FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

DEMISSÃO INJUSTA

O fato me foi contado pelo companheiro Martins, um dos bons profissionais nordestinos, consultor de nomeada na área da sua especialidade. Com a identificação de todos os personagens, tintim por tintim, aqui tornados fictícios por uma prudente questão de recato.

O fato aconteceu entre um executivo desquitado de pouco e a sua secretária, antiga estagiária da diretoria da empresa, um mulheraço de vinte e tantos anos, nunca raimunda tão somente. Fatalidade ou imprecisão analítica, abestalhamento da terceira idade ou infantilidade geriátrica, o fato aconteceu, arrebentando de rir o cinturão dos mais expansivos e fundindo a cuca dos conquistadores menos precavidos.

Os dados complementares do fato ficam por conta da imaginação sempre nota mil dos leitores do JBF, o jornal mais escrotamente independente deste hemisfério sul.

No dia do seu aniversário, o dito executivo saiu para os escritórios da empresa com o diabo no couro. Acordou-se, tomou uma ducha, sacudiu fora o bagaço intestinal, barbeou-se no capricho, sorveu devagar um alentado copo de leite e ninguém da sua casa o cumprimentou pelos sessenta e tantos anos de nascimento, naquela data. Nem a mulher, sempre enfezadinha e toda ai-ai-ai com seus intermináveis achaques menopáusicos, lembrou-se do niver do coitado. E nenhum abraço de ôi dos filhos, três, sempre ispertamente carinhosos em véspera de receber mesada. Nem da menina, a única, saliente toda, já fazendo Relações Públicas perto no Náutico Capibaribe. Até a empregada, vinte anos de casa, oriunda da fazenda dos pais, pau pra toda obra, vez por outra ainda prestigiada, esqueceu o natalício do pobrezinho.

No trajeto, mandando todo mundo pra puta que pariu, como faz o Capita presidente, imaginou-se o último dos moicanos, rejeitado todo, pior que o Dr. Jarinho, aquele safado que assassinou o filho da sua madame, no Rio de Janeiro, dias atrás. E com mais de mil manobrou o carro no estacionamento pré-determinado, para ele reservado tão logo assumiu a direção maior da empresa.

Destravada a porta do gabinete de trabalho, um “Parabéns, Dr!” de sopetão, gentileza pura, brotou dos lábios carnudos da danadona da secretária. E logo acompanhado de uma proposta mais demolidora que um teibei do Maguila, antes do seu afolosamento total diante daquele americano fortão: “Com um dia tão lindo como esse, poderíamos almoçar juntos, lá em casa, onde, já me antecipando, preparei uma galinha cabidela do jeito que o senhor aprecia”. E pra fundir a cuca do chefe: “Não se preocupe, dispensei a mensalista, para que o senhor possa ficar lá sem qualquer perturbação”.

O resto, o leitor já pode ser reconstitída. Meio-dia e meia, residência da boazuda, casal já na segunda dose escocesa, a frase atração fatal: “Dr. Fulano, acho que vou até lá dentro colocar algo mais confortável. Volto já. Fique à vontade”. A ordem foi cumprida mais que escoteiramente, num décimo de minuto, até às meias, a vela mestra tornada como nunca entusiasticamente desfraldada, a tremular mais que bandeira hasteada em dia de feriado oficial.

E eis que, de repente, não mais que de repente, a secretária retorna, nas mãos um bolo repleto de velinhas acessas, cantando um entusiasmado parabéns pra você, com a mulher e todos os filhos dele, para quem estava ali carecendo de todo apoio…

Da minha parte, já passei até um zapzap de solidariedade para a coitadinha da secretária demitida.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

CARTAS E FALAS LUSAS

Sou trineto de avós lusos, de Trás-os-Montes, E vez por outra me delicio com o jeitão de raciocinar dos meus parentes de além-mar. Ofereço, pois, algumas notáveis estruturações lógicas dos meus ancestrais que muito amo. Vamos aos finalmentes, para atender leitores desta Gazeta Escrota, magnificamente bem dirigida pelo escritor Luiz Berto, um pernambucano de Palmares pra lá de muito arretado de ótimo.

1. Carta de mãe portuguesa a seu filho no Brasil

Querido filho: Te escrevo estas linhas para que saibas que estou viva. Redijo devagar porque sei que tu não consegues ler rápido. Por aqui, tudo como ontem, embora não reconhecerás a casa quando aqui vieres, porque a gente se mudou. Finalmente enterramos o seu avô. Encontramos o seu cadáver com a mudança. Estava no armário desde aquele dia em que ele ganhou da gente, brincando de esconde-esconde. Hoje, tua irmã Júlia pariu, mas como ainda não sei o sexo, não posso dizer se tu és tio ou tia. Quem não tem mais aparecido por aqui é o tio Venâncio, que morreu totalmente no ano passado. E também o teu primo Jacinto, que sempre acreditou ser mais rápido que um touro e acabou comprovando que não era. Estou preocupada com o nosso cachorro Bob, que insiste em perseguir os carros parados. Teu irmão José fechou o carro com a trava e deixou as chaves dentro: teve que ir lá em casa pegar a chave duplicata para poder tirar todos nós de dentro dele. Esta carta te mando pelo Manolo, que vai amanhã para aí. Será que podes pegá-lo no aeroporto? Não subscrevo o novo endereço no envelope porque desconheço. A última família que morou aqui levou os números para permanecer com o mesmo endereço. Se encontrares a dona Maria, dês um alô da minha parte. Se não a encontrares, não digas nada. Um beijo saudoso, Maria do Monte Dourado. PS: Ia te mandar cem escudos, mas já fechei o envelope.

2. Certa feita, estava eu em Cascais, na casa de uma amiga pernambucana, após um estágio de trinta dias na Universidade do Porto, em julho, enviado pela Universidade de Pernambuco. Por volta do meio dia, desejou retornar à Lisboa. Na bilheteria solicitou: “Quero um bilhete no comboio que partirá doze e trinta para o Cais do Sodré”. A resposta veio educada: “Desculpe-me, mas no comboio d’agora não será possível. Face a greve dos maquinistas, que estão retardando as viagens em duas horas, o comboio das 12:30 está atrasado. Caso o Dr. queira, poderá embarcar no comboio programado para as 10:30 da manhã, que partirá pontualmente às doze e trinta”. E o Campozana fez uma excelente viagem.

3. No funeral da sua tia Tereza de Jesus, acontecido em 14 de fevereiro último, na Aldeia de Modim de Basto, Trás os Montes, Portugal, o Campozana recebe as condolências, em prantos, de uma velhinha nonagenária, típica aldeã, apoiada num cajado, luto fechado: “Sr. Dr. Engenheiro, muito chorosa cá está a morrer quem nunca morreu”.

4. Bilhete desesperado de filho para o pai, residente em Oeiras: “Pai querido, estou encalacrado. Fui trabalhar numa loja de carros usados e fui despedido no primeiro dia, só porque, para cada Uno vendido, eu dava um Prêmio de cortesia!!”.

No mais, viva o congraçamento sempre fraternal de brasileiros e lusitanos, uns e outros eternos admiradores do sempre lembrado outro Fernando, o amado Pessoa de todos nós, que um dia nos ensinou, através do Álvaro de Campos: “Sou técnico mas só tenho técnica dentro da técnica. Fora disso sou louco, com todo direito de sê-lo”.

5. Desabafos de um luso da Cidade Maravilhosa: Por que é que o governador do Rio é Castro e não castrado pelas festinhas que oferece? Votei no Bolsonaro, mas logo notei que o capitão não tem bom motor mental. E de nula criatividade, sem mourões.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

NUMA CERTA MANHÃ DE DOMINGO

Após uma sexta-feira tragicamente prevista, onde assassinaram num madeiro o Homão da Galileia, sob pretexto de ser um subversivo, ele foi sepultado em local cedido por um ricaço de bom coração chamado José, de Arimateia, tornado discípulo. No domingo, três mulheres, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, irmão do assassinado, foram até a sepultura para ungir o corpo. E a história dessas mulheres nunca mais foi esquecida.

Um livro evoca, com uma beleza incomum, as figuras femininas presentes na caminhada terrestre do Homão da Galileia: Flores do Cédron: as mulheres do Evangelho, Helaine Coutinho Sabaddini, Bragança Paulista (SP), Editora Lachâtre, 2018, 224 p. A autora é uma carioca nascida em 1958, brotada num lar espírita. Escritora, médium e conferencista, fundou em 2004, o Grupo de Estudos Espíritas Emmanuel, na cidade de Murié, Minas Gerais, onde atualmente reside. Mãe de quatro filhos e avó de seis netos.

A mulher hebreia, na época do Homão da Galileia, não tinha direito ao culto religioso, sempre ficando atrás dos homens nos templos e sinagogas. E também eram dispensadas do Shemá, a habitual prece judaica. Suas presenças no tempo eram limitadas ao “átrio das mulheres”, sendo considerado indigno ensinar às mulheres a lei mosaica. E mais: nas refeições, era proibido às mulheres orar à mesa, sendo dispensadas da participação das festas em Jerusalém. Além disso, sofriam severas limitações em seus períodos menstruais. Após o parto eram consideradas impuras por um período de 40 dias, se o nascido fosse do sexo masculino, o período sendo dobrado se o rebento fosse do sexo feminino.

Foi o Homão da Galileia quem as redimiu, indo ao encontro delas, muitas delas ainda desconhecidas.

Foram as seguintes as mulheres que exerceram um importante papel na história do cristianismo, ora como protagonista dos principais evangelhos, ora recebendo de Jesus curas, bênçãos ou instruções para outros instantes, sempre discípulas fervorosas, legando grandes ensinamentos para a humanidade:

– Maria (Miriam em galileu), a mãe do Homão.

– As irmãs Marta e Maria, irmãs de Lázaro, que residiam em Betânia.

– Joana de Cuza, esposa de um intendente de Herodes.

– A mulher samaritana que se encontrou com Jesus à beira do poço.

– A célebre Maria de Magdala, tornada apóstola centenas de anos depois.

– Suzana Verônica, a mulher que sofria um fluxo há anos.

– A mulher encurvada, cujo encontro aconteceu pouco antes da crucificação.

– A noiva de Jerusalém ou mulher adúltera, como é mais conhecida.

– Maria Marcos, parenta de Pedro e mão do evangelista Marcos, que oferecia o próprio lar para os cultos cristãos.

– Salomé, mãe de João e Tiago.

– Abigail, noiva de Paulo de Tarso, irmã de Estevão.

– Eunice e Loide, mãe e avó de Timóteo, que ofereceram em Listra todo suporte para a caminhada do ente querido nas linhas redentoras do cristianismo primitivo, junto a Paulo de Tarso.

– Lídia, a purpureante de Tiatira, que muito auxiliou o apóstolo Paulo em sua caminhada missionária.

– Júnia, uma discípula entre os apóstolos.

– Febe, da comunidade e Cencréia, que corajosamente levou uma missiva de Paulo de Tarso aos cristãos de Roma.

– Priscila ou Prisca, esposa de Áquila, companheira do recém-convertido Saul, posteriormente Paulo, nos estudos evangélicos de Dan, distante mais de cinquenta milhas de Palmira, no deserto siro-arábico, depois o reencontrando em Corinto.

– Dorcas ou Tabitha, a costureira de Jope, que se notabilizou na história do cristianismo primitivo, a despeito da própria pobreza, ajudando a muitos necessitados. Extremamente caridosa, costurava túnicas para os pobres e vestidos para as viúvas. Uma dos “setenta discípulos”.

Sobre Maria de Nazaré, a mãe do Homão, o capítulo 5 do livro acima citado foi desenvolvido com extrema beleza, integralmente inspirado nos belíssimos textos do teólogo e novelista, poeta e literato russo Dmitry Serguéievich Merezhkovski, autor do livro Jesus desconhecido (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1935).

O leitura do livro da Helaine Coutinho é uma verdadeira agenda para uma reformulação interior do sexo feminino contemporâneo, proporcionando releituras e reavaliações de caminhadas, ensejando novos passos futuros na direção de uma Ética Comportamental vocacionada para a Luz Infinita. Com as mulheres cada vez mais empoderadas