CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO (1966)

Cena icônica do cemitério, onde a ambição está debaixo da terra

Terceiro filme da Magna Trilogia dos Dólares: o Bom, o Mau e o Feio, ou Três Homens em Conflito, é uma inquestionável obra de arte do cinema Western Spaghetti. É um filme que mostrou ao mundo o quão talentoso era Sergio Leone. Apesar de suas quase três horas de duração, o filme é inteligentemente ágil e impressionantemente hábil.

O longa-metragem completa a Trilogia dos Dólares agora com três protagonistas. O Bom, o Homem sem Nome; o Mau, Olhos de Anjo e o Feio, Tuco. Cada um apresentado no primeiro ato: O Bom, ainda trabalha como caçador de recompensas, o Feio é um bandido cruel e o Mau, um homem em busca de um tesouro perdido de 200.000 mil dólares no cemitério…

Ambientado na Guerra Guerra de Secessão dos Estados Unidos, o filme gira em torno de três homens em busca de um tesouro perdido. O bom, o mal e o feio é uma alusão ao próprio cinema americano, que sempre utilizava personagens maniqueístas. Esta não é a intenção da obra aqui, cada personagem tem nuances de bem e mal. O clima sujo e realista da época é trespassado por olhares penetrantes que parecem encarar o próprio espectador, a habilidade dos atores, apesar de surpreendente, não parece sobrenatural como em outros filmes. O destaque fica por conta dos duelos ao longo do filme, culminando com um grande duelo final que você deve ver para compreender.

Clint Eastwood continua no seu personagem o Homem sem Nome, (com o codinome de Lourinho), personagem que ele incorpora com habilidade e mestria. O Lee Van Cleef soube criar um personagem carismático, numa interpretação magnífica. Um ótimo ator que qualquer diretor gostaria de tê-lo interpretando qualquer personagem coadjuvante ou principal.

Mas, o mais extraordinário é a atuação do ator Eli Wallach. Seu desempenho é magistral. Ele aparece em quase todas as cenas, com grande atuação interpretativa. Na verdade, ele é o ator principal, pois tem o triplo das ‘falas” dos demais personagens e sua versatilidade supera o limite da interpretação.

Durante todo o filme o telespectador fica torcendo pela sua aparição, pois ele ” rouba” todas as cenas em que aparece, inclusive a sua atuação tem mais intensidade que a de todos os demais atores.

As cenas principais se intensificam do meio para o fim do filme, quando os personagens se envolvem com a guerra civil americana, com cenas de guerra violentas, campo de prisioneiros, sadismo de oficiais… Tudo apresentado e encaixado com genialidade pelo diretor Sergio Leone.

Mais uma vez o diretor faz uso constante da técnica de “closes” dos personagens, pois com esses “closes” é possível mostrar a reação dos personagens diante do perigo ou do inesperado.

Para saber usar esses “closes” com eficiência, o diretor precisa ser um mestre e também os atores, pois se o ator não souber reagir adequadamente a um “close” de alguns segundos e não souber demonstrar o que está sentindo, fica com cara de idiota. Mas nas mãos do diretor Sergio Leone tudo fica magnificamente superlativo.

O filme é repleto de muita ação inesquecível e certamente agradou e agrada a todos aficionados do tema em qualquer época, que apreciam uma boa história de faroeste. Não se deseja aqui contar a história do filme, apenas informar que o fato principal é que os três personagens principais acabam se envolvendo no resgate de um grande tesouro de ouro, roubado do exército e escondido numa cova em um cemitério…

O duelo final entre os três personagens no cemitério é uma cena antológica, memorável, que dura aproximadamente uns 10 minutos, sem qualquer diálogo. É filmado numa pretensa arena circular no meio do cemitério, apenas pontuando a magnífica trilha sonora do genial maestro Ennio Morricone.

Sobre esse filme, um crítico experiente declarou em um artigo: “Sem sombra de dúvida, o western mais ambicioso e influente já produzido. É uma aventura audaciosa que mudou para sempre o futuro do gênero.”

E saber que essa extraordinária, monumental, memorável obra de grande perfeição fílmica foi feita muito antes de Leone criar mais outra obra-prima do gênero: “Era uma Vez no Oeste,” não há que se discutir até onde vai a capacidade criativa de um gênio.

Porém há muito mais substância e camadas em o Bom, o Mau e o Feio ou Três Homens em Conflito do que se possa pensar à primeira vista. Não se trata de um filme difícil em termos de conteúdo, mas talvez na interpretação de suas riquezas simbólicas, que podem ser escancaradas ou estarem nas estrelinhas.

Além disso, o espectador precisa ver o filme sem pressa de que ele alimente respostas ou verdadeiro sentido antes do final, pois aí é que está a sacada do diretor Sergio Leone. Ele nos guia por um caminho de busca e luta entre dois lados, cada um atormentado por um demônio e com um objetivo egoísta para cumprir. Ao chegar ao definitivo clímax, ele reverte o jogo e nos escancara o dilema da solidão, do sentido para a vida do homem em busca de dinheiro ou justiça. Nesse ponto final, há uma seta que nos faz retornar para o início da obra, onde a frase de abertura, enfim, alcança o seu real sentido: “Onde a vida já não tinha mais valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis que surgiram os caçadores de recompensas“.

Sergio Leone foi o único cineasta da História do faroeste que teve uma terceira chance de causar mais uma impressão.

Três Homens em Conflito ( Itália / 1966 ) – Trailer Oficial

14 Curiosidades Inéditas Sobre o Filme O Bom O Mau e o Feio

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POR UNS DÓLARES A MAIS (2)

Cena icônica de “Por uns Dólares a Mais (1965),” do diretor italiano Sergio Leone

Em seu segundo filme da Trilogia do Homem sem Nome, o diretor Sergio Leone pensou um filme simples, mas engenhoso, com uma temática diferente do primeiro. Enquanto “Por um Punhado de Dólares” ele narra a história de um pistoleiro solitário, “Por uns Dólares a Mais”, vê-se um cenário diferente: desta vez, o homem sem nome, personagem de Clint Eastwood, trabalha como caçador de recompensas, e acaba tendo a concorrência de um desconhecido recém chegado à cidade, o coronel Douglas Mortimer, interpretado magnificamente por Lee Van Cleef. Os dois buscam informações um do outro enquanto um perigoso vilão aparece na história, o pistoleiro conhecido como El índio, interpretado por Gian Maria Volonte, o mesmo que dá vida ao vilão de “Por um Punhado de Dólares”, só que agora vivendo outro personagem cruel.

O vilão desta trama, tal como no filme anterior, tem grande destaque, e novamente Gian Maria Volonte tem uma atuação impecável, na pele do sádico pistoleiro El Indio, que lidera uma quadrilha de assaltantes de banco que não perdoa ninguém que atravessa seu caminho. Clint Eastwood repete seu personagem, o Homem sem Nome, e novamente tem uma atuação brilhante. Tal como o recém chegado Lee Van Cleef, que interpreta um personagem dúbio, e que não nos dá muitas pistas sobre seu caráter, algo que Lee Van Cleef trabalha muito bem em seu personagem, e como era de se esperar, ele tem uma brilhante atuação, guiado pelo talentoso diretor da obra-prima “Era uma Vez no Oeste.”

Nesse filme temos sequências de ação espetaculares, além de uma história globalmente simples, mas coesa, com um roteiro sem furos. A trilha sonora, novamente assinada pelo maestro Ennio Morricone, é simplesmente brilhante, e dá exatamente o clima que a trama requer. Um trabalho magistral.

Sergio Leone conduz seu elenco com mão de mestre, tirando o melhor de cada ator. As cenas dos confrontos, com closes constantes, também são esplêndidas. O cenário reconstrói com louvor o Velho Oeste. Em resumo, “Por uns Dólares a Mais” é mais uma obra-prima da Magna Trilogia dos Dólares do diretor Sergio Leone que merece ser assistida a exaustão porque há sempre uma coisa nova a se descobrir.

A contratação do competente ator Lee Van Cleef por Sergio Leone, que já tinha demonstrado seu talento como ator coadjuvante em inúmeros filmes, inclusive teve uma importante participação no clássico western “Matar ou Morrer” com Gary Cooper, e fez pequenas pontas em vários filmes no início de sua carreira, assim como outros grandes atores hoje reconhecidos por suas atuações memoráveis em vários filmes da época, como Lee Marvin, Jack Elann, e porque não incluir o extraordinário negão, Woody Strode, um dos atores favoritos do diretor “racista” JOHN FORD, prova a competência do diretor e comprova porque a Magna Trilogia dos Dólares é insuperável na história do western spaghetti.

Portanto, não é redundância afirmar: a contratação do ator Lee Van Cleef para fazer um personagem dúbio foi um golpe de mestre do diretor Sergio Leone e o resultado final do produto foi memorável, segundo o crítico de cinema e roteirista norte-americano Roger Ebert. A música pontua do início ao fim, naquela harmonia característica e qualidade insuperável do genial maestro Ennio Morricone. Ao final, temos a certeza de ter desfrutado de mais de duas horas de pura arte cinematográfica westerniana.

a) Trailer Oficial de “POR UNS DÓLARES A MAIS”

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POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1)

Clint Eastwood em cena icônica de “Por um Punhado de Dólares”

Primeiro filme da Magna Trilogia dos Dólares ou Trilogia do Homem Sem Nome, estrelada por Clint Eastwood (o pistoleiro solitário), no papel principal, filmado na Itália, na Espanha e na Alemanha Ocidental. Dirigido pelo genial diretor italiano Sergio Leone.

Nesse primeiro filme da série, todos os atores, técnicos e diretores estão com os nomes americanizados. O diretor Sergio Leone consta como sendo Bob Robertson. A trilha sonora ficou a cargo do genial maestro Ennio Morricone, que usa a sensibilidade musical para marcar presença. Nos créditos do filme seu nome aparece como Leo Nichols. Cacoetes da época.

“Por um Punhado de Dólares” provoca uma forte impressão no telespectador. Dirigido com precisão, porém sem o rigoroso estalão empregado em O Bom, O Mau e O Feio (1966) ou em Por Uns Dólares a Mais (1965), Por Um Punhado de Dólares é uma espécie de crônica impiedosa que nos deixa em estado de atenção durante toda sua projeção e termina por nos fazer sorrir com amargura para a tela. A história é simples, transportada quase que de maneira integral do filme “Yojimbo – O Guarda-Costas”, de Akira Kurosawa. No caso específico desse início da Trilogia dos Dólares, temos um pistoleiro solitário e sem nome (Clint Eastwood), que chega a uma pequena vila na fronteira dos Estados Unidos com o México, um lugar dominado por duas famílias de bandidos e contrabandistas, os Baxters e os Rojos.

Apesar de não constar na apresentação, o filme cujo roteiro dispensa comentário, foi escrito por várias mãos, como sendo Sergio Leone, Andrés Catena, Jamie Comas Gil, Fernando Di Leo, Duccio Tessari, Tonino Valerii, com versão inglesa de Mark Lowell e Clint Eastwood.

Isso não desmerece em nada o filme, pois o roteiro original e a cópia italiana são perfeitos, com muita ação e belamente interpretados. A versão italiana é colorida. Quanto à versão japonesa é em preto e branco. A versão japonesa é considerada um clássico. Mas o filme “Por um Punhado de Dólares” tem uma interpretação muito convincente do ator Clint Eastwood, que foi dirigido magistralmente pelo diretor Sergio Leone, que desde este seu primeiro filme como spagheti western, demonstra a que veio e nos dá uma aula de como dirigir um filme com segurança e genialidade, isso com pouco recurso.

A História tem muito suspense, a direção é soberba e os atores são todos de primeiríssima qualidade, muitos são celebridades do cinema italiano, que confiaram no talento do diretor Sergio Leone, aceitaram o papel secundário e realizaram um belíssimo trabalho interpretativo.

Necessário faz-se chamar a atenção dos leitores para uma característica muito usada pelo diretor Sergio Leone em todos os seus filmes, sendo que neste ele usa e abusa inteligentemente dos closes. São praticamente centenas de closes em todas as cenas. O diretor procura mostrar aos espectadores a reação dos personagens com closes longos e repetidos a exaustão e os personagens reagem belamente com essa técnica com belíssimos e expressivos closes em quase todas as cenas.

As cenas finais são antológicas, principalmente o duelo final, no qual o personagem (sem nome) interpretado pelo ator Clint Eastwood, usa um escudo de ferro embaixo do seu ponche. Cena esta já histórica e sabiamente aproveitada pelo diretor Robert Zemeckis no filme “De Volta Para o Futuro nº. 3” com um resultado de muita criatividade.

A Trilha sonora é tão importante neste filme, como se fora um personagem vivo e testemunha presente dos fatos. A música pontua, chama atenção para pequenas cenas, pequenos gestos e segue os atores nas cenas em que há alguma expectativa, de modo insistente como a advertir os personagens do que está por vir. A música é um personagem do filme, coisas do maestro Ennio Morricone que já declarou que antes de fazer a música ele precisa conhecer toda história do filme e mais importante: acompanhar as principais cenas da filmagem, como ele fez no clássico “Era Uma Vez no Oeste” o que resultou naquela magnífica obra-prima do Western Spaghetti.

“Por um Punhado de Dólares”, apesar do pouco recurso para realizá-lo, nasceu clássico do oeste.

Por Um Punhado De Dólares (1964) Trailer#1 Com Clint Eastwood e Gian Maria Volonté

Como Surgiu o Faroeste Spaghetti?

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“VÁ E VEJA” (1985) – OBRA-PRIMA SOBRE OS HORRORES DA GUERRA

Vá e Veja – esse filme foi censurado por ser muito realista

Nem Glória Feita de Sangue (1957), do genial diretor Stanley Kubrick, nem Nascido Para Matar (1987), do mesmo diretor, nem O Resgate do Soldado Ryan (1999), do genial Steven Spielberg, nem A Lista de Schindler (1993), do mesmo diretor, nem o recentemente lançado, Nada de Novo no Front (2022), do diretor Alemão Edward Berger e tantos outros filmes sobre a primeira e a segunda guerra mundiais, superam Vá e Veja, filme de guerra Alemão realizado pelo diretor russo Elem Klimov em 1985, e só recentemente redescoberto pelos estudiosos do tema, por sua importância superlativa, superando todos os outros filmes produzidos sobre o mesmo tema, que tratam da crueza da guerra sem retoques.

Vá e Veja é um dos filmes de guerra mais devastadores já feitos. É perturbador, monstruoso e assombroso. As mazelas da guerra são pulsantes e recaem duramente sobre o âmago do espectador. Nele, o horror da guerra é posto da forma mais crua e realista possível, beirando o absurdo.

Bielorrússia, 1943. O jovem camponês Florya (Akeksei Kravchenko) é cooptado por um despreparado grupo de guerrilheiros antinazistas. Em confronto com os alemães, o garoto é deixado para trás e decide retornar ao seu vilarejo. Chegando lá depara com o desolador cenário de um massacre. Perturbado, ele passa a vagar sem rumo, presenciando cenas cada vez mais fortes, que a crueldade humana é capaz.

O filme narra a história de Florya, adolescente bielorrusso que, ao desenterrar um rifle se junta a um grupo de resistência soviética, deixando seu vilarejo e sua família. Ao ser deixado para trás por ordem de um superior, o jovem retorna ao vilarejo e encontra um cenário deplorável, devastador.

Os olhares diretamente voltados para a câmara de Flyora Gaishun vão cada vez mais se deformando e nos assombrando. A evolução da irracionalidade é simplesmente magistral, palpável e corrosiva. O olhar desse jovem transmite bestialidade e o horror que foi a segunda guerra mundial, e outras guerras, e outros regimes autoritários que oprimem.

A sanidade do jovem camponês vai se degradando ao passo que esse se depara com cenas perturbadoras, correndo sua racionalidade e o arremessa diretamente no absurdo. A hora final desse filme é devastadora e descreve perfeitamente todo o mal e a crueldade atrelados ao holocausto, exalando repulsa aos atos desumanos.

Esse filme precisa reverberar ontem, hoje e sempre, ainda mais em tempos em que podemos perceber o avanço de todas as tendências esquerdistas. Portanto, é preciso mostrar o que é a barbárie. O que significa uma guerra e a violência total aos nossos semelhantes simplesmente por pensar diferente ou discordar de nós. O fascismo e o esquerdismo monstruoso são uma doença terrível e precisamos estar atentos! E fortes! Quem não acredita, VÁ E VEJA!

Trailer Legendado

Crítica do filme

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A ROCHA (1996) – MELHOR FILME DO DIRETOR DOS TRANSFORMERS

Cartaz de A Rocha, mostrando a prisão de Alcatraz

THE ROCK (1996), ou A Rocha, no Brasil, é até hoje disparado o melhor filme do contestado diretor americano Michael Bay. Um cineasta que é perseguido pela crítica, mas que provou saber trabalhar muito bem naquela que é sua proposta: os filmes de muita ação. Quem assiste a esse filme dificilmente identificará Michael Bay como o diretor dos filmes Transformers.

“Um general (Ed Harris), herói na Guerra do Vietnã, e seus comandados se apoderam de poderosas armas químicas e se instalam na prisão de Alcatraz com 81 reféns e cobram US$ 100 milhões de resgate, caso contrário, ameaçam disparar as armas sobre São Francisco. Um grupo de elite é mandado à ilha para combatê-los, entre eles um jovem especialista em armas bioquímicas (Nicolas Cage) e o único homem (Sean Connery) que conseguira escapar do presídio.”

Com um roteiro muito bem elaborado, e assinado por ninguém mais ninguém menos que Quentin Tarantino, o filme consegue ter muita ação e adrenalina sem ser um filme desconexo. Um filme instigante e que prende o espectador na cadeira da primeira a última cena.

O elenco é uma verdadeira constelação, e conta com alguns dos grandes nomes do cinema na época. E todos estão muito bem no filme, diga-se de passagem.

Os protagonistas do longa são Sean Connery, o eterno James Bond e o na época requisitado Nicolas Cage, que havia acabado de vencer o Oscar por Despedida em Las Vegas (1996). Connery interpreta John Mason, um ex-agente do serviço secreto britânico, que está preso pelo governo americano por conta de ter descoberto as grandes mentiras da história americana.

Após anos de prisão a CIA precisará dele, pois o antigo Presídio de Alcatraz, conhecido como A Rocha, foi tomado por militares, liderados pelo General Francis Hummell (Ed Harris), que ameaça disparar uma arma biológica sobre São Francisco caso suas exigências não sejam atendidas, e ele é o único homem que escapou da penitenciária, então seria o único que poderia entrar lá sem ser notado, já que uma operação fora descartada por conta de 81 turistas que foram feitos reféns.

Sean nos brinda com uma grande atuação, que obviamente nos faz lembrar seu personagem mais famoso, o Espião James Bond, só que agora mais velho, mas com a mesma competência de sempre, e uma imprevisibilidade de assustar impressionante.

Nicolas Cage interpreta o Dr. Stanley Goodspeed, um químico que entrará junto com a equipe Militar em Alcatraz, com o objetivo de desarmar as armas biológicas antes que as mesmas sejam disparadas. E diga-se de passagem Cage tem uma das melhores atuações de sua carreira nesse filme, e nos faz sentir saudades dessa época, onde ele emplacava seguidamente Despedida em Las Vegas, A Rocha, Con Air e A Outra Face. Já que hoje o máximo que ele emplaca, é uma bomba atrás da outra.

Ed Harris interpreta o personagem que em tese seria o vilão, mas esse está bem longe de ser um personagem simples, pois sua complexidade está em ele ser um bom homem e um patriota, que se sente no dever de mostrar as injustiças que o governo americano cometeu com seus bravos soldados, mortos em campo de batalha, e esquecidos por seu país, que deixaram suas famílias totalmente desamparadas. Harris, como de costume, tem uma brilhante atuação, e consegue passar ao espectador todos os conflitos, éticos e morais que seu personagem passa, de forma que ao assistirmos o filme, podemos até nos compadecer do general, o que geralmente não acontece com os personagens rotulados como vilões.

David Morse e Michael Bieh são outros destaques do longa, apesar de terem papéis menores, porém de extrema importância, principalmente no caso de Morse, na amarração da trama.

Os efeitos visuais de A Rocha são um verdadeiro espetáculo, tal como a locação escolhida, que realmente nos leva para dentro de uma Alcatraz tomada por militares minuciosamente treinados, e preparados para a guerra.
Em resumo, A Rocha é um grande filme, que eu sem dúvida nenhuma recomendaria a todos os que queiram assistir a um bom filme, sem se importar com o que dizem os críticos de plantão.

a) Trailer de Cinema de “A Rocha”

b) A Rocha – Confira o roteiro

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RITA DE CÁSSIA – UMA COMPOSITORA DE TALENTO RARO

Encantou-se no dia 03.01.2023 Rita de Cássia, compositora de talento raro

No dia 19.02.2018, publiquei aqui no JBF essa crônica singela sobre essa cantora e compositora cearense, que, com o seu talento musical, revolucionou o forró estilizado dos anos 90. Hoje eu republico em sua homenagem.

Rita de Cássia de Oliveira Reis, filha do agricultor e sanfoneiro autodidata Francisco Flor dos Reis, sábio lavrador analfabeto que colhia da vivência da vida a pedagogia do saber, e da professora Maria Oliveira dos Reis, que colhia da vida o saber da pedagogia.

Conhecida no mundo artístico como Rita de Cássia, cantora e compositora de mais de quinhentas músicas de forró, nasceu em Alto Santo, município do Estado do Ceará, localizado na microrregião do baixo Jaguaribe.

No decorrer de sua carreira, que começou com menos de doze anos como compositora, lá em Alto Santo, Rita de Cássia já gravou mais de 12 CDs em parceria com seu irmão Redondo e a Banda Som do Norte, mais de 05 CDs Voz e Violão, 02 DVDs Acústicos, 01 CD em comemoração aos 20 anos de carreira, 01 CD Rita de Cássia Ao Vivo (2010) e 01 CD intitulado de “Cuide de ser feliz” (2015), com 13 faixas inéditas.

Mas seu reconhecimento como compositora criativa, de sensibilidade rara foi descoberto e só veio a público pelas mãos do visionário produtor musical cearense Emanoel Gurgel, que viu nela um extraordinário potencial promissor e a projetou no cenário nacional e internacional com suas composições de forró romântico gravadas pelas bandas Cavalo de Pau, Mel com Terra, Catuaba com Amendoim, Brasas do Forró, Aviões do Forró e principalmente a Mastruz com Leite nos anos noventa, e até hoje domina o cenário musical nacional em toda época do ano, antes só vivenciando no mês junino porque o povo tinha vergonha de cantar depois por ser brega.

Além dessas bandas de forró que gravaram suas músicas, a cantora e compositora Rita de Cássia, já teve várias canções de sua autoria gravadas por Eliana, Katia de Trói, Frank Aguiar, Wesley dos Teclados, Amelinha, Marinês, As Mineirinhas e tantos outros cantores e cantoras de reconhecimentos artísticos nacionais.

Quando começou a compor, escrevia suas composições em cadernos e guardava só para ela, porque não se interessava em mostrar a ninguém. Quando concluiu o 2° grau seu irmão Redondo a convidou para ser vocalista da Banda Som do Norte, criada por ele.

Mesmo sem aprovação dos pais, ingressou em seu sonho de cantar e ser uma grande compositora na companhia do irmão. Com o tempo ela fez os pais mudarem de ideia.

Em 1992 a cantora Eliane grava Brilho da Lua, tornando sucesso absoluto, sendo a música mais executada em Fortaleza. Logo em seguida, Sonho Real foi gravada pela banda Mastruz com Leite que já começava a despontar com muito sucesso no Ceará e outros estados do Nordeste.

Em 1993 a banda Mastruz com Leite grava Meu Vaqueiro, Meu Peão de Rita de Cássia e foi uma explosão de sucesso em todo Brasil. Meu Vaqueiro, meu Peão, tornou-se um hino do forró. Começa aí o estrelato de Rita de Cássia como compositora. Ganhou o diploma “Destaque de Melhor Compositora do Ceará em 1993”. O forró começava a tomar conta de todo Nordeste com uma linguagem romântica, com poesia suave.

A forma direta de falar de amor começou a dar certo e Rita de Cássia, usando todo o seu talento e carisma, continuava compondo canções lindíssimas e recebia muitos elogios a cada dia de locutores, bandas e principalmente de jovens que passaram a gostar do forró com esta grande evolução.

Em 1994, Rita de Cássia ganha o prêmio destaque da Região Vale do Jaguaribe, como melhor compositora. Além disso, já estava em 8° lugar entre os melhores compositores do País e, em 1995 recebeu os parabéns do ECAD ( Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), por ter sido primeiro lugar em execução no Brasil, juntamente com a SOMZOOM STÚDIO, criada pelo visionário produtor Emanoel Gurgel, depois de levar muitas lapadas das grandes gravadoras e dos “disc jockys”, que rejeitavam seu produto musical assim que ele dava as costas, mesmo pagando altíssimo “jabá” para tocar.

Foi também nesse ano que a cantora e compositora Rita de Cássia foi gravar o primeiro CD intitulado Rita de Cássia, Redondo e Banda Som do Norte, tendo como sucesso a música No Voo da Asa Branca, em que retratava a saudade dos nordestinos que deixavam sua terra natal e partiam para a solidão das grandes cidades.

Em 1998, a banda Mastruz com Leite volta a fazer sucesso com a música Tatuagem, de autoria de Rita de Cássia, que foi umas das mais tocadas nas rádios de todo o Brasil, e depois com A Saga de um Vaqueiro, música genialmente extensa que conta uma história de amor impossível com mais de nove minutos de execução.

Em 2000 seus méritos também foram reconhecidos no evento “XX – O Século das Mulheres”, promovido pelo jornal Folha do Comércio, onde ela foi homenageada e recebeu o título de “Compositora do Século XX”.

Em 2002 teve novamente a explosão de suas composições na música Jeito de Amar (Porres por Você), gravado nas vozes de Solange e Xande (Aviões do Forró) no 2º CD da banda e, mais tarde, pela banda Mastruz com Leite.

Segundo o produtor musical Emanoel Gurgel, criador da produtora SomZoom Stúdio, responsável pela projeção desse riquíssimo sucesso musical, o estúdio nasceu da necessidade de se valorizar um mercado rico musicalmente mas que era desvalorizado pelas grandes gravadoras e grandes emissoras de rádios da época que torciam o nariz chamando-o de produto estrume e sem futuro.

Rita de Cássia e Emanoel Gurgel venceram com seu talento, determinação e muito trabalho e hoje fazem parte da história da música de forró romântico que à época era considerada produto descartável, brega.

Existe um senhor que não mente nunca, dependendo do que você faz de bom ou de ruim na vida: O Tempo! E o tempo deu razão a Emanoel Gurgel e Rita de Cássia!

O forró pé de serra havia feito sua história! Estava no limbo! O forró romântico veio ocupar esse espaço quase vazio com a força de uma metralhadora 100 sem avacalhar o ritmo, graças ao visionário Emanoel Gurgel, o grande responsável por essa revolução musical.

Emanoel Gurgel e Rita de Cassia – Vou pedir licença pra contar a nossa história

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TERCEIRO DIA DE UMA NAÇÃO À DERIVA

Esse é o terceiro dia triste dessa grande nação chamada Brasil, que só funciona de cabeça para baixo e sem roteiro pré-determinado. Mas nada como um dia atrás do outro e um pinguelo janjiano no meio.

Comemoremos essa incerteza com dois vídeos que resumem a cinebiografia de um homem pequeno, gordinho, óculos bifocais, macho, destemido, que, com ousadia, determinação, culhões roxos, atitudes e lances geniais, mudou a maneira de se fazer filmes de faroeste numa Itália devastada da Guerra, mesmo sem grana e com as críticas dos chamados expertises mourões: Sergio Leone.

Diferentemente daqui, onde todos os agentes públicos envolvidos com a máquina do poder tinham as ferramentas de transformação nas mãos, mas preferiram jogá-las no ventilador cheio de bosta.

a) Quem é Sérgio Leone?

Clique aqui para acessar o vídeo completo

b) Era Uma Vez No Oeste (dez óbices que só os grandes homens sabem driblar)

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ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – O MAIOR CLÁSSICO DE FAROESTE DE TODOS OS TEMPOS

Cena icônica do massacre de Flagstone, onde o pistoleiro Frank dizima a família McBain de forma cruel

“O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. “Era Uma Vez No Oeste” é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens do filme, exceto Claudia (Cardinale), têm consciência de que não chegarão vivos ao final.” Sergio Leone.

ERA UMA VEZ NO OESTE foi mais uma obra-prima do proeminente diretor Sergio Leone. Só não superou a si mesmo devido ao (quase) insuperável O Bom, O Mau e o Feio (Três Homens em Conflito – (1966), último filme da Magna Trilogia dos Dólares. Mas sem dúvida esse é um clássico do faroeste memorável, superlativo, e porque não? Do cinema como um todo. Superou todos os filmes que à época eram endeusados por muitos “críticos” como melhores do gênero western, como Rio Bravo (1959) – Onde Começa o Inferno e Matar ou Morrer (1952)… Era Uma Vez No Oeste é uma ópera incomparável!

Era Uma Vez No Oeste mostra a realidade nua e crua do oeste, com homens cruéis lutando para sobreviver a ermo, utilizando-se de métodos torpes. Para quem gosta de cinema essa obra-prima é insuperável. Fica a dica, para quem não assistiu O Bom, O Mau e o Feio, também assisti-lo, pois se trata de uma magna obra magna, de importância cinematográfica superlativa, épica.

Era Uma Vez no Oeste é muito mais do que um dos maiores faroestes já feitos. Essa obra-prima de Sergio Leone transcende qualquer categorização por gêneros ou subgêneros e alcança facilmente o panteão dos melhores filmes que já sagraram as telonas. É, talvez, o ponto alto da carreira do diretor, que demonstra uma impressionante maturidade de temas, fotografia, cenografia, montagem, trilha sonora e um controle absoluto de seu elenco, para alcançar um resultado de se aplaudir de pé.

E olha que Sergio Leone nem mesmo precisou se distanciar muito da estrutura que lhe deu todo o renome que tinha quando ele, tentando fugir das ofertas da United Artists e outros estúdios para dirigir mais westerns, não conseguiu recusar o orçamento generoso da Paramount, que vinha encabeçado pela oferta dele trabalhar com Henry Fonda, seu ator preferido e que era sua escolha original para o papel que consagrou Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares. Novamente preso ao gênero do qual queria fugir, Leone não se fez de rogado e arregimentou a ajuda de Dario Argento e Bernardo Bertolucci (ambos, à época, críticos de cinema e roteiristas ainda em começo de carreira, com Bertolucci já tendo dirigido, mas nada relevante) para criar a linha narrativa de Era uma Vez no Oeste.

Essa trinca colaborativa foi extremamente importante para o sucesso que o filme alcançaria e, também, para a atemporalidade dessa fantástica obra (sim, essa fita é merecedora de hipérboles!), pois Leone, Argento e Bertolucci extraíram a essência dos faroestes americanos de grande sucesso à época e trabalharam na inserção desses elementos representativos ao longo de toda a narrativa, mas sem se esquecer dos elementos característicos do faroeste característico do próprio Leone, como o misterioso personagem sem nome, no caso “Harmônica”, vivido por Charles Bronson num papel memorável e o passo desacelerado, que ganhou contornos próprios em “Era uma Vez no Oeste” que, logo em sua longa abertura, nos apresenta as aventuras de uma mosca sobrevoando no rosto do pistoleiro matador, sujo e suado.

Com a narrativa pronta e uma versão do roteiro já escrita, Leone chamou Sergio Donati, que trabalhara com ele, sem receber créditos, em Por um Punhado de Dólares e outros, para fazer a sintonia que durara um ano. Donati, então, focou em destilar Era uma Vez no Oeste para sua essência, com o objetivo de tornar o filme o mais hollywoodiano possível, mas ao mesmo sem perder a alma do Western Spaghetti. São de Donati os diálogos marcantes da projeção, além de ter sido ele o responsável por impedir que o filme, depois, fosse muito mutilado para lançamentos em mercados diferentes, ainda que as versões feitas tivessem oscilado entre 145 e 175 minutos, mas nenhuma delas realmente se sobrepondo de maneira relevante sobre a outra.

Uma grande vitória, sem dúvida. Trabalhando duas narrativas a princípio separadas sobre o conflito gerado com a chegada dos trens e outra uma típica história de vingança, que se misturam com as mais clássicas histórias de bandidos e histórias envolvendo ameaças às terras de alguém.

Sergio Leone constrói, sempre com seu passo preciso, detalhista e lento de um western spaghetti, uma rede de tramas envolvendo Harmonica, o herói silencioso que caça o pistoleiro Frank (Henry Fonda) que, por sua vez, assassina a família McBain para abrir espaço para a chegada da ferrovia e coloca a culpa em Cheyenne (Jason Robards), que se une à Harmonica para salvar Jill McBain (a estonteante Claudia Cardinale), ex prostituta e herdeira da fazenda dos McBain da sanha assassina do matador cruel Frank. Reparem na circularidade do roteiro, que não deixa pontas soltas e encaixa uma narrativa aparentemente solta à outra, demonstrando o excelente trabalho na confecção da história e o cuidado na redação do roteiro.

E Leone não tem pressa em fazer revelações. Não sabemos bem quem é o misterioso homem que toca gaita, que é perseguido por três assassinos no começo, não entendemos exatamente as intenções de Frank ainda que sintamos um certo temor ao ver aquela figura de olhos azuis penetrantes e demoramos a perceber o exato papel de Cheyenne e de Jill na trama. Tudo é mostrado e pouco é dito, mas o desenrolar e a convergência das linhas narrativas são cadenciados à perfeição de forma que diálogos se tornam supérfluos. Os olhares, com os famosos planos detalhes de Leone, contrastados com tomadas em plano geral, dizem tudo.

Somos tragados para a história naturalmente e a longa duração do filme parece passar em alguns instantes, tamanha é nossa fixação na tela. E, permeando o embate, há, mais uma vez, a trilha sonora de Ennio Morricone, um de seus mais impressionantes trabalhos. Desde a gaita narrativa coroando o leitmotif de Harmonica, passando pela música mais forte que caracteriza Frank, até o belo vocal de Edda Dell’Orso, que empresta nobreza e força à Jill McBain.

Talvez não tão memorável quanto à trilha de Três Homens em Conflito, a composição de Ennio Morricone para Era uma Vez no Oeste parece, por outro lado, ainda mais integrada à narrativa que no filme com Clint Eastwood e isso talvez se deva ao fato que Leone, em um movimento raro, pediu para Morricone compor a trilha antes das filmagens começarem, de maneira que o diretor pudesse tocá-la durante a fotografia principal, em atitude, hoje em dia, mimetizada por Quentin Tarantino, com suas músicas pop que escolhe pessoalmente e toca nas filmagens.

Com isso, talvez, a música de Era uma Vez no Oeste tenha influenciado as atuações e não o contrário como é o usual, resultando em uma mescla que pouco se vê por aí. Ainda falando em som, o trabalho do espectro sonoro em Era uma Vez no Oeste é perfeito, desde a edição de som até sua mixagem, com o uso de sons inspirados pelos westerns usados como referência aliado a um orçamento mais alto, que permitiu um trabalho melhor na finalização, especialmente se comparado com a Trilogia dos Dólares. A união da trilha sonora com os sons do filme e, em vários momentos, com a substituição da trilha pelos sons, aumenta a sensação de imersão que a fita proporciona, envolvendo-nos ainda mais profundamente na história da trinca principal de personagens. “Era uma Vez no Oeste” é um grande triunfo cinematográfico, merecendo figurar em todas as listas dos melhores filmes já feitos. Sergio Leone merece todos os nossos agradecimentos profundos e uma eterna salva de palmas por realizar o maior western da história do faroeste.

Era uma Vez no Oeste – Trailer

Era uma Vez no Oeste – 10 coisas que você não sabia! Resumo e curiosidades

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969) – UMA OBRA-PRIMA DE SAM PECKINPAH: O POETA DA VIOLÊNCIA

Crônica dedicada ao cinéfilo Altamir Pinheiro, autor do esperado livro ‘No Escurinho do Cinema’

Cartaz em Blu-Ray de “Meu Ódio Será Sua Vingança.”

“The Wild Bunch,” EUA, (1969), ou “Meu Ódio Será Sua Herança,” possui uma abertura intrigante onde a uniformidade com a longa e antológica sequência final do longa-metragem. O filme começa com um grupo de policiais uniformizados, montados a cavalo, entrando numa pequena cidade norte-americana decadente. O bando cruza com crianças que brincam no meio da rua, perto dos trilhos de um trem. Algumas tomadas esparsas mostram que a brincadeira infantil é um bocado cruel: os meninos jogaram escorpiões no meio de um formigueiro, e os bichos venenosos estão sendo devorados pelas formigas. Junto, há uma tenda onde um pastor exaltado prega a salvação da alma, ignorando a crueldade infantil contra os animais indefesos.

“Meu Ódio Será Sua Herança” encerra enfocando os remanescentes do mesmo grupo de homens que aparece no princípio. Eles não são policiais, e sim uma quadrilha de assaltantes de banco; aquele era apenas um disfarce, como o espectador logo vai descobrir na movimentada e sangrenta sequência que abre o filme com gosto de pólvora. Não há heróis aqui, nem vilões. Todo o longo espectro de personagens é moralmente questionável.

Na ocasião do fim do longa os foras da lei estão no México, e se dirigem para resgatar um dos membros do grupo, preso por um rebelde paramilitar chamado General Mapache (Emilio Fernandez). O violentíssimo tiroteio que se segue não apenas encerra o filme de maneira brilhante, mas fecha um círculo e explica a cena dos escorpiões da abertura; os escorpiões são uma metáfora para os bandidos.

Os escorpiões são intrigantes porque jamais estiveram no roteiro do longa-metragem. Na verdade, eles foram uma sugestão de Emilio Fernandez, que contou ao cineasta Sam Peckinpah como se divertia no deserto mexicano, quando era menino. Peckinpah percebeu a fascinante simetria e filmou o ataque das formigas aos escorpiões abusando de planos-detalhes. Ao fazê-lo, acabou concebendo uma das aberturas mais estranhas, criativas e interessantes do cinema contemporâneo.

Enquanto filmava nos sets poeirentos do México, é possível que o diretor não soubesse que estava colocando uma pá de cal no já combalido gênero western. Adepto dos chamados westerns crepusculares, que lamentavam a proximidade do fim do gênero por causa do crescente desinteresse das novas gerações de espectadores, “Meu Ódio Será Sua Herança” transportava para a história este lamento. Foi uma despedida honrosa e adequada, já que o filme não é ambientado nos anos de ouro do Velho Oeste, mas em 1913.

Às vésperas da Revolução Mexicana, o antigo código de honra dos homens violentos e beberrões já não valia mais nada. O mundo agora era urbano. Botas viravam sapatos engraxados, revólveres transformavam-se em metralhadoras. A violência migrava dos descampados empoeirados para as cidades grandes. O Velho Oeste dava os últimos suspiros. Esse é o grande tema da obra de Sam Peckinpah, e também o pano de fundo do mais controverso e impactante dos filmes que dirigiu.

Em 1969, “Meu Ódio Será Sua Herança” foi recebido da mesma forma que “Clube da Luta” foi em 1999: sob acusações pesadas de ser hiperviolento e gratuito, até mesmo fascista. Para alguns, Peckinpah glorificava a violência. Reza a lenda que o astro William Holden teve uma violenta briga com o cineasta, após ver o filme pronto e odiar o resultado final. A verdade é que o filme é tremendamente violento mesmo: somente no verdadeiro balé de sangue que é o duelo final, Peckinpah gastou doze dias e mais de 10 mil cartuchos de bala de festim.

Sim, é verdade que o filme apresentou uma nova maneira de representar a violência no cinema, utilizando pela primeira vez a câmera lenta para mostrar mortes. Caprichando no sangue e no estilo, Peckinpah enfatizava o sangue e fazia as mortes ganharem um significado simbólico e poético que ultrapassa a morte em si. No cinema dele, morrer dói pra caramba. Mas muita gente não entendeu.

A péssima recepção do filme pelas plateias no mundo foi ajudada pela estrutura narrativa incomum. Um filme tradicional enfatiza o enredo ou os personagens; “Meu Ódio Será Sua Herança” não faz nenhum dos dois. Pike (William Holden) lidera o bando de assaltantes que se encaminha para uma última missão, que é roubar um trem carregado de armas para um rebelde mexicano. Eles são perseguidos por um grupo, liderado por Deke Thornton (Robert Ryan), cujo objetivo é capturar ou matar Pike.

Os dois já foram parceiros, anos antes, mas algo separou seus caminhos. Nenhum deles é retratado com profundidade; Peckinpah só oferece fragmentos do passado. Pike e Deke são homens duros, que mostram nos rostos cansados e nos ombros caídos o peso dos anos. Ambos são melancólicos. Sabem que estão ultrapassados pelo tempo. Sabem que o fim está próximo.

O grupo de Pike bebe o tempo todo e frequentemente cai na gargalhada com piadas bobas, como se estivesse à beira da histeria. O personagem de William Holden, ruminando as palavras e com o olhar perdido no horizonte, resume perfeitamente o clima do filme: eles pertencem ao passado. Não há futuro possível para gente assim.

“Meu Ódio Será Sua Herança” documenta a melancolia do fim de uma era, a troca de guarda entre duas gerações muito diferentes. À medida que encerrou o tempo dos faroestes e inaugurou a fase da hiper-violência, representou a mesma coisa para Hollywood. Pouquíssimos filmes têm essa honra de serem marcos divisórios. Por isso, este aqui é um clássico inesquecível.

Para tentar compreender por que o western não foi mais o mesmo depois do filme do Poeta da Violência e outros clássicos que vieram depois de cineastas comprometidos com a Arte Cinematográfica, é obrigatório assisti-lo por várias vezes para absorver a ironia refinada do diretor Sam Peckinpah nas cenas de violências, pré-anunciando a morte do gênero, sem contar que a tecnologia está aí para idiotizar as histórias fascinantes dos antigos THE END westernianos. “A Mulher Rei” (2022) é um exemplo cagado e cuspido dessa idiotice tecnológica feminal. Transformou-se uma história rica de fatos bélicos, sangrentos, numa luta de porrinha de boteco na Champs-Élysées de Paris do século XIX, com Goiano Braga Horta servindo CACHAÇA TURMALINA DA SERRA, FABRICADA NA PARAÍNA DE ZÉ LIMEIRA, VESTIDO DE AGROBOY.

a) Trailer MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah, WARNER, 1969

b) MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969) – Um dos últimos épicos do Faroeste – Minha Crítica

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

VOVÓ DINDA

Retrato semelhante ao de Vovó Dinda do Bundão, com seus peitos fartos e pontudos

Vovó Dinda do Bundão, ex-escrava e ex-amante de um coronel afamado da Zona da Mata Sul Carpinense, com quem “ficou” por alguns anos, depois de ter sido alforriada das amarras do escravismo da região canavieira, que se negava a enxergar nela a grande mulher guerreira, que se casou na Igreja com vovô Amaro De Melo, que lhe dava conta do fogo abrasado que ela sentia a qualquer hora do dia ou da noite.

Vovó era uma negra bonita, pernas grossas, torneadas, corpo escultural, bunda enorme, peitos fartos. Apesar de não existirem pasta nem escova de dente na época, como mulher inteligente e avançada que era, não se entregava ao desleixo dentário. Por isso era muito cobiçada pelos senhores de engenhos da época, que viam nela não só o corpo sensual e pujante. Enxergavam nela a mulher forte, guerreira, corajosa, decidida, trabalhadeira e disposta a brigar em batalhas rurais para defender sua dignidade. Esses seus atributos e caráter não eram ignorados pelos homens de poderes da Zona da Mata da época.

– Gosto de homem, sim! Quanto mais homens, melhor! Não pedi para nascer com esse fogo na bacurinha! – dizia ela quando questionada pelos netos ávidos por ouvir os segredos de alcova dela. Gostaria de ter nascido em Palmeira dos Índios e ter conhecido Maria Pé na Tábua, a mulher que topou deitar-se com o negão africano da parreira que amarrava no joelho, como conta o meu amigo Liêdinho, o sociólogo das putas do Mercado São José. Eita mulher corajosa danada, dizia ela, dando uma risada que estalava na sala de casa, mostrando os dentes brancos sem cáries para os meninos.

– Já fiz amor no canavial com os capatazes que me protegiam das sanhas furiosas dos patrões, de noite, de tarde, de dia, fugindo dos cachorros das senzalas, das picadas das formigas, das cobras, dos insetos, das urtigas, mas nunca me arrependo. Só me arrependo daquilo que não fiz – dizia ela com os olhos brilhando de saudade dos “tempos idos e vividos.”

– Até hoje eu me pergunto como fui me apaixonar e ser leal ao avô de vocês. Eu não acreditava em feitiço não, mas até hoje eu só tenho uma explicação para dar por ter largado tudo para me juntar a Amaro: foi algum feitiço feito por uma dessas ciganas que andavam em rebanho sem paradeiro certo, que me pediu um anel de ouro que tenho e eu não dei. Só pode ser – repetia ela nas conversas descontraídas com os adolescentes.

– Meus netinhos lindos – murmurava ela, com mamãe a recriminando lá no fundo da cozinha do casarão onde ficava preparando a janta –, o vovô de vocês era homem macho na cama! Não me deixava suspirar! Eu gostava da sacanagem dele; ele também da minha; a gente era pareia certa um para o outro. Foi por isso que eu larguei tudo para viver com Amaro. Eita homem cabra de peia na cama! – dizia ela bem baixinho, sem mamãe ouvir.

Nunca haverá uma mulher mais feliz do que vovô Dinda do Bundão: Negra alforriada, cobiçada pelos homens ricos da região, mas que nunca se aproveitou dos atributos sexuais para tirar proveito com os senhores de engenhos; para estar no bem bom das fazendas. Ao contrário, casou-se na igreja com vovô Amaro De Melo. Com ele foi feliz até se encantar, porque tudo que ela o queria ele lhe dava em dobro: o prazer de ser feliz e ser amada sem restrições, mesmo na simplicidade do interior em fim do século XIX e começo do XX.