JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

NOVA COMISSÃO DA VERDADE?

Está circulando a ideia de formar nova Comissão Nacional da Verdade. Com algum outro nome, talvez. Antes de prosperar, seria bom ver que precederam a brasileira, no mundo, outras 40 comissões semelhantes. Mais notória sendo a da África do Sul, criada em 1994 por Nelson Mandela e sob direção de Desmond Tutu ‒ um arcebispo da Igreja Anglicana que foi prêmio Nobel da Paz dez anos antes. Com diferenças, entre essas e a nossa.

Principal e determinante é que todas as outras foram formadas entre seis meses e um ano após a transição, de um governo autocrático para a Democracia. Enquanto, a brasileira, nasceu 30 anos depois. E nenhuma dessas 40 comissões foi criada com o fim específico de fazer justiça. De por, na cadeia, os responsáveis por torturas e mortes. A ideia era, basicamente, só preparar as bases para uma transição menos traumática, em cada país, entre os horrores de antes e os novos tempos.

Tanto que a já referida, na África do Sul, tinha só três subcomissões: violação a direitos, reparação e anistia. O que se buscava, sobretudo, era o conhecimento da verdade. Aquilo que aconteceu, de fato, naquele passado triste. Para quem confessasse o que fez, sendo garantida anistia automática. Valendo notar que não houve uma única prisão, no curso ou por conta (depois) de todas essas outras comissões.

No enorme conjunto de temas que uma decisão assim pode levantar, um é seu próprio objeto. Fui vencido, na primeira reunião de nossa Comissão Nacional da Verdade. Porque pretendia que examinássemos os dois lados. Se é para escrever a história, era o que cabia. Ocorre que não haveria tempo útil, nos foi dado menos que dois anos. Para comparar, à Comissão do Livro Negro em Portugal foram concedidos 10 anos. E como a versão dos vencedores era já conhecida entre nós, melhor nesse breve tempo contar só a história dos vencidos, ainda perdida nas sombras. Concordei com isso. Mas se por acaso formos reabrir os trabalhos em uma nova comissão, e com mais tempo disponível, já não há razão para deixar de contar os dois lados.

Em nosso Relatório Final, identificamos 434 casos documentados de como se deram prisões ilegais, torturas e assassinatos. Como, também, os responsáveis por essa barbárie. Além dos mais que 2 mil casos de desaparecimentos forçados, sem mais provas para saber quais pessoas deveriam responder por eles. Mas, se formos contar os dois lados, bom ver que 108 (relação de nomes ainda por confirmar, o número real pode ser menor) mortos pelos opositores ao novo regime.

Em Pernambuco, por exemplo, tivemos várias dessas vítimas. Como um gerente da Souza Cruz (do grupo British American Tobacco), no Largo da Paz, por ser representante do imperialismo. Ou dois mortos atingidos por estilhaços de bomba, no Aeroporto dos Guararapes, em 25 de julho de 1966.

Havendo ainda, nessa tragédia, aqueles que dificilmente se poderiam por em qualquer dos dois lados. Como alguns membros de movimentos revolucionários justiçados por seus próprios companheiros. Dado que por eles considerados fracos, e caso fossem presos, delatariam (e poriam em risco) os demais. Só para lembrar, depois dos julgamentos, todos tinham que participar dessas mortes. Por ser responsáveis pela decisão que tomaram. Entre seus membros articulistas de jornais, participantes de nossos programas de rádio e ocupantes de cargos públicos. A ideia básica será mesmo contar essa história com a exatidão humanamente possível, identificando todos os responsáveis?

Seja como for, se a intenção da nova Comissão for punir os que tiveram culpa, bom considerar que (quase) não há mais ninguém vivo entre os criminosos daquele tempo. Com certeza, nenhum nome importante. Último deles foi o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto por um câncer em 15 de outubro de 2015.

Com relação à anistia ampla e recíproca, que foi concedida aos dois lados naquele tempo (permitindo voltar ao Brasil Arraes, Brizola e outros), é comum dizer que a Lei da Anistia (nº 6.683) foi votada, em 28 de agosto de 1979, por pressão dos militares. Sobretudo para proteção deles próprios. Com certeza foi assim. Ocorre que houve outra Lei da Anistia, posterior no tempo, da qual pouco se fala. Como se não tivesse existido.

Foi a única exigência feita pelos militares, nas negociações da transição. Para beneficiar os responsáveis pelo RioCentro, que se deu na noite de 30 de abril de 1981. Posterior, portanto, à primeira lei (que é de 1979). Tancredo morto, coube a Sarney honrar esse compromisso. O que foi feito com a Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985 (art. 4º, com sete parágrafos). Votada por um Congresso livre de quaisquer pressões. O mesmo que elegeu Tancredo, opositor civil ao Regime Militar. Uma regra não apenas posterior, no tempo, como também de nível superior ao das leis ordinárias, posto que passou a constar da própria Constituição.

Membros de nossa Comissão (a maioria) pretenderam recusar dita anistia. Para constar, na votação das “Recomendações” da Comissão Nacional da Verdade, votei a favor dela. Textualmente, assim ficou registrado: “Baseado nas mesmas razões que, em 29 de abril de 2010, levaram o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, e com fundamento em cláusulas pétreas da Constituição brasileira, a recusar, por larga maioria (sete votos a dois), essa tese”. Em razão do que nenhum dos envolvidos, de parte a parte, poderá mais ser punido. A menos que o Supremo modifique seu entendimento.

No mais, essa nova Comissão terá todas as dificuldades que tivemos. Sem mais testemunhas confiáveis, em razão da idade dos depoentes (apenas uns poucos vivos). E com todos os documentos destruídos, naqueles tempos ainda, pelos militares. O grosso, nos fundos do Aeroporto Santos Dumont (Rio de Janeiro). Haverá pouco a acrescentar.

De vez em quando perguntam se fui atingido. Respondo que não, posto que restei apenas proibido de estudar no Brasil (era presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito). E pedir Democracia, naquele tempo, era muito arriscado. Respondi processo, por isso. Mais tarde, fui também proibido de ensinar. E ainda lembro palavras de meu pai. Quando cheguei em casa, depois da cassação, disse ‒ “Não fique triste que um dia você ainda vai por isso no seu currículo”. Sábias palavras, saudades do Velho. E nem foi tão ruim; que acabei indo a Harvard, em Bolsa de Estudos (com tudo pago), e a vida seguiu.

Bem visto, quase nada em relação ao que se deu com tantas pessoas queridas que perdi. Como Eduardo Collier Filho, maior amigo que tive na infância, preso ao sair de um hotel barato em Copacabana, num sábado de Carnaval (queria ver as escolas de samba), e morto em Rezende. Fui dos últimos a vê-lo, que fiquei em sua casa num congresso da UNE em Salvador. Informados de que seu corpo teria sido incinerado em forno de uma usina, no Rio de Janeiro, tentamos obter alguma prova do fato. Mesmo contra a opinião dos peritos, que diziam ser (quase) impossível. E fizemos, no local, 108 furos, para ver se conseguíamos algum resto de DNA dos seus ossos, em meio às cinzas. Sem sucesso, infelizmente.

Seja como for, e por tudo, sou contra uma nova Comissão. O país é outro. Nossas prioridades, hoje, são outras. Melhor, como dizia Mateus (8:22), que “os mortos enterrem seus mortos”. E, sobretudo, precisamos de paz. Que o país seja pacificado. Algo cada vez mais difícil; por serem aqueles que deveriam responder por isso mais que todos, no Supremo (segundo a OAB ‒ Federal), os que mais promovem a radicalização e o confronto. O que é ruim, para o Brasil. Por isso pois, amigo leitor, reitero aqui uma ideia simples. A de que num país fraturado, como o nosso, nada é mais importante, necessário e urgente que construir a paz entre os brasileiros.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

COM A PALAVRA, OS LEITORES

O melhor, para quem escreve, é merecer resposta dos leitores. Segue uma prova. Na primeira coluna depois das férias (Ainda Bem), contei a história de notícia, no zap, sobre minha morte. E os amigos comentaram. A ver, alguns (entre muitos) deles:

ANTÓNIO DE ABREU FREIRE (Portugal): “Editei, em 2018, um livro intitulado O homem que morreu quatro vezes. Trata-se da vida de um cidadão da minha terra que, sem nunca estudar em nenhum conservatório, se tornou um grande ator de teatro. Teve tremendas aventuras. Os jornais chegaram a anunciar a morte dele por 4 vezes. Morreu velhinho, com 101 anos de idade (em 1979) e ainda lhe sobrou tempo para escrever uma autobiografia. Tenha paciência, caro Doutor, sabe como eu o admiro e prezo a sua amizade; mas, para igualar Thomaz Vieira, ainda lhe falta morrer mais três vezes”. Vou tentar.

ASSUERO: “Em relação aos charutos… vai que o pessoal lá no céu pode entrar com alguma medida protetiva contra o tabagismo…”. Espero que não.

Ministro CRISTÓVAM BUARQUE: “Quero agradecer ao autor da nota que originou a coluna. Imagine se ele não tivesse escrito? Ou imagine se ele tivesse escrito e fosse verdade? Ainda bem que escreveu e que não era verdade. Problema de sua coluna é que os amigos nunca mais vão lhe dar charutos, temendo que você interprete como presente antecipatório”.

Ministro FLÁVIO BIERREMBACH: “Também tenho um trato com a dona Maria Ignês para quando a indesejada chegar. Quero levar para a (Cemitério da) Consolação um belo canivete suíço, daqueles bem gordos, com mil e uma utilidades. Vai que… Aliás, pode até servir para tirar a ponta dos seus charutos. Como se vê, presumo que estaremos próximos”.

GIOVANNI MASTROIANNI: “Ainda bem que foi um de seus homônimos. Felizmente! Você é muito novo para se perder assim, na flor da idade. E discordo de levar com você charutos e isqueiro. De nada servirão. Talvez, apenas o registro de lembranças, como seria uma bandeira do Náutico”. Boa ideia, viva o Timba!!!

GIRLEY BRASILEIRO: “Gostei das exigências mortuárias. Quanto à indumentária fúnebre, no meu caso, pedi à dra. Sônia que por favor não me despache sem sapatos. Não sei porque deixam todos os defuntos descalços! Sei lá por onde vou caminhar lá por cima? Segundo ela, as nuvens são fofas. Mas não quero sem bom pisante”.

HENRIQUE ELLERY: “Indo para o Ceará, o amigo escreveu num guardanapo da TRANSBRASIL e me entregou o epitáfio que desejava para ele próprio ‒ Aqui neste pequeno horto/ Jaz sem nenhum conforto/ Walter Costa Porto”. Saudades dele e do pai, José.

IGNEZ BARROS: “Esse negócio de homônimos dá o que falar. Passei por situação similar. Tenho um irmão que é Procurador do MPPE. Então, numa certa tarde, uma nossa colega, ao saber da notícia de morte da irmã de um homônimo de meu irmão, também do MPPE, pensou que se tratasse de mim. E já estava providenciando a coroa para, junto com os colegas do grupo do zap, prestar-me uma homenagem post mortem.” Seria muito merecida.

JORGE GEISEL: “Não posso reclamar: já andaram me matando, em fofoca sinistra, anos atrás. Meus credores devem ter sofrido o choque das indisponibilidades… Os devedores, imagino que tenham dado graças a Deus. Empataram comigo”.

JOSÉ ALMINO ALENCAR (filho de Miguel Arraes): “Gore Vidal dizia-se ateu e certa vez um entrevistador, depois de confirmar esse status seu de não acreditar em Deus, perguntou: ‒ E, se quando você morrer, ele estiver lá para lhe receber? ‒ Então direi I was wrong”.

JOSÉ BRANDÃO (Portugal): “Folgo em saber que está vivo e de boa saúde, o que muito me alegra. A grande vantagem desta visão do futuro, incontornavelmente certa, é que pelo menos ficou a saber que será recordado com saudade”.

JUCA KFOURI: “Você se assustou quando soube que tinha morrido? Pois Elio Gaspari quer ser enterrado de terno e com uma nota de 100 dólares no bolso, porque se houver céu tem certeza de que a moeda por lá é a de Tio Sam”. Será?

LÚCIA e LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO: “E nem uma faixa de melhor anfitrião de todos os tempos?” Beijos no casal.

LULA ARRAES (também filho de Arraes): “Lembro epitáfio feito por um poeta de Timbaúba: Aqui jaz/ Para seu deleite/ Sebastião Uchoa Leite”.

ONÉSIMO TEOTÔNIO ALMEIDA (Estados Unidos): “A propósito, lembro que recebi foto da campa de um cemitério argentino com esse epitáfio ‒ Senhor, recebe-a com a mesma alegria com que eu te a envio”.

SÓCRATES TIMES NETO: “Sobre céu e inferno, Wilde tinha uma dúvida: preferia o céu pelo clima e o inferno pelas companhias”.

XICO BIZERRA: “Apenas acrescentaria como sugestão que, além dos óculos, do charuto e da caixa de fósforos, dona Lecticia não esqueça de vesti-lo com seus inseparáveis suspensórios, para que não haja dúvidas sobre quem está ali para sempre, descansando à sombra da frondosa mangueira. Se muito não for pedir, que lhe deixem à mão um lápis e um papel”.

* * *

ZIRALDO. Foi um dos grandes amigos que tive, na vida. Para lembrá-lo, com saudades, segue historinha. De quando chegou à casa do pintor João Câmara, em Olinda, num fim da tarde. Mas era sábado e Câmara, pouco antes, havia se empanturrado com bela feijoada. Estava já se ajeitando na rede para dormir até o dia seguinte. Bateu na janela

– João Câmara, João Câmara, é Ziraldo.

E Câmara, com voz de sono,

– Sim?

– É Ziraldo, lá do Rio.

– Sei.

– Artista plástico.

– Sei.

– Se preferir, volto amanhã.

– Então tá.

E foi dormir. Ziraldo, irritado com a grosseria (considerou assim), já ia voltando para o hotel. Mas, passando na Praça do Jacaré, se arrependeu. Pediu ao táxi para dar meia volta, retornou à casa, saltou e bateu na mesma janela

– João Câmara, João Câmara, é de novo Ziraldo.

– Sim?

– João Câmara, voltei aqui só para dizer que seus quadros são uma bosta.

P.S. Pior é que não são, trata-se de um dos grandes pintores do Brasil. A raiva, que para Byron (Don Juan) é “o mais longo dos prazeres”, às vezes cega.

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LEMBRANÇAS DA DITADURA

Passados 60 anos do golpe, e 10 anos do fim de nossos trabalhos na Comissão Nacional da Verdade, anoto, para não passar em branco essa data, umas poucas lembranças:

1. DOIS PERSONAGENS. Depois de conhecer os fatos, mudou a dimensão que tinha de ao menos dois personagens daquele tempo. Um foi o presidente Geisel, que hoje considero apenas um carniceiro. Na Guerrilha do Araguaia, por exemplo, pouco mais de 20 guerrilheiros foram presos sob a promessa de que, depois de prestarem depoimentos, suas vidas seriam garantidas. E acabaram todos mortos. Por ordens superiores. Geisel foi quem deu o nome da operação, “Limpeza”. Limpeza de gente. Daqueles homens e mulheres que ficaram plantados naquelas terras, para sempre.

Outro personagem foi o ministro do SNI, Golbery do Couto e Silva. De quem tenho, hoje, impressão positiva. Era alguém diferente, que compreendia bem como a história se escreve. Criou o SNI, não apenas para fiscalizar os opositores do regime. Sobretudo, para controlar os seus, especialmente capitães e majores que não mais obedeciam aos generais. Veja-se, por exemplo, as explosões das bancas de jornais, tentativa de disseminar o terror. Ou o caso do Riocentro, programado para ser um morticínio. Outro dia conto algumas histórias dele. Como, por exemplo, a de quando evitou que Brizola fosse morto.

2. A CHAGA DA CORRUPÇÃO. É comum se dizer que, naquele tempo, não havia corrupção. Com o exame do que ocorreu, se pode hoje dizer, uma falsa lenda. Sem qualquer dúvida. Pouco depois de 31 de março, já o Brasil conhecia sua primeira Comissão Geral de Investigações – CGI (Decreto 53.897/64, extinta pelo Decreto 54.609/64). Ainda não contra a corrupção. Apenas para demitir servidores públicos que tivessem vitaliciedade ou estabilidade. E que ficaram contra o Golpe, nem seria preciso dizer.

Mas a segunda CGI (Decreto–Lei 359/68, extinta só pelo Decreto 82.961/78) foi criada precisamente para promover o confisco dos bens adquiridos, de maneira ilícita, no exercício da função pública. Por serem tantos casos que era mesmo necessário fazer algo. Definido, o enriquecimento ilícito (art. 6º), como “aquisição de bens, direitos ou valores… sem idoneidade financeira para fazê-lo…; “ou quando não houver comprovação de sua legitimidade”.

Esta segunda CGI tinha poderes (art. 38) para apurar quaisquer atos de corrupção. Sem que se conheçam, hoje, as investigações realizadas. Tudo destruído, essa foi a decisão dos poderosos da época, é pena. Mas foram muitos casos. Até porque, diferente fosse, e nem razão haveria para criar uma CGI assim. Aqui mesmo, em Pernambuco, um marechal, diretor da Caixa, enriqueceu apostando com os empresários da construção Fernando Rodrigues e Lynaldo Uchoa de Medeiros. “Aposto que não sai o financiamento”, e ele “Tá apostado”. O financiamento afinal saia, liberado pelo próprio, e o Marechal enriquecia. Quem viveu aquele tempo se recorda.

A evidência de corrupção ampla, no período, não para por aí. No início de 1969, começava a nascer a Operação Bandeirantes – OBAN. Pensada para ser o braço clandestino dos órgãos de segurança. E responsável por boa parte das torturas e desaparecimentos forçados que se deram, na época. O ato (informal) que celebrou sua criação deu-se em 01/7/69, contando inclusive com a presença de figuras das elites políticas (Abreu Sodré, Paulo Maluf) e empresários de São Paulo.

Tanto foi o sucesso (na versão das forças de segurança) do empreendimento que, em fevereiro de 1970, o major Waldyr Coelho (chefe de Coordenação de Execução da Central de Operações da OBAN) sugeriu, ao Comando do II Exército, a criação de uma OBAN específica contra a corrupção (documento ACE 16.645–70, Arquivo Nacional). Que era grande, claro. Sem sucesso.

Naquele tempo, a ideia de combater a corrupção se limitava a punir os que recebiam grana. Sem atingir empreiteiros ou militares que lhes davam cobertura. Talvez porque todos fossem velhos companheiros da Ditadura. Hoje é diferente. Nossas prisões passaram a ser frequentadas, também, por donos de construtoras e agentes políticos (que substituíram, na periferia do poder, aqueles militares). Pena que só por breve tempo, depois o Supremo decidiu que melhor irem todos para casa. Ou voltar a exercer cargos públicos. Sem esquecer que também estão, hoje, tentando cancelar suas multas. Uma vergonha, perdão por dizer.

Corrupção, pois, havia sim. Muita. No fundo, um desvio da própria natureza humana. Praticada, indistintamente, por homens e mulheres, pretos e brancos, civis e militares. Só que, nos anos de chumbo, não se sabia dos submundos do poder. Por conta da censura. Completa (quase). Enquanto, hoje, há liberdade na informação. Essa é a maior diferença. E ainda bem.

3. A ALMA HUMANA. A terceira lembrança diz respeito a pessoas. E faço isso contando o caso de dona Luiza Gurjão. Na Comissão Nacional da Verdade, encontramos restos de dois corpos. Um deles, pelas anotações que tínhamos, provavelmente seria de Bergson Gurjão, que desapareceu na Guerrilha do Araguaia. Convidamos sua mãe para fazer o teste do DNA. Dona Luiza, quando chegou, disse ter certeza de ser seu filho, era mesmo, e completou

‒ Faz muitos anos, descobriram que eu tinha câncer. Com pouco tempo de vida. Mas, aos médicos, disse que só morreria depois de enterrar meu filho. Para mim, era missão. E essa fé acabou recompensada.

Mais tarde pusemos os poucos ossos que sobraram, depois dos exames, em caixão com areia. Para ficar mais pesado. E mandamos, bem vedado, para dona Luiza. Foi o velório mais festivo que já se viu, nas redondezas, todos contentes por ver a mãe realizando seu sonho de enterrar o filho. No fim do enterro, pediu a palavra.

‒ Esse é o dia mais importante de minha vida. Aqui está Bergson (e apontou para o caixão, na cova). Pertinho dele (indicou um espaço vazio), bem ao lado, ficarei eu. Os dois juntos, pela eternidade. Muito obrigado a todos.

Pouco depois jantou com a família, foi dormir feliz, em paz, e não acordou.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (33) ‒ CEMITÉRIOS

De volta às conversas, hoje só no assunto cemitérios e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

Dona ADELAIDE. Velório da mãe, no Cemitério de Santo Amaro (Recife). Disse, a ela, o de praxe

– Meus pêsames.

Olhou para mim de um jeito diferente, como se estivesse nas nuvens, e perguntou

– Pêsames por quê?, meu filho.

– Sua mãe.

– O que é que ela tem?

Sem acreditar, apontei para a morta

– No caixão.

– O que é que minha mãe está fazendo ali?

– Acho melhor perguntar a ela.

E Maria Lectícia me expulsou do recinto.

ALBERTO TEIXEIRA, empresário. Em Arouca (cidade próxima do Porto, Portugal), num Dia de Finados, foi rezar no túmulo da família. E comentou, desolado, com o sobrinho José Brandão

– O lugar está à pinha (cheio). Vim encontrar meus mortos e vejo só vivos dos outros.

AMERICANO, amigo que vivia de pescar lagostas na ilha de Santo Aleixo. Conto só o triste dia em que se suicidou sem querer. Chegou em casa quase meio-dia, quando mulher e filhos iam já saindo para o culto

‒ Podem ir que vou depois.

Foram suas últimas palavras. De noite, ao voltar, a família encontrou seu corpo junto da panela, na beira de um fogão com o gás aberto. Tentou, mas não conseguiu, acender o fogo com fósforos é algo complicado para quem tem na cabeça cachaça demais. E dormiu ali mesmo, no chão, respirando aquele gás. Para nunca mais acordar. Pobre americano.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista. Chegou sem saber qual o velório certo (havia cinco, alí). Então perguntou, no primeiro,

– Quem é o morto?

E o cidadão, apontando para um caixão,

– É aquele ali dentro.

DIVANE CARVALHO, jornalista. Algumas vezes, a gente se arrepende do que diz. Foi o que ocorreu naquela manhã de domingo, seu aniversário. Liguei bem cedo

– Parabéns, Divane, desejo que tenha um dia esplendoroso.

– Acho meio difícil, Zé Paulo. Que estou aqui, no necrotério, esperando o corpo de meu marido (Luciano Fraticelli) para enterrar ainda hoje.

ELIAS SULTANUM, santeiro. Comprou casa velha junto ao Mercado da Ribeira (Olinda); só para lembrar construído, por volta de 1.560, onde se vendia carne, farinha, peixes e escravos. Já morando nela, começou uma reforma. Só que passou a ouvir uma barulheira que não tinha fim. Na quarta noite sem dormir, foi até o meio da escada e anunciou

– Atenção, senhores fantasmas, acabaram as reformas. A casa fica do jeito que está.

Em seguida, foi para o quarto e dormiu bem. Fim das reformas, fim dos barulhos. E ninguém, até hoje, conseguiu explicar o que aconteceu.

FERNANDO SABINO, escritor. No fim, vítima de um câncer no fígado, se escondia na Rua Canning (Ipanema, Rio). Mas teve o cuidado de, antes de partir, deixar escrito seu epitáfio:

‒ Aqui jaz Fernando Sabino,
que nasceu homem e
morreu menino.

FILINTO ELYSIO (nome arcádico de Francisco Manuel do Nascimento, 1734-1819), poeta. Parte do grupo conhecido como Ribeira das Naus, teve uma vida complicada. Padre, se apaixonou por Maria, filha da marquesa de Alorna e freira de um Convento. Acabou processado pela Inquisição, ainda no Século XVIII. Para um amigo, que acabara de enviuvar, escreveu curioso Epitaphio

– Minha esposa aqui jaz.
Que bem que faz.
Por sua e minha paz.

GERMANO HAIUT, ator. Ao sair do Cemitério dos Judeus, no Barro, me disse

– Taí, se há uma coisa que não entendo é muro de cemitério. Porque os de fora não querem entrar e, quem está dentro, não pode sair.

HENRIQUE DE RESENDE, advogado. No Cemitério de Cataguazes (MG) está esse epitáfio, no seu túmulo, escrito por ele mesmo

‒ Contra sua vontade, bem se entende,
Sempre amando a vida como outrora
Aqui repousa Henrique de Resende
Que preferia repousar lá fora.

NELSON DOS ANJOS, diplomata. Um belo dia, em julho de 2022, recebemos mensagem de sua mulher Clementina

– Nelson estava bem e, de repente, faleceu!!!

Saudades do amigo querido.

OTTO LARA REZENDE, escritor. Eram quatro amigos inseparáveis que formavam grupo inspirado nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, personagens descritos na terceira visão profética do apóstolo João, está no livro bíblico da Revelação ‒ fome, guerra, morte, peste, que acontecerão antes do fim dos tempos. Agora eram os Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse ‒ Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto, o que mais gostava de conversar no grupo. Um dia Sabino entregou, a Otto, seu epitáfio ‒ que depois a família, por implicância, recusou.

‒ Aqui jaz Otto Lara Resende,
Mineiro ilustre, mancebo guapo!
Deixou saudades isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.

VICENTE PHAELANTE, advogado (e parceiro no bridge). Tinha irmã, que o criou, morando no interior. Com esclerose e diabetes avançados. E a coitada, belo dia, preparou bolo de chocolate que degustou com uma Coca-Cola de dois litros. Resultado, morreu em pouco tempo. E ninguém pensou em suicídio. Por não haver bilhete nem comportamento nenhum indicando estar triste. Deve ter sido mesmo a cabeça que voou. Vicente decidiu que seria enterrada no jazigo da família, aqui no Recife, e foi até lá para buscar o corpo. Acertou com uma funerária local que o levasse direto para o cemitério de Santo Amaro, na manhã seguinte bem cedo. Não tinha sentido fazer velório que ninguém a conhecia mesmo, na capital. Falou com o Diário de Pernambuco, para o anúncio fúnebre. E a mulher do jornal

– Qual tipo quer?

– O mais barato.

Explica-se. Com a impressão do jornal feita em placas de chumbo, naquele tempo, seria preciso apenas três. Uma, com o nome da morta. Outra com o de Vicente, que convidava para o enterro. E a terceira, para detalhes. O resto vinha com o palavreado de sempre, já tudo pronto. Era mais barato por isso. Ocorre que dia seguinte, no Diário, apareceu a morta convidando para o enterro dele. Algum problema no telefone. Liguei, assim que li,

– Alô.

– É você?, Zé Paulo.

– Vicente?!!!

– Ele mesmo.

– Você está morto ou vivo?

Explicou e pediu fosse ajudá-lo, na tarefa de receber os amigos que iriam ao cemitério. O caixão estava já sob cuidados do pessoal da funerária, junto do jazigo. Na entrada Vicente, com um caderninho na mão, anotava o nome dos que chegavam, explicava o que ocorreu e dizia

– Vão embora não que tem o enterro da minha irmã.

Em resumo, foi o mais festivo da história do cemitério, com pequena multidão para homenagear uma desconhecida. E, todos, muito animados. Tivesse vendedor de cerveja, no local, e não iria sobrar nada. Em seguida fez lista por ordem alfabética dos presentes, datilografou e pôs na carteira. A partir daí, toda vez que o encontrava, era

– Vicente, morreu… (um nome qualquer), vamos para o enterro?

E ele, bem calmo, abria a carteira, tirava a listinha e conferia. Se o nome não estivesse nela, e até morrer de verdade, dizia sempre o mesmo

– Vou não. Só vou a enterro de quem foi no meu.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CAMÕES, 500 ANOS

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos, quando possível, às vezes em troca de gorjeta. Ou comida.

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda que sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524, agora completando essa data 500 anos. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam.

Para cumprir aquela sentença de perdão embarcou pouco dias depois, em 24 de março, na poderosa armada do capitão-mor Fernão Álvares Cabral. Para Goa (Índia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Em expedição a Ceuta, perdeu o olho direito numa batalha. Em 1558, naufragou na foz do rio Mekong – costa do Sião (hoje, Tailândia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das mãos os primeiros versos de seu Os Lusíadas. Nesse episódio teria morrido uma chinesa, a quem Camões deu o nome poético de Dinamene, e para quem depois escreveria uma série de poemas, entre eles o famoso Soneto 48:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subsiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Foi Provedor dos defuntos nas partes da China, desempenhando suas funções com não muita lisura, é de justiça reconhecer. E, vez por outra, frequentaria prisões. Por dívidas. Ou rixas. Como dizia o próprio Camões, “Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram”. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.

Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as carências financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo graças ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo pão para seu mestre. Importante é que Os Lusíadas avançava. Sob o patrocínio de d. Manuel de Portugal, devotou-se então à sagração de seu país – naquela que é considerada, consensualmente, a mais bela epopéia do século XVI.

A edição princeps – assim se diz das primeiras edições de um livro – foi impressa na tipografia de António Gonçalves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privilégio real de impressão por 10 anos e publicada com um benévolo (e corajoso) parecer censório de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Terá tido também licença da Mesa Inquisitorial – que, todavia, não foi impressa. O aparato paratextual é simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divisão da divina Comédia, de Dante – que assim tem, como cantos, seus 100 livros. Há, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas mãos de colecionadores. Talvez menos que 10 completos.

Até fins do século XIX, se acreditava ter havido duas edições princeps. Um mito devido a Manuel Faria e Souza – que (em 1639), ao comentar Os Lusíadas, confrontou dois volumes daquele mesmo ano de 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferenças. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Camões, ou seu editor, em corrigir pequenas incorreções das impressões anteriores. Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de páginas já impressas, antes, e não utilizadas. Fazendo-se, as correções, nas novas páginas impressas. Uma explicação que só se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impressão daquela época.

Apesar de numerosos indicativos dessa edição princeps na comparação com as demais, e curiosamente, o que a identifica é um pelicano, à primeira página, com o bico virado para a esquerda do leitor. Além do pelicano, também um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que começa por “E entre”; enquanto, nas versões corrigidas, começa por “Entre”. Essas edições de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como “Ee” e “E”.

Camões tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edição autêntica, deixada ao frei Joseph Índio, que o acompanhava num hospital de Lisboa. Esse volume é conhecido como Holland House – por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.

Outra edição famosa, em Portugal, é a segunda ‒ conhecida como dos piscos. Surgida em 1584, dois anos após o fim do prazo do alvará que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira, em Lisboa, e com licença do mesmo frei Bartolomeu Ferreira – responsável pela autorização da edição princeps. O nome jocoso dado à edição vem de uma citação, nos Lusíadas (Canto III, 65), sobre a “piscosa Cizimbra”. Sezimbra é uma vila portuguesa no distrito de Setúbal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edição comentada de Os Lusíadas. Explicando a citação, o comentador, como referência aos pássaros que ali se juntam em passagem para a África, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula).

Camões segue a trilha de outras epopéias do passado. Sobretudo a Eneida, de Virgílio; o que se vê até na comparação dos versos iniciais dos poemas: Canto as armas e o varão, Virgílio; e As armas e os Barões assinalados, Camões. Também a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Bem como a divina Comédia, de Dante. Além de numerosas epopéias surgidas em Portugal, no mesmo século XVI de Os Lusíadas, mas antes dele – como as de André de Resende, Manuel da Costa ou José de Anchieta; e manuscritos que circularam, antes de 1572, como os de António Ferreira e Jerónimo Corte-Real.

Nele temos o passado, com a exaltação das conquistas em que o povo português foi muito além do Mar Tenebroso. O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal – de Safim a Azanos, de Azila a Alcácer Cequer; sem contar a ameaça turca, conjurada só na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571. Mas é sobretudo a antevisão de um futuro grandioso, na linha da Utopia do Quinto Império.

“Para servir-vos, braço às armas feito; Para cantar-vos, mente às Musas dada” (Os Lusíadas, Canto X, 155). Pouco antes, em Desenganos, escreveu “Nascemos para morrer/ Morremos para ter vida/ Em ti morrendo”. Assim foi. Luís Vaz de Camões morreria em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alcácer Quibir – em que desapareceu d. Sebastião, o Desejado, e Portugal passou a ter um rei espanhol. Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jerônimos, onde repousam num túmulo esculpido em mármore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, “Ao menos morro com a pátria”.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

AINDA BEM

Volto a escrever no JBF depois de férias. E já digo qual a notícia que mais me preocupou, durante esse tempo em que andei longe das folhas ‒ a da minha morte.

Foi assim. O ilustre Francisco Queiroz Cavalcanti, ex-presidente do TRF da 5ª Região, me mandou mensagem (transcrevo como foi postada) que recebeu pelo zap: “ZÉ PAULO CAVALCANTI ou ZÉ PAULINHO, como conhecido: Pesar pelo passamento de Zé Paulinho, contemporâneo de trajetória democrática, acima de tudo. Sempre com opiniões firmes, mesmo que eu pudesse dele discordar nos últimos tempos (trata-se de mais um que considera seja, essa corrupção de Petrobrás e agregados, só uma “conspiração inventada por Ministério Público do Brasil e governo dos Estados Unidos”), mas ele argumentava com muita propriedade (se é “com muita propriedade”, por que discorda?). Valorizava o estudo, a cultura. Inesquecível será, pois era e é um expert em Fernando Pessoa. Perde a cultura; vai-se um imortal. Zé Paulinho estava no patamar de quem se cuidou intelectualmente: um leitor, um analista da cena nacional política e cultural. Claro que isso faz uma falta danada. Não era um ser raso. Muito ao contrário. Acompanhava-o pelos seus artigos, nos jornais. Pelos seus debates da CBN, com as suas agudas análises. Um independente no pensar!!! Repito: um independente no pensar!!! Meus duplos respeitos ao ser humano e ao homem da cultura. Condolências aos colegas do MP-PE (como?, se não sou de lá), Allana (mínima ideia de quem seja) e Zé Paulo (quem?) em especial. A.S.F. 20/01/2024”.

O que fazer numa situação dessas?, eis a questão. Mal não estava, pelo contrário, que no momento da ligação jogava tênis. Ainda vivo, claro, e pode lá um morto jogar tênis? Como se responde a uma notícias dessas, caro leitor, que se alastra como fogo subindo morro ou água descendo? Para minha sorte, o amigo Luiz Andrade logo esclareceu o ocorrido em mensagem no zap da APLJ: “Boa tarde, confrade José Paulo Cavalcanti Filho. Faleceu hoje um xará seu, pai de um companheiro homônimo do MPPE e alguém confundiu com sua pessoa. Apressei-me em esclarecer o terrível equívoco”. Ainda bem. Tratava-se de José Paulo Cavalcante Xavier (que Deus o tenha), pai de outro José Paulo, Cavalcante Xavier filho. Reverências ao morto, solidariedade aos familiares e obrigado Luiz Andrade, fico devendo mais essa.

Pior é que nem deu para ficar com raiva, que o autor da nota foi até simpático. E enganos assim podem ocorrer. Seja como for já digo a quem quiser escrever sobre isso, algum dia (lá pelos anos 2070 ou mais, espero), guarde esse papel que, quando chegar minha hora, já estará tudo pronto. Basta só copiar.

Para ficar no tema, lembro quando estávamos um dia no cemitério de Santo Amaro, em frente ao túmulo do governador Agamenon Magalhães ‒ avô de Maria Lectícia, bom lembrar. Creio ser o maior de lá. E está quase vazio, dentro apenas o próprio, dona Antoniêta e mais uns poucos. Então, do nada, ela olhou para mim e disse

‒ José Paulo, quando o primeiro de nós dois morrer EU vou enterrar VOCÊ aqui.

Tudo bem, que com certeza prefiro ir antes. Machado de Assis disse o mesmo a sua mulher, Carolina. Mas uma coisa me preocupou, onde? exatamente. É que no lado direito do túmulo, gravado no mármore a inscrição “História”, de tarde o sol é de rachar. Não há quem aguente. Enquanto no esquerdo, com a inscrição “Virtus”, há sombra de uma pequena mangueira. Então perguntei

‒ De que lado?

‒ Você escolhe.

Preferi o da sombra, claro, as tardes ali vão ser bem mais agradáveis. O que me torna um privilegiado, não é todo mundo que pode escolher o lado do túmulo em que vai ser enterrado. Desde já grato, dona Lectícia.

Aproveito e lembro dois pedidos que lhe fiz, na hora. Primeiro é ser enterrado com charuto e caixa de fósforos junto, pelo sim pelo não… Segundo, e com óculos. Até porque nasci usando. E não tiro para nada, sequer para mergulhar no mar. A ideia nasceu quando, no Morada da Paz, vi a queridíssima Ana Coutinho no caixão com os tais óculos. Dona Lectícia perguntou se não seria mais elegante por no bolso do paletó. Recusei, explicando:

‒ Não acredito em céu, mas vai ver que exista. Também não acredito que mereça ir prá lá, mas quem sabe vá. O risco é chegar e, na entrada, um cidadão vir falar

‒ Tudo bem?, amigo Zé Paulo.

E eu, sem ver nada caso não esteja com os tais óculos,

‒ Perdão, mas quem é Vossa Senhoria?

‒ Não tás me reconhecendo?, rapaz, sou J. Cristo.

Já pensou a vergonha? Embora creio que, generoso como (dizem que) é, haveria de compreender. Seja como for, pelo sim pelo não, e para evitar maiores constrangimentos, insisto nos tais óculos.

Outro problema é que recebi, do Governo, a ordem do Cruzeiro do Sul. Mais importante condecoração do Brasil, tanto que só pode ser entregue pelo Presidente da República. Ligou para mim um diplomata do Itamarati para definir os detalhes da cerimônia. Agradeci e pedi mandassem pelos Correios, já passei da idade em que me encanto com essas honrarias. Ele respondeu “Será a primeira vez, que todos chegam aqui com fotógrafos para por nos jornais de suas cidades”. Insisti. E correu tudo bem. Chegou numa bela caixa de madeira. Enorme, a medalha é quase do tamanho de minha barriga (que já não é pequena). Problema é que ninguém sabe que recebi. O que não é muito bom. Então, desejando que todos tivessem conhecimento, perguntei a dona Lectícia

– Pelo menos vai por no caixão durante meu velório?

‒ Não!

‒ E por que?

‒ Porque é muito brega!!!

Em resumo, serei um dia enterrado sem medalhas. Tudo bem, não vou insistir. Mas, pelo menos, com charutos e de óculos. Assim espero. Por tudo, então, encerro essas primeiras linhas do ano dizendo ser um prazer estar de volta ao JBF. E vivo, graças. Adeus.

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CARDEAL DOM TOLENTINO

Dentro de cada cidade há duas cidades. Uma feita de arquitetura, museus antigos, museus do presente (supermercados), igrejas, praças, rios, mares. Carlos Pena Filho até diz isso (em Olinda) com extrema beleza

Olinda é só para os olhos.
Não se apalpa é só desejo.
Ninguém diz é lá que eu moro.
Diz somente é lá que eu vejo.

Só que, por dentro desta cidade dos cartões postais, há uma outra cidade feita de gente. E o mesmo ocorre com os homens. Que, em cada um, há dois. O primeiro com medalhas, currículos, cargos, o poder; enquanto, dentro dele, habita um homem comum que sofre as injustiças do mundo, chora, sonha, tem esperanças. Trata-se do “homem interior”, a que se refere Dom Tolentino quando cita Sto. Agostinho (em De vera religione).

O cardeal Dom José Tolentino Mendonça foi distinguido como Doutor Honoris Causa ontem, 25 de janeiro, pela Universidade Católica de Pernambuco. Suas numerosas honrarias e seus mais de 50 livros publicados foram apresentados, ao público, na cerimônia. E estão, na internet, à disposição de quem queira saber. Mas, intimamente, quem será ele?, eis a questão. Para responder lembro livro curioso, editado em 2014 pelo Prêmio Nobel de Literatura (em 1971) Pablo Neruda, El libro de las preguntas. Em que primeiro anuncia palavras e, depois, discorre sobre o tema. Nesse caminho, escolhi apenas 20. E vejamos o que Dom Tolentino diz, sobre elas. Para conhecer melhor esse homem enorme que, agora, honra também nossa terra.
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BRINQUEDOS. Numa caixa de brinquedos estão as histórias disparatadas e sábias que contamos pela vida fora, a primeira bicicleta, os livros que nos ofereceram quando ainda não sabíamos ler, o silêncio da intimidade, as conversas à janela voltadas para a noite. Nessa caixa, está a arte de fazer tempo e de perdê-lo, para que se torne mais nosso.

CAMINHOS. Ensina-nos, Senhor, a olhar com humildade e a reconhecer, como um caminho que deve ser percorrido, o áspero acúmulo de ruínas. Esse caminho, que o homem moderno se descobre a percorrer, Eliot alumia-nos com uma esperançosa pergunta: “Quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado? Quando conto, só vejo nós dois; mas quando olho adiante na estrada branca há sempre outro caminhando a teu lado.”

CHORO. Devemos chorar sem permanecer no pranto, a fazer o luto sem enlutar demasiado tempo o coração, a visitar as nossas feridas sem perder a esperança.

COZINHA. Pensar uma casa a partir da cozinha em nada atenta contra a sua natureza sagrada. Há uma compreensão que se abre para aquilo que uma casa significa, como se assim tocássemos o seu segredo.

ETERNIDADE. Este sentimento de eternidade não consiste numa duração contínua, num tempo ininterrupto. Colhe-se no sentimento de que a vida é atravessada por alguma coisa, por uma alegria que emerge pela pura e simples sensação de estarmos vivos.

ÉTICA. A ética e a liberdade não têm a ver com a vontade, nem com as ações que dependem de nós, mas sim com o conhecimento e a possibilidade de conhecer. O ser humano é livre na medida em que conhece. A ética, em síntese, é a capacidade de reconhecer o que nos move uma experiência de abandono ou uma presença amorosa; um vazio que gera carência ou uma plenitude; uma força que expande ou um medo que lhe tolhe.

FÉRIAS. Que aproveitemos o tempo das férias para prolongar o tempo: o tempo das conversas, o tempo dos encontros, o tempo à volta da mesa, o tempo da leitura, o tempo dedicado à alegria, o tempo da contemplação, o tempo do cuidado.

FUTURO. Ensina-nos a divisar futuros onde os olhos só avistam entraves ou escombros e a acreditar que um fogo subsiste debaixo das cinzas.

HISTÓRIA. A história nos parece indiferente ao que possamos fazer. Vale a pena avaliar o tempo, o que fazemos dele e o que ele faz de nós.

MÃE. Falar da mãe é tocar alguma coisa ardentemente intransmissível, mas que permite aceder a um património que todos podemos reconhecer nosso.

MORTE. Na sociedade da imagem a morte torna-se sempre mais invisível e anônima. A única descrição que se consente é do boletim clínico, que diz tudo e não diz nada daquilo que a morte efetivamente é. Conta-se que na Roma antiga, quando os vitoriosos festejavam e eram publicamente festejados por uma conquista significativa, um escravo recebia o encargo de lhes repetir ao ouvido: “Memento Mori!” (uma saudação dos trapistas, algo como lembra-te de que um dia vais morrer).

NATUREZA. O destino do homem não pode ser separado do destino da natureza. Em vez de senhores despóticos, precisamos ser cuidadores sensatos nos estilos de vida, nas escolhas, nas expressões mais domésticas do quotidiano.

PALAVRAS. Minha avó materna era analfabeta e foi ela minha primeira biblioteca (a literatura oral). Ensina-nos, Senhor, a mansidão das palavras. Que saibamos escolher as palavras que lançam pontes, que deixam portas abertas ao que virá depois, que continuam a favorecer a esperança. Quando as palavras buscarem amparo em teu secreto canto, serás ainda o único pastor do meu silêncio.

POBREZA. A pobreza verdadeira é aceitar que, depois de tudo, o pai do filho pródigo não queria saber porque se parte, ou porque se regressa.

RECOMEÇO. Ensina-nos, Senhor, a esperança dos recomeços, mesmo se mais humildes do que idealizámos e mais ásperos, demorados ou fatigantes A paciência necessária aos recomeços. A arte dos recomeços.

REZAR. A oração não é aquele momento em que consigo libertar-me e fugir. É aquele instante em que o espírito se une à minha fraqueza e dá-me forças para abraçar aquilo que é maior do que eu.

SERENIDADE. Queremos, Senhor, entregar-Te tudo. O que nos dá serenidade e o que nos inquieta. O que nos encoraja e o que nos fecha no desalento.

SILÊNCIO. Cada um vive a sua vida única, mas também vivemos a de muitos outros e em nome de muitos outros. O silêncio é a partilha do furtivo lume.

SOLIDÃO. Devemos aprender, Senhor, não a temer, mas a escutar. Ensina-nos não a omitir, mas a abraçar a curva da solidão.

VIDA. A vida é mais do que a tua casa, do que o trabalho, a vida é mais. Fernando Pessoa dizia que nós não medimos a nossa altura, somos da altura daquilo que vemos – e a coisa mais importante na vida é ter uma visão. Não é só viver, é ter percebido o que é a vida. E essa visão só se consegue quando tiramos os olhos dos nossos sapatos e olhamos para a lua.

Sábias palavras ditas por um grande homem, essa visão da vida que só se consegue quando tiramos os olhos dos nossos sapatos e olhamos para a lua. Quando tiramos os olhos do pequeno e buscamos o soberbo. Quando tiramos os olhos do barro trágico e olhamos para o céu estrelado. Quando abandonamos as ilusões perdidas e sonhamos sonhos radiosos.

Para encerrar, lembro que Dom Tolentino tomou posse como Cardeal (em 15/12/2019), no Vaticano. E, dia seguinte, ofereceu almoço aos amigos que lá estiveram. Preparei discurso a partir do fato de que, naquele tempo, o Flamengo era treinado por um português, Jorge de Jesus, endeusado por todos. E esse discurso, que ainda vale em nossos corações, encerrava assim:

‒ No Brasil, hoje, (Jorge de) Jesus é Deus. Os amigos de Dom Tolentino são bem mais modestos. Não querem que ele seja Jesus nem, muito menos, Deus. Para nós, basta que um dia ele seja Papa.

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AS 5 IDADES

1. Tenho teoria formulada com base nas 5 idades. É bem simples.

PRIMEIRA IDADE. Você não conhece ninguém e ninguém lhe conhece. É a de todos nós, no começo de nossas vidas. Nada a lamentar, pois.

SEGUNDA IDADE. Você conhece todo mundo e ninguém ainda lhe conhece. Avançando um pouco mais, no tempo, acontece com todo mundo. Lemos jornais, vemos TV, sabemos quem são os atores na história, mas esses passam por nós e sequer nos cumprimentam. O que é normal.

TERCEIRA IDADE. Você conhece todo mundo e todo mundo lhe conhece. É a da plenitude da vida social. Uma fase boa. Só que passa, esse o problema, infelizmente passa. Pessoa (Caeiro, O guardador …) até escreveu

‒ Que te diz o vento que passa?
Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.

Só para lembrar, inspirado nele, o amigo Manuel Alegre fez a mais famosa canção de protesto, contra Salazar, que Portugal conheceu (Trova do vento que passa). Assim começa

‒ Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

QUARTA IDADE. Todo mundo lhe conhece e você já não sabe quem são os que lhe cumprimentam. É aquela onde estou, hoje. De vez em quando, após um encontro com alguém mais moço, pergunto “Você é filho de quem?” Quando explanei à querida Tânia Bacelar como funciona essa idade, ela definiu lindamente ‒ “É a da tampa do caixão, Zé Paulo”. É mesmo. Tenho pena de nós. Faltando só a última.

QUINTA IDADE. Você não conhece mais ninguém e todos mundo já se esqueceu de você. Só falta essa. O começo do fim. Espero, apenas, que demore (muito) a chegar. E bem a propósito lembro versos de José Bernardino, cantador de São José do Egito (PE)

‒ Já vou sentindo o excesso
Do peso na minha carga
Trilhando um caminho estreito
Vendo tanta estrada larga
Sinto uma sede tão grande
Que a ponta da língua amarga.

2. Isto posto, exponho agora outra teoria pessoal, a das idades comparadas com as estações do ano, Primavera ‒ Verão ‒ Outono ‒ Inverno. Que começou num dia em que estava fazendo aniversário e apareceu, no escritório, o (grande) pintor Zé Cláudio, saudades dele. Entrou na sala, mostrou uma folha seca de Coração-de-Nêgo (nem sei mais se podemos continuar a dizer o nome, politicamente incorreto, desse pé de pau) que apanhou no chão e falou “É seu presente”. Não entendi, que folha seca não é propriamente um presente. E, pior, ele nem me deu, colocou foi em sua bolsa. Uma semana depois chegou belo quadro seu, com aquela folha pintada. Que belo presente!, senhores. Obrigado, amigo. E respondi, na hora, com esses versos que expressam bem as tais 4 idades:

‒ São 4 as folhas que a vida
Esparrama pelo chão
A primeira é esperança
A segunda é amplidão

Mas o destino tonteia
Quando se acaba o verão
Que a terceira é desalento
E a quarta é solidão.

Tudo recomendando, como dizia o amigo Eduardo Galeano, que ““Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”.

3. Por isso, neste novo ano que já vem, desejo aos leitores que vivam plenamente suas boas idades. E que o vento demore a lhe trazer dita quarta folha, do inverno, a da solidão. Valendo lembrar outros versos, agora do mesmo Pessoa (sem título, 1928),

‒ Ó vento vago
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.

Por tudo então, bem no fundo desse lago da existência, bons anos a todos e cada um. E há braços, com o coração.

P.S. Agora, perdão, mas o mar me espera. O “Mar” de Antonio Machado, para quem “não lhe servem âncora, timão, remos e o medo de naufragar”. O “Mar calmo”, de Shakespeare. O “Mar amigo”, de Baudelaire. O “Mar sempre recomeçando”, de Valéry. Os “Mares” de Camões, “nunca dantes navegados”. O “Mar salgado”, cantado por António Correia de Oliveira e Pessoa. O “Mar tenebroso” dos navegadores antigos, de que falava Torga. O mesmo Torga que, entre 12 e 18 anos, viveu no interior de Minas Gerais, como caçador de cobras, mas essa é outra história… O mar azul da Lagoa Azul, aqui em Pernambuco. E tantos outros. Por isso me despeço agora dos leitores com a intenção de voltar a essas páginas só depois do carnaval. Como em todos os outros anos, antes. Se o JBF ainda me quiser, claro. E se Deus permitir, sem dúvida. Até lá, pois. Graças. Adeus. Pensando bem até breve, melhor assim.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA ZÉ CLÁUDIO ! ! !

Dizia Fernando Pessoa (no Desassossego), “Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível, numa cova a que se não pode descer”. O que vem a propósito do amigo querido Zé Cláudio, que agora nos deixou.

E começo por lembrar um belo texto seu, publicado em 2014 (Lugar de Morrer), em que diz: “O lugar de morrer tem importância fundamental para nosso sossego. Felicidade, segundo Sto. Agostinho, só no outro mundo. Morrer, se morre em qualquer lugar, dirão. O que interessa é o lugar de viver, e viver bem. Mas eu direi no entanto que só quem sabe o lugar de morrer, quem já escolheu onde terminar os seus dias, onde ficar até que a morte nos separe, demonstra maturidade para viver”.

Seguindo nessa trilha vale dizer que Zé Cláudio, nascido em Ipojuca, rodou pelo mundo e veio baixar âncora em Olinda. Só que, no coração, nunca saiu de Ipojuca. Ou, talvez, Ipojuca é que nunca saiu dele. E pela vida foi sempre a mesma criança, na venda que era do pai, curioso com o mundo que viu com seus próprios olhos.

Como escrevo mais de uma semana depois de sua perda, e tantos já se manifestaram, prefiro fazer diferente. Lembrando nosso grande poeta Marcelo Mario de Melo (se esquecer o “de”, ao falar seu nome, ele briga comigo), no seu Manifesto de Esquerda Vicejante (tive a honra de escrever o prefácio desse grande livro), em que diz: “Devemos lembrar nossos mortos não pelas chagas de seus martírios, mas por seus jeitos de rir”. E assim farei, agora, lembrando um Zé Cláudio que continua vivo em nossos corações.

OITI CORÓ. Era a única pessoa do planeta que gostava dessa fruta estranha, com gosto de areia. Um dia me deu um pé dizendo que, na sua casa, não frutificava. Pediu que plantasse em Gravatá. Como ouvi dizer que certas plantas só funcionam com um outro pé do lado, para polinizar, comprei mais 5 e fiz pequena floresta. Engraçado é que não se pode tirar o fruto no pé, tem que esperar apodrecer e cair. Assim fiz, sempre. E mandava, para ele, cestas de frutas quase podres. Como agora já não tenho para quem mandar os tais oitis corós, caso alguém aprecie, por favor me forneça endereço que ao menos tenho destino para a produção.

POETA. Vivia recitando, com graça, um poema horroroso, Que fim levou Doroteia? Louvando o órgão reprodutor de certo cortador de cana que morava perto de Ipojuca. Há quem entenda?

‒ Usina, só Catende
Caminhão, 13 de maio
Mais seu Júlio no charuto
Benvenuto no caraio.

YEVGENY YEVTUSHENKO. Chegou para uma visita na sua casa, em Olinda. Conversaram em espanhol, que o romancista russo aprendeu quando viveu na Ilha (1964), redigindo roteiro para filme de propaganda – Soy Cuba. No meio do encontro levantou e, na parede da sala bem limpinha, escreveu com aquele carvão de marcar os quadros

– La felicidad es el sufrimiento que se cansó.

E continuaram na prosa. Depois que saiu, Zé Cláudio repintou a parede com cal branca. Sem mais registros, afora lembranças, daquele dia mágico em que o autor de Autobiografia precoce passou pela casa.

71. ANOS. Quando fez 71 anos respondeu pergunta de um jornalista (O que é fazer 71 anos?) com as duas primeiras frases dessa décima. Sem nem perceber que tinham a métrica das cantorias. Completei os versos no próprio jornal e mandei, para ele,

– “71 é desgraça
A pior coisa do mundo”
Nosso corpo vagabundo
Se arreia em qualquer praça.
Mas Zé Cláudio sua graça
Atente ao que vou dizer
Se alternativa é morrer
Ir para lugar nenhum
Pior que 71
Na verdade é nem fazer.

E ainda bem que nos deixou só 20 anos depois disso.

CAETANO VELOSO. Ligou Caetano e marcaram encontro, na sua casa, às 3 da tarde. Dando-se que, como todo bom baiano, chegou tarde, já escuro, e perguntou

– Zé Cláudio está?

Cícera, que fazia uma sopa, respondeu sem maiores preocupações

– No dentista.

– Posso esperar por ele aí dentro?

– Claro que não.

Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo. Pedindo apenas o acesso, à casa, para uma amiga que precisava fazer suas necessidades.

– Ela que faça aí fora mesmo.

O músico decidiu partir. Só que teve a infeliz ideia de não ficar com aquele taxi no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu

– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?

– Digo sim.

Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta

– A senhora desculpe mas sabe quem sou?

– Sei. É Caetano Veloso. Mas prefiro Tarcísio Meira.

Já eu, diferente de Cícera, e mais que Caetano, Chico, ou Tarcísio, prefiro mesmo é Zé Cláudio. Sem nenhuma dúvida. E, tendo começado com Pessoa, encerro também com ele (igualmente no Desassossego): “A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final”. Foi agora. O fim da frase e de sua bela trajetória. É pena. Saudades. Viva Zé Cláudio.

P.S. Bom Natal, para todos.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ANOTAÇÕES (1)

Vivo para ler e escrever. Mudança importante, nas rotinas que cumpro, aconteceu ano passado com a eleição para a (cadeira 39, que foi do amigo Marco Maciel, na) Academia Brasileira de Letras. Que passei a receber, em média, 3 livros por dia e sempre com dedicatórias generosas. Como que à espera de comentários. Por isso tenho agora que ler ainda mais. Para responder a todos, é o preço. Além dos pedidos de prefácios, até 4 por semana, que desisti de atender. Por ser desumano. Perdão aos que já pediram e aos futuros, que ainda não. Ocorre que, nesse dia-a-dia, faço pequenas observações que gostaria de dividir com os amigos. E o farei, a partir de agora, sempre com esse título. Espero só que o leitor não desaprove por completo.

* * *

Encerrei uma série de colunas sobre Os últimos dias de Fernando Pessoa citando a deusa da poesia portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen. Seu filho, jornalista e romancista (de Equador) Miguel Souza Tavares, me mandou bilhete que vale a pena reproduzir: ‒ Obrigado, amigo Zé Paulo, por se ter lembrado da senhora minha mãe para encerrar essa série magnífica de textos sobre os últimos dias de Pessoa. De facto os poemas dela sobre Pessoa, e esse obstinado fascínio que revelam, sempre foi coisa que a um tempo me deslumbrou e, ao mesmo tempo, me intrigou, visto que nada de semelhante se deu na existência de ambos. Quando ela era uma poetisa da luz e ele da sombra, ela uma eterna viajante e ele um homem assumidamente escondido do mundo. E é quase em desespero que, num poema das Cíclades, ela escreve

Invoco o teu nome
Como se aqui
O negativo que foste de ti próprio/
Se revelasse….

* * *

Ignácio de Loyola Brandão, querido confrade na ABL, também fez comentário que vale a pena ver: ‒ Mas quem disse que Pessoa morreu? Para mim, pelo tanto que produziu de impressionante grandeza, ele subiu aos céus. Tinha feito tudo, de bom e do melhor. Sentiu desfastio, olhou em volta e viu Portugal, a Europa, o mundo de hoje, esta humanidade que de humana nada tem, estes homens deixando de ser sapiens. Percebeu que não gostaria de viver neste futuro (presente para nós) e desencarnou, deixando no ar mais um mistério ‒ entre os muitos que tinha em torno ‒, de que morreu? Para mim, morreu de falência total da humanidade.

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O Governo Federal, na Educação, esquece o mérito e escolhe alunos por sorteio, como no Colégio de Aplicação de Pernambuco. E na mesma hora, para a administração, esquece o sorteio e escolhe seus funcionários pelo mérito. Via concurso público. Lembro Emerson (Ensaios), “a coerência tola é um espantalho de espíritos insignificantes, adorada por filósofos, sacerdotes e pequenos homens de Estado”. É mesmo. Difícil de entender (e aceitar) essa contradição absoluta na ausência de critérios. Coisas de “pequenos homens de Estado”, talvez.

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Em livro muito interessante do mestre Luciano Oliveira, 10 Lições sobre Hannah Arend, vejo que essa autora escolhia títulos provisórios para seus livros, substituídos mais tarde nas publicações definitivas. Como Origem do totalitarismo, que no começo se chamaria Os 3 pilares do inferno. Ou A condição humana, antes Amor mundi (amor do mundo). Comigo também. Ao escrever uma biografia sobre Fernando Pessoa, escolhi título que o ligasse à “loucura rotativa” (assim chamava) da avó Dionísia. E a ele próprio que, por várias vezes, quis se internar em asilos psiquiátricos. A partir de sua definição sobre a loucura, em carta ao amigo Armando Côrtes-Rodrigues (de 19/01/1915): “Viagem entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores. E deus, fim da estrada infinita, à espera do silêncio de sua grandeza”. Por isso escolhi, como título, A Floresta dos Pavores de Fernando Pessoa. Maria Lectícia achou um horror. Preferiu outro. E consultei um monte de amigos por continuar preferindo meu título inicial, o tal da Floresta dos Pavores. Só que o resultado deu unanimidade, contra. Razão pela qual acabou sendo Fernando Pessoa, uma quase autobiografia. Que, aqui para nós, ficou bem razoável. Tanto que acabou mantido nos 12 países em que o livro foi, até agora, traduzido.

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Morreu o amigo queridíssimo Sebastião Dias. Pena. Um gênio. Dele é a música preferida por João Carlos Paes Mendonça e também minha. A simplicidade, em lugar da sofisticação literária dos eruditos, ou dos compositores que tanto sucesso fazem nas elites e nas Universidades. Para quem não conhece aqui vai a letra, imortal, de Conselho de um pai ao filho adulto:

Por favor filho querido me escute pense bem
Seu velho pai quer lhe dar o valor que você tem
Você está na idade de alcançar a liberdade
De fazer sua vontade, tornar-se homem também.

Tem umas coisas meu filho que eu queria lhe dizer
Lhe eduquei como podia já cumpri com meu dever
Você agora decida, o futuro lhe convida
Eu gerei Deus deu-lhe a vida, é você quem vai viver.

Queira espinhos no começo, aguarde flores no fim
Respeite o seu semelhante siga o bom deixe o ruim
Por onde você passar reconheça o seu lugar
Pra ninguém se envergonhar de um filho meu nem de mim.

Defenda a moral sem sangue, ajude a quem precisar
Quando tiver precisão peça um pão pra não roubar
Ouça o velho ame o menor, pense em Deus faça o melhor
Coma e vista do suor que seu rosto derramar.

Não queira ouro roubado nem amor por fantasia
Escolha mulher sincera para sua companhia
Faça meu filho o que eu fiz, veja como sou feliz
Só casei com quem eu quis e sua mãe com quem queria.

O mundo tem dois caminhos, um é certo o outro errado
Na escolha de um deles é preciso ter cuidado
Se você não escolheu um deles pra ser o seu
Se quiser seguir o meu, o exemplo é meu passado.

Mesmo na maior idade quero estar sempre contigo
Lhe ensinando bons caminhos lhe livrando do perigo
Estando perto ou distante não lhe deixo um só instante
Porque de agora em diante além de pai sou amigo.

Corra o mundo faça amigos, conheça o que eu conheci
Transmita o que eu lhe ensinei, conquiste o que eu consegui
Aproveite a juventude, ame a paz, honre a virtude
Quando quiser quem lhe ajude seu velho pai está aqui.

Em louvor ao amigo lembro versos da poeta de Caicó (RN), Constância Uchoa,

Com a vinda do Messias
Dias melhores virão
Mas nunca haverá um Dias
Melhor que Sebastião.