DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RECADO AOS AMIGOS DISTANTES – Cecília Meireles

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Rio Comprido-RJ, (1901-1964)

DEU NO JORNAL

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

PREMONIÇÃO

Nossa constituição federal traz, inclusive como cláusula pétrea, o chamado princípio da presunção de inocência ou, se preferir, da não culpabilidade, que em termos diretos diz que qualquer pessoa é considerada inocente até que haja uma sentença penal condenatória definitiva, isto é, transitada em julgado. Na época da Lava Jato, a prisão ocorria depois da condenação em segunda instância e isso favoreceu muitas delações que colocaram corruptos na linha de investigação.

Esse preceito consta no art. 5º, inciso LVII da constituição e em 2016 o STF julgou como constitucional o fato de que após a segunda instância só havia protelação do processo, mas quando o ocorreu a prisão do atual presidente da república, o STF mudou o entendimento e revogou o que havia decidido antes. Lewandowski, esse mesmo que recebeu R$ 6 milhões do banco Master, babava ao enfatizar que a presunção de inocência era cláusula pétrea e por isso não poderia ser objeto de emenda constitucional.

Essa introdução serve para um entendimento da acusação que integrantes do PT fazem ao ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Todos usam o mesmo jargão: Campos Neto aprovou o funcionamento do Banco. Esse pessoal é tão imbecil que não busca a origem dos fatos para fazer qualquer afirmação. O Banco Master não surgiu no mercado financeiro como um banco criado do zero, como uma empresa aberta num determinado instante, mas sua origem decorre de uma transformação societária e estratégica, a partir de uma instituição financeira de menor porte, cuja atuação se dava em nichos específicos e a partir de 2018, quando Daniel Vorcaro assumiu o controle da instituição, sua atuação passou a ser mais agressivo.

Uma coisa interessante é que o banco pagou R$ 11 milhões a uma empresa da nora de Jacques Wagner para prospectar operações de crédito consignado com o governo da Bahia e há relatos de que o governo do estado, mediante, decreto, proibiu a portabilidade de crédito consignado, ou seja, o servidor público baiano que realizasse empréstimo consignado com o Master, não seria autorizado trocar de banco.

Acusam Campos Neto de ter autorizado o funcionamento de uma instituição. Parece que exigem dele o dom da profecia, ou seja, em 2018 ele teria que saber que um banco iria corromper integrantes do governo atual. A lista é extensa, mas a gente pode destacar alguns: Michele Temer, ex-presidente e parceiro de Dilma Rousseff do PT; Henrique Meirelles, ex-presidente do banco Central no primeiro governo do PT. Dois fatos merecem destaque em relação a Meirelles: o primeiro é que havia suspeição contra ele por negócios em Goiás e Lula deu ao presidente do Banco Central status de ministro, para ele tivesse foro privilegiado. A segunda questão é Heloísa Helena saiu do PT por conta da nomeação de Henrique Meirelles.

Guido Mantega foi ministro do governo Dilma e ficou ao alcance da Lava Jato também; a esposa de Alexandre de Morais recebeu R$ 80 milhões e nas conversas do telefone de Vorcaro, não um registro sequer de conversa entre ambos, mas como o ministro tem o famoso “bloqueou?”; Lewandowski (não precisa apresentar), ACM Neto, Antônio Rueda, presidente do partido União Brasil e tem outras figuras incluindo o grupo Massa (Ratinho, apresentador de televisão).

A dúvida que fica é a seguinte: culpam Campos Neto porque todos os envolvidos são petistas ou possuem ligação com o PT? É como se fosse algo assim: você aprovou o funcionamento do banco e os integrantes do nosso governo foram corrompidos pelo dono do banco. Vamos aquietar esse pessoal dizendo o seguinte: relaxem! Os integrantes do governo são suficientemente inteligentes para desviar dinheiro público e enriquecer ilicitamente. O rombo no INSS, que cresceu 64% no governo atual é culpa do governo passado.

Cabe ressaltar que o pessoal não perde tempo e “como quem está morrendo afogado se agarra até com jacaré”, já tentaram tudo para envolver Nikolas Ferreira e agora, Flávio Bolsonaro. O primeiro porque seu nome estava na “agenda” Vorcaro. Eu tenho o contato de dois deputados, um estadual e outro federal, por trabalhos desenvolvidos com eles, mas nunca ligo para nenhum dos dois. Talvez não achando argumentos para essa bobagem, veio o uso de aviões, ou seja, Nikolas teria viajado através das empresas de Vorcaro.

No caso de Flávio, a questão repousa sobre um empréstimo autorizado pelo diretor do BRB que tentou comprar as aplicações fajutas do Master. Veja, um empréstimo definido com garantia, encargos, prazo de pagamento, ou seja, uma operação bancária como outra qualquer.

De forma direta, objetiva, clara, a corrupção é única e exclusiva dessa gente que faz, ou fez, parte do governo, ou seja, pessoas que possuem um cordão umbilical com o PT. O nutriente desse cordão é a corrupção. É ela que dá vida a estes fantoches.

DEU NO JORNAL

DESTOANDO

O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS) avalia que Flávio Bolsonaro tem tudo para ser um bom presidente:

“Não é corrupto, tem uma postura calma, é um empreendedor e pode abraçar o voto dos moderados”.

* * *

Sinhô deputado:

Se ele não é corrupto e não rouba, e for eleito, haverá uma mudança radical na administração federal da republiqueta banânica da atualidade.

Vai transformar totalmente a paisagem de Pindorama!

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO JORNAL

SE DEPENDER DO PNE, NOSSAS CRIANÇAS CONTINUAÇÃO SEM LER NEM CONTAR DIREITO

Adriano Gianturco

Lula acabou de sancionar o novo Plano Nacional de Educação, em perfeito estilo soviético. O plano é dividido em 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias. Enorme, um livro dos sonhos, tem de tudo, até crases erradas!

Nossas crianças e adolescentes não leem nem fazem contas direito, mas a visão geral do texto se resume às expressões “diversidade e inclusão”, “controle social e participação democrática”, “combater as desigualdades”, “sustentabilidade ambiental”, “cidadania”, “transformações da sociedade e do mundo do trabalho”, além de mais gasto e planejamento central compulsório. O plano fala em reduzir desigualdades, como no trecho sobre “a desigualdade de acesso à creche entre as crianças do quintil de renda familiar per capita mais elevado e as do quintil de renda familiar per capita mais baixo”, ou quando se propõe a “reforçar e consolidar o papel redistributivo da União e dos estados”, além das centenas de medidas para crianças “negras, indígenas, quilombolas, do campo, das águas e das florestas”.

É puro planejamento soviético: o PNE fala em definir “instrumento nacional para levantamento da demanda por vagas em creche” e em “promover a expansão quantitativa e qualitativamente planejada, [de cursos de graduação] a partir de um diagnóstico de demanda e das necessidades de desenvolvimento econômico, local e regional”. O PNE insiste, ainda, na gratuidade das universidades federais e estaduais, mesmo que poucos países usem esse modelo.

Enquanto o mundo segue na direção oposta, o PNE quer aumentar as horas que as crianças passam na escola (o objetivo final é o chamado “tempo integral”). Lula já disse, explicitamente, em 2023, que “um monte de coisa precisa ser discutida na escola porque a criança pode mudar a cabeça do pai” – teremos mais doutrinação a caminho?

As metas são ilusórias: sair dos atuais 66% para 100% de alfabetização, não obstante a meta anterior já ser 100% e não ter sido alcançada mesmo assim; subir para 100% o número de diretores de escolas selecionados com processo seletivo – em 2024 a meta já era 100%, mas só se conseguiu 12,9%. E, sem ter dados históricos e atuais, também se coloca a meta 100% nos seguintes itens: qualidade de educação infantil, número de estudantes com nível adequado de aprendizado no ensino fundamental e médio, indígenas e quilombolas matriculados na educação básica, e redes de ensino com planos de sustentabilidade. Fala-se de qualidade o tempo inteiro, mas sempre sem parâmetros objetivos. A elogiar, apenas o objetivo de aumentar o ensino técnico e profissionalizante.

Como se não bastasse, querem um aumento de gasto, chegando a 10% do PIB. Quantidade, no entanto, não é sinônimo de qualidade! O Brasil já é um dos países que mais gastam com ensino, (cerca de 6%, como Finlândia, Dinamarca, Israel e Reino Unido); o problema não é que gaste pouco; o problema é que gasta mal. Não adianta colocar mais gasolina em um tanque furado.

A situação do ensino brasileiro é gravíssima, os problemas são vários. Estamos na rabeira do Pisa, o mais importante ranking internacional da área; desde 2023, estagnamos ou até pioramos. O PNE, no entanto, cita o Pisa apenas duas vezes, e não para melhorar nossa performance, mas para ampliar sua aplicação! Temos pouca pesquisa científica e de baixa qualidade internacional; a indisciplina em sala de aula é maior que a média mundial; o status do professor é baixíssimo; e o custo do sistema é enorme.

Mas em um item temos excelência: a doutrinação rola solta. O foco da escola brasileira é a tal “consciência crítica” e “cidadania”, meros cavalos de Troia para a crítica ao capitalismo, à mineração, ao agronegócio. Tudo se resume a culpar a colonização e os portugueses, endeusar os índios e o Estado, falar de feminismo já no ensino fundamental, e até falar abertamente de política partidária; pura e simples lavagem cerebral, sem igual em nenhum outro país democrático! Não por acaso os alunos vão mal em Português, Ciências e Matemática, mas repetem todos as mesmas palavras idênticas sobre essas questões políticas. Objetivo alcançado!

Educação é um tema complexo e multifatorial, mas ninguém precisa reinventar a roda; basta olhar o que fazem os países com as melhores performances no Pisa, e adaptar só o estritamente necessário.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CABAÇA E O POTE

Cabaça para carregar água no sertão

Meizinha, suvaco, adijutoro, rapariga, disculhambação, cabra besta, gaiudo, gabolice, catá coquinho, vacuá e tantas outras falas são, não apenas o linguajar da roça vivido pelo matuto. Existe um universo muito grande envolvendo tudo isso.

Traduzir a coragem e a persistência – às vezes, até por ter consciência da impossibilidade de solução para apenas um problema – do matuto, aquele que realmente produz riqueza pela força do trabalho na agricultura e afins, é algo muito difícil.

Madrugar – acordar e levantar, quando o novo dia começa a clarear – não é apenas uma necessidade, é um hábito.

E escutar o galo cantar, a vaca mugir ou o berro dos cabritos é rotina. É o despertador da roça – para os abastados, na “fazenda”.

Era assim em Queimadas – povoado de Pacajus, no Ceará – quando o sol avermelhava o céu mostrando aquele colorido encorajador para Raimunda Buretama e os netos. Muitos netos. Nas férias escolares, mais de uma dúzia deles.

– Levante meu fii, se avexe e vamos buscar água prumode fazê o café e o dicumê!

Caminhar 12 Km (6 na ida e 6 na volta) pelas veredas para apanhar uma cabaça d´água não era coisa que uma criança entrando na adolescência gostasse de fazer. Mas era preciso fazer. Tinha que acontecer.

Eram duas caminhadas, o que acabava significando 24 Km por dia – “apenas para buscar água” – para uma casa com nove moradores. O banho ficava para a segunda viagem ou no fim da tarde, com a possibilidade improvável da garupa do jumento do Avô, depois que esse voltava da roça e precisava banhar e “dar de beber” ao animal.

Cinco, seis e até sete anos fazendo isso. Chovesse ou fizesse sol.

E aqui fazemos uma pausa para uma indagação – será que a água tem importância para uma família dessas?

Será que a transposição do São Francisco significa alguma coisa para várias famílias que vivem esse dilema?

Pote de largo uso sertanejo

Na casa, com cenário antigo por longos e longos anos, o abrir as cortinas mostrava um pote sobre uma trempe, ou, uma forquilha com três braços. Coador de morim amarrado na boca, para evitar a passagem de gravetos ou de martelos na água de beber. Ferver a água, nunca. A água só fervia quando era colocada no fogo, na lata de fazer café com um pedaço de rapadura para dissolver e adoçar.

Nos raros invernos, uma terrina de cimento servia como cisterna da água da chuva aparada na calha feita do sabiá (mimosa caesalpiniaefolia), uma madeira de grande serventia e aproveitamento no interior. A água ali depositada servia para aplacar a sede dos caprinos, das galinhas e outros animais domésticos criados para o abate e consumo da família nos momentos difíceis.

Nos anos 50, 60 e meados de 70, nenhuma residência do interior do estado tinha água tratada e canalizada – e isso significava dizer que esgoto ninguém conhecia naquelas paragens.

Fazia-se as “necessidades” num buraco feito no chão e a “assepsia” era feita com sabugo de milho ou folha de marmeleiro.

Hoje, acreditamos, tudo é diferente. Já não se faz necessário caminhar mais 24 Km e a cabaça e o pote foram praticamente abolidos, embora as casas permaneçam quase sempre as mesmas: paredes de estuque, chão de barro batido, fogão à lenha; portas fechadas com tramelas, apesar da crescente e preocupante violência urbana.

E dá uma saudade danada relembrar a caminhada diária de 24 Km. Dá uma saudade danada do bom, da ingenuidade, da coisa boa e, principalmente, da convivência e da unidade familiar – coisa que a tecnologia exterminou, trazendo junto a evolução.

Felizmente ainda é comum, nos povoados do interior, a “roça familiar” – batata doce, macaxeira, feijão, maxixe, quiabo, tomate, coentro, cebolinha verde e, nas Queimadas os primos e filhos dos primos nunca deixaram de preservar as moitas de mofumbo, arbusto preparado para a reprodução dos capotes – galinha d´angola.

Ali a tecnologia também chegou. Felizmente não conseguiu acabar com a tradição e sequer foi motivo para impulsionar mais uma “Revolução dos bichos”.

DEU NO X