A mídia brasileira adora se definir como “imprensa livre”. Livre de quê? Do povo. Porque do poder econômico, político e institucional, ela é profundamente dependente. Não morde a mão que banca.
Lambe.
1. Seleção de Idignação
A mídia não mente o tempo todo. Ela faz algo mais eficaz: seleciona. Escândalo de uns vira: manchete, plantão e editorial indignado. Escândalos de outros viram nota discreta, rodapé e “contextualização”. Isso não é jornalismo. É curadoria ideológica disfarçada de neutralidade. Orwell pisaria duro: “O que não é noticiado simplesmente deixa de existir.”
2. O Jornalismo de Comunicado
A mídia brasileira abandonou a investigação e abraçou o release. Reproduz: notas oficiais, decisões judiciais, falas de autoridade sem perguntar por quê?, para quem? e a quem interessa, pois questionar dá trabalho, enfrentar poder dá processo e processo não paga anúncio. Millôr não teria piedade: “Aqui, a imprensa é livre desde que não use a liberdade.”
3. O Medo de Parecer Radical
Nada apavora mais a mídia brasileira do que ser chamada de “radical”. Então ela se equilibra eternamente no centro frouxo porque relativiza abusos, suaviza injustiças, normaliza absurdos, tudo vira “polêmica”, tudo vira “narrativa” e tudo vira “os dois lados”… Até quando só há um lado errado.
4. O Povo Como Plateia; Não Como Sujeito
O cidadão não é fonte. É audiência. Pois serve para clicar, compartilhar, consumir indignação pré-fabricada. Mas nunca para pautar de verdade. A mídia fala sobre o povo. Raramente fala com o povo. E quase nunca fala a partir do povo.
Conclusão da Mídia
A mídia brasileira não é vilã de novela. É pior: é coadjuvante confortável, porque ela não cria o sistema; ela o normaliza; Não decide os rumos, mas aplaude os atalhos; Não governa, mas, ensina a aceitar. E um povo que aprende a aceitar tudo não precisa ser reprimido. Basta ser informado do jeito certo.
Fechamento Final (Sem Desculpas)
Elite política, Judiciário e mídia formam no Brasil um triângulo perfeito de autoproteção: Um decide sem ouvir; outro legitima sem explicar e o terceiro narra sem questionar. E o cidadão? Paga. Espera. E ainda pede desculpa por desconfiar. Mas quando a lucidez chega — quando o discurso falha — quando a toga perde o brilho — quando a manchete não convence — o sistema não desmorona com barulho. Ele apodrece em silêncio. E isso, meus caros, é o começo do fim de qualquer farsa bem-sucedida.
Há países em crise. Há países em decadência. E há países que entraram num estado mais sofisticado — e mais perigoso — de colapso: a paralisia moral e institucional. O Brasil habita exatamente esse território nebuloso, onde nada explode de vez, mas tudo apodrece lentamente. Não se trata mais de corrupção episódica, nem de incompetência pontual. Trata-se de algo estrutural: o país perdeu a capacidade de decidir. Decide-se apenas o discurso. A realidade fica em suspensão, como um paciente entubado mantido vivo por protocolos que ninguém mais acredita, mas que ninguém ousa desligar.
Vivemos numa nação em que crimes extremos se repetem com regularidade estatística, e ainda assim são tratados como “casos isolados”. Onde monstros são libertados em nome de teses abstratas, e vítimas reais são convertidas em rodapé de reportagem. Onde a palavra “ressocialização” virou um mantra mágico, repetido para evitar o constrangimento de admitir que há indivíduos que romperam irreversivelmente o pacto civilizatório.
O Brasil não é um país humanista.
É um país retórico. Aqui, confunde-se humanidade com permissividade, compaixão com negligência, e direitos humanos com direitos do agressor — enquanto os direitos do cidadão comum são terceirizados à sorte, à fé ou ao acaso. O Estado brasileiro age como um médico que se recusa a diagnosticar tumores porque “a palavra câncer é muito forte”. Prefere chamar de “lesão social complexa”, enquanto o paciente morre com elegância semântica. O mais perturbador não é a existência do criminoso. Toda sociedade os tem. O escândalo está no sistema que insiste em fingir surpresa.
Quando um estuprador reincide, o Estado pede desculpas. Quando um assassino mata de novo, o Estado abre sindicância. Quando inocentes morrem, o Estado promete “apurar responsabilidades”. Mas ninguém responde por nada.
Porque a irresponsabilidade, no Brasil, é colegiada. Juízes decidem “com base na lei”, legisladores culpam “a interpretação”, o Executivo fala em “políticas públicas futuras”, e a sociedade assiste anestesiada, como quem vê uma série macabra que já perdeu o impacto — mas continua assistindo por inércia.
Não é que falte lei. Falta coragem moral para dizer o óbvio: Nem todo criminoso é recuperável; Nem toda teoria sobrevive ao teste da realidade; Nem toda decisão “humanitária” é, de fato, humana. O Brasil se tornou especialista em transferir risco. Risco do sistema para a vítima. Risco do criminoso para a sociedade. Risco da falha institucional para o cidadão comum. Isso não é civilização. Isso é covardia organizada. Enquanto isso, cria-se uma elite discursiva que vive num país abstrato — um Brasil conceitual, limpo, teórico — onde tudo se resolve com palavras cuidadosamente escolhidas. Já o Brasil real sangra, enterra seus mortos e aprende, muito cedo, que justiça é um luxo instável.
A paralisia moral se revela quando ninguém mais sabe o que é inaceitável. Quando tudo é relativizado. Quando toda crítica é “radical”. Quando toda indignação é “exagerada”. Quando exigir proteção vira “autoritarismo”. E assim seguimos: um país que não pune de verdade, não recupera de verdade e não protege de verdade. Um país suspenso entre o medo de parecer duro e o pânico de parecer permissivo — optando, no fim, pela opção mais confortável: não decidir nada.Mas há um custo. Sempre há. O custo é pago por crianças, idosos, mulheres, trabalhadores comuns — gente sem assessoria jurídica, sem microfone, sem narrativa. Gente real, em carne, osso e medo. A pergunta já não é “quem governa”. A pergunta é: quem tem coragem de romper essa paralisia? Porque um país que não consegue proteger seus inocentes já começou a falhar como civilização, ainda que continue funcionando como burocracia. E talvez o mais devastador de tudo seja isto: o Brasil não está em colapso. Está acomodado ao colapso.
E não há estado mais perigoso do que aquele em que o absurdo se torna rotina — e a barbárie aprende a usar gravata, carimbo e linguagem técnica.
A elite política brasileira não governa. Ela administra a própria sobrevivência. Não legisla para o futuro. Legisla para blindar o presente. Não representa o povo. Representa a si mesma em regime de condomínio fechado, com porteiro armado, ar-condicionado e foro privilegiado. Se o Brasil fosse um paciente, a elite política seria o órgão que: não cumpre função vital; consome oxigênio; produz toxinas e ainda se declara indispensável.
1. Diagnóstico Primário: Deslocamento da Realidade
O primeiro sintoma é clássico e incurável sem choque externo: Perda total de contato com a vida real. O político brasileiro médio: não pega transporte público; não depende do SUS; não estuda em escola pública; não teme desemprego e não sente inflação no prato. Ainda assim, fala “em nome do povo” com a mesma naturalidade com que um turista descreve a selva — do alto do helicóptero. Machado de Assis pisaria fino: “Nada representa melhor o povo do que quem jamais o experimentou”.
2. Sintoma Crônico: A Profissão de Político
Em países saudáveis, política é função temporária. No Brasil, é carreira hereditária disfarçada de vocação pública. Aqui temos: filhos de políticos; netos de políticos; sobrinhos de políticos e assessores de políticos que viram políticos. É uma fauna endogâmica. Reproduz-se entre si. Fala sua própria língua. E reage a críticas como um organismo atacado: com anticorpos corporativistas. Millôr não perdoaria: “O problema do Brasil não é político ruim.
É político profissional. ”
3. Mecanismo de Sobrevivência: A Linguagem Como Anestesia
A elite política brasileira domina uma arte refinada: falar muito para não dizer nada. Eles dizem: complexidade do sistema; arcabouço institucional; responsabilidade fiscal; limites orçamentários e governabilidade. Tradução clínica: Não mexam nos nossos privilégios. Orwell assinaria o laudo: “Quando a linguagem é corrupta, a realidade se torna maleável”.
4. Comorbidade Grave: A Impunidade Como Ecossistema
A elite política brasileira não teme a lei. Ela convive com ela. Processos: prescrevem; se arrastam; se perdem; se reinterpretam; Escândalos: viram notas de rodapé; depois memes; depois piada; depois esquecimento. O sistema imunológico institucional foi treinado não para punir — mas para absorver o escândalo até que ele perca força. Machado de Assis, sorri de lado: “No Brasil, a justiça é lenta porque anda acompanhando o acusado”.
5. A Relação Patológica Com o Povo
A elite política brasileira tem uma relação curiosa com o cidadão: Em época eleitoral: chama de protagonista; No resto do tempo: chama de “populismo” quando reclama; Quando protesta: baderneiro; Quando se cala: maduro. Ou seja: o povo só é virtuoso quando não atrapalha. Millôr pisaria fundo: “O cidadão ideal é aquele que vota, cala e paga. ”
6. O Caso dos Privilégios: Um Estudo de Delírio Coletivo
Auxílios; Verbas; Penduricalhos; Cargos e Imunidades. Tudo isso é defendido com fervor quase religioso. Nunca é privilégio. É “garantia institucional”. Nunca é abuso.
É “prerrogativa”. Nunca é imoral.
É “legal”. Aqui, a legalidade virou álibi ético, e a ética foi terceirizada para discursos vazios. Orwell fecha a conta: “Legal não é sinônimo de justo. Mas no Brasil fingimos que é.”
7. O Medo Real da Elite Política
Eles não têm medo de golpe. Não têm medo de protesto. Não têm medo de crise. Eles têm medo de três coisas apenas: Educação de qualidade; Transparência radical e Memória coletiva ativa. Sim. Porque um povo educado pergunta. Um povo informado compara. Um povo que lembra cobra. E cobrança é fatal para quem vive de improviso, discurso e privilégio.
Conclusão: O Colapso Não Virá Com Gritos – Virá Com Clareza
A elite política brasileira não cairá com revolta desorganizada.
Ela sobrevive disso. Ela cai quando: o cidadão entende o sistema, o discurso deixa de hipnotizar e o “sempre foi assim” perde força. O verdadeiro terror de Brasília não é a raiva do povo — é a lucidez dele. Porque a lucidez não pede favores. Não idolatra. Não se ajoelha. Ela apenas olha e diz: “Isso não é normal. E não é aceitável”. E nesse momento, todo o teatro desaba.
O Estado brasileiro é uma criatura curiosa. Não é exatamente um Estado moderno, tampouco um Estado arcaico: é um híbrido barroco, exuberante na forma, confuso na função e voraz na arrecadação. Ele não governa — administra o próprio inchaço. Não planeja — reage. Não serve — exige. Seu talento mais refinado não é a eficiência, nem a justiça social, nem o desenvolvimento sustentável. Seu verdadeiro dom é outro, muito mais sofisticado: extrair recursos da sociedade com a elegância de um elefante numa loja de cristais — e depois explicar, com ar professoral, que a culpa é do contexto internacional. O Estado brasileiro gosta de ser grande para arrecadar, mas, é notavelmente pequeno quando chega a hora de entregar. Grande para tributar, miúdo para educar; obeso para cobrar e anêmico para devolver. É um Leviatã tropical que devora impostos com apetite pantagruélico e, ao final, arrota planilhas, discursos e promessas recicladas.
A alquimia fiscal: transformar suor em fumaça
Aqui, o cidadão trabalha como se fosse suíço; paga impostos como se fosse escandinavo, mas recebe serviços como se estivesse num experimento sociológico malsucedido. O dinheiro entra — isso entra.
Entra pelos impostos diretos, indiretos, ocultos, embutidos, disfarçados, empilhados, cumulativos e criativos. Entra no pão, na luz, no remédio, no transporte, no simples ato de existir. Respirar no Brasil é quase um fato gerador. E depois… ele evapora. Evapora em estruturas inchadas, em cargos redundantes, em consultorias etéreas, em programas mal desenhados, em obras eternamente inacabadas — verdadeiros monumentos à procrastinação institucional. Se a física permitisse, o Brasil já teria criado o primeiro buraco negro fiscal, onde tudo entra e nada, absolutamente nada, retorna.
O discurso oficial: a liturgia da desculpa eterna
Quando questionado, o Estado não se constrange. Pelo contrário: ele explica. Explica que:
• o problema é a herança do passado; • o passado é sempre recente; • o futuro exige sacrifícios; • e o sacrifício, curiosamente, nunca é dele.
O cidadão é convocado a compreender, colaborar, contribuir e calar. Afinal, segundo a teologia estatal, o imposto é um ato de fé: você paga hoje acreditando que, um dia, talvez, quem sabe, algo volte — nem que seja sob a forma de um discurso emocionado em cadeia nacional.
Eficiência? Não exageremos.
A ideia de eficiência no Brasil costuma causar certo desconforto institucional, como se fosse um conceito estrangeiro, exótico, quase indecoroso. Aqui, eficiência soa suspeita. Planejamento assusta. Avaliação de resultados ofende. Mérito causa urticária. O Estado prefere o conforto do improviso permanente. Improvisar permite errar sem culpa, gastar sem controle e explicar sem consequências. É o eterno “estamos trabalhando nisso”, frase que no Brasil equivale a um mantra budista: não resolve nada, mas acalma quem diz.
O pacto silencioso (e perverso)
Forma-se então um pacto implícito:
• o Estado finge que governa, • o cidadão finge que acredita, • e ambos seguem exaustos.
Só que o cansaço não é simétrico. O Estado engorda; o cidadão emagrece. O Estado acumula poder; o cidadão acumula boletos. O Estado fala em justiça social; o cidadão faz contas no supermercado com uma calculadora emocionalmente devastada.
Conclusão: uma supernova mal resolvida
O problema não é apenas econômico.
É moral, estrutural e civilizacional. Um Estado que cresce sem entregar não é protetor — é parasitário. Um governo que arrecada sem eficiência não é social — é predatório.
E uma sociedade que normaliza isso acaba vivendo num eterno estado de sobrevivência tributária. O Brasil não precisa de mais impostos. Precisa de menos retórica, menos gigantismo, menos fome arrecadatória — e infinitamente mais responsabilidade. Até lá, seguimos: o planeta girando, o Universo indiferente, e o cidadão brasileiro pagando — sempre pagando — para sustentar um Leviatã que confunde grandeza com peso.
Chega dezembro ao fim, e com ele essa curiosa suspensão da realidade que acomete a humanidade entre o dia 26 e a primeira ressaca de janeiro. É um período em que pessoas absolutamente normais — algumas até inteligentes — passam a acreditar que a simples troca de um número no calendário tem poderes metafísicos de redenção moral, reorganização existencial e milagres comportamentais instantâneos. O Ano Novo, essa entidade abstrata e injustamente responsabilizada, transforma-se no grande bode expiatório da preguiça acumulada, da falta de disciplina crônica e, sobretudo, da ausência completa de autocrítica ao longo dos últimos doze meses.
De repente, todos vão mudar. É comovente. E profundamente falso.
O sujeito que passou o ano inteiro odiando acordar cedo jura, de taça de espumante na mão, que agora “vai correr todas as manhãs”. Não porque goste de correr, claro — mas porque viu um reel de alguém correndo ao nascer do sol, com legenda motivacional e trilha épica. O corpo continua o mesmo; a ilusão é que ganhou tênis novo. A criatura que nunca abriu um livro que não tivesse capa plastificada promete que “este ano vou ler mais”. Nunca especifica o quê, quando ou por quê. Ler mais virou um conceito metafísico, não uma prática concreta. Um ideal platônico da estante: bonito de longe, intocado de perto.
Há também o clássico voto da dieta. Esse é antigo, quase litúrgico. Come-se como um romano decadente até o dia 31 à noite e, à meia-noite, ocorre o milagre da conversão nutricional. A lasanha vira pecado. O pão, um inimigo moral. O açúcar, uma traição à pátria. Tudo isso dura, com sorte, até o dia 7 de janeiro — quando alguém descobre que força de vontade não se fabrica em promoções de fim de ano. Não podemos esquecer o voto financeiro:
“Agora vou me organizar.”
Dito pelo mesmo indivíduo que não sabe onde foi parar o salário de novembro, mas que conhece perfeitamente o limite do cartão. Organização financeira, nesse contexto, significa esperar que o universo colabore.
E há, claro, a promessa mais ambiciosa de todas:
“Este ano vou ser uma pessoa melhor.”
Melhor como?
Mais paciente? Menos arrogante? Mais honesta consigo mesma?
Não importa. O conceito de “pessoa melhor” permanece convenientemente vago, porque vaguidão é o melhor esconderijo para a inércia. Sem critérios, não há fracasso — apenas uma sensação difusa de que “ainda não deu tempo”. O que ninguém admite — porque estraga a festa — é que o problema nunca foi o ano velho. Nem o signo. Nem Mercúrio. Nem a energia do universo. O problema é muito menos místico e muito mais prosaico: mudar dá trabalho, e trabalho exige constância, silêncio, repetição e desconforto — tudo aquilo que não rende postagem bonita. O Ano Novo, no fundo, virou um ritual de autoengano coletivo. Uma missa laica em que se confessa sem arrependimento real, promete-se sem intenção prática e absolve-se antes mesmo do primeiro erro. É uma forma elegante de adiar a responsabilidade para fevereiro, março… ou para “quando as coisas melhorarem”.
Mas há uma verdade inconveniente, dessas que não combinam com fogos de artifício: quem não mudou numa terça-feira qualquer de abril dificilmente mudará num domingo festivo de janeiro.
Mudança real não faz barulho. Não usa roupa branca. Não brinda à meia-noite.
Ela começa num dia comum, sem plateia, sem anúncio, sem promessa grandiosa — e, sobretudo, sem necessidade de justificar-se para ninguém.
Talvez o gesto mais revolucionário deste Ano Novo seja não prometer nada.
Ou melhor: prometer pouco, calado, e cumprir no anonimato.
O mundo parecia grande demais para um garoto de quinze anos, e ainda assim, pequeno diante do céu que se derramava, imenso, sobre a antiga Escola Agro-Técnica Federal de Belo Jardim, no agreste pernambucano. O vento cortava a madrugada com aquele frio seco e mineral que só o interior conhece. A escola dormia, mas ele — não. Porque naquela noite o Universo tinha prometido um encontro.
Maurino acordou antes das três.
O silêncio era tão profundo que parecia escutar a própria pulsação da Terra. Pegou o binóculo simples — era quase infantil diante da vastidão que o aguardava — e saiu devagar, sentindo o cheiro do mato úmido, a respiração da noite e aquela pontada de arrebatamento que só quem tem alma cósmica pode compreender. O céu estava limpo.
De um azul tão escuro que tocava o preto absoluto.
A Via-Láctea atravessava o firmamento como uma estrada de poeira divina, e ali, entre estrelas frias e quentes, entre gigantes azuis e anãs veladas, entre espectros e abismos, ele buscava um viajante antigo, um mensageiro da eternidade: o cometa Halley.
A cada vez que aproximava o binóculo do rosto, era como se abrisse uma porta. E quando finalmente o viu — tênue, difuso, quase tímido, mas ali — sentiu que algo dentro de si se deslocava. Não era alegria infantil. Não era surpresa de estudante. Era revelação. Era elã. Era o sentimento secreto de quem descobre, de repente, que a própria alma não nasceu para se limitar a um único mundo. Ali, naquele ponto perdido do agreste, um adolescente solitário conversava com um cometa. E o cometa respondeu. Os dias naquela escola não eram fáceis.
A distância da família, a saudade dos pais, o peso silencioso das responsabilidades precoces — tudo se acumulava como poeira no peito. Era um tempo em que crescer doía, e em que sentir demais parecia um tipo de crime silencioso. Havia quem o achasse estranho. E era mesmo — graças a Deus. Enquanto uns se protegiam na normalidade, ele se refugiava no infinito.
Ali, entre provas, dificuldades e medos nunca revelados, duas figuras surgiram como faróis no meio da neblina: Germano, o mestre da Química, sério, meticuloso, íntegro; e Dagmar, o mago da Física, que via nas equações um modo de decifrar a respiração do universo. Eles olharam para aquele garoto magro, introspectivo, apaixonado pelo céu, e viram potencial.
Instigaram. Incentivaram. Abriram portas. Sopram-lhe coragem para ir além do que a vida imediata oferecia. Sugeriram a Física Nuclear — não como obrigação, mas como destino. E ele acreditou. Porque havia, dentro dele, um núcleo ardente, uma vontade de compreender o indizível, de enfrentar o desconhecido, de tocar — nem que fosse com a ponta dos dedos — a textura do Universo. Mas crescer tem seus preços. E a vida, com a sabedoria dura que o tempo impõe, começou a exigir escolhas.
Houve recuos. Houve silêncio. Houve noites de medo. Houve dias de cansaço.
Recuar, porém, nunca foi desistir. Fraquejar? Sim: todos os seres humanos o fazem.
Desistir? Nunca. Isso não estava escrito na alma dele.
Os anos passaram.
Décadas inteiras, como labaredas sopradas pelo vento.
E aquele garoto de 1986 se tornou homem — forte, profundo, intuitivo, sensível e viril. Um homem que olhou o céu por dentro e por fora. Um homem que, mesmo carregando o peso das responsabilidades, preservou dentro de si uma chama antiga: a do menino que conversou com o Halley. Hoje, ao se aproximar dos cinquenta e cinco anos, ele olha para trás não com saudade, mas com reconhecimento.
Porque não perdeu nada.
Porque não desperdiçou nada.
Porque cada dificuldade o moldou.
Cada recuo foi estratégia.
Cada dor o fortaleceu.
Cada madrugada o ensinou que o Universo sempre responde quem ousa chamá-lo pelo nome.
O garoto permanece vivo.
O homem permanece digno.
E a história — a sua história — ainda está longe do fim. Porque alguns homens nascem para caminhar na Terra. Mas outros, poucos, raros… nascem para caminhar entre as estrelas.
Há frases que, de tão precisas, deveriam ser esculpidas em mármore e colocadas na entrada de todas as repartições públicas, parlamentos, assembleias, escolas, fóruns e — por que não? — nas portas das redes sociais, esse grande manicômio global sem muro nem enfermeiro.
Entre elas, a velha sentença que costuma circular como advertência e lamento:
“A mãe do idiota está sempre grávida.”
O mundo, afinal, parece uma imensa maternidade onde a cada hora nasce mais um cidadão determinado a provar que a ignorância é hereditária, multiplicável e, sobretudo, impávida.
Vivemos numa era em que a burrice deixou de ser um acidente e se tornou carreira, com direito a seguidores, hashtags, discursos inflamados e lives diárias em que o intelecto é frito em óleo grosso.
A Ciência fala — e é vaiada. Os fatos gritam — e são ignorados. Os especialistas alertam — e são chamados de elitistas, conspiradores, globalistas e todas as demais palavras terminadas em “-ista” que os imbecis colecionam como se fossem figurinhas de álbum.
E o mais fascinante: o idiota moderno não é apenas teimoso; ele é missionário. Quer converter o planeta inteiro à sua gloriosa devoção ao nada.
O Idiota e a Política: Uma História de Amor doentio
Políticos? Ah, esses são apenas o capítulo intermediário da epopeia. A verdadeira genialidade está no eleitor que vota sem ler, sem pensar, sem saber, mas com a convicção fervorosa de um profeta. Ele não escolhe representantes — ele escolhe espelhos. E assim acaba elegendo exatamente aquilo que mais teme: versões ampliadas de si mesmo.
Depois reclama. Protesta. Bate panela. Publica textão. Mas na urna, age com a profundidade de um pires rachado.
O idiota político não deseja debate — deseja barulho. Não quer soluções — quer slogans. Não busca governança — busca guerra, desde que travada em comentários de internet, onde coragem é barata e coerência é supérflua.
O Idiota Anticiência: A Espécie Mais Barulhenta da Criação
Toda geração teve seus tontos, mas a atual tem um diferencial competitivo: Wi-Fi. A internet deu megafone aos que, outrora, só tinham direito a falar com quem estivesse sentado na mesma mesa de bar e bêbado o bastante para ouvir. Agora os negadores da Ciência florescem como fungo em ambiente úmido.
Eles rejeitam vacinas, mas rezam para curas milagrosas. Negam a esfericidade da Terra, mas confiam no GPS do celular. Chamam pesquisadores de mentirosos, mas acreditam cegamente em vídeos feitos num porão com uma lâmpada queimada. Esses não apenas duvidam da Ciência — eles se ofendem com ela, como se a gravidade fosse um insulto pessoal.
O Fanático: Guardião do Nada com Orgulho
Há também aquele tipo raro, o fanático por bobagens — o gladiador da irrelevância. Ele se apega a detalhes minúsculos, a ídolos de papelão, a querelas medíocres e as defende com a ferocidade de um cão velho guardando um osso já sem gosto. Para esse, o debate não é exercício de razão — é exercício de fé. E fé mal direcionada, como sabemos, produz desastres: alguns históricos, outros apenas cômicos, mas todos igualmente inúteis.
E Enquanto Isso… a Mãe do Idiota Continua em Trabalho de Parto
A Terra gira, o Sol nasce, o Universo expande-se e, pontualmente, mais um idiota vem ao mundo acreditando que traz revelações inéditas, verdades revolucionárias, teorias inéditas que já foram refutadas antes mesmo de ele nascer. E a mãe dele — essa entidade metafórica e eterna — segue grávida, serena, prolífica, garantindo que a espécie continue, que a burrice se renove e que o espetáculo jamais acabe. Afinal, se o mundo fosse habitado apenas por pessoas sensatas, críticas, racionais… — talvez fosse um lugar melhor, sim. Mas, reconheçamos: seria infinitamente menos divertido testemunhar o absurdo cotidiano. E assim continuamos, equilibrando-nos entre a lucidez e a paciência, enquanto a humanidade segue em fila indiana para o berçário universal:
“Próximo! Mais um idiota recém-nascido! Pesa três quilos e já veio com opinião formada.”
Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.
A que vou narrar pertence ao último grupo.
Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.
O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.
E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.
Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.
Dois jovens. Dois espectros.
Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:
Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.
Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.
Quase dava para ouvir o sol rindo deles.
Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:
— O que significa isso?
E então veio a resposta.
A resposta que não deveria existir.
A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.
A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:
“Somos góticos. Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”
Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.
Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.
Era o triunfo da contradição.
Era o triunfo da estética sobre a lógica.
Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.
E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:
“Meus filhos, cuidem-se. Até os mortos suariam nesse calor.”
Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.
Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.
E eu testemunhei isso.
Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.
Há quem diga que dezembro é o mês da luz, da esperança, da fraternidade. Balela. Dezembro é, na verdade, o grande palco onde a humanidade exibe — com orgulho quase comovente — sua capacidade infinita de fingir. É quando a sociedade, já exausta de suas próprias contradições, resolve maquiar-se com purpurina emocional e interpretar, com a profundidade de uma poça d’água, o papel de “ser humano elevado pelas virtudes do natal”.
Uma pantomima coletiva que faria até os deuses gregos gargalharem de pena.
A súbita conversão dos medíocres
É fascinante observar como, no último mês do ano, os mesmos que passaram janeiro a novembro praticando grosserias, indiferença, veneno social e mesquinharia passam por uma metamorfose tão improvável quanto duvidosa.
Do nada, tornam-se anjos barrocos:
— “Feliz Natal, querido!” — “Que Deus te abençoe!” — “O importante é o amor!”
Dezembro transforma canalhas em santos de gesso, e hipócritas em poetas de cartão de shopping.
É a única época do ano em que pessoas tóxicas distribuem abraços — como se o calor humano que negaram durante meses pudesse ser compensado com um tapinha nas costas e um sorriso forçado.
As ceias — templos da falsidade refinada
E lá vão todos, vestidos de branco, como se a cor pudesse purificar suas intenções. Sentam-se à mesa para uma refeição que ninguém quer realmente compartilhar, mas todos fingem apreciar. Convive-se durante essas horas com parentes que se evitou o ano inteiro, respondem-se perguntas idiotas com paciência postiça e ri-se de piadas tão mortas quanto o peru da véspera. É uma liturgia tão teatral que faria Shakespeare pedir arrego.
O velho de barba branca — símbolo máximo da alienação sazonal
E no centro desse circo moral está ele: o venerável Papai Noel, uma figura tão logicamente absurda quanto emocionalmente conveniente.
Um velhinho gordo, vestido de lã em pleno calor tropical, que dirige um trenó voador puxado por renas possivelmente alucinadas.
Esse personagem simboliza, com perfeição, o nível de fantasia necessária para sustentar a farsa coletiva.
Afinal, é preciso crer em alguma coisa para justificar toda essa performance artificial — e nada mais apropriado do que um mito importado, descolado de qualquer realidade.
A fé adaptada às conveniências
E como se já não bastasse, o calendário ainda insiste em celebrar um nascimento que — historicamente — não ocorreu no mês celebrado.
Mas aceitar fatos nunca foi o forte dos entusiastas das festas de fim de ano. O importante é a encenação. A aura artificial. O verniz de “espiritualidade”. Não importa que o homenageado provavelmente reprovaria 90% dos excessos cometidos em seu nome.
A verdade incômoda — e inegável
Toda essa farofa emocional serve a um propósito simples: fingir que somos melhores do que realmente somos.
Dezembro é o momento em que a humanidade tenta corrigir, em poucos dias, um ano inteiro de descaso, preguiça moral e egoísmo institucionalizado.
É a estação da hipocrisia em flor. Mas há quem observe tudo isso com a tranquilidade dos que não caem na farsa. Aqueles que preferem a solitude honesta a uma festa ruidosa; o silêncio inteligente a uma conversa vazia; um copo de whisky verdadeiro a um brinde falso. Esses — poucos, raros e lúcidos — sabem que dezembro não é sagrado, iluminado ou transformador. Dezembro é apenas um mês quente demais, barulhento demais, teatral demais e insuportavelmente hipócrita. E que, quando passa, deixa-nos apenas um alívio imenso: o de saber que não precisamos participar do espetáculo grotesco da “bondade temporária” jamais.
Há no Brasil uma engrenagem silenciosa, vasta e pegajosa, que gira muito antes da chegada de qualquer governante e continuará girando muito depois da partida de todos eles. Não se trata de esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores ou de qualquer rótulo que a polarização histérica insiste em fabricar. Trata-se de algo mais profundo, mais arraigado e mais perverso: um sistema político concebido para sobreviver a despeito do povo — e não por causa dele.
O problema do Brasil nunca foi a falta de discursos. Discursos sobram. São abundantes, inflamados, revestidos de boas intenções e embalados na sedução fácil da esperança. O problema é que o discurso político brasileiro é, por natureza, um monumento à desumanidade, porque promete humanidade, mas opera na lógica fria da autopreservação.
O sistema político nacional tornou-se um labirinto onde a verdade perde a voz e a mentira ganha gabinete. A moral é elástica, o interesse público é retórico, e o poder se tornou um fim em si mesmo — não uma ferramenta. Quando a política deixa de servir ao povo para servir aos seus próprios operadores, ela se transforma em uma máquina desumana, indiferente, insensível e voraz.
O Ciclo Vicioso do Nada
O Brasil vive, há décadas, um mesmo ciclo repetitivo:
— escândalo → indignação popular → promessas de mudança → eleição → frustração → novo escândalo.
Este processo circular não é coincidência; é método.
É a prova de que o sistema não se renova: ele apenas se rearranja.
A cada quatro anos, troca-se a paisagem, mas a arquitetura permanece idêntica. São os mesmos vícios, as mesmas estruturas, as mesmas brechas legais, a mesma incapacidade crônica de priorizar o essencial. Políticos mudam; o sistema permanece tão intocado quanto uma rocha, e tão frio quanto ela.
A Política da Aparência
Há uma teatralidade no Brasil que transforma a política em espetáculo. Debates viram arenas de gladiadores, não de ideias. Projetos de lei se tornam armas de marketing. Votações se convertem em palcos. O discurso político se distancia da realidade concreta e se aproxima da dramaturgia:
Enquanto isso, o cotidiano da população se deteriora nos becos, nos corredores dos hospitais, nas salas de aula esquecidas, nas estradas esburacadas.
O país real sangra; o país político posa para fotos.
O Estado Mastodonte
Criamos um Estado tão grande, tão lento, tão pesado e tão burocrático, que ele próprio se tornou incapaz de atender às demandas que promete resolver. A máquina estatal brasileira consome mais energia para manter-se de pé do que para servir. É um organismo que respira por aparelhos, alimentado por impostos que drenam o suor da sociedade para sustentar uma estrutura que raramente devolve na mesma proporção.
O povo financia um colosso que o ignora.
E esse é o ponto: o sistema político brasileiro é desumano porque é indiferente.
A Falácia da Representação
Fala-se muito em “representatividade”. Mas o que significa representar um povo que não participa, não é ouvido, não é considerado? A maior falácia do sistema político brasileiro é dizer que representa o cidadão quando, na prática, representa interesses de grupos, lobbies, alianças, acordos subterrâneos e barganhas eternas.
O cidadão comum é lembrado apenas quando vota — e esquecido imediatamente depois.
A representatividade no Brasil é decorativa.
A democracia existe no papel; no cotidiano, ela é um simulacro.
A Corrupção Não é o Problema — É o Sintoma
A corrupção no Brasil não é um acidente, não é um desvio isolado, não é obra deste ou daquele partido. Ela é o efeito natural de um sistema que cria incentivos para a prática e punições tímidas para quem a comete. Focar apenas na corrupção é focar no sintoma e ignorar a doença: a desumanização da política. É fácil culpar indivíduos; é difícil encarar estruturas.
O Cansaço Nacional
O brasileiro está cansado.
Cansado de promessas. Cansado de discursos. Cansado de indignação seletiva. Cansado de narrativas que mudam, mas práticas que persistem. Cansado de ser massa de manobra, combustível eleitoral, estatística ambulante.
Esse cansaço não é apatia; é dor.
É a percepção de que o país poderia ser gigante, mas é mantido no chão por correntes invisíveis.
A Urgência da Humanidade
O que falta ao sistema político brasileiro não é uma ideologia milagrosa. Não é um salvador da pátria.
Não é uma mudança de cor partidária.
O que falta é humanidade.
É a capacidade de olhar para o outro e reconhecer sua dignidade. É a coragem de colocar o bem comum acima do cálculo eleitoral. É a ética como princípio, e não como marketing.
Quando uma política deixa de ser humana, ela deixa de ser política e se torna mera gestão de poder.
O Brasil vive exatamente isso.
Conclusão: o Adjetivo que Condena
Se fosse possível resumir toda a falência moral e estrutural do sistema político brasileiro em um único adjetivo, seria este:
Desumano.
Porque desumano é tudo o que nega o outro, ignora o sofrimento, se alimenta da desigualdade e prospera com a injustiça.
E, enquanto não houver um movimento profundo — cultural, ético, estrutural — que recoloque o ser humano no centro da política, o sistema continuará sendo exatamente o que sempre foi: um labirinto sem saída, onde o povo é o único que não encontra a porta.