CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

DR. MARCOS PAIVA E A POEIRA DAS ESTRELAS

Dr.º Marcos Paiva e esse colunista em dezembro de 2019

No dia 19 de maio de 2020, depois de lutar por mais de 15 dias contra o devastador vírus chinês que o infectou quando clinicava num consultório médico popular, atendendo a pacientes carentes, mesmo consciente de que era do grupo de risco – diabético – tinha mais de 74 anos e deveria estar em quarentena, isolado do contato social, encantou-se Dr.º Marcos Paiva, clínico geral, amigo fiel, confidente, conselheiro, mantra. Seu corpo virou poeira das estrelas, cujas cinzas estão adubando o universo de simplicidade, solidariedade, honestidade, bondade e altruísmo, qualidades que ele sabia cultivar com a racionabilidade e a serenidade de um Buda Nagô.

Com certeza ele está por aí papeando com o cientista Carl Sagan sobre os mistérios do universo, de quem era admirador incondicional e do qual possuía todos os livros: O Mundo Assombrado pelos Demônios, A Ciência Vista como uma Vela no Escuro, Os Dragões do Éden, Cosmos… E a série popularíssima dos anos oitenta: Cosmos: Uma Odisséia do Espaço-Tempo, criada pelo cientista, físico, biólogo, astrônomo, astrofísico, escritor, divulgador científico e ativista americano.

Seguidor das teorias do físico e kardecista convicto, costumava fundamentar seu ceticismo a respeito da bondade divina na seguinte máxima ‘saganiana’: “Algumas pessoas acreditam que Deus é um enorme homem de pele clara com uma longa barba branca, sentado em um trono em algum lugar lá em cima no céu, ocupado na contagem da queda de cada pardal. Outros – como Baruch Spinoza e Albert Einstein – consideraram Deus como essencialmente a soma do total das leis da física que descrevem o Universo. Eu não conheço nenhuma evidência convincente para a existência de um patriarca antropomórfico controlando o destino da humanidade a partir de algum ponto celestial escondido, porém seria uma insanidade negar a existência das leis da física.”

Encantou-se fazendo aquilo de que mais gostava: atender a população carente com quem se identificava e ficava horas conversando sobre cada detalhe dos sintomas da doença que estava afetando o paciente.

Você deixou saudades, Amigo! Exemplos de caridades impagáveis, insubstituíveis. Sua obra será tocada aqui na Terra por outras almas caridosas à lá Chico Xavier, Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce e todos os voluntários universais que arriscam a vida para salvarem vidas. A realidade é cruel, mas há seres bondosos amenizando o sofrimento alheio da tirania humana.

Ah! Ia me esquecendo: Lula da Silva, o criminoso de Caetês, cometeu mais uma insanidade aqui na terra, das centenas que já cometeu contra o povo que você tanto amava, ao dizer que “ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus”, uma resposta esquerdopata de quanto pior melhor para o povo! Se você não tivesse se encantado, certamente teria morrido de infarto fulminante ao ouvir tamanha insensatez sem lhe poder prescrever a cicuta de Sócrates.

Um abraço do coração, Amigo! Que as cinzas da sua bondade iluminem os homens de boa vontade aqui na terra, devastada pelo Vírus Chinês.

Até breve!

“Ainda bem que a natureza criou esse monstro do coronavírus… para dizer que apenas o estado é capaz de dar solução a determinada crise.” Lula da Silva

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MARIA BAGO MOLE ALTRUÍSTA

“Retirantes” – 1944, quadro do pintor Cândido Portinari

Certo dia – era mês de agosto – chegara ao cabaré de Maria Bago Mole Dona Severina de Jesus com seus seis filhos. O primeiro ainda era de menor. O caçula, com dois anos, ainda procurava leite nos peitos murchos da mãe. O marido tinha desaparecido numa caçada misteriosa na mata à procura de comida. A cena da mãe com os filhos caminhando rumo ao cabaré à procura de abrigo parecia uma metáfora do quadro “Retirantes” de 1944, do genial pintor modernista Cândido Portinari, obra-prima emblemática da arte brasileira de cunho social, com influência expressionista.

Dona Severina de Jesus era uma mulher mediana, raçuda, de personalidade forte, olhos pretos tristes, cabelos longos, coxas torneadas. Bonita e bem afeiçoada para o nível e situação de vida vivida. Era-lhe perceptível no semblante que estava passando necessidades, principalmente os filhos: todos estavam passando fome há muito, só comento raízes, quando encontravam nos sítios das estradas por onde passavam e uma irmã de caridade dava!

Do caminho da roça ao cabaré se deparou com muitas famílias bastardas querendo “adotar” seus filhos, principalmente os três mais novos. Mas ela dizia não. Como mãe, para onde fosse os filhos iam juntos, seguindo sua sombra, na alegria, na dor, na tristeza, no sofrimento. Onde comesse e dormisse um, comiam e dormiam todos sob sua proteção.

Sabendo da existência do famoso cabaré de Maria Bago Mole na Vila dos Vinténs, para lá Dona Severina de Jesus e os filhos foram à procura da famosa cafetina para pedirem guarida, uma vez que diziam ser ela altruísta, apesar de ser o lugar um entreposto de carne mijada de jovens adolescentes que “se perdiam” com os namorados e eram expulsas dos sítios pelos pais, que não admitiam filhas “defloradas” e “mal faladas” morando no lar.

Um dia de sol a pino, Dona Severina de Jesus saiu de casa logo cedo rumo ao cabaré. A cada filho, antes de sair, deu um pote de água e dois pedaços de raiz cozida no fogão de lenha da casa, que ainda lhe restava no armário de barro. Juntou as tralhas necessárias que lhes podiam ser de serventia, enrolou os panos velhos, fez uma trouxa, pôs na cabeça, fechou a tramela da porta da frente da casa e partiu com os filhos lacrimejando sem dar adeus àquela que a acolheu do sol e da chuva e os filhos durante anos.

Antes de chegar ao cabaré de Maria Bago Mole, Dona Severina de Jesus sentiu um friozinho no pé do umbigo, pois jamais esperava encontrar um ambiente tão movimentado, diferente do seu universo particular: caminhões, cortadores de cana, atravessadores, a maioria vindo das fazendas de cana de açúcar e da trilha da ferrovia, que uma empresa americana estava instalando para o escorrimento da cana até o porto da Capital.

Como necessidade faz sapo voar, Dona Severina de Jesus desacanhou-se e se dirigiu até o balcão onde estava a cafetina organizando o cabaré e dando ordens às “meninas” para a noite que estava caindo e prometia-se muito frege!

– Madame – dirigiu-se acanhada  Dona Severina de Jesus a Maria Bago Mole – é a senhora a dona dessa casa “cristã?”

A cafetina, com o altruísmo que lhe era peculiar, afirmou que sim. E perguntou à retirante o que fazia ali com aqueles meninos e se estava precisando de alguma ajuda. Mas antes de esperar a resposta, mandou Dona Severina de Jesus entrar, preparou uma mesa com sete assentos, ofereceu-lhe comida e aos filhos, e cochichou no ouvido da retirante, sorrindo:

– Coma primeiro com seus filhos! Depois a gente conversa sobre o seu destino e dos meninos aqui na casa! – Disse com os olhos brilhosos que encantaram Seu Bitônio Coelho desde o primeiro dia que a viu!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O CANDIDATO, A MANTEÚDA E A ELEIÇÃO

Comunidade do Tururu, Paulista-PE

Corria o ano de dois mil e dois. Ano que a galera medonha já se preparava em todo Brasil para tentar se eleger vereador ou prefeito, dando os primeiros passos na arte de articular o mecanismo para assaltar o erário público legitimado com a outorga do eleitor.

Como já tinha tido outras experiências malfadadas em eleições anteriores e já se considerava preparado para enfrentar novo desafio eleitoral, Dr.º Marcos não perdeu tempo. Filiou-se a um partido nanico, planejou a campanha e caiu em campo com garra e coragem, sem ajuda financeira do partido ao qual era filiado.

Como possuía um vasto prontuário de clientes que poderia utilizar como cadastro de contato, informou a todos que estava atendendo na comunidade do Tururu, do Rato e Chega Mais, fazendo consultas de graça em dias alternados, entregando remédios, fazendo exames. Por dia atendia de trina a cinquenta pacientes. E o povo era Dr. Marcos para cá, Dr.º Marcos para lá. Todo dia era uma verdadeira romaria de doentes a procurar Dr.º Marcos, e a cada pessoa atendida ele entregava seu número de candidato.

Também visitou todos os cabarés, freges, quermesses, para informar às pessoas que estava candidato a vereador. Nada escapava às suas investidas políticas, de doze a dezesseis horas por dia de domingo a domingo, seis meses antes do pleito.

Um mês antes das eleições era impressionante a quantidade de pessoas que o procuravam para se consultar e dispostas a trabalhar para ele como voluntária na campanha, sonhando em ver um médico de confiança na vereança do município para atender a população carente, como ele já fazia há muito sem pretensões vereanças.

No último dia antes da votação a campanha foi intensificada, e sem ajuda do partido, Dr. Marcos, crente da vitória, com recursos próprios, empenhou até o Fiesta-2002 para pagar as despesas com propagandas, camisas com estampa do número dele, confecções de santinhos, pagamentos de fiscais de boca de urna, panfletagens, lanches, almoços…

Terminada a eleição, vem a apuração dos votos. Para a decepção do Dr.º Marcos e seus eleitores leais, seu desempenho nas urnas foi tão pífio que o papudinho Tião Cu de Cana, da Comunidade dos Milagres, teve mais voto do que ele!

Decepção geral dele e de todos que faziam parte da sua equipe. Muita gente que trabalhou com honestidade para ele chorou ao ver o resultado das urnas. Tentou-se buscar explicações para o fracasso nas urnas, mas ele nunca quis saber embora tivesse uma ideia do por quê.

Passadas as eleições a vida voltou ao normal para Dr. Marcos. Todo dia chegava gente no Hospital das Clínicas onde ele atendia com o mesmo profissionalismo, nos Postos de Saúde das comunidades carentes, nos Consultórios particulares…

Mas qual a causa do fracasso, do fiasco de Dr.º Marcos nas urnas, um homem tão querido de todos? – Indagavam os mais chegados a ele.

Uma semana depois do fisco nas urnas, uma romaria de pessoas leais a Dr.º Marcos e decepcionada com o resultado das urnas, veio ter uma conversa com ele e lhe explicar o motivo do fracasso colhido boca a boca das pessoas nas comunidades:

– Dr.º Marcos, todos que estamos aqui presentes viemos nos solidarizar com o senhor pelo resultado negativo das urnas que não lhe elegeu, embora tivéssemos certeza da vitória. Infelizmente o povo não votou no senhor em massa porque o povo não suportava aquela mulher do senhor. Olhe, o senhor nos desculpe, mas aquela mulher do senhor é a pessoa mais intragável de mundo! O senhor só perdeu a eleição por causa dela – disse o emissário da comitiva, presidente da comunidade do Tururu. Eu só votei no senhor porque sou um homem de palavra, mas não podia obrigar as pessoas!

– Todo mundo que a gente consultou ficou pensando assim: Se aquela mulher de Dr.º Marcos já tem o rei na barriga, se acha as pregas de Odete sem Dr. Marcos ser vereador, imagine ele vereador? Como a gente vai ter acesso a ele com uma criatura intragável daquela ao lado dele feito piolho de cobra e chata que só o caralho?

Dr.º Marcos não disse nada. Ouviu a todos calado. Agradeceu a gentileza da visita e a honestidade de todos por dizer a verdade, mas tinha a certeza de que o fracasso das urnas era por causa da manteúda mesmo! E ficava pensando na máxima do pai: Cuidado com a paixão de mulher fogosa e possessiva! Ela pode deixar você abilolado, só pensando naquilo e estragar qualquer projeto seu!

Foi o que aconteceu e a paixão dura até hoje!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

FRANCISCO FÉLIX DE SOUZA, O MAIOR TRAFICANTE DE CARNE HUMANA VIVA

Don Francisco Félix de Souza – O Chachá de Ouidah 

No genial romance QUINCAS BORBA, Machado de Assis conta a história de Prudêncio, o escravo vítima de maus-tratos, alijamentos e que, tão logo se vê liberto, compra seu próprio escravo para, ato contínuo, surrá-lo e alijá-lo. Em tempos politicamente corretos, de idealização das vítimas, esse parece mais um exemplo do eterno niilismo do Bruxo do Cosme Velho.

Infelizmente, a história nos mostra que a vida é mais cruel que a ficção, como nos revela o diplomata, historiador e maior africanólogo do Brasil, Alberto da Costa e Silva, 90 anos, que escreveu a excelente biografia do ex-escravo baiano, Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos, publicada pela editora Nova Fronteira, em 2004, com 208 páginas. Biografia essa onde o diplomata e historiador traça um painel cruel, estarrecedor de como o maior traficante de escravo do mundo, filho de pai branco com mãe índio-mestiça, de faro empreendedorista, visão, competência e eficiência, se tornou o maior mercador de escravos do mundo, que transportava da Grande Fortaleza de Judá, o mais terrível entreposto de escravos da história escravista do mundo, construído pelos portugueses no século XVI para armazenar carne humana viva!

Francisco Félix de Souza, apelidado de Chachá nasceu em Salvador, provavelmente no dia quatro de outubro de 1754 e morreu em Benin, África Ocidental, no dia oito de maio de 1849, aos 94 anos. Filho de um português traficante de escravos e de mãe índia mestiça, foi alforriado aos dezessete anos, decidindo viajar para a África quando tinha por volta de vinte e três anos. Não se sabe se por desterro o motivo da viagem, acredita-se que tenha sido a negócios em nome da família, retornando depois de três anos ao Brasil. Em 1800 decide se estabelecer definitivamente em OUIDAH (Ajudá), no Golfo de Benin, ao que parece como comerciante privado. Posteriormente, com a falência de seus negócios em solo africano, passa a prestar serviços à guarnição do forte de São João Batista de Ajudá, pertencente aos portugueses, no reino do Daomé, atualmente território da República do Benin. Com a falta de nomeação de administradores para o forte, Francisco Felix de Souza passa a governador interino do entreposto, posição que abandona logo depois para se dedicar ao comércio de escravos cativos de guerra, exportados para o Brasil e Cuba, atividade já tornada ilegal até mesmo em Portugal e norte do Equador.

A vida de Francisco Félix de Souza foi transformada em filme, COBRA VERDE (1987), filmado no Brasil e na África, com o ator Klaus Kinski interpretando o rocambolesco, controvertido traficante de escravos. Foi produzido e dirigido pelo competente diretor Werner Herzog, roteiro extraído do romance O VICE-REI DE UIDÁ, do aventureiro inglês BRUCE CHATWIN. Mas foi graças a Alberto da Costa e Silva que, pela primeira vez, o tema foi tratado com apuro historiográfico. Sem deixar de lado o fascínio rocambolesco de sua vida pessoal, o aventureiro de Salvador que, na África, conseguiu poder, nobreza e uma fortuna calculada em US$ 120 milhões, que fez dele um dos três homens mais ricos do mundo no século XVI, traficando carne humana viva e de preferência se mexendo. Ao morrer, já decadente e sem prestígio, com 94 anos, deixou mais 53 mulheres, mais de 80 filhos e 12 mil escravos à deriva.

Trailer Oficial do filme Cobra Verde (1987)

* * *

E clique aqui para assistir ao filme COBRA VERDE completo, com excelente fotografia

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

A MORTE CHEGA DE PARABELLUM-1906 NO CABARÉ DE MBM

Crônica dedica ao pesquisador e especialista em filmes de faroeste D.Matt

Casa de fazenda semelhante à do fazendeiro Bitônio Coelho em Carpina-PE

Cansado do trabalho diário na fazenda-sede e demais, e precisando relaxar, o fazendeiro Bitônio Coelho resolve ir até o cabaré para rever sua amada.

Dia e hora não marcados, chega ele acompanhado de dois capangas de sua confiança à “casa” – como ele chamava o cabaré. Armado de uma Pistola Parabellum-1906, “ordena” que os capangas “espiem” o ambiente para saber se não está “carregado”, vez que vai haver comemorações regadas a comes e bebes e muitas muchachas da vida dura, ainda cheirando a leite.

Pressentindo que o amado estava por vir ao cabaré naquele dia, Maria Bago Mole perfumou o ambiente todo com loção Violetas de Parma, mandou limpar todos os moveis do aposento dela, do salão e ordenou que as meninas se vestissem a caráter para aquela noite especial, pois nesse mesmo dia iam chegar ao cabaré muitos jogadores de pôquer, dados, baralhos, trapaceiros, trambiqueiros, aventureiros, vaqueiros, cortadores e carregadores de cana dos engenhos, prostitutas de outros puteiros pés de escada da redondeza, pois seu cabaré já era muito comentado nas imediações por causa da fama e sucesso da administradora, a arquitetura surreal do cabaré, sem contar que estava a todo vapor a construção de uma ferrovia estrangeira nas proximidades, sinal de que o progresso e a prosperidade iam abundar. E a desordem também!

Saloon de bangue-bangue, semelhante ao arquitetado por Maria Bago Mole para o Cabaré

Faz-se necessário lembrar que o cabaré fora projetado e construído no lugar da antiga Vila dos Vinténs pela visionária cafetina Maria Bago Mole, com arquitetura semelhante às dos saloons dos filmes do Velho Oeste americano, que ela mesma desenhou, mesmo sem conhecer nada de construção. Isso nos anos quarenta! Embaixo, ficavam na mesa as meninas e os cavaleiros para comer, beber e acertar o preço da noitada. E em cima, os quartos reservados aos “programas”. Do seu posto, à moda balcão de saloon de filme de faroeste, a cafetina MBM, estrategicamente, visualizava e marcava tudo mentalmente com a festa correndo solta. Aqui e acolá, havia uns empurrões entre os valentões bêbados, mas a cafetina, com a autoridade de sempre, estalava o relho e punha ordem no recinto. Nenhum homem a desobedecia!

No dia que o fazendeiro Bitônio Coelho chegou ao cabaré encontrou-o entupido de forasteiros, dentre eles dois desafetos conhecidos nas trilhas dos engenhos, que espalharam nas imediações que tinham a pretensão de “tomar” Maria Bago Mole a todo custo do homem dela, nem que para isso tivessem que duelar com o gostosão, o senhor de engenho mais afamado da Zona da Mata. Boato esse que chegou como uma bala aos ouvidos do fazendeiro.

Ignorando a todos que estavam dentro do cabaré, Bitônio Coelho, depois de descer do cavalo alazão branco e apiá-lo na frente do cabaré, se dirige até o aposento da amada, passando por dentro do salão entre mesas cheias de homens e mulheres se beijando, encontra-a sentada na cama organizando a contabilidade do cabaré. Beija-a com voracidade a boca, confessa-lhe o quanto a ama, o quanto ela lhe faz bem, o quanto a deseja, e naquele exato momento os dois fazem amor sem fechar a porta.

Horas depois de fazerem amor e relaxarem, ambos saem do quarto, Maria Bago Mole para se certificar se tudo estava correndo bem, uma vez que as meninas não bateram na porta dela para reclamarem de nada, e Bitônio Coelho senta-se na mesa vazia confeccionada para ele perto do aposento. Enquanto estava sentado esperando que a amada preparasse algo para comer e beber, dele se aproximam os dois desafetos que tinham espalhado nas redondezas que lhe iam tomar a cafetina e estavam ali para cumprir o prometido. Bêbados e afoitos, aproximaram-se do fazendeiro e, trincando os dentes, e com as foices nas mãos, desafiaram o homem à luta:

– Olhe aqui seu sacripanta, temos desafio pela frente. De hoje em diante se afaste daquela mulher porque senão o sangue vai dar na canela e alguém vai ter de lutar para saber quem é mais macho nessa parada para ficar com ela!

Foi nesse exato momento que Bitônio Coelho, percebendo que estava em desvantagem e que, se não reagisse logo iria morrer de foiçada ou ponta de punhal, arrastou da cintura a Pistola Parabellum-1906, deu um tiro certeiro na testa do primeiro desafeto e outro no peito do segundo, matando-os no meio do salão como um pistoleiro bangue-bangue elimina seu êmulo no Velho Oeste, sem ferir os fregueses que estavam se divertindo com suas muchachas antes de subirem aos quartos para completarem a farra dos comes e bebes.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

AUGUSTO LUCENA MOSTRA O PAU À PROFESSORINHA

Prefeito Augusto Lucena “passa” as chaves da prefeitura do Recife para Antonio Farias

De 1964 a 1969, anos de chumbo grosso, quando o prefeito Augusto Lucena fora nomeado pelo governador Eraldo Gueiros de Pernambuco para administrar a Prefeitura do Recífelis, contam-se trapalhadas homéricas de arrepiar os pentelhos do forévis dos bastidores do Cabaré de José Mariano, a Câmara de Vereadores, durante os ânus que o homem de chapéu Ramenzoni ficou à frente do executivo municipal.

Modernizador do bairro de São José, Augusto Lucena era alvo de elogios, mas  também de pesadas críticas dos seus desafetos quando o assunto era sua administração, chegando ao ponto de seus inimigos políticos o chamarem de “Revitalizador da Venérea Brasileira”, por ser o Recífilis o bairro dos cortiços, onde predominavam os maiores índices de gonorreia, sífilis, chato, crista de galo, blenorragia, herpes genital, xanha…

Durante suas gestões foram criados o edifício-sede da Prefeitura da Cidade do Recífilis, o Colégio Municipal para ensino do 1º e 2º graus, construídas mais de 4.000 casas populares, além da abertura de muitas avenidas, entre elas a Caxangá, a Antônio de Góis, o Cais José Estelita, a Nossa Senhora do Carmo, a Agamenon Magalhães, a Domingos Ferreira, a Abdias de Carvalho e o Cais do Apolo. Outras obras: construção das Pontes Limoeiro, Jiquiá, Capunga e Caxangá, o alargamento da Av. Dantas Barreto, onde houve a necessidade da demolição da Igreja dos Martírios, considerada pela municipalidade como imprescindível para a construção e alargamento da avenida.

A Igreja dos Martírios, derrubada para ampliar a Av. Dantas Barreto

Foi nesse tempo que os religiosos que defendiam a permanência da Igreja dos Martírios se insurgiram contra o prefeito Augusto Lucena e se puseram em frente à igreja, deitados de bunda para cima, como resistência à sua demolição. E o Velho mandou passar o trator por cima dos que resistiram à derrubada. Esse episódio ficou conhecido nos anais do Recífilis como “A revolta dos cus aperobados”.

Mas foi no período em que administrou a cidade do Recífilis que o prefeito Augusto Lucena enfrentou sua mais dura batalha caseira: os desaforos da professora Mariquinha Bundão, uma baixinha enfezada moradora do bairro de Água Fria.

Certa vez um grupo de professoras, à frente a educadora Mariquinha Bundão, insatisfeita com o salário de miséria que recebia da Prefeitura, fez uma marcha de protesto até o Cabaré de José Mariano, a Câmara de Vereadores, para reivindicar melhores salários e condições de trabalho.

Quando adentrou no recinto, encontrou o prefeito Augusto Lucena debatendo boca com outros funcionários que protestavam também por aumento salarial, e as professoras, à frente a líder, Mariquinha Bundão, foram logo se dirigindo ao chefe do executivo e dizendo, dedo em riste:

– Ei, cunhão murcho, vai pagar a gente ou não vai o aumento salarial? Essa merda que a gente está recebendo não dá nem pra comprar um sabugo de milho para limpar o furico! Como queres que a gente dê aulas com os dentes arreganhados?

Tenso e atrapalhado com tanta pressão, o chefe do executivo municipal não teve outra alternativa: pôs a mão no fecho ecler, pegou o pau com os ovos e, chacoalhando-os, disse:

– Olha aqui que eu tenho para vocês de aumento salarial! Se não estão satisfeitas com o que ganham, vão dar o rabo nos botecos do bairro de São José! Lá vocês ganham mais!

Revoltada com a resposta desaforada do prefeito, e percebendo que o homem era duro na queda para dar aumento, e ali na frente de todos que estavam no salão do Cabaré de José Mariano, Dona Mariquinha Bundão, sem papas na língua, perguntou, gesticulando:

– Tudo bem, mas onde fica esse puteiro que o senhor frequenta pra eu ir até lá pra gente dar umas a seu gosto e preferência? Prometo-lhe fazer de tudo! Qual! Quá! Quá! Quá! Quá!

E saiu para o olho da rua de fininho antes que o homem soltasse os cachorros!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

LEONARDO BASTIÃO, O POETA GENIAL DA NAÇÃO NORDESTINA

Para o mestre estudioso de filme de faroeste, D.Matt., um apaixonado da Cultura Nordestina

O poeta Leonardo Bastião num recital de poesia em Itapetim-PE, em 2019

No dia 7 de abril de 2020, sob o título de MINHA HERANÇA DE MATUTO, o leitor fubânico JACOB FORTES, residente em Brasília, publicou na seção de Correspondência Recebida do Jornal da Besta Fubana um brilhante texto chamando a atenção do mundo para a genialidade da poesia oral desse gigante versejador, LEONARDO BASTIÃO, cujo nome verdadeiro é LEONARDO PEREIRA ALVES, nascido em ITAPETIM-PE. Analfabeto, residindo até hoje na mesma paragem sertaneja, vale do PAJEÚ – PE, mensageiro de uma poesia tão pura e rica quanto à caatinga em que se esconde há mais de setenta anos de vida.

Ao se deparar com o talento versejador do poeta Leonardo Bastião, em criar versos orais como o cantar do sabiá, o chilrear do galo de campina, o arrulhar do colibri, o cantar da asa branca, o pipiar dos pássaros no sertão ao chover, o alegrar das árvores frondejantes, o chacoalhar das águas dos açudes sangrando para os moleques tibungarem na corrente…, o caboclo sente que o maior segredo do universo está na sua simplicidade, proporcionando a todos a beleza em tudo que se ver e no que não se ver.

O documentário Leonardo Bastião, O Poeta Analfabeto, escrito, produzido e dirigido por Jefferson de Sousa, conterrâneo do vate, traduz em imagens reais a genialidade de um poeta nascido com um dom divino capaz de traduzir oralmente o que fazia por escrito o maior poeta da Língua Portuguesa do final do Século XIX e início do Século XX, Fernando Pessoa, quando cantava sua Aldeia para o mundo em poemas geniais eternos como nenhum outro poeta havia feito antes.

Quem assiste aos vídeos de Leonardo Bastião, nas imagens captadas por anônimos, escritores, fãs, poetas, embevecidos com sua versatilidade em fazer poesias orais instantâneas, em quaisquer lugares da caatinga na sua matutice, não imagina que por trás daquele homem simples, tímido, há um poeta genial que, ao abrir a boca e olhar para qualquer espaço da natureza, embeleza o mundo descrevendo-o com a sua poesia oral, tirando de onde não se tem e botando onde não se cabe.

Por sua virtuose em fazer versos de improvisos geniais, por sua simplicidade sertaneja em não querer reconhecer o talento que tem, pelo ostracismo estigmatizado por morar em casebre de taipa no meio da caatinga, esquecido de todos que poderiam ajudá-lo, principalmente do poder público, por tudo que representa para sua terra natal, o poeta Leonardo Bastião, certamente receberá uma digna homenagem, com inauguração de estátua, nome de praça, de escolas públicas, ruas e avenidas; recitais de poesia em sua homenagem, depois de porem-no no paletó de madeira e jogarem-lhe sete palmos de terra na cara, como nos indigentes da magistral crônica “O Caixão da Caridade.”

a) O Relógio da Vida/A Morte/ Filho Bandido

b) A Infância/A Velhice/O Macaco/E a Cachorra

c) Leonardo Bastião Entre Amigos

d) Leonardo Bastião Recitando Verso Fescenino com o Poeta Zé de Cazuza

e) Leonardo Bastão/ A infância Perdida/ E a Seca

f) Leonardo Bastião: As Flores/O Passarinho/O Defensor da Natureza/Falando nos Animais

g) Leonardo Bastião: O Poeta Analfabeto/Documentário Completo/De Jefferson Sousa

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

DJANGO (ll) – O SPAGHETTI WESTERN QUE INSPIROU QUENTIN TARANTINO

Segundo texto escrito em colaboração com o estudioso e profundo conhecedor de filmes de faroeste: D.Matt.

Dedicamo-lo ao editor do JORNAL DA BESTA FUBANA, LUIZ BERTO, autor da excelente apresentação do livro de estreia do colunista western, ALTAMIR PINHEIRO, “NO ESCURINHO DO CINEMA”, a ser lançado brevemente.

No seu texto de apresentação, o editor da BESTA FUBANA demonstra ser um grande apreciador do cinema e de filmes westerns em particular, levando-nos às suas matinês nos cinemas da sua já culturalmente famosa cidade de Palmares, quando menino, relembrando suas travessuras cinematográficas e outras já amplamente descritas e apreciadas pelos leitores no seu famoso livro de crônicas “A PRISÃO DE SÃO BENEDITO e outras histórias.”

Poster do primeiro filme Django (1966), do diretor Sergio Corbucci

As primeiras imagens do fantástico filme DJANGO (1966), produzido e dirigido pelo talentoso diretor Sergio Corbucci, captadas pela lente do diretor de fotografia Enzo Corboni, nas primeiras cenas do filme, mostram um cenário místico, sombrio, com a quadrilha do general Hugo Rodriguez e a do Major Jackson se digladiando, com este tentando, a todo custo, enforcar ou queimar viva uma prostituta indefesa no deserto, lembram o cenário do sertão à época de Lampião, o anti-herói místico da caatinga, quando cangaceiros e volantes perseguiam suas vítimas indefesas para cometer atrocidades, furiosos por arrancar-lhes a ferro em brasa confissões inexistentes sobre paradeiro de bandos e soldados inimigos. Embora ficção, esse filme retrata com inteligência a realidade vivida no sertão nordestino no início do século XX, quando os cangaceiros, sobre o comando de Lampião, aterrorizavam na caatinga, saqueando, roubando, seqüestrando, matando e incendiando fazendas e propriedades, já castigadas pelo sol inclemente.

O confronto entre Django e os capangas do Major Jackson travada no meio do oeste, onde mais de quarenta capatazes morrem sobre a mira da metralhadora do homem solitário prova o talento do diretor que, em momento algum perde a mão na condução da batalha. Somando-se a esse filling cinematográfico inusitado, assiste-se a recriação de uma cena antológica: o ataque ao Forte Cheuriba do Major Jackson por Django e o general Hugo Rodriguez, com ambos utilizando para esse feito o estratagema do Cavalo de Tróia, como uma cartada bem planejada para matar todos os soldados do sanguinário major e depois saquear todo ouro que estava armazenado no porão do forte.

O misticismo do filme, sendo essa visão um dos fatores do seu grande sucesso para a época, em todo desenrolar da história; a cena do embate final entre Django, com as duas mãos esmagadas pelos capangas do general Hugo, diante das cruzes no cemitério e o fuzilamento dos soltados do Major Jackson e dele por um homem quase impotente, torna o filme um clássico cinematográfico cultuado até hoje por diretores, atores e aficionados do spaghetti western, passados mais de cinquenta anos do seu lançamento.

Nesse filme, vê-se que os cenários não procuram retratar uma cidade do Oeste. Na verdade não tem nada que identifique como uma cidade verdadeira. É apenas um amontoado de fachadas em escombros, coisas velhas sem nenhum cartaz ou dizeres indicando a sua utilidade, o que é muito importante.

Todo o cenário da cidade está fotografado com tons sombrios, tudo em quase preto e branco, sem nenhuma cena colorida. Parece uma cidade do umbral, sem nenhuma vida ou cor, sem nenhuma árvore, tudo escuro, como se estivesse situada às portas do inferno. Talvez tenha sido essa a intenção do diretor para preparar psicologicamente o telespectador para todo o drama que vinha a seguir.

As mulheres do bar não são personagens reais, são figuras quase abstratas posicionadas naquele cenário com a função de mostrar a irrealidade daquela cidade. A maquilagem delas mostrada no rosto é propositalmente exagerada, debochada, horripilante, quase uma máscara de horror, prenunciando os escândalos e violências futuras. Aliás, todo o filme exibe uma maquilagem de máscara, com exceção do ator principal.

O enredo começa de maneira empolgante. Ninguém fica imune da surpresa muito original na descoberta do conteúdo do caixão. O diretor segurou o filme com mão firme e muita inteligência, instigando a curiosidade do espectador que não desvia sua atenção da tela nem por um segundo.

Os atores, experientes, todos se saem muito bem, muitas vezes – nota-se – que a super representação é exigida pelo diretor, que deseja mostrar que aquilo é uma fábula encenada e não a reprodução da realidade, uma sacada de mestre do diretor Sergio Corbucci.

Não se vê no cenário de filmes de faroeste outro ator que pudesse interpretar melhor o personagem Django como Franco Nero. Ele está perfeito e ao final, quando termina a cena do cemitério, já começamos a sentir saudade do filme e de seu personagem principal, que ficará sem dúvida para sempre no cenário western em geral. Não só do spaghetti western, mas em todos os gêneros.

A direção do mestre Sergio Corbucci é impecável. Em algumas cenas sentem-se que estão exageradas ou super representadas, mas na verdade este foi um meio inteligente que o diretor encontrou para dizer explicitamente aos telespectadores que aquilo não era realidade e sim cinema.

Poster do filme Django Livre (2012), do diretor Quentin Tarantino

Para produzir e dirigir seu neoclássico spaghetti western, Django Livre (2012), uma homenagem ao diretor Sergio Corbucci, o diretor Quentin Tarantino contou com um elenco soberbo. Em destaque, além do ator principal Jamie Foxx, recém vencedor de um prêmio, o oscar de melhor ator, em excelente performance, apresentou-nos uma atuação fora de série do ator Leonardo DiCaprio, que pela primeira vez demonstrou ser um ótimo ator, com um grande futuro no cinema, o que já se confirmou em filmes recentes.

Entretanto há que ressaltar que mais um grande ator tem atuação brilhante, Samuel L. Jackson, que rouba todas as cenas em que aparece, com uma atuação brilhante, tão importante que o diretor Quentin Tarantino o escalou no seu filme seguinte “Os Oito Odiados” (2016), como ator principal, tendo uma atuação memorável.

A história escrita por Tarantino é explorada com virtuose, alguns suspenses detalhistas e cuidados máximos, como devem ser os grandes filmes de faroeste. Esse feito sublime ele aprendeu com o mestre maior: JOHN FORD.

A narrativa flui com algumas surpresas e cenas que demonstram que o diretor Quentin Tarantino criou ali um mundo irreal, todo seu, impossível de ser verdadeiro, como nas cenas em que o negro Django, senta à mesa de refeições com o racista escravocrata criador de negros lutadores, como se fosse criação de cães de luta. Um absurdo inimaginável naquela época. Outro deboche do diretor está na cena em que o negro Django entra na fazenda montado num cavalo com toda imponência e orgulho, como se fosse um grande fidalgo, vestido com uma roupa ridícula, azul claro, lenço de luxo branco e é convidado a se hospedar na mansão com quarto privativo. Esta cena cria uma grande confusão na cabeça do chefe dos escravos, o também escravo Samuel L. Jackson, que não acredita no que está vendo e se rebela contra as ordens do seu senhor e proprietário.

Essas inovações do diretor Quentin Tarantino demonstram que os diretores têm e devem sempre ter inteira criatividade ao imaginar os seus filmes, pois a criação dos fatos e movimentos do enredo não podem e não devem ter regras fixas, se a finalidade é criar uma obra pessoal, baseada num universo já conhecido e que nada tem a ver com a realidade.

O diretor italiano Sergio Corbucci criou seu spaghetti western, o místico Django (1966), um clássico; Quentin Tarantino, seu discípulo, reinventou o clássico com seu Django Livre (2012), eternizando o gênero.

Trailler Oficial DJANGO (1966)

Trailler Oficial de DJANGO LIVRE (2012)

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

POCIDÔNIO SAMBURÁ, O DISCÍPULO DE EDIR MACEDO

Maquete da nova Igreja “As Ovelhas de Deus”, a ser construída num bairro miserável

Vindo lá de Cafundó do Judas, cidade onde o cão perdeu as botas e satanás limpou o rabo com folhas de urtiga, o hoje pastor Pocidônio Saburá, depois de uma longa viagem em cima do lombo dum jegue, instalou-se em Conceição do Fiofó, comunidade Bolsa Família de Paulista-PE, onde encontrou terreno fértil para implantar seu plano maquiavélico, seguindo a teoria do seu guru Edir Macedo: “Abram igrejas que atrás vêm crentes e dízimos, e você não precisa justificar os milagres: Todos estão na Bíblia, legitimados por Deus.”

Instalado na casa da irmã Juventina enquanto arrumava trabalho, assistindo ao educativo Xou da Xuxa, Pocidônio viu um episódio da Família Dinossauro que o deixou com água na boca: Dino da Silva Sauro enterrar a sogra Zilda Phillips, que teve ataque de catalepsia e dois dias depois de enterrada a velha “ressuscita” e volta para casa, e conta à filha Fran as maravilhas de ter estado no céu, mas que infelizmente teve de retornar a terra sem ver o marido já morto porque não havia chegado seu dia. Seu nome não constava no “Livro dos Mortos.” O episódio chama-se “Vida após morte.”

Fascinado com a ideia da ressurreição no episódio, Pocidônio começou a bolar um estratagema: frequentar a Igreja Universal do Queijo do Reino do bairro, observar e anotar os modus operandi com que os obreiros daquela igreja faziam para usurparem a grana dos fiéis. E criou sua própria igreja com um sugestivo título de “As Ovelhas de Deus.”

Para isso, no primeiro terreno que encontrou desocupado cravou uma cruz e disse aos presentes que ali seria edificada a primeira igreja de Deus. E num sermão emocionado conclamou a todos se unirem para erguer a verdadeira igreja de Deus e livrar os fiéis do julgo dos “poderosos dos templos.” Uma referência ao mestre dissidente Edir Macedo.

– Irmãos, aqui vamos edificar a verdadeira igreja do senhor nosso Deus. Com a colaboração de todos vocês haveremos de construir a casa da purificação da alma, para depois da morte a gente saber o rumo de nossa eternidade. Todos que ali estavam aplaudiram o “pastor de pé!”

Para por em ação seu plano astucioso de arrecadar dinheiro dos frequentadores, Pocidônio reuniu mais de vinte obreiros para pressionarem os fieis a pagarem o dízimo antecipado para construir a igreja.

Com a igreja já pronta em menos de seis meses de arrecadação de dízimo, recebendo de cheques pré-datados, a notas promissórias e faturas de cartão de crédito dos fiéis, carros, apartamentos, casas, Pocidônio não só ergueu a igreja como mandou os filhos estudar no estrangeiro, comprou carros de marca para a família e todo dinheiro arrecadado dos fiéis foram empregados em imóveis particulares, o que só aumentava seu poderio financeiro, sua bajulação pastoral nas redondezas e sua influência política na prefeitura do município.

Não satisfeito com a quantia de dinheiro arrecado de dízimo dos fiéis todos os dias nas igrejas mais lucrativas, o pastor Pocidônio criou um “Regimento Interno” orientando todos os obreiros da igreja para que, “partir do recebimento daquele regimento interno, todos os arrecadadores de dinheiro teriam uma meta de dízimo a cumprir nem que para isso tivesse de tomar a força dos fiéis.”

Quando alguns obreiros perceberam a desumanidade do “regimento interno” foram questionar o pastor, informando-lhe que havia fiéis que chegavam a igreja com apenas a passagem e que seria desumano pedir-lhe o dinheiro, pois como é que iriam voltar para casa? E o pastor, escroque, determinou:

– Ou vocês fazem o que está determinado no “regimento”, ou eu demito todos e ainda mando dar-lhes uma surra de urtiga no rabo. Vocês têm de entender uma coisa: todos que chegam a minha igreja só vêem porque acreditam em mim e nos milagres de Deus, portanto, estão dispostos a dar tudo que tem, e o papel de vocês aqui é arrecadar ou tomar, e dizer-lhes que Deus vai dar em dobro no Céu. Dentro da minha igreja eu só quero obreiro com astúcia e ambiciosos, dispostos a tomar tudo dos fiéis porque do contrário podem pegar o Bonde do Tigrão e zarpar!

E, antes que qualquer obreiro lhe contrariasse com perguntas impertinentes, típicas da arrogância humana, deu meia volta, olhou a todos nos olhos e fulminou:

– A bondade não está no ego de quem detém o poder!!!

a) Vídeo onde o sábio dos sábios Edir Macedo, o deus de Pocidônio Samburá, diz que o coronavírus é coisa de Satanás e afirma que a cura está na sua igreja, desde que os “fiéis” paguem o dízimo.

b) Vídeo onde o mestre dos mestres Edir Macedo ensina como tomar dinheiro dos “fiéis” miseráveis que frequentam suas igrejas, no qual Pocidônio Samburá se inspirou para roubar seus “fiéis”, assim como fazem todas as igrejas do mundo.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

DJANGO (I) – O CLÁSSICO DO WESTERN SPAGHETTI

Texto escrito em parceria com o mestre em filmes de faroeste D.Matt

Dedicamos ao cinéfilo Altamir Pinheiro e seu neto Antonio Miguel, o cowboy

O caixão fantasmasgórico de Django

A cena de abertura do primeiro filme de faroeste da franquia “Django” é épica, memorável, monumental, icônica e irretocável. A câmara focando um homem solitário, arrastando um caixão fantasmagórico no lamaçal caótico, tendo como painel de fundo um cenário natural, maçante, acompanhado da antológica trilha sonora “Django”, composta pelo maestro argentino-italiano Luis Enríquez Bacalov, é apropriada para o clima sinistro do western.

“Django” conta a história de um andarilho misterioso, acompanhado de sua poderosa metralhadora, disposto a vingar a morte de sua esposa, assassinada por uma gangue rival que agia na região fronteiriça do México. Para conseguir seu intento ele fez um “acordo” com um dos chefes de uma gangue comandada pelo general Hugo Rodriguez, bandido frio, calculista, ambicioso, contra seu oponente, o Major Jackson e seu bando de facínoras, sanguinários.

É um dos melhores exemplos de filmes do gênero western spaghetti, com uma trilha sonora agitada, duelos de armas e um anti-herói de poucas palavras, que arrasta um caixão mortífero. O visual magnífico do filme é devido ao trabalho do diretor de arte Carlo Simi, que já havia criado personagens e cenários para filmes anteriores do diretor Sergio Corbucci, como o “Minnesota Clay.”

Antes e depois da primeira cena antológica do confronto entre “Django” com a metralhadora e os mais de quarenta bandidos do Major Jackson em frente ao Saloon do Nathaniel, ficava a impressão de que estávamos diante de mais um western lugar-comum, piegas, mas ante a competência do diretor Sergio Corbucci o que vemos é um filme com cenário de batalha expertise, cruenta, épica, que até hoje fascina crítico e cinéfilo que o elogiam como uma obra-prima do western spaghetti.

Como diz o mestre de filme de far western D.Matt., autor do Prefácio do livro “NO ESCURINHO DO CINEMA”, do cinéfilo-historiador Altamir Pinheiro, a ser lançado em breve: “DJANGO l, ou simplesmente DJANGO”, é o primeiro, o único e o verdadeiro. Esse filme tornou o ótimo ator Franco Nero famoso e ao citarmos DJANGO, o filme, todos logo identificamos o primeiro e o melhor da franquia. Sim o nome “Django” tornou-se uma franquia, pois existem muitas dezenas de filmes relacionados ao personagem famoso, talvez cheguem perto de meia centena de filmes, todos com adjetivos diversos, títulos chamativos, mas nenhum chegou perto do original que permanece eterno, com a matriz intocada, sem nada que possa abalar a sua merecida fama.

No ponto de vista cinematográfico, o único filme que chegou quase a merecer comparação com a qualidade do original, foi o filme “Django Livre” do diretor Quentin Tarantino. A comparação que se faz é apenas pela qualidade do filme, seus valores cinematográficos, seu ótimo elenco, que contou acertadamente com a participação do “Django” original, Franco Nero, numa pequena atuação, mas uma grande e merecida homenagem prestada pelo cineasta Tarantino ao grande ator, criador do personagem cujo nome, até hoje nos emociona. O filme cria um clima místico e quase sobrenatural, quando o personagem aparece do nada arrastando um caixão, como uma aparição fantasmagórica deixando todos apavorados e surpresos, sem saber o que esperar. O diretor Sergio Corbucci soube segurar com muita competência e profissionalismo essa atmosfera sombria.

Nada de parecido tinha sido visto antes nos filmes do gênero western, e a expectativa vai num crescendo para todos os personagens do vilarejo e muito importante, também para nós os expectadores do filme, pois o que vai ou poderá acontecer é uma incógnita.

Mas o diretor Sergio Corbucci mostrou que é um mestre, pois os fatos vão se sucedendo até que afinal o inesperado é revelado e com a sucessão dos acontecimentos, os vilões são enfrentados e como em todo bom filme de faroeste: o mocinho vence no final para satisfação de todos.

Ressalte-se o grande número de filmes que levam o nome “Django”, com dezenas de atores que fizeram o personagem-título, mas como se pode ver pelos enredos, nenhum deles é a continuação do filme original. Não que não sejam bons atores, mas sim porque o personagem do primeiro é muito místico, sombrio, e o ator deu ao personagem-título um desempenho extraordinário que nenhuma imitação conseguiu alcançá-lo.”

Em cena antológica dentro do oeste, Django arrasa com os quarenta capatazes do Major Jackson, que foge desmoralizado, com a cara cheia de lama dum tiro de COLT 45.