Quem não tem capacidade Para seguir o seu roteiro, Pega o dos outros ligeiro, Dele faz sua verdade. Com toda sinceridade! Abro a boca pra dizer, E se você quer saber, Segredo não vou guardar: Tem o diabo pra tirar Mas tem Deus pra devolver.
Dalinha Catunda
Quem tem coragem na vida Enfrenta qualquer perigo Põe pra correr inimigo Vai com garra para lida Pela FÉ tá guarnecida E nada lhe faz temer Afirmo, pois, com prazer ninguém vai me derrubar Tem o diabo pra tirar Mas, tem Deus pra devolver.
Dulce Esteves
Nessa vida tem de tudo Gente ruim e gente boa Tem sol quente e tem garoa Tem buraco e viaduto Cabra frouxo e cabra bruto Tem o cego e o que vê Tem a noite, o amanhecer Mas no fim pode anotar Tem o diabo pra tirar Mas tem Deus pra devolver
Giovanni Arruda
Fé e força de vontade Pra enfrentar o problema Um pouco de estratagema E sempre usar a verdade, Pois quem tem idoneidade Não tem o que se temer, Mande bem e pra valer Deixe o demo se lascar: Tem o diabo pra tirar Mas tem Deus pra devolver.
Bastinha Job
Quando sou surrupiado Por alguém sem consciência Não perco minha decência Nem me sinto revoltado Da pena até do coitado A má ação faz sofrer Pequeno para entender Que quem erra vai pagar Tem o diabo pra tirar Mas tem Deus pra devolver.
1 Na estrada do Pai Mané Na cidade de Ipueiras Bem pertinho das Barreiras De imburana tem um pé Ele dá um bom rapé Pra quem sabe preparar Maria sabe torrar E tem grande freguesia O tabaco de Maria. Todo mundo quer cheirar.
2 E naquela arrumação Meu pai era viciado No dedo era colocado Do rapé uma porção Com o tabaco na mão Pra no nariz esfregar E logo após aspirar Ele fungava e dizia: O tabaco de Maria. Todo mundo quer cheirar.
3 Valdenira me indicou Disse mulher acredite Ele é bom pra sinusite Aqui mamãe sempre usou Depois que ela receitou Comecei a melhorar Nunca parei mais de usar Acabou minha agonia: O tabaco de Maria. Todo mundo quer cheirar.
4 Garapa ficou sabendo Dessa história do rapé Foi direto ao Pai Mané Também estava querendo Com Maria se entendendo Resolveu logo pagar E não saiu sem provar do cheiroso nesse dia O tabaco de Maria. Todo mundo quer cheirar.
O Nordeste também fez A tal mulher rebelada Desobediente, afoita Que não seguiu a manada Levantou sua bandeira Comendo chão e poeira Botou o pé na estrada.
Mãe solteira competente Concubina assumida Bem disposta muito amada Venta acesa e atrevida Que fez a sociedade Aceitar sua liberdade Com bravura destemida.
Cresceu e multiplicou Sem se tornar cutruvia A matriarca assumida Fez da vida o que queria Do cabresto bem distante Da vida virou amante Pois nada lhe reprimia.
Totalmente alforriada Com seu cabresto na mão Foi ela quem deu partida E atiçou seu alazão No rastro deixou história O seu fado e sua glória Virou lenda no sertão.
Eu vou contar uma história Daquelas de antigamente Que ouvi quando criança E guardei na minha mente Foi Tia Isa quem contou E eu agora aqui estou Passando a história a frente.
Sempre à boquinha da noite Com cadeiras na calçada Sentava-se minha tia No meio da criançada Que ouvia com atenção Detalhes da contação De cada história narrada.
Foi assim que me criei E abraço essa tradição Um ponto vou aumentando No transcorrer da oração Sem esquecer a magia Das histórias de titia Nas calçadas do sertão.
Pra não quebrar a magia Desse jeito de contar Vou imitar minha tia No modo de iniciar Descrever como ela fez Repetindo: ERA UMA VEZ Para a história começar.
Era uma vez uma mãe Que bem moça enviuvou Tinha somente um filhinho Dele muito bem cuidou Era a razão da sua vida Para a criança querida Carinho nunca faltou.
Um bom menino ele era Sempre muito obediente Auxiliava sua mãe Não fugia do batente Viviam em harmonia Um do outro companhia O que a deixava contente.
Nem bem o dia amanhece Já está em meu quintal O seu canto matinal É canto que me enternece Mas comida só merece Quem tem rumo e direção Não cedo alimentação Pra quem sempre vai e vem: Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Dalinha Catunda
Também não darei moleza À rola ou a periquito, Mesmo sendo bem bonito, Pode ter toda a certeza; Beleza nunca põe mesa E nesses tempos então Só abro uma exceção Com aval de Araquem: Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Bastinha Job
Já tive no meu terreiro uma rola sem futuro, me procurava no escuro e me acertava o traseiro, com seu jeito interesseiro, não queria meu pirão, mas só arroz com feijão, na hora do vai-e-vem. Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Anilda Figueiredo
Eu adoro passarinho… Mas sou fã do periquito Esse do mote esquisito Não põe ovo no meu ninho Pra ficar tudo certinho Eu digo com precisão Essa rima é o cão Esse verso não convém Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Giovanni Arruda
Quando o pássaro é manso Basta um dedo em riste Botar painço e alpiste Que vem fazer o descanso Já criei patos e ganso Sabiá corrupião Acabava com a ração Não me sobrava um vintém Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Araquém Vasconcellos
Canta lá no cajueiro Que fica no meu canal Um rebanho de pombal Me consola o dia inteiro Mais não chega no terreiro Nem na janela do oitão Eu tenho essa opinião Pode ser pardal, quem quem Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Jairo Vasconcelos
Eu escuto o passarinho Mas grito com dedo em riste Posso dar xerem, alpiste Se ele sair do ninho Se eu escutar bem cedinho Um canto em tom de canção Mas se ele só diz não E não canta pra ninguém Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Rivamoura Teixeira
Eu criava uma rolinha Um dia fiquei zangada Ela vivia escorada Peguei a tal passarinha Ficou mais mole a bichinha Eu dei nela um arrochão Sapequei ela no chão E pelei o seu sedém Pra rola só dou xerém Se comer na minha mão.
Periquito bem cuidado? Eu tenho e não nego, não, Mas vive numa prisão, E por isso é revoltado, Porém é muito assanhado… E prender é contra a lei. Fui lá no mato e soltei, Dele tive caridade: Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Dalinha Catunda
Duplo sentido? – Talvez! Vi o verso explicativo, E – também – convidativo, Não perdendo minha vez; Nunca gostei de escassez Sobre o dom que cultivei De libertar, porque sei Que voar mostra a verdade: Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Professor Weslem
Meu periquito assanhado, Teima em não se aquietar, Todo instante quer trepar, Em um alçapão armado, Um fogo descontrolado, Desde quando ele, ganhei, Até quando vai, não sei, Sua libidinosidade, Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Joabnascimento
Parecia um papagaio Era fora da bitola Mas vivia na gaiola E dizia daqui eu saio Vou dar o prazo até maio E gritava ei ei ei Vou descobrir o que sei E vou mentir na verdade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Rivamoura Teixeira
Tô glosando aqui e agora Com mote do periquito Um macho muito bonito Que comigo não mais mora Pedia para ir embora Com pena nunca deixei Enfim, o bicho mandei Procurar felicidade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Vânia Freitas
Há tempos, na minha casa Um periquito vivia Numa gaiola sombria Cantando e batendo asa Soltei-o, dizendo: vaza Nesse momento, notei Outros chegando, pasmei E ali, ficaram à vontade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Creusa Meira
Não quis prender o bichinho Pra viver numa prisão Deu – me muita compaixão Abri tudo ligeirinho Libertei meu passarinho A melhor coisa, pois, sei Vê-lo livre eu adorei Fiz sua felicidade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Dulce Esteves
Faça como eu e liberte Também o seu Passarinho, Gaiola não é o ninho Mais ideal que se oferte, Me imite, não fique inerte Siga o exemplo que dei Viva de acordo com a lei Prender é pura maldade: Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Bastinha Job
Já tá quase em extinção Este querido” bichim” Que mora em um cupim Faz sua alimentação De frutinhos de pinhão Certo dia lhe tranquei Mas por pena liberei E desfiz toda maldade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Araquém Vasconcelos
Quando peguei pra criar O periquito era novo Mas aprendeu com o povo Chamar nome pra danar Antes do Ibama chegar Vou soltar o que achei Se no Brasil tem a lei Vou cumprir sem falsidade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Jerismar Batista
Meu periquito vivia Muito triste, acabrunhado Mas ficou todo animado Cantando de alegria A partir daquele dia Quando a rola lhe mostrei Ninguém sabe nem eu sei No que deu tal amizade Pra viver em liberdade Meu periquito soltei.
Quem vive de propagar Que o seu fulano é corno As vezes causa transtorno Nem chega a desconfiar Que chifres vive a levar Sem que venha perceber Faz chacota com prazer Mas devia ficar mudo Pois continua o chifrudo Sendo o último a saber.
Atrás do morro do pico Aponta o sol radiante A neblina derretendo Presencio a todo instante A beleza do horizonte O raio do sol no monte Ilumina o meu semblante.
Do beiral do meu alpendre A cambaxirra cantou No pé de jacatirão O bem-te-vi se assanhou O gavião sorrateiro Abre as asas no coqueiro Vendo que o dia raiou.
Redes de aranhas tecidas Presas no arame farpado Trazendo beleza as cercas Esse trabalho rendado Só vendo quanta beleza Cenário da natureza Que é por Deus elaborado.
O canto da Seriema Ecoa ao amanhecer Despertador natural Canta mesmo pra valer É ave que faz zoada Parece até gargalhada Pois canta sem se conter.
Canários se reproduzem Eu vejo o bando passar Os melros sempre em grupo Encantam com seu cantar E no maior zum, zum, zum Um magote de Anum Balburdia faz ao voar.
Quando chega o fim do dia Volta pro ninho a trocal, E a garça voa em bando Num belo show, sem igual O sol desmaia cansado Anunciando alquebrado De cada dia o final.
Nova fauna, nova flora Eu vejo aqui no Sudeste O verde é permanente Diferente do Nordeste Ganho mais conhecimento Mas tenho meu pensamento Na minha vidinha agreste.
Sou poeta e sou doceira, E na farofa sou boa, Faço verso, canto loa, As vezes sou cantadeira, E metida a cirandeira! E nessa minha rotina De cabocla nordestina, Eu nasci pra versejar: “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina.”
Dalinha Catunda
Eu nasci agricultor Cultivando o fértil chão De enxada e foice na mão Em meio a mata em flor Sonhava ser escritor Da cultura nordestina Minha obra é pequenina Mas preciso divulgar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina”
Araquém Vasconcelos
Eu me chamo Nelcimá Sempre gostei de escrever Eu só não quis entender Que um dia ia versejar E agora no pelejar Vou com a alma felina Tentando ser turmalina Para a todos agradar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina.”
Nelcimá Morais
Não faço como Dalinha Abençoada pela arte Fazendo aqui minha parte Pela casa e na cozinha Pego agulha enfio linha Faço isto desde menina Tenho inspiração divina Peço pra nunca faltar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina.”
Vânia Freitas
Sendo pra nascer mulher Desejava ser Dalinha Tendo vaga pra Mocinha Até Pagu se quiser Mas tinha outra colher Caso fosse Messalina Um homem em cada esquina Para experimentar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina”!
Ésio Rafael
O seu verso apimentado E o doce dos quitutes São, sem dúvida, desfrutes Para os fãs apaixonados Nesse jeito misturado De pimenta e sacarina Tá completa a sua sina Não convém se lamentar: “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina”
Giovanni Arruda
Na vida já fiz de tudo Conquistei o infinito Escrevi, soltei meu grito A quem o queria mudo Transformei rima em escudo Numa verve cristalina. Com mamãe, desde menina Aprendi a cozinhar, “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina”
Nilza Dias
Sou poeta de cordel Versejo com alegria. Não vivo de fantasia. À verdade sou fiel. Vou traçando meu painel, Na escrita sou feminina E também sou nordestina Pois gosto de versejar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina.”
Rosário Pinto
Não precisa que eu grite Mas vou dizer nesta rima Eu não sou de obra prima Não chego a esse limite Tenha calma não se agite Essa poetisa fina Muito muito me ensina Deixa o mundo me julgar “Porém nunca vou chegar a ser Cora Coralina.”
RivaMoura Teixeira
Pareço na escalada Da montanha dessa vida Cada pedra removida Será uma flor plantada, Se a semente é germinada Cumpro um pouco a minha sina CORA chega e me ensina Cair e se levantar “Porém nunca vou chegar A ser Cora Coralina!”
Bastinha Job
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A grande poetisa Cora Coralina, Goiás-GO (1889-1985)