CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MAR ADENTRO (2004) – REFLEXÃO SOBRE A MORTE ASSISTIDA

“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.

MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.

Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.

Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.

A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.

Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.

Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.

Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.

O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.

Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.

Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.

a) Filme | Mar Adentro

b) Cinema penal: “Mar Adentro” (Espanha, 2004)

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O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998) – UMA OBRA-PRIMA SOBRE A ESTUPIDEZ DA GUERRA

Caos da guerra com realismo e intensidade

Filmes de guerra são normais no cinema, mas nenhum conseguiu ter o mesmo impacto de “O Resgate do Soldado Ryan,” um dos melhores filmes de guerra já realizado na história do cinema no Século XX. Sua abertura é épica, sua qualidade técnica é deslumbrante. O diretor Steven Spielberg, um dos maiores cineasta da atualidade, usa muitos efeitos práticos. A movimentação de câmara é frenética e coloca o telespectador dentro do campo de batalha, onde tem uma ambientação realista demais e agonizante, com soltados sendo baleados, feridos, mutilados e mortos. Nessa abertura épica, que dura mais de trinta minutos o tiroteio, a água do oceano vira um mar de sangue humano.

Essa sequência inicial do desembarque na praia de Omaha, na França, é perfeita. Somos dignificados a assistir quase meia hora de situações brutais e ásperas, promotoras de um senso de perda muito forte, que casa com o fato deste ser um retrato fidedigno do que realmente acontecera no fatídico Dia D. Ainda não fomos apresentados aos personagens, não nos importamos com eles sob um viés formal, mas, mesmo assim, Steven Spielberg faz com que cada baixa seja impactante. A câmera é deslocada para o meio do confronto e o público sente o pesar da situação, como provavelmente nunca sentira anteriormente.

O trabalho sonoro do longa metragem impressiona, tanto a edição quanto a mixagem de som são sensacionais. O trabalho de edição e montagem é espetacular e sempre mantém um bom ritmo narrativo, além da excelente fotografia campal e a maquiagem. O roteiro nunca deixa a imersão de lado, mesmo quando o ritmo é mais calmo, com excelentes diálogos.

No elenco temos grandes atuações e uma história curiosa: Steven Spielberg queria que um ator desconhecido fosse contratado e escolheu Matt Damon que, ironicamente, ganhou o Oscar de melhor roteiro e melhor ator em “Gênio Indomável” em 1997, antes do lançamento de “O Resgate do Soldado Ryan” pelo trabalho de “Gênio Indomável,” o que trouxe mais holofotes ao filme.

Matt Dalmon está extraordinário no papel do soldado Ryan, apesar de aparecer no final do segundo ato. Ryan Hurst, Tom Sizemore, Edward Burns, Barry Pepper e Adam Goldberg estão todos bem comprometidos no papel, mas quem tem maior destaque é Tom Hanks. Ele possui uma carga dramática excepcional e passa um conhecimento de general que impressiona. Ele passa o lado humano e a angústia pela morte de cada um soldado do seu grupo, ele sente a culpa pela morte.

Não é à toa que Tom Hanks foi indicado ao Oscar de melhor ator e ganhou. E o filme foi indicado a 11 Oscars, rendendo para Steven Spielberg a estatueta de melhor diretor. Um filme perfeito em som, fotografia, elenco, direção. Um filme bem escrito, emocionante, um dos melhores da carreira do diretor Spiolberg. O melhor filme de guerra já produzido.

O “Resgate do Soldado Ryan” é um filme genial sobre guerra, essa estupidez humana. Jamais aparecerá outro igual na história do cinema.

O Resgate do Soldado Ryan – Trailer Oficial

O Resgate do Soldado Ryan (1998) | Crítica | Review

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IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO (1966)

Cena icônica do cemitério, onde a ambição está debaixo da terra

Terceiro filme da Magna Trilogia dos Dólares: o Bom, o Mau e o Feio, ou Três Homens em Conflito, é uma inquestionável obra de arte do cinema Western Spaghetti. É um filme que mostrou ao mundo o quão talentoso era Sergio Leone. Apesar de suas quase três horas de duração, o filme é inteligentemente ágil e impressionantemente hábil.

O longa-metragem completa a Trilogia dos Dólares agora com três protagonistas. O Bom, o Homem sem Nome; o Mau, Olhos de Anjo e o Feio, Tuco. Cada um apresentado no primeiro ato: O Bom, ainda trabalha como caçador de recompensas, o Feio é um bandido cruel e o Mau, um homem em busca de um tesouro perdido de 200.000 mil dólares no cemitério…

Ambientado na Guerra Guerra de Secessão dos Estados Unidos, o filme gira em torno de três homens em busca de um tesouro perdido. O bom, o mal e o feio é uma alusão ao próprio cinema americano, que sempre utilizava personagens maniqueístas. Esta não é a intenção da obra aqui, cada personagem tem nuances de bem e mal. O clima sujo e realista da época é trespassado por olhares penetrantes que parecem encarar o próprio espectador, a habilidade dos atores, apesar de surpreendente, não parece sobrenatural como em outros filmes. O destaque fica por conta dos duelos ao longo do filme, culminando com um grande duelo final que você deve ver para compreender.

Clint Eastwood continua no seu personagem o Homem sem Nome, (com o codinome de Lourinho), personagem que ele incorpora com habilidade e mestria. O Lee Van Cleef soube criar um personagem carismático, numa interpretação magnífica. Um ótimo ator que qualquer diretor gostaria de tê-lo interpretando qualquer personagem coadjuvante ou principal.

Mas, o mais extraordinário é a atuação do ator Eli Wallach. Seu desempenho é magistral. Ele aparece em quase todas as cenas, com grande atuação interpretativa. Na verdade, ele é o ator principal, pois tem o triplo das ‘falas” dos demais personagens e sua versatilidade supera o limite da interpretação.

Durante todo o filme o telespectador fica torcendo pela sua aparição, pois ele ” rouba” todas as cenas em que aparece, inclusive a sua atuação tem mais intensidade que a de todos os demais atores.

As cenas principais se intensificam do meio para o fim do filme, quando os personagens se envolvem com a guerra civil americana, com cenas de guerra violentas, campo de prisioneiros, sadismo de oficiais… Tudo apresentado e encaixado com genialidade pelo diretor Sergio Leone.

Mais uma vez o diretor faz uso constante da técnica de “closes” dos personagens, pois com esses “closes” é possível mostrar a reação dos personagens diante do perigo ou do inesperado.

Para saber usar esses “closes” com eficiência, o diretor precisa ser um mestre e também os atores, pois se o ator não souber reagir adequadamente a um “close” de alguns segundos e não souber demonstrar o que está sentindo, fica com cara de idiota. Mas nas mãos do diretor Sergio Leone tudo fica magnificamente superlativo.

O filme é repleto de muita ação inesquecível e certamente agradou e agrada a todos aficionados do tema em qualquer época, que apreciam uma boa história de faroeste. Não se deseja aqui contar a história do filme, apenas informar que o fato principal é que os três personagens principais acabam se envolvendo no resgate de um grande tesouro de ouro, roubado do exército e escondido numa cova em um cemitério…

O duelo final entre os três personagens no cemitério é uma cena antológica, memorável, que dura aproximadamente uns 10 minutos, sem qualquer diálogo. É filmado numa pretensa arena circular no meio do cemitério, apenas pontuando a magnífica trilha sonora do genial maestro Ennio Morricone.

Sobre esse filme, um crítico experiente declarou em um artigo: “Sem sombra de dúvida, o western mais ambicioso e influente já produzido. É uma aventura audaciosa que mudou para sempre o futuro do gênero.”

E saber que essa extraordinária, monumental, memorável obra de grande perfeição fílmica foi feita muito antes de Leone criar mais outra obra-prima do gênero: “Era uma Vez no Oeste,” não há que se discutir até onde vai a capacidade criativa de um gênio.

Porém há muito mais substância e camadas em o Bom, o Mau e o Feio ou Três Homens em Conflito do que se possa pensar à primeira vista. Não se trata de um filme difícil em termos de conteúdo, mas talvez na interpretação de suas riquezas simbólicas, que podem ser escancaradas ou estarem nas estrelinhas.

Além disso, o espectador precisa ver o filme sem pressa de que ele alimente respostas ou verdadeiro sentido antes do final, pois aí é que está a sacada do diretor Sergio Leone. Ele nos guia por um caminho de busca e luta entre dois lados, cada um atormentado por um demônio e com um objetivo egoísta para cumprir. Ao chegar ao definitivo clímax, ele reverte o jogo e nos escancara o dilema da solidão, do sentido para a vida do homem em busca de dinheiro ou justiça. Nesse ponto final, há uma seta que nos faz retornar para o início da obra, onde a frase de abertura, enfim, alcança o seu real sentido: “Onde a vida já não tinha mais valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis que surgiram os caçadores de recompensas“.

Sergio Leone foi o único cineasta da História do faroeste que teve uma terceira chance de causar mais uma impressão.

Três Homens em Conflito ( Itália / 1966 ) – Trailer Oficial

14 Curiosidades Inéditas Sobre o Filme O Bom O Mau e o Feio

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RÁPIDA E MORTAL (1995), UM SPAGHETTI WESTERN CULT

Cartaz quando lançado em DVD

“RÁPIDA E MORTAL,” é dirigido pelo diretor americano Sam Raimi, famoso por dirigir a série de filmes do Homem-Aranha. Conta a história de uma mulher misteriosa, Ellen, que cavalga até a cidade fictícia de Redemption em busca do homem que a obrigou a atirar no seu pai quando criança. Ela vem para matar o poderoso xerife da cidade, o homem que tornou o lugarejo desolado por suas ações cruéis qual o deserto que agora ela atravessa para chegar lá. Mas os demônios que a levaram para este mortal conflito são os mesmos que a colocaram numa situação limite; e o estranho é que pode ser a única a cair morta ao final do acerto de contas. Estrelado por Sharon Stone no papel da atriz principal, ela é a mulher sedutora de homens em “Instinto Selvagem” e Gene Hackman, cinco vezes indicado ao Oscar, vencedor por duas vezes, numa atuação magistral como o xerife vingativo.

“Rápida e Mortal” é um faroeste que diverte. Não é uma obra-prima, mas diverte. Mas o pior é que o filme diverte mesmo. Prepare-se para tiroteios rápidos, vilões cruéis e caricatos, e mortes mais que dramáticas. O filme em si é exagerado, mas esta é a fórmula certa, o exagero para divertir. O diretor Sam Raimi conduziu a brincadeira certinha. Mas miss Stone estava bem à vontade, até porque o filme teve poder de barganha da loura. Ela mandava em Hollywood naquela época. Coadjuvantes de luxo do porte de Leonardo Di Caprio e Russel Crowe, mas mesmo assim o filme não decolou e caiu no esquecimento. O que fica de reflexão é porque Hollywood é tão injusta com seus mitos? Di Caprio e Crowe nesta época eram quase desconhecidos e Sharon era a rainha da cocada preta; hoje Crowe e Di Caprio figuram como os maiores astros de Hollywood enquanto a estrela de Sharon se apagou e a cocada preta um anjo torto comeu.

A coragem de Sam Raimi se afirma na confiança do protagonismo a uma mulher. Em território historicamente dominado por homens, no qual a mulher ou era submissa ou prostituta, surge cavalgando no horizonte a bela Ellen (Sharon Stone). Vestida de cowboy, arma no coldre, chapéu e aquele olhar ferino tipo “Estranho Sem Nome”, ela chega até a cidade de Redemption em busca da boa e velha vingança, tema abundante num período em que 09 entre 10 pessoas carregavam armas nas ruas e, não raro, davam vazão à raiva metendo bala na cabeça de alguém. No caso de Ellen, a desforra tem razões mais sombrias e remonta ao assassinato do pai, então Xerife, pelo bando de John Herod (Gene Hackman) que, claro, ela encontrará na cidadela com nome de premonição.

John Herod promove na ocasião um torneio de tiro, onde viver é sinal de vitória. Ele traz forçosamente o velho parceiro Cort (Russell Crowe) para a peleja, tirando-o da vida dedicada às pregações religiosas para lembrá-lo de seu passado assassino. Cort, rápido e letal, será uma espécie de suporte psicológico a Ellen. Além da vingança, outro tema trabalhado em Rápida e Mortal é a relação pai/filho, uma vez que Herod terá como oponente seu próprio filho Fee “The Kid”, (Leonardo Di Caprio), jovem ávido para provar ao pai seu valor, nem que para isso precise matá-lo em duelo.

Sam Raimi cozinha esse assado numa panela repleta de referências, sendo a principal delas o italiano Sérgio Leone, ícone do chamado spaghetti western, e o maior diretor de faroeste do Século XX. Entre filiar-se à tradição estadunidense e seguir a maior dramaticidade do bangue-bangue europeu, o diretor envereda visualmente pela segunda, muito mais próxima de seu itinerário estilístico repleto de ângulos insólitos e tipos marcados.

Mas Raimi não se propõe ao pastiche, dotando Rápida e Mortal de identidade própria e carimba com sua assinatura contumaz. Quiçá o problema (se isso for problema) maior do filme reside no eclipse da protagonista por dois personagens tão ou mais fortes que ela própria: Herod e Cort. Algo a ver com as interpretações contundentes de Gene Hackman e Russell Crowe, frente à burocrática Sharon Stone? Pode ser. Independente dessas questões, Rápida e Mortal é um filme que tem seus brios, empolgantes e cheios de energia. Se não trouxe nada de novo para o gênero, o resgatou dignamente do limbo.

Por isso, o filme possui várias qualidades, e uma delas é seu elenco impressivo. Dentre os atores presentes no filme, tem-se a presença de Sharon Stone, Gene Hackman, Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, então o filme apresenta um conjunto de atores talentosos. Apesar de que na época o impacto de alguns desses nomes não ser o mesmo de hoje, já que o filme foi feito com o DiCaprio antes de fazer Titanic e Crowe antes de ganhar seu Oscar. Isso não tira o peso de suas performances. Mas é Hackman, que dá um show, com uma atuação que eleva o personagem que ele interpreta. Tem presença de tela e que sabe entregar ótimos diálogos.

Um dos pontos altos do filme são as cenas dos duelos, que são bem trabalhadas, e todas elas são distintas umas das outras, principalmente por causa do ritmo e da edição, que sempre varia e impede que as cenas pareçam repetitivas. O filme também é ótimo tecnicamente falando, já que possui ótimos cenários, com um design de produção coerente, assim como os figurinos, que combinam com a personalidade de seus personagens. A trilha de Alan Silvestri casa com o filme de forma perfeita, e a música tema do filme é bastante melódica e memorável.

“Rápido e Mortal”, é um faroeste trush divertido, apesar de ser um filme com mais estilo do que substância. Relevam-se todos os problemas com o roteiro e alguns personagens. São uma hora e trinta minutos que passam rápido e cumpre seu papel de entretenimento, para os que gostam do gênero spaghett western.

Trailer de Cinema de “Rápida e Mortal”

RÁPIDA E MORTAL (The Quick and the Dead, 1995) – Crítica

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WARLOCK (1959) – MINHA VONTADE É LEI

Faroeste estrelado pelo brilhante ator Henry Fonda, no papel do pistoleiro Clay Blaisedell, Antony Quinn, no papel do pistoleiro (Tom Morgan) e Richard Widmark.

A vila de Warlock, onde se passa a história, tem um recorrente problema com um perigoso bando sediado no Rancho San Pablo, que constantemente saqueia a cidade e segue matando ou expulsando os Xerifes dali. Uma reunião do Conselho local decide então contratar um experiente e famoso pistoleiro (personagem vivido de maneira brilhante por Henry Fonda) para agir como Xerife, embora isso não seja lá uma atitude oficial/legal, mas uma medida desesperada dos cidadãos. Esse contratado salvador impõe uma série de regras aos cidadãos, entre elas, a presença de seu inseparável amigo (personagem também vivido de maneira brilhante por Anthony Quinn) e ambos irão iniciar sua trajetória de “colocar a cidade nos eixos”.

O diretor Edward Dmytryk faz um bom uso de sua larga experiência dramática para conduzir o soberbo elenco do filme, grupo que merece todos os elogios possíveis. Se a mesma direção perde a mão na condução das subtramas amorosas (a verdadeira pedra no sapato do filme) e não consegue juntar bem as muitas subtramas na parte final da fita (abrindo aí também um problema de ritmo pela montagem), é na direção de atores e na condução de cenas mais densas, com diálogos inteligentes e cheios de significado que o cineasta consegue as suas maiores conquistas. Aliado ao excelente trabalho do fotógrafo Joseph MacDonald com o CinemaScope, o diretor ainda consegue destaque na construção de belas cenas utilizando a paisagem, com destaque para a tentativa de roubo de uma diligência e um certo encontro romântico nos arredores da cidade.

Minha Vontade é Lei sai bastante do convencional, explorando questões psicológicas ou criando subtramas familiares e amorosas que ganham grande espaço no desenvolvimento da história, diminuindo consideravelmente os enfrentamentos, perseguições e fugas. A ação é majoritariamente centrada na cidade de Warlock e, à parte, os dilemas humanos desenvolvidos em distintos núcleos, levanta questões sobre o exercício do direito (enforcamento, linchamento e licença para matar ou estabelecer o controle frente aos cidadãos são temas discutidos) e questões sociopolíticas que jogam com os dilemas morais de cada grupo social àquela época.

Assim, vem à tona o caráter das mulheres e dos homens que elas amam; o desejo de um amigo para com o outro; a ânsia de ser herói, estar junto, morrer defendendo uma causa; ou a mudança de personagens dúbios ou foras-da-lei para o lado dos mocinhos. Estes são assuntos discutidos amplamente no filme. o que de certo modo o torna, como disseram alguns críticos à época de seu lançamento, “cerebral demais“.

A plácida direção de Dmytryk, assim como a trilha sonora muito bem marcada por peças épicas e outras mais sentimentais conseguem um bom resultado diante disso. Até a fotografia tem uma marca definitiva nesta seara, ao final da obra, quando ilumina com forte cor azul um saloon incendiado, contrastando aquela sequência à paleta de todo o restante da fita.

Existe uma aparência anticlimática vinda com a resolução da obra, mas este certamente é um final esperado para um filme que o tempo inteiro discute a aplicação da lei versus os desejos e gostos dos personagens. Quando lançado, o longa não chamou muita atenção, mas teve o seu reconhecimento a posteriori. Um faroeste diferente, intenso, inteligente. Uma obra que certamente conseguiu fugir dos clichês de seu gênero, por mérito dos seus dois personagens principal, principalmente o pistoleiro Clay Blaisedell, vivido por Henry Fonda.

Western Official Traile

Resenha

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O LEOPARDO

Texto escrito em parceria com o especialista em filme de faroeste D.Matt

Burt Lancaster/Alain Delon e Claudia Cardinale em cena clássica de baile

O Leopardo (1963), a obra-prima de Luchino Visconti é uma mistura de sensações, que faz conviver elementos tensionados sem resolvê-los completamente, sempre respeitando a complexidade do que não se unifica.

O filme reconstrói, com uma fotografia magistral, o período da atmosfera vivida nos palácios da aristocracia durante o conturbado reinado de Francisco II das Duas Sicílias e o “Risorgimento,” longo processo de unificação dos estados autônomos que originaram o Reino da Itália, em 1870.

O cenário político italiano é reconstituído com o intuito de interferir em dilemas dos personagens ficcionais, o confuso processo de unificação italiana, do príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster) testemunha da decadência da nobreza e da ascensão da burguesia. Num cenário caótico de fortes contradições políticas ele luta para manter seus valores.

Em meio à opulência e ruína, jogo de forças entre a nostalgia do passado e a mola propulsora que dirige o presente ao futuro. Bailes aristocráticos, quadros valorosos, tapeçarias cuidadosas, bustos estatuários, cômodos intermináveis, a grandeza, o encanto visual; em paralelo, o pó, a melancolia, o vagar paralítico, a indefinição, o tédio, a morbidez, a iminência do fim.

A experiência de apreciar o filme é única, visto que a grandiosidade de Visconti é potencializada, o primor de sua direção é destacado e o talento da composição musical de Nino Rota se realça pelo poder sonoro. Quando o desfecho é anunciado pela legenda do “fim” (“fine”, em italiano), a gente aplaude, entusiasmado. Que beleza, que ternura, que tessitura encantadora do estilo Visconti! Filmes como esse renovam o contrato de amor do cinéfilo com sua arte. Mais ainda: justificam a razão de ser da nossa espécie.

O cineasta Luchino Visconti (um nobre italiano “Conde de Lonate Pozzolo”,) um artista de grande sensibilidade, criador de obras de arte, no cinema e no teatro italiano, entregou-se de corpo e alma na criação deste filme que é a versão cinematográfica do livro clássico italiano Il Gattopardo. O filme, apesar de toda produção e direção de arte ser genuinamente italiana, por questões comerciais imposta pelos produtores, tem versão falada em italiano e versão em inglês, assim como, devido a imposição dos financiadores americanos, Visconti foi obrigado a aceitar como astro principal o ator norte americano Burt Lancaster, que não era a sua escolha prevista.

Sorte do Visconti, pois neste filme o ator americano Burt Lancaster premia o telespectador com um desempenho memorável, talvez o maior da sua gloriosa carreira, quando personaliza o Príncipe, vivendo em um esplendor já agonizante da nobreza Italiana, que continua escondendo a crua realidade da decadência, com um Fausto desgastado e ilusório.

A produção de arte é de extremo bom gosto, a montagem é de excelente qualidade, pois durante todo o filme intercala cenas do fausto atual, com cenas dos aposentos vazios, empoeirados e mobiliário desgastado mostrando que na atualidade é o que restou da esplendorosa e luxuosa “corte” dos nobres retratados.

O elenco escolhido a dedo pelo requintado diretor, é composto por ótimos atores, todos muito convincentes nos seus personagens, atores consagrados como Alain Delon e a magnífica Claudia Cardinale.

A presença de Claudia Cardinale é um prêmio, não só para o filme, como também para os expectadores, sua simpatia, beleza e grande presença em cena. Dá ao filme e em particular em todas as cenas em que participa uma demonstração de que estamos diante de uma estrela maior. As suas cenas com o príncipe são magníficas. Ela demonstra sua versatilidade com grande lance e olhares sedutores, o modo como ela seduz o príncipe, para obter o seu apoio e ser aceita na nobre família como uma igual, é simplesmente impagável.

A saga relatada e exposta no filme é bem explícita, quando demonstra, sem discursos, poucos fatos e ações e apenas comportamentos, de todos os personagens e principalmente do príncipe de que a nobreza está decrépita e que é preciso uma revolução, mudar tudo, para que possa continuar existindo teimosamente como sempre existiu. “Algo deve mudar para que continue como está”, diz o personagem Tancredi Falconeri, interpretado por Alain Delon.


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ASSIS VALENTE – UM GÊNIO ATORMENTADO

Assis Valente e Carmen Miranda

O genial compositor José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911 no distrito de Bom Jardim, Santo Amaro, Bahia, município do Recôncavo baiano e encantou-se em 1958, tomando formicida com guaraná sentado no banco de Rua do Rio de Janeiro, vindo a falecer horas depois.

Ficou conhecido no meio artístico como Assis Valente, compositor genial, dono de uma versatilidade extraordinária para compor clássicos alcançáveis a toda classe social, desenhar e fazer escultura.

Tornou-se conhecido por compor diversos sucessos para Aracy Cortez, o Bando da Lua, Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo e Carmen Miranda. Para esta compôs inúmeros sucessos, além de nutrir-lhe uma paixão arrebatadora.

Na época, teve a canção “Brasil Pandeiro”, samba exaltação recusada pela Pequena Notável, o que lhe deixou triste, que depois se tornou um imenso sucesso com os “Anjos do Inferno,” conjunto vocal instrumental brasileiro de samba e marchinhas de carnaval formado em 1934, e principalmente com os Novos Baianos, conjunto musical brasileiro, nascido na Bahia na época da Tropicália, atingindo seu auge entre os anos de 1969 a 1979, por mesclar guitarra elétrica, baixo e bateria com cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô.

Formado por Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão. Carmem Miranda veio a se arrepender depois por não ter gravado Brasil Pandeiro, que alcançou enorme sucesso na voz dos Novos Baianos, gravada no segundo Long Play do conjunto “Acabou Chorare”, de 1972.

Assis Valente era filho de José de Assis Valente e Maria Esteves Valente. Segundo relato da época, fora roubado dos pais ainda pequeno, sendo depois entregue a uma família de Santo Amaro que lhe deu educação, ao mesmo tempo em que o forçava trabalhar, algo extenuante, semi-escravidão para ele que não morria de amores pela profissão.

Quando tinha seis anos, houve nova mudança na vida, passando a ser criado por um casal de Alagoinhas, Georgina e Manoel Cana Brasil, dentista naquela cidade. Assis Valente realizava trabalhos domésticos a contragosto, mas com a mudança do casal para a capital baiana, logo conseguiu trabalho no Hospital Santa Izabel e, por suas habilidades, acabou sendo contratado pelo médico irmão de seu pai adotivo, que dirigia a Maternidade da Bahia. Ali demonstrou talento para as artes e foi matriculado pelos criadores no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, a fim de aprimorar-se no desenho e em escultura, dividindo seu tempo entre o trabalho e o estudo.

Por esta época, foi convidado por um padre para trabalhar num hospital católico na interiorana cidade de Senhor do Bonfim, mas ao declamar versos anticlericais do poeta Guerra Junqueiro, político e panfletário da escola nova, numa festa popular, foi demitido. Juntou-se, então, ao Circo Brasileiro, onde declamava versos de grandes poetas de improviso, que encantava a todos que estivessem presentes, admirados com seu talento precoce!

Em 1927 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se empregou como protético e conseguiu publicar alguns desenhos em magazines como Shimmy e Fon-Fon, revistas brasileiras fundadas no Rio de Janeiro no ano de 1907.

Em função de uma dívida cobrada por Elvira Pagã, atriz, cantora, compositora e vedete brasileira da época, Assis Valente tentou o suicídio pela primeira vez, cortando os pulsos. Elvira cantara alguns de seus sucessos junto com a irmã.

Casou-se, em 23 de dezembro de 1939, com Nadyli da Silva Santos. Em 1941, no dia 13 de maio, tentaria o suicídio mais uma vez, saltando do Corcovado – tentativa frustrada por haver a queda sido amortecida pelas árvores. Em 1942 nasce sua única filha, Nara Nadyli, depois se separa da esposa devido à vida pregressa que levava!

Em 06 de março de 1958, com 46 anos apenas, desesperado com as dívidas com agiotas, Assis Valente foi ao escritório de direitos autorais, na esperança de conseguir dinheiro. Ali só conseguiu um calmante. Telefonou aos empregados, instruindo-os no caso de sua morte, e depois para dois amigos, comunicando sua decisão.

Sentado num banco de rua ingeriu formicida com guaraná, deixando no bolso um bilhete à polícia, onde pedia ao também compositor e amigo Ary Barroso que lhe pagasse dois alugueis em atraso. No bilhete, o último verso:

“Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.”

Seu trabalho foi um do mais profícuo na música. Conta-se que chegava a compor quase uma canção por dia, muitas delas vendidas a baixos preços para “comprositores” que então figuravam como autores. Seu primeiro sucesso de 1932 foi Tem Francesa no Morro, cantado por Aracy Cortez. Foi autor, também, de peças para o Teatro de Revista, como “Rei Momo na Guerra”, de 1943, em parceria com Freire Júnior.

Após sua morte, foi sendo esquecido, para ser finalmente redescoberto nos anos 1960, na voz de grandes intérpretes da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Novos Baianos, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, dentre outros.

Em 2014 teve uma biografia digna lançada, a altura da sua genialidade, “ Quem samba tem alegria: A vida e o tempo de Assis Valente”, escrita pelo pesquisador baiano Gonçalo Junior, recheado de revelações sobre o grande compositor de “Boas Festas”, sem dúvida a mais perfeita tradução da farsa do velhinho do trenó.

Suas canções foram regravadas depois de sua morte alcançando enorme sucesso. Algumas composições suas trazem um conteúdo poético sutil que buscam emocionar; outras trazem um teor mais reflexivo. Assis Valente tinha na alma a verve da mistura brasileira. Exemplo: A composição “Boas Festas”, a letra tem uma ironia refinadíssima, típica de sua alma genialmente errática.

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

* * *

AO CHIADO BRASILEIRO – ASSIS VALENTE

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

A VELHICE É O PREÇO QUE SE PAGA PARA CONTINUAR VIVO

Segundo o psiquiatra Emanoel Bione, ou como ele gosta de ser chamado, Bione Cão, ex diretor do Hospital da Tamarineira do Recife, tudo de bom lhe acontece “quando você envelhece.”

Pois a velhice é considerada a terceira idade da vida humana e se caracteriza pela queda de força e degeneração do organismo, ou seja, ao longo da vida, tem-se várias fases e é com elas que você cresce e amadurece.

Na filosofia, a velhice não é uma cisão em relação à vida precedente, mas é, na verdade, uma continuação da adolescência, da juventude, da maturidade, que podem ter sido vividas de diversas maneiras. Só até aí, porque o resto é uma areia movediça. Tudo fica lânguido e quase inativo à medida que o tempo passa. O bingolim, por exemplo, só serve para mijar. Perde outras funções primordiais.

Portanto, vê-se que a velhice é apenas um momento específico dentro do processo de envelhecimento, sendo caracterizado pela redução do funcionamento de diversas funções orgânicas. O envelhecimento é considerado como sendo um processo no qual estão envolvidas as imagens da vida percebida desde o nascimento.

Na velhice, há uma série de perdas significativas, tais como o afloramento das doenças pré-existentes, crônicas degenerativas, a viuvez, a morte dos parentes e amigos, ausências de papéis sociais valorizados, isolamento crescente e dificuldades financeiras para manter em equilíbrio velhice, doença, alimento, saúde e laser.

Portanto, por que tanta ambição na vida em ganhar dinheiro loucamente se tudo que lhe resta na vida de bom, de saudável, de felicidade, de prazer e de bom viver se resumem em QUANDO VOCÊ ENVELHECE?

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

A ROCHA (1996) – MELHOR FILME DO DIRETOR DOS TRANSFORMERS

Cartaz de A Rocha, mostrando a prisão de Alcatraz

THE ROCK (1996), ou A Rocha, no Brasil, é até hoje disparado o melhor filme do contestado diretor americano Michael Bay. Um cineasta que é perseguido pela crítica, mas que provou saber trabalhar muito bem naquela que é sua proposta: os filmes de muita ação. Quem assiste a esse filme dificilmente identificará Michael Bay como o diretor dos filmes Transformers.

“Um general (Ed Harris), herói na Guerra do Vietnã, e seus comandados se apoderam de poderosas armas químicas e se instalam na prisão de Alcatraz com 81 reféns e cobram US$ 100 milhões de resgate, caso contrário, ameaçam disparar as armas sobre São Francisco. Um grupo de elite é mandado à ilha para combatê-los, entre eles um jovem especialista em armas bioquímicas (Nicolas Cage) e o único homem (Sean Connery) que conseguira escapar do presídio.”

Com um roteiro muito bem elaborado, e assinado por ninguém mais ninguém menos que Quentin Tarantino, o filme consegue ter muita ação e adrenalina sem ser um filme desconexo. Um filme instigante e que prende o espectador na cadeira da primeira a última cena.

O elenco é uma verdadeira constelação, e conta com alguns dos grandes nomes do cinema na época. E todos estão muito bem no filme, diga-se de passagem.

Os protagonistas do longa são Sean Connery, o eterno James Bond e o na época requisitado Nicolas Cage, que havia acabado de vencer o Oscar por Despedida em Las Vegas (1996). Connery interpreta John Mason, um ex-agente do serviço secreto britânico, que está preso pelo governo americano por conta de ter descoberto as grandes mentiras da história americana.

Após anos de prisão a CIA precisará dele, pois o antigo Presídio de Alcatraz, conhecido como A Rocha, foi tomado por militares, liderados pelo General Francis Hummell (Ed Harris), que ameaça disparar uma arma biológica sobre São Francisco caso suas exigências não sejam atendidas, e ele é o único homem que escapou da penitenciária, então seria o único que poderia entrar lá sem ser notado, já que uma operação fora descartada por conta de 81 turistas que foram feitos reféns.

Sean nos brinda com uma grande atuação, que obviamente nos faz lembrar seu personagem mais famoso, o Espião James Bond, só que agora mais velho, mas com a mesma competência de sempre, e uma imprevisibilidade de assustar impressionante.

Nicolas Cage interpreta o Dr. Stanley Goodspeed, um químico que entrará junto com a equipe Militar em Alcatraz, com o objetivo de desarmar as armas biológicas antes que as mesmas sejam disparadas. E diga-se de passagem Cage tem uma das melhores atuações de sua carreira nesse filme, e nos faz sentir saudades dessa época, onde ele emplacava seguidamente Despedida em Las Vegas, A Rocha, Con Air e A Outra Face. Já que hoje o máximo que ele emplaca, é uma bomba atrás da outra.

Ed Harris interpreta o personagem que em tese seria o vilão, mas esse está bem longe de ser um personagem simples, pois sua complexidade está em ele ser um bom homem e um patriota, que se sente no dever de mostrar as injustiças que o governo americano cometeu com seus bravos soldados, mortos em campo de batalha, e esquecidos por seu país, que deixaram suas famílias totalmente desamparadas. Harris, como de costume, tem uma brilhante atuação, e consegue passar ao espectador todos os conflitos, éticos e morais que seu personagem passa, de forma que ao assistirmos o filme, podemos até nos compadecer do general, o que geralmente não acontece com os personagens rotulados como vilões.

David Morse e Michael Bieh são outros destaques do longa, apesar de terem papéis menores, porém de extrema importância, principalmente no caso de Morse, na amarração da trama.

Os efeitos visuais de A Rocha são um verdadeiro espetáculo, tal como a locação escolhida, que realmente nos leva para dentro de uma Alcatraz tomada por militares minuciosamente treinados, e preparados para a guerra.
Em resumo, A Rocha é um grande filme, que eu sem dúvida nenhuma recomendaria a todos os que queiram assistir a um bom filme, sem se importar com o que dizem os críticos de plantão.

a) Trailer de Cinema de “A Rocha”

b) A Rocha – Confira o roteiro

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

GREEN BOOK – O GUIA (2018) – UM FILME FANTÁSTICO INSPIRADO EM FATOS REAIS

Texto escrito com o estudioso de filmes de faroeste d.Matt.

Cartaz de 2018, informando a estréia de Green Book

Esse filme foi inspirado num acontecimento real. Inclusive a história dos fatos ocorridos foi escrita por Victor Hugo Green e o roteiro adaptado foi produzido por Nick Vallelong, o filho de um dos personagens principais, o ítalo americano Tony Lip (Vallelog), ex Leão de Chácara da Boite Copacabana em Nova York.

Após algumas escaramuças na Boite, com a participação de membros da Máfia, participações essas que o personagem Vallelog, como Leão de Chácara, teve envolvimento importante, a Boite Copacabana fechou algum tempo para “reparos” e o herói ficou desempregado.

Aqui entra uma parte interessante, pois quase todo mundo pensa que na América existem centenas de empregos fáceis sempre à disposição de todos, com muita facilidade de contratação.

Ledo engano, apesar de ser uma nação rica, próspera e democrática, nem tudo é tão fácil, e a busca por emprego para poder sustentar a família, algumas vezes é bastante difícil e nem sempre os resultados são encontrados facilmente, principalmente para um personagem que conhece os elementos mafiosos, sempre atuantes em locais que escorregam dinheiro com facilidades, e procura não se envolver muito profundamente naqueles ambientes bizarros, para dizer o mínimo.

O personagem Tony Lip (Vallelong) com antecedentes racistas, não encontrando outra saída, a não ser topar aquilo que melhor lhe parecer, não perde a oportunidade de aceitar um trabalho para ser motorista de um grande artista (pianista de Jazz) negro, rico e sofisticado, famoso e muito elogiado – realmente existiu – para ser o seu motorista em uma viagem às cidades nos estados racistas e preconceituosos do sul do país, nos quais ele se apresentará como artista notável e célebre. Nessas cidades, seus concertos já foram programados antecipadamente e ele se apresenta para a “elite” local que deseja demonstrar a sua cultura musical, patrocinando um artista renomado, mas sem nenhuma possibilidade de aceitá-lo como tal, recusando-se mesmo a permitir que o artista negro pudesse fazer refeições no mesmo restaurante dos hotéis de luxo e lugares reservados à elite branca.

O protagonista passa por diversas situações humilhantes quando está afastado do piano, e passa a ser um negro intocável, sem qualquer distinção ou direito.
Situações incríveis vão se sucedendo à medida que o roteiro segue pelos caminhos racistas do Sul, e o seu motorista tem em algumas oportunidades de tirá-lo de situações causadas pelo pianista em momentos “difíceis e inusitados”, algumas vezes causadas pelo racismo explícito ou pelo comportamento “diferente” do pianista que não se dá conta da sua conduta um tanto diversa e inesperada.

A interpretação do pianista é uma obra de arte interpretativa, um grande ator, Mahershala Ali, que já havia sido premiado anteriormente com um Oscar, como ator coadjuvante no filme “Moonligt” e repetiu a dose, merecidamente, nesse trabalho magistral, atuando em cada cena como uma obra de arte, com detalhes de interpretação mínima e precisa, que conduz o filme a um patamar de grande qualidade.

O personagem Tony Lip, interpretado pelo ator Viggo Mortensen, foi um achado da produção, pois ele está nos mínimos detalhes, quase irreconhecível, pois para poder aceitar esse papel importante, ele teve de engordar mais de vinte quilos, relaxar sua postura corporal, e apresentar-se como “descuidado”, gordo, mal vestido e um tanto grosso. O importante é lembrar que o motorista é o ator principal do filme e carrega praticamente com seu desempenho toda a responsabilidade de atuação em todas as cenas.

Mas acontece que o pianista interpretado pelo ótimo ator Mahershala Ali rouba com grande brilho todas as suas cenas e se torna mais importante do que o ator principal.

As atuações dos atores de modo excelente, é o resultado da ótima direção do diretor Peter Farrelly, que segurou as pontas e não e não deixou que o assunto preconceito racial extrapolasse o enredo e virasse um motivo de denúncia. O preconceito existe e é mostrado, sabiamente, pelos roteiristas e diretor, mas as cenas não foram exageradas, inclusive as com violência física, que foram amenizadas pelo competente diretor.

Muitas vezes uma cena um tanto bucólica e bem dirigida tem um efeito muito maior do que uma cena provocativa. Tem-se como exemplo a cena da estrada, quando o carro é parado para colocar água no radiador. O carro está localizado em frente a uma plantação, com vários trabalhadores negros, sujos, suados e sob o sol. Os trabalhadores do campo param o seu trabalho com enxadas e ficam abismados com a cena diante deles: um negro, bem vestido, sentado no banco traseiro de um carro de luxo, sendo dirigido por um motorista branco que abre a porta do carro para o passageiro negro e depois sai dirigindo pela estrada, como se fora um acontecimento normal naquelas paragens.

Devido ao grande preconceito da época, algumas vezes o carro é parado pelo policial de trânsito para os passageiros se identificarem e os policiais ficam surpresos, primeiro porque um motorista branco está dirigindo o carro para um passageiro negro. Eles custam a acreditar que tal situação exista. E outra vez o carro é parado pelos policiais porque tem um passageiro negro viajando pela cidade depois do horário de recolhimento local, para OS NEGROS! Os dois passageiros são presos porque o motorista, que é branco, agrediu um policial que o chamou de crioulo porque estava trabalhando para um negro.

O pianista telefona para uma autoridade importante (no filme como se fora Robert Kennedy), que aciona o governador do estado e eles são libertados para desgosto do xerife local.

As situações bizarras são tantas que caberiam em vários roteiros de filmes da mesma espécie, algumas bastante hilárias, como quando o motorista ítalo americano compra, numa parada, um balde de frango frito e insiste que o pianista experimente comer o frango frito, que é um prato, segundo dizem, ser o preferido dos negros americanos e o pianista, sofisticado, diz que jamais comeu frango frito, que é uma comida vulgar.

O ator Viggo Mortensen foi indicado para o prêmio Oscar como o melhor ator, mas como sempre a Academia não viu na atuação dele grande qualidade visível, o que foi um grande erro, pois ele está notável na atuação do princípio ao fim.

Entretanto, não dá para entender o porquê desse filme ter sido premiado como o melhor filme do ano. O filme é apenas bom, sem nada de extraordinário, e o prêmio que recebeu causou muitas surpresas nos cinéfilos em geral.

Todo ano, na entrega do Oscar, os jurados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood cagam o Tapete Vermelho, ignorando os melhores e premiando os piores, com raríssimas exceções.

Green Book – O Guia | Trailer Oficial Legendado

GREEN BOOK: O GUIA é bom? – Vale Crítica