JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE MEIO MINUTO (6)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna). Como os amigos leitores parecem ter apreciado as da terrinha, seguem outras.

* * *

DUDA GUENNES, filósofo. No elevador, só uma velha horrorosa. E Duda com cigarro na mão. Apagado. Ela, mostrando placa de Proibido Fumar, protestou:

– Não está vendo que é proibido fumar?

– O cigarro está apagado, minha senhora.

– Para mim, é a mesma coisa.

– Quer dizer que se estiver com um rolo de papel higiênico, na mão, eu estaria a cagar? E, se estivesse com um durex (no Brasil seria camisinha), nós estaríamos a fazer amor?

* * *

FLÁVIO BIERRENBACH, Ministro do STM. No restaurante A Severa, estavam ele e o Ministro José Carlos Dias com suas mulheres. Vendo chouriços com batatas ao murro, na mesa vizinha, pediram ao garçom:

– Queremos aquele prato.

– Lamento, mas não poderá ser, pois aquele já está servido a outros clientes.

* * *

JESSIER QUIRINO, poeta. Anotou propaganda de uma ótica, em Lisboa, com dois homens conversando:

– Vai fazer o que?, amanhã de manhã.

– Vou comprar óculos.

– E de tarde.

– Vou ver.

* * *

JOÃO RAMADA, com antiquário no Alvalade. Em sua terra, Trás-os-Montes, o padre da freguesia começou assim um sermão:

– Caros fiéis. Juro, pela felicidade dos meus filhos, que nunca pequei nessa vida.

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Padre REIS. Na igreja de São Mamede (onde casou, em segunda núpcias, a mãe de Fernando Pessoa), bem pertinho de nosso apartamento, um cartaz dizia: “Até sempre, Sr. Padre Reis. Bem-vindo, Sr. Padre Ismael”. Perguntei a um velho, sentado na entrada,

– Que aconteceu ao Padre Reis?

– Foi-se.

– Morreu?

– Não, senhor, ainda não morri não.

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RENATINHO MAIA, empresário. Hospedado no Lapa Palace (Lisboa), acordou com uma dor de cabeça monumental. Desceu e perguntou, ao porteiro,

– Há farmácias?, aqui perto.

– Sim, senhor, logo após virar a esquina.

Agradeceu, foi e estava fechada. Voltou irritado e interpelou o homem. Para ouvir,

– Mas o senhor queria saber só se havia alguma farmácia. Não perguntou se estava aberta.

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AS GRAVAÇÕES

A Segunda Turma do Supremo, por maioria de 3 votos (Gilmar, Lewandowski, Nunes Marques) a 2 (Carmem Lúcia, Fachin), vai anular a condenação de Lula no caso Triplex. E o deixará, como na sentença de Millôr, “livre como um taxi”. Com fundamento em supostas conversas gravadas, por hackers da The IntercePT Brasil, entre o procurador Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro. Em nosso escritório, tivemos acesso ao Caso Mari Ferrer, em que perícia judicial demonstrou terem sido fraudadas transcrições feitas pela mesma IntercePT. Não tenho como saber se alguma perícia ocorreu, agora. E é sempre possível que mais uma fraude tenha novamente acontecido. O uso do cachimbo faz a boca torta. Sendo bom lembrar que o voto decisivo, nesse julgamento, vai ser do ministro indicado, recentemente, pelo Presidente da República. O mesmo que, quando candidato, tinha um discurso de moralização do país. E que jamais poderia ter levado, ao Supremo, alguém que é contra Prisão em Segunda Instância e contra a própria Lava-jato. Seus eleitores foram traídos, senhor Presidente. Não esqueça disso, por favor, quando se sentir tentado a repetir a promessa em alguma eleição próxima.

Gravações valem como prova, para acusar, quando autorizadas pela Justiça. Assim diz a Lei 9.296/1996. E clandestinas (assim está no texto), como as da IntercePT, só para defesa. Ocorre que desde 1996, com voto condutor do Ministro Carlos Velloso (AP nº 307), o Supremo já definiu que gravação clandestina “é a realizada por um dos interlocutores, sem conhecimento do outro”. Nada sequer remotamente assemelhado a essas gravações. Não havendo, juridicamente, como beneficiar acusados (Lula, empreiteiros) a partir de gravações fora dessa regra. E, bom lembrar, o art. 10, da Lei diz assim: “Constitui crime realizar interceptações… de informática ou telefônica…”. O que ocorreu, claro, e dá cadeia. Só que o senador Renan Calheiros, em 10/2/2021, apresentou projeto para anistiar os hackers da IntercePT. Só o nome do autor do projeto já representa uma condenação, para essa gente. E é até coerente. Os iguais se atraem, imitando um imã.

É como se estivesse em curso uma articulação para anular tudo que foi feito, até aqui. E absolver uma tropa enorme de condenados por corrupção, que vão de políticos famosos a grandes empresários. Tanto que o ministro Gilmar fala, premonitoriamente, em “desdobramentos”. Reproduzindo o que aconteceu, antes (1993), no caso Odebrecht/Lei do Orçamento. Ou (2009) na Operação Castelo de Areia, encerrada por canetada do ministro Asfor Rocha. Depois denunciado, por Antônio Paloci, de ter recebido alta remuneração (não declarada no I. Renda) por esta sentença. Aqueles 3 ministros da Segunda Turma preparam, na verdade, uma tese mais ampla, de que a suspeição de Moro contamina tudo. Sem nenhum receio do que possamos pensar deles. É preciso coragem, digamos assim. Em um Carnaval fora de hora, com todos os condenados longe das grades. Sem tornozeleira. E comemorando, com uísque envelhecido e vinho caro. Que, então se verá, o crime compensa. Mais grave é que a decisão de Moro, como Juiz de Primeira Instância, foi depois confirmada, por 3 x 0, no TRF 4, de Porto Alegre. E também, por 5 x 0, pela 5ª Turma do STJ. Esses julgadores poderiam ter alterado a decisão inicial, caso a considerassem viciada. E não o fizeram. Por ser correta. Sem nenhuma indicação de que 3 Desembargadores Federais, mais 5 Ministros, sejam também suspeitos. Em resumo, para o indeterminado cidadão comum do povo, resta somente a indignação represada por ver, novamente, o triunfo da impunidade. E, longe, o sonho de um país limpo.

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CONVERSAS DE MEIO MINUTO (5)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna).

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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, poeta. Mandei foto de barco batizado com verso do Poema de 7 Faces. E um bilhete.

– O barco vai navegar
“Mais vasto é o meu coração”
Será livre como o mar
Generoso como o pão
Quem quiser me encontrar
Enquanto a estrela brilhar
Até o dia raiar
Nele serei capitão.

Drummond agradeceu:

– Meu verso num barco – haverá maior prêmio para um poeta? É comovidamente que digo obrigado!!!.

* * *

DIVANE CARVALHO, jornalista. Manhã de Domingo, seu aniversário, ligo bem cedo:

– Parabéns, Divane. Desejo que tenha um dia esplendoroso.

– Acho meio difícil, Zé Paulo. Que estou no Necrotério, esperando o corpo de meu marido, para enterrar ainda hoje.

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Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia. Luciana, minha filha menor, diz:

– Arretado!, padre.

– Cuidado com esse palavreado, Lulu. E logo na frente de um pastor.

– Padre Edwaldo, arretado pode?

E ele, depois de pensar um pouco, responde:

– Poder pode, minha filha. Pode até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta-que-o-pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.

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Dona MARIA LIA, minha mãe. Publicou livro (Recordar é Viver), com 92 anos. Uma repórter veio lhe entrevistar.

– Dona Maria Lia, o que é a velhice?

– A velhice, minha filha, é uma merda.

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PAULO FREIRE, educador. Exilado em Washington (1969). No seu apartamento.

– O que há de novo? no Brasil.

Respondi.

– Estão ensinando OSPB nas escolas, mestre. Moral e Cívica, como por lá se diz.

– Então a coisa tá preta. Nada é mais importante, para o futuro, que a formação das crianças. E os militares, pelo visto, já perceberam isso. Tanto que estão fazendo a cabeça delas, desde pequenas. Essa ditadura vai durar muito. Pelo menos 20 anos.

Acertou até nos anos.

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P.S. Feliz ano novo, amigo leitor. E agora é mar. Até depois do Carnaval, se Deus permitir.

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NATAL DE LUVAS

Natal é tempo de contar histórias. Como esta, de Meyer Michael Greenberg. Um homem simples que trabalhou na Revlon (Nova Iorque) até se aposentar, em 1990. Não era rico. Nem tinha prestígio no mundo social da cidade. Mas ficou famoso por algo que fazia, sempre, no inverno congelante da cidade. Ele distribuía luvas de lã. Ao morrer, Greenberg mereceu generoso obituário no New York Times, escrito por Lawrence Van Gelder. E acabou mais famoso que (quase) todos os milionários da Wall Street. Prova de ter razão, Matinas Suzuki (O Livro das Vidas), ao dizer que “é mais negócio ter um bom obituário no NY Times do que ir para o céu”.

Certa vez, ao dar um par de luvas, disse-lhe um velho: – “Não posso aceitar. Nunca ninguém me deu nada. O que você quer de mim?”. Greenberg queria só um aperto de mãos. E insistiu até quando, 15 minutos depois, o homem aceitou. Ainda jovem, foi figurante da Metropolitan Opera. E admirava o primeiro tenor, que brilhava, enquanto ele ficava nos fundos, segurando uma lança. Mais tarde o reconheceu, esmolando na rua. E lhe deu um par de luvas que o antigo parceiro agradeceu, comovido. Sem a menor ideia de que, no passado, estiveram juntos num palco. Ele, como estrela. Greenberg, como ninguém.

Um repórter, certa vez, acompanhou suas andanças. E perguntou se sabia quanto custava cada par. – “Sei. Custa um aperto de mão” – “O senhor é rico?”. – “Sim, claro”. – “E a quanto monta sua fortuna?” – “O senhor não está entendendo. Minha riqueza não está no dinheiro. Mas em trazer alegria para quem precisa”. Greenberg sabia que poderia entregar luvas em abrigos, que as distribuiriam. Mas escolheu fazer isso ele mesmo. E ia procurando, nas ruas, quem mais precisasse. – “Prefiro aqueles que evitam o olhar. Não é tanto a luva, mas dizer para as pessoas que elas importam”. No fim da vida, repetia sempre uma frase que seu pai vivia dizendo, – “Nunca se prive da alegria de doar”.

O amigo Fernando Pessoa um dia escreveu, no Cancioneiro (Natal), “Nasce um Deus. Outros morrem…/ Temos agora outra eternidade,/ E era sempre melhor a que passou”. Que neste Natal brasileiro, em tempos de pandemia, a lição se espalhe. E que, no coração de todos e cada um de nós, esteja presente, sempre, a disposição para doar. De ser solidário. De compreender bem dentro, no coração, o espírito desse tempo. Bom Natal, amigo leitor.

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GALEANO E OS LEITORES

Fernando Menezes defendeu sempre Hugo do Peixa, boêmio famoso e personagem do Recife. Quando perguntavam, indignados, qual a razão?, respondia que era por ser seu “Professor de Maravilhas”. Bela imagem. Assim também tenho Eduardo Galeano. E outros, como ele, que mostram caminhos. Na última coluna, escrevi sobre mais essa estrela que se apaga. E o melhor, para quem escreve, é a reação dos leitores. Que se manifestaram, mais uma vez, com observações interessantes. Entre tantas, seguem umas poucas.

ANTONIO CEZAR PELUSO, ministro do Supremo. Quando uma pessoa como ele se vai, o mundo fica menor. Galeano, um dia, jantou em nossa casa. Sentado no chão.

– Não por falta de cadeiras, espero.

CRISTOVAM BUARQUE, ministro da Educação. Jantar no escritório de Fidel. No meio da conversa, fiz raiva a ele ao dizer que o problema não eram as “veias abertas”, como dizia Galeano, mas os “neurônios tapados”. Se os colonizadores tivessem levado todo ouro, mas deixado o povo educado, o ouro não faria falta. Ele não gostou, pela admiração endeusada dos cubanos pelo Galeano. No outro dia, ainda mandou dizer “que eu exagerava na prioridade à educação”.

– E nem mandou junto um charuto?, que me poderia repassar.

HILDO AZEVEDO, presidente da Academia de Medicina. Quando escrevo, minha primeira ideia também tem que ser a mão no papel. Depois é que passo para computador.

– Prova de bom senso, dinossauro (como eu). E de bom gosto.

IGNEZ BARROS, escritora. Intenso, eclético, entregava-se de corpo e alma à sua escrita apaixonante e combativa. Tinha sede de justiça. Lutava contra o poder opressor, defendendo as causas andinas, ameríndias, os escravos, as mulheres… sem perder de vista a sua poética humanista.

– Vai fazer falta, com certeza.

JORGE GEISEL, escritor. Momo, a deusa da ironia, protetora dos escritores e poetas, era detentora do sarcasmo. E acabou, por isso, expulsa do Olimpo.

– Diga a ela para procurar emprego em algum blogue.

JOSÉ MARIA ARAGÃO, presidente do BNH. Galeano foi um dos colunistas regulares do jornal O Semanário. Publicado regularmente, no Brasil, durante a ditadura militar. E que, curiosamente, fechou logo depois da restauração da democracia.

– Na contramão da história.

LUZILÁ GONÇALVES, escritora. Há meses, uma figura veio me entrevistar. Olhando os livros, perguntou quem era esse Galeano. E na mesma ocasião, vendo na estante Octavio Paz, perguntou se era parente de Ana Paz.

– Recomende a ela (e muita gente mais) voltar à escola.

ONÉSIMO ALMEIDA, professor da Univ. de Brown (USA). Robert Frost, creio, também disse que escrever era a arte de cortar palavras.

– Ele e Onésimo.

Padre PEDRO RUBENS, reitor da Univ. Católica. Fiquei curioso para saber o que Galeano teria escrito em 11 de setembro.

– Nesse dia, escreveu contra o terrorismo. E no seu aniversário (26/8), pastor, sobre Ivan, O Terrível.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal. Prosa saborosa, o amigo nos serve em suas crônicas. Lembrei de você, em especial, porque o Papa declarou esse ano que começa o Ano de São José. Que auspício tão luminoso para os Josés!

– Para todos, José. Fraternalmente. Com os nomes que tivermos – Antônio, Francisco, Luiza, Letícia.

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11 DE DEZEMBRO

Eduardo Galeano se assinava, nos e-mails, HUGALE. Uma espécie de anagrama, só depois entendi, do seu próprio nome – Eduardo-Germán Maria HUGues GALEano. Eric Nepomuceno deu boa definição dele: “Dono de um humor ágil, uma inquietação afiada, de alegria de viver e determinação para enfrentar temporais”. Seu livro mais conhecido é As Veias Abertas da América Latina. Só que, com o passar do tempo, buscou se distanciar dele. Para, talvez, exercitar a arte de escapar de prisões. Mesmo intelectuais. Pessoa disse (Há Quase um Ano Não Escrevo), “tenho saudades de mim”. E é como se Galeano dissesse, agora, “quero ser livre de mim”.

Entre o muito que nos unia, também o fato de que escrevemos sempre com caneta. Em vez de computador. E o amor dele por duas citações memoráveis, que subscrevo. Uma de Juan Rulfo, “escrever é cortar”. Outra de Carlos Amador, “o verdadeiro amigo é aquele que critica na frente e elogia pelas costas”. Obrigado, Eric. De lamentar só que prometia, sempre, vir passar uma temporada conosco, na praia. E nunca veio. Certo dia, recebi seu Los Hijos de los Días (Os Filhos dos Dias). Com dedicatória curiosa: “A José Paulo, meu querido queriente (que se quer), o sempre abraço de Eduardo, desde Montevideo, 2013”. A história desse livro é original. Todo dia, ao acordar, escrevia pequeno texto sobre um amigo específico. Assim, ao fim de um ano, tudo estava pronto. A mim, coube a data de hoje. Daí veio essa lembrança. Segue o texto:

“11 DE DEZEMBRO. O POETA QUE ERA UMA MULTIDÃO. Pelo que se acreditava, Fernando Pessoa, o poeta de Portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas. No final do natal de 2010, o escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti concluiu sua pesquisa de muitos anos sobre alguém que sonhou ser tantos. Cavalcanti descobriu que Pessoa não abrigava cinco, nem seis; levava cento e vinte e sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo. Seus cento e vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros… Alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas Pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa”.

Pouco depois desse último livro, nos deixou (em 13/04/2015), Abraços, amigo, onde estiver. E segue a vida.

Eduardo Hughes Galeano (1940-2015)

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MARADONA E PELÉ

Maradona se foi. Lamentamos. Quando um Deus morre, todos nós também morremos um pouco. Pelé ainda não, graças. Continua brilhando para quem o viu jogando e no imaginário de seu povo. Eterno. Mas não escapou da rádio francesa RFI que, faz pouco, deu notícias de sua partida. A Google da França não distribuiu o texto. Mas deve ter sido só elogios. Que foi o L’Equipe, da imprensa de lá, quem pela primeira vez (em 12/7/1960) o chamou de “Rei Pelé”. Saio dos personagens para uma visão de quem fala deles. Numa seção ainda pouco valorizada, em nossos jornais. A dos obituários. Os primeiros começaram com o Times, de Londres. E foram em seguida modernizados, pelo Independent. A Economist logo incluiu a seção, nas suas páginas. Para dar um pouco de humanidade, à revista. E o de maior sucesso, alí, foi um redigido por Ann Whoe. O obituário de Jesus Cristo.

Nenhum jornal é mais famoso, nesse campo, que o New York Times. Hoje, único que tem pelo menos um leitor em cada um dos 193 países da ONU. Com 7 milhões de assinantes digitais. Mês passado, a receita com esses assinantes, afinal, superou a do jornal em papel. Uma tendência. Bom lembrar que seu faturamento, por ano, é superior a 10 bilhões de reais. Só para dar inveja aos jornais brasileiros. Apesar deste sopro de modernidade as notícias mais lidas, por lá, continuam a ser Obituarys (obituários) e Weddings (casamentos). Bem visto o jornal, qualquer jornal do mundo, é sobretudo provinciano. Pertence à cidade em que nasceu. E A.M. Rosenthal disse a frase definitiva: “Se você tiver que morrer, é melhor morrer no Times”.

Para atingir qualidade superior jornais, usualmente, contratam escritores consagrados para a tarefa. E sugerem aos leitores, como o NY Times, “Se você tiver que morrer, por favor morra antes do meio dia, no mais tardar às 14 horas. Ah, e procure também não morrer aos sábados”. Algumas regras, por lá, ficaram famosas. Jamais usar a palavra Morte. Melhor Foi chamado por Deus. Ou, como está num dos obituários, Partiu dessa vida na sua Harley-Davidson. Outra regra importante é conversar, antes, com personalidades mais velhas. E prometer sigilo. “Porque elas não terão a chance de enviar uma carta à redação para reparar eventuais injustiças”, explicam. Antes que me esqueça, o jornal também não indica hora nem local de velórios e enterros. E suicidas não entram no NY Times.

Engraçado é que muitos obituaristas ficam, secretamente, rezando para que as pessoas resenhadas morram. Por uma razão simples. É que quase todos, freelanceres, só recebem por seus trabalhos quando publicados. Richard Pearson, obituarista do Washington Post, escreveu ele mesmo o texto que desejava fosse publicado em sua morte: “Richard Pearson foi morto por um marido ciumento”. Parecido com o que Millor Fernandes profetizou para ele próprio: “Escritor velhinho assassinado por um surfista louro, que o encontrou na cama com sua namorada”. Ernest Hemingway soube de sua morte pela imprensa. Explica-se. Em janeiro de 1954, um pequeno avião em que estavam, ele e sua mulher, Mary Welsh Hemingway, caiu na selva de Uganda. E, segundo Gay Talese, “Hemingway adorou as matérias sobre sua morte”. Colou todas num caderno e começava o dia com taça de champagne gelada e a leitura de algumas dessas notícias.

Pelé não foi a única personalidade que passou por esse constrangimento. O mesmo se deu com Ali Khamensei (Guia Supremo do Irã), Brigitte Bardot, Clint Eastwood, Jimmy Carter, Raul Castro, Sophia Loren. Também Mark Twain, num caso muito conhecido. Em 1897, um jornalista foi até sua casa e soube que estava prestes a morrer. Publicou seu obituário. Só que não era ele, mas um primo. O próprio Twain comentou esse fato, em seu artigo no The New York Journal de 2/7 deste ano, que começou pela famosa frase “Como os leitores estão vendo, o relato sobre minha morte foi um pouco exagerado”.

Dois obituários ficaram especialmente famosos. Um, de Alfred Nobel, grande fabricante de armas e do balistite, precursor de outros explosivos militares sem fumaça. Como a dinamite. Ao todo, foram 355 inventos. Em 1888, teve seu obituário publicado em um jornal francês. Por engano, que morto era seu irmão Ludug. Título do obituário, “O mercador de morte morreu”. Nobel ficou traumatizado. E, no último testamento que fez, criou Prêmio para redimir seu nome. Morreu, na sua vila de San Remo (Itália), de uma hemorragia cerebral. Em 1896, com apenas 63 anos. Ser milionário não foi suficiente para estender sua vida. Como tantos mais.

Outro de Marcus Mosiah Garvex, um jamaicano que criou a Associação Universal para o Progresso Negro e se autoproclamou Presidente Provisório da África, em 1920. Figura controversa, colaborou com a Ku Klux Klan e foi condenado pelo crime de fraude fiscal. Passou dois anos preso. Em 1940, sofreu dois derrames. O que se diz é que a morte foi causada pela leitura de seu obituário, em um jornal Londrino.

Joseph Mitchell, que escrevia obituário para o New Yorker, acabou famoso por uma frase. Quando leitores o criticavam, por escrever sobre gente sem maior importância, respondeu: “Eles são tão grandes quanto você, seja você quem for”. Tudo a partir de uma verdade translúcida, “A morte é democrática” – palavras de Carlos Nejar em seu último livro (O Evangelho Segundo o Vento). Maradona ocupou enorme espaço na mídia. Merecido. Mas, nem de longe, vai se comparar ao Rei Pelé. Daqui a muitos anos, esperamos todos.

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“A CRUEL PANDEMIA”

Descoberta monumental, para a literatura. A de uma Arca, onde Ray Bradbury (morto em 6/6/2012) guardava inéditos. Inigualável autor de Fahrenheit 451, Crônicas Marcianas e, sobretudo, O Homem Ilustrado (no Brasil, Uma Sombra Passou por Aqui). Destaque, entre esses achados, para o conto The Cruel Pandemy, que vou tentar resumir.

Ano, 2120. Local, Green Town (citado em outras obras suas). Os oráculos se reuniram num templo conhecido como Nova Delfos – por ter, no alto, uma sentença de Tales de Mileto, “A certeza é precursora da ruína”. E chegaram à conclusão de que jamais houve um vírus tão contagiante, e tão mortal, como aquele. Ainda mais forte que o disseminado, pelo planeta, nos anos de 2019/2020. Provavelmente, mutação do “covid” (sarscov2) com o “ebola” (corobola). Para se diferenciar da anterior, acordaram que seria chamada Cruel Pandemia. Para preservar vidas, os oráculos decidiram que no segundo S, do minuto M, e na hora H, do dia D, todos deveriam permanecer em suas PODs (unidades habitacionais mínimas). Até quando alguma vacina fosse descoberta. Naquela Nova Democracia, que agora vigorava, todos os homens eram verdadeiramente iguais.

Ocorre que começaram a surgir problemas não previstos, pelos sábios. Antes de irem para suas moradias, os funcionários das companhias de água e energia tiveram a cautela de desligar as matrizes de força. E deixaram de funcionar elevadores, geladeiras, BI2 (Brain Internet Interface), que substituíram TVs e computadores. Até os housebots (robots domésticos) pararam. No campo, a produção de grãos foi interrompida. Fecharam transportes, supermercados e deliverys. Alimentos começaram a apodrecer. E faltar. Água também. Como os policiais estavam se preservando, longe, PODs eram invadidas. E seus ocupantes, mortos. Famintos vagavam, sem destino, pelas ruas. Cadáveres se amontoavam, nas esquinas, sem ter quem os sepultasse. Quílon, mais velho dos oráculos, antes de morrer de sede, anotou em sua caderneta que o modelo adotado, para proteger os habitantes, era só um belo discurso. E que a Nova Democracia fracassou.

P.S. Claro que a história da Arca é falsa. Mas devemos refletir, com mais calma, sobre essa história. Porque a tese de mandar a classe média se trancar nos apartamentos só funciona se o Brasil real estiver nas ruas, se expondo e assumindo riscos, na luta para sobreviver.

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CONVERSAS DE MEIO MINUTO (4)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna). Esta, em homenagem a nossos irmãos da terrinha e sua muito especial forma de pensar.

* * *

ALBERTO TEIXEIRA, empresário. Em Arouca, num dia de finados, foi rezar no túmulo da família. E comentou, desconsolado, com o sobrinho José Brandão:

– O lugar estar à pinha (cheio). Vim encontrar meus mortos e só vejo vivos dos outros.

* * *

JOÃO REGO, pensador. Na recepção do hotel, querendo saber se iria poder caminhar:

– Amigo, você acha que amanhã vai fazer sol?

– Olhe, senhor, aqui em Lisboa sempre tem sol. Só que, de vez em quando, algumas nuvens ficam entre o sol e a gente.

* * *

Dom JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, Cardeal. Nas Vicentinas. Ele:

– Acredita em Deus?, José Paulo.

– Infelizmente, não. Acredito no Destino.

– O amigo está usando o nome errado. Isso, que você chama Destino, é a Providência Divina. A presença de Deus, na sua vida.

– Então tá certo. E acho até bom.

* * *

MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, Ministro do STJ. Num café do Rossio, a seu lado, três brasileiros fazem os pedidos:

– Por favor, um expresso!.

– Dois!

– Três!

E o garçom, matematicamente (ou por picardia), trouxe para eles seis cafés.

* * *

MARIA LECTÍCIA. Apontando, ao garçom, prato no cardápio do Grêmio Literário:

– Eu gostaria de experimentar esse Bacalhau à Braz.

– Gostaria? E por que não experimenta?

* * *

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, gênio, professor na Universidade de Brown (Estados Unidos). Na recepção do Hotel Fayal (na Horta, Açores), pediu um táxi. A recepcionista, no telefone com a companhia de táxis, perguntou:

– Quer que o táxi venha à recepção?

– Não é preciso. Ele pode ficar lá fora.

* * *

RAUL CUTAIT, médico. Atrasadíssimo para reunião pergunta, na rua:

– O senhor sabe onde fica a Cidade Universitária?

– Sei.

E o cidadão, depois da resposta, simplesmente foi embora.

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LEITORES RE-FINADOS

O melhor, para quem escreve, é a reação do leitor. Como se deu na última coluna, Quase Finado. Seguem alguns comentários:

RELIGIOSOS

Padre Sérgio Absalão, da Igrejinha dos Aflitos (Rosa e Silva), presta homenagens a Deus: “Sua negação leva a uma afirmação, pois ninguém pode negar o que não existe. Parabéns, homem de grande fé”.

Goiano: “Quanto à questão da crença, dou um conselho, não espalhe; para que Ele não fique sabendo”.

João Francisco foi duro: “Se não acreditas em Deus, deves mesmo se preocupar se seu corpo ficará do lado da sombra ou do sol no cemitério, depois de enterrado. É o que lhe resta”. Pois é…

Marco Antonio Zanfra, jornalista: “Deu vontade de começar a planejar meus próprios velório e enterro”. Talvez não seja uma boa ideia, Marco.

Chiquinho de Olém, filósofo: “A morte, é certa! Deus, não existe! E o que somos? Poeira das estrelas”. Prefiro ficar fora dessa briga.

Luzilá Gonçalves, imortal, diz que, no céu, “encontrarás gente boa, como o padre Edvaldo”. E aconselha seguir, sempre, os conselhos de Lecticia, que é “senhora de grande saber”.

Sócrates Times Neto, engenheiro químico: “Havendo inferno, é onde irei parar. Se a saudade for tanta, e será, vou lhe convocar”. Vade retro, doutor. Fique por lá sozinho.

AMANTES DE CHARUTOS E ÓCULOS

José Jardelino, pesquisador: “Vou levar um Trinidad, ao invés do Montecristo”. Boa escolha.

Brito: “Diga a Dona Lecticia que com Paulo Francis foi assim, de óculos na cara, e ficou muito bem apresentado. Diga mais que, sem ele, pode ser que o porteiro (São Pedro) não o reconheça e até vede sua entrada, né não?”. É, sim.

Arael da Costa lembra que “o mesmo aconteceu com o advogado e poeta Celso Octávio de Novais, que também se enterrou com óculos por conta de sua miopia em alto grau”.

Assuero apoia minha tese: “Bem bolado. Isso vai lhe permitir ser identificado por óculos, charuto, paletó e a comenda”. Deus te ouça.

OTIMISTAS

João Bosco Oliveira, da Genomika-Einstein: “Tá otimista demais, amigo. 2050 já quebrava um galho, não?”.

Salmen Giske, construtor, contraditou: “Para João Bosco, gênio da Genomika-Einstein, 2.050 já estaria bem. Para ele, talvez. Para nós, é muito pouco”.

Mauro Ramos, advogado: “Espero que seus últimos desejos demorem a ser atendidos”. Eu também, colega.

Valdecir Pascoal, do TCE: “Ri de morrer, mas só lá pra depois de 2520…”. Já certo de que vou na frente dele, claro.

Ronaldo Ferreira tenta me animar: “Os grandes homens nunca morrem, apenas deixam de conviver com os reles mortais”. Confio não.

Laurentino Gomes (de 1808 e Escravidão): “Queria eu morrer assim, com tanto ânimo, tanta alegria e tanta gana pela vida”.

Marcelo Tas, jornalista: “Que avancem as primaveras, até porque não há plano B. E viva Kamala!”

Giovanni Scandura, publicitário, lembra diálogo de duas irmãs suas: “– Geórgia, eu quero morrer! – Que, nada!, Célia: tu vai aos médicos todos os dias… como posso acreditar?”.

OUTROS

Cristovam Buarque: “Tentei, vou pedir que coloquem no meu (túmulo). Cada um que pense o que eu tentei”.

O Mestre Roberto daMatta, sem atentar que imortais como ele não morrem, diz “Espero ir primeiro”.

Outro imortal, Xico Bizerra, lembra que deveria por também, no caixão, um livro. Mas “de papel. Nada de e-book. E tomara que, no ano 2500, livro de papel ainda haja. No mais, lamentarei não poder ir a seu féretro, pois o meu terá sido em 2499”.

Olbiano Silveira, jornalista, diz não ter gostado muito de ler por estar “Na cama do hospital tentando driblar a Covid”.

O jornalista português Victor Moura-Pinto sugere que o texto foi “suavemente filosófico”. Como se fosse, a morte, algo suave. Ou filosófico.

Aluizio Maranhão, secretário da Redação de O Globo: “Espero que tudo esteja sob controle” Controle, como?, amigo. Quem controla a morte?

O Ministro Flávio Bierrenbach, que pretende levar no caixão “um canivete suíço”, contou que seu pai era Segundo Tenente na Revolução Constitucionalista de 1932. Num fim de tarde, cercado, acabou se escondendo no mausoléu da família (Cemitério da Consolação). Junto com Américo Piva. De noite, naquela escuridão, o amigo decidiu ir para lugar um pouco mais claro: “Prefiro dormir ao lado da Marquesa de Santos, logo ali em frente”.

LITERATOS

Rafael de Menezes, Juiz, lembra o beneditino alemão Anselm Grun: “A falta de humildade (soberba) provoca o medo diante da velhice, da doença, da solidão, quando é certo que a morte chegará para todos; admita o medo, transforme-o em serenidade, aceite a morte e encontre a paz”.

Ignez Barros, erudita, cita Jules Renard na língua dele: “C’est si ennuyeux, le deuil! A chaque moment, il faut se rappeler qu’on est triste”.

Bóris Trindade, criminalista, lembra o poeta português (e amigo querido) Manoel Fonseca: “Isso de estar vivo, um dia acaba mal…”.

Admaldo Matos, mais um imortal: “(Edgar A.) Poe teria inveja”. Também, para quem morreu bêbado, numa sarjeta…

E José Carlos Vasconcelos, editor da Revista Visão (Portugal), aproveita e manda poema, Tempo de Elegia, por ele escrito:

Agora, mãe, é só silêncio.

Ou, como acreditavas,
haverá jardins celestiais
com camélias e magnólias,
anjos, arcanjos e querubins
como gravuras de velhos postais?

Eu, mãe, não acredito.

Não acredito e tenho pena.
É só silêncio. Silêncio de chumbo
sem sequer um grito ou o grasnar dum corvo negro

Ah, se ao menos pudesses escutar
                             a brisa e a música
                             dos versos que escrevo”.