Valei-me São Zé Limeira! Me ajude com seu repente, Trazendo até minha mente Inspiração verdadeira. Para, da sua maneira, Com destreza e competência, Juntando arte e ciência, Contar, desse jeito seu, O que foi que aconteceu No dia da independência!
Dia sete de setembro, Na beira de uma lagoa, Dom João entrou na canoa, Se gritou, eu não me lembro. Ficou lá até dezembro, Sem nenhuma providência. Portugal pediu clemência, Um padre virou ateu. Tudo isso aconteceu No dia da independência!
Quando Dom Pedro Primeiro Empunhou a espingarda, Respingou lama na farda De um soldado marinheiro. A mulher do sapateiro Chegou fazendo exigência. Não teve vossa excelência Que aquietasse Zebedeu. Tudo isso aconteceu No dia da independência!
Tava uma chuva pesada Na beirada do Ipiranga. Um doido, chupando manga, Ficou lá, sem dizer nada. Dona Flor, que era casada Com Zé de Dona Inocência, Na hora da emergência, Deu um grunhido e correu. Tudo isso aconteceu No dia da independência!
Não é que eu seja pessimista — acho que não sou. A questão é que, do jeito que o clima está, pouco importa que a primavera seja logo ali.
Em agosto a umidade em Brasília transita facilmente abaixo de 20%, mas às vezes é preciso que a seca se aprofunde para que surja alguma possibilidade de chuva. Nem que mesmo depois da chuva os umidificadores elétricos continuem necessários.
Então, não estou nem aí se as cigarras acordarão antes de novembro. Que venham, com suas vozes estridentes e sua melodia repetitiva. Resta a esperança de alguma calmaria no Natal, já que janeiro promete tempestades.
Enquanto isso, convivamos com o barulho! Ainda não das cigarras. Nem de trovões.
De um jeito ou de outro, não espero ver o sol nascer bonito amanhã. Espero apenas que a fumaça das queimadas se dissipe o suficiente para eu enxergar o horizonte com alguma clareza — e mesmo isso, confesso, é uma esperança que guardo com desconfiança.
Não sou agricultor, mas sei que quem planta expectativas pode colher decepções. Para quem vem do Nordeste — como eu — o planalto é um oásis. Quem conhece a caatinga não se assusta com o cerrado.
Sim, um dia plantei um ipê. Em frente à casa onde moro. No Lago Norte.
Não porque espere vê-lo se pintar de amarelo algum dia. Como os que vi outro dia na L2 Norte. Mas porque sinto que é o que resta fazer.
Porque alguma parte de mim insiste em acreditar que algo há de crescer entre as pedras, só para provar que a terra ainda respira.
Que ligação pode haver entre um jogo de futebol, a queda de um avião e uma missa campal?
Pois é. À primeira vista parecem situações bem distintas. E são. Mas, neste caso, os acontecimentos se conectam de um modo muito peculiar, que o leitor certamente descobrirá, à medida que os fatos forem sendo narrados.
Comecemos do princípio. Seguiremos a ordem cronológica dos fatos.
No dia 3 de dezembro de 1972, a cidade de Fortaleza estava agitada com a presença de ninguém menos que o Rei do Futebol. Isso mesmo. Pelé, já com três Copas do Mundo na bagagem, estava na cidade. E ele não foi à capital cearense a passeio: o Santos enfrentaria o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.
Se era uma partida histórica para o Ceará – que enfrentaria o Santos de Pelé, com ele em campo, no auge de sua carreira – o jogo também era histórico para o próprio Pelé, que faria o seu milésimo jogo com a camisa do Santos.
Naquela época, ainda não havia o estádio Plácido Castelo – popularmente conhecido como Castelão – que somente seria inaugurado em novembro de 1973. Então, cerca de 38 mil pessoas se aglomeraram nas arquibancadas do Presidente Vargas – o PV. A maioria estava ali para torcer pelo Ceará, evidentemente, mas muitos também compareceram só para ver o Rei jogar.
E o espetáculo não decepcionou.
O Santos abriu o placar logo aos 11 minutos do primeiro tempo, com um gol dele. Sim, um gol de Pelé! O cimento das arquibancadas vibrou sob os pés dos torcedores. A euforia foi tão grande que teve torcedor do Ceará que comemorou.
Mas o melhor – pelo menos para a torcida do Ceará – ainda estava por vir. No segundo tempo o Vozão virou o jogo e venceu por 2 a 1. Gols de Samuel e Da Costa. A torcida do Ceará em festa. Quem esteve presente ao Estádio Presidente Vargas naquele dia assistiu a um jogo realmente histórico.
* * *
Menos de um ano depois, no dia 20 de outubro de 1973, outro fato importante reuniu uma grande multidão em Fortaleza: foi inaugurada a Avenida Presidente Castelo Branco.
A via tinha como finalidade abrir um corredor de tráfego que ligaria a Barra do Ceará, localizada no extremo oeste da cidade, ao Porto do Mucuripe, aproximadamente 15 km ao leste. Nesse percurso, cruzava vários bairros, dentre eles, o Pirambu, cuja referência evoca até hoje a parte mais pobre da cidade, e a Aldeota, onde residia – e ainda reside – a classe de maior poder aquisitivo.
Na época, comentava-se que até o Presidente da República – então o General Emílio Garrastazu Médici – compareceria à inauguração. Não compareceu, mas mandou o seu Ministro do Interior.
Um grande evento, realmente, com a presença de políticos, militares (prestigiados por conta do regime em vigor na época) e milhares de espectadores. Mas o dia ficou marcado por uma tragédia: durante a celebração, um dos caças da Força Aérea Brasileira que participava da festa perdeu o controle e caiu.
Houve correria, perplexidade e desespero. A multidão se dispersou em pânico. Bombeiros, que compunham o grupo de militares presentes ao evento, deixaram sua formação festiva e saíram em disparada, com as sirenes de seus caminhões vermelhos acionadas em direção ao local do acidente. Um caos.
Aumentando a dramaticidade da tragédia, soube-se depois que o impacto da aeronave com o solo se dera sobre as casas de uma estreita rua do bairro do Pirambu, causando a morte de cerca de 15 pessoas (nunca se soube o número exato), além do piloto.
O fato foi tão marcante, que a Rua Gomes Parente, onde a aeronave caiu, passou a ser conhecida como “Rua do Avião”.
Um dia que começou com uma grande festa, mas terminou com lágrimas, dor e luto.
* * *
Chegamos assim ao terceiro fato, que também poderíamos chamar de terceiro ato, se tratássemos de uma peça de teatro. E, de fato, trata-se de um ato, um grande e multitudinário ato de fé.
Aconteceu em 9 de julho de 1980. Naquele dia, chegava a Fortaleza o Papa João Paulo II.
Era a primeira vez que um Papa visitava o Brasil. Em um período de 12 dias – de 30 de junho a 10 de julho daquele ano – ele esteve em 14 cidades brasileiras, começando por Brasília e terminando em Fortaleza, onde abriu o X Congresso Eucarístico Nacional.
Na manhã de 9 de julho, o Estádio Plácido Castelo recebeu cerca de 120 mil pessoas, vindas de todos os cantos do Ceará e de Estados vizinhos. Gente que chegou de madrugada, rezou, se emocionou e até cantou, junto com Luiz Gonzaga, uma canção que o Rei do Baião compôs especialmente para a ocasião: “Obrigado, João Paulo”. “João Paulo II/ que Deus deu de graça/ o povo te abraça/ e em ti vê Jesus”, dizia uma parte do refrão.
Mas o evento dentro do Castelão não foi a parte mais marcante daquele dia. Do lado de fora do estádio, uma multidão de mais de um milhão de duzentas mil pessoas aguardava o início da missa campal que seria realizada pelo pontífice.
Na época, o lugar – hoje ocupado por casas e prédios – era um amplo terreno vazio, com o chão coberto de vegetação rasteira e carnaubeiras. Desde as primeiras horas da manhã, foram se acomodando por ali milhares de fiéis, peregrinos e curiosos. Chegavam a pé, de ônibus e em caminhões conhecidos como paus-de-arara, em cujas carrocerias se instalam bancos de madeira para o transporte de pessoas.
Segundo os registros da época, a missa campal começou às quatro horas da tarde, e só terminaria às oito da noite. Quatro horas de celebração de um ato de fé que é certamente, até hoje, o maior já realizado na cidade de Fortaleza.
* * *
Foi assim que três fatos realmente marcantes ocorreram em Fortaleza, em um intervalo de menos de dez anos.
E já poderíamos dar por terminadas essas rememorações. Muitos dos leitores que chegaram até aqui certamente desconheciam esses fatos, ou pelo menos algum deles. O registro está feito.
Mas há outra conexão entre esses fatos, bem menos conhecida, que está além do tempo e do lugar em que ocorreram.
Aconteceu que, no dia do jogo entre Ceará e Santos, um homem saiu de casa com seus dois filhos – um de dez anos e outro de seis – em direção ao Estádio Presidente Vargas.
Era torcedor do Ceará. Sabia que aquele seria um momento histórico e queria que seus filhos também estivessem presentes. Na arquibancada, ele conseguiu espaço para os três, em meio àquela multidão, e juntos comemoraram os gols. Inclusive o do Pelé.
Na volta para casa, tiveram que caminhar muito até conseguir pegar um ônibus. Mas ninguém reclamou. Estavam eufóricos. Tinham visto seu time jogar contra o Santos de Pelé. Viram Pelé fazer um gol. E viram o Ceará vencer o time do melhor jogador do mundo. Tudo isso no mesmo dia. No mesmo jogo.
Aquele homem não foi à inauguração da Avenida Leste-Oeste. Era um sábado, ele precisava trabalhar até o meio-dia. Mas os seus dois filhos foram. Estavam acompanhados da mãe, sua esposa. Como era outubro, o caçula já havia completado sete anos, mas o mais velho só faria onze em novembro.
Foram a pé. O palanque das autoridades não era muito longe de casa. Uns trinta a quarenta minutos de caminhada, no máximo.
Acompanhavam as celebrações em meio à multidão, quando viram quatro aviões Xavante passarem sobre suas cabeças. O irmão mais velho ensinou ao mais novo uma palavra nova: rasante. Aquilo era um voo rasante.
Ficaram observando os aviões se afastarem em baixa altitude, até começarem a subir novamente, quase na vertical, em um movimento aparentemente acrobático, embora não fosse a Esquadrilha da Fumaça.
Viram quando um deles se desgarrou dos outros, girou no ar – ainda parecendo fazer acrobacias – até apontar o nariz diretamente para o chão e descer girando como um parafuso, sumindo por detrás das casas.
Uma coluna de fumaça preta subiu. Da posição em que estavam, a mãe e seus dois filhos perceberam que a fumaça surgia de um lugar próximo a sua casa. Em meio à correria da multidão, a mãe das crianças conseguiu entrar com elas em um táxi. Levou os filhos à casa de uma amiga que morava mais distante. Tinha receio de voltar para casa com os filhos e a casa ter sido destruída.
A preocupação fazia sentido. Ao voltarem para casa, já à noite, ficaram sabendo que o avião caíra a cerca de 250 metros de onde moravam. Não na mesma rua, mas na rua de trás. A menos de duas quadras. Os pais comentaram com os filhos que, anos antes – na época em que se casaram – chegaram a visitar uma das casas que haviam sido destruídas, com intenção de comprá-la e morar ali. Mas não houve consenso quanto ao preço.
O tempo seguiu seu curso.
No dia 9 de julho de 1980, aquela família acordou bem cedo. O sol ainda não havia nascido, quando arrumaram as sacolas de comida, as garrafas térmicas com água, as almofadas e os guarda-sóis no porta-malas do seu fusca. Um modelo 1972, verde guarujá, com faixas brancas nas rodas, comprado meses antes.
Horas depois estariam no entorno do estádio Castelão, em meio a romeiros e peregrinos, para assistir à missa do Papa. Passariam o dia ali, vendo a multidão crescer, até formar um mar de gente, de um tamanho que nunca haviam imaginado.
Não foi um dia fácil, sob o calor do sol cearense, tendo como única água disponível a das garrafas térmicas que guardavam em suas sacolas. Mas suportaram bem. Os filhos – agora com 13 e 17 anos de idade – já tinham consciência da importância do acontecimento do qual faziam parte. Então, ninguém reclamava.
E assim foi até acompanharem a missa mais longa de suas vidas, das quatro da tarde às oito da noite, celebrada por ninguém menos que o Papa João Paulo II, que seria reconhecido pela Igreja Católica como santo em 2014.
Quando tudo terminou, caminharam durante muito tempo até encontrar seu Fusca, que haviam deixado estacionado longe dali. Voltaram para casa cansados, mas sobretudo felizes com o que tinham vivido naquele dia.
Os personagens dessa história: Seu Mansueto, meu pai; Dona Ivonete, minha mãe; Materson, meu único irmão; e eu, o filho mais novo daquela família.
É por isso que a conexão entre esses fatos não está registrada apenas em documentos históricos.
Sem o Brasil campeão, Resta a nós reconhecer Que isso pode acontecer Em qualquer competição. Passada a decepção, Prestadas as homenagens, Guardadas muitas imagens No arquivo da nossa mente, Olhemos, daqui pra frente, Para outros personagens.
Pois, com a Copa terminada, É chegada a ocasião De ver na televisão Muita conversa fiada E promessa exagerada De grandes transformações. De dar novas soluções Para problemas antigos Muita atenção, meus amigos, Vêm chegando as eleições.
É tempo de aparecer Gente que estava sumida, Que andou desaparecida E que agora vem nos ver. Que pergunta e quer saber Do que estamos precisando, Prometendo e explicando Como tudo irá mudar Mas, para realizar, Com seu voto está contando.
Tempo bom para se ver Gente beijando criança, Dizendo que a esperança No Brasil vai renascer. Que as crianças devem ter A maior prioridade E que é gigante a vontade De ajudar o mais carente, Essa conversa que a gente Já viu que não é verdade.
Tempo de a gente escutar Achando ruim ou bom, Nas ruas, carros de som, Com seu som a ecoar. As canções a ressaltar O valor do candidato, Embora não seja exato Que elas digam a verdade. Deus me dê boa vontade Para crer nisso de fato!
Nas esquinas e avenidas, Muitas moças e rapazes Exibirão seus cartazes E bandeiras coloridas. Não estão bem definidas As suas convicções, Já que as manifestações São em troca de uns trocados: Militantes contratados Nesse tempo de eleições.
Não são só os militantes Ou cabos eleitorais Que vendem seus ideais Em condutas aviltantes. Cenas mais repugnantes Vêm do horário eleitoreiro: Vende-se um partido inteiro, Ali a coisa desanda, E o tempo de propaganda Vale mais do que dinheiro.
É bom estar preparados Para o nível dos debates. É provável que os embates Venham todos recheados Com segredos revelados Sobre esquemas de bilhões, Fraudes em licitações, Desvios, corrupção, Talvez todos com razão Na troca de acusações.
E, nos dias atuais, Surgiu um novo ambiente, Onde a coisa fica quente Em tempos eleitorais. É nas redes sociais, Onde o povo mais se agride, A família se divide, Se acaba muita amizade, E, nessa agressividade, A discussão não progride.
Ao invés de debater Usando a voz da razão, Xingamento e palavrão É o que mais se pode ver. Assim, também não vai ser Possível resolver nada. Quando a palavra é usada Para ofender, somente a argumentação decente É depressa abandonada.
Amigos, como eu queria Não estar desiludido E acreditar que um partido É feito de ideologia! Pois sei que a democracia, Apesar de suas mazelas É uma das coisas belas Que o ser humano criou E, das crises que enfrentou, Transpôs cada uma delas!
O desânimo me alcança Mas, teimo em não desistir, E, assim, hei de prosseguir Mantendo viva a esperança De ver alguma mudança Nesse quadro deprimente, Que eu aqui, ligeiramente, Descrevi, nesse cordel, Cumprindo assim meu papel De alertar a minha gente!
Deixo claro que, apesar De toda desilusão, Quando chegar a eleição Vou à urna, vou votar. Ali, vou exercitar A minha cidadania, Na esperança de algum dia, Eleger representantes Sérios, probos e atuantes. E viva a DEMOCRACIA!
Quem costuma viajar de avião certamente conhece bem essa frase. Ela é ouvida sempre que a aeronave está taxiando, quando a tripulação transmite instruções de segurança aos passageiros: “Ponha a máscara primeiro em você, antes de ajudar crianças ou outras pessoas”.
Deveria ser óbvio, e talvez seja mesmo.
Afinal, estamos falando de máscaras de oxigênio que caem automaticamente diante dos passageiros, em caso de perda da pressão da cabine do avião.
Com os voos comerciais circulando por aí entre 35 e 40 mil pés de altitude, algo em torno de dez a doze mil metros, precisamos mesmo de uma cabine pressurizada para conseguir respirar satisfatoriamente. À medida que subimos, o ar fica rarefeito.
Mas, cada vez que ouço esse aviso, percebo que ele transmite algo que vai além das viagens de avião e da dificuldade para respirar (situação pela qual, felizmente, jamais passei!). Trata-se, na verdade, de uma advertência para a vida.
Vivemos cercados de pessoas que amamos e queremos ajudar. Filhos, pais, cônjuges, amigos. Muitas vezes, porém, ficamos tão concentrados nos problemas alheios que esquecemos de cuidar de nós mesmos. E então acontece algo curioso: na tentativa de salvar todo mundo, acabamos esgotando as próprias forças.
É aí que o aviso das máscaras nos mantém com os pés no chão, nos lembrando que, se queremos ajudar alguém, precisamos cuidar de nós mesmos primeiro.
Há algo de egoísmo nisso? Penso que sim. Mas é um egoísmo que tem a virtude de nos fazer reconhecer que não se pode oferecer serenidade aos outros quando não se está em paz consigo mesmo. E que, para servir de apoio, é preciso primeiro se manter de pé.
Há uma diferença importante entre tomar uma atitude pensando exclusivamente nos nossos próprios interesses e cuidar de si mesmo sem desconsiderar os outros. A primeira atitude nos isola; a segunda melhora a nossa qualidade de vida, sem prejuízo de estender a mão a quem precise.
Algo que talvez se possa chamar de “egoísmo solidário”. Parece paradoxal? Talvez. Mas isso não significa que seja inviável. E a beleza do fenômeno talvez esteja nesse aparente paradoxo.
O fato é que a orientação dada nos aviões é inquestionavelmente sábia. Porque, na cabine de uma aeronave ou nos desafios da vida, quem perde o próprio fôlego dificilmente conseguirá amparar outra pessoa.
Então, antes de ajudar alguém a respirar, certifique-se de que você mesmo continua respirando.
O Dia dos Namorados sempre me traz à lembrança os grandes romances retratados pela arte.
As canções, o cinema e a literatura estão cheios de histórias de amor que nos emocionam.
Amores que superaram grandes obstáculos, como a de Ulisses e Penélope; que resultaram de encontros improváveis, como em “A Bela e a Fera”; histórias de personagens como Eduardo e Mônica, que, apesar de tão diferentes, descobriram um jeito de caminharem juntas.
Sei que nem todo mundo vive histórias assim, feitas de tramas espetaculares. Mas essa é talvez a principal utilidade dessas narrativas: inspirar as pessoas a perceberem o extraordinário escondido no cotidiano.
Porque muitas vezes o romance está menos nos grandes gestos que nas pequenas permanências; menos nas declarações memoráveis que na companhia silenciosa de quem escolhe ficar.
E há um detalhe importante a ser levado em conta nisso tudo: seja nos romances épicos, seja nas simples comédias românticas, a história costuma terminar exatamente quando o casal finalmente fica junto.
O beijo acontece. O reencontro ocorre. Os obstáculos são vencidos. Sobem os créditos.
Na vida real, é justamente aí que a história começa.
Com os desafios da convivência, com o exercício diário da tolerância, com o companheirismo dos dias fáceis e dos dias difíceis. E talvez seja justamente aí que o amor revele sua forma mais verdadeira.
Não é à toa que Belchior dizia que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Porque quem não atravessou oceanos e não venceu maldições ancestrais pode ter construído, dia após dia, uma história feita de conversas, paciência, afeto e presença.
E é aí que está a grandeza.
Então, o que tenho a dizer aos que estão juntos neste Dia dos Namorados é: olhem-se nos olhos e celebrem. Celebrem não apenas o amor que sentem, mas a história que construíram. Porque só vocês sabem o que enfrentaram para chegar até aqui, mas vocês chegaram.
Isso, por si só, já merece ser comemorado.
Com a vantagem que o seu filme pessoal não precisa terminar quando começarem a subir os créditos.
Há certos institutos jurídicos que desafiam a compreensão do homem comum. E não se está falando aqui da redação das leis – apesar de existirem textos bem confusos – mas do conteúdo efetivo da norma. Das regras que servem de orientação para o cidadão conduzir seus atos.
Veja-se, por exemplo, a chamada “pré-campanha eleitoral”, um curioso período no qual alguém percorre cidades, concede entrevistas, critica adversários e aparece sorrindo em todas as redes sociais, deixando bem claro que pretende ocupar um cargo público ao qual se tem acesso por meio de uma eleição.
Essa pessoa pode fazer tudo isso para demonstrar suas pretensões eleitorais. Desde que, naturalmente, não peça votos. Porque aí já seria campanha. E campanha antes da data marcada na lei eleitoral não pode!
Cria-se, assim, uma espécie de teatro semântico-eleitoral, no qual todos fingem não ser exatamente aquilo que claramente são. Porque o candidato ainda não é candidato; a campanha ainda não é campanha; os noticiários se enchem de pesquisas de intenções de voto (mas apenas intenções); e o eleitor, embora seja o destinatário de todos esses movimentos, faz de conta que está apenas “acompanhando o debate democrático”.
Diante de tais peculiaridades do nosso calendário político, pré-candidatos transitam cautelosamente entre preâmbulos, previsões, precauções e prevenções jurídicas. Praticamente, uma regulamentação oficial do “pré-voto”!
O poeta popular percebe a precariedade do processo e pronuncia palavras preciosas:
No Brasil tem umas coisas Que não consigo entender: Por exemplo, pré-campanha, Que danado vem a ser? Conheço premonitório, Prejuízo, precatório, Preocupado e pregão. Mas, garanto, meu senhor: Nunca vi pré-eleitor Votando em pré-eleição.
Mas, ligo a televisão E logo é anunciado: Pré-candidato Fulano Hoje é nosso entrevistado. Daqui a pouco, o sujeito, Que pretende ser eleito Pelo voto popular, Faz um monte de promessa – embora voto não peça – Pra não se prejudicar.
Pois, se o sujeito falar: “Pré-eleitor, vote em mim!” Pode ir se preparando Que a coisa pode dar ruim. Pois campanha prematura Tem reprimenda segura, Prevista em regulamento. E o pré-candidato tem Que preparar muito bem O seu pronunciamento.
Pode fazer juramento De nunca prevaricar; Pode prometer ao povo Que o país vai prosperar. Pode fingir que tem fé, Pode até jurar que é De Jesus grande devoto. Mas deve estar prevenido De não fazer um pedido Ao eleitor: o pré-voto!
Com esses versos anoto Pontos de perplexidade Pelas leis que preconizam Tamanha preciosidade Apesar desse preceito, Da fase prévia do pleito. Já estou, presentemente, Prevenido e programado, Com meu voto preparado Pra votar pra presidente!
Houve um tempo em que certas atividades exigiam portas fechadas. Conversas profissionais, reuniões estratégicas, discussões financeiras ou jurídicas costumavam ocorrer em salas reservadas, onde a discrição era considerada parte da própria civilização.
Então veio o notebook. Depois o smartphone. Em seguida os fones sem fio. E, assim, surgiu uma nova variante da espécie humana: o profissional nômade do viva-voz.
É bem verdade que, no tempo em que os celulares eram apenas telefones, já havia quem fizesse questão de demonstrar que os seus negócios não podiam esperar por momentos de maior privacidade. Mas, com o avanço da tecnologia, as exibições de alta conectividade ficaram cada vez mais frequentes e explícitas.
Hoje, qualquer cafeteria vira facilmente uma filial improvisada de multinacional. Aeroportos tornaram-se coworkings permanentes. Restaurantes já não servem apenas comida: oferecem também, às vezes involuntariamente, ambiente para reuniões corporativas e alinhamentos de equipe.
Outro dia, enquanto eu e Natália – minha mulher – almoçávamos no restaurante de um shopping, observamos que um rapaz de seus vinte e poucos anos ocupou a mesa ao lado, posicionou o laptop diante de si e fez dois pedidos: um chope e a senha do wi-fi.
Até aí, nada demais. Afinal, eram quase duas da tarde de uma sexta-feira, e muita gente que estava naquele restaurante não voltaria mais ao trabalho naquele dia.
Mas, ao contrário do que deduzimos, ainda não havia “sextado” para ele. Minutos depois da chegada do rapaz, nossa atenção foi novamente atraída para a mesa vizinha: agora ele falava alto, em uma aparente discussão sobre relatórios, metas e medidas de compliance.
Natália olhou para mim com um sorriso de surpresa, e seu olhar já me encontrou sorrindo de volta e abrindo os braços – como o clássico emoji de “fazer o quê?”.
Já havíamos presenciado situações semelhantes e trocado impressões sobre o assunto, mas daquela vez fomos arrastados para uma videoconferência não agendada. Sem ninguém nos indagar sobre nosso interesse, fomos praticamente integrados ao conselho administrativo da empresa!
Esse não é um caso isolado. Certas pessoas parecem acreditar que a mera abertura de um notebook em local público lhes concede uma espécie de imunidade acústica. Como se o restante da humanidade automaticamente deixasse de existir diante da relevância transcendental de suas demandas profissionais.
E não se trata apenas de falar alto. Há também a teatralidade. O sujeito franze a testa para a tela. Faz pausas longas. Suspira. Concorda balançando a cabeça, mesmo quando ninguém ao redor perguntou absolutamente nada.
Há também os que caminham de um lado para o outro, com o celular na mão, reproduzindo em escala reduzida a energia de um CEO prestes a decidir os rumos da economia mundial — embora, às vezes, esteja apenas discutindo o atraso de uma planilha.
Alguns sequer se dão ao trabalho de usar fones de ouvido. O cidadão posiciona o celular sobre a mesa, ativa a câmera e passa quarenta minutos debatendo metas, contratos e indicadores, impondo a dezenas de desconhecidos a condição involuntária de plateia corporativa.
E o mais curioso: muitos desses assuntos parecem exigir sigilo absoluto. O tom de voz sugere alta complexidade estratégica. Mas tudo é compartilhado publicamente entre cappuccinos, garçons, ruídos de xícaras e, no específico caso aqui referido, goles em canecas de chope.
Longe de mim querer impor a alguém a maneira como trata os negócios de sua empresa. Estou apenas compartilhando com o leitor minha perplexidade – e confesso, incômodo – diante de um comportamento que parece ser o novo normal.
Pode ficar tranquilo o leitor que chegou até aqui e se reconhece como um desses executivos de escritórios sem paredes.
Talvez o verdadeiro símbolo dos tempos atuais não seja a inteligência artificial, mas a capacidade humana de transformar qualquer ambiente em escritório — e qualquer pessoa próxima em testemunha compulsória de sua produtividade.
Há algo de curiosamente paradoxal nessa nova etiqueta social: nunca se falou tanto em empatia, respeito aos espaços coletivos e convivência civilizada, mas jamais foi tão comum tratar o ambiente compartilhado como uma extensão irrestrita da própria sala, do próprio escritório e, sobretudo, da própria importância.
Seja em atividades jurídicas, seja em experiências literárias, a palavra é, para mim, uma espécie de ferramenta de trabalho. Por isso, é comum que me chame a atenção quando um termo passa a ser utilizado com maior frequência que a habitual — ou quando assume um novo significado.
Isso já me ocorreu, por exemplo, com o substantivo “transparência”, tema de uma crônica minha há alguns anos (clique aqui para ler). Na ocasião, expus minha tese sobre como o termo, que originalmente remetia àquilo que não se vê, passou a significar justamente o oposto: a possibilidade de tudo ser visto com nitidez.
Hoje, minhas reflexões recaem sobre a expressão “equipe de suporte”. Ela aparece em e-mails automáticos, atendimentos telefônicos e mensagens padronizadas: “Nossa equipe de suporte está à disposição”.
É evidente que, nesse contexto, a mensagem traduz uma oferta de ajuda — geralmente sob a forma de orientação a usuários de determinado sistema ou aplicativo.
Mas há algo ligeiramente deslocado aí.
Até pouco tempo, “suporte” tinha um sentido mais concreto, designando a estrutura que sustenta algo, como, por exemplo, uma prateleira.
Talvez por isso o substantivo resista a uma transposição natural para o verbo correspondente. Dizemos “ajudar” em vez de “dar uma ajuda”, “elogiar” em vez de “fazer um elogio”, “criticar” em vez de “fazer uma crítica”. Mas quem diria: “espere um pouco que vou te suportar”?
Nesse contexto, percebe-se que “suportar” carrega outro peso semântico (com o perdão do trocadilho). Suporta-se a dor, o atraso, o transtorno. Suporta-se aquilo que não se pode evitar — e que, por vezes, mal se tolera.
Quando se trata de contribuir para que alguém alcance um objetivo, o que fazemos é ajudar. Ou… apoiar!
Yes, here you are!
Tratando-se de uma expressão tão presente no universo da tecnologia da informação, é legítima a suspeita de ser decorrente de um empréstimo mal traduzido do inglês. Afinal, se “to support” significa “apoiar”, não seria surpresa que as support teams tenham sido vertidas, de modo quase automático, como “equipes de suporte”, em vez de “equipes de apoio”.
Uma transliteração apressada, dessas que atravessam fronteiras sem pedir visto ao sentido.
No problem. Já convivemos bem com verbos como deletar, printar e reportar. Não vamos bugar por causa disso.
Ainda assim, há uma ironia silenciosa — ainda que involuntária — nessa hipótese: quando precisamos de ajuda e recorremos ao suporte, somos atendidos por profissionais que nos apoiam?…
Essa é a história da mãe de um menino chamado Francisco. Mas é difícil falar da mãe de Francisco sem falar dele. É mais ou menos como no Evangelho de Mateus, quando se fala da mãe dos filhos de Zebedeu. A diferença é que da mãe de Francisco sabe-se o nome: Maria José. Embora ela mesma não gostasse desse nome, preferindo ser chamada apenas de Mazé.
Comecemos, então, falando de Francisco, um menino pobre, nascido em Crateús, no interior do Ceará. Franzino, com a pele queimada pelo sol que açoita o sertão nordestino, era parecido, nessas características, e em muitas outras, com os meninos com quem compartilhava a infância.
O que ele tinha de diferente dos seus amigos era um interesse pouco comum, naquele tempo e lugar, pelo idioma que tem seu berço no Reino Unido da Inglaterra.
Qualquer livro, qualquer revista, qualquer recorte de jornal que trouxesse algo escrito em inglês, chamava a atenção de Francisco. À noite, quando o rádio captava melhor as frequências que vinham de longe, era comum encontrar o menino colado àquele aparelho mágico, ouvindo programas da BBC de Londres.
Não entendia nada, mas gostava de ouvir. Aliás, não entendia nada no começo. Mas depois começou a entender.
Naquele tempo, havia um pequeno cinema em Crateús, onde Francisco assistia a alguns filmes americanos, prestando menos atenção ao enredo que às legendas e às falas dos atores. Assim, foi juntando os rudimentos adquiridos na escola com o que aprendia nesses filmes, e logo estava entendendo frases inteiras, inclusive algumas captadas através das ondas curtas da emissora londrina.
E, talvez por causa dos filmes que via no cinema, nasceu em Francisco um sonho: ser ator. Mas, não em novelas ou no cinema brasileiro. Queria ser ator no cinema americano.
É a partir deste ponto que se abre o espaço para falar da personagem central da história: Dona Mazé, mãe de Francisco.
Essa mulher, acostumada à dura lida da atividade agrícola, teve sensibilidade suficiente para perceber que Francisco não era como os seus outros nove filhos. Todos frequentaram a escola, mas vontade mesmo de estudar, somente Francisco, o caçula, a demonstrava. Seus irmãos aprenderam a ler, escrever, fazer algumas contas, mas nada que os levasse além dos primeiros anos do ensino fundamental. Gostavam mais dos trabalhos manuais ou de ajudar os pais na roça.
Com Francisco acontecia o contrário. Até ajudava os pais no trabalho pesado, mas gostava mesmo era de estudar, principalmente a língua inglesa. E gostava de ouvir músicas em inglês também. Não era fácil conseguir, nas suas condições, discos de bandas e cantores estrangeiros, mas ele conseguia. Fosse em bancas de revistas ou lojas de produtos usados, Francisco sempre garimpava alguma coisa. Para isso, contava com o apoio de sua mãe.
Aliás, não era só assim que Dona Mazé ajudava o filho a buscar seu sonho. Com muito jeito, ela também conseguia afastar Francisco dos trabalhos mais pesados, dando-lhe mais tempo livre para estudar e ouvir aquelas músicas que ela não entendia.
Foi assim que, quando Francisco ainda era um rapazinho, Dona Mazé, articulou para que ele fosse morar com uma prima sua, na capital cearense.
– Prima Ciça, eu queria lhe fazer um pedido – anunciou Mazé. – Deixe o Francisco morar na sua casa uns tempos, pra ele ter uma condição melhor de estudar em Fortaleza.
Dona Ciça atendeu o pedido de bom grado. Já estava com seus filhos criados, e sabia que Francisco não lhe daria trabalho ou preocupação. Era um bom menino.
O certo é que não foi preciso mais que aquele empurrão da mãe e da tia para que Francisco pusesse em prática seus próprios planos de dominar totalmente o idioma bretão. Sempre no propósito de, um dia, mudar-se para os Estados Unidos e tentar a sorte no cinema americano.
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Em Fortaleza, Francisco mergulhou no seu sonho. Frequentava o colégio pela manhã, fazia as tarefas obrigatórias após o almoço, e passava o resto da tarde estudando inglês. À noite, ouvia música em discos e fitas K7, e, no rádio, a programação da BBC.
Receberia outro apoio decisivo antes de terminar o primeiro ano estudando na capital. O professor de inglês do colégio, impressionado com a dedicação de Francisco, convidou-o para tomar aulas grátis no cursinho onde ensinava:
– São três dias por semana, Francisco. Segunda, quarta e sexta. As aulas vão das quatro às cinco e meia da tarde. Fale com sua mãe que, se ela autorizar, a bolsa é sua.
– Ela autoriza! – respondeu Francisco eufórico, quase sem acreditar no que estava acontecendo.
Na semana seguinte, lá estava ele, sem caber em si de tanta felicidade, para ter sua primeira aula no cursinho de inglês. Entrou em uma turma no meio do semestre, mas isso não foi dificuldade para quem vinha se preparando a vida toda por um momento assim.
A partir daí, nada mais seguraria Francisco. Continuava sendo um bom aluno em todas as matérias do colégio, mas no estudo da língua inglesa era simplesmente insuperável. Nas tardes livres – terças e quintas – frequentava a biblioteca do cursinho e deleitava-se com livros e filmes. Além das músicas que ouvia. A essa altura, já sabia de cor letras inteiras de canções dos Beatles, Pink Floyd e da sua banda preferida, o Iron Maiden. Passou a auxiliar o professor. Até ganhava algum dinheiro com aulas de reforço.
Toda essa evolução era acompanhada à distância por Dona Mazé, que continuava morando em Crateús. Francisco lhe escrevia quase toda semana. Cartas que eram lidas com certa preguiça por algum de seus irmãos, mas que deixavam a mãe cada vez mais feliz, por saber dos bons resultados de sua aposta.
Nas férias, Francisco passava alguns dias em Crateús, enchendo Dona Mazé de alegria e orgulho. Mas, logo que podia, voltava às atividades na capital.
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A conclusão do segundo grau (hoje ensino médio) trouxe novo impulso para o sonho de Francisco, já então chamado pelos colegas de Frank. Fora selecionado para um curso de inglês… Nos Estados Unidos da América!
Seriam seis meses de duração. A escola americana cobriria todos os custos, inclusive de passagens aéreas, hospedagem e alimentação. Parecia um sonho. Até a cidade onde ficaria morando tinha seu nome: São Francisco, na Califórnia.
Na noite da premiação, Francisco escreveu duas cartas para a mãe. Uma, mais curta, falando sobre a alegria de ir estudar nos Estados Unidos, a maneira como fora selecionado e a gratidão que tinha a ela, à tia e ao professor, por tudo que estava vivendo.
A outra carta, mais longa, ele somente enviaria depois que estivesse estabelecido na América. Nela, Francisco revelava seus verdadeiros planos. Não pretendia voltar. Tentaria tudo o que fosse possível para ficar por lá e seguir seu sonho de trabalhar em Hollywood. Tornar-se-ia um imigrante ilegal, se fosse o caso. Por isso, talvez ficasse muito tempo sem dar notícias. Dona Mazé deveria estar pronta para longos períodos sem saber onde Francisco estava.
E foi exatamente o que aconteceu. Concluído o curso na Califórnia, Francisco sumiu. Ninguém, nem de sua família, nem do cursinho onde estudara, sabia de seu paradeiro.
Em Crateús, Dona Mazé seguia sua vida, carregando dentro de si um vazio que nada era capaz de preencher. Nem a companhia do marido e dos outros filhos era suficiente para suprir a falta que Francisco lhe fazia.
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Passaram os anos. Dona Mazé ficou viúva. Os irmãos de Francisco já haviam casado e lhe dado alguns netos. Alguns ainda moravam em Crateús, outros em Fortaleza, mas sempre davam um jeito de visitar a mãe.
E nada de notícias de Francisco. Cada vez que membros da família se reuniam, o irmão caçula era assunto das conversas. As crianças ficavam maravilhadas com as histórias do tio desaparecido. Estaria ainda vivo? Uns diziam que sim. Outros duvidavam.
Até que, alguns dias antes do Natal do ano de 1999, em uma ocasião na qual quase todos os irmãos de Francisco estavam em Crateús, chegou à casa de Dona Mazé uma correspondência misteriosa.
Uma caixa grande, com coisas escritas em inglês. Colada em um dos seus lados, uma etiqueta com a anotação do que parecia ser o nome do remetente: Frank Patterson.
Juntou gente para ver a encomenda. Filhos, netos e vizinhos de Dona Mazé puseram-se em volta da caixa. O próprio gerente da loja dos Correios, senhor Herivaldo, ajudou a abri-la, para garantir que seu conteúdo não seria danificado. Com muito jeito, foi cortando o papelão com um estilete e revelando o que havia ali dentro.
Eram três itens: uma carta, um aparelho de videocassete e uma fita de vídeo do filme “O Resgate do Soldado Ryan”.
Nas várias páginas da carta, Francisco contava em detalhes a sua trajetória nos Estados Unidos. A vida como imigrante, as diversas profissões que aprendera trabalhando ilegalmente, as cidades onde morou, um casamento mal sucedido, a mudança do nome, a legalização de sua situação, e, finalmente, a razão de não ter dado notícias antes:
Minha mãe, já estou vivendo de cinema faz um tempo, mas sempre atrás das câmeras. E eu tinha tomado a decisão de só lhe escrever quando conseguisse trabalhar como ator.
É por isso que só agora estou escrevendo. Porque eu consegui.
O aparelho de videocassete, que estou enviando junto com essa carta, é para a senhora poder assistir. E o filme é esse que também vai no mesmo pacote.
O ator principal é muito famoso, inclusive aí no Brasil. Eu apareço só um pouco, mas para mim já é a realização de um sonho.
E seguia para a parte final da missiva, mandando lembranças para irmãos, amigos e a Tia Cícera.
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“O Resgate do Soldado Ryan” havia sido lançado no Brasil há mais de um ano, mas, por aquele tempo, o pequeno cinema que tinha despertado os sonhos de Francisco havia fechado. Pouca gente na cidade havia assistido ao filme. Dos que estavam na casa de Dona Mazé, naquela tarde, ninguém.
Talvez por isso, enquanto uma vizinha lia a carta para Dona Mazé, alguns dos irmãos de Francisco empenhavam-se em ligar o vídeo cassete e fazer as conexões com o televisor.
O sol já havia se posto quando tudo ficou pronto. Uma pequena multidão acomodava-se em cadeiras e no chão da sala para ver o filme. Que já não era mais o filme de Tom Hanks ou de Steven Spielberg, e sim o filme de Francisco. A prova da vitória de um filho de Crateús na América!
A Dona Mazé coube uma posição privilegiada, em uma cadeira de balanço, bem à frente do aparelho de TV.
E fez-se um silêncio praticamente absoluto quando as barcas apinhadas de soldados começaram a se aproximar da Praia de Omaha. Alguns, de patente mais alta, davam orientações aos seus comandados. Tentavam passar segurança. Mas era possível ver a tensão e o medo nos seus semblantes. A mão trêmula do personagem interpretado por Tom Hanks, mostrada em close, fez alguns telespectadores se encolherem em seus lugares.
Começa o desembarque. E o tiroteio. O filme é famoso pelos seus vinte e sete minutos de batalha na costa da Normandia, logo no começo.
Alheia à importância histórica do desembarque, e com os olhos fixos na tela da TV, Dona Mazé concentrava-se em um objetivo único: encontrar Francisco. Procurava, em cada um daqueles jovens, um sinal, uma característica do seu filho. Um rosto, uma mão, algo no jeito de andar… Emocionou-se ao ver um jovem com as vísceras expostas, gritando pela mãe. Mas os chamados eram para outra mãe.
Na cena seguinte, surgiu a inusitada imagem de um soldado transportando nas mãos uma máquina de escrever. Falava alguma coisa com o seu comandante – aquele da mão trêmula. Dona Mazé praticamente não os viu. Estava completamente absorta, observando o soldado posicionado logo à frente deles.
Era apenas mais um dos que tentavam se proteger atrás de uma das muitas estruturas de ferro espalhadas pela praia. Mas, não para Dona Mazé. Enquanto olhava para aquele soldado, soltou a voz de maneira emocionada, mas quase imperceptível:
– Francisco!
Sim, aquele era seu filho! Não havia dúvida. A altura, o perfil, a maneira como se punha de pé, tudo denunciava a presença de Francisco.
E Dona Mazé reconheceria seu filho caçula em qualquer lugar, a qualquer hora. Ainda que ele estivesse em meio a uma tempestade, ou a um tiroteio, como, de fato, era o caso.
Naquele momento, era como se Francisco estivesse novamente na sala de sua casa…
Mas, isso foi só por um segundo, no máximo dois. Subitamente, um disparo atingiu o capacete do soldado, atravessando-o e atingindo-lhe o crânio. Dois outros disparos perfuraram-lhe o tórax, um o atingiu no braço, outro ainda arrebentou-lhe a perna.
O soldado Francisco caiu morto.
Dona Mazé baixou a cabeça, com o rosto entre as mãos. As lágrimas, que já haviam brotado desde o primeiro instante em que reconhecera o filho, pela emoção, molhavam agora de tristeza o vestido.
Demorou-se com a cabeça abaixada ainda por uns minutos. Quando reuniu forças, levantou-se da cadeira e procurou ar puro na calçada de casa.
A exibição do filme prosseguia na sala. Somente o Seu Herivaldo foi até lá fora, perguntar se Dona Mazé precisava de alguma coisa. Ela disse que estava bem.
– Mas é difícil, Seu Herivaldo, pra uma mãe, passar tantos anos sem saber do filho… e, quando ele aparece, a gente vê ele morrer assim… crivado de bala…
– É filme, Dona Mazé…
– Eu sei, Seu Herivaldo. Mas, pra mim, que sou mãe, a dor é de verdade… mãe nenhuma merece ver o filho morrer assim…
E não falou mais nada. Apenas ficou ali, olhando a rua.
Seu Herivaldo entrou novamente na casa. Trouxe-lhe um copo d’água e foi ver o restante do filme.
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Semanas depois, chegou outra carta de Francisco, que voltara a escrever regularmente para a mãe. Ele a visitou ainda uma vez em Crateús, poucos meses antes de ela falecer.
Mas aquele foi o único filme em que ela o viu atuando como figurante. Dona Mazé não se arriscaria a ver o filho morrer de novo.
(*) Dedicado ao querido amigo Zico. Que também é um Francisco, filho de Dona Mazé, nascido em Crateús. O maior conhecedor da língua inglesa que conheci até hoje.