JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O GARGALHEIRA – Açude Marechal Dutra

Artigo escrito por este colunista em 2008 para um trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da disciplina Geografia Aplicada ao Turismo, cumprida como complementar do Curso de Administração. A foto que ilustra a postagem foi doada por Francisco de Hilda- Facso.

Em 1909, no governo de Nilo Peçanha (14/06/1909 – 15/11/1910) foi criado o IFOCS (Inspetoria Federal de Obras contra as Secas), tendo como subordinada a “Comissão de Açudes e Irrigação”. Depois O IFOCS foi transformado em DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), subordinado ao Ministério da Viação e Obras Públicas, que tinha à sua frente o Ministro Miguel Calmon du Pin e Almeida, cuja pasta já havia ocupado no governo anterior de Afonso Pena.

Alguns acarienses apelavam com insistência junto aos órgãos estaduais e federais para a construção de um reservatório de água em nossa terra. Entre outros, podemos encontrar nomes como o do Coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão e seu irmão Coronel Cypriano Bezerra Galvão de Santa Rosa, mais Joaquim Servita Pereira de Brito, Antônio Basílio de Araújo e do Padre Francisco Coelho de Albuquerque.

Os primeiros estudos foram feitos para a construção da barragem, e no mesmo ano de 1909 a primeira planta topográfica do Gargalheira, assinada pelo Engenheiro Ignácio Ayres de Souza, e visada pelo Engenheiro Benjamim Piquet Carneiro, então chefe de seção da referida comissão, foi apresentada. Mostrava como principal finalidade o fechamento do boqueirão, a fim de acumular as águas. Na época foi consignada uma verba de 900.000$.000 (Novecentos contos de réis), do Orçamento da União, para o trabalho de construção do açude.

Em 1913, já no governo de Hermes da Fonseca (15/11/1910-15/11/1914), as obras começaram, a cargo da firma Saboia de Albuquerque, que concluiu em 1914 uma pequena barragem de alvenaria de pedra, cuja argamassa era composta de cal e óleo de baleia. Então, nada mais foi realizado até 1921. Esta primeira barragem, acabou sendo demolida em 1955, para que pudesse ser feita a construção definitiva.

Em 1922, ano do Centenário da Independência do Brasil, já no governo de Epitácio Pessoa (28/07/1919-15/11/1922), tendo como Ministro da Viação e Obras o Sr. José Pires do Rio, foi dado o maior impulso à construção do Gargalheira, quando as obras foram entregues à firma inglesa Wangler Walker, e já no final de 1923, por ocasião da visita ao local do governador do Rio Grande do Norte, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, foram observadas a construção de grandes instalações, acampamentos, oficinas, residências para servidores, casa de hóspedes (chamada outrora de Casa do Major e onde atualmente se encontra o Hotel Pousada do Gargalheira), pavilhões administrativos, etc. De construções técnicas propriamente ditas, infelizmente nada ou quase nada havia sido feito. O chefe das obras nesta época era o Sr. Manuel Ubaldo da Silva (seu Neto).

Em 01/03/1926 é eleito o Sr. Washington Luiz à presidência da república (15/11/1926-24/10/1930). Na condição de presidente eleito, em 08/08/1926, Washington Luiz visitou as instalações do Gargalheira, encontrando-as abandonadas, tendo os ingleses se retirado, com um quadro evidente de muita festa feita pelos ingleses antes da partida. Conta-se que o presidente olhou tudo de forma sistemática, demorando-se em cada lugar e fazendo muitas perguntas, não escondendo a sua tristeza num lamento: “Os ingleses foram-se levando o ouro e deixando a ferrugem”. Em seguida deixou o lugar e foi visitar a Estação Experimental de Bulhões, projeto de 1922 do então deputado federal José Augusto Bezerra de Medeiros, agora governador do estado, cuja aprovação se dera pela portaria do Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, Sr. Miguel Calmon du Pin e Almeida, já no governo de Arthur Bernades, em 14/04/1924, passando a funcionar em 24/01/1925, tendo como seu primeiro agrônomo o jovem acariense Otávio Lamartine de Faria, que depois foi prefeito de Acari.

Um fato curioso: os ingleses iniciaram a construção de uma fábrica de cervejas, logo abaixo da casa de hóspedes, mas não chegaram a concluí-la. Segundo o saudoso Coronel Ary de Pinho, seria uma fábrica de gelos para refrigerar a água que seria utilizada no concreto.

Em 1950, já no governo de Eurico Gaspar Dutra (31/01/1946-31/01/1951), é feita nova tentativa, a pedido do deputado estadual, o acariense José Gonçalves Pires de Medeiros, que se deslocou para o Rio de Janeiro, então sede do Governo Federal, para pleitear várias obras para o seu amado Rio Grande do Norte.

Desta feita, sob a responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (ex-IFOCS), foram feitos vários reparos em parte das instalações, casa de hóspedes, construção de estradas, etc. Inicialmente, o Chefe da Residência (como era chamado o chefe geral das obras), subordinado ao 5º Distrito de Obras de Natal, foi o Engenheiro Leonardo Coutinho, sucedido pelo Engenheiro Geraldo Wamslay e Engenheiro Clóvis Gonçalves dos Santos, que não puderam muito realizar, em virtude da pouca verba destinada ao empreendimento principal, ou seja, a construção da barragem. O nosso saudoso Deputado José Gonçalves, ao ver os seus pedidos atendidos, propôs perante a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, que o nome oficial do Açude Gargalheira passasse a ser Açude Marechal Dutra, o que obteve aprovação unânime dos colegas parlamentares.

Em 1954 o presidente Café Filho (24/08/1954-09/11/1955, criou os Grupamentos de Engenharia. O Coronel Rodrigo Otávio Jordão Ramos, então Ministro da Viação e Obras Públicas, criou os Batalhões de Construção, um deles em Caicó – RN. Esses batalhões tinham a missão de realizar os trabalhos previstos para serem executados pelo DNER, DNEF e DNOCS. Também foi criado o 1º Batalhão Rodoviário, depois denominado 1º Batalhão de Engenharia e Construção, inicialmente com sede em Campina Grande – PB e depois transferido para João Pessoa, capital daquele estado. Foi esse batalhão que recebeu a incumbência de concluir Gargalheira. Isso só foi possível graças ao convênio firmado entra o 1º Grupamento de Engenharia e o DNOCS.

Em abril de 1955 o capitão Saint’Clair Abel Fontoura Leite chegou a Gargalheira. Seu primeiro ato foi derrubar as casas feitas de palha na entrada da área do açude, e as construir em alvenaria. No mesmo ano, no mês de agosto, chegou em Acari o Major Ary de Pinho, atendendo o convite feito pelo Coronel Rodrigo Otávio, à época comandante do 1º Grupamento de Engenharia. Com a chegada do Major Ary de Pinho, os trabalhos foram intensificados, inicialmente com a destruição da antiga barragem feita em 1914, e depois os esforços foram focalizados na construção da nova barragem, bem como nas obras que lhe dariam suporte, por exemplo: a vila operária, a escola, o hospital, o posto médico e dentário, o barracão, o açougue, o clube recreativo, o cinema a capela religiosa, etc. A capela que tem como padroeira N. S. De Lourdes, foi inaugurada em 16/07/1957, e foi o celebrante da primeira missa o Bispo D. José Adelino Dantas.

Em 29/10/1956 foi iniciada a concretagem da parede e no dia 20/10/1958 a obra foi dada como concluída. Neste dia a prefeitura de Acari ofereceu um almoço (churrasco) aos funcionários da obra e naquela ocasião o prefeito de Acari, o saudoso Dr. Paulo Gonçalves de Medeiros, irmão do Deputado José Gonçalves (que tanto esforços havia desprendido para a construção da obra), se fez representar pelo seu vice-prefeito, o Sr. Manuel José Fernandes (seu Bilé), que proferiu entusiasmado discurso.

No dia 27/04/1959 foi realizada a festa oficial de encerramento, exatamente cinquenta anos depois de feita a primeira planta topográfica. Durante cinquenta anos a natureza esperara que a boa vontade e a mão do homem fizessem a sua parte. Estava ali, de um estreito vale entre serras, o mais belo reservatório d’água do interior do Rio Grande do Norte e um dos principais pontos turísticos para quem percorre as sendas do Seridó: O Gargalheira.

A barragem, construída em concreto armado entre as serras do Abreu, da Carnaubinha, Olho d’Água e Gargalheira, tem uma altura que chega aos 25 metros e 250 metros de coroamento, a bacia hidráulica ocupa uma área de 780 hectares e a capacidade máxima de armazenamento chega aos 40 milhões de metros cúbicos.

José Pires Fernandes, (1997, p. 24; 25) dá a seguinte ficha:

“A parede é feita no estilo Arco Gravidade, com blocos de 12 metros de extensão a montante, com juntas horizontais espaçadas de 1,5m; a ligação dos blocos é feita através de superfícies endenteadas, providas de diversos elementos (chapas de cobre, chapas de ferro e furos para a injeção de asfalto), para assegurar a vedação e tratadas posteriormente com injeções de cimento, para assegurar o monolitismo dos blocos.”

Segundo o engenheiro da CHESF, o acariense Willian Ferreira da Silva, em entrevista concedida, a edificação em Arco Gravidade da parede é raramente encontrada, existindo pouquíssimas em nosso continente.

Gargalheira está situado na bacia do Rio Piranhas, sendo um represamento do Rio Acauã, no boqueirão que lhe deu o nome. Com a graça de Deus, Gargalheira sangrou pela primeira vez no dia 20/03/1960. A última sangria começou no dia 18/02/2004 e deixou de transbordar em março do mesmo ano.

A origem do seu nome é explicada do nome gargalho, gargalo+eira, ou seja, garganta, entrada, abertura estreita, desfiladeiro, loca, buraco, passagem estreita entre duas montanhas ou entre duas serras. FERNANDES (1997, p.9) diz que “como na área onde está situada a barragem existem muitas gargalheiras, o povo passou a chamá-las no plural, o que ficará para sempre”.

Entretanto, singular explicação nos deu doutor Paulo Frassinete Bezerra, escritor acariense se assinando como Paulo Balá, através de e-mail enviado particularmente a Jesus de Miúdo:

“Ora, pois, deu de cair em minhas mãos uma revista intitulada “Diálogo Médico”- ano 18 – número 2 – maio/junho/2003, editada por “Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos AS”, com a seguinte matéria: “Exposição. NEGRAS MEMÓRIAS. Cerca de 500 objetos, do século 18 aos dias de hoje, fazem parte da exposição Negras memórias, Memórias de negros – O Imaginário Luso-Afro-Brasileiro e a Herança da Escravidão, sob a curadoria de Emanoel Araújo […] A matéria é ilustrada com duas gravuras […] E breve nota explicativa:

“GARGALHEIRA – usada para castigar os escravos”.

Assim, vem daí o nome do lugar com o seu verdadeiro sentido, ou seja: “gargalheira – objeto de tortura usado na escravidão” como fala o texto, conquanto ela – a escravidão – não tenha alcançado, entre nós, o significado que teve na zona canavieira. Aliás, a palavra está assentada em anotações antigas no singular, do mesmo modo como se escuta no linguajar diário até por ser vício de linguagem o de se engolir o plural das palavras.

Receba, pois, caboclo, deste já velho escrevinhador, por todo este mês de Santana que corre, fraternal abraço sertanejo.”

A estrutura deixada pelo DNOCS, no entorno da parede do açude, está sendo aproveitada como atrativo turístico. Mas tudo de forma amadora, ainda sem a preocupação de se oferecer um bom atendimento ao turista.

Faz parte das Sete Maravilhas do Seridó, em eleição realizada através de um respeitado jornal virtual, editado pela jornalista Suerda Medeiros, blog de notícias focando a região do Seridó. Em recente eleição das Sete Maravilhas do Rio Grande do Norte, foi eleito na terceira colocação. Fatos que corroboram a afirmação de Luiz da Câmara Cascudo quando, em conversa com algum amigo acariense, sempre chamava o lugar de “símbolo vivo do Seridó”.

A Serra do Pai Pedro, emprestando a sua base para a construção da parede, é um ótimo lugar para a prática de esportes radicais, tais como a escalada, trekking e rappel.

O antigo estreito, agora transformado em Gargalheira, volta a esperar pela boa vontade e pela mão do homem, para oferecer uma boa estrutura de lazer, aventura e diversão para quem visita aquela região.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

AS TERRAS DO MEU AVÔ

Inspirado em foto de Jácio Mamede:

Meu avô me deu caminho,
Bom sangue, bom coração,
O amor por este chão,
De caatinga e tanto espinho.
Vai longe o meu carinho
Por esse céu azulado,
Esse pago, chão rachado,
Por esse meu pé-de-serra
E por esta boa terra,
Onde vovô foi criado.

Aqui eu também nasci,
Aqui também fui criado.

De vovô, abençoado,
Herdei fé, herdei coragem,
Por isso em sua homenagem,
Cavalgo o sertão amado.
Às vezes fico calado
Dentro da vegetação
Ouvindo um tal coração
Como se vovô vivo estivesse
Pedindo a Deus, numa prece,
Chuva para o seu sertão.

“Pai nosso que estás nos céus…”
Mande chuva ao meu sertão.

Uma sublime oração
Eu ouço sem ver ninguém
Seguindo e dizendo amém
Quero chuva em meu torrão.
Me invade a emoção
Na serra, sobre o platô,
Sol baixando, céu bordô,
E eu feliz cavalgando
Enquanto sigo amando
As terras do meu avô.

Natal-RN, na primeira Lua Cheia de 2015

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PAIXÃO NÃO CONSUMADA

Era paixão de primas, de madrinha, de afilhada, uma mais velha, outra mais nova… ambas loucas!

Talvez a cara pintada acenda esses desejos, esses fetiches nas mulheres desprovidas de certa alegria. Talvez…

O velho palhaço entrou no picadeiro afastando duas belíssimas cortinas em cetim vermelho para a sua passagem. Trazia na mão esquerda um troféu recebido como prêmio. Fora eleito O Melhor Palhaço do Brasil havia três meses apenas.

O troféu foi delicadamente repousado sobre a madeira do picadeiro.

Também trouxe no braço direito o filho, único, ao palco. Todas as luzes do ambiente foram apagadas, restando apenas um canhão amarelado iluminando ambos, do peito do artista para cima.

O garoto de uns seis anos nos braços do pai, vestido e pintado como palhaço, piscou os olhos duas vezes para acostumar a vista à iluminação.

Iniciou-se o diálogo.

– Meu filho, quando eu não puder mais pintar o rosto?

– Eu pinto, papai.

– E quando eu não puder mais vestir roupas coloridas e folgadas?

– Eu visto, papai.

– E quando eu não puder mais calçar sapatos longos?

– Eu calço, papai.

– Meu filho, e quando eu não puder mais subir ao picadeiro?

– Eu subo, meu pai.

– E quando, meu filho, eu não puder mais contar piadas?

– Eu conto, papai.

– Quando eu não puder mais fazer uma criança sorrir?

Houve um silêncio. Teriam ensaiado aquele singular diálogo?

– Eu faço, meu pai.

Havia um silêncio em todo o circo. Um silêncio de alguns minutos parecendo secular, quebrado pelo estalo do beijo do velho palhaço no pequeno em seu braço.

– Estão vendo? Ser palhaço é uma profissão como outra qualquer, dela me orgulho. O palhaço exerce uma profissão tão digna quanto a de bancário, por exemplo (…)”

E o emocionante discurso continuou para uma plateia emudecida.

Havia choro na plateia. Das cadeiras às arquibancadas de tábuas gastas e soltas, chamadas de “poleiros” pela gente daquela pequena cidade.

Eu vi.

Eu ouvi.

Eu sabia a quem era direcionada aquela mensagem.

Ela, que por orgulho desistira daquela paixão avassaladora, sentava-se em companhia de amigas no lugar mais caro das numeradas, a poucos metros do lugar da cena. Também chorava disfarçadamente, com um sorriso bobo no rosto maquiado. Um choro de certa vergonha por sua falta de ousadia, de lágrimas borrando-lhe a pintura feita com capricho.

Do picadeiro o velho palhaço podia sentir o seu cheiro, de perfume bom e caro, colocado especialmente para chamar-lhe a atenção.

Ela baixou a cabeça. Era o sinal de sua covardia.

Quiçá tivesse sido encorajada em entregar-se aquele amor e hoje dançasse rumba pelos interiores do Brasil, desejada, alegre, extrovertida, de bem com a vida.

“Meninas de lá de Cuba que vão à praia toda manhã (…) Depois de tudo eles querem: panrã-pan-pan. Pan-pan!”

Eu nem era pai ainda.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RÉQUIEM DA ESPERANÇA

O Brasil não muda, não evolui, não cresce, não se moderniza no pensamento de sua elite com poder de decisão; tampouco se gradua em boas práticas essa mesma elite.

Muito pelo contrário! Todos os dias temos notícias de um retrocesso a mais.

A Justiça deveria ser a guardiã da Moral e da Ética; no entanto, cospe seu vômito repugnante no rosto do cidadão em atos e decisões abjetas.

Os “Três Poderes” são um conluio de coveiros de sonhos, desprezíveis, sepultando a cada nova decisão a esperança de uma nação inteira.

Não falo pela soltura de um em especial. Bravejo contra a demonstração clara de atitudes sendo na verdade a prevenção da liberdade futura para si próprios, digo, para os dias vindouros nos quais os seus nomes serão achados também no cano das dejeções morais esgotando contra o nosso Estado.

Eles continuarão livres e ricos. Nós seremos reféns da pobreza em seus piores e insanos aspectos, sejam morais ou físicos.

Somos um feudo!

Um feudo onde o compadrio enojaria até o espírito de porco de Wang Jingwei, a falta de vergonha de Domingos Calabar, ou a alma ingrata de Marcus Brutus. Faria envergonhar o avarento Judas Iscariotes, e deixaria corado o obsceno Nero, o incendiário de Roma.

Um feudo onde quem mais defende a igualdade social, vibra comemorando as artimanhas planejadas nas salas atapetadas dos ignóbeis que nos governam há trinta anos. Três décadas saboreando o vinho da passividade do povo e o pão da inércia dos nossos homens; enquanto enricam descaradamente e se beneficiam a cada segundo do poder lhes confiado.

Mudam as máscaras. Os sobrenomes do senhores feudais continuam os mesmos. Para a desgraça de um país cuja melhor metáfora é a do gigante adormecido enquanto “deitado eternamente em berço esplêndido”.

Deus tenha misericórdia dos coniventes com a degradação moral da pátria.

Deus tenha misericórdia dos seguidores do “quanto pior, melhor”, dos veneradores do caos, dos devotos da conveniência e, por fim, misericórdia dos adoradores do erro.

Deus tenha misericórdia de nós!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O UNIVERSO EM UM PONTO

Saudades de Adriano de Auta

Não obstante o estresse e a correria de final de mês – natural pelo fechamento das metas – e os preparativos para o casamento da minha Joana Raquel, depois de amanhã, eu hoje passei o dia me lembrando de Adriano de Auta. O motivo? Não o sei ao certo.

Talvez por uma série de acontecimentos.

Quiçá essa lembrança renitente deva-se pela conversa tida com Jessier Quirino ontem à noite. Quase meia hora de boa prosa, onde falamos de coisas admiradas por nós dois, e das semelhanças existentes entre os sertanejos, beradeiros, bebinhos, doidelos e outros tipos povoando os nossos sertões – que aliás segundo Oswaldo Lamartine, cada um possui o seu próprio.

Falei sobre Adriano como quem fala de algo amado e ao mesmo tempo sumido. Seu nome veio por gravidade, quando falamos sobre artistas que se perdem por esses sertões de meu Deus.

José Adriano Dantas da Silva fez parte da minha infância, adolescência, juventude e quando nos tornamos homens feitos; primeiro como amigo e depois quase como irmão, quando lutamos juntos pela vida dividindo o mesmo quarto empoeirado de uma casa em reforma, lá em Caicó. Já adultos, eu casado e ele apaixonado por alguém distante. Éramos confidentes um do outro, eu o apoiando e ele me fazendo esquecer a saudade da esposa e dos meus filhos ainda pequenos, naqueles dias de novecentos e noventa e quatro quase terminando.

Tínhamos a Esperança embalando nossas redes, cantando tornos madrugada afora. Um esperando o outro adormecer. Ali ele já era Adriano Dantas Bezerra. Um homem feito com um coração de menino.

Assim seguimos por quatro meses, até que um dia ele me chegou com a novidade nas mãos: tinha uma passagem de ida para São Paulo. Era sua última semana no quarto empoeirado da casa sendo reformada.

Em Caicó Adriano fazia de dois a três salários por quinzena. Foi embora sob os meus protestos e conselhos; no entanto, meus argumentos não foram convincentes o bastante para barrar o Sonho da Cidade Grande. Partiu depois de um abraço demorado e augúrios de boa sorte, um desejando ao outro sob a sombra da algaroba do Barraco de Seu Zé Faustino. Fiz questão de ir me despedir dois dias antes de sua viagem.

Em São Paulo um emprego apadrinhado por Tunéa de João Muniz o esperava. “Fichou assim que chegou”, me diria seis dias depois Auta, sua mãe, olhos marejados entre a saudade do caçula e a felicidade de sabê-lo bem.

Eu tinha certeza que sua ascensão na companhia não demoraria.

Não demorou.

Não demorou muito e descobriram o seu extraordinário talento para o desenho. Era a oportunidade do auxiliar de máquina no chão da fábrica partir direto para um escritório moderno, com direito a treinamento na Argentina. Foi Tunéa quem me contou os detalhes.

Um teste foi marcado. Era preciso demonstrar a sua capacidade, técnica e criatividade.

Ele se apresentou ao “Chefe da Criação”. Apertos de mãos, e aquele discurso tradicional para deixar o sujeito à vontade. Não tinha cronômetro para limitar o espaço, porque a inspiração muitas vezes necessita de tempo.

– Você tem uma folha de ofício para desenhar algo livre – falou o homem, empurrando ao seu encontro uma folha A4 em branco e uma caneta nanquim.

A cara de um bezerro mamando foi gerada, o ubre cheio se destacando pelas outras tetas vazias.

Na meia folha de ofício, entregue depois, nasceu uma árvore tipo bonsai. Seus pequenos frutos eram lábios sorrindo.

No quarto de folha de ofício, Adriano trouxe ao mundo uma bailarina equilibrando-se sobre uma perna só. Vestia algo se assemelhando a um coração.

Quando a folha foi dividida em oito partes, em uma delas o rosto de Carlitos surgiu sorrindo em poucos minutos. Era a sua especialidade. No chapéu coco uma estrela disfarçada enfeitava representando um brilho.

E a folha foi diminuindo e recebendo os belos traços de sua imaginação. Até que lhe foi apresentado um papel especial, traçado em linhas horizontais cruzando linhas verticais e criando espaços minúsculos.

– Você tem agora um milímetro quadrado para desenhar algo – explicou-lhe o homem. – Consegue? – desafiou com um sorriso no canto da boca.

Adriano segurou o papel e sorriu de volta para o homem. Pegou a caneta nanquim e mirou bem no meio da folha. Cuidando para centralizar, assentou um ponto em um dos quadrados.

Devolveu a folha.

– Realmente. Aí só caberia um ponto – falou o homem puxando o papel ao seu encontro.

Adriano se escorou no espaldar da cadeira pela primeira vez e, relaxando com os cotovelos apoiados, soltou a pergunta de sua criatividade:

– O senhor só enxerga um ponto? – fez cara de espanto e completou: – Como se eu desenhei o universo?

PS.: Por entender que deveria participar de uma greve duas semanas depois, leu seu nome na relação das demissões. A ordem para a compra da passagem para a Argentina já havia sido expedida.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

E SÓ IMPORTARÁ SER FELIZ

A cada dia que passa mais eu me convenço em abandonar as redes sociais.

Facebook, Twitter e Whatsapp. Esse último preservando apenas a conta comercial, exigida pela empresa me empregando.

Aliás, há dois anos eu excluí a minha conta particular.

Intenciono voltar meu tempo ocioso à leitura de bons romances, biografias, poesias e, também, literatura técnica. Tudo isso alinhado ao convívio real do corpo e da consciência com quem estiver dividindo comigo a mesma sala. Nada nos separando.

Ir mais ao cinema e à praia? Talvez.

É que o mundo tem se tornado chato demais!

As pessoas perdendo o senso da racionalidade estão brigando entre si e defendem sem constrangimentos as causas que lhes são convenientes, como se a vida se dividisse apenas entre um sim e um não, direita e esquerda… É como se não houvesse lugar nem possibilidade para a existência de um quiçá, ou a inexistência de outra direção. A maioria dessas conveniências está diretamente canalizada aos seus bolsos.

Quando não brigam, sentem uma necessidade insaciável de super exposição. Outras nos enchem a paciência tentando protagonizar um humor tétrico, quando não nos trazem “matérias” infames de violência, sexo ou desrespeito ao próximo.

E essas não nos respeitam em nada!

Todo mundo hoje se obriga e obriga em conhecer de tudo, opinar sobre tudo, defendendo seu lado como a águia defende seus pintainhos.

A ninguém é mais dado o direito de não ser bom em algo.

Daí, esse tantão de pessoas depressivas, bem dizer uma nação inteira.

E como eu, pobre homem enrolado em muitos cadastros, negativado em muitas listas, porém sincero aos meus ideais, pois bem, como eu a cada dia mais faço um exercício a fim de me achar fora dessa competição irascível, auguro pela data da minha libertação trabalhando e lutando por ela. Digo, por viver sem a carência, tampouco ser obrigado, de ver, ler e ouvir objetos com os quais não há identificação em minha alma, e para simplesmente respirar sem o encargo de entender de tudo.

Então eu tenho decidido receber e repassar informações apenas ante uma xícara de café.

Os teclados nem sempre entregam a mensagem da forma como a queremos compreendida.

A fumaça do café, além do desenho no ar, entrega a entonação da voz.

E a entonação, por sua vez, é plugada no coração.

Destá! Um dia eu me aposentarei. Oxalá chegue esse dia.

Em algum lugar a paz me espera.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CERTEZA

Um sábio me ensinou
Que na vida assim seria:
Datas de muita tristeza
Outras de muita alegria
Mas, que disso independente
Deus sempre estará presente
Toda hora, todo dia.

Com muita sabedoria
Continuou me ensinando
Que tanto o bem quanto o mal
Têm seus dias no comando
Porém, tudo um dia passa
E só Deus, com a Sua graça,
Fica nos abençoando.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

CARIDADE

Quer preservar seu futuro
Vivendo-o rico de paz?
Faça o bem a quem precisa
Sem publicar nos jornais
Doando com o coração
Mas, sem deixar que uma mão
Saiba o que a outra faz.

E não se esqueça jamais
Que em silêncio a caridade
É linda, é virtude nobre
Porém, com publicidade
Tem seu valor anulado
Sendo o ato rebaixado
A um feito de vaidade.

(Este colunista, em noite de observar o que as aparências escondem)

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

NA TAÇA DO MEU DESEJO
PROVO O VINHO DO AMOR.

No teu corpo eu festejo
Encontro a melhor comida
Bebo sublimar bebida
NA TAÇA DO MEU DESEJO
Embriagado eu versejo
Com paixão e despudor
Faço rimas em clamor
Sedento por mais loucura
Quando em divina aventura
PROVO O VINHO DO AMOR.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UMA GLOSA

Mote:

No caldeirão do desejo
Um bom caldo de priquito!

Há muito tempo não vejo
Comida tão atraente
Queimando em fogo ardente
No caldeirão do desejo.
E como bom sertanejo,
Caboclo macho e bendito,
O meu prato favorito
Eu como e nunca me farto
E com ninguém eu reparto
Um bom caldo de priquito!