JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DAVI E GOLIAS

A história todos conhecem. Reunidos em Socó de Judá, cada qual em uma colina no vale de Elá, estavam filisteus e, com tropas menores, israelitas. A guerra estava por começar. Foi quando o campeão dos filisteus desafiou Israel para combate individual, com a vitória de um significado qual exército se tornaria servo do outro.

Esse guerreiro era Golias (em hebraico exilado), da cidade de Gate, com cerca de 3,51 metros (6 côvados e 1 palmo) de altura. Usava malha de bronze que pesava 57 quilos (5 mil ciclos), caneleiras de bronze, um grande escudo e lança cuja ponta pesava 6 quilos.

Por estarem com medo, todos os soldados, seu opositor acabou sendo Davi ‒ um jovem pastor ruivo e mirrado, irmão mais novo de Eliabe, Abinadade e Samá. Recusou a armadura que tentava o rei Saul lhe por, dado que com ela quase não podia se mover. Indo, ao combate, armado só com seu cajado e uma funda, a mais primitiva das armas de arremesso da humanidade, que usava no pastoreio contra leões e ursos que ameaçavam suas ovelhas; além de 5 pedras lisas que apanhou num rio próximo e guardou no alforge.

Ao se aproximarem, Davi usou sua atiradora e atingiu Golias de tal modo que a pedra ficou encravada em sua testa. Caindo, esse gigante, com a face na terra. Mas ainda vivo. Por pouco tempo. Que Davi usou então a espada, que tinha na cinta o gigante, cortando sua cabeça. E, com ela, entrou triunfante em Jerusalém. Mais tarde governou Israel por 40 anos, sendo sucedido por seu filho Salomão, mas essa é outra história.

Uso essa quase parábola ao refletir sobre a Copa do Mundo. Porque vimos jogos que lembravam o que aqui se contou. Com seleções que, por dinheiro e tradição, eram gigantes como Golias. Enquanto outros países, pequenos Davis, ali estavam apenas pela honra de defender suas bandeiras, o que os tornou muito especiais.

Para uma ideia das distâncias, o prêmio que Cabo Verde concedeu ao goleiro Vozinha, por sua participação na Copa, foi de apenas 10 mil dólares (dos quais 5 mil logo doados para instituições de caridade).

Só que, diferente da história bíblica, os fortes aqui vencem (quase) invariavelmente. No jogo contra a Argentina, o Egito teve anulado gol pois seu jogador teria pisado, 3 minutos antes, no pé de um argentino. A mesma jogada que já antes havia acontecido, umas 40 vezes, e nem faltas foram marcadas.

Em outro jogo, a Suíça empatava com a Inglaterra. Dominava e todos sentiam iminente o gol da vitória. Até que, em jogada no meio do campo, um jogador suíço se jogou no chão. Longe da área, sem perigo de gol, a bola já saindo pela lateral. E foi expulso. Por simulação. Dá para acreditar? O sistema é forte. Duvido que decisões como essas acontecessem no sentido contrário. Em favor dos Davis, contra os Golias.

Comparando com o Brasil, e para ficar só em um exemplo, nosso Supremo é guardião da Constituição. Deveria ser. Mas vejam o que diz o art. 37, XI: “A remuneração… da administração pública… não poderá exceder o subsídio mensal dos ministros do Supremo”. Pode haver dúvida? Quem quiser enriquecer, vá para a iniciativa privada.

Pois bem. O Supremo acaba de autorizar penduricalhos corporativos em até 35% a mais que esse limite. Mas, se era limite, como pode ser ultrapassado? E a Constituição?, senhores. Que se lixe!, parecem sugerir, com suas decisões monocráticas, nossos bravos ministros. Tornando atual a frase de Valery (Caderno B), “O poder sem abuso não tem charme”. A turma de Golias por aqui se considera virtuosa, invulnerável, eterna e onipotente. Deus, que protegeu Davi, tenha pena dos brasileiros.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (53)

Tristeza, esta semana. Perdemos Wal, amigo queridíssimo, em quem votei nos últimos 30 anos (pelo menos). E a Copa. Shakespeare dizia (Cimbelino) que “algumas dores são passíveis de cura”. Wal, com saudades. A Copa, daqui só há 4 anos, se Deus quiser. Para alegrar o ambiente, nesse entretempo, seguem conversas.

ANÚNCIO DE JORNAL. Na grande cheia do Recife, em 1975, algumas vias (ou trechos delas) ficaram cobertas por dois metros de água ou mais. Como a Avenida Caxangá. Depois o proprietário de casa lá situada fixou cartaz, no portão, que ganhou a primeira página dos jornais locais:

– Vende-se essa merda.

* * *

Por falar em anúncios me mandaram esse, que seria de um jornal impresso:

‒ VENDO IMÓVEL.

Em ótima localização
Te vi passando. Pela primeira vez
E à primeira vista
Fiquei assim, sem reação:
Vendo, imóvel.

Só que em verdade eram, conferi depois, versos de Bruno Félix (na série Poemas classificados).

GORDO, boleiro no tênis. Eram gêmeos, iguais nos rostos mas diferentes nos caminhos. Daniel, crente, quase um santo. Enquanto Samuel, com extensa folha corrida na polícia, estava para ser preso a qualquer momento. Só que morreu Daniel, difícil entender os desígnios do Senhor. Pouco depois falei com seu irmão Samuel, o Gordo,

– Lamento.

– Não foi tão ruim, dr. José Paulo.

– Como?

– É que enterrei ele com meu nome. Quem morreu fui eu. E já avisei, na delegacia, para cancelar os processos de Samuel. Resumindo, agora sou Daniel.

Incrível é que tudo acabou bem. Os processos já prescreveram. Não lhe aconteceu nada. E ele acabou mudando mesmo de vida, passando a ser (um pouquinho) mais parecido com o mano Daniel.

MARIA, empregada de Margarida Cantarelli. Em Londres, fazia todas as compras. Por ser quem cozinhava, na casa, sabia do que precisaria. Ninguém acreditou pudesse conseguir, dado não falar uma palavra de inglês. Mas nunca teve qualquer problema, incrível. Há quilos de histórias, com ela. Vai só uma, da primeira feira que fez. Quando acabou, somou os preços e pagou:

‒ Está tudo aqui.

O vendedor da feira entendeu pelos sinais, contou o dinheiro e confirmou na sua língua

Paid (pago).

Na volta, chegou de cara fechada. Dizendo que foi destratada. Margarida quis saber:

‒ Como é?, Maria.

‒ Pois imagine que o homem, no fim, teve a cara de pau de me mandar peidar.

PORCO, encordoador de raquetes. Trabalha na sala da casa, onde fica seu equipamento. Encontrou Maria Lectícia e confessou

– Dona Letícia, estou vivendo um inferno.

– Que aconteceu?, Porco.

– Silvana tirou 30 dias de férias.

– Para você ver a importância das mulheres, na vida dos maridos.

– A senhora não entendeu, dona Lectícia. Ela está passando férias é dentro de casa.

* * *

Apareceu com uma tatuagem na perna, da família Chaves, aquele mexicano que passa no SBT. Ao ver essa coisa ridícula, não resisti

‒ Agora tatue a frase Eu sou um idiota.

‒ Só se for em grego antigo, doutor. Escrevi num papel

‒ Pronto, pode tatuar. E fique tranquilo que ninguém vai saber o que está escrito.

‒ Mas EU vou saber, doutor.

‒ Não tem problema, Porco, porque VOCÊ é mesmo um idiota.

WHITES ONLY, Washington DC, 1969. Estava indo para encontro com o educador Paulo Freire. Dentro do ônibus, placa dizia que na primeira metade só poderiam ficar brancos; e, no fundo, negros. Em protesto, sentei atrás. Longe dos brancos (até porque, em Harvard, era o mais escuro da classe). Sou trigueiro, assim está no Certificado de Reservista. Um velho negro tocou no meu ombro

– Posso lhe dar um conselho?

– Pois não.

– Vá para a frente, que é seu lugar.

– Perdão, fiz de propósito, sou contra essa discriminação.

– Por favor, vá para a frente.

– Prefiro não ir.

Dois outros (armários, enormes) se levantaram, com cara feia, e insistiram – Volte para seu lugar. Voltei, claro, que doido não sou.

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TODOS JUNTOS, VAMOS…

Fernando Pessoa tinha um corpo anêmico, apesar da ginástica sueca de todos os dias. Uma cor sem sol e o mesmo peito chato de tuberculoso do pai, que morreu um mês depois que o filho fez 5 anos: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto” (Aniversário).

Até escreveu um Tratado de Luta Livre, Método Yvelot, com destaque para “rasteiras” e “pontapés” que lembram nossa capoeira. E não apreciava esporte nenhum. Mas gostava de ver… futebol. Mistérios. Pois é…

Dois alemãs esquisitos até passaram anos pesquisando as razões que levam gente como nosso poeta a gostar do jogo. E chegaram a conclusões curiosas. “Porque cria situações irrepetíveis, e portanto fatais”. “Porque, durante 90 minutos, o indivíduo deixa de ser apenas um, passando a ser parte de algo maior ‒ a massa”.

“Porque é tão simples que põe qualquer um na condição de perito” – sendo o único assunto em que um cirurgião e seu motorista são capazes de discutir, de igual para igual. “Porque é plasticamente belo”. “Porque identifica o homem e o mito”. E mito, não custa lembrar, “é o nada que é tudo”, dizia o mesmo Pessoa (em Ulisses, de Mensagem).

Passa o tempo e chegamos a 3 de junho de 1970. A Copa do Mundo começava. Jogamos 5 partidas em Guadalajara, capital do estado de Jalisco (México), antes de ir à capital do país para a final no Estádio Asteca. Era como um Silicon Valley. E berço de sua Cultura, com murais famosos de Rivera, Orozco e Siqueiros; mariachis, tequilas, sombreros; e uma dança de inspiração árabe conhecida como Jarabe Tepatio, mais conhecida como Dança do Chapéu, a dança nacional do México.

Havia, em Santiago do Chile, dois grupos de brasileiros. Os ilustres, que trabalhavam nas Nações Unidas e outras entidades internacionais; e, esses, assistiam os jogos confortavelmente nas televisões (ainda caras, naquele tempo) de suas casas; e os comuns, todos os outros, que viam a Copa do Mundo em pé, na calçada de uma loja de televisões que ficava exibindo os jogos para quem estava por ali.

Naquele tempo, minha irmã Maria Lia vivia um exílio branco no Chile. Antes do primeiro jogo da Copa, os como ela fizeram assembleia geral na rua. Decidindo os brasileiros que, para o bem da revolução popular, melhor seria que nosso Brasil não ganhasse a Copa. O jogo de estreia foi logo contra a Tchecoslováquia, um país comunista. Todos torceriam por ela. E tudo começou (muito) bem.

Festa enorme no gol de Ladislav Petras. Até que Rivelino fez um, e ouviu-se um tímido grito de goool!, no local. Que é isso?, companheiro. E logo Pelé, Jair e Jair fizeram dois, três, e quatro. Carnaval fora de época, naquele frio andino.

Então fizeram outra assembleia geral, agora de autocrítica, para corrigir esse desvio burguês. Dando-se que acabaram aprovando por a política de lado e cair na farra. A democracia brasileira esperaria um pouquinho mais. Todos juntos, vamos, pra frente… No México, no Chile, no Brasil.

Passa o tempo. Ele passa, irremediavelmente e sempre. Depois da Copa o tal Petras acabou treinador de futebol. Enquanto aqueles exilados seguiram seus caminhos. Veio Pinochet e Maria Lia foi para Paris onde, mais tarde, acabou Diretora da Comunidade Europeia ‒ responsável pela aplicação de recursos comunitários, pelo mundo inteiro, em atividades sociais.

Agora temos uma nova copa. Como todo mundo, estou vendo na CazéTV, longe das televisões tradicionais. Por ser tudo mais leve e divertido. O Japão já foi, arigatou gosaimasu e sunimasen. Domingo será a Noruega. Pra frente Brasil, Brasil…

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DOM LUCIANO

Mais fatos que se deram na transição. De uma ditadura triste para a Democracia que desabrochava.

E começo logo dizendo que padres eram atores importantes, naquele tempo. Para uma ideia, no ministério (da Justiça), pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos.

Procurei dom Lamartine, queridíssimo amigo, nos Manguinhos. Era quem articulava tudo para dom Hélder. Pedi agendasse encontro com Dom Luciano para definir ações comuns entre Igreja e o ministério que iríamos assumir. Dias depois, avisou:

– Tudo certo. Disse quem você era. Está esperando. Mas se prepare que, quando acabar de falar, ele vai pedir para autorizar a entrada, no Brasil, de 81 padres vetados pelo Governo Militar.

Grande Lamartine. Por saber o que ocorreria passei, antes, no SNI. Para conversar com o ministro Ivan de Souza Mendes e acertar como iríamos trabalhar, naquele tempo novo que começava. Perguntou:

– Você tem sugestão?

– Sim. – Qual é?

– Cumprir a lei. – Para mim, está bem.

– Só tem um problema, ministro. É que, por ela, quem define a entrada de estrangeiros, no Brasil, não é o SNI, como vem sendo até agora. Mas o ministério da Justiça.

– Assim seja. Mas você vai precisar de mim.

Figura extraordinária, o ministro Ivan, a Democracia brasileira muito lhe deve. E tinha mesmo razão. Depois, encontramos uma forma de trabalhar juntos, no controle dos estrangeiros, com a colaboração da Interpol. Mas só em relação a crimes, drogas, por aí. Sem mais ideologia, no meio. Certo é que, depois, fui encontrar dom Luciano. Quando acabei de falar, e como preveniu dom Lamartine, voltou-se para uma escrivaninha, tirou de lá papel com 81 nomes e disse:

– Doutor, então comece por trazer meus padres.

Já consequência da conversa no SNI, escrevi nele:

– Ao DPMAF (órgão responsável por essa admissão). Autorizo a entrada, no país, dos religiosos abaixo indicados.

Assinei e fiz menção de pôr no bolso. Dom Luciano deu um bote (a descrição do gesto é fiel), ágil como um gato, pegou o papel da minha mão e perguntou:

– É para valer?

– Claro.

– Perdão, mas vou trocar. Essa lista era da ditadura, depois mando outra.

Semana seguinte recebi, com só 40 nomes, que os restantes estavam já noutros países. Concedemos vistos a todos. Palavra dada, palavra cumprida. Inclusive ao padre belga Joseph Comblin, apesar de enorme oposição do Itamaraty, por razões até hoje para mim pouco claras. O mesmo que, em 2011, morreu na cidade de Simões Filho (Bahia), com 88 anos, em paz.

A partir daí, ficamos cada vez mais próximos. Inclusive com almoços, todas as quartas, comida boa e caseira. Junto Dom Ivo Lorscheiter, com seu corpo de atleta. E sempre tomando Biss. Saudades desse tempo. Saudades do amigo Dom Luciano.

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CENSURA NUNCA, MAS…

O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, determinou sozinho a “suspensão da divulgação de pesquisa eleitoral do Instituto AtlasIntel” realizada em 19/05/26. Decisões monocráticas vem sendo a regra (não são mais tribunais, TSE e Supremo, passando a ser feudos onde cada qual manda como quer). Diferente das anteriores 27 pesquisas, essa foi precedida por um questionário. Qual a razão?, só eles poderão explicar.

Certo é que, antes das perguntas, o dito Instituto afirmava que um dos candidatos tinha “esquema” com o banqueiro Daniel Vorcaro. Perguntava se o eleitor viu vídeo de encontro, entre os dois, após o que lhe apresentava o tal vídeo com legenda nos diálogos. Para, só depois, começar a pesquisa em si. Tudo muito discutível. Estranhíssimo. Deletério. E sem efeitos práticos, na decisão, que todos os meios de comunicação já haviam noticiado a tal pesquisa.

O caso mereceu editorial do jornal O Globo, em 10/06, dizendo que “veto a pesquisa agride o direito à informação”; que a decisão “agrava uma tendência… restritiva à liberdade de informação”; e, por fim, marcando sua posição “não é assim que se protege uma democracia”.

Curioso é que não se trata do primeiro caso. Em 01/11/2024, por exemplo, o ministro Flávio Dino, também numa decisão monocrática, determinou “a retirada de circulação de 4 livros”.

Afrontando nossa Constituição que prevê (art. 5º, IX, §2º) a “livre expressão de atividade intelectual… independentemente de censura ou licença”; e, também (art. 220), “é vedada toda e qualquer censura”. A Constituição não vale nada, para o Supremo de agora. Só que o fato passou em branco, nos editoriais de O Globo.

Assim também se deu com as censuras feitas pelo ministro Alexandre de Moraes, na condução de um inquérito absolutamente ilegal (nº 4.781), secreto, dito do Fim do Mundo, que já vai para 8 anos. Desde tirar do ar o “X” à proibição de funcionamento de sites conduzidos por ativistas que não aprecia. Quantos? Google diz ser um “número estimado em mais que 120”. Creio serem bem mais que isso. Novamente, sem editoriais de O Globo.

Fakes estão por todo lado. O que é (muito) ruim, claro. Para ficar num só caso, escolho o deputado André Janones (Rede, MG), hoje operador digital da campanha do presidente Lula. Que, em conferência recente, disse “Estou me lixando se falarem que é de baixo nível”. E completou dizendo que se sente à vontade para ir “além de todos os limites”. Inclusive éticos, fica subentendido. Essa prática tem que ser enfrentada, punindo com vigor os autores, mas sem recorrer à censura.

É difícil entender como tantos que antes aplaudiam (ou silenciavam sobre) dita censura, a partir de um viés ideológico, agora critiquem a mesma censura por favorecer o outro lado. Como no brocardo romano tantas vezes reproduzido por Molière, ridendo castigat mores (rindo se castigam os costumes).

O fato me incomoda, particularmente, por uma razão íntima. O de ser, decididamente, contra qualquer tipo de censura. A de Dino. As reiteradas de Alexandre de Moraes. E, agora, essa do Nunes Marques. Simples assim.

Os Estados Unidos resolveram faz tempo essa questão com a primeira das 10 primeiras emendas à Constituição Americana (de 17.09.1787), mais conhecidas como Bill of Rights (Declaração de Direitos, de 15.12.1879), Congress shall make no law… Vedando qualquer censura. Punem, depois. Mas punem sempre, essa a diferença. E duramente. Deveríamos copiar. Abaixo a hipocrisia, senhores. E viva a liberdade!!!

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DOM HELDER E O GENERAL

Mais histórias do passado. Já começo lembrando que Dom Hélder chegou, em 12/04/1964, para ser arcebispo de Olinda e Recife. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência, reprodução de experiência no Rio. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria Moraes e Lilia Guaraná, só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrou-se casualmente com Paulo Guerra

– Dr. Paulo, o Arcebispo veria com muitos bons olhos a contratação dessas duas funcionárias, pelo governo, para ficar à disposição do Banco.

Guerra (PSD) foi eleito vice de Miguel Arraes (PST), em 1962, até quando a Redentora prendeu Arraes em Fernando de Noronha. O general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em seu livro de memórias escreveu

‒ Arraes socialmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações… O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele, desde a primeira hora, um inimigo… Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico (a ilha de Fernando de Noronha).

Guerra, governador, desejava muito atender o Dom. Por ver, ali, uma chance de alargar suas relações com as oposições. Mas sabia da dificuldade representada pelo tal Justino, à época todo-poderoso em Pernambuco. Que mandava na própria sombra.

O amigo Carlos Moreira, advogado e poeta, estava batendo ponto no Bar do Valdemar (Recife antigo, toda gente sabe onde é) quando ele entrou para espanto dos presentes. Testemunha do fato foi o jornalista Aldo Camerino Paes Barreto.

Moreira pediu um papel a Aluízio Falcão e deixou registrado:

“‒ Cidadão guarda teu bolso
Comerciante a vitrina
Cachorro esconde o osso
Garçom feche a cantina.

Mas se tens o que perder
E ainda te resta tino
Bota as pernas pra correr:
Que está chegando o Justino!”

Dia seguinte, Guerra o foi procurar.

– Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, general. Mas essa gente eu trato no pau e não vou contratar ninguém.

– Muito bem, governador.

Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não queria nada, virou-se para ele

– Sabe o que estou pensando?, general. Que esse comunista sem-vergonha fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. O que o senhor acha de contratar duas, em vez das 20? Ele não iria poder falar em perseguição, afinal contratamos essas duas. Mas é o senhor quem manda.

– Grande ideia, governador, pode contratar.

No fim da tarde, um magote de meganhas veio reclamar. E o general, nos altos de sua vaidade,

– Fui eu que mandei.

Saudades de um tempo em que política, tão diferente do jogo bruto de hoje, ainda se fazia com engenho e arte.

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A VANGUARDA E O HINO

Mais (duas) histórias do passado que passou. Na transição (1985), entre a ditadura e a Democracia que vinha.

1. Teatro Casa-Grande (Rio), lotado. Ato para celebrar o fim da censura. Naquele dia, liberamos os últimos livros ainda proibidos: Aracelli meu amor, de José Louzeiro; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor do premiado Ainda estou aqui; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, hoje confrade na ABL. Além de um caminhão de músicas de duplo sentido, quase todas feitas para o público do Nordeste brasileiro. Depois de 20 anos de governos autoritários, afinal, o ministério da Justiça se limitava a indicar a faixa etária dos filmes. Sem mais censurar músicas, peças teatrais ou livros.

O público recebeu todos os discursos com palmas. Chegou a vez do ministro Lyra. Foi ele falar no presidente Sarney e se ouvir a primeira vaia. Grande. Injusta, no meu olhar. Por star conduzindo bem sua missão principal – a de operar sem traumas, numa quadra histórica complicada, a transição. Da ditadura para uma Democracia florescente. As manifestações eram ainda reflexo do tempo em que foi presidente da Arena e, depois, do PDS. Lyra começou a defender Sarney:

– Minha gente, vocês não o conhecem. Ele é do Maranhão, verdade, mas tem uma boa visão do mundo. Esteve junto aos militares, também verdade, mas agora está conosco.

E o público indócil. Fernando aumentou a voz:

– Ele foi da Banda de Música da UDN. Sei que a UDN é o atraso. Mas Sarney tem consciência do futuro e está muito à frente disso tudo. É a Vanguarda do Atraso.

O teatro veio abaixo, com aplausos ensurdecedores. A fala era um elogio. Para dizer que Sarney seria um avanço, em relação ao passado. Mas acabou recebida como crítica. E, até o fim do seu governo, virou mantra ‒ A Vanguarda do Atraso.

* * *

2. Na morte de Tancredo, Fafá de Belém cantou nas tvs o Hino Nacional sem nenhum instrumento acompanhando. Com muita emoção. E queria fazer o mesmo num disco. Ocorre que não podia, segundo a gravadora, a partir de interpretação equivocada para a Lei 5.700/71. Dei parecer autorizando. Porque a exigência de “andamento metronômico de uma semínima igual a 120, em tonalidade si bemol” (art. 24) era só para “Sessões Cívicas” (art. 25). E o disco saiu, dedicado a mim, beijos Maria de Fátima.

Fevereiro de 1986, transmissão do cargo de ministro da Justiça. Tomaria posse Paulo Brossard, para Brizola um “Rui Barbosa em compota”. Lyra gostava daquela gravação e deu ordem:

– Na hora da posse, bota o disco de Fafá.

Entrei na conversa:

– Perdão, ministro. Mas seu último ato, no ministério, não pode ser uma ilegalidade, que a transmissão do cargo é uma Sessão Cívica.

– Lá vem você, de novo, botando gosto ruim.

– Desculpe.

– Mas Sarney e Brossard vão ficar putos.

– Será ruim, para você.

Pensou um pouco e disse:

– Deixe comigo.

– Fernando…

– Confie.

Todos em seus lugares, o locutor convocou autoridades para a mesa: presidente da República, ministro que sai, ministro que entra, outros ministros, Procurador Geral da República. Só então anunciou:

– Formada a mesa, e ANTES de se iniciar esta Sessão Cívica, vamos ouvir o Hino Nacional cantado por Fafá de Belém.

Todos de pé. Ouve-se o Hino, em disco, e o povo chorando. Em seguida:

– Começa, AGORA, a Sessão Cívica da transmissão de posse. E Lyra, rindo,

– Viu como é?

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (52) ‒ POLÍTICOS

Mais conversas, hoje só com políticos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Estamos bem perto do fim, volto a dizer. E ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.

DINARTE MARIZ, governador do RN. Em Jucurutu, era promotor da cidade Nelson Queiroz, amigo do ministro do STJ Marcelo Navarro (que contou essa história). Dando-se que Nelson, no palanque, saudava o grande político potiguar:

‒ Dinarte, apesar de sequer ter concluído o curso primário, tornou-se grande empresário, senador da República e governador do Estado. Imaginem o que poderia ser?, caso tivesse estudado.

O velho achou que era demais e interrompeu sua fala dizendo, no microfone

‒ Eu seria promotor em Jucurutu.

ERNESTO SOUSA VILAÇA, comerciante, mais conhecido como Ernesto Babão. Indignado com os vereadores das cidades atendidas por seu posto de gasolina (que não pagavam as contas do combustível usado) e, no meio de uma carraspana, recitou versos que acabaram famosos na região:

‒ Jupi é terra de corno
Calçado de perdição
Já Lajedo é de viado
Canhotinho, de ladrão.

FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. O governador (de SP) Franco Montoro era famoso por trocar o nome daqueles com quem conversava, e sempre o chamava de Flávio Bierrembrahms (que contou essa história). Até que, um dia, não aguentou:

‒ Governador, tem certeza de que meu nome é esse?

‒ Sim. Uma homenagem ao famoso compositor Johann Sebastian Brahms.

JOSÉ MÚCIO MONTEIRO, da Secretaria de Relações Institucionais, ministro do TCU e da Defesa. Candidato (1986) a governador de Pernambuco, em disputa com Miguel Arraes. Na cidade de Petrolina (ele próprio confirmou essa história), depois de comer buchada, precisou desesperadamente ir ao banheiro da casa. Estava ocupado. Um assessor bateu na porta e ouviu, dentro, voz feminina:

– Num tá vendo que tem gente?

– Saia logo que o governador precisa usar o sanitário.

– Dr. Arraia tá aí? – É o governador Zé Múcio.

– Agora é que eu num saio mermo daqui.

JOSÉ SARNEY, Presidente da República. Ao fazer 95 anos, mandou mensagem para o grupo de confrades na Academia (ABL):

‒ O segredo de viver muito é seguir um velho provérbio chinês: comer pouco, dormir muito e não discutir com a mulher.

MÁRIO SOARES, presidente de Portugal. Num jantar lembrei como Voltaire definia sua relação com Deus, “cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”, e perguntei:

– Acredita em Deus?, presidente.

– Não.

– E como conseguiu ser eleito, num país tão conservador?

– É que dei uma explicação bem simples, na televisão, e os eleitores aceitaram. Disse que se Deus é onipotente, e quiser que eu acredite nele, basta estalar os dedos. Como não fez isso, acredito preferir que eu continue sem acreditar.

Dona RUTH CARDOSO, Primeira-Dama. Na Lagoa Azul, se dirigiu a Maria Lectícia:

‒ Belo chapéu, Lectícia.

‒ É seu, dona Ruth. Mas cuidado para que não se diga estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.

TANCREDO NEVES, presidente da República. Perguntaram

‒ Quais as 10 melhores qualidades de um bom político?

‒ De 1 a 7, paciência.

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JK? DE NOVO? (2 de 2)

Seguimos no exame do caso JK que, segundo Comissão nomeada pelo atual governo do Brasil, teria sido assassinado. Eleições são capazes de tudo. Começo dizendo que era domingo e JK voltava, para casa, já quase escuro. As colisões dos veículos ocorreram numa reta próxima de Resende (Rio). Primeiro, entre o Opala de JK e um Ônibus da Viação Cometa (com quem se chocaria, inicialmente), indo na direção SP/Rio; enquanto na outra pista em direção contrária, Rio/SP, vinha um caminhão SCANIA carregado com 30 toneladas de gesso. Foi ele o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, numa segunda colisão.

Era plana, gramada e sem guard-rails, a área de separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes (mais de um quilômetro), em ambos os lados. Certo que, fosse mesmo um atentado, certamente o local escolhido para isso iria ser outro. Provavelmente uma curva, junto a precipício.

E, para quem planeja um atentado, último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. Em velocidade menor que a do Opala. E cheio de passageiros (40), testemunhas oculares da tragédia. O acidente se deu com o Opala de JK invadindo a faixa da esquerda, por onde trafegava o ônibus (há fotos com marcas das tintas, provando essa batida). Talvez um cochilo do motorista. No chão ficaram as marcas dos pneus, prova inequívoca do desvio que teve o veículo da sua rota normal. Basta ver as fotos.

Dito Opala, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, se desgovernou após esse primeiro abalroamento. Ultrapassou o canteiro central e avançou pela pista contrária. Dali, em situação normal, seguiria em frente, em uma área plana e de mato baixo.

Mas o que ocorreu?, eis a questão. Provavelmente deu-se que seu motorista, passado o breve instante de torpor com o abalroamento no ônibus, terá reagido virando à direita. Para impedir que o veículo entrasse naquele mato. Com risco de furar um pneu. E no desejo de retomar sua viagem, normalmente. Passaria à esquerda do caminhão pelo acostamento, assim pensou, e voltaria depois à sua pista. Era o que desejava. Só que por azar, muito azar, chocaram-se, a parte frontal direita de seu Opala, com a parte frontal direita da carreta Scania, que vinha em sentido contrário. Por pouco, muito pouco, não conseguiu. É pena.

Já envenenamentos não produzem efeitos repentinamente. Caso ocorresse, o motorista começaria a passar mal e teria parado. Já a versão de um tiro de precisão, na cabeça do motorista de JK não se sustenta.

Primeiro, porque o crânio de Geraldo Ribeiro, se vê nas fotos da época (apresentadas no Laudo), não tinha qualquer lesão. Segundo porque, caso tivesse o motorista sido atingido por uma bala no crânio, e jamais poderia ter depois alterado conscientemente a trajetória do veículo em que estava. Como fez. Quem tiver maior interesse no caso basta acessar, pela internet, o site da CNV, com a íntegra do Laudo e seus anexos.

A história tem suas tramas. Seus designíos. E seus mistérios. Claro que o Regime Militar ficaria feliz em ver morto JK. Um risco a menos. Mas é como se o destino, esse “Deus sem nome” como queria Fernando Pessoa (carta a Henry More), tivesse agido antes. E, no fim, tudo se resumiu a só um acidente automobilístico. Às vésperas ou não de eleições, essa é a verdade.

P.S. Minha seleção seria o time inteiro do Náutico (ver o último 6 x 2). Acostumado a ser HEXA.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

JK? DE NOVO? (1 de 2)

Vésperas de eleição, no próximo outubro, e era mesmo de esperar. Requente de bolo, em um confronto desnecessário. Ano passado, todos os grandes jornais do país já diziam “O governo Lula decidiu reabrir o caso” (Globo e, em manchetes quase iguais, todos os outros, inclusive o JC).

Nessas matérias se via que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com militantes do PT nomeados pelo governo em Brasília, estava correndo o país a fazer audiências públicas e tentar reabrir o caso, indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.

Para lembrar em 22/4/2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB (Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores, segundo a PF), que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E realizando novos exames.

Acompanhei pessoalmente os trabalhos, no caso, por uma razão de foro íntimo. A de ser padrinho em nosso casamento. E por muito gostar dele. Tanto que sempre nos encontrávamos, quando íamos ao Rio.

Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da FolhaSP informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos. Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas preferiram divulgar alguns minutos antes…

Agora vem a notícia, em toda Grande Mídia, de um “parecer” da historiadora Maria Cecília Adão, relatora, daquela mesma comissão. Para esta senhora, teria sido um atentado político: “o veículo perdeu o controle em razão de uma ação externa, como sabotagem mecânica, disparo de arma de fogo ou até envenenamento do motorista”. A mesma tese de antes. Requentada.

Suspeitas são até naturais, no imaginário coletivo. Posto que morreram em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição à ditadura, no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio.

Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por conta de um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. Numa cama de hospital. Tanto que nem autorizou qualquer investigação. Para esses familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.

Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese. Falta ver o caso JK (o que faremos na próxima coluna).