CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

“COMESSE FILÉ JÁ HOJE?”

Havia num determinado quartel muitos recrutas aspirantes a tão sonhada carreira de soldado, subtenente, cabo, sargento, tenente, suboficial, dentre outras patentes mais elevadas.

Todas as vezes que os recrutas se encontravam no pátio para fazer as devidas continências, ouvir o discurso do superior, cantar o Hino da Bandeira e o Hino Nacional, um por um, os recrutas iam perguntando entre eles:

– Comesse filé já hoje? Já comesse filé já hoje? E os outros respondiam: Sim! Sim! Sim! Sim!

Essa cantilena se repetia todos os dias, o que deixava o capitão ouriçado, sem entender patavina nenhuma daquele linguajar de gueto.

Um dia o capitão amanheceu emburrado, virado num tamanduá-açu cheio de manguaça, enquanto reunia os recrutas no pátio para cantar o Hino da Bandeira e o Hino Nacional, ouvia-os repetirem as mesmas ladainhas:

– Comesse filé já hoje? Já comesse filé já hoje?

Quando terminou a greia do “já comesse filé já hoje”, o capitão, com voz de trovão e cheio de moral, curioso para saber o significado daquele linguajar de malocas, perguntou ao último recruta que ficou no pátio:

– E você aí, rapaz, já comeu filé já hoje?

Surpreso com a pergunta embaraçosa do capitão e com medo de omitir a verdade e depois ser repreendido por ele, o recruta respondeu:

– Capitão, o filé sou eu!

Discreto, o capitão fingiu que nada entendeu. Mandou o recruta acompanhar os outros noviços na limpeza do capinzal, e advertiu-o:

– No mato, só tenha cuidado com a urtiga brava ou a cobra jiboia. A primeira coça muito e a segunda, pica e mata! Não é feito filé que só deixa o cabra mole!

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HISTÓRIAS DE BÊBADOS (1) – “RIM DE TANGER”

Corria os anos oitenta quando João, matutinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco, passou no vestibular de Engenharia Civil da UFPE e veio morar na Casa do Estudante.

Acostumado com a vida mansa do campo com mais liberdade que o vento, qual um potro no curral, João, assim que chegou à metrópole, se deparou com um ambiente pesado à sua formação campeira, avesso aos seus princípios e valores rurais. Tudo naquele ambiente do campus era diferente da realidade vivida na roça.

Não demorou muito e a solidão se lhe apossou. A saudade de casa doía-lhe na alma e ele procurava terra nos pés e não encontrava.

Com poucos meses de residência, a saudade de casa e a solidão apertaram o seu peito, o vazio tomou conta da alma, a alegria e esperança do jovem interiorano sonhador deram lugar a mal-estares e angústias permanentes.

De início, João começou a faltar aulas, perder cadeiras e depois se juntou a uns “amigos” que viviam o mesmo “banzo” e começaram a sair para beber, “afogar o ganso”. Onde houvesse um puteiro ou boteco aberto em Engenho do Meio ou Cidade Universitária, lá estavam João e os amigos de copo a se divertirem como uns solitários na multidão, até o cu do amanhecer.

Toda noite era uma farra. E a coisa foi ficando pior quando não havia mais dinheiro da mesada para pagar a bebida consumida. Muitas e muitas vezes levaram cacetadas do dono do bar por não terem grana para pagar a bebida consumida. Deixavam como pindura as carteiras de estudantes, carteiras de identidades, isso quando o dono do boteco não lhes tomava a camisa, a calça, os sapatos ou os livros emprestados da biblioteca pública.

De tantas noites de farras com os “amigos de copos e de cruz”, em João começou a surgir um novo indício de sintoma psicológico que os amigos logo apelidaram de “rim de tanger”, que se manifestava depois da ingerência de um litro de Drurys e um tubo de Pitú.

Com o rabo prostrado na cadeira, o dia amanhecendo, e alguns “amigos” de copo se retirando aos trancos e barrancos, e outros caindo na sarjeta, quanto mais se chamava por João para ir, mais ele relutava com os olhos de um lunático, segurando os óculos com medo que caíssem e dizendo para o dono do bar, que já estava puto àquela hora da madrugada:

– Mestre, cadê a cachaça?! Mestre, cadê o drurys?! Só saio dessa porra quando o whisky aparecer! Eu quero beber mais – dizia e baixava a cabeça de tão bêbado.

Do outro lado do balcão, o dono do bar, já puto da vida e com sono, pegava uma tabica, sentava o cassete no lombo dos bêbados, empurrava-os da cadeira na valeta, jogava-lhes um balde de água de esgoto no lombo e dizia:

– Vão atanazar o cão, seus felas da puta! Vão perturbar na casa do caralho, magote de filos de rapariga!

E se mandava para casa, deixando o desmantelo no bar.

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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA

Texto escrito em parceria com o especialista em filme de faroeste mestre D.Matt

Cenário de Era Uma Vez na América na Ponte do Brooklyn, em Nova York

Era Uma Vez Na América é o deleite audiovisual definitivo de todo cinéfilo que se preza. Uma grande História de temas universais, que fala um pouco para todo mundo sem muito esforço. Longo – exatamente como tinha de ser -, este não é apenas um filme de gângster do qual nós já estamos habituados. É uma verdadeira aula de narrativa, com um desenvolvimento meticuloso magistral com começo, meio e fim. Ao fim da verdadeira jornada que é assisti-lo, Era Uma Vez na América, já faz parte da vida do espectador, e assim permanece por dias e dias; anos e anos.

Assim como Magnólia, O Senhor dos Anéis, Bem Hur e outros longas de mais de 3 horas de duração, há vários momentos que à primeira vista poderiam ter sido cortados, mas que ao repassá-los na memória nos damos conta do quanto belos e essenciais são e chegamos à conclusão de que nenhum deles deveria ser cortado. Não se mutila uma obra de arte.

Do elenco, nem precisa delongar muito, absolutamente perfeito, dispensa maiores comentários. Robert De Niro é o protagonista perfeito de todo filme que se possa imaginar, mas quem consegue roubar a cena mesmo é James Woods. Enfim, poder-se-ia escrever um livro inteiro apenas exaltando o quanto primoroso é este filme, os poucos problemas que podemos encontrar aqui e ali são completamente perdoáveis dado ao saldo positivo colossal do conjunto da obra. E a culminação dos arcos de Noodles e Max naqueles 25 minutos finais é de um brilhantismo narrativo rico de significados e entrega emocional de um nível que não se vê mais no cinema. Uma fábula perfeita das várias imperfeições humanas. Uma obra-prima atemporal.

De início chama atenção o local escolhido pelo diretor para o cenário do filme. Um bairro Judeu de Nova York e todos os personagens, cenários, movimentos de ruas, negócios, tudo gira em torno dos judeus. Em todo desenrolar do filme não se escuta um sotaque italiano. Os atores principais Robert de Niro, James Wood, Elizabeth MC Govern, e até Joe Pesci num pequeno papel se vestem em personagens judaicos, com leveza, sem qualquer vestígio de caricatura ou preconceito.

O filme depende quase que cem por cento da montagem, porque não tem uma continuidade definida e passa por diversas épocas entrelaçadas, montadas com grande genialidade por Nino Baragli, que com certeza teve a orientação do mestre Sergio Leone, pois só uma mente cinematográfica genial poderia dar um sentido naquele enorme caldeirão de acontecimentos, todos entrelaçados com tempos definidos claramente.

Todos os atores souberam captar as instruções do mestre Sergio Leone e se entregaram de corpo e alma, criando personalidades distintas, bastante reais, com um resultado de alta qualidade. As atrizes principais, Elizabeth MC Govern e Tuesday Weld têm um desempenho fora de série, principalmente a excelente atriz Mc Govern que pouco aparecia em filmes e durante vários anos participou da premiadíssima Série de TV inglesa Dawton Abbey, com um trabalho realmente extraordinário. E no filme em curso não fez diferente.

Os personagens de grande parte do início do filme foram interpretados por atores jovens muito talentosos e com atuações estupendas, dignas dos seus companheiros atores adultos. Uma cena extraordinária, inesquecível, é quando um dos garotos compra um doce para oferecer à namorada, com sentido de seduzi-la sexualmente. Enquanto espera a chegada da garota, ele começa a provar o doce e cada vez mais gulosamente vai comendo-o, numa ânsia de prazer, até devorá-lo completamente. Isto com gestos chaplinianos. Grande atuação do jovem ator, numa cena que mesmo dirigida pelo mestre Sergio Leone deve ter sido resultado de uma dezena de takes até chegar ao resultado extraordinário desejado pelo diretor.

É necessário ressaltar o trabalho primoroso da menina atriz que faz o papel da Elizabeth Mc Govern quando jovem. Que presença de cena, que mestria na exibição da sua expressão corporal! É uma grande atriz, num corpo infantil.

A trilha sonora, soberba, está com certeza entre as duas melhores entre as centenas de trilhas compostas pelo mestre Ennio Morricone. Que são, respectivamente, “Era Uma Vez No Oeste” e “Era Uma Vez Na América.”

É uma trilha no sentido clássico Ennio Morriconne, suave, melodiosa; sem altos e grandes movimentos auditivos. É uma música para ser ouvida e mais ainda para ser sentida, muito nostálgica, sempre ao fundo das cenas, numa melancolia triste que nos enleva. O tema principal é apresentado por intermédio de uma flauta de Pann. Pontua todo o filme e quase não chama atenção, porém o efeito é inesquecível.

Este filme, devido a sua montagem inédita e também por sua duração de várias
horas, não foi devidamente apreciado na época de lançamento. Porém, hoje é considerado um clássico e um dos mais geniais filmes do diretor Sergio Leone.

A conclusão a que se chega é que palavras não são suficientes para descrever a grandiosidade desta obra-prima, dirigida pelo inovador e sensacional Sergio Leone. Primeiro filme lançado em DVD no mundo, tamanha é a sua importância. Era uma Vez na América é um dos filmes mais injustiçados de todos os tempos, devido à falta de liberdade do diretor, no que tange à edição. O filme foi lançado com um corte de mais de uma hora e meia, pois, foi considerado longo demais pelos produtores. Um verdadeiro pecado que, dizem, causou o declínio na saúde do diretor. Quem assistiu ao filme na íntegra não consegue imaginar o corte de qualquer cena, muito menos de quase a metade da película.

O tema é épico. A trilha sonora de Ennio Morricone é impecável e o elenco, fantástico. A referida obra, fosse ela lançada em condições ideais, conquistaria, de certo, inúmeros Oscar. Melhor Filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante (James Woods), melhor roteiro original, melhor fotografia, melhor figurino, melhor trilha sonora, dentre outras categorias do tão relevante prêmio da academia. Assistir a este filme é fazer uma imersão em uma história que envolve a amizade, o romance, a lealdade, a violência do mundo dos gângsters, além de abordar questões sociais atemporais, tudo isso ao som da belíssima trilha sonora de Ennio Morricone. Era Uma Vez na América é imperdível para qualquer amante do cinema.

Trailer oficial legendado de Era Uma Vez na América

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PAULINHO – O FILHO BASTARDO

Primeiro hospital onde Paulinho fez residência médica

Paulinho nasceu de um relacionamento extramatrimonial de sua mãe, Carminha, com um cardiologista famoso do estado.

Baixinha, de corpo escultural, inteligente, discreta, elegante, atenciosa, altiva, caridosa, Carminha logo despertou interesse no cardiologista que, sempre que o consultório ficava vazio, parava tudo e ia conversar com aquela enfermeira paradigmática, de peitos duros e coxas grossas, com uma sensualidade à Marilyn Monroe, que o cardiologista jamais havia reparado em outras enfermeiras que conhecera e que já houvera passado pelo consultório.

Conversa vai, conversa vem, com seis meses de trabalho Carminha e o cardiologista se tornaram amantes, paixão avassaladora que mesmo em dias de não expedientes no consultório os dois se encontravam para homéricas horas de prazer e curtição.

Dois meses depois da primeira relação amorosa, Carminha percebeu que estava grávida do médico, mas não lhe contou logo, esperando a confirmação do teste de gravidez.

Confirmada a gestação, Carminha procurou o cardiologista e contou-lhe a novidade. Como médico famoso na praça e temendo a repercussão do caso no meio onde era conhecido e admirado ele reagiu insidioso, soltando os cachorros na cara dela, exigindo que ela abortasse aquele feto indesejado, sob pena de demissão por justa causa e fim do relacionamento.

De personalidade forte e determinada, já amando definitivamente aquela coisa linda crescendo no seu ventre, Carminha não atendeu ao apelo do médico, preferindo ser demitida. E foi o que aconteceu!

Rebaixada em outro emprego em foi admitida, Carminha foi até o fim com a gravidez, que transcorreu, felizmente, numa boa, vindo a ter Paulinho saudável, lindo, tornando-se o xodó da família.

Guerreira, Carminha trabalhava em duas clínicas para sustentar o filho, que teve o registro de nascimento feito sem o assentamento do nome do pai que se recusou a registrar, e a ajudar a família que tomava conta de Paulinho na sua ausência.

A criança cresceu e sempre soube pela boca da mãe quem era o seu pai que não o quis reconhecer para evitar escândalos na família, já que era um médico rico e influente no convívio com a sociedade.

Com a ajuda da mãe e muito determinado, estudando em colégio do estado e fazendo cursos particulares pagos por fora pela mãe, Paulinho conseguiu passar no vestibular de medicina da federal na primeira tacada, em ótima colocação. Feliz consigo mesmo por ter tido o apoio irrestrito da mãe, da família materna e de ter sido classificado entre os dez primeiros colocados no vestibular, Paulinho resolveu procurar o pai biológico sem a mãe saber, mostrar-se a ele e dizer-lhe que havia passado no vestibular de medicina da UFPE.

Para não suscitar dúvidas, marcou uma consulta no consultório para ver o pai de perto, olhar-lhe nos olhos e dizer-lhe que era seu filho e que havia passado no vestibular de medicina da federal.

Dia e hora marcados chega Paulinho ao consultório do pai, cardiologista famoso, conversa com a recepcionista que faz algumas anotações no prontuário e depois o manda sentar-se no sofá confortável da sala e ficar aguardando a chamada.

Meia hora após ter chegado, com a saída do paciente que o pai estava atendendo, a secretária chama Paulinho e manda-o entrar.

Educadamente ele se levanta da poltrona e dirige-se à sala luxuosa onde o pai estava atendendo. Senta-se na frente dele e este lhe pergunta com sorriso largo:

– O que o traz aqui, meu jovem bonitão?

Paulinho, sem pestanejar, olhos firmes, com a mesma tranquilidade de sempre e firmeza de caráter, responde:

– Não vim aqui para consulta, não, doutor! Vim aqui para conhecer meu pai de quem tanto mamãe fala, mas nunca me apresentou a ele porque ele não queria conhecer. Sou Paulinho, o filho que o senhor mandou minha mãe abortar! Lembra? Passei em medicina e vou me especializar na área cardiológica! Faço questão de seguir os seus passos com minhas próprias qualidades e defeitos!

– Não vim aqui pedi nenhum favor ao senhor – continuou – apenas dizer que sou seu filho e vou estudar medicina na mesma universidade que o senhor passou, estudou, se formou e ensina!

Percebendo que o pai ficou trespassado com a presença do filho renegado por ele no passado, e percebendo que sua presença lhe teria provocado uma surpresa inesperada, aproveitou que o pai estava com o rosto pálido, tapando-o com as mãos trêmulas e mudo, levantou-se do sofá, abriu a porta, saiu e pediu à secretária que mandasse entrar outro paciente que o “doutor estava livre”!

O mundo dá muitas voltas! E cada volta é uma surpresa, para o bem ou para o mal, dependendo do que você plantou.

Hoje Paulinho trabalha no mesmo hospital e consultório onde o pai clinica. É um exímio anestesista. Tornaram-se dois parceiros profissionais inseparáveis, mas com uma condição: Paulinho não concordou em pôr o nome do pai no seu registro de nascimento, mesmo ele insistindo! “Tá bom assim, meu pai. O que vale é o que sentimos um pelo outro: respeito e admiração.” – concluiu.

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LÁ TEM CULPA TODO MUNDO; LÁ SÓ NÃO TEM CULPA ELE

Microempresário muquirana, sovina, pé de bode, desses que dá um peido e represa o vento para ninguém cheirar a catinga, ex-servidor da justiça aposentado com salário gordo, dono de uma imobiliária bem sucedida, cismou do rabo que queria porque queria arrancar do governo federal os 70% do Crédito Emergencial do programa nacional de apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) para o desenvolvimento e fortalecimentos dos pequenos negócios durante a pandemia para abater no pagamento do salário mínimo do único trabalhador da imobiliária.

Para fazê-lo, o microempresário procurou o contador que lhe presta serviços para executar a transação. Disse que não queria perder um centavo para o governo. O que o contador pudesse fazer que fizesse. O que ele queria mesmo era aproveitar o máximo das garantias dos créditos emergenciais que a lei federal 13.999/2020 estava oferecendo para abater no salário do trabalhador sem demiti-lo. E assim o contador o fez.

Não esperando a conclusão do negócio, o empregador depositou só o que lhe cabia para o salário do trabalhador. Ordenou que o contador fizesse e dissesse ao trabalhador que se virasse com o programa do governo para receber a parte que lhe coubesse.

Passados mais de dois meses sem o dinheiro do governo federal ser liberado, o trabalhador, que já estava insatisfeito, passando privações, procurou o empregador para se queixar do problema e esse mandou procurar o contador:

– Olhe, você vai entrar no site do governo federal e acessar o portal serviços e lá vai encontrar a Caixa de Pandora para saber o dia de receber os 70% pagos pelo governo – disse o contador ao trabalhador.

E não deu mais explicações, deixando-o a ver navio.

Pesquisa aqui, pesquisa dacolá e não encontrando a resposta, o trabalhador procurou um analista de sistema, amigo, que se dispusesse a lhe ajudar a acessar o sistema Portal Gov.br, pois não estava sabendo. O analista acessou e descobriu que o erro estava no preenchimento do cadastro do trabalhador na origem, feito pelo contador, daí porque o dinheiro não ter sido liberado.

Quando o trabalhador procurou o contador para lhe explicar a falha este foi taxativo:

– Meu filho eu não erro! Você é que é burro, não sabe acessar o sistema! Está mais enrolado do que carretel. Acesse o Portal Gov.br que está tudo lá.

Insatisfeito com a indiferença do contador, o trabalhador procurou o analista de sistema, contou o que o contador dissera e abriu o sistema novamente. Gerou uma senha e, pesquisando, encontrou a seguinte mensagem no site do governo: “Procure seu empregador para corrigir a falha no preenchimento cadastral.”

E lá vai o trabalhador procurar o contador novamente. Contou-lhe a situação. Mas antes procurou a filha do empregador para contar-lhe o ocorrido, informando que estava passando necessidades financeiras por não ter recebido ainda os 70% do seu salário porque o pai havia cortado. Segundo ele, o governo é que iria pagar.

Com o coração mais compreensivo e tolerante, a filha do empregador disse ao trabalhador, de posse de todas as informações passadas pelo analista de sistema, mostrando que o erro estava no preenchimento cadastral. Os dados não estavam batendo para ter acesso ao Benefício Emergencial. Que os trabalhador procurasse o empregador.

Com todas as informações na mãe e ciente que o erro foi do contador a filha do empregador foi curta e grossa com ele:

– Procure resolver isso aí, Sr. Geraldo. Se existe alguém que não tem culpa nessa história é o trabalhador que está passando necessidade.

E ligou para o pai obrigando-o a depositar o salário do trabalhar enquanto não fosse sanado o erro, pois o trabalhador não podia pagar por não ter culpa, já que o erro fora cometido pelo empregador, segundo informação do cadastro do governo. E o trabalhador só recebeu o que lhe era de direito graças à interferência da filha do empregador que compreendeu a situação.

A sensatez de uma mente iluminada salva o mundo da estupidez da maioria das mentes insensatas.

Lá Tem Culpa Todo Mundo; Lá Não Tem Culpa Ele, o Trabalhador

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“O TEMPO DAQUELE LADRÃO JÁ PASSOU!”

Esse foi o “estadista” que saqueou o Brasil por 14 anos!

Duas balzaquianas rabudas caminhavam pela avenida principal do bairro de Cajueiro, Recife (PE), à noite, quando a primeira começou a puxar conversa sobre política:

– Mulher, como seria bom se Lula voltasse novamente a presidir esse país desgovernado por um presidente doido que só pensa em armar o povo a todo custo para sair matando gente inocente a troco de caixa por aí, não achas?

A segunda não perdeu a deixa e foi logo questionando a primeira:

– Não acredito que estás desejando essa blasfêmia contra o povo brasileiro! Mulher, o tempo daquele ladrão já passou! Não é possível que tu ainda apoies um bandido que destruiu o Brasil com aquela quadrilha sórdida presa pela Lava Jato, que assumiu o poder durante quatorze anos para saquear o país? Aquele bandido que, junto com seus comparsas saquearam o Brasil, iludiram o povo, roubaram o povo, deseducaram o povo, alienaram o povo, imbecilizaram o povo, promiscuíram o povo. Deram esmolas para o povo como “bolsa família”, “tarifas sociais” e outros psicotrópicos, sem as contrapartidas. E por trás dessa “bondade”, saquearam o país em benefício próprio, da família e dos comparsas. Lula é mais bandido do que Fernandinho Beira-Mar, Marcola e outros sanguinários psicopatas porque destruiu um país inteiro! Tu tens certeza que estás sabendo o que estás dizendo? Não fumasse nenhum baseado estragado antes de caminhar não? O que a Lava Jato descobriu da roubalheira que fizeram no Brasil com a ascensão de Lula ao poder não significa nada para ti? Meu Deus do Céu! Não estou te reconhecendo? Quem foi o imbecil que andou fazendo tua cabeça? Que te comas, tudo bem, desde que teu marido não saiba! Mas fazer tua cabeça para acreditar em bandidolatria? Aí é foda!

Aí foi quando a primeira insistiu no seu argumento cagatório:

– Mas mulher, foi Lula que tirou o povo da miséria. Deu escola, educação, saúde, renda mínima, pão na mesa, farinha no feijão. Antes pobre não andava de avião. Só andava a pé, de jegue, ou de ônibus da Itapemirim para São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados. Tu não enxergas esse progresso não?

– Só estou enxergando uma coisa – rebateu a segunda – tu estás ficando é doida, abilolada, viajando na maionese! Onde Lula tirou o povo da miséria? Deu escola, educação, renda mínima, saúde, transporte coletivo, faculdade profissionalizante, se o país está numa fossa pública dessa e o povo na miséria, sem rumo? Se não fosse o novo presidente, minha filha, o país e nós estávamos fudidos. A Venezuela estava toda aqui dentro!

Quando estava chegando em casa, a primeira, antes de fechar o portão, confessou à segunda:

– Tu achas mesmo que eu estou defendendo meu ponto de vista é pensando no outro? Que vão à puta que pariu! Eu estou defendendo é a mamata que o PT me deu durante o tempo em que governou o país. E estou cagando para qualquer um que acha que Lula não foi o pai dos pobres!

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MARIA BAGO MOLE FESTEJA A VOLTA DE BITONIO COELHO AO CABARÉ

Para Sancho Pança, que conhece todos os cabarés do Brasil

Um cabaré à semelhança do de Maria Bago Mole

Maria Bago Mole amanheceu cantando para si mesma naquele dia. Seu coração estava em festa. Depois de vários dias de espera pelo seu amado, a cafetina mais famosa da Zona da Mata Norte de Carpina (PE), resolveu promover uma festa de arromba no cabaré, à espera do fazendeiro Bitônio Coelho, que mandou avisar por um capanga da fazenda que estaria na comemoração do aniversário dela.

Somente as “meninas” antigas na “casa” e de confiança de Maria Bago Mole é que sabiam que era o dia do seu aniversário. Para as “novatas” e os frequentadores assíduos do cabaré era um dia de comemoração qualquer promovido pela cafetina, que gostava de cativar seus clientes com “novidades.”

Duas semanas antes da festa, ela avisara pessoalmente a cada cliente das noites que ia haver uma comemoração especial no cabaré, uma festa de arromba, com “carne nova na praça.”

Cedo começaram a chegar os peões, caminhoneiros, posseiros e fazendeiros das redondezas, sedentos por sexo. Na frente do cabaré havia uns troncos de madeira à moda do Velho Oeste, instalados para os clientes apearem seus cavalos, jumentos, éguas…

Já passavam das dez da noite quando Bitônio Coelho chegou no seu sobretudo de linho diagonal branco, bota preta, chapelão de couro e, à cintura, sua pistola Parabellum (1906). Apeou o cavalo alazão branco no toco feito exclusivamente para ele. Maria Bago Mole, como sempre, correu em sua direção, deu-lhe um abraço, um beijo, pôs as duas mãos na cintura dele e o conduziu à porta dos fundos, também feita exclusivamente para ele entrar sem ser visto pelos frequentadores do cabaré que, antes das onze da noite, já estava fervilhando de homens prontos para disputar as carnes mijadas novas que a cafetina havia prometido e que foi buscar nos sítios circunvizinhos.

Maria Bago Mole, como de costume, deixou seu amado no aposento dos dois, dirigiu-se ao salão do cabaré, passou um “rabo de olho” pelos quatro cantos, certificou-se se estava tudo em ordem, deu instruções às “meninas” para que cuidassem dos seus “homens.” Verificou se a cozinha estava tudo nos conformes, organizada, e se mandou para ficar com seu amado.

Quando se dirigiu para o aposento, um coronel afoito das redondezas, que há muito vivia doido para comê-la e logo cedo já estava no cabaré bebendo, passou-lhe as mãos na bunda, se atracou com a cafetina murmurando no ouvido dela que daquela noite não passava suas intenções:

– Vamos, mulher! Por que tu não queres me dar, hem? Só queres saber daquele sacripanta que te deixa aqui sozinha? Hoje tu és minha!

Maria Bago Mole, mulher que não engolia desaforo, deu umas joelhadas nos cunhões do coronel afoito e, antes de ele cair com a dor, gemendo, ela chamou duas “meninas”, ordenou que o arrastassem para a rua e lhe dessem o destino desejado, mas sem antes de dizer-lhe umas poucas e boas no ouvido:

– Homem nenhum desrespeita minha “casa”, está me ouvindo?! Enquanto eu mandar aqui homem nenhum desmoraliza meu “lar” – disse ela com o olhar firme no salão abarrotado de homens bebendo, comendo e agarrando suas “meninas”  e se dirigiu ao aposento para comemorar o aniversário com seu amado.

Maria Bago Mole nasceu para ser cafetina.

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O MICRO EMPRESÁRIO, O TATUADOR E A “SUCURUCETA”

Microempresário, numa crise econômica de arrombar a tampa do caneco, sendo pressionado pela esposa, que exigia o dinheiro para a despesa familiar; pela amante, que exigia dinheiro para manter a ostentação; e pelo empregado, que exigia o dinheiro dos três meses de salários atrasados, procurou um tatuador para tatuar uma cédula de cem dólares na pica. E o tatuador disse que não podia fazer. Que ia doer muito. Que o microempresário não ia suportar a dor e patati patata!

Mas o microempresário insistiu. Dizendo ao tatuador que precisava se livrar da mulher, que só pensava em dinheiro. Da amante, que só pensava em sugá-lo. E do trabalhador, que só pensava em acioná-lo na Justiça do Trabalho por causa dos salários atrasados.

Pressionado, o tatuador alertou:

– Olhe, vai doer muito. O senhor não vai suportar a dor. Mas, mesmo assim, ainda que mal lhe pergunte, por que o senhor quer que se tatue uma cédula de cem dólares justo no… no… no… na… na… na bimba?

Aí o microempresário, já não suportando as pressões que vinham de todos os lados: da esposa, da amante e do empregado, desabafou:

– É que eu quero fuder com minha mulher, que só pensa em gastar. Fuder com minha amante que só pensa em ostentar e fuder com meu empregado, que só pensa em me fuder na justiça para receber os salários atrasados. Sacou por que eu prefiro a dor da tatuagem uma só vez na pica do que a pressão no meu testículo todos os dias?

– Bem, se forem esses os seus motivos – disse o tatuador – o senhor está mais do que certo… Comigo aconteceu o mesmo, só que eu me abestalhei e engoliram tudo: carro, casa, apartamento, aplicação em fundos, e hoje estou na merda, tudo por causa de uma “sucuruceta”!

A “sucuruceta” que engoliu tudo do tatuador

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O PADIM CORLEONE DA MAFIA AMERICANA

Texto escrito em colaboração com o especialista em filmes de faroeste D.Matt

Marlon Brando o eterno Don Vito Corleone

Dedicamo-lo ao mestre do SEGUNDA SEM LEI, Altamir Pinheiro

O primeiro filme da trilogia de O Poderoso Chefão gira em torno da família mafiosa de Don Vito Corleone, de 1945 a 1955, sendo considerado e aclamado como um dos melhores filmes de gângster de toda a história do cinema nas ações mafiosas e suas conseqüências. Mas o diretor teve que impor sua personalidade contra os executivos da Paramount para realizá-lo.

Ante o esmero da produção, o deslumbre técnico – a montagem que, no batismo do afilhado, intercala a oração de Michael Corleone com os assassinatos de que ele é mandante; a fotografia excepcional, que explora à sombra os negócios da máfia e a transparência na relação de Michael com Apolônia, pura e virginal -, o vigor do elenco, o roteiro que entrelaça as intrigas familiares com a disputa pelo poder, e a perfeição com que Francis Ford Coppola encena sua história. Marlon Brando e Al Pacino estão memoráveis. O primeiro como o patriarca que tudo faz pela família, o segundo como o estranho no ninho que nega o pai e aos poucos se deixa envolver pela máfia, ainda que para perceber que, na maioria das vezes, o poderoso está só.

Já na segunda parte temos ações e negócios. Compra de governo cubano, traições mafiosas, muita vingança. Excelente continuação para o grande sucesso da parte um. Neste filme acompanhamos Don Vito Corleone desde os tempos de criança quando fugiu da Itália após ter sua família toda morta por um mafioso local. Chegando à América adotou o sobrenome Corleone referente à cidade natal e cresceu sempre lutando para sobreviver junto com sua esposa e filhos que iam nascendo no decorrer dos anos.

Depois de matar o mafioso que exigia porcentagem dos ganhos aos comerciantes locais que todo mundo o temia, o seu poder, influência e riqueza começa acrescer cada vez mais, conquistando assim o respeito de todos. Paralelamente, o caçula Michael Corleone tenta expandir os negócios da família buscando novos investimentos em Havana e Las Vegas e se depara cada vez mais com traições, interesses e se vê em uma situação delicada no casamento e com membros da família, além de ter que se confrontar com uma investigação geral contra a máfia e, em conseqüência, contra sua família e negócios.

Destaca-se o ótimo elenco novamente, infelizmente sem Marlon Brando, mas trazendo Al Pacino com uma atuação soberba, além do sempre perfeito Robert De Niro. Ninguém melhor do que ele para interpretar Don Vito Corleone mais jovem. A entonação de voz e os movimentos corporais estão iguais ao de Marlon Brando.

O filme mantém a mesma qualidade do anterior em todos os aspectos e aprofunda ainda mais as relações entre os familiares e aliados. O filme conta com outro grande roteiro, uma competente edição, além do figurino, direção de arte, a excepcional fotografia e é claro, a mais uma vez genial e firme direção de Coppola. O filme é uma aula de como fazer cinema e de como uma sequência pode manter o nível do original. A única coisa que peca é que o filme tem quase 3 horas e meia, e em alguns pontos ele se torna arrastado, mas o grande mérito da edição em deixar o filme mais ágil e intercalando bem o passado de Don Vito Corleone e o presente da família, é ainda mais evidente neste filme. Mas vale a pena no quesito fidelidade ao livro de Mario Puzzo.

Na terceira parte é muitíssimo diferente. A família quer se posicionar no mundo financeiro e político, se separa das ações mafiosas e procura limpar o nome CORLEONE a qualquer preço. Para isso “compra da Igreja e do Papa” uma comenda papal ao preço de cem milhões de dólares e se posiciona como o maior investidor nos negócios do Banco do Vaticano, cooptando a tudo e a todos. O resultado não é bem o esperado, pois os demais mafiosos deixados para trás, também querem participar da grande negociata.

Negócio feito, mas não chancelado pelo Papa, que está quase à morte. Os mafiosos se digladiam entre si querendo a sua parte e não deixam barato. Envenena o Papa recém eleito “João Paulo I”, o Papa Sorriso, por ser um homem honesto e não concordar com as roubalheiras no Banco do Vaticano.

Nesse filme as ações são todas políticas, mas as diferenças são presentes e a toda hora alguém tem de pagar as suas dívidas com a própria vida.

O filho bastardo do irmão morto metralhado no primeiro filme aparece e aos pouco vai se posicionando e ganhando força no esquema, tomando a liderança de todas as ações e ocupando o lugar do personagem advogado e conselheiro dos filmes anteriores que, “simplesmente sumiu da história” sem explicação. O seu lugar foi ocupado pelo ator cubano Andy Garcia que aproveitou a oportunidade e, com grande talento, conseguiu fazer um belo trabalho no filme, sendo indicado ao prêmio Oscar de melhor ator coadjuvante.

Uma grata observação: os produtores contrataram diversos atores de prestígio, que fizeram grandes filmes e valorizam muitos personagens importantes. Nesse filme todos estão ótimos e foi muito gratificante vê-los atuando em papéis secundários, sem glamour aparente com ótimos resultados. Um desses atores é o veterano e carismático ator Eli Wallach, contumaz ladrão de cenas que como sempre sobressai em qualquer filme. Outro ator que surpreende pela qualidade do seu trabalho é o cubano Andy Garcia, com uma atuação sóbria e firme, convence como ítalo americano e termina o filme como o Poderoso Chefão, tendo suas mãos beijadas pelos mafiosos de plantão.

Não se pode deixar de mencionar a aula de montagem do filme, ao final, durante a bela ópera encenada e os acontecimentos paralelos, sendo executados com todos os devedores, ao estilo Corleone. Tudo acompanhado pela belíssima música operística.

Muitos críticos, à época do lançamento do filme e até hoje, não deram muita importância a essa terceira sequência da trilogia, talvez porque tenha havido um hiato de dez anos para ser filmado e também pelo enfoque político nele inserido. Em lugar dos temas mafiosos presentes nos filmes anteriores. Essa sequência tem validade qualitativa tão quanto às duas partes anteriores. É por isso que na História do Cinema não vai existir outra trilogia igual.

a) A História por Trás de O Poderoso Chefão (1)

b) A História por Trás de O Poderoso Chefão (2)

c) A História por Trás de O Poderoso Chefão (3)

1) Os Finais Perfeitos da Trilogia O Poderoso Chefão

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

UMA CRÔNICA TRISTE

Frase de Don Vito Corleone no filme o Poderoso Chefão

Ademilton nasceu numa cidadezinha pobre do interior nordestino, onde só havia três ruas, a principal e duas secundárias, sem asfalto. Nasceu uma criança magra, raquítica, anêmica, qual um “Tibicuera”, mas na adolescência recuperou essa deficiência orgânica com umas “paneladas” que a mãe, Dona Abigaí Franzina, preparava em segredo e lhe dava à noite, antes de dormir.

Cedo descobriu que tinha vocação para cozinhar bem, hábito herdado da mãe que, onde punha as mãos habilidosas no tempero, transformava qualquer prato caseiro em iguaria deliciosa, sem nunca ter recebido orientação gastronômica. Tudo lhe era intuitivo.

Depois que ficou adulto Ademilton confessou a mãe que queria viajar para a cidade grande, trabalhar em cozinha ou montar seu próprio negócio focado em comida, mas algo o bloqueava de fazer o que mais gostava: sua condição homossexual, que a mãe já tinha notado desde criança e nunca o recriminou, por isso mesmo lhe era uma das maiores incentivadoras.

Já com seus dezoito anos completo e focado nas suas pretensões gastronômicas, Ademilton reuniu a mãe, o pai e os irmãos, confessou-lhes “que lugar pequeno não lhe dava futuro, espaço para ele se desenvolver”, por isso mesmo estava viajando para a cidade grande com o propósito de investir na profissão de cozinheiro, sua verdadeira vocação. Quando tivesse estabelecido viria buscar a família para formar a sociedade.

Os pais e os irmãos o apoiaram, desejando-lhe grande sucesso na empreitada, o que fez com que Ademilton se sentisse mais seguro da sua decisão.

Ao aportar na cidade grande, vindo por um ônibus da Itapemirim, Ademilton alugou um quartinho no centro da cidade, num local movimentado, com o dinheiro que os pais lhe deram para se virar por uns dias enquanto não arranjasse emprego ou abrisse o seu negócio dos sonhos.

Intuitivo, ele logo percebeu que havia ancorado no lugar certo e, com seu faro gastronômico, percebeu que no lugar onde ficou não havia um ponto comercial decente, acolhedor, que absorvesse toda aquela gente que saia do trabalho a procura de comida para almoçar, bebida, lazer, diversão, arte, mulher…

Um dia, vagando pela cidade e estudando todas as possibilidades comerciais possíveis, Ademilton entrou no cinema onde estava passando “O Poderoso Chefão”, primeiro filme da trilogia dos Vito Corleone, dirigido pelo magno Francis Ford Coppola. Quando terminou a exibição do filme ele ficou atordoado com os diálogos, sobretudo com as célebres frases sobre empreendedorismo ditas por Don Vito Corleone, como: “Nunca desvie o foco do seu negócio, mesmo que apareçam propostas tentadoras. Isso acaba lhe prejudicando e você pode não saber onde vai chegar.” Dentre outras.

Depois que saiu do cinema, Ademilton já tinha pronto o protótipo do seu projeto comercial na cabeça e no outro dia começou a pôr em prática sua ambição. Montar o restaurante com todos os pratos que a mãe lhe ensinara, e mostrar aos fregueses que a comodidade em gastronomia havia chegado.

Com menos de um ano de inaugurado o restaurante de Ademilton era sucesso absoluto nas redondezas no ramo da culinária típica da região, mas com pratos de nomes criativos bolados por ele, além de outras diversões.

Mas como na vida nunca se sabe o que o futuro lhe reserva, Ademilton não seguiu as lições de Don Vito Corleone e se juntou a comerciantes inescrupulosos da área que com inveja da ascensão do jovem promissor mandaram-no matar para “eliminando a pedra do meio do caminho.”

A Polícia não apurou quem cometeu o crime. Em consequência ninguém foi preso e nunca se soube dos autores da execução e mandantes. O restaurante do jovem promissor foi fechado, todos os funcionários foram dispensados e a família, cujo sonho era trabalhar junto para crescer junto, ficou apenas na esperança.

Infelizmente Ademilton não seguiu os conselhos de Don Vito Corleone, que vale para qualquer época.

Seis lições do filme O Poderoso Chefão para empreendedores e líderes: