de urticária existencial ao descobrir que alguém pensa sem consultar tribos, partidos, bolhas, cartilhas, confrarias emocionais ou assembleias de aprovação moral: “Mas como assim tu não te alinhas?” “Como assim não te identificas integralmente?” “Como assim não assumes esse pacote completo de crenças?” Como se pensar fosse um serviço por assinatura.

Como se a consciência viesse em combo promocional. Escolha o plano ouro: indignações ilimitadas, opiniões pré-formatadas e direito a superioridade moral em horário comercial. Há algo quase cômico nessa fome de alinhamento. O ser humano, esse animal capaz de filosofia, astronomia, poesia, matemática e música, frequentemente prefere a segurança infantil de repetir o que sua tribo já mastigou. Pensar exige esforço e repetir exige apenas pulmões. E há pulmões heroicamente ativos.

Não tenho paciência para catequese social porque ela frequentemente nasce de uma arrogância cuidadosamente disfarçada de benevolência. Parte do pressuposto de que o outro precisa ser ajustado, educado, corrigido, enquadrado, orientado ou resgatado de si mesmo. É o paternalismo vestido de virtude. A tutela maquiada de empatia. A vaidade intelectual usando crachá humanista. Não raro, os grandes pregadores da tolerância demonstram uma intolerância notável ao pensamento independente. Falam em escuta, mas desejam eco, falam em diálogo, mas exigem adesão, falam em consciência crítica, enquanto punem qualquer consciência que critique o próprio catecismo. É uma engenharia social de sofisticação curiosa: convencer o indivíduo de que pensar sozinho é suspeito, e obedecer coletivamente é maturidade. Recuso. Não por rebeldia teatral, não por pose contrária e não é por fetiche de isolamento, mas, porque a consciência não foi feita para funcionar como rebanho ornamental. Gosto de pessoas que discutem.

Desconfio das que doutrinam. Respeito quem argumenta. Evito quem catequiza. Admiro quem pensa. Temo, intelectualmente, quem apenas reproduz. Porque a história humana — essa coleção gloriosa e desastrosa de civilizações, colapsos, ideologias, guerras e certezas pomposamente equivocadas — já ensinou o bastante sobre o perigo de massas apaixonadas demais por unanimidades. Toda catequese começa prometendo esclarecimento e muitas terminam produzindo obedientes… ou ignorantes.

Por isso, preservo com zelo quase litúrgico meu direito de discordar, rir, recusar, duvidar, contrariar, silenciar e pensar: Sem cartilha, sem coral, sem tutor moral, sem sacerdócio ideológico e sem fila para absolvição social. Não tenho paciência para catequese social. Se isso escandaliza alguns pregadores da pedagogia universal, paciência. Ou melhor: paciência é justamente o que eu não tenho.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

DESINFORMAÇÃO TRAVESTIDA DE ESPETÁCULO

Vivemos tempos curiosos — e perigosamente barulhentos. Nunca se teve tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca se produziu tanta ignorância com tanto requinte estético. A ignorância, hoje, não anda mais malvestida: ela usa trilha sonora épica, thumbnail flamejante, voz grave de narrador de trailer e uma confiança que só a ausência completa de método científico pode proporcionar: É a era da desinformação travestida de espetáculo.

Um meteoro cruza o céu — fenômeno banal, belíssimo, conhecido desde que o primeiro hominídeo levantou os olhos da savana. Mas não: agora ele não é mais um fragmento rochoso queimando a dezenas de quilômetros por segundo sob o efeito do atrito atmosférico. Ele vira sinal, mensagem, sonda, prenúncio, aviso dos céus. Sempre um aviso, curiosamente nunca uma aula de física. O céu, que por milênios inspirou astrônomos, poetas e navegadores, foi rebaixado a palco de teatro apocalíptico de quinta categoria. Não se trata de ingenuidade. Trata-se de mercado.

O algoritmo não recompensa a verdade; recompensa o espanto. A dúvida metódica perde para a afirmação categórica. O “não sabemos ainda” é atropelado pelo “é isso aqui, CONFIA”. A ciência, lenta, cuidadosa e elegantemente chata, perde espaço para a profecia berrada, porque a profecia não pede fontes — pede curtidas. E assim, telescópios viram presságios. Asteroides ganham intenções. Órbitas passam a ter vontade própria. A física é dispensada em favor de uma narrativa onde o Universo conspira, planeja e envia mensagens cifradas para youtubers munidos de microfone barato e convicções caríssimas.

Nada disso é novo. Apenas ganhou HD, 4K e monetização. Na Idade Média, cometas anunciavam a morte de reis. Hoje, anunciam o fim do mundo — com link na descrição. A superstição não desapareceu; ela apenas aprendeu a editar vídeos e usar SEO. E aqui surge um detalhe particularmente perverso: a apropriação da fé. Textos sagrados, ricos em simbolismo, história e profundidade moral, são reduzidos a slogans apocalípticos de consumo rápido. A Bíblia, que jamais se propôs a ser um tratado de astrofísica, é convocada como se fosse um manual de impactos orbitais. Versículos são arrancados do contexto com a delicadeza de um asteroide em colisão frontal com o bom senso.

Isso não fortalece a fé. Isso a empobrece. Não esclarece o mundo. Apenas o assusta.

A ironia suprema é que o Universo real é infinitamente mais fascinante do que essas fantasias. A física das altas energias, a química dos elementos, a dança gravitacional dos corpos celestes — tudo isso é grandioso, elegante, quase musical. Mas exige estudo. E estudo não viraliza. Então troca-se Kepler por conspiração. Newton por narrador dramático. Carl Sagan por alguém que começa frases com “eles não querem que você saiba”. E o público? O público, cansado, ansioso, sobrecarregado, aceita. Porque o espetáculo é mais confortável que o pensamento. Pensar cansa. Duvidar dá trabalho. Conferir fontes é um esforço que concorre diretamente com a dopamina instantânea.

Não se trata de negar riscos reais. A Terra pode, sim, ser atingida. Já foi. Será de novo, em escalas de tempo que não combinam bem com thumbnails histéricas. A ciência não promete segurança absoluta — ela promete honestidade intelectual. E isso, para o mercado do pânico, é pouco vendável. O problema não é olhar para o céu com temor. O problema é olhar para ele sem razão.

A desinformação travestida de espetáculo não quer compreender o cosmos — quer explorá-lo emocionalmente. Ela não educa; excita. Não esclarece; dramatiza. Não convida ao conhecimento; convoca ao pânico. E, no fim, o resultado é trágico e cômico ao mesmo tempo: um mundo que teme meteoros imaginários, mas ignora problemas reais; que grita “apocalipse” diante de um rastro luminoso, mas boceja diante da erosão da razão. Talvez o verdadeiro impacto não venha do espaço. Talvez ele já esteja aqui — silencioso, persistente, orbitando nossas telas, colidindo diariamente com o pensamento crítico.

E esse, infelizmente, não deixa rastro no céu.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

FUTEBOL, O ÓPIO DAS MULTIDÕES

Ah, o futebol no Brasil… esse espetáculo quase sagrado que se ergueu não apenas como esporte, mas como religião de massas, ópio das multidões e fator de exclusão social velado. Desde o primeiro choro de uma criança, lá está ele: a bola rolando, a televisão ligada, o vizinho gritando, o tio comentando sobre o último escândalo do campeonato, a professora mencionando o gol de ontem… tudo conspirando para que cada ser humano, voluntariamente ou não, absorva a ideia de que amar o futebol é sinônimo de ser brasileiro, e, se não amar, você é, no mínimo, uma aberração social.

Não se engane: não é apenas amor pelo esporte. É um padrão cultural imposto com mãos invisíveis, mais sutil e perseverante do que qualquer ditadura. Cada conversa de elevador, cada intervalo de trabalho, cada reunião familiar está, de alguma forma, insinuando que, se você não acompanha o futebol, algo está errado com você. E o mais fascinante é que essa pressão nem sempre vem acompanhada de violência — é um terrorismo psicológico elegante, disfarçado de “simplicidade e paixão nacionais”.

E cá estamos nós, os insolentes; mas nós, os insolentes, os hereges do esporte obrigatório, temos a audácia de olhar além da bola. Ah, sim: ousamos explorar o mundo. E que mundo!

• Tênis: pura estratégia, reflexo, precisão cirúrgica. Cada saque, cada voleio, cada devolução é um cálculo matemático da alma. Aqui, a beleza é racional e estética — e não um espetáculo barulhento de torcedores histéricos.

• Fórmula 1: engenharia, coragem e perícia no limite humano. Enquanto uns aplaudem gols previsíveis, nós nos emocionamos com cada curva a 300 km/h, cada ultrapassagem milimétrica, cada motor rugindo como fera selvagem.

• Motovelocidade: ousadia no extremo, adrenalina sem igual. O piloto se torna poesia em movimento, voando sobre o asfalto, enquanto o resto do país segue hipnotizado por um uniforme verde e amarelo correndo atrás de uma bola.

• Hóquei, Rugby, Ski Alpino, Golf, Baseball, NFL: cada esporte com sua complexidade, sua inteligência, seu risco e emoção. Cada um um mundo próprio, infinitamente mais rico do que qualquer campeonato nacional de futebol que insiste em se repetir com a previsibilidade de novela das seis.

Nós, os heréticos, os que não nos curvamos diante do altar do Maracanã ou do Mineirão. Para nós, o mundo é mais vasto do que 11 contra 11 em um gramado. Nós procuramos a adrenalina no gelo do hóquei canadense, o cálculo preciso do golfista concentrado, a estratégia intensa de um jogo de rugby ou até a precisão quase cirúrgica do quarterback na NFL. Porque, meus amigos, a beleza da competição não precisa vir embrulhada em verde e amarelo — e sim, ela pode ser muito mais refinada, complexa e intelectualmente estimulante.

O futebol, no Brasil, transformou-se em uma espécie de grande narrativa obrigatória, uma encenação de identidade nacional que se sobrepõe à diversidade dos gostos, das culturas e, ouso dizer, das inteligências. Para os que ousam fugir do script, a consequência não é excomunhão formal, mas sim aquele olhar discreto de reprovação social, a piada indireta, a pergunta inevitável: “Como assim você não gosta de futebol?” Como se a vida pudesse ser resumida a um campeonato interminável, com gols, gritos e discussões intermináveis sobre árbitros.

E ainda assim, não podemos deixar de rir. Porque a ironia do Brasil futebolístico é tão intensa que até o mais cético se vê diante de uma comédia: está todo mundo envolvido, discutindo, apaixonado, mas, no fundo, o país inteiro está de olhos vidrados em algo que, racionalmente, é apenas uma bola sendo chutada. É um teatro magnífico, com direito a drama, tragédia e óperas de torcidas, e nós, os não fiéis, apenas observamos com um misto de divertimento e incredulidade.

Portanto, caros heréticos do esporte obrigatório: celebremos nossa rebeldia silenciosa. Que possamos encontrar adrenalina, emoção e beleza onde quisermos — no hóquei, no jazz, na bossa nova, no progressive rock ou até no silêncio elegante de uma Antena 1 tocando Nat King Cole à meia-noite. Porque nem tudo é futebol, nem tudo precisa ser futebol, e, às vezes, fugir da imposição cultural é a forma mais pura de inteligência e prazer.

E, cá entre nós, se algum dia alguém nos perguntar com aquele ar de reprovação: “Como assim você não gosta de futebol?”, podemos apenas sorrir e responder com toda elegância: “Meu amigo, prefiro o mundo inteiro à sua bola.”

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

GOSTO DE PENSAR POR CONTA PRÓPRIA

Há uma estranha patologia social que acomete certos espíritos domesticados: a necessidade quase litúrgica de ver todos agrupados, catalogados, alinhados e, de preferência, ajoelhados diante de alguma engrenagem coletiva que lhes dite o que pensar, o que repetir, a quem reverenciar e em qual direção moral devem inclinar o pescoço. Para muitos, existir parece insuficiente; é preciso pertencer. Não basta raciocinar; urge aderir. Não se admite a solidão intelectual de quem caminha por convicção própria. É necessário um selo, uma bandeira, uma fraternidade, uma comissão, uma sigla, uma ordem, um círculo, uma irmandade ou qualquer outro teatro burocrático onde almas voluntariamente tuteladas possam sentir o conforto pueril de não precisar pensar por si.

Eu, porém, nutro um apreço quase herético pela autonomia.

Não porque despreze a convivência humana — seria uma tolice misantrópica e pueril —, mas porque sempre me causou profunda estranheza essa devoção febril por estruturas que, sob o verniz da organização, frequentemente ocultam mecanismos de conformismo, vaidade grupal, hierarquias de ego e a silenciosa substituição do pensamento pela adesão.

Há indivíduos que, ao descobrirem que alguém não pertence a partido algum, irmandade alguma, confraria alguma, agremiação alguma ou clube de iluminados autoproclamados, olham com a perplexidade quase zoológica de quem observa um animal improvável.

“Mas como?”, perguntam.
“Tu não és filiado?”
“Não participas?”
“Não te identificas?”
“Não te engajas?”

E por trás dessas perguntas, muitas vezes, esconde-se uma premissa tacitamente ridícula: a de que o homem só adquire densidade social quando incorporado a alguma máquina ideológica, cívica, ritualística ou institucional.

Discordo com a serenidade cortante de quem não precisa pedir licença para pensar.

Jamais me encantou a ideia de submeter minha consciência a catecismos partidários, cartilhas ideológicas ou fidelidades de rebanho travestidas de militância esclarecida. A política organizada, quando excessivamente idolatrada, frequentemente transforma homens em repetidores de slogans e mulheres em guardiãs histéricas de ortodoxias ocasionais. Não raro, o sujeito deixa de pensar e passa a reproduzir. Troca o cérebro pela sigla e a reflexão pelo aplauso tribal.

E o fenômeno não se restringe à política.

Há confrarias, ordens, clubes, fraternidades e associações que, embora revestidas de respeitabilidade social, frequentemente carregam consigo o fascínio quase medieval da pertença cerimonial. Reuniões, títulos, protocolos, solenidades, hierarquias, símbolos, formalidades e aquela velha tentação humana de confundir ritual com profundidade. Como se usar insígnias, sentar-se em mesas deliberativas ou participar de encontros regados a discursos autocelebratórios convertesse automaticamente alguém em entidade moralmente superior.

Não converte.

A pompa não fabrica lucidez.
O rito não gera caráter.
A filiação não substitui inteligência.
O pertencimento não garante grandeza.

Sempre preferi o desconforto fértil da liberdade ao conforto plastificado da tutela. Pensar por conta própria é um ofício solitário e, por vezes, ingrato. Exige coragem para contrariar tribos; exige serenidade para não implorar aprovação; exige firmeza para suportar o espanto daqueles que confundem independência com arrogância e autonomia com rebeldia vazia. Mas há uma dignidade rara em não terceirizar a consciência.

Não desejo que estruturas definam o que devo admirar.
Não desejo que grupos ditem o que devo defender.
Não desejo que organizações me instruam sobre quais indignações são permitidas, quais silêncios são elegantes ou quais crenças são aceitáveis no mercado das virtudes públicas.

Se quero refletir, reflito.
Se quero discordar, discordo.
Se quero me afastar, afasto-me.
Se quero permanecer só com minhas ideias, minha música, meus livros, minha ciência e meu silêncio — permaneço.

E nisso não há isolamento patológico. Há escolha. Porque a liberdade, quando compreendida em sua forma mais austera, não é gritaria, exibicionismo ou pose pseudoanárquica de salão. Liberdade é não precisar de tutorias emocionais, ideológicas ou institucionais para validar a própria existência.

Há quem se realize em partidos.
Há quem floresça em irmandades.
Há quem encontre sentido em clubes, conselhos, ordens ou fraternidades.

Que lhes faça bem. Mas não me peçam reverência àquilo que jamais me despertou interesse. Não me seduz o coro. Não me impressiona a liturgia da obediência. Não me encanta a arquitetura social da submissão elegante. Gosto de pensar por conta própria. E não quero minha vida organizada por estruturas que não me interessam. Se isso incomoda alguns, talvez não seja um defeito da liberdade. Talvez seja apenas o incômodo inevitável que a independência causa em espíritos excessivamente acostumados a marchar em fila.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A SOFISTICAÇÃO DA BURRICE ORGANIZADA

A burrice, em sua forma primitiva, raramente assusta. Ela é barulhenta, previsível, quase folclórica. Costuma apresentar-se sem disfarces: no grito desproporcional, na opinião mal digerida, na certeza produzida sem reflexão e naquele orgulho quase atlético de quem desconhece tudo e, ainda assim, fala como se houvesse sido nomeado oráculo da civilização. Essa modalidade rudimentar da estupidez é facilmente reconhecível. O problema começa quando a burrice se educa: Quando aprende vocabulário; quando descobre protocolos; quando veste terno; quando cita autores que não compreende; quando adquire cargos; quando frequenta auditórios; quando domina jargões; quando fala pausadamente; quando aprende a transformar superficialidade em método e presunção em aparência de inteligência. Aí ela deixa de ser apenas burrice. Torna-se sofisticação da burrice organizada.

Há uma diferença monumental entre ignorância honesta e estupidez institucionalizada porque a ignorância pode aprender, a dúvida pode amadurecer e o desconhecimento pode ser corrigido. Mas a burrice organizada é mais ambiciosa. Ela não quer compreender. Quer administrar. Não deseja refletir. Deseja normatizar. Não busca a verdade. Busca autoridade. Seu habitat natural não é apenas a mente individual, mas o coro. Ela prospera em ambientes onde repetir vale mais que examinar, onde consenso vale mais que raciocínio e onde a estética da convicção substitui o trabalho árduo da inteligência. A burrice solitária tropeça. A burrice organizada marcha. E marcha com uma segurança admirável: Ela redige manifestos, produz cartilhas, cria comissões, forma tribunais morais, estabelece consensos apressados, distribui certificados simbólicos de lucidez, condena heresias intelectuais e confunde volume com razão e unanimidade com verdade. É uma maquinaria surpreendentemente eficiente.

Há indivíduos incapazes de formular pensamento próprio, mas extraordinariamente talentosos em repetir o pensamento dominante com solenidade quase sacerdotal. Tornam-se especialistas em eco. Não analisam; reverberam. Pensar é exaustivo. Imitar é administrativamente mais simples. E há uma beleza tragicômica nisso. O sujeito que jamais leu profundamente determinado tema fala com feroz autoridade sobre ele. O que conhece apenas resumos distribui pareceres. O que compreendeu meia frase de um autor transforma-se em missionário intelectual de terceira mão. O que decorou terminologias técnicas acredita haver domesticado a complexidade. É a ilusão erudita do papagaio. Uma criatura verbalmente equipada e conceitualmente faminta. A burrice organizada raramente se apresenta como grotesca. Seu maior triunfo está justamente na aparência de respeitabilidade pois ela pode surgir em discursos pomposos, em burocracias autossatisfeitas, em círculos de autoelogio intelectual, em instituições que confundem tradição com infalibilidade, em grupos que chamam repetição de consciência crítica, em coletivos que chamam alinhamento de maturidade e em ambientes onde discordar passa a ser tratado como infração estética.

Ali, o pensamento começa a adoecer. Não por ausência de informação — vivemos cercados dela —, mas por excesso de certezas mal metabolizadas. O homem contemporâneo, cercado por bibliotecas, ciência, arquivos, história, filosofia, arte e acesso quase ilimitado ao conhecimento, ainda assim conseguiu realizar um prodígio melancólico: organizar a superficialidade com eficiência admirável. Criou painéis para debater o óbvio. Seminários para repetir slogans. Comitês para legitimar trivialidades. Debates onde ninguém debate. Fóruns onde todos concordam com variações decorativas da mesma ideia. É a coreografia refinada da mediocridade. Nada mais perigoso do que a estupidez que aprendeu etiqueta.

Porque a brutalidade intelectual explícita ao menos se denuncia. Mas a burrice sofisticada argumenta mal com elegância, erra com segurança, simplifica com arrogância, dogmatiza com educação impecável e sorri enquanto reduz a complexidade humana a fórmulas mastigáveis. Ela adora frases definitivas. Detesta nuance. Desconfia da dúvida. Tem alergia a ambiguidades.
Prefere sistemas fechados porque a inteligência genuína, com sua natureza inquieta e indisciplinada, sempre ameaça a estabilidade confortável dos simplistas organizados.

O espírito verdadeiramente inteligente frequentemente hesita. Examina. Revê. Corrige. Suspende juízo. Tolera incertezas.

A burrice organizada considera isso fraqueza. Ela prefere certezas musculosas. Mesmo que sejam ocas. Talvez por isso tantos grupos pareçam mais apaixonados por parecerem lúcidos do que por tornar-se lúcidos. A aparência de profundidade virou uma indústria. Há jargão sem pensamento. Militância sem reflexão. Autoridade sem estudo. Fervor sem lucidez. Convicção sem lastro. Discurso sem alma. E, paradoxalmente, tudo isso pode soar extremamente sofisticado. Mas verniz nunca foi sinônimo de substância. Senão, vejamos: Uma biblioteca não salva um tolo de continuar tolo; um cargo não converte mediocridade em sabedoria; uma plateia não absolve a estupidez; uma instituição não santifica erro repetido; uma unanimidade não corrige raciocínio defeituoso e um coro jamais substituiu consciência.

A sofisticação da burrice organizada reside exatamente nisso: sua capacidade quase genial de parecer respeitável enquanto empobrece o pensamento. Por isso, talvez uma das formas mais raras de inteligência hoje seja algo escandalosamente simples: duvidar, pensar, examinar e não ajoelhar-se diante de toda estupidez. E lembrem-se que essa estupidez, tem nove dedos.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A REPÚBLICA BANÂNICA DOS PULHAS

Há países que naufragam por guerras. Outros, por terremotos, fome, invasões ou catástrofes históricas incontornáveis. Há nações cuja ruína vem de fora, esmagadas por impérios, atravessadas por exércitos ou mutiladas pela própria geografia. Mas existem aquelas cujo colapso é artesanal, lento, meticuloso, produzido diariamente pelas mãos de seus próprios habitantes mais influentes — homens e mulheres que descobriram, há muito tempo, que a degradação também pode ser um projeto político. A República Banânica dos Pulhas não foi destruída por inimigos externos. Foi carcomida internamente por uma aristocracia moralmente anêmica, por burocratas adiposos de privilégios, por mercadores da virtude, por sacerdotes da conveniência, por intelectuais de aluguel e por uma fauna inteira de oportunistas profissionais que aprenderam a transformar o caos em método de enriquecimento. Ali, o absurdo não é exceção: é sistema. Os pulhas da República Banânica não usam necessariamente máscaras. Muitos vestem ternos impecáveis, gravatas austeras e discursos adornados por palavras como “democracia”, “justiça social”, “responsabilidade institucional”, “compromisso republicano” e “defesa do povo”. São especialistas em vocabulário moral. Possuem uma habilidade extraordinária para transformar slogans em anestesia coletiva: Falam em ética enquanto contam dinheiro; falam em transparência atrás de cortinas de fumaça; falam em liberdade enquanto negociam censuras discretas; falam em igualdade viajando em carros blindados, cercados por seguranças pagos por aqueles mesmos miseráveis aos quais juram representar.

Na República Banânica dos Pulhas, a corrupção não é um acidente de percurso; ela constitui o próprio cimento invisível das relações de poder. Ela não habita apenas cofres clandestinos ou contratos fraudulentos. Não. A corrupção ali é mais profunda e sofisticada: é filosófica. Corromperam a linguagem; corromperam o mérito; corromperam a educação; corromperam a noção de vergonha e criaram uma civilização onde o escândalo dura quarenta e oito horas e o esquecimento tornou-se política pública informal. Os pulhas compreenderam algo essencial sobre a psicologia coletiva: um povo exausto não reage. Um povo cansado apenas sobrevive. Portanto, mantiveram a população permanentemente ocupada com a inflação, o medo, a insegurança, a burocracia, a humilhação cotidiana e a sobrevivência econômica. Enquanto o cidadão comum enfrenta filas, impostos obscenos, hospitais decadentes e escolas moribundas, os arquitetos da decadência organizam banquetes sem fim nos salões refrigerados do poder. A República Banânica é pródiga em ironias; os defensores da austeridade vivem na opulência; os autoproclamados revolucionários transformaram-se em oligarcas; os inimigos dos privilégios acumulam privilégios hereditários; os paladinos do povo desprezam o próprio povo em jantares privados; e os supostos guardiões da ordem jurídica aprenderam a dobrar a lei como quem dobra guardanapos.

Tudo ali é seletivo. A indignação é seletiva. A justiça é seletiva. A memória é seletiva. O moralismo é seletivo. O escândalo depende do sobrenome. A culpa depende da conveniência. O perdão depende da utilidade política. Há, na República Banânica dos Pulhas, uma classe particularmente perigosa: os farsantes ilustrados. São indivíduos que substituíram inteligência por esperteza retórica. Citam filósofos que jamais compreenderam. Invocam conceitos que jamais praticaram. Ornamentam mediocridades com terminologia acadêmica para conferir aparência de profundidade àquilo que não passa de propaganda sofisticada. Esses pulhas intelectuais produzem uma névoa verbal permanente. Não esclarecem: confundem. Não debatem: intimidam. Não argumentam: rotulam. Sua missão é transformar o óbvio em tabu e o disparate em virtude. Enquanto isso, a população assiste ao espetáculo como quem observa um cassino pegando fogo.

E talvez o traço mais perverso da República Banânica seja justamente a normalização do grotesco. Escândalos monumentais tornaram-se ruído de fundo. O inacreditável virou rotina. A mentira perdeu o peso. O cinismo tornou-se elegância. Os pulhas descobriram que a repetição constante do absurdo produz anestesia moral. Depois do décimo escândalo, o cidadão já não reage com indignação; reage com fadiga. E é nesse ponto que os pulhas vencem. Porque nada favorece mais a mediocridade autoritária do que uma sociedade emocionalmente exaurida. Mas seria simplista imaginar que a República Banânica dos Pulhas é composta apenas por políticos profissionais. Não. Os pulhas espalham-se como fungos institucionais. Habitam setores empresariais, tribunais, redações, sindicatos, universidades, repartições públicas e até movimentos que nasceram proclamando pureza moral. Toda estrutura de poder ali parece desenvolver, mais cedo ou mais tarde, uma camada de parasitas especializados em transformar causas legítimas em negócios privados.Há os pulhas patrióticos, há os pulhas revolucionários, há os pulhas religiosos, há os pulhas tecnocráticos, há até os pulhas anticorrupção. Cada um utiliza a bandeira que melhor lhe convém. Todos possuem o mesmo apetite, porque na República Banânica, a verdadeira tragédia não é apenas econômica ou institucional. É espiritual. O país sofre de erosão simbólica, as pessoas já não acreditam nas palavras, já não acreditam nas instituições, já não acreditam nos discursos oficiais e a confiança coletiva foi saqueada.

E uma sociedade sem confiança transforma-se lentamente numa selva burocrática onde cada indivíduo tenta sobreviver sozinho, desconfiando de todos.Os pulhas compreenderam que o povo dividido é mais fácil de administrar. Por isso alimentam antagonismos incessantes. Transformam qualquer debate em guerra tribal. Reduzem questões complexas a slogans infantis. Incentivam histerias coletivas porque multidões emocionalmente inflamadas raramente fazem perguntas profundas: A superficialidade é estratégica, o barulho é estratégico e a polarização é estratégica. Enquanto a população se destrói em discussões intermináveis, os verdadeiros operadores da República Banânica seguem blindados, acumulando patrimônio, influência e poder. E há algo quase teatral em tudo isso. Os pulhas adoram cerimônias. Gostam de solenidades, tapetes vermelhos, discursos pomposos, notas oficiais e fotografias cuidadosamente calculadas. Precisam encenar grandeza porque, intimamente, sabem da própria pequenez.

O excesso de liturgia frequentemente esconde a miséria ética pois a República Banânica dos Pulhas é também o reino da inversão moral. Ali, o homem honesto frequentemente parece ingênuo. O trabalhador produtivo é tratado como animal tributável. O empreendedor é visto simultaneamente como fonte inesgotável de arrecadação e suspeito em potencial. O cidadão comum sustenta uma máquina que o despreza. E os pulhas, confortavelmente instalados em seus palácios administrativos, discutem “o povo” como entomólogos discutem insetos. Contudo, talvez o aspecto mais fascinante da República Banânica seja sua extraordinária capacidade de sobreviver ao próprio ridículo. Qualquer observador racional imaginaria que um sistema tão grotesco implodiria rapidamente sob o peso das próprias contradições. Mas não. A República Banânica persiste: Persiste porque há riqueza natural, persiste porque há gente trabalhadora, persiste porque há criatividade popular, persiste porque milhões de cidadãos honestos continuam acordando cedo, pagando impostos, sustentando famílias e impedindo o colapso absoluto.

Em outras palavras: a República Banânica sobrevive apesar dos pulhas, não por causa deles. E talvez seja justamente isso que mais enfureça os arquitetos da decadência. O fato de que o país real — aquele das padarias, oficinas, escolas simples, feiras livres, agricultores, caminhoneiros, professores honestos, pequenos comerciantes e trabalhadores anônimos — continue existindo independentemente do teatro grotesco do poder. Porque os pulhas necessitam da máquina. Já o povo, frequentemente, sobrevive apesar dela. No fim, toda República Banânica produz inevitavelmente duas nações paralelas: A primeira é a nação oficial: pomposa, burocrática, discursiva, inflada de propaganda e sustentada por uma elite especializada em transformar privilégios em virtudes cívicas; a segunda é a nação real: silenciosa, cansada, trabalhadora e frequentemente humilhada. Os pulhas governam a primeira. A segunda apenas paga a conta.

Mas a História possui um senso de humor cruel. Impérios caíram. Monarquias ruíram. Tiranias aparentemente eternas dissolveram-se como fumaça. E toda aristocracia de pulhas acaba, cedo ou tarde, esmagada pela própria arrogância. Porque existe algo que os manipuladores profissionais raramente compreendem: nenhuma engenharia de propaganda consegue abolir indefinidamente a realidade. A realidade cobra. Cobra nas ruas. Cobra na economia. Cobra na cultura. Cobra na confiança destruída. Cobra nas gerações futuras. E quando a conta finalmente chega, os pulhas fazem aquilo que sempre fizeram ao longo da História: procuram culpados externos, inventam narrativas heroicas sobre si mesmos e tentam escapar pelos corredores da própria irresponsabilidade. Mas há momentos em que até o verniz institucional já não consegue ocultar o cheiro da decadência. E talvez seja exatamente nesse instante — quando o grotesco deixa de parecer normal — que a República Banânica dos Pulhas começa finalmente a confrontar o espelho. Um espelho cruel. Sem slogans. Sem propaganda. Sem maquiagem retórica. Apenas o reflexo nu de uma nação exausta de sustentar parasitas vestidos de estadistas.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

TRATADO BREVE SOBRE VERMES DE TERNO

Um estudo quase científico acerca da fauna política nacional

Há países que cultivam jardins. Outros, bibliotecas. Alguns erguem monumentos para celebrar seus heróis, suas vitórias, seus poetas e suas revoluções. E há o Brasil. O Brasil cultiva vermes. Não os discretos habitantes da terra úmida, cuja humilde função ecológica consiste em devolver fertilidade ao solo. Esses, ao contrário de certos homens públicos, possuem utilidade mensurável e honestidade biológica. Os vermes aqui tratados pertencem a outra categoria: rastejam sobre tapetes caros, alimentam-se de verbas públicas, multiplicam-se em gabinetes refrigerados e possuem extraordinária capacidade de sobreviver a qualquer escândalo, investigação, CPI, delação, operação policial ou vergonha. São criaturas resilientes. A vergonha, aliás, é substância fatal para organismos superiores. Para eles, entretanto, funciona como adubo. Não possuem ideologia; possuem metabolismo. A bandeira muda conforme o vento. O discurso muda conforme a pesquisa eleitoral. O caráter muda conforme o inquérito. Apenas a fome permanece. E que fome. Há vermes que devoram orçamentos inteiros enquanto discursam sobre patriotismo. Há os que transformam hospitais em ruínas enquanto sorriem diante das câmeras segurando criancinhas desnutridas. Há os que falam em educação com a eloquência de quem jamais frequentou uma biblioteca sem fotógrafos presentes. São especialistas em três ciências nacionais: a retórica vazia, a sobrevivência institucional e a arte barroca de jamais responder objetivamente a uma pergunta simples. Nenhuma espécie conhecida pela zoologia consegue produzir tantas palavras para dizer absolutamente nada.

I — O Verme Hipócrita-Comum: Espécie abundante. Habita parlamentos, comissões, entrevistas televisionadas e redes sociais administradas por assessores pagos com dinheiro público. Seu comportamento é fascinante. Condena ferozmente aquilo que praticará na semana seguinte. Defende austeridade viajando em jatos oficiais. Combate privilégios enquanto amplia os próprios. Fala em sacrifício nacional com a boca ainda úmida de lagosta institucional. É um verme adaptável. Sobrevive tanto à direita quanto à esquerda, tanto ao centro quanto ao subterrâneo. Seu habitat ideológico é o oportunismo. Quando acuado, utiliza mecanismos defensivos sofisticados: “Fui mal interpretado.” “Tiraram do contexto.” “A imprensa distorceu.” “Isso é perseguição.” Jamais diz: “Sim. Eu menti.” Porque a mentira, para essa espécie, não constitui falha moral. Constitui método administrativo.

II — O Verme Nepotista: Este não governa. Coloniza. Sua visão de Estado lembra um almoço de família. O primo torna-se assessor. A esposa assume secretaria. O cunhado coordena contratos. O sobrinho administra licitações. O amigo da pescaria recebe cargos estratégicos. O país converte-se em herança de mesa de jantar. Seu grande sonho não é construir uma nação. É transformar o orçamento público numa empresa familiar sem concorrência. Esse verme aprecia fotografias. Sorri ao lado de obras inacabadas. Corta fitas de hospitais sem médicos. Inaugura estradas que terminam no nada. Adora placas com seu nome. Se pudesse, gravaria o próprio rosto na lua.

III — O Verme Messiânico: Talvez o mais perigoso. Não deseja apenas votos. Deseja fé. Fala como profeta, gesticula como mártir e exige devoção absoluta. Seus seguidores não apoiam ideias; praticam liturgia. Qualquer crítica transforma-se em heresia. Qualquer dúvida torna-se traição. Qualquer pergunta é considerada conspiração. Ele divide o mundo entre puros e inimigos. Entre patriotas e traidores. Entre iluminados e demônios. E enquanto multidões brigam entre si nas ruas e nas redes sociais, o verme sorri discretamente em salas climatizadas, cercado por seguranças, privilégios e acordos subterrâneos. Nada alimenta mais certos parasitas do que povos emocionalmente inflamados. O fanatismo é o combustível premium da corrupção.

IV — O Verme Retórico: Este é particularmente elegante. Fala difícil para esconder o vazio. Produz frases longas, rebuscadas, empilhadas como móveis antigos numa casa sem moradores. Cita filósofos que jamais leu. Pronuncia “democracia”, “institucionalidade”, “resiliência”, “governabilidade”, “arcabouço”, “pluralidade” e “compromisso republicano” com a solenidade de um sacerdote egípcio. E ao final do discurso, ninguém sabe exatamente o que foi dito. Sua grande habilidade consiste em transformar fumaça em pronunciamento oficial. É um mágico sem coelhos.

V — O Verme Predador de Esperanças: Talvez o mais abundante de todos. Alimenta-se de gente simples. Promete dignidade a quem perdeu quase tudo. Promete segurança a quem vive atrás de grades. Promete prosperidade a quem já desistiu de sonhar. Promete honestidade enquanto negocia silenciosamente sua próxima aliança obscena. Ele conhece perfeitamente o sofrimento popular. Porque vive dele. A miséria é seu palanque. O caos é seu marketing. A tragédia social é seu capital eleitoral. Quanto pior estiver o país, maior a necessidade de salvadores improvisados. E assim o ciclo continua. O verme cria o incêndio e depois vende baldes d’água diante das câmeras.

VI — O Verme Camaleônico: Raríssimo exemplar de elasticidade moral. Ontem defendia uma bandeira. Hoje combate exatamente a mesma bandeira. Amanhã jurará que jamais esteve em qualquer dos lados. Muda de partido com a naturalidade de quem troca gravatas. Seus discursos antigos desaparecem misteriosamente. Vídeos evaporam. Publicações somem. Convicções dissolvem-se. É o evolucionismo aplicado à ausência de caráter.

VII — O Verme Aristocrático: Esse despreza o povo enquanto afirma amá-lo. Acha-se iluminado. Considera o cidadão comum uma criatura estatística cuja função principal é votar, pagar impostos e desaparecer em silêncio. Fala sobre pobreza com a delicadeza antropológica de quem observa animais exóticos através de vidro blindado. Jamais enfrentou fila de hospital. Jamais entrou num ônibus lotado. Jamais precisou escolher entre comprar comida ou remédio. Mas possui opiniões fortíssimas sobre “o povo”. Sempre possui.

VIII — O Grande Ecossistema: O mais impressionante, contudo, não é a existência dos vermes. Vermes sempre existirão. O espantoso é o ecossistema que os protege. Empresários oportunistas. Influenciadores alugados. Militâncias cegas. Jornalistas domesticados. Intelectuais seletivos. Torcedores políticos. Todos participam da grande compostagem nacional. Cada grupo fingindo indignação apenas quando o verme rival está no poder. A corrupção do adversário é crime. A corrupção do aliado é contexto. A mentira do outro é escândalo. A própria mentira é estratégia. E assim a nação vai apodrecendo lentamente sob perfumes institucionais e discursos cerimoniais.

IX — A Liturgia da Impunidade: No Brasil, certos homens públicos não caem. Flutuam. Sobrevivem a áudios, vídeos, malas de dinheiro, escândalos internacionais, obras fantasmas, delações cinematográficas e promessas descumpridas. Porque aprenderam o segredo supremo da política nacional: O tempo destrói a memória pública mais rápido do que qualquer tribunal. Basta esperar. A próxima crise virá. O próximo escândalo surgirá. O próximo circo ocupará as manchetes. E então o verme reaparece sorridente, penteado, renovado, falando sobre ética e reconstrução nacional. Como se nunca tivesse participado da demolição anterior.

X — Considerações Finais Sobre a Lama: Dizem que toda nação possui os governantes que merece. Talvez. Mas certas sociedades também produzem sistemas tão profundamente deteriorados que a honestidade torna-se exceção folclórica. Eis a tragédia. Não a existência de vermes. Mas a normalização deles. A aceitação cotidiana da sujeira. O conformismo elegante diante do absurdo. O cidadão que já não se revolta. O eleitor que já não acredita. O jovem que já não espera. Esse é o verdadeiro colapso. Porque países não morrem apenas pela ação de corruptos. Morrem quando o cinismo substitui completamente a esperança. Ainda assim, há algo poeticamente irônico em tudo isso. Os vermes acreditam devorar eternamente o corpo da nação. Ignoram, porém, uma verdade biológica elementar: Todo verme depende da existência do organismo que consome. E quando o organismo finalmente entra em colapso, os próprios parasitas perecem junto com ele. Talvez seja essa a única justiça silenciosa da História. Lenta. Implacável. E inevitável.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CORRUPÇÃO NO BRASIL

Há países em que a corrupção é um desvio; no Brasil, com frequência desconcertante, ela se apresenta como método. Não como exceção escandalosa, mas como engrenagem silenciosa — ora disfarçada de pragmatismo político, ora travestida de “governabilidade”, ora ainda dissolvida na rotina burocrática que ninguém ousa decifrar por completo. O que deveria provocar repulsa torna-se, pouco a pouco, tolerável; e o que era tolerável, por fim, converte-se em regra.

A institucionalização da corrupção não se dá por decreto. Não há um ato formal que a inaugure, nem um marco jurídico que a legitime. Ela se infiltra. Instala-se nas brechas da lei, nas zonas cinzentas da interpretação, nas margens largas da discricionariedade. Cresce onde a complexidade serve de cortina e onde a opacidade é conveniente. E, quando percebida, já não é mais um corpo estranho — é parte do organismo.

O discurso oficial, invariavelmente, é impecável. Fala-se em responsabilidade, em compromisso público, em ética administrativa. Redigem-se códigos, multiplicam-se comissões, anunciam-se reformas. A liturgia é respeitada com rigor quase religioso. Mas, por trás da encenação, opera-se uma lógica mais antiga e mais resistente: a da apropriação do público pelo privado, do coletivo pelo particular, do Estado por interesses que jamais se submetem ao escrutínio aberto.

Não se trata apenas de grandes escândalos — esses, ao menos, têm o mérito involuntário de expor o mecanismo. O verdadeiro problema reside na banalidade do desvio cotidiano: na pequena vantagem que se naturaliza, no atalho que se aceita, no favor que se troca. É nesse terreno aparentemente trivial que se constrói a base cultural da corrupção estrutural. Quando todos, em alguma medida, participam ou se beneficiam, a indignação perde força, e a crítica, legitimidade.

A arquitetura institucional, por sua vez, não é inocente. Sistemas excessivamente fragmentados, alianças voláteis, negociações permanentes — tudo isso cria um ambiente em que a troca se torna moeda corrente. Não a troca legítima do debate democrático, mas a transação opaca, onde cargos, verbas e decisões circulam como fichas de um jogo cujo tabuleiro raramente é exposto ao público. Nesse cenário, a ética deixa de ser parâmetro e passa a ser obstáculo.

A burocracia, longe de ser mera ineficiência, cumpre papel estratégico. Sua complexidade não apenas dificulta o controle externo, como também amplia o poder de quem a domina. Procedimentos intrincados, normas sobrepostas, exigências mutáveis — tudo contribui para criar um labirinto onde poucos sabem transitar. E, como em todo labirinto, quem conhece o caminho cobra pedágio.

A lentidão dos mecanismos de responsabilização completa o quadro. A punição, quando existe, chega tarde; e, quando chega, já não produz o efeito pedagógico que deveria. O tempo corrói a memória, dilui a gravidade, transforma o escândalo em nota de rodapé. Assim, o risco deixa de ser dissuasório. Calcula-se, com frieza, que vale a pena.

No plano simbólico, a corrupção encontra abrigo numa curiosa ambiguidade moral. Condena-se o desvio em abstrato, mas relativiza-se no concreto. Critica-se o sistema, mas admira-se quem “sabe jogar o jogo”. Indigna-se com a corrupção alheia, mas justifica-se a própria quando conveniente. É uma ética elástica, moldada pela circunstância, que permite ao indivíduo transitar entre o repúdio e a conivência sem grande desconforto.

E, no entanto, o mais perturbador talvez seja a sensação difusa de normalidade. A corrupção, institucionalizada, deixa de ser escândalo para se tornar paisagem. Não surpreende, não revolta com a mesma intensidade, não mobiliza como deveria. Torna-se previsível — e, por isso mesmo, perigosamente aceitável.

Romper esse ciclo exige mais do que reformas pontuais ou discursos inflamados. Exige uma reconfiguração profunda dos incentivos, das estruturas e, sobretudo, das expectativas coletivas. Exige transparência que não seja apenas formal, mas efetiva; controle que não seja apenas reativo, mas preventivo; punição que não seja apenas possível, mas certa. E exige, acima de tudo, uma recusa clara — não apenas retórica — de transformar o desvio em regra.

Enquanto isso não ocorre, a corrupção continuará a operar não como falha do sistema, mas como sua engrenagem oculta. E o país seguirá convivendo com esse paradoxo incômodo: o de uma ordem que se proclama republicana, mas que, nos bastidores, ainda negocia consigo mesma.