JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ILUSÃO DESCOBERTA

Este colunista glosa um mote de Constância Uchoa:

Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Eu pensando em você não me contento
Perco o tento de vez na madrugada
Enlouqueço a cada alvorada
Alvorando você no pensamento.
Vou criando penúrias de lamento
E mentindo ao meu próprio coração
Pra sonhar que não tem separação
Mas, não há nenhum sono que me sobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Com sua volta vou sonhando acordado
Que um acordo faremos para a paz
Nossas brigas cessarão, não terão mais
E as intrigas do lar serão passado.
Se um amor em seu peito tem sobrado
Ou lhe resta uma réstia de emoção
Nos cubramos com o manto da paixão
Descubramos um amor ainda nobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BUMERANGUE

Foto: Segredos do Mundo

A vida é um bumerangue
Que não se perde no ar
Tudo que você atira
Na certa vai retornar
Quem arremessa o amor
A vida faz o favor
De muito amor lhe voltar.

Mas, se acaso atirar
Qualquer um mal a alguém
Não espere receber
Do bumerangue um bem
Pois, o que vai tem retorno
E a vida em seu contorno
É um eterno vai e vem.

A quem carinho, carinho
A quem amizade, amizade
A que acolhida, acolhida
A quem desprezo… Bumerangue!
É a vida!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ESPERANÇA PELO AVESSO – Aparências

Foto: Obviousmag.org

Não tive pena quando a vi partindo
Fiquei apenas por dentro chorando
Entre outras cenas que eu ia lembrando
Eu em silêncio fui me despedindo.
Pedindo a Cristo que fosse medindo
Só a bondade que nós nos fizemos
As tantas vezes que nos maldizemos?
Esqueça aí, que eu daqui esqueço
Se a esperança pomos pelo avesso
Um novo começo nós não mais teremos.

Se nova chance nós não mais queremos
Todos os riscos você assumiu
Sumiu na rua e quando enfim partiu
Partiu toda jura que nós nos fizemos.
Se tudo aquilo que juntos vivemos
Foi somente eterno enquanto durou
E aquele encanto que você cantou
Eu vejo agora estava pelo avesso
Esperança em traço de um recomeço
Traçado no chão, mas o vento apagou.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

RISCOS E TRAÇOS

Risquei paredes, areias, papéis
Pintando poesia em todos os traços
E em cada traço deixei mil abraços
Escritos com lápis, canetas, pincéis.
A vida deixei nesses meus painéis
Buscando encontrar a felicidade
Falei de esperança, amor, caridade
Ensinei e aprendi sobre tudo um pouco
Porém, ao final, me vi como um louco
Sem nada entender além da saudade.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

UM POUCO DE DESABAFO. UM MUITO DE DECEPÇÕES

Os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito eu.

Eu já cantava na minha quase distante juventude que “aqui embaixo as leis são diferentes”. Eco para o resto daqueles dias, em ondas sonoras captadas das vozes dos meus ídolos. Seus discursos com compassos, tons e sons já contam três décadas e ainda são atuais, embora fora de moda pelos ritmos e rimas, frase feitas e perfeitas, embalando os nossos sonhos naquelas manhãs de esperanças frias e embotadas.

Minha geração – a parte aberta e não “cartilhada” – até hoje parece enxergar inclusive no escuro, de olhos fechados e coração aberto. Sempre foi assim conosco, pois somos marranos da educação artística com musicalidade e aprendemos sobre a vida pelas chibatas sociais contra as quais lutávamos naquelas tardes de liberdade morna e sem a mordacidade em seu estado mais malicioso. Nossos corações sempre aquecidos na corrida pelo que era bom.

Éramos uma multidão siamesa curiosamente saída da liquefação entre o criador e a criatura. Fomos produtos de nós mesmos, guiados pela busca do equilíbrio, da igualdade e, acima de tudo, orientados pelo senso comum presente em todos nós da coisa sendo bem praticada, senão em tudo, no que nos fosse possível fazê-la responsavelmente dentro dos nossos direitos, com amor, fé e determinação.

Daquelas noites de batalhas frias para cá o status quo não mudou tanto assim. Infelizmente as lições repassadas e aprendidas em nossa juventude, hoje são definidas como reacionárias, em um conceito requentado por muitos ouvintes das mesmas coisas ouvidas por nós, parceiros na mesma guerra, porém, eles, desertores dos princípios sociais norteando as nossas brigas antigas, travadas no calor daqueles dias idos.

Assim, uns muitos de quem nós saímos, outros tantos que de nós nasceram, têm hoje olhos abertos na luz do meio dia e, infelizmente, não conseguem enxergar o óbvio.

Embora hoje soframos também porque nos apresentam uma nova possibilidade – não obstante montada sobre alicerces tremendamente pavorosos – vamos sendo insultados por descobrirmos não tardiamente que os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito nós. Já não temos mais razão alguma e o eco dos dias atuais são captados das ondas sonoras saídas dos ensaios elaborados entre quatro paredes de salas ricamente atapetadas, onde artistas de outro círculo fazem marketing e se divertem sozinhos. Nada cantam. Escrevem apenas atos de uma peça histórica temida por seu possível desfecho.

Os ídolos do meu tempo escreviam mais, cantavam melhor e morriam mais cedo.

A juventude deles eternamente em nós, os que ficamos para envelhecer contrariando, ainda, as coisas julgadas medonhas.

A ousadia deles eternamente em nós. Também.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BALADAS ENTRE CANTEIROS

A cara, o gosto, o cheiro e o toque de minhas melhores lembranças da Praça Thásia Luanna, no tempo que era apenas Pracinha dos Estudantes, lá no meu Acary do Seridó.

Eu ainda quase um menino, com minhas mãos enfiadas nos chinelos que serviam de baquetas batendo contra o banco de concreto – usado como bateria – no qual sentados, eu e o meu velho e eterno amigo, saudoso e caro, Silvano da Palhoça cantávamos sem a pretensão do sucesso, sem nos preocuparmos com futuro qualquer. Minhas chinelas no compasso de sua mão canhota fazendo vibrar as cordas de nylon do violão de Onavlis, nome artístico usado apenas pelos mais chegados, para tratar com carinho a figura de Pilpano.

Pilpano… Onavlis…

Ambos sendo o mesmo Silvano da Palhoça, risonho, afinado, amigo leal, desprendido do querer possuir e apegado apenas a uma verdade: ser feliz com um violão “embaixo do suvaco esquerdo”, colado ao peito que pulsa, para o som sair mais legal do coração.

“Hoje em sua casa eu não vou mais…”

Hoje tudo é tão diferente. No fundo tudo aquilo passou e aquele tempo, às vezes, é somente “a primeira lágrima” ao final de cada tarde.

Minha meninice é vista apenas nos meus meninos. Que nem tão meninos são mais!

Mudaram a praça, arrancaram os bancos, nos mudamos de cidade…

Cadê Silvano? Onavlis, onde você está? Pilpano? Não lhe vejo mais.

Partiu para tocar naquela praça onde todos nós sentaremos um dia, para cantar por uma eternidade toda.

E eu vou ficando por aqui, vendo-me menino vestido de chinelas nas mãos, ao lado de Silvano da Palhoça, nosso Onavlis, nosso Pilpano.

Duas figuras avistadas pelos olhos da minha saudade cada vez que eu passo ante aquela praça, hoje desfigurada. Duas figuras magras e até feias; porém, ambas belíssimas de felicidade. Dois amigos cantando entre os canteiros pouco cuidados da Pracinha dos Estudantes.

E assim eu sigo, “fecho os olhos e sinto” todas as saudades daqueles dias.

E a vida com todas as suas agruras ainda não me tirou a vontade de querer aquele “gosto de framboesa”; afinal, mesmo não sendo mais tão moço, continuo não sentindo tanta tristeza.

Alegria! Alegria! Cuidemos da vida!

Texto escrito agora mesmo, sob a emoção, após receber em um grupo de WhatsApp um vídeo com a balada A Irmã do Meu Melhor Amigo entre os áudios de outras tantas baladas do grupo Renato e Seus Blue Caps.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

ELUCUBRAÇÕES

Possivelmente eu não seja sequer desse planeta.

Às vezes não quero acreditar que faço parte dessa humanidade tão carente de bom senso. Tanto quanto de solidariedade.

Mas não tenho a presunção de me dizer um espírito evoluído, ou coisa semelhante, na petulância de me achar melhor que outrem.

Apenas não alimento o ideal humano egocentrista se achando melhor que uma flor, ou maior no valor de um inseto; por exemplos.

O mundo parece balançar entre a incerteza da racionalidade e a piegas demonstração de ser emocional.

Quando na verdade tudo é simplesmente um completar de dias em busca do penúltimo estágio da matéria visível: o pó.

A altura e o cumprimento das coisas, das pessoas e até dos sentimentos dizem muita coisa. Mas não falam tudo.

“Um copo” com um bom vinho ao lado de alguém falando sobre arte, independente da sala e da hora, traz mais satisfação que uma subida na Torre Eifell. Pode acreditar que sim.

Daí, se o vinho não está numa taça? Pouca importância tem.

O toque no paladar da bebida e a boa conversa não necessitarão das etiquetas convencionais na apreciação do momento. Tampouco no sabor da companhia.

São essas elucubrações fazendo eu me sentir sendo um ET, pois não vejo a necessidade humana do aparecimento social em suas superficialidades.

Porque a marca da camisa deve ser mais importante que o lugar onde eu irei, ou mais cuidada que as pessoas do encontro?

Devo arrumar a minha alma, vestindo-a com as etiquetas das melhores virtudes e curtir a melhor viagem: segurar na mão de quem eu amo.

Se eu fechar os olhos nesse instante, poderei me ver onde eu quiser estar. Até ao lado de Deus!

E até o tempo será vencido.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

O ENCONTRO DA ÁGUA

Eu tenho quarenta e nove anos de idade. Aos seis comecei a ter contato com o cinema.

Meu Tio Lolô era o porteiro do velho Cine São José, em Acary do Seridó Potiguar, interior de onde Natal está distante duzentos e dez quilômetros.

Nesses quarenta e três anos – de uma quase veneração pela arte de representar – já me vi emocionado ante tantas e tantas cenas que enumerá-las seria impossível.

Seja mesmo com atores desconhecidos no palco de um teatro amador, quiçá no tablado de um circo, na tela pequena das TV’s, ou na telona dos cinemas.

Ou, até, na declamação de uma poesia motivada na simples encenação de quem nasceu com o dom de decorar o belo.

Já chorei muito vendo atores se entregando no mais extraordinário exercício da transformação de um personagem, doando-se à cena com a fome e a sede pela busca da perfeição naquela chamada acima por mim de “a arte de representar”.

Eu poderia citar inúmeras.

Porém, em todas as oportunidades já me dadas de falar após o término da primeira parte da novela Velho Chico, quando cabe dizer uma cena me arrebatando pela capacidade do ator se separar da sua alma própria e assumir inteiramente a identidade do personagem, eu citei a fantástica cena na qual Belmiro dos Anjos encontra as águas do Rio São Francisco.

Que perfeição do ator em sua arte de representar!

A fotografia, o som da Oração de São Francisco tocando por trás do rosto do personagem e a interpretação ímpar do ator Chico Díaz.

Ali, naquela cena, por sua admirável vocação, digo, dele, do ator, por seu extraordinário talento e impecável representação, eu pude perceber todas as agonias do Sertão de todos nós.

Das nossas lutas e anseios, sonhos e esperanças, fé e gratidão.

Para mim, que nada tenho e nada sou, a cena que eu passei a chamar de “o encontro da água” é a mais perfeita interpretação que esses meus olhos sertanejos já puderam assistir até hoje, dentro de toda dramaturgia universal.

Daquela cena nasceram meus versos seguindo abaixo:

BOM CHICO, INESQUECÍVEL BELMIRO

Era um Chico e um Belmiro
Dois anjos num homem só
Um de verdade, outro não
Formando um belo rondó
Duas angústias unidas
Por duas almas, duas vidas
Dois homens que davam dó.

E na garganta um nó
Dois espasmos de emoção
Olhos de fé e esperança
Lábios tremendo, oração
Chico em Belmiro encarnado
Com as águas admirado
Dois em uma gratidão.

Era apenas um Sertão
Por eles vivenciado
Na saga do anjo Belmiro
Por Chico representado
Ante um rio de bonança
Renovando a esperança
De todo um povo cansado.

Da nação sertaneja por suas vivências.

* * *

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

VAQUEIRO ALADO

Partiu seu Hermes Medeiros
Pra aboiar no firmamento
Juntar gado nas estrelas
Nos vales do encantamento
Vaqueirando a eternidade
Encourado na saudade
Tão livre quanto o vento.

Por esse seu chamamento
Os céus todos se alegraram
Serafins bateram palmas
Querubins comemoraram
Nas veredas divinais
Dos campos celestiais
Os santos todos cantaram.

Com a sua chegada.

Vai! Planta um mourão lá no céu, macho bom e arretado, e instala nele uma porteira.

Qualquer dias desses eu abrirei sua tramela.

E espera por nós, bom amigo! Um dia chegaremos por aí também e a prosa continuará no mesmo gosto de sempre.

Ah! E obrigado pelo carinho, pelos conselhos e pelas boas risadas, Seu Hermes.

O senhor foi luz na vida de muita gente.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

TEMPO FELICIDADE

Inspirado nesta foto, feita pela lente sensível de Chrystian de Saboya

Lá onde o mundo parou
Embora haja noite e dia
Passa o tempo sem passar
No relógio da magia
Felicidade é uma bola
A vida é só uma escola
Ministrando a alegria.

O tempo se faz poesia
De versos muito suaves
Metrificados em tônicas
Como se fossem as chaves
Que a liberdade abrirão
Para cavarmos o chão
Onde varetas são traves.

E os meninos são claves
De uma estupenda canção
Correm no tempo parado
Notas de pura emoção
Na música do futebol
Depois de um lindo arrebol
Com os pés descalços no chão.