JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

INCONFORMISMO

Eu ando revoltado com a fome no mundo.

O Coronavírus nos trouxe acesso a números que não tínhamos a mínima ideia.

Criei um mote e o debulhei sob letras inconformadas e sentimentos de pura resignação:

Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Solidão e vergonha certamente
São parceiras do pobre flagelado
Pelo mundo egoísta abandonado
Já não tem mais futuro, só presente.
Sem poder respirar decentemente
Vai vivendo à margem, sem saída,
Traz nos olhos a expressão tão dolorida
Tendo a fome constante por herança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Na ambição que está nos separando
Como um ato pensado esse acinte
Na tristeza do olhar de um pedinte
Vejo os olhos de Deus nos acusando.
E embora Ele siga nos amando
Precisamos fechar essa ferida
Do egoísmo sendo o grande homicida
Provocando com a fome essa matança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

COISAS DIFÍCEIS DE SE VER

Um enterro de anão
Pato dormindo em puleiro
Freira entrando em puteiro
Ateu fazendo oração.
Fazer sexo sem tesão
Ave alegre não cantar
Jumento não relinchar
Surdo numa cantoria
Palhaço sem alegria
E uma garapa azedar.

O sujeito não peidar
Depois de uma buchada
Gente rica aperreada
Pinto em merda não ciscar.
Um doido não endoidar
Se lhe disserem o apelido
Um velho não ter vivido
Seus dias de mocidade
Mentiroso amar verdade
E um poeta não rimar.

Um cantor pra não cantar
Um soldado não prender
E se o bandido recorrer
A Justiça não soltar.
Novela pra não passar
Sofrimento do mocinho
Amor grande sem carinho
Pedinte sem ter sacola
Futebol sem trave e bola
Estrada sem ser caminho.

Batizado sem padrinho
Lua cheia sem beleza
Cabaré sem safadeza
Xique xique sem espinho.
Homem rico andar sozinho
Um forró sem sanfoneiro
Porco limpo num chiqueiro
Banguelo roendo osso
Girafa sem ter pescoço
Compra à vista sem dinheiro.

Um filho de bodegueiro
Que não valorize o pai
Sofrimento sem ter ai
Segundo sem ter primeiro.
Vaquejada sem vaqueiro
E vaqueiro sem gibão
Fogueira sem ter tição
Guerrilheiro sem guerrilha
E político em Brasília
Cheio de boa intenção.

Crente que não seja irmão
Escola sem professor
UFC sem lutador
Jiu-jitsu sem ter chão.
Problema sem solução
Embolador sem repente
Um dentista sem ter dente
Pobre sem verme e lombriga
Gente falsa sem intriga
E careca andar com pente.

Um Natal sem ter presente
Uma Páscoa sem coelho
Sol se pondo sem vermelho
Um sinal sem um carente.
Alegria sem contente
Um morto que não viveu
Rapariga que não deu
Em troca de algum tostão
O Irã em união
Com todo o povo judeu.

Vencedor que não venceu
Orquestra sem instrumento
Um instante sem momento
Um bebo que não bebeu.
Injeção que não doeu
Trovão sem relampejar
Professor não ensinar
Mãe sem amor por seu filho
Dente de ouro sem brilho
Idoso não resmungar.

Gato novo não miar
Sertanejo preguiçoso
Menino não buliçoso
Curandeiro não rezar.
Bebo andando não tombar
Um bocado sem um tanto
Um milagre sem um santo
Um inferno sem ter cão
Banheiro sem ter sabão
E uma sala sem ter canto.

Uma santa sem um manto
Um toureiro sem espada
Uma rua sem calçada
Um choro pra não ser pranto.
Ocultismo sem quebranto
Pai-de-santo sem terreiro
Obra grande sem pedreiro
Cinema sem uma tela
Um pintor sem aquarela
Um açude sem barreiro.

Inverno sem aguaceiro
Verão sem nenhum calor
Outono com muita flor
Primavera sem ter cheiro.
Quem viaja ao estrangeiro
Não postar fotografia
A noite não virar dia
Um fogo que não aqueça
Prego novo sem cabeça
Neve que não seja fria.

Confusão sem arrelia
Junto que não seja perto
Um besta sem um esperto
Um corrupto que sabia.
Medo que não arrepia
Uma prisão sem bandido
Achado sem ser perdido
Time bom não ter ataque
Carioca sem sotaque
Um tiro sem estampido.

Uma ovelha sem balido
Vinte e nove em fevereiro
Jangada sem jangadeiro
Dono de banco falido.
Corno depois de traído
Não ficar desconfiado
Um baiano arretado
Não gostar de capoeira
E uma mulher chifreira
Sem um amigo viado.

Um bebim aterrissado
Na porta de uma igreja
Repentistas em peleja
Sem um verso malcriado.
LP todo arranhado
Na agulha não enganchar
A solidão não criar
Uma saudade danada
Uma noite enluarada
O poeta não inspirar.

Fofoqueira não passar
Um boato para frente
Lava que não seja quente
Fogo alto não queimar.
Quem gosta de estudar
Ser preguiçoso pra ler
Benzedeira não benzer
Quem lhe chega adoentado
E um brega bem cantado
Não fazer alguém sofrer.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

XADREZ E TALVEZES

No jogo do xadrez, assim como na vida real, muitas vezes você sacrifica peças para garantir o jogo.

Sei o quanto é difícil na vida real tal escolha. Afinal, passaria à infame decisão de escolher quem sacrificar. Isso é terrível do ponto de vista humano. Muito. Nem quero pensar.

Mas se não acabarmos com esse medo poderemos estar sacrificando uma geração inteira. Isso sob o ponto de vista das oportunidades.

A economia destruída fará um prejuízo sem tamanho.

Trará mortes em números incalculáveis!

Terça-feira cedinho vi um especialista falando “só no Brasil poderão ser 40 milhões de desempregados”.

Ora! Se temos doze milhões e não há um sinal de trânsito em Natal sem pedintes esmolando, imagine com três vezes mais.

Caso se confirme, as ruas ficarão intransitáveis. Haverão saques, o crime subirá sem igual, empresas fecharão aos montes, sem arrecadar os estados e prefeituras atrasarão ainda mais salários, o povo inteiro ficará num colapso de nervos, a intolerância no meio social subirá a níveis jamais vistos!

Nos EUA, cujo índice de desemprego ancorou na gestão Trump em 3,5%, ontem ouvi falar em 30% da população desempregada com uma possível recessão se confirmando. Só que lá eles têm lastro de fato em reservas de capital. Só para começar o FED destinou US$ 2.000.000.000.000,00 (dois trilhões de dólares) para salvar a economia. Um PIB anual do Brasil!

Ademais, a oposição nos EUA, salvo raríssimas exceções, aliou-se ao governo nessa batalha.

Eles sabem jogar o xadrez político.

Eu trabalhava num banco e sei dos danos de uma inflação de 80% ao mês, como vi na gestão Sarney. O Brasil hoje não tem “emocional” para viver 8%a.m, que dirá mais.

Então, não é um jogo fácil de ser jogado.

Eu não votei, tampouco simpatizo com o homem vestindo a Faixa Presidencial. Nunca enxerguei com bons olhos a forma fanfarrona e debochada de suas respostas. Não concordo com a sua percepção de levar tudo para o lado pessoal. Sinto falta de alguém mais diplomático na Cadeira Presidencial, cujo assento é o mais importante do país. Mas, convenhamos, a forma como a oposição o tem tratado, os métodos usados pela mídia na criação de armadilhas para ele se ferrar nas respostas (já que fala o que pensa), está se tornando algo que, em mim, dá ânsia de vômitos de tão eméticos e nojentos que são.

Estão conduzindo esse momento olhando apenas para o peito onde deita a Faixa Presidencial, e como são hipócritas fingem preocupação com o povo.

Tudo quanto o Brasil menos precisa neste momento tão delicado é uma nação dividida e os Três Poderes guerreando entre si.

Quanto ao nosso “Doido Presidente”, talvez ele esteja querendo olhar para os dois lados, não sabendo se expressar como um estadista. Não tem tato e, como falei acima, leva tudo para o lado pessoal.

Talvez se tivesse a postura de Mandetta diria o que realmente pensa, de outro jeito mais educado e menos debochado, e não seria tão atacado. Quiçá lhe falta a diplomacia dissimulada e demagógica da maioria dos políticos. Então, neste caso, eu prefiro o seu ego inflado e “doido”. Porém, sincero.

O Presidente estadunidense Donald Trump e o Primeiro Ministro japonês Shinzō Abe, falaram exatamente aquilo. No entanto, como o fizeram de uma forma mais séria, tampouco enfrentam uma oposição fixando o olhar apenas no poder, nem brigam com uma mídia vil e irresponsável como a que temos visto por aqui, não foram tão execrados como o nosso chefe.

Bolsonaro não tem acolhimento num momento como esse de incertezas. E os que o acolhem, na maioria, são fanáticos tão imbecis quanto os que o atacam pela ambição de mais poder, ou pelo simples prazer de ver o circo pegando fogo.

Uma coisa é certa. No jogo do xadrez ninguém – jamais! – sacrifica o rei.

Apenas a minha visão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VÍRUS BRASILIS

Um sábio me disse assim:
“Em toda grande nação
Existe um povo sabido
Vivendo em união
Mas no meu Brasil querido
O povo é dividido
E vive de confusão.”

Irmão briga com irmão
Até no meio da praça
Um defendendo ladrão
Ou um cão que nem tem raça
Cada um quer ter razão
E o Brasil na contramão
Vê que a política não passa.

Político ruim não se cassa
Sempre tem quem o defenda
Os que brigam não enxergam
Nos seus olhos essa venda
Que o vírus desta nação
É o vírus corrupção
E essa eterna contenda.

Enquanto existe essa briga, com cada um defendendo o seu deletério num fanatismo cego, o mundo pede socorro.

E o Brasil não avança.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

É GUERRA!

É seríssimo este momento no mundo.

O Coronavírus veio para dar uma sacudida em tudo! Em todos!

Mudarão as respostas a partir da mudança dos questionamentos, da evolução dos princípios e conceitos, das práticas e dos métodos; pois, empresas e até países quebrarão.

Cresce cada hora mais a certeza de uma recessão mundial. E não falo aqui dos debates assistidos na mídia entre os apóstolos do caos. Falo dos fatos desencadeando prejuízos já incontáveis.

Para o nosso bem – quiçá sorte – moramos num país rico no setor primário.

Talvez saiamos fortalecidos no âmbito econômico. Será?

Se o Brasil entender de ampliar sua indústria de beneficiamento, quem nos segurará?

Poderíamos ser os novos EUA, em importância assumida, como foram os estadunidenses depois da Primeira Grande Guerra? Somos capacitados para tal?

Tudo dependerá de como se comportarão nossos governos – federal e estaduais – e de como os “Três Poderes” se entenderão entre si, depois da passagem desse tsunami viral. Também dependerá de como nós agiremos, enquanto cidadãos e nação. Principalmente nós!

Ninguém está dizendo, ou percebendo, e se está prefere não falar ainda.

Mas temos vivido dias angustiosos como se em guerra tivéssemos.

Elas, digo, as guerras, sempre serviram historicamente para alavancar as nações. Às vezes até as perdedoras saem fortalecidas, ou se fortalecem com o aprendizado da peleja. Por incrível que pareça.

Eu tenho um livro, cujo título é Civilização – Ocidente x Oriente, do historiador britânico Niall Ferguson.

Fruto de extensiva pesquisa, o livro é uma narrativa interessante demais, abordando o avanço social e tecnológico dos europeus sobre os chamados Reinos do Oriente, argumentando como um dos principais motivos desse desenvolvimento justamente as guerras na Europa e as duas grandes mundiais, além de outros aspectos menores.

Pois bem, estamos numa guerra!

Podemos sair fortalecidos?

Sim. Podemos!

O problema, porém, é justamente esse: somos um país dividido.

Após as grandes contendas ou crises mundiais, os povos dos países desenvolvidos realmente se uniram, cada um em sua nação. Aqui infelizmente se divide ainda mais.

Ontem tivemos um exemplo disso.

Agora, talvez caiba a nós, cada um por si, tentarmos não alicerçar essa disputa infame de “nós x eles” destruindo o nosso país.

No entanto, não obstante esse meu desejo e pensamento de um Brasil maior pós crise Coronavírus, infelizmente o primeiro exemplo de “Estado burro” já deu suas caras.

A Bahia que o diga.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Já tive meus dias de admirador dos movimentos de esquerda, levado pela leitura da coleção Grandes Líderes, obra da Editora Nova Cultural, na segunda metade dos anos oitenta do século passado.

Eu sendo um jovem com pouco mais de quinze anos, antes ouvira do meu amigo Zé Lúcio – eternamente vestido com uma camiseta branca de estrela vermelha silkada na frente, com duas letras vazadas formando o desenho – das grandes lutas por igualdade social travadas mundo afora. Oito anos mais velho, Zé já havia andado pelo ABC Paulista, e me dava gosto ouvir seus depoimentos “da luta de classes”.

Aquilo fazia brilhar meu olhar de jovem inquieto e contestador de tudo.

Aqueles livros, cada um trazendo a biografia de um “grande líder”, contavam-me das lutas e galhardia de homens como Lênin, Trotsky, Stálin, Kruschev, Tito, Fidel, Guevara, Alende, entre outros.

Fascinou-me tanto os ideais do Comunismo, arrimados e reforçados nas conversas com meu amigo Zé Lúcio, que eu mandei pintar nas costas de uma T-shirt a figura de um soldado mascarado cuspindo na bandeira estadunidense.

Eu era um menino franzino de corpo e pequeno de ideias.

Dezesseis anos depois o mundo havia mudado em uma série de coisas. O Brasil principalmente!

Em setembro de dois mil e três, eu já era homem feito e estava assustado com o rumo da intolerância político-partidária vista por mim. Não se podia ser contra quem estava sentado na principal cadeira do país. Também me assustava categoricamente o fanatismo desacerbado em torno daquela figura.

Foi percebendo a religião se formando, que eu escrevi naqueles dias Galope cego, surdo e mudo.

Ei-lo, em letras itálicas para melhor destaque:

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Galopando em prazeres não experimentados
Segurando as rédeas de um deleite mundano
Exalando brisa pérfida para todos os lados
Segurando o cetro da impiedade como um tirano
Emitindo hálito fétido e sentindo nele alegria
Sorrindo, gargalhando e se alto promovendo
Olhando para trás. Eis toda a cavalaria!
Em tudo muitos, por poucos morrendo.
E os cavalos, eles mais nobres que tudo
Mesmo marcados por ferro tão execrável
Levam guerreiros vendidos, tristes… mudos.
Sorriem da graça desse suborno lamentável.
E o que dizer daqueles que o adoram
Como um ser divino vestido de impurezas
Que de tão vendidos, loucos, imbecis… Por ti, até choram.
Não veem tua estupidez cercada de esperteza.
E de tão cegos, submissos beijam-lhe os pés
Pensam que são as mãos de um nobre santo
Não reconhecem na verdade, esse ser que tu és!
Esperam de ti um simples, um breve acalanto.
Mas em teu galope louco e desvairado
Que atropela até a tua própria moral
Sobre a besta da mentira, vais à frente montado
Desejando a todos, não o bem, mas o mal.
E os fiéis que te seguem sorrindo
Têm em seus rostos essa máscara profana
Por baixo dela um coração se partindo
Apegam-se à mentira que de ti emana
Confiam nela como uma salvação
Percebem o pouco valor que eles, para ti, têm
E o sentimento maléfico que vem do teu coração
Que são usados, abusados e subtraídos também.
Até imaginam a forma de se libertarem
Mas faltam-lhes força e coragem para tal
Pois sentiram dia a dia elas se minarem
Enquanto tu fortalecido, cultivavas o mal.
E mesmo babando cientes dessa triste condição
À qual se obrigaram edificando tua incondicional mordomia
Não enxergam sequer as grades de tão repugnante prisão
Que os cerca a todos, no cerne dessa pseudestesia.

“Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras, e todo o que ama e pratica a mentira”. Apocalipse 22:15

Salvei-me!

Depois de haver mudado de ideias e ideais políticos o meu amigo Zé Lúcio deixou de falar comigo.

Ele ainda desfila com a mesma estampa em suas camisetas.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CAÇA E CAÇADOR

De mim mesmo sou um caçador feroz
Virei caça acuada sob uma grande planta
Tento esconder-me, mas pouco adianta
Pois quando corri em minha fuga veloz
Cansei meus pés, caí, presa do meu eu atroz.
Há nos galhos da árvore olhos arregalados
Bicos sedentos, como eu caça também calados,
Das aves de rapina espreitando a minha vida
Sou fera atocaiada e pronta para ser abatida
Oxalá meu algoz perdoe todos os meus pecados!
Eu miro em meu próprio rosto de vincos suados
Diviso o meu desgosto, aguardo o momento
Sob a dor do medo, vivo o meu sofrimento
Vendo-me mirado, são olhos esbugalhados
Do meu eu caçador, de dias tão cansados
Que logo se acabarão, porque serei vencido
Sou uma presa fácil, sou bicho sem bramido
Empunhando a arma da minha desolação
Carregada com os projéteis da minha aflição
Esperando o romper da carne, coração ferido.
(O que será de mim por mim?)
Paro de respirar por um momento
Fecho o olho, vejo a mim mesmo suando.
Sob a árvore.
Debaixo das aves de rapina.
Vejo nos olhos da minha caça, que sou eu
Em meu olhar temeroso, de bicho acuado
Miro.
Minha vida em minhas mãos, sem brilho
Puxo o gatilho
Fui atingido no peito.
(A carne rasgou. Meu coração atingido)
Cresci!

Natal/Julho de 2012

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O GARGALHEIRA – Açude Marechal Dutra

Artigo escrito por este colunista em 2008 para um trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da disciplina Geografia Aplicada ao Turismo, cumprida como complementar do Curso de Administração. A foto que ilustra a postagem foi doada por Francisco de Hilda- Facso.

Em 1909, no governo de Nilo Peçanha (14/06/1909 – 15/11/1910) foi criado o IFOCS (Inspetoria Federal de Obras contra as Secas), tendo como subordinada a “Comissão de Açudes e Irrigação”. Depois O IFOCS foi transformado em DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), subordinado ao Ministério da Viação e Obras Públicas, que tinha à sua frente o Ministro Miguel Calmon du Pin e Almeida, cuja pasta já havia ocupado no governo anterior de Afonso Pena.

Alguns acarienses apelavam com insistência junto aos órgãos estaduais e federais para a construção de um reservatório de água em nossa terra. Entre outros, podemos encontrar nomes como o do Coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão e seu irmão Coronel Cypriano Bezerra Galvão de Santa Rosa, mais Joaquim Servita Pereira de Brito, Antônio Basílio de Araújo e do Padre Francisco Coelho de Albuquerque.

Os primeiros estudos foram feitos para a construção da barragem, e no mesmo ano de 1909 a primeira planta topográfica do Gargalheira, assinada pelo Engenheiro Ignácio Ayres de Souza, e visada pelo Engenheiro Benjamim Piquet Carneiro, então chefe de seção da referida comissão, foi apresentada. Mostrava como principal finalidade o fechamento do boqueirão, a fim de acumular as águas. Na época foi consignada uma verba de 900.000$.000 (Novecentos contos de réis), do Orçamento da União, para o trabalho de construção do açude.

Em 1913, já no governo de Hermes da Fonseca (15/11/1910-15/11/1914), as obras começaram, a cargo da firma Saboia de Albuquerque, que concluiu em 1914 uma pequena barragem de alvenaria de pedra, cuja argamassa era composta de cal e óleo de baleia. Então, nada mais foi realizado até 1921. Esta primeira barragem, acabou sendo demolida em 1955, para que pudesse ser feita a construção definitiva.

Em 1922, ano do Centenário da Independência do Brasil, já no governo de Epitácio Pessoa (28/07/1919-15/11/1922), tendo como Ministro da Viação e Obras o Sr. José Pires do Rio, foi dado o maior impulso à construção do Gargalheira, quando as obras foram entregues à firma inglesa Wangler Walker, e já no final de 1923, por ocasião da visita ao local do governador do Rio Grande do Norte, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, foram observadas a construção de grandes instalações, acampamentos, oficinas, residências para servidores, casa de hóspedes (chamada outrora de Casa do Major e onde atualmente se encontra o Hotel Pousada do Gargalheira), pavilhões administrativos, etc. De construções técnicas propriamente ditas, infelizmente nada ou quase nada havia sido feito. O chefe das obras nesta época era o Sr. Manuel Ubaldo da Silva (seu Neto).

Em 01/03/1926 é eleito o Sr. Washington Luiz à presidência da república (15/11/1926-24/10/1930). Na condição de presidente eleito, em 08/08/1926, Washington Luiz visitou as instalações do Gargalheira, encontrando-as abandonadas, tendo os ingleses se retirado, com um quadro evidente de muita festa feita pelos ingleses antes da partida. Conta-se que o presidente olhou tudo de forma sistemática, demorando-se em cada lugar e fazendo muitas perguntas, não escondendo a sua tristeza num lamento: “Os ingleses foram-se levando o ouro e deixando a ferrugem”. Em seguida deixou o lugar e foi visitar a Estação Experimental de Bulhões, projeto de 1922 do então deputado federal José Augusto Bezerra de Medeiros, agora governador do estado, cuja aprovação se dera pela portaria do Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, Sr. Miguel Calmon du Pin e Almeida, já no governo de Arthur Bernades, em 14/04/1924, passando a funcionar em 24/01/1925, tendo como seu primeiro agrônomo o jovem acariense Otávio Lamartine de Faria, que depois foi prefeito de Acari.

Um fato curioso: os ingleses iniciaram a construção de uma fábrica de cervejas, logo abaixo da casa de hóspedes, mas não chegaram a concluí-la. Segundo o saudoso Coronel Ary de Pinho, seria uma fábrica de gelos para refrigerar a água que seria utilizada no concreto.

Em 1950, já no governo de Eurico Gaspar Dutra (31/01/1946-31/01/1951), é feita nova tentativa, a pedido do deputado estadual, o acariense José Gonçalves Pires de Medeiros, que se deslocou para o Rio de Janeiro, então sede do Governo Federal, para pleitear várias obras para o seu amado Rio Grande do Norte.

Desta feita, sob a responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (ex-IFOCS), foram feitos vários reparos em parte das instalações, casa de hóspedes, construção de estradas, etc. Inicialmente, o Chefe da Residência (como era chamado o chefe geral das obras), subordinado ao 5º Distrito de Obras de Natal, foi o Engenheiro Leonardo Coutinho, sucedido pelo Engenheiro Geraldo Wamslay e Engenheiro Clóvis Gonçalves dos Santos, que não puderam muito realizar, em virtude da pouca verba destinada ao empreendimento principal, ou seja, a construção da barragem. O nosso saudoso Deputado José Gonçalves, ao ver os seus pedidos atendidos, propôs perante a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, que o nome oficial do Açude Gargalheira passasse a ser Açude Marechal Dutra, o que obteve aprovação unânime dos colegas parlamentares.

Em 1954 o presidente Café Filho (24/08/1954-09/11/1955, criou os Grupamentos de Engenharia. O Coronel Rodrigo Otávio Jordão Ramos, então Ministro da Viação e Obras Públicas, criou os Batalhões de Construção, um deles em Caicó – RN. Esses batalhões tinham a missão de realizar os trabalhos previstos para serem executados pelo DNER, DNEF e DNOCS. Também foi criado o 1º Batalhão Rodoviário, depois denominado 1º Batalhão de Engenharia e Construção, inicialmente com sede em Campina Grande – PB e depois transferido para João Pessoa, capital daquele estado. Foi esse batalhão que recebeu a incumbência de concluir Gargalheira. Isso só foi possível graças ao convênio firmado entra o 1º Grupamento de Engenharia e o DNOCS.

Em abril de 1955 o capitão Saint’Clair Abel Fontoura Leite chegou a Gargalheira. Seu primeiro ato foi derrubar as casas feitas de palha na entrada da área do açude, e as construir em alvenaria. No mesmo ano, no mês de agosto, chegou em Acari o Major Ary de Pinho, atendendo o convite feito pelo Coronel Rodrigo Otávio, à época comandante do 1º Grupamento de Engenharia. Com a chegada do Major Ary de Pinho, os trabalhos foram intensificados, inicialmente com a destruição da antiga barragem feita em 1914, e depois os esforços foram focalizados na construção da nova barragem, bem como nas obras que lhe dariam suporte, por exemplo: a vila operária, a escola, o hospital, o posto médico e dentário, o barracão, o açougue, o clube recreativo, o cinema a capela religiosa, etc. A capela que tem como padroeira N. S. De Lourdes, foi inaugurada em 16/07/1957, e foi o celebrante da primeira missa o Bispo D. José Adelino Dantas.

Em 29/10/1956 foi iniciada a concretagem da parede e no dia 20/10/1958 a obra foi dada como concluída. Neste dia a prefeitura de Acari ofereceu um almoço (churrasco) aos funcionários da obra e naquela ocasião o prefeito de Acari, o saudoso Dr. Paulo Gonçalves de Medeiros, irmão do Deputado José Gonçalves (que tanto esforços havia desprendido para a construção da obra), se fez representar pelo seu vice-prefeito, o Sr. Manuel José Fernandes (seu Bilé), que proferiu entusiasmado discurso.

No dia 27/04/1959 foi realizada a festa oficial de encerramento, exatamente cinquenta anos depois de feita a primeira planta topográfica. Durante cinquenta anos a natureza esperara que a boa vontade e a mão do homem fizessem a sua parte. Estava ali, de um estreito vale entre serras, o mais belo reservatório d’água do interior do Rio Grande do Norte e um dos principais pontos turísticos para quem percorre as sendas do Seridó: O Gargalheira.

A barragem, construída em concreto armado entre as serras do Abreu, da Carnaubinha, Olho d’Água e Gargalheira, tem uma altura que chega aos 25 metros e 250 metros de coroamento, a bacia hidráulica ocupa uma área de 780 hectares e a capacidade máxima de armazenamento chega aos 40 milhões de metros cúbicos.

José Pires Fernandes, (1997, p. 24; 25) dá a seguinte ficha:

“A parede é feita no estilo Arco Gravidade, com blocos de 12 metros de extensão a montante, com juntas horizontais espaçadas de 1,5m; a ligação dos blocos é feita através de superfícies endenteadas, providas de diversos elementos (chapas de cobre, chapas de ferro e furos para a injeção de asfalto), para assegurar a vedação e tratadas posteriormente com injeções de cimento, para assegurar o monolitismo dos blocos.”

Segundo o engenheiro da CHESF, o acariense Willian Ferreira da Silva, em entrevista concedida, a edificação em Arco Gravidade da parede é raramente encontrada, existindo pouquíssimas em nosso continente.

Gargalheira está situado na bacia do Rio Piranhas, sendo um represamento do Rio Acauã, no boqueirão que lhe deu o nome. Com a graça de Deus, Gargalheira sangrou pela primeira vez no dia 20/03/1960. A última sangria começou no dia 18/02/2004 e deixou de transbordar em março do mesmo ano.

A origem do seu nome é explicada do nome gargalho, gargalo+eira, ou seja, garganta, entrada, abertura estreita, desfiladeiro, loca, buraco, passagem estreita entre duas montanhas ou entre duas serras. FERNANDES (1997, p.9) diz que “como na área onde está situada a barragem existem muitas gargalheiras, o povo passou a chamá-las no plural, o que ficará para sempre”.

Entretanto, singular explicação nos deu doutor Paulo Frassinete Bezerra, escritor acariense se assinando como Paulo Balá, através de e-mail enviado particularmente a Jesus de Miúdo:

“Ora, pois, deu de cair em minhas mãos uma revista intitulada “Diálogo Médico”- ano 18 – número 2 – maio/junho/2003, editada por “Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos AS”, com a seguinte matéria: “Exposição. NEGRAS MEMÓRIAS. Cerca de 500 objetos, do século 18 aos dias de hoje, fazem parte da exposição Negras memórias, Memórias de negros – O Imaginário Luso-Afro-Brasileiro e a Herança da Escravidão, sob a curadoria de Emanoel Araújo […] A matéria é ilustrada com duas gravuras […] E breve nota explicativa:

“GARGALHEIRA – usada para castigar os escravos”.

Assim, vem daí o nome do lugar com o seu verdadeiro sentido, ou seja: “gargalheira – objeto de tortura usado na escravidão” como fala o texto, conquanto ela – a escravidão – não tenha alcançado, entre nós, o significado que teve na zona canavieira. Aliás, a palavra está assentada em anotações antigas no singular, do mesmo modo como se escuta no linguajar diário até por ser vício de linguagem o de se engolir o plural das palavras.

Receba, pois, caboclo, deste já velho escrevinhador, por todo este mês de Santana que corre, fraternal abraço sertanejo.”

A estrutura deixada pelo DNOCS, no entorno da parede do açude, está sendo aproveitada como atrativo turístico. Mas tudo de forma amadora, ainda sem a preocupação de se oferecer um bom atendimento ao turista.

Faz parte das Sete Maravilhas do Seridó, em eleição realizada através de um respeitado jornal virtual, editado pela jornalista Suerda Medeiros, blog de notícias focando a região do Seridó. Em recente eleição das Sete Maravilhas do Rio Grande do Norte, foi eleito na terceira colocação. Fatos que corroboram a afirmação de Luiz da Câmara Cascudo quando, em conversa com algum amigo acariense, sempre chamava o lugar de “símbolo vivo do Seridó”.

A Serra do Pai Pedro, emprestando a sua base para a construção da parede, é um ótimo lugar para a prática de esportes radicais, tais como a escalada, trekking e rappel.

O antigo estreito, agora transformado em Gargalheira, volta a esperar pela boa vontade e pela mão do homem, para oferecer uma boa estrutura de lazer, aventura e diversão para quem visita aquela região.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AS TERRAS DO MEU AVÔ

Inspirado em foto de Jácio Mamede:

Meu avô me deu caminho,
Bom sangue, bom coração,
O amor por este chão,
De caatinga e tanto espinho.
Vai longe o meu carinho
Por esse céu azulado,
Esse pago, chão rachado,
Por esse meu pé-de-serra
E por esta boa terra,
Onde vovô foi criado.

Aqui eu também nasci,
Aqui também fui criado.

De vovô, abençoado,
Herdei fé, herdei coragem,
Por isso em sua homenagem,
Cavalgo o sertão amado.
Às vezes fico calado
Dentro da vegetação
Ouvindo um tal coração
Como se vovô vivo estivesse
Pedindo a Deus, numa prece,
Chuva para o seu sertão.

“Pai nosso que estás nos céus…”
Mande chuva ao meu sertão.

Uma sublime oração
Eu ouço sem ver ninguém
Seguindo e dizendo amém
Quero chuva em meu torrão.
Me invade a emoção
Na serra, sobre o platô,
Sol baixando, céu bordô,
E eu feliz cavalgando
Enquanto sigo amando
As terras do meu avô.

Natal-RN, na primeira Lua Cheia de 2015

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAIXÃO NÃO CONSUMADA

Era paixão de primas, de madrinha, de afilhada, uma mais velha, outra mais nova… ambas loucas!

Talvez a cara pintada acenda esses desejos, esses fetiches nas mulheres desprovidas de certa alegria. Talvez…

O velho palhaço entrou no picadeiro afastando duas belíssimas cortinas em cetim vermelho para a sua passagem. Trazia na mão esquerda um troféu recebido como prêmio. Fora eleito O Melhor Palhaço do Brasil havia três meses apenas.

O troféu foi delicadamente repousado sobre a madeira do picadeiro.

Também trouxe no braço direito o filho, único, ao palco. Todas as luzes do ambiente foram apagadas, restando apenas um canhão amarelado iluminando ambos, do peito do artista para cima.

O garoto de uns seis anos nos braços do pai, vestido e pintado como palhaço, piscou os olhos duas vezes para acostumar a vista à iluminação.

Iniciou-se o diálogo.

– Meu filho, quando eu não puder mais pintar o rosto?

– Eu pinto, papai.

– E quando eu não puder mais vestir roupas coloridas e folgadas?

– Eu visto, papai.

– E quando eu não puder mais calçar sapatos longos?

– Eu calço, papai.

– Meu filho, e quando eu não puder mais subir ao picadeiro?

– Eu subo, meu pai.

– E quando, meu filho, eu não puder mais contar piadas?

– Eu conto, papai.

– Quando eu não puder mais fazer uma criança sorrir?

Houve um silêncio. Teriam ensaiado aquele singular diálogo?

– Eu faço, meu pai.

Havia um silêncio em todo o circo. Um silêncio de alguns minutos parecendo secular, quebrado pelo estalo do beijo do velho palhaço no pequeno em seu braço.

– Estão vendo? Ser palhaço é uma profissão como outra qualquer, dela me orgulho. O palhaço exerce uma profissão tão digna quanto a de bancário, por exemplo (…)”

E o emocionante discurso continuou para uma plateia emudecida.

Havia choro na plateia. Das cadeiras às arquibancadas de tábuas gastas e soltas, chamadas de “poleiros” pela gente daquela pequena cidade.

Eu vi.

Eu ouvi.

Eu sabia a quem era direcionada aquela mensagem.

Ela, que por orgulho desistira daquela paixão avassaladora, sentava-se em companhia de amigas no lugar mais caro das numeradas, a poucos metros do lugar da cena. Também chorava disfarçadamente, com um sorriso bobo no rosto maquiado. Um choro de certa vergonha por sua falta de ousadia, de lágrimas borrando-lhe a pintura feita com capricho.

Do picadeiro o velho palhaço podia sentir o seu cheiro, de perfume bom e caro, colocado especialmente para chamar-lhe a atenção.

Ela baixou a cabeça. Era o sinal de sua covardia.

Quiçá tivesse sido encorajada em entregar-se aquele amor e hoje dançasse rumba pelos interiores do Brasil, desejada, alegre, extrovertida, de bem com a vida.

“Meninas de lá de Cuba que vão à praia toda manhã (…) Depois de tudo eles querem: panrã-pan-pan. Pan-pan!”

Eu nem era pai ainda.