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VIVA GENINHA

Geninha Rosa Borges, a Primeira Dama do teatro pernambucano, comemorou 100 anos bem vividos terça passada. Amiga de dona Maria Lia (que teria 96), até atuaram juntas em Princesa Rosalinda (minha mãe como dançarina), peça dirigida por Waldemar de Oliveira. Galã era o querido Reinaldo, mas essa é outra história. Certo é que decido, aqui, comemorar esse aniversário lembrando um causo que aconteceu conosco. Convidou para contracenar com ela no auditório da Cultura Francesa. Tratava-se de um monólogo em francês (já nem lembro qual), dramático, e meu papel era simples. Sem falas. Na mesinha, tomando chá, ela falaria de suas mágoas. E, eu, só escutando. Quando fizesse um sinal, lhe serviria chá. Depois, vestiria uma capa, sairia do palco e a deixaria sozinha. Não tinha como dar errado. Só que, novato no ramo, fiquei encantado com seu talento. E não prestei atenção no tal sinal. Ela parou de falar, fez mil sinais e nada. Foi quando pegou a xícara, levantou até a altura dos olhos e entregou na minha mão. Surpreso disse, em português mesmo,

– Desculpe, Geninha, esqueci.

A plateia passou cinco minutos rindo. E, eu, constrangidíssimo. Servi o tal chá e levantei, para desaparecer da cena. A indumentária foi providenciada por Maria Lectícia. Uma capa de chuva Burberry, com 28 botões. Só que estavam atacados, todos. Tive que ir desabotoando, um por um. O tempo correndo e Geninha esperando minha saída. Só que o público desatou a rir, de novo, agora por conta da minha angústia. E senti que deveria me justificar.

– Os senhores por favor desculpem, mas a culpa é de dona Lectícia (apontei), que deveria ter me entregue essa capa já pronta.

Foi pior. A plateia trocou risos discretos por gargalhadas. Até que vesti, me despedi da atriz com uma reverência e saí de cena. Para que Geninha pudesse continuar sua trágica história. No fim do espetáculo, fui falar com ela.

– Geninha, desculpe. Não subo de novo, num palco, até o fim da vida.

– Faz bem, Zé Paulo. Faz muito bem.

E, agora, quem começou a rir foi ela. Por tudo então, pelo que representa para o teatro brasileiro, e para nosso orgulho enorme, viva Geninha. Para sempre. Viva Geninha! Viva, Geninha!

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OLIVEIRA LIMA

Nasceu no Recife (25/12/1867). Filho mais novo de mãe pernambucana, Maria Benedita de Oliveira Lima, e um portugês da Cidade Invicta, Luís de Oliveira Lima. Entrou na carreira diplomática, como Varnhagen, Patrono da Cadeira 39. E representou nosso país em numerosos países. Era um homem especial, antecipando-se a temas que não eram do seu tempo. Segundo ele, “quando as mulheres dispuserem algum dia da maioria parlamentar e do governo, a organização política será muito mais dotada de justiça social… e a legislação poderá, então, merecer a designação humana”.Manuel de Oliveira Lima – Wikipédia, a enciclopédia livre

Entre os que não gostavam dele, as razões não são claras, talvez apenas por conta do temperamento belicoso de OL, estava Emílio de Menezes. Por exemplo, quando à tarde saía para passear, braços dados com a mulher Flora, Emílio ficava repetindo “ali vão a flora e a fauna da literatura brasileira”. E dedicado a ele ainda escreveu soneto, O plenipotenciário da facúndia, da eloquência pois, que começa por verso pouco respeitoso criticando sua gordura, “De carne mole e pele bobalhona”, e finda com esse terceto lastimável: “Eis, em resumo, essa figura estranha:/ Tem mil léguas quadradas de vaidade/ Por milímetro cúbico de banha”.

De outro lado, entre seus mais leais admiradores, estava Gilberto Freyre, para quem seria um “Dom Quixote gordo”. Imagem na linha do que evoca o poeta português António Gedeão (Impressão digital) “Inútil seguir sozinhos/ Querer ser depois ou antes/ Cada qual com seus caminhos/ Onde Sancho vê moinhos/ Dom Quixote vê gigantes./ Vê moinhos?, são moinhos/ Vê gigantes?, são gigantes”. Assim era Oliveira Lima, seguindo sozinho e sempre sonhando em derrotar seus gigantes. E nem será dele, talvez, a tão conhecida frase, que lhe é atribuída, “Na geografia dos defeitos, Recife é capital da inveja e da maledicência”. A frase como assim redigida, não. Mas o conteúdo, com certeza sim.

Depois de se aposentar, foi para os Estados Unidos, onde viveu seu resto de vida, como professor visitante, em Harvard, e na Universidade Católica da América (Washington). Morreu nesta cidade (24/03/1928), onde está enterrado no cemitério Mont Olivet. Na lápide, não consta um nome. Apenas seu epitáfio, que ele próprio escreveu, Hic jacet amicus librorum (Aqui jaz um amigo dos livros).

P.S. Trecho do Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras (10/06/2022).

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DISCURSO DE POSSE

“Academia nova é como religião sem mistérios, falta-lhe solenidade”, lembrava Joaquim Nabuco em seu Discurso de Posse nesta Academia Brasileira de Letras. E concluiu “As Academias precisam de antiguidade”. Precisam mesmo. De antiguidade, tradição e memória. “O povo há de elevar-se pelas tradições” (Alexandre Herculano, Carta a Magesai Tavares) e “sem memória não existimos” (Saramago, Cadernos de Lanzarote). Mais que esforço de uma geração, a partir de conhecimentos que, com o passar dos anos, vão se acumulando. Somos “anões nos ombros de gigantes”, como na célebre imagem de Bernard de Chartres, depois aproveitada por tantos escritores – desde Montaigne até Monteiro Lobato. O futuro nos ombros do passado. Desde o início dessa caminhada entendendo, junto com Orwell (1984), que “quem controla o futuro controla o presente e quem controla o passado controla o futuro”. Como se tudo fosse prenúncio de algo maior que já se pode pressentir e permanece, entranhado em nossas carnes. “Esse pó que fica nos livros, o pó do tempo” (Eduardo Lourenço, entrevista à Agência Lusa). Um culto que é importante, sobretudo, por ser parte de quem somos, o muito feito e o tanto ainda por fazer.

A obra do homem nasce na solidão. “Sem solidão escrever não se produz”, dizia Marguerite Duras (Escrever). Proust sentiu isso (À sombra das raparigas em flor), a “reclusão é mais forte que qualquer outro sentimento”. Só que, uma vez no mundo, essa obra deixa de pertencer ao autor. Passa a ser de todos. E é nessa aparente oposição, entre gestos solitários e ações coletivas, que as academias vão sendo construídas. Por não se fazer com pessoas isoladas, ainda que preparadas e especiais. Fernando Pessoa definiu, com precisão, “Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto” (Bernardo Soares, Livro do desassossego). E lembro dessa metáfora dos navegadores antigos ao refletir sobre nossa Academia. Que seu fim, em palavras de Merval Pereira quando assumiu a presidência da Casa este ano, sobretudo seria “distribuir conhecimento”. É nosso melhor Destino. E se faz em comunhão. Todos juntos. A própria razão de haver determinado, o art. 22 do Regimento Interno, que, nos discursos de posse, o novo Acadêmico “apreciará a personalidade e a obra dos patronos e dos antecessores”. Não pretendo me afastar dessa liturgia. Aqui estão, pois, alguns companheiros de ontem.

P.S. Início do Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras – que li no último dia 10, sexta-feira, às 21:00 hs. Nas colunas seguintes, seguem umas poucas lembranças sobre anteriores ocupantes da Cadeira 39.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (20)

Mais conversas em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

GILBERTO FREYRE, escritor. No solar de Santo Antônio dos Apipucos, era usual receber pessoas ilustres. De Jânio Quadros a Carlos Lacerda. Do cineasta Roberto Rosselini a sir John Russel. Servindo sempre, a todos, seu famoso Conhaque de Pitanga. Preparado por ele mesmo com pitangas vermelhíssimas, colhidas em seu pomar e colocadas em garrafas de cachaça de cabeça. Mais canela da casa e um licor de rosas fabricado por freiras do Convento do Bom Pastor (Garanhuns), que exigia fossem virgens. Quanto ao sabor, não há consenso. Segundo lenda, o romancista John dos Passos bebeu uma garrafa inteira sem reclamar. Enquanto Rubem Braga provou só meio cálice, fez muxoxo e disse “prefiro uísque”. Naquela tarde a liturgia e a pompa, na sala, eram as mesmas. Só que sua mulher interrompeu a conversa mostrando, a todos, um envelope fechado.

– Amor, correspondência para Gilberto Freire sem ipslon. Que faço?

– Devolva, querida. Destinatário desconhecido.

Admitindo fosse algo importante, ou mesmo alguma conta para pagar, insistiu

– Mas não seria bom abrir, antes, para saber do que se trata?

– Magdalena, é crime violar correspondência alheia.

* * *

HEBE, irmã. Armazém Ferreira Costa, na loucura dessa pandemia da Covid. A caixa olha para Hebe

‒ Testou?

Hebe revirou a bolsa, tirou de dentro um monte de papéis,

‒ Claro, aqui está o certificado da vacina.

‒ Testou as lâmpadas?, senhora.

‒ Ahhh…

* * *

MARIA LECTÍCIA, a quem obedeço faz mais de 50 anos. Esqueci algumas cédulas no bolso da bermuda e foi tudo parar na máquina de lavar. Ao vê-las boiando, na água, Maria Lectícia desligou, tirou, pôs para secar e disse

– Você fica reclamando com ministros, em Brasília, mas essa é que eu chamo a verdadeira lavagem de dinheiro.

* * *

SOGRAS. JORNAL O PODER, edição de 27/04/2022, deu manchete sobre Francisco

– O Papa elogia as sogras.

Mais, por baixo, esse comentário

– É porque ele nunca teve uma.

O que faz lembrar Cantoria de Pé de Parede que assisti, em que o grande Louro Branco recebeu mote, Na casa que sogra mora/ Não tem um genro feliz, e cantou assim

Minha sogra sem respaldo
Diz nos pensamentos seus
Que meus filhos não são meus
Que tem um do Lourinaldo.
Que o primeiro é de Geraldo
E o segundo é de Diniz.
Será meu Deus que eu não fiz
Um menino até agora?
Na casa que sogra mora
Não tem um genro feliz!

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ZÉ 3 PANCADAS

Semana passada, falei de um encontro entre JK e José Américo… Que todo mundo, em vez de dizer o nome completo, chama só de “Zé 3 pancadas”. Para correr do azar. Os leitores chegaram em comentários curiosos, cito só alguns:

FILOMENO MORAES: “JK, cassado, em trânsito pelo aeroporto Pinto Martins, encontrou um conhecido, e lhe perguntou sobre o seu ex-ministro do Trabalho, Parsifal Barroso. Ao final da conversa, pediu ao conhecido que desse um abraço no Parsifal. Quando o tal falou para o dito Parsifal este, se borrando todo, com pavor dos generais, retrucou: ‒ Isso lá é hora de mandar abraço para alguém!”

HENRIQUE ELLERY: “Em 1960, eu fazia o Colégio Militar, em Belo Horizonte, e usei meia que, na lateral, tinha ilustração com uma das colunas do Palácio da Alvorada. Na parte de cima, ladeando a coluna, tinha J de um lado e do outro um K, JK. Pra quê? Resultado?, foram dois finais de semana suspenso.”

MIGUEL SOUZA TAVARES: “Passei dois dias e duas noites maravilhosas, mágicas, numa fazenda em Goiás, que me disseram ter pertencido a JK, na fronteira com Tocantins. À noite, ficava sentado num alpendre rodeado por uma rede mosquiteira, sentado numa cadeira de balanço, imaginando que ali se sentava Juscelino, e de dia pescava piranhas no rio que passava na fazenda”.

SÓCRATES TIMES NETO: “Não tenho dúvidas que José Américo toquetoquetoque fez campanha para JK. Essa é a parte cômica da nossa tragédia”.

Mas a grande maioria disse, como IGNEZ BARROS: “Não entendi o motivo de ser, ele, portador de azar”. Vamos, então, lembrar como tudo começou. Recordar é viver. Dando-se que em 1932, num acidente aéreo ocorrido na Bahia de Todos os Santos (Salvador), morreu Antunes Navarro – interventor da Paraíba. E Zé Américo escapou, tranquilo, feliz, boiando sobre uma das asas do avião. O destrambelhado cantador Zé Limeira, louvando Alexandre O Grande, acabou menosprezando feitos do general macedônio ao dizer “Maior foi o Zé Américo/ Que escapou do avião”. Como ele próprio dizia, “Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta” (Bagaceira). No caminho da volta, como se passou a dizer essa frase. O que serviu de inspiração para outro paraibano, José Neumanne Pinto, ao encerrar belo poema (A volta de novo) dizendo “Na volta/ Ninguém se perde./ Na volta só se abre mão da solidão”.

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SÍMBOLOS DA DEMOCRACIA

Juscelino Kubitschek era candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. E precisava do voto de José Américo de… Paro aqui, pois falar o nome completo do cidadão traz 7 anos de azar. Por isso melhor dizer, como toda gente, só “Zé 3 Pancadas” – reproduzindo o bater 3 vezes, na madeira, para tirar mau-olhado. Agosto de 1975 e foi encontrar o paraibano. Problema é que, naquele tempo, não havia vôos diretos para João Pessoa. E teve que aterrissar no aeroporto dos Guararapes. Como era nosso padrinho de casamento, fomos buscá-lo. Quase meia noite, já passando por Goiana, ele comentou

– Havia um restaurante do guaiamum, nesta cidade.

Era o Buraco da Gia, claro. Batemos na porta, semi-aberta, e o dono gritou

– Está fechado, lamento.

– Pena, o homem vai ficar sem jantar.

– Quem?

– O presidente JK.

– Está aberto.

E nos serviu um jantar esplêndido. Ao chegar, a cidade estava às escuras. E ainda não havia internet. Mas, por mistérios insondáveis, 15 minutos depois acordou, com multidão na porta do restaurante. Sem entrar, em uma espécie de reverência. No fim, ao sair, perguntaram onde iríamos.

– João Pessoa.

– É perigoso. Pode haver um atentado. Vamos acompanhar vocês, para garantir a segurança do presidente.

E seguimos, em comitiva. Era bonito de ver. Nosso carro, na frente; e, seguindo, uma fila com centenas de luzes dos faróis a perder de vista, como se fosse o rabo de um cometa. Até que chegamos. Fomos à recepção do hotel. Menos JK; que ficou na calçada, para agradecer, acenando a todos os carros. Fez isso por quase uma hora e, só depois que o último voltou para Goiana, entrou.

Na eleição, em 23/10/1975, perdeu (20 x 18) para o escritor goiano Bernardo Élis. Em seu diário, anotou “Estou pulverizado por dentro. Desejava, ardentemente, o prestígio que compensaria os imensos dissabores de 1964”. Não deu. Pena. Mas essa é outra história.

Lembro o episódio apenas porque JK era, na época da Ditadura, símbolo de uma Democracia despedaçada. E comparo, desalentado, com os símbolos de hoje. Pobres símbolos. Com receio da reação dos eleitores. Alguns sem conseguir voar em aviões de carreira, como JK. Ou jantar em restaurantes, como JK. Ou ficar no meio da rua, longe de apoiadores, como JK. Naquele tempo, os símbolos eram amados. Venerados. Respeitados. Hoje serão?

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (19)

Mais conversas da terrinha, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

CRAVEIRO LOPES, presidente de Portugal. Em 24/06/1957, visitando o Recife, o general e sua mulher, Berta Lopes, foram recebidos, em jantar, no Palácio do Campo das Princesas. Entre convidados o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. E Cid Feijó Sampaio, que poucos meses depois seria eleito governador de Pernambuco. Dando-se então diálogo que fez sucesso, nos jornais locais. Quando sua mulher, dona Dulce, impressionada com o belo colar da portuguesa, e só por querer ser simpática, perguntou

– Diamante?

E dona Berta

– De amante? Não, senhora, de Craveiro.

* * *

RENATINHO MAIA, empresário. Ligou para o restaurante–Café Inn, no estuário do Tejo,

– Presumo que estejam abertos, hoje.

– Claro. Se não estivéssemos, ninguém atenderia o telefone.

* * *

SILVIO MEIRA, gênio. Queria conhecer o Metro de Lisboa. Primeiro mundo, todos sabem. Não se diz Metrô, como o da França. Mas Metro, mesma pronúncia da medida de distância. História curiosa se deu quando ia ser inaugurado, em 1959. A direção contratou o grande poeta português Alexandre O’Neil para fazer seu slogan. Acertaram o preço, que foi pago. E O’Neil escreveu – Vá de Metro, Satanás. Que nunca foi usado, claro. Voltando a Silvio, na Praça Camões, precisava saber como poderia chegar lá. E perguntou, a um patrício que passava,

– Sabes onde fica o Metro?

– Sei, lá embaixo.

E foi embora.

* * *

MARCOS BORGES, professor titular de computação (no Rio). Saiu do Hotel do Chiado e perguntou, ao motorista de taxi,

– Podemos ir à Fundação Calouste Gulbenkian?

– Vamos.

Não disseram mais nada, o taxi logo chegou na Fundação e não havia ninguém por lá.

– Está fechada, o senhor sabia disso?

– Claro, hoje é terça-feira.

– E por que não disse antes?

– Porque o senhor não perguntou.

* * *

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). Num restaurante da Madeira, famílias reunidas, perguntou ao escritor Baptista Bastos

– Dá-me licença que tire uma foto do casal?

– Claro, mas deixe-me pôr um ar inteligente na face.

– Não se preocupe, eu depois retoco a foto.

* * *

ZIRA DE SANTIAGO, baronesa. Por ocasião da morte de dona do Carmo

– Pêsames, Lectícia.

– Obrigado.

– Soube que sua mãe foi incinerada (no Brasil seria cremada).

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PORTUGAL É AQUI

Duas histórias.

1. Uma se passou em Castro Verde, no Alentejo (sul de Portugal). Dando-se que rico doutor atropelou velho lavrador que trafegava, em estrada de barro, montado no seu burrinho de estimação. Mais tarde o velho tentou, no tribunal, indenização pela perda do animal que morreu. E por ter passado um mês, no hospital, até se recuperar. Na audiência o advogado do atropelador, amigo de Ministros, argumentou:

– Tenho em mãos declaração de um policial que esteve no local do acidente. E ele relatou que, quando o doutor perguntou “como está”, o senhor respondeu “Estou optimo”. O senhor nega isso?

– Não. É verdade.

– E como pretende, agora, ser indenizado?

– Porque falta um detalhe, nessa história. É que o doutor, depois de nos atropelar, perguntou à minha burrinha se ela estava bem. Claro que a coitada não disse nada. E ele, sob alegação de que estava fingindo, lhe deu 3 tiros.

Calou-se. O juiz pediu que continuasse.

– Depois virou-se para mim, pôs na minha cara o mesmo revólver, e repetiu a pergunta “E o senhor, está bem?”. Foi quando respondi “Estou optimo, estou optimo”.

E, por não ter o pobre como provar o alegado, foi o rico doutor absolvido pelo juiz.

* * *

2. Outra é um conto de Tomás Ribeiro (Lobos famintos), em diálogos que resumo:

– O senhor D. Martinho de Aguilar?

– Eu sou (lhe diz o ancião). A quem me cabe a honra de falar?

– A Justiça de Castela (queria que lhe entregasse filho, que com palavras ofendeu o Rei).

– Bem vinda seja ela.

– Em nome d’El-Rei/ Como Pai de D. Jaime de Aguilar,/ Que é réu de alta traição/ Tendes a vossa fortuna confiscada!…/ Podei-la resgatar,/ Se, vassalo fiel e obediente/ O entregardes à justa punição.

– El-rei de Castela é nobre! Não manda insultar um velho!/ Pode mandá-lo ser pobre,/ Matá-lo à míngua de pão.

– Mais conta em vós, D. Martinho,/ Que estais em casa d’El-Rei!

– Na vossa, lobos famintos,/ Bandidos sem fé nem lei;/ Lobos famintos, comei!…

Inúteis as queixas de D. Martinho. A quem se pediu o que jamais poderia fazer, que era entregar o filho. Sendo sua fortuna confiscada por El-Rei.

* * *

3. É só literatura, leitor amigo. Sem nenhuma relação com o que se passa hoje em Brasília, claro. Mas não custa lembrar um autor português, Ruy Guerra (Fado tropical), que chorou por nós: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”.

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O DIREITO DE CRITICAR

O cidadão tem direito de criticar seu Poder Judiciário? Aqui, a resposta seria “não”. Com muitos, hoje, processados ou na prisão em razão do que disseram. Por ser a crítica hoje, no Brasil, entendida como um “ato antidemocrático”. É que todos os nossos juízes, especialmente ministros do Supremo, consideram estar acima de qualquer suspeita. Mas estarão mesmo?, eis a questão.

Caso interessante acaba de ocorrer na terrinha. Em 2013, os juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça (assim são nomeados os ministros do Tribunal Constitucional, equivalente a nosso Supremo), decisão de Artur Rodrigues da Costa e Armênio Sottomayor, condenaram o jornalista Emídio Rangel a pagar 25 mil euros à Associação Sindical dos Juízes Portugueses. E outros 25 mil ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. No total, mais de 300 mil reais. O caso começou, em 2010, quando Emídio, na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República (a Câmara dos Deputados de lá, em Portugal não há senadores), fez uma declaração prévia: As “duas centrais operam a gestão de informação processual através de promiscuidade com os jornalistas que obtém documentos de processos para publicar. Trocam esses documentos em cafés, às escondidas”. E completou: “De onde sai a matéria que está em segredo de justiça?” Tratava-se de estabelecer limites à Liberdade de Expressão.

As associações de magistrados bateram à porta de sua própria casa. E os juízes conselheiros ao julgar o caso, era mesmo de esperar, entenderam que o jornalista “ofendeu gravemente imagem, credibilidade, prestígio, confiança e bom nome” de todos os juízes. E deveria ser severamente punido. Condenado por “abuso da Liberdade de Imprensa”, o jornalista morreu no ano seguinte. Mas, antes, recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. E a decisão dessa Corte acaba de ser publicada. Com sua sentença considerando que “os tribunais portugueses só se tinham preocupado com direitos/interesses” das associações sindicais. Sem “ponderar devidamente a importância da Liberdade de Expressão num debate de tanta relevância”. Fim do caso. Emídio, onde estiver, deve estar feliz. E suas filhas mais ainda; que irão receber, do governo português, 51 mil euros. Pena que não possamos, aqui, recorrer a um tribunal como esse. Está cada vez mais difícil ter esperanças, no Brasil.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (18)

Mais conversas em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

General ADEODATTO MONTALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 estudantes universitários que iriam ao Congresso da UNE em Salvador – preparatório do de Ibiúna (em São Paulo, 1968, onde alguns milhares acabaram presos). A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, ao fim, pequeno auditório. Todos entraram e foram para esse auditório. Fui o último. O general estava sentado, à mesa. E considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então sentei numa cadeira, à sua frente. E ele, olhando para mim,

– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.

– Com todo prazer, general.

– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.

– Aceita sugestão?, general.

– Com prazer.

– Prenda só depois.

– Então está combinado. Vai ser na volta.

Procurou minha ficha, entre as que estavam na sua frente, e completou

– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?

– Combinado, general. E muito obrigado pela deferência.

O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, os generais gostavam de se divertir.

* * *

PADRE EDWALDO, da paróquia de Casa Forte. Fez bela homilia sobre a Virgem Maria. Pouco depois, mandei para ele esse bilhete

– Meu caro amigo pastor
Este pobre pecador
Vem lhe pedir um favor
Pra quem vive andando ao léu
O de falar com Maria
Para ver se ela podia
Num gesto de cortesia
Me fazer entrar no céu.

* * *

LUIS FERNANDO VERISSIMO, escritor. Entrando no Beijupirá, em Porto de Galinhas. Grupo grande, com gente de fora, Millôr e outros. Um famoso político do interior pernambucano, então presidente da Câmara dos Deputados, gritou no fim do restaurante

– Luiz Fernando Verissimo, amigo velho, o que há de novo?

Silêncio absoluto. Todas as mesas pararam suas conversas, na espera da resposta. Dava para ouvir as moscas. E ele, que não gosta de falar, respondeu apenas

– O que há de novo, deputado, é essa nossa amizade.

O restaurante bateu palmas.