CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O CÓDIGO DE HAYS

Texto escrito por Luis Antonio Tavares Portella, filho deste colunista e estudante de Biologia da Unicap-PE.

Imagem irônica feita à época da exacerbação da censura em Hollywood

Hoje em dia, parece impensável a ideia de censura e limites à liberdade de expressão de um artista, porém é interessante lembrar que cerca de 90 anos atrás um dos maiores guardiões (atualmente) da liberdade de expressão foi palco de um código de censura moral imposto sobre a arte, e estamos falando dos Estados Unidos, mais especificamente, de sua indústria cinematográfica.

Voltando no tempo, em 1922, após uma série de filmes polêmicos e escândalos envolvendo estrelas de Hollywood, os estúdios de cinema decidiram por criar uma associação, conhecida formalmente como Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América (Motion Picture Producersand Distributorsof America – MPPDA). Para comandá-la, foi contratado o líder presbiteriano Will H. Hays como presidente, numa tentativa de restabelecer a boa imagem de Hollywood perante a sociedade americana da época. Hays, então ex-diretor-geral do Serviço Postal dos Estados Unidos, e um membro proeminente do Partido Republicano, recebeu um extravagante salário para defender a indústria dos sucessivos ataques externos.

Nesta mesma época, líderes religiosos, civis e políticos condenavam a indústria cinematográfica como uma fonte de imoralidade. A pressão política sobre os estúdios estava cada vez maior, com cerca de mil projetos de lei censurando o cinema sendo discutido em 37 dos estados americanos.

Isto foi possível devido a uma decisão da Suprema Corte em um caso em 1915, onde foi decidido que a Primeira Emenda da Constituição não se aplicava ao cinema. Com base nesta decisão, em 1921 o Estado de Nova York criou um comitê de censura, sendo seguido pelo Estado da Virgínia e outros. De repente, cerca de oito estados possuíam um comitê de censura, o que significava que um único filme deveria se submeter às diferentes regras de cada estado. Os cineastas, com medo de que logo cada estado e cidade adotasse seu próprio código, fazendo com que fosse preciso produzir diferentes versões do mesmo filme para cada região, aumentando em muito o gasto com a produção, começaram a pensar em um sistema de autocensura, um imposto pela própria Associação, para que acelerasse a liberação dos filmes nas diferentes regiões. Se eles mesmos censurassem seus filmes, os outros comitês não teriam do que reclamar.

Foi quando Hays sugeriu aos chefes de estúdio a criação de um comitê para debater como seria feita essa censura aos filmes. Os chefes dos principais estúdios responderam ao chamado e criaram uma lista chamada de “os “não pode” e “tenha cuidado” dos filmes”, baseada nas reclamações dos comitês de cada estado. A lista era longa e trazia onze assuntos que deveriam ser evitados e vinte e seis que deveriam ser tratados com cuidado pelos diretores. Logo essa lista foi aprovada pela Administração Federal do Comércio (Federal Trade Commission – FTC) e Hays se pôs a criar o Comitê de Relações com os Estúdios (Studio Relations Committee – SRC), para fiscalizar a implementação. Entretanto, ainda não havia uma forma eficaz de controlar o conteúdo dos filmes, e a sociedade passava pela Grande Depressão de 1929, aumentando a controvérsia e as polêmicas sobre os seus conteúdos.

Foi então formulado o Código Hays, conhecido oficialmente como Motion Picture Production Code ou Código de Produção de Cinema, um conjunto de normas morais aplicadas aos filmes lançados nos Estados Unidos pelos grandes estúdios cinematográficos. Sob a liderança de Hays, a MPPDA (Motion Picture Producersand Distributorsof America), mais tarde conhecida como MPAA, adotou este código de autocensura em 1930, sendo aplicado de maneira mais rígida a partir de 1934. A partir de agora, o código diria qual conteúdo era aceitável ou não-aceitável para os filmes produzidos nos Estados Unidos.

Entre 1934 e 1954, sob o regime de Joseph Breen, administrador indicado por Hays para supervisionar a implementação do código enquanto diretor da PCA (Production Code Administration), a indústria seguiu o código à risca. Durante sua regência, os filmes que se adequavam ao código recebiam um selo de aprovação da Associação, enquanto os reprovados eram proibidos de serem distribuídos pela entidade, o que reduzia bastante seu alcance junto ao público e suas chances de êxito comercial. Além disso, os estúdios infratores recebiam uma multa de cerca de 25 mil dólares na época.

A partir de 1956, devido ao impacto da televisão, à influência de filmes estrangeiros, à presença de diretores controversos que não aceitavam as restrições e à intervenção da Suprema Corte, o código começou a sofrer mudanças. Com a contracultura dos anos 1960, os cineastas se tornaram mais ousados e começaram a violar o código de maneira deliberada. Em 1964, o diretor Sidney Lumet incluiu cenas de mulheres nuas em seu filme “O Homem do Prego” (The Pawnbroker – 1965). Foi um dos primeiros filmes a trazer cenas de nudez e embora a MPAA tivesse garantido que se tratava de uma exceção, pouco tempo depois outros diretores começaram a ousar e o Código Hays passou a ser cada vez mais ignorado. Perdendo sua força com o tempo, foi derrubado e substituído em 1968 pelo Sistema de Classificação Indicativa por Idade da MPAA, que está em vigor até hoje.

A MPAA ainda concede um selo aos filmes que são distribuídos pelos estúdios que fazem parte da Associação. Este selo contém a classificação indicativa da obra em questão, sendo: G (conteúdo livre para todas as idades); PG (algum conteúdo inadequado para crianças); PG-13 (algum conteúdo inadequado para menores de 13 anos); R (menores de 17 anos precisam de acompanhamento) e NC-17 (conteúdo adulto – proibido para pessoas com 17 anos de idade ou menos).

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PIEDADE – (2019), UM PEDIGREE PORNOCHANCHADO

“Piedade”, filme ficcional do cineasta caruaruense Cláudio de Assis, lançado oficialmente no 52º festival de cinema de Brasília em 2019, é mais uma pornochanchada brasileira de quinta categoria patrocinado pela famigerada Lei Rouanet, esse lixo radioativo criado em 1991 pelo governo do doidivana Collor de Melo para dar dinheiro a artistas ricos, incompetentes e maus intencionados (não é o caso do Cláudio de Assis) de enriquecerem às custas dos impostos dos brasileiros que trabalham sério e lutam pelo progresso do País.

As primeiras imagens que aparecem na tela desse longa metragem deixa qualquer telespectador inteligente aturdido, atabalhoado, por ficar em dúvida se está assistindo a um filme cuja temática é a resistência de uma comunidade pacata preste a ser despejada pela ação nefasta do empresário inescrupuloso ou a um campeonato aquático de adolescente cagando palavrões pela boca.

Ao entrar no cinema pensando que vai assistir a um drama sério, abordando um tema lhano, universal, um libelo à natureza, ao meio ambiente, por causa da ganância explorativa do homem, o telespectador se depara com um amontoado de cenas de palavrões e sexos explícitos masculinos sem conexão com a história. As cenas de sexo homoafetivo entre Aurélio e Sandro por mais de dez minutos é uma violência ao bom senso do telespectador.

A sinopse aborda “o cotidiano da pequena cidade fictícia de Piedade abalada com o interesse e chegada de uma grande petroleira no local. Aurélio, interpretado por Matheus Nachtergaele, é representante da petroleira Petrogreen e tem o objetivo de convencer os moradores da cidade a venderem seus terrenos. Logo ele percebe que o foco de resistência à sua proposta é o círculo familiar de Dona Carminha, personagem interpretada magnificamente por Fernanda Montenegro e seu filho mais velho, Omar, interpretado pelo sempre inspirado ator barreirense Irandhir Santos, proprietário do bar Paraíso do Mar. As abordagens de Aurélio fazem com que ele descubra segredos da família e uma inesperada conexão com Sandro, interpretado pelo ator Cauã Reymond, dono de um cinema pornô do outro lado da cidade.”

Depois de dirigir “Amarelo Manga” (2002), seu longa de estréia, que retrata a vida de alguns moradores do centro histórico do Recife, guiados pelas suas paixões e frustrações do dia a dia; “Baixio das Bestas”, (2006), um pornô com cenas de sexos explícitos piegas, refletindo as condições das prostitutas dos cabarés de quinta categoria; “Febre do Rato” (2011), um enredo fora de controle, doidera geral; “Big Jato” (2016), baseado no livro homônimo de memórias de Xico Sá, que retrata a vida do motorista do imponente Big Jato, um caminhão-pipa utilizado para limpar as fossas da cidade sem saneamento básico. Porém, Francisco está mais interessado nas ideias do tio, um artista libertário e anarquista. À medida que descobre o primeiro amor, ele percebe a vocação para se tornar poeta.

O cineasta Cláudio de Assis não inova em nada na sua filmografia. Continua estático, com um tom ranzinza e raivoso, atirando bosta no ventilador da matinê de domingo. Não sai do nonsense, do underground, do lugar comum, da vulgaridade, da lixeira.

Se tivesse argúcia, sensibilidade e espírito inovativo para fazer obras sérias e inovadoras e não possuísse o ego maior do que sua calça jeans, Cláudio de Assis dava um tempo a seus projetos pessoais, assistiria a todos os filmes do mestre Sergio Leone, que rompeu a muralha holywoodiana nos anos sessenta com talento, impôs seus western sphaghetti produzidos na Itália e disse aos yankees: “Oeste se faz com mais violência sim, efeitos sonoros de sons ambientais sim e utilização de imagens e símbolos religiosos sim.” O resto é conversa fiada para boi dormir e discursos raivosos de John Wayne, que considerava, à época, que o faroeste fora do eixo de Holywood era piada pronta de cineasta italiano idiota, no caso do diretor Sergio Leone, que o tempo provou o contrário; e pôs uma rolha na boca de Wayne.

Sergio Leone encantou-se jovem ainda, mas deixou uma obra genial para a posteridade, tão importante quanto às produzidas pelos americanos por que encarava cinema com seriedade, sem copiá-los nem utilizar cenas de sexos explícitos para fazer obras-primas como a Magna Trilogia dos Dólares, Era Uma Vez no Oeste, Quando Explode a Vingança e Era uma Vez na América, melhor filme já produzido sobre a ascendência da máfia judaica no bairro de Nova York.

O filme “Piedade” tem uma excelente temática, mas desperdiçada seu desenvolvimento por um diretor que tem obsessão pelo underground paranoico e pornográfico-esquerdopata.

Piedade – Trailer Oficial

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OBRA-PRIMA DA NATUREZA

Esse capô é o sonho dos machos que gostamos de mulher

Essa jovem com esse capô de “wolkswagen” foi flagrada saindo do mictório do sítio “São Francisco”, que fica ao lado do galinheiro de galinha caipira, após uma festa regada à buchada de porco, mão de vaca, feijoada, sarapatel e cinqüenta e um, a cachaça do presidiário-macumbeiro.

É uma verdadeira obra-prima da Natureza, de dá inveja a qualquer quadro saído da imaginação do quase maior pintor do mundo: Pablo Picasso. Abelardo da Hora iria suspirar emocionado, vivo fosse com tamanha ousadia in natura.

A dona dessa obra-prima preferiu mostrar o rosto para o ambiente ficar mais psicodélico e espera para que os mais afoitos não cometam crime de importunação libidinosa previsto no Código Penal Brasileiro, caso a encontrem na estrada do sítio, em Lagoa do Carro, terra do chinês Zé Chin, que trabalha mais do que burro de carga.

Não é o capô da Mona Lisa de Da Vinci, tão pouco o da Morena da Montanha Russa de pelos pubianos, do ceramista desconhecido, Saúba dos Bonecos, que flagrou Maria Bago Mole obrando de côcora por trás de uma touceira de urtiga, perto do cabaré de mesmo nome no século XIX, mas desperta o sentimento machista: ambição e desejos capazes de destruírem qualquer cabaré, aos que gostam da fruta, é claro.

Na hora da foto, o frege quase que ia à loucura com tanto bêbado vibrando com a vitrola de ficha executando “Unforgettable”, do negão Nathaniel Adams Coles, o Nat King Cole, um dos maiores pianistas de jazz norte-americano de todos os tempos.

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AMPUTAÇÃO DE MÃOS DE POLÍTICOS CORRUPTOS À VISTA…

DF Boca Aberta debochando de sua inseparável tornozeleira eletrônica

O deputado federal Boca Aberta do PROS/PR protocolou o projeto de lei n.º 582 na Câmara dos Deputados propondo a amputação de mãos de políticos condenados por crime de corrupção contra o patrimônio público, “desde a condenação até o trânsito em julgado.”

Como o artigo 5.º da Constituição Federal-1988 não veda esse tipo de castigo para esse de crime, nada mais justo do que a argumentação do deputado para a propositura desse projeto de lei, ressuscitando a máxima codificada por Hamurábi, baseado na lei de Talião: Olho por Olho Dente por Dente.

Código de Hamurábi que inspirou Boca Aberta a elaborar o PL da amputação

Conforme dispõe o PL do deputado “a amputação das mãos direita e esquerda de político que comete crime de abuso de poder econômico, improbidade administrativa que importe lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito, desde a condenação até o trânsito em julgado.”

Delibera o PL que: “Presidente da República, Governador de Estado, membros do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas, das Câmaras Legislativas, das Câmaras Legislativas Municipais que tenham contra sua pessoa ou os que forem condenados, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, terão suas mãos amputadas se cometerem os seguintes crimes:

a) abuso do poder econômico ou político;

b) contra a economia popular, a fé pública, a administração pública e o patrimônio público, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores;

c) organização criminosa, quadrilha ou bando que tiverem suas contas relativas ao exercício de cargo ou funções públicas rejeitadas por irregularidade insanável que configure ato doloso de improbidade administrativa, e por decisão irrecorrível do órgão competente;

d) os detentores de cargo na administração pública direta, indireta ou fundacional, que beneficiarem a si ou a terceiros, pelo abuso do poder econômico ou político, que forem condenados em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado;

e) os que forem condenados à suspensão dos direitos políticos, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, por ato doloso de improbidade administrativa que importe lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito, desde que a condenação ou o trânsito em julgado por órgão colegiado.”

Segundo define ainda o projeto de lei do deputado: “a amputação das mãos do político corrupto será realizada no Sistema Único de Saúde – SUS, clínica do local do domicílio do parlamentar condenado.”

Justificando sua intenção para a propositura do PL, Boca Aberta, habituado a transformar praças, ruas e avenidas em telecatch para se promover, argumenta que “os políticos se aproveitam da boa fé dos eleitores, prometem tudo, não cumprem nada e nada lhes acontece. Políticos desviam verbas de vários setores como educação saúde e muita gente morrem por causa disso. Eles matam milhares de pessoas e ninguém faz nada. Quando se desvia dinheiro da merenda escolar, por exemplo, muitas crianças passam mal de fome por isso e ninguém faz nada! A população está cansada de sofrer nas mãos de políticos inescrupulosos e frios, pessoas más, desumanas.”

Se for aprovado pelo Congresso Nacional sem alteração, como não aconteceu com o pacote anticrime do ministro Sergio Moro, com menos de um ano teremos uma câmara e um senado manetas, a não ser que entrem em ação os juízes de garantia criados pelo deputado federal do PSOL/RJ, Marcelo Fresco, para anularem as condenações…

QUEM SE HABILITARÁ A SER O CARRASCO?

Isso é o retrato cagado e cuspido dos nossos representantes no parlamento

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O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA

A MAN FOR ALL SEASONS, REINO UNIDO – 1966

Capa Blu-ray de O Homem Que Não Vendeu Sua Alma

Na Inglaterra do século XVI, Henrique VIII (Robert Shaw) planejava se separar de sua primeira esposa para se casar com a fogosa (e bota fogosa nisso!!) Rainha Ana Bolena (Vanessa Redgrave), mas não recebe a aprovação de Thomas Morus (Paul Scofield), numa atuação soberba, impagável, um fervoroso católico que se tornou “Lord Chanceler”, um altíssimo posto que ele preferiu renunciar do que trair suas convicções. Entretanto, a importância de Sir. Thomas Morus era tão grande à época que mesmo após sua renúncia o rei continuara lhe perseguindo. Até que surgem “provas” que o incriminam como alta traição, um “crime” punido com a morte, sendo decapitado na Torre de Londres no dia 6 de julho de 1535, “antes das nove horas.”

(A MAN FOR ALL SEASONS (1966), ou O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, é o primeiro de dois filmes em que o diretor Fred Zinnemann e a atriz Vanessa Redgrave trabalharam juntos. O posterior foi Julia de (1977). O ator Paul Scofield recebeu o Oscar de melhor ator pela atuação primorosa, mas não compareceu à cerimônia de entrega por ser avesso a comemorações. Com isso, sua estatueta de melhor ator foi recebida por Wendy Hiller, sua companheira de elenco. O orçamento do filme foi de US$ 3,9 milhões. Teve a sua refilmagem em (1988) com o mesmo título pelo ator e diretor Charlton Heston, que já havia trabalhado como ator principal em grandes clássicos do gênero, como Os Dez Mandamentos (1956), Bem-Hur (1959), O Planeta dos Macacos (1968), dentre outros. O homem que não vendeu sua alma ganhou nova versão e não decepcionou.

Como era de se esperar, um filme com esse objetivo e, ainda por cima, baseado diretamente em uma peça de teatro que seu próprio autor, Robert Bolt, transformou em roteiro cinematográfico, simplesmente não poderia primar pela ação no sentido mais esperado da palavra. Ela inexiste aqui e tudo, absolutamente tudo, recai no colo do incomparável trabalho dramático de Paul Scofield, no papel principal.

O ator, que começou sua vida artística no teatro, onde permaneceu focado praticamente a vida inteira, apesar de ter também aparecido em alguns filmes, viveu Thomas Morus na peça de Bolt tanto no West End de Londres, área da Região centro de Londres, Inglaterra, onde contém muitas atrações turísticas, quanto na Broadway, em Nova York. E foi a escolha do diretor Fred Zinnemann para viver o papel também nas telonas. No entanto, a produtora considerou que Paul Scofield não tinha nome para atrair audiência para o filme, com Richard Burton e Laurence Olivier sendo considerados para o papel. No entanto, o cineasta insistiu em sua escolha, brigou, ajudado por Bolt, especialmente depois que ele havia levado para casa o Tony de melhor ator justamente por seu trabalho na Broadway como Morus, em 1962.

Essa escolha foi extremamente acertada pelo diretor Fred Zinnemann. Paul Scofield interpretou Thomas Morus com um vigor impressionante, demonstrando com olhares, gestos e pequenos trejeitos corporais uma latitude dramática que vai da alegria em ver sua esposa no final de um dia estafante, passando pela surpresa e leve – mas elegante – desgosto em ver sua filha com um pretendente luterano e pelo encontro com seu amigo e rei nos jardins de sua moradia, até a veemente negativa em endossar o posicionamento do rei sobre o divórcio e novo casamento sem a benção do Papa.

O diretor Fred Zinnemann, por seu turno, não perde a oportunidade de manter sua câmera sempre parada e mirada no rosto de Paul Scofield em toda sua intensidade e profunda inteligência, construindo um personagem espetacular logo nos primeiros minutos da projeção, quando demonstra muito claramente sua integridade primeiro como advogado e, depois, como chanceler real.

O trabalho do ator Paul Scofield em O Homem Que Não Vendeu Sua Alma é um dos mais impressionantes trabalhos dramáticos da Sétima Arte, transformando um filme que é quase que completamente um teatro filmado e que, portanto, pode facilmente descambar para a monotonia, em uma obra realmente inesquecível, daqueles em que cada cena com a presença de Paul Scofield é um momento de se aplaudir. Sua presença é tão magnética e profunda, aliás, que todo o restante do elenco desaparece, até mesmo a espalhafatosa ponta de Robert Shaw como Henrique VIII e a assustadora aparição do imponente Orson Welles como o Cardeal Wolsey. Mesmo os atores que tem mais presença de tela, como John Hurt como Richard Rich e Leo McKern como Thomas Cromwell, por melhor que sejam os atores – e são mesmo excelentes – mínguam diante de Paul Scofield e a retitude moral e ética de Morus.

A equipe técnica que cuidou de O Homem que Não Vendeu sua Alma também não decepcionou. Figurinos corretamente suntuosos vestem o elenco que passeia por cenários em locação e alguns poucos construídos especialmente para o filme que se funde em um conjunto harmônico preciso que muito corretamente não tem nenhuma intenção de chamar atenção para si mesmo, deixando todo o espaço para que Paul Scofield e o restante do elenco brilharem como devem brilhar. A fotografia de Ted Moore, conhecido por seu trabalho na franquia 007, faz as cores ressaltarem da mesma maneira que ele as suga na medida em que o drama de Morus torna-se cada vez mais sem saída, algo que a equipe de maquiagem e cabelo esmera-se também em apontar.

Retratando um dos mais significativos momentos da história britânica sob o ponto de vista de um grande homem, o filme O Homem Que Não Vendeu Sua Alma é ao mesmo tempo uma aula de dramaturgia e cinema e de estadismo em sua forma mais pura. Todo político ou pretendente a político deveria no mínimo ser obrigado a absorver as lições que o Morus de Scofield passa aqui (já que pedir que estudem Thomas Morus talvez seja demais). O mundo político com certeza seria melhor mesmo se apenas um décimo da moralidade e honestidade do personagem fossem internalizadas.

O Homem Que Não Vendeu Sua Alma é uma grande lição de moral e ética que o diretor diretor Fred Zinnemann nos deixou como legado.

A MAN FOR ALL SEASONS (1966) Trailer Oficial

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TRÊS IRMÃOS EM CONFLITO (OU “A IGNORÂNCIA É QUE ATRAVANCA O PROGRESSO”)

Tipo de armazém de Secos e Molhados da época, a semelhança do de Seu Cirilo

Seu Cirilo era um comerciante mulherengo. Não podia ver um rabo de saia deixando o mocotó saliente que endoidava. Perdia a cabeça de baixo e de cima. Em cada bairro onde tinha um armazém de Secos e Molhados, possuía um rabo-de-saia para “furar o couro” a cada dia da semana.

De todas as mulheres com quem teve “um caso extraconjugal público e duradouro”, só Dona Dóris teve três filhos dele, um macho e duas fêmeas. Até hoje não se sabe por que as outras “cadelas”, como ele pejorativamente as chamava, não embucharam…

Seu Cirilo não era agiota, mas desenvolveu um método infalível de se apossar das casas dos devedores do seu armazém: quando percebia que o devedor estava com a caderneta de débito a perigo, intimava-o a trazer “a escritura da casa” como garantia do débito e, quando este chegava a determinado patamar, pagava a diferença do valor do imóvel previamente combinado e expulsava o devedor. Por causa desse modo de pressão infalível, Seu Cirilo conseguiu angariar um patrimônio milionário que dava inveja a qualquer comerciante que começaram “por cima”, na redondeza.

Antes de se encantar, Seu Cirilo havia deixado dois imóveis “apalavrados” para cada filho. Três para a manteúda, fora os três armazéns de secos e molhados que, um ano depois de sua morte, fecharam as portas porque os filhos não se entendiam na condução gerencial dos mesmos. Não tinham “tino” para o negócio. Só queriam saber de cachaça e mulher.

Após a falência dos três armazéns por falta de gerenciamento, cada filho, de posse de suas casas e apartamentos dados verbalmente pelo pai em vida, tomou seu rumo na estrada, e passaram a se desentender cada vez que um falava para o outro que queria vender um imóvel “doado” pelo pai para tocar a vida. Nenhum assinava em favor do outro qualquer termo de anuência, renúncia, mesmo sabendo que isso era condição necessária para dirimir qualquer dúvida e dar segurança jurídica para quem estava comprando.

Interessante é que os filhos de Seu Cirilo viviam “socados” na igreja todos os sábados e domingos justamente orando às pessoas que estivessem passando por esse tipo de situação. ”Oh! Pai! Antecedei junto a teus filhos para que não haja desavença entre eles!” “Que eles vivam em harmonia! Amém!” – suplicavam ajoelhados!

Enquanto oravam para Deus para mostrar um caminho, Maria procurava João para que assinasse um termo de anuência e esse se negava terminantemente! João procurava Josefa para que assinasse um termo de concordância para ele vender a casa e esta dizia não! Josefa procurava João e Maria para que assinassem um termo de anuência e estes diziam também não! E assim foram levando a vida nessa discussão interminável, com um colocando a culpa no outro por não fechar o negócio. Enquanto isso os três armazéns pertencentes, em vida, a Seu Cirilo, o tempo ruiu. Até que um dia também Dona Dóris encantou-se e tiveram de procurar a Justiça para dividirem os bens deixados em vida pelos de cujus. Contrataram um advogado “especialista no assunto” e este, autorizado pelos três irmãos, ingressou na Justiça com a abertura do inventário.

O tempo passou e a Justiça sem dar um ponto final ao processo. A espera foi tanta que morreram João e Maria. Josefa caminhava para o paletó de madeira por causa do sério diabetes. “Vai chegar o dia em que, quando a Justiça disser ‘de quem é de quem na partilha’ até os netos terão viajado para a cidade de pés juntos!” – Sentenciou um vizinho gaiato que trabalhava no Tribunal de Justiça.

Bem feito para os três conflitantes que não chegaram a um consenso arbitral antes de procurar a Justiça, que no Brasil só não é lenta para quem é ladrão, assassino, criminoso, latrocida, estuprador, pedófilo e corrupto, porque tem a proteção dos “Urubus da Corte.”

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MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)

Cartaz em Blu-Ray de “Meu Ódio Será Sua Herança”

Enquanto filmava as cenas externas de sua obra-prima, ERA UMA VEZ NO OESTE, no Monument Vallery, Arizona, nos Estados Unidos, locação costumeira de John Ford; em Utah, na Andaluzia e no deserto de Almeria, na Espanha, o genial diretor italiano Sergio Leone não tomou conhecimento de que um diretor maluco, ousado, genial, para aquele momento histórico do Oeste, também estava revolucionando o tema com uma pegada revolucionária. Seu nome: Sam Peckinpah, conhecido como o “Poeta da Violência”, com “Meu Ódio Será Sua Herança”, um western divisor de água entre o tradicional e o moderno.

A abertura do faroeste “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch, EUA, 1969) possui uma intrigante simetria com a longa e antológica seqüência final do longa-metragem. O filme começa com um grupo de policiais uniformizados, montados a cavalo, entrando numa pequena cidade norte-americana. O bando cruza com crianças que brincam no meio da rua, perto dos trilhos de um trem. Algumas tomadas esparsas mostram que a brincadeira infantil é um bocado cruel: os meninos jogaram escorpiões no meio de um formigueiro, e os bichos venenosos estão sendo devorados pelas formigas.

“Meu Ódio Será Sua Herança” encerra enfocando os remanescentes do mesmo grupo de homens que aparece no princípio. Eles não são policiais, e sim uma quadrilha de assaltantes de banco; aquele era apenas um disfarce, como o espectador logo vai descobrir na movimentada e sangrenta sequência que abre o filme com gosto de pólvora. Não há heróis aqui, nem vilões. Todo o longo espectro de personagens é moralmente questionável.

Na ocasião do fim do longa os bandoleiros estão no México, e se dirigem para resgatar um dos membros do grupo, preso por um rebelde paramilitar chamado General Mapache (Emilio Fernandez). O violentíssimo tiroteio que se segue não apenas encerra o filme de maneira brilhante, mas fecha um círculo e explica a cena dos escorpiões da abertura; os escorpiões são uma metáfora para os bandidos.

Os escorpiões são intrigantes porque jamais estiveram no roteiro do longa-metragem. Na verdade, eles foram uma sugestão de Emilio Fernandez, que contou ao cineasta Sam Peckinpah como se divertia no deserto mexicano, quando era menino. Peckinpah percebeu a fascinante simetria e filmou o ataque das formigas aos escorpiões abusando de planos-detalhes. Ao fazê-lo, acabou concebendo uma das aberturas mais estranhas, criativas e interessantes do cinema contemporâneo.

Enquanto filmava nos sets poeirentos do México, é possível que o diretor não soubesse que estava colocando uma pá de cal no já combalido gênero western. Adepto dos chamados westerns crepusculares, que lamentavam a proximidade do fim do gênero por causa do crescente desinteresse das novas gerações de espectadores, “Meu Ódio Será Sua Herança” transportava para a história este lamento. Foi uma despedida honrosa e adequada, já que o filme não é ambientado nos anos de ouro do Velho Oeste, mas em 1913.

Às vésperas da Revolução Mexicana, o antigo código de honra dos homens violentos e beberrões já não valia mais nada. O mundo agora era urbano. Botas viravam sapatos engraxados, revólveres transformavam-se em metralhadoras. A violência migrava dos descampados empoeirados para as cidades grandes. O Velho Oeste dava os últimos suspiros. Esse é o grande tema da obra de Sam Peckinpah, e também o pano de fundo do mais controverso e impactante dos filmes que dirigiu.

O crítico Roger Ebert lembra que, em 1969, “Meu Ódio Será Sua Herança” foi recebido da mesma forma que “Clube da Luta” o foi em 1999: sob acusações pesadas de ser hiperviolento e gratuito, até mesmo fascista. Para alguns, Peckinpah glorificava a violência. Reza a lenda que o astro William Holden teve uma violenta briga com o cineasta, após ver o filme pronto e odiar o resultado final. A verdade é o filme é tremendamente violento mesmo: somente no verdadeiro balé de sangue que é o duelo final, Peckinpah gastou doze dias e mais de 10 mil cartuchos de bala de festim.

Sim, é verdade que o filme apresentou uma nova maneira de representar a violência no cinema, utilizando pela primeira vez a câmera lenta para mostrar mortes. Caprichando no sangue e no estilo, Peckinpah enfatizava o sangue e fazia as mortes ganharem um significado simbólico e poético que ultrapassa a morte em si. No cinema dele, morrer dói para caramba. Mas muita gente não entendeu.

A péssima recepção do filme pelas plateias foi ajudada pela estrutura narrativa incomum. Um filme tradicional enfatiza o enredo ou os personagens; “Meu Ódio Será Sua Herança” não faz nenhum dos dois. Pike (William Holden) lidera o bando de assaltantes que se encaminha para uma última missão, que é roubar um trem carregado de armas para um rebelde mexicano. Eles são perseguidos por um grupo, liderado por Deke Thornton (Robert Ryan), cujo objetivo é capturar ou matar Pike.

Os dois já foram parceiros, anos antes, mas algo separou seus caminhos. Nenhum deles é retratado com profundidade; Peckinpah só oferece fragmentos do passado. Pike e Deke são homens duros, que mostram nos rostos cansados e nos ombros caídos o peso dos anos. Ambos são melancólicos. Sabem que estão ultrapassados pelo tempo. Sabem que o fim está próximo.

O grupo de Pike bebe o tempo todo e frequentemente cai na gargalhada com piadas bobas, como se estivesse à beira da histeria. O personagem de William Holden, ruminando as palavras e com o olhar perdido no horizonte, resume perfeitamente o clima do filme: eles pertencem ao passado. Não há futuro possível para gente assim.

“Meu Ódio Será Sua Herança” documenta a melancolia do fim de uma era, a troca de guarda entre duas gerações muito diferentes. E, à medida que encerrou o tempo dos faroestes e inaugurou a fase da hiperviolência, representou a mesma coisa para Hollywood. Pouquíssimos filmes têm essa honra de serem marcos divisórios. Por isso, “Meu Ódio Será Sua Herança” é um clássico inesquecível.

“Meu Ódio Será Sua Herança” – Clássico Revisitado

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

BARRACO NA DELEGACIA

Tinha tudo para ser um dia normal na Delegacia do município de Tuparetama (PE), grande polo de confecção de roupa de chita.

O delegado chegara ao Distrito Policial logo cedo com uma disposição e um bom humor de fazer inveja a Frank Drebin, personagem cinematográfico interpretado pelo ator Leslie Nielsen, no cômico filme policial “Corra que a Polícia Vem Aí”.

Deu bom dia ao seu auxiliar, aos dois policiais de plantão, aos auxiliares de serviços gerais terceirizados. Sentou-se à sua cadeira tradicional e continuou a leitura do livro que narra a história do município, editado por Tárcio Oliveira que descreve que, segundo a tradição oral, o povoado de Sertão do Pajeú, foi crescendo a partir da primeira residência construída na localidade, que também funcionava como ponto de comércio a retalhos e de parada para os viajantes a caminho de Afogados da Ingazeira e de São José do Egito. A data da construção da primeira casa é de 1910.

Dez minutos depois de ter iniciado a leitura do livro o delegado teve de interromper, pois recebeu a visita do escrivão aflito informando haver uma ruma de gente o aguardando na antessala para resolver uma cambulhada familiar.

Mal o escrivão terminara de contar o ocorrido ao Delegado, eis que de repente abre-se a porta e doze irmãos invadem o recinto para resolver o pandemônio instalado na família, cada um mais afoito do que o outro.

De imediato o delegado percebeu que estava diante de um caso escabroso: uma briga de feder a bote cheiroso entre irmãos por causa de herança. Ninguém queria ceder um palmo do seu latifundiário, como diria Neguinho de Maria Tabacão, vate do Pajeú, inspirado em João Cabral de Melo Neto, o poeta do rigor estético.

O Delegado, nesse momento, mandou que todos se sentassem no banco reservado aos queixosos e começou a perguntar um por um a razão de mais de dez irmãos estarem na delegacia para uma conversa com o delegado.

Quando o Chefe de Polícia terminou de perguntar o porquê daquela multidão estar na delegacia um se queixando do outro por causa de partilha de bens, ao invés de estarem trabalhando e cuidando de seus afazeres, os irmãos se acusavam mutuamente um ao outro de ladrão, cafajeste, dilapidador de patrimônio, cachaceiros, agiotas, gigolôs de viúvas, pegas veados, sapatonas enrustidas, coroas incrustadas. Ninguém se entendia.

Nesse momento o delegado, já acostumado com aquele tipo de situação e percebendo que a coisa ia chegar ao extremo se não interviesse nos ânimos exaltados e começasse a ouvir um irmão de cada vez, depois que eles saíssem dali poderia haver uma tragédia antes de chegarem a suas casas.

Começou o interrogatório pelos mais velhos. Cada um contando uma versão diferente para o caso. O buruçu era tão grande que o delegado começou a ficar impaciente com aquelas acusações mútuas entre irmãos sem pé nem cabeça.

Nesse momento, depois de ouvir uns seis irmãos e perceber que a briga entre eles era a herança e por isso mesmo ninguém se entendia, o delegado resolveu ouvir uma branquelazinha que ficou muda durante todo o bafafá. Se dirigindo à jovem e alertando aos outros irmãos que, se dessem um pio durante o interrogatório da irmã iria enjaular todo mundo na cela ao lado, e perguntou:

– Minha jovem, eu gostaria que você desse sua versão para o que está acontecendo com a sua família, o que está provocando essa desavença entre vocês que vieram parar aqui na delegacia.

Bufando de ódio e possessa, parecendo a personagem Regan MacNeil, magnificamente interpretada pela atriz mirim Linda Blair no extraordinário filme americano de terror THE EXORCIST (1973) (O Exorcista), do diretor William Friedkin, a jovem levanta-se da cadeira e começa a xingar os irmãos, dizendo aos gritos que não tem um que preste. Que são todos ladrões, veados, cachaceiros, preguiçosos, aproveitadores e que estão acabando com tudo que os pais deixaram. E que as irmãs eram putas, sapatonas, comedoras dos maridos das vizinhas. Por isso, queria uma intervenção do delegado para o caso antes que houvesse uma tragédia.

– Doutor – continuou ela se dirigindo ao delegado: toda essa mundiça que está aqui, a começar – e apontando o dedo na direção de um irmão branquelo mais velho e barbudo – por aquele cabra safado que está ali sentado, todos são pilantras, ladrões, safados, trambiqueiros, agiotas. São tão nojentos e imundos que, se o senhor cochilar, eles são capazes de até comerem o senhor e o senhor não sentir que foi comido!

Foi nesse momento que o delegado, percebendo que a coisa não ia acabar bem e escondendo os lábios para não rir da afirmação da jovem, deu um murro na mesa que todos os objetos que estavam em cima dela caíram, e olhando olho no olho de cada um por um, vociferou:

– É o seguinte: todos que estão aqui, antes de saírem, vão ter de assinar um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, se comprometendo com o que vai ficar escrito. Se amanhã algum de vocês chegar aqui na Delegacia dizendo que um rompeu com o que ficou acordado aqui, vou mandar prender naquele cubículo – e apontando para a cela – e cada um vai ter de limpar os banheiros da penitenciária da cidade um dia por semana para aprender a ser gente! Estão ouvindo, não é? Depois não digam que eu não avisei!

Nesse momento o delegado chamou o escrivão e mandou preparar o Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta e, enquanto o escrivão datilografava, percebeu que havia um silêncio tumular entre os irmãos que chegaram à Delegacia parecendo uns bestas- feras querendo engolir um ao outro.

O exemplo do delegado de ser duro com os brigões surtiu efeito. Isso mostra que quem tem cu tem medo. Não adianta ficar só na ameaça, na conserva mole para boi dormir, no blábláblá. Autoridade tem de ser autoridade, tem de dar o exemplo, baixar o cacete quando preciso for. A Justiça ficou foi para impor ordem e não ficar brincando de jogo de esconde-esconde feito marica, uma cachorra viçando, com o cachimbo arreganhado para qualquer vira lata enfiar a vara!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

SPAGHETTI WESTERN – “SUBGÊNERO DO FAROESTE AMERICANO?”

Ou: “Uma nova maneira criativa de se fazer faroeste?”

Cenas características do spaghetti western

Surgido na Itália, o denominado spaghetti western, ou faroeste espaguete, faroeste macarrônico, ou bangue-bangue à italiana, foi um subgênero de filme de faroeste nascido na Itália no início dos anos 60 até o seu término nos anos 70, considerando-se o auge das grandes produções, que possuíam como características principais, diferenciadas dos faroestes americanos: um nível de violência mais explícito, os efeitos sonoros mais acentuados, os sons das armas mais ressoantes, os sons das cavalgadas dos cavalos mais esganiçados, assim como a utilização de imagens e símbolos religiosos – principalmente o católico – que eram mais explícitos.

Outros elementos de destaque são os tiroteios e a morte de vários personagens, por autoria do herói que faz justiça pelas próprias mãos ou quando é contratado por barões das ferrovias, da jogatina, contrabandistas de armas e de ouro, para matar desafetos. Incluindo-se aqui, também, os caçadores de recompensa. A presença constante do duelo, frequentemente no clímax do filme, é também outra marca registrada dos spaghetti western.

A música e os efeitos sonoros são outro ponto que se sobressaem no faroeste spaghetti. No subgênero, os diálogos são escassos e a trilha sonora é utilizada como elemento de construção da narrativa. E nesse cenário de valorização da música como fundamental para o clima de cada cena se destaca o maestro Ennio Morricone, o mais famoso compositor de músicas para o subgênero de todos os tempos. As composições dele foram pano de fundo para todas as produções de Sergio Leone. É dessa parceria entre o diretor e o compositor que nasceu a chamada Trilogia dos Dólares (Trilogia del Dollaro), composta pelos longas “Por um Punhado de Dólares” (Per un pugno di dollari, 1964), “Por uns Dólares a Mais” (Per qualche dollaro in più, 1965) e “Três Homens em Conflito” (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966). A trilogia é uma das mais marcantes do spaghetti western e da obra-prima “Era Uma Vez No Oeste” (Once Upon a Time in the West). Os filmes, todos dirigidos por Sergio Leone e com as trilhas marcantes de Morricone, são responsáveis por retratar um velho oeste totalmente novo, repleto de detalhes e uma visão real da violência presente no faroeste.

Com um orçamento pífio nas mãos, mas com faro de gênio, o diretor Sergio Leone reinventou o western na Itália com um filme de baixo orçamento: “Por um Punhado de Dólares” (1964). Embora não fosse o primeiro western italiano, a abordagem de Sergio Leone foi única. O filme logo se tornou um tremendo sucesso na Itália e fez do ator Clint Eastwood uma estrela. Por isso é que o diretor Sergio Leone está para o western spaghetti italiano assim como John Ford está para os filmes oeste americano.

Depois de alcançar o auge com “Era Uma Vez No Oeste” (1968), um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos, senão o melhor, o western spaghetti, assim como todo gênero cinematográfico da história do cinema, foi perdendo a majestade, e com a morte do genial diretor Sergio Leone e o não surgimento de outro gênio, houve uma pá de cal nas grandes produções.

Mais recentemente, uma nova geração de cineastas foi responsável por redescobrir o subgênero e fazer referências a ele em suas produções. Um representante importante nesse movimento é Quentin Tarantino. Músicas de Ennio Morricone compostas para a Trilogia de Dólares estão presentes no filme Kill Bill: Volume 2 (2004). Outra homenagem clara é o longa, Django Livre (Django Unchained, 2012), produzido em referência à obra máxima do diretor Sergio Corbucci, o longa Django.

Mesmo com as produções de um diretor renomado como Quentin Tarantino trazendo a marca spaghetti western de volta às telonas e grandes diretores – como Martin Scorsese e Steve Spielberg – confirmando sua admiração por Sergio Leone, o faroeste italiano caiu no esquecimento. Apesar de Sergio Leone ser reconhecido pelos espertises do gênero como o maior cineasta spaghetti de todos os tempos, suas obras que antes eram aguardadas como a macarronada de domingo, ficaram esquecidas como um velho livro de receitas que ninguém quase não mais consulta para fazer deliciosos bolos de bacalhau para serem degustados com 51, somente os admiradores de bom gosto da velha guarda e os jovens inteligentes aficionados pelo gênero, apreciam.

Como Surgiu o Faroeste Spaghetti?

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

OS IMPERDOÁVEIS (1992) – “O ÚLTIMO GRANDE FAROESTE?”

Imagem de Unforgiven – Os Imperdoáveis – (1992)

OS IMPERDOÁVEIS (1992)) foi, talvez, o último filme de faroeste digno desse gênero clássico genuinamente americano, onde eram apresentados na tela os mocinhos e os bandidos do velho oeste sem glamour.

Nesse faroeste Clint Eastwood vive um ex-pistoleiro. Viúvo e pobre. Cria dois filhos pequenos num rancho até se ver forçado a voltar à ativa por convite de um principiante querendo se firmar na “profissão”. O filme reverencia o gênero ao mesmo tempo em que desmistifica o Velho Oeste, retratado como lugar sujo e brutal. Realizado em fabulosas locações em Alberta, Canadá. No final, o filme é dedicado aos mentores de Clint Eastwood como os diretores Sérgio Leone e Don Siegel, que com certeza ficariam muito orgulhosos de seu discípulo e assinariam embaixo seus feitos.

Três homens em busca de uma recompensa. Não se engane. Este não é um filme previsível. Pelo contrário, nos surpreende a cada instante. Clint Eastwood mais uma vez consegue nos envolver. Os mil dólares oferecidos, na verdade, representam a busca de três homens pelo real sentido da vida.

OS IMPERDOÁVEIS é uma desconstrução do gênero western. Os matadores de sangue frio do Velho Oeste selvagem, sempre mostrados nas telas do cinema como atiradores perfeitos, que nunca erram o tiro, como na Trilogia dos Dólares de Sergio Leone. Nesse western, vemos algo diferente. Um homem alterado pelo tempo e pela sua consciência, que não consegue montar no próprio cavalo, nem atirar direito. Seu amigo, Ned Logan, (Morgan Freeman), por exemplo, não tem mais o sangue frio de antigamente, nem mais dar um tiro letal, mesmo contra o suposto homem que teria retalhado, ou ajudado a retalhar o rosto de uma prostituta. O terceiro sofre com sua primeira morte como qualquer mortal sofre, além de ter uma visão deficiente, fazendo desses um trio de mercenários um tanto quanto humano e bem dos problemáticos.

No núcleo do filme, ver-se um xerife que humilha um homem que era conhecido como uma lenda, suas histórias estavam sendo passadas para o papel por seu escritor particular, segundo suas versões. Desmascarado, ver-se que a famosa frase “The Man Who Shot Liberty Valance” (O homem que atirou na saia da liberdade) se aplica aqui. “Quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda.” Mas a lenda é desmistificada e o ídolo do escritor se mostra uma fraude.

Outro elemento interessante e importante do filme é como as histórias podem ser exageradas ao se passarem de boca em boca. Uma prostituta teve o rosto cortado, e, em seguida espalha-se que todo corpo dela foi cortado, menos a vagina. Impressionante como os boatos acumulam falácias em suas versões mais recentes, conforme vão passando de boca em boca no tempo. Esse pode ser um dos elementos de criação de lendas de personalidades que realizaram feitos exorbitantes no oeste, ou em outras épocas. Às vezes, nem mesmo a própria pessoa que faz tais feitos, deve saber o que fez, por estar bêbada no momento ou por fazer muito tempo e ela acaba se tornando a lenda.

Disse o personagem Lette Bill, num dos diálogos do filme, depois de perguntado por seu alvo:

“Você é William Munny, assassino que matou mulheres e crianças!”

Resposta: “Isso mesmo, já matei mulheres e crianças e quase tudo o que se rasteja, e estou aqui para matar você.”

Voltando ao filme, o final trás uma ressurreição do velho Willian Munny ao saber que seu amigo foi morto pelo xerife. Gratificação, é o que se sente ao ver Munny dar de garra da garrafa de whisky, tento-a negado o filme todo. Sua raiva e seu desejo de sangue e vingança agora são maiores do que qualquer controle. O whisky traz de volta sua mira, sua habilidade de montaria, tudo, o whisky traz de volta sua alma de matador. Ele traz de volta o oeste sanguinário que vivia adormecido em Munny, sem o oeste, sem sua alma verdadeira, ele seria incapaz de fazer tais feitos. Ele estava tão fundo em seu novo “eu”, o Willian Munny moldado por sua esposa, Anna Levine, no papel de Delilah Fitzgerald, que ele era um assassino ineficiente. Agora, o whisky foi apenas a chave para aflorar tudo aquilo que estava adormecido nele.

Clint Eastwood retornou ao gênero depois de tanto tempo sem atuar. Ele queria marcar com sua volta com algo palpável. E marcou com a maior obra-prima do western revisionista por ser exatamente um filme de não cowboys de mira perfeita e sangue frio, mas tornando as lendas do oeste, entre elas a maior delas, Clint Eastwood, mais humanos, menos super heróico, e mais realista. Deve-se aceitar, pois afinal de contas, nossos heróis envelhecem, mas as lendas não morrem.

Trailer Oficial do filme Os Imperdoáveis (1992) | Unforgiven

“Os Imperdoáveis” Foi O Último Grande Faroeste?