MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CIDADANIA NA TERRA DO MEU PADIM

Em março de 2005, recebi a missão de instalar a primeira Vara da Justiça Federal do Cariri cearense, em Juazeiro do Norte. Iniciava-se então um período de muito trabalho, no qual me envolvi em tarefas com as quais não estava habituado.

Quando cheguei a Juazeiro, a casa onde a Justiça Federal seria instalada já estava alugada e reformada, mas ainda havia trabalhos a serem concluídos, especialmente com instalações elétricas e lógicas. Além do recebimento e organização de processos que chegavam de outras unidades da Justiça Federal e Estadual.

Mesmo ocupado com os novos desafios, não deixei de perceber a beleza da região, nem de me sensibilizar com a acolhida do povo. Vi também que Padre Cícero não era presente apenas na estátua do Horto, mas em nomes de logradouros e espaços públicos e privados, e mais ainda na religiosidade das pessoas.

Foi naquela época que escrevi o cordel “A advogado, o diabo e a bengala encantada” e “Justiça Federal: origem, interiorização e chegada ao Cariri”. Neste, digo, a certa altura:

Por isso, naquele dia
Todo mundo concordava
Que o acontecimento
Que aqui se realizava
Era mesmo algo novo,
E na memória do povo
Ficaria registrado,
Não só para o Juazeiro,
Mas pro Cariri inteiro,
E o centro-sul do Estado.

Pois a Vara Federal,
Instalada em Juazeiro,
Cidade de muita fé,
Que acolhe tanto romeiro,
Tem sua jurisdição
Começando no sertão
E subindo pelas serras,
Até chegar a um lugar
De onde dá pra olhar
Pernambuco e suas terras.

Começando seu alcance
Nas terras do centro-sul,
A partir de Acopiara,
Passando por Iguatu,
Se estende até Mauriti,
De Brejo Santo a Jati,
Alargando suas fronteiras
Baixio, Ipaumirim,
Farias Brito e Jardim,
Campos Sales e Porteiras.

Assim também Arneiroz,
Missão Velha e Altaneira,
Aurora, Barro, Granjeiro
E Lavras da Mangabeira,
São municípios que estão
Sob a jurisdição
Da décima sexta vara.
Mas não acaba aí,
Pois também tem Potengi,
Várzea Alegre e Abaiara.

Tem Cedro, tem Catarina,
Tem Salitre e Umari.
Tem a terra do pontal,
Santana do Cariri.
Na região tem ainda
A famosa Nova Olinda,
Onde o grande cangaceiro
Encomendava um calçado
Pra fazer rastro quadrado
Seguindo pra Saboeiro.

Tem Jucás, tem Aiuaba
E Antonina do Norte.
Tem o meu querido Crato,
Araripe e Penaforte.
Se a memória não me falha,
Vizinho aqui, na Barbalha,
De verdes canaviais,
Muitos casos tem havido
Onde se tem discutido
Interesses federais.

A cidade de Milagres,
Que até no nome tem fé,
Já me permite falar
Da pequenina Assaré.
Que já nos deu Patativa
E a natureza viva,
Que ao poeta fornecia
A fonte onde ele buscava
As rimas que precisava
Pra fazer sua poesia.

Continuando a falar
Das cidades atendidas,
Tarrafas e Quixelô
Também foram incluídas.
Rimando tudo com arte,
Cariús também faz parte
Dessa nossa relação.
Caririaçu, tão fria,
Entra nesta poesia
Fechando a jurisdição.

Quarenta e dois municípios.
Mais de um milhão de habitantes.
Esses números já mostram
O quanto foi importante
Que a Justiça Federal
Tenha vindo, afinal,
Se instalar por aqui.
Já tava mesmo na hora
De trazer essa melhora
Pro povo do Cariri.

A inauguração da Vara, que se tornou a 16ª Vara Federal do Ceará aconteceu no dia 22 de março de 2005. Exatos 19 anos depois, outra ocasião muito especial em Juazeiro do Norte está prevista para acontecer em alguns dias: uma sessão solene da Câmara Municipal para entrega do meu Título de Cidadão Juazeirense.

Ao meu lado, pelo mesmo motivo, estará o Desembargador Federal Leonardo Coutinho, um grande amigo, cujos serviços prestados à cidade foram também reconhecidos.

Um orgulho ser cidadão da Terra de Meu Padim. Um momento de grande alegria para nós.

Alegria que aumentará mais ainda se na ocasião puder encontrar algum leitor do JBF residente em Juazeiro do Norte.

TRF-5, Juazeiro do Norte

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TRÂNSITO, ECONOMIA E GENTILEZA

Sete e quinze da manhã. Escrevo enquanto percorro o Eixo Rodoviário de Brasília, vulgo Eixão. Sigo do extremo da Asa Norte em direção ao extremo da Asa Sul, que é o caminho que me leva ao aeroporto. Obviamente que não estou dirigindo. Do banco de trás, consigo observar que estamos dentro do limite de velocidade da via.

Observo também o movimento dos outros veículos ao nosso redor. Uma quantidade considerável de carros para essa hora da manhã. Não chega a engarrafar, porque o Eixão raramente engarrafa, mas tenho certeza que em outras grandes cidades brasileiras já tem muito trânsito parado a essa hora.

Isso me faz pensar nesse mundo que criamos, onde milhões de pessoas saem de casa todas as manhãs para trabalhar, enchendo as ruas de gente, seja em automóveis, motocicletas, ônibus, trens, etc. Cada um segue uma direção, em busca do seu destino, de modo que seus caminhos se tocam ou se cruzam, mas raramente coincidem.

Em meio a essas divagações, lembro de uma cadeira de Economia que cursei no MBA em Gestão do Poder Judiciário, do qual participei nos idos de 2006 a 2008. Em certa aula, o professor tentava explicar o funcionamento do mercado a partir de um paralelo com o movimento do trânsito. Dizia:

– Observem que cada motorista tenta chegar ao seu destino, sem bater nos outros carros. Na economia também, cada agente econômico busca seus objetivos sem se chocar com os outros…

Aluno questionador (alguns diriam chato), desses que não se conformam com um raciocínio qualquer apresentado pelo mestre, questionei:

– Professor, entendo que a parte em que cada motorista quer chegar ao seu destino esteja conforme as regras da economia. Mas a parte de evitar bater nos outros carros, parar nos sinais vermelhos, não entrar na contramão, essas coisas cabem ao Direito.

Estava instalada a polêmica. Trabalho duro para o professor de Economia, em uma sala com uns trinta alunos, todos com formação jurídica. Alguns com mestrado ou doutorado em Direito. Não lembro em que deu aquela discussão, mas tenho certeza que o restante da aula passou mais rápido.

Hoje, enquanto sigo em direção ao aeroporto, observando o trânsito, vejo que todos tínhamos um pouco de razão. No trânsito, assim como nas relações econômicas, respeitamos o espaço do outro não apenas por receio de sanções legais, mas também para evitar acidentes (que além de atrasos nos trariam prejuízos) e pelo simples respeito pelo espaço do outro.

Sim, acredito na capacidade do ser humano de agir em cooperação, mesmo nesse mundo louco, quando a maioria das pessoas parece estar sempre apressada, correndo atrás de seus próprios objetivos. Aliás, não estou me referindo a grandes movimentos baseados na solidariedade, mas em nossa convivência diária, quando alguém nos cede passagem na porta giratória de um banco ou cobra um preço razoável por um serviço prestado. Outro dia, ao levar um liquidificador ao conserto, o rapaz que consertou recusou-se a cobrar, porque se tratava de um simples mau contato. Acabou recebendo uma quantia simbólica, por insistência minha.

Claro que nem todos colaboram para difundir a prática dessas pequenas gentilezas. Estando agora a menos de duzentos metros do aeroporto, vejo que um desgraçado parou bem no meio da via. Está desembarcando uma família inteira. Com várias malas.

Rapidamente se forma uma fila de carros. A passagem está completamente interrompida por alguém que, pelo jeito, não dá a mínima para os outros. Penso em desembarcar e seguir o resto do caminho a pé. Mas me recuso, em parte pela chuva fina que cai, em parte porque não admito ter meu caminho alterado por essa criatura infeliz.

“Desgraçado”. “Criatura infeliz”. Começo a rir de mim mesmo, porque as palavras que me vêm à mente não são essas que digito na tela do celular. Mas não vou escrever palavrões.

Alguns instantes depois já caminho pelo saguão do aeroporto. E continuo acreditando na predisposição do ser humano para a cooperação, o respeito e a gentileza.

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VIVA A LIBERDADE!

Neste domingo, 10 de dezembro de 2023, toma posse o novo presidente da Argentina, Javier Milei.

Se dependesse da chamada mídia tradicional, pelo menos a do Brasil, estaríamos todos certos de que o comando da Argentina estaria sendo entregue à extrema direita, ao autoritarismo, quiçá ao fascismo.

A informação descentralizada e distribuída (expressão que aprendi com o youtuber anarco-capitalista Peter Turguniev) impede que hoje em dia essa versão dos acontecimentos nos seja imposta. Os meios de comunicação tradicionais já não têm o monopólio da informação.

Uma breve busca no Google é suficiente para se verificar que Javier Milei foi professor de Economia e executivo de uma grande empresa argentina. Além das referências a sua atuação como membro de uma banda de rock cover dos Rolling Stones e goleiro de um time de futebol. Somente se tornaria político em 2021, quando se elegeu deputado, vindo a ser eleito Presidente da Argentina já em 2023, aos 53 anos de idade.

Uma busca um pouco mais refinada logo revela que Javier Milei é um libertário, e que o libertarianismo passa longe do fascismo, defendendo um Estado cada vez menor, até que se torne desnecessário.

Admito que fui um pouco além de buscas no Google. Desde que Milei foi o mais votado nas primárias argentinas – chamadas PASO, sigla que significa Primarias Abiertas Simultáneas y Obligatorias – incluí nos meus exercícios de espanhol a tarefa de assistir vídeos com entrevistas de Javier Milei, além de suas participações suas em programas da TV argentina. Queria saber o que falava aquela figura que tanto incomodava comentaristas políticos do Brasil.

Daí avancei para o acompanhamento de notícias sobre a eleição na Argentina. Acabei me inscrevendo no canal de notícias LA NACIÓN, que durante a campanha contou com a participação de vários comentaristas nitidamente contrários ao governo kirchnerista de Alberto Fernández.

Para minha grata surpresa, o que descobri acompanhando essa programação foi um Javier Milei que está bem além da aparência exótica – com aquele cabelo parecido com o do Guga Chacra – e do jeito temperamental, que encerra seus discursos com um palavrão.

Em cada um de seus pronunciamentos, vi um economista que assume claramente suas posições, em defesa da redução do Estado e da condução da Argentina ao crescimento e desenvolvimento econômico com o mínimo de intervenção estatal. Um político que tem convicções bem fundamentadas, concordemos ou não com elas.

No campo moral, aproxima-se dos conservadores ao ser contra o aborto, mas o faz por ser a favor da vida, não por motivação religiosa. Também se alinha aos conservadores quanto à posse de armas, para defesa pessoal, mas se afasta na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo: alega ser uma questão individual; as pessoas devem ter liberdade de escolha. Não consegui identificar o que pensa sobre a descriminalização das drogas.

Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de Milei citar, em suas entrevistas, livros de diversos autores. Por causa dele conheci obras como “La Batalla Cultural”, do também argentino Agustín Laje, “El economista callejero”, do chileno Axel Kaiser, e “A virtude do egoísmo”, da russo-americana Ayn Rand, dentre outros. Em uma entrevista a Alejandro Fantino, logo após eleito, Milei respondeu a uma das perguntas fazendo referência à ópera “Rigoletto”, do italiano Giuseppe Verdi. Ainda não vi a ópera, mas pretendo fazer isso em breve.

Ou seja, devo reconhecer que se trata de um indivíduo culto, cujo conhecimento vai além de teorias econômicas e práticas políticas. Um tanto exótico, excêntrico talvez, mas apoiado em convicções bem fundamentadas.

Do posto em que me encontro, sempre desejo o melhor para nossos vizinhos de toda a América do Sul, independentemente de quem são os seus governantes. Tenho especial carinho pela Argentina, não apenas por causa do bife ancho e dos vinhos de Mendoza. Na verdade, tenho uma playlist que ouço com frequência, na qual se reúnem Astor Piazzolla, Mercedes Sosa, Fito Paez, Vale Acevedo e Andrés Calamaro. Este último, para minha surpresa, declarou voto em Javier Milei.

Ficamos então na expectativa, para ver se o novo presidente terá sucesso na missão de tirar a Argentina da situação difícil em que se encontra, à beira de uma hiperinflação, com graves problemas econômicos e sociais.

Por enquanto, o que sei é que Javier Milei não é o louco de extrema direita que andaram pintando por aqui. Não, não é. Ao contrário, demonstra muita lucidez, inclusive quando elege a liberdade como valor maior a orientar suas atitudes.

E, convenhamos, foi uma grande sacada terminar os discursos dizendo: “¡Viva la libertad, carajo!”.

Este colunista fazendo cover do argentino Andres Calamaro

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O INIMIGO DA VERDADE

Acho que todo mundo conhece aquela fase do sono, quando a gente tá começando a dormir, ou quase pronto pra acordar, e vêm à mente imagens e situações que a gente não sabe se é sonho ou pensamento.

Foi o que aconteceu na noite passada, quando eu estava de olhos fechados, esperando o sono chegar, e me vi em um lugar onde dois repentistas se apresentavam.

Comecei a prestar atenção ao que cantavam, e observei que faziam uma espécie de ode, dedicada a alguém conhecido de todos ali.

Era como uma “homenagem”, palavra que escrevo entre aspas, porque os versos não eram nada elogiosos. Pelo contrário.

Quando concluíram, sob aplausos dos presentes, saltei da cama e tentei anotar tudo.

Claro que não consegui reproduzir todos os versos. Mas, juntando os fragmentos que memorizei com versos que eu mesmo criei, para preencher as lacunas que ficaram, foi possível recompor o seguinte trecho da apresentação:

– Eita sujeito que mente!
Que nunca fala a verdade!
Mente em grande quantidade,
Mente tanto que nem sente.
O frio, ele diz que é quente,
O largo, diz que é estreito
Se ele diz que está perfeito,
Veja bem que está quebrado.
Se diz que é seco, é molhado.
Como mente esse sujeito!

– Esse cabra não tem jeito,
Mente assim desde menino.
O grosso, ele diz que é fino.
O certo, diz que é malfeito.
Diz por aí que é direito,
Na verdade é um trapaceiro.
Se o caso envolve dinheiro,
Mente com desenvoltura
Mente assim, na cara dura,
Em mentira é o primeiro!

– Se passar um dia inteiro
Sem contar uma mentira,
A gente até se admira,
Desse malandro embusteiro.
Nem no mês de fevereiro
Diminui a quantidade
Dos ataques à verdade
Que ele fala e pronuncia:
Mente mais vezes ao dia
E com mais velocidade.

– Lá no centro da cidade,
Na hora que ele aparece
Todo mundo já conhece
Sua aversão à verdade.
O mestre da falsidade
E da dissimulação
Capricha na falação,
Mas engana pouca gente.
Talvez engane somente
Meia dúzia de “babão”.

– Na verdade, meu irmão,
Tem muita gente que apoia
Esse tipo de tramoia
De golpe e de enganação.
Eu tenho minha impressão
Sobre esse povo iludido:
Quem apoia esse bandido,
Não sabe o que está havendo,
Ou então é que está sendo
Por ele favorecido.

– Também ando convencido
Que é esse o quadro atual:
Ele engana o pessoal
Mal informado, iludido.
Nessa tarefa, é servido
Por gente que é como ele,
Que nem acredita nele,
Mas vê, com boa vontade,
Que “Inimigo da Verdade”
Seja o outro nome dele!

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UMA FÁBULA NO CHATGPT: ESTADO, OVELHAS E UM CÃO GULOSO

Testei o ChatGPT!

Vinha adiando esse momento há semanas, mas, no último sábado, não resisti: baixei o aplicativo no celular e comecei a usá-lo.

Ao ver que os textos da tela estavam em inglês, comecei com pergunta simples e óbvia:

– Posso fazer perguntas em português?

– Claro!

Passei então os parâmetros da minha demanda: uma fábula que falasse sobre a relação do Estado com a sociedade, tendo como personagens um cão pastor e um rebanho de ovelhas.

Menos de um segundo depois, a resposta:

– Claro, aqui está uma fábula que representa o poder do Estado sobre o povo:

“O Cão Pastor e o Rebanho de Ovelhas”

Era uma vez um cão pastor chamado Max, que cuidava de um grande rebanho de ovelhas em uma vasta planície. Max sempre agiu de forma protetora e sábia, mantendo as ovelhas seguras dos perigos que as cercavam. Ele as liderava com firmeza, garantindo que cada ovelha seguisse as regras e mantivesse a harmonia no rebanho.

No início, o rebanho de ovelhas estava contente sob o comando de Max, pois o Estado (representado por ele) fornecia segurança e organização. As ovelhas viviam pacificamente, sem medo dos lobos e outros predadores que rondavam.

No entanto, com o tempo, Max começou a exercer um controle cada vez mais rígido sobre o rebanho. Ele estabeleceu regras estritas e limitou a liberdade das ovelhas, alegando que era para o bem delas. As ovelhas começaram a se sentir oprimidas, e sua voz foi silenciada.

Max também começou a tomar mais recursos das ovelhas, acumulando riquezas em nome do Estado. As ovelhas, embora produtivas, não viam os benefícios de seu trabalho árduo.

Certo dia, uma ovelha chamada Lila decidiu questionar o poder de Max sobre o rebanho. Ela reuniu coragem e expressou suas preocupações, pedindo mais participação e justiça no Estado. Max, por outro lado, não estava disposto a abrir mão de seu controle.

A história de Max e do rebanho de ovelhas destaca como o poder do Estado, quando não é equilibrado e responsável, pode se tornar opressivo para o povo. É importante que o Estado proteja e sirva ao povo, em vez de dominá-lo, para que a harmonia e a justiça possam prevalecer em uma sociedade.

– Espero que esta fábula ilustre o que você estava procurando!

Gostei do trabalho da inteligência artificial. Usou todos os elementos que forneci, criou um texto leve e, ao mesmo tempo, conduziu o leitor a uma reflexão sobre a importância do Estado e os cuidados com os seus excessos, capazes de oprimir a sociedade, os indivíduos. Tudo isso escrevendo corretamente.

Um detalhe importante: cumpriu a tarefa em menos de um segundo!

E uma curiosidade: deu ao cão pastor o mesmo nome do nosso cãozinho Shitzu, o Max. Como não passei essa informação ao ChatGPT, acredito que tenha sido coincidência. Ou não. Dizem por aí que nossos celulares nos escutam, mesmo quando estão desligados.

Teorias conspiratórias à parte, reconheço que o trabalho da inteligência artificial me surpreendeu positivamente.

Mas, como nunca estamos 100% satisfeitos, senti falta de algo que chamo de “vida do texto”. Alguma coisa que incomode o leitor, que o faça lembrar que a vida real é bem diferente das nossas teorizações.

Então, acredito que, se eu mesmo a escrevesse, a fábula seria mais dramática.

Falaria do rebanho sendo atacado frequentemente por lobos, que devoravam três ou quatro ovelhas todos os dias, além das que se feriam no combate com os lobos e acabavam morrendo depois. O cão pastor – um enorme Kangal talvez – chamado para lhes dar segurança, teria um apetite voraz e sempre crescente. Sendo o próprio cão tão carnívoro quanto os lobos, comeria quase tantas ovelhas quanto as que eram devoradas antes da contratação de sua proteção. Daí decorreriam grandes conflitos internos no rebanho, pois seria necessário encontrar uma maneira de escolher as ovelhas que virariam comida de kangal. Quem sabe o cão chamasse outros dois de sua espécie para dividir com ele o poder, sob o argumento de que, cada vez que um deles extrapolasse do seu poder, seria contido pelos outros dois. Há muitas possibilidades a partir daí…

Admito, porém, que, com os elementos que entreguei ao ChatGPT, seria difícil ele se afastar da conclusão de que “o poder do Estado, quando não é equilibrado e responsável, pode se tornar opressivo para o povo”.

Em resumo: gostei da brincadeira; e, no que havia de essencial na fábula proposta, penso que a inteligência artificial saiu-se muito bem.

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UMA PASSAGEM PARA ARAGUAÍNA

Devo publicar, algum dia, um livro só de crônicas relacionadas a aeroportos.

É um lugar muito rico em personagens e situações que não podem simplesmente ser esquecidos, sem uma reflexão ou pelo menos um registro.

Hoje, por exemplo (7 de setembro de 2023), encontrei no aeroporto de Brasília um rapaz pedindo dinheiro para completar o pagamento de uma passagem para sua cidade de origem.

Caminhava ao lado da fila de despacho de bagagem, expondo a fragilidade da sua situação e sua necessidade de voltar para casa.

Por alguma razão, ele havia se deslocado até a capital do país. Por outro motivo, ainda mais urgente, precisava voltar.

Não se sabia como havia chegado a Brasília, mas, quanto ao modo pelo qual pretendia regressar, entendi que, alcançando a quantia almejada, ele compraria a passagem imediatamente, no balcão da companhia aérea, e embarcaria no próximo voo para o destino pretendido.

Não se pode dizer que seja uma conduta padrão, nesses tempos de compras de passagens e checkin feitos pela internet. Mas, convenhamos, o cara não tinha nem onde ficar em Brasília. Onde é que arrumaria um computador com internet, para adquirir uma passagem aérea?

Então, ele estava lá, fazendo a arrecadação para sua “vaquinha”, e isso é o que importa agora.

Caminhava de um lado para outro, lamentando-se e olhando nos olhos das pessoas, como se procurasse identificar em alguém um pouco de compaixão. Alguém que escutasse sua história e se sensibilizasse com ela.

Tinha a perna direita envolvida por ataduras, desde o joelho até o pé, deixando à mostra apenas os dedos. Apoiava-se em duas muletas de alumínio, dessas que tem uma parte onde se encaixa o antebraço, enquanto as mãos seguram outras partes, que lembram um guidão de bicicleta.

Difícil imaginar que alguém se prestaria àquele papel com o intuito de se aproveitar da boa fé dos transeuntes. Salvo por um motivo: devia ser a quarta ou quinta vez que eu presenciava aquela cena no aeroporto de Brasília. Não que se tratasse da mesma pessoa. Não sou tão bom fisionomista assim. Mas me chama a atenção que esse tipo de situação seja tão recorrente.

Segui observando, e percebi o rapaz dizer que teria como destino a cidade de Araguaína, no Maranhão. Aquilo me despertou uma dúvida: Araguaína fica no Maranhão?

Sem vontade de consultar o Google Maps naquele momento, e com o rapaz vindo em minha direção, simplesmente me posicionei de forma a deixar claro que eu estava atento aos seus movimentos. Talvez ele me desse mais detalhes de como havia chegado àquela situação.

Nossos olhares se encontraram, e isso pareceu ter causado algum efeito negativo sobre ele, porque olhou para o chão e afastou-se repentinamente, sumindo na multidão.

Pela maneira como caminhava, ao se afastar, fiquei com a impressão de que o ferimento da perna era falso.

Minutos depois, diante do portão de embarque, consultei o Google Maps, e confirmei o que minha memória já havia alertado: a cidade de Araguaína fica no Estado do Tocantins.

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FATOS OU NARRATIVA?

De uns tempos pra cá, não passa um único dia sem que eu ouça a palavra “narrativa”. Geralmente, alguém responsabilizando outra pessoa, de interesses contrários, por sua criação:

— Ele está construindo uma narrativa!

— Essa narrativa não pára em pé!

— Enquanto nós apresentamos fatos vocês vêm com narrativas!

Lembro de quando escrevi o seguinte, em 2019:

Palavra também entra na e sai de moda. É por isso que quase ninguém diz hoje em dia que vai dar um “amplexo” em “outrem”. Já “impactar” e “agregar valor” são termos que escutamos várias vezes em um mesmo dia.

“Resiliência” também me parece em alta. “A nível de” teve seus dias de glória, depois perdeu força. “Meme” e “viralizar” são como startups: têm seu habitat natural na internet.

Falava eu então sobre a palavra “transparência”, que não apenas estava na moda (e ainda se mantém), mas havia ganho destaque com um sentido diferente do original, conforme demonstro no referido texto (clique aqui para acessar).

Naquela época, “narrativa” ainda não tinha adquirido a popularidade que tem hoje, mas observo que também neste caso temos uma palavra que ganha destaque ao mesmo tempo em que muda de sentido.

Afinal, até recentemente, “narrativa” era uma palavra que interessava basicamente a quem se preparava para o vestibular:

— A redação pode ter a forma descritiva, dissertativa ou narrativa! — dizia a professora,

O sentido atual é outro, de conotação pejorativa. “Narrativa”, no sentido que se tem dado ultimamente, é algo que não merece crédito. Uma versão fantasiosa dos acontecimentos. Não propriamente uma mentira, mas um encadeamento de fatos verdadeiros (perdoem-me a redundância), expostos de forma a induzir o interlocutor a erro, ou conduzi-lo a uma conclusão previamente estabelecida e desconectada da realidade.

Nesse mister, o autor ou propagador da narrativa pode lançar mão de recursos retóricos, dando ênfase, por exemplo, a determinados aspectos dos fatos expostos. Ou misturá-los a subjetividades e intenções nem sempre demonstráveis, mas muito bem recebidas por quem comunga das convicções do narrativista.

Aliás, após escrever o parágrafo anterior, procurei a palavra “narrativista” no Google, e fiquei sabendo que o Dicionário On Line de Português ainda não tem um significado para “narrativismo”.

Encontrei, sim, referências ao narrativismo, em estudos de psicologia, mas não me considero apto a comentá-las. Aqui, narrativista significa apenas “a pessoa que cria ou propaga uma narrativa”, no atual sentido atribuído à palavra “narrativa”, o que, pelo que se deduz, é algo bem diferente de narrador.

Dicionarizado ou não o narrativismo, o certo é que esse novo sentido deu força à palavra “narrativa”, trazendo-a para o centro dos debates políticos. Parlamentares de esquerda e direita usam e abusam, não apenas da palavra, mas também da prática que ela descreve.

Nenhuma novidade na parte final do parágrafo anterior, mas agora há um novo significante para o significado.

Embates políticos à parte, acredito que nem todo mundo se dê ao trabalho de observar os detalhes de quando uma palavra surge ou adquire um novo sentido em nosso idioma. Para mim, no entanto, é como descobrir uma nova espécie. Daí a vontade de chamar a atenção para o acontecimento.

No mais, garanto que me limitei a apenas expor os fatos. Mas não me surpreenderei se algum leitor disser que estou criando uma narrativa.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

DESPERTAR PARA MAIS UM ANO

Acabo de acordar. São seis horas da manhã do dia 17 de agosto de 2023. É cedo, eu sei. Ainda mais considerando que o aplicativo de clima do IPhone marca 15 graus centígrados em Brasília. Aqui, no Lago Norte, deve estar uns 13 graus. É sempre uns dois graus mais frio aqui.

Fato é que acordei. E não foi estimulado por um despertador. Simplesmente despertei. (Essa última afirmação soou para mim como se estivesse carregada de duplo sentido. Talvez esteja mesmo, mas foi acidental)

Retomo: acordei espontaneamente e percebi que eram seis horas da manhã do dia 17 de agosto de 2023. Uma data qualquer para muita gente, mas não para mim. Afinal é o dia do meu aniversário. 57 anos. Ou 57 voltas em torno do sol, como prefiro dizer.

Sempre faço reflexões sobre a vida nos meus dias de aniversário. É como se fosse um réveillon particular: penso em como tenho vivido, nos objetivos alcançados e por alcançar, coisas assim.

Penso em mim e na minha família, e agradeço a Deus por ver que vamos tocando a vida com dignidade, serenidade e até algum conforto. Penso nos amigos e me alegra observar como confraternizamos e colaboramos.

Mas penso também no Brasil e no mundo, e isso me causa algumas preocupações.

Preocupo-me com o mundo porque continua envolvido em conflitos, o que, a meu ver, tem piorado. No mínimo, tem se tornado mais instável, especialmente com a escalada da guerra entre Rússia e Ucrânia, que nos fez voltar a falar em risco de uma nova guerra mundial, desta vez com o uso de armas nucleares.

Também me preocupo com o Brasil, que parece cada vez mais se aprofundar em suas dificuldades políticas, econômicas, sociais… e tantas outras, que deixo de enumerar aqui, para não me alongar demais.

Na verdade, dessas muitas dificuldades do Brasil, hoje tenho especial preocupação com a perda de credibilidade das instituições, das autoridades, da imprensa, dessas coisas que os estudiosos do assunto muitas vezes se referem como pilares de sustentação de uma sociedade.

Não é difícil perceber que o ser humano só chegou onde chegou por causa da sua capacidade de se organizar em grupos e cooperar. Se no princípio, quando esses grupos eram pequenos, bastava a confiança entre seus membros, o aumento desses grupos, em quantidade e complexidade, exigiu toda uma estrutura de princípios e valores destinados a manter a coesão desses grupos.

Acontece que as pessoas precisam acreditar nesses princípios e valores, para que eles gerem essa coesão. E vejo que isso não vai bem no Brasil. Ao contrário, o que vejo hoje são sinais de desagregação.

Não falo de insatisfação das pessoas com o governo, com os políticos ou com a seleção de futebol. Isso sempre houve. É parte do pacote do mundo civilizado. Falo de perda de noção do todo. Do enfraquecimento da ideia de quem cabe na palavra “brasileiros”.

Aliás, a perda da noção do conteúdo de palavras também desagrega. Palavras e expressões como democracia, liberdade, estado de direito, facismo, racismo, e tantas outras, nunca tiveram um conteúdo fixo, aceito por todos. Mas a oscilação a esse respeito precisa acontecer dentro de limites que facilitem a convivência, não que nos afaste ou mesmo isole.

O que tenho observado nos últimos anos é que temos nos fechado em grupos pequenos (as chamadas bolhas) e nos afastado do todo. Percebo ainda que essa tendência atinge não apenas os cidadãos comuns, mas lideranças, autoridades e membros dos poderes do Estado, a quem cabe maior parcela de responsabilidade sobre os destinos de um país.

Tenho minhas impressões sobre as causas disso tudo, mas não tratarei delas agora. Hoje, apenas reconheço que me preocupo com tudo isso.

Preocupo-me, mas não desanimo. Neste 17 de agosto, desperto para mais um dia e desperto para mais um ano. Sigo buscando uma convivência pacífica com todos, aprendendo com todos que estejam dispostos a me ensinar algo novo, mas sem abrir mão dos princípios adquiridos nos anos já percorridos.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

SEU MANSUETO E A PIADA DO PATRÃO

Dia dos pais é dia de lembrar das histórias do Seu Mansueto. E esse é um tema no qual não falta assunto quando estamos reunidos, eu e meu irmão Materson (a quem chamamos carinhosamente de Bat, em referência ao famoso xerife americano dos tempos do velho oeste, que virou série de TV no final dos anos 1950 e inspirou seu nome: Bat Masterson).

Pois bem. Lembrando agora das histórias do Seu Mansueto, recordo que uma de suas muitas peculiaridades era sua reação a piadas e anedotas.

Pra começo de conversa, Mansueto era bem humorado, mas nunca dava uma gargalhada. Tinha um riso tranquilo, alegre, deixando aparecer o dente de ouro, mas ria em silêncio, como se reservasse o riso apenas para quem estivesse mais próximo.

Nosso Tio Detinho é que dava umas gargalhadas sonoras. Às vezes, quando isso acontecia, Mansueto olhava para Detinho admirado e dizia:

– Eu tenho vontade de saber como é dar uma gargalhada dessas…

De fato, eu e Bat concordamos que nunca vimos nosso pai rindo alto. Quando alguém começava a contar uma piada, já ficávamos na expectativa, para ver se o piadista conseguiria arrancar-lhe uma gargalhada. Mas isso nunca aconteceu.

Aliás, Mansueto tinha uma exigência para quem fosse lhe contar uma piada ou anedota: se, durante a narrativa, o piadista começasse a rir, Mansueto o interrompia.

– Peraí, rapaz! O contador de piadas não pode rir.

– Como assim, Seu Mansueto?

– Não pode! Porque tira a graça da piada. Se você vai contar uma piada pra mim, quem tem que rir sou eu. Se você, que tá contando a história, já tá rindo, não tem mais necessidade de eu rir.

– Mas a história é engraçada, Seu Mansueto…

– Eu acredito que seja mesmo, mas você tem que me deixar à vontade, pra eu rir quando a parte engraçada acontecer. Se você ficar rindo desde o começo, quando chegar a parte que é pra rir não vai ter mais graça…

A discussão seguia nisso e a piada estava perdida. O piadista teria que tentar outro dia. E tratasse de apresentar uma piada que Mansueto não conhecesse, porque piada velha não fazia ele rir, nem quando era o patrão quem contava.

Certo dia, estando Mansueto com vários colegas, no refeitório da empresa onde trabalhava, Doutor Antônio, dono do negócio, entrou no recinto e passou a conversar com eles. Conversa vai, conversa vem, o patrão resolveu contar uma piada.

Claro que todos fizeram silêncio para prestar atenção.

Ao final da narrativa, gargalhadas explodiram no ambiente. Alguns choravam de rir. Só Mansueto observava tudo com um sorriso contido. Um colega percebeu e perguntou:

– Gostou da piada do patrão não, Mansueto?

– A piada é boa, mas eu já conhecia. Eu que contei pra ele. Num foi Doutor Antônio?

– Foi – confirmou o patrão. E, dirigindo-se aos outros empregados, prosseguiu. – Ele me contou essa ontem. O Mansueto é exigente com piadas, mas ele pode, porque sabe contar bem contado.

– Pois é, Doutor Antônio – emendou Mansueto. – O senhor diz que eu sei contar piada, mas essa mesma piada, que lhe contei ontem, eu contei aqui pra eles, faz uma meia hora. Ninguém riu. Agora, como foi o senhor que contou, foi esse sucesso. Teve um ali que parece que se urinou de rir.

Agora foi a vez do patrão explodir numa gargalhada. Os empregados o acompanharam, cada um rindo mais alto que o outro. Menos Mansueto, que também ria, mas silenciosamente, como de costume.

Era assim o Velho Mansueto. Autêntico, verdadeiro e respeitado. Até quando fazia graça.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

JOGANDO VERDE

Estava recentemente em uma mesa com amigos, comendo, bebendo e conversando, quando um deles pronunciou a frase que me inspirou a escrever hoje:

– Aí ele jogou uma verde, né?

Não lembro qual assunto levou àquela afirmação por um dos comensais, mas isso agora já não importa. O que importa é que todos ali entenderam do que se tratava. Embora nosso amigo tenha usado apenas a forma abreviada da expressão – “jogar uma verde” – todos ali sabiam que sua forma completa é “jogar uma verde pra colher maduras”, sujeita a variações que não lhe alteram o sentido.

Ou seja, falávamos de uma situação na qual alguém, manipulando dados escassos ou pouco relevantes dos quais tinha conhecimento, tentava obter de outrem as informações que realmente interessavam.

Ultimamente, outra expressão, de significado semelhante, tem ganhado espaço nos noticiários e nas redes sociais: fishing expedition. Há registro inclusive de que a frase em inglês correspondente a “ele está jogando verde” seria “He’s just fishing”.

Deve-se, no entanto, lembrar, que a prática conhecida como fishing expedition trata de algo mais específico que um simples “jogar verde”. Nela, autoridades com poderes investigativos utilizam-se de indícios frágeis de práticas supostamente criminosas para obter dados amplos e sigilosos sobre alguém que de antemão pretendem punir. Assim, a investigação é aberta a pretexto de se elucidar um crime, mas o verdadeiro objetivo é tentar descobrir crimes outros, de preferência mais graves.

No fim das contas, acaba havendo mesmo semelhança com o ato de “jogar uma verde para colher maduras”, na medida em que a investigação parte de dados superficiais ou pouco relevantes em busca de fatos capazes de incriminar alguém.

Nada obstante essa breve divagação jurídica, nossa crônica não é sobre investigações, crimes ou autoridades. Aqui, nossa atenção se volta para situações cotidianas, até mesmo banais, dignas de serem tratadas em mesas de bar. Então, prossigamos!

Naquele dia, enquanto estava com meus amigos, a própria expressão usada na conversa tornou-se o assunto em pauta, quando alguém perguntou:

– De onde surgiu essa história de “jogar verde”, hein?

Era a deixa que eu precisava para exibir meus conhecimentos sobre a origem das coisas.

Deixando o celular sobre a mesa, para não pensarem que eu expunha conhecimentos extraídos em tempo real do Google, expliquei tudo:

Essa expressão vem de uma história ocorrida no tempo do Brasil Imperial, quando um estudante que morava na cidade, mas era filho de um fazendeiro, descansava à sombra de uma das muitas mangueiras que havia na propriedade do seu pai.

Recuperava-se de uma forte ressaca, causada pelo vinho em excesso, consumido na noite anterior, em uma casa de prostituição. Enquanto descansava, observou um menino, filho de escravos, nascido já na vigência da Lei do Ventre Livre, usando uma vara para colher mangas.

Estavam nisto, quando o menino pegou uma manga verde, encontrada no chão, e a arremessou contra o cacho de mangas maduras de um galho mais alto, além do alcance da sua vara. Com o impacto da manga verde, as maduras logo vieram abaixo, sendo imediatamente recolhidas pela criança.

Mais tarde, o estudante foi à casa da noiva, para lhe fazer a corte, mas esta conversava de modo estranho, dando a entender que havia sido informada das peripécias do rapaz na noite anterior. E ele, percebendo que a noiva o cercava com perguntas e insinuações, vaticinou:

– Vejo que você está me jogando uma verde para ver se colhe maduras!

A moça surpreendeu-se com a maneira de falar do noivo, mas, percebendo que sua estratégia para tentar obter uma confissão havia sido descoberta, mudou de assunto.

A partir daquele dia, a frase foi passando de boca em boca, chegando aos dias de hoje com o significado que se lhe atribui.

Fui aplaudido. Nenhum dos presentes conhecia essa história. Nem eu. Mas, como sempre digo, o importante de uma história não é ser verdadeira; é ser bem contada!