CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

A HONESTIDADE DE RAIMUNDO JULIÃO

Como qualquer jovem inteligente que nascia na Zona da Mata Sul ou Norte do Estado de Pernambuco, e assistia aos pais serem explorados pelos senhores de engenho na palha da cana, Raimundo Julião, adolescente, formou a consciência de que não era aquilo que ele queria para seu futuro. Teria de buscar novos horizontes para ele e a família, como o fez o radialista Geraldo Freire quando migrou de Serra Talhada (PE), se quisesse ser gente na cidade grande, vencer as borrascas da vida e viver com dignidade.

(Que fique bem claro aqui que Raimundo Julião não tinha ilusão por nenhuma ideologia proletária ou socialista. Política partidária pior ainda. Por nada disso simpatizava o jovem, embora tivesse plena consciência de que o homem era um animal político na sua essência, como assegurava Aristóteles.)

Aos poucos foi se conscientizando de que só o estudo e o trabalho levados a sério é que o salvariam da miséria e o possibilitariam a ajudar os pais e os irmãos que preferiram ficar no engenho sendo explorados pelos coronéis.

Dos doze irmãos da prole, Raimundo Julião foi o único que teve a coragem de deixar a roça e partir para cidade grande, com a cara e a coragem, feito um náufrago à deriva sem bússola, mas tendo plena consciência de que chegaria nalguma ilha e lá plantaria uma semente para florescer e dar fruto.

Quando desembarcou na cidade, vindo de trem, foi que deu conta que só teria o futuro garantido se estudasse. Empregou-se numa casa de secos e molhados e, em seguida, se matriculou numa escola pública para aprimorar seus conhecimentos, já que na roça teve acesso à alfabetização estudando à noite com uma professora da redondeza que lhe dava aula particular.

Depois de três anos de muito estudo e trabalho e sentindo que já estava preparado para fazer qualquer concurso público aberto pelo estado, Raimundo Julião resolveu se inscrever no exame de seleção para auditor fiscal à época do secretário José do Rego Maciel, que fez história no Sefaz-PE no momento mais conturbado da Era Vagas, passando em primeiro lugar no certame e logo sendo nomeado e designado com uma equipe de novatos para fazer cobranças de tributos atrasados nos engenhos de cana de açúcar.

Cheio de moral e comandando uma equipe sem experiência no trato com os homens dos engenhos, Raimundo Julião e equipe se hospedaram num hotel à lá Cabaré de Maria Bago Mole e mandou intimar todos os fazendeiros devedores para acertarem os tributos atrasados sob pena de serem punidos com multas pesadas e cassação das concessões estaduais, como previa lei estadual da Secretaria da Fazenda do Estado.

Assim que tomaram conhecimento de que os fiscais da Sefaz estavam hospedados no hotel da cidade com a missão de cobrarem tributos e contribuições atrasados, os fazendeiros mandaram seus capangas irem até o hotel onde estavam os homens do governo para os convidarem a participar de um churrasco de confraternização regado a muita carne de bode, galinha, peru, e muita cachaça da região.

Raimundo Julião fincou os pés no chão e disse que ninguém da sua equipe iria à confraternização, e que estava ali para cumprir as ordens do secretário, em nome do Estado: receber os tributos atrasados dos senhores de engenho!

Depois de muitas idas e vindas dos senhores de engenho e os capangas numa tentativa de “diálogo”, e percebendo que os homens da lei não sediam nem a pau, “reuniram-se” os coronéis na fazenda de um fazendeiro desafeto e traçou-se um plano diabólico: dar uns sopapos nos fiscais e os expulsarem do hotel onde estavam hospedados a tiro de baioneta. Mera coincidência com o momento político atual?

Hora combinada, à noite, os senhores de engenho juntaram uma ruma de capangas e ordenaram que fossem ao hotel dar uma sova nos fiscais intransigentes e os expulsassem da cidade a tiro de mosquetão. Mas antes dos capangas chegarem, os fiscais, avisados às pressas pelo dono do hotel que vinha chumbo grosso por aí, fugiram por dentro do canavial dos engenhos e sumiram estabanadamente.

Perguntado por um gaiato se o plano de fuga havia dado certo, Raimundo Julião não se fez de rogado e respondeu, rindo pelos cantos da boca:

– Se deu certo ou não eu não sei. Se ficou alguém perdido no meio do canavial, também não sei. Mas até hoje, pelo que tomei conhecimento do relato de alguns colegas, tem gente perdida correndo no meio do mato todo cagado, fugindo da sombra dos capangas armados de mosquetão.

Foi quando outro gaiato entrou na conversa e perguntou:

– E o Senhor, Seu Raimundo, como escapou do tirinete?

– Eu? Eu me fingi de hóspede vagabundo e orei a todos os orixás para eles não me reconhecerem a cara. A estratégia deu certo, mas as roubas novas que eu levei para passar uma semana no hotel, eu tive que jogar fora. A caganeira foi tão braba que todas as peças viraram papal higiênico.

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RIO BRAVO (1959) – ONDE COMEÇA O INFERNO

Texto escrito em colaboração com o especialista em filme de faroeste D.Matt

Esse clássico filme western que fez a diferença na reformulação dos faroestes que marcaram a década de 1950, expondo o ciclo vicioso das relações sociais e políticas, a vitória constante dos que podem subornar pessoas ou pagar justiceiros para se verem livres de problemas ou a morosidade e ineficiência da lei para ajudar a quem de fato precisa. É evidente que a obra adota uma atmosfera e um caminho ideológico distintos do clássico Matar ou Morrer, mas no fim, acaba não sendo assim tão diferente dele em termos de crítica social e comportamento humano.

A história tem Dude ‘Borachón’ (Dean Martin, provando que podia fazer um bom papel dramático) às voltas com o vício em bebida e as memórias amarguradas de uma decepção amorosa; tem o Xerife John T. Chance (John Wayne, como sempre incrível, mas aqui apagado algumas vezes pelo brilho de Martin), um homem desesperançado e pouco afeito a afetos – o típico durão dos westerns; e, também, a dupla Colorado Ryan (Ricky Nelson, o roqueiro de 17 anos com quase nenhuma experiência no cinema) e Stumpy (Walter Brennan, ator vencedor de 3 Oscars em excelente atuação cômica), todos eles digladiando-se em sua mesquinhez, dúvidas, medos e, ao mesmo tempo, tentando fazer o bem para a própria cidade sem ter o apoio dela – e o mais interessante: sem querer demonstrar que as coisas não iam nada bem.

O problema das boas aparências a serem mantidas fica ainda mais evidente quando o papel da atriz Angie Dickinson é destacado no roteiro e o medo do Xerife John Wayne em relação ao seu ambiente e a insegurança inconfessa em si mesmo vêm à tona. É fato que esse é um ponto comum de alguns dos filmes de cowboys clássicos ou do período de transição para a decadência do western nos anos 60, mas a questão aqui é trabalhada com um tom de culpa e desesperança tão fortes que a faz especial em comparação às outras abordagens.

A inesquecível trilha sonora de Dimitri Tiomkin (cujo Degüello dá a macabra marcação que em Matar ou Morrer é feita pelo relógio), o notável personagem de Dean Martin e a direção meritória de Howard Hawks dão a Onde Começa o Inferno todos os ingredientes de um filme inesquecível. O que atrapalha nessa afirmação é o modo como o roteiro orquestra o romance – o ponto fraco do filme, unicamente pelo modo como é finalizado. Porém, a estrutura da obra não é fundamentalmente abalada e o espectador termina a sessão com aquela alegria que normalmente tem ao assistir a um grande épico.

Dificilmente o expectador ao assistir um filme western ou de qualquer outro gênero, sentirá, desde a primeira cena, uma perfeição em todos os sentidos na feitura de um filme, como neste caso em que o filme com o título original de Rio Bravo nos conduz através de todas as cenas até o final esperado.

Esse filme é mais conhecido pelo título original Rio Bravo, porque o subtítulo brasileiro não faz jus ao seu enredo e não nos prepara para a obra-prima cinematográfica que vamos assistir.

A começar, depois dos letreiros, temos aproximadamente uns cinco a dez minutos de magníficas cenas de ação silenciosa, sem estardalhaço, nos preparando para a história que estar por vir. Todas essas cenas iniciais são mudas, sem qualquer diálogo ou sonoplastia externa. Quando começa realmente a ação, então começam também os diálogos precisos, econômicos, bem colocados, sem excessos, com muita economia de palavras e um máximo de ação com resultados de grande impacto.

O elenco é magistral, não se consegue outra palavra para definir a excelente escolha do elenco, não só dos artistas principais, como também dos coadjuvantes, todos mestres na arte de interpretação que deixa o telespectador sem fôlego.

Dizer que John Wayne e Dean Martin estão ótimos, não é necessário, mas temos Rick Nelson em grande atuação, e a participação extraordinária do grande ator Walter Bernnan, já ganhador de três prêmios Oscar e que neste filme rouba todas as cenas em que aparece nos oferecendo uma atuação de grande histrionismo que sem dúvida mereceria mais um Oscar. O cantor Ricky Nelson, nesse filme, está fora de série com uma atuação sóbria, precisa e com excelente aparência de um mocinho boa praça que se oferece para ajudar o xerife na luta local. O papel entregue ao Ricky Nelson, na época, tinha sido oferecido a Elvis Presley, mas o mesmo recusou aceitar por conselho do seu agente mentor, pois o papel não era o principal.

Sorte do diretor, pois o Elvis, que é excelente cantor, como ator é uma nulidade total. Alguém já assistiu a um filme no qual J.Wayne apaixonado e dando beijos longos e sensuais com a sua parceira de cena? Pois nesse filme acontece em várias cenas. A sua parceira apaixonada não é nada menos que a sensual, belíssima, e muito apreciada como artista e de grande presença, Angie Dickinson que apesar de baixinha de 1.65m contracena em cenas tórridas com o grandalhão J. Wayne de 1,90m ou mais. A presença de A. Dickinson é muito aguardada durante o filme, pois a sua figura é um colírio para os espectadores, sua beleza não tem preço, ela atua com todo charme que ela sabe explorar como artista e mulher desejada.

Dean Martin faz o personagem costumeiro de Dean Martin, mas nesse filme ele se supera com uma atuação realmente fora de série. Faz um ajudante de xerife viciado em bebida borrachon, que o diretor conseguiu tirar uma atuação de grande efeito. Suas cenas como “bêbado ou pós bebedeiras” são perfeitas, nos mínimos gestos, olhares turvos, caminhar inseguro, boca seca, mãos trêmulas, sem exageros ou super atuação. Dá o recado com grande atuação. A música do filme foi composta pelo grande e premiado maestro Dimitri Tiomkin que dispensa comentários.

Sobre música, tem uma passagem musical dentro da delegacia, em que Dean Martin e Ricky Nelson dão um show de talentos e comprovam que são grandes artistas, eles cantam a musica “MY PONEY AND ME” em dueto de forma magnífica, acompanhados por uma gaitinha soprada pelo Walter Brennan. Essa cena já vale por todo o filme. É antológica.

Grande direção de um dos maiores diretores de western, HOWARD HAWKS. É como se fora um talentoso maestro dirigindo uma sinfonia numa orquestra de grandes músicos talentosos com os quais se pode capacitar e compor excelente música, desde que a condução seja precisa e bem ensaiada. Esse filme não poderia ser melhor, nem mesmo se fosse dirigido por outros mestres famosos no gênero western, como John Ford, George Stevens ou mesmo Sergio Leone.

Rio Bravo é um grande clássico difícil de ser superado.

Rio Bravo (1959) Official Trailer em HD:

Rio Bravo (1959) – John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson e Walter Brennan em cena clássica:

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O CHATO

Segue mais uma crônica cannabis sobre chatos que me foi enviada por e-mail pelo ex-office boy de Jaguar, Emanuel Bione, (Bione Cão), cachacista, psicólogo do Pastor Adélio e criador do hebdomadário Papa-Figo, mistura d’O Pasquim com Carta Capital, a revista mais esquerdopetralha já criada em terra brasilis, com patrocínio do dono dos nove dedos e Raul Castro.

“Os chatos não são Deus, mas são onipresentes (estão por toda parte, onde menos se espera); onipotentes (podem tudo para azucrinar a vida do cristão); e oniscientes (sabem de tudo, desde que tenham que se contrapor aos temas que se estão conversando amigavelmente).”

“Aqui vai um exemplo. Estava eu na minha visita rotineira à Bodega de Veio, na Serra Negra, a sorver vagarosamente minha cachaça Água Doce. Eis que não mais que de repente surge um cara boçal, perguntando se aquela cachaça era boa. “Eu gosto bastante…” respondi. Ele me encarou com ar de deboche e fez menção de pegar meu copo para provar. Eu segurei o copo e protestei: “Epa! Se quiser provar peça uma dose pra você”. Ele, a contragosto, pediu uma dose, tragou e vaticinou: “Essa cachaça é uma merda!”. Eu fingi que não escutei e me dirigi para o garçom meu amigo: “Marquinhos, depois do enochato, acabei de conhecer o cachachato.” Ele acusou o golpe e saiu bodejando: “É, acho que não agradei…”

“Um notório antichatos era Jamelão, que chegava às raias da grosseria. Contam que uma vez uma mulher ao avistá-lo declarou: “Jamelão, meu puxador predileto!”. Ao que ele rechaçou: “Puxador é ladrão de carro, maconheiro, tu, teu pai e tua mãe. Eu sou intérprete!”. Doutra feita, uma moça ao encontrá-lo, tentou beijar a sua mão. Só mais uma. Na época dos apagões aéreos, estavam sentados à espera de seu voo Jamelão e Cauby Peixoto. Um amigo meu presenciou a cena, já que eles vinham cantar no Festival da Seresta do Recife. Jamelão estava dando um cochilo e começou a roncar, ao que Cauby o cutucou: “Jamelão, que coisa mais feia, roncar no aeroporto!”, Jamelão abriu um olho, à maneira do cachorro do Mickey e vaticinou: “Feio é dar o cu, Cauby!”. E voltou a roncar.”

Agora vamos aos chatos que nos interessam:

1) “Chato Leão: Além de inconveniente e egoísta, é melindrado. Se alguém o chama de mala, joga tudo para cima, xinga, quebra a mobília e agride com fúria animal. Nas redes sociais é o tipo que polariza até a ponto de ameaçar de morte os outros comentadores.”

2) “Chato sanguessuga: É o chato ortodoxo. Aparece do nada e gruda nos outros, sugando-lhes o sangue e a energia vital. Há relatos não-oficiais de cidadãos que nunca mais recuperaram seu eixo após entrarem em contato com o parasitismo desse ser inconveniente. Ele chega na tua casa de mala e cuia depois de se separar. Daqui a pouco tá querendo mandar em tudo. Chega ao ponto de, na tua ausência, demitir a empregada, “que não passava de uma incompetente”, mas é incapaz de lavar a louça que usou. Possui o que se costuma chamar de olhar de seca-pimenteira.”

3) “Chatos pseudo-novo-rico: São aqueles supostamente melhores que os demais. Sua principal tarefa é ser grosseiro, demonstrar falta de respeito perante pessoas que eles julgam inferiores, como serviçais, garçons, etc. Ostentam a própria superioridade e andam por aí com uma expressão esnobe no rosto. Lembra o tipo Ibrahim do Subúrbio, de Nelson Rodrigues. Em uma peça, Nelson retrata o tipo que só lê coluna social e que seu sonho é o seguinte: Se tiver de morrer atropelado, que o seja por uma Mercedes. No final, morre atropelado por um triciclo de entrega de pão.”

4) “Chatos vítimas do destino – Costumam reclamar o tempo todo, mas não fazem nada além disso. Na sua opinião, os outros só alcançam o que querem porque têm os contatos certos, contam com parentes ricos ou por serem sortudos. Pessoas desse tipo se acham bodes expiatórios, como se ficassem com a parte ruim da vida. Se alguém tenta demovê-los dessa ladainha. Eles rechaçam com um “sim, mas…” Com sua cantilena de perdedor, estampam um sorriso de triunfo-maligno nos lábios, sempre acompanhado com a frase: “Tá vendo, ninguém consegue me ajudar…”

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O DILEMA DE RITA PARRECÃO

Mãe Oxum, a protetora do pau mole

Rita Parrecão era uma morena exuberante, monumental. Um metro e oitenta centímetros de pura beleza tropical, olhos da cor do mar, coxas grossas e bem delineadas, joelhos torneados, cintura de pilão, cabelos pretos, cacheados, batendo na cintura. Mas apesar de todos esses atributos femininos naturais que chamavam a atenção de todos que a viam, ela era cismada com qualquer bicho fêmeo que tentasse se aproximar do marido para quaisquer conversês.

Certo dia pôs na cabeça que Adamastor da Silva, seu marido, comerciante de Secos e Molhados bem sucedido no bairro, estava fofando a empregada Tonha de Zefa, matutinha assanhada que ela mesma teria trazido do interior para ajudá-la nos afazeres caseiros e cuidar das três filhas menores.

Para provar o improvável, o que só existia na sua imaginação, Rita Parrecão armou várias arapucas para ver se pegava o marido traçando a empregada dentro ou fora de casa. Mas não conseguia porque tudo não passava de coisas de sua cabeça, idealização à traição.

Insatisfeita por não obter resultados positivos de suas desconfianças delirantes, Rita Parrecão disse ao marido que precisava visitar a família no interior, pois a mãe estava doente, mas sua pretensão era consultar Mãe de Oxum, a mais famosa macumbeira da região, especialista em descobrir traição de maridos infiéis que andavam mijando fora da bacia.

Consulta feita, preço combinado. Detalhes da execução do “serviço” foram acertados verbalmente entre a contratante e a contratada. De cara, Mãe de Oxum exigiu três galinhas pretas, três caixas de charuto vendido no armazém de Seu Mané Rolim. No mesmo dia, depois de participar da primeira sessão de descarrego, Rita Parrecão volta para casa satisfeita com o resultado dos primeiros ensaios, com todos os caboclos recriminando “os atos do marido”…

À noite, antes de deitar-se, ela entra em transe, dá umas sacudidelas no corpo incorporado por uma entidade recomendada por Mãe de Oxum e tibunga debaixo do lençol nua, onde já encontra o marido, deitado e, para sua surpresa, roncando feito um porco, fato esse nunca lhe acontecido antes.

Mais seca do que o mês de janeiro em Pico para as camaradagens com o marido, ela começa a passar a mão nos trololós dele, que não se intumescem nem a pau. Dormindo estava dormindo ficou, e ela na maior frustração.

Passou a noite nessa agonia e no outro dia, quando se levantou, fez o café de Adamastor da Silva, serviu-o e, curiosa porque o maridão não a procurou para dá uma, perguntou-o:

– Meu filho, você ontem não me procurou. Foi dormir tão cedo. Que sono foi aquele que deu em você?

– Minha filha, eu não sei por quê, mas de ontem para cá eu estou sentindo uma coisa estranha na minha tesão. Eu estou sentindo que estou perdendo a potencia sexual por você. Até o pau encolheu como você pode ver aqui – e arriou o zíper mostrando a mulher o desmantelo.

Quando viu a cena do feitiço inverso, o pingolim do marido lânguido, desiludido, Rita Parrecão endoidou. Inventou uma nova viagem ao interior para procurar a mãe de santo e desfazer a mandinga. Ao chegar no interior, aflita, procurou Mãe Oxum, que para sua desdita tinha tido um infarto fulminante na noite anterior e batera as botas. O corpo estava sendo velado.

Como a mãe de santo pregou um nó que só ela mesma poderia desatar, o que aconteceu com várias mulheres da região que, naquele instante chegavam contando o mesmo dilema, o consolo de Rita Parreção foi o de ter de conviver com o badalo do marido murcho e ficar na espreita para um dia o pau ressuscitar.

Desse dia em diante Rita Parrecão aprendeu uma lição por ter ficado sem o pau ardente do marido toda noite, a não ser apelando à cabocla Jurema, milagreira do pau mole, a ressurreição do “bicho”: quem não pode com a mandinga não carrega o patuá.

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O LEOPARDO

Texto escrito em parceria com o especialista em filme de faroeste D.Matt

Burt Lancaster/Alain Delon e Claudia Cardinale em cena clássica de baile

O Leopardo (1963), a obra-prima de Luchino Visconti é uma mistura de sensações, que faz conviver elementos tensionados sem resolvê-los completamente, sempre respeitando a complexidade do que não se unifica.

O filme reconstrói, com uma fotografia magistral, o período da atmosfera vivida nos palácios da aristocracia durante o conturbado reinado de Francisco II das Duas Sicílias e o “Risorgimento,” longo processo de unificação dos estados autônomos que originaram o Reino da Itália, em 1870.

O cenário político italiano é reconstituído com o intuito de interferir em dilemas dos personagens ficcionais, o confuso processo de unificação italiana, do príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster) testemunha da decadência da nobreza e da ascensão da burguesia. Num cenário caótico de fortes contradições políticas ele luta para manter seus valores.

Em meio à opulência e ruína, jogo de forças entre a nostalgia do passado e a mola propulsora que dirige o presente ao futuro. Bailes aristocráticos, quadros valorosos, tapeçarias cuidadosas, bustos estatuários, cômodos intermináveis, a grandeza, o encanto visual; em paralelo, o pó, a melancolia, o vagar paralítico, a indefinição, o tédio, a morbidez, a iminência do fim.

A experiência de apreciar o filme é única, visto que a grandiosidade de Visconti é potencializada, o primor de sua direção é destacado e o talento da composição musical de Nino Rota se realça pelo poder sonoro. Quando o desfecho é anunciado pela legenda do “fim” (“fine”, em italiano), a gente aplaude, entusiasmado. Que beleza, que ternura, que tessitura encantadora do estilo Visconti! Filmes como esse renovam o contrato de amor do cinéfilo com sua arte. Mais ainda: justificam a razão de ser da nossa espécie.

O cineasta Luchino Visconti (um nobre italiano “Conde de Lonate Pozzolo”,) um artista de grande sensibilidade, criador de obras de arte, no cinema e no teatro italiano, entregou-se de corpo e alma na criação deste filme que é a versão cinematográfica do livro clássico italiano Il Gattopardo. O filme, apesar de toda produção e direção de arte ser genuinamente italiana, por questões comerciais imposta pelos produtores, tem versão falada em italiano e versão em inglês, assim como, devido a imposição dos financiadores americanos, Visconti foi obrigado a aceitar como astro principal o ator norte americano Burt Lancaster, que não era a sua escolha prevista.

Sorte do Visconti, pois neste filme o ator americano Burt Lancaster premia o telespectador com um desempenho memorável, talvez o maior da sua gloriosa carreira, quando personaliza o Príncipe, vivendo em um esplendor já agonizante da nobreza Italiana, que continua escondendo a crua realidade da decadência, com um Fausto desgastado e ilusório.

A produção de arte é de extremo bom gosto, a montagem é de excelente qualidade, pois durante todo o filme intercala cenas do fausto atual, com cenas dos aposentos vazios, empoeirados e mobiliário desgastado mostrando que na atualidade é o que restou da esplendorosa e luxuosa “corte” dos nobres retratados.

O elenco escolhido a dedo pelo requintado diretor, é composto por ótimos atores, todos muito convincentes nos seus personagens, atores consagrados como Alain Delon e a magnífica Claudia Cardinale.

A presença de Claudia Cardinale é um prêmio, não só para o filme, como também para os expectadores, sua simpatia, beleza e grande presença em cena. Dá ao filme e em particular em todas as cenas em que participa uma demonstração de que estamos diante de uma estrela maior. As suas cenas com o príncipe são magníficas. Ela demonstra sua versatilidade com grande lance e olhares sedutores, o modo como ela seduz o príncipe, para obter o seu apoio e ser aceita na nobre família como uma igual, é simplesmente impagável.

A saga relatada e exposta no filme é bem explícita, quando demonstra, sem discursos, poucos fatos e ações e apenas comportamentos, de todos os personagens e principalmente do príncipe de que a nobreza está decrépita e que é preciso uma revolução, mudar tudo, para que possa continuar existindo teimosamente como sempre existiu. “Algo deve mudar para que continue como está”, diz o personagem Tancredi Falconeri, interpretado por Alain Delon.


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ANTONIO TAVARES DE MELO, MEU PAI

Meu pai não foi nenhum leitor de clássicos da literatura nacional ou universal. Mal sabia as quatro operações matemáticas que memorizou ouvindo dos feirantes carpinenses mais letrados soprarem-lhe ao ouvido. Era um autodidata nas ciências exatas e biológicas. Adorava a natureza. Era incapaz de matar um pássaro.

Meu pai nunca ouviu falar de Fernando Pessoa, Gabriel Garcia Marques, Machado de Assis, Jorge Amado, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Pinto do Monteiro, etc. e tal, mas ouvia Luiz Gonzaga, e onde quer que estivesse, sozinho, ou limpando mato, plantando milho, batata, tomate, melancia, macaxeira, ou cuidando das vacas leiteiras, assoviava “A Triste Partida” do genial poeta Patativa do Assaré, musicado por Luiz Gonzaga.

Meu pai nunca ouviu falar do cineasta humanista Akira Kurosawa, um do mais importante, brilhante e influente diretor da história do cinema japonês, sendo premiado tardiamente em 1989 com o Oscar pelo conjunto de sua obra cinematográfica, mas possuía um senso de altruísmo qual o cineasta que muitas vezes impressionava minha mãe, quando na nossa casa aparecia um estranho, um andarilho, um circense com fome, e ele nunca lhes negava nada, além de oferecer-lhes um prato de comida e dar-lhe uma feira com todos os produtos cultivados no sítio.

No “Sítio São Francisco”, depois de sofrer por mais de dez anos de seca braba, papai “inventou de construir” uma barragem com tijolos adobes, pois “não queria mais ficar esperando pelos ‘milagres’ do céu com a volta da chuva para regar as lavouras e dar água aos animais.” “Sofrer não dar e tendo os recursos, pior!” – dizia com naturalidade.

Mandou cavar uma barragem de quinze metros de profundidade por trinta de comprimento e trinta de largura, no ribeirinho que passava nos fundos do sítio. Todos os moradores donos das terras confinantes, dependentes da Embrapa, diziam que papai estava ficando louco com a construção da represa d’água. “Iria alagar tudo e prejudicar os sítios dos vizinhos” – diziam. Papai nunca deu ouvido às críticas e tocou o barco.

Aos troncos e barrancos papai concluiu a “obra”. Veio a chuva e encheu a barragem que sangrou. Não prejudicou os vizinhos como esperavam alguns malfazejos. Papai ficou satisfeito. Os vizinhos também. Mas quando veio novamente a seca os vizinhos ficaram apavorados com as lavouras e plantas secando e os bichos morrendo de sede. Papai, que possuía um coração maior do que a bondade, no dizer de mamãe, ofereceu-lhes a água da barragem e os vizinhos faziam filas como retirantes em busca da água do açude. Mas nunca aprenderam a lição de construir uma barragem também nos seus sítios, tomando o exemplo de papai para deixar de sofrer por falta d’água e incomodar os vizinhos!

Ao ponto de o Velho sempre comentar com mamãe:

– Quando esse povo vai aprender que só se represa a água caída do céu quando se constrói barragem?

Papai era um homem de prioridades!

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ZEN, O VIRA-LATA SAPECA

Zen, com três meses de vida

Zen era um vira lata inteligente, ligado, atento, brincalhão. Apesar de poucos meses de idade já dava cangapés, pulos “discostas” e para frente, para pegar baratas, ratos, escorpiões, víboras, lagartixas e outros insetos que o instinto animal repulsa.

Nascido de uma ninhada de seis cãezinhos, sendo dois machos e quatro fêmeas, Zen já trouxe consigo o faro e o fado de Tibicuera, o índio retratado magistralmente pelo romancista Érico Veríssimo no livro “As Aventuras de Tibicuera”, rejeitado pelo pajé que viu nele um sujeito fraco, desmilinguido, uma assombração, sem nenhuma sustança para o enfrentamento da vida diária na floresta íngreme do Brasil cabralino, que exigia astúcia, disposição, firmeza, força, coragem e espírito aventureiro.

Qual “Mila” de Carlos Heitor Cony, Zen conquistou alguns “fumus fidalgos”, como o “Dom Casmurro” de Machado de Assis. Enquanto viveu, era um Lorde, um Rei Salomão numa liteira inundada de sol e transportado por súditos imaginários.

Para sua felicidade ou infelicidade, Zen não teve o mesmo destino dos irmãos que foram doados a famílias desleixadas. Ficou em casa sendo tratado como um aristocrata.

Para sua desdita – era mês de março -, início de chuvas tropicais propícias para o plantio e cultivo do milharal, legumes, outras frutas e verduras. Numa manhã chuvosa e fria, mais fria que o normal, Zen amanheceu meio macambúzio, olho esquerdo mais claro que o direito, menos disposto a brincar.

Levado a uma Clínica Veterinária com urgência, não deu outro o diagnóstico: Cinomose, doença altamente contagiosa provocada pelo vírus CDV (Canine Distemper Vírus).

Dali em diante começava-lhe o martírio: tiques nervosos, convulsões, paralisias, mioclonias, sintomas jamais vistos num animal pela dona: Diarreia constante, febre alta, falta de apetite, tremor nas pernas, gritos progressivos e, pior, gemidos provocados como se estivesse sentindo uma dor cerebral sem fim, dia e noite.

Depois de suportar esse sofrimento por mais de dois meses, apesar da recomendação da veterinária para o sacrifício, pois estatisticamente a chance de sobrevida é de apenas 15% e com sequelas irrecuperáveis, Zen se encantou sendo segurado por quatro mãos. Apesar de seu corpo parecer uma borracha, o semblante sorria de felicidades por não ter sido abandonado em vida em momento desesperador, pela sua dona!

Zen se foi cedo, mas nos deixou uma grande lição de vida: Amar enquanto há vida para ser vivida, porque depois de morto só há a escuridão infinita! Não chore por mim depois de morto – parecia dizer! Os olhos fechados, o mundo escurece para sempre!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

EDVALDO BRONZEADO – O POETA NATIVO

Na charge de Wilson Santos, o poeta Edvaldo e esse colunista. Estande da Editora Bagaço/2005

Em 1939 nascia na cidade de Paulista – (PE) um dos poetas mais autênticos que aquela cidade teve o privilégio de acolher e eu tive o privilégio de conhecer, embora seus ascendentes tenham sido paraibanos e só tenha deixado um livro publicado: MEMBI – FLAUTA DE OSSO. Edição Bagaço: 2005. Não sei se houve outras publicações e com quem está o seu acervo poético não publicado.

Arteiro, artista, pintor, artesão, sempre esteve ligado às cores, formas, sons e nas horas mais inspirativas o poeta entrava em ação para versificar poemas líricos, lúdicos, românticos, irônicos, com a naturalidade peculiar que só os grandes poetas e repentistas possuem. Tudo desenhado à caneta!

Durante muitos anos o poeta e artesão Edvaldo Bronzeado manteve seu Atelier no bairro de Engenho do Meio, perto do gigantesco e inútil prédio da SUDENE, onde atuava como design gráfico, fazendo embalagens, logomarcas, artes visuais e afins.

Entre um e outro desenho para caixa de perfume, saco de pipoca, capa de LP, ele fazia soneto, balada, samba, cordel, letras de músicas e jingles para propagandas de qualquer produto e promoções de candidatos à politicagem. Tudo no melhor sem-estilo, esmero, escola que dominava com maestria.

Por volta dos anos noventa, o poeta Edvaldo Bronzeado acordou-se virado no penteio de barrão e indignado com a ação dos poderosos do Poder Público que lhe queriam infernizar a vida no atelier, gravou nas pilastras do viaduto que separa o bairro de Engenho do Meio ao campus da Universidade Federal de Pernambuco o poema de protesto: NATIVO.

Nesse mesmo dia passava por ali um estudante de Direito da UFPE chamado Joca de Oliveira, poeta de Ribeirão, e, antes que a chuva batesse e apagasse aquela pérola, transpôs para uma caderneta a lápis e a guardou a sete chaves durante anos.

Durante mais de quinze anos o poeta Edvaldo Bronzeado era um enigma para nós e, como o mestre Orlando Tejo em busca de Canindé para conseguir o dinheiro para cobrir-lhe o cheque, nunca perdemos a oportunidade de encontrar aquele poeta que escreveu no muro do viaduto aquela poesia de resistência.

Uns treze anos depois, no início dos anos dois mil, ouvindo o Programa Supermanhã, apresentado por Geraldo Freire e o médico-radialista Fernando Freitas, tive o privilégio de ouvir Fernando Freitas chamar o poeta Edvaldo Bronzeado para declamar suas poesias no programa ao vivo e, feliz com aquela “descoberta”, me pus a procurar o grande poeta que para mim até aquele instante, era uma lenda viva! Liguei para a Rádio Jornal e a produção me passou o telefone da casa do bardo bronzeado!

E mais uma vez invocando Orlando Tejo, saí à cata do poeta até então desconhecido, e o encontrei no Centro da cidade na companhia do Sociólogo das Putas e dos Cabarés, o mestre Liêdo Maranhão, figura inesquecível, indescritível, de uma simplicidade ímpar. Sempre de bem consigo mesmo.

Ali estava eu junto daquele poeta-monstro do sentimento, da alma, do teatro, dono de um estilo de poesia altamente lírica, mesmo quando protestando contra as inconveniências da vida e do relacionamento do Homem com a Natureza, e, ainda da exploração do homem pelo próprio homem.

Polivalente, conhecedor das manhas e dos artifícios da retórica, ali estava eu diante de dois monstros sagrados da Literatura: um, o poeta nativo, lírico, romântico; o outro, o Sociólogo das Putas.

Na primeira conversa que tive com o poeta Edvaldo Bronzeado ele se espantou quando lhe falei sobre o poema NATIVO que havíamos copiado das pilastras do viaduto que separa a SUDENE da UFPE. E ele ficou extasiado em saber sobre a nossa admiração pela sua poesia.

A partir daquele momento e ao longo de mais de quinze anos de amizades, com meu estímulo, entusiasmo e impulsão, o Poeta Edvaldo Bronzeado criou coragem e começou uma peregrinação incansável à valorização e ao reconhecimento e publicação de suas poesias. Sua primeira incursão foi no jornal Poesia Descalça do grupo da Várzea, editado pelo poeta Joca de Oliveira, que lhe copiou o poema Nativo do viaduto que separa a UFPE e a SUDENE e o também poeta, romancista e professor de química da UFPE, Wilson Vieira, autor dos romances “Ditirambo” e “Pinguelo.”

Em 2005 o encontro feliz da vida de traje sociabilíssimo e com um gorro branco cobrindo a careca, na estante da Editora Bagaço no Centro de Convenções, com o seu livro de estreia: MEMBI – Flauta de Osso, editado pela Bagaço, de bem consigo mesmo e com a vida!

Devido à correria da vida, passei a me encontrar pouco com o Poeta. Mas quando isso acontecia era uma festa para nós. Uma das últimas vezes que eu o vi estava abatido com problemas familiares. Dizia não se acostumar com os modismos desrespeitosos do lar. Tentei demovê-lo dizendo que pensasse sempre como Dom Helder Câmara quando se referia aos jovens: Deixem-nos viverem à sua maneira! As trombetas da vida os ensinarão a encontrar o certo ou o errado!

Não sei se publicou mais livros pela Editora Bagaço. O que sei dizer é que duas semanas antes de se encantar, em 2013, por um enfarte fulminante, me encontrei com ele na Livraria Cultura acompanhado do seu violão Giannini, onde damos altas gargalhas de amor à VIDA!

É essa a boa recordação que carrego dentro de mim do poeta de NATIVO, o homem que viveu para a simplicidade da vida. Um gigante de poeta, mas sem estrelismo!

NATIVO – Edvaldo Bronzeado

Eu sou tão daqui
Quanto a paquevira,
O piriri,
E a macambira.

E daqui se eu saio
A carroça vira.
Porco vira paio.
Essa joça gira.

Vivo aqui assim
Mais o mangangá,
Uruçu-mirim,
O aripuá.
O papa-capim,
Capim-jaraguá.

Sou desse lugar
Mais o capilé,
Mais o midubim,
Mais o catolé.

Esse dedo aqui
Piranha comeu
Brinco pastori,
Carnavá, Mateu.

O zabumba afrouxa
Se eu deixo a dansa
Se apaga a tocha
Isso aqui balança
Lama vira rocha
Corda desentrança.

Durmo no chuá
Que faz o riacho
Eu noutro ligar
Sei que seco e racho.

Lavo coisa ruim
No ariaxé
Curo farnesim
Com cachaça e mé.

Tenho uma mulé
Que gosta de mim.
Como jacaré
Cará, surubim.
Tenho um pangaré
Quatro curumim.

A respeito do poema NATIVO, este colunista informa que a segunda estrofe tem uma curiosidade a ser esclarecida ao leitor. Onde se lê:

E daqui se eu saio
A carroça vira.
PORCO VIRA PAIO.
Essa joça gira.

O poeta Edvaldo Bronzeado havia grafado por mais de quinze anos no poema NATIVO a seguinte estrofe:

E daqui se eu saio
A carroça vira.
ISSO VIRA PAIO.
Essa joça gira.

Antes de publicar o livro, ele fez a mudança na estrofe. Segundo ele me disse, deu mais afinidade ao verso.

Edvaldo Bronzeado, o mestre que será sempre eterno nas minhas lembranças.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O DEDO COTÓ DE LULA E O PINGUELÃO DE VACA PEIDONA

Os Oito malfeitores…

Segundo Chico Pé de Mesa, um negão de um metro e noventa, que já foi pau para toda obra no Sindicato do ABC nos anos oitenta, morador da Vila “Tem Bala”, vilarejo nascido encangado ao Cabaré de Maria Bago Mole, o dedo mindinho cortado do ladrão de Caetês não foi acidente de trabalho na metalurgia, como ele alardeou, para usufruir de uma gorda aposentadoria da Viúva sem fazer bulhufas e viver só de flosô! Foi uma mordidela do pinguelão de Vaca Peidona quando Lapa de Ladrão e ela iniciaram os primeiros passos na arte do furunfunfar num cabaré de Diadema, fato esse confirmado por seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido no PCB como Frei Chico Mesada.

Demonstrando astúcia e mau caráter já na adolescência, com faro de Rattus norvegicus e disposto a qualquer “parada” para se tornar sindicalista, nas suas palavras: “o maior filão para mamar nas tetas do Estado e ludibriar a patuleia”, Lapa de Corrupto, em 1968, durante a dita mole militar, filia-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo em Diadema e uma vez dentro vai pondo em prática os primeiros passos do estratagema para se tornar o primeiro presidente analfabeto-proletariado da República Federativa Banânica e assaltar a nação com a quadrilha denominada de Os Oitos Malfeitores, expandindo a roubalheira proletária para toda América Central com os comparsas Hugo Chaves, Fidel Castro, Nicolas Maduro, fazendo do povo massa de manobra, com a Bolsa Família, Bolsa Preso, Bolsa MST, Bolsa LGBT, Bolsa Pretos, Bolsa Índios e outras cotas imbecis.

Crente de que só alcançaria seus objetivos eleitoreiros seguindo os passos de Antônio Conselheiros – O Maluco de Canudos (A Luta Pela Utopia Real) – no qual se espelhou por ser místico, ascético, paranoico, bipolar, enganador e com um poder de santidade incomum por irradiar ilusões e derramar falsas promessas a um povo faminto, fanático e sem nenhuma noção da realidade.

Lapa de Dissimulado viu nesse filão lhe soprado por Vaca Peidona nos intervalos das furufunfadas de ambos na alcova em Diadema, pois esta dizia ter lido na prisão de araque do DOPS La Guerra del Fin del Mundo, romance histórico do escritor peruano Mario Vargas Lhosa, que disseca com riqueza de detalhes as loucuras e fanatismo de um psicopata que levou o povo analfabeto, descerebrado e faminto de Canudos a um suicídio coletivo.

Espelhando nesse messianismo de araque e com um discurso vigarista, Lapa de Ladrão, que nunca pôs um prego numa barra de sabão, já com o dedo mindinho sarado e aposentado com uma gorda aposentadoria da Viúva, encontra o campo fértil para expandir suas insanidades proletárias: primeiro como deputado federal por São Paulo e depois sua luta desesperada para chegar à Presidência da República Federativa de Banânia e se perpetuar no poder com as esmolas bolsistas iniciadas no governo de Boca de Macaco, o sociólogo de araque Fernando Henrique Cardoso, o Boca de Macaco.

O dedo cotó de Lapa de Bandido não é obra do acaso como apregoam seus séquitos descerebrados. Como sustenta em sua autobiografia Chico Pé de Mesa: O Caso eu Conto como o Caso se Sucedeu numa Sucessão Sucessiva sem Cessar, mas de uma dentada do pinguelão de Vaca Peidona na hora das primeiras sacanagens. Segundo descreve Chicão no capítulo intitulado A Farsa do Dedo Mindinho, “Lapa de Bandido, no momento do facto, revoltou-se, xingou a cumpanhêra, chamando-a de tarada, gulosa, insaciável.” Chorou de araque, mas depois viu no gesto do dedo cotó a chance real de espalhar a mística do homem sério, trabalhador, honrado, pai de família exemplar. Seria o Antônio Conselheiro do século XX, preparado para tirar o povo de Banânia da exploração do capitalismo selvagem, com distribuição da mais valia para todos os desempregados, empregos públicos sem concursos, escolas gratuitas com refeições de amanhã, tarde e noite, segurança, saúde para todos e progresso absolutos, de modo que a República Federativa de Banânia tornar-se-ia um imenso Jardim do Éden com todo mundo feliz e reverenciando o bandidão de “Os Oitos Malfeitores!”

Mas, para a felicidade geral de Banânia todo esse estratagema de Lapa de Condenado deu em merda e hoje ele não passa de um condenado pela Justiça, tendo já cagado no boi de Curitiba por mais de um ano, viu a lua nascer redonda e, hoje, por decisão dos seus comparsas na Suprema Corte Bostal, está preste a se tornar inocente, mas não mais engana os homens de bem, de caráter, ético, honrado, ilibado, desse imenso Brasilzão!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MÉDICOS DA PESTE NEGRA

Texto escrito em parceria com Luiz Antonio Tavares Portella, meu filho, estudante de Biologia na Unicap.

Conhecida como a Pandemia mais devastadora já registrada na história da humanidade, tendo resultado na morte de mais de cem milhões de pessoas na Eurásia, atingindo o pico na Europa entre os anos de 1347 e 1351, a Peste Negra, também conhecida como a Grande Peste ou Morte Negra, pode ter tido sua origem da Ásia Central ou na Ásia Oriental, de onde viajou ao longo da Rota da Seda, séries de rotas interconectadas por navios através do Sul da Ásia, atingindo a Crimeia em 1343.

Acredita-se que a bactéria Yersinia pestis, que resulta em várias formas da peste: septicêmica, pneumônica e, a mais comum, bubônica, tenha sido a causadora. A Peste Negra foi o primeiro grande surto europeu de peste e a segunda pandemia da doença. A praga criou uma série de convulsões religiosas, sociais e econômicas, com efeitos profundos no curso da história da Europa. Nessa época se acentuou o ostracismo na população.

É importante salientar que os médicos da época usavam um traje especial e usavam máscaras que pareciam bicos de aves cheias de itens aromáticos. As máscaras foram concebidas para protegê-los do ar fétido, que, de acordo com a teoria miasmática da doença, foi considerado como a causa da infecção. Hoje se sabe que esta teoria é falsa.

DOIS MÉDICOS MERECEM DESTAQUE NESSA ÉPOCA

Guy de Chauliac de origem francesa

Quando a Peste Negra chegou a Avignon, em 1348, os médicos fugiram da cidade. Guy Chauliac permaneceu, tratando os doentes da peste e documentando os sintomas meticulosamente. Ele alegou ter sido infectado e ter sobrevivido à doença usando os seus conhecimentos. Através das suas observações, Chauliac fez distinção entre as duas formas da doença, a peste bubônica e a peste pneumônica.

Como medida de precaução, ele aconselhou o Papa Clemente VI a manter um fogo ardendo constantemente nos seus aposentos, para afastar o ar fétido, de acordo com a teoria miasmática aceita na época. A peste foi reconhecida como sendo altamente contagiosa, embora o agente etiológico fosse desconhecido. Como medidas, Chauliac recomendou que o ar fosse purificado, sangria (modalidade de tratamento médico que estabelece a retirada de sangue do paciente como tratamento de doenças) e dieta saudável.

Michel de Nostredame, de origem francesa, popularmente conhecido como Nostradamus pelas suas profecias

Seus conselhos profissionais foram importantes para a tomada de medidas preventivas contra a praga. Recomendou a remoção de cadáveres infectados. Respirar ar fresco, tomar água potável e limpa, e um suco de preparação de rosa mosqueta. Em sua publicação Traité des fardemens, recomendou não sangrar o paciente.

Com todos os conhecimentos adquiridos através de seus estudos, Nostradamus viajou ao sul da França para cuidar das vítimas da peste. A pandemia da peste negra provavelmente começou na Ásia no século XIV e se espalhou por toda a Europa, onde os surtos recorrentes dizimaram as populações de vários países ao longo do século XIV. A peste ficou presente na vida dos europeus até o século XVIII. A doença, transmitida através de pulgas transportadas por roedores, como ratos e marmotas, foi altamente contagiosa, rápida e dolorosa, muitas vezes causando febre alta com delírios e deixando grandes pústulas negras em todo o corpo das vítimas. Nostradamus tornou-se conhecido pelo tratamento que concebeu para combater a peste. Além das suas recomendações, sua cura consistia na limpeza do corpo e administração de vitamina C aos seus pacientes.

IRONIA DO DESTINO

Em 1534, Nostradamus casou-se com Henriette d’Encausse, de Montpellier, cidade do sul da França, e teve dois filhos com ela. A praga atingiu posteriormente Agen, local onde vivia com sua família. Ocupado demais com a cura da população, Nostradamus não conseguiu salvar a mulher e os dois filhos. Este acontecimento o fez questionar as suas capacidades enquanto médico e, desapontado, viajou pela Europa sem destino, provavelmente através da Itália e outras partes da França, durante seis anos. Foi nessa altura que Nostradamus se deu conta de seus poderes proféticos, pelos quais é mundialmente conhecido.

Assista ao extraordinário documentário abaixo e percebe que os sentimentos humanos, por mais civilizados que sejam, serão sempre primitivos, egoístas, individuais e cúpidos.

Não haverá salvação para a humanidade.

Clique aqui para assistir ao documentário A Peste Negra, com duração de 55 minutos.