MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O INIMIGO DA VERDADE

Acho que todo mundo conhece aquela fase do sono, quando a gente tá começando a dormir, ou quase pronto pra acordar, e vêm à mente imagens e situações que a gente não sabe se é sonho ou pensamento.

Foi o que aconteceu na noite passada, quando eu estava de olhos fechados, esperando o sono chegar, e me vi em um lugar onde dois repentistas se apresentavam.

Comecei a prestar atenção ao que cantavam, e observei que faziam uma espécie de ode, dedicada a alguém conhecido de todos ali.

Era como uma “homenagem”, palavra que escrevo entre aspas, porque os versos não eram nada elogiosos. Pelo contrário.

Quando concluíram, sob aplausos dos presentes, saltei da cama e tentei anotar tudo.

Claro que não consegui reproduzir todos os versos. Mas, juntando os fragmentos que memorizei com versos que eu mesmo criei, para preencher as lacunas que ficaram, foi possível recompor o seguinte trecho da apresentação:

– Eita sujeito que mente!
Que nunca fala a verdade!
Mente em grande quantidade,
Mente tanto que nem sente.
O frio, ele diz que é quente,
O largo, diz que é estreito
Se ele diz que está perfeito,
Veja bem que está quebrado.
Se diz que é seco, é molhado.
Como mente esse sujeito!

– Esse cabra não tem jeito,
Mente assim desde menino.
O grosso, ele diz que é fino.
O certo, diz que é malfeito.
Diz por aí que é direito,
Na verdade é um trapaceiro.
Se o caso envolve dinheiro,
Mente com desenvoltura
Mente assim, na cara dura,
Em mentira é o primeiro!

– Se passar um dia inteiro
Sem contar uma mentira,
A gente até se admira,
Desse malandro embusteiro.
Nem no mês de fevereiro
Diminui a quantidade
Dos ataques à verdade
Que ele fala e pronuncia:
Mente mais vezes ao dia
E com mais velocidade.

– Lá no centro da cidade,
Na hora que ele aparece
Todo mundo já conhece
Sua aversão à verdade.
O mestre da falsidade
E da dissimulação
Capricha na falação,
Mas engana pouca gente.
Talvez engane somente
Meia dúzia de “babão”.

– Na verdade, meu irmão,
Tem muita gente que apoia
Esse tipo de tramoia
De golpe e de enganação.
Eu tenho minha impressão
Sobre esse povo iludido:
Quem apoia esse bandido,
Não sabe o que está havendo,
Ou então é que está sendo
Por ele favorecido.

– Também ando convencido
Que é esse o quadro atual:
Ele engana o pessoal
Mal informado, iludido.
Nessa tarefa, é servido
Por gente que é como ele,
Que nem acredita nele,
Mas vê, com boa vontade,
Que “Inimigo da Verdade”
Seja o outro nome dele!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O ESPELHO DE JOHN HALDER

Você já ouviu falar de John Halder?

Talvez citar só o nome não seja suficiente para você se lembrar. Vamos a mais algumas pistas: professor universitário, casado, pai de um casal de filhos e com a mãe idosa e doente morando em sua casa. Seu lar era um tanto caótico, pela natural agitação das crianças somada à doença da mãe. A esposa Helen parecia ter problemas psicológicos, tocando piano de maneira compulsiva na sala.

Mas John Halder lidava resignadamente com esse caos, sem demonstrar irritação ou agressividade com sua família. E ainda conseguiu escrever um romance que mudaria sua vida.

Bem, quem conhece o filme Um Homem Bom – título original Good – já sabe que estou falando de seu personagem principal, interpretado por Viggo Mortensen: um professor universitário alemão, que vive na Alemanha dos anos 1930, justamente quando o Partido Nazista chega ao poder.

No decorrer da narrativa, dois personagens terão grande importância nos acontecimentos que se seguem: a aluna Anne Hartmann e o amigo Maurice Israel Glückstein, um psiquiatra judeu que lutou na Primeira Grande Guerra ao lado de John.

Revendo o filme recentemente, estive refletindo sobre a razão pela qual regimes autoritários buscam maneiras de obter legitimidade popular. E sobre pessoas que não necessariamente comungam com as tendências autoritárias do regime, mas acabam contribuindo com essa legitimação.

O fenômeno é velho conhecido dos cientistas sociais e políticos: a força pode ser suficiente para impor uma decisão; mas dificilmente é capaz de sustentar, sozinha, um sistema de poder. É preciso que alguém explique por que determinadas medidas são necessárias. Que alguém lhes dê uma fundamentação racional. Que pessoas respeitáveis as considerem aceitáveis. Que instituições as incorporem ao seu funcionamento cotidiano. E, sobretudo, que aqueles que poderiam levantar objeções encontrem boas razões para não fazê-lo.

É aí que homens como John Halder se tornam importantes.

No enredo de Um Homem Bom, Halder não é um militante. Não participou da construção do regime. Sequer demonstra entusiasmo por sua ideologia. É um professor de literatura preocupado com as aulas, os livros, a família e seus problemas domésticos.

Mas escreveu um romance. Nele, tratou da eutanásia a partir de um drama que conhecia de perto: o sofrimento provocado pela doença de sua própria mãe. O livro chama a atenção de integrantes do governo, interessados em utilizar aquelas ideias para objetivos muito diferentes daqueles que haviam levado o professor a escrevê-lo.

O intelectual descobre, então, algo bastante sedutor: o poder o considera importante.

Halder é ouvido. É consultado. Suas ideias interessam. Pessoas importantes sabem quem ele é.

Talvez comece aí um dos mecanismos mais eficientes de cooptação intelectual. Não é necessário exigir de alguém que renuncie imediatamente às próprias convicções. Pode ser suficiente convencê-lo de que, finalmente, suas ideias estão sendo levadas a sério.

Depois vêm os passos seguintes. Uma aproximação. Um convite. Uma função. A filiação a uma associação ou a um partido. Cada concessão, examinada isoladamente, parece pequena. O problema é que a posição a partir da qual se avalia a concessão seguinte já não é a mesma.

Na trama do filme, John Halder, a cada passo, continua querendo ser um homem bom. Essa talvez seja a característica mais inquietante do personagem. Ele não acorda certa manhã e decide abandonar seus valores. Ao contrário, procura continuamente demonstrar a si mesmo que suas escolhas continuam compatíveis com eles.

Mas há outro traço da sua personalidade que parece influenciar diretamente os acontecimentos que se seguem. Uma característica frequentemente encontrada em pessoas consideradas boas: a dificuldade de dizer “não”.

Cada vez que John é chamado a dar um passo que não estava em seus planos, ele hesita… mas cede. Ou avança, o que dá no mesmo.

Isso se revela não apenas em sua trajetória em relação ao Partido Nacional-Socialista, mas também no envolvimento com sua aluna Anne. É ela quem se aproxima, toma a iniciativa e até “rouba” dele o primeiro beijo.

Rapidamente, o relacionamento evolui e ele se divorcia de Helen. Já casado com Anne, ele confessa ao amigo Maurice que não sabe exatamente o que o levou a mudar de vida dessa maneira.

Maurice não se surpreende com a confissão. O fato que lhe causa surpresa é saber da adesão do amigo ao Partido. E Maurice não esconde a decepção. Chega a dizer que gostaria de ouvir que John pelo menos aderira àquilo por interesse. Que John não acreditava naquilo. Que continuava sendo, no fundo, o mesmo homem.

Mas Halder responde: “Não importa se concordo com eles. O fato é que estão no poder! Pelo menos estou fazendo algo. Se nós queremos mudar alguma coisa, colocá-los na direção certa, não podemos ficar à margem.”

A justificativa é extraordinária.

Já não se trata simplesmente de dizer: estou cedendo porque preciso proteger minha carreira.

A concessão transforma-se em participação responsável. A adesão passa a ser apresentada a si mesmo, não como abandono dos próprios princípios, mas quase como consequência deles. Afinal, se as pessoas razoáveis deixarem o poder exclusivamente nas mãos dos radicais, quem poderá moderá-los?

E assim se constrói um raciocínio particularmente eficiente: alguém pode colaborar com um sistema sem precisar reconhecer para si mesmo que está colaborando com aquilo que há de errado nele.

Pode até imaginar que sua presença o torna melhor.

Há nisso uma questão que ultrapassa em muito a trajetória individual de John Halder: sistemas autoritários não são construídos apenas por fanáticos.

Fanáticos podem ocupar as ruas, fazer discursos, perseguir adversários e executar ordens. Mas, para que determinadas práticas adquiram aparência de normalidade, outras pessoas são necessárias.

Professores podem fornecer conceitos. Intelectuais podem oferecer justificações. Juristas podem construir interpretações. Instituições podem estabelecer procedimentos. Pessoas respeitáveis podem emprestar sua própria respeitabilidade àquilo que, apresentado de outra maneira, talvez provocasse resistência.

E sempre haverá jornalistas, comentaristas e outros formadores de opinião dispostos a fazer sua parte na propagação disso tudo.

Nem todos precisam acreditar.

Alguns podem aderir por convicção. Outros, por interesse. Outros porque têm medo das consequências de ficar de fora. E haverá aqueles que realmente acreditarão que sua presença dentro do sistema poderá evitar excessos.

Há ainda os que simplesmente se calam. A omissão também tem utilidade institucional.

Para que uma ordem se deteriore, não é necessário que todos apoiem cada uma de suas decisões. Talvez nem seja necessário que a maioria o faça entusiasticamente. Pode bastar que aqueles capazes de oferecer resistência encontrem razões suficientes para permanecer em silêncio.

Alguns terão dúvidas, mas considerarão que ainda não chegou o momento de romper. Alguns perceberão excessos, mas acreditarão que poderão corrigi-los por dentro. Outros concluirão que o custo pessoal da resistência é alto demais.

E provavelmente muitos continuarão se considerando boas pessoas.

O sistema, por sua vez, sabe recompensar quem permanece dentro dele.

Em outra passagem particularmente interessante do filme, Halder vai a uma estação ferroviária comprar uma passagem para Paris. Pretende entregá-la a Maurice, permitindo que o amigo deixe a Alemanha.

Há uma fila.

Halder entra nela como qualquer outra pessoa, até ser reconhecido por um integrante do Partido. Imediatamente é retirado da fila e conduzido ao guichê.

A explicação é direta, crua, uma mistura de arrogância com deboche: “Você faz parte da elite. Não precisa ficar em filas!”

A cena dura pouco, mas contém quase todo o mecanismo. O mesmo sistema que torna a vida de Maurice progressivamente impossível torna a vida de Halder progressivamente mais fácil.

Um perde direitos. O outro ganha privilégios.

Um começa a descobrir que lugares antes acessíveis já não estão disponíveis. O outro descobre que portas antes fechadas agora se abrem.

Aproximar-se do poder produz benefícios. Afastar-se dele começa a produzir custos.

Em determinado momento, já não estamos apenas diante da escolha entre concordar ou discordar. Estamos diante da escolha entre pertencer ou ficar de fora.

Mas há um problema com as pequenas concessões: enquanto estamos fazendo cada uma delas, é difícil perceber a distância total percorrida; até que alguma coisa nos obrigue a olhar.

A partir daqui, preciso revelar uma das cenas mais importantes do filme.

Na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, quando centenas de sinagogas, lojas e casas de judeus foram destruídas, no brutal evento que ficaria conhecido como a Noite dos Cristais, Halder finalmente percebe a dimensão do perigo que cerca seu amigo Maurice.

E resolve ajudá-lo.

Ao comunicar sua intenção à esposa Anne, ela não inicia uma discussão política. Não apresenta argumentos. Não procura convencê-lo de coisa alguma. Apenas aponta para o espelho: “Olhe para você, John! Olhe para você!”

Durante boa parte da história, ele havia conseguido explicar a si mesmo quem era: um professor que escrevera um romance sobre o sofrimento da mãe.

Era o amigo de Maurice.

Era o homem que não necessariamente concordava com os nazistas.

Era alguém que aceitara participar do Partido Nazista porque talvez fosse possível mudar as coisas por dentro.

Era, afinal, um homem bom. Um homem que agora era confrontado com a sua imagem no espelho.

Argumentos permitem outros argumentos. O espelho não argumenta.

Halder olha para sua própria imagem. E vê um capitão da SS.

E isso nos põe diante de uma pergunta extremamente incômoda: em que momento John Halder deixou de ser apenas um homem bom, tentando conviver com o sistema, e passou a fazer parte dele?

A única resposta que me ocorre é que talvez não tenha havido esse momento.

Talvez tenha havido apenas uma sucessão de pequenos momentos, todos suficientemente justificáveis quando considerados isoladamente. Até que já não havia caminho de volta.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

NO DIA DA INDEPENDÊNCIA!

Valei-me São Zé Limeira!
Me ajude com seu repente,
Trazendo até minha mente
Inspiração verdadeira.
Para, da sua maneira,
Com destreza e competência,
Juntando arte e ciência,
Contar, desse jeito seu,
O que foi que aconteceu
No dia da independência!

Dia sete de setembro,
Na beira de uma lagoa,
Dom João entrou na canoa,
Se gritou, eu não me lembro.
Ficou lá até dezembro,
Sem nenhuma providência.
Portugal pediu clemência,
Um padre virou ateu.
Tudo isso aconteceu
No dia da independência!

Quando Dom Pedro Primeiro
Empunhou a espingarda,
Respingou lama na farda
De um soldado marinheiro.
A mulher do sapateiro
Chegou fazendo exigência.
Não teve vossa excelência
Que aquietasse Zebedeu.
Tudo isso aconteceu
No dia da independência!

Tava uma chuva pesada
Na beirada do Ipiranga.
Um doido, chupando manga,
Ficou lá, sem dizer nada.
Dona Flor, que era casada
Com Zé de Dona Inocência,
Na hora da emergência,
Deu um grunhido e correu.
Tudo isso aconteceu
No dia da independência!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

PLANTAR SEM ESPERAR QUE ALGO FLORESÇA

Não é que eu seja pessimista — acho que não sou. A questão é que, do jeito que o clima está, pouco importa que a primavera seja logo ali.

Em agosto a umidade em Brasília transita facilmente abaixo de 20%, mas às vezes é preciso que a seca se aprofunde para que surja alguma possibilidade de chuva. Nem que mesmo depois da chuva os umidificadores elétricos continuem necessários.

Então, não estou nem aí se as cigarras acordarão antes de novembro. Que venham, com suas vozes estridentes e sua melodia repetitiva. Resta a esperança de alguma calmaria no Natal, já que janeiro promete tempestades.

Enquanto isso, convivamos com o barulho! Ainda não das cigarras. Nem de trovões.

De um jeito ou de outro, não espero ver o sol nascer bonito amanhã. Espero apenas que a fumaça das queimadas se dissipe o suficiente para eu enxergar o horizonte com alguma clareza — e mesmo isso, confesso, é uma esperança que guardo com desconfiança.

Não sou agricultor, mas sei que quem planta expectativas pode colher decepções. Para quem vem do Nordeste — como eu — o planalto é um oásis. Quem conhece a caatinga não se assusta com o cerrado.

Sim, um dia plantei um ipê. Em frente à casa onde moro. No Lago Norte.

Não porque espere vê-lo se pintar de amarelo algum dia. Como os que vi outro dia na L2 Norte. Mas porque sinto que é o que resta fazer.

Porque alguma parte de mim insiste em acreditar que algo há de crescer entre as pedras, só para provar que a terra ainda respira.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

UM JOGO DE FUTEBOL, UMA TRAGÉDIA AÉREA E UM ATO DE FÉ

Que ligação pode haver entre um jogo de futebol, a queda de um avião e uma missa campal?

Pois é. À primeira vista parecem situações bem distintas. E são. Mas, neste caso, os acontecimentos se conectam de um modo muito peculiar, que o leitor certamente descobrirá, à medida que os fatos forem sendo narrados.

Comecemos do princípio. Seguiremos a ordem cronológica dos fatos.

No dia 3 de dezembro de 1972, a cidade de Fortaleza estava agitada com a presença de ninguém menos que o Rei do Futebol. Isso mesmo. Pelé, já com três Copas do Mundo na bagagem, estava na cidade. E ele não foi à capital cearense a passeio: o Santos enfrentaria o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.

Se era uma partida histórica para o Ceará – que enfrentaria o Santos de Pelé, com ele em campo, no auge de sua carreira – o jogo também era histórico para o próprio Pelé, que faria o seu milésimo jogo com a camisa do Santos.

Naquela época, ainda não havia o estádio Plácido Castelo – popularmente conhecido como Castelão – que somente seria inaugurado em novembro de 1973. Então, cerca de 38 mil pessoas se aglomeraram nas arquibancadas do Presidente Vargas – o PV. A maioria estava ali para torcer pelo Ceará, evidentemente, mas muitos também compareceram só para ver o Rei jogar.

E o espetáculo não decepcionou.

O Santos abriu o placar logo aos 11 minutos do primeiro tempo, com um gol dele. Sim, um gol de Pelé! O cimento das arquibancadas vibrou sob os pés dos torcedores. A euforia foi tão grande que teve torcedor do Ceará que comemorou.

Mas o melhor – pelo menos para a torcida do Ceará – ainda estava por vir. No segundo tempo o Vozão virou o jogo e venceu por 2 a 1. Gols de Samuel e Da Costa. A torcida do Ceará em festa. Quem esteve presente ao Estádio Presidente Vargas naquele dia assistiu a um jogo realmente histórico.

* * *

Menos de um ano depois, no dia 20 de outubro de 1973, outro fato importante reuniu uma grande multidão em Fortaleza: foi inaugurada a Avenida Presidente Castelo Branco.

A via tinha como finalidade abrir um corredor de tráfego que ligaria a Barra do Ceará, localizada no extremo oeste da cidade, ao Porto do Mucuripe, aproximadamente 15 km ao leste. Nesse percurso, cruzava vários bairros, dentre eles, o Pirambu, cuja referência evoca até hoje a parte mais pobre da cidade, e a Aldeota, onde residia – e ainda reside – a classe de maior poder aquisitivo.

Na época, comentava-se que até o Presidente da República – então o General Emílio Garrastazu Médici – compareceria à inauguração. Não compareceu, mas mandou o seu Ministro do Interior.

Um grande evento, realmente, com a presença de políticos, militares (prestigiados por conta do regime em vigor na época) e milhares de espectadores. Mas o dia ficou marcado por uma tragédia: durante a celebração, um dos caças da Força Aérea Brasileira que participava da festa perdeu o controle e caiu.

Houve correria, perplexidade e desespero. A multidão se dispersou em pânico. Bombeiros, que compunham o grupo de militares presentes ao evento, deixaram sua formação festiva e saíram em disparada, com as sirenes de seus caminhões vermelhos acionadas em direção ao local do acidente. Um caos.

Aumentando a dramaticidade da tragédia, soube-se depois que o impacto da aeronave com o solo se dera sobre as casas de uma estreita rua do bairro do Pirambu, causando a morte de cerca de 15 pessoas (nunca se soube o número exato), além do piloto.

O fato foi tão marcante, que a Rua Gomes Parente, onde a aeronave caiu, passou a ser conhecida como “Rua do Avião”.

Um dia que começou com uma grande festa, mas terminou com lágrimas, dor e luto.

* * *

Chegamos assim ao terceiro fato, que também poderíamos chamar de terceiro ato, se tratássemos de uma peça de teatro. E, de fato, trata-se de um ato, um grande e multitudinário ato de fé.

Aconteceu em 9 de julho de 1980. Naquele dia, chegava a Fortaleza o Papa João Paulo II.

Era a primeira vez que um Papa visitava o Brasil. Em um período de 12 dias – de 30 de junho a 10 de julho daquele ano – ele esteve em 14 cidades brasileiras, começando por Brasília e terminando em Fortaleza, onde abriu o X Congresso Eucarístico Nacional.

Na manhã de 9 de julho, o Estádio Plácido Castelo recebeu cerca de 120 mil pessoas, vindas de todos os cantos do Ceará e de Estados vizinhos. Gente que chegou de madrugada, rezou, se emocionou e até cantou, junto com Luiz Gonzaga, uma canção que o Rei do Baião compôs especialmente para a ocasião: “Obrigado, João Paulo”. “João Paulo II/ que Deus deu de graça/ o povo te abraça/ e em ti vê Jesus”, dizia uma parte do refrão.

Mas o evento dentro do Castelão não foi a parte mais marcante daquele dia. Do lado de fora do estádio, uma multidão de mais de um milhão de duzentas mil pessoas aguardava o início da missa campal que seria realizada pelo pontífice.

Na época, o lugar – hoje ocupado por casas e prédios – era um amplo terreno vazio, com o chão coberto de vegetação rasteira e carnaubeiras. Desde as primeiras horas da manhã, foram se acomodando por ali milhares de fiéis, peregrinos e curiosos. Chegavam a pé, de ônibus e em caminhões conhecidos como paus-de-arara, em cujas carrocerias se instalam bancos de madeira para o transporte de pessoas.

Segundo os registros da época, a missa campal começou às quatro horas da tarde, e só terminaria às oito da noite. Quatro horas de celebração de um ato de fé que é certamente, até hoje, o maior já realizado na cidade de Fortaleza.

* * *

Foi assim que três fatos realmente marcantes ocorreram em Fortaleza, em um intervalo de menos de dez anos.

E já poderíamos dar por terminadas essas rememorações. Muitos dos leitores que chegaram até aqui certamente desconheciam esses fatos, ou pelo menos algum deles. O registro está feito.

Mas há outra conexão entre esses fatos, bem menos conhecida, que está além do tempo e do lugar em que ocorreram.

Aconteceu que, no dia do jogo entre Ceará e Santos, um homem saiu de casa com seus dois filhos – um de dez anos e outro de seis – em direção ao Estádio Presidente Vargas.

Era torcedor do Ceará. Sabia que aquele seria um momento histórico e queria que seus filhos também estivessem presentes. Na arquibancada, ele conseguiu espaço para os três, em meio àquela multidão, e juntos comemoraram os gols. Inclusive o do Pelé.

Na volta para casa, tiveram que caminhar muito até conseguir pegar um ônibus. Mas ninguém reclamou. Estavam eufóricos. Tinham visto seu time jogar contra o Santos de Pelé. Viram Pelé fazer um gol. E viram o Ceará vencer o time do melhor jogador do mundo. Tudo isso no mesmo dia. No mesmo jogo.

Aquele homem não foi à inauguração da Avenida Leste-Oeste. Era um sábado, ele precisava trabalhar até o meio-dia. Mas os seus dois filhos foram. Estavam acompanhados da mãe, sua esposa. Como era outubro, o caçula já havia completado sete anos, mas o mais velho só faria onze em novembro.

Foram a pé. O palanque das autoridades não era muito longe de casa. Uns trinta a quarenta minutos de caminhada, no máximo.

Acompanhavam as celebrações em meio à multidão, quando viram quatro aviões Xavante passarem sobre suas cabeças. O irmão mais velho ensinou ao mais novo uma palavra nova: rasante. Aquilo era um voo rasante.

Ficaram observando os aviões se afastarem em baixa altitude, até começarem a subir novamente, quase na vertical, em um movimento aparentemente acrobático, embora não fosse a Esquadrilha da Fumaça.

Viram quando um deles se desgarrou dos outros, girou no ar – ainda parecendo fazer acrobacias – até apontar o nariz diretamente para o chão e descer girando como um parafuso, sumindo por detrás das casas.

Uma coluna de fumaça preta subiu. Da posição em que estavam, a mãe e seus dois filhos perceberam que a fumaça surgia de um lugar próximo a sua casa. Em meio à correria da multidão, a mãe das crianças conseguiu entrar com elas em um táxi. Levou os filhos à casa de uma amiga que morava mais distante. Tinha receio de voltar para casa com os filhos e a casa ter sido destruída.

A preocupação fazia sentido. Ao voltarem para casa, já à noite, ficaram sabendo que o avião caíra a cerca de 250 metros de onde moravam. Não na mesma rua, mas na rua de trás. A menos de duas quadras. Os pais comentaram com os filhos que, anos antes – na época em que se casaram – chegaram a visitar uma das casas que haviam sido destruídas, com intenção de comprá-la e morar ali. Mas não houve consenso quanto ao preço.

O tempo seguiu seu curso.

No dia 9 de julho de 1980, aquela família acordou bem cedo. O sol ainda não havia nascido, quando arrumaram as sacolas de comida, as garrafas térmicas com água, as almofadas e os guarda-sóis no porta-malas do seu fusca. Um modelo 1972, verde guarujá, com faixas brancas nas rodas, comprado meses antes.

Horas depois estariam no entorno do estádio Castelão, em meio a romeiros e peregrinos, para assistir à missa do Papa. Passariam o dia ali, vendo a multidão crescer, até formar um mar de gente, de um tamanho que nunca haviam imaginado.

Não foi um dia fácil, sob o calor do sol cearense, tendo como única água disponível a das garrafas térmicas que guardavam em suas sacolas. Mas suportaram bem. Os filhos – agora com 13 e 17 anos de idade – já tinham consciência da importância do acontecimento do qual faziam parte. Então, ninguém reclamava.

E assim foi até acompanharem a missa mais longa de suas vidas, das quatro da tarde às oito da noite, celebrada por ninguém menos que o Papa João Paulo II, que seria reconhecido pela Igreja Católica como santo em 2014.

Quando tudo terminou, caminharam durante muito tempo até encontrar seu Fusca, que haviam deixado estacionado longe dali. Voltaram para casa cansados, mas sobretudo felizes com o que tinham vivido naquele dia.

Os personagens dessa história: Seu Mansueto, meu pai; Dona Ivonete, minha mãe; Materson, meu único irmão; e eu, o filho mais novo daquela família.

É por isso que a conexão entre esses fatos não está registrada apenas em documentos históricos.

Afinal… eu estava lá.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CORDEL PRA DEPOIS DA COPA

Sem o Brasil campeão,
Resta a nós reconhecer
Que isso pode acontecer
Em qualquer competição.
Passada a decepção,
Prestadas as homenagens,
Guardadas muitas imagens
No arquivo da nossa mente,
Olhemos, daqui pra frente,
Para outros personagens.

Pois, com a Copa terminada,
É chegada a ocasião
De ver na televisão
Muita conversa fiada
E promessa exagerada
De grandes transformações.
De dar novas soluções
Para problemas antigos
Muita atenção, meus amigos,
Vêm chegando as eleições.

É tempo de aparecer
Gente que estava sumida,
Que andou desaparecida
E que agora vem nos ver.
Que pergunta e quer saber
Do que estamos precisando,
Prometendo e explicando
Como tudo irá mudar
Mas, para realizar,
Com seu voto está contando.

Tempo bom para se ver
Gente beijando criança,
Dizendo que a esperança
No Brasil vai renascer.
Que as crianças devem ter
A maior prioridade
E que é gigante a vontade
De ajudar o mais carente,
Essa conversa que a gente
Já viu que não é verdade.

Tempo de a gente escutar
Achando ruim ou bom,
Nas ruas, carros de som,
Com seu som a ecoar.
As canções a ressaltar
O valor do candidato,
Embora não seja exato
Que elas digam a verdade.
Deus me dê boa vontade
Para crer nisso de fato!

Nas esquinas e avenidas,
Muitas moças e rapazes
Exibirão seus cartazes
E bandeiras coloridas.
Não estão bem definidas
As suas convicções,
Já que as manifestações
São em troca de uns trocados:
Militantes contratados
Nesse tempo de eleições.

Não são só os militantes
Ou cabos eleitorais
Que vendem seus ideais
Em condutas aviltantes.
Cenas mais repugnantes
Vêm do horário eleitoreiro:
Vende-se um partido inteiro,
Ali a coisa desanda,
E o tempo de propaganda
Vale mais do que dinheiro.

É bom estar preparados
Para o nível dos debates.
É provável que os embates
Venham todos recheados
Com segredos revelados
Sobre esquemas de bilhões,
Fraudes em licitações,
Desvios, corrupção,
Talvez todos com razão
Na troca de acusações.

E, nos dias atuais,
Surgiu um novo ambiente,
Onde a coisa fica quente
Em tempos eleitorais.
É nas redes sociais,
Onde o povo mais se agride,
A família se divide,
Se acaba muita amizade,
E, nessa agressividade,
A discussão não progride.

Ao invés de debater
Usando a voz da razão,
Xingamento e palavrão
É o que mais se pode ver.
Assim, também não vai ser
Possível resolver nada.
Quando a palavra é usada
Para ofender, somente
a argumentação decente
É depressa abandonada.

Amigos, como eu queria
Não estar desiludido
E acreditar que um partido
É feito de ideologia!
Pois sei que a democracia,
Apesar de suas mazelas
É uma das coisas belas
Que o ser humano criou
E, das crises que enfrentou,
Transpôs cada uma delas!

O desânimo me alcança
Mas, teimo em não desistir,
E, assim, hei de prosseguir
Mantendo viva a esperança
De ver alguma mudança
Nesse quadro deprimente,
Que eu aqui, ligeiramente,
Descrevi, nesse cordel,
Cumprindo assim meu papel
De alertar a minha gente!

Deixo claro que, apesar
De toda desilusão,
Quando chegar a eleição
Vou à urna, vou votar.
Ali, vou exercitar
A minha cidadania,
Na esperança de algum dia,
Eleger representantes
Sérios, probos e atuantes.
E viva a DEMOCRACIA!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

É PRECISO CONTINUAR RESPIRANDO

Quem costuma viajar de avião certamente conhece bem essa frase. Ela é ouvida sempre que a aeronave está taxiando, quando a tripulação transmite instruções de segurança aos passageiros: “Ponha a máscara primeiro em você, antes de ajudar crianças ou outras pessoas”.

Deveria ser óbvio, e talvez seja mesmo.

Afinal, estamos falando de máscaras de oxigênio que caem automaticamente diante dos passageiros, em caso de perda da pressão da cabine do avião.

Com os voos comerciais circulando por aí entre 35 e 40 mil pés de altitude, algo em torno de dez a doze mil metros, precisamos mesmo de uma cabine pressurizada para conseguir respirar satisfatoriamente. À medida que subimos, o ar fica rarefeito.

Mas, cada vez que ouço esse aviso, percebo que ele transmite algo que vai além das viagens de avião e da dificuldade para respirar (situação pela qual, felizmente, jamais passei!). Trata-se, na verdade, de uma advertência para a vida.

Vivemos cercados de pessoas que amamos e queremos ajudar. Filhos, pais, cônjuges, amigos. Muitas vezes, porém, ficamos tão concentrados nos problemas alheios que esquecemos de cuidar de nós mesmos. E então acontece algo curioso: na tentativa de salvar todo mundo, acabamos esgotando as próprias forças.

É aí que o aviso das máscaras nos mantém com os pés no chão, nos lembrando que, se queremos ajudar alguém, precisamos cuidar de nós mesmos primeiro.

Há algo de egoísmo nisso? Penso que sim. Mas é um egoísmo que tem a virtude de nos fazer reconhecer que não se pode oferecer serenidade aos outros quando não se está em paz consigo mesmo. E que, para servir de apoio, é preciso primeiro se manter de pé.

Há uma diferença importante entre tomar uma atitude pensando exclusivamente nos nossos próprios interesses e cuidar de si mesmo sem desconsiderar os outros. A primeira atitude nos isola; a segunda melhora a nossa qualidade de vida, sem prejuízo de estender a mão a quem precise.

Algo que talvez se possa chamar de “egoísmo solidário”. Parece paradoxal? Talvez. Mas isso não significa que seja inviável. E a beleza do fenômeno talvez esteja nesse aparente paradoxo.

O fato é que a orientação dada nos aviões é inquestionavelmente sábia. Porque, na cabine de uma aeronave ou nos desafios da vida, quem perde o próprio fôlego dificilmente conseguirá amparar outra pessoa.

Então, antes de ajudar alguém a respirar, certifique-se de que você mesmo continua respirando.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

DEPOIS DOS CRÉDITOS

O Dia dos Namorados sempre me traz à lembrança os grandes romances retratados pela arte.

As canções, o cinema e a literatura estão cheios de histórias de amor que nos emocionam.

Amores que superaram grandes obstáculos, como a de Ulisses e Penélope; que resultaram de encontros improváveis, como em “A Bela e a Fera”; histórias de personagens como Eduardo e Mônica, que, apesar de tão diferentes, descobriram um jeito de caminharem juntas.

Sei que nem todo mundo vive histórias assim, feitas de tramas espetaculares. Mas essa é talvez a principal utilidade dessas narrativas: inspirar as pessoas a perceberem o extraordinário escondido no cotidiano.

Porque muitas vezes o romance está menos nos grandes gestos que nas pequenas permanências; menos nas declarações memoráveis que na companhia silenciosa de quem escolhe ficar.

E há um detalhe importante a ser levado em conta nisso tudo: seja nos romances épicos, seja nas simples comédias românticas, a história costuma terminar exatamente quando o casal finalmente fica junto.

O beijo acontece. O reencontro ocorre. Os obstáculos são vencidos. Sobem os créditos.

Na vida real, é justamente aí que a história começa.

Com os desafios da convivência, com o exercício diário da tolerância, com o companheirismo dos dias fáceis e dos dias difíceis. E talvez seja justamente aí que o amor revele sua forma mais verdadeira.

Não é à toa que Belchior dizia que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Porque quem não atravessou oceanos e não venceu maldições ancestrais pode ter construído, dia após dia, uma história feita de conversas, paciência, afeto e presença.

E é aí que está a grandeza.

Então, o que tenho a dizer aos que estão juntos neste Dia dos Namorados é: olhem-se nos olhos e celebrem. Celebrem não apenas o amor que sentem, mas a história que construíram. Porque só vocês sabem o que enfrentaram para chegar até aqui, mas vocês chegaram.

Isso, por si só, já merece ser comemorado.

Com a vantagem que o seu filme pessoal não precisa terminar quando começarem a subir os créditos.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

PRÉ-ELEIÇÃO

Há certos institutos jurídicos que desafiam a compreensão do homem comum. E não se está falando aqui da redação das leis – apesar de existirem textos bem confusos – mas do conteúdo efetivo da norma. Das regras que servem de orientação para o cidadão conduzir seus atos.

Veja-se, por exemplo, a chamada “pré-campanha eleitoral”, um curioso período no qual alguém percorre cidades, concede entrevistas, critica adversários e aparece sorrindo em todas as redes sociais, deixando bem claro que pretende ocupar um cargo público ao qual se tem acesso por meio de uma eleição.

Essa pessoa pode fazer tudo isso para demonstrar suas pretensões eleitorais. Desde que, naturalmente, não peça votos. Porque aí já seria campanha. E campanha antes da data marcada na lei eleitoral não pode!

Cria-se, assim, uma espécie de teatro semântico-eleitoral, no qual todos fingem não ser exatamente aquilo que claramente são. Porque o candidato ainda não é candidato; a campanha ainda não é campanha; os noticiários se enchem de pesquisas de intenções de voto (mas apenas intenções); e o eleitor, embora seja o destinatário de todos esses movimentos, faz de conta que está apenas “acompanhando o debate democrático”.

Diante de tais peculiaridades do nosso calendário político, pré-candidatos transitam cautelosamente entre preâmbulos, previsões, precauções e prevenções jurídicas. Praticamente, uma regulamentação oficial do “pré-voto”!

O poeta popular percebe a precariedade do processo e pronuncia palavras preciosas:

No Brasil tem umas coisas
Que não consigo entender:
Por exemplo, pré-campanha,
Que danado vem a ser?
Conheço premonitório,
Prejuízo, precatório,
Preocupado e pregão.
Mas, garanto, meu senhor:
Nunca vi pré-eleitor
Votando em pré-eleição.

Mas, ligo a televisão
E logo é anunciado:
Pré-candidato Fulano
Hoje é nosso entrevistado.
Daqui a pouco, o sujeito,
Que pretende ser eleito
Pelo voto popular,
Faz um monte de promessa
– embora voto não peça –
Pra não se prejudicar.

Pois, se o sujeito falar:
“Pré-eleitor, vote em mim!”
Pode ir se preparando
Que a coisa pode dar ruim.
Pois campanha prematura
Tem reprimenda segura,
Prevista em regulamento.
E o pré-candidato tem
Que preparar muito bem
O seu pronunciamento.

Pode fazer juramento
De nunca prevaricar;
Pode prometer ao povo
Que o país vai prosperar.
Pode fingir que tem fé,
Pode até jurar que é
De Jesus grande devoto.
Mas deve estar prevenido
De não fazer um pedido
Ao eleitor: o pré-voto!

Com esses versos anoto
Pontos de perplexidade
Pelas leis que preconizam
Tamanha preciosidade
Apesar desse preceito,
Da fase prévia do pleito.
Já estou, presentemente,
Prevenido e programado,
Com meu voto preparado
Pra votar pra presidente!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

ESCRITÓRIOS SEM PAREDES

Houve um tempo em que certas atividades exigiam portas fechadas. Conversas profissionais, reuniões estratégicas, discussões financeiras ou jurídicas costumavam ocorrer em salas reservadas, onde a discrição era considerada parte da própria civilização.

Então veio o notebook. Depois o smartphone. Em seguida os fones sem fio. E, assim, surgiu uma nova variante da espécie humana: o profissional nômade do viva-voz.

É bem verdade que, no tempo em que os celulares eram apenas telefones, já havia quem fizesse questão de demonstrar que os seus negócios não podiam esperar por momentos de maior privacidade. Mas, com o avanço da tecnologia, as exibições de alta conectividade ficaram cada vez mais frequentes e explícitas.

Hoje, qualquer cafeteria vira facilmente uma filial improvisada de multinacional. Aeroportos tornaram-se coworkings permanentes. Restaurantes já não servem apenas comida: oferecem também, às vezes involuntariamente, ambiente para reuniões corporativas e alinhamentos de equipe.

Outro dia, enquanto eu e Natália – minha mulher – almoçávamos no restaurante de um shopping, observamos que um rapaz de seus vinte e poucos anos ocupou a mesa ao lado, posicionou o laptop diante de si e fez dois pedidos: um chope e a senha do wi-fi.

Até aí, nada demais. Afinal, eram quase duas da tarde de uma sexta-feira, e muita gente que estava naquele restaurante não voltaria mais ao trabalho naquele dia.

Mas, ao contrário do que deduzimos, ainda não havia “sextado” para ele. Minutos depois da chegada do rapaz, nossa atenção foi novamente atraída para a mesa vizinha: agora ele falava alto, em uma aparente discussão sobre relatórios, metas e medidas de compliance.

Natália olhou para mim com um sorriso de surpresa, e seu olhar já me encontrou sorrindo de volta e abrindo os braços – como o clássico emoji de “fazer o quê?”.

Já havíamos presenciado situações semelhantes e trocado impressões sobre o assunto, mas daquela vez fomos arrastados para uma videoconferência não agendada. Sem ninguém nos indagar sobre nosso interesse, fomos praticamente integrados ao conselho administrativo da empresa!

Esse não é um caso isolado. Certas pessoas parecem acreditar que a mera abertura de um notebook em local público lhes concede uma espécie de imunidade acústica. Como se o restante da humanidade automaticamente deixasse de existir diante da relevância transcendental de suas demandas profissionais.

E não se trata apenas de falar alto. Há também a teatralidade. O sujeito franze a testa para a tela. Faz pausas longas. Suspira. Concorda balançando a cabeça, mesmo quando ninguém ao redor perguntou absolutamente nada.

Há também os que caminham de um lado para o outro, com o celular na mão, reproduzindo em escala reduzida a energia de um CEO prestes a decidir os rumos da economia mundial — embora, às vezes, esteja apenas discutindo o atraso de uma planilha.

Alguns sequer se dão ao trabalho de usar fones de ouvido. O cidadão posiciona o celular sobre a mesa, ativa a câmera e passa quarenta minutos debatendo metas, contratos e indicadores, impondo a dezenas de desconhecidos a condição involuntária de plateia corporativa.

E o mais curioso: muitos desses assuntos parecem exigir sigilo absoluto. O tom de voz sugere alta complexidade estratégica. Mas tudo é compartilhado publicamente entre cappuccinos, garçons, ruídos de xícaras e, no específico caso aqui referido, goles em canecas de chope.

Longe de mim querer impor a alguém a maneira como trata os negócios de sua empresa. Estou apenas compartilhando com o leitor minha perplexidade – e confesso, incômodo – diante de um comportamento que parece ser o novo normal.

Pode ficar tranquilo o leitor que chegou até aqui e se reconhece como um desses executivos de escritórios sem paredes.

Talvez o verdadeiro símbolo dos tempos atuais não seja a inteligência artificial, mas a capacidade humana de transformar qualquer ambiente em escritório — e qualquer pessoa próxima em testemunha compulsória de sua produtividade.

Há algo de curiosamente paradoxal nessa nova etiqueta social: nunca se falou tanto em empatia, respeito aos espaços coletivos e convivência civilizada, mas jamais foi tão comum tratar o ambiente compartilhado como uma extensão irrestrita da própria sala, do próprio escritório e, sobretudo, da própria importância.