JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VAQUEIRO ALADO

Partiu seu Hermes Medeiros
Pra aboiar no firmamento
Juntar gado nas estrelas
Nos vales do encantamento
Vaqueirando a eternidade
Encourado na saudade
Tão livre quanto o vento.

Por esse seu chamamento
Os céus todos se alegraram
Serafins bateram palmas
Querubins comemoraram
Nas veredas divinais
Dos campos celestiais
Os santos todos cantaram.

Com a sua chegada.

Vai! Planta um mourão lá no céu, macho bom e arretado, e instala nele uma porteira.

Qualquer dias desses eu abrirei sua tramela.

E espera por nós, bom amigo! Um dia chegaremos por aí também e a prosa continuará no mesmo gosto de sempre.

Ah! E obrigado pelo carinho, pelos conselhos e pelas boas risadas, Seu Hermes.

O senhor foi luz na vida de muita gente.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TEMPO FELICIDADE

Inspirado nesta foto, feita pela lente sensível de Chrystian de Saboya

Lá onde o mundo parou
Embora haja noite e dia
Passa o tempo sem passar
No relógio da magia
Felicidade é uma bola
A vida é só uma escola
Ministrando a alegria.

O tempo se faz poesia
De versos muito suaves
Metrificados em tônicas
Como se fossem as chaves
Que a liberdade abrirão
Para cavarmos o chão
Onde varetas são traves.

E os meninos são claves
De uma estupenda canção
Correm no tempo parado
Notas de pura emoção
Na música do futebol
Depois de um lindo arrebol
Com os pés descalços no chão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

LOUCA VARRIDA

Desventura de Clarinha

Eu rasgo a roupa do corpo
Fico nua e enlouquecida
Grito coisas desconexas
Excomungando a vida
Eu fico descabelada
Me atiro pela estrada
Corro doida e esquecida.

Me chamam “Louca Varrida”
Gargalham do meu estado
Apontam dedos profanos
Não entendem o meu pecado
Que foi amar sem poder
Desejar e jamais ter
O querer do meu amado.

Que quando estava ao meu lado
Falava frases ditosas
Cantava tantas promessas
Sob juras amorosas
E eu, coitada, inocente
Como fui me tornar crente
Em falas tão mentirosas?

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PANO DE PRATO

Quando a porta fechou e tu partiste
E eu fiquei afogada em solidão
Ruminando essa tua ingratidão
Um punhal com o qual tu me feriste
O meu peito era apenas ave triste
Sobre um galho de angústia abandonada
Sem cantar, sem voar, sem comer nada
De tristeza morrendo a toda hora
Desde que resolveste e foste embora
Na saudade vivendo engaiolada.

Cada cena da gente relembrada
Duas águas escorrem em meu rosto
Vão salgando os meus lábios de desgosto
Vão deixando minha alma ensopada
Tu serás pela vida alma penada
Que no amor cometeu assassinato
Enquanto eu voltarei ao meu recato
Pois, perdi pela vida seus encantos
E quando eu me cansar de tantos prantos
O meu lenço será um pano de prato.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VIVER É FÁCIL

Por que há necessariamente o pensamento e a possibilidade da fuga quando nem sabemos o final da coisa?

Há tantas maneiras de partir sem precisarmos sair do lugar.

Não há cansaço que não passe com um banho, uma lavanda gostosa no corpo, uma cama confortável, uma xícara de chá ou café, e um livro de poesias para ser interpretado.

A janela aberta, ou o ar-condicionado no dezoito.

Viver é fácil.

Ouça mais, fale menos e, se possível, no intervalo de tudo dê vaga em seu pensamento para uma bela canção. A boa música expulsa intenções tolas, tirando a atenção das vontades torpes.

Ora, ora!

Por que essa demasiada necessidade louca de compreender o que existe para não ser entendido?

Eis a presunção humana em sua gênese. O homem nem compreende a si próprio e deseja desvendar os mistérios fora do seu eu.

Viver é fácil.

Implica em estar sempre com frescor no corpo, alma leve, coração em paz, nunca possuir mais que os olhos não possam cobrir e os braços abraçar de uma vez só. Sem almejar o que não se pode segurar nesse abraço.

Viver é fácil.

Envolve buscar tanto o riso quanto o amor em tudo. Isso sim é uma audácia vigorosa na arte de seu feliz.

Jamais esperar para fazer o bem depois, ou gozar apenas amanhã querendo ser dono exclusivo desse prazer.

Emprestar liberdade a tudo, e jamais cobrar a volta dela. Da liberdade.

Prender apenas a respiração quando algo for tão fantasticamente bom para nós, que queiramos eternizar o momento. O instante.

Mas, sempre ciente do amanhã vindo para ser outro dia. Embora mais uma vez seja um hoje. Saiba.

Banhos, perfumes, livros, chás ou café, música e sorrisos.

Um vinho? Quando merecer. Ou havendo a possibilidade de seus lábios beijarem um sorriso.

Isso basta.

Se somados a uma companhia não tratada como propriedade, para gargalhar da nossa gargalhada e podendo ser chamada de amor.

Isso é liberdade.

Não marque seu corpo nem a sua alma.

Marque os momentos.

Porque eles passam antes do final da coisa.

Viver não é apenas fácil. É simples.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MEUS DOIDOS

Uns ricos e outros pobres
Acary e seus doidelos
Uns sem ter onde morar
Outros morando em castelos
Mas, ninguém pode negar
Que os doidos do meu lugar
São do Brasil os mais belos!

Com eles tenho mil elos
De prazer, de gratidão,
De alegria genuína,
De tanto aperto de mão
Em cada doido, um amigo,
Em cada doido, um abrigo,
Que abriga o meu coração.

E eu não vivo sem a lembrança deles.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

IRMÃOS DO SOL E DA LUA

Quem ao homem deu o direito
À estrada da intolerância
Com destino à ignorância
No vale do preconceito?
Qual livro traz o preceito
Dizendo que a pele escura
Faz menor a criatura
Ante uma pele mais clara?
É a estupidez que separa
E causa essa fratura.

Pele com outra pintura
Independente do tom
Não faz do homem um ser bom
Se ele não traz a alma pura
E lhe faltando a ternura
Com qualquer um semelhante
Esse homem no instante
É simplesmente uma fera
Indomável, vil, megera,
De espírito horripilante.

Todo homem é apavorante
Quando se enxerga melhor,
Mais capaz, e bem maior
E do ódio é praticante.
A humanidade é errante
Nessa vida passageira
E a ideia verdadeira
Prega vivamos em paz
No Cosmos somos iguais
Não passamos de poeira.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RAÍZES

Inspirado por foto do terreiro da casa da Fazenda Carnaubinha, de Jácio Mamede

Para cá dessa porteira
Plantei meu resto de vida
Fincando meu coração
Pondo em minh’alma uma brida
Fiz do futuro um mourão
Do meu corpo um matulão
P’ra guardar qualquer saída.

E não saio mais de mim!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

NOVE ME FAZEM SORRIR

Tenho aprendido da vida
Retendo sempre a lição
De não olhar para o mal
Jamais lhe dar atenção
Ouvindo a voz do que é certo
Seguindo sempre de perto
Quem tem paz no coração.

Que não devo abrir mão
Do bem sempre dividir
Cultivando amizades
Nunca cansar de servir
E jamais me impressionar
Pois, se um me faz chorar
Nove me fazem sorrir.

E são a esses que eu devo abraçar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DESIGUALDADE SOCIAL

O jornalista e eu

Ele:

– Vamos falar de afastamento social.

Eu:

– Vamos falar de distanciamento social?

Ele:

– … Pode ser… Mas… Se…

Eu:

– Agora ou esperamos mais dois anos?

Silêncio dele.

Eu:

A cada dia passando
Mais eu tenho consciência
Que o mundo vai caminhando
Para um quadro de demência:
O rico com mais riqueza
O pobre com mais pobreza
E a “humanidade” em falência.