JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O TEMPO É UM CAMINHO DE IDA

Se acreditou quando falaram para você que “a vida dá muitas voltas”, você não passou de um tolo.

Se ainda acredita, continua tolo. Desculpe-me.

A vida é um processo em linha reta, sem curvas, sem bifurcações reais, sem voltas. Porque até o que se repete nela, retorna à existência em um espaço temporal diferente.

E o tempo, esse senhor de todas as coisas, de toda a razão e verdade, é um elemento sem voltas, sem curvas, sem marcha à ré, e seus círculos fechados não passam jamais da visão acompanhando os ponteiros consultados em um relógio analógico. E só.

São as únicas voltas do tempo, essa conotação usada no pulso dos homens, nas paredes das salas ou nas torres dos templos, medindo e informando sobre o caminhar à frente da humanidade em algum espelho das horas.

E nesse andar tenha todo cuidado com suas palavras e promessas.

Dê aos seus semelhantes, mormente aos próximos, o beneplácito da confiança mútua.

O que prometeu, você cumpra. Não piore para os outros essa viagem sem voltas chamada de vida, dando-lhes falsa esperança, e iludindo-os com mentiras, porque você não quis se calar quando o silêncio pediu passagem através do tempo.

Seja tolo sozinho. Se quiser. Mas não entregue ninguém à tolice.

Não compre amizades. Conquiste-as. Depois lhes seja leal cuidando em não perdê-las por negligenciar a confiança em você depositada.

E já que a vida não dá voltas, tampouco possui curvas, adiante-se ao tempo todas as vezes necessárias, desde que seja para um pedido de desculpas. O solicitar ou o conceder de um perdão.

Quiçá a inteiração da verdade.

Saiba: os dias não se repetem em absolutamente nada. Nada!

Portanto, não deixe arestas para aparar depois.

Você não terá tempo de voltar às sobras das coisas, simplesmente porque a vida não dá voltas.

E o tempo nunca retrocede.

(A foto acima mostra parte da Highway 10, estrada que tem a mais longa reta do mundo. Está na Arábia Saudita, entre a cidade de Haradh e a fronteira com os Emirados Árabes, próximo dos limites com o Catar. Este trecho compreende uma reta de 260 km, em um espaço plano do deserto Saudita, sem curvas no caminho).

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

APAREÇA

Se você não aparece
Que graça tem o meu dia?
Vai-se embora a esperança,
Leva junto a alegria,
Foge também a vontade
E fica só a saudade
Do tempo que eu lhe via.

De quando aparecia
E sorrindo me olhava
Era como uma chuva boa
Todo feliz me deixava
Sua menor atenção
Enchia meu coração
De poesia me encharcava.

Enquanto você passava
Meu olhar lhe acompanhando
E seu nome bem baixinho
Eu ficava só chamando
Pedindo no pensamento
Que você por um momento
Para trás ficasse olhando.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

NÃO É POESIA. NÃO É POEMA. É APENAS UMA BREVÍSSIMA CONSTATAÇÃO SOBRE A VIDA

A vida sempre é melhor sob os delírios da alma.
Sob a certeza de que nada é certo. Nem errado. Tampouco feio. Ou bonito.
Saber que no tudo há muitos nada. Que o nada muitas vezes é o tudo na vida.
Que a loucura nada mais é que um sobejo da lucidez. Um sopro do extraordinário.
E que a simplicidade é o limite mais próximo de uma vida feliz.
Nada melhor que sonhar que se vive o impossível. No pódio do inalcançável.
Nada mais fascinante que viver sem existir. Algo. Alguém. Tudo é como um conto bem escrito.
Às vezes…
A vida é um delírio fantástico das reticências. Bom é acreditar nela. Na vida. Com pontos finais. Com reticências.

Bom é acreditar que se é capaz. E ser.
E que o caos de vez em quando se organiza em nosso favor.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DÊ-ME ATENÇÃO

Não me mate aos pouquinhos de saudade
Nem me deixe morrer de solidão
Tenha pena de mim, dê-me atenção,
Me dirija a palavra por bondade.
Se ainda lhe resta caridade
Se por Deus você tem qualquer temor
Deixe eu ver o seu rosto, por favor,
Ou ouvir sua voz num simples oi
Não evite falar com quem já foi
Tantas vezes chamado meu amor.

Tantas vezes chamado meu amor.

Mande logo notícias para mim
Vem matar toda minha ansiedade
Pois, se for pra viver nessa saudade
Eu prefiro morrer, não vivo assim.
Se você não mandar será meu fim
Na tristeza, no choro, no clamor,
Minha vida tem sido um dissabor
Pouco a pouco morrendo desprezado
Me lembrando que fui lá no passado
Tantas vezes chamado meu amor.

Tantas vezes chamado meu amor.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AH, SE DEUS…

Por que eu não nasci flor
Pequena e delicada
De pétala fina e rosada
E de singular olor?
Se Deus fizesse o favor
De em flor me transformar
Quem sabe eu fosse ficar
Em tua orelha, bem presa,
Usando a tua beleza
Para a minha enfeitar.

Ah, se Deus…

E quem pudesse olhar
Eu por trás da tua orelha
Perceberia a parelha
Que só Deus pôde criar.
Talvez fosse divagar
A história que ali se dava
Eu de ti me aproveitava
Inalando o teu bom cheiro?
Ou tu vieste primeiro
E com prazer me cheiravas?

Ah, se Deus…

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

LOUVOR ÀS MÃES

Neste dia de louvar todas as mães, eu trago do livro Gentil, verás que um filho teu não foge à luta – que eu tive o prazer de organizar os textos – da escritora potiguar Teresa Oliveira, uma das crônicas mais belas que li nos últimos tempos, quando o amor é evocado através de gratidão e saudade.

No texto que seguirá abaixo, Teresa Oliveira nos traz aquele olhar apurado sobre a mãe. Um olhar maduro com a mais genuína sinceridade.

A crônica é, na verdade, além da comprovação do talento natural da autora para a literatura, uma leitura de agrado à alma. Também mostra através da personalidade forte deixada em cada entrelinha pela autora, a fortaleza moral que todas as mães possuem em suas gêneses. Porque não existe mãe diferente, todas as formas morais são iguais. Salvo as experiências pessoais da autora e sua mãe, todo o texto é um louvor magnífico à alma de qualquer mãe responsável no ambiente familiar.

Voltando um pouco ao livro em si, não me furto em dizer, foi escrito com o coração de uma filha devotada à família. É emoção, saudade e lirismo desde o título na capa, até o ponto final da última frase.

* * *

A saudade dela também dói em mim

O tempo é amigo de sua memória e a sua história ficou gravada no coração do seu povo.

Com Dr. Gentil na retaguarda, peço licença ao meu pai para quebrar o protocolo desta obra e oferecer a minha eterna saudade por aquela que me ensinou a transformar luto em luta: Maria Teresa Fernandes de Sousa Paiva, minha amada mãe.

Mulher guerreira, destemida, buscou pautar sua existência em valores e princípios maiores do que os desafios impostos pela árdua jornada de uma viuvez na casa dos trinta anos e, por outros trinta anos, ocupou o duplo papel de pai e mãe da forma mais sensata e equilibrada que alguém pode fazê-lo.

Viveu intensamente um testemunho de fé e humildade, confiando sua vida e a vida dos seus nas mãos do Pai Celestial. Ajoelhada aos pés do altar do Senhor, sempre nos manteve de pé.

Nós duas travamos muitas batalhas juntas, ela no silêncio que lhe era peculiar e eu na coragem alicerçando-me das minhas entranhas. Sabíamos as entrelinhas e os avessos de tudo que fazíamos e planejávamos.

Falsa modéstia colocada totalmente à parte, se hoje me considero uma das mulheres mais destemidas que conheço, certamente devo ter aprendido muitas lições com mainha. Muitas coisas, decisões e atitudes tomadas por ela entre sorrisos, hoje eu as faço sangrando. Mas, seus ensinamentos me dando resiliência estão valendo. É o que importa. É o que eu tenho no passar das horas diariamente.

Em 11 de abril de 2019, estávamos nos despedindo, tempo que deixamos a vida seguir seu curso e seu custo. A resiliência veio do alto e a coragem de continuar a luta vem daquilo aprendido com ela, engolir o choro, erguer a cabeça e olhar o futuro.

Confesso andar fraquejando vez por outra, não se fazem mais mulheres como antigamente, isso é fato! Amanhã, quem sabe eu consiga caminhar com passos mais firmes porque hoje, só ficou a certeza de que nunca mais seremos os mesmos sem a presença física de quem demonstrou atos de extrema bravura até na hora de morrer.

Nos corredores do Hospital Esperança, em Recife – PE, conversamos pela última vez. Na porta da UTI, com meus dedos entrelaçados aos dela, rezamos juntas uma Ave Maria.

Percebendo a minha voz cortando e as minhas mãos geladas, engoliu a dor mais uma vez. Segurou-me pelo pulso e olhando para mim, sem derramar uma lágrima sequer, pronunciou suas últimas palavras:

– Deixe de choro, minha boneca. Vai dar tudo certo. Deus lhe faça feliz e Nossa Senhora da Conceição lhe acompanhe. Vá para casa descansar e não esqueça de cuidar dessas olheiras.

Com o polegar estirado para cima, foi-se UTI adentro. As portas fechadas sinalizaram a minha orfandade pela segunda vez. O chão se abriu, o mundo caiu, as luzes se apagaram e eu me quebrei em infinitos pedaços. Roguei aos amigos para que me sustentassem em orações.

Mulher forte, árvore frondosa com raízes pautadas no bem e na paz. Tive que reaprender a caminhar.

Em meio ao caos, tentei ressignificar aquele momento que tão somente a dor era minha fiel escudeira. Chorava, rezava e perguntava a Deus como seria a minha vida dali em diante. Até agora, não tive as respostas para os meus questionamentos e a minha inquietude permanece latente até nos domingos mais serenos.

Dias difíceis, mãe! A certeza é só uma, a saudade não é amenizada pelo tempo e o coração aperta quando me lembro que não estaremos juntas na missa de Sábado de Aleluia, esperando o acender das velas para fazermos nossas promessas no altar da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Ao pé do meu ouvido, fiz uma tatuagem em sua homenagem, uma flor do deserto, já que as duas guardam a semelhança de florescer em todas as estações do ano.

Antes de fazer esse desenho, pensei em colocar a inicial dela junto com a de painho, que tatuei no pulso esquerdo quando conseguimos da justiça dos homens o papel de Justiça, e assim, fechamos esse ciclo em nossa vida. Mas, escrever a inicial dela, junto ao nome de Dr. Gentil não seria justo.

Maria Teresa, mulher que, por mais de três décadas, viveu e sobreviveu sem o marido, numa missão triplicada, injusta, cruel, indócil e hercúlea para uma mulher tão jovem. Mainha subsistiu com maestria e, fazendo de sua existência um tributo à maternidade responsável, criou e formou três filhos, enfrentou a viuvez de cabeça erguida, ensinando-nos que a felicidade plena está em nós mesmos.

A ela, ainda tão viva em minha memória e em meu coração, hoje mando as flores mais lindas, seguidas da saudade mais profunda e da admiração que enquanto vida eu tiver, escreverei com A maiúsculo, porque o amor só sobrevive de forma legítima quando tem a admiração como pré-requisito indispensável.

A saudade vez por outra se descortina me fazendo chorar. Saudade acumulada é sinônimo de coração doído, lágrimas entrelaçadas de dor descendo face abaixo sem sequer me dar a chance de enxugá-las.

Não dá tempo, é choro demais da conta. Certo dia, vesti uma roupa dela para trabalhar, sempre que faço isso, recebo elogios por estar elegante e por me parecer cada vez mais com ela.

Desde que ela se foi, uso um anel de cruz que ela não tirava do dedo, mulher que materializava a fé até nos adereços. Normalmente não sofro quando me arrumo igual a ela, mas hoje foi diferente, olhei o anel no meu dedo e imaginei quantas cruzes carregadas com a leveza de um olhar sereno seguido da coragem de enfrentar a vida na sua mais profunda desordem.

Refletindo sobre o calvário de minha mãe em plena quaresma de 2022, tenho cada vez mais forte a certeza do caminho dela sendo repleto de muitas pedras; mas, foi perfumado com as flores exaladas pela sua alma.

Como diz o poeta: “Mulher, Mulher, da escola em que você foi ensinada, jamais tirei um dez, sou forte, mas não chego aos seus pés.”

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O NASCER DE UMA ESTRELA

A crônica abaixo é da pena sensível de Teresa Oliveira, escritora lançando sua primeira obra, advogada, ativista da causa autista no RN, humanista e funcionária do Tribunal de Justiça da Paraíba.

Será parte das quarenta e cinco crônicas alicerçadas na saudade da autora no livro “Gentil, verás que um filho teu não foge à luta”, contando a história do pai dela, Dr. Gentil Oliveira, médico e político potiguar, assassinado em 1989.

O livro será lançado no dia 27/Maio/2022, conforme informações que estão no final desta postagem.

* * *

O INÍCIO DO INÍCIO – Teresa Oliveira

O quarto era iluminado por um abajur de renda francesa. Entre a mobília, toda em estilo Luiz XV, reinava soberana uma penteadeira cheia de significados. Sobre ela ficava o talco usado pela minha avó Elita, cujo cheiro ainda familiar, me causa uma das melhores saudades olfativas. Fecho os olhos e sinto!

Alta, magra, elegante e de uma fidalguia peculiar à sua figura, assim era ela, a mãe do meu pai.

Nas minhas doces e ternas lembranças, eis que ela aparece magnífica. Ao acariciar os meus cabelos, não titubeava em lamentar a velhice e a impossibilidade de me ver adulta.

Chamava-me carinhosamente de “mulher bonita”; pois, segundo ela, eu era dona de traços afilados e rosto de boneca.

Tantas vezes vejo-me nela, seja na luta, na coragem, na forma de enfrentar a vida, sem medo e sem melindres, seja na velha penteadeira herdada por mim e guardada com o zelo dos objetos, senão santos, com significados inenarráveis.

Felipe Alves de Oliveira e Elita de Paiva Barreto viveram uma história de amor ímpar, e não é segredo para ninguém: eles são para mim uma fonte inesgotável de inspiração. Eles eram os pais de Dr. Gentil.

Meu avô era agricultor, homem calmo, prudente, paciente e muito trabalhador. Com suas mãos calejadas pela labuta diária construiu as cercas do velho Sítio Carnaubau, manuseando o arame farpado com a mesma maestria que um poeta manuseia uma caneta.

Da união vieram cinco filhos. Todos nascidos no sítio. No entanto, tão logo precisavam estudar, eram enviados para a cidade com esse fim.

De Alexandria à Natal, de Natal à Recife, os irmãos desbravaram o mundo e venceram na vida.

Hoje, conversando com o primogênito, Francisco Paiva de Oliveira, gozando ele de saúde e lucidez no auge dos oitenta e tantos anos, senti a alegria de um homem se orgulhando em relembrar o passado de lutas, conquistas, lágrimas e vitórias.

Definiu a mãe como uma mulher justa, que, sem meias palavras ou meias verdades, lhes ensinou o valor do trabalho honesto na vida de qualquer ser humano.

Em relação ao pai, Chico Paiva relembrou o esforço e a luta de um agricultor nunca admitindo seus filhos segurando sequer o cabo de uma enxada. Meu avô agricultor sonhou plantar grande. Colheu grande.

Naquela época, onde só os filhos de famílias tradicionais tinham condições de estudar na capital, filho de agricultor ser doutor era um desacato.

Pois bem, o filho mais velho abriu os caminhos e cuidou dos demais. Fez o serviço completo, incluindo até o caçula.

Quando fala no assunto, Chico Paiva se vê emocionado e diz que tinha meu pai como um filho.

Francisco fixou residência no Recife, vivendo na Veneza Brasileira até os dias atuais.

Com o peito estufado de orgulho, me disse que o meu pai passou no primeiro vestibular na melhor faculdade de Medicina do Nordeste.

Perguntei o que ele sentia quando se lembrava do irmão caçula e, com a voz ainda embargada pela saudade, respondeu-me: “Ele era inteligente, tinhoso, gostava de política e tinha uma bondade imensa. Me obedeceu em quase tudo, só me faltou com respeito quando teimou em morrer antes de mim.”

As últimas palavras precederam um soluço. O meu.

* * *

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

A MÍDIA QUE PRENDE E ABATE

As palavras, caríssimo leitor, quando intencionadas ao caos, ou são mal interpretadas, conduzem apenas ao abismo. A multidão já não interpreta mais; nem palavras, nem números.

As palavras gentis e disfarçadas de uma hoste manobrando uma massa nesse país virtual, para mim, é um crime contra o patrimônio moral da nossa sociedade – falando em nação brasileira.

E o nosso povo – essa é uma impressão minha, que nada sou e nada tenho – jamais foi tão conduzido ao pasto deficiente de nutrientes cognitivos, ou encurralado para o abate quanto hoje. O mugido de suas vozes, embora a deficiência do pasto seco e a eminência do tiro na testa, mescla um quê de satisfação e de impotência.

E a voz desse povo, arrimada nas palavras ouvidas dos seus condutores – por certo! – não é a voz de Deus.

As palavras e os cânticos desse povo nos passam a impressão da aquiescência e a visão dessa realidade como boa. Já o ferro dos seus chocalhos parecendo mais sábio que eles, entretanto, chega a nos enviar um “tengo-lengo-tengo” dolente e sem esperança.

E enquanto houver o desrespeito ao ser humano, mormente pelas mentiras levadas ao povo, os índices nos envergonhando serão menos debatidos. Eles, os ditos índices, estão sob uma camada pulverulenta da mais vil tirania: aquela se apossando da consciência dos homens.

Há de se debater as estúpidas paixões e o fanatismo desenfreado, envolvendo os três pilares do ópio e vício do povo mais paupérrimo de bom senso: política, futebol e religião. Alinhados e aliados dos condutores, são como um complemento jogado para emprestar gosto ao pasto. Mas, vão cegando até alguns nominados inteligentes. E o pior! Muitos nesse rebanho ousam pensar em si como vaqueiros.

Nós observamos de fora esse quadro tétrico e temos um mugido diferente. Nós os estarrecidos, no entanto, somos marginalizados e rebaixados à burrice. Somos como carne de quinta, sem gosto, sem serventia, prurida… que em se degustando mata!

Somos gado naturalmente morto.

Quanta inversão de valores. Aliás, de palavras.

Sem palavras!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VIDA EM MOVIMENTO

São duas crianças minhas
Visão que o meu peito aquece
Se meu pai me deu seu colo
Meu neto em meu colo cresce
No movimento da vida
Um me serviu de guarida
Do outro sou alicerce.

Se o neto de mim carece
Vou usando o tempo meu
Para lhe dar as lições
Que um dia papai me deu
E a vida segue assim:
Um aprendendo de mim
O que o outro já esqueceu.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DUAS GLOSAS

A poetisa Constância Uchoa, caicoense de Mossoró, sempre muito inspirada e gastando o dom de usar as palavras como poucas pessoas, criou e me enviou há cerca de ano o seguinte mote:

“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”

Por acaso ontem eu voltei a ter contato com os versos do mote, e desenvolvi duas glosas a partir deles.

E nelas eu disse bem assim:

Seu amor foi quimera, pouca chama,
Assombrando um pouquinho, nada além
Foi faísca apagada, fogo sem
O poder de queimar lençois de cama.
Acendeu labareda só da fama
De ser mais que o calor na combustão
Seu desejo é pavio de lampião
Sem o gás alcançar, é fogo pobre
“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”

Foi um facho de luz a incomodar
Prometendo esquentar, não esquentando
Que jurou me abrasar, não abrasando…
Se apagou muito antes de queimar.
Seu amor foi somente um debochar,
No desdém esfriando essa paixão,
Num problema de amar, sem solução,
No desejo de gozo em falso exprobre
“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”