CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TRÊS HOMENS EM CONFLITO (3) – A MAGNA TRILOGIA DO DIRETOR SERGIO LEONE

Texto escrito em parceria com o especialista em filmes de faroeste D.Matt

Cena cinematográfica antológica do duelo final dos três personagens no cemitério

(Il BUONO, Il BRUTTO, Il CATTIVO)

Terceiro filme da Magna Trilogia dos Dólares: o Bom, o Mau e o Feio, ou Três Homens em Conflito, é uma inquestionável obra de arte do cinema western spaghetti! É um filme que mostrou ao mundo o quão talentoso era Sergio Leone. Apesar de suas quase três horas de duração o filme é inteligentemente ágil e impressionantemente hábil. Um clássico do estilo western spaghetti.

O longa-metragem completa a Trilogia dos Dólares agora com três protagonistas. O Bom, o Homem sem Nome; o Mau, Olhos de Anjo e o Feio, Tuco. Cada um apresentado no primeiro ato: O Bom, ainda trabalha como caçador de recompensas, o Feio é um bandido cruel e o Mau, um homem em busca de um tesouro perdido de 200.000 mil dólares no cemitério…

Clint Eastwood continua no seu personagem o Homem sem Nome, (com o codinome de Lourinho), personagem que ele incorpora com habilidade e mestria. O Lee Van Cleef soube criar um personagem carismático, numa interpretação magnífica. Um ótimo ator que qualquer diretor gostaria de tê-lo interpretando qualquer personagem coadjuvante ou principal.

Mas, o mais extraordinário é a atuação do ator Eli Wallach. Seu desempenho é magistral. Ele aparece em quase todas as cenas, com grande atuação interpretativa. Na verdade ele é o ator principal, pois tem o triplo das ‘falas” dos demais personagens e sua versatilidade supera o limite da interpretação.

Durante todo o filme o telespectador fica torcendo pela sua aparição, pois ele ” rouba” todas as cenas em que aparece, inclusive a sua atuação tem mais intensidade que a de todos os demais atores.

As cenas principais se intensificam do meio para o fim do filme, quando os personagens se envolvem com a guerra civil americana, com cenas de guerra violentas, campo de prisioneiros, sadismo de oficiais… Tudo apresentado e encaixado com genialidade pelo diretor Sergio Leone.

Mais uma vez o diretor faz uso constante da técnica de “closes” dos personagens, pois com esses “closes” é possível mostrar a reação dos personagens diante do perigo ou do inesperado.

Para saber usar esses “closes” com eficiência, o diretor precisa ser um mestre e também os atores, pois se o ator não souber reagir adequadamente a um “close” de alguns segundos e não souber demonstrar o que está sentindo, fica com cara de idiota. Mas nas mãos do diretor Sergio Leone tudo fica “clear”.

O filme é repleto de muita ação inesquecível e certamente agradou e agrada a todos aficionados do tema em qualquer época, que apreciam uma boa história westerniana. Não se deseja aqui contar a história do filme, apenas informar que o fato principal é que os três personagens principais acabam se envolvendo no resgate de um grande tesouro de ouro, roubado do exército e escondido numa cova em um cemitério…

O duelo final entre os três personagens no cemitério é uma cena antológica, memorável, que dura aproximadamente uns 10 minutos, sem qualquer diálogo. É filmado em uma pretensa arena circular no meio do cemitério, apenas pontuando a magnífica música do genial maestro Ennio Morricone.

Sobre esse filme, um crítico experiente declarou em um artigo: “Sem sombra de dúvida, o western mais ambicioso e influente já produzido. É uma aventura audaciosa que mudou para sempre o futuro do gênero.”

E saber que essa extraordinária, monumental, memorável obra de grande perfeição fílmica foi feita muito antes do genial diretor Sergio Leone criar mais outra obra-prima no gênero: “Era uma Vez no Oeste,” não há que se discutir até onde vai a capacidade criativa de um gênio.

Porém há muito mais substância e camadas em o Bom, o Mau e o Feio ou Três Homens em Conflito do que se possa pensar à primeira vista. Não se trata de um filme difícil em termos de conteúdo, mas talvez na interpretação de suas riquezas simbólicas, que podem ser escancaradas ou estarem nas estrelinhas.

Além disso, o espectador precisa ver o filme sem pressa de que ele alimente respostas ou verdadeiro sentido antes do final, pois aí é que está a sacada do diretor Sergio Leone. Ele nos guia por um caminho de busca e luta entre dois lados, cada um atormentado por um demônio e com um objetivo egoísta para cumprir. Ao chegar ao definitivo clímax, ele reverte o jogo e nos escancara o dilema da solidão, do sentido para a vida do homem em busca de dinheiro ou justiça. Nesse ponto final, há uma seta que nos faz retornar para o início da obra, onde a frase de abertura, enfim, alcança o seu real sentido: “Onde a vida já não tinha mais valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis que surgiram os caçadores de recompensas“.

Sergio Leone foi o único cineasta da História do Western Spaghetti que teve uma terceira chance de causar uma primeira impressão.

14 curiosidades inéditas sobre o filme o Bom o Mau e o Feio, ou Três Homens em Conflito

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Clique aqui para assistir ao filme completo “Três Homens em Conflito”, que mesmo depois de meio século, segue sendo reverenciado por todos que apreciam filmes western de qualidade.

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POR UNS DÓLARES A MAIS (2) – A MAGNA TRILOGIA DO DIRETOR SERGIO LEONE

Texto escrito em parceria com o especialista em filmes de faroeste D.Matt

Cena clássica de “Por uns Dólares a Mais (1965),” do diretor italiano Sergio Leone

Em seu segundo filme da Trilogia do Homem sem Nome, o diretor Sergio Leone pensou um filme simples, mas engenhoso, com uma temática diferente do primeiro. Enquanto “Por um Punhado de Dólares” ele narra a história de um pistoleiro solitário, “Por uns Dólares a Mais”, vê-se um cenário diferente: desta vez, o homem sem nome, personagem de Clint Eastwood, trabalha como caçador de recompensas, e acaba tendo a concorrência de um desconhecido recém chegado à cidade, o coronel Douglas Mortimer, interpretado magnificamente por Lee Van Cleef. Os dois buscam informações um do outro enquanto um perigoso vilão aparece na história, o pistoleiro conhecido como El índio, interpretado por Gian Maria Volonte, o mesmo que dá vida ao vilão de “Por um Punhado de Dólares”, só que agora vivendo outro personagem cruel.

O vilão desta trama, tal como no filme anterior, tem grande destaque, e novamente Gian Maria Volonte tem uma atuação impecável, na pele do sádico pistoleiro El Indio, que lidera uma quadrilha de assaltantes de banco que não perdoa ninguém que atravessa seu caminho. Clint Eastwood repete seu personagem, o Homem sem Nome, e novamente tem uma atuação brilhante. Tal como o recém chegado Lee Van Cleef, que interpreta um personagem dúbio, e que não nos dá muitas pistas sobre seu caráter, algo que Lee Van Cleef trabalha muito bem em seu personagem, e como era de se esperar, ele tem uma brilhante atuação, guiado pelo talentoso diretor da obra-prima “Era uma Vez no Oeste.”

Nesse filme temos sequências de ação espetaculares, além de uma história globalmente simples, mas coesa, com um roteiro sem furos. A trilha sonora, novamente assinada pelo maestro Ennio Morricone, é simplesmente brilhante, e dá exatamente o clima que a trama requer. Um trabalho magistral.

Sergio Leone conduz seu elenco com mão de mestre, tirando o melhor de cada ator. As cenas dos confrontos, com closes constantes, também são esplêndidas. O cenário reconstrói com louvor o Velho Oeste. Em resumo, “Por uns Dólares a Mais” é mais uma obra-prima da Magna Trilogia dos Dólares do diretor Sergio Leone que merece ser assistida a exaustão porque há sempre uma coisa nova a se descobrir.

A contratação do competente ator Lee Van Cleef por Sergio Leone, que já tinha demonstrado seu talento como ator coadjuvante em inúmeros filmes, inclusive teve uma importante participação no clássico western “Matar ou Morrer” com Gary Cooper, e fez pequenas pontas em vários filmes no início de sua carreira, assim como outros grandes atores hoje reconhecidos por suas atuações memoráveis em vários filmes da época, como Lee Marvin, Jack Elann, e porque não incluir o extraordinário negão, Woody Strode, um dos atores favoritos do diretor “racista” JOHN FORD, prova a competência do diretor e comprova porque a Magna Trilogia dos Dólares é insuperável na história do western spaghetti.

Portanto, não é redundância afirmar: a contratação do ator Lee Van Cleef para fazer um personagem dúbio foi um golpe de mestre do diretor Sergio Leone e o resultado final do produto foi memorável, segundo o crítico de cinema e roteirista norte-americano Roger Ebert. A música pontua do início ao fim, naquela harmonia e qualidade insuperável do genial maestro Ennio Morricone. Ao final, temos a certeza de ter desfrutado de mais de duas horas de pura arte cinematográfica westerniana.

Cena clássica do duelo final do filme “Por uns Dólares a Mais

Clique aqui para assistir ao filme completo “Por uns Dólares a Mais”, segundo da Magna Trilogia dos Dólares

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QUE FALTA ELA NOS FAZ!

Dona Maria do Carmo e Armando Monteiro (no amor eterno)

Um dos mais lindos, sublimes e comoventes textos que li nos últimos anos foi publicado na Folha de Pernambuco, no dia 18/Jul/2020, por Dona Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti, esposa do jurista e colunista fubânico, Dr.º José Paulo Cavalcanti Filho, homenageando sua mãe, Dona Maria do Carmo Monteiro, uma mulher tão linda e elegante que, aos 94 anos a natureza a mantinha com o rosto de pêssego e sorriso de maçã, e o tempo manteve essa beleza intacta sem precisar de photoshop:

“Ensina o livro do Eclesiastes que há um tempo para todo propósito debaixo do céu: “Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de se separar; tempo de nascer e tempo de morrer” (Ecl 3, 1-5). Até o final dos tempos, assim será. “Uma geração vai, uma geração vem. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta outra vez. O que foi será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol” (Ecl 1, 4-9).

Compreendemos tudo isso. Aceitamos a vontade de Deus. E agradecemos o privilégio da convivência com minha mãe. Só que agora, teremos que aprender a viver sem ela. Ficou um enorme vazio. Uma tristeza sem fim. A saudade de sua presença linda, elegante, impecável (no físico e nos gestos). De seu jeito doce e firme, carinhoso e forte, simples e altivo. Sempre intransigente na defesa de seus princípios, solidária e generosa com os que precisavam, presente na alegria e, sobretudo, na tristeza.

Saudade dos seus conselhos, de sua experiência, de sua sabedoria. Sempre equilibrada e tranquila, na adversidade. Porque cedo compreendeu que os problemas estão postos para serem resolvidos. E decide melhor quem não se abate, quem os enfrenta sem dramas, sem dores, sem queixas.

Esteve sempre aberta à vida. Às modernidades da juventude. Dominava com maestria todos os equipamentos eletrônicos. Escolheu como sua principal e mais importante missão cuidar de Papai. De tanto cuidar dele e dos outros, virou quase médica; e assim, como se fosse mesmo examinava, diagnosticava, passava remédio. E acertava, sempre.

Criou seus filhos respeitando a individualidade de cada um. Compreendendo que filhos não são nunca cópias perfeitas de seus pais, no sentido de que devem ser livres para cumprir seus destinos. Com a distância das jornadas se medindo, algumas vezes, pelas circunstâncias; outras, pela determinação da vontade.

Criou seus filhos respeitando a individualidade de cada um. Compreendendo que filhos não são nunca cópias perfeitas de seus pais, no sentido de que devem ser livres para cumprir seus destinos. Com a distância das jornadas se medindo, algumas vezes, pelas circunstâncias; outras, pela determinação da vontade.

Criou seus filhos respeitando a individualidade de cada um. Compreendendo que filhos não são nunca cópias perfeitas de seus pais, no sentido de que devem ser livres para cumprir seus destinos. Com a distância das jornadas se medindo, algumas vezes, pelas circunstâncias; outras, pela determinação da vontade.

Precisamos, e precisaremos sempre, de seu exemplo, de suas lições, de sua proteção. Até porque, como no poema (Para sempre) de Carlos Drummond de Andrade, “Mãe não tem limite/ É tempo sem hora,/ É luz que não apaga quando sopra o vento/ É eternidade”. É “a coisa no mundo mais parecida com os olhos de Deus”, segundo dom Tolentino Mendonça.

Ensina o poeta espanhol Antonio Machado que, “Para o caminhante, não há caminhos.

Caminhos se fazem ao andar”. Na direção indicada pelas estrelas no céu. Se assim é recebam, Mamãe e Papai, de seus filhos, netos e bisnetos, a certeza de que vocês são, e serão sempre, duas estrelas brilhantes. Indicando caminhos, no mar sem fim de nossas vidas.”

Quem já teve o privilégio de ler História dos SABORES PERNAMBUCANOS (2014), uma pesquisa de fôlego das delícias do paladar pernambucano e Esses Pratos Maravilhosos e Seus Nomes Esquisitos (2013), com prefácio primoroso do antropólogo Roberto Augusto DaMatta, ler sua coluna aos sábados sobre culinária freyreana na Folha de Pernambuco e saboreia os pratos pernambucanos, se apaixona tão apaixonadamente pela culinária pernambucana ao ponto de sentir seu sabor para o resto da vida.

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FAMOSOS E FRASES DIVERTIDAS

RÉPLICA DO CABARÉ DE MARIA BOGO MOLE:

Compilação de frases inteligentes e divertidas feitas pelo editor e repórter Ivan-Pé-de-Mesa, alter ego de Manoel Bione, criador do hebdomadário o Papa-Figo e esse escriba sem futuro. Maria Bago Mole é o destaque.

Inauguração da Ponte Rio-Niterói. “Por um lado, é muito bom; por outro lado, é Niterói”. (Max Nunes).

Viver no Rio é uma merda; mas é bom. Viver em New York é bom, mas é uma merda. (Tom Jobim).

Quando estamos fora, o Brasil dói na alma; quando estamos dentro, dói na pele. (Stanislaw Ponte Preta).

A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo. (Millôr Fernandes).

Brasil? Fraude explica. (Carlito Maia).

Pior do que o fim do mundo, para mim é o fim do mês. (Zeca Baleiro).

Quem se mata de trabalhar merece mesmo morrer. (Millôr Fernandes).

Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim. (Millôr Fernandes).

A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal. (Raul Seixas).

Não é triste mudar de ideias; triste é não ter ideias para mudar. (Barão de Itararé).

Comecei uma dieta: cortei a bebida e as comidas pesadas e em quatorze dias perdi duas semanas. (Tim Maia).

O sol nasce para todos; a sombra, para quem é mais esperto. (Stanislaw Ponte Preta).

Nada nos humilha mais do que a coragem alheia. (Nelson Rodrigues).

Celulites não são apenas celulites, elas querem dizer…”Eu sou gostosa”. Só que em Braille!!! (Rita Cadilac)

Fumo maconha, mas não trago, quem traz é um amigo meu. (Marcelo Anthony, ator da Grobo Lixo).

O que te engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que você come entre o Ano Novo e o Natal! (Hebe Camargo).

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar na segunda e na sexta-feira? (Marta Suplicy).

Eu só deixei ele porque ele deixou de gemer do jeito que eu gemo. Não tem graça nenhuma gemer sem uma gemada! (Maria Bago Mole).

Não se conquista um homem abrindo as pernas para ele só fazer o monder. É preciso saber fazer o remelexo no momento hagá e deixá-lo molim, molim! (Maria Bago Mole).

Tudo que eu consegui na vida foi por causa da minha taiada, o anel de couro e o trabalho duro. Não houve milagre. Houve um homem certo no momento certo com a braguilha aberta e o patuá duro, fora, mirando o buraco de minha bacurinha raspada. (Maria Bago Mole).

O priquito é o pedaço de carne mais delicioso do mundo. Não fosse ele todos os homens seriam baitolas ou morriam na mão. (Maria Bago Mole).

No dia que você der uma cagada no mato, limpar o cu com uma folha de urtiga e as beradas não ficarem vermelhas, coçando, você nasceu com o rabo virado para lua de sorte. A urtiga tinha as folhas abicharadas. (Maria Bago Mole).

Para seu marido não acordar com a macaca… depile-se! (Vera Fischer).

O homem é um ser tão dependente, que até para ser corno, precisa da ajuda da mulher. Para ser viúvo, também… (Dercy Gonçalves).

Por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, por enquanto, ainda não há terra em cima. (Yasser Arafat).

Preguiçoso é o dono da sauna, que vive do suor dos outros. (Príncipe Charles).

O homem mais sortudo do mundo sou eu que me apaixonei e casei com a maior tribufu do mundo, e ela já era arrombada. (Príncipe Charles).

Não me considere o chefe; considere-me apenas um colega de trabalho que tem sempre razão. (George Bush).

Malandro é o pato, que já nasce com os dedos colados para não usar aliança. (Zeca Pagodinho).

Todo mundo tem cliente. Só traficante e analista de sistemas é que tem usuário. (Bill Gates).

Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher o seu asilo. (Desconhecido).

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POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1) – A MAGNA TRILOGIA DO DIRETOR SERGIO LEONE

Texto escrito com a colaboração do estudioso de filmes de faroeste D.Matt.

Clint Eastwood em cena magna de “Um Punhado de Dólares”

Nasce uma lenda: “Por um Punhado de Dólares”. (Per um Pugno di Dollari) – Itália – Espanha – Alemanha Ocidental – (1964). Um sangrento e cruel conto de fadas adulto.

Primeiro filme da Magna Trilogia dos Dólares ou Trilogia do Homem Sem Nome, estrelada por Clint Eastwood (o pistoleiro solitário), no papel principal, filmado na Itália, na Espanha e na Alemanha Ocidental. Dirigido pelo genial diretor italiano Sergio Leone.

Nesse primeiro filme da série, todos os atores, técnicos e diretores estão com os nomes americanizados. O diretor Sergio Leone consta como sendo Bob Robertson. A trilha sonora ficou a cargo do genial maestro Ennio Morricone, que usa a sensibilidade musical para marcar presença. Nos créditos do filme seu nome aparece como Leo Nichols. Cacoetes da época.

“Por um Punhado de Dólares” provoca uma forte impressão no telespectador. Dirigido com precisão, porém sem o rigoroso estalão empregado em Três Homens em Conflito (1966) ou Por Uns Dólares a Mais (1965), Por Um Punhado de Dólares é uma espécie de crônica impiedosa que nos deixa em estado de atenção durante toda sua projeção e termina por nos fazer sorrir com amargura para a tela. A história é simples, transportada quase que de maneira integral do filme “Yojimbo – O Guarda-Costas”, de Akira Kurosawa. No caso específico desse início da Trilogia dos Dólares, temos um pistoleiro solitário e sem nome (Clint Eastwood), que chega a uma pequena vila na fronteira dos Estados Unidos com o México, um lugar dominado por duas famílias de bandidos e contrabandistas, os Baxters e os Rojos.

Apesar de não constar na apresentação, o filme cujo roteiro dispensa comentário, foi escrito por várias mãos, como sendo Sergio Leone, Andrés Catena, Jamie Comas Gil, Fernando Di Leo, Duccio Tessari, Tonino Valerii, com versão inglesa de Mark Lowell e Clint Eastwood.

Isso não desmerece em nada o filme, pois o roteiro original e a cópia italiana são perfeitos, com muita ação e belamente interpretados. A versão italiana é colorida. Quanto à versão japonesa é em preto e branco. A versão japonesa é considerada um clássico. Mas o filme “Por um Punhado de Dólares” tem uma interpretação muito convincente do ator Clint Eastwood, que foi dirigido magistralmente pelo diretor Sergio Leone, que desde este seu primeiro filme como spagheti western, demonstra a que veio e nos dá uma aula de como dirigir um filme com segurança e genialidade, isso com pouco recurso.

A História tem muito suspense, a direção é soberba e os atores são todos de primeiríssima qualidade, muitos são celebridades do cinema italiano, que confiaram no talento do diretor Sergio Leone, aceitaram o papel secundário e realizaram um belíssimo trabalho interpretativo.

Necessário faz-se chamar a atenção dos leitores para uma característica muito usada pelo diretor Sergio Leone em todos os seus filmes, sendo que neste ele usa e abusa inteligentemente dos closes. São praticamente centenas de closes em todas as cenas. O diretor procura mostrar aos espectadores a reação dos personagens com closes longos e repetidos a exaustão e os personagens reagem belamente com essa técnica com belíssimos e expressivos closes em quase todas as cenas.

As cenas finais são antológicas, principalmente o duelo final, no qual o personagem (sem nome) interpretado pelo ator Clint Eastwood, usa um escudo de ferro embaixo do seu ponche. Cena esta já histórica e sabiamente aproveitada pelo diretor Robert Zemeckis no filme “De Volta Para o Futuro nº. 3” com um resultado de muita criatividade.

A Trilha sonora é tão importante neste filme, como se fora um personagem vivo e testemunha presente dos fatos. A música pontua, chama atenção para pequenas cenas, pequenos gestos e segue os atores nas cenas em que há alguma expectativa, de modo insistente como a advertir os personagens do que está por vir. A música é um personagem do filme, coisas do maestro Ennio Morricone que já declarou que antes de fazer a música ele precisa conhecer toda história do filme e mais importante: acompanhar as principais cenas da filmagem, como ele fez no clássico “Era Uma Vez no Oeste” o que resultou naquela magnífica obra-prima do western spaghetti.

“Por um Punhado de Dólares”, apesar do pouco recurso para realizá-lo, já nasceu clássico.

Trilha sonora de “Um Punhado de Dólares do genial Ennio Morricone

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Clique aqui para assistir ao filme completo “Por um Punhado de Dólares”, primeiro da Magna Trilogia com um final antológico.

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OS CANEIROS ZÉ DE MARIA E CHICO TIRA GOSTO

Zé de Maria era um exímio caçador de pebas noturnos. Seus animais prediletos eram javalis, gambás e preás de cana de açúcar. Dizia ele terem esses animais as carnes mais saborosas do mundo para tomar com cachaça.

Um dia ouviu falar que lá nas matas do sítio de Chico Tanoeiro havia muitos gambás gordos, pois à noite eles invadiam o galinheiro do velho e comiam as galinhas de capoeira que dormiam num poleiro de madeira do quintal da casa grande. Coisas do interior.

Zé de Maria, como era chamado pelos seus colegas de copo, apesar de saber da existência dos gambás do sítio de Chico Tanoeiro, não tinha coragem de ir até lá sozinho porque tinha medo de passar por um matagal cerrado, escuro como breu que – diziam – havia muitas almas sebosas “penadas” por lá, “observando o ambiente”. Visagens que urravam durante a noite clamando pela salvação da “alma” que ainda se encontravam no purgatório, “aguardando autorização divina para entrarem no Reino do Céu” e por isso rogavam por uma ajudazinha dos “sem-pecados” da terra.

Como tinha medo de almas “penadas”, Zé de Maria resolveu chamar o colega de copo Chico Tira Gosto para ir ao sítio à noite com ele. E saíram a caçar gambás nas matas de Chico Tanoeiro, ambos armados com espingarda soca-soca: Um tiro, uma carreira!

Um dia saíram os dois armados com suas espingardas. Como Zé de Maria estava bêbado qualquer vulto que passasse em sua frente para ele era um gambá… Depois de muito observar e não ver nada, cansado, ele se deita em cima de uma touceira de capim e põe-se a roncar. Nesse momento chega Chico Tira Gosto e, sem dar conta que era o amigo, mas sim um “vulto” feito um gambá, mira a espingarda nos ovos do colega de copo, puxa o gatilho e, puffffffffffff!!, o chumbo espalhou na “trôxa” de Zé de Maria, espatifando os dois ovos murchos.

Nesse momento, Zé de Maria, sentindo o impacto do chumbo nos “grogomilos”, mesmo cambaleante de bêbado, levanta-se e percebe os “bichos” pendurados e, com o “cacho” na mão todo ensanguentado, pergunta para o colega:

-Que diacho foi isso, Chico? Arrancasse de mim o mais sagrado órgão do corpo que Deus me deu foi?! Como vou explicar a Ritinha que não posso mais comer ela guisada? Ritinha era uma galinha de capoeira gorda.

– Zé – disse Chico Tira Gosto – desculpa aí macho! Eu pensei que tua “trôxa” fosse um gambá. Esqueci-me completamente que tu tens os ovos grandes!

E, sem perder tempo, Chico Tira Gosto leva o parceiro de copo para a Maternidade municipal na carroça de burro. Chegando lá na sala de emergência preocupado com a situação do amigo, vai logo perguntando ao enfermeiro se era grave o problema e se ele corria risco de morte. Ao que o enfermeiro, sarcástico, afirma:

– Grave não é não, mas tem um porém: Se ele escapar, nunca mais vai poder comer uma bacurinha guisada porque pode inflamar! E deu um riso sarcástico: Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá! Quá!

Vídeos de bêbados engraçados

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A DEUSA DO LARGO DA ENCRUZILHADA

Para Arlete Silva, cuja beleza vai além dessas notas taquigráficas

Todas as vezes que ela passa no Largo da Encruzilhada balançando as ancas protuberantes, sensuais, cobertas por um short de helanca listado, transparente, colado à bunda hígida, um admirador lhe observa com olhar de pidão e sentimento de posse, imaginando-a toda nua nos seus braços fazendo amor com ela sob a luz da lamparina.

Ela é uma deusa de folhas de ouro ou de outro metal precioso que, na Roma antiga, era oferecida às grandes atrizes de beleza ímpar, in natura, como reconhecimento e celebração de seus atributos corporais.

– “Meu Deus! Quanta beleza, formosura, rebolado, gingado nos quadris daquela morena de bunda e pele banhada de morenidade – sem protetor solar!” – observa, sempre, o sessentão do outro lado da praça, sentado no tamborete do bar “O Apreciador”, degustando-a de desejos com a libido a flor da pele e o órgão genital intumescido dentro da cueca!

Certo dia, ela de passagem pela Praça da Encruzilhada, de repente um vento macho levanta-lhe a saia que ela tenta segurar com as mãos delicadas aquilo que o observador, à distância, já havia notado em suas andanças no lago, o que havia intimamente escondido dentro do vestido de helanca: Uma calcinha cor de rosa protegendo a sensualidade que enlouqueceu o apreciador.

Daquele dia em diante nunca mais ele conseguiu desvencilhar-se dela. A Deusa da Encruzilhada, fez morada na sua lascívia e o transformou num vassalo, escravo daquela beleza que só a Natureza é capaz de produzir nas fêmeas para os machos. Ela não precisou fazer mais nada para conquistar o coração do observador, apenas utilizar seus artifícios sensuais enigmáticos tal qual Capitu de Machado de Assis para Bentinho, com o olhar.

Ela sabe da existência dele. Sabe o quanto ele a tem como paradigma de beleza e sensualidade. Sua cor, sua pele, seu corpo trigueiro, seus olhos negros penetrantes e sexuados fazem com ele a considere a mina dos seus olhos e dos seus desejos, mas falta ela saber a falta que ela faz a ele.

Será que um dia ela vai perceber a emoção que ele sente por ela quando a ver, o coração batendo acelerado? Ou será que ela já sabe e disfarça que não para manter o segredo como idolatria?

Enquanto ela não descobre essa obsessão dele por ela ele vai vivendo de sonho porque sonhar é realizar os desejos da vontade e senti-los verdadeiros.

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FRED, UM HOMEM SEM SORTE NO AMOR

Prédio da Secretária de Saúde onde Fred conheceu a viúva

Fred era um funcionário público exemplar, exceção à regra. Cumpria seu ofício de servidor pau para toda obra. Era um exímio consertador de computadores “pinduras”, “no tranco.” Nunca saiu do setor de trabalho deixando um PC quebrado, sem funcionar. Era uma espécie de MacGyver. Quando não havia peças para consertar, ele improvisava.

Ao nascer, a família lhe pôs a alcunha de Popeye, uma homenagem ao famoso personagem clássico dos quadrinhos em miniatura criado em 1929 pelo desenhista americano Elzie Crisler Segar, por ter a cara meio deformada, sempre com um olho fechado e um protuberante queixo partido ao meio, no formato do rosto do famoso marinheiro, protetor de Oliva Palito.

Mal completou vinte e dois anos, Fred se amancebou com uma colega de trabalho de bunda protuberante e logo depois foram morar juntos, sem ele procurar se inteirar do temperamento dela, que já havia batido na cara de vários namorados e rompido o namoro, quando estes mijavam fora da bacia.

Depois de três anos juntos, Fred já era pai de dois filhos e a mulher fazendo de tudo para lhe pôr rédea. Estabeleceu hora para ele sair e chegar em casa. E quando a condução atrasava e ele chagava atrasado, o inferno estava com as velas vermelhas acesas. Era confusão até altas horas da madrugada. A mulher era uma capota choca, praguejava e acusava-o de tudo, menos de santo. E assim o tempo foi passando e o saco dele se enchendo de impaciência.

Fred passou vinte e quatro anos nesse inferno dantesco, tendo de conviver com uma mulher temperamental, dominadora. Para ela não havia argumento que lhe provasse o contrário de que ele estava com conversa mole com os amigos, raparigando e bebendo cachaça, mesmo ele chegando em casa sem bafo de ingerência de bebida alcoólica.

Passados vinte e quatro anos de brigas, bate bocas, atritos, caras feias, intrigas, indiferenças, malquerenças, Fred resolveu deixar a casa que havia construído com a companheira. Como os filhos já estavam maiores, com cursos superiores concluídos, e ela trabalhava, não havia por que se preocupar com pensão alimentícia.

Ao sair de casa Fred foi morar no kitinete perto do trabalho, alugado de um colega da repartição. Era simples, mas para ele estava bom, pois tranqüilidade não tinha preço.

Três meses depois de deixar a companheira, Fred conheceu uma viúva toda nos trinques, com idade de setenta e dois anos. Ele tinha quarenta e seis. E imaginou: dessa vez eu me arrumo e vou ter a paz de espírito que sempre desejei.

Era amorzinho praqui, amorzinho pralá, e tudo caminhando na mais perfeita sintonia, quando certo dia Fred teve uma decepção que o deixou propenso ao suicídio. Depois de a viúva ter dormido com ele no kitinete, ela foi para casa, mas lhe pediu que à noite fosse ficar com ela, dormirem juntos novamente, mas desta vez na casa dela.

Fred entusiasmado, mas feliz do que pinto no ovo, tomou um banho demorado, se perfumou todo, escovou a prótese dentária, vestiu-se com seu melhor sobretudo branco, jantou e se mandou para a casa da viúva.

Lá chegando, já à distância, percebeu que havia um monte de gente na casa dela. Eram os filhos vindo trazer presentes e comemorar seus setenta e três anos. Como Fred já sabia que os filhos, tradicionais e contrários a mudanças, não aceitavam que outro homem entrasse na vida da mãe, deu meia volta e, decepcionado, macambúzio, voltou para o kitinete e no outro dia foi encontrado enforcado no pé de maxixe, com uma garrafa de Pitu vazia ao lado do corpo.

Suicídio ou catalepsia devido à ingestão da bebida?

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TRINITY – E OS FAROESTES ESPAGUETES DOS ANOS 60-70

Texto escrito em parceria com o especialista em filmes de faroeste D.Matt

Dedicamo-lo ao mestre da coluna SEGUNDA SEM LEI, Altamir Pinheiro

Imagem de cartaz do primeiro filme da franquia Trinity (1970)

Subgêneros dos filmes Westerns Spaghetti, os filmes da franquia Trinity transformaram o Velho Oeste em comedia pastelão no início dos anos setenta na Itália, com conteúdo humor e pancadaria, à semelhança dos Trapalhões no Brasil. Por trás da maioria desses filmes houve diretores promissores, que depois vieram a fazer filmes de faroeste clássico, como Sergio Corbucci, Enzo Barboni e Lucio Filci. Este último vindo a se tornar mestre em filme de terror. E Sergio Corbucci responsável pela obra-prima fantasmagórica do western spaghetti, DJANGO (1966), com o ator Franco Nero numa atuação memorável.

Surgido em pleno auge da contra-cultura, Trinity se apresentava como um típico hippie vagabundo, vestindo roupas velhas e rasgadas, coberto de poeira do deserto dos pés à cabeça. Para as longas travessias do Velho Oeste, ele usa uma “cama índia” (espécie de padiola), puxada pelo seu obediente cavalo.

O primeiro filme da série a estrear chamava-se Lo Chiamavano Trinita (1970), traduzido no Brasil para Meu Nome é Trinity, tendo como novidade o pistoleiro mais rápido do gatilho no Velho Oeste, Terence Hill, e seu parceiro brutamonte, Bud Spencer, que formaram uma dupla extremamente marcante do subgênero western spaghetti macarrônico.

Terence Hill, antes de fazer esses filmes de paródia western, teve um inicio bastante promissor e atuou com destaque no clássico do grande diretor Luciano Visconti, no elogiadíssimo filme “IL GATTOPARDO” que tem como astros principais, nada menos que Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale. Nesse filme Terrence Hill faz um personagem militar amigo do personagem interpretado pelo ator Alain Delon.

Caio Pedersoli e Mario Girotti, ou Terence Hill e But Spencer, respectivamente, para atuarem nos Trinity, adotaram nomes artísticos em inglês e atingiram um sucesso bastante significativo principalmente a partir da produção Trinity é Meu Nome (1970). A dupla seguiu atuando junto em diversos longas do faroeste macarrônico italiano, com uma sintonia que ultrapassava as telas e materializava a participação dos dois como parceiros insubstituíveis.

As paródias e versões cômicas no subgênero trouxeram um ar novo ao cinema italiano, mas de nada serviram para a continuidade do subgênero inspirado nos longas americanos. Mesmo sendo responsáveis por tornar a parceria dos atores internacionalmente conhecida, os filmes contavam cada vez mais com uma produção de baixa qualidade. Os longas perdiam suas características à medida que eram encharcados dehumor lugar-comum.

Os filmes foram se afastando do que inicialmente havia sido o spaghetti western que chegou a preocupar críticos por ameaçar o western tradicional. Os cômicos ainda atraíam multidões em busca dos títulos de faroeste italiano, mas, com o passar dos anos, nenhum desses longas se tornou um verdadeiro clássico, como os de Sergio Leone ou Sergio Corbucci. Se nos anos de glória do subgênero – entre 1966 e 1971 – se produziram mais de 70 longas, no ano de 1973 apenas dois filmes foram lançados.

O certo é que os faroestes macarrônicos, ou western movies, tiveram seu apogeu a partir de 1970 quando foi lançado Trinity é Meu Nome, que alcançou grande sucesso de público e bilheteria.

Depois do grande sucesso de Chamam-me Trinity os italianos lançaram outro longa metragem com a mesma dupla Terence Hill e Bud Spencer vivendo os mesmos personagens da fita anterior em outra sátira de morrer de rir, com o diretor ENZO BARBONI, que fazia uma paródia atacando e destruindo os velhos mitos do Velho Oeste, de pistoleiros a jogadores. Bem mais engraçada que a anterior, este Trinity não deixa nada sem deboche e extasia de tanto rir a dupla Terencer Hill e Bud Spencer, que esbanja simpatia.

Trinity, Terence Hill, é um andarilho e pistoleiro que acaba chegando à cidade na qual Bambino (Bud Spencer), seu irmão e ladrão, está disfarçado, atuando como Xerife local. Eles tentam passar despercebidos mas tudo dá errado quando se envolvem em um conflito de terras entre um grupo de mórmons e um grande barão local, que deseja se apropriar dos territórios dos colonos.

Estima-se que nos anos 1970 foram produzidos dezenas de filmes com a marca Trinity, mas apenas dois ultrapassaram as fronteiras da Itália com crítica e público favoráveis: “Trinity é Meu Nome” (1970) e “Trinity Ainda é Meu Nome” (1971), ambos dirigidos por Enzo Barboni, pseudônimo de E.B. Clucher, tendo como atores principais a dupla de grande popularidade Terence Hill e Bud Spencer. Mas depois foram perdendo público e crítica pela baixa qualidade das produções, baixo orçamento e falta de criatividade dos realizadores. Sua arte inovadora deu lugar a histórias fáceis e sem graça.

Clique aqui para assistir Trinity é meu Nome. Primeiro filme completo da série.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O VIADO, A SELA E O DOUTOR

O neto do jumento Pierre Collier

Paulinho de Zefinha era um matuto apombalhado que saiu do distrito de Lagoa do Carro, Pernambuco, nos anos oitenta para cursar Ciências Políticas na UFPE. Seu sonho: Ser professor estadual!

Como se destacava dos demais calouros por ser grandalhão, fez amizade na classe com o colega Jeferson Fron, um rapagão falsa bandeira da capital, frequentador assíduo das baladas afrangalhadas das noites recifenses.

Entrosado em todos os trabalhos de classe, Paulinho não desconfiava das tendências viadais de Jeferson e convidou-o para ir ao sítio dos pais em Lagoa do Carro para passar um final de semana em contato com a natureza e os animais de estimação.

Jeferson adorou a ideia e num final de semana viajou com Paulinho para o sítio. Chegando lá ficou encantado com o negão Adamastor Pezão, pau para toda obra no sítio, um metro e oitenta e oito de altura, braços e dedos grossos, beiço de gamela, butina quarenta e quatro nos pés… Era um Hulk Preto!

Além de Adamastor Pezão, Jeferson ficou com água na boca quando viu o jumento Pierre Collier, com a jatumama dura, maior do que a de Polodoro, pra lá e pra cá, correndo atrás das jumentas no cio. Era pai de todos os jegues e éguas que nasciam no sítio! Um gigante!

À noite, quando todo mundo estava dormindo, Jerferson, não resistindo ao tamanho da picana de Pierre Collier, levantou-se da cama de campanha na ponta dos dedos dos pés, e, no silêncio da noite, foi direto à estrebaria onde o jumento dormia em pé para provar da mortadela jeguista.

Lá, no escuro da noite sem luar, Jerferson o alisou, passou a mão por todas as partes íntimas do jumento, pegou-lhe na jatumama já pra lá de dura e, não resistindo, arriou a bermuda e deixou entrar só o “chapéu”… Depois do coito zoofílico, correu para cama, todo ensanguentado e dolorido, andando com as pernas abertas, em forma de cangalha.

Manhanzinha Paulinho percebendo a ausência de Jerferson na hora do café, foi até a varanda da casa onde ele se encontrava deitado. Encontrando-o gemendo e com o oi da goiaba sangrando.

Assustado com a cena furical, Paulinho perguntou o que aconteceu:

– Paulinho – disfarçou Jerferson – me desculpa cara. Mas é que eu não resisti à noite, tomei a liberdade de andar de cavalo, pus a sela em Pierre Collier e, quando escanchei as pernas e fui apoiar as nádegas, sentei-me mesmo no pito da sela que entrou todinha no meu rabo e desde ontem está sangrando e doendo muito!

Assustado com o desmantelo, Paulinho não perdeu tempo diante da situação. Pegou o opala do pai e levou Jerferson às pressas à maternidade local onde havia um clínico geral, com especialidade em proctologia.

Assim que chegou à maternidade, Paulinho não perdeu tempo, tibungou com Jerferson no corredor e foi direto para sala de emergência.

O médico que estava de plantão era o clínico geral e proctologista Hildebrando Sarapião que, percebendo a gravidade do problema e desconfiando da sinceridade de Jerferson, perguntou-lhe:

– Como foi esse acidente, meu filho? Foi no pito da sela mesmo ou você andou fazendo traquinagem que não devia. Olhe, eu vou fazer um tratamento aqui com penicilina e óleo de peroba. Mas se não estancar a sangria eu vou ter de utilizar um antibiótico novo que chegou de Cuba aqui na Maternidade. Agora só tem um detalhe: Se você estiver mentindo o remédio vai ter um efeito colateral do caralho! Além de sofrer com insuportáveis dores, vai ter uma hemorragia letal que pode levá-lo a óbito! Portanto, é melhor contar a verdade!

Ao que Jerferson, temeroso, e desconfiado que o médico, experiente, já estava por dentro do “acidente”, confessou:

– Doutor, o senhor está certo! Eu senti uma atração irresistível pela mimosana do jumento do sítio e não perdi tempo! Foi muito bom o desejo, doutor, mas quando entrou o “chapéu”… eu desmaiei e só vim me acordar no outro dia todo ensanguentado com o Paulinho me chamando e perguntando o que era isso no meu ânus. Agora não conta nada pra ele não, visse doutor! É que eu sou viado, mas gostaria que ele não soubesse!

O médico deu um sorriso irônico no canto da boca e ficou a refletir olhando a imagem de Santo Agostinho instalada na parede da sala de plantão, e pensou: Os tempos estão mudando!