Na sociedade brasileira atual, onde um individualismo perverso está asfixiando uma sadia convivialidade social, assusta muito demonstrar solidariedade, manifestar sensações fraternais, condoer-se com os menos favorecidos, ser ombro amigo. Melhor ser solidário à distância, sensibilizar-se com as crianças da Bósnia, horrorizar-se com os massacrados pelos israelitas em Gaza, sair em passeata em prol do cachorro Orelha ou protestar contra o atual quase ruminante Sistema Político Brasileiro.
A sociedade nossa foi edificada a partir do ego. Mas a sabedoria popular ensina que “quanto mais se verga o arco, mais longe voará a flecha, quebrando-se o arco se a curvatura for excessiva”. As promessas de vida fácil, com muito dinheiro posto em Bets, estão multiplicando os otários compulsivos masterizados, a compulsão deles bem mais elevada que o apenas racional. E se o idiotizado é honestamente advertido, o otário sente-se ressentido, como se o mundo inteirinho estivesse tentando destruir seu projeto de enriquecimento acelerado.
O florentino Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, permanente fonte de consulta para pensantes de todos os calibres, dividiu os cérebros em três categorias: a dos que pensam por si mesmo, a dos que discernem a partir do entendimento dos outros e a dos que não entendem nada, nem a partir de si nem a partir dos outros. Na categoria última certamente se inscrevem os que perderam sua individualidade através de uma manada mórbida, os fins valendo todos os meios.
Na primeira das categorias de Maquiavel, sem qualquer dúvida se posicionou a figura sábia do mestre Harbans Lal Arora, serenamente a entender que “para se melhorar a situação presente, o melhor caminho é estar bem consciente de sua enorme dificuldade”. Possuindo a alegria de servir, Harbans era despido das pedanterias academicistas dos que costumam se idolatrar por ausência de discípulos. Harbans assimilava cotidianamente a imorredoura lição de Spinoza, explicitada na sua Ética: “A alegria é a passagem de um homem de uma perfeição menor para uma perfeição maior”.
Saibamos, apesar de todos os senões existenciais do momento, ser radicalmente humanizados, fiéis seguidores dos “mandamentos” abaixo:
1. Que a produção atenda às reais necessidades do povo, jamais servindo apenas às exigências do sistema econômico;
2. Que a relação entre as pessoas seja de colaboração, nunca de exploração;
3. Que o antagonismo obcecado dê vez à solidariedade persistente;
4. Que se empenhe pelo consumo adequado, nunca supérfluo;
5. Que as organizações sociais tenham por objetivo o bem-estar humano;
6. Que todos sejam, na vida social, participantes ativos, sempre de espíritos abertos.
Para ainda um início de ano, às vésperas de Momo, sempre esperando que a vaca tussa de modo mais generoso, recomendaria a leitura de dois textos que muito me impressionaram. O primeiro é Espelho do Ocidente – o nazismo e a civilização ocidental, Jéan-Louis Vullierme, RJ, Difel, 2019. 364 p. Onde se analisa, sob uma perspectiva incomum, as raízes do nazismo, muito mais amplas e profundas que o senso comum que postula que o fenômeno é produto de uma geração espontânea, fruto de mentes doentias alicerçadas numa ideologia antissemita. O livro é fruto de ampla pesquisa, resultado de uma preocupação que atualmente reina no mundo contemporâneo: uma inevitabilidade histórica que pode resultar em maldades já tidas como exclusas da história dos amanhãs.
A segunda leitura é complementar à primeira: A Coragem da Desesperança: crônicas de um ano em que agimos perigosamente, Slavoj Zizek, Rio de Janeiro, Zahar, 2019, 364 p. Um pensador de análises fecundantes, por vezes bastante inquietantes, sobre as luzes de um fim de túnel que nada mais é que o farol de um trem acelerado vindo em nossa direção. E só quando admitirmos que a situação é absolutamente irremediável e sem esperanças, as mudanças serão quiçá possíveis. Slavoj é considerado o filósofo mais perigoso do Ocidente, segundo o The Guadian. Leitura para os desbundamolizados éticos de nível superior.