JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RISO LIVRAMENTO

Foto: site memoria.ebc

Quando escuto tua voz eu enlouqueço
Perco o senso e não sei mais o que faço
Sem poder receber o teu abraço
Em tua fala eu me acalmo e me aqueço.
É que ouvindo o teu tom eu esmoreço
Os teus sons me confundem o pensamento
Te escutando eu ligeiro me acorrento
Fico presa e me perco na paixão
Tua voz é cadeia e é grilhão
Mas teu riso é pra mim um livramento.

Eu já cumpro um breve juramento
De se eu ouvir tua voz ficar calada
Se eu pudesse viver aprisionada
Viver presa em ti seria alento.
Tua voz é também um sofrimento
Um tormento no qual eu vivo e luto
Mas, assim que o teu riso eu escuto
Livramento da loucura é pra mim
Ela põe nas cadeias todo o fim
Da paixão solitária que eu desfruto.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ADAGA INFALÍVEL

Foto de Marco Antônio Robert Alves

O Tempo não perde tempo
Nem para em qualquer segundo
Contando seus breves passos
Passa igual pra todo mundo
Tudo que é massa perece
Só o Tempo não envelhece
Em seu andar vagabundo.

Sequer fica moribundo
Ou com o tempo se estraga
Porque é o senhor de tudo
E tudo o Tempo apaga
Perde o belo a sua beleza
Perde o rico a sua riqueza
Na ponta da sua adaga.

Há quem diga ser uma praga
Essa justiça tão forte
Do Tempo girando imune
Que pra ele nada importe
Sem qualquer acepção
Só o Tempo em sua ação
Nunca encontrará a morte.

A tudo dá o passaporte
Pra o reino dos acabados
Os que eram já não são
Os que são serão passados
E para o tempo do além
Somente o Tempo não tem
Os seus segundos contados.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AMOR TEMPERO

Dona Pedrelina, de São Gonçalo do Rio Preto, no seio do Vale do Jequitinhonha. Foto do retratista Tom Alves

Era o prazer de vovó
Enquanto a trempe esquentava
No velho fogão de lenha
Da comida ela cuidava
Mal saía da cozinha
Fazia tudo sozinha
Com prazer, não reclamava.

Quando mais gente chegava
Não havia reclamação
Pois, tinha lugar pra todos
Dentro do seu coração
Com imensurável alegria
Vovó do pote trazia
Mais água para o feijão.

Nunca fiz comparação
Ao sabor de sua panela
Acho até que era amor
Que vovó tirava dela
Agora resta, é verdade,
Só o gosto da saudade
De minha vovó tão bela!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ABOIO DE BEATA

Foto: página da CNM – Confederação Nacional de Municípios

Mote de Geraldo Amâncio:

Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!

Na porteira o chiado está mais triste
O chocalho não tem voz, está calado
O gibão, coitadinho, abandonado
Só se apega a saudade que existe.
O acauã, bem magrinho, ainda insiste
Agourando a má sorte, vida ingrata
Toda cinza a caatinga, assim retrata
Falta chuva, e nesse pobre desenredo
Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!

Moribundo, olho, pelo, carne e osso
O jumento foi jogado à própria sorte
Sem rinchar esperando só a morte
Já não tem mais nem força no pescoço.
Morreu tudo no caminho até o poço
E na sombra do mourão um vira-lata
Sob o choro, feito aboio, da beata
Vai morrendo num buraco desde cedo
Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ILUSÃO DESCOBERTA

Este colunista glosa um mote de Constância Uchoa:

Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Eu pensando em você não me contento
Perco o tento de vez na madrugada
Enlouqueço a cada alvorada
Alvorando você no pensamento.
Vou criando penúrias de lamento
E mentindo ao meu próprio coração
Pra sonhar que não tem separação
Mas, não há nenhum sono que me sobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Com sua volta vou sonhando acordado
Que um acordo faremos para a paz
Nossas brigas cessarão, não terão mais
E as intrigas do lar serão passado.
Se um amor em seu peito tem sobrado
Ou lhe resta uma réstia de emoção
Nos cubramos com o manto da paixão
Descubramos um amor ainda nobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BUMERANGUE

Foto: Segredos do Mundo

A vida é um bumerangue
Que não se perde no ar
Tudo que você atira
Na certa vai retornar
Quem arremessa o amor
A vida faz o favor
De muito amor lhe voltar.

Mas, se acaso atirar
Qualquer um mal a alguém
Não espere receber
Do bumerangue um bem
Pois, o que vai tem retorno
E a vida em seu contorno
É um eterno vai e vem.

A quem carinho, carinho
A quem amizade, amizade
A que acolhida, acolhida
A quem desprezo… Bumerangue!
É a vida!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ESPERANÇA PELO AVESSO – Aparências

Foto: Obviousmag.org

Não tive pena quando a vi partindo
Fiquei apenas por dentro chorando
Entre outras cenas que eu ia lembrando
Eu em silêncio fui me despedindo.
Pedindo a Cristo que fosse medindo
Só a bondade que nós nos fizemos
As tantas vezes que nos maldizemos?
Esqueça aí, que eu daqui esqueço
Se a esperança pomos pelo avesso
Um novo começo nós não mais teremos.

Se nova chance nós não mais queremos
Todos os riscos você assumiu
Sumiu na rua e quando enfim partiu
Partiu toda jura que nós nos fizemos.
Se tudo aquilo que juntos vivemos
Foi somente eterno enquanto durou
E aquele encanto que você cantou
Eu vejo agora estava pelo avesso
Esperança em traço de um recomeço
Traçado no chão, mas o vento apagou.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RISCOS E TRAÇOS

Risquei paredes, areias, papéis
Pintando poesia em todos os traços
E em cada traço deixei mil abraços
Escritos com lápis, canetas, pincéis.
A vida deixei nesses meus painéis
Buscando encontrar a felicidade
Falei de esperança, amor, caridade
Ensinei e aprendi sobre tudo um pouco
Porém, ao final, me vi como um louco
Sem nada entender além da saudade.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UM POUCO DE DESABAFO. UM MUITO DE DECEPÇÕES

Os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito eu.

Eu já cantava na minha quase distante juventude que “aqui embaixo as leis são diferentes”. Eco para o resto daqueles dias, em ondas sonoras captadas das vozes dos meus ídolos. Seus discursos com compassos, tons e sons já contam três décadas e ainda são atuais, embora fora de moda pelos ritmos e rimas, frase feitas e perfeitas, embalando os nossos sonhos naquelas manhãs de esperanças frias e embotadas.

Minha geração – a parte aberta e não “cartilhada” – até hoje parece enxergar inclusive no escuro, de olhos fechados e coração aberto. Sempre foi assim conosco, pois somos marranos da educação artística com musicalidade e aprendemos sobre a vida pelas chibatas sociais contra as quais lutávamos naquelas tardes de liberdade morna e sem a mordacidade em seu estado mais malicioso. Nossos corações sempre aquecidos na corrida pelo que era bom.

Éramos uma multidão siamesa curiosamente saída da liquefação entre o criador e a criatura. Fomos produtos de nós mesmos, guiados pela busca do equilíbrio, da igualdade e, acima de tudo, orientados pelo senso comum presente em todos nós da coisa sendo bem praticada, senão em tudo, no que nos fosse possível fazê-la responsavelmente dentro dos nossos direitos, com amor, fé e determinação.

Daquelas noites de batalhas frias para cá o status quo não mudou tanto assim. Infelizmente as lições repassadas e aprendidas em nossa juventude, hoje são definidas como reacionárias, em um conceito requentado por muitos ouvintes das mesmas coisas ouvidas por nós, parceiros na mesma guerra, porém, eles, desertores dos princípios sociais norteando as nossas brigas antigas, travadas no calor daqueles dias idos.

Assim, uns muitos de quem nós saímos, outros tantos que de nós nasceram, têm hoje olhos abertos na luz do meio dia e, infelizmente, não conseguem enxergar o óbvio.

Embora hoje soframos também porque nos apresentam uma nova possibilidade – não obstante montada sobre alicerces tremendamente pavorosos – vamos sendo insultados por descobrirmos não tardiamente que os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito nós. Já não temos mais razão alguma e o eco dos dias atuais são captados das ondas sonoras saídas dos ensaios elaborados entre quatro paredes de salas ricamente atapetadas, onde artistas de outro círculo fazem marketing e se divertem sozinhos. Nada cantam. Escrevem apenas atos de uma peça histórica temida por seu possível desfecho.

Os ídolos do meu tempo escreviam mais, cantavam melhor e morriam mais cedo.

A juventude deles eternamente em nós, os que ficamos para envelhecer contrariando, ainda, as coisas julgadas medonhas.

A ousadia deles eternamente em nós. Também.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BALADAS ENTRE CANTEIROS

A cara, o gosto, o cheiro e o toque de minhas melhores lembranças da Praça Thásia Luanna, no tempo que era apenas Pracinha dos Estudantes, lá no meu Acary do Seridó.

Eu ainda quase um menino, com minhas mãos enfiadas nos chinelos que serviam de baquetas batendo contra o banco de concreto – usado como bateria – no qual sentados, eu e o meu velho e eterno amigo, saudoso e caro, Silvano da Palhoça cantávamos sem a pretensão do sucesso, sem nos preocuparmos com futuro qualquer. Minhas chinelas no compasso de sua mão canhota fazendo vibrar as cordas de nylon do violão de Onavlis, nome artístico usado apenas pelos mais chegados, para tratar com carinho a figura de Pilpano.

Pilpano… Onavlis…

Ambos sendo o mesmo Silvano da Palhoça, risonho, afinado, amigo leal, desprendido do querer possuir e apegado apenas a uma verdade: ser feliz com um violão “embaixo do suvaco esquerdo”, colado ao peito que pulsa, para o som sair mais legal do coração.

“Hoje em sua casa eu não vou mais…”

Hoje tudo é tão diferente. No fundo tudo aquilo passou e aquele tempo, às vezes, é somente “a primeira lágrima” ao final de cada tarde.

Minha meninice é vista apenas nos meus meninos. Que nem tão meninos são mais!

Mudaram a praça, arrancaram os bancos, nos mudamos de cidade…

Cadê Silvano? Onavlis, onde você está? Pilpano? Não lhe vejo mais.

Partiu para tocar naquela praça onde todos nós sentaremos um dia, para cantar por uma eternidade toda.

E eu vou ficando por aqui, vendo-me menino vestido de chinelas nas mãos, ao lado de Silvano da Palhoça, nosso Onavlis, nosso Pilpano.

Duas figuras avistadas pelos olhos da minha saudade cada vez que eu passo ante aquela praça, hoje desfigurada. Duas figuras magras e até feias; porém, ambas belíssimas de felicidade. Dois amigos cantando entre os canteiros pouco cuidados da Pracinha dos Estudantes.

E assim eu sigo, “fecho os olhos e sinto” todas as saudades daqueles dias.

E a vida com todas as suas agruras ainda não me tirou a vontade de querer aquele “gosto de framboesa”; afinal, mesmo não sendo mais tão moço, continuo não sentindo tanta tristeza.

Alegria! Alegria! Cuidemos da vida!

Texto escrito agora mesmo, sob a emoção, após receber em um grupo de WhatsApp um vídeo com a balada A Irmã do Meu Melhor Amigo entre os áudios de outras tantas baladas do grupo Renato e Seus Blue Caps.