Há algo de silenciosamente trágico quando uma nação começa a desconfiar do pensamento. Não se trata de uma crise espetacular, dessas que ocupam manchetes com escândalos ou cifras bilionárias. Trata-se de um fenômeno mais discreto e, por isso mesmo, mais perigoso: a lenta substituição da profundidade pela aparência, da pesquisa pelo palpite, da formação pelo improviso. Durante décadas, repetimos que a educação seria a grande prioridade. A palavra tornou-se um mantra cívico, pronunciado com solenidade em discursos, relatórios e campanhas. Entretanto, enquanto a retórica ascendia, os laboratórios envelheciam, as bibliotecas rareavam, os pesquisadores aprendiam a sobreviver mais do que a investigar.
Criou-se, pouco a pouco, uma cultura da superfície. A universidade, que deveria ser um território de inquietação intelectual e risco epistemológico, foi cercada por burocracias que confundem produção de conhecimento com preenchimento de formulários. O professor, que deveria ser um artesão do rigor e da dúvida, passou a dividir seu tempo entre relatórios intermináveis e a necessidade constante de justificar sua própria existência. Não se investe em pesquisa como se investe em espetáculo. Pesquisa exige tempo — e tempo não rende aplausos imediatos. Exige silêncio — e o silêncio não gera trending topics. Exige erro — e o erro não cabe em slogans. Assim, substituímos o método pelo discurso inflamado, o dado pela narrativa conveniente, o argumento pela adesão.
O resultado não é apenas acadêmico; é civilizacional. Uma sociedade que desvaloriza a pesquisa começa a perder sua capacidade de imaginar o futuro. Sem investigação científica, não há inovação consistente. Sem leitura profunda, não há pensamento crítico. Sem professores estimulados a estudar continuamente, forma-se uma cadeia de transmissão de conteúdos cada vez mais esvaziados. É evidente que não se trata de um problema individual. Há professores brilhantes lutando contra a maré. Há estudantes que resistem ao empobrecimento intelectual. Há pesquisadores que produzem excelência apesar da precariedade.
Mas estruturas moldam comportamentos. Quando a prioridade orçamentária oscila ao sabor de conveniências imediatas, quando a cultura pública passa a tratar a erudição com desconfiança e a complexidade como arrogância, instala-se uma pedagogia invisível da mediocridade. E a mediocridade tem uma característica perigosa: ela se normaliza. Começa-se aceitando que “é assim mesmo”. Que a pesquisa pode esperar. Que a formação continuada é luxo. Que bibliotecas são ornamentos. Que laboratórios são despesas, não investimentos.
Pouco a pouco, a imaginação coletiva encolhe. Não é necessário censurar livros para empobrecer uma nação; basta torná-los irrelevantes no imaginário social. Não é preciso fechar universidades; basta asfixiá-las lentamente. Não é preciso declarar guerra ao pensamento; basta tratá-lo como inconveniente. A tragédia maior talvez não seja a falta de recursos, mas a erosão simbólica do valor do conhecimento. Quando a inteligência deixa de ser admirada e passa a ser suspeita, algo profundo se rompe.
Educação não é apenas transmissão de conteúdos. É formação de critérios. É aprendizado da dúvida. É disciplina do raciocínio. É treino da complexidade. Sem isso, o debate público se reduz a palavras de ordem. A análise vira torcida. A crítica vira rótulo. E a política — qualquer que seja ela — passa a operar num terreno cada vez menos iluminado pela razão.
O mais inquietante é que os efeitos não aparecem imediatamente. Eles se acumulam. São graduais. São cumulativos. São geracionais.
Uma geração mal formada não apenas sabe menos; ela questiona menos. E uma sociedade que questiona menos se torna mais vulnerável a simplificações, promessas fáceis e soluções mágicas. Talvez o desafio maior não seja apenas reivindicar mais investimento — embora ele seja indispensável. O desafio é recuperar o prestígio cultural do estudo sério, do método, da pesquisa paciente, do professor que lê mais do que fala. Não se constrói uma nação sólida apenas com infraestrutura visível. Constrói-se também com infraestrutura invisível: bibliotecas ativas, laboratórios vivos, professores pesquisando, estudantes inquietos.
Se quisermos sair da república da superfície, será preciso coragem para reinvestir na profundidade. Coragem para aceitar que conhecimento não é gasto: é fundamento. Que universidade não é ornamento: é pilar. Que professor não é burocrata: é formador de futuro. A educação não precisa de slogans. Precisa de estrutura. Não precisa de aplausos episódicos. Precisa de continuidade. Não precisa de promessas inflamadas. Precisa de compromisso silencioso e persistente. Quando uma sociedade decide levar o conhecimento a sério, ela muda sua trajetória histórica.
Quando decide não levar, também.
Lamentável. E verdadeiro…
Professor não é burocrata: é formador de futuro.
Quantidade significativa de discursos são pautados pelo repetido: “o professor, indispensável formador de futuro (até que a IA os torne absoletos), é mal remunerado”.
Quanto deveria ganhar um professor? Afinal, «Quem diz que o dinheiro não traz felicidade nunca foi miserável.»
Imagine o senhor, professor Maurino, que euzinha, uma aristocrata europeia, daquelas famílias quatrocentonas e “metidas à besta”, tenho uma amiga merendeira (os opostos do extrato social se cruzando).
E ela tem algumas amigas professoras. Pelo que me relata a amiga, que sustenta esfaimados discentes (são vinte anos na labuta diária na cozinha), andam em falta (infelizmente) os tais formadores de futuros.
Há algo de silenciosamente trágico quando uma nação começa a desconfiar do pensamento. Desconfiada e assustada com o mundo atual e com os formadores de futuro, aqui estou, QUIETINHA no sofá lendo “As três mortes de Lucas Andrade”, de Henrique Raposo. Escrito está na página 72: «Quem diz que o dinheiro não traz felicidade nunca foi miserável.»
E educação me conduz até a VEJA, na época que ainda a lia: Uma interessante matéria em: https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/a-miseria-da-educacao-no-brasil-ou-o-pais-que-nao-esta-nos-discursos/.
Lisonjeado com seu comentário e com sua sinceridade. Gostei do “euzinha, uma aristocrata europeia, daquelas famílias quatrocentonas e “metidas à besta”, tenho uma amiga merendeira (os opostos do extrato social se cruzando). Sensacional.
“tornem absoletos”
Excelente, Maurino. Me lembra uma frase que já não lembro onde li, mas que resume de forma crua a tua explanação:
“O maior problema estrutural brasileiro é a burrice”
Frequentemente é atribuída (sem comprovação sólida) ao escritor Olavo de Carvalho.
Mas, a frase é extremamente pertinente.
Grato por suas palavras.
Marcelo, outro dia eu ouvi alguém dizer algo semelhante: O maior problema do Brasil e do brasileiro, é a burrice.
Salvo engano, me parece que a frase é do livro O Santo Sujo, A Vida de Jayme Ovalle, do Humberto Werneck.
Ouvi? Não. Li.