JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

FANÁTICO

Cada vez que eu te vejo
Dispara meu coração
Em virtude da beleza
Ante a minha visão
E se não posso tocar-te
Deixa apenas mirar-te
Com minha admiração.

Se acaso disseres “não”
Respeitarei teu querer
Prometo cegar meus olhos
– Sofrendo não sei viver –
Melhor ser cego de guia
Do que não ter a alegria
Por não poder mais te ver.

Porém, se eu merecer
De ti, essa permissão
Seguirei com mais respeito
E sem perder a razão
Louvar-te-ei em meus versos
De sentimentos dispersos
Em disfarçada paixão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

APENAS MAIS UMA SAUDADE

Fiz do sofá minha cama
Sofrendo de madrugada
À mesa nem sento mais
Não consigo comer nada
Sem ter mais o que fazer
Vivo só de padecer
Com saudade da amada.

Quem não sabe o que é sofrer
Diz logo que é um drama
Por certo nunca sentiu
Da saudade a sua chama
Queimando o peito da gente
Como uma brasa bem quente
No coração de quem ama.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

APRESENTAÇÃO

Eu tive a grata e honrosa satisfação de ser a ponte entre o Jornal da Besta Fubana e um dos seres humanos mais humanos que conheço em vida minha: o Padre Gleiber Dantas, de Caicó.

O mesmo padre que ganhou o mundo pela Internet por promover um leilão, em prol de sua paróquia, se balançando animado numa rede.

Padre Gleiber é gênio da raça. É poeta, cronista, contista… ele escreve como um santo. Um santo!

Uma santidade vista em seu próprio estilo de vida, alicerçada na simplicidade do cotidiano humilde, sem as estolas ricamente adornadas por bordados em fio de ouro que afastam alguns mensageiros de Deus das pessoas. Padre Gleiber é, antes de qualquer título, um homem do povo. Do povo que se identifica com sua alegria contagiante, e lota sua igreja.

Antes de batizarmos sua coluna – aqui Jesus não é João Batista, mas batiza também – escolhendo um nome que esteja à altura do Padre Gleiber, trago no espaço que o Papa Berto gentilmente me cede a primeira participação do homem; e estou com o sentimento que não falta ao JBF gente ligada a Deus: um papa, um Jesus e doravante um padre de batina e tudo.

Eis abaixo o estilo lírico do meu amigo Gleiber, o padre:

* * *

QUEM É ESSE PADRE?

Quem não conhece meus pais me conhece muito menos do que pensa. Sou filho de Djalma da TELERN, Djalma de Neuza de Chico Mello, e Marlene de Djalma, Marlene de Maria de Zé Bernardo. Penso que um dos piores defeitos do ser humano é ter vergonha de seus pais. Cada um de nós é fruto do encontro de muitos vínculos. Somos muito mais do que dizem as informações de nossos documentos de identificação. Existimos há muito mais tempo do que calculam nossos aniversários, pois já estávamos em cada um de nossos antepassados e deles herdamos mais que cromossomos, fenótipos e genótipos.

Como sou feliz em ser filho de quem eu sou! Não sou mais feliz porque não puxei mais a eles e bem que poderiam ter exigido mais de mim. Mamãe nasceu no município de Serra Negra do Norte (RN) e estava em São Bento (PB) quando, em 1965, veio morar em casa de Zé Patrício e Ana, primos de Papai, no Caicó. Papai tirou a sorte grande duas vezes: uma, quando tio Zé Vicente deu a um dos filhos de Neuza aquele trabalho na TELERN. A inteligência e a responsabilidade de Papai lhe renderam muitos frutos em prol dos que precisavam dos serviços telefônicos de então; outra, quando casou.

Somos descendentes da Mãe Dondon da Timbaúba, que faleceu em companhia de sua filha Enedina e seu genro Bembém, que mantinha alambique em sua fazenda Oiticicas. Mãe Dondon que ainda pediu uma chamadinha de cana, na hora da morte. Papai espontaneamente deixou de beber há exatos 10 anos; senão, já era defunto há muito tempo. Eu morava no Recife. Mamãe, um dia, me liga e o diálogo foi, mais ou menos, assim:

– Meu filho, seu pai deixou de beber.

– Sim, Mamãe, eu sei. E não era isso o que a gente queria?

– Era, meu filho, mas quem vai morrer agora sou eu.

– Por que, Mamãe?

– Porque agora eu vou ter que beber por mim e por ele!

Papai sempre disse que, para se divertir, a pessoa não precisa beber. E assim ele continua se divertindo com Mamãe; ela, às vezes, tomando uma; às vezes, tomando umas e outras; e, às vezes, tomando todas, sempre conosco e com essas pessoas amigas que nos enriquecem tanto com seu bem-querer.

Padre Gleiber Dantas – Caicó, 28/12/2022.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

LEMBRAR DE NÃO ESQUECER

O Alzheimer de Papai o faz esquecer de muitas coisas. De alguns nomes, de muitos momentos, de pessoas… Até deste filho que, para ele, aos poucos, tem virado o seu irmão Chaguinha, falecido em 1978.

“Ô Chaguinha, chegou agora de onde? Passou por Acary? Foi lá em casa?”

Cada vez mais alheio à realidade, Papai vai se distanciando de suas lembranças e dos seus prazeres.

A maior parte do tempo não reconhece sequer a casa onde mora há mais de meio século.

Dia após dia reclama de não viver mais em nossa amada Acary.

Hoje me fez prometer que amanhã iremos por lá, digo, visitar Acary.

Depois da promessa eu tive a curiosidade de lhe perguntar como se chama a cidade (de sua imaginação) onde ele está vivendo. Para minha surpresa ele respondeu “Rockefeller”.

Meu Deus! De onde surgiu esse nome na memória de Papai?

Aí, se pôs a comparar a sua megalópole Acary “com essa porcaria de cidade, que nem igreja tem”.

Papai vai esquecendo das coisas. No entanto, eu ainda lembro de não esquecer alguns prazeres dele. E, como não podia deixar de ser, não esqueci de trazer o seu “pão italiano da Bauducco” para o Natal.

Aliás, o Alzheimer não conseguiu ainda fazer com que Papai esqueça essa satisfação. Esse sabor da vida.

Amanhã nosso café em Rockefeller será mais gostoso. E com esse prazer na alma iremos, ele e eu, à Acary que Papai não esquece.

PS.: Com a satisfação de viver o prazer de Papai, desejo a todos os melhores votos de Boas Festas.

Um Feliz Natal. Um Próspero 2023.

Que Deus nos abençoe sempre.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VAR DE ANTIGAMENTE E REGRA NOVA

Pela primeira vez nesses meus cinquenta e um ano de vida, eu não estou sentando ao lado de papai ante uma TV para acompanhar os principais jogos de uma Copa do Mundo de Futebol. Minhas obrigações não me permitiram – ainda – correr para o sofá de Dona Ritinha, lá no Acary do meu amor.

Não obstante a distância, fiz uma chamada de vídeo para papai após o jogo do Brasil contra os suíços, a fim de comemorar a nossa vitória. Ele ainda vestido com a camisa da Seleção, já não lembrava, no entanto, que acabara de assistir ao jogo. O alemão que vai derrotando-o lentamente faz um estrago pior que aqueles sete a um de dois mile e quatorze. O Alzheimer é uma falta desleal que nem o mais avançado VAR consegue reverter em favor de quem a sofre.

Bom, como os dias são de futebol, alegria do povo, eu vim aqui hoje foi deixar duas histórias interessantes.

Contaram-me que lá no começo do século passado, dias do Coronel José Bezerra “d’Aba da Serra” (1843-1926) como líder absoluto em Currais Novos, quando o coronelismo arbitrava e os coronéis decidiam até sobre o jogo da vida dos seus conterrâneos, criou-se um time de futebol por aquelas ribeiras. O nome da equipe certamente se perdeu no tempo. Mas não o fato que passarei a narrar.

Organizaram um jogo e convidaram especialmente o Coronel José Bezerra para assistir ao grande evento. A intenção era despertar no comandante político a mesma paixão pelo futebol alcançada Brasil afora e, assim, conseguir dele alguma ajuda para a manutenção da equipe.

Tudo arrumado, equipe visitante em campo, puseram em um lugar alto e de destaque uma cadeira confortável, à beira do campo de terra batida, e nela sentaram o homem. Falaram sobre o objetivo, explicando-lhe sobre o gol e as regras principais, duração da partida, o goleiro, os defensores de linha, os atacantes, o poder do árbitro etc.

O jogo seguiu sem a bola passar por entre os paus, encaminhando-se ao final sem gol, num empate que parecia não estimular a atenção do coronel. Porém, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, o árbitro marcou um pênalti contra Currais Novos. Houve um verdadeiro alarido. A multidão gritava revoltada. “Por que o jogo está parado”, perguntou o coronel. Alguém lhe respondeu “foi pênalti”. E ele sem entender perguntou “o que é isso?”

Pediram silêncio e calmamente alguém lhe explicou: “Coronel, é um gol certo. Mas, contra Currais Novos!”

O coronel alisou a barba e decretou calmamente: “Então mande bater do outro lado.”

Quase um VAR que arruma a jogada e interfere no resultado do jogo.

O estádio de Currais Novos leva o seu nome.

Tempos depois, já nas terras da Fazenda Soledade, entre as cercas de José Braz Filho (1925-1996), bisneto do Coronel Zé Bezerra d’Aba da Serra, ajeitaram um terreno, jogaram a cal traçando linhas na terra, fincaram quatro madeiras no chão em dois pares, norte e sul, amarraram um travessão em cada par, e estava criado um campo de futebol, no lugar onde a vaquejada era de fato o esporte mais praticado poucos metros à frente.

Obra de dois dos três filhos machos de Zé Braz “Novo”, José Braz Neto (1953), o Dedé de Zé Braz, e Jarbas Braz (1956), o caçula de todos; um se aventurando na linha e o outro debaixo dos paus, no “Campo da Soledade”.

Conta-se que num domingo de clássico o time de Dedé de Zé Braz perdia pelo placar mais magro, e o sol já era um fiozinho de luz quase apagada, quando o árbitro recebeu a ordem “não acabe ainda”.

Descambava o segundo tempo para uma hora e quinze minutos, céu escuro, jogadores de ambas as equipes exaustos, quando houve um escanteio em favor do “time da Soledade”.

Batido na área adversária, novo escanteio se deu. O segundo seguido.

Bola levantada no tumulto outra vez, a zaga cortou jogando pela linha de fundo. O terceiro escanteio consecutivo.

Foi quando Dedé de Zé Braz correu atrás da bola e, segurando-a entre os espinhos das juremas atrás do campo, decretou a décima oitava regra do futebol:

– Três escanteios é pênalti.

Bateu, converteu e a partida terminou empatada.

Nem o emir do Catar tem tanto poder de mudar ou criar regras no futebol. Né não?

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

“QUEM É DO MAR NÃO ENJOA.”

O título deste texto é o da canção de Martinho da Vila

Cada um fazendo o que gosta.

Eu gosto de conversar.

De ouvir pessoas.

De saber histórias.

Ontem conheci Seu Chagas. Sessenta e três anos. Cinquenta e quatro de mar. Primeiro como pescador de jangada e hoje, mais maduro, “fichado como Marinheiro de Convés. Tenho até carteira”, falou-me orgulhoso.

Semianalfabeto das letras, “mas sei ler o mar e o tempo do céu”. Na verdade eu o vi como um doutor do oceano, para onde começou a sair com o pai “ainda menino, quando troquei a bola nos pés na areia firme, pelas cordas nas mãos no balanço das águas”, foi me contando com seu lirismo puro de quem enxergou mais da vida nas tempestades enfrentadas, que muitos de nós na segurança dos nossos empregos e apartamentos.

“Escute bem: o mar é um professor e ‘de’ noite o céu ensina muito.”

Mãos calejadas, dedos deformados – um deles faltando a falange digital, revelou-me não possuir muito. Mas o bastante: “minha família. Criei meus filhos tirando o sustento no vai e vem das ondas, como meu avô criou meu pai e como meu pai me criou; e todos deram para gente. Nenhum quis viver do mar como eu”.

Fizemos uma amizade rápida. De apertos de mãos firmes. De sincera satisfação.

Um em falar. O outro em ouvir.

Possivelmente eu nunca mais o verei. Mas, doravante, levarei Seu Chagas comigo por uma de suas últimas frases.

“O mar não é para quem quer. É para quem é.”

Como tudo na vida, Seu Chagas.

Afinal, “quem é do mar não enjoa”.

Eu não enjoo de ouvir pessoas.

Este colunista e Seu Chagas, Fortaleza, dezembro de 2022

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAPEL FLAGELANTE

Foi um tiro, um só, no coração
As palavras que ela me enviou
Num bilhete escrito, me deixou
Sem juízo, sem lugar ou direção.
Redigido na força da emoção?
Eu não sei. Só sei que me destruiu
Que acabou o meu mundo, que caiu
Num buraco a vontade de viver
Prometi a mim mesmo esquecer
A autora da dor que me afligiu.

Só Deus sabe – só Deus! – o que sentiu
O meu peito na hora da leitura
Invadiu-lhe a flecha da amargura
Numa força tão bruta, quanto ardil.
O meu senso na hora se partiu
Os meus pés vacilantes me pararam,
Minhas mãos tremulantes seguraram
O papel flagelante à minha vista
Meu olhar lacrimante foi basista
E dois rios pujantes me inundaram.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VILANOVA AGORA É DO ACARY DO MEU AMOR

Da esq. para dir: Este colunista segurando a viola, Felipe Pereira, a primeira dama Renata Aquino, o prefeito Fernando Bezerra e o antológico poeta-cantador Ivanildo Vilanova

Na noite da última sexta-feira (04/11), eu estive presente no Largo do Museu do Sertanejo, na abertura do II Encontro de Genealogia de Acary, evento acontecendo dentro da Semana Cultural da minha cidade querida.

A noite começou com uma palestra sobre a influência dos usos e costumes judaicos herdados dos nossos antepassados, ministrada pelos professores Fabiana Agra e Janduih Medeiros, e foi encerrada com a apresentação de dois poetas violeiros repentistas: o jovem natalense Felipe Pereira e o monstro sagrado da viola Ivanildo Vilanova, pernambucano de Caruaru.

Felipe eu vejo como o mais promissor poeta violeiro repentista do Brasil. E digo sem medo que será o maior nome de sua geração nessa arte (foi uma honra tê-lo entre nós).

Pois bem, para a minha surpresa, eu descobri ao final do evento da noite de sexta que Ivanildo Vilanova escolheu Acary para morar.

Há quinze dias ele se fixou em nossa terra.

Para nós acarienses, que conhecemos sua importante obra e a envergadura do seu nome dentro do universo da arte, e até da MPB, esse fato muito honra o nosso torrão.

Poderá nascer agora um intercâmbio fantástico de conhecimentos, gerando a aproximação dos nossos jovens com a poesia extraordinária de Ivanildo Vilanova e, assim, introduzir as novas gerações no fantástico ambiente da arte escrita e cantada.

Por exemplo, a música “Nordeste Independente” (sobre o mote Imagine o Brasil ser dividido / E o Nordeste ficar independente), eternizada na voz de Elba Ramalho, é uma composição dele em parceria com o também poeta Bráulio Tavares.

Para mim, fã de sua obra, foi a surpresa mais agradável e a melhor descoberta da noite. Pude abraçá-lo e falar de minha admiração.

Uma honra enorme e uma satisfação sem tamanho poder dizer, doravante, que Acary também é de Vilanova. Que Vilanova também é de Acary. Do Acary do meu amor. Do amor de todos nós.

Seja bem-vindo, Ivanildo Vilanova!

* * *

PS.: Na manhã de ontem, em parceria com Dra. Kyvia Motta, falei na importância para a sociedade brasileira da judia sefardita Branca Dias. Grande mulher e matriarca, denunciada, condenada e presa pela Inquisição. Um mito tema de músicas, peças teatrais, documentário e lendas.

Mas, sobre ela falarei na próxima oportunidade.

* * *

Elba Ramalho interpretando “Nordeste Independente”, de Ivanildo Vilanova.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CÁLICE CAÍDO

Da mesa, do outro lado,
Vi um cálice caindo
Vi quando bateu no chão
Nesse choque se partindo
Em não sei quantos pedaços
Mas um desses estilhaços
Pulou do chão, me ferindo.

Era aquilo me atingindo
E eu vendo que fui ferido
Me veio a compreensão
Dos cálices, o seu sentido:
Um deles caindo ao chão
Esteja distante, ou não,
Você será atingido.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

HÁ DIAS QUE NÃO TE VISTO

A luva disse à mão
Fazendo-lhe um pedido:
“Se encontrar pelo chão
Algum corpinho caído
Preste alguma atenção
Não olhe com má vontade
Nem passe com brevidade
Pode ser que seja o meu
Que por ter tanta saudade
De saudade esmoreceu.”