Mais conversas, novamente sobre Portugal e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Homenagem hoje, como já dito, às Charlas (conversas) Portuguesas, romance epistolar de Soror Mariana Vaz Alcoforado e seu amor impossível com o cavaleiro francês Noel Bouton, Marquês de Chamilly, na Guerra da Restauração. Publicado, em 1669, por Lavergne de Guilleragges.
Ministro MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, do STJ. Pastelaria Alcoa, do Chiado. Na mesa do lado, viu brasileiro pedir
‒ Um expresso, por favor.
E os demais, com ele,
‒ Dois.
‒ Três.
Após o que chegou o garçom com seis cafés (1 + 2 + 3 = 6), uma conta para ele matematicamente correta.
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Cardápio do ótimo (segundo ele) restaurante Manjar do Douro (Lamego) tem, na capa,
‒ O melhor tempero é a fome.
Reproduzindo Cervantes (D. Quixote)
‒ La mejor salsa del mundo es el hamble.
Ou mesmo Cícero que, nos seus discursos, repetia o provérbio latino
‒ Optimun condimentun fames, positionis sitis.
MARCO PINA, político. Em campanha, seu lema foi
‒ Marco Pina por ti.
No Brasil não teria graça; mas, sim, na terrinha. Que pina, em português de lá, quer dizer fode. Ficaria, então,
‒ Marco Fode por ti.
Aqui, com esse lema, não ganharia eleição nem para síndico.
MARCOS BORGES, professor. Ao sair do tradicional Hotel do Chiado perguntou, ao motorista,
– Podemos ir à Fundação Calouste Gulbenkian?
– Claro.
Era perto e o táxi logo chegou. Marcos
– Está fechada, o senhor sabia disso?
– Sim, é terça-feira.
– E por que não disse antes?
– Porque o senhor não perguntou.
MARIA LECTÍCIA. Apontando, ao maître Gomes, prato no cardápio do Grémio Literário (Rua Ivens), com bela vista sobre as colinas de Lisboa e do próprio rio Tejo
– Eu gostaria de experimentar esse Bacalhau à Braz.
– Gostaria? E por que não experimenta?
MURO EM FOLGOSINHO (SERRA DA ESTRELA). Joaquim de Barros escreveu Serenata a uma pretensiosa com versos assim
– Nas tuas unhas condiz
Teu modo de ostentação
Por fora sobra verniz
Por dentro falta sabão.
Naquele muro vi o último quarteto desse longo poema
– Nem sempre uma linda cara
Traduz encanto no mundo
Ha mil fontes d’agua clara
Cheias de lôdo no fundo.
ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). O professor Aníbal Pinto de Castro, catedrático na Universidade de Coimbra, queria saber se leu um livro qualquer
– Não.
– Pois é, Onésimo. Você se preocupa só com livros de alto gabarito intelectual!
– Ó Aníbal, não diga isso, você sabe que já li toda sua obra!
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Num restaurante da Madeira perguntou ao escritor Baptista-Bastos, jornalista e amigo próximo de Saramago,
‒ Dá-me licença que tire uma foto do casal?
‒ Claro, mas deixe-me pôr um ar inteligente na face.
‒ Não se preocupe, depois retoco a foto.
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No Teatro Sá da Bandeira (Porto), o Primeiro Ato da peça correu muito mal e grande parte do público se foi assim que encerrou. Artur Ribeiro, compositor de Amália (é dele o Nem às paredes confesso) e ator contou, a Onésimo, que começou o Segundo Ato a dizer
– Aqui estou, aqui estou, aqui estou!
Só para ouvir, na plateia, um espectador
– Também eu, mas muito arrependido!
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Na ilha Terceira (Açores), esporte preferido são touradas à corda. Uma grande festa, 250 por ano, em ilha com apenas 70 mil habitantes. Visitando familiares, Onésimo encontrou amigo com perna e braço quebrados e a explicação que recebeu dele foi cômica
– Vi o touro correr para mim; mas, como eu ‘tava c’os copos, vi dois touros. Fui esconder-me atrás de uma árvore. Mas, bêbado como eu ‘tava, vi duas árvores. A minha pouca sorte foi eu esconder-me atrás da árvore falsa e vir contra mim o touro verdadeiro.
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Adriano Moreira lhe disse que era nome de rua em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe – Golfo da Guiné, costa ocidental da África Central, o menor país de língua portuguesa. Muito apropriada, essa homenagem, por ter sido ministro do Ultramar e presidente da Academia Internacional de Cultura. Depois da independência do país foi conferir se ainda estava lá seu nome e viu, na placa,
– Rua Ex-Doutor Adriano Moreira.
O que lembra história que se conta de placa que a Prefeitura de São Paulo teria posto, no local, quando trocou o nome da Marginal do Rio Tietê
‒ Avenida Otaviano Alves de Lima (ex-marginal).
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Em Brown, cardápio do restaurante exibia o prato Sônia Braga Salmon. Perguntou, ao gerente do estabelecimento,
‒ Sônia Braga gostava de cozinhar salmão assim?
‒ Não, professor! Sabe? A gente pensa: Que é que gringo conhece de cozinha brasileira? Nada, né? Então a gente pensa de novo: Quem é que gringo conhece do Brasil?… Todo mundo conhece Sônia Braga, não? Então é isso ai! A gente bota o nome dela num prato… O negócio é assim, entende?
‒ Sim,… Mas então, para equilibrar, deveria também ter outros pratos como Feijoada Pelé…
‒ Professor, mas quem é que quer comer Pelé?