CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

GETULIO VARGAS – O IMORTAL QUE SAIU DA VIDA COM UM TIRO NO PEITO

Getúlio Vargas e seus puxa sacos

Mais uma crônica ácida do crítico musical José Teles que merece ser reproduzida aqui no JBF pelo seu conteúdo atualíssimo: a eleição de atores músicos e até presidentes da república, sem ter sequer publicado um Manuel de Instrução da Guerrilha, como o fez o guerrilheiro de Wagner Moura.

Com poucos se lembrando de como a ABL, por várias vezes, foi servil às ditaduras, com generais e políticos, nulidades literárias, assumindo cadeiras naquela casa. O melhor exemplo foi a entrada do ditador Getúlio Vargas na imortalidade em 1941. Transcrevo um texto da coluna Movimento Literário da revista Carioca (do grupo A Noite, de Irineu Marinho), de uma subserviência que dispensa comentários:

“Para ocupar a cadeira de Alcântara Machado na Academia Brasileira de Letras, o presidente Getúlio Vargas foi eleito por 33 votos, sem nenhuma cédula discrepante. Existe um voto em branco, vindo do estrangeiro e que, nem por isto, quebrou a expressiva unanimidade com que o nome do ilustre brasileiro foi sagrado para a mais alta corporação cultural do país.

Após o pleito, A Noite colheu diversas impressões de acadêmicos, todos satisfeitos com a entrada do Chefe da Nação para a academia. Eis algumas das impressões:

Cassiano Ricardo – Considero o dia de hoje um dia de festa para a inteligência e para a cultura brasileiras.

Ministro Oliveira Viana – Acho que a escolha da academia está acima de qualquer crítica. O presidente já era, por si mesmo, pelo seu feitio, pela sua finura, sua inteligência, e espírito agudo, um acadêmico. A academia só pode se honrar em incorporar ao seu grêmio uma figura de relevo, não digo nacional, mas mundial.

Ribeiro Couto – A eleição do presidente Getúlio Vargas marca para nossa instituição um grande dia. O espontâneo e caloroso ambiente de entusiasmo, que notamos hoje aqui, traduz não só o alto apreço da academia por essa iminente figura de intelectual, mas o apreço dos intelectuais do Brasil inteiro, que nós representamos.

A obra de Getúlio Vargas assemelha-se a da maioria dos militares ou políticos que entraram para a ABL: compilação de discursos, textos para justificar sua ideologia e, claro, o livro do discurso pronunciado na solenidade de posse na academia.

Nesses tempos servis literais, a exceção é encontrada no imortal José Paulo Cavalcanti Filho, colunista do JBF, que imortalizou Pessoa com a obra-prima, Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia.

A obra-prima que fez jus à memória do poeta de Tabacaria

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GETÚLIO VARGAS VISITA O CABARÉ DE MARIA BAGO MOLE E PROVOCA CIÚME EM VIRGÍNIA LANE

Virgínia Lane na sua alcova esperando o presidente Getúlio Vargas para dormir

Anos trinta e quarenta. Épocas de grande efervescência na política nacional: golpe de estado de Getúlio Vargas, outorgação da “constituição polaca” de inspiração fascista, deposições de governadores, muita desconfiança entre os agentes públicos, “arranca rabo” e “debate boca” no meio político. Por essa época o ditador Vargas tomou conhecimento da existência do cabaré de Maria Bago Mole que se interessou em visitá-lo para conhecer a famosa cafetina dos quadris avantajados e dotes sexuais invejáveis, que estava revolucionando os hábitos no interior da Zona da Mata Norte de Carpina (PE), e as “meninas” do cabaré que, amiúde, eram a atração da casa, com seus rebolados sexuais picantes nos traseiros que deixavam qualquer homem intumescido, sem tomar catuaba.

Nessa época a vedete Virgínia Lane, sucesso como cantora no programa Garota Bibelô, na Rádio Mayring Veiga, depois estreante no programa Cassino da Urca, tornou-se a estrela mais famosa da Praça Tiradentes. Durante a temporada da peça Seu Gegê, grande sucesso musical na época, ela recebeu o título de “A Vedete do Brasil”, posto pelo presidente Vargas, que iniciou com ela um tórrido romance que duraria por mais de dez anos. Sobre esse relacionamento ela nunca falava aos jornalistas fofoqueiros. Revelando apenas em algumas entrevistas, que teve um caso amoroso com o ditador, e que nas horas dos “vucuvucus” teve de fazer sexo com ele na horizontal, porque na “vertical sua barriguinha atrapalhava.”

Quando soube que o presidente iria fazer uma visita ao cabaré da cafetina famosa, Virgínia Lane enciumou-se de forma tal que contratou alguns guardas barra pesadas das noites cariocas, com recursos pagos pela União. Ordenou-os viajarem para investigar as relações do presidente com essa cafetina tão “atraente” no Nordeste sem lei e sem alma, e os instruiu para se aliar aos homens mais poderosos da região para tirar “essa piranha e suas meninas do caminho do seu homem,” que se dizia estar em missão oficial para conhecê-la.

Nessa época, o comissário Juvenço Oião, que havia assumido um cargo na polícia que lhe deva plenos poderes de agir em nome de um decreto do ditador e os coronéis começaram a ter vez e voz, se juntaram para acabarem com a “farrumbamba” do coronel Bitônio Coelho que, segundo aqueles que não lhe iam com a cara, pretendiam armar uma cilada para matá-lo e brecar o poder político de Maria Bago Mole que, com a política econômica do cabaré em vento e popa, estava provocando inveja nos fazendeiros que odiavam Seu Bitônio Coelho e sua ascensão política.

Nada de excepcional aconteceu naquela noite que o chefe da nação visitou o cabaré. Saracoteou com as meninas do cassino a noite inteira, atraiu a atenção dos trabalhadores do campo, vez ver aos coronéis que desavenças só leva ao caos e a desordem. Os coronéis, falsamente, deram-se as mãos em nome do progresso e da nação. Os cabras mandados sondar o ambiente por Virgínia Lane para ver se havia traição caíram na gandaia e tudo no final acabou em festa de corrida de boi, com Juvenço do Oião desmoralizado com seus capangas, o coronel Bitônio Coelho protegido por sua amada entrou no aposento sem ser notado e o presidente Vargas foi a atração da festa, que amanheceu o dia com o povo o ovacionando nos arredores do cabaré.

Naquela noite o presidente Vargas mostrou porque era o pai dos pobres, menos para Seu Bitonio Coelho e outros coronéis antenados, que o consideravam um ditador habilidoso e sanguinário, disposto a tudo para se manter no poder.

Rodrigo Constantino: Getúlio Vargas foi um câncer na política brasileira

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O FORRÓ AUTÊNTICO ESTÁ DEFUNTANDO

Os idiotas vão dominar o mundo pela quantidade, e não pela qualidade, porque são muito, dizia o gênio de Nelson Rodrigues. Assim são os sertanejos que hoje mandam no mercado de forró.

Segundo o crítico musical José Teles, o forró autêntico está perdendo seus espaços na cultura forrozeira. O interior está destruindo tudo na base do toma lá dá cá da grana dos cofres municipais. Sua áurea de forró pé de serra virou lixo, transformando o forró em trilha sonora de última categoria.

As programações juninas das principais cidades do interior ratificam que o forró como trilha do São João é algo que caminha pra se tornar passado. Basta ver a programação do maior deles em Pernambuco, o de Caruaru. Nada contra a grade junina da cidade em particular. Ali apenas se segue o modelo estabelecido em todo o Nordeste, onde empresários poderosos impuseram seus artistas às autoridades competentes, responsáveis pelas contratações.

Não foi um pedido da população. No Festival de Inverno de Garanhuns oferece-se uma grande variedade de música, e o público prestigia.

No mês de junho na região inteira predominam artistas badalados na TV, e nos sites e blogs de fofoca, impulsionados pelos milhões de plays nas plataformas de música digital. Atraem enormes plateias, mais pela fama do que pela música, escalados para o palco mor da festa. Enquanto isto, poucos dos nomes mais importantes do forró contemporâneo têm o privilégio de cantar neste polo de estrelas sertanejas, piseiros, fuleiragem e afins.

Para citar alguns, Maciel Melo, Flávio José, Alcymar Monteiro, Silvério Pessoa, Santanna, Irah Caldeira, Cezzinha, Nádia Maia, Petrúcio Amorim, Assisão, Nando Cordel, tudo gente que faz forró de verdade, estão na programação do Alto do Moura, ou seja, o gênero virou música alternativa. A massa vai mesmo é ver as estrelas, de cachês polêmicos, no Polo Luiz Gonzaga, o mais concorrido nos festejos juninos da cidade.

Este tratamento diferenciado faz com que, os forrozeiros responsáveis pela linha evolutiva da música de Luiz Gonzaga (tomando emprestada uma expressão de Caetano Veloso, em relação à bossa nova), sejam vistos como “inferiores” em relação às duplas, grupos, intérpretes, campeões dos Spotfy da vida, que aparecem no Fantástico, no Huck, em Serginho Groisman, Fátima Bernardes e quejandos.

Daí o contraste entre Petrúcio Amorim, que tem uma obra sólida, referencial, com mais de três décadas de estrada, cantando no Alto do Moura (que acaba sendo o polo, culturalmente, mais importante do São João caruaruense), e Zé Vaqueiro, 23 anos de idade, pernambucano de Ouricuri, estrela do Polo Luiz Gonzaga. Ele estourou em 2017, com sucessos que ostentam mais de cem milhões de plays nas plataformas de músicas para stream. Seu estilo é classificado como forró piseiro, segundo a Wikipédia. Piseiro é um ritmo de muito sucesso, mas não tem a ver com forró. Mas está derrubando o munguzá dos que realmente fazem forró.

Petrúcio Amorim – Tareco e Mariola

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MARIA BAGO MOLE E SEU BITÔNIO COELHO – O CIÚME E DOIS SEGREDOS

Casa sede à semelhança a da fazenda do coronel Bitônio Coelho

Depois de ter tido uma noite inesquecível com Maria Bago Mole, a famosa cafetina que deu nome ao cabaré, o coronel Bitônio Coelho, o fazendeiro poderoso e mais durão da Zona da Mata Norte de Carpina (PE), retorna à fazenda, não mais contrariado por ter acordado fora do horário habitual, como da primeira vez que dormiu com a amásia.

Chegando à fazenda-sede por volta das onze horas da manhã, encontra todos os empregados apreensivos no pátio do casarão, pensando ter lhe acontecido alguma coisa grave, mas quando pressente o patrão não cabreiro nem contrariado apear o cavalo e mandar um dos capangas recolher a sela, calam-se e esperam a ordem do homem, que calado estava, calado ficou não informando nada sobre o acontecido, limitando-se apenas a ordenar aos subordinados as tarefas do dia, educadamente.

Depois de dar as ordens aos empregados, Seu Bitônio Coelho entra no casarão, abre as janelas e se dirige até as governantas na cozinha, dar-lhes bom dia, atitude impensável antes de conhecer a cafetina, retorna à sala, e começa a pensar em Maria Bago Mole, da noite inesquecível que tivera com ela, dos prazeres que ela lhe proporcionara e, além de sentir que estava apaixonado, começava a ter-lhe ciúmes, imaginando-a naquele cabaré cheio de homens doidos para lhe conquistar as delícias sentimentais e corporais!

Foi nesse momento que aquele homem durão, acostumado a lidar com vacas, cavalos brabos e capangas rudes, sentiu estar dominado por um sentimento jamais vivido em toda sua vida. Maria Bago Mole o havia domado o coração!

Da segunda para o sábado Seu Bitônio Coelho ficou absolutamente inquieto, sonhou com Maria Bago Mole todas as noites sempre nos braços de outros homens e acordava durante a noite todo suado, com o ciúme lhe dominando e sufocando o peito ao ponto de ele ficar irreconhecível!

– Meu Deus, o que está acontecendo comigo? – questionava a si!

Ansioso e só pensando em Maria Bago Mole, no sábado logo cedo, mandou o capanga Simeão Pau Preto pôr a sela no cavalo branco, vestiu sua calça e camisa de linho branco e, antes do anoitecer, se mandou para o Cabaré para se encontrar com a dona do seu coração!

Em lá chegando, veio-lhe uma tempestade de ciúmes por causa dos homens que cercava sua Amada que, quando o avistou, saiu correndo em sua direção:

– Oi amor! Estava com muitas saudades! Você não imagina a eternidade que foram esses dias sem você! E aplicou-lhe um beijo bem demorado! Pegou-lhe pelas mãos, tirou-lhe a sela do cavalo e o chamou para ficar com ela nos aposentos do cabaré, local onde tivera sua primeira noite de núpcias sob a luz de lamparina.

Se ele estava doido de paixão, mais apaixonado ficou, com o carinho, atenção e a dedicação dispensada por Maria Bago Mole, que lhe sabia dar o que ele nunca teve na vida: amor, prazer e liberdade!

Naquele sábado ficou com Maria Bago Mole novamente, e mais uma vez quando se levantaram já passava das dez horas do dia! Curiosamente o homem durão que ficou contrariado da primeira vez, se levantou relaxado, de bem consigo mesmo e deu um beijo na amada demoradamente. Foi até o sanitário do cabaré, tomou um banho de cuia, enxugou-se e voltou ao aposento onde Maria Bago Mole o esperava nua de bunda para cima!

Depois de dar uma rapinha prazerosa, ambos se levantaram, trocaram de roupa e ela o levou carinhosamente até onde estava o cavalo apeado, guardando o segredo de que lhe parecia estar grávida, e ele também deixando para outra oportunidade o segredo que iria pedir-lhe: que abandonasse o cabaré para ficar com ele definitivamente em uma das fazendas da escolha dela, tudo sem forçar a barra.

O desejo de um curtir o outro infinitamente falou mais alto e os segredos ficaram para segundo plano.

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A SAGA DO BODE CHEIROSO, DO MACACO TIÃO E DA RINOCERANTA CACARECA

O Bode Cheiroso e as manchetes dos jornais da época lhe dando cartaz

“O degrau mais alto da sabedoria é a simplicidade”. Compositor Luiz Fidelis, do Cariri (CE)

Já que estamos nos aproximando das eleições para Presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, a galera medonha, nada mais justo do que recordarmos aqui e agora as eleições de 22 de outubro de 1955 e outras, onde o charmoso cabrito, Bode Cheiroso, de Jaboatão dos Guararapes, bairro da Região Metropolitana do Grande Recife, concorria ao pleito para vereador. Mas antes das eleições, teve a desdita de topar com um caminhão e ser esmagado por um tresloucado motorista chapado. Sua morte foi manchete no Diário de Pernambuco e outros matutinos locais e causou comoção em todas as cabras e cabritas no cio da região, que sonhavam em tirar uma lasquinha com ele. Sendo manchete também até no New York Times. A moral chegou ao Recife via Pai de Chiqueiro.

Segundo o jornalista musical José Teles, no seu site Oficial Telestoques, o Bode Cheiroso e outros animais de estimação tiveram seus quinze minutos de fama, como pregava um dos artistas mais influentes do sáculo XX, Andy Warhol. Em 1988, o macaco Tião, do zoológico do Rio, recebeu 400 mil votos para vereador. A revista Casseta e Planeta foi o maior cabo eleitoral do macaco, um voto de protesto do eleitor carioca. Antes de Tião, outro animal eleito, mas que não tomou posse devido ao seu peido insuportável, foi Cacareca, uma rinoceronta do Zoológico de São Paulo. Na eleição de 1959, Cacareca recebeu 100 mil votos dos paulistanos foi a vereadora mais votada. O segundo colocado chegou a 95 mil. Cacareca tornou-se conhecida internacionalmente, diz-se que no Canadá até fundaram um partido inspirado na Rinoceronta, o The Rhinoceros Party, que existiu até 1993.

Mas nisto de votar em bicho, o Recife também é vanguarda. Em 1955, em Jaboatão, o garboso Bode Cheiroso não teve tantos votos para vereador quanto o macaco e a rinoceronta, em compensação até o New York Times deu manchete sobre ele. Assim como Tião e Cacareca, o Bode Cheiroso entrou na eleição de gaiato, ou por gaiatice. Um pessoal do Jaboatão Jornal mandou imprimir alguns cartazetes com a efígie do bode, e o “candidatou” a vereador, com a frase: “Queremos Cheiroso”.

Esse bode era bastante conhecido no Jaboatão Velho, vivia solto, vez por outra cismava de passear de trem até Cavaleiro, também circulava por Tejipió. Nos dias atuais perigava virar churrasco ou buchadinha. Mas eram tempos mais civilizados. Realizada a eleição de 1955, quando foram apurar os votos, quatro deles sufragaram o Bode Cheiroso (as tais cédulas que imprimiram por brincadeira).

Porém, bem antes da eleição, o Bode Cheiroso foi notícia nos jornais pernambucanos, quando um vereador de Jaboatão queria processar ou prender o caprino por causa de sua fedentina (que lhe deu o nome), e por distribuir chifradas entre os pirralhos que o perturbavam.

Depois das eleições, o bode badalado foi insuflado por uma matéria no Diário da Noite (do grupo Jornal do Commercio) em que os 4 votos passaram a 400. Os políticos condenavam a exploração e o sensacionalismo da imprensa, mas aí já era tarde. O dono do Bode Cheiroso passou a prendê-lo em casa, e cobrar por fotos e entrevistas. O Bode garboso chegou a ser entrevistado numa rádio, seus berros levaram a audiência da emissora às alturas. Foi notícia nos jornais do Sudeste, o que chamou a atenção do correspondente do New York Times. Foi assim que o Bode Cheiroso foi parar nas páginas do mais importante jornal do planeta.

Mas a história do bode não teve final feliz, embora tenha sido escrito até folheto tendo o bode como tema, além de poema publicado nos jornais de Jaboatão e do Recife. Em 22 de outubro de 1957, o Diário de Pernambuco saiu com esta manchete: “Caminhão em Disparada Esmaga o Bode Cheiroso”. O atropelamento deu-se em frente à igreja do Barro, na Avenida José Rufino.

O Bode Cheiroso morreu mais ficou imortalizado nos versos de Benedito Cunha Melo (pai do poeta Alberto Cunha Melo), que os assinou com o pseudônimo de K. Olho:

Ser como tu, nesta vida, pouco homem, Cheiroso, pode/pois foste vereador/sem deixar de ser bode/tua Câmara era a rua/de que era dono e senhor/com aquele pose de bode/cheirando a vereador/tu não morreste Cheiroso/estás em todo jornal/teu nome chegou à história/e berrou: sou imortal/teu nome ficou na história/e todo mundo sacode/morreste, vereador/foste maior como bode.

O célebre caprino jaboatonense ganhou também música de sucesso, Lançada por Aventino Chapéu de Couro, em 1959, Bode Cheiroso (Elias Soares/M.Fernandes), porém fez sucesso com Luiz Wanderley, é faixa do álbum Baiano Burro Nasce Morto (1960). Um trecho da letra:

Olhe como é que pode me diga doutor/um diabo de um bode ser vereador/foi na eleição de Jaboatão que o Bode Cheiroso se candidatou/quando foi na hora da apuração/a maior votação o bode levou/veio o promotor falar com Cheiroso/e o bode manhoso estendeu a mão/chorou de emoção/posou pra revista/ e deu entrevista na televisão.

DESCENDÊNCIA

Bonito e famoso, o Bode Cheiroso fazia sucesso entre a mulherada caprina. Aventa-se que deixou muitos descendentes. Um desses seria a cabrita Bita, também conhecida como Vermelha, por ser arruivada, presa na feira de Cavaleiro, bairro jaboatonense. Surgiu mais uma polêmica. A cabrita seria ou não filha de Cheiroso? Um senhor do Pina garantia que pertencia a ele. Um PM de Cavaleiro arvorou-se a dono da cabrita, e afirmou que ela era realmente descendente do Bode Cheiroso, mas não era sua filha, e sim sua neta.

Como não havia ainda teste de DNA. Nunca se soube se a cabrita pertencia à prole do famoso bode. O caso da cabrita aconteceu em novembro de 1962, as matérias nos jornais, no entanto, não esclarecem porque foi presa.

Mais uma vez o Bode Cheiroso tornou-se noticia nacional. Bita ganhou matéria em duas das mais lidas revistas do país, O Cruzeiro e Manchete. O Departamento de Produção Animal pediu para a Delegacia de Investigação e Captura, na qual estava a cabrita Bita, fizesse um exame para saber a idade do animal. O PM dizia que a criava há três anos. No exame ficou constatado que Bita tinha três anos, portanto seria mais provável que pertencesse mesmo ao policial militar. Até porque rapaz do Pina ofereceu 15 mil cruzeiros pela cabrita famosa. Mas o PM não quis saber de negócio. Naquele ano de 1962, Bita foi a grande atração da Exposição de Animais.

O nome do Bode Cheiroso continuou a frequentar os jornais. Em 1964, em Vitória de Santo Antão, um pai de santo conhecido por Miro Xangozeiro desentendeu-se com um tal Bertino, porque este, que não acreditava na religião de Miro, disse que o guia do Pai de Santos era o Bode Cheiroso. Ficaram intrigados, até que certo dia encontraram-se, e Miro desferiu uma peixeirada fatal no bucho de Bertino, mandando-o à cidade de pés juntos num paletó de madeira feito de tábua de mulungu.

Luiz Wanderley 1960 – Bode cheiroso

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OS IMPERDOÁVEIS (1992) – “O ÚLTIMO GRANDE FAROESTE?”

Cartaz de Unforgiven – Os Imperdoáveis – (1992)

OS IMPERDOÁVEIS (1992)) foi, talvez, o último filme de faroeste digno desse gênero clássico genuinamente americano, onde eram apresentados, na tela grande, os mocinhos e os bandidos do velho oeste sem glamour.

Nesse faroeste Clint Eastwood vive um ex-pistoleiro, viúvo e pobre. Cria dois filhos pequenos num rancho até se ver forçado a voltar à ativa por convite de um principiante querendo se firmar na “profissão” e ganhar dinheiro.

O filme reverencia o gênero ao mesmo tempo em que desmistifica o Velho Oeste, retratado como lugar sujo e brutal. Realizado em fabulosas locações em Alberta, Canadá. No final, o filme é dedicado aos mentores de Clint Eastwood como os diretores Sérgio Leone e Don Siegel, que com certeza ficariam muito orgulhosos de seu discípulo e assinariam embaixo seus feitos.

Três homens em busca de uma recompensa. Não se engane. Este não é um filme previsível. Pelo contrário, nos surpreende a cada instante. Clint Eastwood mais uma vez consegue nos envolver. Os mil dólares oferecidos, na verdade, representam a busca de três homens pelo real sentido da vida.

OS IMPERDOÁVEIS é uma desconstrução do gênero western. Os matadores de sangue frio do Velho Oeste selvagem, sempre mostrados nas telas do cinema como atiradores perfeitos, que nunca erram o tiro, como na Trilogia dos Dólares de Sergio Leone. Nesse western, vemos algo diferente. Um homem alterado pelo tempo e pela sua consciência, que não consegue montar no próprio cavalo, nem atirar direito. Seu amigo, Ned Logan, (Morgan Freeman), por exemplo, não tem mais o sangue frio do matador cruel, Frank (Henry Fonda), de ERA UMA VEZ NO OESTE, obra-prima de Leone, nem mais dar um tiro letal, mesmo contra o suposto homem que teria retalhado, ou ajudado a retalhar o rosto de uma prostituta. O terceiro sofre com sua primeira morte como qualquer mortal sofre, além de ter uma visão deficiente, fazendo desses um trio de mercenários um tanto quanto humano e bem dos problemáticos.

No núcleo do filme, ver-se um xerife que humilha um homem que era conhecido como uma lenda, suas histórias estavam sendo passadas para o papel por seu escritor particular, segundo suas versões. Desmascarado, ver-se que a famosa frase: “The Man Who Shot Liberty Valance” (O Homem que atirou em Liberty Vavence) se aplica aqui. “Quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda.” Mas a lenda é desmistificada e o ídolo do escritor se mostra uma fraude.

Outro elemento interessante e importante do filme é como as histórias podem ser exageradas ao se passarem de boca em boca. Uma prostituta teve o rosto cortado, e, em seguida espalha-se que todo corpo dela foi cortado, menos a vagina. Impressionante como os boatos acumulam falácias em suas versões mais recentes, conforme vão passando de boca em boca no tempo. Esse pode ser um dos elementos de criação de lendas de personalidades que realizaram feitos exorbitantes no oeste, ou em outras épocas. Às vezes, nem mesmo a própria pessoa que faz tais feitos, deve saber o que fez, por estar bêbada no momento ou por fazer muito tempo e ela acaba se tornando a lenda.

Disse o personagem Lette Bill, num dos diálogos do filme, depois de perguntado por seu alvo:

“Você é William Munny, assassino que matou mulheres e crianças!”

Resposta: “Isso mesmo, já matei mulheres e crianças e quase tudo o que se rasteja, e estou aqui para matar você.”

Voltando ao filme, o final traz uma ressurreição do velho Willian Munny ao saber que seu amigo foi morto pelo xerife. Gratificação, é o que se sente ao ver Munny dar de garra da garrafa de whisky, tento-a negado o filme todo. Sua raiva e seu desejo de sangue e vingança agora são maiores do que qualquer controle. O whisky traz de volta sua mira, sua habilidade de montaria, tudo, o whisky traz de volta sua alma de matador. Ele traz de volta o oeste sanguinário que vivia adormecido em Munny, sem o oeste, sem sua alma verdadeira, ele seria incapaz de fazer tais feitos. Ele estava tão fundo em seu novo “eu”, o Willian Munny moldado por sua esposa, Anna Levine, no papel de Delilah Fitzgerald, que ele era um assassino ineficiente. Agora, o whisky foi apenas a chave para aflorar tudo aquilo que estava adormecido nele.

Clint Eastwood retornou ao gênero depois de tanto tempo sem atuar. Ele queria marcar com sua volta com algo palpável. E marcou com a maior obra-prima do western revisionista por ser exatamente um filme de não cowboys de mira perfeita e sangue frio, mas tornando as lendas do oeste, entre elas a maior delas, Clint Eastwood, mais humanos, menos super heroico, e mais realista. Deve-se aceitar, pois afinal de contas, nossos heróis envelhecem, mas as lendas não morrem.

Trailer de Cinema de “Os Imperdoáveis”

“Os Imperdoáveis” Foi O ÚItimo Grande Faroeste?

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MAR ADENTRO (2004) – REFLEXÃO SOBRE A MORTE ASSISTIDA

“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.

MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.

Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.

Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.

A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.

Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.

Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.

Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.

O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.

Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.

Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.

a) Filme | Mar Adentro

b) Cinema penal: “Mar Adentro” (Espanha, 2004)

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SAÚBA DOS BONECOS: FORÇA QUE VEM DA ARTE

Em homenagem a esse gênio do improviso popular carpinense, assassinado anteontem na Comunidade Loteamento Três Maria aos 69 anos, republico crônica que escrevi sobre seu belíssimo trabalho e publicado aqui no Jornal da Besta Fubana em 15.10.2018.

Encantou-se o artista assassinado covardemente por um desalmado, mas ficou sua cultura popular universal que está chorando pelo mundo a perda.

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Bonecos e o Preto Velho Zé Cosmes

ANTÔNIO ELIAS DA SILVA, eis o nome registral desse exímio artesão rústico nascido em Carpina-PE aos 09 de maio de 1953.

Artesão empírico, com extraordinária habilidade no trato com a madeira tosca – o mulungu – árvore apropriada para a confecção de seus bonecos artísticos, cedo teve de sorver a puberdade lúdica, na palha da cana dos engenhos da região da Zona da Mata Norte, sob o sol causticante e inclemente do trabalho com a enxada, limpando matos dentro dos canaviais íngremes para sobreviver e ajudar a família.

Autodidata, nunca pisou o batente de uma escola oficial. Seu mestre, professor, instrutor, inspirador é sua espantosa capacidade observativa e habilidade intuitiva em transformar tudo que é madeira tosca de mulungu em verdadeiras obras-primas artesanais.

Devido à sua extrema habilidade arteira manual, esse carpinense casual, cedo começou a divertir e maravilhar sua sofrida gente nas festas juninas no bairro de Santo Antônio, em Carpina, com seus mamulengos cômicos e satíricos, ridicularizando os costumes e o comportamento da sociedade local nos teatros de pano improvisados ao ar livro.

Além de escultor, Mestre Saúba é um exímio dançarino e juntamente com D.ª Lindalva, uma boneca de madeira em tamanho natural, faz um espetáculo pitoresco que sempre atrai centenas de pessoas nos lugares onde se apresenta. Mestre Saúba também é ventríloquo e contracena com o divertido boneco Benedito. Dona Quitéria, Mané Pacaru, Dona Lilia, João Gago, Simão, Coquinho, Laré e Dona Liprosina são alguns dos outros personagens nascidos pelas mãos do artista. Outra criação que marcou muito seu trabalho foi os ciclistas, que pedalam e mexem a cabeça.

Apesar de seus trabalhos correrem o país e o mundo, serem expostos em galerias de luxo, maravilharem o Brasil em shows nos canais de televisão mais populares, tanto locais quanto nacionais, esse autêntico e verdadeiro artista mamulengueiro continua pobre e miserável, devendo até os pentelhos aos agiotas, e sem dinheiro para alimentar a prole numerosíssima, filhos de várias manteúdas que dele se aproximam pensando ser detentor de uma grande fortuna em dólar ganhada de gringos e guardada em uma botija debaixo da cama de lona comprada na feira de mangaio em Caruaru.

É doloroso vê-lo trôpego, cheio de manguaça, todo cagado cambaleando pelas ruas cheias de bueiros de guabirus na sua terra natal, Carpina, com as mãos e os pés melados de cola de madeira, com os bolsos mais lisos do que pau de tarado, dando murro no ar e rogando pragas ao vento por lhe faltar os caraminguás.

Espera-se que não se deixe acontecer com ele as mesmas injustiças e indiferenças que houve ao maior pintor pós-impressionista do século XIX, o Neerlandês Vincent Willen Van Gogh – “lúcido e louco; dócil e violento” -, que depois de morto, seus quadros alcançaram a glória, sendo vendidos em leilões suntuosos por fortunas incalculáveis; seu busto virou estátua no mundo; seu nome virou rua em todo o planeta; seu túmulo, adoração; mas em vida só conheceu a miséria, o desprezo, o abandono, a indiferença e as loucuras dos choques elétricos nos manicômios.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

JOÃO BAXIN E AS URNAS ELETRÔNICAS EM RIBEIRÃO (2004)

Imagem das primeiras urnas eletrônicas fabricadas no Brasil

Em 2004 João Baxin se arvorou a ser candidato a vereador depois de mais de vinte anos afastado do município ribeirense. Sequer se lembrava mais dos nomes dos amigos de infância e adolescência. Uma lástima!

Seu Zezé, o pai dele, de cara, foi contra a ideia:

– Você tá lôco, rapaz! Depois de mais de vinte anos afastado de Ribeirão, sem conhecer mais ninguém no município da sua época, sem preparar uma base eleitoral sólida! Liso! Você vai levar fumo até desses pinguços da Praça 69!

Mas João Baxin, empolgado, não desistiu do sonho tresloucado, nem ouviu os conselhos do Velho Zezé. Criou endereços fictícios para transferir domicílios eleitorais dos irmãos e colegas da Capital, se endividou com empréstimos tirados em vários bancos, fez uma campanha política entusiasmada e no dia das eleições nem o nome dele apareceu na tela do microonda do TRE.

Decepcionado com o pleito, que chamou de “trambicagem das urnas,” entrou no bar o “Petisco de Zefa,” tomou duas garrafas de aguardente “Cachaça da Sogra” e, aos “intrupicões,” dirigiu-se até ao Clube Vassourinha do centro do município, local onde estava o “coletor eletrônico de voto.”

Quando percebeu que não havia recebido nenhum voto de fato, sequer tinha sido registrado seu nome no sistema, como candidato a vereador, e dos eleitores transferidos, correu para a mesa de apuração e bradou, bêbado:

– Essas porras dessas urnas eletrônicas são falsas! São artimanhas desses comunistas safados, felas da puta, para ludibriarem o sistema e arrombar os candidatos fudidos que não compartilham com essas “escandilices” do comunismo que quer escravizar a gente.

Passados mais de dezoito anos do pleito, hoje João Baxin é comunista ferrenho, defensor fervoroso das urnas de Barroso e Cia e seguidor fiel do chefão da seita petista!

Mudaram as urnas eletrônicas ou mudou João Baxin?

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TRINITY – E OS FAROESTES ESPAGUETES DOS ANOS 60-70

Cartaz do primeiro filme da série Trinity (1970)

Subgêneros dos filmes Westerns Spaghetti, os filmes da franquia Trinity transformaram o Velho Oeste em comedia pastelão no início dos anos 70 na Itália, com conteúdo de humor e pancadaria, à semelhança dos Trapalhões no Brasil. Por trás da maioria desses filmes houve diretores promissores, que depois vieram a fazer filmes de faroeste clássico, como Sergio Corbucci, Enzo Barboni e Lucio Filci. Este vindo a se tornar um mestre em filme de terror. E Corbucci responsável pela obra-prima fantasmagórica do gênero, DJANGO (1966), com o novato ator Franco Nero numa memorável atuação.

Em pleno auge da contracultura, Trinity se apresentava como um típico hippie vagabundo, vestindo roupas velhas e rasgadas, coberto de poeira do deserto dos pés à cabeça. Para as longas travessias do Velho Oeste, ele usa uma “cama índia” (espécie de padiola), puxada pelo seu obediente cavalo.

O primeiro filme da série a estrear Lo Chiamavano Trinita (1970), traduzido no Brasil para Meu Nome é Trinity, tendo como novidade o pistoleiro mais rápido do gatilho no Velho Oeste, Terence Hill, e seu parceiro brutamonte, Bud Spencer, que formaram uma dupla extremamente marcante do subgênero Western Spaghetti macarrônico.

Terence Hill, antes de fazer esses filmes de paródia western spaghetti, teve um inicio bastante promissor e atuou com destaque no clássico do grande diretor Luciano Visconti, no elogiadíssimo filme “IL GATTOPARDO” que tem como astros principais, nada menos que Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale. Nesse filme Terrence Hill faz um personagem militar amigo do personagem interpretado pelo ator Alain Delon.

Caio Pedersoli e Mario Girotti, ou Terence Hill e But Spencer, respectivamente, para atuarem nos Trinity, adotaram nomes artísticos em inglês e alcançaram um sucesso bastante significativo, principalmente a partir da produção Trinity é Meu Nome (1970). A dupla seguiu atuando junto em diversos longas do faroeste macarrônico italiano, com uma sintonia que ultrapassava as telas e materializava a participação dos dois como parceiros insubstituíveis.

As paródias e versões cômicas no subgênero trouxeram um ar novo ao cinema italiano, mas de nada serviram para a continuidade do subgênero inspirado nos longas americanos. Mesmo sendo responsáveis por tornar a parceria dos atores internacionalmente conhecida, os filmes contavam cada vez mais com uma produção de baixa qualidade. Os longas metragens perdiam suas características à medida que eram encharcados dehumor lugar-comum.

Os filmes foram se afastando do que inicialmente havia sido o spaghetti western que chegou a preocupar críticos por ameaçar o western tradicional. Os cômicos ainda atraíam multidões em busca dos títulos de faroeste italiano, mas, com o passar dos anos, nenhum desse longa se tornou um verdadeiro clássico, como os de Sergio Leone ou Sergio Corbucci. Se nos anos de glória do subgênero – entre 1966 e 1971 – se produziram mais de 70 longas, no ano de 1973 apenas dois filmes foram lançados.

O certo é que os faroestes macarrônicos, ou western spaghettis, tiveram seu apogeu a partir de 1970 quando foi lançado Trinity é Meu Nome, que alcançou grande sucesso de público e bilheteria.

Depois do grande sucesso de Chamam-me Trinity os italianos lançaram outros longas metragens com a mesma dupla Terence Hill e Bud Spencer vivendo os mesmos personagens da fita anterior em outra sátira cômica, com o diretor ENZO BARBONI, que fazia uma paródia atacando e destruindo os velhos mitos do Velho Oeste, de pistoleiros a jogadores. Bem mais engraçada que a anterior, este Trinity não deixa nada sem deboche e extasia de tanto rir a dupla Terencer Hill e Bud Spencer, que esbanja simpatia.

Trinity, Terence Hill, é um andarilho e pistoleiro que acaba chegando à cidade na qual Bambino (Bud Spencer), seu irmão é ladrão, e está disfarçado, atuando como Xerife local. Eles tentam passar despercebidos, mas tudo dá errado quando se envolvem em um conflito de terras entre um grupo de mórmons e um grande barão local, que deseja se apropriar dos territórios dos colonos.

Além dos icônicos Terence Hill e Bud Spencer, participaram de “Trinity é o Meu Nome” os experientes Steffen Zacharias (figura constante nos filmes da dupla de protagonistas), Dan Sturkie e Farley Granger e os então novatos Ezio Marano, Gisela Hahn e Elena Pedemonte. A trilha sonora do filme, um dos componentes centrais de qualquer bom faroeste, ficou a cargo de Franco Micalizzi (este foi justamente seu primeiro grande sucesso). Para quem se pergunta quem foi Franco Micalizzi, basta dizer que ele foi autor das músicas de “Italia a Mano Armata” (1976), reverenciada em “Django Livre” (Django Unchained: 2012), de Quentin Tarantino.

O êxito de “Trinity é o Meu Nome” incentivou Enzo Barboni a lançar, já no ano seguinte, a continuação de sua trama. “Trinity Ainda é o Meu Nome” (Continuavano a Chiamarlo Trinità: 1971) contou com a mesma dupla de protagonistas. O êxito da nova empreitada foi ainda maior. Na Itália, a segunda parte da série cinematográfica alcançou 14,5 milhões de espectadores. Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, a nova comédia também arrecadou mais do que a versão original.

Estima-se que nos anos 1970 foram produzidos dezenas de filmes com a marca Trinity, mas apenas dois ultrapassaram as fronteiras da Itália com crítica e público favoráveis: Trinity é Meu Nome (1970) e “Trinity Ainda é Meu Nome” (1971), ambos dirigidos por Enzo Barboni, pseudônimo de E.B. Clucher, tendo como atores principais a dupla de grande popularidade Terence Hill e Bud Spencer. Mas depois foram perdendo público e crítica pela baixa qualidade das produções, baixo orçamento e falta de criatividade dos realizadores. Sua arte inovadora deu lugar a histórias fáceis e sem graça.

a) TRINITY É O MEU NOME – TRAILER

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b) Trinity é meu nome. Clique aqui para ver o filme completo