JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (54) ‒ FAMÍLIA

Estamos bem perto do fim, volto a dizer. O livro já está pronto. É das últimas colunas. E ando já com saudades, ao perder o encontro mensal com o leitor neste espaço.

Dr. ARMANDO MONTEIRO FILHO, sogro. Usina Cucau. Tinha 5 anos e estava com Henry Ralph Trenchard Shorto, diretor da Mendes Lima – uma das mais importantes empresas açucareiras da época. Foi quando apareceu um trem. O primeiro de sua vida. E o maquinista com macacão vistoso, pendurado na cabine de comando, veio apitando aquele monstro de ferro e aço. Para espanto do menino. Seu Shorto perguntou

– Quando crescer, vai querer ser maquinista?

E ele, antecipando seu futuro,

– Não, vou ser dono de trem.

JOSÉ PAULO NETO, filho. Dedé começou a pilotar carros no autódromo de Caruaru. Ano seguinte acabou campeão, ganhando todas as corridas. Depois foi para a Fórmula 3, em Donington Park (Inglaterra), mas essa é outra história. Certo é que antes de uma corrida pernambucana dona Lectícia, preocupada, lhe deu conselho que acabou na primeira página do Jornal do Commercio

– Meu filho, corra devagar.

JOSÉ ROBERTO CAVALCANTI, Zeca, irmão. Lembrou diálogo de Brecht em A vida de Galileu (escrita em 1937 mas publicada só em 1943) que começa com fala de personagem que trabalhava com Galileu Galilei, Andrea Sarti, filho de uma governanta

– Infeliz do povo que precisa de herói.

Ao que seu mestre retruca

– Não, Andrea, infeliz é o povo que não tem herói.

Pensei no Brasil e completei

– Não, Zeca, verdadeiramente infeliz é o povo que precisa e não tem heróis.

* * *

Tinha que levar a filha, todas as noites, para o ballet; e esperava lá duas horas, lendo livros, até voltar para casa com ela. A dona da academia sugeriu que participasse das aulas, seria um bom exercício, tanto que os bailarinos saíam de lá suados. E completou

‒ Tem ainda uma vantagem, grande, que é o direito a uma Carteira de Estudante. Vai poder pagar meia entrada, nos cinemas.

‒ Na carteira diz qual o curso?

‒ Sim, ballet.

‒ Sai nela minha foto?

‒ Não, só o nome.

‒ Então me inscreva.

‒ Diga o nome completo, para informar à UNE.

‒ Pois não, José Paulo Cavalcanti Filho. Pode?

Só mesmo Zeca.

LUCIANA MONTEIRO CAVALCANTI, filha. No telefone, voz de mulher desesperada

– Pai, pai, vão me matar. Eles querem dinheiro.

– Raquel, minha filha, é você?

– Sou eu, pai, me salve.

– Seja feliz, querida, e desliguei.

O cliente, na minha frente,

– Era sua filha?

– Não, era um ladrão.

Só para lembrar ao amigo leitor, minha filha se chama Luciana.

Dona MARIA LIA, mãe. Quando fez 40 anos, mandei bilhete

– Minha mãe, não é por nada não mas a IDA começa aos 40.

Sem resposta. Mas, quando fez 80, seu motorista chegou bem cedinho com esse recado

– Meu filho, esperei 40 anos para lhe responder. A IDA pode ser que comece aos 40. Mas a VIDA começa, mesmo, é aos 80.

SERGINHO, filho, advogado e Master on Law (Cyberlaw) por Harvard. Fez operação, dessas para emagrecer, e seu motorista Marcelo preocupado. Segue as mensagens que trocaram, pelo zap,

‒ Patrão, saiu tudo bem né?

‒ Foi tudo ótimo.

‒ Graças a Deus, que meu emprego está garantido.

SOBRE AS SOGRAS. Por sugestão do cronista João Alberto Sobral, o fotógrafo Pedro Luiz bateu retrato de certa dama. Quando foi entregar, soube que havia falecido na noite anterior. A história passou a ser conhecida, nas redações. Certo dia, chega cidadão e pede

– Quero lhe contratar para tirar uma foto de minha sogra.

* * *

O jornal PODER, edição de 27/04/2022, deu manchete sobre Francisco

– O Papa elogia as sogras.

Mais, por baixo, esse comentário do jornalista Tonico Magalhães

– É porque ele nunca teve uma.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

UBI VERITAS?

Melhor resposta para a dúvida, no título (onde está a verdade?), talvez fosse frase de Aulo Gélio (Noites Áticas) “veritas temporis filia” (a verdade é filha do tempo). Mas prefiro começar essa conversa lembrando Millor Fernandes que disse (Millor Definitivo) “A verdade não só é muito mais incrível do que a ficção, como é muito mais difícil de inventar’’. E talvez pudesse até complementar, “o perigo da meia verdade é você dizer exatamente a metade que é mentira.’’

Mas o que tem isso a ver com nosso Brasil de hoje?, eis a questão. E a resposta é tudo, ou quase. Tomemos um caso aleatório, como prova, o tarifaço de Trump contra parte de produtos brasileiros. Ninguém pode estar a favor do americano, até por romper uma tradição de fraternidade que sempre uniu nossos dois países.

O Presidente Lula, sem maiores preocupações, reagiu como candidato. Agradecido ao gringo por assumir o rosto do Inimigo Externo, tão útil nas eleições. Tanto que, logo depois, anunciou com alarde que vai usar a Lei da Reciprocidade. “Pra que? Pra nada”, como diria Ascenso Ferreira (Gaúcho) sobre o gaúcho “em louca arrancada”.

Só que, aos poucos, notou que os empresários brasileiros exigiam dele algo diferente. Que negociasse, como todos os outros países estão fazendo. Mas como fazer?, sem incomodar sua campanha presidencial.

Foi quando decidiu, junto com seu marqueteiro, levar a questão à Organização Mundial do Comércio – OMC. Em tese, uma boa ideia. Só que há, no caso, um problema. Grande. É que o tribunal, composto de 7 Juízes Ativos, exige em cada caso votação mínima com ao menos 3 deles.

E a OMC, desde 2019, tem 0 (zero) juízes. Não funciona pela simples razão de não poder julgar nada. Aberto está, claro, para coisas sem importância, por exemplo receber requerimentos no protocolo. Reduzindo essa proposta, de ir a OMC, a seu verdadeiro papel de evento com caráter só eleitoral.

Os Estados Unidos deve ter achado muito divertido; tanto que em Resposta Formal, protocolada em Genebra, disse estar “inteiramente à disposição dos diplomatas brasileiros’’. Sabe que nada acontecerá e entrou no jogo; se querem brincar, então brinquemos todos.

Resultado, amigo leitor, é que vai dar em nada. Simples assim. Por essa via, pelo menos. E nossos jornais? Fico só num exemplo. Em que importante jornalista brasileiro, num formidável arroubo ufanista, chegou a declarar (FolhaSP) “Resposta aos Estados Unidos, na OMC, é vitória brasileira”.

Só uma bazófia. Posto sabem todos, ele e os demais profissionais a seu lado, que nessa querela não há vencedores nem vencidos. Ao menos até quando sejam nomeados novos Juízes. Se é que serão. No Dia de São Nunca, talvez.

Seria, figurativamente, uma Vitória de Pirro – quando não há propriamente vitória nenhuma. Pirro foi um comandante da Grécia Antiga que derrotou o exército romano na Batalha de Ásculo, mas essa é outra história. Fato é que todos os jornais brasileiros conhecem os fatos. E nos espanta só por agirem como se fosse uma proposta séria. Sem perder tempo no lembrar, ao leitor, que por hora não há juízes na OMC.

Talvez aqui se pudesse lembrar uma lenda que vem de 1745, quando modesto moleiro desafiou o Rei Frederico II, da Prússia (atual Alemanha), daí vindo a conhecida frase “Ainda há juízes em Berlim”. Em Berlim, sim. Em Genebra, com certeza não.

E assim vai a nave, na conturbada política brasileira de hoje. E não apenas com o caso da OMC. Reduzida a uma montanha de aparências. Mas onde está a verdade nesses casos todos?, amigo leitor. A verdade, ora a verdade, quem se preocupa com ela?.

É pena. O que nos permite encerrar essa conversa com mais uma frase do amigo Millor, “A verdade é aquilo que sobra depois que você esgotou as mentiras”.

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SIGILO DA FONTE

Nesta quarta 11/08/26, e mais uma vez, o Supremo tornou letra morta a Constituição. Responsável por essa violência, mais uma vez, o ministro Alexandre de Moraes. Grave porque cabe precisamente ao Supremo garantir que seja respeitada. Basta ver, art. 5º, XIV: “É assegurado a todos o acesso à informação e RESGUARDADO O SIGILO DA FONTE”.

Trata-se de um caso simples. O ministro Flávio Dino requereu, de boca, veículo ao Tribunal de Justiça do Maranhão. Uma caminhonete blindada. Para ir à praia, como um simples mortal. Sem papéis, claro, onde ficaria registrada essa benesse. Não há crime, nisso. Mas revela o uso promiscuo, de bem público, por um daqueles que se consideram verdadeiros donos do Brasil.

A notícia foi dada pelo jornalista Luis Pablo, sem indicação da fonte. Direito dele, garantido pela Constituição – o que para o ministro Moraes, claro, não vale nada. Tanto que determinou a invasão, de sua casa, com apreensão de todos os celulares e computadores que ali se encontrassem.

Como esses meios, identificou a fonte: o ex-secretário de Estado Raimundo Cutrim. A Polícia Federal deixou de lado o uso irregular do veículo, para investigar apenas o informante. Que, agora, vai responder processo. Não na Primeira Instância, como deveria, posto não ter foro privilegiado. Mas perante o próprio Supremo, claro. Podendo ser condenado, a julgar pelas última decisões da Côrte, a até 17 anos de prisão.

No último caso relevante decidido pelo Supremo por exemplo, em 17/11/2015, o relator, ministro Celso de Melo, limitou-se a dizer o óbvio; que jornalista “não podia sofrer qualquer sansão, quando se recusar a quebrar esse sigilo (da fonte)”. Sem uma palavra sobre a obrigação de responder, o próprio jornalista, pelas informações que recebeu de sua fonte.

Um tema tranquilo, na doutrina. Cito apenas Steinmetz (Comentários à Constituição): “Quando o profissional ou a empresa invocam o sigilo da fonte, assumem a plena responsabilidade pelo teor da informação veiculada, inclusive respondendo cível e criminalmente por eventuais danos causados a direitos de terceiros (e.g., honra, intimidade, vida privada e imagem)”.

Como não pretendo aqui proteger jornalistas, e diferentemente do que tem sido entendido por alguns jornais brasileiros, lembro que o sigilo protege só a fonte. E, não, quem dá essa notícia. Em todo o mundo é assim.

Por exemplo Judith Miller (Prêmio Pulitzer em 2002) publicou, no N.Y. Times, que Valerie Plame (mulher do ex-embaixador Joseph Wilson) era agente secreta da CIA. Pondo em risco a vida de Valerie. A jornalista não revelou sua fonte. E acabou presa, no Distrito de Columbia (Washington).

Mattew Cooper, da revista TIME, fez o mesmo. Só que se livrou da prisão por dizer quem era. Segundo ele, autorizado pela própria fonte – o conselheiro político de Bush (filho), Karl Rove.

Voltemos agora ao caso do Maranhão. Não se trata, pois, de proteger jornalistas. Se tiver que responder pelo que diz, seja. Mas tudo segundo a própria Constituição.

De resto a prova é, claramente, ilícita. Não pode ser usada. Mas o Supremo vai reconhecer isso? Duvido. Responda o jornalista, se crime houve (creio que não). Para o Supremo, vale mais o corporativismo. A proteção descarada, e no plano ético indecente, de seus membros. Alguns, hoje, milionários. A impunidade de seus membros, amigo leitor, ali hoje é a regra.

E segue, assim, a Democracia brasileira. Que já deixou, faz tempo, de ser Democracia. É só uma ditadura reles, em que ministros do Supremo exercitam o poder sem nenhum limite. Mesmo contra a Constituição. Azar o nosso.

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CRONOS

Em 07/02/25 o eminente articulista do Jornal do Commercio (Recife), Igor Maciel, escreveu coluna sobre o mito grego de Sísifo ‒ que empurrava grande pedra até quase o topo de um monte para vê-la rolar, depois, ladeira abaixo. Obrigado como castigo a fazer isso, todos os dias, até a eternidade.

Na parábola de Igor, Sísifo seria nosso (então) ministro da fazenda, Fernando Haddad, com sua reiterada promessa, aos anjos, de cortar gastos em um governo perdulário que está se lixando para isso. Seguindo nessa trilha da mitologia grega, lembro também Cronos, filho mais novo de Urano (o céu) e Geia (a terra), pertencentes à primeira geração dos deuses ‒ anteriores, portanto, aos Olímpicos.

Senhor do Tempo (daí vem cronômetro), e Rei dos Titãs, podia tudo. E desposou Reia, uma irmã. Ocorre que seu pai, Urano, previu que seria destronado por um de seus filhos. Como acontecera com ele, a seu turno destronado pelo filho Cronos. Razão pela qual, para evitar perder o poder, passou Cronos a devorar todos os filhos que teve, à medida em que iam nascendo.

Até quando Reia, gravida de Zeus, desejou ter um filho que permanecesse vivo. E decidiu parir bem longe de casa, em Dicter. Depois, envolveu uma pedra em panos que Cronos engoliu pensando ser seu filho recém-nascido.

O final dessa lenda é que, adulto já, Zeus levou Cronos a beber uma droga que fez devolver, ao mundo, todos os filhos que tinha devorado antes – Héstia, Deméter, Hera, Plutão, Posseidon. E estes juntos, confirmando o vaticínio de Urano, acabaram derrotando o pai cruel.

Voltando ao Brasil, por aqui esse mito dos caudilhos soberbos existe por toda parte. Vamos a só dois exemplos, em Brasília. Primeiro é Lula da Silva. Nenhum filho ou agregado teve, tem, ou algum dia terá vez como seu herdeiro político. E ninguém jamais vai prosperar, no seu espectro. Como Átila o Huno, conhecido como O Flagelo de Deus, o chão em que pisa não nascerá mais grama.

Foi candidato três vezes, antes de ser presidente; e, em todas elas, acabou derrotado. Sem sequer admitir que algum companheiro de partido pudesse pensar em disputar seu lugar. Como ele perdeu, outro poderia ganhar. Que nada… A vez era dele e de mais ninguém. Até que veio 2002 e, enfim, teve sucesso (repetido em 2006).

Já na eleição de 2022, precisou que o Supremo o descondenasse para ser candidato. Algum dia, professores de Direito tentarão (vai ser difícil) explicar a seus alunos como se deu isso. Apesar da idade avançada, ou por pressão de sua jovem consorte, nem passa por sua cabeça ver algum outro personagem candidato em seu lugar. Ou ele ou o dilúvio.

Do outro lado, acontece a mesma coisa. Bolsonaro, preso, não pode ser candidato. Sabia, era evidente, que a oposição ao PT poderia ganhar a eleição de outubro. Com um nome novo, claro, escapando dessa radicalização agônica, insensata e triste que hoje degrada e deprime a política brasileira.

Há 5 governadores bem avaliados, na oposição, que poderiam ser esse candidato (de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e, mais óbvio de todos, São Paulo). Escolhesse qualquer um, e a chance de ganhar seria enorme. Que nada…

Prefere disputar com um filho, Flávio. Egocêntrico, e mesmo perdendo, em sua visão obliterada vai sair ganhando. Com votos, dados em seu sobrenome, como um espólio, a ser depois usado em favor dele (ainda sonha com isso) ou alguém da família.

Resumindo, amigo leitor, mitos gregos como os de Sísifo ou Cronos aqui estão para nos ensinar. E nem sempre tendo final feliz. Como o dos que sonham com uma terceira via, longe do fel de nossa vida pública atual, e vão ter que esperar para outro dia. Num futuro incerto, que poderá vir ou não.

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JANJA x DONA RUTH

Numa controversa entrevista para o portal UOL (em 13/07/2026), no programa Frente a Frente, dona Rosângela (Janja) Lula da Silva declarou que o Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”. O que só agora se dá, comigo, talvez estivesse pensando. Fosse pouco, sobre dona Ruth Cardoso, disse ter ela recebido tratamento diferenciado da mídia “por ter mestrado e doutorado”; por fim reclamando sofrer “preconceito de classe”, dado não ter maiores estudos.

Em respeito à sua relevante função, e para ficar dentro dos limites da boa educação, deixo de fazer maiores comentários sobre o estilo exótico de nossa atual primeira-dama, seus gostos extravagantes, os inadequados pronunciamentos fora da hora ou gastos excessivos nas opulentas viagens que faz, paremos por aí. Sem nenhuma relação com sua modesta escolaridade. E longe de qualquer preconceito, claro. Mas me sinto obrigado a contestar essa opinião que deu.

Sobre dona Ruth cumpre, antes de tudo, reconhecer que era diferenciada e não por ter doutorado, sobretudo por conta de suas ações sociais. Listo, aqui, só algumas. Como a criação da Comunitas, para desenvolver programas sociais mais eficientes. Ou a Comunidade Solidária – que reunia governo, empresariado e ONGs, sobretudo no Combate à pobreza extrema.

Desenvolveu o programa Universidade Solidária, com o qual estudantes e professores participavam juntos no desenvolvimento de comunidades específicas. E levou a educação básica para milhões de jovens em cidades carentes do país – na linha de Paulo Freire (Política e Educação), “Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperanças”.

Faltando lembrar o Bolsa-Escola, um programa de renda mínima buscando garantir educação e futuro às novas gerações, que depois se converteu no Bolsa-Família. Com certeza bem melhor que o atual, assistencialista e eleitoreiro. A ironia é que quando seu marido elogia o Bolsa-Família, dona Janja, e diferentemente da senhora, está na verdade elogiando é nossa dona Ruth, que criou o programa.

Aproveito e segue um pouco de história para dizer como nos conhecemos. Em fins de 1998, telefonou assessor, ela queria falar comigo e marcamos almoço no Hotel Glória (Rio). Explicou que deveria desenvolver projeto da UNESCO para fazer uma nova legislação de regulação do Terceiro Setor (ongs e afins); espraiando em seguida, o resultado, para a América Latina. Perguntou o que achava do tema.

‒ Nada (respondi), nunca pensei nisso.

‒ “Mas se não tem ideias, doutor, qual o motivo de estamos aqui perdendo tempo?”

‒ Talvez, dona Ruth, porque saiba redigir uma lei assim. Como fazíamos no Ministério da Justiça.

– “Por favor explique”.

– Pegávamos 10 países. Estados Unidos, Canadá e Austrália por serem fisicamente grandes, como o Brasil; também os 6 mais importantes da Europa (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal); e, por fim, um da Escandinávia, qualquer, as legislações são muito parecidas.

Continuando,

– Depois, púnhamos as 10 leis na frente. O art. 1º era igual, em todas, então copiávamos. Sem inventar nada. Art. 2º, idem. Art. 3º, era diferente. Em vez de copiar, tentávamos entender a razão dessas diferenças. Após o que redigíamos artigo novo, com base em nossas características. E assim por diante, até o último artigo. No fim, o projeto básico da lei estava pronto, faltando só complementos que considerássemos importantes para os fins desejados.

Aparte para dizer que, curiosamente, não pude usar o sistema ao redigir o Decreto 3.551/2000, para o governo Fernando Henrique Cardoso, que criou o Programa Nacional do Patrimônio Oral e Imaterial brasileiro. Atendendo recomendação da UNESCO, de 1985. Por não haver ainda, em nenhum país, uma normativa assim. Esses outros copiaram, depois, reproduzindo o nosso. E até recebi medalha da UNESCO, por isso. Voltando à conversa, ela

‒ “É tão fácil assim?”

‒ Creio que é.

Pensou um pouco. Então, virou-se para um assessor em mesa próxima,

– “Augusto (de Franco), por que perdi tempo ouvindo tantos especialistas?”

E concluiu,

– “O senhor coordena esse projeto para nós?”

Assim se deu, por quase dois anos, qualquer dia conto isso com mais detalhes. Contratamos consultorias pelo mundo, editamos alguns livros importantes, dei curso em Harvard; e fizemos diversas normativas, entre elas o Decreto 3.100/1999 que criou as OSCIPs.

Para encerrar, segue historinha divertida de uma das vezes quando foi passar tempos em nossa praia. Elogiou chapéu de palha usado por dona Lectícia, então lhe disse

– É seu, dona Ruth. Cuidado só que vão dizer estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.

Pelo exposto, pois, devemos todos confirmar ter sido uma pessoa muito especial. Que sempre colocou o interesse coletivo acima dos partidários ou pessoais. Que pensava, antes de dar qualquer entrevista. E com cuidado, no falar, para não ofender ninguém. Com mil perdões à nossa atual primeira-dama, e em vez de críticas, merece é ser louvada. ‒ Viva dona Ruth!!!

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OS GATOS E O BRASIL

Começo essa conversa com uma história real que se deu na Rua Maria Ramos (Olinda). José (o interessado pediu para omitir seu nome) tentava viver noites calmas na casa que acabara de construir. Ocorre que vizinha, dona Mirian, era amante de gatos. Alimentando, regularmente, 20 deles.

Aqui, vênia para lembrar felinos que viviam na casa do mestre Edson Nery e ficavam enroscados em nossas pernas, quando íamos lá. Ou o amigo Fernando Pessoa que, inspirado em Bocage, escreveu poema (sem título, sem data) sobre eles, dizendo “Gato que brincas na rua/ Como se fosse na cama/ Invejo a sorte que é tua/ Porque nem sorte se chama”.

Recordo por fim os “Fortes gatos suaves”, como a eles se referia (em Flores do mal) um dos precursores do simbolismo, Charles Baudelaire. Curioso é que seu livro, assim que lançado, foi considerado “imoral”. Não era. Mas essa é outra história, com outros personagens, e fica para outro dia.

Certo é que, tão logo construída, passaram os gatos de dona Mirian a fazer Assembleia Geral no telhado da casa – uma placa de concreto, como o dessas casas modernosas – do referido José. E tão grande era o barulho da gatalhada que não dava para ninguém dormir.

Dona Miriam parada, não era problema dela. Assim pensava. E assim dizia, quando reclamavam. Foi quando os pedreiros Chico Muafa (de Passira) e Cleber (de Currais Novos) decidiram ajudar seu amigo e chegaram com a solução.

Em tigelas de plástico, puseram Sardinhas Coqueiro, molho de tomate e cuscuz, tudo misturado com cimento. Enquanto, nas outras, água. Espalharam no telhado, antes de chegarem os gatos. Resultado, no dia seguinte, morreram 19 deles (escapou só um que, adoentado, ficou preso em casa pela dona). Como se tivessem uma parede de concreto armado nas suas barrigas duras, coitados. Bem duras. E daí?, amigo leitor. Daí que crimes, se ocorridos, já prescreveram. José vendeu a casa e não mora mais por lá. Enquanto dona Miriam, ignora-se o que aconteceu com ela.

O episódio lembra nosso Brasil. Onde os escândalos se sucedem e fica tudo por isso mesmo. Como o Petrolão, que pôs muita gente ilustre na cadeia – tesoureiros de partidos, políticos (muito) influentes, ricos empresários. Até que o Supremo anulou tudo, com base em tecnicabilidades (muito) discutíveis. Difícil de entender esse tipo de proceder, uma espécie de prêmio para a corrupção. Devolvidos todos às ruas, proclamam agora terem sido “inocentados”. Só mesmo rindo…

Depois os aposentados, coitados, miseravelmente assaltados. Até um funcionário de nossa casa, Bigode; que sem sucesso reclamou dessa expropriação, por 9 meses, no INSS. Nem CPI o Sistema permitiu. Nenhum dirigente de Sindicato está sendo investigado. Nem parentes de políticos ilustres. A conta? Pagamos nós, com nossos impostos.

Depois o Master. Não morreu, ainda, só por conta do bravo ministro André Mendonça. Mas tudo conspira contra ele. Os poderosos do Brasil estão em ação, para encerrar o caso. Ministros do Supremo (alguns) à frente, claro. Assim, e por confiar no passado, Vorcaro nunca fará Colaboração Premiada. Confia no passado e espera ser solto, em breve, para se juntar a sua turma boa.

Voltando a nossa historinha, para encerrar. Se culpado houve, creio ser quem deveria cuidar dos gatos. E pena, mereciam melhor destino. Eles e hoje, permitam os leitores, todos nós brasileiros.

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DAVI E GOLIAS

A história todos conhecem. Reunidos em Socó de Judá, cada qual em uma colina no vale de Elá, estavam filisteus e, com tropas menores, israelitas. A guerra estava por começar. Foi quando o campeão dos filisteus desafiou Israel para combate individual, com a vitória de um significado qual exército se tornaria servo do outro.

Esse guerreiro era Golias (em hebraico exilado), da cidade de Gate, com cerca de 3,51 metros (6 côvados e 1 palmo) de altura. Usava malha de bronze que pesava 57 quilos (5 mil ciclos), caneleiras de bronze, um grande escudo e lança cuja ponta pesava 6 quilos.

Por estarem com medo, todos os soldados, seu opositor acabou sendo Davi ‒ um jovem pastor ruivo e mirrado, irmão mais novo de Eliabe, Abinadade e Samá. Recusou a armadura que tentava o rei Saul lhe por, dado que com ela quase não podia se mover. Indo, ao combate, armado só com seu cajado e uma funda, a mais primitiva das armas de arremesso da humanidade, que usava no pastoreio contra leões e ursos que ameaçavam suas ovelhas; além de 5 pedras lisas que apanhou num rio próximo e guardou no alforge.

Ao se aproximarem, Davi usou sua atiradora e atingiu Golias de tal modo que a pedra ficou encravada em sua testa. Caindo, esse gigante, com a face na terra. Mas ainda vivo. Por pouco tempo. Que Davi usou então a espada, que tinha na cinta o gigante, cortando sua cabeça. E, com ela, entrou triunfante em Jerusalém. Mais tarde governou Israel por 40 anos, sendo sucedido por seu filho Salomão, mas essa é outra história.

Uso essa quase parábola ao refletir sobre a Copa do Mundo. Porque vimos jogos que lembravam o que aqui se contou. Com seleções que, por dinheiro e tradição, eram gigantes como Golias. Enquanto outros países, pequenos Davis, ali estavam apenas pela honra de defender suas bandeiras, o que os tornou muito especiais.

Para uma ideia das distâncias, o prêmio que Cabo Verde concedeu ao goleiro Vozinha, por sua participação na Copa, foi de apenas 10 mil dólares (dos quais 5 mil logo doados para instituições de caridade).

Só que, diferente da história bíblica, os fortes aqui vencem (quase) invariavelmente. No jogo contra a Argentina, o Egito teve anulado gol pois seu jogador teria pisado, 3 minutos antes, no pé de um argentino. A mesma jogada que já antes havia acontecido, umas 40 vezes, e nem faltas foram marcadas.

Em outro jogo, a Suíça empatava com a Inglaterra. Dominava e todos sentiam iminente o gol da vitória. Até que, em jogada no meio do campo, um jogador suíço se jogou no chão. Longe da área, sem perigo de gol, a bola já saindo pela lateral. E foi expulso. Por simulação. Dá para acreditar? O sistema é forte. Duvido que decisões como essas acontecessem no sentido contrário. Em favor dos Davis, contra os Golias.

Comparando com o Brasil, e para ficar só em um exemplo, nosso Supremo é guardião da Constituição. Deveria ser. Mas vejam o que diz o art. 37, XI: “A remuneração… da administração pública… não poderá exceder o subsídio mensal dos ministros do Supremo”. Pode haver dúvida? Quem quiser enriquecer, vá para a iniciativa privada.

Pois bem. O Supremo acaba de autorizar penduricalhos corporativos em até 35% a mais que esse limite. Mas, se era limite, como pode ser ultrapassado? E a Constituição?, senhores. Que se lixe!, parecem sugerir, com suas decisões monocráticas, nossos bravos ministros. Tornando atual a frase de Valery (Caderno B), “O poder sem abuso não tem charme”. A turma de Golias por aqui se considera virtuosa, invulnerável, eterna e onipotente. Deus, que protegeu Davi, tenha pena dos brasileiros.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (53)

Tristeza, esta semana. Perdemos Wal, amigo queridíssimo, em quem votei nos últimos 30 anos (pelo menos). E a Copa. Shakespeare dizia (Cimbelino) que “algumas dores são passíveis de cura”. Wal, com saudades. A Copa, daqui só há 4 anos, se Deus quiser. Para alegrar o ambiente, nesse entretempo, seguem conversas.

ANÚNCIO DE JORNAL. Na grande cheia do Recife, em 1975, algumas vias (ou trechos delas) ficaram cobertas por dois metros de água ou mais. Como a Avenida Caxangá. Depois o proprietário de casa lá situada fixou cartaz, no portão, que ganhou a primeira página dos jornais locais:

– Vende-se essa merda.

* * *

Por falar em anúncios me mandaram esse, que seria de um jornal impresso:

‒ VENDO IMÓVEL.

Em ótima localização
Te vi passando. Pela primeira vez
E à primeira vista
Fiquei assim, sem reação:
Vendo, imóvel.

Só que em verdade eram, conferi depois, versos de Bruno Félix (na série Poemas classificados).

GORDO, boleiro no tênis. Eram gêmeos, iguais nos rostos mas diferentes nos caminhos. Daniel, crente, quase um santo. Enquanto Samuel, com extensa folha corrida na polícia, estava para ser preso a qualquer momento. Só que morreu Daniel, difícil entender os desígnios do Senhor. Pouco depois falei com seu irmão Samuel, o Gordo,

– Lamento.

– Não foi tão ruim, dr. José Paulo.

– Como?

– É que enterrei ele com meu nome. Quem morreu fui eu. E já avisei, na delegacia, para cancelar os processos de Samuel. Resumindo, agora sou Daniel.

Incrível é que tudo acabou bem. Os processos já prescreveram. Não lhe aconteceu nada. E ele acabou mudando mesmo de vida, passando a ser (um pouquinho) mais parecido com o mano Daniel.

MARIA, empregada de Margarida Cantarelli. Em Londres, fazia todas as compras. Por ser quem cozinhava, na casa, sabia do que precisaria. Ninguém acreditou pudesse conseguir, dado não falar uma palavra de inglês. Mas nunca teve qualquer problema, incrível. Há quilos de histórias, com ela. Vai só uma, da primeira feira que fez. Quando acabou, somou os preços e pagou:

‒ Está tudo aqui.

O vendedor da feira entendeu pelos sinais, contou o dinheiro e confirmou na sua língua

Paid (pago).

Na volta, chegou de cara fechada. Dizendo que foi destratada. Margarida quis saber:

‒ Como é?, Maria.

‒ Pois imagine que o homem, no fim, teve a cara de pau de me mandar peidar.

PORCO, encordoador de raquetes. Trabalha na sala da casa, onde fica seu equipamento. Encontrou Maria Lectícia e confessou

– Dona Letícia, estou vivendo um inferno.

– Que aconteceu?, Porco.

– Silvana tirou 30 dias de férias.

– Para você ver a importância das mulheres, na vida dos maridos.

– A senhora não entendeu, dona Lectícia. Ela está passando férias é dentro de casa.

* * *

Apareceu com uma tatuagem na perna, da família Chaves, aquele mexicano que passa no SBT. Ao ver essa coisa ridícula, não resisti

‒ Agora tatue a frase Eu sou um idiota.

‒ Só se for em grego antigo, doutor. Escrevi num papel

‒ Pronto, pode tatuar. E fique tranquilo que ninguém vai saber o que está escrito.

‒ Mas EU vou saber, doutor.

‒ Não tem problema, Porco, porque VOCÊ é mesmo um idiota.

WHITES ONLY, Washington DC, 1969. Estava indo para encontro com o educador Paulo Freire. Dentro do ônibus, placa dizia que na primeira metade só poderiam ficar brancos; e, no fundo, negros. Em protesto, sentei atrás. Longe dos brancos (até porque, em Harvard, era o mais escuro da classe). Sou trigueiro, assim está no Certificado de Reservista. Um velho negro tocou no meu ombro

– Posso lhe dar um conselho?

– Pois não.

– Vá para a frente, que é seu lugar.

– Perdão, fiz de propósito, sou contra essa discriminação.

– Por favor, vá para a frente.

– Prefiro não ir.

Dois outros (armários, enormes) se levantaram, com cara feia, e insistiram – Volte para seu lugar. Voltei, claro, que doido não sou.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

TODOS JUNTOS, VAMOS…

Fernando Pessoa tinha um corpo anêmico, apesar da ginástica sueca de todos os dias. Uma cor sem sol e o mesmo peito chato de tuberculoso do pai, que morreu um mês depois que o filho fez 5 anos: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto” (Aniversário).

Até escreveu um Tratado de Luta Livre, Método Yvelot, com destaque para “rasteiras” e “pontapés” que lembram nossa capoeira. E não apreciava esporte nenhum. Mas gostava de ver… futebol. Mistérios. Pois é…

Dois alemãs esquisitos até passaram anos pesquisando as razões que levam gente como nosso poeta a gostar do jogo. E chegaram a conclusões curiosas. “Porque cria situações irrepetíveis, e portanto fatais”. “Porque, durante 90 minutos, o indivíduo deixa de ser apenas um, passando a ser parte de algo maior ‒ a massa”.

“Porque é tão simples que põe qualquer um na condição de perito” – sendo o único assunto em que um cirurgião e seu motorista são capazes de discutir, de igual para igual. “Porque é plasticamente belo”. “Porque identifica o homem e o mito”. E mito, não custa lembrar, “é o nada que é tudo”, dizia o mesmo Pessoa (em Ulisses, de Mensagem).

Passa o tempo e chegamos a 3 de junho de 1970. A Copa do Mundo começava. Jogamos 5 partidas em Guadalajara, capital do estado de Jalisco (México), antes de ir à capital do país para a final no Estádio Asteca. Era como um Silicon Valley. E berço de sua Cultura, com murais famosos de Rivera, Orozco e Siqueiros; mariachis, tequilas, sombreros; e uma dança de inspiração árabe conhecida como Jarabe Tepatio, mais conhecida como Dança do Chapéu, a dança nacional do México.

Havia, em Santiago do Chile, dois grupos de brasileiros. Os ilustres, que trabalhavam nas Nações Unidas e outras entidades internacionais; e, esses, assistiam os jogos confortavelmente nas televisões (ainda caras, naquele tempo) de suas casas; e os comuns, todos os outros, que viam a Copa do Mundo em pé, na calçada de uma loja de televisões que ficava exibindo os jogos para quem estava por ali.

Naquele tempo, minha irmã Maria Lia vivia um exílio branco no Chile. Antes do primeiro jogo da Copa, os como ela fizeram assembleia geral na rua. Decidindo os brasileiros que, para o bem da revolução popular, melhor seria que nosso Brasil não ganhasse a Copa. O jogo de estreia foi logo contra a Tchecoslováquia, um país comunista. Todos torceriam por ela. E tudo começou (muito) bem.

Festa enorme no gol de Ladislav Petras. Até que Rivelino fez um, e ouviu-se um tímido grito de goool!, no local. Que é isso?, companheiro. E logo Pelé, Jair e Jair fizeram dois, três, e quatro. Carnaval fora de época, naquele frio andino.

Então fizeram outra assembleia geral, agora de autocrítica, para corrigir esse desvio burguês. Dando-se que acabaram aprovando por a política de lado e cair na farra. A democracia brasileira esperaria um pouquinho mais. Todos juntos, vamos, pra frente… No México, no Chile, no Brasil.

Passa o tempo. Ele passa, irremediavelmente e sempre. Depois da Copa o tal Petras acabou treinador de futebol. Enquanto aqueles exilados seguiram seus caminhos. Veio Pinochet e Maria Lia foi para Paris onde, mais tarde, acabou Diretora da Comunidade Europeia ‒ responsável pela aplicação de recursos comunitários, pelo mundo inteiro, em atividades sociais.

Agora temos uma nova copa. Como todo mundo, estou vendo na CazéTV, longe das televisões tradicionais. Por ser tudo mais leve e divertido. O Japão já foi, arigatou gosaimasu e sunimasen. Domingo será a Noruega. Pra frente Brasil, Brasil…

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DOM LUCIANO

Mais fatos que se deram na transição. De uma ditadura triste para a Democracia que desabrochava.

E começo logo dizendo que padres eram atores importantes, naquele tempo. Para uma ideia, no ministério (da Justiça), pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos.

Procurei dom Lamartine, queridíssimo amigo, nos Manguinhos. Era quem articulava tudo para dom Hélder. Pedi agendasse encontro com Dom Luciano para definir ações comuns entre Igreja e o ministério que iríamos assumir. Dias depois, avisou:

– Tudo certo. Disse quem você era. Está esperando. Mas se prepare que, quando acabar de falar, ele vai pedir para autorizar a entrada, no Brasil, de 81 padres vetados pelo Governo Militar.

Grande Lamartine. Por saber o que ocorreria passei, antes, no SNI. Para conversar com o ministro Ivan de Souza Mendes e acertar como iríamos trabalhar, naquele tempo novo que começava. Perguntou:

– Você tem sugestão?

– Sim. – Qual é?

– Cumprir a lei. – Para mim, está bem.

– Só tem um problema, ministro. É que, por ela, quem define a entrada de estrangeiros, no Brasil, não é o SNI, como vem sendo até agora. Mas o ministério da Justiça.

– Assim seja. Mas você vai precisar de mim.

Figura extraordinária, o ministro Ivan, a Democracia brasileira muito lhe deve. E tinha mesmo razão. Depois, encontramos uma forma de trabalhar juntos, no controle dos estrangeiros, com a colaboração da Interpol. Mas só em relação a crimes, drogas, por aí. Sem mais ideologia, no meio. Certo é que, depois, fui encontrar dom Luciano. Quando acabei de falar, e como preveniu dom Lamartine, voltou-se para uma escrivaninha, tirou de lá papel com 81 nomes e disse:

– Doutor, então comece por trazer meus padres.

Já consequência da conversa no SNI, escrevi nele:

– Ao DPMAF (órgão responsável por essa admissão). Autorizo a entrada, no país, dos religiosos abaixo indicados.

Assinei e fiz menção de pôr no bolso. Dom Luciano deu um bote (a descrição do gesto é fiel), ágil como um gato, pegou o papel da minha mão e perguntou:

– É para valer?

– Claro.

– Perdão, mas vou trocar. Essa lista era da ditadura, depois mando outra.

Semana seguinte recebi, com só 40 nomes, que os restantes estavam já noutros países. Concedemos vistos a todos. Palavra dada, palavra cumprida. Inclusive ao padre belga Joseph Comblin, apesar de enorme oposição do Itamaraty, por razões até hoje para mim pouco claras. O mesmo que, em 2011, morreu na cidade de Simões Filho (Bahia), com 88 anos, em paz.

A partir daí, ficamos cada vez mais próximos. Inclusive com almoços, todas as quartas, comida boa e caseira. Junto Dom Ivo Lorscheiter, com seu corpo de atleta. E sempre tomando Biss. Saudades desse tempo. Saudades do amigo Dom Luciano.