JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS GLOSAS

Seu garçom, traga logo a saideira
Vou seguir biritando em meu caminho.

Sob o mote acima, do poeta Marco Silva, eu recebi por WhatsApp os versos em glosa do tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira, poeta de coturno alto:

Eu deixei um bilhete sobre a mesa
Rasurado com gotas de bebida
Frases parcas falando em despedida
Num enredo de drama e de tristeza
Sugeri ao garçom traga a despesa
Se tiver bem gelado traga um vinho
Minha dama não veio e eu sozinho
Vou beber minha mágoa derradeira
Seu garçom, traga logo a saideira
Vou seguir biritando em meu caminho.

Então este colunista, potiguar de Acary do Seridó, respondeu no mesmo estilo:

Fingirei não ouvir o violão
Nem a voz do cantor bem afinado
No bolero com verso esmerado
Suplicando às horas “passe não”.
Mas farei de relógio o coração
No compasso batendo bem baixinho
E nas horas passando de mansinho
Solidão será minha companheira
Seu garçom, traga logo a saideira
Vou seguir biritando em meu caminho.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ÉS LINDO

Homenagem deste colunista para o Açude Gargalheira, 3ª Maravilha do Rio Grande do Norte, que há treze anos não transbordava.

De em ti deitar meus olhos
O meu olhar não se cansa
Percorro teu corpo todo
Até onde a vista alcança
Tua beleza é completa
E à vista deste poeta
És portal de esperança.

Contigo meu olho dança
No verde te rodeando
Na água te invadindo
No concreto bloqueando
Nas serras que são teus braços
Por todos esses teus traços
Sigo te admirando.

És lindo!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UM CANTO À MINHA TERRA

Do meu querido Acary
Eu canto sua beleza
Algumas obras dos homens
Outras da Mãe Natureza
Canto o velho e canto o novo
Canto também o meu povo
A nossa maior riqueza.

A mais formosa represa
Entre serras está deitada
O Açude Gargalheira
De esperança renovada
“Dá gosto de se olhar”
Pois, parece até o mar
Sua água abençoada.

Nossa fé foi aprovada
Desde os tempos de outrora
Manoel Esteves de Andrade
Construiu sem mais demora
Um templo pra devoção
De louvor, de oração
Erguido à Nossa Senhora.

Virgem do Rosário agora
Tem templo na freguesia
Mas outra igreja se fez
Pois, a cidade crescia
E o povo muito feliz
Construiu uma Matriz
À Nossa Virgem Da Guia.

Nossa cidade é magia
É orgulho, é paixão,
Na limpeza de suas ruas
No exemplo de educação
Do velho Grupo Escolar
Onde o prazer de estudar
Era quase devoção.

Por isso eu ergo a mão
E digo a Deus “obrigado”
Por essas tão belas serras
Por este céu azulado
Por cada nova manhã
Por nosso Rio Acauã
Que há muito tem nos banhado.

Um riacho represado
E um açude se criou
Com nome “Das Oiticicas”
Porém, “Da Santa” ficou
Por estar nas terras dela
E a sede, nossa mazela,
Por muitos anos matou.

No centro homenageou
Dois homens lá do passado
Com o busto do coronel
Silvino homem respeitado
E Otávio, o corajoso
Homem forte e brioso
Brutalmente assassinado.

Outro lugar festejado
É o nosso belo museu
À nossa gente lembrando
Da História, o lugar seu
Casa de Câmara e Cadeia
Hoje o museu nos norteia
Tudo que nos pertenceu.

Já se comprou e vendeu
Naqueles velhos mercados
Construídos como um só
Porém, depois separados
Se um ficou na estrutura
O outro a arquitetura
Fez seus traços reformados.

Temos também os sobrados
Três ao todo, na verdade,
São três raras construções
Nos evocando a saudade
Dos tempos de antigamente
E hoje em dia, no presente,
Enfeitam nossa cidade.

Foi Deus quem, por caridade
Me fez crescer em Acary
Lugar de raras belezas
Da gente melhor que vi
E a Deus vou agradecendo
Por me deixar ir vivendo
E por ter nascido aqui.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

INSPIRAÇÃO PELO AVERSO

Eu também me atirei do mesmo jeito
Nos abraços dos braços de Maria
Lambuzei-me do doce da orgia
Bem mais doce que doce de confeito
Vi meu peito batendo no seu peito
Num compasso de gelo se quebrando
Eu gostando do beijo, ela gostando
E o romance rondando o lugarejo
Eu senti seu amor naquele beijo
E até hoje seguimos nos amando

Mote: Marcone Santos
Glosa: Marcílio Pá Seca Siqueira

Inspirado na extraordinária glosa acima, do poeta tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira – porém, como sou fã de versos hoje em dia chamados de “sofrença” – eu imaginei uma situação ao contrário e escrevi a poesia que ora segue abaixo.

DESPEDIDA

Fim de tarde você me abandonando
Me dizendo “adeus e fique bem”
Eu calado, na dor, virei refém
Do olhar que lhe dei se afastando.
Eu confesso também fiquei chorando
Abraçado ao passado com carinho
Escorrendo do olhar, como um espinho,
Certa água furando o meu rosto
Você foi e eu fiquei a contragosto
Me lembrando que agora estou sozinho.

Você não sabe quanto eu chorei.

“Vá em paz” você disse e foi embora
Eu sozinho na rua atordoado
Sem saber onde ir, ou qual o lado
Deveria seguir naquela hora.
O passado apenas me escora
Me ampara de vez na solidão
Pois, por mais que você diga que não
Eu ficava feliz quando voltava
E a você, meu amor, eu me entregava
Como sendo só seu meu coração.

Você não sabe quanto eu chorei.

Mas agora acabou. O que fazer?
Lhe desejo também que vá em paz
E o destino brincando uma vez mais
Eu lhe juro não vou mais lhe perder.
Só me resta saudade e escrever
Alguns versos compostos de lamento
E viver de momento em momento
Sem saber o que a vida nos reserva
Guardarei no meu peito, em conserva,
Meu amor, meu mais nobre sentimento.

Ainda choro por você.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PARAFUSO

Eu me lembro daquela tarde quente de um fevereiro no calendário perdido no registro do ano. Não da minha mente.

Nós tínhamos acabado de almoçar, e os pratos ainda repousavam sujos sobre a mesa.

Era meu aniversário e nada demais havia sido feito para aquela refeição. Tampouco existia em mim qualquer expectativa de presente. Papai sentado à mesa, na esquina do móvel, limpava uma laranja girando-a contra a faca, sem deixar se romper a casca. Eu balançava os dois cubos de gelo no fundo do copo, numa água levemente avermelhada do restante do suco sem graça de beterrabas.

De repente ele parou, deixou a casca totalmente retirada no prato e olhou para mim.

Do nada começou a me falar. Senti nos seus olhos calmos a necessidade de me repassar algo.

– Nunca deixe de colocar um parafuso no lugar do prego, quando quiser que a madeira fique mais segura.

A minha juventude não me deixou compreender muito bem aquela alegoria. E ele continuou:

– É sempre mais difícil extrair o parafuso.

Na inquietude de todo jovem, que se alia com a curiosidade própria da idade pouca, eu lhe perguntei “por que o senhor está me dizendo isso?”

Metade da laranja estava ocupando a sua fala. Seus olhos me passaram a mensagem “espere! Já, já eu digo”.

Um silêncio mastigado durou alguns segundos, talvez minutos, enquanto as sementes eram jogadas para fora da boca para a mão dele.

Antes de colocar a outra metade da laranja na boca ele piscou os olhos algumas vezes, olhando pela janela da cozinha aberta para o nosso muro.

– Não sei bem. Só não esqueça. O parafuso dá mais trabalho para entrar. Mas segura muito mais.

Disse isso, colocou a outra metade da laranja na boca, se levantou e saiu.

Nunca mais tocamos naquele assunto, ou falamos sobre algo que fizesse aquele conselho ter algum sentido. Nunca mais.

De vez em quando eu lembrava aquela cena, e um parafuso de incompreensão me tomava o raciocínio.

Até ontem eu não tinha a mínima ideia do que deveria pensar sobre a estranha conversa jamais esquecida em seus pormenores.

Hoje cedo estávamos sentados na calçada da mesma casa e eu tenho a idade que ele talvez tivesse à mesa naquele dia; Papai agora é um homem idoso com Alzheimer, sem a compreensão do que eu represento para ele e, se não fosse o tom sério emprestado à sua fala de vez em quando, eu não poderia dizer que a sua consciência é a do pai que me criou.

Assobiava algo alegre e eu olhava para o seu perfil. Tamborilava no braço da cadeira de plástico e eu olhava o seu perfil.

Do nada, como se um fragmento de qualquer tempo tivesse sequestrado a sua consciência por alguns instantes, ele se virou para mim e disse.

– O cabra só se apresenta parecido com quem ele acompanha.

Eu refleti urgente que Papai estava, do seu jeito, querendo me dizer “diga-me com quem andas, que eu te direi quem tu és”.

Mal deu tempo da frase ser completada em minha mente, ele virou o rosto para a frente e terminou:

– Por isso o sujeito só deve se acompanhar com madeira que segure parafuso. A amizade é de verdade e segura.

De onde Papai tirou isso?!

Não sei. Mas, por alguns segundos eu vi ali o emblema moral do meu velho pai.

Sim! Ali estava meu pai. Se ele não tem essa consciência, eu a tenho.

Doravante, Papai, não apenas nas relações de amizade, mas, em tudo buscarei por madeira que segure parafuso.

Semana que vem farei cinquenta e três anos. O presente veio adiantado.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

FOLIA SAUDADE

Seu Moço, meu carnaval
Eu brinco só na vontade
Ouvindo o som do passado
Bailando sobre a cidade
Marchinha, frevo e samba…
Hoje meu passo descamba
Na folia da saudade.

Seu Moço, hoje me invade
Um bloco de nostalgia
Cantando um samba enredo
Na avenida da alegria
A letra diz que restou
Naquele jovem Pierrot
Só saudade da folia.

Carnaval sem euforia
Sem pandeiro, tamborim,
Sem treme-terra, agogô…
Seu moço, hoje é assim:
O surdo sem marcação
Esvaziaram o salão
Já não chora o Arlequim.

Sinto falta do cetim
Da ilusão por fantasia
Dos confetes, serpentinas
Do apito que fremia…
O lança não me apraz
Eu penso nem sentir mais
A saudade da folia.

Porque sem toda magia
Da batucada contida
Naqueles dias, Seu Moço,
Essa saudade sentida
É folia repentina
Passista tal Colombina
Que passou na avenida.

E se perdeu no passar.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TEMPO E TEMPO

Um dia puxa um outro
Que puxa um outro dia
Na roda viva do tempo
Seu eixo é pura magia
O seu motor jamais cessa
E o tempo cumpre a promessa
De passar, não se desvia.

Afinal, quem nos diria
Quem rola a roda dos anos?
Ou onde está escrito,
Do tempo, todos os planos?
Se o destino vem traçado
Nele tenho registrado
A minha salva de enganos.

Por meus tiros mais insanos
O tempo abre feridas
São chagas em minh’alma,
Medonhas, tão doloridas
Como eterna endecha
Que o tempo abre e fecha
Em rimas não repetidas.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS GLOSAS

Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

O mote abrindo hoje esta coluna é de autoria do poeta Fernando da Bodega.

Eu o recebi do tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira, pelo WhatsApp, com os seguintes versos:

Quando eu era feliz eu dirigia
Contornando teus pontos divinais
Mapeando na mente teus sinais
Carregando prazeres na orgia
Comulei muito afago nesta via
Sinuosa e de curva acentuada
Beijo longo, gemido, mão suada
Nossos corpos inertes no final
Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

Glosando o mesmo mote, eu lhe enviei os versos meus:

Desejei viajar e acelerei
Pela mesma estrada, à exaustão,
Na boleia da cama a sensação
De que horas sublimes transportei.
Quantas vezes eu me aventurei
Na delícia que é essa estrada
Uma faixa contínua liberada
De paixão, de prazer, de amor carnal
Nesse corpo divino e sensual
Viajei até alta madrugada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BRECHIÓ. O CORAJOSO

Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.

Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.

Encontrei hoje em minhas rabiscadas que há cinco anos eu tive a satisfação de encontrá-lo instalando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e ex-sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.

Os meus rabiscos me dão conta que naquela oportunidade a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.

Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.

Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.

Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual eu desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.

Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acary para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.

Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.

Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!

Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.

Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.

– Tem coragem? – perguntou a Brechió.

– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.

– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.

– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?

– Oxente! – Por quê?

– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.

Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha.

E de sobra!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MESA FARTA

A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, eu fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense não! Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.

Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas, ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado, o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.

E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.

Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.

Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida.

O sol ainda, não mostrara a cara e repousava frio quando pegaram a camionete, e arribaram em busca da cidade vizinha.

No meio do caminho Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa a fim de realizar a primeira refeição ali.

Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.

A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.

Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.

Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.

Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.

Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.

Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!

Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:

– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.

Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:

– Mais do que eu, eu duvido, padrinho.

Ô medo fila da mãe de ficar sem queijo!