MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

DEPOIS DOS CRÉDITOS

O Dia dos Namorados sempre me traz à lembrança os grandes romances retratados pela arte.

As canções, o cinema e a literatura estão cheios de histórias de amor que nos emocionam.

Amores que superaram grandes obstáculos, como a de Ulisses e Penélope; que resultaram de encontros improváveis, como em “A Bela e a Fera”; histórias de personagens como Eduardo e Mônica, que, apesar de tão diferentes, descobriram um jeito de caminharem juntas.

Sei que nem todo mundo vive histórias assim, feitas de tramas espetaculares. Mas essa é talvez a principal utilidade dessas narrativas: inspirar as pessoas a perceberem o extraordinário escondido no cotidiano.

Porque muitas vezes o romance está menos nos grandes gestos que nas pequenas permanências; menos nas declarações memoráveis que na companhia silenciosa de quem escolhe ficar.

E há um detalhe importante a ser levado em conta nisso tudo: seja nos romances épicos, seja nas simples comédias românticas, a história costuma terminar exatamente quando o casal finalmente fica junto.

O beijo acontece. O reencontro ocorre. Os obstáculos são vencidos. Sobem os créditos.

Na vida real, é justamente aí que a história começa.

Com os desafios da convivência, com o exercício diário da tolerância, com o companheirismo dos dias fáceis e dos dias difíceis. E talvez seja justamente aí que o amor revele sua forma mais verdadeira.

Não é à toa que Belchior dizia que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Porque quem não atravessou oceanos e não venceu maldições ancestrais pode ter construído, dia após dia, uma história feita de conversas, paciência, afeto e presença.

E é aí que está a grandeza.

Então, o que tenho a dizer aos que estão juntos neste Dia dos Namorados é: olhem-se nos olhos e celebrem. Celebrem não apenas o amor que sentem, mas a história que construíram. Porque só vocês sabem o que enfrentaram para chegar até aqui, mas vocês chegaram.

Isso, por si só, já merece ser comemorado.

Com a vantagem que o seu filme pessoal não precisa terminar quando começarem a subir os créditos.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

PRÉ-ELEIÇÃO

Há certos institutos jurídicos que desafiam a compreensão do homem comum. E não se está falando aqui da redação das leis – apesar de existirem textos bem confusos – mas do conteúdo efetivo da norma. Das regras que servem de orientação para o cidadão conduzir seus atos.

Veja-se, por exemplo, a chamada “pré-campanha eleitoral”, um curioso período no qual alguém percorre cidades, concede entrevistas, critica adversários e aparece sorrindo em todas as redes sociais, deixando bem claro que pretende ocupar um cargo público ao qual se tem acesso por meio de uma eleição.

Essa pessoa pode fazer tudo isso para demonstrar suas pretensões eleitorais. Desde que, naturalmente, não peça votos. Porque aí já seria campanha. E campanha antes da data marcada na lei eleitoral não pode!

Cria-se, assim, uma espécie de teatro semântico-eleitoral, no qual todos fingem não ser exatamente aquilo que claramente são. Porque o candidato ainda não é candidato; a campanha ainda não é campanha; os noticiários se enchem de pesquisas de intenções de voto (mas apenas intenções); e o eleitor, embora seja o destinatário de todos esses movimentos, faz de conta que está apenas “acompanhando o debate democrático”.

Diante de tais peculiaridades do nosso calendário político, pré-candidatos transitam cautelosamente entre preâmbulos, previsões, precauções e prevenções jurídicas. Praticamente, uma regulamentação oficial do “pré-voto”!

O poeta popular percebe a precariedade do processo e pronuncia palavras preciosas:

No Brasil tem umas coisas
Que não consigo entender:
Por exemplo, pré-campanha,
Que danado vem a ser?
Conheço premonitório,
Prejuízo, precatório,
Preocupado e pregão.
Mas, garanto, meu senhor:
Nunca vi pré-eleitor
Votando em pré-eleição.

Mas, ligo a televisão
E logo é anunciado:
Pré-candidato Fulano
Hoje é nosso entrevistado.
Daqui a pouco, o sujeito,
Que pretende ser eleito
Pelo voto popular,
Faz um monte de promessa
– embora voto não peça –
Pra não se prejudicar.

Pois, se o sujeito falar:
“Pré-eleitor, vote em mim!”
Pode ir se preparando
Que a coisa pode dar ruim.
Pois campanha prematura
Tem reprimenda segura,
Prevista em regulamento.
E o pré-candidato tem
Que preparar muito bem
O seu pronunciamento.

Pode fazer juramento
De nunca prevaricar;
Pode prometer ao povo
Que o país vai prosperar.
Pode fingir que tem fé,
Pode até jurar que é
De Jesus grande devoto.
Mas deve estar prevenido
De não fazer um pedido
Ao eleitor: o pré-voto!

Com esses versos anoto
Pontos de perplexidade
Pelas leis que preconizam
Tamanha preciosidade
Apesar desse preceito,
Da fase prévia do pleito.
Já estou, presentemente,
Prevenido e programado,
Com meu voto preparado
Pra votar pra presidente!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

ESCRITÓRIOS SEM PAREDES

Houve um tempo em que certas atividades exigiam portas fechadas. Conversas profissionais, reuniões estratégicas, discussões financeiras ou jurídicas costumavam ocorrer em salas reservadas, onde a discrição era considerada parte da própria civilização.

Então veio o notebook. Depois o smartphone. Em seguida os fones sem fio. E, assim, surgiu uma nova variante da espécie humana: o profissional nômade do viva-voz.

É bem verdade que, no tempo em que os celulares eram apenas telefones, já havia quem fizesse questão de demonstrar que os seus negócios não podiam esperar por momentos de maior privacidade. Mas, com o avanço da tecnologia, as exibições de alta conectividade ficaram cada vez mais frequentes e explícitas.

Hoje, qualquer cafeteria vira facilmente uma filial improvisada de multinacional. Aeroportos tornaram-se coworkings permanentes. Restaurantes já não servem apenas comida: oferecem também, às vezes involuntariamente, ambiente para reuniões corporativas e alinhamentos de equipe.

Outro dia, enquanto eu e Natália – minha mulher – almoçávamos no restaurante de um shopping, observamos que um rapaz de seus vinte e poucos anos ocupou a mesa ao lado, posicionou o laptop diante de si e fez dois pedidos: um chope e a senha do wi-fi.

Até aí, nada demais. Afinal, eram quase duas da tarde de uma sexta-feira, e muita gente que estava naquele restaurante não voltaria mais ao trabalho naquele dia.

Mas, ao contrário do que deduzimos, ainda não havia “sextado” para ele. Minutos depois da chegada do rapaz, nossa atenção foi novamente atraída para a mesa vizinha: agora ele falava alto, em uma aparente discussão sobre relatórios, metas e medidas de compliance.

Natália olhou para mim com um sorriso de surpresa, e seu olhar já me encontrou sorrindo de volta e abrindo os braços – como o clássico emoji de “fazer o quê?”.

Já havíamos presenciado situações semelhantes e trocado impressões sobre o assunto, mas daquela vez fomos arrastados para uma videoconferência não agendada. Sem ninguém nos indagar sobre nosso interesse, fomos praticamente integrados ao conselho administrativo da empresa!

Esse não é um caso isolado. Certas pessoas parecem acreditar que a mera abertura de um notebook em local público lhes concede uma espécie de imunidade acústica. Como se o restante da humanidade automaticamente deixasse de existir diante da relevância transcendental de suas demandas profissionais.

E não se trata apenas de falar alto. Há também a teatralidade. O sujeito franze a testa para a tela. Faz pausas longas. Suspira. Concorda balançando a cabeça, mesmo quando ninguém ao redor perguntou absolutamente nada.

Há também os que caminham de um lado para o outro, com o celular na mão, reproduzindo em escala reduzida a energia de um CEO prestes a decidir os rumos da economia mundial — embora, às vezes, esteja apenas discutindo o atraso de uma planilha.

Alguns sequer se dão ao trabalho de usar fones de ouvido. O cidadão posiciona o celular sobre a mesa, ativa a câmera e passa quarenta minutos debatendo metas, contratos e indicadores, impondo a dezenas de desconhecidos a condição involuntária de plateia corporativa.

E o mais curioso: muitos desses assuntos parecem exigir sigilo absoluto. O tom de voz sugere alta complexidade estratégica. Mas tudo é compartilhado publicamente entre cappuccinos, garçons, ruídos de xícaras e, no específico caso aqui referido, goles em canecas de chope.

Longe de mim querer impor a alguém a maneira como trata os negócios de sua empresa. Estou apenas compartilhando com o leitor minha perplexidade – e confesso, incômodo – diante de um comportamento que parece ser o novo normal.

Pode ficar tranquilo o leitor que chegou até aqui e se reconhece como um desses executivos de escritórios sem paredes.

Talvez o verdadeiro símbolo dos tempos atuais não seja a inteligência artificial, mas a capacidade humana de transformar qualquer ambiente em escritório — e qualquer pessoa próxima em testemunha compulsória de sua produtividade.

Há algo de curiosamente paradoxal nessa nova etiqueta social: nunca se falou tanto em empatia, respeito aos espaços coletivos e convivência civilizada, mas jamais foi tão comum tratar o ambiente compartilhado como uma extensão irrestrita da própria sala, do próprio escritório e, sobretudo, da própria importância.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

APOIAR OU SUPORTAR?

Seja em atividades jurídicas, seja em experiências literárias, a palavra é, para mim, uma espécie de ferramenta de trabalho. Por isso, é comum que me chame a atenção quando um termo passa a ser utilizado com maior frequência que a habitual — ou quando assume um novo significado.

Isso já me ocorreu, por exemplo, com o substantivo “transparência”, tema de uma crônica minha há alguns anos (clique aqui para ler). Na ocasião, expus minha tese sobre como o termo, que originalmente remetia àquilo que não se vê, passou a significar justamente o oposto: a possibilidade de tudo ser visto com nitidez.

Hoje, minhas reflexões recaem sobre a expressão “equipe de suporte”. Ela aparece em e-mails automáticos, atendimentos telefônicos e mensagens padronizadas: “Nossa equipe de suporte está à disposição”.

É evidente que, nesse contexto, a mensagem traduz uma oferta de ajuda — geralmente sob a forma de orientação a usuários de determinado sistema ou aplicativo.

Mas há algo ligeiramente deslocado aí.

Até pouco tempo, “suporte” tinha um sentido mais concreto, designando a estrutura que sustenta algo, como, por exemplo, uma prateleira.

Talvez por isso o substantivo resista a uma transposição natural para o verbo correspondente. Dizemos “ajudar” em vez de “dar uma ajuda”, “elogiar” em vez de “fazer um elogio”, “criticar” em vez de “fazer uma crítica”. Mas quem diria: “espere um pouco que vou te suportar”?

Nesse contexto, percebe-se que “suportar” carrega outro peso semântico (com o perdão do trocadilho). Suporta-se a dor, o atraso, o transtorno. Suporta-se aquilo que não se pode evitar — e que, por vezes, mal se tolera.

Quando se trata de contribuir para que alguém alcance um objetivo, o que fazemos é ajudar. Ou… apoiar!

Yes, here you are!

Tratando-se de uma expressão tão presente no universo da tecnologia da informação, é legítima a suspeita de ser decorrente de um empréstimo mal traduzido do inglês. Afinal, se “to support” significa “apoiar”, não seria surpresa que as support teams tenham sido vertidas, de modo quase automático, como “equipes de suporte”, em vez de “equipes de apoio”.

Uma transliteração apressada, dessas que atravessam fronteiras sem pedir visto ao sentido.

No problem. Já convivemos bem com verbos como deletar, printar e reportar. Não vamos bugar por causa disso.

Ainda assim, há uma ironia silenciosa — ainda que involuntária — nessa hipótese: quando precisamos de ajuda e recorremos ao suporte, somos atendidos por profissionais que nos apoiam?…

Ou apenas nos suportam?

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A MÃE DO MENINO QUE ESTUDAVA INGLÊS (*)

Essa é a história da mãe de um menino chamado Francisco. Mas é difícil falar da mãe de Francisco sem falar dele. É mais ou menos como no Evangelho de Mateus, quando se fala da mãe dos filhos de Zebedeu. A diferença é que da mãe de Francisco sabe-se o nome: Maria José. Embora ela mesma não gostasse desse nome, preferindo ser chamada apenas de Mazé.

Comecemos, então, falando de Francisco, um menino pobre, nascido em Crateús, no interior do Ceará. Franzino, com a pele queimada pelo sol que açoita o sertão nordestino, era parecido, nessas características, e em muitas outras, com os meninos com quem compartilhava a infância.

O que ele tinha de diferente dos seus amigos era um interesse pouco comum, naquele tempo e lugar, pelo idioma que tem seu berço no Reino Unido da Inglaterra.

Qualquer livro, qualquer revista, qualquer recorte de jornal que trouxesse algo escrito em inglês, chamava a atenção de Francisco. À noite, quando o rádio captava melhor as frequências que vinham de longe, era comum encontrar o menino colado àquele aparelho mágico, ouvindo programas da BBC de Londres.

Não entendia nada, mas gostava de ouvir. Aliás, não entendia nada no começo. Mas depois começou a entender.

Naquele tempo, havia um pequeno cinema em Crateús, onde Francisco assistia a alguns filmes americanos, prestando menos atenção ao enredo que às legendas e às falas dos atores. Assim, foi juntando os rudimentos adquiridos na escola com o que aprendia nesses filmes, e logo estava entendendo frases inteiras, inclusive algumas captadas através das ondas curtas da emissora londrina.

E, talvez por causa dos filmes que via no cinema, nasceu em Francisco um sonho: ser ator. Mas, não em novelas ou no cinema brasileiro. Queria ser ator no cinema americano.

É a partir deste ponto que se abre o espaço para falar da personagem central da história: Dona Mazé, mãe de Francisco.

Essa mulher, acostumada à dura lida da atividade agrícola, teve sensibilidade suficiente para perceber que Francisco não era como os seus outros nove filhos. Todos frequentaram a escola, mas vontade mesmo de estudar, somente Francisco, o caçula, a demonstrava. Seus irmãos aprenderam a ler, escrever, fazer algumas contas, mas nada que os levasse além dos primeiros anos do ensino fundamental. Gostavam mais dos trabalhos manuais ou de ajudar os pais na roça.

Com Francisco acontecia o contrário. Até ajudava os pais no trabalho pesado, mas gostava mesmo era de estudar, principalmente a língua inglesa. E gostava de ouvir músicas em inglês também. Não era fácil conseguir, nas suas condições, discos de bandas e cantores estrangeiros, mas ele conseguia. Fosse em bancas de revistas ou lojas de produtos usados, Francisco sempre garimpava alguma coisa. Para isso, contava com o apoio de sua mãe.

Aliás, não era só assim que Dona Mazé ajudava o filho a buscar seu sonho. Com muito jeito, ela também conseguia afastar Francisco dos trabalhos mais pesados, dando-lhe mais tempo livre para estudar e ouvir aquelas músicas que ela não entendia.

Foi assim que, quando Francisco ainda era um rapazinho, Dona Mazé, articulou para que ele fosse morar com uma prima sua, na capital cearense.

– Prima Ciça, eu queria lhe fazer um pedido – anunciou Mazé. – Deixe o Francisco morar na sua casa uns tempos, pra ele ter uma condição melhor de estudar em Fortaleza.

Dona Ciça atendeu o pedido de bom grado. Já estava com seus filhos criados, e sabia que Francisco não lhe daria trabalho ou preocupação. Era um bom menino.

O certo é que não foi preciso mais que aquele empurrão da mãe e da tia para que Francisco pusesse em prática seus próprios planos de dominar totalmente o idioma bretão. Sempre no propósito de, um dia, mudar-se para os Estados Unidos e tentar a sorte no cinema americano.

-*-

Em Fortaleza, Francisco mergulhou no seu sonho. Frequentava o colégio pela manhã, fazia as tarefas obrigatórias após o almoço, e passava o resto da tarde estudando inglês. À noite, ouvia música em discos e fitas K7, e, no rádio, a programação da BBC.

Receberia outro apoio decisivo antes de terminar o primeiro ano estudando na capital. O professor de inglês do colégio, impressionado com a dedicação de Francisco, convidou-o para tomar aulas grátis no cursinho onde ensinava:

– São três dias por semana, Francisco. Segunda, quarta e sexta. As aulas vão das quatro às cinco e meia da tarde. Fale com sua mãe que, se ela autorizar, a bolsa é sua.

– Ela autoriza! – respondeu Francisco eufórico, quase sem acreditar no que estava acontecendo.

Na semana seguinte, lá estava ele, sem caber em si de tanta felicidade, para ter sua primeira aula no cursinho de inglês. Entrou em uma turma no meio do semestre, mas isso não foi dificuldade para quem vinha se preparando a vida toda por um momento assim.

A partir daí, nada mais seguraria Francisco. Continuava sendo um bom aluno em todas as matérias do colégio, mas no estudo da língua inglesa era simplesmente insuperável. Nas tardes livres – terças e quintas – frequentava a biblioteca do cursinho e deleitava-se com livros e filmes. Além das músicas que ouvia. A essa altura, já sabia de cor letras inteiras de canções dos Beatles, Pink Floyd e da sua banda preferida, o Iron Maiden. Passou a auxiliar o professor. Até ganhava algum dinheiro com aulas de reforço.

Toda essa evolução era acompanhada à distância por Dona Mazé, que continuava morando em Crateús. Francisco lhe escrevia quase toda semana. Cartas que eram lidas com certa preguiça por algum de seus irmãos, mas que deixavam a mãe cada vez mais feliz, por saber dos bons resultados de sua aposta.

Nas férias, Francisco passava alguns dias em Crateús, enchendo Dona Mazé de alegria e orgulho. Mas, logo que podia, voltava às atividades na capital.

-*-

A conclusão do segundo grau (hoje ensino médio) trouxe novo impulso para o sonho de Francisco, já então chamado pelos colegas de Frank. Fora selecionado para um curso de inglês… Nos Estados Unidos da América!

Seriam seis meses de duração. A escola americana cobriria todos os custos, inclusive de passagens aéreas, hospedagem e alimentação. Parecia um sonho. Até a cidade onde ficaria morando tinha seu nome: São Francisco, na Califórnia.

Na noite da premiação, Francisco escreveu duas cartas para a mãe. Uma, mais curta, falando sobre a alegria de ir estudar nos Estados Unidos, a maneira como fora selecionado e a gratidão que tinha a ela, à tia e ao professor, por tudo que estava vivendo.

A outra carta, mais longa, ele somente enviaria depois que estivesse estabelecido na América. Nela, Francisco revelava seus verdadeiros planos. Não pretendia voltar. Tentaria tudo o que fosse possível para ficar por lá e seguir seu sonho de trabalhar em Hollywood. Tornar-se-ia um imigrante ilegal, se fosse o caso. Por isso, talvez ficasse muito tempo sem dar notícias. Dona Mazé deveria estar pronta para longos períodos sem saber onde Francisco estava.

E foi exatamente o que aconteceu. Concluído o curso na Califórnia, Francisco sumiu. Ninguém, nem de sua família, nem do cursinho onde estudara, sabia de seu paradeiro.

Em Crateús, Dona Mazé seguia sua vida, carregando dentro de si um vazio que nada era capaz de preencher. Nem a companhia do marido e dos outros filhos era suficiente para suprir a falta que Francisco lhe fazia.

-*-

Passaram os anos. Dona Mazé ficou viúva. Os irmãos de Francisco já haviam casado e lhe dado alguns netos. Alguns ainda moravam em Crateús, outros em Fortaleza, mas sempre davam um jeito de visitar a mãe.

E nada de notícias de Francisco. Cada vez que membros da família se reuniam, o irmão caçula era assunto das conversas. As crianças ficavam maravilhadas com as histórias do tio desaparecido. Estaria ainda vivo? Uns diziam que sim. Outros duvidavam.

Até que, alguns dias antes do Natal do ano de 1999, em uma ocasião na qual quase todos os irmãos de Francisco estavam em Crateús, chegou à casa de Dona Mazé uma correspondência misteriosa.

Uma caixa grande, com coisas escritas em inglês. Colada em um dos seus lados, uma etiqueta com a anotação do que parecia ser o nome do remetente: Frank Patterson.

Juntou gente para ver a encomenda. Filhos, netos e vizinhos de Dona Mazé puseram-se em volta da caixa. O próprio gerente da loja dos Correios, senhor Herivaldo, ajudou a abri-la, para garantir que seu conteúdo não seria danificado. Com muito jeito, foi cortando o papelão com um estilete e revelando o que havia ali dentro.

Eram três itens: uma carta, um aparelho de videocassete e uma fita de vídeo do filme “O Resgate do Soldado Ryan”.

Nas várias páginas da carta, Francisco contava em detalhes a sua trajetória nos Estados Unidos. A vida como imigrante, as diversas profissões que aprendera trabalhando ilegalmente, as cidades onde morou, um casamento mal sucedido, a mudança do nome, a legalização de sua situação, e, finalmente, a razão de não ter dado notícias antes:

Minha mãe, já estou vivendo de cinema faz um tempo, mas sempre atrás das câmeras. E eu tinha tomado a decisão de só lhe escrever quando conseguisse trabalhar como ator.

É por isso que só agora estou escrevendo. Porque eu consegui.

O aparelho de videocassete, que estou enviando junto com essa carta, é para a senhora poder assistir. E o filme é esse que também vai no mesmo pacote.

O ator principal é muito famoso, inclusive aí no Brasil. Eu apareço só um pouco, mas para mim já é a realização de um sonho.

E seguia para a parte final da missiva, mandando lembranças para irmãos, amigos e a Tia Cícera.

-*-

“O Resgate do Soldado Ryan” havia sido lançado no Brasil há mais de um ano, mas, por aquele tempo, o pequeno cinema que tinha despertado os sonhos de Francisco havia fechado. Pouca gente na cidade havia assistido ao filme. Dos que estavam na casa de Dona Mazé, naquela tarde, ninguém.

Talvez por isso, enquanto uma vizinha lia a carta para Dona Mazé, alguns dos irmãos de Francisco empenhavam-se em ligar o vídeo cassete e fazer as conexões com o televisor.

O sol já havia se posto quando tudo ficou pronto. Uma pequena multidão acomodava-se em cadeiras e no chão da sala para ver o filme. Que já não era mais o filme de Tom Hanks ou de Steven Spielberg, e sim o filme de Francisco. A prova da vitória de um filho de Crateús na América!

A Dona Mazé coube uma posição privilegiada, em uma cadeira de balanço, bem à frente do aparelho de TV.

E fez-se um silêncio praticamente absoluto quando as barcas apinhadas de soldados começaram a se aproximar da Praia de Omaha. Alguns, de patente mais alta, davam orientações aos seus comandados. Tentavam passar segurança. Mas era possível ver a tensão e o medo nos seus semblantes. A mão trêmula do personagem interpretado por Tom Hanks, mostrada em close, fez alguns telespectadores se encolherem em seus lugares.

Começa o desembarque. E o tiroteio. O filme é famoso pelos seus vinte e sete minutos de batalha na costa da Normandia, logo no começo.

Alheia à importância histórica do desembarque, e com os olhos fixos na tela da TV, Dona Mazé concentrava-se em um objetivo único: encontrar Francisco. Procurava, em cada um daqueles jovens, um sinal, uma característica do seu filho. Um rosto, uma mão, algo no jeito de andar… Emocionou-se ao ver um jovem com as vísceras expostas, gritando pela mãe. Mas os chamados eram para outra mãe.

Na cena seguinte, surgiu a inusitada imagem de um soldado transportando nas mãos uma máquina de escrever. Falava alguma coisa com o seu comandante – aquele da mão trêmula. Dona Mazé praticamente não os viu. Estava completamente absorta, observando o soldado posicionado logo à frente deles.

Era apenas mais um dos que tentavam se proteger atrás de uma das muitas estruturas de ferro espalhadas pela praia. Mas, não para Dona Mazé. Enquanto olhava para aquele soldado, soltou a voz de maneira emocionada, mas quase imperceptível:

– Francisco!

Sim, aquele era seu filho! Não havia dúvida. A altura, o perfil, a maneira como se punha de pé, tudo denunciava a presença de Francisco.

E Dona Mazé reconheceria seu filho caçula em qualquer lugar, a qualquer hora. Ainda que ele estivesse em meio a uma tempestade, ou a um tiroteio, como, de fato, era o caso.

Naquele momento, era como se Francisco estivesse novamente na sala de sua casa…

Mas, isso foi só por um segundo, no máximo dois. Subitamente, um disparo atingiu o capacete do soldado, atravessando-o e atingindo-lhe o crânio. Dois outros disparos perfuraram-lhe o tórax, um o atingiu no braço, outro ainda arrebentou-lhe a perna.

O soldado Francisco caiu morto.

Dona Mazé baixou a cabeça, com o rosto entre as mãos. As lágrimas, que já haviam brotado desde o primeiro instante em que reconhecera o filho, pela emoção, molhavam agora de tristeza o vestido.

Demorou-se com a cabeça abaixada ainda por uns minutos. Quando reuniu forças, levantou-se da cadeira e procurou ar puro na calçada de casa.

A exibição do filme prosseguia na sala. Somente o Seu Herivaldo foi até lá fora, perguntar se Dona Mazé precisava de alguma coisa. Ela disse que estava bem.

– Mas é difícil, Seu Herivaldo, pra uma mãe, passar tantos anos sem saber do filho… e, quando ele aparece, a gente vê ele morrer assim… crivado de bala…

– É filme, Dona Mazé…

– Eu sei, Seu Herivaldo. Mas, pra mim, que sou mãe, a dor é de verdade… mãe nenhuma merece ver o filho morrer assim…

E não falou mais nada. Apenas ficou ali, olhando a rua.

Seu Herivaldo entrou novamente na casa. Trouxe-lhe um copo d’água e foi ver o restante do filme.

-*-

Semanas depois, chegou outra carta de Francisco, que voltara a escrever regularmente para a mãe. Ele a visitou ainda uma vez em Crateús, poucos meses antes de ela falecer.

Mas aquele foi o único filme em que ela o viu atuando como figurante. Dona Mazé não se arriscaria a ver o filho morrer de novo.

(*) Dedicado ao querido amigo Zico. Que também é um Francisco, filho de Dona Mazé, nascido em Crateús. O maior conhecedor da língua inglesa que conheci até hoje.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

DUAS CANÇÕES SOBRE A SIMPLICIDADE

Há encontros curiosos na música. Alguns parecem acontecer por acaso. Outros, por afinidade. E há aqueles que parecem nascer de um reconhecimento íntimo, como se uma canção, ao ser ouvida, despertasse outra que já estava esperando para existir.

Tive esse sentimento ao aproximar Simple Man, lançada em 1973 pelo Lynyrd Skynyrd, e Uomini semplici, gravada em 1981 por Edoardo De Crescenzo.

Aliás, quanto à questão temporal, preciso fazer um registro da ordem cronológica em que essas duas canções chegaram ao meu conhecimento: apesar de Simple Man ser anterior a Uomini semplici, ouvi-as pela primeira vez na ordem inversa — ou seja, a mais recente antes da mais antiga.

E isso importa? Para mim, sim. Porque sempre me chamou a atenção o fato de a canção italiana trazer alguns versos em inglês: “simple man, simple man, simple man…” — repete Crescenzo insistentemente no final.

Eu já tinha ouvido versos em inglês na canção italiana C’era Un Ragazzo Che Come Me, de Gianni Morandi, que fez sucesso no Brasil com o título Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones — em dois momentos diferentes: primeiro com os Incríveis, depois com os Engenheiros do Hawaii.

Mas ali o contexto era claro: a história de um jovem americano convocado para a guerra do Vietnã. Logo, fazia sentido introduzir versos como “Stop! Coi Rolling Stones! Stop! Coi Beatles songs!”.

Também conhecia Tu vuò fa’ l’americano, de Renato Carosone, que muita gente no Brasil conhece na versão Pa-Panamericano (quem chegou até aqui e lembra já pode deixar um like!).

Nela, um italiano finge ser um soldado americano, tentando aproveitar sua popularidade com as garotas locais após a Segunda Guerra Mundial — mas não é levado muito a sério:

Tu balli il rock’n’roll (Você dança rock’n’roll)
Tu giochi a baseball (Você joga beisebol)
Ma i soldi per le Camel (Mas o dinheiro para os cigarros Camel)
Chi te li dà? (Quem te dá esse dinheiro?)
La borsetta di mammà (A bolsa da mamãe)
(…)
Tu vuo’ fa’ l’americano, ‘mericano, mericano, ma si’ nato in Italy
(Você finge que é americano, mas nasceu na Itália)

Mas, em Uomini semplici, eu não encontrava o motivo dos versos em inglês. Afinal, nenhum trecho da canção fazia referência ao povo americano, ao seu estilo de vida ou a algum personagem específico. Era um pequeno mistério.

Até o dia em que ouvi Simple Man, com sua mensagem direta e clara, sintetizada no refrão:

And be a simple kind of man (E seja um tipo simples de homem)
Oh, be something you love and understand (Oh, seja algo que você ame e entenda)
Baby, be a simple kind of man (Querido, seja um tipo simples de homem)
Oh, won’t you do this for me, son (Oh, você não fará isso por mim, filho)
If you can? (Se puder?)

A composição atribuída a Ronnie Van Zant e Gary Rossington carrega a simplicidade como método. Uma mãe fala ao filho. Não complica. Não teoriza. Diz apenas o essencial: não corra atrás do ouro dos outros, não se perca no barulho do mundo, seja um homem simples.

Depois de conhecê-la, ficou fácil imaginar Crescenzo, alguns anos mais tarde, ouvindo aquela canção americana e pensando, quase num impulso: “Ma certo… ma certo… ce ne sono mille così, nelle strade.” (Claro… claro… há milhares desses por aí, nas ruas.) — o autor da letra de Uomini semplici é Franco Migliacci, mas me parece natural que em nossa memória a canção fique mesmo ligada ao seu principal intérprete.

O fato é que, em Uomini semplici, o conselho dá lugar ao reconhecimento. Os homens simples já estão lá. Passam despercebidos, atravessam o dia, sustentam o mundo sem discurso e sem plateia. Não pedem definição, não reivindicam lugar. Apenas existem:

Gli uomini semplici sono sempre eroi (Os homens simples são sempre heróis)
che in silenzio vivono, esistono (que em silêncio vivem, existem)
Alberi e nuvole con il vento sbandano (Árvores e nuvens cambaleiam com o vento)
loro invece lottano, resistono (eles, ao contrário, lutam, resistem)
(…)
Sulla terra non ci sono santi (Na terra não há santos)
gli uomini semplici sono tanti (os homens simples são muitos)
Non li vedi e non li senti (Você não os vê e não os ouve)
ma son tutti intorno a te (mas estão todos ao seu redor)
Simple man, simple man, simple man

A partir daquele momento, ficou impossível ouvir uma música sem pensar na outra.

Porque, enquanto Simple Man nos convida a ser algo, Uomini semplici nos mostra que esse algo já vive entre nós — quem sabe, até dentro de nós, em algum lugar menos ruidoso.

Quando Crescenzo repete “Simple man, simple man”, não soa como mera citação. Soa como quem encontrou a palavra exata, mas em outra língua.

Há algo de melancólico nisso tudo. Porque, se é verdade que os homens simples existem, também é verdade que o mundo parece cada vez menos interessado neles. Preferimos o extraordinário, o complexo, o ruidoso.

Em tempos de redes sociais, superexposição da vida pessoal e sonhos de se tornar um influencer com milhões de seguidores — e dólares —, a vida continua sendo sustentada por gente que não faz alarde. Gente que não está tentando ser nada além do que já é.

No fundo, as duas canções não dizem coisas diferentes. Elas apenas chegam por caminhos distintos ao mesmo ponto. Uma ensina, a outra reconhece.

E entre ensinar e reconhecer há um intervalo sutil, mas decisivo.

Talvez a maior homenagem à simplicidade não seja recomendá-la, mas percebê-la.

Aí não importam as palavras — ou mesmo o idioma — para nos referirmos a ela: simple man; uomini semplici.

P.S.: Revisando o texto, observei que embora a palavra “simples”, em português, seja frequentemente utilizada no sentido de desprovido de complexidade, rudimentar ou singelo, esse não seria o sentido mais adequado ao transmitido pelas palavras “simple” e “semplici”, no contexto das canções que deram ensejo à crônica. Nelas, esses termos exprimem mais um sentido de pessoas que não teriam nada de extraordinário, que se guiam por valores considerados básicos, como família, amigos e trabalho. Ou seja, “simple man” e “uomini semplici”, para nós, brasileiros, talvez tenha um significado mais próximo de “pessoas comuns”, “gente comum”. Isso me remeteu a outra canção italiana, certamente mais conhecida dos brasileiros na voz de Renato Russo. Refiro-me a “Gente”, cujo refrão diz:

Non siamo angeli in volo venuti dal cielo (Não somos anjos voando no céu)
Ma gente comune che ama davvero (Mas pessoas comuns que amam de verdade)
Gente che vuole un mondo più vero (Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro)
La gente che incontri per strada in città (As pessoas que você encontra na rua da cidade)

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

DEMOCRACIA E A DIFÍCIL ARTE DE VIVERMOS JUNTOS

De uns tempos para cá, sinto algo estranho no ar cada vez que vejo debates ou discursos sobre democracia. É como se as pessoas falassem de algo cuja importância precisamos sempre enaltecer, mas já não acreditamos muito no real sentido que a palavra expressa. Ou pelo menos deveria expressar.

Digo isso como uma impressão espontânea, sem recorrer imediatamente a conceitos apreendidos em livros ou a definições acadêmicas. Mesmo porque, trata-se de uma sensação difusa, ainda não suficientemente delimitada pelos meus critérios racionais.

No entanto, há uma sensação persistente de que estamos jogando com a palavra “democracia”. Todos destacam sua relevância, mas, aparentemente, poucos efetivamente a levam a sério.

Talvez isso aconteça porque duvidar da democracia se tornou algo socialmente perigoso. Questionar a democracia costuma ser interpretado como sinal de inclinação autoritária, como se quem levantasse essa dúvida fosse automaticamente um candidato a tirano ou apoiador de um.

Assim, a democracia continua sendo celebrada, invocada e defendida. No entanto, qualquer tentativa de examinar criticamente seu funcionamento costuma ser recebida com suspeita. Duvidar da democracia tornou-se, em muitos ambientes, quase equivalente a flertar com a tirania. Como se o simples ato de perguntar pelas condições de sua existência fosse já um gesto de hostilidade contra ela.

Mas talvez a pergunta seja justamente o contrário disso. Talvez perguntar pelas condições da democracia seja uma forma de levá-la a sério.

Pois há um ponto raramente discutido com a clareza necessária: a democracia não é apenas um conjunto de instituições ou procedimentos. Ela depende de algo mais profundo, uma disposição comum entre os membros de uma coletividade.

Ao fazer tal afirmação, minha premissa é a de que a democracia só se sustenta quando aqueles que participam dela acreditam, ainda que de maneira imperfeita, que precisam viver juntos.

Como disse Rodney King, citado por Jonathan Haidt, em “A mente moralista”, “somos obrigados a conviver aqui por um tempo. Vamos tentar encontrar um jeito”.

Para tornar essa ideia mais visível, imaginemos uma situação simples.

Suponhamos um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo ou de um naufrágio. Cinquenta pessoas que, por obra do acaso, acabam isoladas em uma ilha deserta.

Depois do choque inicial, é natural imaginar que essas pessoas se reúnam na praia para discutir o que fazer. Precisarão decidir como obter água, como encontrar alimento, como se proteger do clima e talvez como tentar sinalizar sua presença para possíveis equipes de resgate.

As opiniões provavelmente divergiriam. Alguns poderiam defender a exploração imediata do interior da ilha. Outros poderiam preferir permanecer próximos ao litoral. Haveria argumentos, debates, talvez disputas de liderança.

Ainda assim, não seria absurdo imaginar que esse grupo pudesse tomar decisões de maneira coletiva. E até democrática.

As divergências existiriam, mas elas se concentrariam nos meios, não nos fins. Todos, em última análise, estariam interessados na sobrevivência de todos. Enquanto essa premissa permanecesse intacta, os conflitos seriam administráveis.

Mas a situação mudaria completamente se essa premissa desaparecesse.

Imaginemos, por exemplo, que entre os cinquenta sobreviventes exista um grupo de dez pessoas que já se conheciam antes do acidente. Talvez sejam membros de uma equipe esportiva que viajava junta.

Eles representam apenas um quinto do grupo, mas possuem algo que os demais não têm: coesão. Já estão habituados a agir em conjunto, talvez tenham inclusive uma liderança previamente estabelecida.

Enquanto os demais sobreviventes ainda tentam se adaptar à nova realidade, esse grupo já dispõe de organização.

Agora imaginemos que esses dez indivíduos passem a agir estrategicamente. Em vez de pensar na sobrevivência coletiva, passam a orientar suas ações prioritariamente em favor de seus próprios interesses.

Eles participam das discussões comuns, mas procuram influenciar decisões, manipular informações e neutralizar iniciativas que não lhes sejam favoráveis. Enquanto a maioria permanece dispersa, agindo de forma individual ou ocasionalmente coordenada, o pequeno grupo atua como um bloco disciplinado.

Nesse cenário, a estrutura das decisões coletivas começa a se deformar. Ainda há reuniões. Ainda há debates. Talvez até haja votações. Mas a lógica que orienta essas decisões já não é a mesma.

Com o passar do tempo, alguns dos demais sobreviventes começam a perceber o que está acontecendo. Surgem conversas discretas entre duas ou três pessoas. Depois cinco. Depois dez.

Forma-se uma oposição.

Quando o primeiro grupo percebe o movimento, a situação da ilha já mudou. Agora existem dois blocos organizados disputando a direção das decisões coletivas. E o restante da comunidade passa a oscilar entre eles, muitas vezes reduzido ao papel de massa de manobra.

Nesse momento, ainda seria possível falar em democracia?

Talvez sim, se estivermos pensando apenas em procedimentos formais. Mas algo essencial já teria se perdido.

Pelo menos, em conformidade com a nossa premissa de que a democracia pressupõe não apenas a existência de regras de decisão coletiva, mas também um mínimo de confiança entre aqueles que participam delas. Confiança não no sentido de amizade ou concordância, mas no reconhecimento de que os adversários continuam pertencendo à mesma comunidade política.

É mais ou menos o que dizem Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em “Como as democracias morrem”:

A tolerância mútua diz respeito à ideia de que, enquanto nossos rivais jogarem pelas regras institucionais, nós aceitaremos que eles tenham direito igual de existir, competir pelo poder e governar. Podemos divergir, e mesmo não gostar deles nem um pouco, mas os aceitamos como legítimos. Isso significa reconhecermos que nossos rivais políticos são cidadãos decentes, patrióticos, cumpridores da lei – que amam nosso país e respeitam a Constituição assim como nós.

Quando esse reconhecimento desaparece, a política tende a se transformar em outra coisa. O adversário deixa de ser alguém com quem se disputa o melhor caminho comum e passa a ser visto como um obstáculo a ser neutralizado.

É nesse ponto que a alegoria da ilha, com seus subgrupos antagônicos, deixa de parecer distante.

O mundo contemporâneo parece cada vez mais organizado em torno de grupos que possuem forte identidade interna e crescente desconfiança externa. Alguns são ideológicos. Outros culturais. Outros econômicos. Outros ainda, religiosos. Sem prejuízo da existência de interseções, com predominância de determinados traços culturais em certos grupos ideológicos e vice-versa, por exemplo.

O que os aproxima é uma característica comum: cada grupo passa a olhar os demais não como parceiros inevitáveis de uma convivência imperfeita, mas como forças hostis que precisam ser contidas.

E isso faz com que a democracia entre em uma zona de tensão.

Ela continua existindo como linguagem institucional. Continuamos votando, debatendo, legislando. As formas permanecem. Mas as premissas invisíveis que davam sentido a essas formas começam a se enfraquecer.

Talvez seja esse o paradoxo silencioso de nosso tempo: nunca falamos tanto em democracia, e talvez nunca tenhamos refletido tão pouco sobre as condições que a tornam possível.

O que se vê — ou, pelo menos, a minha sensação — é que cada grupo antagônico usa a palavra “democracia” apenas como elemento legitimador da sua própria afirmação como titular dos princípios morais que pretende impor a todos.

Diante desse quadro, parece-me que dois caminhos permanecem abertos.

No primeiro, a democracia continuaria plenamente viável. As tensões atuais seriam apenas parte de um processo histórico recorrente.

Segundo esse entendimento, as sociedades atravessam ciclos de polarização, mas acabam reconstruindo, de alguma forma, as bases mínimas de convivência que tornam possível a deliberação coletiva.

Se isso ocorrer, a democracia demonstrará novamente sua capacidade de absorver conflitos intensos sem romper o tecido político que mantém as sociedades unidas.

Mas há também uma segunda possibilidade.

Pode ser que estejamos assistindo a um processo mais profundo de erosão das premissas que sustentam a vida democrática. Se a desconfiança entre grupos continuar se intensificando e se cada segmento da sociedade passar a enxergar os demais apenas como obstáculos a seus próprios objetivos, a democracia poderá até sobreviver formalmente, mas perderá progressivamente sua substância.

Nesse cenário, ela deixaria de ser um mecanismo de convivência entre adversários e se tornaria apenas um campo permanente de disputa estratégica.

Admitir a possibilidade dessa segunda hipótese não constitui uma rejeição da democracia, nem uma renúncia a seus ideais. É apenas um exercício de reflexão sobre as condições que tornam a democracia possível, e sobre os riscos que surgem quando essas condições começam a desaparecer.

Às vezes, a melhor forma de preservar uma ideia não é repeti-la como um slogan, mas voltar a perguntar seriamente o que ela exige de nós.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

RÚSSIA, VOCÊ CONHECE A LIBERDADE?

Na véspera de se completarem quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia, em larga escala, recordo a virada dos anos 1980 para os 1990, quando a banda Scorpions fazia uma turnê pela União Soviética e lançava a canção “Wind of Change”.

Uma canção que fala de mudança dos ventos, de povos vivendo em paz, com o fim da Guerra Fria, e de liberdade, com a decadência do socialismo.

Hoje, minha vontade é perguntar ao povo russo: vocês conhecem a liberdade?

Para isso, pedi a uma professora de russo que traduzisse minhas palavras para o seu idioma. Depois, contei com a ajuda da IA Suno para juntar às palavras uma melodia de rock. Talvez uma maneira de homenagear o pessoal do Scorpions, embora eu não tenha pensado nisso quando estava escrevendo.

Bem, a seguir, as minhas reflexões sobre o povo russo. No vídeo, a letra está em russo, mas tem legendas. Aliás, o clipe ficou bem bonito e com roteiro de curta metragem. Vale a pena ver.

Rússia dos czares, dos palácios e dos príncipes!
Rússia que se estende da Europa à Ásia
Tu sempre foste um grande país,
Mas eu sinto que te falta algo.

Rússia da cultura e das artes.
De grandes escritores, música e dança,
Tu sempre foste tão rica,
Mas eu sinto que te falta algo.

Será que seu povo já teve liberdade?
Será que seu povo conhece a verdadeira liberdade?

Rússia, você já passou por revoluções.
Substituiu o czarismo pelo socialismo
E depois viveu a perestroika.
Mas não sei se conheceu a liberdade.

Será que seu povo já teve liberdade?
Será que seu povo conhece a verdadeira liberdade?

Povo russo, talvez vocês ainda precisem
banir seus últimos tiranos,
Para viver em paz com outros povos.
E finalmente conhecer a verdadeira liberdade.

Será que vocês já tiveram liberdade?
Será que vocês conhecem a verdadeira liberdade?

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

E AÍ, DOUTOR, DÁ PRA GANHAR A QUESTÃO?

Chegou fevereiro. Em Brasília, com o fim dos recessos parlamentar e judiciário, o Congresso Nacional e os tribunais superiores voltam às suas atividades normais. O ano vai começando “pra valer”.

Mas, não podemos esquecer que “logo alí” é o carnaval. Aliás, em vez de “logo ali”, poderíamos escrever “desde logo”, já que este ano o período momino vai do dia 14 ao dia 17 de fevereiro, oficialmente, mas em muitas partes do Brasil blocos de foliões já ocupam as ruas.

Isso não é uma crítica, mas uma constatação. O Brasil é assim. Nós somos assim. Moraes Moreira, que cantou o Brasil como poucos, já dizia:

Sabendo que a vida ensina
Sina, sina
Sabe do bem e do mal
E o ano só termina
Quando é carnaval!

Outro dia, conversando sobre o assunto com um amigo advogado, ele comentou comigo que uma das grandes surpresas que teve em sua vida profissional aconteceu em uma véspera de carnaval.

Segundo me narrou, naquela sexta-feira à tarde, quando ele já se preparava para deixar o escritório, um cliente chegou, sem avisar antes, querendo falar sobre um processo. Quando o cliente deixou o escritório, já era possível ouvir o som de tambores em algum lugar das redondezas.

Horas depois daquela conversa, em casa, fiquei imaginando a situação, e me veio a inspiração para contar a história aos meus leitores. Não a história verdadeira, narrada por meu amigo, mas aquela que imaginei que poderia ter acontecido.

Foi assim que nasceu o vídeo que compartilho agora, o qual dedico a todos os advogados do Brasil que já tenham ouvido de um cliente a seguinte pergunta: “E aí, doutor, dá pra ganhar a questão?”.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O MALANDRO E O MANÉ

Que me perdoem as pessoas que entendem que armas de fogo devem ser de uso restrito das forças estatais e criminais, mas eu sou a favor do direito à autodefesa.

Consequentemente, sou contra o excesso de obstáculos legais ao acesso do cidadão – que paga seus impostos, procura cumprir as leis, etc,etc… – aos meios que lhe proporcionem a efetividade dessa autodefesa. Inclusive o porte de armas de fogo.

Feito esse esclarecimento, essa é uma história que eu precisava contar. É baseada em fatos ocorridos há mais de dez anos, e nela o malandro estava armado, mas o mané também estava.

E mais não digo.

Quem quiser saber o que aconteceu tem que ver o vídeo.