A burrice, em sua forma primitiva, raramente assusta. Ela é barulhenta, previsível, quase folclórica. Costuma apresentar-se sem disfarces: no grito desproporcional, na opinião mal digerida, na certeza produzida sem reflexão e naquele orgulho quase atlético de quem desconhece tudo e, ainda assim, fala como se houvesse sido nomeado oráculo da civilização. Essa modalidade rudimentar da estupidez é facilmente reconhecível. O problema começa quando a burrice se educa: Quando aprende vocabulário; quando descobre protocolos; quando veste terno; quando cita autores que não compreende; quando adquire cargos; quando frequenta auditórios; quando domina jargões; quando fala pausadamente; quando aprende a transformar superficialidade em método e presunção em aparência de inteligência. Aí ela deixa de ser apenas burrice. Torna-se sofisticação da burrice organizada.
Há uma diferença monumental entre ignorância honesta e estupidez institucionalizada porque a ignorância pode aprender, a dúvida pode amadurecer e o desconhecimento pode ser corrigido. Mas a burrice organizada é mais ambiciosa. Ela não quer compreender. Quer administrar. Não deseja refletir. Deseja normatizar. Não busca a verdade. Busca autoridade. Seu habitat natural não é apenas a mente individual, mas o coro. Ela prospera em ambientes onde repetir vale mais que examinar, onde consenso vale mais que raciocínio e onde a estética da convicção substitui o trabalho árduo da inteligência. A burrice solitária tropeça. A burrice organizada marcha. E marcha com uma segurança admirável: Ela redige manifestos, produz cartilhas, cria comissões, forma tribunais morais, estabelece consensos apressados, distribui certificados simbólicos de lucidez, condena heresias intelectuais e confunde volume com razão e unanimidade com verdade. É uma maquinaria surpreendentemente eficiente.
Há indivíduos incapazes de formular pensamento próprio, mas extraordinariamente talentosos em repetir o pensamento dominante com solenidade quase sacerdotal. Tornam-se especialistas em eco. Não analisam; reverberam. Pensar é exaustivo. Imitar é administrativamente mais simples. E há uma beleza tragicômica nisso. O sujeito que jamais leu profundamente determinado tema fala com feroz autoridade sobre ele. O que conhece apenas resumos distribui pareceres. O que compreendeu meia frase de um autor transforma-se em missionário intelectual de terceira mão. O que decorou terminologias técnicas acredita haver domesticado a complexidade. É a ilusão erudita do papagaio. Uma criatura verbalmente equipada e conceitualmente faminta. A burrice organizada raramente se apresenta como grotesca. Seu maior triunfo está justamente na aparência de respeitabilidade pois ela pode surgir em discursos pomposos, em burocracias autossatisfeitas, em círculos de autoelogio intelectual, em instituições que confundem tradição com infalibilidade, em grupos que chamam repetição de consciência crítica, em coletivos que chamam alinhamento de maturidade e em ambientes onde discordar passa a ser tratado como infração estética.
Ali, o pensamento começa a adoecer. Não por ausência de informação — vivemos cercados dela —, mas por excesso de certezas mal metabolizadas. O homem contemporâneo, cercado por bibliotecas, ciência, arquivos, história, filosofia, arte e acesso quase ilimitado ao conhecimento, ainda assim conseguiu realizar um prodígio melancólico: organizar a superficialidade com eficiência admirável. Criou painéis para debater o óbvio. Seminários para repetir slogans. Comitês para legitimar trivialidades. Debates onde ninguém debate. Fóruns onde todos concordam com variações decorativas da mesma ideia. É a coreografia refinada da mediocridade. Nada mais perigoso do que a estupidez que aprendeu etiqueta.
Porque a brutalidade intelectual explícita ao menos se denuncia. Mas a burrice sofisticada argumenta mal com elegância, erra com segurança, simplifica com arrogância, dogmatiza com educação impecável e sorri enquanto reduz a complexidade humana a fórmulas mastigáveis. Ela adora frases definitivas. Detesta nuance. Desconfia da dúvida. Tem alergia a ambiguidades.
Prefere sistemas fechados porque a inteligência genuína, com sua natureza inquieta e indisciplinada, sempre ameaça a estabilidade confortável dos simplistas organizados.
O espírito verdadeiramente inteligente frequentemente hesita. Examina. Revê. Corrige. Suspende juízo. Tolera incertezas.
A burrice organizada considera isso fraqueza. Ela prefere certezas musculosas. Mesmo que sejam ocas. Talvez por isso tantos grupos pareçam mais apaixonados por parecerem lúcidos do que por tornar-se lúcidos. A aparência de profundidade virou uma indústria. Há jargão sem pensamento. Militância sem reflexão. Autoridade sem estudo. Fervor sem lucidez. Convicção sem lastro. Discurso sem alma. E, paradoxalmente, tudo isso pode soar extremamente sofisticado. Mas verniz nunca foi sinônimo de substância. Senão, vejamos: Uma biblioteca não salva um tolo de continuar tolo; um cargo não converte mediocridade em sabedoria; uma plateia não absolve a estupidez; uma instituição não santifica erro repetido; uma unanimidade não corrige raciocínio defeituoso e um coro jamais substituiu consciência.
A sofisticação da burrice organizada reside exatamente nisso: sua capacidade quase genial de parecer respeitável enquanto empobrece o pensamento. Por isso, talvez uma das formas mais raras de inteligência hoje seja algo escandalosamente simples: duvidar, pensar, examinar e não ajoelhar-se diante de toda estupidez. E lembrem-se que essa estupidez, tem nove dedos.