MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CRÔNICAS FORENSES: PAI CORINTHIANO

Era um processo no qual a autora pleiteava salário maternidade pelo nascimento de um dos seus três filhos. Alegava ser segurada do Instituto Nacional da Previdência Social, na condição de agricultora. Uma causa comum nos Juizados Especiais Federais espalhados pelo interior do Brasil.

O que havia de peculiar naquele processo era o fato de a autora ter recebido o salário maternidade quando nasceram os dois filhos mais novos. Só depois requereu o benefício em relação ao filho mais velho, mas o INSS negou. Assim, o que se discutia no caso era apenas se à época da primeira gravidez ela já trabalhava na agricultura.

Feita a chamada pelo servidor do fórum, a mulher entrou na sala de audiências acompanhada de um advogado já conhecido do juiz naquele tipo de processo.

Percebia-se que ainda era jovem, apesar da pele um tanto castigada pelo sol do sertão cearense. O vestido, longo e de mangas compridas, e o cabelo chegando quase à altura da cintura, também acrescentavam alguns anos à imagem daquela senhora.

Antes de tomar seu depoimento, o juiz fez algumas ponderações:

– Dona Luzia, não há dúvida que atualmente a senhora é agricultora. O próprio INSS reconheceu isso, quando pagou o salário maternidade dos seus dois filhos do casamento atual. Mas, estudando seu processo, ficou parecendo, pra mim, que a senhora teve o primeiro filho de um relacionamento anterior ao seu casamento, quando a senhora ainda não trabalhava com agricultura. Depois que seu primeiro filho nasceu, e que esse relacionamento terminou, a senhora converteu-se a uma igreja evangélica, onde conheceu o seu atual marido, pai dos seus outros dois filhos. A partir daí, senhora passou a trabalhar na agricultura com seu marido, que já era agricultor. Mas, quanto ao seu primeiro filho, que é quem interessa pra esse processo, me parece que o pai era um rapaz que trabalhou um tempo em São Paulo, mas voltou para o Ceará e vocês passaram a namorar. A senhora engravidou e, depois que o menino nasceu, ele foi pra São Paulo de novo e a senhora ficou só, com seu filho. Naquele tempo a senhora não era agricultora. Nem o pai de seu filho, que, em São Paulo, já fazia um tempo que trabalhava na construção civil e torcia pelo Corinthians. Foi isso que aconteceu ou eu tô enganado?

A mulher, surpresa com as palavras do juiz, disse, titubeante:

– Doutor… o senhor sabe da minha vida toda… Foi isso mesmo que aconteceu.

Esclarecidos os fatos, e após os advogados falarem, o juiz explicou que, nesse caso, ela tinha direito ao salário maternidade dos dois filhos mais novos, mas não do mais velho. Julgou improcedente o pedido e encerrou a audiência.

Mais tarde, o advogado da mulher foi ao gabinete do juiz, querendo saber como o magistrado havia extraído dos autos toda aquela história.

– Não foi muito difícil – explicou o juiz. – Pelas certidões de nascimento, identifiquei os dois pais. Analisando os dados do sistema do INSS, vi que o marido não tinha nenhum trabalho de carteira assinada, mas o pai do filho mais velho tinha vínculos de emprego em São Paulo, antes e depois do nascimento do filho. Não encontrei qualquer indício de que ela tenha casado com o pai do primeiro filho, mas na certidão de casamento com o pai dos outros dois, vi que o casório aconteceu meses depois que o pai do primeiro filho havia voltado a trabalhar em São Paulo. Quanto a ter se tornado evangélica, bastou observar o cabelo, a roupa, uma pequena Bíblia na mão, e os nomes dos filhos, tirados do livro sagrado: Josafá e Davi.

– Incrível, doutor. Agora que o senhor explicou, ficou fácil. É a experiência, né?

O advogado já se preparava para ir embora, quando lembrou de um último detalhe:

– Excelência, só mais uma coisa: como foi que o senhor descobriu que o pai da criança era corinthiano?

– Essa foi a parte fácil. O senhor observou bem a certidão de nascimento do menino? Nascido em janeiro de 2006, Carlito Tevez da Silva. Quem o senhor acha que escolheu esse nome pra criança?

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

VINTE ANOS DE MAGISTRATURA: O CONCURSO

À esquerda, a sede do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, no Recife-PE

A posse ocorreu no dia 25 de abril de 2001. Mas as primeiras recordações que me vêm são de quase dois anos antes, em meados de 1999, quando eu ainda era Procurador do Banco Central, em Fortaleza.

No começo da tarde, um colega chegou à Procuradoria com a notícia:

– Saiu o edital pra juiz federal da 5ª Região!

Embalado que vinha por concursos anteriores, com bons resultados nos certames do próprio Banco Central (dois anos antes) e da Advocacia-Geral da União (embora o resultado final ainda não houvesse sido publicado), fiz uma brincadeira que hoje me soa um tanto arrogante:

– Opa! Vamos lá! Se a primeira prova for daqui a mais de 90 dias, é bom vocês prepararem minha festa de despedida!

Os colegas riram. Acho que não me levaram a mal pelo excesso de confiança. O certo é que o edital realmente marcava a prova para cerca de 90 dias depois, talvez um pouco mais. Isso acabou me servindo como estímulo, pela vontade de cumprir a otimista previsão.

Os dias que se seguiram passaram voando. Em meados de setembro (lembrando sempre que estávamos em 1999) eu já estava fazendo a primeira prova, de questões objetivas, na sala de aula de uma escola, em Fortaleza.

Eu e uma multidão de gente. É muito estranha essa história de fazer concurso. Você vê todas aquelas pessoas chegando para fazer a prova e pensa: “Tanta gente para tão poucas vagas… Quantos dos que estão aqui hoje serão aprovados? Talvez nenhum”.

No caso, eram, salvo engano, dezessete vagas; ou vinte e uma; já não lembro com precisão.

Lembro que o resultado dessa primeira prova saiu muito rápido. Coisa de uns trinta dias depois.

Sem saber que a correção das provas já havia ocorrido, acabara de chegar à Justiça Federal, na Rua João Carvalho, em Fortaleza, para ver uns processos do Banco Central, quando me deparei com um grupo de pessoas aglomeradas, olhando umas folhas impressas por computador, fixadas em um flanelógrafo:

– O que é isso? – perguntei a um dos guardas do prédio.

– É o resultado do concurso pra juiz.

Aproximei-me devagar, ocupando o espaço deixado por cada pessoa que se afastava. Não era uma lista muito grande. Corri os olhos, do topo ao fim da lista, e rapidamente avistei o meu nome. Um dos últimos. Era preciso tirar nota 6,0 para passar à fase seguinte. Eu havia feito 6,1. Estava aprovado na primeira fase.

Dei alguns passos para trás e fui em direção ao guarda com quem havia falado antes. Estendendo-lhe a mão, falei, sorrindo:

– Pode me dar os parabéns. Tô dentro!

Aparentando certa surpresa, ele apertou minha mão com força:

– Parabéns, doutor!

Mais tarde, quando retornei à Procuradoria do Banco Central, os colegas procuradores já sabiam da minha aprovação. Fizeram festa. Foram generosos nos abraços. Mas aí eu já estava pensando nas provas subjetivas, que estavam marcadas para aproximadamente trinta dias depois.

Foram duas as provas subjetivas.

Na primeira, duas questões para discorrer e uma dissertação sobre um assunto jurídico. O tema da questão era de matéria penal: “O consentimento do ofendido na Teoria do Delito”.

Uma curiosidade a respeito dessas provas dissertativas é que eu memorizava frases genéricas de autores importantes e acabava encontrando um jeito de as encaixar nas minhas respostas, fazendo referência inclusive ao capítulo da obra que servira de fonte. Não sei se isso me ajudou de alguma maneira, mas eu imaginava que seria positivo para o candidato o examinador encontrar em seus textos citações de Hans Kelsen, Karl Engisch, Miguel Reale ou Paulo Bonavides.

Na segunda prova, mais duas questões, e a grande destruidora de candidatos: a elaboração de uma sentença judicial.

O leitor que chegou até aqui pode estar curioso quanto à matéria discutida na sentença, então, não custa relembrar: cabia ao candidato julgar um caso de embargos a execução fiscal, envolvendo matéria tributária. Mais precisamente, imposto de renda de pessoa jurídica tributada com base no lucro real.

Claro que havia uma série de questões processuais a resolver, antes de se chegar ao mérito.

A prova mais difícil da minha vida. Um inferno. O lado bom daquele dia foi que o alívio por ter terminado a prova foi tão grande que nem pensei mais se passaria ou seria reprovado.

Alea jacta est! A sorte está lançada!

Segundo a Wikipedia, a expressão “alea jacta est” significa, ao pé da letra, “os dados foram lançados”. E, nesse caso, os dados devem ter sido lançados com força, porque rolaram um bocado. O resultado das tais provas subjetivas, inclusive a sentença, só seria conhecido meses depois, entre maio e junho do ano 2000, se bem me lembro.

Na época, eu já havia deixado a Procuradoria do Banco Central, e havia assumido o cargo de Advogado da União, em Natal.

A Procuradoria da União na capital potiguar ficava na Av. Deodoro da Fonseca, quase em frente à Catedral Metropolitana de Natal. Certo dia, ao sair do trabalho, olhei para o templo cristão e pensei: “Se passar nesse concurso pra juiz federal, vou dar dez voltas correndo em torno da catedral”.

Catedral Metropolitana de Natal-RN

Cumpri a promessa poucos dias depois da publicação do resultado das provas subjetivas, mas a jornada até a magistratura federal estava longe de acabar. Depois de recursos de candidatos serem julgados, questões judiciais serem superadas, e apresentarmos a documentação referente aos chamados títulos (aprovações em concursos anteriores, artigos publicados, etc), a última fase do concurso somente aconteceria no começo de 2001: a temida prova oral.

Por esse tempo, eu continuava advogado da União, mas já havia deixado a cidade de Natal, depois de conseguir ser removido para Fortaleza.

Àquela altura do campeonato não havia mais concorrência entre nós, candidatos. Cada um lutava apenas consigo mesmo, para fazer a pontuação mínima exigida no edital, já que o número de sobreviventes era menor que a quantidade de vagas disponíveis. Isso mesmo: das centenas – talvez milhares – que se inscreveram, éramos agora menos de vinte guerreiros.

Preciso dizer algumas palavras sobre uma coisa chamada prova oral.

Não sei se hoje o sistema continua o mesmo, nem se há variações nos concursos para outros cargos ou outros tribunais, mas estou certo que a tensão que envolve o ato continua grande.

Em nosso concurso, o procedimento era o seguinte: durante alguns dias, os membros da comissão fariam perguntas a cada candidato, separadamente; para isso, todos nos reunimos em Recife naqueles dias, e foi determinada uma ordem pela qual os candidatos seriam chamados; assim, a cada dia alguns candidatos eram inquiridos.

Vinte e quatro horas antes da prova, a banca examinadora sorteava o que se chama de “ponto”, no qual constavam os tópicos do programa do concurso sobre os quais deveriam versar as perguntas a serem feitas na prova. Ou seja, cada candidato só ficava sabendo os temas das perguntas na véspera da prova.

Um detalhe importante, que quem não vive ou não viveu o mundo dos concursos talvez não saiba: cada ponto era formado por tópicos de cada uma das disciplinas; assim, um ponto reunia temas de Direito Civil, Penal, Constitucional, Administrativo, Tributário, Previdenciário, Internacional, etc.

Dito isto, indago ao leitor: quem dormiria naquelas 24 horas?

Não sei os outros, mas eu devo ter dormido no máximo umas duas horas, entre o fim da madrugada e o começo da manhã. O restante do tempo foi vivido em um quarto de hotel, na companhia de outros colegas, que também fariam prova no dia seguinte, revendo tudo o que era possível. A alimentação ficava por conta de sanduíches solicitados pelo serviço de quarto.

Alternávamos períodos de leitura e anotações com momentos nos quais fazíamos perguntas uns aos outros, para estimular nossa capacidade de elaborar respostas imediatas. Não me era possível perceber nenhum clima de disputa por posições na classificação. Ao contrário, cooperávamos o quanto possível. Nasciam ali amizades que certamente nos acompanharão por toda a vida.

No fim desse processo, cheguei para a prova quase em transe. Sentei-me diante de cada um dos membros da comissão e fui respondendo o que me perguntavam como se estivesse em “modo automático”. Como se minha mente seguisse um algoritmo que buscava dispositivos legais, doutrinários e jurisprudenciais a partir de palavras chave contidas nas perguntas.

Talvez por isso eu não me lembre mais de nenhuma das perguntas que me foram feitas. Lembro apenas que o último examinador foi o doutor Ivan Lira de Carvalho, juiz federal em Natal, que participava da banca examinadora na condição de professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Estava encarregado de formular perguntas sobre Direito Penal, e havia recebido dos candidatos que me antecederam a carinhosa alcunha de “Ivan, o terrível”, em alusão ao czar russo, dado o grau de dificuldade das perguntas que fazia.

Ivan Lira já era meu conhecido, da época em que fui advogado da União e atuei em alguns processos sob a sua jurisdição, em Natal. O que eu não esperava era que ele fosse lembrar disso na hora da minha prova. Mas lembrou.

Sentei-me, cumprimentei-o, e ele, antes de iniciar a inquirição, disse uma frase que jamais esqueci. Falou pausadamente, quase sorrindo:

– Doutor Marcos Mairton… era advogado da União em Natal, mas, na primeira oportunidade, desprezou o Rio Grande do Norte e se mandou para o Ceará. O mundo dá voltas, né doutor?

Não me recordo se respondi alguma coisa. Lembro apenas que tentei convencer a mim mesmo de que o introito havia sido uma tentativa de me deixar menos tenso. Que não funcionou. Talvez tenha tido efeito contrário. Enquanto eu recuperava a concentração, ele prosseguiu:

– Vou fazer só uma pergunta, doutor. É tudo ou nada. O senhor responde “sim” ou “não” e “porquê”.

E fez uma pergunta sobre a possibilidade da tentativa nos crimes culposos.

À medida que ele formulava a pergunta, meu coração se enchia de alegria. Naquele dia, eu seria capaz de falar trinta minutos sobre aquele assunto, sem precisar parar sequer para beber água. Senti que vencia a última batalha.

Tivemos conhecimento do resultado final do concurso no fim da tarde daquele mesmo dia.

No dia seguinte, ao chegar à casa dos meus pais, em Fortaleza, havia música tocando, cerveja gelada e churrasco à vontade. Para amigos e parentes, a festa já estava em pleno andamento.

A vizinhança toda veio dar parabéns ao filho caçula do Seu Mansueto e da Dona Ivonete. Todos já admiravam o fato de o filho mais velho ser professor da Universidade Federal do Ceará e capitão-dentista da Polícia Militar; agora, o mais novo seria Juiz Federal.

Não é meu propósito aqui falar de desigualdades sociais, mas não posso deixar de mencionar o fato de que aquela comemoração acontecia em uma casa simples, no meu querido bairro do Pirambu, em Fortaleza. Os convidados eram donas de casa, comerciárias, motoristas de ônibus, taxistas, mecânicos, pedreiros e outros profissionais que sequer haviam concluído o ensino médio. Gente honesta e trabalhadora, mas sem muito estudo.

O orgulho dos meus pais em meio a tudo aquilo era plenamente justificável, porque, em um lugar onde praticamente ninguém tinha curso superior, meu irmão já havia concluído seu doutorado em Odontologia, enquanto eu era mestre em Direito.

E era muito bom sentir que não apenas meus pais estavam orgulhosos e felizes. Cada uma das pessoas que ali estava demonstrava uma alegria verdadeira. Talvez por se sentirem parte da história do menino estudioso que eles viram crescer, e que, pelo estudo, chegava a um cargo público de grande importância.

Eu também estava feliz. Mas sabia que a jornada estava apenas começando.

Minha posse como juiz federal ocorreu dias depois daquela festa, no Plenário do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, ao lado dos meus colegas de concurso, que se tornaram amigos para a vida toda, e por quem tenho profunda admiração: George, André, Gledison, Niliane, Francisco, Leonardo, Jailsom, Joana Carolina, Maximiliano, Raimundo e César.

Na cerimônia, sentimos falta do amigo também querido Fernando Braga, que havia sido aprovado e nomeado junto conosco, mas à época já era Procurador da República, e preferiu permanecer no Ministério Público Federal. Tornar-se-ia membro do TRF da 5ª Região apenas anos depois, como Desembargador Federal, na vaga do quinto constitucional Tribunal destinada ao Ministério Público.

Naquela noite de quarta-feira, no dia 25 de abril de 2001, fechava-se um ciclo em minha vida. Iniciava-se outro, que já dura vinte anos.

No ciclo em curso, é incrível perceber que tanta coisa aconteceu e, ao mesmo tempo, como tudo passou tão rápido.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O BOM LADRÃO NA TEOLOGIA MANSUETIANA

Nesta Semana Santa de 2021, estive lembrando de como Seu Mansueto – meu saudoso pai – apreciava debater assuntos religiosos. Como ficava feliz quando recebia em sua casa missionários cristãos, fossem eles católicos, protestantes ou testemunhas de Jeová, o que era mais comum.

A coisa se tornava ainda mais curiosa pelo fato de Seu Mansueto ler a bíblia diariamente, mas se considerar ateu. Por influência minha, às vezes admitia ser agnóstico.

– Eu acredito em uma força superior que criou tudo – dizia ele. – Criou e depois deixou aí para que cada um se vire. O resto é conversa.

– Então o senhor é agnóstico, papai. Se fosse ateu não acreditaria nem nessa força superior que teria criado o mundo.

– Meu filho, se você está me dizendo que é assim, então eu sou… Como é o nome mesmo?

– Agnóstico. Alguém que não acredita nem duvida da existência de Deus.

– Então eu sou agnóstico. Taí. A partir de agora, quando me perguntarem qual a minha religião, eu vou dizer que sou agnóstico.

Isso não facilitou a vida dos missionários que por lá apareciam. As controvérsias surgiam de várias passagens da Bíblia, deslocando-se do Livro do Gênesis para a crucificação de Cristo numa fração de segundos, como presenciei certa vez.

– Mas, Seu Mansueto, como é que Deus pode ter deixado cada um “se virar”?

– Eu acho que foi. Se Deus existe e criou o mundo, o trabalho dele acabou aí. O resto é com a gente. Cada um que se vire.

– Então, por que Ele teria enviado o próprio filho para nos salvar? – replicou o pregador.

– Você tá falando de Jesus?

– Claro! Jesus, nosso Salvador!

– Pois, se Jesus foi mesmo filho de Deus, taí uma prova de que o pai dele não tá preocupado com ninguém. Veja se tem cabimento. Deus manda o filho dele pra cá, pra ensinar as pessoas a serem boas. Aí os “manda-chuvas” da época acham que aquelas pregações são uma coisa perigosa para eles. Mandam prender, espancar e matar Jesus. Deus vê o filho sofrer toda essa covardia e deixa o rapaz morrer inocente. Que pai é esse, meu amigo?

– Mas…

– Pois, se fosse um filho meu, primeiro, eu não botava ele numa boca quente dessas. Depois, hoje mesmo, sem eu ser Deus, se eu visse esse pessoal querendo matar covardemente meu filho, eu me lascava todinho, mas não aceitava uma coisa dessas. Pode ter certeza: prum cabra crucificar um filho meu, sem ele ter feito nada de errado, tem que acabar comigo primeiro. E, se eu tivesse o poder de fazer e desfazer, como você diz que Deus tem… Aí a “peia dobrava”, meu amigo! O “pau cantava” era sem pena!

– Mas, Seu Mansueto, tinha que ser como foi mesmo. Porque foi o sofrimento de Jesus que pagou os pecados dos homens. Por isso que basta aceitar Jesus como nosso Salvador para a gente se salvar também.

– Salvar, pra você, quer dizer ir pro céu? Ficar lá, com Jesus, os anjos… é isso?

– É.

– Então, eu não preciso me preocupar. Porque, se o céu existe, eu devo ir é pra lá mesmo. Depois que eu morrer, é claro.

– Então, o senhor já aceitou Jesus?

– Olhe, eu ainda não entendi bem o que é “aceitar Jesus”, mas eu acho que Deus, pra ser Deus, tem que ser justo.

– Isso é verdade. Deus é justo.

– Então, raciocine comigo. Pelo que tá escrito na Bíblia, quem foi uma pessoa que já morreu sabendo que ia pro céu?

– Como assim?

– Assim mesmo, como eu estou dizendo. Antes do camarada morrer, Jesus garantiu vaga pra ele no céu. Você sabe a história do ladrão que foi crucificado junto com Jesus? Um que chamam de “bom ladrão”?

– Sei.

– Então. Você lembra que Jesus disse, ali mesmo, na cruz, que ele ia direto se encontrar com o Pai dele? Se Jesus é Deus, como você diz, ele não ia mentir. Então aquele ladrão foi pro céu, que é onde dizem que Deus fica. Ora, se Jesus garantiu lugar no céu para um ladrão, então, eu, que nunca roubei, mereço ir pro céu também. Aliás, eu mereço até mais do que o tal do bom ladrão. Pra lhe ser bem sincero, até hoje eu não sei por que dizem que ele era bom. Pra mim, não existe ladrão bom.

– Seu Mansueto, é porque, quando estava na cruz, ele se arrependeu! Arrependeu-se de verdade, com sinceridade. Deus sabe se o arrependimento é sincero…

– Ah, mas aí é uma beleza! O cidadão faz as estrepolias que bem entende, e depois, quando está à beira da morte, crucificado, se arrepende! Arrependimento, depois de condenado? Pra mim não serve. Quem tiver que se arrepender, que se arrependa antes de ser descoberto. E, ainda assim, se quem roubou e se arrependeu merece ir pro céu, quem nem chegou a roubar merece muito mais. Por isso é que eu digo que, se houver céu, Deus pode até não me deixar entrar, mas ele vai saber a injustiça que está cometendo.

– Mas, Seu Mansueto, são os mistérios de Deus…

– Rapaz, não venha com essa história de mistério, não… Você não é o missionário? Então o seu serviço é me explicar as coisas que eu não entendo, pra eu me convencer a entrar pra sua religião…

– Eu sei, Seu Mansueto, mas veja bem…

E a conversa prosseguia em divergências sem fim, até o missionário se cansar e ir embora, geralmente com a promessa de voltar outro dia, acompanhado de outro mais experiente.

Enquanto Seu Mansueto viveu, muitos foram os religiosos surpreendidos com os argumentos de um homem de raciocínio extremamente lógico, que, apesar de duvidar da existência de Deus, conhecia os textos bíblicos como pouca gente.

Há outra coisa que é justo reconhecer: Seu Mansueto era absolutamente autêntico no que dizia. Defendia seus pontos de vista de sua teologia com uma honestidade intelectual que deixava transparecer facilmente o respeito que tinha por essas questões.

Se há mesmo uma vida após a morte – e acredito que há – Seu Mansueto hoje em dia deve travar uns bons debates por lá.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

UM ABRAÇO (*)

Xavier estava sentado, com os cotovelos sobre a mesa e o queixo apoiado nas palmas das mãos. Havia um murmúrio de vozes, mas ele parecia alheio ao que se passava ao seu redor.

Com os olhos fechados, podia ver, no fundo da sua mente, a rua lá fora.

Mas não havia ninguém ali. As calçadas, as praças, tudo estava vazio. Se alguém aparecia, caminhava apressado, olhando para os lados, como se estivesse fugindo de alguma coisa.

Um ruído o trouxe de volta ao bar. Um leve ruído. Porcelana tocando madeira. Em seguida, uma voz:

– Senhor… seu café…

O cheiro agradável da bebida encheu suas narinas. Agora ele ouvia as vozes e risos ao seu redor.

Xavier abriu os olhos. Percebeu a fumaça saindo do líquido escuro na xícara.

Ergueu-se e olhou para o garçom. Sem dizer uma palavra, o abraçou como se fossem velhos amigos.

E assim comemoraram o fim da pandemia.

(*) Este é meu último conto de 2020 no JBF. Que ele seja como uma profecia para 2021. Agradeço a todos os fubânicos que dedicaram algum tempo aos escritos desta coluna. FELIZ ANO NOVO!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O RESGATE DO GOLFINHO

Foto por Melissa Carseller, do site Pipa Aventura

Certa manhã, um golfinho parecia disposto a por fim à sua própria vida. Tomando impulso com a cauda, deslizou na crista de uma onda e lançou-se em direção à praia, dando claros sinais de que estaria decidido a chegar até a areia. Ali fatalmente morreria de desidratação.

Os estudos mais recentes no campo da zoologia não levam muito a sério a possibilidade de animais se suicidarem. Apesar de haver relatos a esse respeito, os biólogos consideram outras razões – como estresse, medo ou tentativa de fuga de um cativeiro – que gerariam situações nas quais há apenas a aparência de o animal ter tomado a decisão de se matar.

Especificamente quanto à ordem dos cetáceos, da qual fazem partes golfinhos e baleias, sempre chama a atenção quando grupos inteiros encalham em alguma praia. Mas também nesses casos as teorias mais aceitas afastam a possibilidade de suicídio, pelo menos nos moldes dos cometidos por seres humanos.

Alheio a essa discussão entre cientistas, aquele jovem golfinho – sim, era um jovem golfinho – parecia firme em seu propósito de deixar para trás o oceano, a família e seus amigos marinhos.

Provavelmente já conseguia ver a areia da praia, quando, nos últimos metros do fatídico percurso, acabou esbarrando em algo que o impediu de alcançar seu objetivo.

Era um homem, que, depois de caminhar um pouco pela praia, havia entrado no mar até o ponto onde a água chegava à altura dos seus joelhos. Olhava distraído para o horizonte, quando foi surpreendido com o impacto do golfinho contra suas pernas.

Ao ver o golfinho debatendo-se naquelas águas rasas, com o dorso já exposto ao sol, o homem o empurrou contra as ondas, para que pudesse voltar à segurança das águas mais profundas.

Mas o golfinho não ajudava. Quanto mais o homem o empurrava para dentro do mar, mais ele insistia em ir em direção à praia.

Ficaram nesse impasse: o golfinho se esforçando para chegar à areia e o homem lutando, com todas as suas forças, para o devolver às profundezas do mar.

Até que, depois de alguns minutos, quando os dois já estavam ficando exaustos, o golfinho apontou subitamente o nariz em direção às ondas e, movimentando a cauda com força, seguiu mar adentro.

Num instante, foi como se uma luz houvesse iluminado a mente daquele golfinho. Parecia ter reconhecido que todo aquele esforço de um estranho para o salvar só poderia ser um sinal de que sua vida valia mais do que lhe parecia. Ou, pelo menos, mais do que lhe parecera em um momento ruim.

Mais alguns segundos se passaram. O homem agora via o golfinho saltar por sobre as ondas e desaparecer entre espumas. Com o golfinho a salvo, resolveu voltar para casa.

Enquanto ainda caminhava pela areia da praia, o homem admirava a beleza do céu e aspirava o ar com mais força, para sentir o cheiro do mar. Ouvia o barulho das ondas e sentia o atrito da areia sob os seus pés. Estava feliz com o que acabara de realizar.

Mas estava sobretudo grato àquele golfinho.

É que, naquela manhã, aquele homem havia saído de casa decidido a entrar no oceano o máximo que pudesse, até não conseguir mais nadar de volta.

O encontro com o golfinho o havia impedido de por em prática o seu plano suicida.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

UMA MULHER, UM NOCAUTE!

No dia 11 de fevereiro de 1990, James “Buster” Douglas, um boxeador até então praticamente desconhecido, surpreendeu o mundo: venceu o aparentemente imbatível Mike Tyson, detentor dos títulos mundiais de pesos pesados dos três principais organismos internacionais do boxe.

Tyson era um fenômeno. Destruía os adversários que encontrava pela frente. Suas lutas eram garantia de estádios lotados e picos de audiência na TV.

Mas, como a luta com Douglas aconteceu no Japão, muita gente no Brasil ficou sem assistir, por causa do fuso horário. Foi o que ocorreu comigo: fui a uma festa naquela noite de sábado e só no domingo pela manhã fiquei sabendo do resultado. Apaixonado que sempre fui pelo boxe, lamentei não ter visto o combate.

Calhou, porém, de acontecer que, no dia seguinte, eu passava pelo calçadão da Rua Liberato Barroso, no centro de Fortaleza, quando vi a luta sendo exibida em um televisor, na vitrine de uma loja de eletrodomésticos. A venda de videocassetes no Brasil estava em plena expansão, então o gerente havia gravado a luta e a estava exibindo como forma de atrair clientes.

Naquele tempo, eu era bancário e trabalhava das doze às dezoito horas, com quinze minutos de intervalo para o lanche. Havia saído para fazer uso dessa pausa, quando me deparei com a chance de ver a luta que havia perdido no fim de semana. Fiz um rápido cálculo da relação custo-benefício de me demorar por ali e decidi: ficaria sem meu repasto e ainda voltaria atrasado para o trabalho, mas veria a queda de Tyson. Afinal, em um tempo em que não tínhamos acesso a facilidades como TV a cabo e YouTube, quando é que eu teria oportunidade de ver aquela luta de novo?

Havia mais gente interessada em ver os dois lutadores trocando jabs, ganchos e cruzados. Logo se formou um grupo de espectadores na frente da vitrine. Embora naquele ponto do calçadão houvesse apenas um banco de praça, que não comportava mais que três pessoas, cada um ia se acomodando como podia. Dois jovens sentaram-se no chão, à frente do dito banco, enquanto outros três encostaram-se a um cesto de lixo. A maioria contava apenas com o apoio das próprias pernas. Com muito jeito, consegui um lugar escorado ao tal banco de praça, de três lugares, no qual, àquela altura, já estavam sentados cinco rapazes.

À medida que a luta continuava, muitas pessoas paravam para ver o que estava acontecendo, mas logo seguiam adiante. Apenas alguns homens, principalmente os mais jovens, é que acabavam ficando para ver o final. De qualquer modo, a cada round, o grupo de telespectadores aumentava.

Perto do final do oitavo assalto, já éramos mais de vinte. Um office-boy desatento cometeu o erro de passar entre nós e a vitrine, bem na hora em que Douglas pressionava Tyson contra as cordas. O protesto foi geral:

– Sai daí, abestado!

– Transparente!

– Vai passar na frente do cabaré da tua mãe!

O rapaz percebeu que estava incomodando e saiu dali rapidinho, ao som de uma sonora vaia. Não ficou claro se a vaia era para ele ou para Buster Douglas, que acabava de ir à lona, depois de receber um violento uppercut no queixo.

Agora já éramos mais de trinta. O office-boy seguiu o seu caminho e Douglas conseguiu se recuperar. A pequena multidão estava inquieta, os níveis de testosterona altos e subindo. O round nove já havia começado e a cada golpe dos lutadores, ouviam-se murmúrios, impropérios, choques de uma mão fechada contra a palma da outra mão. Parecia até uma transmissão ao vivo.

A expectativa aumentava. Enquanto os treinadores estavam novamente cuidando de seus pupilos e dando-lhes instruções, alguém lembrou que Tyson cairia no próximo assalto. Muitos de nós conversávamos sobre a luta como se fôssemos velhos amigos, embora nunca houvéssemos nos encontrado antes. Éramos como meninos desconhecidos a quem se entrega uma bola de futebol, capazes de passar horas jogando sem sequer saber os nomes uns dos outros.

Soou o gongo para o décimo assalto. Os lutadores levantaram de seus corners, aproximaram-se e trocaram alguns golpes. Douglas parecia mais determinado. Toda a nossa atenção estava voltada para a luta, quando, de repente…

Ela apareceu… Saindo, assim, do nada, como se houvesse se materializado ali mesmo… Veio andando lentamente, com o olhar voltado para a vitrine na qual assistíamos à luta, de forma que não dava para ver direito o seu rosto.

Mas quem estava preocupado com seu rosto, se havia tanto para admirar no restante do corpo? Corpo? Era um monumento! Tudo eram pernas, nádegas, peitos e sensualidade. Ainda mais com aquela blusa curtinha deixando à mostra a barriga, o umbigo… Uma sainha mais curta ainda, nos permitia admirar tudo o que podia ser visto das coxas para baixo e deduzir o que ficava encoberto dali para cima…

Aliás, que paradoxo ver que aquele pedaço de tecido era pequeno o suficiente para deixar tanta coisa à mostra, e grande o bastante para deixar tanta coisa oculta, a provocar nossa imaginação!

Mas, não me dedicarei a maiores detalhes quanto a descrições físicas. Dizer que era morena seria uma indelicadeza com as loiras, as negras, as ruivas… E vice-versa. Além do mais, o que importa a cor de sua pele ou a forma de seus cabelos? Era uma mulher fantástica e pronto, quem quiser que imagine a sua!

O que interessa é que continuou caminhando lentamente por aquele espaço sagrado que separava os lutadores de sua platéia, como se ignorasse totalmente nossa presença e não desse a menor importância para Mike Tyson e Buster Douglas.

Parecia concentrada em algo logo abaixo da TV, no chão da vitrine talvez. Parou e inclinou o tronco em uns quarenta e cinco graus, como se tentasse enxergar melhor algum detalhe do objeto de sua atenção, o qual até hoje não sei o que era. Lembro apenas que a inclinação de seu corpo fez com que a saia parecesse ainda mais curta.

Em pleno centro da cidade, no meio da tarde de uma segunda-feira, fez-se por alguns instantes um silêncio de igreja vazia. Até uma folha que caísse no chão seria ouvida naquele momento.

Mas nenhuma folha caiu. E nenhum de nós se moveu. Ficamos paralisados, vendo-a passar. Tenho certeza que muitos suspenderam a respiração por todo o tempo em que deslizou à nossa frente.

Alheia a tudo, ela continuou o seu caminho. Lentamente, despreocupadamente. Quando faltava apenas um passo para chegar à outra extremidade da vitrine, um engraçadinho saiu do transe em que se encontrava e soltou a voz:

– Aí tá certo, né? Pode é ficar passando pra lá e pra cá o dia todo que ninguém diz nada!

Foi o suficiente para nos libertar a todos. Uns gargalhavam, outros vaiavam, outros tantos aplaudiam. Um rapaz deu um tapa no ombro do outro e exclamou:

– Puta que pariu! O que é aquilo, meu irmão!?

O amigo limitou-se a abrir os braços e arregalar os olhos. Alguns chegaram a bater palmas cadenciadas e iniciar um coro de “Volta! Volta!”.

Acho que nessa hora ela percebeu que era a causadora daquele rebuliço, pois apressou o passo e afastou-se dali.

Então, quando nossa musa já praticamente sumia na multidão, olhei novamente para a TV e vi Mike Tyson caído. Engatinhava no ringue, em movimentos vacilantes como os de um bebê. Apoiou-se na mão esquerda, enquanto, com a direita, tentava recolocar o protetor na boca, mas o movimento era patético e inútil. A contagem chegava a dez. Estava derrotado. Restava-lhe como consolo apenas o abraço carinhoso do mediador do combate.

Quanto a mim, sabia que o melhor a fazer era voltar correndo para o trabalho e torcer para que meu chefe não houvesse percebido que eu havia prolongado demais o intervalo para o lanche.

(*) Escrevi essa crônica em 2010. Está no meu livro “Contos, crônicas e cordéis“, de 2012. Ao ver os anúncios da volta de Mike Tyson, em luta contra Roy Jones Jr., resolvi postá-lo novamente.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

AINDA O VÍRUS

Escrevo no dia 9 de novembro de 2020. Quase oito meses atrás, publiquei uma crônica na qual falei do modo de vida que havia adotado após a chegada da pandemia do coronavírus ao Brasil.

Na época, diante dos fatos noticiados na imprensa a respeito do assunto, anunciei as metas que norteariam a minha conduta. A meta principal: não contrair a doença. A meta alternativa: contraindo-a, não a transmitir a ninguém.

Também comentei, na referida crônica, o quão diferente havia se tornado uma simples ida ao supermercado. Falei de luvas, álcool em gel e cuidados com a desinfecção dos produtos adquiridos. Práticas que repentinamente haviam sido incluídas no meu cotidiano.

Não falei de máscaras, porque estas apenas se incorporariam ao nosso vestuário semanas depois. Menos pelas tentativas de imposição dos governos, e mais pela nossa crença nas opiniões dos especialistas, divulgadas a toda hora nos meios de comunicação.

Aqui no Brasil, somente em julho entraria em vigor a Lei Federal 14.019/2020, tornando obrigatório o seu uso, mas a depender de regulamentação a ser estabelecida pelo Poder Executivo federal.

Desconheço se houve tal regulamentação. Sei que, mesmo antes da publicação da Lei 14.019/2020, já se tinha notícia da edição de decretos estaduais e municipais estabelecendo punições a quem circulasse sem máscara em espaços públicos. Tenho dúvidas quanto ao valor jurídico desses decretos, ante o disposto no art. 5º, II, da Constituição Federal:

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

Mas meu objetivo aqui não é fazer uma análise jurídica da suposta obrigatoriedade do uso de máscara no Brasil. Talvez faça isso em um futuro breve, mas não hoje. Hoje, minhas reflexões não estão no dever-ser das normas jurídicas, e sim no ser-e-acontecer do dia a dia.

Porque na semana passada fiz algo que há meses não fazia: fui almoçar em um restaurante. E ainda me é estranho ver mesas deliberadamente deixadas vazias, para que os comensais mantenham-se distanciados; observar pessoas usando máscara enquanto caminham entre as mesas; ter a temperatura do corpo medida na chegada ao estabelecimento.

Medidas que talvez estejam funcionando. Afinal, nos últimos três meses, apesar da reabertura de inúmeros estabelecimentos comerciais, há uma nítida tendência de queda na quantidade de novos casos e novos óbitos confirmados no Brasil por COVID-19.

Fonte: G1

Por outro lado, pode não ser nada disso. Pode ser que esses números estejam caindo simplesmente porque muita gente já foi contaminada e muita gente já morreu. A tal imunização de rebanho. Quem sabe? Embora reconheça a minha imensa ignorância na área, cada vez que tento ler sobre o assunto, encontro informações desencontradas e até contraditórias.

Então, o que me resta é observar o que acontece ao meu redor.

Olhar as pessoas em volta e imaginar quem entre nós carrega consigo o corona vírus. Nas mãos, nas roupas, na sola dos sapatos, nas entranhas… Quem de nós é seu hospedeiro? Quem de nós já o teve em suas células e hoje ostenta a tão sonhada imunidade? Talvez permanente, talvez temporária…

No restaurante, semana passada, ficamos certos de que a nossa mesa estava livre dessa presença non grata, porque a jovem que nos atendeu teve o cuidado de espalhar álcool na superfície de madeira. Mas como saber se eu mesmo não levei o vírus comigo, na minha própria roupa ou no meu telefone celular?

O fato é que ele pode ter grudado no meu tênis da última vez que saí para passear com meu cachorro – ou no cachorro mesmo – e estar atualmente no tapete da minha sala. Ou no sofá, ao meu lado, enquanto vejo um jogo de futebol na TV.

O leitor que chegou até este ponto tem motivo para pensar que, se até aqui escapei do vírus, não consegui me defender de uma psicose. E agora ando por aí assustado, sentindo pavor de um inimigo invisível, que me espreita a cada passo.

Curiosamente, isso não acontece. Depois de sete meses dessa nova realidade que o vírus nos impôs, entristeço-me com as centenas de milhares de famílias que perderam seus entes queridos, mas me sinto bem mais sereno em relação ao risco de contrair a doença e sofrer os seus tão variados efeitos.

Continuo mantendo os cuidados com a lavagem das mãos e o uso do álcool nas compras do supermercado, mas sem a tensão dos primeiros meses. O trabalho em regime de home office continua me permitindo sair de casa apenas quando necessário, mas essas saídas já não causam tanto estresse.

Como se o novo corona vírus fosse (e parece que é) apenas mais um ser que compartilha conosco a vida na superfície do nosso planetinha azul. Um ser que tem antecipado a morte de muitos da nossa espécie, e dá sinais de que pode continuar a fazer isso por um tempo cuja duração ainda se desconhece. Mas sobre o qual estamos a cada dia aprendendo mais.

Pode ser que em breve tenhamos uma vacina. As notícias mais recentes apontam para isso, nos enchendo de esperança. Mas também pode ser que demore. Pode ser até que nenhuma das que estão sendo testadas funcione satisfatoriamente.

Independentemente de alguma dessas possibilidades se tornar realidade, o que me parece cada vez mais claro é que a suspensão de atividades econômicas vai se tornando uma providência cada vez menos viável. E de eficácia duvidosa. Se nos primeiros meses da pandemia o “fique em casa” fez sentido, o fato de o número de óbitos vir decrescendo após a reabertura do comércio pode indicar o contrário.

Quem pode afirmar essas coisas com certeza?

Imagino que, para quem teve alguém da família morto pela COVID-19, deve ser bem tenso entrar em um trem ou ônibus, para se deslocar para o trabalho ou voltar para casa. E tantas outras coisas que já foram simples, mas hoje envolvem risco para a saúde e até para a vida.

Mas as pessoas precisam ganhar o seu sustento, e nem todos têm a possibilidade, de trabalhar em casa (como eu). Assim, cada vez mais as pessoas estão nas ruas. Não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Jornais noticiam uma segunda onda do vírus na Europa, mas já não é tão fácil convencer as pessoas a se isolarem em casa.

No fim das contas, a espécie humana há de seguir o seu caminho. O vírus também.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

METAIS

Confesso que hesitei antes de escrever este conto. E hesitei mais ainda em publicar. Pela sua carga de violência. Não gosto de contar histórias violentas.

Mas, como já disse em várias oportunidades, às vezes os personagens de um conto me aparecem em sonho, pedindo para que eu conte suas histórias. E, nesse caso, um dos personagens insistiu muito. Primeiro, pedindo que eu escrevesse o texto, depois, que o publicasse. Ao todo, foram mais de uma dúzia de aparições, praticamente implorando que o caso fosse exibido em linguagem escrita.

Acho que ele me venceu pelo cansaço. Não quero mais sonhar com isso.

Eis, portanto, o texto encaminhado para publicação.

Apenas advirto: SE VOCÊ É UMA PESSOA CUJA SENSIBILIDADE RECOMENDA NÃO LER HISTÓRIAS VIOLENTAS, PARE DE LER AQUI.

Feita a advertência, vamos aos fatos.

Em uma manhã ensolarada de um dia qualquer, no meio da semana, um rapazinho, de seus dezesseis anos, caminhava em uma praça com seu cãozinho. Era um animalzinho pequeno e peludo, talvez um maltês ou um shitszu. Com a coleira presa a uma guia retrátil, às vezes se adiantava em relação ao seu humano, às vezes ficava um pouco para trás.

O rapaz, com algumas espinhas e muitas sardas no rosto branco, tinha o cabelo grande o suficiente para esconder um pouco dos olhos, mas não para chegar até os ombros. Parecia não ter se penteado naquela manhã. Vestia uma bermuda de estampa camuflada – aparentemente folgada para seu corpo franzino – e comprida, cobrindo suas pernas finas até a altura dos joelhos. A camiseta branca, surrada, com uma frase qualquer no peito, em inglês, bem poderia ser uma espécie de pijama. Nos pés, sandálias de borracha, dessas chamadas japonesas, com uma parte que se prende entre o dedão e o indicador.

Seguiam em plena harmonia, com as devidas pausas para o pequeno animal farejar alguma coisa ou fazer suas necessidades fisiológicas. Não demorou até o rapaz tirar um saco plástico de um dos muitos bolsos da sua bermuda, recolher dejetos sólidos do seu amigo canino e os depositar em um cesto de lixo. Depois seguiram em seu passeio matinal.

Estavam nisso, quando o rapazinho percebeu um sinal de perigo. Em sentido contrário, vinha um homem, de uns 30 anos, também acompanhado de um cão. Fisicamente bem mais forte que o rapaz, usava apenas calção e tênis. Aparentemente, havia saído de casa sem camisa, não pela falta da peça em seu guarda-roupa, e sim para exibir a pele bronzeada e a musculatura do tórax e dos braços.

Mas não era a compleição física do homem que havia gerado tensão no rapaz. O problema era o cão que o acompanhava: um pitbull, desses que metem medo mesmo quando estão presos em uma jaula de ferro.

Era um cão de pernas relativamente curtas, como costumam ser os pitbulls. O dorso mal chegava à altura do joelho do seu condutor, mas o peito largo e o pescoço grosso davam uma ideia da força daquele animal. Tinha o pelo marrom – salvo uma parte branca no peito – e olhos castanhos, o que fazia com sua cabeça parecesse a de uma estátua de bronze.

O rapazinho que caminhava com o shitzu (ou talvez um maltês) provavelmente não viu de imediato essa parte da cor dos olhos, por causa da distância que havia entre eles no momento do encontro, uns 80 a 100 metros. Mas deve ter percebido que o pitbull parou de andar e se postou com o corpo ereto e as orelhas e a cauda erguidas. Na linguagem corporal canina, isso significa estado de alerta. Ou, mais precisamente, que avistara o cãozinho. E que o via como um alvo.

O jovem também parou. Deu um rápido puxão na guia do seu bichinho de estimação, sinalizando sua parada, e olhou para os lados, como se pensasse em mudar de direção.

Mas isso durou apenas um instante. Porque, no instante seguinte, ele olhou novamente para a frente e percebeu que o pitbull já vinha, em desabalada carreira, em sua direção.

Não foi possível identificar se o animal havia se soltado, ou se já passeava solto. Sabe-se apenas que o seu dono continuava caminhando lentamente, como se não houvesse percebido o ataque. Trazia em uma das mãos uma grossa corrente de aço inoxidável, a qual, presume-se, deveria estar presa ao pescoço do seu cão.

Enquanto isso, o cãozinho peludo já sentia a pressão das presas do pitbull em seu pescoço, enquanto era sacudido de um lado para o outro violentamente. Sua sorte parecia definida, quando algo inesperado aconteceu.

Sem muita pressa, e demonstrando total segurança em seus movimentos, como se fossem ensaiados, o rapazinho largou a guia, pôs a mão direita em um dos bolsos laterais de sua bermuda camuflada e sacou de lá uma pequena faca dobrável, consideravelmente pontiaguda.

Com surpreendente habilidade no uso do instrumento perfurocortante, o jovem desdobrou a faca, agachou-se e moveu a lâmina de baixo para cima, cravando-a no abdômen do pitbull, próximo às costelas. Depois, fez um movimento horizontal, rasgando a barriga do animal, desde o ponto da perfuração até a sua genitália.

Talvez pelo efeito da adrenalina em seu corpo, o pitbull não deu o menor sinal de que a perfuração houvesse lhe causado dor. Simplesmente caiu para o lado, debatendo-se, enquanto seu sangue e seus intestinos espalhavam-se pelo chão da praça.

Agora seu dono havia apertado o passo, e estava a uns dez metros do local do incidente. Olhos arregalados, boca aberta, parecia não acreditar na cena à qual acabara de assistir.

O rapazinho, então, com a mão, o braço, o rosto e a camiseta sujos de sangue, ficou novamente de pé, ergueu no ar a faca e gritou:

– Para o animal bravio, o aço frio!

Ao ver aquela cena, o dono do pitbull parou assustado. Demorou alguns segundos antes de ser tomado por ira e iniciar uma reação:

– Filho da puta! Tu matou meu cachorro! – gritou.

Transformando em arma a corrente que trazia à mão – e que poderia ter evitado todo esse problema – partiu em direção ao jovem, dando sinais de intenções nada pacíficas.

Mesmo diante daquela demonstração de fúria, o rapazinho, mais uma vez, não se abalou. Guardou a faca no mesmo bolso de onde a retirara minutos antes, e, enquanto levantava a camisa com a mão esquerda, procurava, com a direita, alguma coisa na parte de trás da sua cintura.

Retirou dali uma pistola preta, não muito grande. Engatilhou-a e disparou contra o dono do pitbull, que a essa altura estava a não mais que três metros de distância.

Foram dois disparos no peito. Enquanto o homem agonizava no chão da praça, o rapazinho aproximou-se dele calmamente. Ergueu a mão que segurava a arma, e disse, em voz alta, mas com uma serenidade assustadora:

– Para o humano inconsequente, o chumbo quente.

Pronunciadas aquelas palavras, guardou a arma, pôs carinhosamente nos braços o seu cãozinho ferido, e saiu caminhando lentamente, como se nada houvesse acontecido.

Próximo da esquina, havia um carro estacionado, de onde saiu uma mulher de uns 50 anos, que o abraçou e verificou os ferimentos do cãozinho.

Depois, todos embarcaram no veículo e deixaram o local.

A polícia chegou minutos depois, pedindo informações aos transeuntes sobre o ocorrido, mas não conseguiu nada relevante. Mesmo no prédio em frente à praça, de onde algum morador na janela poderia ter filmado tudo com o celular, os investigadores não conseguiram nenhuma pista.

Tudo que se sabia era que se tratava de um rapazinho de aparência inofensiva, mas que sabia matar. E que, conforme a natureza dos seus inimigos, escolhia o metal com o qual lhes tiraria a vida.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

AVES PRETAS E POETAS

É grande e justa a fama do poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” (The Raven), de 1845.

Um poema narrativo, cheio de suspense e mistério, que fala de um insólito encontro entre alguém que está sozinho em casa, em uma noite fria de dezembro, e a ave, que chega de surpresa.

Tendo sido vertido para vários idiomas, conta com traduções para a língua portuguesa assinadas por ninguém menos que Fernando Pessoa (clique aqui para ler) e Machado de Assis, em O Corvo

Mais recentemente, na década de 1970, nosso saudoso conterrâneo Belchior juntou Allan Poe com Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, ao por o Corvo na companhia do Assum Preto, em sua canção “Velha roupa colorida”:

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho
Black bird, assum preto, o que se faz?
Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
Assum preto, pássaro preto, black bird, me responde: Tudo já ficou atrás
Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
Black bird, assum preto, pássaro preto, me responde:
O passado nunca mais.

Pois também eu me inspirei no Corvo, ao encontrar, empoleirada no telhado da minha casa, outra ave. Também preta, também misteriosa.

O URUBU

Inspirado no poema “O Corvo” (The Raven), de Edgar Allan Poe

Certo dia, numa tarde ensolarada,
Regressava ao meu lar, minha morada.
Quando, ao chegar à frente do portão,
Surpreendeu-me a insólita visão
De um grande e majestoso ser alado.
Que, ali, postado ao topo do telhado
— a um só tempo, próximo e distante —
Como estátua, das que habitam os portais,
Em silêncio, sério, sóbrio e elegante,
Olhava-me apenas, e nada mais.

Observando a imponente figura,
Com sua plumagem quase toda escura,
Veio-me a ideia de que aquela imagem
Bem poderia ser a de um personagem,
Já conhecido, de outro tempo e lugar.
Lembrava eu, então, do corvo de Edgar.
Que em sua casa, entrou, num certo dia,
De ventos frios, quase glaciais.
E às perguntas do poeta respondia
Sempre a resposta mesma: “Nunca mais!”

Imaginei, mas só por um momento
Fez-me sentido aquele pensamento,
De que a ave sobre o meu telhado
Fosse o corvo em versos retratado
Pelo famoso poeta americano.
Rapidamente, reparei o engano,
Pois que lembrei, olhando o céu azul,
De um detalhe sobre esses animais:
Corvos não há na América do Sul,
Se um dia houve, hoje não há mais.

Assim, ficou, de plano, esclarecido,
Que a ave que houvera ali surgido
Não era corvo. E, de fato, a olho nu,
Bem se via se tratar de um urubu.
Um urubu que, abrindo suas asas,
Sobrevoou, decerto, muitas casas,
Até que veio a pousar na minha,
Muito embora ali houvesse outras tais.
Um urubu, que não se sabe de onde vinha,
Simplesmente estava ali, e nada mais.

Mas, mesmo resolvida essa questão,
De que a ave ali pousada não
Seria o corvo, o corvo tão famoso,
Continuei intimamente desejoso,
De que o ser, de tão escuras penas,
Não fosse um simples urubu, apenas,
Mas uma ave que então respondesse
Minhas perguntas, quem sabe outras mais.
Que eu, depois, em versos escrevesse
Ainda que somente repetindo: “nunca mais”.

Pensando assim, passei a indagar:
Ó, ave misteriosa, podes me falar
Do que tens visto quando estás voando?
Ou do que chega aos teus ouvidos quando
Planas tranquilo em grandes altitudes?
Conta-me, pois, se entre tuas virtudes
Está a generosidade de dizer
Aos que não voam – como nós, pobres mortais –
Coisas que somente hão de saber
Os que alcançam altitudes colossais!

Mas o urubu calado permanecia.
Se tinha algo a dizer, não me dizia.
Talvez guardasse íntimos segredos,
Talvez apenas escondesse medos,
Por estar pousado, e não voando.
Enquanto eu, já me impacientando,
Deixei transparecer que era presa
De um dos sete pecados capitais:
“Fosse eu poeta de maior grandeza,
Tu certamente falarias mais!”.

Mas até o meu insulto foi ignorado.
E o urubu permaneceu calado.
Ao contrário do corvo, em Baltimore,
Que respondia sempre “nevermore”
A cada indagação de Edgar.
Conformei-me, desisti de perguntar.
E, amuado, me calei também.
E, sem dizer sequer um “nunca mais”
Parecendo mesmo demonstrar desdém,
A ave foi-se em ventos termais.

Passou o tempo e esqueci o ocorrido
Até que um dia tudo fez sentido:
Não foi por má educação ou desrespeito
Que o urubu se comportou daquele jeito.
Explico: anos depois fiquei sabendo,
Em obra de ornitologia que andei lendo,
Que, na verdade, por não ter siringe,
– órgão das aves, de funções vocais –
Permanecia a ave, tal qual uma esfinge,
Em seu silêncio, sem falar jamais.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O TELEFONEMA DO MINISTRO

Quarta-feira passada (21-10-2020), o Senado Federal aprovou a indicação do Desembargador Federal Kassio Nunes Marques para a cadeira deixada vaga pelo Ministro Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal.

O fato me fez lembrar um conto que publiquei há quase três anos, e que alguns amigos juram que é baseado em fatos reais.

Não é. É ficção. Claro que em toda ficção há algo de realidade. Como em toda narrativa que se pretende verdadeira há um pouco de ficção (até no depoimento de uma testemunha, sob juramento).

Mas penso que, ao escrever um conto, o autor deve saber se está adaptando um fato real para a ficção, ou se está criando uma narrativa simplesmente imaginada, inserindo nela elementos de realidade.

O conto a seguir é dessa segunda espécie. Garanto.

Portanto, não fiquem perguntando nos comentários quem é Genário, porque essa pessoa não existe no mundo real.

Vamos ao conto.

* * *

AMIZADE SEM INTERESSE

Brasília, 23 de fevereiro de 2017. Circunstâncias alheias ao meu controle levaram-me a almoçar em um restaurante tipo self-service, naquele horário que aparentemente toda a população da cidade resolve se alimentar: entre 12:30 e 13:30.

Feita a pesagem da comida, fiquei com prato e talheres na mão, procurando uma mesa vaga. Ou, pelo menos, uma vaga em alguma mesa, embora não me agrade almoçar ao lado de pessoas totalmente desconhecidas.

Foi então que notei a presença de um conhecido meu, ocupando sozinho uma mesa de quatro lugares. Aproximei-me cumprimentando-o:

– Doutor Genário! Tudo bem? Posso me acomodar por aqui? Ou tá esperando alguém?

– Não, não… Senta aí – respondeu ele sem muito entusiasmo.

Achei compreensível sua reação. Como alertei já no princípio, não era um amigo que estava ali, mas apenas um conhecido. Desses que a gente encontra eventualmente em solenidades e lançamentos de livros. Talvez quisesse almoçar sozinho, planejando o que faria à tarde, olhando as mensagens no celular. Ou, por qualquer outra razão, preferisse não ter ninguém compartilhando sua mesa. Ainda mais alguém como eu, com quem não tinha intimidade, mas que sua boa educação recomendaria dar alguma atenção.

O certo é que, sendo ele uma pessoa bem educada, e precisando eu de um lugar para sentar, passamos a dividir a mesma mesa, em um clima cordialidade protocolar.

Prosseguiu assim por alguns minutos, até que meu celular tocou.

Não costumo atender a ligações enquanto estou almoçando, mas vi que se tratava de um amigo de longa data, Alexandre Monteiro, advogado em Fortaleza, que há semanas não dava notícias.

Desde que mudei para Brasília, em 2016, para atuar como juiz instrutor do Superior Tribunal de Justiça, esse amigo, em tom de gozação, passou a me chamar de Ministro. E eu, devolvendo a brincadeira, trato-o por Ministro também.

Atendi:

– Ministro Alexandre! Onde é que você anda, amigo?

Alexandre respondeu como de costume. Que andava muito ocupado, com muitos processos, viagens, etc. Na verdade, o que importa aqui não é o que conversamos, mas a reação do conhecido que compartilhava comigo a mesa do restaurante.

A partir do momento em que atendi o telefone, doutor Genário passou a olhar para mim com particular interesse. Como se quisesse participar da conversa telefônica. Sem entender seu comportamento, continuei a ligação, mas observando sua linguagem corporal.

A certa altura da conversa, Alexandre convidou-me para o aniversário da sua filha, e eu, no tom formalesco que costumamos brincar, perguntei:

– E quando é a solenidade, Ministro?

Ao ouvir aquela pergunta, doutor Genário abriu um sorriso, inclinou-se em minha direção e perguntou num sussurro:

– É o Ministro Alexandre de Moraes?

Revelava-se, assim, o motivo do súbito interesse do meu comensal pelo telefonema que eu acabara de receber: aconteceu que, no dia anterior, o Ministro Alexandre de Moraes, recém indicado para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal, havia tido seu nome aprovado pelo Senado Federal, após a regulamentar sabatina; aparentemente, o doutor Genário deduziu que sua excelência acabara de telefonar para mim, e, pelo andar da conversa, deveria estar me convidando para sua posse na Corte Suprema.

Diante de tamanho interesse do Doutor Genário por assuntos ministeriais, faltou-me coragem para lhe causar algum tipo de frustração. Assim, no mesmo instante em que, ao telefone, confirmava presença no aniversário para o qual acabara de ser convidado, olhei para o meu companheiro de refeição e levantei o polegar, em sinal de positivo.

E, admito, não me limitei a isso. Penitencio-me até hoje por tal conduta, mas, a partir daí, passei a induzir deliberadamente o doutor Genário a erro, desejando a Alexandre sucesso nos desafios, e lembrando-lhe de não permitir que o trabalho nos impeça de tomar umas cervejas juntos, de vez em quando.

Ao final daquela ligação, doutor Genário estava mais sorridente, conversando mais e comendo menos. Antes de ir embora, fez questão de trocarmos cartões de visita, embora já houvéssemos feito isso em ocasião anterior (não sei se ele lembrava disso).

No dia seguinte, às 10:45 da manhã, doutor Genário enviou uma mensagem para meu celular: “Caro amigo, almoçarei hoje naquele mesmo restaurante de ontem. Caso você chegue depois, saiba que seu lugar na minha mesa está reservado”.

Respondi a mensagem, agradecendo a gentileza, mas fui fazer a minha refeição em outro lugar.