JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DEU TUDO CERTO

Lisboa. Tudo começou em um 14 de abril como o dessa terça-feira, só que no ano de 1969. Foi quando os militares pediram, gentilmente (nem tanto), que não estudasse mais no Brasil. E em nenhum outro lugar, se possível (mais tarde, ainda me proibiriam de ensinar). Mesmo estudando com bolsa, dada pela Universidade Católica, por ter as melhores notas de lá.

Mas era presidente do Diretório Acadêmico na Faculdade de Direito, está explicado. Mais ou menos, vá lá. Eram anos doentes, amigo leitor. Sombrios. Pedir mais Democracia, naquele tempo, não era muito salutar. Conto o que se passou, a seguir.

Cheguei triste, em casa, e o velho perguntou por quê. Disse que ele sabia qual a razão. E jamais esquecerei o que me disse, naquele momento,

‒ Não fique triste, filho; que, um dia, você ainda vai por tudo isso no seu currículo.

Ocorre que havia ganho Bolsa de Estudos para Harvard (Estados Unidos), com tudo pago. Meu problema era o passaporte, já que não conseguiria ter por conta da Folha Corrida. Foi o que lhe contei. Dr. José Paulo não falou nada. Manhã seguinte, bem cedinho, foi bater na Rua da União. Onde ficava a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco (hoje, Secretaria de Defesa Social).

Pediu para conversar com o secretário, sem nem saber quem era. Só chegaria por volta das 8 horas, informaram, e ficou sentado à espera. Até quando apareceu, por lá, seu maior amigo de infância. Vizinho de muro na Rua Fernandes Vieira e companheiro de peladas, todas as tardes, no campinho em frente ao hoje Teatro Valdemar de Oliveira. Passaram a lembrar o passado. Até quando Môa perguntou

– Tás fazendo o quê por essas bandas?, amigo.

– Esperando o secretário.

– Então vamos para a sala dele.

– Ficou doido?, vou ficar é aqui fora.

– Deixe disso, homem.

E levou meu pai, aos empurrões, para lá. Chegando, sentou na cadeira do secretário.

– Sai daí, Môa, que você vai acabar preso.

– Acho que não, Zé, olha aqui a placa Moacir Sales – Secretário.

– O secretário é você?, Môa.

– Está falando com ele, amigo, o que lhe trouxe aqui?

Meu pai explicou. Môa chamou, no fim da sala,

– Cabo, prepare aí um Nada Consta para o filho de meu amigo.

O cabo levantou e já ia saindo quando Môa o interrompeu

– Inda que mal lhe pergunte, Vossa Excelência está indo fazer o quê?

– Buscar a Folha Corrida do rapaz.

– Ô doutor cabo, eu mandei o senhor buscar a Folha Corrida ou bater um Nada Consta?

– O doutor mandou bater um Nada Consta.

– Quem vai assinar é você?, ou eu.

– É o doutor, claro.

– Pois sente na porra dessa cadeira, prepare o porra do Nada Consta, ponha na porra de minha mesa e desapareça da minha frente.

Assinou, entregou a meu pai e ficaram conversando sobre os bons tempos. De noite, ele

– Taí, pode viajar.

A ditadura brasileira, de vez em quando, funcionava desse jeito. As boas relações, as velhas amizades, o compadrio…

* * *

Mas ainda faltava o visto do Consulado Americano. Pedi e, quando fui buscar, o funcionário explicou

‒ O Cônsul quer falar, antes, com você.

Deus do céu, estava tão perto… Dia seguinte, disse presente. Entrei na sua sala, ele ainda não havia chegado. Na mesa, vi um currículo. Era o meu, com certeza, reconheci mesmo de longe por conta das notas. Pouco depois, surgiu no recinto e foi direto

‒ Vamos escolher uma Faculdade, nos Estados Unidos. Oferecemos apartamento e um contrato de sete anos, com garantia de mais sete, a depender de você. Dividimos o salário dos sete anos iniciais por nove. Assim você começa a receber, nos dois anos que faltam para se formar.

Conhecia minha vida, incrível. A explicação que tenho, para iniciativas como essa, é de ser à época uma política do país. A de recrutar pessoas. Era mesmo natural. Quando estudei em Harvard, soube que 51% dos professores de lá não são nativos. Estrangeiros, como se daria no meu caso. E imagino que tentações assim resultariam irresistíveis, naquele tempo, para a maioria dos estudantes brasileiros em minha situação.

Fosse outro, o cenário, e com certeza iria. Lá faria amigos e me casaria, sem mais voltar ao Recife. E viveria só para estudar. Ocorre que estava noivo. E trabalhava no escritório de meu pai. Tinha uma vida já traçada, por aqui. Não fosse isso e aceitaria, com certeza. Agradeci e disse não. Com visto na mão, viajei e deu tudo certo. Ainda bem. Graças. Adeus.

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CHARUTOS…

Lisboa. Na terça-feira desta semana, dei declaração sobre nosso Jornal do Commercio. Por sugestão do amigo Laurindo Ferreira. Comecei lembrando outro amigo, Eduardo Galeano, que dizia “os fins já não justificam os meios. Hoje, os meios de comunicação é que justificam os fins”.

Lembrei também Pulitzer, quer definia a imprensa como “Exatidão!, Exatidão!!, Exatidão!!!”. Uma regra que o JC cumpre com destaque. Exemplarmente. Por ser tão bom, e tão ruim, como todos os grandes jornais do Brasil.

Sem contar, ainda, uma grande vantagem, É que, no Brasil periférico, quase todos os meios de comunicação estão sob controle, ou a serviço, de elites políticas locais. Enquanto o JC fica fora disso, pondo sempre o interesse coletivo como prioridade. E permitindo, a todos e cada um, opiniões livres. O que é (muito) bom. Um privilégio pernambucano.

Em resumo foi isso, reafirmando ser um prazer escrever em nosso JC. Ocorre que estava no escritório (minha sala tem 3 exaustores) e fumava um puro. Cohiba, só para lembrar. E apareci, no vídeo, com o tal charuto na mão.

Saiu no Instagram. Não sei como funciona essa mídia, sou dinossauro. Mas amigos me ligaram para dizer que alguns leitores não gostaram de me ver com o tal charuto. Cigarro não, claro, jamais fumei. Cigarro é alimento do pulmão, enquanto charuto é para a boca. Do paladar. Arrisco uma defesa, para isso.

E já começo lembrando Anton Tchekhov que, no leito de morte, pedia só morfina com champanhe; e seu personagem Niukhin vivia redigindo conferência, jamais terminada, sobre os “malefícios do teísmo e do cafeismo para o organismo”, no conto Os males do tabaco.

Seguindo nos tais males, bom lembrar que os puros tiveram sempre devotos ilustres como Carroll, Cascudo, Chandler, Conan Doyle, Conrad, Defoe, Dickens, Guerra Junqueiro, Hannah Arendt, Hemingway, Lorca, Mallarmé, Mark Twain, Pessoa, Poe, Stefan Zweig, Stevenson, os três irmãos Max, tantos mais. Hegel e Marx, por economia, só fumavam charutos mata-ratos. Vai ver todos vão para o index dos leitores.

Getúlio Vargas eram oito, Freud até 20 por dia. O presidente Kennedy decretou o embargo a Cuba, em fevereiro de 1962, apenas quando seus assessores compraram, e estocaram, todos os cigarrillos Petit Upmann disponíveis no mercado americano (fato confirmado pelo amigo Stephen, da CIA).

O papa Francisco proibiu, em 2018, a venda de cigarros no Vaticano, sem fazer qualquer restrição aos charutos. Até por ter, ali, muitos aficionados ‒ como o papa João XXIII, que era um fumante inveterado.

Manuel Bandeira lembrava (Evocação do Recife) que “Atrás de casa ficava a Rua da Saudade, onde se ia fumar escondido”. E Eça de Queiroz (A correspondência de Fradique Mendes), que “pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento”.

Cabrera Infante (Tristes tigres) falava nos momentos em que se sentia feliz, “É quando fumo meu charuto em paz, tranquilo, na escuridão. O que antes era uma guerra, transforma-se em brasas civilizadas que brilham na noite como o farol da alma”. E Machado de Assis (Linha reta e linha curva), “O charuto é um verdadeiro Memento Homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas vai lembrando, ao homem, o fim real e infalível de todas as coisas”.

Carneiro Vilela, primeiro presidente da Academia Pernambucana de Letras, escreveu artigo no Diário de Pernambuco (edição de 12/08/1888) em que pedia “uns cobrinhos para o bond e os charutos”. Conta-se que perguntaram, a Guimarães Rosa, “como o senhor quer abrir a porta de casa com um charuto?”; e, ele, “então acho que fumei a chave”.

Kipling escreveu poema, The betrothed (A prometida), que começava com ameaça da mulher Maggie “Você terá que escolher, ou seus charutos ou eu”; e o marido respondeu com o famoso verso A woman is only a woman, but a good cigar is a smoke (em tradução livre Uma mulher é só uma mulher, mas um bom charuto é uma fumaça), após o que preferiu ficar com seu fumo.

O café da manhã de Churchill era champanhe e charutos (Romeo y Julieta ou La Aroma de Cuba). George Burns, quando completou 100 anos, disse que caso tivesse parado de fumar charutos e talvez não viveria o bastante para comparecer ao funeral do seu médico.

Sem esquecer por fim, e isso vale para todos aqueles não apreciadores, que Hitler, primeiro chefe de Governo a proibir que se fumasse na sua frente, seria hoje (segundo Carlos Heitor Cony) o Patrono do Antitabagismo.

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VIVA SAMUEL HULAK

Em poucas linhas, foi médico especialista em Psiquiatria. Atuou nos palcos (com prêmio de melhor ator) e foi diretor do Teatro do Estudante Israelita, além de participar em peças das televisões. Sem esquecer, ainda foi compositor de músicas sinfônicas interpretadas por diversas orquestras. Uma vida, com certeza, incomum.

Escreveu artigos científicos publicados em revistas especializadas; e, mais, Elementos da Psicoterapia (1976); Entrevista, mitos, métodos e modelos (1986); e um capítulo (VI) em Psicossomática hoje (1992), editado por Júlio de Melo Filho), só livros técnicos.

“E de repente, mais de repente”, palavras de Pessoa na sua monumental Ode marítima (quase o mesmo que Vinícius de Moraes escreveu depois, no Soneto da separação, “E de repente, não mais que de repente”); de repente, pois, Samuel decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária. Alguém que jamais escrevera nada parecido, antes, por que o fez agora? Mistério… Embora mistério maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade superior dos seus textos.

O escritor Theóphile Gautier foi ver As meninas, de Velasquez. Passou horas contemplando cada detalhe da tela e, no fim, perguntou “Mas onde está o quadro?”. Uso essa metáfora, que ouvi do escritor português António Lobo Nunes (recentemente nos deixou), apenas para perguntar, depois de ler seu Na contramão e outros contos, “Mas onde está o livro?”

Melhor resposta fosse talvez dizer que está em cada pequeno roteiro do autor. Nas tramas. No inesperado. Mas prefiro recorrer a Érico Veríssimo (em Todos nós somos um mistério), “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”.

Samuel faz parte do último grupo. E escreveu esse livro talvez apenas para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. “A identidade é uma trajetória”, dizia Michel Foucault (Vigiar e punir). E essa identidade nele, a partir de agora, é ser reconhecido como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil.

É dele esse texto que vem a seguir, escolhido por ser o menor em seu livro, como já referido Na contramão e outros contos. Como o jornal tem limites de espaço, o ser pequeno passa a ser uma virtude. Poucos dias atrás nos despedimos dele, saudades do amigo querido. E para que continue vivo, em nossos corações, lhe dou voz.

Numa sexta-feira Santa, homenagens a um santo homem. Tudo muito adequado. Com a palavra, pois, Samuel Hulak:

MULTISSENSORIAL

“Vestiu o traje formal, pois a ocasião assim merecia; ajeitou o nó da gravata e deu outro relance no terno que paramentava. Em seguida, examinou, na tela do celular, como estava o trânsito, vez que se atrasara para a solenidade da posse da diretoria da associação. Não era espírita, mas tinha grandes amigos entre os novos diretores. Aliás, não professava religião alguma.

“Na tela, a avenida através da qual seguiria, tracejava no escuro da noite as setas vermelhas de um trânsito enlouquecido. Chamou um táxi e desceu para o saguão do prédio.

“A demora para a chegada do veículo só serviu para aumentar seu aborrecimento. Quando foi atendido entrou, pediu pressa e decidiu que, como seria uma corrida longa, relaxaria no percurso.

“Pela janela, observou a paisagem; que, mesmo tão conhecida, lhe pareceu como nova. Apreciou as pontes, o casario, os prédios altos e iluminados e até os ciclistas, motoqueiros, limpadores de para-brisa e os contorcionismos circenses dos ambulantes caçadores de moedas, nos sinais vermelhos. Afinal, tinha conseguido relaxar; até agradeceu, recusante, a oferta do motorista para ouvir música. A cidade que tão bem conhecia, lhe pareceu nunca vista.

“De repente, tudo parou; ao longe, ouviu a sirene de uma ambulância. Logo que relaxara, apesar de estar atrasado, o trânsito parou. Deveria ter ocorrido algum acidente. Não à toa, a estridência da sirene soava muito alto. Procurou o motorista, mas não o encontrou. Então, baixou o vidro da janela e viu estendido, no chão da avenida, a vítima do acidente. Era um homem, muito ensanguentado, morto.

“Súbito, no auge da angústia que passou a sentir, compreendeu tudo.

“O homem no chão era ele”.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (50) ‒ MILITARES

Estamos bem perto do fim. Os originais do próximo livro (título da coluna) já foram para a editora Topbooks, no Rio. Agora é tempo de revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico (com todos os nomes citados), definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço. Assim, vamos aproveitar o restinho. Hoje, só com militares e afins.

General ADEODATO MONT’ALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 universitários que iriam a um Congresso da UNE em Salvador (1968) – preparatório daquele de Ibiúna, em São Paulo, onde alguns milhares acabaram presos. Conhecida, tal secretaria, como Sorbonne ‒ uma ironia, claro, por não haver lá nenhum intelectual. A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, em seguida, um pequeno auditório. Todos os estudantes sentaram no fundo. Fui o último a entrar. O general estava na mesa, com um pacote de fichas em frente. Considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então, sentei na cadeira à sua frente. Até que olhando para mim, e com todos esperando pela conversa, ele

– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.

– Às ordens, general.

– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.

– Aceita sugestão?, general.

– Claro.

– Prenda só depois.

– Então está combinado, vai ser na volta.

Procurou minha ficha e completou

– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?

– Combinado, general, e muito obrigado pela deferência.

O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, generais gostavam de se divertir.

AUGUSTO GOMES DA COSTA, jornalista responsável pela publicidade no Diário de Lisboa. Já perto do fechamento do jornal, foi informado que havia pequeno espaço em branco numa página. E mandou por, nela, um anúncio qualquer, sem se preocupar com qual seria. Dia seguinte a página era, toda, um longo e importante discurso de Salazar sobre a Liberdade de Imprensa. E, logo embaixo, esse anúncio:

– BONITAS PALAVRAS
NÃO ENGORDAM NINGUÉM.
Usar joias falsas não embeleza. Compre verdadeiras na
Grande Ourivesaria da Moda
257, Rua da Prata (esq. Santa Justa).

As duas primeiras linhas se inspiram em conhecido provérbio português, Bonitas palavras não engordam gatos. E a redação inteira teve que se explicar, na PIDE, ante o responsável pela Censura, o coronel Armando Jorge das Neves Larcher. O mesmo que, em 1952, proibiu as revistas do Rato Mickey (Mickey Mouse) em Portugal por serem “prejudiciais à formação intelectual das crianças”; e que, no cartão de visitas, se apresentava como Oficial do Exército, Licenciado em Filosofia e Farmácia.

BIU MOSCOUZINHO, professor de história em Caruaru (e membro atuante do Partidão). Preso num quartel de artilharia da cidade, sofria torturas diárias (história lembrada pelo ex-presidente da UNE Jean Marc von der Weid). Depois de sessão em que apanhou muito, no corredor das celas, um companheiro se preparava para a saudação de praxe

‒ Biu Mos…

Como os tiras não sabiam direito quem era, caso seu apelido se tornasse público estaria perdido. Então interrompeu o amigo de lutas dizendo

‒ De Nova Iorque. Pelo amor de Deus, parceiro, Biu de Nova Iorque.

BRILHANTE USTRA, coronel. Na Comissão Nacional da Verdade, o convidamos a prestar depoimento sobre acusações de torturas e mortes que lhe pesavam nos ombros. Seu advogado nos procurou

– Vim aqui só dizer que ele não vai comparecer.

– O convite se deu apenas por conta da idade avançada que tem seu cliente. E, pelo visto, será como as televisões desejam. Que será intimado e a Polícia Federal virá com ele, algemado, para a audiência.

Pediu para dar um telefonema

– Em consideração aos senhores, meu cliente informa que virá.

E veio. Ser valente, numa Ditadura, era mais fácil.

CELSO FURTADO. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian (que contou essa história), Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara, para o sul do País, acompanhado pelo chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo estava no hospital. O da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, pediu demissão. Tudo levando a que Darcy, chefe da Casa Civil, fosse o comandante supremo das Forças Armadas. Ao grupo, declarou

‒ Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.

Celso concluiu:

‒ Está explicado por que estamos aqui.

Dado o Golpe Militar, em 01/04, o bravo Darcy ainda ficou três dias sozinho, no Palácio, preparado para resistir, até ir para casa com o amigo Waldir Pires.

CLÁUDIO GUERRA, executor do Exército nos tempos da Ditadura. Na Comissão Nacional da Verdade, confessou que já não conseguia conviver com o remorso de tantas mortes que lhe atormentavam e pensou dar fim à sua triste vida. Foi quando, na rua, se viu em frente a uma Igreja. Perguntei

– Era a Universal?

– Não, Assembleia de Deus.

Entrou, conversou com Deus (foi o que disse) e se confessou arrependido.

– Pai, peço perdão por todos os meus pecados.

– Não posso, o que você fez foi horroroso.

– O Senhor está todo errado. Meu papel, como cristão, é me arrepender. Estou verdadeiramente arrependido. E seu papel, como Deus, é me perdoar.

– Perdoar não vou, mas darei o roteiro de sua redenção. Conte a todos o que fez, inclusive à imprensa, para que isso nunca mais se repita. Mais tarde, voltaremos a conversar.

Cláudio aceitou a penitência. E começou a contar sua história. Até em livro (Memórias de uma guerra suja, com a colaboração dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto). Falou isso como se estivesse em paz. E parecia mesmo, verdade se diga, o que não o impediu de ficar recebendo ameaças dos familiares de suas vítimas. Perguntei

– Não tem medo de morrer?

– E o senhor ainda não percebeu que já estou morto?

FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. Contou que em 6/11/1944 desembarcou em Tarquinia (Itália) o glorioso Senta a Pua, primeiro Grupo de Caça da FAB. Ao descer dos caminhões, em uma base aérea americana, entraram em formação. E, enquanto era arriada a bandeira ianque, subia no mastro a do Brasil. Terminada a cantoria em inglês, o General Ariel Nielsen voltou-se para o tenente-coronel Nero Moura, comandante dos brasileiros,

– Coronel, acabamos de ouvir o hino da Força Aérea dos Estados Unidos. E, agora, gostaríamos de escutar o da Força Aérea Brasileira.

Nero ficou paralisado. Que nossa Força, recém instituída, ainda não tinha hino. Perfilado logo atrás estava o sargento Oséas, amazonense, que adiantou-se um passo e segredou

– Coronel, mande a tropa cantar a Jardineira, que os gringos não vão perceber nada.

Nero deu voz de comando

– Atenção, meus senhores. Vamos cantar a Jardineira, em posição de sentido, como se estivéssemos entoando o hino nacional. E ai de quem rebolar.

Assim foi. E, até hoje, a popular marchinha do carnaval de 1939 (escrita por Benedito Lacerda e Humberto Porto) é o hino extra-oficial da Força Aérea Brasileira. Tocada, pelas bandas, em todas as cerimônias.

KARL MARX GUIMARÃES COELHO, dono de uma pequena oficina de reparos. Em 1964, no começo da Redentora, vinha caminhando tranquilo pela Rua do Hospício. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito do Recife), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou

‒ O que tem aí dentro?

‒ Nada.

‒ Quero ver.

E encontrou lá uma nota, “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão

‒ Karl Marx.

Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava da bomba de pressão para um ar-condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia brasileira.

PRESOS POLÍTICOS. Na ditadura 18 estudantes presos, que a combatiam, estavam em greve de fome. Já 11 dias haviam se passado. Por cautela foram trazidos para o quartel da PM, no Derby, onde havia um hospital militar. Médicos informaram que até 12 dias não haveria problemas para a saúde. Entre 12 e 18, provavelmente. A partir daí, com certeza. Era preciso encerrar a greve, na proteção dos próprios presos. Fomos negociar com eles. Airton Soares, velho amigo e líder do PT na Câmara dos Deputados (pouco depois ele, o deputado José Eudes e a deputada Beth Mendes seriam expulsos do partido por terem votado em Tancredo), que veio de São Paulo só para isso; e eu, companheiro de tantos na universidade (e amigo próximo de alguns), representando a OAB. Nosso argumento era que o protesto já tinha produzido seus resultados políticos, tanto que os jornais vinham dando a notícia com destaque. Seguir, ante os riscos para a saúde, não fazia sentido. Às dez da noite, alvíssaras, tudo certo. Fomos falar com o comandante da PM, ainda em seu gabinete e rezando para que tivéssemos sucesso. Ocorre que, encerrada essa greve, todos queriam jantar.

– Comandante, por favor providencie.

– Claro.

Pediu para chamar o cozinheiro. Um ajudante

– Doutor, o homem já foi pra casa.

– Veja o que tem na despensa.

– Está fechada, com cadeado, e quem tem a chave é ele. Só amanhã de manhã.

– Onde mora?

– Ninguém sabe.

Sugeri

– Comandante, por favor, vamos comprar ao menos um cacho de bananas.

– Nem pensar. Comida de fora? E se tiverem uma intoxicação?

– O senhor manda um ajudante conosco, providenciamos o dinheiro, ele mesmo escolhe e compra as bananas.

Nesse momento, um médico do quartel o chamou para conversar. E o comandante

– Perdão, senhores. Mas, antes de se alimentar, eles vão ter que fazer exames médicos e ser avaliados. Até para decidir o que podem ingerir.

– É desumano, comandante.

– Também acho. Mas, infelizmente, vai ter que ser.

E assim ocorreu. Voltaram a se alimentar só no dia seguinte, ao fim da manhã. Chico de Assis (enorme poeta) me confessou, mais tarde,

– Passar 11 dias, dentro de uma greve de fome, não teve nenhum problema. Só que do fim da noite e até a manhã, querendo comer, foi um verdadeiro suplício.

E Alberto Vinícius (Xanha), que estava do seu lado, confirmou

– A vontade que tive foi me suicidar.

RUTH ESCOBAR, atriz. Em 1985, o país se preparava para a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney. O ministro da Justiça da ditadura, Ibrahim Abi-Ackel, tentava ser simpático. Até chamou seu sucessor, Fernando Lyra, de jurista. E Lyra confirmou, todo prosa,

– Sou mesmo e de Caruaru!

Vendo Ruth chegar, quis fazer as pazes com ela

– Dona (Maria) Ruth (dos Santos Escobar), preciso explicar. Nunca lhe deixei representar peças de teatro, nas prisões, pensando na sua segurança.

– Como?

– É que os presos, lhe vendo, iriam ficar com alguma fixação sexual. E nas ruas, daqui a dez anos, poderiam querer lhe estuprar.

– Agora é que não lhe desculpo mesmo, ministro. Pois um estuprozinho, comigo dez anos mais velha, seria bom demais.

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ONDE ARDE AO RUBRO

É sempre bom ver os problemas, sobretudo em um país complicado como o Brasil, a partir das três dimensões do tempo – passado, presente e futuro. E já começo lembrando a frase admirável de George Orwell (em 1984), “quem controla o presente, controla o passado; e quem controla o passado, controla o futuro”.

Aproveito e lembro, também, a talvez frase mais copiada do mundo, escrita por Teixeira de Pascoaes (Cantos indecisos, publicado em 1921), “tenho, às vezes, saudades do futuro”. É o caso de muitos de nós (imagino), ao querer deixar para trás esse momento deprimente que vivemos hoje, em nossa história. Com saudades de um futuro que, todos esperamos, venha logo e seja benfazejo.

O passado, ensina o mestre Diógenes da Cunha Lima em livro memorável (Aforismos, talvez), “sabe esperar”. Será mesmo? Seja como for essa ideia de começar o texto falando no passado veio do fato de que, como no domingo passado (só que muitos anos atrás), tomaria posse, como presidente da República, Tancredo Neves. Voltemos a essa data, com um pouco de história, começando no dia anterior.

14/03/1985. Véspera da posse que seria de Tancredo, chegamos no aeroporto de Brasília e a Polícia Federal me esperava (fora da programação)

– O ministro (Fernando Lyra) pediu para ir direto ao gabinete de Dornelles.

Maria Lectícia e os pais, dona do Carmo e dr. Armando, foram para o hotel; e, eu, para a Esplanada. Gabinete de Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, futuro ministro da Fazenda e homem forte do seu governo. Perplexidade no ar, pelas incertezas do momento.

Na sala de espera se amontoavam assessores, militares, quase todos os futuros ministros. O baiano Carlos Santana (da Saúde) ficava olhando para o alto, imóvel, como se estivesse congelado. O gaúcho Pedro Simon (da Agricultura) rodava em volta dele mesmo, como um peru, sem parar. E Fernando

– Vai assumir (a presidência da República) Ulysses (Guimarães), como presidente da Câmara dos Deputados.

– Não pode, Fernando (como a doença de Tancredo era pública, já tinha examinado as questões jurídicas). Sarney presta compromisso como Vice-Presidente, perante o Congresso. Tancredo não, que está no hospital e tem 10 dias para isso. Até mais, por haver “motivo de força maior” (Constituição da época, art. 78). O Congresso declara momentaneamente vago, seu cargo, e assume o vice. Esse o caminho.

– Mas assume Ulysses.

– Então pode escolher outro para meu lugar (o de Secretário Geral), amigo. Que nosso primeiro gesto, no Ministério, seria uma ilegalidade. E não farei parte disso.

Algum tempo depois, Dornelles chamou cinco ou seis para reunião na sala dele (já com muitos outros personagens, por lá). O resto ficou onde estava. Na saída, Fernando contou como foi. Dornelles

– Affonso Arinos disse haver um antecedente, com Rodrigo Alves; que, doente, assumiu seu vice Delfim Moreira. Brossard e Saulo Ramos defendem a mesma tese. Fosse pouco, o próprio Ulysses prefere Sarney, repetindo sempre “é isso que a Constituição manda”. E Leitão de Abreu (que coordenava a transição por João Figueiredo, último presidente militar) garante que Sarney assumirá sem contestações.

O futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, pediu a palavra.

Aqui, paremos um pouco a narrativa dessa reunião para falar da natureza daquela transição, de uma ditadura sombria para a Democracia florescente com que todos sonhávamos.

Tudo foi negociado, amigo leitor. Inclusive os votos no colégio eleitoral. Em verdade se diga num estilo que, mesmo agora, continua vigendo. Essa relação com as elites políticas foi até simples. Incluindo troca de votos, no plenário, com ministérios e órgãos públicos.

Cito só um caso, como exemplo de negociação, no terraço de apartamento na Avenida Atlântica (Rio). Em que deputado pediu a SUDAM, já prometida a outro, e aceitou a SUFRAMA (Zona Franca de Manaus). Tancredo fazia isso bem. E Maluf dançou, graças.

Já com relação aos militares, as conversas foram mais complicadas. Que pediam algo não tão fácil de atender. É que o Congresso havia aprovado projeto, do presidente João Figueiredo, preparando a transição imaginada por Golbery do Couto e Silva.

De um lado com perdão a todos os condenados por crimes políticos (parte deles presos), alguns até em prisão perpétua, inclusive com o retorno dos exilados (entre os quais Leonel Brizola e Miguel Arraes). Nessa troca, seria garantida impunidade para os agentes do Estado responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos forçados. E assim se deu com a Lei 6.683, de 28/08/1979, aprovada por um Congresso que não era capaz de dizer não.

Ocorre que o atentado no RioCentro se deu só mais tarde, em 30/09/1981. Segundo me confessou o ministro do SNI, general Ivan de Souza Mendes, obra de tenentes, capitães e majores, sem autorização ou conhecimento prévio de patentes superiores. A ver isso melhor, algum dia. E muitos dos que usavam fardas poderiam ser ainda punidos. Os militares queriam uma nova anistia, incorporando todos os fatos ocorridos a partir da tal lei.

Tancredo entendeu que voltar à Democracia valia o preço pedido e assumiu esse compromisso. De alguma forma, com isso, garantindo a transição. E Sarney o cumpriu, em seu lugar, com a Emenda Constitucional 26, de 27/11/1985 (art. 4º). Votada por um Congresso livre. O mesmo que elegeu Tancredo/Sarney.

Não houve apenas uma Lei de Anistia, portanto. Foram duas, amigo leitor. Bom lembrar disso. A segunda, incorporada na própria Constituição. Cumprindo ainda lembrar que nossa transição ocorreu de maneira bem mais tranquila que a de nossos vizinhos, no continente americano.

Agora, voltemos à reunião no Gabinete de Dornelles. Estava dizendo que o General Leônidas pediu a palavra. Era comandante do 3º Exército – conhecido como “Divisão Encouraçada”, situado no Rio Grande do Sul. E contava com o apoio incondicional de parte muito expressiva das Forças Armadas. Mostrou uma Constituição cinza, edição de bolso (quem viveu em Brasília, naquele tempo, sabe qual era) e falou

– Devemos seguir o que diz esse livrinho.

Fernando Lyra

– Meu Secretário-Geral também diz que deve assumir Sarney, como vice.

Muitos outros confirmaram esse entendimento. E Leônidas, depois de dar um tapa forte na mesa,

– Então está resolvido, assume Sarney. Alguém é contra?

Silêncio na sala

– E não se fala mais nisso.

Ninguém teve disposição, ou coragem, para contradizer. A palavra das forças armadas, numa hora dessas, é forte. Mais tarde, já na casa de Sarney, a transição seria sacramentada em ata por todos assinada. Dia seguinte, assumiu Sarney sem nenhuma contestação. E morreria Tancredo, em paz, alguns dias depois (21/04/1985).

Esse o passado. Já nosso triste presente revela que o autoritarismo trocou de mãos. Escândalos se sucedem e os responsáveis se sentem inatingíveis. Como se deu, antes, com os militares. Nesse quadro incluindo o próprio Supremo, com ministros se considerando homens castos, puros, acima do bem e do mal. Não acham nada demais, por exemplo, enriquecer por conta do cargo. Talvez até considerem ter direito a isso. Que mereçam mesmo a grana hoje nas contas deles e de seus familiares.

Pior é que tudo se dá com o apoio explícito de parte das elites políticas, no Congresso. Entre elas o presidente do Senado, que simplesmente se recusa a por em votação os pedidos de impeachment de ministros do Supremo que se amontoam na sua mesa. Como se fosse parte interessada, nesse deixar para lá. Como se também tivesse responsabilidade, nos fatos. E com direito de usar o cargo para proteger, e blindar, a si mesmo e a seus parceiros.

Nossa Rachel de Queiroz chegou a dizer (Crônicas escolhidas) que “a grande chaga de nosso tempo é não se contar com o futuro”. Mas o futuro existe, senhores, podem acreditar. E devemos contar com ele. Com novos tempos que serão sem dúvida melhores e mais promissores que nossos passado e presente recentes. Evoé!!!

Faltando só dizer que o título desse texto vem de como Pessoa (Caeiro, O guardador) via o Ocidente, “Onde arde ao rubro/ Tudo que talvez seja o futuro/ Que eu sem conhecer adoro”. Viva, então, esse futuro que o Brasil merece.

P.S. Segunda-feira passada, minha mãe teria feito 100 anos. E como dói, ainda hoje, essa perda. Saudades de dona Maria Lia.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A ARTE DE MENTIR

Mário Quintana (Sapato florido) dizia que “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. E Camus (O verão), poético, “a mentira é um belo crepúsculo”. Só que nestes casos se tratam de mentiras inocentes, literárias, que não incomodam ninguém.

Ocorre que há, por dentro dessa, uma outra mais dura, cruel, sem nenhuma poesia. O padre António Vieira, para Fernando Pessoa “Imperador da língua portuguesa”, no seu Sermão da Sexagésima até disse que “A mentira hoje, no mundo, é mais poderosa que a verdade”. Longe de amadores e cínica, no Brasil de hoje requer ausência dos mais elementares sentimentos morais, um acendrado amor pelo dinheiro e total falta de vergonha na cara.

François de La Rochefoucauld até nos deixou bela frase (Reflexões ou sentenças e máximas morais) em que desdenhava do tal cinismo; ao preferir a hipocrisia que para ele, ao menos, “é uma homenagem que o vício presta à virtude”.

O ministro do Supremo Alexandre de Moraes está, hoje, no centro desse debate sobre a mentira. Em, ao menos, duas dimensões. Uma bem mais óbvia, que tem por trás grana. Sobretudo grana. Muita grana. Até agora, gerado nas sombras, um belo contrato de 129,6 milhões, pagos por um bandido hoje na prisão, beneficiando mulher e filhos. Trata-se de um bonus pater famílias, assim diriam os romanos. Sem que se saiba direito se contratados são eles ou o próprio ministro. Como esse tema está em todos os jornais, o deixemos por hora de lado.

Aqui, pretendo falar do ato de mentir propriamente dito. A partir de uma dimensão ética. E já começo lembrando que caso mais notório de implicações jurídicas, sobre essa mentira, se deu nos Estados Unidos.

Em 1972, o presidente da República Richard Nixon foi candidato, à reeleição, contra o democrata George MacGovern. Venceu, esmagadoramente, em 49 dos 51 estados americanos, perdendo apenas em Massachusetts (Nova Inglaterra) e no Distrito de Columbia – onde, aliás, fica a Casa Branca.

Ocorre que, durante essa campanha, houve fato com grande repercussão na mídia; que foi espionagem, por homens ligados à campanha de Nixon, no complexo dos edifícios de Watergate – Virginia Avenue 2.600, bairro de Foggy Bottom, em Washigton D.C. Sendo cinco pessoas presas ao tentar instalar gravadores no local e fotografar os participantes de reunião que ali se realizava.

O caso, que passou a ser conhecido como Watergate, ganhou destaque a partir de reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein para o jornal The Washington Post. A partir de informações repassadas por um misterioso Deep Throat (Garganta profunda); que, depois se soube, era Mark Felt, um agente do FBI, mas essa é outra história.

Nixon negou, sempre, que soubesse do que se passou por ali. Nem que tenha autorizado qualquer ação. E, de alguma forma, essa fiscalização acabava sendo natural. Pois Watergate não era sede oficial do Partido Democrata. E o governo poderia ter legitimamente interesse em comprovar o que ali faziam aqueles homens, tão tarde da noite, em salas comerciais alugadas por pessoas comuns.

Ocorre que depois se soube de algumas fitas, gravadas pelo governo, supostamente com envolvimento do presidente. Nixon se recusou a exibi-las. Até que, em 24/06/1974, a Suprema Corte o obrigou a tornar públicas tais gravações.

A Suprema Corte dos Estados Unidos é bem diferente do nosso Supremo. Até por não haver, nem lá e nem em nenhum outro tribunal do planeta, decisões monocráticas. Elas são tomadas pelo próprio tribunal. Como um conjunto. Como um tribunal. Também por sua independência, em relação às elites políticas do país. E, no caso, votaram contra o presidente da República todos os ministros (Justices, assim se chamam, para diferenciar dos Judges, que seriam os demais magistrados do país), inclusive os indicados pelo Partido Republicano. Unanimidade.

Nenhum deles se sentiu constrangido para dar apoio ao presidente da República do partido que os indicou. Outra diferença, e grande, na comparação com o Supremo daqui.

O caso, afinal, chegou à House of Representatives (a Câmara dos Deputados de lá). E o House Judiciary Committee (equivalente a nossa Comissão de Legislação e Justiça) aprovou três recomendações que poderiam levar ao impeachment de Nixon, a saber: Obstrução de Justiça, Abuso de Poder e Contempt of Congress (algo como Desrespeito ao Congresso).

Principal acusação era de que o presidente mentiu, ao dizer que de nada sabia. Mentira que restou provada pelas fitas. Seus advogados argumentaram que mentir não é crime. Nem no título 18 do Código dos Estados Unidos, conhecido como 18 U.S.C., que seria o Código Penal Federal do país; nem nos 51 Códigos Penais Estaduais. Ele não teria cometido crime, ao mentir.

Problema, para Nixon, é que o impeachment não é tratado por lá em uma lei específica (como o do Brasil, Lei 1.079/1950), mas na própria Constituição, já no artigo primeiro. E ocorre em três situações: Treason (traição), Bribery (suborno) e, no caso interessava especialmente, High Crimes and Misdemeanours – que poderia ser traduzido por um comportamento incompatível com a dignidade do cargo. O que, para todos os americanos, teria ocorrido.

Não cometeu crime, em resumo, disserem seus advogados. Mas corresponde à dignidade do cargo mentir? Foi quando teve, Nixon, a convicção de que o impeachment seria aprovado, em sequência, pelo Senado.

Então pesaram, para ele, as regras determinadas pelo Former Presidents Act – FPA, de 1958, que garantem benefícios para ex-presidentes como: pensão vitalícia; segurança, pelo Serviço Secreto, para mulher e filhos (até 16 anos); escritório mobiliado e equipe de apoio; viagens; tratamento médico, biblioteca presidenciável, funerais de estado com honras militares. Não quis correr o risco de perder tudo isso. E preferiu renunciar, em 09/08/1974. A mentira lhe custou caro, afinal. Vão-se os anéis…

Isso nos Estados Unidos, claro, em que só o ato de mentir torna indigno aquele que mente. E o desqualifica, moralmente, para exercer qualquer cargo público. Faltando agora só conferir se essa mentira, no Brasil, tem significação equivalente. Ou se seria algo até rentável, para os que mentem. Economicamente compensador. Pelo menos em relação a ministros do Supremo, que se apegam fervorosamente a seus cargos. Equivalendo, ao mentir, o calar. O não explicitar situações que deixem mal os ministros. Ou, quando for possível, impor sigilo nos seus processos.

Protegidos esses ministros por um corporativismo indecente que macula as tradições do Supremo, em que todos se consideram semi-deuses castos e puros, elegantes e benditos, desprovidos de pecados ou culpas. Serão mesmo?, eis a questão.

Para encerrar, imagino que ao olhar no espelho, todas as manhãs, o tal ministro se veja como um ser superior. Acima das contingências terrenas. Do errado e do certo. Do bem e do mal. Da lei e dos pobres mortais que somos todos nós. E talvez até pronuncie alguma frase, pensando na história, para expressar avaliação tão positiva.

O que lembra passagem com outro membro da família, este aqui de Pernambuco, não sei se seu parente, o amigo Pessoa de Moraes. Sociólogo importante, encerrou programa que tinha na TV Universitária do Recife (Supremum Organorum) olhando para as câmeras e dizendo algo que nosso ministro brasiliense (trocando o pre-nome) creio também diria,

– O Brasil precisa de Pessoa de Moraes.

Dia seguinte, mandei bilhete para ele

– Desculpe, mestre, mas discordo. O que o Brasil precisa, mesmo, é de pessoas de moral.

Nas ruas, nas escolas, em todas as casas, em todos os lugares. No Brasil popular e profundo de nossos interiores ou da periferia do país. E sobretudo em Brasília, onde está o poder real. Por sua dimensão institucional, num momento relevantíssimo para todos e cada um, especialmente para o Supremo. Isso o que desejamos, com o coração. Em vez de gatunos, gente de bem. Em vez pompa e garbo, mulheres e homens decentes. Em vez de milionários empoderados e presunçosos, pessoas de moral. Só isso.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (49) ‒ ARTISTAS

Mais conversas, hoje só com artistas e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Num fim de ano que, temos fé, será de melhores dias. E já me despedindo por algum tempo dos leitores, seguem:

BADEN POWELL, músico. Depois do jantar, na casa do primo Romildo Souza (Recife), pegou no violão. E, antes de começar a tocar, lembrou que Caymmi, nesses casos, dizia sempre

‒ Agora vou pagar minha janta.

CAETANO VELOSO, músico. Estava o amigo Zé Cláudio posto em sossego quando ligou. Queria conhecer nosso grande pintor. Marcaram encontro às três da tarde na casa do próprio (que me contou essa história), em Olinda (Pernambuco). Mas chegou tarde, já escuro, e encontrou lá somente Cícera

– Zé Cláudio está?

Aqui, parêntese para dizer quem é Cícera, personagem de romance. Soberana, em sua cozinha. Tanto que se alguém chegar, e não for logo cumprimentá-la, está perdido. Zé Cláudio pede para servir cafezinho, ela traz só um e diz

– Esse é do senhor. Seu amigo sirvo não que ele é muito mal-educado.

Está explicado, pois. Mais ou menos, vá lá. Voltando à pergunta de Caetano, Zé Cláudio está?, Cícera respondeu sem maiores preocupações

– No dentista.

– Posso esperar por ele aí dentro?

– Não.

E voltou a se preocupar com sua sopa. Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo, pedindo apenas o acesso à casa para uma dama que precisava fazer suas necessidades

– Ela que faça aí fora mesmo.

Nesse ponto da conversa bom dizer que a casa fica no alto de um morro, a quase 10 minutos da rua em que passam táxis. E o músico teve a infeliz ideia de não ficar com aquele no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu

– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?

– Claro.

Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta

– A senhora desculpe, mas sabe quem sou?

– Sei, é Caetano Veloso, mas eu prefiro Tarcísio Meira.

CAPIBA, compositor. Consultório de tio João Suassuna (cirurgião plástico, irmão de Ariano), vizinho do nosso escritório de advocacia no então edifício Brasil. Secretária dele era Zezita, com quem depois Capiba casou e foi feliz para sempre. Quase toda tarde ia lá pra namorar. Numa dessas vezes

‒ Seu Zé Paulinho, entrar na conversa dos outros não é coisa boa.

E deu esse exemplo

‒ Fomos, ao aeroporto dos Guararapes, buscar aquele que vinha para ser o chefe de nosso departamento no Banco do Brasil. Avião atrasado. Sem ter o que fazer fiquei perambulando e, de repente, vejo cidadão que dizia

‒ Já tentou amicacina, canamicina, penicilina e não resolveu.

Foi quando Capiba sugeriu

‒ E por que não experimentou tomar no cu?

Resumindo, quem usou aqueles medicamentos foi a mulher (que acabara de falecer) do tal chefe, o mesmo que passou a lhe perseguir até o dia em que se aposentou. Ficou a lição.

CHICO ANYSIO, humorista. Disse que não conseguia viver sozinho, por isso casou tantas vezes. E nos contou episódio de quando se encantou por conhecida jogadora de basquete, da seleção (disse o nome). Como iria fazer show na cidade onde morava, telefonou

– Querida, aqui é Chico Anysio. Queria convidá-la para jantar. Por favor não ria, mas estou perdidamente apaixonado por você. E quem sabe, nesse encontro, algo possa nos unir.

– É um prazer, Chico. Mas já digo que não tenha esperanças porque nós dois gostamos da mesma fruta.

FLÁVIO CAVALCANTI, apresentador de televisão. Em seu programa, Um Instante Maestro!, quebrava discos e dizia o diabo do cantor. Para delírio do público. Um dos mal-amados preferidos era o gaúcho Vítor Mateus Teixeira, para seu público Teixeirinha. Que fez sucesso, nos anos 1960, com a canção Coração de luto. No mundo real, uma história trágica. Que a mãe do Teixeirinha, por sofrer de epilepsia, teve uma convulsão e desmaiou sobre fogueira que fazia para queimar alguns livros. E foi, literalmente, incinerada. Razão pela qual Flávio passou a chamar a música, e assim ficou mais conhecida no Brasil todo, como Churrasquinho de Mãe. Passa algum tempo e liga, para ele (relato de Flavinho, filho do apresentador), o próprio Teixeirinha

– Amigo Flávio, estou numa fase ruim, saí da mídia, não faço mais shows e preciso muito de sua ajuda.

– O que posso fazer por você?, amigo.

– Queria só que, no seu programa, você quebrasse mais uns disquinhos e falasse mal de mim. Seria um grande favor.

GENINHA ROSA BORGES, atriz. A Primeira-dama do teatro pernambucano me convidou para contracenar, com ela, no auditório da Cultura Francesa (era, então, diretor de lá). Num dia 21 de junho, seu aniversário (em 2022, completou 100 anos bem vividos). Tratava-se de um poema que recitaria em francês, Déjeuner du matin, de Jacques Prévert (nome daquele auditório). E o papel que me reservou era simples, sem falas. Na mesinha, tomando chá, ela falaria de suas mágoas. Quando fizesse um sinal lhe serviria chá, colocaria um chapéu, vestiria capa e iria embora (assim diziam os versos). Para que, sozinha, pudesse continuar sua encenação dramática. Não tinha como dar errado. Só que, novato no ramo, fiquei encantado com seu talento. E não prestei atenção nos gestos. Ela parou de falar, fez mil sinais e nada. Foi quando pegou a xícara, levantou até a altura dos olhos e entregou na minha mão. Surpreso disse no palco, em português mesmo,

– Desculpe, Geninha. esqueci.

Um desastre. A plateia passou rindo cinco minutos. E, eu, constrangidíssimo. Servi o tal chá, pus o tal chapéu, levantei para vestir a tal capa e desaparecer da cena. Tudo providenciado por Maria Lectícia. Era uma de chuva, Burberry, com 28 botões. Atacados, todos. Tive que ir desabotoando, um por um. O tempo correndo e Geninha, calada, esperando minha saída. O público desatou a rir, de novo, agora por conta da minha visível angústia. Foi quando entendi que deveria me justificar

– Os senhores por favor desculpem, mas a culpa é de dona Lectícia (apontei), que deveria ter-me entregado essa capa já pronta.

Foi pior. A plateia trocou risos discretos por gargalhadas. Até que, já vestido com a dita capa, me despedi da atriz com uma reverência e saí de cena, para que Geninha pudesse continuar sua trágica história. No fim do espetáculo, fui falar com ela

– Geninha, desculpe. Mas não subo de novo, num palco, até o fim da vida.

– Faz bem, Zé Paulo, faz muito bem.

E, agora, quem começou a rir foi ela.

JOSÉ CLÁUDIO, pintor. Quando fez 71 anos, respondeu pergunta do Jornal do Commercio (O que é fazer 71 anos?) com as duas primeiras frases dessa décima, sem nem perceber que tinham a métrica das cantorias de nossos interiores nordestinos. Completei os versos, no próprio papel do jornal, e mandei para ele

– “71 é desgraça
A pior coisa do mundo”
Nosso corpo vagabundo
Se arreia em qualquer praça.
Mas Zé Cláudio sua graça
Atente ao que vou dizer
Se alternativa é morrer
Ir para lugar nenhum
Pior que 71
Na verdade é nem fazer.

ROBERTO CARLOS, cantor. Dona Lectícia faria 60 anos. E era (ainda é) sua maior fã. Pensei lhe fazer uma surpresa. Na noite da festa de seu aniversário RC apareceria na sala, de surpresa; e, apenas ele mais seu violão, cantaria Parabéns pra você. Só. Pedi ao amigo Saulo Ramos, que era seu advogado, para saber qual seria o preço. Resposta do astro

‒ Nunca fiz isso na vida. E, se Deus quiser, vou morrer sem fazer.

SÍLVIO CALDAS, cantor. E autor (junto com Oreste Barbosa) de Chão de Estrelas. Em 1950, assinou contrato exclusivo com a Rádio Excelsior (São Paulo) e veio comemorar no Recife. Véspera da estreia do programa e nada, onde andaria Sílvio? Seus contratantes pediram a Esmaragdo Marroquim (diretor de redação do Jornal do Commercio) que o localizasse para que viajasse. Ele escolheu seis bares, onde acreditava poderia estar, e mandou um jornalista para cada. No Maxime (Pina) foi Rui (Amélio) Cabral, que encontrou o cantor (já cheio de batidas com cachaça) e avisou que deveria pegar um avião. Silvio lhe deu algum dinheiro e pediu que enviasse telegrama para seus patrões, esse

– Impossível retornar, safra cajus começando.

ZIRALDO, artista plástico. Estávamos com as crianças no hotel, em Buenos Aires, voltando de Las Leñas

– Lectícia, sabe de quem deu saudades?

– Não.

– Ziraldo.

– Telefone para ele.

Tudo bem prático, as usual. Liguei. Fone do escritório sem atender, liguei para o da casa

– Ziraldo está?

– Não.

– E Vilma?

– Também não.

– Quando voltam?

– Não voltam, estão fora do país.

Só para saber

– Onde?

– Buenos Aires.

Inacreditável coincidência

– Hotel, por favor.

– Hotel não, hospital.

Digo, a Lectícia,

– Vamos ver nosso amigo.

– Não dá, tenho que ficar com as crianças.

Fui sozinho. Estava se tratando de um pneumotórax, algo assim. No quarto, depois das conversas, disse que voltaria no dia seguinte e perguntei

– Precisa de alguma coisa?

– Uma garrafa de uísque.

Vilma

– E outra, para mim.

Na portaria do hospital, disseram que álcool e fumo não podiam entrar, mas amigos são para essas coisas. Consegui duas garrafas de Passport, escondi no casaco e entrei no quarto com elas. Zira pegou a dele, jogou a tampa fora e bebeu metade, no gargalo, em 15 minutos. Cowboy, como se diz. Nos despedimos. O resto deve ter bebido logo depois. Dia seguinte, antes de viajar, liguei para me despedir. Atendeu uma enfermeira, no quarto dele,

– Ziraldo, por favor.

– Teve uma piora inesperada e está na UTI.

– Tícia, vai ver que matei Ziraldo.

Felizmente escapou. Viva Zira.

* * *

PS. E 2025 se vai, amigo leitor. Um ano a mais, ou a menos, dependendo de como se veja. Aproveito a coluna para desejar que seja venturoso, e que corresponda a tudo que seja razoável esperar dele. Abraços fraternos (sem distinções, e com o coração), a todos e cada um. E paro por aqui, agora, de escrever. Algo bom. Que o leitor, imagino, já não aguentava mais. Só que, como todo bem não dura para sempre, volto depois do carnaval. Para nosso encontro semanal. Até a volta, se Deus quiser. E, espero, Ele vai querer.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O FUTURO DAS UTOPIAS

Thomas Morus escreveu em latim sua Utopia, em 1516. A inspiração veio ao ler Mundus Novus (1504), de Américo Vespúcio, um navegador experiente que sabia escrever. Talvez o primeiro best-seller do mundo, com mais de 40 edições. Tanto sucesso fez que quando quiseram dar nome ao novo continente, que surgiu para o mundo em 12/10/1492, em vez de Colômbia (que seria o natural, por conta de Cristóvão Colombo), escolheram América (pela crença de ter sido uma descoberta dele, Américo Vespúcio).

Nesse livro, relata Vespúcio que 24 homens, mulheres e crianças, presos em uma feitoria de Cabo Frio, seguiriam como degredados para uma ilha – aquela que, depois, teria nome de um italiano que quase acabou com o pau-brasil do nosso Nordeste, Fernan di Norogna ‒ hoje, Fernando de Noronha. Daí veio a ideia, do inglês, para conceber uma outra ilha, a de Utopia.

Só que Morus logo depois, em 1535, perdeu a cabeça. Literalmente. Sem nem saber que aquelas pessoas sequer chegaram a viajar; e encontraram seu destino, longe da ilha que sonhou, pelas mãos de índios Termiminós chefiados por Arariboia. Mais tarde, 500 anos depois de sua morte (em 1935), Morus foi canonizado e virou santo, mas essa é outra história.

A partir dele, muitas outras utopias foram sendo criadas. Quando o mundo era maior, concebidas como um lugar distante – Anidro, Acórea, Eldorado, Ilhas Afortunadas. Mais tarde, passou a ser apenas um outro tempo – a sociedade dos homens de bem, de Proudhon; a Nova Atlântida, na ilha de Bensalém, do filósofo Francis Bacon; a sociedade sem regras, de Bakunim; a sociedade sem classes, de Marx e Engels.

Bom lembrar, por fim, a da igreja católica. Mais competente de todas, que promete um outro lugar (o Paraíso) em um outro tempo (depois do Juízo Final). Aldo Moflley contou prá lá de duas mil delas. “Dolorosas utopias de todos os filósofos do mundo”, segundo Raul de Leôni em seu poema Crepuscular (do livro Luz mediterrânea).

No capítulo das utopias brasileiras, mais conhecida é a de Bandeira, sua Pasárgada – em que há camas e mulheres a escolher. Mas, apesar de muito apreciar o poeta do Recife, prefiro a utopia que Guilherme de Figueiredo concebeu em seu Viagem a Altemburgo. Dando-se então que, por muito gostar desse curioso conto, não resisti à tentação de reescrevê-lo. E tantas vezes o fiz que já nem sei, hoje, de quem é cada pedaço. Faz mal não, o que prestar é dele e o resto meu.

Seja como for, nesse país imaginário, tudo funciona bem. Militares por exemplo, que sempre querem chegar ao poder, em Altemburgo começam as carreiras como Marechal. A partir daí, para cada vez que tentarem ser Presidente da República, ou depois de cada ato de bravura praticado, perdem um posto, até findar suas carreiras como soldado raso. Pra aprender a ficar quietos.

Criminosos violentos e irrecuperáveis, outro exemplo, são obrigados a tomar uma “injeção de bondade”; após o que passam a viver em santidade, com vidas castas e puras de dar inveja a Madre Tereza de Calcutá. Até que, no máximo em quatro anos, acabam todos mortos. De tédio.

Nesse lugar perfeito, cumpre ver também a solução encontrada para os males da saúde. Simples e prática, como tudo em Altemburgo. Médicos, por lá, são os profissionais mais bem remunerados. Com direito a resolver tudo, na vida dos seus pacientes. Inclusive recomendando regimes cruéis e exercícios insensatos – como o das esteiras, em que se anda mais de hora pra chegar onde já se está. Por conta de lipídios e colesteróis, dizem sempre, como se fosse uma desculpa respeitável.

Voltando aos médicos, remédios apenas quando os pacientes precisem. Poucos, de preferência. E operações, apenas se forem mesmo necessárias. Problema é só quando morre um desses pacientes; posto que então, e simplesmente, eles não recebem o salário do mês. Assim se explicando porque nos velórios, algumas vezes até mais que as viúvas, médicos sempre choram desconsoladamente.

E com tantas utopias no mercado, em um fim de ano como este em que estamos, não resisto em dizer a minha. Um lugar que não é imaginário, como Pasárgada ou Altemburgo, mas real. Nosso querido Brasil. E a utopia é ver esse país majestoso se reencontrar com sua história.

Um país menos radicalizado. Mais parecido com aquele habitado por “homens cordiais”, como sonhado por Sérgio Buarque de Holanda (no seu Raízes do Brasil). Em que possamos conviver bem, mais fraternalmente, respeitando as opiniões dos que nos são próximos e não pensam como nós.

É o presente que desejo receber nesse Natal. Algo impossível? Talvez. Mas devemos seguir nessa trilha. E lembro do amigo Eduardo Galeano que vivia repetindo uma definição de Fernando Birri

‒ A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Essa é a utopia que sonho. Um caminhar que não finde nunca. Para que possamos construir e reconstruir, sempre, nosso futuro. Na linha dos Provérbios e Cantares, de Antonio Machado, poeta do rio Guadalquivir,

‒ Caminhante não há caminhos, caminhos se fazem no andar.

Bom Natal, amigos. Caminhando, sempre em frente, na direção de um Brasil parecido com o de nossas raízes. Mais decente. Sobretudo mais solidário. E mais fraterno. Abraços, então, para todos e para cada um.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

POR UMA CORTE CONSTITUCIONAL, JÁ!!!

O Supremo Tribunal Federal tem dois problemas graves, um por dentro do outro, um estrutural e outro conjuntural. A eles, em breves linhas:

PROBLEMA ESTRUTURAL. O Supremo julga casos demais, quando o que deveria era seguir a regra das Cortes Constitucionais importantes no Primeiro Mundo. Basta ver como julgaram, no ano passado: Estados Unidos, 80 casos; França, 80; Inglaterra, 82; Alemanha, 90; Canadá, para muitos o melhor sistema judiciário do mundo, ainda menos, 44. Com a Supreme Court of Canada se reunindo em janeiro, abril e outubro, para julgar apenas causas revestidas de public importance ‒ segundo Gentili (Protective Rights in a Worldwide Rights Culture).

Enquanto isso no Brasil, segundo a internet (com indicação “dados do STF”), são “aproximadamente 114 mil”. O CNJ deveria fornecer um número exato, afinal sua função é exercer algum tipo de controle sobre essa atividade, mas ninguém tenha esperança nisso. Que, no seu site, apenas se vê “cerca de 110 mil”.

A consequência nefasta desse número pantagruélico de casos é o excesso de decisões monocráticas tomadas pelo Supremo. Simplesmente porque não funcionaria, sem elas. O CNJ não sabe quantas foram. Ou não diz. Algo ruim, nos dois casos. Como se tivéssemos que escolher entre inércia (não se dar a esse trabalho) e prepotência (o considerar que isso não interessa a ninguém).

Por sorte o Ministro Barroso nos salvou ao dizer em discurso recente, numa espécie de Prestação de Contas por sua gestão na presidência da Casa, terem sido no ano passado exatos 92.805 casos.

Grave, aqui, é que decisões monocráticas existem só no Brasil. E em nenhum outro dos 193 Estados Membros da ONU. Vale explicar um ponto. É que nos Estados Unidos e na Grã-bretanha, em situações de extrema gravidade e urgência, quando não esteja reunida a corte, pode o ministro plantonista decidir. Mas essa decisão fica sem aplicação, até que seja convocado o plenário para deliberar sobre o caso. E vale, apenas, se a maioria (usualmente a totalidade) da Corte aprovar.

Ninguém decide sozinho, pois, essa é a regra de ouro para todos os tribunais do planeta (menos em nosso Supremo, talvez por se considerar melhor que os outros). Dado não fazer sentido, numa Democracia moderna, tanto poder concentrado em apenas uma pessoa. Devendo as decisões nesses outros países serem todas, sempre, coletivas. Não de um Ministro, apenas, mas do Tribunal como uma coletividade.

Sem contar que o Supremo, nos tempos atuais, deseja ir ainda mais longe. Faz pouco, por exemplo, enviou ofício a todos os tribunais recomendando que, “nos feitos representativos de controvérsia, ainda que se vislumbre questão meramente infraconstitucional, seja admitido o Recurso Extraordinário”. A fim de permitir o pronunciamento do Supremo sobre a existência, ou não, de matéria constitucional em cada caso. Eventualmente, com Repercussão Geral. O que significa mais casos. E mais decisões monocráticas.

Agora, vamos à outra questão.

PROBLEMA CONJUNTURAL. Tudo começou com Prudente de Moraes e Ruy Barbosa, ao redigir a Constituição de 1891. Preocupados com o fim caótico do Império, e o início também caótico da República, decidiram recriar o Poder Moderador, até então exercido por Pedro II – que, com seu enorme bom senso, garantiu estabilidade ao país naquela quadra histórica conturbada. Esse papel foi por eles atribuído ao Supremo. Que, além de decidir questões da Constituição, também passou a ser instância revisora do Poder Judiciário. Como se dava com Pedro II; quando, por exemplo, comutou todas as condenações com penas de morte depois do caso Mota Coqueijo.

Fosse pouco ainda se auto-outorgou o Supremo, bem além disso, o papel de Poder Legislativo. E de Poder Executivo. Todos sabemos, tantas foram as decisões, nem será preciso dar exemplos. E as últimas, senhores, são estelares.

O ministro Dias Toffoli, por exemplo, decidiu que o caso do Banco Master é dele ‒ a partir de uma filigrana, pouco séria, de que haveria contrato do banqueiro com um Deputado, no meio da papelada, o que garantiria Foro Privilegiado. Quando esse Deputado nem investigado é. Qual contrato?, ninguém sabe. O que diz?, também ninguém sabe. Nem saberá; que paira, sobre o processo, um estranhíssimo “Sigilo Absoluto” decretado pelo ministro. O mesmo que anda era jatinhos particulares do Banco Master, em conversas secretas com Augusto Arruda Botelho, advogado de Daniel Vorcaro, dono do jatinho e do Banco.

Fosse pouco, o ministro Gilmar Mendes não aceita que o povo requeira no Senado o impeachment dele e de seus colegas, como regulado na Constituição (art. 52, II) e na Lei 1.079, de 10/04/1950 (arts. 6º e 7º). E o dito art. 52, quando se use a sua mirabolante interpretação, nos leva a uma impossibilidade absoluta. Que ministros do Supremo, Advogado Geral da União e Procurador Geral da República estão, no tal artigo de nossa Constituição, indissoluvelmente juntos em casos de impeachment. Agora, segundo o ministro, só poderão ser julgados pelo Senado se um deles (o PGR) aceitar denunciar qualquer dos três. Inclusive o próprio. Não é uma interpretação séria, amigo leitor, perdão. Como ensina o Eclesiastes (1.2.), “Tudo é vaidade”.

Fosse pouco, há também outros problemas. Como o espiral de um poder absoluto que passou a habitar o mais íntimo de cada um dos Ministros, convertendo o tribunal em um conglomerado formado por 11 capitanias hereditárias independentes. Que decide o que quiser, como quiser, e sem nenhum limite. Num crescendo. Virou regra. Com todos protegidos pelo corporativismo, onde nenhum Ministro admite questionar decisões dos demais. Garantindo, assim, que suas próprias decisões também não o sejam.

Sem contar que em vez de irem ao Supremo os mais respeitados juristas do país, o que vemos hoje é uma procissão enfadonha de advogados e amigos íntimos do Presidente, integrando aquela Casa sobretudo para lhes emprestar apoio político, em evidente falta de respeito a seu passado.

Só para não esquecer, falta uma notícia de arrepiar. Que a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, informa haver contrato prevendo “pagamento de R$ 129 milhões em 3 anos ao escritório da mulher e dos filhos de Alexandre de Moraes”. E todos no Supremo acham isso natural. Ser ministro é algo bom, financeiramente, para a família (e o próprio ministro, claro). E nem apenas com ele, que muitos dos outros ministros tem também seus próprios escritórios por trás. Perdão, senhores, mas isso, em uma dimensão ética, também não está certo.

COMO FAZER PARA SUPERAR ESSES DOIS PROBLEMAS? Antes de seguir no tema é preciso recusar, veementemente, proposta (que vem sendo apresentada por alguns grupos) de fechar o Supremo, recorrendo à força, o que nenhum espírito democrático pode admitir, pois nada seria pior que a volta da Ditadura. A questão, então, passa a ser a de buscar uma solução adequada, madura, para o Brasil de hoje. E o curioso é que ela existe.

Fazer com que o Supremo seja semelhante a todas as demais Cortes Constitucionais democráticas do mundo. Simples assim. O que nos remete somente a dois pontos que deveriam ser alterados:

PRIMEIRO PONTO. O Supremo passa a ser apenas uma Corte Constitucional. Como todos os demais tribunais similares, nos países democráticos. Julgando menos casos, somente os que interfiram na Constituição. Deixando de ser instância revisora de outros tribunais. E sem admitir mais decisões monocráticas, claro.

Claro que podemos ter problemas. Com o Supremo declarando que as novas regras, definidas pelo Congresso para a Constituição, seriam inconstitucionais. E não valeriam. Não seria caso único, no mundo.

Na Índia, por exemplo, e apesar de a Constituição estabelecer que o presidente deve indicar os ministros da Corte Suprema, foi ela quem decidiu, há mais de 20 anos, que um collegium formado pelo Presidente da Corte e pelos quatro ministros mais antigos é que escolheria seus novos membros. Proposta de um colegiado mais plural chegou a ser aprovada, pelo Parlamento, em 2014. Mas foi derrubada, um ano depois, pelo próprio Supremo. Que a considerou “inconstitucional”. Qualquer semelhança com o Brasil não se deve ter como coincidência. Mas será que nossos ministros iriam ter coragem de nos converter em uma nova Índia?, eis a questão.

SEGUNDO PONTO. A partir de quando for uma Corte assim, última instância das causas infraconstitucionais passa a ser o STJ. Inclusive nos casos de Habeas Corpus. Com enormes vantagens para o funcionamento da Justiça, no país. Diminuindo a duração dos processos e reduzindo uma instância, para início do cumprimento das penas. Reduzindo a impunidade que virou regra, em nosso país. E permitindo que o Supremo passe a se ocupar apenas da Constituição, função típica de uma Corte Constitucional.

O CNJ e o Supremo deveriam zelar para que a Constituição fosse respeitada. Mas, como dizia um antigo presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos. Charles Evans Hugues, Constitution is what the judge say it is (Constituição é aquilo que o juiz diz que é).

CONCLUSÃO. Importante é que mudança como essa, aqui proposta, para funcionar requer apenas alteração da Constituição (via PEC). Vontade política. E pode ser feita sem maiores problemas, ainda quando os poderosos Ministros do Supremo não gostem e tentem trazer para seu curul (aquela poltrona em que sentam) alguns partidos políticos que se acostumaram a lhes usar nas suas demandas. Que contra egos, ou questões menores, o interesse coletivo deve prevalecer. Sempre. Em resumo, pode ser feito. E deve. Por ser o melhor, sem dúvida, para nosso Brasil.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (48) ‒ CHARLAS PORTUGUESAS (Final)

Mais conversas, novamente sobre Portugal e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Homenagem hoje, como já dito, às Charlas (conversas) Portuguesas, romance epistolar de Soror Mariana Vaz Alcoforado e seu amor impossível com o cavaleiro francês Noel Bouton, Marquês de Chamilly, na Guerra da Restauração. Publicado, em 1669, por Lavergne de Guilleragges.

Ministro MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, do STJ. Pastelaria Alcoa, do Chiado. Na mesa do lado, viu brasileiro pedir

‒ Um expresso, por favor.

E os demais, com ele,

‒ Dois.

‒ Três.

Após o que chegou o garçom com seis cafés (1 + 2 + 3 = 6), uma conta para ele matematicamente correta.

* * *

Cardápio do ótimo (segundo ele) restaurante Manjar do Douro (Lamego) tem, na capa,

‒ O melhor tempero é a fome.

Reproduzindo Cervantes (D. Quixote)

‒ La mejor salsa del mundo es el hamble.

Ou mesmo Cícero que, nos seus discursos, repetia o provérbio latino

‒ Optimun condimentun fames, positionis sitis.

MARCO PINA, político. Em campanha, seu lema foi

‒ Marco Pina por ti.

No Brasil não teria graça; mas, sim, na terrinha. Que pina, em português de lá, quer dizer fode. Ficaria, então,

‒ Marco Fode por ti.

Aqui, com esse lema, não ganharia eleição nem para síndico.

MARCOS BORGES, professor. Ao sair do tradicional Hotel do Chiado perguntou, ao motorista,

– Podemos ir à Fundação Calouste Gulbenkian?

– Claro.

Era perto e o táxi logo chegou. Marcos

– Está fechada, o senhor sabia disso?

– Sim, é terça-feira.

– E por que não disse antes?

– Porque o senhor não perguntou.

MARIA LECTÍCIA. Apontando, ao maître Gomes, prato no cardápio do Grémio Literário (Rua Ivens), com bela vista sobre as colinas de Lisboa e do próprio rio Tejo

– Eu gostaria de experimentar esse Bacalhau à Braz.

– Gostaria? E por que não experimenta?

MURO EM FOLGOSINHO (SERRA DA ESTRELA). Joaquim de Barros escreveu Serenata a uma pretensiosa com versos assim

– Nas tuas unhas condiz
Teu modo de ostentação
Por fora sobra verniz
Por dentro falta sabão.

Naquele muro vi o último quarteto desse longo poema

– Nem sempre uma linda cara
Traduz encanto no mundo
Ha mil fontes d’agua clara
Cheias de lôdo no fundo.

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). O professor Aníbal Pinto de Castro, catedrático na Universidade de Coimbra, queria saber se leu um livro qualquer

– Não.

– Pois é, Onésimo. Você se preocupa só com livros de alto gabarito intelectual!

– Ó Aníbal, não diga isso, você sabe que já li toda sua obra!

* * *

Num restaurante da Madeira perguntou ao escritor Baptista-Bastos, jornalista e amigo próximo de Saramago,

‒ Dá-me licença que tire uma foto do casal?

‒ Claro, mas deixe-me pôr um ar inteligente na face.

‒ Não se preocupe, depois retoco a foto.

* * *

No Teatro Sá da Bandeira (Porto), o Primeiro Ato da peça correu muito mal e grande parte do público se foi assim que encerrou. Artur Ribeiro, compositor de Amália (é dele o Nem às paredes confesso) e ator contou, a Onésimo, que começou o Segundo Ato a dizer

– Aqui estou, aqui estou, aqui estou!

Só para ouvir, na plateia, um espectador

– Também eu, mas muito arrependido!

* * *

Na ilha Terceira (Açores), esporte preferido são touradas à corda. Uma grande festa, 250 por ano, em ilha com apenas 70 mil habitantes. Visitando familiares, Onésimo encontrou amigo com perna e braço quebrados e a explicação que recebeu dele foi cômica

– Vi o touro correr para mim; mas, como eu ‘tava c’os copos, vi dois touros. Fui esconder-me atrás de uma árvore. Mas, bêbado como eu ‘tava, vi duas árvores. A minha pouca sorte foi eu esconder-me atrás da árvore falsa e vir contra mim o touro verdadeiro.

* * *

Adriano Moreira lhe disse que era nome de rua em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe – Golfo da Guiné, costa ocidental da África Central, o menor país de língua portuguesa. Muito apropriada, essa homenagem, por ter sido ministro do Ultramar e presidente da Academia Internacional de Cultura. Depois da independência do país foi conferir se ainda estava lá seu nome e viu, na placa,

– Rua Ex-Doutor Adriano Moreira.

O que lembra história que se conta de placa que a Prefeitura de São Paulo teria posto, no local, quando trocou o nome da Marginal do Rio Tietê

‒ Avenida Otaviano Alves de Lima (ex-marginal).

* * *

Em Brown, cardápio do restaurante exibia o prato Sônia Braga Salmon. Perguntou, ao gerente do estabelecimento,

‒ Sônia Braga gostava de cozinhar salmão assim?

‒ Não, professor! Sabe? A gente pensa: Que é que gringo conhece de cozinha brasileira? Nada, né? Então a gente pensa de novo: Quem é que gringo conhece do Brasil?… Todo mundo conhece Sônia Braga, não? Então é isso ai! A gente bota o nome dela num prato… O negócio é assim, entende?

‒ Sim,… Mas então, para equilibrar, deveria também ter outros pratos como Feijoada Pelé…

‒ Professor, mas quem é que quer comer Pelé?

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