FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

ALERTAS SEMPRE VÁLIDOS

Recomendo sempre aos meus ex-alunos de graduação e pós-graduação que permaneçam antenados com os fatos históricos dos últimos tempos, nacionais e estrangeiros, favorecendo uma criticidade cidadã que os libertará integralmente dos “ismos” ideológicos, econômicos, sociais, militares e religiosos que anestesiam e mascaram comportamentos despropositados, ensejando estupidificações que mentais aviltam a condição humana.

Muitos deles ainda desconhecem, por comodismo cognitivo, os procedimentos primeiros que propiciaram as atrocidades cometidas, no século passado, pelos nazistas que dominaram a nação alemã em 1933 com a vertiginosa ascensão do alucinado Adolf Hitler, habilmente explorando os ontens históricos que humilharam a Alemanha no pós guerra 1914-1918, culminando no incêndio do Reichstag, em 27 de fevereiro de 1933, favorecendo, no dia seguinte, a edição de um decreto que abolia a liberdade de opinião, o segredo epistolar, a inviolabilidade dos domicílios, permitindo detenções sumárias por razões de segurança nacional, milhares de livros sendo queimados em praça pública, a 10 maio do mesmo ano.

Mas o que mais me impressiona nos encontros é o desconhecimento quase completo sobre a construção dos procedimentos criados pela mente doentia de Hitler para o extermínio dos judeus, culminando na criação de guetos, logo após o ataque nazista à Polônia, em 21 de setembro de 1939, cada gueto com seu Judenrat (conselho judaico), responsável pela execução das ordens do Reich. Em abril de 1940, Hitler implementaria a operação T4, eutanásia dos doentes mentais e portadores de deficiências, iniciativas que desaguariam na Shoa, a “solução final”, apenas na Polônia vitimando 3 milhões de hebraicos irmãos nossos.

No III Reich, foi na cidade de Lódz, na Polônia, que se estabeleceu o segundo maior gueto para judeus, transformado em expressivo centro industrial fornecedor de suprimentos essenciais para o regime de então. Dada sua notável produtividade, o Gueto de Lódz foi preservado até agosto de 1944, quando sua população foi transferida para Auschwitz.

Recentemente, o livro Os Destituídos de Lódz, da Companhia Das Letras, 2012, uma mescla de romance social e análise do Holocausto, narra a história daquela cidade transformada em gueto e administrada por Mordechai Chaim Rumkowski, “figura que, ainda hoje, mas de meio século depois da sua extinção definitiva, permanece um enigma”. O autor do livro, Steve Sem-Sanderg, a partir de uma documentação exaustiva, analisa a administração de Rumkowski, até hoje motivo de calorosos debates entre os historiadores da Shoah: um colaborador dos nazistas ou alguém que, com astúcia, prolongou a sobrevivência de seu povo?

Através de uma leitura imperdível, toma-se contato com personagens inesquecíveis, muitos deles sepultados como “auto-homicidas”, por não mais suportarem situações de ódio e violência. Abandonando inclusive a advertência contida no Eclesiastes 9,10: “O que suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”.

Mordechai Chaim Rumkowski (1877-1944), figura chave do romance Os Destituídos de Lódz, era um judeu polonês que foi nomeado presidente do gueto de Lódz, tendo sido empresário e diretor de um orfanato antes da ocupação nazista. Pesquisa feita por Isaías Tronco, nos Conselhos judeus sob ocupação nazista, revisa a visão que muitos possuem de Rumkowski como traidor. Arnold Mostowicz, que viveu no gueto de Lódz, justifica as estratégias adotadas por Rumkowski em suas memórias, dizendo que ele, prolongando a existência do gueto de Lódz por dois anos, possibilitou que mais pessoas sobrevivessem. E conclui: “Este é um ajuste de contas horrível, mas dá a Rumkowski uma vitória póstuma”.

Segundo testemunhos sobrevivenciais, Mordechai é descrito sob prismas radicalmente diferentes. Por uns, como agressivo, dominador, sedento por honra e poder, barulhento, vulgar e ignorante, impaciente, intolerante, impulsivo e sensual. Por outros, ele é retratado como um homem de talento organizacional excepcional, rápido, muito enérgico, e verdadeiro para tarefas que ele estabeleceu para si mesmo. Alguns ainda se lembram dele por seus discursos de assombração.

Rumkowski e sua família juntaram-se voluntariamente ao último transporte para Auschwitz, sendo assassinados a 28 agosto de 1944. Um amigo da família, em 1944 adolescente residente no gueto de Lódz, aventou a possibilidade de ter sido ele e seus familiares assassinados pelos demais prisioneiros judeus.

O livro é envolvente, esclarecedor e historicamente bem estruturado. Uma leitura que nos previne contra as barbaridades acanalhadas de todos os “ismos”, religiosos e laicos, algumas bem recentes. Páginas lidas embasadas no pensar do escritor norte-americano Philip K. Dick (1929-1982): “Estamos em uma caverna, como Platão pensava, e estão nos mostrando um filme funky que não acaba nunca.”

Saibamos racionalmente como sair das nossas cavernas mentais e sociais.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

VELA NO ESCURO

Alguns estudiosos do Primeiro Mundo demonstram uma crescente preocupação com os espertíssimos embromadores que estão vitimando uma imensa maioria populacional, nos diferenciados níveis de escolaridade. Os fundamentalismos religiosos se expandem através dos modernos meios de comunicação, enquanto alguns sabidos ganham fortunas com anjos, ETs, tarôs, cristais, satanismos, continentes perdidos, OVNIs, horóscopos, aparições, cristais, baralhos, fitinhas e penduricalhos que dão sorte, acuando, para terrenos movediços os salutares valores da racionalidade, de decrescente notoriedade entre incautos e abobados.

As novas crendices e superstições estão substituindo, nos centros urbanos metropolitanos brasileiros, as mulas sem cabeça, as pernas cabeludas, a comadre Fulozinha, o boi da cara preta e os demais engana-bestas que povoavam a imaginação dos jecas em passados não muito distantes.

Num livro não muito recente, O Mundo Assombrado pelos Demônios, magistralmente escrito para todos, o notável pensante Carl Sagan divulga dados percentuais assustadores: 95% dos americanos são “cientificamente analfabetos”, prevalecendo, nas terras do Tio Sam, uma lei similar à de Gresham, segundo a qual “a ciência ruim expulsa a boa”. Ele alerta com muita acuidade: “As consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior”. E acrescenta sem disfarce: “Dos 535 membros do Congresso dos Estados Unidos, raramente 1% chegou a ter alguma formação científica significativa no século XX”.

No seu livro, Carl Sagan revela que, recentemente, a diretoria de uma grande companhia de produtos eletrônicos inquietou-se com o seu derredor social, ao constatar que 80% dos inscritos numa seleção não conseguiram aprovação num teste de matemática elementar. Ele denuncia: os colegiais norte-americanos não estão estudando o suficiente, apesar do desempenho extraordinário de uma reduzida minoria. Enquanto o ano escolar dos Estados Unidos tem 180 dias letivos, a Coreia do Sul tem 220 dias, a Alemanha tem 230 e o Japão lidera com 243 dias.

Com dados recentes, Sagan faz comparações: enquanto o aluno norte-americano médio, de escola secundária, utiliza 3,5 horas por semana nos deveres de casa, o aluno japonês da quinta série estuda, em média, 33 horas semanais. E aponta a consequência: com metade da população dos Estados Unidos, o Japão forma anualmente duas vezes mais cientistas e engenheiros com diplomas de nível superior!

Um presidente norte-americano, George Washington, já dizia em 1790: “Nada é mais digno de nosso patrocínio que o fomento da ciência e da literatura. O conhecimento é, em todo e qualquer país, a base mais segura da felicidade pública”.

Carl Edward Sagan (1934-1996) foi um cientista planetário, astrônomo, astrobiólogo, astrofísico, escritor, divulgador científico e ativista norte-americano. Sagan foi autor de mais de 600 publicações científicas, bem como mais de vinte livros de ciência e ficção científica.

Uma questão me preocupa: quantos alunos brasileiros do ensino superior conhecem os livros escritos por Carl Sagan? Ou já conhecem os princípios básicos da IA – Inteligência Artificial? Ou estão apenas querendo saber quantos filhos Neymar já pôs do mundo?

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

UM GUIA SAPIENCIAL

Na China, ao redor dos anos 400 a.C., um general chamado Sun Tzu, tencionando transmitir sua experiência bélica aos pósteros, escreveu um livro chamado A Arte da Guerra, atualmente muito discutido e analisado por estrategistas especializados em desenvolvimento profissional, mais especificamente em desenvolvimento gerencial. A essência dos conselhos de Sun Tzu pode ser captada em dez curtos princípios:

Aprenda a lutar. A competição é inevitável, acontecendo em todos os aspectos da vida; nunca poderemos aprender totalmente sobre como competir; cuidado com o concorrer por concorrer; usar a competição somente para enriquecer ou para vencer sem conseguir tirar benefícios da vitória é arriscado e caro; em situações competitivas, não devemos permitir que nossas emoções comandem nossas ações; a emoção ofusca a razão e acaba com a objetividade, sendo ambas necessárias para o sucesso competitivo contínuo; a perda do controle emocional é grande desvantagem e arma poderosa na mão da concorrência.

Mostre o caminho. A liderança gerencial, devidamente ajustada às estratégias do empreendimento, embora por si só não determine o sucesso, é fator considerado prioritário para iniciativas vitoriosas.

Aja corretamente. Toda vantagem competitiva está baseada em uma execução eficaz; o planejamento é importante, mas as ações são a fonte de sucesso; a vantagem competitiva advém da criação de oportunidades favoráveis e da atuação sobre elas no momento certo; devemos dosar o desejo de atuar com a necessidade de exercer a paciência; somente o fato de sabermos como vencer não significa que possamos vencer; devemos atuar quando é vantajoso e parar quando em condições adversas.

Conheça os fatos. Saber lidar com informações é a base do sucesso; o sangue vital de qualquer negócio é a informação transformada em conhecimento; na gestão da informação existem dois aspectos: o de reunir as informações e o de enviar informações, reunindo para decidir e enviando para confundir os concorrentes; a melhor informação vem das experiências; saber confiar na sabedoria popular, nunca no senso comum; os fatos confiáveis precedem sempre as ações bem-sucedidas; o sucesso no campo de batalha da informação depende de saber usar a estatística com senso analítico apropriado.

Esteja preparado para o pior. Nunca suponha que a concorrência não atacará; nunca lide com problemas difíceis quando não tiver recursos adequados disponíveis; observe sempre de perto os concorrentes e direcione os recursos sobre seus pontos fracos; nunca subestime a concorrência e considere cuidadosamente o significado dos seus movimentos e táticas; para ter sucesso, sempre espere pelo pior, nunca cantando de galo antes do surgir da aurora.

Não complique. O mais importante fator de sucesso numa concorrência é a velocidade; facilite as coisas sempre que puder, posto que métodos fáceis são eficazes e baratos; ficar um passo à frente da concorrência vale mais do que qualquer outra vantagem; quando você está à frente, o concorrente tem que reagir; faça muitas coisas simples muito bem e aumentará muito as probabilidades de vencer; complexidade desnecessária, ou para simples efeito-demonstração, só traz despesas; quando a água flui, evite os lugares altos e procure os vales; distinga sempre simplicidade de simploriedade.

Não recue. Todo líder bem-sucedido leva adiante os seus liderados e depois queima as pontes atrás de si; a motivação e o compromisso são a chave para a liderança; quando encarar obstáculos e desafios, direcione a atenção dos seus clientes para os benefícios do sucesso; trate bem as pessoas e capacite-as criteriosamente; o sucesso de toda organização se constrói sobre o sucesso individual de seus membros.

Atue sempre melhor. Só existem dois tipos de táticas: as esperadas e as inesperadas; os comandantes eficazes combinam as táticas esperadas e as inesperadas de acordo com as exigências da situação; a inovação eficaz não é necessariamente complicada ou difícil; muitas melhorias simples podem representar uma significativa diferença no desempenho.

Atue em equipe. A organização, o treinamento e a comunicação são a base do sucesso; todo treinamento deve ser interessante para ser eficaz; não se pode punir pessoas que ainda não são leais; se não se pode punir pessoas, não se pode controlá-las; as pessoas que se sentem confortáveis e estáveis têm emoções mais sadias e as mentes mais aguçadas.

Mantenha os concorrentes em dúvida. Não permita que todos, na organização, conheçam os detalhes de seus planos ou futuras iniciativas. Numa administração democrática, uma excessiva consulta às bases pode retardar urgentes decisões estratégicas.

No mais, uma Páscoa arretada de ótima para todos, sob as bênçãos do Eterno!!

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

SOS NORDESTE FUTURO

Já eternizado, um amado irmão nosso chamado Hélder Câmara costumava afirmar que “conversa franca faz bons amigos.” E é a partir desse princípio saudável e com muita crença no futuro da região, oportunizando a emersão de uma dinâmica IA – Inteligência Artificial, que sugiro a efetivação, no Recife e na Fundação Joaquim Nabuco, de um amplo Seminário Regional denominado SOS NORDESTE FUTURO, envolvendo as mais diferenciadas lideranças, debatendo alternativas para o atual nível situacional da região, despertando muitos para livramento do marasmo socioeconômico, ensejando projetos sobre as nossas potencialidades, sem histerismos nem sectarismos ideológicos, tampouco interesses vulgares, nem demagogias populistas.

A meta principal do evento deverá ser a de aglutinar os segmentos que se interagem na área socioeconômico-político-cultural do Nordeste, para garimpar sugestões e projetos empreendedores que acelerem o ingresso do todo regional em níveis de desenvolvimento compatíveis com as exigências de uma contemporaneidade século XXI.

Manifestar-se sem dogmatismos, eis um bom lema para um encontro que busca saídas concretas. Para desmascarar, inclusive, os que idealizam o Nordeste como uma enorme lata de lixo, repleta de ideologias obsoletas, das mais diferenciadas classificações, inclusive religiosas, que proliferam sob múltiplas incoerências, réplicas monstruosas ou caricatas das superadas matrizes oligárquicas.

O cientista social Oscar Lewis aponta algumas características econômicas, psicológicas e sociais do nosso atual nível. Segundo ele, a tipicidade da atual cultura se encontra refletida na luta constante pela vida, no desemprego, nos baixos salários, nos empregos não-especializados, no trabalho de crianças, na penúria crônica de nula liquidez monetária, na ausência de reserva de alimentos, na dependência de agiotas, na falta de intimidade com amanhãs, no espírito gregário, no alcoolismo, no recurso frequente à violência para acertar disputas, nos castigos corporais nas crianças, no abandono relativamente frequente de mulher e filhos, na predominância do autoritarismo machista, numa quase única preferência pelo presente e numa impossibilidade orgânica de estabelecer para um amanhã mesmo próximo os mais simples projetos.

Para que o SOS NORDESTE FUTURO produza resultados, algumas premissas tornam-se imprescindíveis, sem as quais tudo ficará reduzido a mais um muro de lamentações. Atrevo-me a enumerar algumas delas, na certeza de ser devidamente compreendido pelos que entendem de limitações, inclusive educacionais:

a. Terá espírito puramente negocista toda discussão que não levar na mais alta conta as chances de sobrevivência cidadã de todos os segmentos regionais, respeitando-se sempre a Vida no seu sentido o mais abrangente possível.

b. Uma nova atitude para com a natureza também se faz necessária, mormente quando o mundo inteiro debate os direitos de sobrevivência climática.

c. A solidariedade humana deve ser entendida como uma maneira de se ensinar todos a pescar, sendo necessário, sempre que houver ocasião, proclamar que a educação para todos, mormente a educação básica de eficaz conteúdo, amplia a cidadania e fortalece os direitos e deveres dos entornos comunitários.

d. Um programa permanente de capacitação empresarial, através dos mais diversos estímulos promocionais, ampliará a compreensão dos empreendedores acerca das questões básicas, todas elas relacionadas com o trinômio economia x criatividade x sociedade.

e. Um amplo, consistente e não-direcionado mecanismo de incentivo à participação política deverá sempre estar presente em todas as linhas comportamentais mestras das empresas, entendendo-se como participação política o envolvimento de todos nas áreas de suas convivialidades.

Na atualidade, empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos não fundamentalistas, tampouco golpistas, estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação deficitária, sempre se assessorando nos melhores talentos eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza rapidamente, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

SOS NORDESTE FUTURO

Já eternizado, um amado irmão nosso, chamado Hélder Câmara costumava afirmar que “conversa franca faz bons amigos.” E é a partir desse princípio saudável e com muita crença no futuro da região, oportunizando a emersão de uma dinâmica IA – Inteligência Artificial, que sugiro a efetivação, no Recife, na Fundação Joaquim Nabuco, de um amplo Seminário Regional denominado SOS NORDESTE FUTURO, envolvendo as mais diferenciadas representações, debatendo alternativas para o atual nível situacional, despertando muitos para livramento do marasmo socioeconômico, ensejando projetos sobre as potencialidades regionais e locais, sem histerismos nem sectarismos ideológicos, tampouco interesses vulgares, nem demagogias populistas.

A meta principal do evento deverá ser a de aglutinar os segmentos que se interagem na área socioeconômico-político-cultural do Nordeste, para garimpar propostas e projetos empreendedores que acelerem o ingresso do todo regional em níveis de desenvolvimento compatíveis com as exigências de uma contemporaneidade século XXI.

Manifestar-se sem dogmatismos, eis um bom lema para um encontro que busca saídas concretas. Para desmascarar, inclusive, os que idealizam o Nordeste como uma enorme lata de lixo, repleta de ideologias obsoletas, das mais diferenciadas classificações, inclusive religiosas, que proliferam sob múltiplas incoerências, réplicas monstruosas ou caricatas das matrizes oligárquicas.

O cientista social Oscar Lewis, aponta algumas características econômicas, psicológicas e sociais dessa cultura. Segundo ele, a tipicidade da cultura dos pobres se encontra refletida na luta constante pela vida, no desemprego, nos baixos salários, nos empregos não-especializados, no trabalho de crianças, na penúria crônica de liquidez monetária, na ausência de reserva de alimentos, na dependência de agiotas, na falta de intimidade, no espírito gregário, no alcoolismo, no recurso frequente à violência para acertar disputas, nos castigos corporais nas crianças, no abandono relativamente frequente de mulher e filhos, na predominância do autoritarismo machista, numa quase única preferência pelo presente e numa impossibilidade orgânica de adiar para um amanhã mesmo próximo os mais simples projetos.

Para que o SOS MORDESTE FUTURO produza resultados, algumas premissas tornam-se imprescindíveis, sem as quais tudo ficará reduzido a mais um muro de lamentações. Atrevo-me a enumerar algumas delas, na certeza de ser devidamente compreendido pelos que entendem de limitações, inclusive educacionais:

a. Terá espírito puramente negocista toda discussão que não levar na mais alta conta as chances de sobrevivência cidadã de todos os segmentos regionais, respeitando-se sempre a Vida no seu sentido o mais abrangente possível.

b. Uma nova atitude para com a natureza também se faz necessária, mormente quando o mundo inteiro debate os direitos de sobrevivência climática.

c. A solidariedade humana deve ser entendida como uma maneira de se ensinar todos a pescar, sendo necessário, sempre que houver ocasião, proclamar que a educação para todos, mormente a educação básica de eficaz conteúdo, amplia a cidadania e fortalece os direitos e deveres dos entornos comunitários.

d. Um programa permanente de capacitação empresarial, através dos mais diversos estímulos promocionais, ampliará a compreensão dos empreendedores acerca das questões básicas, todas elas relacionadas com o trinômio economia x criatividade x sociedade.

e. Um amplo, consistente e não-direcionado mecanismo de incentivo à participação política deverá sempre estar presente em todas as linhas comportamentais mestras das empresas, entendendo-se como participação política o envolvimento de todos nas áreas de suas convivialidades.

Na atualidade, empresários, sindicalistas, homens públicos, líderes comunitários, militares e religiosos não fundamentalistas, tampouco cretinos, estão percebendo que o apenas mais-ou-menos é muito pouco. Fazer o melhor, eis o mote para se sair de uma situação deficitária, sempre se assessorando nos melhores talentos eticamente vocacionados. É chegada a hora da reinvenção de empresas, empresários, homens públicos e lideranças as mais diversas. Todos com a certeza de que, numa sociedade que se informatiza rapidamente, acelera-se a urgência de fecundas ultrapassagens, na linha de frente se firmando uma inadiável qualidade de vida para todos.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

SEMENTES QUARESMAIS

Das amizades que mantenho há décadas, a maioria delas muito fraternais, algumas delas são de personalidades que proclamam uma férrea incompatibilidade entre Ciência e Crença Religiosa, alguns dos amigos até se declarando ateus de carteirinha, embora portadores de uma ética comportamental solidária exemplar.

Um deles, entretanto, meio distanciado de tudo, manifestou recentemente interesse em conhecer melhor a caminhada do Homão da Galileia, pois O considera o maior revolucionário da Era Humana.

De Páscoa, já comuniquei a ele que não o presentearei com ovos, mas com algumas indicações de livros por mim considerados de honesta descrição da vida e das mensagens de Jesus, que buscou sempre se distanciar de erudições enfadonhas, também de proselitismos que apenas despertam o tédio dos racionais, em alguns instantes incompreensões grandiosas. Eis os textos por mim considerados sementeiros por derradeiro para quem possui uma curiosidade racional pelo Galileu:

– QUEM FOI JESUS? – UMA ANÁLISE HISTÓRICA E ECUMÊNICA, André Marinho, Bragança Paulista SP, Instituto Lachâtre, 2018, 312 p.

– JESUS, A VERDADEIRA HISTÓRIA, Jacques Duquesne, 3ª. edição, Geração Editorial, 2005, 306 p.

– RAZÃO X RELIGIÃO: O PRIMADO E OS PRIMATAS, Omar Ferri, Porto Alegre RS, Citadel, 2023, 288 p.

– JESUS: UMA BIOGRAFIA REVOLUCIONÁRIA. John Dominique Crossan, Rio de Janeiro, Imago, 1995, 220 p.

– QUEM MATOU JESUS? AS RAÍZES DO ANTISSEMITISMO NA HISTÓRIA EVANGÉLICA DA MORTE DE JESUS, John Dominique Crossan, Rio de Janeiro, Imago, 1995, 268 p.

Pelas leituras acima, pode-se esclarecer uma série de perguntas que obnubilam mentes pouco atentas. Algumas delas: De onde vem a autoridade da Bíblia? As pessoas que escreveram as Sagradas Escrituras foram efetivamente inspiradas pelo Espírito Santo? Por que tantas pessoas, ao longo dos séculos, reverenciam as Escrituras Sagradas, pautando sua caminhada terrestre por elas? Por que existem tantas traduções da Bíblia? Como a racionalidade superou ingenuidades e despropósitos, cavilações ingênuas e fundamentalismos despropositados, que apenas buscam arrancar trocados para usos exclusivamente mantenedores de oponências pessoais e institucionais? Por que muitas religiões instilam ódios e desavenças entre povos e nações?

Após a leitura dos livros acima citados e com a disseminação da IA – Inteligência Artificial pelas áreas mais civilizadas do mundo, apenas mais uma sugestão eu faria ao Zequinha: que buscasse entender a mensagem de Jesus de Nazaré para os tempos contemporâneos. Um livro que muito o auxiliaria nos propósitos pretendidos: HUMANAMENTE DEUS: UMA INTERPRETAÇÃO DO EVANGELHO E DA PESSOA DE JESUS PARA OS DIAS DE HOJE, Victor Azevedo, São Paulo, Planeta do Brasil (Academia), 2023, 144 p.

No mais, é perceber-se continuadamente uma metamorfose ambulante (Raul Seixas), sempre se questionando como alguém se torna aquilo que é (Nietzsche), buscando analisar razões e causas dos seus comportamentos, passados e cotidianos. Nunca deixando de dar razão ao balizamento de uma canção famosa: Quem sabe faz a hora, nunca espera acontecer.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

PREPARAÇÃO PARA A PÁSCOA

Com as proximidades de mais um período pascal, o de 2024, inúmeras pessoas buscam conhecer melhor as mensagens deixadas pelo filho de Maria e José, Jesus (Joshua), por muitos historiadores considerado o maior revolucionário de toda a História do Mundo.

Para a gente amada do JBF, independente de suas crenças e credos religiosos, ouso apresentar, abaixo, alguns textos, escritos por notáveis, que buscam retratar a caminhada do Nazareno entre nós, enfrentando preconceitos e acusações até a sua morte no madeiro. Nossa intenção não é a de efetivar qualquer proselitismo, mas tão somente buscar ampliar, em muitos, o conhecimento sobre quem somente desejou promover uma fraternidade planetária, sem qualquer pretensão de instituir uma nova denominação religiosa, tampouco deixando dogmas escritos para os próximos tempos.

Citarei apenas alguns livros que muito ampliaram minhas ideias sobre Ele, filho de carpinteiro, de QI altíssimo e sabedoria plena, que soube expor suas convicções sem eruditismos cavilosos, tampouco ensejando comportamentos sectários, negativistas e separatistas, todo seu caminhar sendo vacina infinitamente potente contra preconceitos cavilosos, superioridade masculina sobre as mulheres, humilhações étnicas, desprezos pelos despossuídos, tudo refletido, no Sermão da Montanha, num brado imenso a favor de uma fé suprema no Pai Todo Poderoso de todos nós.

Eis as leituras que recomendo, sem hierarquização de qualquer tipo, apenas obedecida a ordem alfabética dos títulos:

A história de Jesus para quem tem pressa, Anthony Le Donne, Rio de Janeiro, Valentina, 2019, 208 p.

A religião de Jesus, o Judeu, Geza Vermes, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1995, 228 p.

A última semana – um relato detalhado dos dias finais de Jesus, Marcus J. Borg e John Dominic Crossan, Rio de Janeiro, Editora Poket, 2010, 264 p.

Conhecendo Jesus: a Cristologia a serviço da promoção da vida, José Anchieta Lima Costa, São Paulo, Loyola, 2021, 1187 p.

Deus antes e depois de Jesus, Wesley Caldeira, Brasília, Editora FEB, 2021, 588 p.

Jesus de Nazaré – Uma narrativa da vida e das parábolas, Frederico G. Kremer, Brasília, FEB, 2016, 371 p.

Jesus para estressados, Thaís Zamba, Rio de Janeiro, Editora GodBooks, 2022, 128 p.

Jesus: Dicionário Histórico dos Evangelhos, Marie Françoise Baslez, Petrópolis RJ, Vozes, 2018, 198 p.

O Jesus Quântico: a ciência contida em seus ensinamentos – Marcelo Tezel, Votuporanga SP, Casa Editora Espírita Pierre Paul Didier, 2019, 574 p.

Desejando uma Feliz Páscoa para todos os leitores do JBF, uma Páscoa repleta de reflexões e comprometimentos para com um mundo mais fraternal e humanamente desenvolvido, onde todos possam ter vida e vida em abundância, inclusive na Ucrânia, Rússia, Israel e Faixa de Gaza. Todos apreendendo a significância do que está escrito em João 13, Novo Testamento.

E que saibamos, com intensa espiritualidade, o que proclamou o sempre aplaudido filósofo Immanuel Kant:

“Um dia, no futuro, provar-se-á, não posso dizer quando ou onde, que a alma humana já está, durante a vida terrena, numa comunicação ininterrupta com os que vivem já no outro mundo; que a alma humana pode agir sobre esses seres e receber, em troca, impressões deles sem ter consequê3ncia disso na personalidade comum.”

Boas leituras. Feliz Páscoa!!

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

DISTANTE DE MOMO

No Portal de Gravatá, acompanhado da Sissa e da cunhada Taninha, me refugiei da folia momesca deste ano bissexto, revendo pessoas, relendo trechos de livros e trocando ideias com gente pensante, que para lá também tinha se dirigido.

Um dos papos mais agradáveis aconteceu com um cearense quase coroa, engenheiro de QI vivo, que me mostrou um texto seu, intitulado Opinião Pessoal. Com a licença devida dele, reproduzo abaixo o seu escrito, para disseminar, aqui e agora, uma opinião que combina com uma opinião idêntica de milhões de eleitores brasileiros. Ei-la, sem tirar nem pôr:

“Que o ex-presidente Bolsonaro seja severamente punido pela tentativa de golpear a Democracia Brasileira. Urge uma legislação que promova um fortalecimento de uma estrutura política do país capaz de enjaular por muito tempo os alucinados que tentarem desrespeitar os direitos de uma sociedade que busca sempre repudiar os sectarismos travestidos de desenvolvimentistas. As provas explicitadas nos autos que o incriminam são contundentes, a revelar também seu caráter nulamente construtivo. Além de uma mente nada amadurecida, intensamente autoritária e genocida, sem um mínimo de lucidez política.”

Como professor universitário de uma conceituada universidade alencarina, o engenheiro também se manifestou assustado pela incrível desculturação da quase totalidade dos universitários atuais, aqui também sendo inclusos os por ele chamados de DSM (docente salário mínimo), que não conseguem transmitir conhecimentos humanísticos capazes de favorecer uma PCCCP – Profissionalidade Competente Crítico-Construtiva Pensante, jamais ruminante, tampouco apenas obsessivamente lucrativa, sem ética nem bons propósitos, além do apenas enriquecimento rápido.

Ele ainda muito apreciaria ver a Universidade Federal do Ceará promover um amplo Programa Regional de Integração Inteligência Artificial x Humanismo 21, congregando professores, alunos concluintes, pesquisadores e especialistas, favorecendo uma atualização evolutiva do planejamento estratégico dos amanhãs regionais, públicos, empresariais e comunitários.

Na opinião dele, a IA e o Humanismo deveriam prosperar integrados, promovendo o desenvolvimento de um existir social sem as complexidades mórbidas da conjuntura atual, a favorecer um amplo conhecimento e aprendizagem, potencializando o nível civilizatório com consistente solidariedade instrucional para com os intelectualmente menos favorecidos. Os ambientes digitais estão a exigir novos balizamentos instrucionais para todos os gêneros, harmonizando povos, nações e regiões.

Segundo o amigo de Fortaleza, somente disseminando a sabedoria platônica contida em O Mito da Caverna, proporcionaremos a libertação da escuridão da gente brasileira, cidadanizando-a politicamente com mais densidade, ensejando projetos fomentadores de promissores futuros.

E o professor concluiu o seu texto: “Um Brasil em processo de cidadanização comunitária deverá erradicar, através de uma Educação Integral para Jovens e Adultos, os negativismos cretinos que teimam em relegar os avanços da Ciência na área da saúde preventiva, praticando genocídio em comunidades ainda pouco conscientes de sua importância na construção do Brasil.”

Saibamos, como espiritualistas, perceber a evolução dos nossos derredores sociais, nossos direitos e nossos deveres para conosco e os demais. Sempre recordando Allan Kardec: ‘O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição, a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme e a maledicência são para a alma ervas venenosas, das quais é preciso a cada dia arrancar algumas hastes e que têm como contraveneno a caridade e a humildade.’

Saibamos conhecer, através do notável Confúcio, os três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por intuição, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.

O cearense retornou ao seu estado, com sua família, logo na terça-feira de folia plena. Com ele trocamos e-mails. Muito papo acontecerá de agora em diante. Viva Iracema!!!

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

PARA UMA NÃO FOLIA

Para os que estarão distanciados das folias momescas como nós, Sissa e eu,, apenas assistindo pela televisão os remelexos de bundas e seios, exibições de máscaras e estandartes, recomendaria deixar de lado seus azedumes e enfados, lendo aforismas elaborados por um gênio chamado Friedrich Nietsche (1844-1900), um enfezado bigodudo que foi por muitos amado e por milhares odiado. E que teve a coragem de dizer: “O aforisma, a sentença, nos quais pela primeira vez sou mestre entre os alemães, são formas de eternidade: a minha ambição é dizer em dez frases o que outro qualquer diz num livro, o que outro qualquer não diz nem num livro inteiro.”

Os aforismas de Nietzsche são de aplicação universal, para gregos e troianos pensantes, incluindo os carrancudos que de nada riem, merecendo dele um aforismo famoso, verdadeiro chute culhonístico ouro de lei: “O macaco é um animal demasiadamente simpático para que o homem descenda dele.”

Para os não foliões que se portam sempre rangendo os dentes, criticando todo mundo que brinca para valer, reservei alguns aforismos do notável alemão, procurando alertá-los para amanhãs mais existencialmente felizes, sem os azedumes que impedem intestinos e bexigas de se manifestarem com prazer e alegria, sem barulho e catinga. Eis os ditos escolhidos para os que são só aparentemente serenos:

“Não sejamos covardes para com nossas ações! Não as enjeitemos depois de cometidas! O remorso de consciência é indecoroso.”

“Um único homem sem alegria basta para criar numa casa inteira um mau humor contínuo e para a envolver numa nuvem escura; e é um milagre se este homem não está presente! É preciso muito para que a felicidade seja doença tão contagiosa.”

“A mais pérfida maneira de prejudicar uma causa é defendê-la intencionalmente com más intenções.”

“Falar muito sobre si mesmo pode ser um modo de se esconder.”

“O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.”

Aos brincantes do Reinado de Momo, a percepção de que tudo passará na quarta-feira de cinza, exceto para os biscoitados que se imaginam foliões eternos, mal passando de penicos cheios, travestidos de ilusões e lero-leros.

Que os foliões pensantes levem sempre em conta que, durante o reinado da folia, grandes amores e novas conquistas envolvem riscos imensos, iludindo os que se imaginavam irresistíveis, mal passando de simples molambos mentais prenhes de ilusões, abrindo sempre os braços para quem nenhum valor possui, desconhecendo que uma atmosfera de amor verdadeiro é fundamental para a vida terrestre, com sonhos lúcidos e bravuras empreendedoras.

E que os brasileiros de todos os quadrantes, findas as euforias momescas, percebam a chegada de novos tempos, sem vitimismos, coitadismos, populismos e outros malandrismos que iludem e descidadanizam, favorecendo apenas espertos seguidores de ramagens nada éticas.

Até o domingo após a quarta-feira de cinza, quando estaremos por aqui de novo, sem rebolagens nem malícias, apenas com a sensação de gostar mais do JBF cada vez mais nordestinamente, um brasileiro metamorfose ambulante, sem BBB – Bordeis Boçais Banais, que engabelam ilusórios amanhãs para ingênuos e abestados.

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

UMA SÁBIA REFLEXÃO

O escritor Georges Bernanos, francês de índole católica, dizia que “nada é mais ridículo do que um velho enrabichado.” E Alceu Amoroso Lima, o extraordinário Tristão de Athayde, complementava: “Nada mais contra a natureza das coisas e aos olhos de Deus do que a velhice inconformada com a morte.” Morremos muitas vezes ao longo da nossa existência: quando um amigo se vai, diante dos punhais cravados pelos parentes aparentes, pelas animalidades cometidas pelos amigos de mentirinha ou quando as arrogâncias corroem um debilitado humanismo século XXI. Ao longo das nossas vidas, diante da inexorabilidade da eternização, tomamos quatro atitudes diferentes. Quando crianças, a morte nos é indiferente. Nutrimos por ela uma curiosidade idêntica às demais sentidas diante do imprevisto. Nenhum valor específico lhe atribuímos, posto que ela não provoca qualquer reação mais profunda. Um acidente da vida como outro qualquer. O escuro, quando se é criança, provoca muito mais medo que a própria morte. Para não falar das almas do outro mundo. Brinca-se até de morto como se brinca de bandido ou de mocinho. Ou de professor. Ou de dona de casa, as meninas-da-casa fazendo comidinha para as meninas-visitas, as mais gulosas.

Na adolescência, principiamos a pensar na morte. Idealizamos a morte, mitificamos a morte. E começamos a pensar na própria morte. E principiamos a morrer, diante dos primeiros desmoronamentos provocados em nosso castelo-derredor. Mas ainda encaramos a morte como final de uma aventura, sem tropeços nem maldades, apenas coroamento, sem as pedras do caminho. Na juventude, a morte torna-se companheira quase brincante. Conceito romântico, substituindo a indiferença da primeira idade.

A inimizade se inicia na porteira da maturidade. A morte torna-se a maior inimiga, temida, mais analisada, filosófica e religiosamente. A indagação de São Paulo inquieta: “Morte, onde está tua vitória?” A morte é término ou passagem? Túmulo ou túnel, como magistralmente o saudoso Pastor Campos, o pai da amiga Pérola, costuma dizer em suas pregações. Com crença ou sem ela, a agonia da morte se torna presente e o viver um contínuo e resoluto foco de resistência.

No último quadrante da vida, entretanto, “a mesa está posta e a cama feita”, como nos dizia o poeta Bandeira, que vivia aos trancos e barrancos com a Última Dama. Nessa fase, exige-se serenidade, capacidade de rever caminhadas menos felizes, emergindo a convicção de que bem outras seriam algumas das estratégias tomadas. se os fatos fossem encarados com a mentalidade dessa fase da vida. Creio que a concepção da morte é determinada pela concepção que se faz da vida. Superar a morte, eis o desafio maior dos libertos dos encantamentos supérfluos, das prestimosidades dos lambetas, das pantufas sabichonas, dos burregos tecnocratas que desconhecem os valores de uma sociedade emergente e dos recalcados recalcitrantes, que se imaginam eternas vítimas, cordeirinhos imolados de um mundo que não os compreende devidamente. Sem falar dos azedos – homens, mulheres e demais gêneros – que imaginam sempre estar em ambientes europeus, reinos se possível, os daqui nada mais sendo que peças fétidas de um contexto de ofuscados pelas suas “luminosidades.”

Sejamos metamorfoses ambulantes pensantes sempre, para compreendermos bem a significância do que existe do outro lado do mundo existencial.