JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A ARTE DE DESTRUIR ESTÁTUAS

Uma estátua de Colombo, por conta do genocídio dos povos nativos americanos, foi decapitada (em Boston). A de Cervantes desfigurada, pintados seus olhos com sangue (São Francisco). A de George Washington acorrentada, pichada e coberta com um capuz branco (Chicago). A de Gandhi, em razão de comentários racistas que fez nos tempos da África do Sul, vandalizada (Leicester). A de Churchill, em frente ao parlamento, pintada com a frase “era um racista” (Londres). Em Portugal, Bloco de Esquerda (no parlamento) e movimentos populares, sob o lema “Descolonizar nossa cultura”, protestam ruidosamente contra Vasco da Gama e o Padre Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, que teriam sido complacentes com a escravatura.

Por toda parte, mitos do passado estão recebendo pesadas críticas de setores sociais organizados. Na internet, para quem interessar, há relação de quase uma centena de estátuas depredadas (list.statues.topple). E tudo é muito discutível. Que nenhuma figura importante sobrevive a uma pesquisa minuciosa sobre tudo que fez ou disse, pela vida. Desde os filósofos gregos. E bom exemplo seria Platão. Para Bertrand Russell (História da Filosofia Ocidental) um “aristocrata”, “abastado”, “fingido”, “a favor da eugenia”, “a quem trato com pouquíssima reverência”. Mesmo expressivas figuras religiosas, basta ler a Bíblia. Proponho um teste, amigo leitor. A partir de citações na obra de um autor consagrado. O desafio é decidir se ele deve ser homenageado ou enxovalhado.

Esse autor, para começar, louvava os homens de posses, “respira-se melhor quando se é rico”. E apoiava a escravatura, “ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem”. Para ele, Deus é “um velho estúpido e doente, sempre a escarrar no chão e a dizer indecências”. Religião, só “pompa morta à sombra”. Escrevia como um homossexual, declarando ter “vontade de ser a cadela de todos os cães e eles não bastam”. Dizia que os funcionários públicos eram “nomeados para não fazer nada”. Considerava deputados “gado vestido nos currais dos Deuses”. Criticava a mídia, “não pode haver moral no jornalismo. Ora porra! Então a imprensa é esta merda que temos que beber com os olhos?”. E pensava ser, “a democracia, o mais estúpido de todos os mitos”. O leitor ainda estaria disposto a ler, ou elogiar, alguém assim?

Pois bem, senhores. Esse autor é Fernando Pessoa. Maior escritor português. Ele sozinho ou ao lado de Camões, como preferir. Engraçado é que, para quase todas essas frases, podemos também encontrar, na sua obra, outras em sentido contrário. Por exemplo disse, da escravatura, que era “uma maldição, vergonha que com o tempo cresce”. E, em louvor de Deus, escreveu Prece que encerra dizendo: “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”. Por ser, o poeta, um ser contraditório. Que vai mudando, a partir do ambiente em que vive. Ou do que sente, em cada momento. Quanto a mim, reitero que jamais deixarei de ler, de me espantar e de reverenciar Fernando Pessoa.

Estátuas e monumentos não deveriam, nunca, ser destruídas. Assim como livros não devem ser queimados. Por funcionar como espelhos do pensamento então vigente. Essas desconstruções não fazem sentido. Mesmo reconhecendo tratar de temas sensíveis, pelo simbolismo que carregam. Devemos refletir se, para conhecer a história, será sempre necessário reescrever essa história em uma nova narrativa. Que para aprender com o passado, tudo sugere, melhor será conhecer bem esse passado. Parte de um patrimônio cultural valioso. Sem contar que derrubar estátuas, ou censurar livros, não muda o mundo no qual vivemos. Para isso melhor solução é menos apartação social, educação de qualidade e, sobretudo, mais democracia.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DOIS BRASIS

Seu José veio, do interior, para conhecer o verde mar de Boa Viagem. Vestiu um calção velho e foi provar o gosto daquela água com a qual sonhou toda vida. Mas, assim que deu o primeiro mergulho, encostou uma patrulha. “Não sabe que é proibido?, vagabundo. E o Covid?”. Seu José, inocente, “Estou só tomando um banho salgado”. “E ainda tem a coragem de nos insultar, dizendo Abaixo a Polícia?”. “Desculpe, doutor, mas eu nunca disse Abaixo a Polícia”. “Acabou de dizer”. E o pobre homem acabou preso. Por desacato.

Dia seguinte, saiu sua foto nos jornais. Com algemas. No meio dos tiras. Afinal solto, uma semana depois, bateu pé à procura de trabalho. Só que, nos lugares onde andou, as pessoas tinham visto aquela imagem. E ninguém se mostrou disposto a contratar um criminoso. Quando findou seu pouco dinheiro imaginou que, na prisão, ao menos teria onde comer. E dormir. Voltou à mesma praia e encontrou os guardas que o prenderam. Virou-se para o sargento e gritou, bem forte, “Abaixo a Polícia”. Certo de que iria em cana. Sem saber que havia já passado essa tara coronaviriana de prender. Pegava mal, nas vésperas de uma eleição. Razão pela qual restou, a Seu José, apenas cumprir sua penitência. Longe das penitenciárias.

Essa crônica é adaptação de um conto de Anatole France, Crainquebille. E serve para explicitar que somos dois brasis. Um por dentro do outro. Aparentemente iguais. Embora, no fundo, bem diferentes. Há os que usam armas para assaltar e os que se armam para evitar assaltos. Os que estão atrás das grades para não sair. E os que, com medo, se trancam em apartamentos que mais parecem gaiolas. Os que sabem ter culpa e os que não sabem que são inocentes. Os que não comem com receio de lipídios e colesteróis, para manter os corpos em forma. Dentro dos apartamentos. Os mesmos que, nessa pandemia, de vez em quando batem panelas – acostumadas a camarões, bifes e batatas. Enquanto as de tantos estão vazias. São esses que se espremem nos ônibus, nos metrôs, nas ruas populares cheias de gente. Com riscos de serem infectados. E morrer, nas filas dos hospitais públicos. Em resumo, há os que contam os dias para voltar a suas rotinas de ir às compras, frequentar bons restaurantes, viajar; enquanto outros, como Seu José, vivem aspirações bem mais modestas de apenas ter um teto, um prato de comida, um cartão do Bolsa-Família.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ORGULHO E PREPOTÊNCIA

Numa conversa com Claude Mauriac, o general De Gaulle confessa que viveu sempre “de xeque em xeque”. Xeque do jogo de xadrez, claro. A frase bem poderia ser usada hoje, no Brasil. Trocando a palavra. De impeachment em impeachment. Talvez por isso, para tentar evitar um fim precoce, ande o governo cheio de militares. Problema é não terem sido treinados para as sutilezas das relações pessoais. Sobretudo um certo Capitão. Napoleão (citado por Ravignat) dizia que, na política, “um absurdo não é um obstáculo”. Como se as baionetas pudessem tudo. E não podem. Ou não deveriam poder. Para ilustrar, lembro Dom Helder Câmara.

Tudo ocorreu assim que chegou, do Rio, para ser Arcebispo Emérito de Olinda e Recife. Em 12.04.1964. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria e Lilia. Só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrando-se casualmente com Paulo Guerra, deixou de propósito escapar que Dom Helder veria com bons olhos a contratação delas pelo Governo. Para ficar à disposição do Arcebispo, claro. Paulo Guerra (PSD) foi vice de Arraes (PST). Com a Redentora, que prendeu Arraes, acabou governador. E desejava muito atender ao Dom. Para fazer pontes, num país fraturado. Mas sabia da dificuldade representada pelo General Justino Alves Bastos, comandante da 7a Região Militar. À época, todo-poderoso em Pernambuco. E que mandava até na própria sombra.

Dia seguinte, foi procurar Justino. “Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, General. Mas comunista eu trato no pau. E não vou contratar ninguém”. O militar sorriu, satisfeito: “Muito bem, Governador”. Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não quer nada, Paulo Guerra disse: “Sabe o que estou pensando?, General. Que esse diabo fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. Que o senhor acha de a gente contratar duas, em vez de 20? Ele não iria poder falar em perseguição. Afinal, contratamos duas”. Justino, feliz: “Grande ideia, Governador, pode contratar”. Pouco depois, um magote de meganhas reclamou. E o General, nos altos do seu orgulho, “Fui eu que mandei”. Pois é. A prepotência dos generais nem sempre funciona. Política se faz longe de cavalos e baionetas. Tudo é mais sutil. Requer paciência. Conversa. Engenho e arte.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A ARTE DA PRUDÊNCIA

Simão Bacamarte, renomado cientista em Portugal e alhures, internou quase toda população de Itaguaí no seu manicômio – a Casa Verde. Por sofrer, assim pensava, de distúrbios mentais. Segundo Machado de Assis (O Alienista). Já longe da literatura, nosso destrambelhado Ministro da Educação chama os Ministros do Supremo de “vagabundos”. E o Ministro Celso de Melo, do Supremo, ofende Bolsonaro o comparando a Hitler – que trata, intimamente, por seu cargo de “Reichskanzler” (Primeiro Ministro). Agressões desnecessárias. Nenhum dos dois leu o jesuíta aragonês Baltasar Gracián (A arte da Prudência).

Em suas defesas, as autoridades brasileiras estão usando o mesmo argumento. De que seriam falas privadas. A do Min. da Educação, proferida em reunião classificada como Secreta – o que lhe garantiria 25 anos de reserva. Com publicidade determinada, em decisão monocrática, pelo próprio Min. Celso. Num processo que discute o eventual uso político da Polícia Federal. Sem que se possa entender razões para entregar, às TVs, gravações que nada tinham a ver com o processo sob seus cuidados. No caso do Min. Celso, tratava-se de conversa entre amigos. Por celular. E seu vazamento foi um descuido. A rigor, dois casos rigorosamente semelhantes. Ocorre que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, dizia Orwell (Animal Farm). E as consequências acabaram distintas. O Min. da Educação está sendo processado por Injúria. Enquanto o Ministro Celso, em palavras de Millor (A Bíblia do Caos), continua “livre como um taxi”. É razoável?

Simão Bacamarte, na novela, muda seu entendimento. Passando a considerar doentes mentais só aqueles que têm “comportamento regular e caráter reto”. E, nas cercanias de Itaguaí, o único homem assim era ele próprio. Razão pela qual decide se enclausurar na Casa Verde. Onde morre, 17 meses depois. Já em Brasília, os dois ministros deveriam ser processados. Ou nenhum. Apenas um deles, não é justo. O mais engraçado é ver um agressor, o Min. Celso, processando o outro, da Educação. Caso se pretenda mínimos de coerência, vai ter que escolher. Ou aceitar seus próprios argumentos e inocentar logo o da Educação. Ou não, e se autodenunciar. Imitando Simão Bacamarte. Para ser julgado por colega. Tudo se resume a só um enredo de Opera Buffa, que nem Machado de Assis seria capaz de inventar.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CORAÇÕES EM PAZ

Minha mãe acabou de partir. “A morte é uma bela mulher, à qual falta somente o coração”, dizia Chateaubriand (Pensamentos). Já meu pai se foi bem antes. Lembro dos dias que se seguiram a essa ausência. O mundo perdeu qualquer sentido. E não queria ver mais ninguém. Penso que é assim com todos. Foi quando ligou o amigo Hélio Naslavsky. Nasceu um neto. E ele convidava para a festa. Tanto insistiu que não ir seria uma grosseria desnecessária. Fim da tarde, estávamos na maternidade do Sabin. À entrada, um berçário com 20 recém nascidos. Notícias de vida. E fomos andando, no corredor, em direção ao quarto. Era o último. Pregados nas portas que se sucediam, mensagens docemente idiotas dos pais de primeira viagem. “Cheguei, meu nome é Pedro”, por aí. Alegria por toda parte. Chegamos. Hélio logo me ofereceu um puro. Muito bom. Cumprimentamos todos e fomos embora.

Ocorre que, ao chegar no carro, algo havia mudado. Por dentro. O coração, antes apertado, agora estava em paz. Refletindo com mais vagar, à noite, penso que entendi. Ou essa explicação passou a valer para mim somente, dá no mesmo. É que o homem nasce, vive uma vida se possível digna, cumpre seus sonhos (ou parte deles), faz amigos (muitos ou poucos). Até que um dia se vai. Deixando saudades. Exatamente quando nasce o neto de algum Hélio. Já sabendo que, mais tarde, o mesmo acontecerá com esta criança. Que viverá seus sonhos e deixará saudades. Quando outros netos, de outros Hélios, estarão nascendo. E assim será, para sempre, eternamente.

Em uma entrevista à Newsweek, Woody Allen disse: “Não é que eu tenha medo da morte. Só não quero estar ali, quando ela chegar”. Problema é que a Ceifeira chega, sempre. Por isso, amigo leitor, quando se vai alguém próximo, não devemos lamentar mais que o razoável. Aqui falo só das trajetórias inteiras, claro, e não das precocemente interrompidas. Mas se a pessoa querida viveu todo seu percurso, então foi como deveria ter sido. Com ela, hoje. E, amanhã, também conosco. Enterramos nossos pais. Como nossos filhos nos enterrarão. É a ordem natural das coisas. Mas se “a vida é breve, a alma é vasta”, lembrava Pessoa (Soares, no Desassossego). E enquanto for possível, nessa curta passagem terrena, há mesmo só uma tarefa que devemos cumprir com paixão. Até o fim. A de viver, intensamente, a gloriosa epifania da vida.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DONA MARIA LIA

Minha mãe tinha 18 anos. Sempre teve. Ou pensava, e agia, como se tivesse. O que dá no mesmo. Para definir quem era, basta lembrar frase de Dostoiévski que vivia repetindo: “Sinto um prazer quase indecente de viver”.

Quando fez 40 anos, mandei bilhete: “Mamãe. Não é por nada não mas a IDA começa aos 40”. A volta veio só bem mais tarde: “Meu filho. Esperei 40 anos para lhe responder. A IDA pode ser que comece aos 40. Mas a VIDA começa mesmo é aos 80”.

Num dos últimos aniversários dela, escrevi: “Me diga Dona/ Maria Lia/ Luar da noite/ Flor do meu dia/ Se brilha ainda/ A luz infinda/ Que eu perseguia”. Essa luz findou, agora. É o destino de todos nós. Com 92 anos, publicou livro contando histórias do passado (Recordar é Viver). Nele, está um poema premonitório que escreveu, Ele Acreditou. Em que dizia:

Ele acreditou nos adultos
E compreendeu que eles não eram sábios.

Ele acreditou na inteligência
E viu que ela construiu uma bomba que pode destruir o mundo.

Ele acreditou na retidão do caráter
E sofreu vendo seu pai ser perseguido por não compactuar com posturas indignas.

Ele acreditou na paixão
E se queimou, portando ainda tisnas dentro da alma.

Ele acreditou na vida
E a transpôs para outros seres, mas desesperou-se descobrindo quanto ela é frágil e tão facilmente extinguível!

Ele acreditou na ciência
E soube que ela é provisória.

Ele acreditou em Deus
E o encontrou injusto e incoerente.

Então ele acreditou na morte…
E ela não o decepcionou.

A morte nunca decepciona, dona Maria Lia tinha razão. É sempre certa. E sempre triste. Mas segue a vida. Um personagem de Carlos Nejar (em A Explosão), Jordana Duarte, depois de perder aquela que a criou, “Olhava para o céu e sabia que lá estava vagando sua mãe”. Assim seja, com todos os filhos.

Por isso ao acordar, e até fim dos tempos, a primeira coisa que farei vai ser olhar para o alto.

Na esperança de ver, pelos céus impossíveis e distantes, minha mãe passeando nos raios de uma luz infinda. Jovem e bela. Feliz. Em paz.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O MITO DA VERDADE

Saber onde anda a verdade é uma arte. Em carta a Mary Mac Donald, Lewis Carroll escreveu: “Não se apresse em acreditar em tudo que lhe contaram ou acabará incapaz de acreditar nas verdades mais simples”. Vivemos, hoje, em um mundo fake. Na internet. Na grande mídia. Em versões desencontradas. Tantas vezes incapazes de compreender a realidade que se oculta por trás das máscaras. Para provar isso proponho um teste, amigo leitor. Objetivo é saber se está preparado para reconhecer a verdade. Retomo famoso conto (Elogio de la Sombra) de bem conhecido autor, Jorge Luiz Borges. Que narra encontro, entre Caim e Abel, num deserto. Borges diz que “Caim viu, na testa de Abel, a marca da pedra com o que o matou. Então deixou cair o pano que ia levar à boca”. Foi quando Abel se dirigiu ao irmão. Mas o que terá dito a Caim?, eis a questão. Além do final de Borges, escrevi 3 outros para esse conto. E convido o leitor a escolher o certo. Poderia ser:

1) Uma parábola sobre a Virtude. Abel diz: “Eu te perdoo, meu irmão, não porque tu me pediste, mas porque vejo em teus olhos a chama generosa do arrependimento”. Responde Caim: “Agradeço-te, meu irmão, mas permita que te diga não ser esse arrependimento mais nobre que a humildade no confessar minhas fraquezas”.

2) Uma parábola sobre o Perdão. Abel: “Você me matou ou eu te matei?, já não recordo. Aqui estamos, juntos como antes”. Caim: “Agora sei que me perdoaste, meu irmão, porque esquecer é perdoar, e eu também tratarei de esquecer”.

3) Uma parábola sobre a Justiça. Abel: “Não sou eu quem tem que te perdoar meu irmão, mas tu mesmo”. Caim: “Se assim for, então não há razão para nenhum perdão, que o justo que é justo não perdoa. E minha consciência diz que devo pagar por meus erros”.

4) Uma parábola sobre o Remorso. Abel: “Não te perdoei apenas porque nunca soube, de nós dois, quem fez mais mal, um ao outro. Se foste tu, matando-me. Ou se fui eu, perseguindo-te como um fantasma, desde o paraíso perdido até o fim dos tempos”. Caim: “Já que assim é, meu irmão, então eu te perdoo, mas desde que tu também me perdoes”.

No caso, sabe já antecipadamente o leitor que 3 dessas parábolas são falsas. O que simplifica sua escolha. Se escolher o final certo, no conto de Borges, parabéns.

_____________________

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

IMPOSTO DESAFORTUNADO

Em 1930, ao estudar a Hawley-Smoot Tarif Bill, Arthur Laffer (professor da Universidade de Chicago, Califórnia) desenvolveu conceito que acabou conhecido por seu próprio nome – Curva de Laffer. O de existir um limite para a expansão do poder de tributar do Estado. A partir do qual haveria evasão, com sonegação e outras práticas (inclusive lícitas). E, em vez de aumentar, a arrecadação cairia. Para ele, esse limite seria 70% do PIB. Mais tarde, em 1984, Cristina e David Sobel (professores da Universidade de Berkeley, Califórnia), provaram que esse limite seria de apenas 33%. Volto ao tema porque no Brasil, hoje, estamos já perto de 40%. Não dá para crescer mais. E ainda há quem sugira um Imposto sobre Grandes Fortunas. Em verdade há já 4 projetos em curso, no Congresso, para regulamentar esse imposto que acabou previsto do grande acordão geral da Constituição de 1988 (art. 153, VII). Do PT, do PSDB, do PODEMOS, do CIDADANIA. Sem contar declarações diárias de candidatos. Às eleições gerais de 2022 e, mesmo, às de Prefeito. Já neste ano de 2020.

Poucos tiveram coragem de adotar esse tributo. Só 10, entre os 193 países da ONU. Dois paraísos fiscais, em que tributados são sobretudo estrangeiros: Luxemburgo, 7,18 e Suíça, 4,77. Os demais, com números irrisórios: Noruega, 1,46%; Espanha, 0,53; Bélgica, 0,47; Hungria, 0,27; México, 0,20; França, 017, Canadá, 0,06; Alemanha, 0,03% da carga tributária. E sempre com problemas sérios de implantação. México, nos 8 dias seguintes à lei, teve 58 Decretos de Exclusão. Reduzindo a base da tributação, que caiu quase a zero. Na França, o Impôt de Solidarité sur la Fortune apenas custeia o Revenue Minimum d’Insertion. Uma espécie de Bolsa Família, diferente da nossa por exigir que todos os beneficiários prestem serviços públicos. Na Espanha, vale apenas em 2 das 5 Regiões Fiscais do país. Sem que se explique porque, vigentes nessas 2, não foi copiado pelas demais. No fundo, único mérito do imposto é funcionar como controle. Com aprimoramento das regras de fiscalização. Sem grandes ambições de arrecadação.

Agora, com essa crise do Coronavírus, a expansão dos gastos públicos vai aumentar, dramaticamente, nosso déficit. Que já quase dobrou, nos últimos 20 anos. Por conta do casamento cruel entre corrupção e falta de uma política econômica responsável. E novamente se fala, como solução, no tal Imposto. Quando melhor seria discutir isso no curso da Reforma Tributária, em curso no Congresso. Ironia, nesse discurso, é que boa parte dos proponentes estiveram no poder, a partir de 2002. E nada fizeram, antes. Não apresentaram projeto nenhum. Vendendo agora, a ideia, como solução para todos os nossos problemas. Não é assim que funciona. Em palavras do amigo Michel Rocard, com autoridade de ter sido Primeiro Ministro da França, “A economia não se muda por decreto”. Em resumo, caro leitor, não leve essa gente a sério. Não vale a pena. Que a proposta é só retórica eleitoral barata.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O FUTURO DO FUTURO

Primeiro foi Hobbes, no séc. XVII, falando em uma “assembleia de homens que reduzem suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade”. Em seguida Locke, definindo a base teórica do pensamento ocidental contemporâneo, com a compreensão de que “os homens são iguais e independentes.” Depois Rousseau. Pensando a liberdade, na sociedade, inseparável da solidariedade. Com “todos se tornando iguais por convenção e direito” Depois, as ideias iluministas. Com restrição nas prerrogativas do poder. E a história recente da civilização acentuou cada vez mais, o compromisso entre igualdade e participação. Um espírito que, no Brasil, pode ser encontrado mesmo em Proclamação de D. Pedro I (junho de 1822), a favor de “uma independência moderada pela unidade nacional”.

Ocorre que passa o tempo e os problemas vão se acumulando. Com a industrialização, foram articulados em um único sistema econômico regiões que antes se vinculavam sobretudo com o exterior. E passamos a viver uma complexa transição estrutural, com a reacomodação nas relações entre os centros de poder. Tanto de natureza econômica, como política. Grave porque a mudança, naquela opção anterior, não se preocupou, verdadeiramente, com a formação de um mercado interno. Enfraquecendo, consideravelmente, os vínculos de solidariedade entre as distintas regiões do país. Pior é que o processo de modernização hoje em curso, definitivamente, não se ancora na integração das economias regionais. Agravando a concentração de riqueza e renda.

Já vivíamos o esgotamento do ciclo nacional-desenvolvimentista. E é tempo de buscar novos caminhos. Problema, agora, é que esse mega problema do coronavirus sugere que sair da crise vai corresponder, no fundo, a encontrar uma nova identidade nacional. Primeira questão que se aponta, em um processo assim, é a oposição entre irracionalidade coletiva e racionalidade específica, que constitui a essência do Dilema do Prisioneiro de que falava Max Weber. Como os atores exercitam mútuas desconfianças, isso impede, ou limita severamente, a afirmação da vontade coletiva. Uma situação de intensa competição, com instituições ainda não inteiramente consolidadas e regras em constantes mudanças, que leva o país inevitavelmente para a situação de um macro-dilema do prisioneiro. Em que todos, a partir de seus próprios interesses, priorizam o comportamento individualista. Sem ser capazes de produzir estratégias de ação coletiva. O que se opera em níveis diversificados. Nas classes sociais economicamente privilegiadas, que não aceitam aumentar sua contribuição para a superação de desigualdades. Nos cartórios privados, que se esforçarão por manter suas possessões. No corporativismo dos que se preocupam, somente, com a preservação dos seus privilégios.

A Espanha saiu da crise, na morte de Franco e a volta da monarquia, com o “Pacto de Moncloa”. Em que as questões da transição foram definidas democraticamente. Perguntei ao Primeiro-Ministro Adolfo Suarez o que seria mesmo, por dentro. E a resposta dele foi exemplar: “O Pacto foi a negociação do Pacto”. O sentar, na mesma mesa, governo, empresários e trabalhadores. Para definir uma nova pauta para o país. Seria bom que algo assim pudesse acontecer, por aqui, para sairmos de vez dessa crise. Isso é possível? Fernando Pessoa disse (Sobre Portugal) que “É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado”. Deus queira que seu vaticínio valha só para seu país. E que, no Brasil, ainda sobreviva um resto de esperança.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

UMBILICUS MUNDI

A verdade “é um cachorro preso num canil”, dizia Shakespeare (O Rei Lear). E que nem sempre anda solto pelas ruas, poderíamos completar. Assim tem sido, ao longo de toda história da humanidade. Por exemplo, não há qualquer prova de que existiu, mesmo, um Cavalo de Troia – em cujo ventre, de madeira, se esconderam soldados. Sequer de ter nascido Helena, razão daquela guerra. A palavra cesariana, diferente do que sugerem as enciclopédias médicas, não vem do imperador Cesar. E Nero, quando ardeu Roma, estava em Anzio. Distante 50 km. Na volta, em vez de tocar sua lira, tentou foi apagar as chamas. Gutemberg não inventou a imprensa. Que tipos móveis – em cerâmica, madeira e metal – existiam já, na China, 3 mil anos antes. E jamais publicou um livro. A Bíblia de 42 Linhas, conhecida como de Gutemberg, foi obra de Peter Schöffer e Johann Fust. Não há prova de que a holandesa Margaretha Geertruida Zelle, mais conhecida como Mata Hari, tenha sido espiã da Alemanha. Sherlock Holmes disse “Elementar”. E, também, “Meu caro Watson”. As duas frases juntas, nunca. Nem Ingrid Bergman, no filme Casablanca, disse “Toca outra vez, Sam”. A frase certa é Play it, Sam. Play “As time goes by”.

Bom lembrar disso ao refletir sobre o Brasil. Para tentar descobrir, entre Moro e Bolsonaro, quem mente. Sem registros das conversas, devemos buscar um critério válido para encontrar a verdade. Recordo velho ministro do Supremo. Quando lhe perguntavam “como julgar?”, recomendava procurar o Umbilicus Mundi. O centro da dúvida. E a dúvida, no caso, é apenas uma. No meio desse terremoto da Covid-19, para que demitir o DG da Polícia Federal? Por que não esperar? Qual a razão de tanta pressa?, eis a questão. Como paira, sobre isso, um enorme silêncio, cabe só especular. Talvez por conta de inquéritos (inclusive das fake news) do min. Alexandre de Moraes, no Supremo – se diz à boca pequena. E que podem atingir pessoas próximas do poder. Muito. Além do que deveria. Por tudo, então, Moro fez bem. Não levou desaforos para casa. Criou novo lema, “Verdade acima de tudo. Fazer o certo acima de todos”. E saiu maior do que entrou. Agora é esperar para saber a verdadeira história, por trás das versões. Oscar Wilde (Frases e Máximas) dizia que “Se alguém diz a verdade, pode estar certo de ser descoberto, mais cedo ou mais tarde”. Esperamos que sim. E logo.