S’eu te fiz algum mal peço perdão Nunca tive intenção em magoar-te Mas fizestes deveras tua parte Magoou-me, também, sem intenção. Mas, dizer-te agora “foi em vão” Todo o tempo que junto nós passamos Cada vez que nós dois nos entregamos Faltaria demais com a verdade Vou falar-te apenas da saudade Dos momentos tão bons que nos amamos.
Resumiste somente à poesia Os rompantes tão belos da paixão Quando eras a minha inspiração Quando eras, por fim, minha alegria. Desprezaste do amor toda magia Dos instantes que nós nos declaramos
* * *
Não somente eu falhei, nós dois falhamos! Queres paz? Dar-te-ei tua vontade Mas, insisto em falar-te da saudade Dos momentos tão bons que nos amamos.
Na verdade, já se levantara, lavara o rosto, escovara os dentes, penteara os cabelos brancos e já rareando, puxando-os para trás, e esperava o café ser posto à mesa tamborilando com os dedos sobre a madeira do grande móvel.
Já havia até ido lá fora, na calçada, onde cumprimentara Seu Zé Dudu, fiel escudeiro.
O dia ainda não era de todo claro.
Mais duas horas e estaria subindo a rampa da Prefeitura; pois, era o nosso prefeito naquele tempo.
Olhava ao redor com o corpo encurvado, braços apoiados na mesa desde os cotovelos. Nu da cintura para cima, a calça presa à cintura por um cinto de couro cru na mesma cor dos chinelões nos pés, abaixo das pernas formando um xis. Observava as frutas no encerado à sua frente.
Uma a uma as comidas eram colocadas à mesa.
Quando se preparava para fazer seu prato, após a xícara haver recebido o café fumegante, Seu Zé Dudu entrou apressado pela porta larga dando para a cozinha.
– Seu Zé! Seu Zé!
– Diga, Zé. O que é que há? – perguntou Seu Zé Braz já reconhecendo certa impaciência do velho empregado.
Lá fora, na área da casa, um vigilante noturno andava inquieto de um lado para o outro.
Seu nome eu vou preferir omitir nessa história, a fim de preservar nossa amizade.
No entanto, deixem-me chamá-lo de Seu João Vigia, pondo-lhe esse apelido em respeito à sua pessoa que, até hoje, nega veementemente a narrativa.
Pois bem, voltando àquela manhã mal começada, com a barra se avermelhando no nascente…
– Seu João Vigia está aí fora. Disse que foi atacado ontem de noite – declarou Seu Zé Dudu.
Seu Zé Braz franziu a testa, passou a mão no rosto e ordenou que deixasse o vigilante entrar.
Da porta da cozinha mesmo Seu João Vigia foi se aperreando em falar.
– Seu Zé, agora de madrugada eu fui atacado por dois má-condutas.
– E foi, João? – perguntou seu Zé Braz sem se alterar. – Me conte aí, como foi isso.
– Seu Zé, eu estava dando a volta no prédio quando vi que dois cabras corpulentos tinham pulado o muro para o lado de dentro. Eram dois cabrões assim – explicou Seu João Vigia levantando-se nas pontas dos pés e suspendendo os ombros, com os braços abertos, enquanto arregalava os olhos.
– Eu gritei “quem ‘tá aí?”, mas não veio resposta. Nisso eu tirei o revolver da cintura e encampei caçada, porque vi quando dobraram para dentro de uma sala e…
– Zé Dudu, dê um copo de água a João. Ele parece ainda muito abalado – pediu Seu Zé Braz sem nenhuma alteração facial ou na voz. – Continue, João.
– … empurrei a porta com um chute. Daí, fui entrando na sala com muito cuidado. E fui entrando, e fui entrando – contava Seu João Vigia encenando seu andar, representando cada uma das passadas, desde o chute na porta.
Seu Zé Dudu chegou com o copo entregou na mão de Seu João Vigia. O homem tomou de um gole e continuou.
– Só que como eu entrei com o braço do revólver assim, ó, na frente, um dos sujeitos se agarrou no braço e outro me atacou pelas costas. Me botaram no chão, Seu Zé.
– E por certo lhe mataram – ironizou Seu Zé Braz.
João Vigia, sem perceber o sarcasmo do prefeito, gritou um “não, senhor!” como quem diz “Deus me livre!”.
Depois passou a narrar uma luta corporal pelo chão, fazendo os gestos, imitando as quedas e contando as palavras ditas pelos dois má-condutas.
– Eram dois? – perguntava o tempo todo Seu Zé Braz.
– Era! – respondia convicto o vigilante. – E não era gente de Acari, pois eu num reconheci nenhum!
E continuava a sua narrativa da briga no chão.
De vez em quando Seu Zé Braz perguntava:
– Eram dois má-condutas?
– Era! – respondia com seriedade o vigilante.
Após a briga ter sido contada três vezes, cada uma delas com o acréscimo de um novo elemento, Seu Zé Braz lhe interrompeu e perguntou:
– Mas e daí, João. Pelo que estou vendo não chegaram a lhe ferir. O que queriam esses dois má-condutas? – perguntou enfatizando o “má-condutas”.
– O revólver, Seu Zé! Não levaram um tostão! Nem meu, nem da gaveta do apurado.
– Apenas o revólver? – perguntou Seu Zé Braz abrindo um pão ao meio com os polegares. – Os dois má-condutas levaram só o revólver?
O vigia com os olhos arregalados balançou a cabeça afirmativamente.
– Tem certeza que os dois má-condutas levaram seu revólver?
O queixo do vigia subindo e abaixando.
Seu Zé Braz tomou o primeiro gole de café. Partiu um pedaço de queijo, pôs no pão, depois na boca, mastigou e engoliu.
Na cozinha reinava um silêncio inquietante. Seu João Vigia de pé, ao lado de Seu Zé Dudu.
– Zé Dudu, em cima da mesa ali na sala tem um pacote. Traga aqui – pediu Seu Zé Braz.
O empregado girou sobre os calcanhares e saiu. Quando voltou trazia um saco de papel com o nome de um supermercado. Entregou a Seu Zé Braz.
O prefeito estirou a mão com o saco, ao encontro de Seu João Vigia.
– Pegue João.
O vigilante deu um passo à frente e segurou o pacote.
– Abra, hômi!
Quando Seu João abriu a boca do saco e olhou para dentro, foi logo arregalando os olhos.
– Meu revólver, Seu Zé?! – perguntou espantado.
Seu Zé Braz engoliu o que tinha na boca, tomou um gole do café e respondeu.
– Ô Jõao, deixe de ser tão mentiroso, hômi. Eu fui de madrugada lá e você ‘tava dormindo. Chega roncava. Parecia um porco reclamando fome. E o sono era tão grande que eu tirei o revólver de sua cintura e você nem sentiu.
Novo silêncio na cozinha.
– Dois má-condutas. Rhum! Hômi, tome tento.
Seu Zé Dudu já estava se segurando na braguilha da calça, para não se mijar de tanto rir.
Seu João Vigia, coitado, Até hoje é meu amigo Mas quando falo no caso Ele ameaça “eu me intrigo” O seu nome verdadeiro Não falo nem por dinheiro E morro! Mas, eu não digo.
Eu sigo buscando compreender Veredas do mundo, estradas da vida Fazendo meu verso de alma ferida No averso da alma querendo morrer. Trazendo segredos para entreter Quem lê, quem escuta e quem se inquieta Com versos sobrando em obra incompleta Anseios e medos que já me consomem Não sei se é o poeta que finge ser homem Ou se é o homem que se finge poeta.
Cingido em tudo por um grande cinto Me sinto humano alegre e triste Se existe a derrota, o sonho persiste Quando pouco falo, é quando mais minto. Cada nova linha, é verso distinto Fúteis entrelinhas, ideia abjeta Mas, se eu escrever de forma correta Os versos de avesso me domem e me tomem Não sei se é o poeta que finge ser homem Ou se é o homem que se finge poeta.
Poesia inspirada em diálogo ouvido no trailer do filme O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Eu era um “menino véi buchudo” e acompanhava meu pai acompanhando o noticiário sobre a Eleição Indireta para Presidente do Brasil. O ano era 1985.
Quando o repórter anunciou que Tancredo Neves não sofria mais nenhuma possibilidade de derrota, papai pulou da cadeira com os braços para o alto. Eu pulei junto. Gritamos de alegria.
Comemorávamos a vitória do mineiro; de braços dados com a Democracia, filha legítima da Liberdade.
Tínhamos, papai e eu, uma esperança sem igual no futuro que se abria à nossa frente.
Hoje, papai não acompanha mais nada. O Alzheimer não lhe permite entendimento algum, alegria alguma. Só há como um vazio na tristeza dos seus olhos de pálpebras caídas; talvez porque os tempos passados foram apagados para ele na mesma velocidade que se apaga o presente, logo após acontecer. Já não sonha com um futuro de bons augúrios, o meu pai, pobre pai que, anos antes daquela comemoração, havia me ensinado uma música cuja letra previa “esse é um país que vai pra frente”; mas que parece nunca foi. Nem irá?
Aquela esperança de braços levantados sob a égide da alegria, em 1985, foi se definhando em par com as memórias de papai.
Outro dia eu me fiz de doido e, sentado à sua frente, narrei os acontecimentos nacionais do tempo presente para papai. Não me importei se ele compreendia, ou não. Queria me iludir que estava ali a consciência impecável do homem que me serviu de norte moral, sendo o alicerce para os meus princípios políticos. Falei da corrupção, das decisões questionáveis e quando já narrava o terceiro escândalo, dando os nomes e os cargos dos envolvidos, por trás de uma nuvem de contemplação de algo inexistente no espaço entre nós dois, ele disse “sempre foi assim”. Seus olhos estavam parados, como ficam a maior parte do tempo, olhando no vácuo dos anos apagados.
Meu pai já não controla sequer o presente. É um homem sem esperança.
E eu, seu filho, não tenho certeza alguma sobre o futuro do nosso país. Embora ainda haja, em mim, uma réstia dela. Digo. De esperança.
Hoje eu tenho mais idade que papai tinha naquele 1985. E me pego divagando se o nosso futuro, traçado naquele passado, não teria sido mais auspicioso se tivéssemos, papai e eu, chorado a derrota de Tancredo. Quem saberá?
Afinal, o futuro é incerto em todas as direções.
Porém, o passado, que arrima o presente, esse ninguém pode apagar em mim.
Sou os olhos da Belle de Alceu Sou a voz toda rouca de Ariano Sou Capiba cantado por Germano Sou garçom que ao Rossi atendeu. A coragem de Arraes no apogeu Sou o sonho mais belo do artista A sombrinha, no frevo, da passista, Oração de Dom Hélder pela paz Sou o vento envergando coqueirais Sou o Bar Acauã, da Boa Vista!
Eu sou Zeto da viola afinada Sou caboclo lançando pelos ares Sou a Besta Fubana de Palmares Sou o Galo que sai de madrugada. Sou a roda de coco d’embolada Sou Antônio Marinho declamando Sou Lirinha num palco encantando Eu sou Xico Bizerra, e estou certo Que sou Bar Acauã sempre aberto Na Mamede Simões lhe esperando!
Sou a fúria cruel de Virgulino Chico Science e seu maracatu Sou Leão, sou Santinha, sou Timbu, Sou boneco nas mãos de Vitalino. Sou Bandeira no verso mais divino Vida e morte escrita por Cabral Breno Lira num solo maestral Todo Duro e sua bofetada Sou as mesas expostas na calçada Lá do Bar Acauã num happy hour.
Sou Brennand preservando nossa arte Sou o Rei do Baião e sou xaxado Sou Nabuco, o líder respeitado, Sou o sol sobre a cruz no estandarte. Sou o tiro que dá o bacamarte No repente eu sou Louro Batista Da divina trindade repentista Sou o Lorde de Olinda desfilando Sou Josébio, sorrindo, lhe chamando Vem pro Bar Acauã, da Boa Vista!
Quando é pra roubar o cidadão A direita e esquerda se abraçam As arengas do centro logo passam Cedo todos seguram a mesma mão. Se acaba de vez a discussão No Congresso, nós vemos salafrários Aprovando os seus super salários Vão gozando na cara do eleitor E quem diz defender trabalhador Faz do povo uma massa de otários.
No Brasil cidadão indignado Que ousar discursar contra os sistemas Se verá numa teia de problemas De fascista será logo chamado. Vira réu e ligeiro é condenado Por ministros “da lei” sendo arbitrários Suas togas são como uns sacrários Mas Brasília “é sagrada” sem pudor E quem diz defender trabalhador Faz do povo uma massa de otários.
Eu estou indignado com o que tenho visto se passar em Brasília. Nos Três Poderes.
Uma lástima amoral só.
O “Estado de Direito” indo até os limites dos direitos feito por eles próprios.
Os cursos de Medicina da UFRN, campus de Natal e Caicó, ficaram com 5 na nota. Nota máxima.
Caicó não me surpreende. Faz parte do Seridó Potiguar, e Seridó é Seridó!
Agora o resultado geral é preocupante. Digo. Em nível de Brasil.
São 351 cursos de Medicina, desses: 107 (30,48%) têm resultados baixíssimos;
Apenas 49 (13,96%) dos cursos alcançaram a nota máxima de 5, e estão dentro dos 243 (69,23%) que receberam entre 3 e 5 (nota máxima), significa que 194 cursos receberam apenas 3 ou 4. Desses 194, quantos terão recebido somente 3, que seria uma nota apenas regular?
Eu li a lista das universidades que ficaram com nota abaixo de 3. Quase nenhuma universidade pública. A grande decepção ficou por conta das “universidades particulares”, que muitos chamam de “pagou, passou”.
Como eu falo há anos, a “universidade para todos” destruirá a educação e os cursos.
Não basta quantidade.
Há cerca de dois anos no curso de Medicina da UFRN, foram retiradas da grade curricular três matérias das disciplinas tidas por obrigatórias, por serem complexas, porque “alguns” alunos não conseguiam acompanhar o restante da turma (e eu nem estou falando de cotistas).
Ninguém pode ser reprovado.
Por exemplo, antigamente o estudo do 2⁰ grau era fator de superação, de planejamento para um futuro melhor numa profissão. E hoje o ensino médio tem se transformado somente numa fonte de renda momentânea, com o aluno recebendo para não faltar. Se vai ser educado na escola? Quem se preocupa com a Educação?
O Brasil a cada ano se encaminha para ter ensino. Não Educação.
O melhor amigo de papai faleceu quinta-feira, dia primeiro.
No começo do ano passado, em sua última visita ao meu velho, ele havia saído lá de casa com os olhos cheios de água pela situação. O Alzheimer de papai impedira uma conversa coerente e alegre, como sempre foi o encontro de ambos, trazendo as boas lembranças daquela amizade genuína contando pouco mais de três quartos de século.
Quando eu comuniquei a papai essa ida, dizendo “Gata morreu”, o seu olhar pareceu se perder em algum ponto.
Com a sua voz cada dia mais fraca pronunciou o nome completo do amigo.
– Adaílton Eduardo da Silva.
– Isso, papai – respondi. – Adaílton Eduardo da Silva. O Gata – falei ao seu lado.
– Filho de Antônio Eduardo – ele completou sereno, olhando para a rua.
Depois ele virou o rosto para mim, e me fitou.
– Morreu?
– Sim – eu lhe respondi.
– E ele me conhecia?
Eu fiquei em silêncio; mas, com vontade de dizer “talvez mais até do que eu”.
Quando ouço a voz de Gui É como estar escutando Um anjo falando a mim De candura me alcançando Nas falas dessa criança Renovo minha esperança Sinto Deus me abençoando.
E Gui vai me ensinando Tantos significados Tantas lições aprendidas Tantos exemplos guardados De sua resiliência, Sua fé, de persistência E paciência, mostrados.
Seus gestos iluminados – Os mais puros que já vi! – D’um anjo de carne e osso Que chora e também sorri Clamo a Deus por seu viver Qu’Ele possa conceder Vida longa ao nosso Gui.
Vou ficando por aqui A Deus, por ele, pedindo Por sua vida e saúde, E vê-lo sempre sorrindo Como um anjo entre nós Pois, quando ouço sua voz Sinto a paz me invadindo.
“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”
A expressão acima, entre aspas, surgiu após Júlio César se divorciar de Pompeia, sua segunda esposa.
O motivo do divórcio, que ocorreu em 62 a.C., foi o seguinte: o político Públio Clódio Pulcro se infiltrou disfarçado de mulher na festa de Bona Dea (Boa Deusa), realizada na casa de César.
Pompeia e sua mãe Aurélia eram as anfitriãs. Nessa festa os homens não podiam entrar.
Há uma versão que defende a atitude de Clódio como uma tentativa de conquistar a mulher de César, e mesmo que nada tenha acontecido entre ele e Pompeia, ainda assim o divórcio foi motivado pelo escândalo que se seguiu à descoberta.
A imagem acima foi copiada da Internet, e segundo o que lá estava escrito, é um fragmento do filme de 1953, “Julius Caesar” (Júlio César).
Já o filme é uma adaptação da peça de William Shakespeare.
Os atores em primeiro plano são George Coulouris como Marcus Brutus (esquerda), Marlon Brando como Marco Antonio (centro) e Deborah Kerr como Pompeia (direita).
Bom. Eu vou repetir aqui a frase. Pensemos nela como algo dos dias atuais.
“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”