“FENCES” ou “Um Limite Entre Nós,” em tradução capenga para o português, é uma belíssima adaptação da peça de mesmo nome de August Wilson, pseudônimo do dramaturgo americano Frederick August Kittel (1945-2005), mesmo com alguns excessos. Escrita em 1983, adaptada para o cinema com direção e atuação de Denzel Washington. Pouco depois da segunda guerra mundial. “Fences” traz como protagonista Troy Maxson (Denzel Washington), um homem amargurado pelo preconceito vivido durante toda sua vida. Portanto, “Um Limite Entre Nós”, aborda a questão racial e tenta esquadrinhar o mundo interior daqueles cujos sonhos fracassam.
Troy Maxson guarda um grande rancor que alimenta durante anos por não ter tido a chance de ser um jogador profissional de baseball por falta de oportunidades devido a sua cor, mesmo com sua habilidade excepcional. Devido ao grande preconceito vivido ele se nega a aceitar que seu filho Cory (Jovan Adepo) passe pelas mesmas dificuldades que ele enfrentou durante sua vida e considera a tentativa do filho de querer ser o que ele tentou ser e foi impedido, uma perda de tempo.
Embora não o demonstre no dia a dia, Troy é um homem muito amargo. E a vida lhe contribuiu muito para isso. Ele leva a vida trabalhando em um caminhão de lixo junto com seu amigo de muitos anos Jim Bono (Stephen Henderson) e tem a ambição de se tornar motorista do caminhão, cargo esse que ele considera pertencer a homens brancos. Troy é casado há 18 anos com Rose Maxson (Viola Davis), numa interpretação memorável da atriz, na pele de uma mulher muito forte e destemida.
Fences é um filme muito forte e muito bem elaborado, mostra a história vivida na pele por Troy, a dor e coragem de Rose, a objeção e a luta de Cory. Russell Hornsby vive Lyons, o filho mais velho de Troy com outra mulher. Destaque para a atuação de Mykelti Williamson que mostra o lado problemático e perturbado de Gabe, o irmão de Troy.
Há quem diga que Denzel Washington funcione mais como ator do que como diretor e em Fences com certeza sua atuação é muito mais vista e destacada do que sua direção. Acho até por isso que sua indicação ao Oscar foi somente a de melhor ator. Foco na expressão e nos olhos de Denzel durante o filme, ele nos passa um pai de família com seus costumes e atitudes a moda antiga e consegue mostrar o quanto é grandioso o seu trabalho e elogiar as atuações de Denzel é simplesmente chover no molhado.
Sua indicação ao Oscar de melhor ator foi merecidíssima, mesmo não ganhando, e não haveria espanto nem um pouco se ele tivesse arrebatado a estatueta. Agora Viola Davis, com aquela apresentação grandiosa, maravilhosa, de encher os nossos olhos de alegria e lágrimas. Ela incorpora a Rose de uma maneira perfeita e magistral. Belíssimo trabalho entregue por essa maravilhosa e talentosíssima atriz.
“Um Limite Entre Nós” é um filme que se desenvolve de uma maneira bem interessante. O longa começa com Troy tentando parecer engraçado, quando não tem nada disso dentro dele. A história vai se encontrando na medida em ela se desenrola para os espectadores e seu cerne central encontra-se na figura de Troy, um homem que é a representação exata de uma criação dura, o produto fiel de uma realidade inóspita e que aprendeu, da maneira mais difícil, quais eram as suas responsabilidades como homem e pai de família. Na sua cegueira diante do papel que exerce, ele se impede de enxergar as mudanças ao seu redor e de ter compaixão por aqueles que mais o amam. Essa é uma lição que a teimosia de Troy não vai deixá-lo aprender, mas que vai ser de muita valia para aqueles que estão ao seu redor.
Em 1946, Andy Dufresne, um banqueiro jovem, inteligente e bem sucedido, tem a sua vida devastada, ao ser condenado à prisão perpétua por dois crimes que nunca cometeu: o homicídio de sua esposa e do amante dela. Ele é mandado à Penitenciária Estadual de Shawshank, no Maine, prisão que é o pesadelo de qualquer detendo. Lá ele irá cumprir a duas prisões perpétuas por cada crime cometido. Andy logo será apresentado a Warden Norton, o corrupto e cruel agente penitenciário, que usa a Bíblia como arma de controle e ao capitão Byron Hadley, que trata os internos como animais. Andy faz amizade com Ellis Boyd Redding – Red (Morgan Freemen), um prisioneiro que cumpre pena de 20 anos e controla o mercado negro dentro da instituição.
O cotidiano da prisão de Shawshank e as relações de seus presos são o mote para uma comovente e impactante história sobre o poder da esperança e da LIBERDADE no íntimo dos seres humanos.
Na produção em questão, o drama emerge da luta de um homem contra as prisões física e simbólica que se erguem ao seu redor e em seu interior.
Tudo começa com o conto ‘Rita Hayhorth e a Redenção de Shawshank’ publicado no livro ‘Quatro Estações.’ Na narrativa, o bem sucedido banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado injustamente pelo assassinato da esposa e do amante dela e levado para a penitenciária de Shawshank, no Maine. Sua pena: a prisão perpétua em um lugar que é o pesadelo dos detentos. A rotina é terrível por conta da crueldade do diretor e dos guardas, mas também pode oferecer a amizade com Red (Morgan Freeman), preso que lidera um dos grupos da prisão e arranja clandestinamente objetos pedidos pelos colegas.
Os males do encarceramento são rapidamente identificados como obstáculos à plena liberdade de Andy Dufresne e dos demais. O isolamento em relação à sociedade, as punições severas representadas pelas penas longas ou pela prisão perpétua e o confinamento garantidos pelos muros, cercas e guardas já são suficientes para expressar a adversidade dos presos.
Porém, o filme vai além e também expõe o autoritarismo do diretor Warden (Bob Gunton), quando se apresenta aos novos detentos como um administrador apegado à disciplina e à sua própria compreensão da Bíblia, e a truculência do guarda Hadley (Clance Brown), quando espanca um recém-chegado até a morte por chorar à noite na cela. Personagens e espectadores não só se sentem intimidados, como também sentem a ameaça de Shawshank nas tomadas áreas do pátio e no enquadramento engrandecedor do local durante a chegada do protagonista.
Além das figuras de autoridade, os próprios residentes da penitenciária também representam algum tipo de ameaça. O costume dos presos mais antigos de provocar os novos eleva a situação de tensão já existente, como se percebe na sequência em que apostam quem seria o primeiro a ceder às pressões da primeira noite. Seguindo o mesmo sentido, a tradição de formar diferentes grupos que protegem seus membros e intimidam ou agridem os outros detentos é outra prática feita pelos condenados que desestabilizam o enclausuramento. Quem não se encaixa em algum dos grupos eventualmente passa por problemas sérios. É isso que acontece com Andy, inicialmente um solitário violentado pelo grupo dos homossexuais, até se aproximar de Red e fazer parte de seu grupo.
A prisão de Shawshank ainda afeta aqueles que cumprem sua pena em uma dimensão inconsciente e intimista. Um longo período aprisionado faz com que os homens vivenciem e naturalizem uma rotina que dá alguma regularidade, alguma certeza às suas vidas (mesmo que seja ruim e adversa): passam bastante tempo nas celas, tomam banho de sol, interagem com os outros presos, se alimentam nos salões nos salões de refeição e enfrentam as autoridades do lugar.
Estar muito tempo encarcerado e consolidar essa rotina como um hábito cria o que Red chama de preso “institucionalizado”, isto é, alguém que não sobreviveria fora da prisão por não conseguir se adaptar a um ambiente de liberdade. Brooks e Red, os presos mais antigos da penitenciária, sintetizam as sensações de um ex-preso que recupera a liberdade, mas não reconhece mais o mundo lá fora nem sabe como agir nele – daí, vem um vazio que os faz preferir a familiaridade que a prisão desperta.
É possível enfrentar o mal gerado pela penitenciária através da sociabilidade entre os criminosos. O sentimento de coletividade confere alguma força para lidar com a privação da liberdade ao ajudar no compartilhamento de experiências, além de humanizar os personagens: são brincadeiras e interações entre eles e que promovem a identificação junto ao público, apesar de serem homens condenados por crimes violentos.
Desse modo, a atuação de Morgan Freeman é fundamental para tornar Red uma forte base emocional da narrativa, sendo o sujeito extrovertido e astucioso que contrabandeia objetos para a prisão, desfruta de alguns privilégios e ainda estabelece uma rica amizade com Andy.
Andy é o oposto de Red: silencioso, cultíssimo, observador, taciturno, por vezes, frio e incompatível com a prisão onde está. Mas, à medida que sua personalidade e suas virtudes se revelam, surge outra possibilidade para enfrentar as pressões do encarceramento: a força interior do homem – é ela que faz o protagonista conquistar privilégios ao fazer o imposto de renda dos guardas e do diretor e organizar a biblioteca. É uma força tão marcante que o próprio homem explica ao amigo o porquê de ter tantas esperanças e Red em uma narração em off comenta como Andy sempre precisa ocupar sua cabeça com algo normal e corriqueiro. Tamanha complexidade não seria possível sem a performance contida e poderosa de Tim Robbins.
Jamais soando apelativo, “Um Sonho de Liberdade” é uma belíssima experiência cinematográfica sobre a luta do homem pela esperança e pela liberdade, mesmo em meio às injustiças e à opressão do sistema prisional. De tão poderoso que é, o filme não precisa utilizar elementos fantásticos, no sentido de sobrenatural, para ser chamado de fantástico. Ele é assim graças à excelência que carrega em sua humanidade.
Um sonho de liberdade – trailer legendado
UM SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994) – Ocupe-se vivendo…
SÓ A INTERPRETAÇÃO DE DANIEL DAY-LEWIS TORNA O FILME UM CLÁSSICO
Imagem do filme LINCOLN (2012), dirigido magistralmente por Steven Spielberg
A abertura do clássico filme Lincoln do diretor Steven Spielberg traz uma poderosa e rápida cena de batalha na etapa final da histórica “Guerra Civil Americana”, muito semelhante às magistrais sequências de confronto nos filmes “O Resgate do Soldado Ryan.” (1998) e “Cavalo de Guerra.” (2011).
Na cena de abertura, soldados lutam em um grande campo de terra enlameado pela forte chuva, espadas e rifles, ceifando centenas de vida a cada segundo. De fato, Spielberg já demonstrou que sabe fazer filmes com temática de guerra como poucos diretores, porém, em Lincoln, após os primeiros minutos, o cineasta se supera a nos contar com maestria a história dos últimos meses de vida do mais popular presidente americano de todos os tempos, Abraham Lincoln, deixando, assim, os momentos de batalha de lado e apostando, seguramente, em desenvolver uma minuciosa cinebiografia do presidente acerca de uma forte temática política com base em fatos que mudaram o curso da história da humanidade.
Como já dito anteriormente, a superprodução desenvolve uma cinebiografia do 16.º presidente norte-americano que liderou o Norte dos Estados Unidos na vitória durante a Guerra Civil Americana (também conhecida como “Guerra da Secessão”). O longa enfatiza os tumultuados meses finais do presidente Lincoln no cargo do primeiro mandato. Em um país dividido pela guerra e varrido por fortes ventos de mudança, Lincoln (Daniel Day Lewis) segue estratégia para encerrar a guerra, unir o país e abolir a escravidão. Com coragem moral e determinação férrea de vencer, suas escolhas nesse momento crítico mudaram o destino das gerações futuras.
Logo que Lincoln aparece em cena (em um belíssimo momento, por sinal) já vislumbra a nítida impressão da tendência narrativa que o diretor Spielberg desenvolverá: endeusar a figura do herói americano (repare, por exemplo, no momento em que o quadro se abre aos poucos até que apareça o presidente – quase sempre em primeiríssimo plano ou em perfil, aliás). Além disso, o roteiro ainda faz questão de enfatizar os dramas familiares de Lincoln a fim de humanizá-lo e gerar maior familiaridade com o espectador, para que este, posteriormente, venha a se comover com a lamentável e histórica morte do presidente – e isso não é spoiler, obviamente. Porém, apesar de não ser um problema comprometedor, tal opção soa desnecessária no filme que traz, por si só, um herói que não precisa de nenhum excesso narrativo para carregar o filme do início ao fim – ainda mais quando interpretado por um dos melhores atores da atualidade, Daniel Day Lewis, ganhador do Oscar de melhor ator.
Roteirizado por Tony Kushner, John Logan e Paul Webb – baseado na obra de Doris Kearns Goodwin, “Lincoln” é um dos melhores filmes sobre a política americana já feitos. As cenas de debate entre políticos com opiniões gritantemente divergentes a respeito da 13.ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América (que, evidentemente, pôs fim a escravidão e justificou os direitos entre negros e brancos) são excepcionais.
E, mesmo que certos termos políticos possam causar estranheza, o trabalho de pesquisa da equipe de Spielberg é admirável desde simples nomes a grandes acontecimentos – muito deles envolvendo a corrupção de compra de votos de vários políticos. E é justamente nesses momentos – que são, sem dúvidas, os melhores e mais vibrantes do longa – que Tommy Lee Jones brilha em uma atuação excelente como ator coadjuvante (não precisa nem dizer que seria merecido caso ele viesse a receber o Oscar – apesar de que todos indicados sejam fortíssimos e igualmente merecedores).
O ator, facilmente, garante o êxito de todas as cenas onde Lincoln não aparece; porém quando Daniel Day Lewis está em cena não tem para ninguém. Chega a impressionar a facilidade com a qual o brilhante ator interpreta o presidente como já tivesse atuado no papel toda sua vida; Daniel, de fato, domina as características de Abraham Lincoln magistralmente, começando pelas pequenas expressões faciais, passando pelo jeito de andar e impressionando a todos com seu perfeito trabalho vocal (e, mesmo sendo admirador das atuações dos demais concorrentes ao prêmio de melhor ator ganhador do Oscar seria um pecado não contemplar o divino trabalho do sempre perfeccionista Daniel Day Lewis).
Contando com um desing de produção definitivamente impecável, “Lincoln” se torna um filme genuinamente exuberante. A direção de arte (de Curt Beech, David Crank e Leslie McDonald) é extraordinária, os figurinos são riquíssimos em detalhes, a maquiagem é formidável e a trilha musical – além de tocante – é quase sempre adicionada precisamente pela edição (mesmo que a composição de John Williams possa, em alguns momentos, soar insistente). Isso sem mencionar a primorosa fotografia de Janusz Kaminski, quase sempre azulada e nebulosa, transmitindo toda a tensão e tristeza daquela época (mas, mesmo em meio a tamanho temor, Spielberg faz questão de contrastar os escuros figurinos e os tristes cenários com a luz solar que constantemente resplandece através das janelas da Casa Branca remetendo diretamente à esperança que, em tempos sombrios, ainda persiste – sempre, claro, focalizando a figura do presidente de modo questionável).
Mas se, por um lado, Steven Spielberg, em trabalhos anteriores, esbanjava – em algumas vezes até mesmo exagerava – na dose de ação em marcantes cenas de batalhas; em “Lincoln”, por outro, o cineasta desenvolve uma narrativa lenta, com longos diálogos e monólogos e intermináveis cenas – o que, certamente, prejudica diretamente o ritmo do filme e exige maior paciência do espectador. E não é exagero algum dizer que em alguns momentos a narrativa se torne demasiada e excessiva, fazendo com que tenhamos certeza de que Spielberg cometeu alguns erros ao concluir tal versão final do longa que, certamente, poderia ser editada (deméritos para a montagem que, embora seja inegavelmente cuidadosa, possui explícitos problemas de envolvência e fluidez).
Então, mesmo que vagarosamente, o filme chega a seu ótimo clímax que – aí sim – Spielberg conduz muito bem (repare, por exemplo, no ágil corte no momento chave do terceiro ato quando o diretor opta, ao invés de manter o foco na câmera dos deputados, em focalizar em outro lugar a face aflita de Lincoln, que, assim como a maioria, recebe a tão esperada notícia de que a 13ª Emenda havia sido aprovada por meio de fervorosas badalas no sino da Casa Branca, que anunciam a “paz” que estava por vim).
Enfim, não há dúvidas de que “Lincoln” é um filme grandioso, uma obra-prima – justificando suas 12 indicações ao Oscar. Magistralmente produzido, com um roteiro ousado e seguramente colocado em prática por Steven Spielberg – no caso, adotando uma linguagem diferente de seu estilo habitual, que, sem dúvidas, dividiu e ainda dividirá opiniões. No mais, um longa que, apesar de seus problemas, nos conta convincentemente sua história baseada em fatos históricos que jamais serão esquecidos, e, sobretudo, presta uma homenagem mais do que merecida a um verdadeiro herói da humanidade – e não somente americano. Portanto, resta dizer que, sim, o filme cumpre seu papel como cinebiografia política magna, que será sempre lembrado mais pela poderosíssima atuação de Daniel Day-Lewis, personificando o presidente Abraham Lincoln, do que por ser uma obra-prima.
a) Lincoln – Trailer Oficial Legendado
b) Daniel Day-Lewis winning Best Actor for “Lincoln” (2013).
Na pacata cidade de Hadleyville, no Novo México, quando o xerife Will Kane, interpretado magistralmente pelo ator Gary Cooper, está prestes a se casar com a protestante, a belíssima Grace Kelly, recebe a notícia de que Frank Miller, interpretado pelo ator Ian MacDonald) – o psicopata que Kane havia prendido anos atrás – foi solto da prisão e estava preste a chegar no trem do meio-dia à cidade para a desforra.
Enquanto os três mais odiosos cúmplices de Miller esperam na estação, o xerife tenta conseguir ajuda. Os habitantes da cidade se recusam a arriscar suas vidas por medo de vingança. Vários relógios revelam que o meio-dia está se aproximando. “Matar ou Morrer” se passa em tempo real, com a hora fatal se aproximando enquanto a música-tema, a balada “Do Not Forsake Me, Oh My Darling”, insiste em frisar os acontecimentos. Will Kane é deixado praticamente sozinho contra quatro vilões.
O assassino solto deve chegar a bordo do trem do meio-dia. Frente aos sentimentos conflitantes da população, ao desamparo por parte de seus antigos colaboradores e, especialmente, às súplicas de sua esposa, o xerife enfrenta um dilema praticamente sem solução.
Esse é o pano de fundo que Fred Zinnemann utiliza para desenhar um painel do fim anunciado da época das conquistas. Os personagens são protagonistas inconscientes de seu próprio papel. Will Kane representa o desbravador, o precursor, o próprio espírito da colonização. Não por acaso ele está velho e prestes a se aposentar. Seu adversário, Frank Miller, não é um dos tradicionais vilões do velho oeste, cujo único fim era a morte, em combate ou na forca. Ele foi preso, julgado, sentenciado a passar a vida na cadeia, mas foi libertado.
Não se sabe por que ele foi solto, nem o filme se presta a dar um motivo concreto. Só se sabe que, em algum lugar longe dali, uma espécie diferente de justiça se fez, e essa justiça colocou em liberdade um homem cuja primeira atitude é juntar-se aos seus capangas e buscar vingança. É nos personagens secundários, habitantes da cidade, entretanto, que se encontra a parte mais interessante da metáfora elaborada aqui.
Observando com atenção, percebe-se que neles a coragem foi substituída por precaução e o espírito aventureiro deu lugar ao desejo de estabilidade. Por mais que se envergonhem disso, os homens do povoado não reúnem em si a força para ajudar o xerife, entregando-o ao que todos consideram sua morte certa – ou seu suicídio, como descrevem alguns, o que seria uma forma de eximir-se da culpa por manter os braços cruzados. Um dos moradores chega a dizer: “Nós pagamos um bom salário ao xerife e seu ajudante. Eles que resolvam”. A função do novo cidadão urbano seria, portanto, a de pagar seus impostos e esperar que os problemas desapareçam. Nada mais de iniciativa, nada de participação direta. Eles que resolvam.
A ganância também aparece aqui modificada pela nova ordem. Não são mais terras ou gado que interessam, os desejos da população da cidade são mais, digamos, atuais. O hoteleiro diz não gostar do xerife, pois antes da chegada da lei e da ordem havia mais movimento em seu hotel. Eis uma boa crítica ao capitalismo selvagem, ao qual não importa que todos se matem, contanto que isso traga lucros. Já o assistente do xerife recusa-se a ajudá-lo por não ter sido indicado para substituí-lo, um novo xerife chegaria à cidade no dia seguinte.
Nesse caso a cobiça é pelo cargo, e aqui, melhor do que em qualquer outro ponto, percebe-se que os tempos não são mais de força e coragem, mas de política e barganha. Eis que, como resultado de tudo isso, Will Kane é abandonado. Para que não se diga que os aspectos artísticos da obra não foram citados, vale lembrar que tanto a trilha sonora quanto a música tema cabem perfeitamente no filme, colaborando bastante para criar a atmosfera de conflito interno do protagonista.
Gary Cooper oferece uma atuação na medida certa, sem exageros, mas que passa ao espectador a angústia de encontrar-se na situação em que se encontra. Há ainda algo de revigorante no papel da mulher em Matar ou Morrer. Também aqui se poderia dizer que o filme é precursor, mas seria difícil fazê-lo sem explicitar demasiadamente a conclusão da história. O mais importante é que a cena final representa o ocaso de uma era.
É verdade que a colonização não termina com o desfecho do personagem de Gary Cooper. Seu fim, porém, havia sido anunciado. O tempo de coragem, da marcha ao desconhecido, da vida e da morte pela força e pelas armas estava agonizando. A aventura do velho oeste chegava ao fim.
Não é a toa que Matar ou Morrer é considerado o segundo melhor western de todos os tempos pelo American Film Institute. Um filme inteligente, angustiante e que merece ser assistido por várias vezes. É simplesmente fantástico!
Esse foi um filme muito polêmico quando lançado nos States, principalmente por motivos políticos. O roteirista foi acusado pelos artistas e esquerdistas de ter incluído no roteiro passagens anti-democráticos, anti-americanos. Inclusive esse filme foi muito criticado por ninguém nada menos que o famoso cowboy John Wayne, que afirmava que o filme era anti-americano e não era um filme “western” e sim um ataque à democracia estadunidense.
Causou tanta polêmica que foi até citado pelo presidente Ronald Reagan durante um dos seus pronunciamentos transmitidos pela TV. Mas apesar de toda controvérsia o filme foi um grande sucesso de crítica e de público, ganhador de quatro oscars.
O filme é considerado um clássico do cinema, pois inova na abordagem do conflito em um plano mais psicológico e pela carga de suspense nele contido.
A fotografia é primorosa, de uma qualidade surpreendente, em glorioso preto e branco, ganhadora do prêmio Oscar de melhor fotografia do ano.
O elenco é surpreendente. O papel principal foi antes oferecido aos atores Marlon Brando e Montgomery Clift que recusaram participar do filme por vários motivos, sendo o principal dele o recebimento de uma quantia muito irrisória para atuarem em papéis muito importantes, pois a quantia posta à disposição da produção foram meros setecentos mil dólares, uma quantia irrisória para um filme com grande elenco, mesmo para os tempos antigos, (1952).
Há de se notar que durante todo o filme, aparecem diversos relógios, todos marcando os minutos antecedentes ao meio dia. O filme é todo feito no horário real e essas cenas com os relógios têm grande impacto visual e bastante suspense, pois cada minuto antes do meio dia é de muita angústia para o personagem principal, o xerife Cooper, pois todos os habitantes da cidade negam-se covardemente a ajudá-lo a combater com os bandidos vingadores, que vão chegar no trem das doze horas em ponto, com a intenção de matá-lo. Cada relógio em si se torna um dos personagens como testemunhas coadjuvantes do filme em questão.
Após o duelo final, o xerife é elogiado pelos moradores da cidade que pedem para ele permanecer na cidade como defensor da lei. Nessa hora, o xerife faz uma cara de nojo e joga ao chão a estrela de xerife, num gesto de desprezo pela covardia dos habitantes que se recusaram a ajudá-lo a enfrentar os bandidos.
Esta cena, na época do lançamento do filme, foi muito criticada pelo ator John Wayne, que achou uma ofensa aos defensores da lei, que um xerife jogasse ao chão uma estrela que representava uma autoridade e ele achava também que com a cena ele estava jogando ao chão a estrela americana da democracia. Tudo picuinha política, isso porque o roteirista (Carl Foreman) tinha sido em prisca época membro do partido comunista americano. O macarthismo estava presente em toda esquina estadunidense. Era a época da caça às bruxas.
Nesse caso, ninguém contestou o gesto do Xerife, o que comprova que a política deturpa tudo e John Wayne sempre foi um “cowboy” político.
O resultado final do filme é primoroso, um grande diretor Fred Zinemann, um grande ator Gary Cooper, que já tinha sido previamente ganhador de um Oscar, a atriz novata Grace Kelly e um elenco de apoio com celebridades, todas muito atuantes e muito experientes na atuação de filmes de faroeste, tais como: Thomas Mitchell, lloyd Bridges, Katy Jurado e Lee Van Cleef, é sem dúvida um dos melhores filme western de todos os tempos.
Um grande clássico, tão grande como “SHANE” ou “Rastros de Ódio,” que são as melhores referências no padrão de qualidade do western americano.
No filme Instinto Selvagem, do diretor Paul Verhoeven, o policial de São Francisco, Nick Curran (Michael Douglas) fica fortemente atraído por Catherine Tramell (Sharon Stone), a principal suspeita de um assassinato. Apesar de ter consciência dos riscos que corre, o policial Curran se expõe cada vez mais, mesmo quando novas mortes ocorrem. A cena de abertura é bastante emblemática e pontual. Ela estabelece a linha narrativa que nos guiará até o fim, por meio de uma trama que unificada bem o sexo e a morte como partes distintas que formam uma unidade temática. O picador de gelo é a arma do crime. Nick é designado para a investigação e logo se percebe atraído pela suposta responsável pelo crime, Catherine Trammel
Após os créditos iniciais de Instinto Selvagem, vemos um casal fazendo sexo. Ele está com os braços amarrados e a sua companheira – uma loira de corpo escultural – está por cima, se preparando para o orgasmo. Durante o movimento, ela pega um picador de gelo e o mata a punhaladas. A cena descrita acima serve para mostrar o espectador como será o filme. O diretor Paul Verhoeven, não está a fim de criar uma história de mistério, mas sim um jogo de manipulação em que a principal arma é a luxúria.
O mistério é bem simples: após o assassinado citado acima, o detetive Nick Curran (Michael Douglas) fica responsável pelo caso. A vítima era um músico de rock aposentado que estava tendo relações sexuais com Catherine Tramell (Sharon Stone), uma escritora de suspenses. Catherine se torna a principal suspeita após descobrirem que em um dos seus livros ocorre um assassinato que é descrito da mesma maneira, com um homem sendo morto por uma mulher com um picador de gelo. Mesmo sem provas concretas, Nick começa a se envolver com a suspeita e entra em um jogo muito perigoso.
O primeiro ponto que deve ser comentado sobre o roteiro – assinado por Joe Eszterhas – é que o mistério em si é bobo. Ele é óbvio, e o filme tenta enganar em certos momentos e quando o faz vai deixando vários furos na trama. Isso quando não tenta forçar relações entre os personagens para chegar a resolução do mistério. Mas como disse no primeiro parágrafo, o que vale no longa é o jogo de caça e caçador entre Nick e Catherine. Na verdade, não se sabe quais são os papéis.
Não se sabe se ele ou ela está no controle da situação. Quanto mais se desenvolve, mais fica a impressão que ela manipula não apenas o detetive, mas todos com quem interage por conta de sua beleza. Não é apenas a personagem que é bem escrita, mas é por conta da ótima atuação de Sharon Stone que cria uma pessoa que é quente em certos momentos e fria em outros. Isso faz que o espectador tema as ações de Catherine, por ela ser imprevisível. Até quando se mostra amorosa com Nick, percebe-se que tem algo por trás.
Aliás, o quente e o frio são os grandes contrastes do longa. Se perceber as maiorias das cores que aparecem durante o longa são branco, azul e laranja. Percebe-se que na maioria dos cenários há essas três cores no mesmo lugar. Uma cor quente (laranja), fria (azul) e uma que pode ir para qualquer lado (branco). É mais uma brincadeira de Verhoeven para provocar o público. Todas as cenas do longa são muito provocantes, soando como se o diretor quisesse que o expectador fosse parte do jogo. As cenas de sexo e nudez são explicitas, mas não são gratuitas. Se notarem, nenhum sexo do filme é movido por amor. Mas por luxúria, quase como se o instinto básico (daí o nome original do longa) do ser humano. Todos os elementos em cena só provocam o espectador, o ápice é a famosa cruzada de pernas de Sharon Stone. Que é a cena que mostra o poder de sedução da personagem, pois após a cruzada ele corta para as reações dos homens na sala que estão enlouquecidos com a beleza daquela mulher.
Outro fator que aumenta o suspense do filme é a excelente trilha sonora de Jerry Goldsmith que cria uma atmosfera em que todos os elementos são perigosos. A melhor parte é que se trata de uma trilha contida que não chama a atenção para si mesma e só acelera nas cenas de perseguição, aumentando a tensão. O jeito que ela está sincronizada com o que está em tela também ajuda a construir o suspense. É mais um trabalho primoroso de um grande músico como Jerry Goldsmith.
Não há qualquer arbitrariedade em Instinto Selvagem. O filme é todo calculado para aditivar o suspense de uma sexualidade feminina latente, tão forte que se configura em ameaça real ao dominante universo masculino. Paul Verhoeven é um grande cineasta, daqueles que produzem arte sem descuidar do público – assim como Alfred Hitchcock – e que, por isso mesmo, às vezes é tão incompreendido e atacado…
Official Trailer: Basic Instinct (1992)
INSTINTO SELVAGEM – 10 COISAS que você não sabia – Curiosidades e resumo do filme
“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.
MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.
Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.
Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.
A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.
Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.
Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.
Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.
O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.
Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.
Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes sobre a morte assistida em caso extremo da vida, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.
O louco Coronel Kurtz, interpretado por Marlon Brando
APOCALYPSE NOW é uma obra-prima, um clássico da cinematografia beligerante. É um filme épico de guerra que questiona até onde vão a loucura, a paranóia, a estupidez, o egoísmo humanos. Suas conseqüências psicológicas. Os motivos sórdidos e desumanos que levam os homens a provocarem os conflitos, ceifarem vidas, destruírem a natureza e se tornarem algozes de si mesmos.
Em 1939, Orson Welles planejava filmar “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, roteirizado por John Milius, livro do qual Francis Ford Coppola extraiu o roteiro de Apocalypse Now. Mas o projeto de Orson Welles foi abortado em pré-produção porque os produtores de Hollywood consideraram o custo da produção muito alto.
Em 1969, Francis Ford Coppola fundou a produtora American Zoetrope para filmar fora do sistema de Hollywood, e seu primeiro filme pela produtora foi exatamente Apocalypse Naw, com a direção ficando a cargo do talentoso cineasta George Lucas, que acabou desistindo da empreitada depois de mostrar o roteiro a vários estúdios e estes se recusarem. Mas Francis Ford Coppola nunca desistiu do projeto de filmagem, assumindo-o como produtor e diretor dez anos depois de ter rodado “O Poderoso Chefão” 1 e 2, ter ganhado oito Oscar e ficado milionário.
A esposa do cineasta Francis Ford Coppolla, Eleonor Coppola, conta toda essa loucura do esposo no set de gravação no documentário Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, lançado em 1991, mostrando as tumutuadas filmagens do que foram os duzentos e trinta e oito dias de loucura nas selvas das Filipinas e Camboja, movidos por muita droga, medo, suicídios dos nativos, desejo de suicídio do próprio cineasta, que se via na iminência de ver seu grandioso projeto ruir, não seguir adiante por falta de verbas e a quase desistência do insano Coronel Walter E. Kurtz, interpretado pelo irascível Marlon Brando, que já havia recebido um milhão de dólares adiantado dos três milhões acertados com o diretor por três semanas de filmagens.
O resultado desta loucura insana está no documentário Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, (Corações das Trevas: Apocalypse de um cineasta), onde os bastidores das filmagens assustam mais do que a Guerra do Vietnã.
Com as filmagens iniciadas em 1976, mas só terminadas em 1979, APOCALYPSE NOW honrou o produtor e diretor Francis Ford Coppola, porque além de ter recebido os Oscar mais importantes do cinema à época, até hoje é considerado um épico imbatível sobre a barbárie e loucura da guerra. Ademais: Ter empurrado uma pajacara de grosso calibre no rabo de todos os “críticos” de nota de rodapé de jornais da época, que projetaram o fracasso do filme antes mesmo do lançamento.
UMA OBRA-PRIMA DE DRAMA, SUSPENSE E TERROR PSICOLÓGICO
Cena icônica de “O Silêncio dos Inocentes”: o olhar sombrio de Hannibal
THE SILENCE OF THE LAMBS (ou: “O Silêncio dos Inocentes”) é uma das maiores obras cinematográficas fictícias de todos os tempos. A história gira em torno da jovem estagiária do FBI, Clarice Starling, que é recrutada com a missão de entrevistar o brilhante psiquiatra e assassino canibal em série, Hannibal Lecter, que está preso em um manicômio há oito anos com o objetivo de formular o perfil de um assassino em série que esfola a pele das suas vítimas, também conhecido pelo nome de Bufallo Bill.
Ao longo da trama, percebemos que Clarice se torna cada vez mais carismática até nos apegarmos totalmente à personagem dela, com sua história trágica e com o objetivo de salvar a vida das pessoas, Clarice torna-se uma das personagens mais icônicas no filme, inclusive com a perfeita atuação de Jodie Foster no papel principal.
Como esperado, Anthony Hopkins também surpreendeu ao longo da trama no papel do inescrupuloso Hannibal Lecter que, assim como Clarice, se torna cada vez mais carismático até nos apegarmos a ele. Além disso, percebemos as atuações de coadjuvantes fantásticas de Scott Gleen como o diretor do FBI, Ted Levine como o Bufallo Bill e Kasi Lemmons que por mais que tenha trabalhado mais como diretora de cinema do que como atriz, nos surpreendeu ao viver o papel da personagem Ardelia Mapp, amiga e colega de quarto de Clarice Starling.
“O Silêncio dos Inocentes” é um filme que de início tem uma proposta simples, uma estudante da academia de Polícia tem a missão de buscar informações do perfil de um serial killer, o problema é que para poder achar esse perfil ela tem que entrevistar um assassino canibal: Hannibal Lecter. É um filme forte e que explora os lados da crueldade humana e acima de tudo as “motivações” de um assassino. É brilhante a maneira como o filme se desenrola e em especial as conversas entre o Hannibal Lecter e Clarice Staling. São diálogos afiados, inteligentes. De um lado uma esperta policial e do outro, um extremo manipulador. Lecter é um psicopata que entra nas mentes das pessoas, explora seus traumas, é extremamente perigoso e assustador e é incrível como ele consegue deixar a forte e valente Clarice vulnerável a seus questionamentos. O roteiro do filme também de forma sutil mostra como era difícil ser mulher policial, por vezes constrangedor, receber olhares de outros policiais que se admiram ao ver uma mulher em um cargo de investigadora, algo que infelizmente ainda acontece hoje em dia.
O longa foi indicado a sete estatuetas do Oscar e se saiu vencedor em cinco categorias principais, dentre eles o de melhor filme, melhor diretor, melhor atriz, melhor ator e melhor roteiro adaptado. E, merecidamente, pois o filme possui, primeiramente, uma direção perfeita, o desenrolar do filme é muito bem orquestrado pelo diretor Jonathan Demme que sabe conduzir as cenas, sejam elas de simples diálogos ou até de momentos mais tensos no terceiro ato e sem contar o ótimo trabalho conduzido com o elenco.
Com um roteiro bem montado, o elenco aproveita e se entrega a brilhantes atuações. Anthony Hopkins faz aqui seu melhor personagem, de longe um dos meus favoritos. É um psicopata extremamente manipulador e tem um olhar assustador chegando a ser hipnotizante para quem assiste. Ele usa pequenos detalhes da vida de uma pessoa e joga com elas um doentio jogo psicológico. E a Jodie Foster é outra com uma das melhores atuações na carreira, uma mulher forte, sagaz e que tem uma sede por justiça, é uma atuação realmente magnífica, memorável.
“O Silêncio dos Inocentes” é um brilhante retrato da psicopatia humana, as decepções de um ser humano que expõe o seu instinto assassino, de um ser mentalmente perturbado, e como agem os mais manipuladores. Tem personagens fascinantes e uma dupla principal incrivelmente bem interpretada por Jodie Foster e Anthony Hopkins. Um thriller policial de primeira linha.
Tipo de armazém de Secos e Molhados da época, a semelhança do de Seu Cirilo
Seu Cirilo era um comerciante mulherengo. Não podia ver um rabo de saia deixando o mocotó saliente que endoidava. Perdia a cabeça de baixo e de cima. Em cada bairro onde tinha um armazém de Secos e Molhados, possuía um rabo-de-saia para “furar o couro” a cada dia da semana.
De todas as mulheres com quem teve “um caso extraconjugal público e duradouro”, só Dona Dóris teve três filhos dele, um macho e duas fêmeas. Até hoje não se sabe por que as outras “cadelas”, como ele pejorativamente as chamava, não embucharam…
Seu Cirilo não era agiota, mas desenvolveu um método infalível de se apossar das casas dos devedores do seu armazém: quando percebia que o devedor estava com a caderneta de débito a perigo, intimava-o a trazer “a escritura da casa” como garantia do débito e, quando este chegava a determinado patamar, pagava a diferença do valor do imóvel previamente combinado e expulsava o devedor. Por causa desse modo de pressão infalível, Seu Cirilo conseguiu angariar um patrimônio milionário que dava inveja a qualquer comerciante que começaram “por cima”, na redondeza.
Antes de se encantar, Seu Cirilo havia deixado dois imóveis “apalavrados” para cada filho. Três para a manteúda, fora os três armazéns de secos e molhados que, um ano depois de sua morte, fecharam as portas porque os filhos não se entendiam na condução gerencial dos mesmos. Não tinham “tino” para o negócio. Só queriam saber de cachaça e mulher.
Após a falência dos três armazéns por falta de gerenciamento, cada filho, de posse de suas casas e apartamentos dados verbalmente pelo pai em vida, tomou seu rumo na estrada, e passaram a se desentender cada vez que um falava para o outro que queria vender um imóvel “doado” pelo pai para tocar a vida. Nenhum assinava em favor do outro qualquer termo de anuência, renúncia, mesmo sabendo que isso era condição necessária para dirimir qualquer dúvida e dar segurança jurídica para quem estava comprando.
Interessante é que os filhos de Seu Cirilo viviam “socados” na igreja todos os sábados e domingos justamente orando às pessoas que estivessem passando por esse tipo de situação. ”Oh! Pai! Antecedei junto a teus filhos para que não haja desavença entre eles!” “Que eles vivam em harmonia! Amém!” – suplicavam ajoelhados!
Enquanto oravam para Deus para mostrar um caminho, Maria procurava João para que assinasse um termo de anuência e esse se negava terminantemente! João procurava Josefa para que assinasse um termo de concordância para ele vender a casa e esta dizia não! Josefa procurava João e Maria para que assinassem um termo de anuência e estes diziam também não! E assim foram levando a vida nessa discussão interminável, com um colocando a culpa no outro por não fechar o negócio. Enquanto isso os três armazéns pertencentes, em vida, a Seu Cirilo, o tempo ruiu. Até que um dia também Dona Dóris encantou-se e tiveram de procurar a Justiça para dividirem os bens deixados em vida pelos de cujus. Contrataram um advogado “especialista no assunto” e este, autorizado pelos três irmãos, ingressou na Justiça com a abertura do inventário.
O tempo passou e a Justiça sem dar um ponto final ao processo. A espera foi tanta que morreram João e Maria. Josefa caminhava para o paletó de madeira por causa do sério diabetes. “Vai chegar o dia em que, quando a Justiça disser ‘de quem é de quem na partilha’ até os netos terão viajado para a cidade de pés juntos!” – Sentenciou um vizinho gaiato que trabalhava no Tribunal de Justiça.
Bem feito para os três conflitantes que não chegaram a um consenso arbitral antes de procurar a Justiça, que no Brasil só não é lenta para quem é ladrão, assassino, criminoso, latrocida, estuprador, pedófilo e corrupto, porque tem a proteção dos “Urubus da Corte.”
“Pais inteligentes formam sucessores e não herdeiros”
Nelson fora um menino bem educado pela mãe até a maioridade, quando teve de deixar a escola que a mãe era dona e professora para servir no Exército em Picos, Estado do Piauí. Lá, com o “empurrão” de um conhecido do quartel, ocupou um cargo comissionado sem vínculo, até que se graduar e vir a tornar-se um capitão. Como ganhava bem e não havia com que gastar a grana que recebia todo mês, pois era um muquirana incorrigível, ao ponto de nunca levar a jovem com quem namorava para piqueniques, e quando ia não comprava um sanduíche de mortadela para o lanche, fez um acordo com o pai para todo mês, quando recebesse os proventos, enviá-los para o coroa e este se encarregava de comprar imóveis para ele, Nelson. De preferência, num bairro popular do Recife.
Assim foi feito de acordo com as partes, verbalmente. Todo mês Nelson enviava o dinheiro do ordenado, o pai guardava num cofre da época do faroeste americano, que o filho comprara de um gringo instrutor estadunidense que servia no quartel de Picos, e quando a grana atingia uma quantia razoável, o pai saia à procura de imóveis populares bem localizados nas imediações, de preferência aqueles imóveis razoáveis e bem localizados que o proprietário tivesse sufocado, devendo a agiotas, sendo obrigado a pagar e sem condições financeiras para honrar os “juros,” ou o saldo total, antes que o agiota tomasse a casa ou carro “empenhados,” na tora.
Quando atingiu doze imóveis – todos alugados – e Nelson percebendo que não iria ficar no quartel, pediu ao pai, de boca, para construir uma laje no prédio residencial, moradia dos pais, que ficava dentro da escola para, assim que ele saísse do quartel, já casado, viesse morar no primeiro andar que mandou construir. O pai concordou, verbalmente, pediu para ele enviar o dinheiro do mês para a construção da laje. Depois de pronto o primeiro andar, Nelson foi dispensando do quartel, casou-se com uma donzela de Picos e avisou ao pai que viria para o Recife, já casado, e que iria morar com a esposa na laje. E que os pais teriam de desocupar por ser dele o primeiro andar.
Foi nesse momento que o pai deu para trás, “pegou ar” devido à arrogância do filho, dizendo que não iria desocupar a casa dele para filho morar e pagar aluguel, só depois que ele morresse. Que o filho fosse morar numa das casas dele com a esposa ou que ficasse em Picos. A partir daí começa uma disputa entre o ego e a ganância, a birra e a intolerância, com o filho dizendo que viria para morar na casa construída com o dinheiro dele, e o pai dizendo que só deixava a casa dele depois de morto. Enquanto a discussão entre os dois comia no centro, a mãe, professora, diretora e dona da escola, sofria calada, sem poder fazer nada com o desentendimento entre o filho e o pai.
Nelson, egoísta, ganancioso, e dizendo que o pai não havia honrado com a palavra, deixa tudo em Picos e vem morar numa casa nova comprada por ele e infernizar os pais, dizendo que o primeiro andar construído dentro da escola foi com o dinheiro dele e que queria por que queria ocupar o imóvel porque era seu de direito…
Durante esse período de disputa com o pai, que não abria mão de jeito nenhum do seu direito de proprietário do imóvel, Nelson, um obcecado e adorador de Hitler, do qual a biografia Mein Kampf (“Minha Luta”), já havia lido mais de vinte vezes, engordou cinqüenta quilos de preocupação, desenvolveu uma diabetes pesada e teve dois Acidente Vascular Cerebral (AVC) com menos de trinta e cinco anos, mas continuou mais obcecado pelo primeiro andar, pelo qual a mãe desde o início da discussão lhe pagava o aluguel todos os meses, reformou a casa onde ele está morando sem a família saber, mas a intenção de Nelson é o primeiro andar que o pai prometeu e não cumpriu o prometido.
Tomando conhecimento do buruçu, Seu Zé de Nezinha, um papudim autodidata e bem informado, leitor voraz de livro de ficção de Morris West e outros, apaixonado por filmes de faroeste antigo, sobretudo “Era uma Vez no Oeste,” e ter ficado fascinado com o duelo final no filme entre os dois vilões, aconselhou pai e filho a transformarem o Campo do Santa Cruz num Coliseu, cada um de garra com seu Remington 1875, acionava um relógio à moda do filme “The Quick and the Dead” (1995), “Rápida e Mortal,” em tradução brasileira, quando o ponteiro chegasse às 12:00h, com o quengo dos dois queimando no sol de 40ºC, o campo entupido de gente vibrando pela miséria alheia e apostando em quem era mais rápido no gatilho.
– Só assim acaba essa frescura de fresco. Quem for mais rápido no gatilho come a oia do outro e ninguém fala mais nisso – disse eufórico Zé de Nezinha, levantando a taça 51, e perguntando aos presentes na roda de pinga: Tô certo ou tô errado?