DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

NÃO ME AVEXE NÃO!

De poeta e de louca
Eu tenho minha quantia
Tem horas que jogo pedra
Noutras faço poesia
Quando chega o aperreio
Que fico de saco cheio
Minha razão avaria.

Não sou mulher de motim
De bando também não sou
Penso com minha cabeça
Seguir magote não vou
Não sou mulher melindrada
O papel da vitimada
Minha garra dispensou.

Não compro briga dos outros
Pra ficar em evidência
Por favor não me acumule
Tenho pouca paciência
Pois quando o caso é comigo
Não meto nenhum amigo
Tomo logo providência

Nunca gostei de cobranças
Não cobro amor a ninguém
E para ser bem sincera
Nem amizade também
Sentimento é conquistado
Jamais será fabricado
Só se dá quando se tem.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

XODÓ NORDESTINO

Você gritou: Ô de casa!
Eu saí e dei bom dia
Me pediu um copo d’água
A desculpa eu conhecia
Saí quase no pinote
Fui pegar água no pote
Lhe servi com alegria.

Você me olhava com gosto
E eu olhava pra você
Ali nascia um chamego
E nós dois dele a mercê
Eu no começo corava
Quando você me chamava
Minha flor de muçambê.

Quando o fole da sanfona
Gemia nalgum lugar
Você trocava de roupa
Corria pra me pegar
E naquela brincadeira
No forró a noite inteira
Eu via o suor pingar.

Teu copo grudado no meu
Meu corpo no teu grudado
O povo todo olhando
O nosso rodopiado
Não tinha naquele chão
Pras bandas do meu sertão
Um casal mais animado.

Eu me arrumava todinha
Com meu vestido de chita
Aquela flor encarnada
Me deixava mais bonita
Você na sua paixão
Roubou pra recordação
Meu laço feito de fita.

Era um xodó animado
Era um chamego ladino
Tinha cheiro no cangote
Coisa só de nordestino
Ao som de xote e baião
Embalamos a paixão
Era um chamego bem-vindo.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

O COMEDOR DE CHIMANGO

Foto de Marco Haurélio

As malas ele arrumou.
Fez o que a mente pedia
Pegou logo um avião
E se mandou pra Bahia
Para matar as saudades
Que sem dó lhe consumia.

Um chimango bem gostoso
Ele queria comer
Do jeito que ele gostava
Só Maria pra fazer
Quem come o chimango dela
De outros não quer saber.

Era grande seu desejo
Fervia a imaginação
Chegava a lamber os lábios
Ruminando a tentação
Contava cada segundo
Suspirando de emoção.

– Maria você me aguarde
Que não demoro a chegar
Pra comer o seu chimango
Eu vou a qualquer lugar
Meu desejo lhe garanto,
Dessa vez eu vou matar.

Não demorou muito tempo
Chegou ao alto sertão
A viagem não foi longa
Pois ele foi de avião
Com chimango na cabeça
Não perdeu a direção.

Parecendo um menino
Já na casa de Maria
O biscoito de polvilho
Sem parar ele comia:
– Sem comer o seu chimango
Eu não saio da Bahia.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

A MULHER E AS PERIPÉCIAS DA IDADE

Recebi duma comadre
O nome não vou dizer
Uma carta reclamando
Da vida ao envelhecer
Chorosa se maldizia
Até falava heresia
Porém fiz questão de ler:

Saudações minha comadre
Espero que esteja bem
Pois aqui vou como posso
Pouca coisa me entretém
Não sei que será de mim
Chegou a velhice, enfim
Trazendo o que não convém.

Se me levantar depressa
Me levanto com tonteira
Se não correr pro banheiro
A xana vira torneira
Se eu começar a tossir
Comadre, não é pra rir!
Já começa a peidadeira.

Arrumei uma bengala
É nela que me seguro
Até que é jeitosinha
E me protege no escuro
Só assim eu passo a mão
Com certa satisfação
Num cajado de pau duro.

Minha vista estava curta
Porém mandei operar
O resultado foi bom
Eu nem posso reclamar
Eu que enxergava ruim
Vejo até um micuim
Bem antes dele coçar.

Os gemidos lá de casa
Não são gemidos de amor
Qualquer esforço que faço
Começo a gemer de dor
Não há tarefa sem ai
Quando um palavrão não sai
Grito por Nosso Senhor.

Continue lendo →

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

CORDEL – O TABACO DE MARIA

Xilogravura de Erivaldo Ferreira

1
Na estrada do Pai Mané
Na cidade de Ipueiras
Bem pertinho das Barreiras
De imburana tem um pé
Ele dá um bom rapé
Pra quem sabe preparar
Maria sabe torrar
E tem grande freguesia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

2
E naquela arrumação
Meu pai era viciado
No dedo era colocado
Do rapé uma porção
Com o tabaco na mão
Pra no nariz esfregar
E logo após aspirar
Ele fungava e dizia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

3
Valdenira me indicou
Disse mulher acredite
Ele é bom pra sinusite
Aqui mamãe sempre usou
Depois que ela receitou
Comecei a melhorar
Nunca parei mais de usar
Acabou minha agonia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

4
Garapa ficou sabendo
Dessa história do rapé
Foi direto ao Pai Mané
Também estava querendo
Com Maria se entendendo
Resolveu logo pagar
E não saiu sem provar
do cheiroso nesse dia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

Continue lendo →

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

FILHA DO NORDESTE

Sou Dalinha, sou da lida.
Sou cria do meu Sertão.
Devota de São Francisco
De “Padim Cíço” Romão.

Eu sou rês da Macambira,
Difícil de ir ao chão.
Sou o brotar das caatingas,
Quando chove no sertão.

Sou cacimba de água doce,
Jorrando em pleno verão.
Sou o sol quente do agreste.
Sou o luar do sertão.

Adoro o mandacaru.
Meu peixe, curimatã.
Eu tomo com tapioca,
O meu café da manhã.

Eu sou bichinha da peste,
Meu ídolo é Lampião.
Sou filha das Ipueiras.
Sou de forró e baião.

Sou rapadura docinha,
Mas mole eu não sou não.
Sou abelha que faz mel,
Sem esquecer o ferrão.

E se alguém realmente,
Saber quem eu sou deseja,
Digo sem medo de errar:
Sim Senhor, sou sertaneja!

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DUAS GLOSAS

Mote de Joames Mendes

“Era o dever de partir
E a vontade de ficar.”

Cheguei sorrateiramente
Depois de pular a cerca
Não há no mundo quem perca
Um corpo lindo e fremente
Parti com unhas e dente
Não pude me controlar
Algo a me perturbar
E ela a me inquirir
“Era o dever de partir
E a vontade de ficar.”

Ésio Rafael

Feito jumento fujão
A cerca não respeitou
Por baixo dela rolou
Daí não tive perdão
Com ele rolei no chão
Pois não deu para escapar
Botei pra discatitar!
Porém não pude assumir:
“Era o dever de partir
E a vontade de ficar.”

Dalinha Catunda

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DIA DOS PAIS

Pai é um grande presente
Presente em meu coração.

Mote de Dalinha Catunda

Pai é a grande figura
Nos ensina a caminhar
Seu conselho salutar
É que nos molda a postura
Com censura ou com brandura
Ele nos chama atenção
Ralha e oferece a mão
Aquele pai consciente:
Pai é um grande presente
Presente em meu coração.

Dalinha Catunda

Ter um ” PAI ” nas nossas vidas
Que benção maior do mundo
Um amor assim profundo
Com proteções garantidas
São esteios, são guaridas
Nosso porto e direção
Segurando nossa mão
Por jamais ficar ausente
Pai é um grande presente
Presente em meu coração.

Dulce Esteves

Mesmo já sendo velhinho
De pijama e de bengala
Numa cadeira na sala
Solitário sentadinho
Ele me mostra o caminho
O rumo e a direção
Sua sábia opinião
É algo bem pertinente
Pai é um grande presente
Presente em meu coração.

Araquém Vasconcelos

Continue lendo →

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

A MOÇA TRISTE

Alta, branca tão bonita,
Mas quanta dor nela existe
No dourado dos cabelos
Sua nobreza persiste
Caminha com elegância
Deixando sua fragrância
No caminho a moça triste.

Nos lábios um ar de riso
No olhar tanta tristeza
Compondo sempre o semblante
Sem ofuscar a beleza
Da rapariga tristonha
Que não vive, apenas sonha,
No seu mundo de incerteza.

Pobre princesa sofrida
Que conseguiu ser rainha
Porém vive acorrentada
Mesmo se solta caminha
Em cada canto do rosto
É visível seu desgosto
Ao transportá-lo definha.

E na sua ingenuidade.
Príncipe era encantado!
Palácio sem atração,
Castelo desmoronado,
É a causa do desgosto
Tracejado no seu rosto
No fracassado reinado.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

UMA GLOSA

Mote desta colunista:

Não sou mulher melindrada
Sei me posicionar.

Eu tenho meu pensamento
Não nasci pra ser piolho
Como agir eu sempre escolho
Pois tenho discernimento
O discurso que apresento
Faz jus ao meu caminhar
E não venham me atiçar
Pra torcida organizada
Não sou mulher melindrada
Sei me posicionar.