MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Brasília não é uma cidade. É um sintoma. Erguida no meio do nada para simbolizar o futuro, acabou se tornando o maior monumento brasileiro ao descolamento da realidade. Uma maquete de concreto onde o poder vive em gravidade zero, flutuando acima da vida comum, como se o país fosse apenas um conceito abstrato — jamais gente de carne, osso e boletos. Brasília não governa o Brasil. Ela administra a distância. Ali, o sofrimento vira estatística; a miséria, gráfico; a educação, uma linha orçamentária facilmente sacrificável; o professor, um custo incômodo; o cientista, um luxo dispensável; o povo, um ruído de fundo que atrapalha a liturgia do poder.

O País Que Paga Como Primeiro Mundo e Recebe Como Colônia

O brasileiro paga impostos suíços para receber serviços haitianos — com todo respeito ao Haiti, que ao menos tem a dignidade de não fingir normalidade institucional. Aqui, paga-se caro para: estudar mal, adoecer muito, envelhecer inseguro, trabalhar demais, receber pouco e ouvir que “não há recursos”. Mas curiosamente, nunca falta verba para privilégios, auxílios de toda natureza, salários que desafiam a física econômica, aposentadorias que zombam da demografia e cargos que só existem para acomodar lealdades. No Brasil, o Estado é mínimo para o cidadão e máximo para si mesmo.

A Corrupção Não é Um Desvio — É Um Método

Aqui vai a parte que dói: A corrupção no Brasil não é exceção, é arquitetura. Ela não acontece porque “faltam leis”. Ela acontece porque as leis foram feitas para permitir que ela aconteça sem consequências reais. O sistema não falha. Ele funciona exatamente como foi desenhado. Funciona para: absolver os amigos, prescrever os crimes, eternizar processos, relativizar escândalos e cansar o cidadão até que ele desista de esperar justiça. A impunidade brasileira não é acidente: é política pública informal.

Professores: O Maior Desprezo Nacional

Não é coincidência que um país que despreza seus professores não produza prêmios Nobel. É consequência direta. Professor no Brasil é tratado como: missionário (para justificar salário baixo), herói (para naturalizar o sacrifício), vocacionado (para negar direitos) e culpado (quando o sistema falha). O Estado diz: “Educação é prioridade”. E imediatamente faz o oposto. Porque educação liberta; e liberdade intelectual é uma ameaça ao poder medíocre. Um país que investe em professores cria cidadãos difíceis de enganar. E isso, para certas instâncias, é inaceitável.

O Complexo de Vira-Latas Não Nasceu do Nada

O brasileiro não se acha inferior por genética, clima ou destino. Ele foi treinado para isso. Treinado por: séculos de colonização predatória, uma elite que sempre se viu como europeia exilada, uma narrativa constante de fracasso, e um Estado que nunca se reconheceu como servidor do povo. Aqui, o sucesso individual é tolerado. O sucesso coletivo é sabotado. Porque um povo confiante exige mais. E exigir mais é perigoso para quem governa pouco e ganha muito.

Brasília Não Tem Medo do Povo – Tem Desprezo

Essa é a verdade mais cruel. Se houvesse medo, haveria mudança. Há apenas indiferença blindada por ar-condicionado, assessores e carros oficiais. Brasília não se envergonha. Ela se protege. Protege-se: do olhar crítico, da comparação internacional, da meritocracia real, da eficiência e da transparência verdadeira. O poder ali não se sente servidor. Sente-se proprietário.

E Mesmo Assim… O Brasil Não é Brasília

Aqui está o erro fundamental de quem governa de lá: confundir o país com o palácio. O Brasil real: acorda cedo, trabalha duro, improvisa, cria, resiste e sobrevive apesar do Estado — não por causa dele. O brasileiro comum é infinitamente melhor do que o sistema que o administra. E é por isso que tanta gente sente vergonha — não do país, mas da distância obscena entre quem sustenta tudo e quem decide tudo.

Conclusão (A Joelhada Moral)

Brasília não cairá por bombas. Ela treme com algo muito mais perigoso: Consciência lúcida; Comparação internacional honesta; Palavras que não pedem licença; Cidadãos que param de se culpar e começam a analisar. Porque quando o brasileiro percebe que: não é incompetente, não é inferior, não é o problema, o castelo de privilégios começará a parecer o que sempre foi: um insulto em concreto armado.

2 pensou em “A CAPITAL ONDE O PODER APRENDEU A NÃO TER VERGONHA

  1. Professor no Brasil é tratado como: missionário (para justificar salário baixo), herói (para naturalizar o sacrifício), vocacionado (para negar direitos) e culpado (quando o sistema falha).

    Nenhuma culpa possuem os professores?

    Meu caro,
    Sabendo TODOS que os resultados em sala de aula, como bem mostram os “provões” nacionais e internacionais a que são submetidos nossos alunos, não são dos melhores (estamos sempre na rabeira das colocações), pergunto:
    O que é necessário fazer?
    Creio que em uma ´vindoura crônica esse cronista (dos poucos deste JBF que sabem escrever) poderia enumerar mazelas e soluções.
    Abraços da fã,
    Matilde

  2. Matilde, Hannah Arendt advertiu, ainda na década de 1950, que uma sociedade entra em crise quando deixa de assumir responsabilidade pelo mundo que entrega às novas gerações. Em seu ensaio “A Crise na Educação”, ela não falava apenas de escolas: falava da ruptura entre passado e futuro.

    Educar, dizia Arendt, é um ato profundamente conservador — não no sentido ideológico, mas no sentido civilizacional. Educar é preservar o mundo para que os recém-chegados possam renová-lo. É assumir a responsabilidade por aquilo que já existe antes de permitir que o novo floresça.
    Quando uma sociedade abdica dessa responsabilidade, não se instala apenas um problema pedagógico. Instala-se uma crise de autoridade.
    E aqui é preciso precisão conceitual: autoridade, para Arendt, não é autoritarismo. Não é imposição pela força. É reconhecimento legítimo de que alguém assume a responsabilidade por algo maior do que si mesmo.
    Quando a figura do professor deixa de ser símbolo de rigor e passa a ser apenas executor de tarefas burocráticas, quando o pesquisador precisa justificar sua utilidade imediata como se estivesse vendendo um produto, algo se rompe na estrutura simbólica da educação. A crise não é apenas financeira. É ontológica.

    A pesquisa exige tempo. A reflexão exige silêncio. O método exige disciplina. Mas vivemos na era da aceleração permanente, onde a utilidade imediata se tornou critério supremo de valor. Nesse cenário, o pensamento profundo passa a parecer um luxo excêntrico.
    Arendt falava também da “banalidade”. Não apenas a banalidade do mal, mas a banalidade da ausência de pensamento. O maior perigo, dizia ela, não está necessariamente na maldade deliberada, mas na incapacidade de pensar criticamente, de examinar, de julgar. Uma educação que abdica do rigor intelectual não forma apenas profissionais frágeis — forma cidadãos com menor capacidade de julgamento.
    E uma sociedade que enfraquece o julgamento enfraquece sua própria democracia.
    A erosão da pesquisa científica, o sucateamento simbólico da universidade, a redução do professor a um operador curricular, tudo isso não produz apenas estatísticas negativas.
    Produz um efeito mais profundo: a atrofia da responsabilidade coletiva pelo mundo. Quando bibliotecas são tratadas como despesas, quando laboratórios envelhecem sem renovação, quando a formação continuada é vista como excesso e não como obrigação ética, estamos sinalizando às novas gerações que o mundo não merece ser preservado com seriedade.

    E Arendt foi clara: se os adultos não assumem a responsabilidade pelo mundo, traem as crianças. A educação não é um experimento social permanente. Não é palco para improvisações ideológicas nem laboratório de vaidades institucionais. É o espaço onde se aprende que o mundo é complexo e exige esforço intelectual para ser compreendido.
    O abandono da pesquisa e o enfraquecimento do prestígio intelectual criam um ambiente onde slogans substituem argumentos, onde opiniões substituem dados, onde adesão substitui análise. Não é preciso destruir universidades para esvaziá-las. Basta normalizar a superficialidade. A mediocridade não se impõe de uma vez; ela se infiltra. Primeiro relativiza-se o rigor. Depois flexibiliza-se a exigência. Em seguida celebra-se a simplificação como virtude democrática. Por fim, o pensamento complexo passa a ser visto como elitismo.

    O resultado é uma sociedade que reage mais do que reflete.
    Arendt insistia que cada nascimento traz ao mundo a possibilidade do novo — a “natalidade”. Mas o novo só pode florescer se houver um mundo minimamente sólido para recebê-lo. Se o mundo entregue às novas gerações é instável, improvisado e intelectualmente fragilizado, a promessa do novo se esvazia.

    Investir em educação e pesquisa não é luxo civilizacional. É condição de continuidade histórica. Uma nação que desvaloriza a ciência e o pensamento profundo começa a viver de empréstimos culturais. Passa a importar soluções, repetir modelos, depender da criatividade alheia. Perde autonomia intelectual. E autonomia intelectual é pré-condição de soberania real. A crise da educação, portanto, não é apenas pedagógica. É política no sentido mais alto da palavra: diz respeito à forma como escolhemos habitar o mundo comum.

    Se quisermos reverter a república da superfície, será preciso recuperar o sentido de responsabilidade arendtiano: reconhecer que ensinar é introduzir o jovem num mundo que merece ser levado a sério.
    Sem pesquisa consistente, não há inovação duradoura.
    Sem professores valorizados, não há formação sólida.
    Sem prestígio cultural do conhecimento, não há debate público maduro.
    Arendt nos alertou: o perigo maior não está no barulho das paixões, mas no silêncio do pensamento que deixou de acontecer.
    Quando o pensamento deixa de acontecer, o vazio se preenche sozinho.
    E raramente com algo melhor.

    Obrigado por suas palavras. Fico muito lisonjeado. A recíprocra é verdadeira.

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