MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há frases que, de tão precisas, deveriam ser esculpidas em mármore e colocadas na entrada de todas as repartições públicas, parlamentos, assembleias, escolas, fóruns e — por que não? — nas portas das redes sociais, esse grande manicômio global sem muro nem enfermeiro.

Entre elas, a velha sentença que costuma circular como advertência e lamento:

“A mãe do idiota está sempre grávida.”

O mundo, afinal, parece uma imensa maternidade onde a cada hora nasce mais um cidadão determinado a provar que a ignorância é hereditária, multiplicável e, sobretudo, impávida.

Vivemos numa era em que a burrice deixou de ser um acidente e se tornou carreira, com direito a seguidores, hashtags, discursos inflamados e lives diárias em que o intelecto é frito em óleo grosso.

A Ciência fala — e é vaiada. Os fatos gritam — e são ignorados. Os especialistas alertam — e são chamados de elitistas, conspiradores, globalistas e todas as demais palavras terminadas em “-ista” que os imbecis colecionam como se fossem figurinhas de álbum.

E o mais fascinante: o idiota moderno não é apenas teimoso; ele é missionário.
Quer converter o planeta inteiro à sua gloriosa devoção ao nada.

O Idiota e a Política: Uma História de Amor doentio

Políticos? Ah, esses são apenas o capítulo intermediário da epopeia. A verdadeira genialidade está no eleitor que vota sem ler, sem pensar, sem saber, mas com a convicção fervorosa de um profeta. Ele não escolhe representantes — ele escolhe espelhos. E assim acaba elegendo exatamente aquilo que mais teme: versões ampliadas de si mesmo.

Depois reclama. Protesta. Bate panela. Publica textão. Mas na urna, age com a profundidade de um pires rachado.

O idiota político não deseja debate — deseja barulho. Não quer soluções — quer slogans. Não busca governança — busca guerra, desde que travada em comentários de internet, onde coragem é barata e coerência é supérflua.

O Idiota Anticiência: A Espécie Mais Barulhenta da Criação

Toda geração teve seus tontos, mas a atual tem um diferencial competitivo: Wi-Fi.
A internet deu megafone aos que, outrora, só tinham direito a falar com quem estivesse sentado na mesma mesa de bar e bêbado o bastante para ouvir. Agora os negadores da Ciência florescem como fungo em ambiente úmido.

Eles rejeitam vacinas, mas rezam para curas milagrosas. Negam a esfericidade da Terra, mas confiam no GPS do celular. Chamam pesquisadores de mentirosos, mas acreditam cegamente em vídeos feitos num porão com uma lâmpada queimada. Esses não apenas duvidam da Ciência — eles se ofendem com ela, como se a gravidade fosse um insulto pessoal.

O Fanático: Guardião do Nada com Orgulho

Há também aquele tipo raro, o fanático por bobagens — o gladiador da irrelevância. Ele se apega a detalhes minúsculos, a ídolos de papelão, a querelas medíocres e as defende com a ferocidade de um cão velho guardando um osso já sem gosto. Para esse, o debate não é exercício de razão — é exercício de fé. E fé mal direcionada, como sabemos, produz desastres: alguns históricos, outros apenas cômicos, mas todos igualmente inúteis.

E Enquanto Isso… a Mãe do Idiota Continua em Trabalho de Parto

A Terra gira, o Sol nasce, o Universo expande-se e, pontualmente, mais um idiota vem ao mundo acreditando que traz revelações inéditas, verdades revolucionárias, teorias inéditas que já foram refutadas antes mesmo de ele nascer. E a mãe dele — essa entidade metafórica e eterna — segue grávida, serena, prolífica, garantindo que a espécie continue, que a burrice se renove e que o espetáculo jamais acabe. Afinal, se o mundo fosse habitado apenas por pessoas sensatas, críticas, racionais… — talvez fosse um lugar melhor, sim. Mas, reconheçamos: seria infinitamente menos divertido testemunhar o absurdo cotidiano. E assim continuamos, equilibrando-nos entre a lucidez e a paciência, enquanto a humanidade segue em fila indiana para o berçário universal:

“Próximo! Mais um idiota recém-nascido! Pesa três quilos e já veio com opinião formada.”

2 pensou em “A MÃE DO IDIOTA ESTÁ SEMPRE GRÁVIDA

  1. Excelente análise sobre a proliferação de indivíduos “determinados a provar que a ignorância é hereditária, multiplicável e, sobretudo, impávida”.
    Concordo com os argumentos que foram colocados mas, dando uma de idiota fanático por bobagens, faço uma ressalva quanto ao uso do termo idiota político, já que originalmente um idiota na Grécia era alguém apolítico.
    Nosso confrade Goiano diria que um idiota político seria uma contradição em seus próprios termos.

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