FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

EM PLENO SIGILO

Nas varas especializadas de família, no mundo inteiro e sem distinção, os processos correm em segredo de Justiça, muito embora alguns casos singulares, por não possibilitarem constrangimento de espécie alguma, sejam passíveis de ampla divulgação, servindo de incentivo para iniciativas corretórias que eliminam acanhamentos e complexos os mais diferenciados possíveis.

No mundão lusófono, por exemplo, como nas demais localidades, acontece cada coisa que até o Homão tem dúvida. Há poucos meses, amigo fraterno de Oeiras, uma das mais hospitaleiras cidades portuguesas, me enviou cópia de uma petição, fato acontecido em plena África de língua camoniana, com um não menos interessante despacho de magistrado, sempre reconhecido pela sensatez de suas análises decisórias.

A petição tem o seguinte teor, resguardada a identidade da sede da comarca e também do país:

Sicranópolis, 5 de março de 2019.
Ao Senhor Juiz da Vara e Família.
Assunto: Solicitação para mudança de nome.
Eu, Maria José Pao, casada, do lar, gostaria de saber da possibilidade de se bulir no sobrenome Pao de meu nome, já que a presença do Pao tem me deixado embaraçada em várias situações. Desde já antecipo agradecimento e peço deferimento.

Maria José Pao.

Em resposta, o douto magistrado lhe remeteu a seguinte correspondência:

Cara Senhora Pao:
Sobre sua solicitação de remoção do Pao, gostaríamos de lhe informar que a nova legislação permite a retirada do seu Pao, mas o processo é deveras complicado. Se o Pao tiver sido adquirido após o casamento, a retirada é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pao do marido se não quiser. Se, entretanto, o Pao for do seu genitor, o caso se torna ainda mais difícil de solução imediata, pois o Pao a que nos referimos é de família e vem sendo usado por várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a retirada do Pao a tornaria diferente do resto da família. Não seria agradável cumprimentar todos com Pao, menos a sua pessoa. Por outro lado, cortar o Pao de seu pai deverá magoá-lo de modo irreversível, deixando-o decididamente infeliz. Outro problema, porém, está no fato de seu nome completo vir a conter apenas dois nomes próprios, ficando esquisito caso não haja nada para colocar no lugar do Pao. Isso sem falar que as demais pessoas estranharão muito ao saberem que a senhora não possui mais o Pao do seu marido. Uma opção bastante viável seria a troca da ordem dos nomes. Se a senhora colocar o Pao na frente da Maria e atrás do José, o Pao pode restar mais escondido, porque a senhora poderia assinar o seu nome como Maria P. José. Nossa opinião é a de que o preconceito contra este sobrenome já acabou há muito tempo e que, já que a senhora usou o Pao do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais. Eu mesmo possuo Pao, sempre usei e muito poucas vezes o Pao me causou embaraços.

Atenciosamente,
Desembargador Joaquim Manoel Pao, Vara de Família do Tribunal de Justiça.

Lembro-me, ainda em meados da primeira década deste século, de um outro processo julgado na mesma Vara de Família daquelas bandas. Um profissional recém diplomado em nível superior tinha peticionado solicitando alteração do seu nome de batismo, Sebastilhão Bunda Verde. Deferido o pedido, a autoridade judicial convocou o signatário para uma audiência final decisória, quando lhe foi perguntado sobre o novo nome desejado. Como resposta, sem causar espalhafato na sala de audiências, o inquirido, jovem apessoado, de terno engomado e gravata de nó muito bem construído, declarou gostar de se assinar Sebastilhão Bunda Negra, posto que ele se sentia integrado ao reino animal, jamais se imaginando pertencer ao reino vegetal…

O Mário Souto Maior, pai do meu dileto amigo-irmão Jan Souto Maior, um arretado em computadores e outros sistemas tecnológicos, certamente lá da eternidade já fez as suas devidas anotações, ele que muito se notabilizou pelas suas pesquisas em busca de nomes próprios pouco comuns.

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FÁBULA A LA FONTAINE

Num dia lindo e ensolarado de verão tropical, o coelho saiu de sua toca, com o seu notebook muito pimpão, adquirido nas vielas da economia nunca formal, e põe-se a trabalhar, todo concentrado, orelhas atentas, sempre prestando muita atenção às notas manuscritas de um caderninho cheirando a cenoura. Instantes depois passou por ali uma raposa que, observando aquele suculento coelhinho tão distraído, salivou a mais não poder.

No entanto, intrigada com a atividade intelectual do coelho, dele se aproximou muito curiosa:

– Coelhinho, o que você está fazendo aí, tão concentrado, diante dessa maquininha eletrônica? – Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho, sem tirar os olhos do seu trabalho. A raposa insistiu:

– E qual é o tema da sua tese? O coelho respondeu que era uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas, desde as mais remotas épocas.

A raposa arretou-se por inteiro:

– Ora!!! Isso é ridículo, coelho bobão!!! Nós, canídeos, é que somos os predadores dos coelhos! – Absolutamente, disse o coelhinho. Se desejar mais provas, venha comigo à minha toca que eu lhe mostrarei o resultado da minha experiência.

O coelho e a raposa entram na toca. Instantes depois são ouvidos ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois um gigantesco silêncio. Logo após a gritaria, o coelho retorna ao seu computador, sozinho, riso todo maroto, continuando a redação de sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa por ali um lobo dos grandões. Ao ver o apetitoso animal todo datilógrafo, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. Mesmo assim, o lobo também acha muito estranho um coelho trabalhando naquela concentração toda, sem atenção alguma para com o seu derredor. Resolve então saber do que se trata aquilo tudo, antes de abocanhar o animalzinho:

– Olá, jovem coelhinho! O que o está fazendo trabalhar com tanta atenção?

– Trata-se de uma tese de doutoramento por mim desenvolvida, seu lobo. É uma teoria

que venho investigando há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se conteve com a petulância do coelho:

– Meu caro apetitoso coelhinho! Isto é um tremendo despautério! Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa… Vamos ao que me interessa.

– Desculpe-me, seu lobo, retorquiu o coelhinho doutorando, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de me acompanhar até à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. E com a sua futura vítima, desapareceu toca adentro. Alguns instantes depois ouvem-se uns uivos desesperados, ruídos de mastigação e… silêncio cemiterial. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, com toda tranquilidade voltando ao trabalho redacional da sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensanguentados e pelancas de diversas ex-raposas. Ao lado dela, outra pilha ainda maior, de ossos e restos mortais daquilo que um dia foi um bocado de lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado, palitando os dentes, gordo que nem um paxá.

Moral da fábula, em cinco pontos nada cardeais: 1. Não importa quão absurdo seja o tema de sua tese; 2. Não importa se você não possui mínimos fundamentos científicos; 3. Pouco importa se os seus experimentos nunca lograram provar sua teoria; 4. Não importa nem mesmo se suas ideias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos; 5. O que importa é quem está apoiando financeiramente a sua tese.

Uma fábula de muita valia para aqueles que estão indignados com o não esclarecimento de assassinatos vários, inflações descabidas, castigos impostos somente aos abestados e liberdade plena dos bandidões de colarinho branco que ainda se encontram sem um padre-nosso de penitência. Para não falar nos empresários traficantes de drogas, que se locupletam das ingenuidades e sonhos dos portadores de pouca criticidade, dotados de múltiplas ambições descabidas.

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AMIZADES DO JOÃO

Num almoço cabidelístico, sem máscaras, caprichado, no alpendre do João Silvino da Conceição, repleto de louras suadíssimas e muita risadagem, consequência de anedotas para maiores de sessenta anos, uma mocinha da redondeza, chegada a um pescoço de galinha de capoeira, embora distanciada da filha da patroa do anfitrião por questões existenciais – só gosta de trabalhar deitada e de pernões sempre para cima – indagou ao dono da casa se ele possuía amizades de gente grande.

O Silvino, percebendo que o interesse era mais comercial que investigatório, não se fez de rogado e se pronunciou alto e bom som: – Menininha, a amizade é a coisa mais importante que a gente pode ter, depois da Fé no Homem, aquele pregador muito arretado de ótimo, que de Nazaré se fez Senhor, a partir da flagelação e morte no madeiro.

Recebendo entusiásticos aplausos dos da comunidade ali presente, o João resolveu eleger um dos amigos como protótipo de fina flor, explicitando seu pensar, ao invés de enumerar sua trajetória histórica. E mandou ver:

– Gente amiga, dentre os meus amigos de fora do Recife, escolher um daqui daria um fuzuê dos infernos. Gostaria de colocar no pódio o notável Edgar Morin, um centenário arretado de ótimo, pensante francês na ativa, um gota serena, que outro dia foi homenageado, no Brasil, com o livro EDGAR MORIN, HOMEM DE MUITOS SÉCULOS: UM OLHAR LATINO-AMERICANO, Elimar Pinheiro do Nascimento, Maurício Amazonas e AlfredoPena-Veja (orgs), São Paulo, Edições SESC, 2021, 360 p. E o que parecia ser um sarapatel daqueles, os mini-ensaios provocaram uma baita binoculidade existencial, de fazer gosto aos mais desassistidos intelectualmente que nem eu, que sou muito peba, se comparado com o notável Zé Paulinho Cavalcanti Filho, por exemplo, aquele talento pernambucano ouro de lei, que se faz sempre presente nos meios mais cultos da capital pernambucana, atualmente debaixo de muita chuva, assustando os irmãos dos córregos, morros e alagados.

Os textos sobre Morin revelam o seu pensar sempre lúcido, a favorecer um novo humanismo para um mundo pós pandemia, onde todos possam ter vida e vida em abundância, desapetrechando-se em definitivo dos paradigmas superados dos ontens que não mais retornarão, salvo sob viéses mais condizentes com as exigências de um contexto planetário mais fraterno e distributivista. E disse mais o Morin: “Um dos principais fatores de estresse hoje é o paradoxo entre o ritmo alucinado das comunicações, que nos trazem fatos e mensagens em tempo real, e as limitações de nossa mente e de nosso corpo.”

Entendamos, como Edgar Morin, que a ciência é filha da verdade e não da autoridade. E que pelo fato de não entender isso pelos caminhos de um efetivo diálogo, inúmeros assassinam milhões, rejeitando um monte de estudos comprobtórios. E Morin ainda faz um alerta bastante necessário para os que continuam lendo pouco: “Deve-se ter cuidado para não querer transformar nossas mais recentes descobertas em monumentos petrificados.”

Dona Conceição, mulher do Silvino, sete arrobas bem distribuídas e com ainda muito reduzida elasticidade mamária, setentona experiente, mente livre e sempre solta, nenhuma flacidez abdominal, muitos quilômetros bem dados, serenidade lindona, sem as louracidades artificiais que só raciocinam rabolatricamente, resolveu encerrar o falatório do João Silvino, declarando que tinha muita Fé e que sua Fé tinha dados bons frutos, cada um deles fundo, forte, farto e fértil, arrancando ânimos gerais, ampliados pela chegada de mais uma rodada cabidelística, desta vez acrescentada de uma farofa de deixar caveira babando de inveja.

Sentado na ponta da mesa com a Sissa, agradeci ao Chefe conhecer a turma do João Silvino da Conceição. Família sem lero-lero, nem fuxicaria, cada um sabendo seu samba de cor, a esperança toda calibrada num Brasil que chegará lá, apesar dos chupa-cabras adesistas que se fingem de alavancadores de primeira hora, quando não passam de oportunistas disfarçados de salvadores de um Estado que necessita urgentemente abandonar sua condição de país sempre do futuro. Bem muito antes de, sem soberania alguma, se findar no brejo, onde tudo vai dar mel…

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NO SACO DOS ABESTADOS

Confesso que, tempos atrás, quase me desprogramei, como diz a mulher do João Silvino, ao ler as primeiras cem páginas do livro do Michel Moore, um norteamericano recém premiado em Cannes, em São Paulo e, recentemente, com um Oscar cinematográfico. Intitulado Uma Nação de Idiotas, sua crítica demolidora é prova maior de sua afeição para com os EEUU, hoje mergulhado num mundo idiótico de causar muito estrago futuro na civilização planetária.

Tudo começou em 14 de junho de 2001, quando o badboy W. Bush, em conversa com o primeiro-ministro da Suécia, Goran Perrson, sem ter bebido coisa alguma, declarou, sem perceber a câmera de TV que gravava: “É incrível que eu tenha vencido. Concorria contra a paz, prosperidade e boa administração”.

Bonachão, de andar bamboleante em função dos joelhos voltados para dentro, o Michel Moore é um declarado praticante da desobediência civil, voltado para o combate sistemático ao desemprego e ao armamentismo. Ultimamente, desde a fala assustadoramente franca do W. Bush, ele vem desenvolvendo múltiplos esforços, sem qualquer intenção socializante, no sentido de destronar uma gangue que se apossou dos Estados Unidos, por omissão de milhões de eleitores que, alienada ou idioticamente, não exerceu conscientemente seu direito de votar ou votou apenas porque pouco importava a presença de qualquer um na Casa Branca, como se Democracia devesse ser exercida como se faz na casa de Mãe Joana.

Jornais brasileiros não pouparam elogios ao livro: “Seu discurso é um ato de coragem e dignidade” … “Uma crítica dermolidora” … “Sátira cândida, com fatos de estarrecer”. Mas o que mais surpreende nas análises feitas é a credibilidade depositada nas denúncias formuladas pelo Moore, todas elas dando nomes aos bois, sem tirar nem pôr. Por exemplo: “Este Virus Branco Boçal é tão potente que infectou até mesmo impostores como Colin Powell, o secretário do Interior Gale Norton e a conselheira de Segurança Nacional Condoleeza Rice”.

O livro ainda traz, para quem resguarda independência analítica, lições que devem ser apreendidas pelos responsáveis dos destinos brasileiros. O Moore cita por exemplo a Seção 1 da 14a. Emenda: “Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à jurisdição dele, são cidadãos dos Estados Unidos e do Estado no qual residem. Nenhum Estado pode fazer ou executar qualquer lei que reduza os privilégios ou imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos, etc.” Com base nela, também denuncia: “Cerca de 20% dos negros jovens, com idade entre 16 e 24 anos, não estão nem estudando nem trabalhando” … “Nenhum afro-americano é proprietário de uma empresa de armas” … “Homens negros com idade entre 15 e 24 anos têm seis vezes mais probabilidades de morrer por tiro que homens brancos de mesma faixa etária”. “Em quase 10% das escolas públicas dos Estados Unidos, o número de inscrições é 25% maior que a capacidade das instalações”.

Uma outra lição ainda pode ser extraída dos posicionamentos do Michel Moore: o seu destemor é em prol de uma revitalização ética da nação americana, hoje entregue em mãos dirigentes nada rooseveltianos, de frágeis binoculizações estratégicas

Considero o Brasil um país muito arretado, apesar de todos os seus problemas. Desejaria ver, sinceramente, a sua gente bem mais atilada, a sua classe média bem mais atenta aos destinos nacionais e a sua elite mais distanciada dos modismos e babaquices dos cinismos comunicacionais televisivos da nação americana, sempre atenta às provocações multiculturais que buscam inserir o Brasil em contextos de altos níveis de servilismo. Um servilismo altamente virótico, que contamina até os que nada possuem, salvo muito arroto e deslumbramento. Um oportuno levantamento não seria aquele que pudesse dimensionar a nossa população de idiotas brancos boçais? Sempre de carinhas de anjo, tal e qual aquela novela para abobados mentais.

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ENCARANDO A SOLIDÃO

Encontro-me, ainda de máscara, com o Fredinho Lucas, hoje engenheiro tarimbado, colega do ginasial do Marista, da Av. Conde Boa Vista do Recife, eu já no científico, ele atleta de volibol, campeão dos Jogos Estudantis Pernambucanos, de épocas áureas. Recentemente divorciado, morando com uma irmã, confessou-me ser a solidão um dos seus principais problemas atuais, ele às vésperas de uma aposentadoria medianamente confortável, filhos criados, pais desencarnados, avô de dois netos, ele atualmente envolvido numa baita desacreditação de tudo, fruto de um nível de felicidade advindo de uma baixa densidade conjugal, consequência primeira de muito trabalho tecnológico e quase nulas horas de leituras humanísticas.

De pronto, recomendei ao Fredinho a leitura de um livro recentemente editado, voltado para seres humanos carentes. Balizamentos existenciais para enfrentar uma atual pandemia planetária, onde a prática criminosa parece estar fortalecida por impunidades mil, sempre a coibir a ação de uma Justiça efetivamente forte: O Dilema do Porco Espinho: como encarar a solidão, Leandro Karnal, São Paulo, Planeta, 2018, 192 p. Páginas recomendáveis, que reforçaram fundamentos existenciais, ampliando minha condição de ser humano pensante, sempe assimilando novas lições da Doutrina Espírita, após leituras orientadoras dos mais capacitados na vivência teórica e prática dos ensinamentos do Codificador Allan Kardec e outros notáveis.

Na Introdução do livro, Karnal o inicia com uma definição do filósofo Arthur Schopenhauer: “somos uma espécie de porco-espinho. O frio da solidão nos castiga. Para buscar o calor do corpo alheio, ficamos próximos dos outros, provocando espinhos que nos perfuram e causam dor (e os nossos a eles). O incômodo nos afasta. Ficamos isolados novamente. O frio aumenta, e tentamos voltar ao convívio com o mesmo resultado.”

O problema da solidão é tão grave, que o governo inglês instituiu o Ministério da Solidão, homenageando uma deputada inglesa violentamente assassinada. O nome da Comissão em inglês é Jo Cox Commission on Loneliness (Comissão sobre solidão Jo Cox), e surgiu diante dos alarmantes milhões de britânicos que reclamam de frequente ou total solidão. Um estado de solidão que vitima principalmente as pessoas idosas, súditos com problemas de mobilidade os maiores atingidos pela Covid-19 assassina. Favorecendo uma questão de natureza planetária: o que estaria acontecendo no mundo para que o combate à solidão virasse uma política de Estado?

Karnal ressalta, no seu livro, que solidão é completamente distinta do simples fato de se estar sem alguém por perto, do mesmo modo que estar acompanhado não significa eliminar as manifestações solitárias. Segundo ele, num trágico verão recente, mais de 11 mil pessoas morreram na França, a maioria delas tendo idade superior a 75 anos, o isolamento tendo sido a causa principal de tão impressionante obituário. A solidão sendo o vestíbulo da perda da razão, ou “um amplo salão vazio, na qual a insanidade baila.”

Aristóteles, segundo ainda Karnal, garantia que a solidão criava deuses e bestas, querendo dizer que muitos males da criação humana advém do isolamento interno ou externo, a nossa selvageria sendo originária de perversos momentos isolacionistas.

Em nosso primeiro papo, concordamos que, em reuniões técnicas ou sociais, a palavra crise é ouvida um monte de vezes. Crise de identidade do ser humano contemporâneo, crise de familiaridade com o mundo pós-moderno e crise de segurança diante dos contextos tornados patológicos pela Internet, por ela também mundializados. Parecendo crer que tudo vacila: o equilíbrio do todo, antes aparentemente estável, torna-se continuadamente instável; os meios de comunicação favorecendo a elevação geométrica das reivindicações sociais; e o mundo virtual se ampliando enquanto há redução da mão-de-obra assalariada planetária, onde uma globalização excessivamente copiativa favorece uma descriatividade gigante que resvala para a solidão, quando não devidamente combatida por uma originalidade sem nostalgias.

No papo, ficamos convencidos de que alguns parâmetros germinais muito favoreceriam contínuas reestruturações pessoais, evitando um viver morrendo destemperado e altamente virótico. E alguns deles foram depois pelo e-mail elencados, considerados de alta significância:

– O bem-querer terá prevalência sobre todas as lógicas destrutivas.

– Os méritos devem ser sempre coletivos e jamais fingidos, nunca individualizados.

– As amizades conquistadas são o maior patrimônio de todo ser humano em sua contínua mutação evolutiva.

– Esmagar potencialidades é crime de lesa-convivialidade.

– Jamais abandonar um aprender-desaprender-reaprender que ressalta as diferenças entre permanência e mutação.

– Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja.

– Entender que mente saudável, além de saber fazer, faz também acontecer.

– Saudades bem sentidas, nostalgias contidas.

– Umbrais ultrapassados, sonhos recuperados.

– Jamais atirar pérolas aos porcos.

– Sempre distinguir postura orgulhosa e arrogante de dignidade cautelosa.

– Nasce-se com inteligência, jamais com o manual de instrução da sua utilização.

E novos bate-papos foram por nós estabelecidos, sempre regados a guaranás e biscoitos, o livro do Karnal gradativamente bem relido e meditado. Para bem compreender os bons momentos dos instantes de solidão.

PS1. Agradeço ao Pai do Céu a permanência ao meu lado da companheira Sissa, sempre me livrando das tentações mentais do atual mundo pandêmico, dedicação nota 10.

PS2. Leandro Karnal, nota 10: “O espaço de ouro do ressentido é o mundo agressivo das redes, quando a covardia pode vir do anonimato.” (FSP, 8-5-2022, p. C8)

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

PAIS E MÃES, VISÃO DE BAILARINO

Preliminarmente, antes de qualquer consideração, minha integral solidariedade às mães do mundo inteiro, aqui representada na maior de todas as mães, a Mãe do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador. Que a Justiça cumpra o seu papel para com os agressores da maternidade responsável. E que as ingenuidades emocionais sejam contidas, os esforços concentrados na direção de lições fecundantes e posturas sementeiras.

Gostaria muitíssimo de ver pais, mães e responsáveis atentando para uma urgente necessidade: a de serem portadores de uma visão de bailarino na educação dos seus filhos, sobrinhos, enteados e netos, mormente nos tempos pós pandemia, que muito reestruturarão ideários mais favoráveis para a emersão de um Iluminismo Redentor.

Um bom bailarino possui três características intercomplementares: ele conhece os seus movimentos, percebe o movimento dos que estão ao seu derredor e está afinado com o mundial andar da carruagem, como alguns gostam de dizer.

Sempre com um olhar concentrado num ponto adiante, pais, mães e responsáveis não devem desprender suas atenções daqueles que com seus filhos estão convivendo ou compartilhando atos e fatos, sejam eles da mesma igreja, do mesmo clube ou da mesma condição social. Possuidores de bicicletas ou de sobrenomes cheios de yy e ww, cabelos tratados, brincos e tatuagens e outras catrevages.

Costuma-se dividir pais, mães e demais responsáveis em cinco grandes categorias: o inocente, aquele que desconhece seu papel, imaginando que mesada e colégio resolvem tudo; o acomodado, que espera passivamente que tudo se resolva, o que tiver que acontecer, acontecerá; a vítima, que se queixa que a polícia deveria estar em todos os lugares, sempre se lamentando da rebeldia e independência dos jovens, como se eles apenas contribuíssem para os bons feitos dos rebentos; o chato, portador de uma idiotia nunca erradicada pelos seus extratos bancários e possantes ativos, que vive tratando os filhos de forma errada, como se eles fossem a excrescência do mundo, os piores da espécie ou os maiores gênios que a humanidade já revelou, capazes de dirigir carro aos 12 anos, beber pinga sem fazer careta e comer as menininhas dos derredores; e o consciente, que se encontra permanentemente comprometido com os direitos dele, dos seus e dos outros, sabendo cobrar bem, com responsabilidade, possuindo visão de bailarino, supervisionando sem bisbilhotices nem fobias, tampouco empetelhamentos cavilosos.

É sempre bom lembrar que toda ordem social é criada por todos nós. O agir ou não-agir de cada um contribui para a formação e consolidação da ordem em que vivemos. Em outras palavras, o caos que estamos atravessando no mundo atual não surgiu espontaneamente do vácuo.

Na China, 400 a.C., um sábio chamado Sun Tzu, tencionando transmitir sua experiência aos pósteros, escreveu um livro chamado A Arte da Guerra, atualmente novamente discutido e analisado por estrategistas do desenvolvimento social. A essência dos conselhos de Sun Tzu, adaptada para pais e mães, pode ser explicitada em curtos princípios: aprenda a lutar (a perda do controle emocional é grande desvantagem e arma poderosa na mão dos afoitos); mostre o caminho (sem fantasias megalomaníacas); aja corretamente (cuidado com as vantagens ilusórias): conheça os fatos (perceba que informações consistentes são a base da credibilidade); esteja preparado para o pior (nunca suponha que jamais haverá problemas); não complique (facilite as coisas sempre que puder, posto que métodos fáceis são eficazes e baratos); não recue (trate bem os dependentes, capacitando-os efetivamente, sem fingimento de espécie alguma, dizendo não e também sim); atue sempre melhor (melhorias representam significativas diferenças positivas); atue em equipe (onde as pessoas se sintam mais confortáveis, com as emoções mais sadias e as mentes mais capacitadas).

No mais, é continuar a acreditar no Deus que é capaz de fazer os mortos viverem e chamar à existência as coisas que não são (Rm 4,17).

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RACIONALIDADE CIENTÍFICA E NEGATIVISMO PERVERSO

Carta recebida do João Silvino.

Amigo querido: Encarecendo desculpas de monte por não lhe ter enviado umas linhas nos últimos tempos, acredito que a razão a seguir exposta me absolverá de bate-pronto. Estou garimpando muito, para compreender os porquês de muitas coisas acontecidas neste Brasil de meu Deus, que necessita tornar-se ainda mais respeitado lá fora, pelas inequívocas posturas cidadanizadoras da sua gente, apesar de todos os pesares e conchamblanças de quem andou bandidamente xeretando os telefones dos outros, cuspindo até no prato da dona da linha que comeu.

Confesso-lhe que não entendi muito bem as preocupações de grandões com o ritmo de queda do dólar americano, parecendo até que um salário-mínimo equivalente a cem dólares faz um mal danado para os lascados daqui. Como não sou economista, fico de botica nas explicações dadas pelos sabidos da vez, torcendo para que eles não desdigam o que disseram tempos atrás, quando eram apenas bodoques, ainda não vidraças.

Visitando alguns amigos, em São Paulo, num sebo deparei-me com uma publicação primorosa intitulada Patriotas e Traidores. Imaginei maldosamente que se tratava de algum manifesto da inteligente candidato a alguma coisa, sem tornozoleiras eletrônicas, nas próximas eleições do corrente 2022. O livro, no entanto, era de Mark Twain e tem como subtítulo Antiimperialismo, Política e Crítica Social.

Inicialmente, Twain era um defensor ardoroso das anexações territoriais empreendidas pelos Estados Unidos, posteriormente tornando-se um crítico fervoroso das rapinagens norte-americanas. Um texto bem editado pela Editora Fundação Perseu Abramo e que contém uma introdução – Mark Twain: uma redescoberta oportuna – de Maria Sílvia Betti, professora de literatura norte-americana da USP. Um texto para ser lido por todos os progressistas, inclusive aqueles que estão se postando de mentirinha para engabelar os trouxas nos pleitos que virão por aí.

Não permanecendo totalmente sério, narro-lhe um fato acontecido recentemente lá pelas bandas do sertão nordestino que quase me fez fazer xixi nas calças, contado o “causo” por gente muito verdadeira. Em uma audiência judiciária, cuja razão era sedução de uma menor, o juiz depara-se com a vítima acompanhada do vice-prefeito, seu padrinho de mesmo. Indagando se o vice também tinha sido arrolado, o meretíssimo ouviu dos lábios da face rubicunda da autoridade municipal: “De jeito maneira, excelência!! Só quem foi arrolada foi a mocinha aqui, minha afilhada!!”

Envio-lhe também um livrinho muito elucidativo, que já ia na terceira edição em 2001. Seu nome é Desafio Ético e foi escrito a cinco mãos de muito respeito: Luís Fernando Veríssimo, Frei Betto, Luiz Eduardo Soares, Jurandir Freire e Cristovam Buarque. Vale a pena ler e reler os textos, principalmente o de Betto e o de Buarque. O primeiro denunciando o descaso com o SUS, posto que, anualmente, oito bilhões de dólares correm para os planos privados de saúde. E que muitos políticos, que deveriam ser homens públicos, estão ostensivamente ligados às empresas privadas. O segundo afirmando que estamos entrando em um tempo de artistas e pensadores, depois de décadas de predomínio dos economistas. Buarque diz que se torna necessário romper alguns círculos: o ideológico, o acadêmico, o da linguagem, o social e o nacional, reduzindo-se o provincianismo e o economicismo. E é categórico: “Dois setores mostravam especialmente esta contradição: os economistas e a universidade. … Por isso, pode-se dizer que os economistas e os acadêmicos brasileiros são filhos da ditadura, mesmo fazendo-lhe oposição”. Tal e qual o pensamento de alguns milhões de pátrios.

Qualquer dia desses encarecer-lhe-ei uns tempos de conversa, pra gente compreender direito porque estão querendo botar no fiofó dos aposentados, quando os bancos lucram astronomicamente. E como restaurar a dignidade do Congresso Nacional nas próximaseleições, botando na lata do lixo o que não presta e os sectários de todos os naipes.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

GOL DE PLACA DA CEPE

De parabéns o Ricardo Leitão, Diretor Presidente da Companhia Editora de Pernambuco, pela 2ª. edição de um livro que ampliou as saudades de muitos contemporâneos: ALÉM DAS IDEIAS: HISTÓRIAS DE VIDA DE DOM HÉLDER CÂMARA, Félix Filho, Recie PE, CEPE, 2022, 115 p. Uma oportunidade para muitos reverem atitudes e reflexões de um bispo pra lá de arretado, sem firulas nem lero-leros, sempre solidário com os menos favorecidos, um dos influentes articuladores do Concílio Vaticano II, um arcebispo diferentes de tudo quanto até existia por estas bandas latinoamericanas.

O autor conheceu bem de perto o saudoso Dom, posto que ordenado padre por ele em 1984, tendo sido presidente da Rumos – Movimento das Famílias dos Padres Casados do Brasil.

O autor da Apresentação, Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo anglicano, retrata o Dom com uma frase definitiva: “Pequeno de estatura e franzino, e ao mesmo tempo gigante capaz de suscitar ódio implacável de poderosos e de governos reacionários, ditatoriais e às vezes apenas ‘bem pensantes’”. E dá um testemunho que muita gente se faz de esquecida até o momento presente: “Após a aposentadoria, guardou sempre silêncio sobre a Arquidiocese . Mas quando o arcebispo que o substituiu chamou a polícia para expulsar camponeses que o procuravam para audiência em palácio e desmontou a Comissão de Justiça e Paz, menina dos olhos do Dom, e destituiu da Paróquia do Morro da Conceição o padre Reginaldo Veloso, e o suspendeu de ordens, não hesitou em declarar aos jornalistas a expectativa de que vencesse o diálogo e, especificamente, sobre o padre Reginaldo, declarou: ‘O que posso dizer é que é um padre que ama Jesus Cristo, ama a Igreja e ama os pobres.’”

Mas o livro do Félix Filho revela histórias que refletem por excelência da inteligência psíquica e pastoral do Dom Hélder, com quem tive a honra de trabalhar com seu grupo mais próximo por mais de duas décadas, tendo sido inclusive presidente da Comissão Justiça e Paz, a que foi defenestrada pelo seu sucessor. Eis três histórias do livro, a servir de amostra para a leitura integral do notável trabalho do jornalista autor do livro:

1. Certa feita, uma senhora, ao passar defronte de uma sapataria feminina, no Espinheiro, observou o Dom conversando animadamente com as atendentes. Curiosa, resolveu perguntar ao Dom se ele estava comprando sapatos. Resposta elucidativa por derradeiro: – Não, minha filha. Estou só aproveitando o ar-condicionado. Lá em casa está um calor terrível!

2. Num escritório luxuoso, onde esperava uma reunião para tratar de assuntos da Arquidiocese, o Dom foi convidado a sentar-se em poltronas bastante confortáveis. Agradecendo a gentileza, o Dom argumentou: – Para discutir assuntos sérios, devemos sentar em cadeiras duras!

3. Certa feita, no Convento dos Franciscanos de Olinda, um grupo de senhoras organizou uma festa para comemorar o aniversário do Dom. Quitutes de primeira. Logo no início, o Dom chamou uma das organizadoras e pediu que convidasse as crianças que estavam na rua para a festa. E explicou: – A festa não estaria completa sem essas crianças para me ajudarem a apagar as velas e comer o bolo.

Para terminar, uma história acontecida comigo. Quando estava doente terminal, o escritor Renato Campos era acompanhado por inúmeros admiradores, que se revezavam dia e noite, auxiliando-o com papos e muito sorvete, pois, segundo ele, a infecção dos pulmões se aliviava com a massa gelada do sorvete. Certa vígilia, quase meia-noite, Plininho Araújo e eu estávamos de plantão, quando o Renato manifestou desejo de conversar com Dom Hélder. Com a devida permisão de Pompéia, sua dedicada esposa, fui com o meu fusquinha até à rua das Fronteiras, sendo atendido pelo Dom, que imediatamente retornou comigo até à residência do Renato, na rua das Pernambucanas, ficando com ele a sós por mais de duas horas. Ao sair do quarto, declarou serenamente: – Ele está espiritualmente em paz. Poucos dias depois, o Renato partia para a eternidade.

O livro do Félix Filho amplia saudades, e oportunamente relembre uma das suas famosas observações: “Quando dou pão para os pobres, me chamam de santo. Mas quando pergunto por que os pobres têm fome, me chamam de comunista”.

De parabéns a CEPE pela reedição do livro do Félix Filho, relembrando a caminhada de quem foi um arcebispo muito arretado de ótimo de Olinda e Recife.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

DOMINGO DE MEDITAÇÕES E ESPERANÇAS

Neste domingo de Ressurreição 2022, desejando uma Feliz Páscoa para todos os meus irmãos brasileiros, deparo-me com uma questão que ainda inquietando milhões de cristãos nos quatro cantos do mundo: é realmente importante, para uma religião cristã, a tradição segundo a qual Jesus teria ressurgido da morte?

Respondo sem titubear que sim, principalmente quando li, ainda universitário, a Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, quando ele escreveu: ”Se Cristo não ressuscitou é inútil a vossa fé.”

Neste Domingo da Ressurreição, sempre espiritista estudioso e carente, permaneço solidário com a “vida e morte severina” de milhões de irmãos terrestres, vítimas de guerras, pandemias assassinas, fome e desinstruções. E revejo mentalmente a lavada de mãos de Pilatos, uma cena bíblica descrita pelo evangelista Mateus. E nela identifico as pusilanimidades de inúmeros dirigentes públicos, todos eles travestidos de Pilatos, acovardados, acuados, subservientes, jamais críticos por receio das retaliações das personalidades fantasiadas de messias, atualmente mais preocupadas com as táticas e os conluios reeleitoreiros.

Fico a imaginar o interior de Pilatos, naquele momento decisivo, tal e qual os que se estão omitindo diante das mortes proporcionadas pelo Covid-19, pelo desemprego, pela fome e pelas doenças primárias que há muito já deveriam estar fora das preocupações sanitárias. E repugnam-me todos aqueles que, não assumindo a responsabilidade dos seus atos, despojam-se acanalhadamente do direito de exprimir sua criticidade, mais preocupados com seus futuros políticos, pouco se lixando se transfigurados de vacas de presépio, classificados, para todo o sempre, de exemplos maiores de posicionamentos cagônicos.

No mundo contemporâneo ainda pululam inúmeros abjetos Pilatos, irresponsavelmente descomprometidos diante dos problemas que clamam por soluções imediatas e duradouras. Para citar apenas três estatísticas internacionais terrificantes, divulgadas por uma revista de circulação semanal: a) 1 em cada 5 adultos, na Europa e nos Estados Unidos, é atualmente classificado como analfabeto funcional; b) 1/4 do exército suíço não sabe calcular uma percentagem; c) 44% da população canadense nunca escreveram uma carta e 77% dela nunca puseram os pés numa biblioteca pública. Para não mencionar, no Brasil, a tuberculose, o dengue, a lepra e a malária que ainda pontificam em alguns cenários brasileiros. E as secas, enchentes, os desmoramentos e as inúmeras áreas não saneadas, inclusive metropolitanas, irmãos siameses, imbricações perfeitas, fenômenos sanáveis se vontade política séria fosse transformada em ações executadas efetivamente redentoras.

Inúmeros, atualmente, são os seguidores de Pilatos. Quedam-se desvirginados civicamente, lambuzam-se em imediatismos ridículos e grotescos, muitos se comportando incoerentemente com seus passados de altivez e dignidade. Chafurdam nas antessalas das autoridades, gozando freneticamente das desgraças alheias, as lágrimas e os desesperos sendo argumentações desimportantes, mesmo quando o assunto é a melhoria das condições de vida de populações na miséria.

Diante de tanta opressão e de tantas amarguras, inúmeras são as tentações de também pedir uma bacia para lavar as mãos, tornando-se mais um desses embrutecidos, moralmente desfigurados, que escrotamente tentam nos representar em diversos ambientes políticos do país.

Iludem-se, entretanto, os que se utilizam das técnicas de enganação. Embora seja possível enganar todos por pouco tempo, jamais se engabelará todos por todo tempo.

Sobreviver à tempestade é dever dos fortes de espírito. Renascer a cada instante é ter disposição para sempre travar o bom combate, quaisquer que sejam as circunstâncias adversas. Realimentar a pira da esperança é acelerar a derrocada dos reis, barões e príncipes consortes da maldade e dos cinismos antissociais, radicalmente desumanos.

Que entendam as lideranças legítimas nacionais: o desenvolvimento mental jamais poderá prescindir de uma habitação condigna, de educação integral, de uma nutrição adequada, de uma assistência médico-hospitalar mais que satisfatória. A insuficiência disso tudo redunda em prejuízos irreversíveis sobre o desenvolvimento de todos, mormente o infantil. E a insuficiência quantitativa de cérebros capacitados poderá acarretar uma definitiva condenação nossa à perene classificação de nação mentalmente subdesenvolvida. Sem eira nem beira, descendo em plena ladeira, calças nas mãos, cus ao léu.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

BILHETE DO JOÃO SILVINO

Amigo Nando: Encarecendo desculpas de montão por não lhe ter enviado umas linhas nos últimos tempos, acredito que a razão a seguir exposta me absolverá de bate-pronto: estou garimpando muito, para compreender os porquês de muitas coisas acontecidas neste Brasil de meu Deus, que necessita tornar-se ainda mais respeitado lá fora, pelas inequívocas posições cidadanizadoras da sua gente, apesar de todos os pesares e conchamblanças de quem andou bandidamente xeretando os telefones dos outros, negativando estudos vacinais e até buscando se intrometer nas estratégias direcionais da Petrobras, levando por isso um baita pontapé na bunda do general Sila e Luna, numa histórica entrevista concedida à revista Veja edição 2783, de 6 de abril passado. A merecer aplausos dos éticos, independentes de cores partidárias.

Confesso-lhe que não entendi muito bem as preocupações de alguns empresários grandões com o ritmo de queda do dólar americano, parecendo até que um salário mínimo equivalente a uns poucos dólares a mais faz um mal danado para os lascados daqui. Como não sou economista, fico de olho grande nas explicações dadas pelos sabidos da vez, do Paulo Guedes inclusive, torcendo para que eles não desdigam o que disseram tempos atrás, quando eram apenas bodoques, ainda não vidraças.

Visitando alguns amigos, em São Paulo, depois das retiradas das máscaras, deparei-me, num sebo, com uma publicação pra lá de ótima de título Patriotas e Traidores. Imaginei maldosamente que se tratava de algum manifesto da inteligente senadora Simone Tebet ou de algum deputado pensante da oposição, que de bobo nada teria. O livro, no entanto, era de Mark Twain e tem como subtítulo Antiimperialismo, Política e Crítica Social. Inicialmente, Twain era um defensor ardoroso das anexações territoriais empreendidas pelos Estados Unidos, tornando-se depois um crítico fervoroso das rapinagens norte-americanas. Um texto bem editado pela Editora Fundação Perseu Abramo e que contém uma introdução – Mark Twain: uma redescoberta oportuna – de Maria Sílvia Betti, professora de literatura norte-americana da USP. Um texto para ser lido por todos os progressistas, inclusive aqueles que estão se postando de mentirinha para engabelarem os trouxas nos pleitos que virão por aí.

Não permanecendo totalmente sério neste bilhete, narro-lhe um fato acontecido recentemente lá pelas bandas do sertão nordestino que quase me fez fazer xixi nas calças, contado o “causo” por gente muito arretadamente testemunha. Em uma audiência judiciária, cuja razão era sedução de uma menor, o juiz depara-se, na sala de espera, com a vítima acompanhada do vice-prefeito, padrinho de mesmo da seduzida. Indagando se o vice também tinha sido arrolado, o meretíssimo ouviu dos lábios da autoridade municipal: – De jeito maneira, excelência!! Só quem foi arrolada foi a menina aqui, minha afilhada!!

Envio-lhe também um livrinho muito elucidativo, que já estava na terceira edição em 2001. Seu nome é Desafio Ético e foi escrito por cinco mãos de muito respeito: Luís Fernando Veríssimo, Frei Betto, Luiz Eduardo Soares, Jurandir Freire e Cristovam Buarque. Vale a pena ler e reler os textos, principalmente o de Betto e o de Buarque. O primeiro denunciando o descaso com o SUS, posto que, anualmente, oito bilhões de dólares correm para os planos privados de saúde. E que muitos políticos que deveriam ser homens públicos estão prioritariamente ligados às empresas privadas. O segundo afirmando que estamos entrando em um tempo de artistas e pensadores, depois de décadas de predomínio dos economistas. Buarque diz que se torna necessário romper alguns círculos: o ideológico, o acadêmico, o da linguagem, o social e o nacional, reduzindo-se o provincianismo e o economicismo. E é categórico: “Dois setores mostravam especialmente esta contradição: os economistas e a universidade. Por isso, pode-se dizer que os economistas e os acadêmicos brasileiros são filhos da ditadura, mesmo fazendo-lhe oposição”. Tal e qual o pensamento de muitos brasileiros que também sabem bem melhor pensar nos tempos eleitorais de agora.

Qualquer dia futuro lhe encarecerei uns bons tempos de conversa, pra gente compreender melhor porque estão querendo botar no fiofó dos aposentados, quando os bancos lucram astronomicamente bilhões de reais, deixando os pobres com os “colhões à mostra”, como dizia sempre um tio safadoso que eu tinha.