JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

GUSTAVO E JESSIER

Depois dessa lama do caso Master (com envolvimento de ministros do Supremo), e das eleições, voltamos a nosso dia-a-dia. Com atrasos. E isso faço ao lembrar dois amigos, com notícias faz pouco – uma ruim, outra boa. Amigo é coisa pra se guardar bem dentro. Shakespeare até dizia (Ricardo II), “É numa alma que se lembra dos bons amigos”.

Recordo ainda, nesse começar de texto, bela mensagem de Fernando Pessoa (Soares, no Desassossego) ao amigo Sá Carneiro: “Não reparamos que éramos um só,/ Que cada um de nós era uma ilusão do outro,/ E cada um, dentro de si,/ O mero eco do seu próprio ser”. Aqui, agora, falo desses dois.

1. GUSTAVO SÁ CARNEIRO, médico, especialista em acupuntura, e roqueiro. Estava eu com dor nas costas, por conta de saque mal dado no tênis. Recomendaram que fizesse acupuntura, com o melhor do Brasil. Gustavo, claro. E o procurei. No consultório, a secretária disse que poderíamos entrar na sala. Não o conhecia, então. Mas o lugar estava sem ninguém, chegou pouco depois e foi logo dizendo: – “Estou atrasado porque acabei de vir de Júpiter”. Após o que completou, olhando para mim, – “E o senhor, que me diz?”.

Respondi com uma pergunta – “Isso é metáfora ou descrição física de alguma aventura estelar?”. – “Foi uma viagem interplanetária”. – “Então digo que você é uma lapa de doido, grande”. – “Sou, mas o senhor é o primeiro cliente que teve coragem de me dizer. E sabe por que?” – “Não”. – “Porque o senhor é mais um jupiteriano. Também nasceu lá”.

E ficamos os dois rindo, juntos. Tanto que, nas consultas seguintes, só me chamava de Jupiteriano. Bela pessoa. De bem com a vida. Pena que tenha partido. Para Júpiter, quem sabe?, onde nasceu. Ele e eu, parece. Viva Gustavo!!! Saudades.

2. JESSIER QUIRINO, arquiteto, artista e gênio. Ele ainda é do tempo em que se escrevia cartas. E, aqui, lembro curiosa citação de Pascal (Cartas Provinciais), “Só fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de a fazer mais breve”. Sem contar que Jessier escreve com letra desenhada, bonita, própria de arquitetos. Semana passada recebi, dele, essa que lhe bateu nas mãos e transcrevo a seguir:

“Itabaiana, 15 de agosto de 2026. Meu bom e velho cumpadre Zé Paulo. É sobre avareza, o assunto:

“A estrada de ferro de Crato p’ra Fortaleza parava em Iguatu – CE. O Major José Procópio de Souza (homem de extrema avareza) foi para a capital – Fortaleza, e deixou um seu trabalhador, Antônio Gomes, esperando no terminal ferroviário. Por três dias, findando na sua passagem de retorno ao Crato.

“Nisto, o pobre matuto teve que se virar, p’ra sobreviver em terra estranha. O Coronel, por ser muito sovina e desumano, deixou pouco dinheiro p’ras refeições e outras necessidades do matuto. Este, ao encontrar um amigo que ia até Fortaleza, escreveu carta ao Major, p’ra ser entregue em mãos. Eis a Carta:

“Major Zé Procópio. Eu quero lhe perguntar se EU, Antônio Gomes (o popular Gominho), seu trabalhador, EU SOU SANTO? Porque, se eu sou santo, vosmecê traga um oratóro, p’ra me incolocar dentro, aqui em Iguatu. Porque, quem deixa vinte real, prum pobre trabalhador passar três dia, solto como jumento em sombra de igreja, esse pobre, só sendo santo. Ass. São Gominho de Zé Gome”.

Só mesmo Jessier. Por falar nele, em conversa, lembrei que Aurélio Buarque de Holanda, cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, considerava palavra mais bonita, em nossa língua, ‒ “Libélula”. E perguntei, ‒ Compadre Jessier, e qual a mais feia? Respondeu, na hora, ‒ Fome.

Grande resposta, grande figura, grande personagem, Viva Jessier!!!

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RESTOS DAS ELEIÇÕES

Não há uma data certa, mas se considera que a frase vem do fim da Constituinte. Perguntado sobre o Congresso brasileiro, Ulysses Guimarães (o Senhor Diretas) disse “Está achando ruim? Então espere pelo próximo: será pior. E pior, e pior”. Creio que, vivo hoje, ele não repetiria essa frase. Por ser, o novo Congresso, bem melhor que o atual. A ver:

• Grupo grande formado por presos na Lavajato, “inocentados” pelo Supremo, saíram da cadeia para tentar voltar ao Congresso. E o eleitor não permitiu. Entre esses André Vargas, Delúbio Soares, Eduardo Cunha, José Dirceu…

• Simone Tebet (tenho a gravação) declarou “Lula foi o grande orquestrador do maior escândalo da história da República, que foi o Petrolão”. Mas, apesar de um evidente impedimento ético, aceitou ser sua ministra. Levou vaia grande esta semana quando voltou a sua terra, Mato Grosso do Sul, para passear. E outra vaia, em São Paulo, agora das urnas.

• Marina Silva, com ela deu-se o mesmo. Disse (tenho a gravação) “É corrupção, claro que é corrupção. Lula cometeu crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. É crime de corrupção”. E também aceitou ser sua ministra (como pode?). E também levou grande vaia das urnas, em São Paulo.

• Tiririca largou São Paulo, onde não mais se elegeria, mudou-se para o Ceará e recebeu cacetada histórica por lá. Perdeu a graça, parece. Já Sikêra Júnior saiu de Belém para ser candidato em São Paulo e também levou bomba. O Brasil está mudando.

• Hugo Mota, presidente da Câmara dos Deputados, não elegeu seu pai. Aécio Neves ficou em sétimo, coitado. Os Renans, pai e filho, dançaram; e fazem, hoje, parte do passado. Ciro Nogueira, símbolo máximo do Centrão e íntimo de Vorcaro, perdeu no Piauí. Ele e boa parte do seu grupo, no Brasil todo.

• Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso Nacional, quebrou a cara no Amapá. E volta para a planície. Por falar no Amapá Davi Alcolumbre, capataz do governo Lula no Senado, viu ser eleito um inimigo, Dr. Furlan, que ainda fez a mulher senadora. Está pensando, talvez, em pedir ao amigo Dino para cassar os dois.

• A poderosa Gleisi Hoffmann, presidente do PT até o ano passado e Ministra Chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, dançou no Paraná. Sabendo que perderia para Deltan Dallagnol recomendou ao TSE que o cassasse. Querendo ficar com sua vaga. “Pra que? Pra nada!”, como diria Ascenso (Gaúcho), que acabou em quarto…

• Já Eduardo Paes requereu a nulidade da candidatura Garotinho esperando, com isso, ganhar no primeiro turno. Deu Ruas, que nem aparecia nas pesquisas. E que se arrisca, Ruas e não Paes, a levar no primeiro turno se anulados aqueles votos. Pior para ele é que Garotinho, depois de eleger seu filho Wladimir Deputado Federal, por pirraça já desistiu do recurso.

• Com a nova composição do Senado, parece inevitável que tenhamos votação de impeachments de Ministros do Supremo por lá. A começar pelo todo-poderoso Alexandre de Moraes. Que não deve estar achando isso muito salutar, imagino.

Resumindo, e por tudo, a frase de Ulysses não vale para a eleição deste ano.

P.S. CORREÇÃO. Na última coluna transcrevi informação lida, num jornal português, de que na Dinamarca não podem votar os beneficiários de programas sociais. Como, aqui, se dá com o Bolsa Família (49 milhões de dependentes) e muitos outros similares. Leitores amigos corrigiram, e com razão – Edmar Bacha, George Cabral, Juca Kfouri. Prova de que não se pode, hoje, confiar em todas as informações que circulam. Na verdade, há uma explicação razoável para essa confusão. É que a vedação de voto para quem recebia “ajuda aos pobres” chegou a valer, na Dinamarca, durante mais de 100 anos. Nasceu com a Constituição de 1849 e vigorou até 1961, quando foi extinta. Não vale hoje, pois. Mas se trata de uma bela ideia e deveríamos estudar sua implantação por aqui. Para fortalecer a Democracia.

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ELEIÇÕES

Domingo próximo teremos eleições. Max Weber, talvez o mais proeminente pensador alemão do século XX, define política (Escritos poéticos) como a “Arte de evitar que o convívio humano se transforme em um inferno”. Não será fácil, no Brasil de hoje, considerando a radicalização extrema que invade até amigos íntimos e familiares.

Em livro festejado, La folle du logis, Jean Louis Missika compara os programas eleitorais, na televisão francesa, a um “Muppet Show ao vivo”. Aqui não é muito diferente. Temos sempre a sensação de estarmos assistindo comerciais de Novo Omo ou Biotônico Fontoura, vendendo-se candidatos como se fossem um produto qualquer, de segunda categoria.

Cada vez menos a intenção, e mais a forma; menos a ideia, e mais o close; menos a decência, e mais a ilusão; menos a coerência de uma vida limpa, e mais o branco dos dentes ou os jeitos de rir. Até nome os candidatos estão perdendo, agora se vota em números, numa desideologização que acaba construindo uma democracia de aparências.

Complicado, em um cenário assim, é que destinatários das campanhas políticas invariavelmente são os excluídos econômicos. Nas telas não aparecem mocinhas bem-vestidas, nem edifícios na praia de Boa Viagem, que os depoimentos são sempre de gente carente e quase sem esperança, homens e mulheres simples que habitam os mocambos que sitiam o Recife. A estes se promete o que sabem nunca terão ‒ saúde minimamente decente, escola, emprego, segurança.

Acontece que a ocorrência simultânea de exclusão econômica e inclusão política limitada tem repercussões institucionais graves; dado que a sociedade não é capaz de corresponder às expectativas econômicas das massas, geradas por essa inclusão política efêmera. Produzindo-se um quadro de frustração que rapidamente degrada a legitimidade do poder político, em todos os níveis.

É evidente que falar na televisão, e no rádio, é importante para a democracia; passando, esse Horário de Propaganda Eleitora (dita) Gratuita, a ser um dos poucos momentos em que os candidatos podem apresentar suas ideias. O problema neste caso é que, para funcionar bem, é preciso tenham o que quase nenhum deles tem, que é ideias. E que o eleitor seja verdadeiramente cidadão, capaz de separar o mito que embala a mensagem da realidade perversa por trás dela.

Algumas ideias, circulando nos países democráticos, estão à espera de serem copiadas no Brasil. Por exemplo, na Dinamarca, todos os inscritos nos cadastros sociais não podem votar. Simples assim.

Para uma ideia do que representam, no Brasil, o “Bolsa Família” tem 18.7 milhões inscritos, cerca de 49 milhões de dependentes. “BPC (Benefício de Prestação Continuada)”, 6.4 milhões. “Gás do Povo”, 15 milhões. “Pé de Meia”, 3,89 milhões. “Fies” (3,3), “Prouni” (3.7), um total de 7 milhões. E por aí vai, em programas similares.

Tudo buscando evitar que a opressão da fome leve multidões a pagar, com o voto, essa dependência. O que lembra Gonzaga e Zé Dantas (Vozes da seca), “Mas dotô uma esmola/ A um homem qui é são/ Ou lhe mata de vergonha/ Ou vicia o cidadão”.

Lembro, ainda, poema (A implosão da mentira) em que o amigo Affonso Romano de Sant’Anna retrata essas campanhas eleitorais (trechos): “Mentiram-me. Mentiram-me ontem/ e hoje mentem novamente./ Mentem de corpo e alma, completamente./ E mentem de maneira tão pungente/ que acho que mentem sinceramente./ E de tanto mentir tão brava/mente/ Constroem um país de mentira/ ‒ diária/mente./ Página branca onde escrevo./ Único espaço de verdade que me resta./ Onde transcrevo o arroubo, a esperança, e onde tarde/ ou cedo deposito meu espanto e medo”.

Para findar com mínimos de esperança, lembro Richard Rorty (Filosofia e esperança social), “O melhor que podemos esperar do futuro, com alguma expectativa de que se realize, é que os sonhos sobrevivam”. Pelo menos isso, amigo (e)leitor, vamos rezar para que os sonhos permaneçam no ar.

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DEUS ESTÁ NOS DETALHES

Lisboa. O título é só uma citação de Flaubert (Correspondência), fundador do realismo, “Le bon Dieu est dans le détail”. Poderia também citar o romântico Prosper Mérimée (Mentira), “Toda grande mentira precisa de um detalhe”. Ou mesmo Pessoa (Espírito), direto e duro, “O detalhe é sempre mau”.

Indo até a mitologia grega veremos não haver, para esses “detalhes”, um deus específico. Embora estejam, alguns deles, próximos. Como Atena, dos 12 olímpicos, deusa da Estratégia. Ou Harpócrates, deus do Segredo e do Silêncio. Mas não precisaremos ir tão longe que uso, essa referência, tão só para lembrar um caso banal.

Tudo começou quando Mike Tyson estava sendo acusado de ter estuprado, em 19/07/91, uma estudante de 18 anos, Desiree Washington, no Canterbury Hotel (Indianópolis). A defesa do lutador sustentou ter sido uma “relação consensual”. Sob o fundamento de que mulher alguma se dirige ao quarto de um homem, alta madrugada, senão com o fim de seduzi-lo.

Enquanto os advogados da jovem se limitaram a exibir o pijama que usava naquela noite. Longo, fechado e com desenhos de Pluto ‒ aquele cão alesado, amigo do Pato Donald. O argumento era de que lá foi apenas para conhecer o lutador de box. Sem nenhuma outra intenção. Tanto que não usava “roupas sedutoras”, como baby-dolls. Resultado, Mike Tyson acabou condenado a 6 anos na prisão.

Agora esqueçamos escritores, deuses e esse episódio sexual para examinar o caso do Banco Master. Porque o ministro Alexandre de Moraes está sendo acusado de ter firmado em 16/01/24, com o banqueiro Daniel Vorcaro, contrato de quase 130 milhões. Afora mimos de várias naturezas como viagens internacionais; farras com whisky Macallan (segundo Google, vinte e oito mil a garrafa); sem contar cartões de crédito com limites mensais de 300 mil, para cada filho.

Sua defesa é que contratado não foi ele, mas o escritório de mulher e filhos. Não é fácil de acreditar. Porque, com esse valor astronômico, poderia o banqueiro contratar bancas bem mais experientes e com advogados já consagrados. Em vez de recorrer a senhora, pós-graduada em marketing e sem maiores qualificações jurídicas, além de jovens que se iniciavam no ramo. Sem contar que o contrato foi revisado pelo próprio ministro, prova de seu interesse pelos valores em jogo.

A questão é relevante porque, sendo mulher e jovens filhos efetivamente seus advogados, teríamos apenas uma escolha ruim por parte do banqueiro. Enquanto, seja o ministro esse advogado, mulher e filhos funcionariam como laranjas no contrato. E teríamos, então, vários crimes. A começar pelo de responsabilidade, que autoriza impeachment pelo Senado (art. 52 da Constituição) ou pelo próprio Supremo (art. 102).

Nesse ponto da conversa, volto ao caso de Mike Tyson. Porque, nele, fundamental foi o detalhe de Pluto no pijama. E no caso do ministro Moraes? O decisivo, aqui, será para quem ligava o banqueiro Vorcaro. Na fase mais crítica do caso, dois dias antes de ser preso, pensava fugir do país e deu 53 telefonemas. Para quem?, amigo leitor. Nenhum para mulher e filhos. Mas todos, repito, TODOS, para o ministro Moraes. Seu verdadeiro advogado, tudo sugere.

Não se trata de uma questão apenas ética. É também ética, sem dúvida. Mas vai além. Algo que deve ser investigado pelo próprio Supremo. Tem que ser. É inconcebível não seja. É indecente não seja. Mesmo com seus parceiros corporativos, naquele plenário, decididos a não permitir. Praticando sem vergonhas aparentes a “Lei da Máfia”, diz um deles. Irá cair tão baixo nosso Supremo?, eis a questão.

Para encerrar, creio que essa referência final permite invocar o famoso monólogo de Shakespeare, em Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão:/ Será mais nobre em nosso espírito sofrer?”. Porque, enquanto alguns enriquecem, parece que vai ser mesmo esse o destino reservado a todos nós, tristes brasileiros, o de “em nosso espírito sofrer”.

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O SUPREMO COMO ESPELHO

Lisboa. Nesta segunda, estávamos no JNcQUOI Fish, Avenida da Liberdade. No cardápio, Polvo à Lagareiro (por conta da abundância no azeite, que vem dos lagares em que são trituradas as azeitonas) e um peixe que não nada em nossas águas tropicais, o Pregado. Recomendamos, fortemente, para quem vier por estas bandas.

À espera dos pratos nosso filho Serginho, que vive nas tecnologias, pediu ao ChatGPT “por favor escreva texto, no estilo de José Paulo Cavalcanti, sobre essa confusão do Supremo”. O ChatGPT explicou que então faria um com frases curtas e sempre com citações. Feito isso ele apareceu, na tela, em dois segundos. Com citação que dei, no último artigo, de um ministro da Suprema Corte americana. Sem reparos. Para uma ideia, segue breve resumo:

“O Supremo vai julgar o Supremo. Ou quase. Talvez esta seja a melhor maneira de compreender o que acontecerá em Brasília. O ponto é saber se há razões para investigar a possível relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro. Questão jurídica, sim, mas também algo maior.

“Instituições vivem da confiança, Tribunais, ainda mais. Juízes não têm exércitos nem votos. Têm decisões e o respeito que nós lhe concedemos. O pior caminho seria uma proteção corporativa. O Supremo não é sindicato de ministros.

“Louis Brandeis dizia que ‘a luz do sol é o melhor desinfetante’. Que os fatos sejam conhecidos; que alegações sejam provadas ou descartadas; e que cada ministro, ao votar, lembre-se menos do colega ao lado e mais da cadeira que ocupa. Porque aquelas onze cadeiras pertencem à República, não a quem as ocupa. Há horas de olhar para fora. E há horas de olhar para dentro. Amanhã é dia de espelho”.

Texto exato. Preciso. E o que vimos nesta terça?, eis a questão. O que, de alguma forma, já esperávamos. Nada de importante foi decidido. Nem será, que o ministro Nunes Marques preferiu ir embora. Em Brasília se diz que por conta de ameaças feitas pelo ministro Gilmar. Era o voto decisivo. E a expectativa, pena, é que ninguém seja punido. Tapete, viva o tapete.

O sistema é mesmo forte. O presidente do Senado não põe, em julgamento, os 109 pedidos de impeachment do ministro Moraes que tem na sua mesa. O Diretor-chefe da Polícia Federal cumpre ordens que vem de cima, e nada fará contrariar seus chefes. O Presidente da República diz ser a favor de não haver mais nenhum sigilo, no caso Master. Só que seu ministro da Justiça mantém o sigilo que decretou, por 100 anos, dos que visitaram Vorcaro na prisão. O candidato diz ser contra qualquer sigilo mas o mantém, só mesmo rindo.

O Procurador Geral da República é suspeito. Apareceu nas gravações. E, em vez de se declarar impedido, já requereu a nulidade de todos os atos do caso. É coragem muita. E ficamos, todos, a sonhar com outros tempos.

Bem visto, o ChatGPT é apenas otimista. O espelho, que imagina, reflete uma verdade torta. É como O Retrato de Dorian Gray, de Wilde. O quadro muda, o homem não. O que deveria ser e o que é. Aparência e realidade. Sonho e ilusões perdidas. O homem jovem, que vemos nas ruas, é falso; enquanto o velho, carcomido, gasto, e já quase sem esperanças, somos nós. E nada parece sugerir que o clamor das ruas seja ouvido, naquele plenário. Pena.

Para encerrar lembro Manuel Bandeira, o poeta do Recife, em poema bem conhecido, Pneumotorax, (resumo): “Tosse, tosse, tosse/ – Diga 33/ – 33… 33… 33…/ – Então, doutor, não é possível tratar o pneumotórax?/ – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”.

Nosso caso. Um tango argentino é o que nos espera. Podem apostar.

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OS DEUSES DO RISO

Lisboa. Estavam, à espera do elevador, alguns ministros do Supremo – Facchin, Gilmar, Zanin, todos rindo. E mais que todos, gargalhando, Alexandre de Moraes. Retratados por Brenno Carvalho, de O Globo.

Na Grécia antiga, são muitos os deuses ligados a uma cena como essa. Mais famosos deles Dionísio, deus dos vinhos e das festas; seu filho Como, espírito dos festejos e dos banquetes; e Momo, deus das sátiras. Além, claro, do deus Gelo, personificação do riso e das alegrias, com santuário em Esparta. Plutarco relata que o legislador Licurgo até lhe dedicou bela estátua.

Antecipando tragédia que o Brasil viveria, tempos depois, era íntimo de figuras sombrias como Tanatos (a morte) e Fobos (o medo). Rostos que, hoje, conhecemos aqui por nomes e sobrenomes.

O ministro Alexandre de Moraes, achando pouco tudo que fez (dentro e fora dos autos), incluiu na investigação que conduz (processo 4.781), há quase 8 anos, o ministro André Mendonça. Com o sonho de decretar sua prisão, provavelmente. Tivesse bom senso, deveria ter renunciado (para não correr o risco de ser preso). Assim protegendo o Tribunal em que trabalha e seus familiares. Como sabe que não vive em um país decente, sonha com o inverso; sair, do lamaçal, como o mais poderoso dos brasileiros.

Não sei se ainda riem tanto agora os tais ministros, depois que o Mendonça esta semana decidiu reagir. E tirou de seus cargos, por tramarem no caso Vorcaro junto a Moraes, dois parceiros do grupo – o Diretor de Inteligência Policial e o próprio Diretor Geral da Polícia Federal. Vejamos como isso acaba, o tempo é senhor da razão.

No andar da carruagem, uma pergunta me ocorre. Afinal riam do quê?, tão augustas e veneráveis figuras.

Riam, talvez, da esperança em conseguir que as escandalosas relações, entre Daniel Vorcaro e o ministro Moraes, nem sejam investigadas.

Riam, talvez, com a certeza de que Vorcaro vai permanecer em silêncio. Mudo. Sabe que o Sistema é forte e, no passado, livrou todos (inclusive condenados e presos) que hoje estão brilhando no poder. Como na Lavajato. Chegará sua vez de escapar, assim acredita, em razão de que jamais fará “Colaboração Premiada”.

Riam, talvez, do fato de que ninguém vai precisar explicar nada: nem o ministro Moraes, nem o ministro Toffoli, afora outros que ainda não apareceram nas gravações. Nem filhos. Nem mulheres. Posto que vem sendo essa uma regra, no Supremo, o do corporativismo mais despudorado, como se viu em todos os últimos escândalos.

Riam, talvez, do acerto entre eles para tirar esse processo das mãos do ministro Mendonça. Na Grande Mídia, o discurso está já bem afinado. Para proteger o Supremo, deveriam sair de cena os dois, Mendonça e Moraes. Passando a relatoria para um ministro amigo, claro!, comprometido com o Sistema.

Riam talvez porque se têm, nossos conhecidos ministros, como semi-deuses castos e puros, donos da verdade, seres perfeitos acima do bem e do mal. E não são, amigo leitor, pode acreditar. Não são.

Riam talvez, por fim, de nossa ingenuidade, em querer ver um país mais limpo. Com mínimos de ética. Onde a esperteza não dê as cartas; e com todos os corruptos, de ambos os lados, pagando pelo que fizeram.

E foi então que, usando palavras de Fernando Pessoa (Ode marítima), “de repente, mais de repente” (quase o mesmo que Vinícius depois escreveria, no Soneto da separação, “de repente, não mais que de repente”), deu-se um clarão. Um “Eureka”, como aquele de Arquimedes (de Siracusa). E tudo ficou claro. Luminosamente claro.

A pergunta está errada, esse o problema. Não é “riam do quê?”, como ela estava sendo feita. Mas “riam de quem?”. E a resposta certa, clara como o sol, eles riem é de nós.

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VERGONHA SUPREMA

O amigo Millor Fernandes foi profético ao definir bem, na sua Bíblia do caos, o barulho do Supremo nesta semana: “Pelo que vemos nos jornais, ninguém mais tem vergonha na cara”. Em Brasília, pelo menos.

Vale a pena explicar, com calma, esse caso do Vorcaro, escancarado quando o ministro André Mendonça tornou públicas as 218 páginas que recebeu da Polícia Federal. Para começar, bom lembrar que ministros do Supremo e Procurador Geral da República podem ser julgados em dois espaços.

Primeiro é o Senado (art. 52, II, da Constituição), por votos de 2/3 de seus membros (par. único), em sessão comandada pelo Presidente do Supremo. O outro é o próprio Supremo (art. 102, I, b), a quem cabe “processar e julgar, originalmente, seus próprios ministros e o Procurador Geral da República”. Serão mesmo processados?, a ver.

Isso posto, vale perguntar, agiu bem o Procurador Geral ao declarar nulo todo o inquérito da Polícia Federal? E a resposta é um sonoro NÃO!!!

Porque o ministro André Mendonça não investigou ninguém. Apenas pediu, à Polícia Federal, que informasse o nome de autoridades eventualmente comprometidos no caso Vorcaro. Sem sequer saber se haveria, entre os nomes, algum ministro do Supremo, ou o Procurador Geral da República.

Recebendo esse Relatório, verificou lá estarem as duas autoridades. Pediu, ao Procurador Geral, se pronunciasse. E este respondeu, apressado, declarando nulas todas as provas contra seu coleguinha Moraes. Reproduzindo o que já ocorreu antes, no mesmo Supremo, pouco tempo faz. O Sistema é poderoso.

Quando a resposta certa, e decente, seria outra. Primeiro deveria dizer que, como seu nome estava também implicado nas gravações do banqueiro, não poderia se pronunciar. Por vir a ser, eventualmente, um dos investigados pelo Supremo. Devendo transferir o caso para seu vice. A quem caberia informar, ao ministro, tão somente que deveria passar o caso ao Presidente do Supremo. Sem a audácia de declarar nulas todas essas provas hoje à disposição do público.

Mas o sonho de proteger os que com eles estão nessa empreitada falou mais alto. O próprio Moraes conduz, faz quase 8 anos, um inquérito (o do “Fim do Mundo”) absolutamente ilegal. Porque investigações cabem (art. 129), unicamente, ao Ministério Público. Mas lhes falta coragem, para ir contra alguém que lhe é tão próximo. E prefere o papel de cúmplice.

Segue pois o Supremo, em sua sina melancólica. A de abandonar seu nobre papel de Guardião da Constituição para ser uma casa em que (alguns de) seus membros preferem só enriquecer.

Como dizia o ministro da Suprema Corte americana Louis Brandeis, “A luz do sol é o melhor desinfetante”. Numa entrevista, em 1913, ao Harper’s Weekly. Em verdade a frase continua, “e a luz elétrica o policial mais eficiente”. Mas, em se tratando do Supremo, creio que é suficiente falar em desinfetantes.

Num texto sem título e sem data, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) diz: “Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta/ Que se revoltam contra a vida porque têm razão para isso supor”. Não o caso do ministro Moraes e do Procurador Geral, hoje de bem com a vida, com bolsos cheios de grana, e certos de que mais uma vez escaparão. Por se considerarem semi-deuses perfeitos, castos e puros. Sairão disso impunes?, eis a questão. O povo brasileiro espera que não.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (54) ‒ FAMÍLIA

Estamos bem perto do fim, volto a dizer. O livro já está pronto. É das últimas colunas. E ando já com saudades, ao perder o encontro mensal com o leitor neste espaço.

Dr. ARMANDO MONTEIRO FILHO, sogro. Usina Cucau. Tinha 5 anos e estava com Henry Ralph Trenchard Shorto, diretor da Mendes Lima – uma das mais importantes empresas açucareiras da época. Foi quando apareceu um trem. O primeiro de sua vida. E o maquinista com macacão vistoso, pendurado na cabine de comando, veio apitando aquele monstro de ferro e aço. Para espanto do menino. Seu Shorto perguntou

– Quando crescer, vai querer ser maquinista?

E ele, antecipando seu futuro,

– Não, vou ser dono de trem.

JOSÉ PAULO NETO, filho. Dedé começou a pilotar carros no autódromo de Caruaru. Ano seguinte acabou campeão, ganhando todas as corridas. Depois foi para a Fórmula 3, em Donington Park (Inglaterra), mas essa é outra história. Certo é que antes de uma corrida pernambucana dona Lectícia, preocupada, lhe deu conselho que acabou na primeira página do Jornal do Commercio

– Meu filho, corra devagar.

JOSÉ ROBERTO CAVALCANTI, Zeca, irmão. Lembrou diálogo de Brecht em A vida de Galileu (escrita em 1937 mas publicada só em 1943) que começa com fala de personagem que trabalhava com Galileu Galilei, Andrea Sarti, filho de uma governanta

– Infeliz do povo que precisa de herói.

Ao que seu mestre retruca

– Não, Andrea, infeliz é o povo que não tem herói.

Pensei no Brasil e completei

– Não, Zeca, verdadeiramente infeliz é o povo que precisa e não tem heróis.

* * *

Tinha que levar a filha, todas as noites, para o ballet; e esperava lá duas horas, lendo livros, até voltar para casa com ela. A dona da academia sugeriu que participasse das aulas, seria um bom exercício, tanto que os bailarinos saíam de lá suados. E completou

‒ Tem ainda uma vantagem, grande, que é o direito a uma Carteira de Estudante. Vai poder pagar meia entrada, nos cinemas.

‒ Na carteira diz qual o curso?

‒ Sim, ballet.

‒ Sai nela minha foto?

‒ Não, só o nome.

‒ Então me inscreva.

‒ Diga o nome completo, para informar à UNE.

‒ Pois não, José Paulo Cavalcanti Filho. Pode?

Só mesmo Zeca.

LUCIANA MONTEIRO CAVALCANTI, filha. No telefone, voz de mulher desesperada

– Pai, pai, vão me matar. Eles querem dinheiro.

– Raquel, minha filha, é você?

– Sou eu, pai, me salve.

– Seja feliz, querida, e desliguei.

O cliente, na minha frente,

– Era sua filha?

– Não, era um ladrão.

Só para lembrar ao amigo leitor, minha filha se chama Luciana.

Dona MARIA LIA, mãe. Quando fez 40 anos, mandei bilhete

– Minha mãe, não é por nada não mas a IDA começa aos 40.

Sem resposta. Mas, quando fez 80, seu motorista chegou bem cedinho com esse recado

– Meu filho, esperei 40 anos para lhe responder. A IDA pode ser que comece aos 40. Mas a VIDA começa, mesmo, é aos 80.

SERGINHO, filho, advogado e Master on Law (Cyberlaw) por Harvard. Fez operação, dessas para emagrecer, e seu motorista Marcelo preocupado. Segue as mensagens que trocaram, pelo zap,

‒ Patrão, saiu tudo bem né?

‒ Foi tudo ótimo.

‒ Graças a Deus, que meu emprego está garantido.

SOBRE AS SOGRAS. Por sugestão do cronista João Alberto Sobral, o fotógrafo Pedro Luiz bateu retrato de certa dama. Quando foi entregar, soube que havia falecido na noite anterior. A história passou a ser conhecida, nas redações. Certo dia, chega cidadão e pede

– Quero lhe contratar para tirar uma foto de minha sogra.

* * *

O jornal PODER, edição de 27/04/2022, deu manchete sobre Francisco

– O Papa elogia as sogras.

Mais, por baixo, esse comentário do jornalista Tonico Magalhães

– É porque ele nunca teve uma.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

UBI VERITAS?

Melhor resposta para a dúvida, no título (onde está a verdade?), talvez fosse frase de Aulo Gélio (Noites Áticas) “veritas temporis filia” (a verdade é filha do tempo). Mas prefiro começar essa conversa lembrando Millor Fernandes que disse (Millor Definitivo) “A verdade não só é muito mais incrível do que a ficção, como é muito mais difícil de inventar’’. E talvez pudesse até complementar, “o perigo da meia verdade é você dizer exatamente a metade que é mentira.’’

Mas o que tem isso a ver com nosso Brasil de hoje?, eis a questão. E a resposta é tudo, ou quase. Tomemos um caso aleatório, como prova, o tarifaço de Trump contra parte de produtos brasileiros. Ninguém pode estar a favor do americano, até por romper uma tradição de fraternidade que sempre uniu nossos dois países.

O Presidente Lula, sem maiores preocupações, reagiu como candidato. Agradecido ao gringo por assumir o rosto do Inimigo Externo, tão útil nas eleições. Tanto que, logo depois, anunciou com alarde que vai usar a Lei da Reciprocidade. “Pra que? Pra nada”, como diria Ascenso Ferreira (Gaúcho) sobre o gaúcho “em louca arrancada”.

Só que, aos poucos, notou que os empresários brasileiros exigiam dele algo diferente. Que negociasse, como todos os outros países estão fazendo. Mas como fazer?, sem incomodar sua campanha presidencial.

Foi quando decidiu, junto com seu marqueteiro, levar a questão à Organização Mundial do Comércio – OMC. Em tese, uma boa ideia. Só que há, no caso, um problema. Grande. É que o tribunal, composto de 7 Juízes Ativos, exige em cada caso votação mínima com ao menos 3 deles.

E a OMC, desde 2019, tem 0 (zero) juízes. Não funciona pela simples razão de não poder julgar nada. Aberto está, claro, para coisas sem importância, por exemplo receber requerimentos no protocolo. Reduzindo essa proposta, de ir a OMC, a seu verdadeiro papel de evento com caráter só eleitoral.

Os Estados Unidos deve ter achado muito divertido; tanto que em Resposta Formal, protocolada em Genebra, disse estar “inteiramente à disposição dos diplomatas brasileiros’’. Sabe que nada acontecerá e entrou no jogo; se querem brincar, então brinquemos todos.

Resultado, amigo leitor, é que vai dar em nada. Simples assim. Por essa via, pelo menos. E nossos jornais? Fico só num exemplo. Em que importante jornalista brasileiro, num formidável arroubo ufanista, chegou a declarar (FolhaSP) “Resposta aos Estados Unidos, na OMC, é vitória brasileira”.

Só uma bazófia. Posto sabem todos, ele e os demais profissionais a seu lado, que nessa querela não há vencedores nem vencidos. Ao menos até quando sejam nomeados novos Juízes. Se é que serão. No Dia de São Nunca, talvez.

Seria, figurativamente, uma Vitória de Pirro – quando não há propriamente vitória nenhuma. Pirro foi um comandante da Grécia Antiga que derrotou o exército romano na Batalha de Ásculo, mas essa é outra história. Fato é que todos os jornais brasileiros conhecem os fatos. E nos espanta só por agirem como se fosse uma proposta séria. Sem perder tempo no lembrar, ao leitor, que por hora não há juízes na OMC.

Talvez aqui se pudesse lembrar uma lenda que vem de 1745, quando modesto moleiro desafiou o Rei Frederico II, da Prússia (atual Alemanha), daí vindo a conhecida frase “Ainda há juízes em Berlim”. Em Berlim, sim. Em Genebra, com certeza não.

E assim vai a nave, na conturbada política brasileira de hoje. E não apenas com o caso da OMC. Reduzida a uma montanha de aparências. Mas onde está a verdade nesses casos todos?, amigo leitor. A verdade, ora a verdade, quem se preocupa com ela?.

É pena. O que nos permite encerrar essa conversa com mais uma frase do amigo Millor, “A verdade é aquilo que sobra depois que você esgotou as mentiras”.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

SIGILO DA FONTE

Nesta quarta 11/08/26, e mais uma vez, o Supremo tornou letra morta a Constituição. Responsável por essa violência, mais uma vez, o ministro Alexandre de Moraes. Grave porque cabe precisamente ao Supremo garantir que seja respeitada. Basta ver, art. 5º, XIV: “É assegurado a todos o acesso à informação e RESGUARDADO O SIGILO DA FONTE”.

Trata-se de um caso simples. O ministro Flávio Dino requereu, de boca, veículo ao Tribunal de Justiça do Maranhão. Uma caminhonete blindada. Para ir à praia, como um simples mortal. Sem papéis, claro, onde ficaria registrada essa benesse. Não há crime, nisso. Mas revela o uso promiscuo, de bem público, por um daqueles que se consideram verdadeiros donos do Brasil.

A notícia foi dada pelo jornalista Luis Pablo, sem indicação da fonte. Direito dele, garantido pela Constituição – o que para o ministro Moraes, claro, não vale nada. Tanto que determinou a invasão, de sua casa, com apreensão de todos os celulares e computadores que ali se encontrassem.

Como esses meios, identificou a fonte: o ex-secretário de Estado Raimundo Cutrim. A Polícia Federal deixou de lado o uso irregular do veículo, para investigar apenas o informante. Que, agora, vai responder processo. Não na Primeira Instância, como deveria, posto não ter foro privilegiado. Mas perante o próprio Supremo, claro. Podendo ser condenado, a julgar pelas última decisões da Côrte, a até 17 anos de prisão.

No último caso relevante decidido pelo Supremo por exemplo, em 17/11/2015, o relator, ministro Celso de Melo, limitou-se a dizer o óbvio; que jornalista “não podia sofrer qualquer sansão, quando se recusar a quebrar esse sigilo (da fonte)”. Sem uma palavra sobre a obrigação de responder, o próprio jornalista, pelas informações que recebeu de sua fonte.

Um tema tranquilo, na doutrina. Cito apenas Steinmetz (Comentários à Constituição): “Quando o profissional ou a empresa invocam o sigilo da fonte, assumem a plena responsabilidade pelo teor da informação veiculada, inclusive respondendo cível e criminalmente por eventuais danos causados a direitos de terceiros (e.g., honra, intimidade, vida privada e imagem)”.

Como não pretendo aqui proteger jornalistas, e diferentemente do que tem sido entendido por alguns jornais brasileiros, lembro que o sigilo protege só a fonte. E, não, quem dá essa notícia. Em todo o mundo é assim.

Por exemplo Judith Miller (Prêmio Pulitzer em 2002) publicou, no N.Y. Times, que Valerie Plame (mulher do ex-embaixador Joseph Wilson) era agente secreta da CIA. Pondo em risco a vida de Valerie. A jornalista não revelou sua fonte. E acabou presa, no Distrito de Columbia (Washington).

Mattew Cooper, da revista TIME, fez o mesmo. Só que se livrou da prisão por dizer quem era. Segundo ele, autorizado pela própria fonte – o conselheiro político de Bush (filho), Karl Rove.

Voltemos agora ao caso do Maranhão. Não se trata, pois, de proteger jornalistas. Se tiver que responder pelo que diz, seja. Mas tudo segundo a própria Constituição.

De resto a prova é, claramente, ilícita. Não pode ser usada. Mas o Supremo vai reconhecer isso? Duvido. Responda o jornalista, se crime houve (creio que não). Para o Supremo, vale mais o corporativismo. A proteção descarada, e no plano ético indecente, de seus membros. Alguns, hoje, milionários. A impunidade de seus membros, amigo leitor, ali hoje é a regra.

E segue, assim, a Democracia brasileira. Que já deixou, faz tempo, de ser Democracia. É só uma ditadura reles, em que ministros do Supremo exercitam o poder sem nenhum limite. Mesmo contra a Constituição. Azar o nosso.