MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A REPÚBLICA DA SUPERFÍCIE

Há algo de silenciosamente trágico quando uma nação começa a desconfiar do pensamento. Não se trata de uma crise espetacular, dessas que ocupam manchetes com escândalos ou cifras bilionárias. Trata-se de um fenômeno mais discreto e, por isso mesmo, mais perigoso: a lenta substituição da profundidade pela aparência, da pesquisa pelo palpite, da formação pelo improviso. Durante décadas, repetimos que a educação seria a grande prioridade. A palavra tornou-se um mantra cívico, pronunciado com solenidade em discursos, relatórios e campanhas. Entretanto, enquanto a retórica ascendia, os laboratórios envelheciam, as bibliotecas rareavam, os pesquisadores aprendiam a sobreviver mais do que a investigar.

Criou-se, pouco a pouco, uma cultura da superfície. A universidade, que deveria ser um território de inquietação intelectual e risco epistemológico, foi cercada por burocracias que confundem produção de conhecimento com preenchimento de formulários. O professor, que deveria ser um artesão do rigor e da dúvida, passou a dividir seu tempo entre relatórios intermináveis e a necessidade constante de justificar sua própria existência. Não se investe em pesquisa como se investe em espetáculo. Pesquisa exige tempo — e tempo não rende aplausos imediatos. Exige silêncio — e o silêncio não gera trending topics. Exige erro — e o erro não cabe em slogans. Assim, substituímos o método pelo discurso inflamado, o dado pela narrativa conveniente, o argumento pela adesão.

O resultado não é apenas acadêmico; é civilizacional. Uma sociedade que desvaloriza a pesquisa começa a perder sua capacidade de imaginar o futuro. Sem investigação científica, não há inovação consistente. Sem leitura profunda, não há pensamento crítico. Sem professores estimulados a estudar continuamente, forma-se uma cadeia de transmissão de conteúdos cada vez mais esvaziados. É evidente que não se trata de um problema individual. Há professores brilhantes lutando contra a maré. Há estudantes que resistem ao empobrecimento intelectual. Há pesquisadores que produzem excelência apesar da precariedade.

Mas estruturas moldam comportamentos. Quando a prioridade orçamentária oscila ao sabor de conveniências imediatas, quando a cultura pública passa a tratar a erudição com desconfiança e a complexidade como arrogância, instala-se uma pedagogia invisível da mediocridade. E a mediocridade tem uma característica perigosa: ela se normaliza. Começa-se aceitando que “é assim mesmo”. Que a pesquisa pode esperar. Que a formação continuada é luxo. Que bibliotecas são ornamentos. Que laboratórios são despesas, não investimentos.
Pouco a pouco, a imaginação coletiva encolhe. Não é necessário censurar livros para empobrecer uma nação; basta torná-los irrelevantes no imaginário social. Não é preciso fechar universidades; basta asfixiá-las lentamente. Não é preciso declarar guerra ao pensamento; basta tratá-lo como inconveniente. A tragédia maior talvez não seja a falta de recursos, mas a erosão simbólica do valor do conhecimento. Quando a inteligência deixa de ser admirada e passa a ser suspeita, algo profundo se rompe.

Educação não é apenas transmissão de conteúdos. É formação de critérios. É aprendizado da dúvida. É disciplina do raciocínio. É treino da complexidade. Sem isso, o debate público se reduz a palavras de ordem. A análise vira torcida. A crítica vira rótulo. E a política — qualquer que seja ela — passa a operar num terreno cada vez menos iluminado pela razão.

O mais inquietante é que os efeitos não aparecem imediatamente. Eles se acumulam. São graduais. São cumulativos. São geracionais.

Uma geração mal formada não apenas sabe menos; ela questiona menos. E uma sociedade que questiona menos se torna mais vulnerável a simplificações, promessas fáceis e soluções mágicas. Talvez o desafio maior não seja apenas reivindicar mais investimento — embora ele seja indispensável. O desafio é recuperar o prestígio cultural do estudo sério, do método, da pesquisa paciente, do professor que lê mais do que fala. Não se constrói uma nação sólida apenas com infraestrutura visível. Constrói-se também com infraestrutura invisível: bibliotecas ativas, laboratórios vivos, professores pesquisando, estudantes inquietos.

Se quisermos sair da república da superfície, será preciso coragem para reinvestir na profundidade. Coragem para aceitar que conhecimento não é gasto: é fundamento. Que universidade não é ornamento: é pilar. Que professor não é burocrata: é formador de futuro. A educação não precisa de slogans. Precisa de estrutura. Não precisa de aplausos episódicos. Precisa de continuidade. Não precisa de promessas inflamadas. Precisa de compromisso silencioso e persistente. Quando uma sociedade decide levar o conhecimento a sério, ela muda sua trajetória histórica.

Quando decide não levar, também.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A CAPITAL ONDE O PODER APRENDEU A NÃO TER VERGONHA

Brasília não é uma cidade. É um sintoma. Erguida no meio do nada para simbolizar o futuro, acabou se tornando o maior monumento brasileiro ao descolamento da realidade. Uma maquete de concreto onde o poder vive em gravidade zero, flutuando acima da vida comum, como se o país fosse apenas um conceito abstrato — jamais gente de carne, osso e boletos. Brasília não governa o Brasil. Ela administra a distância. Ali, o sofrimento vira estatística; a miséria, gráfico; a educação, uma linha orçamentária facilmente sacrificável; o professor, um custo incômodo; o cientista, um luxo dispensável; o povo, um ruído de fundo que atrapalha a liturgia do poder.

O País Que Paga Como Primeiro Mundo e Recebe Como Colônia

O brasileiro paga impostos suíços para receber serviços haitianos — com todo respeito ao Haiti, que ao menos tem a dignidade de não fingir normalidade institucional. Aqui, paga-se caro para: estudar mal, adoecer muito, envelhecer inseguro, trabalhar demais, receber pouco e ouvir que “não há recursos”. Mas curiosamente, nunca falta verba para privilégios, auxílios de toda natureza, salários que desafiam a física econômica, aposentadorias que zombam da demografia e cargos que só existem para acomodar lealdades. No Brasil, o Estado é mínimo para o cidadão e máximo para si mesmo.

A Corrupção Não é Um Desvio — É Um Método

Aqui vai a parte que dói: A corrupção no Brasil não é exceção, é arquitetura. Ela não acontece porque “faltam leis”. Ela acontece porque as leis foram feitas para permitir que ela aconteça sem consequências reais. O sistema não falha. Ele funciona exatamente como foi desenhado. Funciona para: absolver os amigos, prescrever os crimes, eternizar processos, relativizar escândalos e cansar o cidadão até que ele desista de esperar justiça. A impunidade brasileira não é acidente: é política pública informal.

Professores: O Maior Desprezo Nacional

Não é coincidência que um país que despreza seus professores não produza prêmios Nobel. É consequência direta. Professor no Brasil é tratado como: missionário (para justificar salário baixo), herói (para naturalizar o sacrifício), vocacionado (para negar direitos) e culpado (quando o sistema falha). O Estado diz: “Educação é prioridade”. E imediatamente faz o oposto. Porque educação liberta; e liberdade intelectual é uma ameaça ao poder medíocre. Um país que investe em professores cria cidadãos difíceis de enganar. E isso, para certas instâncias, é inaceitável.

O Complexo de Vira-Latas Não Nasceu do Nada

O brasileiro não se acha inferior por genética, clima ou destino. Ele foi treinado para isso. Treinado por: séculos de colonização predatória, uma elite que sempre se viu como europeia exilada, uma narrativa constante de fracasso, e um Estado que nunca se reconheceu como servidor do povo. Aqui, o sucesso individual é tolerado. O sucesso coletivo é sabotado. Porque um povo confiante exige mais. E exigir mais é perigoso para quem governa pouco e ganha muito.

Brasília Não Tem Medo do Povo – Tem Desprezo

Essa é a verdade mais cruel. Se houvesse medo, haveria mudança. Há apenas indiferença blindada por ar-condicionado, assessores e carros oficiais. Brasília não se envergonha. Ela se protege. Protege-se: do olhar crítico, da comparação internacional, da meritocracia real, da eficiência e da transparência verdadeira. O poder ali não se sente servidor. Sente-se proprietário.

E Mesmo Assim… O Brasil Não é Brasília

Aqui está o erro fundamental de quem governa de lá: confundir o país com o palácio. O Brasil real: acorda cedo, trabalha duro, improvisa, cria, resiste e sobrevive apesar do Estado — não por causa dele. O brasileiro comum é infinitamente melhor do que o sistema que o administra. E é por isso que tanta gente sente vergonha — não do país, mas da distância obscena entre quem sustenta tudo e quem decide tudo.

Conclusão (A Joelhada Moral)

Brasília não cairá por bombas. Ela treme com algo muito mais perigoso: Consciência lúcida; Comparação internacional honesta; Palavras que não pedem licença; Cidadãos que param de se culpar e começam a analisar. Porque quando o brasileiro percebe que: não é incompetente, não é inferior, não é o problema, o castelo de privilégios começará a parecer o que sempre foi: um insulto em concreto armado.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

LUÍS INÁCIO, O CÃO, OU: UM ENSAIO SOBRE HOMENAGENS QUE LATEM

Era fim de tarde. Nada de épico, nada de histórico — apenas a banalidade cotidiana: a garagem, o carro, o concreto morno, o cansaço de quem já não espera grandes epifanias do convívio humano. Eis que surge uma senhora, dessas que a cidade produz em série, conduzindo um pequeno artefato peludo: um Lulu da Pomerânia, também conhecido como Spitz Alemão — criatura de porte diminuto, mas de autoestima surpreendentemente inflada. Movido por educação, curiosidade ou talvez por esse resto de humanidade que insiste em sobreviver, perguntei:

— Qual é o nome dele?

A resposta veio rápida, sem titubeios, sem ironia explícita, sem risinho nervoso:

— Luís Inácio.

Silêncio. Não um silêncio qualquer. Mas aquele silêncio espesso, metafísico, que se instala quando a realidade resolve dar uma piscadela obscena. Luís Inácio. Não “Totó”. Não “Bolt”. Não “Max”. Luís Inácio. Puta merda. Imediatamente, o pensamento crítico — esse músculo atrofiado na maioria, mas hipertrofiado nos poucos que ainda pensam — entrou em atividade máxima. O que estava acontecendo ali?

Primeira hipótese: a homenagem

Seria aquilo um gesto sincero? Um tributo canino ao mais alto mandatário da República? Um ato de devoção simbólica? Talvez a senhora visse no pequeno Spitz a encarnação perfeita de atributos presidenciais: lealdade seletiva, latidos frequentes, marcação de território, um certo gosto por holofotes e a habilidade inata de parecer maior do que realmente é. Quem sabe o cachorro, como seu homônimo humano, fosse um animal político: circula entre grupos, abana o rabo estrategicamente, rosna quando contrariado e, vez ou outra, faz suas necessidades em lugares inadequados, enquanto seus defensores garantem que “faz parte da natureza”. Nesse cenário, chamar o cão de Luís Inácio seria quase poético. Uma alegoria viva. Um presidente miniaturizado, peludo e mais simpático (que não é e que nunca será) o que, convenhamos, já seria um avanço estético considerável.

Segunda hipótese: a crítica

Mas… e se não fosse homenagem? E se estivéssemos diante de um gesto de crítica feroz, porém disfarçado de ternura? Nomear um cachorro com o nome de um presidente pode ser o mais brasileiro dos atos políticos: não grita, não escreve manifesto, não vai à praça — apenas ironiza em silêncio. Aqui surge um problema moral sério: comparar um presidente a um cachorro é uma ofensa grave aos cachorros. Cães são leais. Cães reconhecem quem os alimenta. Cães não discursam por horas sem dizer nada. Cães não prometem passeios e entregam coleiras. Portanto, se havia crítica ali, ela era dupla: ao político, reduzido à condição simbólica de animal doméstico; e à própria política, que se tornou tão rasteira que só pode ser representada no nível do rodapé da zoologia urbana.

Terceira hipótese (a mais perturbadora): a indiferença simbólica

E se não fosse nem homenagem, nem crítica? E se fosse pior? E se fosse normose? Talvez, para aquela senhora, chamar o cachorro de Luís Inácio fosse tão banal quanto chamar de “Rex”. Talvez o nome já tivesse perdido qualquer peso histórico, ético ou simbólico. Um ruído. Um rótulo vazio. Um som que se repete até perder sentido — exatamente como tantos discursos, slogans e promessas. Nesse caso, o cachorro não representa o presidente.

O presidente é que virou nome de cachorro. Não por ataque. Mas por desgaste.

O cão, o poder e a estética do absurdo

O Spitz Alemão, alheio a tudo isso, seguia sua vida canina com dignidade: focinho erguido, passos curtos, pelo impecável. Nenhuma consciência de escândalo. Nenhuma pretensão de governar. Nenhuma coletiva de imprensa. E ali estava o contraste final, quase cruel: o animal é mais íntegro que muita gente que ocupa cargos importantes. Talvez seja esse o ponto mais ácido de toda a cena: O cachorro não pediu o nome. O cachorro não fez campanha. O cachorro não prometeu nada. E, ainda assim, era conduzido com mais cuidado do que muitos cidadãos.

Conclusão

Foi homenagem? Foi crítica? Foi ironia involuntária? Foi arte conceitual urbana? Foi um lapso da linguagem política em decomposição? Não sabemos. E talvez não devamos saber. A beleza da cena está justamente na dúvida — essa entidade que a política odeia, mas que a inteligência cultiva. O que ficou claro é que, naquele fim de tarde banal, um pequeno cão de raça europeia carregava, sem saber, o peso simbólico de um país inteiro. E isso, convenhamos, é pesado demais para qualquer um inclusive para um Spitz. Não latimos sem pensar. Mas quando pensamos… mordemos.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A MÍDIA BRASILEIRA: O CORO QUE CANTA O QUE O PODER ASSOBIA

A mídia brasileira adora se definir como “imprensa livre”. Livre de quê? Do povo. Porque do poder econômico, político e institucional, ela é profundamente dependente. Não morde a mão que banca.

Lambe.

1. Seleção de Idignação

A mídia não mente o tempo todo. Ela faz algo mais eficaz: seleciona. Escândalo de uns vira: manchete, plantão e editorial indignado. Escândalos de outros viram nota discreta, rodapé e “contextualização”. Isso não é jornalismo. É curadoria ideológica disfarçada de neutralidade. Orwell pisaria duro: “O que não é noticiado simplesmente deixa de existir.”

2. O Jornalismo de Comunicado

A mídia brasileira abandonou a investigação e abraçou o release. Reproduz: notas oficiais, decisões judiciais, falas de autoridade sem perguntar por quê?, para quem? e a quem interessa, pois questionar dá trabalho, enfrentar poder dá processo e processo não paga anúncio. Millôr não teria piedade: “Aqui, a imprensa é livre desde que não use a liberdade.”

3. O Medo de Parecer Radical

Nada apavora mais a mídia brasileira do que ser chamada de “radical”. Então ela se equilibra eternamente no centro frouxo porque relativiza abusos, suaviza injustiças, normaliza absurdos, tudo vira “polêmica”, tudo vira “narrativa” e tudo vira “os dois lados”… Até quando só há um lado errado.

4. O Povo Como Plateia; Não Como Sujeito

O cidadão não é fonte. É audiência. Pois serve para clicar, compartilhar, consumir indignação pré-fabricada. Mas nunca para pautar de verdade. A mídia fala sobre o povo. Raramente fala com o povo. E quase nunca fala a partir do povo.

Conclusão da Mídia

A mídia brasileira não é vilã de novela. É pior: é coadjuvante confortável, porque ela não cria o sistema; ela o normaliza; Não decide os rumos, mas aplaude os atalhos; Não governa, mas, ensina a aceitar. E um povo que aprende a aceitar tudo não precisa ser reprimido. Basta ser informado do jeito certo.

Fechamento Final (Sem Desculpas)

Elite política, Judiciário e mídia formam no Brasil um triângulo perfeito de autoproteção: Um decide sem ouvir; outro legitima sem explicar e o terceiro narra sem questionar. E o cidadão? Paga. Espera. E ainda pede desculpa por desconfiar. Mas quando a lucidez chega — quando o discurso falha — quando a toga perde o brilho — quando a manchete não convence — o sistema não desmorona com barulho. Ele apodrece em silêncio. E isso, meus caros, é o começo do fim de qualquer farsa bem-sucedida.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL VIVE UMA ESPÉCIE DE PARALISIA MORAL E INSTITUCIONAL

Há países em crise. Há países em decadência. E há países que entraram num estado mais sofisticado — e mais perigoso — de colapso: a paralisia moral e institucional. O Brasil habita exatamente esse território nebuloso, onde nada explode de vez, mas tudo apodrece lentamente. Não se trata mais de corrupção episódica, nem de incompetência pontual. Trata-se de algo estrutural: o país perdeu a capacidade de decidir. Decide-se apenas o discurso. A realidade fica em suspensão, como um paciente entubado mantido vivo por protocolos que ninguém mais acredita, mas que ninguém ousa desligar.

Vivemos numa nação em que crimes extremos se repetem com regularidade estatística, e ainda assim são tratados como “casos isolados”. Onde monstros são libertados em nome de teses abstratas, e vítimas reais são convertidas em rodapé de reportagem. Onde a palavra “ressocialização” virou um mantra mágico, repetido para evitar o constrangimento de admitir que há indivíduos que romperam irreversivelmente o pacto civilizatório.

O Brasil não é um país humanista.

É um país retórico. Aqui, confunde-se humanidade com permissividade, compaixão com negligência, e direitos humanos com direitos do agressor — enquanto os direitos do cidadão comum são terceirizados à sorte, à fé ou ao acaso. O Estado brasileiro age como um médico que se recusa a diagnosticar tumores porque “a palavra câncer é muito forte”. Prefere chamar de “lesão social complexa”, enquanto o paciente morre com elegância semântica. O mais perturbador não é a existência do criminoso. Toda sociedade os tem. O escândalo está no sistema que insiste em fingir surpresa.

Quando um estuprador reincide, o Estado pede desculpas. Quando um assassino mata de novo, o Estado abre sindicância. Quando inocentes morrem, o Estado promete “apurar responsabilidades”. Mas ninguém responde por nada.

Porque a irresponsabilidade, no Brasil, é colegiada. Juízes decidem “com base na lei”, legisladores culpam “a interpretação”, o Executivo fala em “políticas públicas futuras”, e a sociedade assiste anestesiada, como quem vê uma série macabra que já perdeu o impacto — mas continua assistindo por inércia.

Não é que falte lei. Falta coragem moral para dizer o óbvio: Nem todo criminoso é recuperável; Nem toda teoria sobrevive ao teste da realidade; Nem toda decisão “humanitária” é, de fato, humana. O Brasil se tornou especialista em transferir risco. Risco do sistema para a vítima. Risco do criminoso para a sociedade. Risco da falha institucional para o cidadão comum. Isso não é civilização. Isso é covardia organizada. Enquanto isso, cria-se uma elite discursiva que vive num país abstrato — um Brasil conceitual, limpo, teórico — onde tudo se resolve com palavras cuidadosamente escolhidas. Já o Brasil real sangra, enterra seus mortos e aprende, muito cedo, que justiça é um luxo instável.

A paralisia moral se revela quando ninguém mais sabe o que é inaceitável. Quando tudo é relativizado. Quando toda crítica é “radical”. Quando toda indignação é “exagerada”. Quando exigir proteção vira “autoritarismo”. E assim seguimos: um país que não pune de verdade, não recupera de verdade e não protege de verdade. Um país suspenso entre o medo de parecer duro e o pânico de parecer permissivo — optando, no fim, pela opção mais confortável: não decidir nada.Mas há um custo. Sempre há. O custo é pago por crianças, idosos, mulheres, trabalhadores comuns — gente sem assessoria jurídica, sem microfone, sem narrativa. Gente real, em carne, osso e medo. A pergunta já não é “quem governa”. A pergunta é: quem tem coragem de romper essa paralisia? Porque um país que não consegue proteger seus inocentes já começou a falhar como civilização, ainda que continue funcionando como burocracia. E talvez o mais devastador de tudo seja isto: o Brasil não está em colapso. Está acomodado ao colapso.

E não há estado mais perigoso do que aquele em que o absurdo se torna rotina — e a barbárie aprende a usar gravata, carimbo e linguagem técnica.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A ELITE POLÍTICA BRASILEIRA: UM QUADRO DE NECROSE INSTITUCIONAL AVANÇADA

A elite política brasileira não governa. Ela administra a própria sobrevivência. Não legisla para o futuro. Legisla para blindar o presente. Não representa o povo. Representa a si mesma em regime de condomínio fechado, com porteiro armado, ar-condicionado e foro privilegiado. Se o Brasil fosse um paciente, a elite política seria o órgão que: não cumpre função vital; consome oxigênio; produz toxinas e ainda se declara indispensável.

1. Diagnóstico Primário: Deslocamento da Realidade

O primeiro sintoma é clássico e incurável sem choque externo: Perda total de contato com a vida real. O político brasileiro médio: não pega transporte público; não depende do SUS; não estuda em escola pública; não teme desemprego e não sente inflação no prato. Ainda assim, fala “em nome do povo” com a mesma naturalidade com que um turista descreve a selva — do alto do helicóptero. Machado de Assis pisaria fino: “Nada representa melhor o povo do que quem jamais o experimentou”.

2. Sintoma Crônico: A Profissão de Político

Em países saudáveis, política é função temporária. No Brasil, é carreira hereditária disfarçada de vocação pública. Aqui temos: filhos de políticos; netos de políticos; sobrinhos de políticos e assessores de políticos que viram políticos. É uma fauna endogâmica. Reproduz-se entre si. Fala sua própria língua. E reage a críticas como um organismo atacado: com anticorpos corporativistas. Millôr não perdoaria: “O problema do Brasil não é político ruim.

É político profissional. ”

3. Mecanismo de Sobrevivência: A Linguagem Como Anestesia

A elite política brasileira domina uma arte refinada: falar muito para não dizer nada. Eles dizem: complexidade do sistema; arcabouço institucional; responsabilidade fiscal; limites orçamentários e governabilidade. Tradução clínica: Não mexam nos nossos privilégios. Orwell assinaria o laudo: “Quando a linguagem é corrupta, a realidade se torna maleável”.

4. Comorbidade Grave: A Impunidade Como Ecossistema

A elite política brasileira não teme a lei. Ela convive com ela. Processos: prescrevem; se arrastam; se perdem; se reinterpretam; Escândalos: viram notas de rodapé; depois memes; depois piada; depois esquecimento. O sistema imunológico institucional foi treinado não para punir — mas para absorver o escândalo até que ele perca força. Machado de Assis, sorri de lado: “No Brasil, a justiça é lenta porque anda acompanhando o acusado”.

5. A Relação Patológica Com o Povo

A elite política brasileira tem uma relação curiosa com o cidadão: Em época eleitoral: chama de protagonista; No resto do tempo: chama de “populismo” quando reclama; Quando protesta: baderneiro; Quando se cala: maduro. Ou seja: o povo só é virtuoso quando não atrapalha. Millôr pisaria fundo: “O cidadão ideal é aquele que vota, cala e paga. ”

6. O Caso dos Privilégios: Um Estudo de Delírio Coletivo

Auxílios; Verbas; Penduricalhos; Cargos e Imunidades. Tudo isso é defendido com fervor quase religioso. Nunca é privilégio. É “garantia institucional”. Nunca é abuso.

É “prerrogativa”. Nunca é imoral.

É “legal”. Aqui, a legalidade virou álibi ético, e a ética foi terceirizada para discursos vazios. Orwell fecha a conta: “Legal não é sinônimo de justo. Mas no Brasil fingimos que é.”

7. O Medo Real da Elite Política

Eles não têm medo de golpe. Não têm medo de protesto. Não têm medo de crise. Eles têm medo de três coisas apenas: Educação de qualidade; Transparência radical e Memória coletiva ativa. Sim. Porque um povo educado pergunta. Um povo informado compara. Um povo que lembra cobra. E cobrança é fatal para quem vive de improviso, discurso e privilégio.

Conclusão: O Colapso Não Virá Com Gritos – Virá Com Clareza

A elite política brasileira não cairá com revolta desorganizada.

Ela sobrevive disso. Ela cai quando: o cidadão entende o sistema, o discurso deixa de hipnotizar e o “sempre foi assim” perde força. O verdadeiro terror de Brasília não é a raiva do povo — é a lucidez dele. Porque a lucidez não pede favores. Não idolatra. Não se ajoelha. Ela apenas olha e diz: “Isso não é normal. E não é aceitável”. E nesse momento, todo o teatro desaba.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O LEVIATÃ TROPICAL E A ARTE DE ARRECADAR SEM ENTREGAR

O Estado brasileiro é uma criatura curiosa. Não é exatamente um Estado moderno, tampouco um Estado arcaico: é um híbrido barroco, exuberante na forma, confuso na função e voraz na arrecadação. Ele não governa — administra o próprio inchaço. Não planeja — reage. Não serve — exige. Seu talento mais refinado não é a eficiência, nem a justiça social, nem o desenvolvimento sustentável. Seu verdadeiro dom é outro, muito mais sofisticado: extrair recursos da sociedade com a elegância de um elefante numa loja de cristais — e depois explicar, com ar professoral, que a culpa é do contexto internacional. O Estado brasileiro gosta de ser grande para arrecadar, mas, é notavelmente pequeno quando chega a hora de entregar. Grande para tributar, miúdo para educar; obeso para cobrar e anêmico para devolver. É um Leviatã tropical que devora impostos com apetite pantagruélico e, ao final, arrota planilhas, discursos e promessas recicladas.

A alquimia fiscal: transformar suor em fumaça

Aqui, o cidadão trabalha como se fosse suíço; paga impostos como se fosse escandinavo, mas recebe serviços como se estivesse num experimento sociológico malsucedido. O dinheiro entra — isso entra.

Entra pelos impostos diretos, indiretos, ocultos, embutidos, disfarçados, empilhados, cumulativos e criativos. Entra no pão, na luz, no remédio, no transporte, no simples ato de existir. Respirar no Brasil é quase um fato gerador. E depois… ele evapora. Evapora em estruturas inchadas, em cargos redundantes, em consultorias etéreas, em programas mal desenhados, em obras eternamente inacabadas — verdadeiros monumentos à procrastinação institucional. Se a física permitisse, o Brasil já teria criado o primeiro buraco negro fiscal, onde tudo entra e nada, absolutamente nada, retorna.

O discurso oficial: a liturgia da desculpa eterna

Quando questionado, o Estado não se constrange. Pelo contrário: ele explica. Explica que:

• o problema é a herança do passado;
• o passado é sempre recente;
• o futuro exige sacrifícios;
• e o sacrifício, curiosamente, nunca é dele.

O cidadão é convocado a compreender, colaborar, contribuir e calar. Afinal, segundo a teologia estatal, o imposto é um ato de fé: você paga hoje acreditando que, um dia, talvez, quem sabe, algo volte — nem que seja sob a forma de um discurso emocionado em cadeia nacional.

Eficiência? Não exageremos.

A ideia de eficiência no Brasil costuma causar certo desconforto institucional, como se fosse um conceito estrangeiro, exótico, quase indecoroso. Aqui, eficiência soa suspeita. Planejamento assusta. Avaliação de resultados ofende. Mérito causa urticária. O Estado prefere o conforto do improviso permanente. Improvisar permite errar sem culpa, gastar sem controle e explicar sem consequências. É o eterno “estamos trabalhando nisso”, frase que no Brasil equivale a um mantra budista: não resolve nada, mas acalma quem diz.

O pacto silencioso (e perverso)

Forma-se então um pacto implícito:

• o Estado finge que governa,
• o cidadão finge que acredita,
• e ambos seguem exaustos.

Só que o cansaço não é simétrico. O Estado engorda; o cidadão emagrece. O Estado acumula poder; o cidadão acumula boletos. O Estado fala em justiça social; o cidadão faz contas no supermercado com uma calculadora emocionalmente devastada.

Conclusão: uma supernova mal resolvida

O problema não é apenas econômico.

É moral, estrutural e civilizacional. Um Estado que cresce sem entregar não é protetor — é parasitário. Um governo que arrecada sem eficiência não é social — é predatório.

E uma sociedade que normaliza isso acaba vivendo num eterno estado de sobrevivência tributária. O Brasil não precisa de mais impostos. Precisa de menos retórica, menos gigantismo, menos fome arrecadatória — e infinitamente mais responsabilidade. Até lá, seguimos: o planeta girando, o Universo indiferente, e o cidadão brasileiro pagando — sempre pagando — para sustentar um Leviatã que confunde grandeza com peso.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

ANO NOVO: O GRANDE FESTIVAL DA PROMESSA IMPROVÁVEL

Chega dezembro ao fim, e com ele essa curiosa suspensão da realidade que acomete a humanidade entre o dia 26 e a primeira ressaca de janeiro. É um período em que pessoas absolutamente normais — algumas até inteligentes — passam a acreditar que a simples troca de um número no calendário tem poderes metafísicos de redenção moral, reorganização existencial e milagres comportamentais instantâneos. O Ano Novo, essa entidade abstrata e injustamente responsabilizada, transforma-se no grande bode expiatório da preguiça acumulada, da falta de disciplina crônica e, sobretudo, da ausência completa de autocrítica ao longo dos últimos doze meses.

De repente, todos vão mudar. É comovente. E profundamente falso.

O sujeito que passou o ano inteiro odiando acordar cedo jura, de taça de espumante na mão, que agora “vai correr todas as manhãs”. Não porque goste de correr, claro — mas porque viu um reel de alguém correndo ao nascer do sol, com legenda motivacional e trilha épica. O corpo continua o mesmo; a ilusão é que ganhou tênis novo. A criatura que nunca abriu um livro que não tivesse capa plastificada promete que “este ano vou ler mais”. Nunca especifica o quê, quando ou por quê. Ler mais virou um conceito metafísico, não uma prática concreta. Um ideal platônico da estante: bonito de longe, intocado de perto.

Há também o clássico voto da dieta. Esse é antigo, quase litúrgico. Come-se como um romano decadente até o dia 31 à noite e, à meia-noite, ocorre o milagre da conversão nutricional. A lasanha vira pecado. O pão, um inimigo moral. O açúcar, uma traição à pátria. Tudo isso dura, com sorte, até o dia 7 de janeiro — quando alguém descobre que força de vontade não se fabrica em promoções de fim de ano. Não podemos esquecer o voto financeiro:

“Agora vou me organizar.”

Dito pelo mesmo indivíduo que não sabe onde foi parar o salário de novembro, mas que conhece perfeitamente o limite do cartão. Organização financeira, nesse contexto, significa esperar que o universo colabore.

E há, claro, a promessa mais ambiciosa de todas:

“Este ano vou ser uma pessoa melhor.”

Melhor como?

Mais paciente? Menos arrogante? Mais honesta consigo mesma?

Não importa. O conceito de “pessoa melhor” permanece convenientemente vago, porque vaguidão é o melhor esconderijo para a inércia. Sem critérios, não há fracasso — apenas uma sensação difusa de que “ainda não deu tempo”. O que ninguém admite — porque estraga a festa — é que o problema nunca foi o ano velho. Nem o signo. Nem Mercúrio. Nem a energia do universo. O problema é muito menos místico e muito mais prosaico: mudar dá trabalho, e trabalho exige constância, silêncio, repetição e desconforto — tudo aquilo que não rende postagem bonita. O Ano Novo, no fundo, virou um ritual de autoengano coletivo. Uma missa laica em que se confessa sem arrependimento real, promete-se sem intenção prática e absolve-se antes mesmo do primeiro erro. É uma forma elegante de adiar a responsabilidade para fevereiro, março… ou para “quando as coisas melhorarem”.

Mas há uma verdade inconveniente, dessas que não combinam com fogos de artifício: quem não mudou numa terça-feira qualquer de abril dificilmente mudará num domingo festivo de janeiro.

Mudança real não faz barulho. Não usa roupa branca. Não brinda à meia-noite.

Ela começa num dia comum, sem plateia, sem anúncio, sem promessa grandiosa — e, sobretudo, sem necessidade de justificar-se para ninguém.

Talvez o gesto mais revolucionário deste Ano Novo seja não prometer nada.

Ou melhor: prometer pouco, calado, e cumprir no anonimato.

Isso sim seria verdadeiramente novo.

Mas, claro…

Não fica tão bonito na foto.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O MENINO QUE ACORDAVA AS ESTRELAS

Era 1986.

O mundo parecia grande demais para um garoto de quinze anos, e ainda assim, pequeno diante do céu que se derramava, imenso, sobre a antiga Escola Agro-Técnica Federal de Belo Jardim, no agreste pernambucano. O vento cortava a madrugada com aquele frio seco e mineral que só o interior conhece. A escola dormia, mas ele — não. Porque naquela noite o Universo tinha prometido um encontro.

Maurino acordou antes das três.

O silêncio era tão profundo que parecia escutar a própria pulsação da Terra. Pegou o binóculo simples — era quase infantil diante da vastidão que o aguardava — e saiu devagar, sentindo o cheiro do mato úmido, a respiração da noite e aquela pontada de arrebatamento que só quem tem alma cósmica pode compreender. O céu estava limpo.

De um azul tão escuro que tocava o preto absoluto.

A Via-Láctea atravessava o firmamento como uma estrada de poeira divina, e ali, entre estrelas frias e quentes, entre gigantes azuis e anãs veladas, entre espectros e abismos, ele buscava um viajante antigo, um mensageiro da eternidade: o cometa Halley.

A cada vez que aproximava o binóculo do rosto, era como se abrisse uma porta.
E quando finalmente o viu — tênue, difuso, quase tímido, mas ali — sentiu que algo dentro de si se deslocava. Não era alegria infantil. Não era surpresa de estudante. Era revelação. Era elã. Era o sentimento secreto de quem descobre, de repente, que a própria alma não nasceu para se limitar a um único mundo. Ali, naquele ponto perdido do agreste, um adolescente solitário conversava com um cometa. E o cometa respondeu. Os dias naquela escola não eram fáceis.

A distância da família, a saudade dos pais, o peso silencioso das responsabilidades precoces — tudo se acumulava como poeira no peito. Era um tempo em que crescer doía, e em que sentir demais parecia um tipo de crime silencioso. Havia quem o achasse estranho. E era mesmo — graças a Deus. Enquanto uns se protegiam na normalidade, ele se refugiava no infinito.

Ali, entre provas, dificuldades e medos nunca revelados, duas figuras surgiram como faróis no meio da neblina: Germano, o mestre da Química, sério, meticuloso, íntegro; e Dagmar, o mago da Física, que via nas equações um modo de decifrar a respiração do universo. Eles olharam para aquele garoto magro, introspectivo, apaixonado pelo céu, e viram potencial.

Instigaram. Incentivaram. Abriram portas. Sopram-lhe coragem para ir além do que a vida imediata oferecia. Sugeriram a Física Nuclear — não como obrigação, mas como destino. E ele acreditou. Porque havia, dentro dele, um núcleo ardente, uma vontade de compreender o indizível, de enfrentar o desconhecido, de tocar — nem que fosse com a ponta dos dedos — a textura do Universo. Mas crescer tem seus preços. E a vida, com a sabedoria dura que o tempo impõe, começou a exigir escolhas.

Houve recuos. Houve silêncio. Houve noites de medo. Houve dias de cansaço.

Recuar, porém, nunca foi desistir. Fraquejar? Sim: todos os seres humanos o fazem.

Desistir? Nunca. Isso não estava escrito na alma dele.

Os anos passaram.

Décadas inteiras, como labaredas sopradas pelo vento.

E aquele garoto de 1986 se tornou homem — forte, profundo, intuitivo, sensível e viril. Um homem que olhou o céu por dentro e por fora. Um homem que, mesmo carregando o peso das responsabilidades, preservou dentro de si uma chama antiga: a do menino que conversou com o Halley. Hoje, ao se aproximar dos cinquenta e cinco anos, ele olha para trás não com saudade, mas com reconhecimento.

Porque não perdeu nada.

Porque não desperdiçou nada.

Porque cada dificuldade o moldou.

Cada recuo foi estratégia.

Cada dor o fortaleceu.

Cada madrugada o ensinou que o Universo sempre responde quem ousa chamá-lo pelo nome.

O garoto permanece vivo.

O homem permanece digno.

E a história — a sua história — ainda está longe do fim. Porque alguns homens nascem para caminhar na Terra. Mas outros, poucos, raros… nascem para caminhar entre as estrelas.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A MÃE DO IDIOTA ESTÁ SEMPRE GRÁVIDA

Há frases que, de tão precisas, deveriam ser esculpidas em mármore e colocadas na entrada de todas as repartições públicas, parlamentos, assembleias, escolas, fóruns e — por que não? — nas portas das redes sociais, esse grande manicômio global sem muro nem enfermeiro.

Entre elas, a velha sentença que costuma circular como advertência e lamento:

“A mãe do idiota está sempre grávida.”

O mundo, afinal, parece uma imensa maternidade onde a cada hora nasce mais um cidadão determinado a provar que a ignorância é hereditária, multiplicável e, sobretudo, impávida.

Vivemos numa era em que a burrice deixou de ser um acidente e se tornou carreira, com direito a seguidores, hashtags, discursos inflamados e lives diárias em que o intelecto é frito em óleo grosso.

A Ciência fala — e é vaiada. Os fatos gritam — e são ignorados. Os especialistas alertam — e são chamados de elitistas, conspiradores, globalistas e todas as demais palavras terminadas em “-ista” que os imbecis colecionam como se fossem figurinhas de álbum.

E o mais fascinante: o idiota moderno não é apenas teimoso; ele é missionário.
Quer converter o planeta inteiro à sua gloriosa devoção ao nada.

O Idiota e a Política: Uma História de Amor doentio

Políticos? Ah, esses são apenas o capítulo intermediário da epopeia. A verdadeira genialidade está no eleitor que vota sem ler, sem pensar, sem saber, mas com a convicção fervorosa de um profeta. Ele não escolhe representantes — ele escolhe espelhos. E assim acaba elegendo exatamente aquilo que mais teme: versões ampliadas de si mesmo.

Depois reclama. Protesta. Bate panela. Publica textão. Mas na urna, age com a profundidade de um pires rachado.

O idiota político não deseja debate — deseja barulho. Não quer soluções — quer slogans. Não busca governança — busca guerra, desde que travada em comentários de internet, onde coragem é barata e coerência é supérflua.

O Idiota Anticiência: A Espécie Mais Barulhenta da Criação

Toda geração teve seus tontos, mas a atual tem um diferencial competitivo: Wi-Fi.
A internet deu megafone aos que, outrora, só tinham direito a falar com quem estivesse sentado na mesma mesa de bar e bêbado o bastante para ouvir. Agora os negadores da Ciência florescem como fungo em ambiente úmido.

Eles rejeitam vacinas, mas rezam para curas milagrosas. Negam a esfericidade da Terra, mas confiam no GPS do celular. Chamam pesquisadores de mentirosos, mas acreditam cegamente em vídeos feitos num porão com uma lâmpada queimada. Esses não apenas duvidam da Ciência — eles se ofendem com ela, como se a gravidade fosse um insulto pessoal.

O Fanático: Guardião do Nada com Orgulho

Há também aquele tipo raro, o fanático por bobagens — o gladiador da irrelevância. Ele se apega a detalhes minúsculos, a ídolos de papelão, a querelas medíocres e as defende com a ferocidade de um cão velho guardando um osso já sem gosto. Para esse, o debate não é exercício de razão — é exercício de fé. E fé mal direcionada, como sabemos, produz desastres: alguns históricos, outros apenas cômicos, mas todos igualmente inúteis.

E Enquanto Isso… a Mãe do Idiota Continua em Trabalho de Parto

A Terra gira, o Sol nasce, o Universo expande-se e, pontualmente, mais um idiota vem ao mundo acreditando que traz revelações inéditas, verdades revolucionárias, teorias inéditas que já foram refutadas antes mesmo de ele nascer. E a mãe dele — essa entidade metafórica e eterna — segue grávida, serena, prolífica, garantindo que a espécie continue, que a burrice se renove e que o espetáculo jamais acabe. Afinal, se o mundo fosse habitado apenas por pessoas sensatas, críticas, racionais… — talvez fosse um lugar melhor, sim. Mas, reconheçamos: seria infinitamente menos divertido testemunhar o absurdo cotidiano. E assim continuamos, equilibrando-nos entre a lucidez e a paciência, enquanto a humanidade segue em fila indiana para o berçário universal:

“Próximo! Mais um idiota recém-nascido! Pesa três quilos e já veio com opinião formada.”