JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAIXÃO DESPETALADA

Há muito não faço falta
No jardim da tua vida
Nos canteiros do amor
Abriu-se uma ferida
Da qual brotaram as flores
Nascidas dos dissabores
Da esperança perdida.

Nossa paixão ressentida,
Morreu, já foi sepultada
No dia do nosso adeus
Minha alma enlutada
Plantou num certo canteiro
O meu choro derradeiro
Da relação acabada.

Tu fostes rosa plantada
Com as raízes em mim
Sustentada com meus beijos
Mas, tudo chegou ao fim
Agora resta a verdade:
Não sinto a menor saudade
De quando fui teu jardim.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

GLOSAS

Glosas deste colunista com o mote do poeta Du Leal:

Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

O assobio do vento me chamou
D’entre as varas tiradas de um pereiro
Separando os limites do terreiro
Que papai, como cerca, amarrou.
Lá pr’as bandas da serra clareou
Uma tira de luz muito afilada
Precedeu ao senhor “pai da coalhada”
Expulsando no grito a aflição
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

Se o clima seguiu muito abafado
Num instante o calor senti passar
No segundo seguinte ouvi cantar
O encanto da chuva no telhado.
Todo ancho, bastante animado,
Me postei sob a lata arreganhada
Pelos anos já muito enferrujada
E que o tempo mudou-lhe a profissão
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CALÇADOS APAIXONADOS

Eu e tu numa redinha
Num vai e vem compassado
Ouvindo o canto de um torno
Em um gemido arrastado
Enquanto pela janela
Vem beijar tua face bela
Um ventinho assoprado.

Assoprado do nascente
Depois de lamber o mar
Trazendo na brisa fria
Um quê de “te quero amar”
E o meu pé na parede
Empurra a nossa rede
Fazendo um torno cantar.

Cantar de pura alegria
Por nós dois ali deitados
Tu dormindo no meu peito
Eu com meus olhos fechados
Cheirando os teus cabelos
E todo ancho por tê-los
Sobre o meu peito assanhados.

Assanhados pelo vento
Entrando pela janela
Refrescando o fim da tarde
Enquanto o torno à capela
Vai seu lamento cantando
Gemendo e nos balançando
Numa cantiga singela.

Singela feito teu rosto
Tão belo sobre meu peito
Descansando do amor
Há pouco na rede feito
Invejado pelo vento
Que o torno sem movimento
Até chamou de perfeito.

Perfeito feito o quadro
Dos dois pares de calçados
Esquecidos sob a rede
Uns sobre outros deixados
Largados sobre o tapete
Ouvindo o torno em falsete
Como dois apaixonados.

Apaixonados!
Como eu e tu na redinha.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MATA ALEGRE

Mote e glosa deste colunista:

Toda mata festeja quando pinga
Uma gota de chuva no Sertão.

Num começo de noite abafada
Um clarão se acende sobre a serra
E dos céus, almejando essa terra,
Caem pingos descendo em disparada.
É o começo de uma invernada
Orquestrada no ronco do trovão
Alegrando com o som da explosão
Tudo quanto respira na caatinga
Toda mata festeja quando pinga
Uma gota de chuva no Sertão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

NEGACIONISMO

Qual seria o conceito mais exato para “negacionismo”?

Negar a verdade contida naquele discurso contrário ao nosso, ou não aceitar o nosso próprio discurso estando caolho no debate?

Desde quando passamos a dar mais crédito à Ciência da Conveniência, e abortamos de fato a razão da verdadeira razão?

Por que as nossas meias verdades devem ser promovidas sobre a verdade factual?

Desde quando nos perdemos na necessidade de expormos nossos conceitos observando apenas um sentido do trânsito na avenida das informações?

De quem partirá a quebra do egoísmo e do infame propósito em se mostrar certo nessa tétrica queda de braços entre duas mãos agarradas sobre uma mesa de disputa se sustentando na força de meias verdades?

Como pode alguém ser presunçoso, de tal forma, a se achar verdadeiro quando segue movido pela emoção do fanatismo e na leitura incompletas?

Oh! Como é paradoxal se sentir verdadeiro, quando amparado e alocado também em meias mentiras.

Quem será humilde bastante para reconhecer que sua mão deve largar a outra nessa briga, esquecer e abandonar seus discursos quebrados e juntar a sua meia verdade à meia verdade da outra mão na construção de uma verdade completa?

Já não nos importa os velhos conselhos. A união deixou de fazer a força. O povo desunido está sendo facilmente vencido.

Cada um, no fundo, negando a si mesmo o direito à razão e ao debate pleno de conhecimento.

Eis o mais completo conceito de negacionismo.

Entretanto, uma coisa não poderemos negar no futuro: todos seremos cobrados por nossas falas, atos e, até, por nossas omissões.

Porque Deus não pode Se negar em cumprir Sua palavra. E quem O nega, no fundo se nega e sonega a Verdade.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CAOS(OS)

Enfim…

Eu digo a vocês: quando todos estivermos amordaçados, será tarde demais para ouvirmos uma gargalhada ou, até, o som de um grito.

A beleza do canto será abafada e, talvez, vejamos todas as flores cinzas.

O alvorecer e o pôr do sol terão cores opacas. Ambos serão vistos por olhos tristes – quiçá esbugalhados – através de um quadrado enferrujado e sem sentido.

O vento não assobiará sobre os telhados. Mas, será calado por trás do mofo de algumas paredes; as dos quartos mal lavados.

O mar se transformará apenas em uma tênue lembrança, e o céu… Ah, o céu! O céu estará ainda mais distante. Tanto quanto o mar. Porque ambos, mar e céu, serão ferramentas inalcançáveis no desejo de fuga e na esperança da oração, sem que adiante sequer a tentativa da reza, ou algum lamento por nossos mortos; pois, as nossas vozes terão se perdido antes, barradas no tecido da mordaça.

E a liberdade sonhada para todos nós – para todos nós – será um benefício apenas para eles. Apenas para eles…

Os mesmos que deram os nós no tecido da mordaça, por trás das nossas nucas, transformando nossos gritos em inaudíveis sussurros cansados das nossas dores e os nossos risos em lágrimas.

As mesmas lágrimas salgando as nossas mordaças.

Mas eles não saberão do que sabemos nós: enquanto há lágrima, há também esperança.

Mesmo com uma mordaça apertada, longe do mar, distante do céu.

E já ninguém cita mais Bertolt Brecht (1898-1956), tampouco seus escritos.

É diante de tantas ações questionáveis ao direito da liberdade de sorrir e de pensar, de sentir e de falar, que eu invoco Brecht em seu poema sobre liberdade.

Ei-lo:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ROCK SOLO EM SOLOS FÉRTEIS

Dedicado ao meu amigo de infância Marcos de Totinha, patrimônio humano da nossa terra

Foto enviada por @luciaspeedwoman

Tua guitarra não tem braço, não faz solo,
Não tem casas, não tem trastes, nem pestana,
É sem corpo, sem escudo, mas se flana
Escorada no teu peito, em teu colo.
Se tu dizes “este som eu desenrolo”
Com certeza tua mente em melodia
Faz um solo de perfeita harmonia
Sonho acorde musical, de som divino
Dedilhado desde os tempos de menino
Na guitarra da inocência e da alegria.

Se há quem ouça nesse som uma heresia
Paradoxo da inocência contra fatos
E preferem te julgar por certos atos
Eu escolho te ouvir na apostasia.
Tua guitarra imaginária apenas guia
Os teus passos e compassos inocentes
Se teus solos não se fazem tão presentes
Certamente os teus sons contêm pureza
Da tua alma recheada de beleza
E das dores que eu sei ainda sentes.

Toca um rock, meu amigo, em tua mente fértil.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AOS POUCOS…

Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.

Que a verdadeira alegria traz sorrisos ao coração, e refrigera o espírito.

Que simples gestos são sofisticados demais para a compreensão de quem só acha a vida não seguindo além do último suspiro.

Que cheiros, sabores e lugares são elevados pelo poder de encantamento da pessoa nos acompanhando.

Aos poucos a gente vai percebendo que a vitória do time – ou do partido – não é nada diante do choro de muitos perdidos na possibilidade e na falta de esperança.

Que não é a cor da pele, ou a deidade adorada, a tradução da bondade e do caráter de alguém. Tampouco com quem ele deita à noite para sentir prazer.

Que não importa o bairro, o valor, ou o tamanho do apartamento. Mas se é um lar harmônico.

Que o valor de um carro pode ser medido pelas mentiras ocultadas em seu interior. Custa exatamente o valor moral do seu dono.

Que a dignidade é algo da alma, nunca da sala de estar atapetada, com móveis em madeira de lei, belas cortinas e quadros caros em suas paredes.

Que não importa o valor da mesa, da porcelana, do preço do prato, se a comida servida é fruto do desespero de alguém sem mesa, ou sem louça.

Que o lamento antecede o sorriso, mas que uma gargalhada pode vir antes de uma lágrima, e o tempo cura ambos: sorriso e lágrima.

Que o sobrenome importante não vale mais, se as atitudes praticadas exigem esconder o nome.

Que a embriaguez é tão saudável quanto a sobriedade, quando ambas nascem arrumadas na felicidade.

Que o tecido fino é a mesma coisa que o algodão trançado em grosso fio. Ambos encobrem intimidades.

Que uma légua andada por pés descalços, não tem a mesma distância se for vencida por pés em sapatos. Porém, ensina muito mais.

Que a loucura – ah, a loucura! – empresta à vida o que a lucidez dá de graça à arte, e a sanidade não pode ser contada maior que a loucura.

Que o perfume não é mais saudável que o banho.

Que o sonho não é produto do sono.

Que a paixão e o amor não vivem para a compreensão.

Que a vaidade é como uma armadilha projetada para quebrar a perna de quem a arma, ou como um fogo que só pode sair pela culatra.

Que a doçura não se perde por mais que possa ser desprezada por alguém.

Aos poucos…

Aos poucos a gente vai percebendo.

Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

FLOR CAFÉ

És maravilha de encanto
Em canto, versos e prosa
Bebida maravilhosa
Para o meu paladar santo.
Quero cobrir-me com o manto
Do teu cheiro, teu sabor
Aquecer-me em teu calor,
Ao acaso fumaçando
E caso o caos ajudando
Quero te chamar de amor.

Quero sentir teu olor
Despertalar teu segredo
Um a um, logo!, bem cedo
Quero cheirar tua flor.
E se abençoado eu for
Tua pétala mais discreta
Guardarei na mais completa
E perfeita discrição
Pondo cor no coração
Deste teu pobre poeta.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

OS TRAVESSEIROS DA GENTE

Quando se apagou a chama
E o nosso amor fracassou
Você sem pensar jogou
Meu sobrenome na lama.
A paixão ficou na cama
Acabrunhada e doente
Nos travesseiros da gente
Um sobre o outro colados
Respirando apaixonados
Desentendendo o presente.

Não entendem o presente
Porque são acostumados
A nos verem agarrados
Em um abraço envolvente.
Se de nós jorrava enchente
De suor, gozo em volume
Quando surgiu o ciúme
Restaram aos travesseiros
A presença de dois cheiros
Odorando um só perfume.

Se um único perfume
Perfumava a nossa cama
Nosso amor virou um drama
E o cheiro virou chorume.
Travesseiros sem queixume
Desconhecem nosso enredo
Não sabem que era cedo
Para eu chorando ceder
Se eu temia lhe perder
Te perdi perdendo o medo.