CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

SONINHA IMPREVISÍVEL

Soninha era uma mulher imprevisível quando o assunto era guardar segredo de amigos. Sempre que saia às festas com a turma ficava na moita, só de mutuca, atenta a um escorregão de um colega: falar mal de outro ausente para depois revelar a este colega que aquele havia falado mal dele, quando se reunia nos bate-papos. Ela mentalizava tudo com riqueza de detalhes para depois detonar em ocasiões inapropriadas. Tinha o prazer mórbido de ver o circo pegar fogo só para se lambuzar de rir da situação constrangedora!

Soninha adorava apimentar as fofocas dos outros, mas quando o assunto era consigo, ela se esquivava, fechava-se em si de tal forma que ninguém ouvia uma palavra a seu respeito do passado, do presente ou do futuro. Esse comportamento dela era característico de sua personalidade.

Muitas vezes em mesa de bar ou em festa cerimonial: batizado, casamento, aniversários, ela se sentava à mesa com os colegas de profissão e começava a instigar um e outro para falar mal de terceiros só pelo prazer de ouvir um detonando o segredo do outro pelas costas, para depois confrontá-los na cara quando junto estivessem para provocar atritos e bate-bocas.

Depois de tomar umas e outras os colegas iam abrindo o bico e começavam a baixar o cacete nos outros ausentes à festa: “Fulano é chato, não vale o que o gato enterra”. “Sicrano não gosta de fulano porque ele é intragável, insuportável, alma sebosa.” “Maria de Jesus é casada com José, mas dá o priquito ao patrão que lhe dar de tudo do bom e do melhor.” “O pai e a mãe de Antônio e Zefa só querem ser as pregas de Odete, mas ele é veado e ela é sapatona e ninguém da família sabe por que eles abafam “o segredo.”

Depois de tomar dois copos de cerveja e uma caipirosca, Soninha escancarava os segredos e confissões cabeludas ditas a ela pelos colegas de forma confidencial. Ela tinha o prazer mórbido de revelá-los na cara dos colegas, dando altas gargalhadas sem se importar com o constrangimento dos envolvidos, e depois saía de fininho, assistindo a confusão à distância se rindo de se mijar.

Certa ocasião Soninha estava numa festa de casamento com vários colegas e, lá para tantas, ela sentou-se na ponta da mesa com vários colegas que conheciam o noivo, e, às costas dele, tinham-no detonado em outras ocasiões sem a noiva saber. Lá para as tantas, depois de ter tomado dois copos de cerveja e duas caipiroscas de caju e limão, sua bebida preferida, juntou-se a todos que estavam em redor da mesa e mandou chamar a noiva, que era sua amiga. Quando a noiva chegou, Soninha a mandou sentar-se para dar os parabéns pelo casamento e depois abriu o bico e começou a contar os podres do agora marido, revelados pelos colegas ali presentes.

A confissão foi tamanha que a recém-casada começou a chorar, mandou chamar o marido, perguntou se tudo aquilo era verdade sobre a história da viadagem dele. Foi quando o agora marido procurou saber quem revelou seus segredos de baitolagem para a noiva e quis tirar satisfação com quem os revelou. Como não apareceu quem espalhou os boatos que a mulher havia sabido, o marido entrou em fúria, começou a quebrar as mesas, cadeiras e o que lhe tivesse pela frente. Dez minutos depois de iniciado o quebra-quebra, não havia ninguém na festa, e até a recém-casada havia saído correndo segurando o vestido para não tropeçar nele e cair.

Enquanto o buruçu comia no centro dentro e fora da casa, com o recém-casado quebrando tudo, procurando tirar satisfação e saber quem espalhou o boato da sua vida pregressa, Soninha saiu à francesa dando altas gargalhadas sem ninguém saber que tudo havia começado com ela que espalhou os podres do agora marido da amiga para todo mundo saber.

Soninha não tinha jeito. Sempre aprontava as suas e jogava os colegas na fogueira da intriga.

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PREVISÃO DA METEOROLOGIA: TEMPO SECO, MAS CHOVE CHATO

Recebi no meu e-mail esse texto para lá de engraçado, cujo título é o mesmo título desta minha coluna de hoje.

É da autoria do psiquiatra doido de jogar pedra, Emanoel Bione, petista rivotril, fundador do hebdomadário O Papa-Figo, office boy a seu serviço, cachacista, co-fundador do bloco carnavalesco “Nóis Sofre, Mas Nóis Goza”, biógrafo do Amigo da Onça, adorador e devoto desvairado do homem mais honesto deste país, para o qual está escrevendo a biografia que prova de A mais Z sê-lo a mais viva alma honesta deste País, ao qual dedicou a vida…

* * *

“O genial Tom Jobim tinha uma teoria sobre o chato bem própria. Ele dizia que o chato adora contato de pupila. Por isso ele, que tinha uma mesa cativa nos fundos do restaurante Plataforma, no Rio, sempre usava óculos escuros, fosse de dia ou de noite. Contava que certa feita, no avião, ele ostentava seus óculos escuros e um jornal, que lia do princípio até o fim da viagem. Mas sentiu vontade de ir no banheiro. Soltou o jornal e, ao voltar, o cara sentado a seu lado perguntou: “Estou lhe reconhecendo: você não é aquele cantor Antônio Carlos & Jocafi? Ele, em cima da bucha: “Não, meu senhor. Eu sou o Tom & Dito.”

Agora vamos aos chatos mais comuns:

Chato 1

1) Chato come-come – O cara que garante que não há mulher que, depois de 10 minutos de papo, ele não consiga comer. Até chegar em casa e encontrar a esposa com um urso escondido no guarda-roupa. Conta-se que num dos festivais de humor do Piauí, um conhecido cartunista pernambucano veio com esse papo de pegar a mulher na primeira cantada.

O chargista Adão Iturrusgarai, muito gozador, o desafiou, depois de arriar as calças e mostrar a bunda: “Me come, fulano!” Para riso geral.

Chato 2

2) Chato sabe-tudo – É a pessoa que vai de piadista a médico, depois a físico atômico, especialista em assuntos criminais ou em literatura. Quando alguém da mesa explica algum assunto, ele sempre expressa um ponto de vista exatamente contrário a fim de desqualificar o falante. E diz que apenas está fazendo uma “crítica construtiva”.

Chato 3

3) Chato centopeia – Parece contar com mais de 100 pares de pernas para correr atrás de alguém por ruas, shoppings, aeroportos, e até no exterior, a fim de aborrecê-lo até o limite da insanidade com suas asneiras.

Chato 4

4) Chato amigável – Gente que, no segundo minuto, está te chamando pelo apelido. No segundo encontro usa diminutivos para se referir a você, e no terceiro se acha seu irmão. Lembra aquele cara que fala de teus defeitos como se fosse um elogio, te deixando com um sorriso amarelo, por não conseguir se defender. Eu conheci um assim. Certa vez na minha repartição chegou um senhor com uma deformação na coluna, que o pessoal chama de corcunda.

Esse chato já o conhecia en passant. Então ele desferiu seu golpe mortal: botou a mão no ombro do rapaz e mostrou para os presentes: “Estão vendo esse amigo aqui? Ele tem essa radiola nas costas, mas é um cara feliz. É ou não é, amigo?”

O rapaz balançou a cabeça em sinal de positivo e saiu em direção ao elevador, com um sorriso amarelo nos lábios.

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MATAR OU MORRER “AO MEIO DIA” (1952)

Cartaz de Matar ou Morrer/High Noon (1952)

Na pacata cidade de Hadleyville, no Novo México, quando o xerife Will Kane, interpretado magistralmente pelo ator Gary Cooper, está prestes a se casar com a protestante, a belíssima Grace Kelly, recebe a notícia de que Frank Miller, interpretado pelo ator Ian MacDonald) – o psicopata que Kane havia prendido anos atrás – foi solto da prisão e estava preste a chegar no trem do meio-dia à cidade para a desforra.

Enquanto os três mais odiosos cúmplices de Miller esperam na estação, o xerife tenta conseguir ajuda. Os habitantes da cidade se recusam a arriscar suas vidas por medo de vingança. Vários relógios revelam que o meio-dia está se aproximando. “Matar ou Morrer” se passa em tempo real, com a hora fatal se aproximando enquanto a música-tema, a balada “Do Not Forsake Me, Oh My Darling”, insiste em frisar os acontecimentos. Will Kane é deixado praticamente sozinho contra quatro vilões.

O assassino solto deve chegar a bordo do trem do meio-dia. Frente aos sentimentos conflitantes da população, ao desamparo por parte de seus antigos colaboradores e, especialmente, às súplicas de sua esposa, o xerife enfrenta um dilema praticamente sem solução.

Esse é o pano de fundo que Fred Zinnemann utiliza para desenhar um painel do fim anunciado da época das conquistas. Os personagens são protagonistas inconscientes de seu próprio papel. Will Kane representa o desbravador, o precursor, o próprio espírito da colonização. Não por acaso ele está velho e prestes a se aposentar. Seu adversário, Frank Miller, não é um dos tradicionais vilões do velho oeste, cujo único fim era a morte, em combate ou na forca. Ele foi preso, julgado, sentenciado a passar a vida na cadeia, mas foi libertado.

Não se sabe por que ele foi solto, nem o filme se presta a dar um motivo concreto. Só se sabe que, em algum lugar longe dali, uma espécie diferente de justiça se fez, e essa justiça colocou em liberdade um homem cuja primeira atitude é juntar-se aos seus capangas e buscar vingança. É nos personagens secundários, habitantes da cidade, entretanto, que se encontra a parte mais interessante da metáfora elaborada aqui.

Observando com atenção, percebe-se que neles a coragem foi substituída por precaução e o espírito aventureiro deu lugar ao desejo de estabilidade. Por mais que se envergonhem disso, os homens do povoado não reúnem em si a força para ajudar o xerife, entregando-o ao que todos consideram sua morte certa – ou seu suicídio, como descrevem alguns, o que seria uma forma de eximir-se da culpa por manter os braços cruzados. Um dos moradores chega a dizer: “Nós pagamos um bom salário ao xerife e seu ajudante. Eles que resolvam”. A função do novo cidadão urbano seria, portanto, a de pagar seus impostos e esperar que os problemas desapareçam. Nada mais de iniciativa, nada de participação direta. Eles que resolvam.

A ganância também aparece aqui modificada pela nova ordem. Não são mais terras ou gado que interessam, os desejos da população da cidade são mais, digamos, atuais. O hoteleiro diz não gostar do xerife, pois antes da chegada da lei e da ordem havia mais movimento em seu hotel. Eis uma boa crítica ao capitalismo selvagem, ao qual não importa que todos se matem, contanto que isso traga lucros. Já o assistente do xerife recusa-se a ajudá-lo por não ter sido indicado para substituí-lo, um novo xerife chegaria à cidade no dia seguinte.

Nesse caso a cobiça é pelo cargo, e aqui, melhor do que em qualquer outro ponto, percebe-se que os tempos não são mais de força e coragem, mas de política e barganha. Eis que, como resultado de tudo isso, Will Kane é abandonado. Para que não se diga que os aspectos artísticos da obra não foram citados, vale lembrar que tanto a trilha sonora quanto a música tema cabem perfeitamente no filme, colaborando bastante para criar a atmosfera de conflito interno do protagonista.

Gary Cooper oferece uma atuação na medida certa, sem exageros, mas que passa ao espectador a angústia de encontrar-se na situação em que se encontra. Há ainda algo de revigorante no papel da mulher em Matar ou Morrer. Também aqui se poderia dizer que o filme é precursor, mas seria difícil fazê-lo sem explicitar demasiadamente a conclusão da história. O mais importante é que a cena final representa o ocaso de uma era.

É verdade que a colonização não termina com o desfecho do personagem de Gary Cooper. Seu fim, porém, havia sido anunciado. O tempo de coragem, da marcha ao desconhecido, da vida e da morte pela força e pelas armas estava agonizando. A aventura do velho oeste chegava ao fim.

Não é a toa que Matar ou Morrer é considerado o segundo melhor western de todos os tempos pelo American Film Institute. Um filme inteligente, angustiante e que merece ser assistido por várias vezes. É simplesmente fantástico!

Esse foi um filme muito polêmico quando lançado nos States, principalmente por motivos políticos. O roteirista foi acusado pelos artistas e esquerdistas de ter incluído no roteiro passagens anti-democráticos, anti-americanos. Inclusive esse filme foi muito criticado por ninguém nada menos que o famoso cowboy John Wayne, que afirmava que o filme era anti-americano e não era um filme “western” e sim um ataque à democracia estadunidense.

Causou tanta polêmica que foi até citado pelo presidente Ronald Reagan durante um dos seus pronunciamentos transmitidos pela TV. Mas apesar de toda controvérsia o filme foi um grande sucesso de crítica e de público, ganhador de quatro oscars.

O filme é considerado um clássico do cinema, pois inova na abordagem do conflito em um plano mais psicológico e pela carga de suspense nele contido.

A fotografia é primorosa, de uma qualidade surpreendente, em glorioso preto e branco, ganhadora do prêmio Oscar de melhor fotografia do ano.

O elenco é surpreendente. O papel principal foi antes oferecido aos atores Marlon Brando e Montgomery Clift que recusaram participar do filme por vários motivos, sendo o principal dele o recebimento de uma quantia muito irrisória para atuarem em papéis muito importantes, pois a quantia posta à disposição da produção foram meros setecentos mil dólares, uma quantia irrisória para um filme com grande elenco, mesmo para os tempos antigos, (1952).

Há de se notar que durante todo o filme, aparecem diversos relógios, todos marcando os minutos antecedentes ao meio dia. O filme é todo feito no horário real e essas cenas com os relógios têm grande impacto visual e bastante suspense, pois cada minuto antes do meio dia é de muita angústia para o personagem principal, o xerife Cooper, pois todos os habitantes da cidade negam-se covardemente a ajudá-lo a combater com os bandidos vingadores, que vão chegar no trem das doze horas em ponto, com a intenção de matá-lo. Cada relógio em si se torna um dos personagens como testemunhas coadjuvantes do filme em questão.

Após o duelo final, o xerife é elogiado pelos moradores da cidade que pedem para ele permanecer na cidade como defensor da lei. Nessa hora, o xerife faz uma cara de nojo e joga ao chão a estrela de xerife, num gesto de desprezo pela covardia dos habitantes que se recusaram a ajudá-lo a enfrentar os bandidos.

Esta cena, na época do lançamento do filme, foi muito criticada pelo ator John Wayne, que achou uma ofensa aos defensores da lei, que um xerife jogasse ao chão uma estrela que representava uma autoridade e ele achava também que com a cena ele estava jogando ao chão a estrela americana da democracia. Tudo picuinha política, isso porque o roteirista (Carl Foreman) tinha sido em prisca época membro do partido comunista americano. O macarthismo estava presente em toda esquina estadunidense. Era a época da caça às bruxas.

Nesse caso, ninguém contestou o gesto do Xerife, o que comprova que a política deturpa tudo e John Wayne sempre foi um “cowboy” político.

O resultado final do filme é primoroso, um grande diretor Fred Zinemann, um grande ator Gary Cooper, que já tinha sido previamente ganhador de um Oscar, a atriz novata Grace Kelly e um elenco de apoio com celebridades, todas muito atuantes e muito experientes na atuação de filmes de faroeste, tais como: Thomas Mitchell, lloyd Bridges, Katy Jurado e Lee Van Cleef, é sem dúvida um dos melhores filme western de todos os tempos.

Um grande clássico, tão grande como “SHANE” ou “Rastros de Ódio,” que são as melhores referências no padrão de qualidade do western americano.

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SONINHA – A GUERREIRA QUE NÃO CUIDOU DO CÂNCER

Soninha e este colunista em charge feita por W. Santos em 2006

Por sugestão do eminente jurista, Dr.º José Paulo Cavalcanti Filho, advogado no Recife, ”exemplo do pensamento cartesiano, do profundo conhecedor do Direito, do texto ao mesmo tempo de clareza e de profundidade, que brinca com as palavras na mesma intensidade com que cita um artigo da Constituição”, colunista do Jornal da Besta Fubana (JBF), do Jornal do Commercio e de O Globo, e autor de vários livros, entre eles: Aos Amigos Tudo (poesia), Informação e Poder; O Mel e o Fel; Somente a Verdade e a obra-prima: FERNANDO PESSOA – UMA QUASE AUTOBIOGRAFIA, criei coragem para contar uma história real e dolorosa que, passados mais de dez anos da realidade fatídica, até hoje me angústia, me deixa atônito, deprimido, provando que o melhor da vida é vivê-la intensamente, conforme sábias palavras do poeta Fernando Pessoa, que Soninha repetia sempre com otimismo quando viva, por isso mesmo encantou-se feliz, em paz consigo mesma, com suas convicções de que só o trabalho, a determinação, a perseverança, a honestidade, dignificam o homem.

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Em 2007, Soninha foi até a clínica de sua ginecologista particular fazer um check-up, principalmente na parte atinente ao câncer de mama. Depois que a médica a analisou, suspeitou de alguns nódulos pequenos nos seus mamilos, imediatamente a encaminhou para uma oncologista.

Chegando à oncologista indicada, Soninha foi submetida a uma ressonância, tendo a médica mastologista realizado uma biópsia com agulhas em um dos seios dela, mas nada de grave naquele momento fora detectado nos nódulos, segundo resultado da biopsia.

De posse do resultado da mamografia e da biopsia, Soninha retorna à sua ginecologista e esta, analisando o resultado do exame de mama e outros solicitados, como: ultrassom pélvico, papanicolau, rastreamento infeccioso, colposcopia, citologia e microflora vaginais e não vislumbrando nada grave nos exames, pediu que ela retornasse para casa e a intimou a voltar ao consultório médico no máximo em seis meses, impreterivelmente já que havia histórico de câncer mamário na família materna.

Trabalhadora compulsiva, workaholic, Soninha linda, inteligente, corpo escultural e duma beleza interna e externa ímpares, tendo de trabalhar mais de doze horas por dia, de domingo a domingo e feriado, para sobreviver, pagar impostos ao governo e viver com dignidade com o que sobrava, deixou passar in albis o retorno à clínica ginecológica de sua médica. Dois anos depois é que volta consultório da médica devido a uns incômodos nos seios.

Chegando à clínica de sua ginecologista com hiato de mais de dois anos, a médica espantou-se com o descaso de Soninha com a sua saúde. E passou a examiná-la e, para seu espanto, os tumores malignos haviam crescidos, multiplicados e, conforme o resultado da mamografia realizado naquele momento, o câncer já havia se enraizado, chegado à metástase! Daí começou o drama impiedoso, devastador, cruel, sofrimento sem fim para ela.

Depois do resultado do exame letal, iniciou-se o tratamento: quimioterapia, radioterapia, com seus resultados quimioterápicos devastadores que foram deixando Soninha frágil, magra, pálida, vulnerável a qualquer vírus e bactérias, e totalmente careca. Qualquer pessoa que a conhecesse antes e a visse depois do início da quimioterapia entrava em depressão com tamanho sofrimento sem fim e desfiguração total! Não há fingimento na dor!

Depois de um ano de agruras, dores e sofrimentos com idas e vindas ao Hospital do Câncer de Pernambuco, o quadro clínico de Soninha se agravou e ela teve de ser internada por ordem médica.

Com dois meses de internamento a metástase tornou-se irreversível e os médicos do hospital que cuidavam dela, percebendo que não havia mais chance para vencer o maldito, mandou chamar a família e anunciou o que ninguém gostaria de ouvir: ela só tem um mês de vida! Aproveitem o máximo para externar o amor que sentem por ela. E tudo foi feito na santa paz do afeto. “A Indesejada das gentes a qualquer momento pode chegar para levá-la!” – sentenciou o médico!

Antes de deixar esse mundo material e ir-se para o outro lado do desconhecido, Soninha chamou-me a mim, à família e às enfermeiras do hospital para externar uma preocupação: que todos ali se comprometessem a cuidar bem de sua filhinha de quatro anos, que não deixassem lhe faltar nada, que lhe fosse dado carinho, afeto, educação, formação, e bons modos de vida: honradez, respeito, trabalho e honestidade. Foi quando a freira e enfermeira-chefe do hospital, no gesto da mais pura grandeza, de amor, de afeto e do valor social à família, encostou-se ao ouvido dela, e num geste do mais puro amor profissional, lhe falou:

– Fique tranquila, minha filha! Descanse em paz! Sua filhinha terá o mesmo amor que você dispensava a ela, por todos que a amam!

Bastou a freira dizer isso, com a assistência de todos que estavam presentes, para ela se virar de lado com o semblante lindo, e a certeza de que sua filhinha ia ser tão bem cuidada como Anamaria, filha de Olívia com Eugênio Pontes, do antológico romance Olhai os Lírios do Campo, do romancista Érico Veríssimo, o qual Soninha já havia lido umas trinta vezes, e partiu desta sorrindo para o outro lado do desconhecido. Parou de sofrer!

Quando da retirada do corpo da cama e a preparação para pô-lo no esquife, dentro da simplicidade suplicada por ela dizendo em vida não querer ostentação à sua última viagem ao infinito, os profissionais do hospital encontraram por baixo do seu travesseiro o referido romance que ela tanto admirava, com a página aberta na carta de Olívia a Eugênio Pontes, com essa passagem grifada à caneta azul marca-texto:

“Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio. Leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam e, no entanto, nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles.”

“Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.”

“Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”? Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo…”

“De que serve ao homem construir tantos arranha-céus se não há mais almas humanas para viver neles?…

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BALAKA BAR

Beco da Fome, bairro da Boa Vista, Recife

Nos idos de dois mil, um maluco beleza de nome Eduardo, conhecido popularmente no meio da baixa roda por Dudu, teve a “brilhante” ideia de abrir um bar no Beco da Fome, Centro do Recife, para agregar a escória da sociedade que buscava as noites para extravasar seus demônios boiolais.

O Balaka Bar ficava no único pedaço mau iluminado do beco. No entorno viam-se entulhos e sacos de lixos suspeitos jogados nos corredores pelos moradores dos apartamentos. Os frequentadores do bar pouco se lixavam por aquela desordem social. O que queriam mesmo era se divertirem, fumarem seus baseados sossegados, contemplarem a noite e viajarem nos seus imaginários esputiniques em busca dos raios cósmicos de Carl Sagan.

Quando a noite chegava com seus mistérios Dudu já se encontrava no bar esperando os frequentadores neuróticos habitués. Aos poucos iam chegando a nata da escumalha: as putas do pedaço com suas maquiagens exageradas de pó de arroz, os veados, as sapatonas, os enrustidos, os dissimulados e todos os baitolas que frequentavam as escolas e universidades pajubás.

Por ter um porte atlético “marombado”, com dorso e bíceps bem trabalhados, Dudu era cobiçado pelas viúvas e madames solitárias do pedaço, cujos maridos saiam à noite à cata de parceiros ou parceiras para satisfazerem seus instintos sexuais selvagens, que tinham acanho em confessar às esposas ou amantes.

Nos seis anos de vivência com o bar, Dudu enfrentou um assédio moral infernal, ao ponto de ver muitos veados e barangas se digladiarem dentro do bar disputando seus dotes “marombásticos.” A cada final de semana os buruçus tomavam proporções gigantescas ao ponto de Dudu ficar temeroso com a fúria sexual das tribufus e dos baitolas, que queriam porque queriam que ele se lhes tornasse amante.

Temeroso e já pensando em fechar o Balaka Bar, determinado sábado Dudu amanheceu com o orifício virado para lua, e, assim que abriu o bar encontrou, à direita do balcão interno, cem paus, um dinheirão para época, e, à noite, em meio a uma tempestade de assédio de veados e barangas, quando fechou o bar à uma hora da madrugada, encontrou ao lado do vazo sanitário um pacote de dinheiro “sacado” do Banco do Brasil, o equivalente hoje a mais de sessenta mil paus enrolados em várias ligas, dentro de uma sacola colorida da MESBLA S/A, toda melada de bosta.

Certamente o bêbado foi cagar e deixou cair das calças quando a baixou para arriar o “barro.” Passado mais de uma semana com o dinheiro debaixo do balcão esperando que alguém reivindicasse e nada, Dudu pegou a bufunfa, reformou um apartamento pequeno que havia comprado na Boa Vista, montou uma lan house no lugar do bar e nunca mais quis saber do balaka.

– Meu irmão, administrar bar onde só tem maluco é negócio de doido – repete Dudu, com a experiência de um caixeiro-viajante de Taperoá.

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TODOS ESTÃO CONVIDADOS PARA A INAUGURAÇÃO DO CABARETH

Este texto foi escrito dois meses atrás por mim e pelo estimado amigo e profundo conhecedor de filmes de faroeste, D.Matt, para ser incluído num projeto que estou elaborando sobre O Cabareth de Maria Bago Mole.

Tivemos a ideia de fazer um texto citando como homenageados alguns colunistas desta Gazeta Escrota, O Cabaré do Berto, alcunha alcunhada por Jesus de Ritinha de Miúdo. Colunistas esses que são alvo da nossa admiração e também como leitores assíduos dos textos que escrevo para este Jornal. Assim sendo, criamos algumas situações, geralmente cômicas e que seriam inseridas no texto final sobre o Cabareth de Maria Bago Mole, ainda em estudo.

Pedimos desculpas, por não termos pedido permissão para citá-los, mas como poderão ver, todos são alvos da nossa admiração e amizade. E que fique registrado aqui que todos que fazem parte da confraria da Besta estão homenageados, desde colunistas a comentaristas. Todos. Os que já fazem assentos e os que estão por vir.

Vamos começar do início do começo como diria a sábia Dilma Pinguelão, a mulher que até na hora de gozar tem dificuldade de distinguir entre o clímax, as preliminares, a histeria e o gozo. Entramos e fomos advertidos, cautela: vão com calma porque todos “eles” estão por aqui, são todos nossos amigos e colegas.

Certo, certo, prometemos não inventar nada, vamos somente narrar o que acontece. Fiquem tranquilos.

Demos uma rasante pelo ambiente e fomos direto ao Bar, onde encontramos o Altamir, mestre não só de cinema, mas também grande conhecedor de bebidas em geral, que nos serviu de imediato uma aguardente que tinha dentro da garrafa um grande escorpião vermelho. Pensamos em recusar, mas o mestre nos disse com firmeza: Bebam e me digam o que sentiram daqui a uma hora do umbigo para baixo!

Ouvimos risadas de algumas meninas rindo e fazendo poses para o poeta Jesus Ritinha de Miúdo, que declamava seus versos e prosa e com aquela aparência de galã de novela, deixando as meninas todas muito ouriçadas.

Adiante encontramos sentado na melhor poltrona da casa o coronel José Ramos, o qual, como amigo do coronel Bitônio Coelho, era merecedor de alguns privilégios. Estava ele cercado das meninas mais sensuais e mais assanhadas, que riam muito, faziam largos gestos esfuziantes e algumas na sua assanhadença, levantavam a saia até o pescoço, deixando à mostra o seu cavanhaque de baixo ventre, bem aparadinho, uma graça.

Dizemos cavanhaque de baixo ventre, porque a Divina Diva Dercy Gonçalves o definiu assim em uma entrevista e como todos sabem o testemunho da sábia Dercy é como lei.

As risadas provinham do bom papo do coronel José Ramos que contava para elas as suas aventuras no sertão do Ceará quando ainda miúdo, e caçava sabiás e rolinhas, as quais eram assadas no espeto e que complementavam o seu dicumê na época, que dia sim e dia não, era sempre feijão com feijão e nos domingos, feriados e dia santo também.

Hoje em dia o Coronel José Ramos é uma grande personalidade no Estado do Maranhão e escreve magníficos artigos de pura poesia em prosa, para um jornal de Recife, contando suas aventuras do passado, antes de vir morar no Estado sarneyzado e estuprado do Maranhão.

Lá no fundo, num cantinho quase escondido vimos uma figura que nos pareceu bastante familiar.

Ficamos em dúvida se era mesmo ele, parecia com ele, mas não podemos confirmar. Essa pessoa estava admirando a imagem de um santo pretinho que identificamos como São Benedito. Ele falava baixinho, mas conseguimos ouvir algumas palavras que dizia…, “Obrigado meu santo.” “Mesmo pretinho, você me deu muita sorte!” “A história que escrevi sobre a sua prisão é um sucesso até hoje!” “Não contei para ninguém o que vossa santidade estava fazendo no Bordel de Palmares, só podia ser coisa santa!” Para quem duvida eu digo como aquele monarca inglês “honi soit qui mal y pense.”

Saímos de mansinho, sem nos fazer notar, pois quem somos nós para enfrentarmos tamanha personalidade. Assuero ficou com a mesma opinião, depois que assumiu a contabilidade do cabaré!

Vislumbrei em uma sala que servia de escritório, a figura do nosso Brito, que prometia para Maria que um dia iria escrever sua biografia. Não dissemos nada, mas pensamos: coitada da Maria, ele também nos prometeu a biografia da Carlota Joaquina e até agora, neris de pitibiriba. Mas eu sei que ele vai escrever, pois o professor é muito ocupado e quando escreve qualquer texto, arrasa como sempre.

No corredor sempre à esquerda demos de cara com o Goiano tomando seu “dalmore”, e tentando convencer a uma das “meninas mais velha” a “Zeferina Topa Tudo” já pra lá de cinquentona, que nunca recusou serviço e topava qualquer bagulho, sem cerimônia.

Mas continuando, o Goiano dizia para ela que esse Cabareth existia graças ao Lula que sempre defendeu o direito de todos de praticar a putaria no Brasil e que era muito instruído nesse assunto, mesmo tendo sido gerado por uma mulher que nasceu analfabeta. Caso raríssimo no nordeste.

Junto ao aparelho de som, advinha quem estava lá? Encontramos o nosso estimado Peninha disfarçado, com uma peruca igual a de Beethoven. Sacudia as madeixas capilares e fingia-se de surdo quando o pessoal reclamava do som muito alto. Isto porque ainda era muito cedo, perto da meia noite, pois quando o relógio passava das três horas de madrugada, para limpar o ambiente e esvaziar o Cabareth, ele começava tocando em alto som, a Tocata e Fuga em Ré Maior do deus das músicas J.S.Bach. O pessoal se assustava e muitos saiam de cuecas, com as calças enroladas no pescoço, pois estava chegando a hora da verdade.

De repente, dava para ouvir muitas risadas vindas dos aposentos de Maria, muito curioso metemos o bedelho e chegamos a tempo de ouvir o Coronel Bitonio Coelho contar a piada do português que foi sem saber, a um bacanal de gays. A certa altura o portuga reclama em altos brados: “Pára tudo! Pára tudo!” Acendam as luzes. Vamos botar ordem nesta bacanal, assim não dá, já me passaram a mão na bunda três vezes e eu ainda não comi ninguém. Estava com toda razão.

Tinha alguns babacas que estavam fazendo zoeira, dizendo em altos brados que tinham bebido cachaça com escorpião e que estavam sentindo fortes desejos sexuais às avessas e que estavam pretendendo dar mil trepadas naquela noite.

Chegamos para o Altamir e perguntamos se aquela bebida sempre provocava tal estardalhaço?

– Besteira e babaquice, ele disse. Com um exemplar do seu livro “NO ESCURINHO DO CINEMA” na mão, folheando e cheirando. Havia saído do forno!

O Altamir olhou sério para nós e perguntou: Vocês estão sentindo algo diferente?

Respondemos que não estávamos sentindo nada diferente.

Ele então nos disse: Tudo é o resultado da mente ilusória, não tem nada disso. Esses caras idiotas se deixam iludir com qualquer coisa. Vou contar para vocês um segredo.

O escorpião é de plástico.

Depois dessa resolvemos nos mandar e ao sair vimos um caminhão meio banguela carregado de cocos verdes e pensamos: será que é o Sancho Pança que veio e vai entrar também?

Vamos esperar, quem sabe?

Para nossa sorte ele desce do caminhão e se mostra todo alegórico com uma peruca pierrot na cabeça, tomando um licor “san basile”.

É hora da festa!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

CUTRUVIA NO CABARÉ DE MARIA BAGO MOLE

Após a fama do cabaré se espalhar por toda Região da Zona da Mata Sul e Norte de Carpina (PE) e circunvizinhança, quase toda semana chegava uma “cutruvia” no cabaré, média de dezesseis a vinte anos, vinda das redondezas. E Maria Bago Mole acolhia a todas, nem que fosse por uma semana ou duas até encontrar um lavrador que se engraçasse dela e juntos fossem viver. Não era de sua índole abandonar quem estava necessitada.

Certo dia chegou ao Cabaré Carminha de Zefa, uma morena trigueira, pernas grossas, nariz afilado, cabelos pretos e longos, filha de índia com preto. A famosa cafetina logo viu “futuro” na donzela e a escondeu antes que um Zé Qualquer passasse os olhos naquele monumento e ousasse comê-la, sem a madame mostrá-la a um coronel endinheirado que não dava mais no couro, nem que fizesse uso dos chás de ervas milagrosas da época oferecidas nas casas pelos ambulantes, como um tadalafila dos tempos modernos.

(Há que se registrar aqui uma curiosidade: todas as meninas do cabaré antipatizaram com a chegada da intrusa por ser muito bonita e nova e logo a apelidaram de “cutruvia”, mesmo sem saber o significado da palavra. Teve de haver a intervenção da cafetina para que a harmonia reinasse na casa e ninguém se visse como rival: o sucesso não tolera querelas internas. A união é que faz a força, produz riqueza e todas ganham – dizia ela às meninas.)

O pai de Carminha de Zefa, Seu Zequinha, era um homem tosco, rude, e, por não aceitar que a filha fosse “deflorada” por um Zé Qualquer a expulsou de casa contra a vontade da mãe, Dona Zefinha, que, além de confiar na filha em não ter cedido às tentações do pretendente, jurava no altar que a filha era cabaço ainda.

À noite chegou ao cabaré o coronel Amâncio, um dos coronéis mais ricos e influentes da Zona da Mata Sul de Carpina, depois de Seu Bitônio Coelho, bem-querer de Maria Bago Mole. Entrou pela porta dos fundos por sugestão da cafetina e ficou escondido no quarto especial que as meninas do cabaré haviam preparado a mando da “patroa”.

Antes que o coronel Bitônio Coelho chegasse ao cabaré como havia prometido, Maria Bago Mole preparou a morena para ficar a noite inteira com o coronel Amâncio, mas antes lhe passou algumas instruções de como lidar com um homem já oitentão: tire-lhe as roupas devagar, peça por peça, deite-o na cama, passe-lhe óleo de peroba nos trololós, amolegue-lhe bem os cachos, cheire-os, beije-os, rodopie-os e, caso não obtenha êxito, tire sua roupa toda na frente dele, dance, se esfregue nele para ele se sentir no paraíso e, depois, se nada acontecer, diga-lhe que quer morar com ele na fazenda para transformar as noitadas dele numa festa de harmonia e prazer.

Golpe de misericórdia!

O coronel Amâncio ficou tão lisonjeado com o pedido de casamento da morena que, mal o dia raiou, foi logo se trocando, mandou a cafetina preparar a carruagem que ele havia deixado com o cavalo, pagou-lhe todas as despesas do cabaré e ainda compensou a cafetina por ter-lhe arranjado aquele “presente” dos deuses.

Depois que o coronal Amâncio deixou o cabaré, Seu Bitônio Coelho se despediu de Maria Mago Mole e se mandou também, ela reuniu as “meninas” no salão, verificou que não havia mais ninguém nos quartos, e discursou, olhando nos olhos de cada uma:

– Vocês têm de aprender a engolir cobras e sapos. Vocês têm de ver o que é melhor para vocês. Onde existe possibilidade de lucrar não pode haver rivalidade, mas troca de experiência, aprendizado, porque é dessa forma que ganhamos todas. E deu a cada menina uns réis que o coronel Amâncio havia lhe entregue pelo presente lhe ofertado.

Naquele dia a festa no cabaré foi entre as meninas e a cafetina.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O ENCONTRO DE MARIA BAGO MOLE COM UM CASAL DE EX CANGACEIROS DO BANDO DE LAMPIÃO

Quando a volante do tenente João Bezerra da Silva, por ordem do então presidente Getúlio Dornelles Vargas, pôs fim ao cangaceiro Lampião, Maria Bonita e outros malfeitores na Grota de Angicos, (SE), no dia 28 de julho de 1938, muitos cangaceiros que faziam parte dos subgrupos se dispersaram, fugiram caatinga adentro e nunca mais se ouviu falar deles.

Nessa época o Cabaré de Maria Bago Mole estava de vento em popa, conhecido por toda Zona da Mata Sul e Norte de Pernambuco, graças à propaganda boca a boca feita por todos que frequentavam o distintivo. Comentava-se que a cafetina possuía uma presença de espírito incrível que magnetizava todos que chegavam àquele açougue de carne mijada.

Todo dia era dia de frege no Cabaré, ideia de Maria Bago Mole, quando percebeu que havia muitos homens a procura de fêmeas, vindo de todos os rincões do Nordeste para trabalharem na empresa alemã Great Western do Brasil, responsável pela expansão da Rede Ferroviária do Nordeste, sobretudo a estação do Brum, que ligava o Recife à cidade de Limoeiro e adjacências.

Era um dia qualquer, e o sol já vinha desvirginando a madrugada, quando apareceu um casal de desconhecido vindo de lugar incerto e não sabido querendo falar com a dona do estabelecimento que, àquela hora estava ocupada com as meninas organizando a desordem deixada pela festividade do dia anterior.

Nesse momento o casal de desconhecido, fedendo que só gambá, se dirige à Maria Bago Mole e pergunta-lhe se já tinha ouvido falar nos cangaceiros de Lampião que tocavam o terror por quase todo Nordeste: Bahia, Sergipe, Alagoa, Pernambuco e que tiveram de abandonar o bando porque o chefe havia tombado morto numa emboscada e não havia mais sentido seguir naquela vida de perseguição, fome e morte.

A cafetina os ouviu atentamente. Atendeu-os dando alimentos e dormida por um dia e lhes pediu que no outro dia arrancassem do lugar a procura de outro espaço para se estabelecer e morar antes de serem descobertos pelos homens da volante que àquela altura poderiam estar os caçando como gado para os abaterem, e não gostaria que a carnificina ocorresse no seu cabaré.

Firme em suas convicções, prudência e experiência de cabaré, disse ao casal:

– Olhem, meus queridos, não lhes conheço. Também não desejo saber de onde vieram nem para onde vão, mas de uma coisa tenham certeza: não é bom ficarem aqui. Minha casa não é de hospedagem; é de diversão. A única ajuda que posso lhe oferecer é uma noite de descanso e alimentos para seguir viagem. Há espaço para todo mundo nesse mundão de Deus.

No outro dia de madrugada, como havia prometido, o casal, que se dizia ex cangaceiros do bando de Lampião, fora embora como havia prometido à cafetina, agradecendo-lhe a hospedagem e os mantimentos doados.

Dias depois a cafetina tomou conhecimento, por meio de um comissário de polícia da região que frequentava o cabaré, que uma volante, vinda de Sergipe, houvera encurralado um casal de ex cangaceiros e morto dentro de uma igreja na circunvizinhança. Por sorte, nenhum fiel ficou ferido.

Maria Bago Mole havia previsto esse desfecho e repassado para as meninas.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

CADA AMOR É ÚNICO

Para Dr.º José Paulo Cavalcanti Filho, que escreveu “Casamento é para Sempre,” crônica antológica publicada no livro SOMENTE A VERDADE, Editora Record/2016.

Ambos haviam saído da adolescência quando se conheceram e começaram a namorar. Num piscar de olhos o amor disse sim e tudo começou como num conto de fadas à Marie-Catherine d’Aulnoy, no final do século XVII.

Não havia tempo ruim para os dois enamorados. Qualquer incidente bizarro do cotidiano, por desimportante que fosse, era motivo para rirem e mostrarem ao mundo que estavam felizes. Coisas da juventude.

Depois de três meses de namoro um e outro resolveram noivar. À moda antiga, românticos, os dois passaram em frente a uma loja de venda de alianças e ele perguntou-lhe qual a que ela mais se identificava. E ela, feliz da vida, indicou uma da vitrine, simples. Ele a comprou e ambos ficaram noivos ali mesmo dentro da Loja Alianças sob o olhar emocionado da atendente.

Depois do noivado, começaram a organizar a vida. Compraram enxoval e demais utensílios domésticos de uso diário para uma casa de um casal que se pretende organizada.

Menos de um ano de noivado, estavam os dois pombinhos de frente para o Juiz dizendo sim à liberdade de escolha; e um mês depois, para a felicidade da família materna, estavam no altar da igreja, de frente para o pároco, prometendo estar com a amada na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-a, respeitando-a e sendo-lhe fiel em todos os dias da vida, até que a morte os separasse…

Dois anos depois de casados, sem filhos, sem motivos, sem desentendimentos, ambos resolveram separar. Ela foi para um lado em busca não se sabe o quê e ele também. Depois, ela arrumou um novo companheiro e resolveu com ele ficar, sem se casar. Ele fez o mesmo; porém casou-se.

Vinte e cinco anos depois de se separarem, ambos se reencontraram. O amor e a admiração que um nutria pelo outro não mudou em anda. Ela com dois filhos, viúva; e ele com dois filhos, casado. O mesmo sorriso, a mesma admiração, o mesmo prazer da juventude de estarem juntos, coladinhos, emergiram nos corações de ambos, como a lua após o sol se pôr. Abraçaram-se, beijaram-se, choraram. Curiosamente ele com ela abraçado, como no passado, as lágrimas correndo dos olhos, perguntou-lhe:

– Amor (ainda posso lhe chamar assim?), se a gente se amava tanto. Gostava tanto a ponto de até hoje o amor continuar vivo, latente, latejante, por que a gente se separou?

E ela, fingindo não lhe ter ouvido nada porque estava feliz o abraçando, aplicou-lhe um beijo demorado e sussurrou-lhe no ouvido:

– Era porque nós dois éramos dois adolescentes irresponsáveis; mas hoje somos maduros e eu estou viúva e você casado!

Ela o beijou mais uma vez e se foi sem olhar para trás, como a dizer: não dou esperança a você para não destruir seu lar, e tocou em frente sem olhar para trás com o coração partido de emoção e as lágrimas caindo-lhe dos olhos.

Ele percebeu que ela estava chorando, embora não demonstrasse. E ele chorou também como a dizer: “Por que é que a vida tem de ser assim?”

Até hoje cada um segue seu Destino, mas o coração sofre o amor desfeito.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ADELINO MOREIRA, O POETA DOS AMORES SUBURBANOS

Quem vive de ilusão é urubu de curtume – Jessier Quirino.

Capa do LP Encontro com Adelino Moreira (1967)

Nascido em Gondomar, Portugal, em 28 de março de 1918, Adelino Moreira de Castro, nome artístico Adelino Moreira, veio morar no Brasil, Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, com apenas um ano de idade. Foi o maior compositor luso-brasileiro interpretado por Nelson Gonçalves. Entre suas obras-primas destacam-se Última Seresta (a primeira a ser gravada), A Volta do Boêmio, A Deusa do Asfalto (reinterpretada magistralmente por Xangai), Boêmia, Negue, Escultura, Flor do Meu Bairro, Fica Comigo Esta Noite, Devolvi (esta gravada por Núbia Lafayette), Ciclone (interpretada por Carlos Nobre), Cinderela, Beijo Roubado, Êxtase, Última Serenata, e tantas outras excelentes composições de amores suburbanos dramáticos gravadas principalmente por Nélson Gonçalves, seu intérprete maior.

Iniciou sua carreira musical a convite do compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, então diretor artístico da Continental, onde gravou, em 1944, os fados Saudades e Olhos d’alma, de Campos e Morais. Em 1945, começou a tocar violão. Nesse mesmo ano, gravou seu segundo disco com as primeiras composições: o samba Mulato Artilheiro e a marcha Nem Cachopa, Nem Comida!. Esta, uma parceria com Carlos Campos. Em 1946, gravou as canções A Minha Oração e Perdoa, de Moreno e Ferreira e as marchas Num Coração, duas Pátrias, de Renato Batista e O Expresso Continua, de sua autoria com Américo Morais. Em 1948, voltou a Portugal, gravando canções brasileiras. Lá, participou como cantor da revista Os Vareiros. Retornando ao Brasil, no início dos anos 1950, abandonou a carreira de cantor, intensificando sua atividade de compositor.

Em 1952, conheceu o cantor Nelson Gonçalves e iniciaram uma intensa parceria. Em geral Adelino compunha e Nelson gravava, mas em algumas músicas como o bolero Fica Comigo Esta Noite, os dois assinaram em dupla. A primeira canção gravada por Nelson foi Última Seresta (1952), seguida de inúmeras outras que passaram a dominar os discos do cantor – normalmente sambas-canções dramáticos – dos quais se destacam o clássico A Volta do Boêmio (que vendeu a astronômica cifra de um milhão de cópias), Meu Dilema, Meu Vício É Você, Doidivana, Flor do Meu Bairro, entre outras.

Durante uma década (1955-1965) Adelino Moreira foi uma máquina de sucessos, provando que era mais forte do que seus intérpretes. Quando se afastou de Nelson Gonçalves, em 1964, num período conturbado da biografia do cantor, Adelino começou a distribuir composições para outros intérpretes. Um dos maiores sucessos de 1959 foi o samba-canção Ciclone que fez para Carlos Nobre, um dos muitos imitadores de Nelson Gonçalves, com quem reataria a amizade dois anos depois. Adelino alegou, na época, que só deu a música para Carlos Nobre para que Nelson Gonçalves entendesse que não era insubstituível.

Foi uma amizade de ótimos resultados financeiros para Adelino Moreira. O sucesso de Argumento, Meu Desejo, Êxtase, Meu Vício é Você e, sobretudo, A Volta do Boêmio, renderam a Adelino Moreira, em 1960, o suficiente para comprar, à vista, um palacete por seis milhões de cruzeiros na Zona Norte carioca, andar de carro importado e deixar de lado os “bicos” (como aprendiz de teatrólogo, sem muito êxito, e radialista).

Sabia como ninguém a fórmula do sucesso e seus limites. Não aderia a modismos. Suas composições eram basicamente do samba-canção (e marchinhas carnavalescas). Em suas letras pintavam cenários suburbanos, habitados por manicures, mariposas (mulheres atraídas pelas luzes das casas noturnas), cinderela e uma fartura de desencontros amorosos.

Em 1962, num programa de TV, sendo entrevistado pelo cultuado e admirado compositor de Aquarela do Brasil, Ary Barroso, este se queixou a Adelino Moreira de não fazer mais sucesso e perguntou se ele poderia lhe explicar o motivo. Mesmo estando de ante de um mito da música popular brasileira, que morreria dali a dois anos, Adelino Moreira não se deixou por rogado, e fulminou naturalmente: “O senhor começou a compor músicas para meia dúzia de criaturas que o endeusam e colocam o senhor no lugar em que o senhor não se encontra. O senhor se esqueceu completamente daquela massa que o elegeu como o maior compositor brasileiro até dez anos atrás. Se o senhor volta a compor para essa massa popular, voltará a fazer o mesmo sucesso.”

O compositor Fernando César, de grandes sucessos no início dos anos 1960, especialistas em versões (fez, por exemplo, a de Marcianita para Sérgio Murilo), definiu com precisão a música de Adelino Moreira: “O Adelino escreve pra gente que toma traçado (coquetel de cachaça com vermute), frequenta botequins, vai ao enterro de todos os amigos, dá cabeçadas nas vitrinas, usa sapato preto com meia branca, diz ‘com o perdão da palavra’ quando fala em suínos, e ‘Deus te ajude’ quando alguém espirra, ou seja, escreve para a grande maioria.”

Adelino Moreira morreu em 2002, com 84 anos, de um infarto, um óbito que ganhou grande cobertura da imprensa. Àquela altura, sua obra tinha sido reavaliada e ele desfrutava o status de mestre da MPB. Artistas de nichos diferentes o regravaram. Maria Bethânia deu uma interpretação definitiva a Negue, trazendo-a de volta às paradas e ao estrelato merecido em 1983 (no álbum Álibi). Em 2001, Negue foi incluída no CD São Vicente di Longe, de Cesária Évora. A banda mineira Pato Fu gravou A Volta do Boêmio, em 1995, no CD Gol de Quem? Sem contar as interpretações feitas pelo grupo Camisa de Vênus, em 1991, Ney Matogrosso e o genial violonista Rafael Rabelo. Em 1980, Ângela Ro Ro fez uma releitura de Fica Comigo Esta Noite – música que foi faixa-título do CD da cantora Simone em 2000 – e, em 1998 as irmãs Alzira e Tete Espíndola reviveram Garota Solitária.

Adelino Moreira não era bem visto pela crítica high society da burguesia metida a bunda da bossa nova, tanto é que o produtor Valter Silva, conhecido como Pica Pau, recusava-se a apresentar as músicas dele no programa que tinha na Rádio Bandeirantes. Mas o grande compositor de ‘Deusa no Asfalto’ e ‘A Volta do Boêmio’ não perdeu a pouse e a classe e o fulminou nos versos do samba-canção ‘Seresta Moderna’ cantada por Nelson Gonçalves: ‘Um gaiato cantando sem voz/um samba sem graça/desafinado que só vendo/e as meninas de copo na mão/fingindo entender/mas na verdade, nada entendendo.’

Deusa do Asfalto, em excelente interpretação de Xangai