Mais conversas, hoje só com políticos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Estamos bem perto do fim, volto a dizer. E ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.
DINARTE MARIZ, governador do RN. Em Jucurutu, era promotor da cidade Nelson Queiroz, amigo do ministro do STJ Marcelo Navarro (que contou essa história). Dando-se que Nelson, no palanque, saudava o grande político potiguar:
‒ Dinarte, apesar de sequer ter concluído o curso primário, tornou-se grande empresário, senador da República e governador do Estado. Imaginem o que poderia ser?, caso tivesse estudado.
O velho achou que era demais e interrompeu sua fala dizendo, no microfone
‒ Eu seria promotor em Jucurutu.
ERNESTO SOUSA VILAÇA, comerciante, mais conhecido como Ernesto Babão. Indignado com os vereadores das cidades atendidas por seu posto de gasolina (que não pagavam as contas do combustível usado) e, no meio de uma carraspana, recitou versos que acabaram famosos na região:
‒ Jupi é terra de corno Calçado de perdição Já Lajedo é de viado Canhotinho, de ladrão.
FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. O governador (de SP) Franco Montoro era famoso por trocar o nome daqueles com quem conversava, e sempre o chamava de Flávio Bierrembrahms (que contou essa história). Até que, um dia, não aguentou:
‒ Governador, tem certeza de que meu nome é esse?
‒ Sim. Uma homenagem ao famoso compositor Johann Sebastian Brahms.
JOSÉ MÚCIO MONTEIRO, da Secretaria de Relações Institucionais, ministro do TCU e da Defesa. Candidato (1986) a governador de Pernambuco, em disputa com Miguel Arraes. Na cidade de Petrolina (ele próprio confirmou essa história), depois de comer buchada, precisou desesperadamente ir ao banheiro da casa. Estava ocupado. Um assessor bateu na porta e ouviu, dentro, voz feminina:
– Num tá vendo que tem gente?
– Saia logo que o governador precisa usar o sanitário.
– Dr. Arraia tá aí? – É o governador Zé Múcio.
– Agora é que eu num saio mermo daqui.
JOSÉ SARNEY, Presidente da República. Ao fazer 95 anos, mandou mensagem para o grupo de confrades na Academia (ABL):
‒ O segredo de viver muito é seguir um velho provérbio chinês: comer pouco, dormir muito e não discutir com a mulher.
MÁRIO SOARES, presidente de Portugal. Num jantar lembrei como Voltaire definia sua relação com Deus, “cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”, e perguntei:
– Acredita em Deus?, presidente.
– Não.
– E como conseguiu ser eleito, num país tão conservador?
– É que dei uma explicação bem simples, na televisão, e os eleitores aceitaram. Disse que se Deus é onipotente, e quiser que eu acredite nele, basta estalar os dedos. Como não fez isso, acredito preferir que eu continue sem acreditar.
Dona RUTH CARDOSO, Primeira-Dama. Na Lagoa Azul, se dirigiu a Maria Lectícia:
‒ Belo chapéu, Lectícia.
‒ É seu, dona Ruth. Mas cuidado para que não se diga estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.
TANCREDO NEVES, presidente da República. Perguntaram
‒ Quais as 10 melhores qualidades de um bom político?
Seguimos no exame do caso JK que, segundo Comissão nomeada pelo atual governo do Brasil, teria sido assassinado. Eleições são capazes de tudo. Começo dizendo que era domingo e JK voltava, para casa, já quase escuro. As colisões dos veículos ocorreram numa reta próxima de Resende (Rio). Primeiro, entre o Opala de JK e um Ônibus da Viação Cometa (com quem se chocaria, inicialmente), indo na direção SP/Rio; enquanto na outra pista em direção contrária, Rio/SP, vinha um caminhão SCANIA carregado com 30 toneladas de gesso. Foi ele o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, numa segunda colisão.
Era plana, gramada e sem guard-rails, a área de separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes (mais de um quilômetro), em ambos os lados. Certo que, fosse mesmo um atentado, certamente o local escolhido para isso iria ser outro. Provavelmente uma curva, junto a precipício.
E, para quem planeja um atentado, último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. Em velocidade menor que a do Opala. E cheio de passageiros (40), testemunhas oculares da tragédia. O acidente se deu com o Opala de JK invadindo a faixa da esquerda, por onde trafegava o ônibus (há fotos com marcas das tintas, provando essa batida). Talvez um cochilo do motorista. No chão ficaram as marcas dos pneus, prova inequívoca do desvio que teve o veículo da sua rota normal. Basta ver as fotos.
Dito Opala, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, se desgovernou após esse primeiro abalroamento. Ultrapassou o canteiro central e avançou pela pista contrária. Dali, em situação normal, seguiria em frente, em uma área plana e de mato baixo.
Mas o que ocorreu?, eis a questão. Provavelmente deu-se que seu motorista, passado o breve instante de torpor com o abalroamento no ônibus, terá reagido virando à direita. Para impedir que o veículo entrasse naquele mato. Com risco de furar um pneu. E no desejo de retomar sua viagem, normalmente. Passaria à esquerda do caminhão pelo acostamento, assim pensou, e voltaria depois à sua pista. Era o que desejava. Só que por azar, muito azar, chocaram-se, a parte frontal direita de seu Opala, com a parte frontal direita da carreta Scania, que vinha em sentido contrário. Por pouco, muito pouco, não conseguiu. É pena.
Já envenenamentos não produzem efeitos repentinamente. Caso ocorresse, o motorista começaria a passar mal e teria parado. Já a versão de um tiro de precisão, na cabeça do motorista de JK não se sustenta.
Primeiro, porque o crânio de Geraldo Ribeiro, se vê nas fotos da época (apresentadas no Laudo), não tinha qualquer lesão. Segundo porque, caso tivesse o motorista sido atingido por uma bala no crânio, e jamais poderia ter depois alterado conscientemente a trajetória do veículo em que estava. Como fez. Quem tiver maior interesse no caso basta acessar, pela internet, o site da CNV, com a íntegra do Laudo e seus anexos.
A história tem suas tramas. Seus designíos. E seus mistérios. Claro que o Regime Militar ficaria feliz em ver morto JK. Um risco a menos. Mas é como se o destino, esse “Deus sem nome” como queria Fernando Pessoa (carta a Henry More), tivesse agido antes. E, no fim, tudo se resumiu a só um acidente automobilístico. Às vésperas ou não de eleições, essa é a verdade.
P.S. Minha seleção seria o time inteiro do Náutico (ver o último 6 x 2). Acostumado a ser HEXA.
Vésperas de eleição, no próximo outubro, e era mesmo de esperar. Requente de bolo, em um confronto desnecessário. Ano passado, todos os grandes jornais do país já diziam “O governo Lula decidiu reabrir o caso” (Globo e, em manchetes quase iguais, todos os outros, inclusive o JC).
Nessas matérias se via que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com militantes do PT nomeados pelo governo em Brasília, estava correndo o país a fazer audiências públicas e tentar reabrir o caso, indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.
Para lembrar em 22/4/2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB (Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores, segundo a PF), que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E realizando novos exames.
Acompanhei pessoalmente os trabalhos, no caso, por uma razão de foro íntimo. A de ser padrinho em nosso casamento. E por muito gostar dele. Tanto que sempre nos encontrávamos, quando íamos ao Rio.
Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da FolhaSP informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos. Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas preferiram divulgar alguns minutos antes…
Agora vem a notícia, em toda Grande Mídia, de um “parecer” da historiadora Maria Cecília Adão, relatora, daquela mesma comissão. Para esta senhora, teria sido um atentado político: “o veículo perdeu o controle em razão de uma ação externa, como sabotagem mecânica, disparo de arma de fogo ou até envenenamento do motorista”. A mesma tese de antes. Requentada.
Suspeitas são até naturais, no imaginário coletivo. Posto que morreram em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição à ditadura, no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio.
Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por conta de um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. Numa cama de hospital. Tanto que nem autorizou qualquer investigação. Para esses familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.
Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese. Falta ver o caso JK (o que faremos na próxima coluna).
Em 1992, na eleição contra o então presidente dos Estados Unidos George H.W. Busch, o estrategista–chefe da campanha de Bill Clinton, James Carvílle, disse frase que acabou famosa “It’s the economy, stupid” (É a economia, estúpido).
Queria referir, para aquela eleição, ser mais relevante a situação da economia do país; que, depois da guerra do Golfo, sofria recessão severa. Daí o vício de alargar seu sentido para dizer que tudo no mundo se resume à economia, foi um pulo.
Nesse artigo, pretendo afirmar algo diferente. Que os países se explicam por uma espécie de caldo de cultura que corre dentro deles. No sangue. No coração. Por dentro da alma. Na linha da definição de Ortega y Gasset (Rebelião das massas), para quem essa cultura seria um “o sistema de ideias vivas que cada época possui”.
Mais amplamente dizia Pessoa (texto sem título e publicado, em 1926, na Revista de Comércio e Contabilidade), ser “uma interpretação artística e filosófica das sociedades, quando os povos atingem seu ápice”. Isso, o “ápice” dos países. Aqui, comparo nosso amado Brasil a dois outros. Vamos juntos.
* * *
1. SUIÇA. Em 05/06/2016 realizou-se referendo, por lá, para que a população definisse uma questão. É algo comum, no país. Entre os últimos referendos, por exemplo, tivemos a definição pelos eleitores dos horários em que hotéis poderiam fechar suas portas, à noite. Ou idade mínima para o serviço militar.
Agora se decidiria sobre uma “Renda Mínima”, que seria garantida a todos os suíços e também aos estrangeiros residentes no país. Trata-se de uma ideia antiga, pela primeira vez lembrada por Thomas Morus no seu livro Utopia. Depois Morus perdeu a cabeça, literalmente, mas essa é outra história.
O que se discutia, no parlamento suíço, era uma desassociação entre o trabalho e a renda, algo que para muitos será inevitável no futuro. A partir da tecnologia que, pouco a pouco, irá substituir a atividade humana, começando pelos países desenvolvidos. Nesse quadro, a Suíça seria o primeiro país a sagrar a tal “Renda Mínima”. Depois, acreditavam, outros a seguiriam.
A proposta era de 2.500 francos suíços (9 mil reais) para cada habitante do país. Crianças, 625 francos (2.300 reais). Argumento contrário é que a medida seria cara demais, exigindo aumento de impostos, desorganizando a economia e desencorajando a população de trabalhar.
Seja como for cada suíço deveria dizer, no tal referendo, se o governo lhe deveria pagar, todo santo mês, quase 10 mil reais. Resultado, 76,9% votaram NÃO à medida. Indicando que recusavam essa dádiva.
Volto ao Brasil e pergunto qual seria o percentual do SIM, por aqui. E já respondo, quase 100%.
* * *
2. JAPÃO. Finda a Segunda Guerra, era um país destroçado. O general Douglas MacArthur, Comandante Supremo das Forças Aliadas entre 1945 e 1951, liderou sua reconstrução. E fez muito. Implantou uma Reforma Agrária avançada (ela e a do México, pouco depois, foram as últimas vistas no mundo; sem contar a do Brasil, mais tarde), definiu novos direitos para as mulheres (incluindo o do voto), desfez os poderosos Zaibatsus locais (conglomerados industriais), legalizou os sindicatos. Mas faltava uma nova Constituição.
Não há registros históricos de quem a redigiu. Conta-se que foi um amigo de MacArthur, professor de Harvard. Quando estudei nessa universidade tentei saber qual seria seu nome, sem sucesso. Não há registros históricos por lá do feito, pois.
Certo é que, em 03/11/1946, acabou aprovada pelo parlamento japonês a tal Constituição trazida, dos Estados Unidos, por MacArhur. Substituindo a antiga Constituição Meigi, de 1889. Entrou em vigor logo depois, em 03/05/1947. Entre seus artigos estranhos o 9º, pelo qual o país renuncia à guerra. Tanto que não pode, até hoje, ter forças armadas, único país do planeta em que isso ocorre.
E esse Japão, um país arruinado pela guerra, é agora uma das 5 maiores potencias do mundo. Mas o que aconteceu à sua Constituição?, eis a questão. Nada, é a resposta. Não foi tocada, nesses 80 anos contados desde sua promulgação.
Nem um artigo solitário. Trata-se da única Constituição, do mundo, que não teve uma só alteração a partir da Segunda Guerra.
Penso no Brasil. E logo imagino líderes populistas, de parte a parte (da direita ou da esquerda), em discursos nacionalistas e inflamados, que já teriam exigido uma nova Constituição. Em defesa da soberania, diriam. E da Democracia. Só que o Japão não precisou disso, para se desenvolver.
* * *
Nos dois casos, subsiste uma razão simples e fundamental. O de haver, dentro desses dois países, o tal caldo de cultura que vai além das regras formais. Um sentimento coletivo do que é, e não é, importante para o país. Do que realmente precisa ser feito. E do que não deve ter mudado. Suíça e Japão sabem. O Brasil, algum dia, saberá?
Lisboa. Hoje, notícias sobre Portugal que fazem lembrar (um pouco, ou muito) nosso Brasil.
BURCA. O Parlamento português acaba de aprovar lei que “proíbe o uso de burca e outras vestimentas que ocultem os rostos em espaços públicos”. O que vale, inclusive, para funcionários públicos. Em defesa da “dignidade da mulher”. Na linha de outros países europeus como Áustria, Bélgica, Dinamarca, França e Holanda. Multas, para quem descumprir, podem chegar a 25 mil reais.
EUTANASIA. A espanhola Noelia Castilho, 25 anos, depois de longa batalha judicial, conseguiu autorização para fazer. A Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha confirmou que atendia a todos os requisitos da lei, por ter “uma doença crônica e irreversível” e “sofrimento crônico e debilitante”. O Supremo Tribunal de Madrid confirmou seu pedido. E o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) de Estrasburgo não se pronunciou, quanto ao mérito da questão. Desde quando aprovada essa lei, ao final de 2024, já 1.123 pessoas sofreram eutanásia na Espanha. Noélia morreu no hospital catalão de Sant Pere de Rieles, próximo de Barcelona. O que mais doeu foi sua derradeira frase, dita antes de partir,
– Quero morrer em paz agora, parar de sofrer. É só isso.
Descanse em paz, pobre menina.
GÊNERO. Nos últimos 7 anos, 3.290 pessoas trocaram de gênero em Portugal. Homens que deixaram de ser, e mulheres idem. Ocorre que, em 2018, mudou a lei, que passou a incluir menores com 16/17 anos. E, desde então, já 323 deles mudaram de gênero. Tão cedo? Isso está certo?
INDENIZAÇÕES. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), considerou que numerosas celas nos presídios portugueses são consideradas “desumanas”. Janelas sem vidro, água escorrendo pelas paredes, percevejos, pulgas. Os presos têm que por garrafas d’água tapando buracos, que servem como latrinas, para evitar que ratos entrem à noite. A condenação é de mil euros por cada mês de detenção em tais celas. O que já obrigou o governo a pagar 1,5 milhões de euros (10 milhões de reais) a 14 condenados. Preocupação é que o Tribunal tem ainda, por julgar, 850 queixas pendentes. Se o sistema for aplicado no Brasil…
OMBUDSMAN. O jornal Público é o primeiro, em Portugal, a ter um ombudsman, João Garcia. Por aqui se chama “Provedor”. E sua primeira coluna, este ano, foi sobre o personagem francês de band designer, Asterix. Prova de que tem bom gosto.
PRESOS. Em Portugal, podem votar. Informando-se, apenas, com TV e Rádio. Sem mídias sociais. Mas o desinteresse é grande. Apenas 2.900 se inscreveram para as eleições presidenciais de 18 de janeiro deste ano, que elegeu Seguro.
SUICÍDIO. O Publico LX trás notícia curiosa, com título
– A estranha tese de suicídio de um banqueiro português.
Trata-se de Pedro Ferraz Correia dos Reis, administrador do Banco BCI. Morto, em Maputo (capital de Moçambique), com facada nas costas “à entrada da casa de banhos do Hotel Palama”. Além de apresentar múltiplos cortes de faca nas mãos, no pescoço e numa coxa. Mais próprio de alguém que lutou, com terceiro, tentando se defender. Segundo o Serviço Nacional de Investigação Criminal local, “não há nenhuma dúvida sobre ter sido suicídio”. Foi mesmo??? Faltando explicar como conseguiu dar essa facada nas próprias costas!!!
SUPREMO DO BRASIL. Local, farmácia do Chiado, na Rua Garret. Dia, uma sexta-feira. Hora, 11:30hs. Lá estávamos para que Maria Lectícia, com receita na mão, pudesse comprar Monjaro. Soares, conhecido nosso de muitos anos, estava atendendo um cliente à nossa frente, na fila. Virou-se para o tal cliente, e disse
‒ Não estou a entender (portugueses não gostam de gerúndios).
‒ Estou a falar é do … (e deu nome de um ministro do nosso Supremo).
‒ Perdão, senhor, mas o que aconteceu?
‒ Critiquei o judiciário brasileiro (não nos disse a razão), me chamou de “filho da puta”, meti as mãos no seu peito, caiu, fui pra cima dele e seus seguranças vieram por cima de mim.
‒ Então?
‒ Confusão danada, acabamos todos na Delegacia.
‒ E como foi, por lá?
‒ Depois de algum tempo, o policial disse não haver “testemunhas idôneas” – nem do “filho da puta”, nem da agressão, e nos mandou embora.
Fim do registro, dito Manoel saiu. Fosse no Brasil, e mesmo sem testemunhas, teria sido processado pelo Supremo e condenado a 17 anos de prisão, pelo menos. Após o que recebemos o medicamento, pagamos, nos despedimos do amigo Soares e fomos na direção da Havaneza, bem perto, em busca de charutos cubanos. Verdade ou fake? essa história pelo cidadão contada, eis a questão. Só as partes poderão confirmar. Mas os diálogos na farmácia, com certeza, foram esses. Estranho só é que nada saiu na Grande Mídia brasileira.
VATICANO. Manchete, no Publico, diz “Vaticano dá puxão de orelhas nos bispos portugueses”. Porque, passados três anos do Relatório Final (nomeado Dar voz ao Silêncio) que revelou abusos sexuais de crianças por mãos de membros da Igreja Católica no país, só agora começaram a ser pagas indenizações às vítimas, fixadas por uma comissão de Fixação de Compensação (CFC). Engraçado é que o IRS (o Imposto de Renda daqui) já avisou que, antes dos pagamentos, deve ser retido o tributo, por constituir “indenização por danos patrimoniais”. O leão do fisco é o mesmo em todos os lugares.Vamos ver como acaba.
VINHOS. Nuno, empresário de Famalicão, comprou em leilão uma garrafa de Romanée‒Conti Grand Cru, de 2016, por 33 mil euros (200 mil reais). Só que a corretora, Deno-Future Limited, quebrou. Apavorado, requereu à London City Bond informações sobre se sua querida garrafa por acaso sobreviveu nos estoques da corretora. E não são poucas. Lá estão, hoje, 168 mil garrafas. Não tenho pena do tal Nuno. Aqui, para pagar essa fortuna, só grandes empresários, donos de Sindicatos que exploram velhinhos do INSS, donos de resort amigos de Vocaro ou advogadas mulheres de certos Ministros.
Lisboa. Mais conversas, hoje só com religiosos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Volto a explicar. Estamos bem perto do fim. Os originais do livro já estão com a editora Topbooks, no Rio. Para revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico, definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.
Dom AGNELO ROSSI, cardeal. Foi visitar Fortaleza e o Bispo local perguntou
‒ Vossa Eminência está cansada?
E ele, que jamais teve familiaridade com as concordâncias do português,
‒ Morta…
ALBERTO TRABUCCHI, presidente do Círculo dos Juristas Católicos da Itália e ministro do Tribunal de Justiça da União Europeia. Ao ver homens procurando comida, no lixo da feira de Jaboatão (Pernambuco), me perguntou
– O Brasil é um país católico?
– Claro, professor, maior país católico do mundo.
E ele, sem alterar a voz, repetiu
– O Brasil é um país católico?
– Não.
Dom BASÍLIO PENIDO, Abade (o título vem do hebraico abbá, pai) do Mosteiro de São Bento (Olinda). História contada por Irmão José. Um frequentador da igreja reclamava das famílias de pedintes que ficavam assediando os fiéis ao chegar nas missas, mostrando filhos pequenos e dizendo que teriam doenças graves
– O pior, Dom Basílio, é que eles mentem muito.
– Não é tão grave, meu filho.
– Como?
– É que mentem para comer.
Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia por ele fundada em 1978, tão popular que hoje é Patrimônio Oral e Imaterial do Recife. Luciana, nossa filha menor, depois de ouvir uma fala sua, decidiu elogiar
– Arretado!
– Cuidado com esse palavreado, Lulu.
– Padre Edwaldo, arretado pode?
E ele, depois de pensar um pouco:
– Poder pode, minha filha. Pode até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta que o pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.
* * *
No Hospital Memorial São José, parecia estar bem disposto
– Maravilha, pastor. Parabéns.
– Por quê?, amigo, estou aqui cheio de fios…
– É que o senhor passou a vida inteira se preparando para encontrar o Pai Eterno. E agora, quando isso é iminente, deve ser o homem mais feliz do planeta.
– Vade retro, José, que não tenho pressa.
E se benzeu Pai, Filho, Espírito Santo.
Dom HÉLDER CÂMARA, arcebispo de Olinda e Recife. Algumas vezes ligava convidando para falar sobre algum tema que ainda não conhecia bem. Por querer sempre saber mais. Já em seu quartinho na Igreja das Fronteiras, e antes de entrar no assunto daquele dia,
– Pois é, meu filho, o homem troca de time de futebol mas não de opinião.
Achei graça porque se alguém havia mudado de opinião, pela vida, era o próprio Dom. Mas isso não disse, por muito gostar dele (tanto que celebrou nossas Bodas de Prata). Fosse pouco, também nunca vi ninguém trocar de time. Por isso, preferi observação mais amena
– Diga assim não, dom Hélder. Diga que o homem troca de mulher, mas não de opinião.
– O problema, meu filho, é que de mulher eu não entendo.
– O problema, meu dom, é que o senhor não entende nem de mulher, nem de futebol.
* * *
Pedinte bateu na sua porta, querendo roupas, que as dele estavam rasgadas. Dom Hélder lhe deu uma calça. Zezita, que foi sua guardiã (por toda vida), o censurou
– Mas dom Hélder, o senhor tem só duas calças.
– E o pobre, Zezita, que não tem nenhuma?
* * *
Esperando conferência que fariam no Porto Digital (Recife), os dois foram encaminhados a uma saleta. Dom Hélder disse estar cansado e pediu licença para cochilar um pouco. Acabou dormindo mesmo, e tão profundamente, que foi difícil de acordar. Silvio Meira, que não dorme fácil, pediu que dissesse como conseguia. E a explicação foi
‒ Fecho os olhos e penso no dedão do pé esquerdo. Em seguida, nos outros dedos. O mesmo no pé direito. E vou subindo. Quase nunca chego no joelho.
Se o amigo leitor quiser experimentar, fique à vontade.
JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que mandou de algumas dessas conversas paroquianas
‒ Para todos que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.
‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!
‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.
‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!
‒ Assunto da catequese de hoje, Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã, Em busca de Jesus.
‒ O coro dos maiores de sesse nta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.
‒ O mês de novembro finalizará com missa cantada por todos os defuntos da paróquia.
‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.
‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.
JESUS DE RITINHA (mãe) DE MIÚDO (pai), doutor em Ciência Política. Igreja (hoje Basílica) Nossa Senhora da Guia de Acari (RGN). Em sermão dominical na grande seca de 82/83, o padre Deoclides de Brito Dinis levantou as mãos para o céu e gritou
‒ Deus, eu peço que o Senhor mande uma chuva que cada pingo seja uma lata d’água.
Foi quando o sacristão, João da Mata, puxou na batina dele e disse baixinho, só que perto do microfone e toda igreja ouviu,
‒ Padre, seria um dilúvio!
E o padre Deó
‒ João, eu tô dizendo que é uma lata mas bem pequenininha, de Vick Vaporub.
Aquele remédio vendido para congestão, dores musculares e tosse.
Padre JOÃO PUBBEN, da Igrejinha das Fronteiras. Prometi uma caixa de vinhos e ele escolheu um português, Periquita. Mandei, junto com esse bilhete
– Todo homem de valor Se revela pecador Quando apreciador De coisa boa e bonita. Mas me causa estupor Ver alguém como o pastor Que é quase um Monsenhor Sendo admirador Dessa tal de periquita.
Dom JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, que, em Lisboa, celebrou nossas Bodas de Ouro. Dia seguinte à sua posse, como cardeal, no Vaticano, ofereceu almoço para os amigos que lá estavam. Preparei discurso que começava assim:
– O treinador do Flamengo (à época), Jorge de Jesus, é também português. E hoje, no Brasil, Jesus é Deus. Os amigos de Tolentino são bem mais modestos. Não querem vê-lo como Jesus nem, muito menos, Deus. Para nós, basta que um dia ele seja Papa.
LILI FALÂNGOLA, empresária. Convidou uma parente, Madrinha Neiça, para festinha na sua casa. E a outra
‒ Sabe quando eu vou?, no dia de São Nunca.
Passa o tempo e Lili, num 1º de novembro, preparou churrasco pantagruélico. Chamou os amigos e, primeiro a chegar, foi a tal Madrinha
‒ Oi, e você não disse que só vinha no dia de São Nunca?
‒ Verdade, e é hoje, Dia de Todos os Santos.
Dom LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, secretário-geral da CNBB. Ligou
– José Paulo, estou aqui (na CNBB) com uns sem-terra que querem conversar com o senhor. Os recebe?
– Claro, dom Luciano.
– Mas eles estão em camisas de mangas curtas, será que podem entrar no ministério (da Justiça) assim mesmo?
– Antes de responder, dom Luciano, me tire uma dúvida eclesiástica.
– Qual?
– Dar banana para bispo é pecado?
– É e você já pecou, meu filho.
– Como?, se não fiz nada.
– Pensamentos, palavras e obras, é a lei da Igreja. E acabei de receber uma banana, em pensamento.
– Mas lei tão antiga?, dom Luciano, ainda vale?
– Claro. E você por acaso pensa que a lei da Igreja é como a dos homens, mudando toda hora?
* * *
De nossos almoços, todas as quartas, guardo só lembranças boas. Como refrescos de laranja bem gelados. Ou o Bliss, que tomava sempre dom Ivo Lorscheiter no seu corpo de atleta. Ou a comida simples, com sabor caseiro
– Uma das coisas que não entendo na Igreja, dom Luciano, é a restrição à Gula. Como pode coisa tão boa, que é comer, ser pecado? E logo mortal?, um dos sete capitais.
Ele, com sua imensa capacidade de consensualizar, argumentou
– Você não conhece a Santa Gula?, meu filho.
– Que história é essa?
– É assim. Quando você come muito, e não quer que mais ninguém coma, é pecado. Mas quando você come, e quer que todo mundo coma tanto quanto você, é virtude. A Santa Gula.
MAURO MOTA, da ABL. Dona Santinha, sua irmã, tomava conta de outro irmão, Dom Mota, arcebispo de São Luís (Maranhão). Carola, quando escrevia cartas para Mauro começava dizendo
‒ São Luiz, cidade pagã…
Confessava-se todos os dias. Já meio surda, gritava seus pecados; e, o padre, a penitência. Para evitar constrangimentos acertaram que ela entregaria, no confessionário, papel com a relação dos pecados mortais cometidos na véspera. E o padre lhe mostraria placa onde estava sua pena ‒ sempre três Padres Nossos e três Ave Marias. Dando-se que certo dia Mauro furtou (subtraiu, talvez fosse melhor), de seu missal, os tais pecados e nos mostrou. Eram três
Lisboa. Tudo começou em um 14 de abril como o dessa terça-feira, só que no ano de 1969. Foi quando os militares pediram, gentilmente (nem tanto), que não estudasse mais no Brasil. E em nenhum outro lugar, se possível (mais tarde, ainda me proibiriam de ensinar). Mesmo estudando com bolsa, dada pela Universidade Católica, por ter as melhores notas de lá.
Mas era presidente do Diretório Acadêmico na Faculdade de Direito, está explicado. Mais ou menos, vá lá. Eram anos doentes, amigo leitor. Sombrios. Pedir mais Democracia, naquele tempo, não era muito salutar. Conto o que se passou, a seguir.
Cheguei triste, em casa, e o velho perguntou por quê. Disse que ele sabia qual a razão. E jamais esquecerei o que me disse, naquele momento,
‒ Não fique triste, filho; que, um dia, você ainda vai por tudo isso no seu currículo.
Ocorre que havia ganho Bolsa de Estudos para Harvard (Estados Unidos), com tudo pago. Meu problema era o passaporte, já que não conseguiria ter por conta da Folha Corrida. Foi o que lhe contei. Dr. José Paulo não falou nada. Manhã seguinte, bem cedinho, foi bater na Rua da União. Onde ficava a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco (hoje, Secretaria de Defesa Social).
Pediu para conversar com o secretário, sem nem saber quem era. Só chegaria por volta das 8 horas, informaram, e ficou sentado à espera. Até quando apareceu, por lá, seu maior amigo de infância. Vizinho de muro na Rua Fernandes Vieira e companheiro de peladas, todas as tardes, no campinho em frente ao hoje Teatro Valdemar de Oliveira. Passaram a lembrar o passado. Até quando Môa perguntou
– Tás fazendo o quê por essas bandas?, amigo.
– Esperando o secretário.
– Então vamos para a sala dele.
– Ficou doido?, vou ficar é aqui fora.
– Deixe disso, homem.
E levou meu pai, aos empurrões, para lá. Chegando, sentou na cadeira do secretário.
– Sai daí, Môa, que você vai acabar preso.
– Acho que não, Zé, olha aqui a placa Moacir Sales – Secretário.
– O secretário é você?, Môa.
– Está falando com ele, amigo, o que lhe trouxe aqui?
Meu pai explicou. Môa chamou, no fim da sala,
– Cabo, prepare aí um Nada Consta para o filho de meu amigo.
O cabo levantou e já ia saindo quando Môa o interrompeu
– Inda que mal lhe pergunte, Vossa Excelência está indo fazer o quê?
– Buscar a Folha Corrida do rapaz.
– Ô doutor cabo, eu mandei o senhor buscar a Folha Corrida ou bater um Nada Consta?
– O doutor mandou bater um Nada Consta.
– Quem vai assinar é você?, ou eu.
– É o doutor, claro.
– Pois sente na porra dessa cadeira, prepare o porra do Nada Consta, ponha na porra de minha mesa e desapareça da minha frente.
Assinou, entregou a meu pai e ficaram conversando sobre os bons tempos. De noite, ele
– Taí, pode viajar.
A ditadura brasileira, de vez em quando, funcionava desse jeito. As boas relações, as velhas amizades, o compadrio…
* * *
Mas ainda faltava o visto do Consulado Americano. Pedi e, quando fui buscar, o funcionário explicou
‒ O Cônsul quer falar, antes, com você.
Deus do céu, estava tão perto… Dia seguinte, disse presente. Entrei na sua sala, ele ainda não havia chegado. Na mesa, vi um currículo. Era o meu, com certeza, reconheci mesmo de longe por conta das notas. Pouco depois, surgiu no recinto e foi direto
‒ Vamos escolher uma Faculdade, nos Estados Unidos. Oferecemos apartamento e um contrato de sete anos, com garantia de mais sete, a depender de você. Dividimos o salário dos sete anos iniciais por nove. Assim você começa a receber, nos dois anos que faltam para se formar.
Conhecia minha vida, incrível. A explicação que tenho, para iniciativas como essa, é de ser à época uma política do país. A de recrutar pessoas. Era mesmo natural. Quando estudei em Harvard, soube que 51% dos professores de lá não são nativos. Estrangeiros, como se daria no meu caso. E imagino que tentações assim resultariam irresistíveis, naquele tempo, para a maioria dos estudantes brasileiros em minha situação.
Fosse outro, o cenário, e com certeza iria. Lá faria amigos e me casaria, sem mais voltar ao Recife. E viveria só para estudar. Ocorre que estava noivo. E trabalhava no escritório de meu pai. Tinha uma vida já traçada, por aqui. Não fosse isso e aceitaria, com certeza. Agradeci e disse não. Com visto na mão, viajei e deu tudo certo. Ainda bem. Graças. Adeus.
Lisboa. Na terça-feira desta semana, dei declaração sobre nosso Jornal do Commercio. Por sugestão do amigo Laurindo Ferreira. Comecei lembrando outro amigo, Eduardo Galeano, que dizia “os fins já não justificam os meios. Hoje, os meios de comunicação é que justificam os fins”.
Lembrei também Pulitzer, quer definia a imprensa como “Exatidão!, Exatidão!!, Exatidão!!!”. Uma regra que o JC cumpre com destaque. Exemplarmente. Por ser tão bom, e tão ruim, como todos os grandes jornais do Brasil.
Sem contar, ainda, uma grande vantagem, É que, no Brasil periférico, quase todos os meios de comunicação estão sob controle, ou a serviço, de elites políticas locais. Enquanto o JC fica fora disso, pondo sempre o interesse coletivo como prioridade. E permitindo, a todos e cada um, opiniões livres. O que é (muito) bom. Um privilégio pernambucano.
Em resumo foi isso, reafirmando ser um prazer escrever em nosso JC. Ocorre que estava no escritório (minha sala tem 3 exaustores) e fumava um puro. Cohiba, só para lembrar. E apareci, no vídeo, com o tal charuto na mão.
Saiu no Instagram. Não sei como funciona essa mídia, sou dinossauro. Mas amigos me ligaram para dizer que alguns leitores não gostaram de me ver com o tal charuto. Cigarro não, claro, jamais fumei. Cigarro é alimento do pulmão, enquanto charuto é para a boca. Do paladar. Arrisco uma defesa, para isso.
E já começo lembrando Anton Tchekhov que, no leito de morte, pedia só morfina com champanhe; e seu personagem Niukhin vivia redigindo conferência, jamais terminada, sobre os “malefícios do teísmo e do cafeismo para o organismo”, no conto Os males do tabaco.
Seguindo nos tais males, bom lembrar que os puros tiveram sempre devotos ilustres como Carroll, Cascudo, Chandler, Conan Doyle, Conrad, Defoe, Dickens, Guerra Junqueiro, Hannah Arendt, Hemingway, Lorca, Mallarmé, Mark Twain, Pessoa, Poe, Stefan Zweig, Stevenson, os três irmãos Max, tantos mais. Hegel e Marx, por economia, só fumavam charutos mata-ratos. Vai ver todos vão para o index dos leitores.
Getúlio Vargas eram oito, Freud até 20 por dia. O presidente Kennedy decretou o embargo a Cuba, em fevereiro de 1962, apenas quando seus assessores compraram, e estocaram, todos os cigarrillos Petit Upmann disponíveis no mercado americano (fato confirmado pelo amigo Stephen, da CIA).
O papa Francisco proibiu, em 2018, a venda de cigarros no Vaticano, sem fazer qualquer restrição aos charutos. Até por ter, ali, muitos aficionados ‒ como o papa João XXIII, que era um fumante inveterado.
Manuel Bandeira lembrava (Evocação do Recife) que “Atrás de casa ficava a Rua da Saudade, onde se ia fumar escondido”. E Eça de Queiroz (A correspondência de Fradique Mendes), que “pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento”.
Cabrera Infante (Tristes tigres) falava nos momentos em que se sentia feliz, “É quando fumo meu charuto em paz, tranquilo, na escuridão. O que antes era uma guerra, transforma-se em brasas civilizadas que brilham na noite como o farol da alma”. E Machado de Assis (Linha reta e linha curva), “O charuto é um verdadeiro Memento Homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas vai lembrando, ao homem, o fim real e infalível de todas as coisas”.
Carneiro Vilela, primeiro presidente da Academia Pernambucana de Letras, escreveu artigo no Diário de Pernambuco (edição de 12/08/1888) em que pedia “uns cobrinhos para o bond e os charutos”. Conta-se que perguntaram, a Guimarães Rosa, “como o senhor quer abrir a porta de casa com um charuto?”; e, ele, “então acho que fumei a chave”.
Kipling escreveu poema, The betrothed (A prometida), que começava com ameaça da mulher Maggie “Você terá que escolher, ou seus charutos ou eu”; e o marido respondeu com o famoso verso A woman is only a woman, but a good cigar is a smoke (em tradução livre Uma mulher é só uma mulher, mas um bom charuto é uma fumaça), após o que preferiu ficar com seu fumo.
O café da manhã de Churchill era champanhe e charutos (Romeo y Julieta ou La Aroma de Cuba). George Burns, quando completou 100 anos, disse que caso tivesse parado de fumar charutos e talvez não viveria o bastante para comparecer ao funeral do seu médico.
Sem esquecer por fim, e isso vale para todos aqueles não apreciadores, que Hitler, primeiro chefe de Governo a proibir que se fumasse na sua frente, seria hoje (segundo Carlos Heitor Cony) o Patrono do Antitabagismo.
Em poucas linhas, foi médico especialista em Psiquiatria. Atuou nos palcos (com prêmio de melhor ator) e foi diretor do Teatro do Estudante Israelita, além de participar em peças das televisões. Sem esquecer, ainda foi compositor de músicas sinfônicas interpretadas por diversas orquestras. Uma vida, com certeza, incomum.
Escreveu artigos científicos publicados em revistas especializadas; e, mais, Elementos da Psicoterapia (1976); Entrevista, mitos, métodos e modelos (1986); e um capítulo (VI) em Psicossomática hoje (1992), editado por Júlio de Melo Filho), só livros técnicos.
“E de repente, mais de repente”, palavras de Pessoa na sua monumental Ode marítima (quase o mesmo que Vinícius de Moraes escreveu depois, no Soneto da separação, “E de repente, não mais que de repente”); de repente, pois, Samuel decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária. Alguém que jamais escrevera nada parecido, antes, por que o fez agora? Mistério… Embora mistério maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade superior dos seus textos.
O escritor Theóphile Gautier foi ver As meninas, de Velasquez. Passou horas contemplando cada detalhe da tela e, no fim, perguntou “Mas onde está o quadro?”. Uso essa metáfora, que ouvi do escritor português António Lobo Nunes (recentemente nos deixou), apenas para perguntar, depois de ler seu Na contramão e outros contos, “Mas onde está o livro?”
Melhor resposta fosse talvez dizer que está em cada pequeno roteiro do autor. Nas tramas. No inesperado. Mas prefiro recorrer a Érico Veríssimo (em Todos nós somos um mistério), “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”.
Samuel faz parte do último grupo. E escreveu esse livro talvez apenas para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. “A identidade é uma trajetória”, dizia Michel Foucault (Vigiar e punir). E essa identidade nele, a partir de agora, é ser reconhecido como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil.
É dele esse texto que vem a seguir, escolhido por ser o menor em seu livro, como já referido Na contramão e outros contos. Como o jornal tem limites de espaço, o ser pequeno passa a ser uma virtude. Poucos dias atrás nos despedimos dele, saudades do amigo querido. E para que continue vivo, em nossos corações, lhe dou voz.
Numa sexta-feira Santa, homenagens a um santo homem. Tudo muito adequado. Com a palavra, pois, Samuel Hulak:
MULTISSENSORIAL
“Vestiu o traje formal, pois a ocasião assim merecia; ajeitou o nó da gravata e deu outro relance no terno que paramentava. Em seguida, examinou, na tela do celular, como estava o trânsito, vez que se atrasara para a solenidade da posse da diretoria da associação. Não era espírita, mas tinha grandes amigos entre os novos diretores. Aliás, não professava religião alguma.
“Na tela, a avenida através da qual seguiria, tracejava no escuro da noite as setas vermelhas de um trânsito enlouquecido. Chamou um táxi e desceu para o saguão do prédio.
“A demora para a chegada do veículo só serviu para aumentar seu aborrecimento. Quando foi atendido entrou, pediu pressa e decidiu que, como seria uma corrida longa, relaxaria no percurso.
“Pela janela, observou a paisagem; que, mesmo tão conhecida, lhe pareceu como nova. Apreciou as pontes, o casario, os prédios altos e iluminados e até os ciclistas, motoqueiros, limpadores de para-brisa e os contorcionismos circenses dos ambulantes caçadores de moedas, nos sinais vermelhos. Afinal, tinha conseguido relaxar; até agradeceu, recusante, a oferta do motorista para ouvir música. A cidade que tão bem conhecia, lhe pareceu nunca vista.
“De repente, tudo parou; ao longe, ouviu a sirene de uma ambulância. Logo que relaxara, apesar de estar atrasado, o trânsito parou. Deveria ter ocorrido algum acidente. Não à toa, a estridência da sirene soava muito alto. Procurou o motorista, mas não o encontrou. Então, baixou o vidro da janela e viu estendido, no chão da avenida, a vítima do acidente. Era um homem, muito ensanguentado, morto.
“Súbito, no auge da angústia que passou a sentir, compreendeu tudo.
Estamos bem perto do fim. Os originais do próximo livro (título da coluna) já foram para a editora Topbooks, no Rio. Agora é tempo de revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico (com todos os nomes citados), definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço. Assim, vamos aproveitar o restinho. Hoje, só com militares e afins.
General ADEODATO MONT’ALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 universitários que iriam a um Congresso da UNE em Salvador (1968) – preparatório daquele de Ibiúna, em São Paulo, onde alguns milhares acabaram presos. Conhecida, tal secretaria, como Sorbonne ‒ uma ironia, claro, por não haver lá nenhum intelectual. A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, em seguida, um pequeno auditório. Todos os estudantes sentaram no fundo. Fui o último a entrar. O general estava na mesa, com um pacote de fichas em frente. Considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então, sentei na cadeira à sua frente. Até que olhando para mim, e com todos esperando pela conversa, ele
– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.
– Às ordens, general.
– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.
– Aceita sugestão?, general.
– Claro.
– Prenda só depois.
– Então está combinado, vai ser na volta.
Procurou minha ficha e completou
– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?
– Combinado, general, e muito obrigado pela deferência.
O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, generais gostavam de se divertir.
AUGUSTO GOMES DA COSTA, jornalista responsável pela publicidade no Diário de Lisboa. Já perto do fechamento do jornal, foi informado que havia pequeno espaço em branco numa página. E mandou por, nela, um anúncio qualquer, sem se preocupar com qual seria. Dia seguinte a página era, toda, um longo e importante discurso de Salazar sobre a Liberdade de Imprensa. E, logo embaixo, esse anúncio:
– BONITAS PALAVRAS NÃO ENGORDAM NINGUÉM. Usar joias falsas não embeleza. Compre verdadeiras na Grande Ourivesaria da Moda 257, Rua da Prata (esq. Santa Justa).
As duas primeiras linhas se inspiram em conhecido provérbio português, Bonitas palavras não engordam gatos. E a redação inteira teve que se explicar, na PIDE, ante o responsável pela Censura, o coronel Armando Jorge das Neves Larcher. O mesmo que, em 1952, proibiu as revistas do Rato Mickey (Mickey Mouse) em Portugal por serem “prejudiciais à formação intelectual das crianças”; e que, no cartão de visitas, se apresentava como Oficial do Exército, Licenciado em Filosofia e Farmácia.
BIU MOSCOUZINHO, professor de história em Caruaru (e membro atuante do Partidão). Preso num quartel de artilharia da cidade, sofria torturas diárias (história lembrada pelo ex-presidente da UNE Jean Marc von der Weid). Depois de sessão em que apanhou muito, no corredor das celas, um companheiro se preparava para a saudação de praxe
‒ Biu Mos…
Como os tiras não sabiam direito quem era, caso seu apelido se tornasse público estaria perdido. Então interrompeu o amigo de lutas dizendo
‒ De Nova Iorque. Pelo amor de Deus, parceiro, Biu de Nova Iorque.
BRILHANTE USTRA, coronel. Na Comissão Nacional da Verdade, o convidamos a prestar depoimento sobre acusações de torturas e mortes que lhe pesavam nos ombros. Seu advogado nos procurou
– Vim aqui só dizer que ele não vai comparecer.
– O convite se deu apenas por conta da idade avançada que tem seu cliente. E, pelo visto, será como as televisões desejam. Que será intimado e a Polícia Federal virá com ele, algemado, para a audiência.
Pediu para dar um telefonema
– Em consideração aos senhores, meu cliente informa que virá.
E veio. Ser valente, numa Ditadura, era mais fácil.
CELSO FURTADO. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian (que contou essa história), Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara, para o sul do País, acompanhado pelo chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo estava no hospital. O da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, pediu demissão. Tudo levando a que Darcy, chefe da Casa Civil, fosse o comandante supremo das Forças Armadas. Ao grupo, declarou
‒ Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.
Celso concluiu:
‒ Está explicado por que estamos aqui.
Dado o Golpe Militar, em 01/04, o bravo Darcy ainda ficou três dias sozinho, no Palácio, preparado para resistir, até ir para casa com o amigo Waldir Pires.
CLÁUDIO GUERRA, executor do Exército nos tempos da Ditadura. Na Comissão Nacional da Verdade, confessou que já não conseguia conviver com o remorso de tantas mortes que lhe atormentavam e pensou dar fim à sua triste vida. Foi quando, na rua, se viu em frente a uma Igreja. Perguntei
– Era a Universal?
– Não, Assembleia de Deus.
Entrou, conversou com Deus (foi o que disse) e se confessou arrependido.
– Pai, peço perdão por todos os meus pecados.
– Não posso, o que você fez foi horroroso.
– O Senhor está todo errado. Meu papel, como cristão, é me arrepender. Estou verdadeiramente arrependido. E seu papel, como Deus, é me perdoar.
– Perdoar não vou, mas darei o roteiro de sua redenção. Conte a todos o que fez, inclusive à imprensa, para que isso nunca mais se repita. Mais tarde, voltaremos a conversar.
Cláudio aceitou a penitência. E começou a contar sua história. Até em livro (Memórias de uma guerra suja, com a colaboração dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto). Falou isso como se estivesse em paz. E parecia mesmo, verdade se diga, o que não o impediu de ficar recebendo ameaças dos familiares de suas vítimas. Perguntei
– Não tem medo de morrer?
– E o senhor ainda não percebeu que já estou morto?
FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. Contou que em 6/11/1944 desembarcou em Tarquinia (Itália) o glorioso Senta a Pua, primeiro Grupo de Caça da FAB. Ao descer dos caminhões, em uma base aérea americana, entraram em formação. E, enquanto era arriada a bandeira ianque, subia no mastro a do Brasil. Terminada a cantoria em inglês, o General Ariel Nielsen voltou-se para o tenente-coronel Nero Moura, comandante dos brasileiros,
– Coronel, acabamos de ouvir o hino da Força Aérea dos Estados Unidos. E, agora, gostaríamos de escutar o da Força Aérea Brasileira.
Nero ficou paralisado. Que nossa Força, recém instituída, ainda não tinha hino. Perfilado logo atrás estava o sargento Oséas, amazonense, que adiantou-se um passo e segredou
– Coronel, mande a tropa cantar a Jardineira, que os gringos não vão perceber nada.
Nero deu voz de comando
– Atenção, meus senhores. Vamos cantar a Jardineira, em posição de sentido, como se estivéssemos entoando o hino nacional. E ai de quem rebolar.
Assim foi. E, até hoje, a popular marchinha do carnaval de 1939 (escrita por Benedito Lacerda e Humberto Porto) é o hino extra-oficial da Força Aérea Brasileira. Tocada, pelas bandas, em todas as cerimônias.
KARL MARX GUIMARÃES COELHO, dono de uma pequena oficina de reparos. Em 1964, no começo da Redentora, vinha caminhando tranquilo pela Rua do Hospício. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito do Recife), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou
‒ O que tem aí dentro?
‒ Nada.
‒ Quero ver.
E encontrou lá uma nota, “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão
‒ Karl Marx.
Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava da bomba de pressão para um ar-condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia brasileira.
PRESOS POLÍTICOS. Na ditadura 18 estudantes presos, que a combatiam, estavam em greve de fome. Já 11 dias haviam se passado. Por cautela foram trazidos para o quartel da PM, no Derby, onde havia um hospital militar. Médicos informaram que até 12 dias não haveria problemas para a saúde. Entre 12 e 18, provavelmente. A partir daí, com certeza. Era preciso encerrar a greve, na proteção dos próprios presos. Fomos negociar com eles. Airton Soares, velho amigo e líder do PT na Câmara dos Deputados (pouco depois ele, o deputado José Eudes e a deputada Beth Mendes seriam expulsos do partido por terem votado em Tancredo), que veio de São Paulo só para isso; e eu, companheiro de tantos na universidade (e amigo próximo de alguns), representando a OAB. Nosso argumento era que o protesto já tinha produzido seus resultados políticos, tanto que os jornais vinham dando a notícia com destaque. Seguir, ante os riscos para a saúde, não fazia sentido. Às dez da noite, alvíssaras, tudo certo. Fomos falar com o comandante da PM, ainda em seu gabinete e rezando para que tivéssemos sucesso. Ocorre que, encerrada essa greve, todos queriam jantar.
– Comandante, por favor providencie.
– Claro.
Pediu para chamar o cozinheiro. Um ajudante
– Doutor, o homem já foi pra casa.
– Veja o que tem na despensa.
– Está fechada, com cadeado, e quem tem a chave é ele. Só amanhã de manhã.
– Onde mora?
– Ninguém sabe.
Sugeri
– Comandante, por favor, vamos comprar ao menos um cacho de bananas.
– Nem pensar. Comida de fora? E se tiverem uma intoxicação?
– O senhor manda um ajudante conosco, providenciamos o dinheiro, ele mesmo escolhe e compra as bananas.
Nesse momento, um médico do quartel o chamou para conversar. E o comandante
– Perdão, senhores. Mas, antes de se alimentar, eles vão ter que fazer exames médicos e ser avaliados. Até para decidir o que podem ingerir.
– É desumano, comandante.
– Também acho. Mas, infelizmente, vai ter que ser.
E assim ocorreu. Voltaram a se alimentar só no dia seguinte, ao fim da manhã. Chico de Assis (enorme poeta) me confessou, mais tarde,
– Passar 11 dias, dentro de uma greve de fome, não teve nenhum problema. Só que do fim da noite e até a manhã, querendo comer, foi um verdadeiro suplício.
E Alberto Vinícius (Xanha), que estava do seu lado, confirmou
– A vontade que tive foi me suicidar.
RUTH ESCOBAR, atriz. Em 1985, o país se preparava para a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney. O ministro da Justiça da ditadura, Ibrahim Abi-Ackel, tentava ser simpático. Até chamou seu sucessor, Fernando Lyra, de jurista. E Lyra confirmou, todo prosa,
– Sou mesmo e de Caruaru!
Vendo Ruth chegar, quis fazer as pazes com ela
– Dona (Maria) Ruth (dos Santos Escobar), preciso explicar. Nunca lhe deixei representar peças de teatro, nas prisões, pensando na sua segurança.
– Como?
– É que os presos, lhe vendo, iriam ficar com alguma fixação sexual. E nas ruas, daqui a dez anos, poderiam querer lhe estuprar.
– Agora é que não lhe desculpo mesmo, ministro. Pois um estuprozinho, comigo dez anos mais velha, seria bom demais.