JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TIRANDO DA ORFANDADE

Na tarde do dia 16/12/2013 eu recebi por e-mail – não me lembro mais da parte de quem – a fotografia de uma moça vestida com interessante biquíni.

Na mesma hora salvei o conteúdo no meu computador pessoal e escrevi uma glosa fescenina, tendo a foto como inspiração.

O segundo passo foi enviá-la, junto com os versos para o Jornal da Besta Fubana, a fim de ser publicado na minha coluna. O que foi feito

Cerca de meio ano depois eu recebi num grupo de WhatsApp a foto com a glosa, editadas em uma montagem. Só que a autoria dizia apenas se tratar “de um poeta da Internet”.

Não sei se por displicência, ou por má vontade, quem a copiou não citou o verdadeiro autor, tampouco o lugar da Internet de onde havia copiado.

Daqueles dias de lá para os dias de cá, eu perdi as contas de quantas vezes recebi a mesma foto/montagem sem os créditos devidos.

Inclusive até no nosso grupo do Cabaré do Berto ela já foi veiculada, sendo que na oportunidade eu consegui o link da postagem original e desfizemos o mal entendido sobre “o poeta da Internet”. Infelizmente quando foi trocada a plataforma de armazenamento do JBF, tal link se perdeu.

Ontem à noite, domingo quente nesta capital potiguar, outra vez a dita foto/montagem bateu em minha porta pelo WhatsApp.

Resolvi desfazer o mal entendido de uma vez por todas, para tirar da orfandade intelectual essa glosa filha minha.

Apesar de não ser nenhuma obra prima, sinto-me no dever de esclarecer para fazer jus também ao JBF – essa gazeta dita escrota e tão amplamente acessada – que tem me dado voz e vez, mesmo eu sendo um rabiscador de versos limitado.

Fica, portanto, esclarecido de uma vez por todas.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PRIQUITO DE PEDRA

Ali pelos meados dos anos oitenta, passou pelo Cabaré da Rainha, propriedade de Maria Tamborete, uma menina – na verdade nem tão menina assim – que se chamava Aparecida da Glória dos Santos.

Atributos físicos desejáveis possuía poucos, fora a boca de Sophia Loren e os olhos azuis de Xuxa.

Mas, isso quase nada importava. Era requisitada por um exercício seu e inspirador, sendo por ele que eu lhe pus em nossa turma de adolescentes o apelido de Glorinha Priquito de Pedra, depois simplificado apenas para Gê-Pê-Pê.

Explico a alcunha: quando Gê-Pê-Pê queria, dava uma trancada no pé da pomba do camarada, sendo muito mais fácil arrancar a Excalibur da pedra, que tirar o ferro de dentro dela.

Porém, meu amigo Jânio Sebinho, então aluno de Medicina no Recife, bem menos leitor de romances que eu, dizia “o primeiro pê é de ‘prende’, e o segundo de ‘pica’.”

A fama desse aperto já corria o sertão.

Certa feita, numa tarde amistosa, quente e das conversas lacônicas do mês de novembro, o velho Mané de Toinho Queixada, que chegara viúvo do Sudeste havia apenas dois dias, sabendo da fama desafiou seu compadre Ciço do Serrote dizendo “agora pronto! Pois, eu tiro meu pau na hora que quiser tirar”.

A teima começou em uma roda à mesa de cachaça na Bodega e Bar Leve Mais, de Seu Tião Caristia.

Teima vai e teima vem, apostaram a quantia de cinco garrotes e tiraram para o cabaré de Maria Tamborete, rua principal abaixo. Os compadres e mais uma turma de uns dez bebinhos, todos torcendo por Mané de Toinho Queixada; afinal, ele prometera desmanchar o produto da aposta em aguardente com limão e queijo de coalho assado.

O cabaré nem tinha aberto de fato naquele dia – ainda estava no meio da tarde – quando a passeata barulhenta chegou com Mané e Ciço à frente.

Maria Tamborete, a Rainha, só concordou em abrir a exceção cobrando uma taxa extra.

Dinheiro da aposta casado dentro de um chapéu, sobre a mesa e sob a atenção da dona do cabaré, mandaram chamar Gê-Pê-Pê.

Glorinha chegou ainda ajeitando os cabelos assanhados. Estivera dormindo desde um pouquinho depois do almoço.

Ciço lhe contou o caso da aposta e Maria Tamborete autorizou, já lhe entregando o valor extra cobrado.

– Se eu vencer a aposta, lhe pago outro extra – prometeu Ciço para ouvir um “pode deixar” de Glorinha.

Assim entraram num quarto Mané de Toinho Queixada e Simão dos Bodes, escolhido por Ciço como “inspetor da foda”.

Gê-pê-pê entrou uns quatro minutos depois.

De fora se ouvia Mané falando alto “tome rola, danada! Tome rola!”

Os bebinhos apreensivos exultaram quando ouviram o grito de Simão:

– Parece que Mané gozou!

Ciço não contou conversa e gritou de volta “agora tire o pau, que eu quero ver”, e arrematou:

– Segure aí, Glorinha, que tu num vai se arrepender.

– Agora não, que isso aqui ‘tá bom demais – gritou Mané de dentro do quarto.

E haja o tempo passar, o tempo passar, o tempo passar…

Lá para as oito da noite Ciço resolveu entrar no quarto na companhia de Maria Tamborete.

Encontraram Mané sobre Gê-Pê-Pê subindo e descendo, feito um menino de primeira foda.

– Que porra é essa, cumpádi Mané? Se não consegue tirar a pomba diga logo. Você perdeu a aposta.

– Na aposta eu disse que tirava quando eu quisesse, e eu ainda não quis – o compadre respondeu sem olhar sequer de banda.

– Glorinha, minha fía, você tá bem? – perguntou Maria Tamborete.

– Rainha, eu pensei que era para segurar só uma vez. Mas já vai bem numas cinco gozadas desse corno – respondeu meio angustiada, e acrescentou depois:

– Mas o pior nem é apertar o priquito quando noto que ele quer fugir – confessou fazendo uma caretinha.

– E o que é o pior? – quis saber a dona do cabaré.

Glorinha fez uma cara de tédio misturado com tristeza e choramingou:

– É esse outro batendo punheta quase na minha cara.

Quando disse isso deu uma relaxada e na displicência de Gê-Pê-Pê, Mané puxou a pomba para fora dizendo “eu também não aguento mais essas siriricas de Simão. Retiro-me”.

Ganhou a aposta.

Deixou o cabaré nos ombros dos bebinhos rua principal afora.

(De coisas que eu ouço sobre fatos do meu Sertão do Seridó)

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote de Troya D’Souza:

O caderno do tempo é testemunha
Dos bilhetes que fiz pensando nela.

Ante o tronco de um velho umbuzeiro
Com o meu canivete numa mão
Desenhei com cuidado um coração
E pus dentro seu nome com o aceiro.
Logo abaixo escrevi um “xis” arteiro
Pra juntar o meu nome ao nome dela
Esse tronco até hoje é uma cela
Que traz preso o amor naquela cunha
O caderno do tempo é testemunha
Dos bilhetes que fiz pensando nela.

Inspirado em uma décima do Poeta Marcílio Pá Seca Siqueira

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CIPÓ SAUDADE

A saudade é o açoite
De um cipó diferente
Dilacerando o espírito
Fazendo o tempo presente
Ser só um mero estado
Porque é lá no passado
Que o cipó bate na gente.

E quando o peito sente
Essa dor nunca passando
Às vezes os olhos fecham
A alma fica lembrando
E o cipó da saudade
Bate até com mais vontade
Só para nos ver chorando.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Glosa deste colunista, baseada no mote do poeta do Manoel Filó, Afogados da Ingazeira-PE (1930-2005):

“A morte está enganada
Eu vou viver depois dela.”

Eu sei que chegando a data
Da minha volta pra Deus
Cessarão os dias meus
Nessa terra que maltrata.
Minha alma será grata
Quando transpor a janela
Para uma vida mais bela,
Eterna e abençoada
“A morte está enganada
Eu vou viver depois dela.”

* * *

E esta é a glosa original de Manoel Filó:

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
“A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela”.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

Inspirado em mensagem recebida e vinda da parte de minha professora, a Doutora Eva Barros, orientadora do meu TCC no Curso de Administração, desabafando comigo pelo Whatsapp, eu fiz uma breve análise do que se passa em Cuba, sob o que podemos de fato saber.

De tudo que já li sobre esses conflitos atuais em Cuba, e das mensagens que eu troquei com o meu amigo Ernandes (antes do sinal de Internet dele ser retirado do ar n’A Ilha), mais me vejo divagando sobre o verdadeiro sentido das palavras “honestidade e lealdade”.

Falo da honestidade comigo mesmo quando não me engano no que penso ser verdade ou mentira, e de eu ser leal aos princípios defendidos por mim como ideais para uma vida digna de um ser humano, em qualquer lugar deste planeta.

Depois desses conflitos atuais em Cuba, vez por outra eu me pego pensado na frase do atual ditador cubano: “Haverá uma resposta revolucionária.”

Aí, tanto Eva Barros quanto eu, imaginamos o destino dos pobres que se insurgiram movidos por nenhuma das alegações oficiais do seu governo; mas, sim, dos motivos que brotaram deles mesmos, espontaneamente, impostos pela história, pela falta de liberdade e pela vida vivida em privações das mais variadas.

A mesma liberdade aclamada e defendida em qualquer lugar deste nosso planeta.
Uma liberdade buscada por milênios em incontáveis sociedades organizadas, desde que o homem (gênero) resolveu abandonar a vida nômade e se juntar em territórios depois chamados de cidades, estados e países. Nações!

Lamento por todos os cubanos da minha geração, ou aqueles mais velhos que eu em uma dúzia de anos.

Uma geração nascida e criada no regime “dos Castros”.

Geração crescida sem saber o significado amplo e real da palavra liberdade. Uma geração “castrada” literalmente em seu direito de saber a verdade dos fatos.

O que pode ser mais fake new do que uma vida inteira vivida ante a ponta da lança do autoritarismo, e sob a quarta parte do significado real das palavras?

Uma mentira jamais será meia verdade. Será sempre e apenas uma mentira inteira.

O que é sólido se desmancha no ar“, já se dizia no famoso Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.

Nada eu discrimino. Mas tudo eu analiso.

Aprendi isso quando eu escrevia o meu TCC sob a orientação da Doutora Eva.

E os tempos nem eram lá tão diferentes dos atuais.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

HOMO HOMINI LUPUS

Eu moro em Nova Parnamirim. Logo a Avenida Ayrton Senna é o meu melhor corredor.

Do penúltimo sinal para frente, sentido indo para o centro, é revoltante a quantidade de crianças nos sinais.

E cada dia elas estão em maior quantidade e menores no tamanho físico. Algumas de tão pequenas mal se equilibram sobre as pernas; porém, já aprenderam o símbolo universal do mendigar dinheiro: o polegar um pouquinho afastado do indicador.

Revolto-me não contra elas, ou contra seus pais escorados nos troncos de árvores, passivos e impotentes ante a fome, sob a miséria. Coitados! Essa gente é a verdadeira massa esquecida e vítima dos gananciosos e corruptos do nosso país. Dos assassinos e coveiros da esperança alheia.

Revolto-me na verdade contra os governantes nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Tanto municipais, quanto estaduais e federais.

Enquanto brigam pela razão e se acusam entre si para esconderem falhas e responsabilidades de seus governos, fazem vista grossa, desprezam e deixam à própria sorte aqueles por quem arrotam um cuidado mentiroso em seus discursos hipócritas.

Homo homini lupus” (O homem é o lobo do próprio homem). O dramaturgo romano Plautus (254-184 a.C.) já sabia disso há dois milênios! Thomas Hobbes (1588-1679), em seu clássico Leviatã, repetiu a sábia sentença milênio e meio depois. Nada havia mudado.

De Hobbes para os nossos dias o tempo contou três séculos e meio. E nesse ínterim, entre a pena de Plautus e o smartphone na minha mão, apenas a forma de saquear, escravizar e humilhar a dignidade do semelhante mudou.

E mudou para pior, porque agora é em silêncio.

LICANTROPIA SOCIAL

Enquanto o mundo caminha
De tristeza em tristeza
Eu sinto que a natureza
Do ser humano definha.
A humanidade mesquinha
Por terríveis divisões
Não procura soluções
P’ra fome do povo pobre
E ao mesmo tempo encobre
A ganância dos barões.

Eu encontro corações
Se dizendo preocupados
Com a dor dos desamparados,
Com a fome dos milhões.
Mas, de dentro das mansões
Nada fazem diferente
Eu tenho dó dessa gente
Sendo escrava da avareza
Vivendo a pior pobreza
De um coração prepotente.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CHORO E POEIRA

Foto do Instagram

Ontem eu vi pelas redes sociais a queda de um casarão em Caicó. E lamentei. Eu lamentei.

E não compreendi como um ato igual aquele pode ser feito numa cidade pulsando cultura, cujo campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte oferece há várias décadas um curso de História. De História! E fico imaginando nas barbas de quantos Bacharéis em História aquele ato foi praticado.

Não questiono e nem argumento sobre a geração de empregos (eu serei sempre a favor da geração de postos de trabalho, e da criação de riquezas). Certamente será ali um ponto comercial.

Mas, há meios de se alcançar os objetivos de lucro preservando o patrimônio de uma cidade.

Em Assu, por exemplo, o grupo de Supermercado Queiroz, com sede em Mossoró, comprou de uma lapada só algumas casinhas e um velho teatro intencionando pôr tudo no chão.

Uma lei municipal impediu essa aberração. O resultado foi a fachada do teatro preservada e uma das frentes de supermercados mais bonitas do Brasil.

Então, por aquilo que assisti ontem nas redes sociais, nasceu a poesia abaixo:

CHORO E POEIRA

Seu doutor, não foi querela
Eu chorei foi por desgosto
Quando vi na mídia exposto
O caso da casa bela.
Uma máquina amarela
Um trator sem compaixão,
Tão frio, sem coração,
Sem passado, sem história,
Desprovido de memória
Botou a casa no chão.

Não sobrou sequer um vão
Um só, seu doutor, um só!
Menos lindo o Caicó
Ficou com a demolição.
Não quero argumentação
Com quem apaga o passado
Pois, um passado apagado
Faz se perder a riqueza
Da cultura, da beleza,
Da história e do legado.

Eu vi aquele sobrado
Sob a pá da escavadeira
Chorando um choro poeira
Por cada vão derrubado.
Era um choro abafado
Pela queda de um paço
Por cada baque do traço
Perdido da arquitetura
Poeira ganhando altura
E se perdendo no espaço.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAIXÃO DESPETALADA

Há muito não faço falta
No jardim da tua vida
Nos canteiros do amor
Abriu-se uma ferida
Da qual brotaram as flores
Nascidas dos dissabores
Da esperança perdida.

Nossa paixão ressentida,
Morreu, já foi sepultada
No dia do nosso adeus
Minha alma enlutada
Plantou num certo canteiro
O meu choro derradeiro
Da relação acabada.

Tu fostes rosa plantada
Com as raízes em mim
Sustentada com meus beijos
Mas, tudo chegou ao fim
Agora resta a verdade:
Não sinto a menor saudade
De quando fui teu jardim.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Glosas deste colunista com o mote do poeta Du Leal:

Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

O assobio do vento me chamou
D’entre as varas tiradas de um pereiro
Separando os limites do terreiro
Que papai, como cerca, amarrou.
Lá pr’as bandas da serra clareou
Uma tira de luz muito afilada
Precedeu ao senhor “pai da coalhada”
Expulsando no grito a aflição
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

Se o clima seguiu muito abafado
Num instante o calor senti passar
No segundo seguinte ouvi cantar
O encanto da chuva no telhado.
Todo ancho, bastante animado,
Me postei sob a lata arreganhada
Pelos anos já muito enferrujada
E que o tempo mudou-lhe a profissão
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.