JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NOSSAS ESTAÇÕES

Primavera no deserto de Atacama

A escola de antigamente ensinava. A de hoje, apenas faz de conta. Quer números, quer ranking, quer justificativas para as dotações orçamentárias – e estaciona na mentira. Muitos dos que ensinam (ou dizem fazer isso) não sabem sequer para si próprios.

Pois, ainda na escola antiga, aprendi que são quatro as “estações” climáticas no ano, assim:

Estação do ano é uma das quatro subdivisões do ano baseadas em padrões climáticos. São elas: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

Inicialmente o ano era dividido em duas partes: 1 – O período quente (em latim: “ver”): era dividido em três fases: o Prima Vera (literalmente “primeiro verão”), de temperatura e humidade moderadas, o Tempus Veranus (literalmente “tempo da frutificação”), de temperatura e umidade elevadas, e o Æstivum (em português traduzido como “estio”), de temperatura elevada e baixa umidade; 2 – O período frio (em latim: “hiems”) era dividido em apenas duas fases: o Tempus Autumnus (literalmente “tempo do ocaso”), em que as temperaturas entram em declínio gradual, e o Tempus Hibernus, a época mais fria do ano, marcada pela neve e ausência de fertilidade.

Posteriormente, para ajustar as estações à posição exata dos equinócios e solstícios, correlacionados com a influência da translação associada à mudança no eixo de inclinação da Terra, convencionou-se, no Ocidente, dividir o ano em somente quatro estações. Vale a pena lembrar que certas culturas ainda dividem o ano em cinco estações, como a China. Países como a Índia dividem o ano em apenas três estações: uma estação quente, uma estação fria e uma estação chuvosa.

Já no continente africano, países como Angola só têm duas estações, a das chuvas, quente e úmida, e o cacimbo, seca e ligeiramente mais fresca, principalmente à noite.

Foi na escola, também, que aprendi a iniciação filosófica, de que “o homem é um produto do meio em que vive”. Assim sendo, provavelmente, somos partes das estações climáticas do ano.

Que estação seríamos, quando ficamos irritados?

E quando ficamos tristes?

Ou, ainda, quando ficamos alegres?

Por que não “renovamos” a plasticidade externa do corpo, ou o que há de interno, quando passamos pelo “outono” – o nosso outono?

As árvores o fazem pela fotossíntese – além das condições naturais que a Terra lhes oferece. Novas folhas, novos galhos e um crescimento contínuo, sempre em preparativos para novos frutos.

Nossas células são diferentes, sei. Em que pese vivermos na mesma Terra que vivem as árvores, nossa fisiologia é diferente.

Mas, infelizmente, a Terra é habitada por pessoas que são continuadamente ervas daninhas. Não crescem, não mudam, não passam por nenhum outono.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AVÓ – MÃE DUAS VEZES E AMOR EM DOBRO

Avó dando cafunés no neto

Tardezinha, com o sol já frio, ela sentava no chão da latada, enquanto puxava o fumo no cachimbo de barro.

Me chamava para deitar a cabeça na perna dela. Eu, apenas aproveitava aquela vontade enorme de fazer aquilo, e fingindo ser aquela cena um castigo. Mentira minha, pois eu adorava fazer aquilo.

O cafuné. Mais cafunés. Muitos cafunés. Daqueles que a gente escutava o estalar do dedo.

Ela, fumando o cachimbo e me dando cafunés, olhava firme para a porteira da casa que ficava distante dali por uns 40 ou 50 metros.

Ninguém chegava, mas ela continuava olhando.

E tome cafunés!

Neto xingando a Avó ao ver a injeção

A febre estava alta. Garganta inflamada.

A gripe tendia ficar mais forte. Chá disso e daquilo. Chá de mastruço, colheradas de mel de abelha. Compressas de panos na testa e no peito. Unguento de Vick Vaporub para garantir uma boa respiração e o sono. Nada resolvia. Só restava uma providência.

Manhã cedo, o cachorro latia na porteira. Chegara alguém. Era a Comadre Das Dores, aquela miserável do cão dos infernos!

Um prato fundo. Uma vasilha com álcool, e o aparelho para aplicar injeção começava a ferver.

Uma ampola tivera parte quebrada e fora misturada com outra. Algodão embebido no álcool, e a rotina:

– “Vem meu fio, vem logo prumode ficar bonzim dessa gripe”!

O choro e o berreiro antes da agulha furar, com certeza acordava e assustava as pessoas que moravam por perto.

Era a “milagrosa” Benzetacil!

– O praguejar do neto era garantido: “Sai daqui mizéra. Tu num gosta de mim.”!

No dia seguinte, era difícil entender que, com a febre tendo ido embora e a gripe acabando, aquilo nada mais significava que uma dura e constrangedora prova de amor.

As avós amam em dobro e também sofrem por nós. Até nas injeções.

Só hoje eu entendo que a segunda cena nada tinha de diferente da primeira. Apenas o palco da vida era diferente. Mas tudo era amor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ENGENHARIA DA VIDA E DA SOBREVIVÊNCIA

O arquiteto João de Barro na construção da sua moradia

Quando começamos os estudos, aprendemos, alguns anos depois que, as espécies vivas no planeta Terra “evoluem” – de acordo com a teoria de Charles Darwin, estudioso que, contestado ou não, conseguiu deixar como válidas suas teorias.

Depois, aprendemos também, que, as espécies se renovam tanto quanto se multiplicam – embora a espécie chamada humana não esteja atentando bem para isso nos dias atuais, entendo que alguém do sexo masculino “pode e tem direito” de pretender formar uma família com alguém do mesmo sexo. Pode até formar essa família, mas vai chegar um tempo que “multiplicar”, só se for com filhos infláveis comprados nas lojas de brinquedos.

Quer dizer, a sociedade “permite” e aceita, mas a Natureza diz “não”. Mas esse é outro assunto, e não está em pauta.

Voltemos à outras espécies.

Conseguindo se multiplicar de várias formas, convivendo entre si e se alimentando de milhares de formas diferentes, as formigas, por exemplo, têm um trabalho diferente. São várias as espécies. Afirmam os estudiosos que, de uma forma ou de outra, todas são úteis entre si, para a manutenção da biodiversidade.

As formigas devem ter uma relação muito próxima na Natureza. Sim, por que, como pode um ser vivo que não usa chips, não come pizza, não anda de avião, não paga impostos, não vê futebol nem torce pelo Flamengo ou Corínthians, ser avisado de quando vai chover, e, para se prevenir, carregar para si e para toda a sua “comunidade” a ração que vai consumir durante as intempéries?

Diz o ditado popular que, “formiga que quer se perder, cria asas”. Mas existem aquelas que voam naturalmente entre uma chuva e outra. Existem, também, aquelas que adoram açúcar, e ainda, aquelas que, quando ferroam alguém, a ferroada transmite algo que dói para caramba.

Já fizeram até filmes (A guerra das formigas) com esses seres inteligentes além da conta, que nunca incomodam os humanos; além de não perderem tempo votando em qualquer 3 de outubro.

É a Lei da vida.

Mas, o nosso mundo não é habitado apenas por nós e pelas formigas. Existem outros seres. Esses, inclusive, mais livres que nós. Têm asas e lhes foi dado o direito de voar. Voar livremente. Voar para onde desejarem.

São mais felizes que alguns de nós, pois constroem suas casas ou vilas sem a necessidade de comprar barro, tijolos, cimento, ferro, e sem precisar a liberação dos CREAs. São eles os próprios arquitetos das suas moradias e sequer precisam do “habite-se”.

Não é maravilhoso, ser um João-de-Barro?

É deles o mister da certeza de que podem ou não construir suas moradias sem serem importunados pela chuva – e acabam trabalhando em casal para agilizar mais ainda a construção da moradia, pois, provavelmente, as crias estão a caminho.

Nossas estórias que viraram histórias de tanto serem contadas, nos informaram que, ao lado de um “João”, quase sempre existe uma “Maria”. João e Maria, contam as estórias que na infância nos acalentavam e faziam dormir – e precisávamos ser transportados nos braços de adultos para as nossas camas ou redes.

Assim, existe também a “Maria-de-Barro”?

Enfim, entre todos os “Joões” que sobrevivem comendo formigas, lagartas, em que consiste mesmo a manutenção da biodiversidade?

Num futuro nem tão distante, como um João-de-Barro poderá construir suas casas e nos ajudar no combate das pragas, se a cada dia cresce o desmatamento que está obrigando as aves fazerem seus ninhos de reprodução nos postes de iluminação e nas janelas dos apartamentos dos prédios?

Quem, enfim, comerá as formigas e as lagartas?

Quem será aliado da sabedoria matuta, voando, para avisar “se vai chover ou não”?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MOINHOS, O VENTO E O TEMPO QUE PASSOU

O Moinho dos Ventos de Don Quixote

Bom dia,

Vou lhes contar uma estória que poderia ser uma história. A história de como procurar o vento, encontrando os moinhos. Encontra-lo, usá-lo e transforma-lo num viés da vida.

Sendo mais atual: baixar e usar o vento como um “aplicativo”.

Não sou Miguel de Cervantes Saavedra, tampouco sou filho de Rodrigo Cervantes e de Leonor Baptizóle, e, muito menos, nasci em Alcalá de Henares.

Na verdade, sou filho de Alfredo e Jordina, e nasci em Queimadas, ainda hoje pertencente ao município cearense de Pacajus. Sou negro, filho de uma quinta geração de africanos e uma mistura indígena.

Cedo ainda, com espírito de viajante e “percurador de alguma coisa”, fiz amizade com um primo, meu escudeiro que nunca foi Sancho Pança. Cedo, por comer muito, mereceu a alcunha de Barrigudo. Luciano Barrigudo.

Juntos, sem montaria, mas sempre caminhando na direção favorável ao vento, eu e Barrigudo, com bornal à tiracolo e baladeira em punho, saíamos caçando o vento. Difícil encontra-lo, haja vista que ele (o vento) estava sempre à nossa frente. Provavelmente movimentando algum moinho.

Não procurávamos moinhos – na verdade, minha Avó tinha um em casa, afixado na ponta da mesa grande que servia para tudo – mas, passarinhos e às vezes, considerávamos sorte se encontrássemos uma casa de marimbondos com mel.

Nisso, o vento que soprava favorável, era nosso parceiro e nos levava na direção certa do mel. Mel de marimbondos. Às vezes, até mesmo mel de abelha jandaíra ou araçá.

Para que desejar ser Don Quixote, se sabíamos aonde estava o moinho?

E, para que encontrar o moinho, se já tínhamos o vento a nosso favor, nos levando ao mel dos marimbondos e das abelhas?

Uma coisa era certa: afixado na ponta da mesa, lá estava o moinho. Claro que não era o moinho que Don Quixote e Sancho Pança tanto cavalgaram para encontrar – mas era o moinho da Vovó afixado na ponta da mesa e com meia saca de milho para moer e fazer xerém para os pintos.

E no moinho da Vovó, diferentemente do moinho de Don Quixote e Sancho Pança, eu não tinha nunca a ajuda do escudeiro Luciano Barrigudo. Tinha que moer o milho todo. Sozinho. Embora os pintos fossem tantos.

O Moinho de moer milho da Vovó

Enquanto Cervantes se casaria com Catalina de Salazar em 1584, eu, moendo milho para Raimunda Buretama, precisei mudar para Fortaleza, onde namorei uma atriz de teatro, de quem me dou o direito de não citar o nome. Casar, casei mesmo foi com Marlene, em 1973, ou 389 anos depois. Cervantes voltou para Castela, mas eu não voltei para Queimadas.

Em outras oportunidades já falei quase tudo sobre minha Avó materna. Raimunda Ferreira Gurgel, conhecida onde morava por toda vida, como “Raimunda Buretama”, por ser casa com meu Avô, esse nascido no município de Uruburetama. O povo amigo preferiu “Buretama”, e assim ficou.

Diferente de Don Quixote, João, meu avô, nunca cavalgou procurando moinhos. Quando queria o vento, sentava no portal da porteira e ali recebia “a chegada do vento percebida pela frescura”.

Desnecessário procurar moinhos, pois ele tinha o dele. Pesado. Antigo. Era nele que moía o milho que precisávamos – o dos pintos, quem moía era eu, no moinho afixado na ponta da mesa grande – fazer além do xerém.

Moinho antigo de pedra a relíquia do Vovô

Contava meu Avô, que aquele moinho antigo, grande e pesado fora presente que ele ganhou do tetravô, quando ainda moravam em Uruburetama, mais precisamente no quilombo onde fora criado. Tinha, para ele, valor inestimável e por diversas vezes deixou de vender ou até trocar por uma vaca leiteira.

Ele (meu Avô) sempre dizia para nós, os netos, para que nunca esquecêssemos: “esse moinho nunca vai precisar do vento, mas da força humana.”

Lembro que era naquele moinho, que meu avô também triturava breu para garantir a durabilidade e a rodagem da roldana do carro-de-boi para moer a mandioca nas farinhadas. Lembro também, que, quando meu Avô faleceu, minha Avó teve a ideia de vestir o moinho com panos de sacos e enterrá-lo junto com meu Avô.

Minha Avó tinha essas atitudes incomuns. Minha mãe dizia que minha Avó carregava aquelas atitudes consigo, afirmando que tudo ela aprendera com os antepassados indígenas. Fez isso mesmo, quando um bode velho “Pai do Chiqueiro” morreu. Como não fora morto pela mão humana, ela entendia que não érea aconselhável comer o bode – sequer usar o couro, pois enterrava com tudo. Quando o bode velho morreu, junto, ela enterrou um chocalho grande, amarelo. Só aquele bode carregava aquele chocalho. Era como se fosse uma coroa de rei.

O vento sem ser do moinho mostrando que existe

Eis, finalmente, que eu vi o vento. Vi. Juro que vi e ele demonstrava estar zangado – por quais motivos um certo Don Quixote poderia imaginar que ele, o vento, dependia de algum moinho?

Ele, o vento, estava ali. Poeticamente visível e até podendo ser pego.

Quando estivermos em meio a uma ventania, caminhando contra o vento à procura de algum moinho, se colocarmos as mãos no nosso rosto, poderemos “sentir” o vento. Poderemos até pegá-lo.

O vento existe, sim. Nasceu muito antes dos moinhos encontrados por Don Quixote. O vento é. É, e pronto. Há até quem algum dia pretendesse “ensacar o vento” – e o vento é “ensacável”, sim!

Ora, o que fica minutos, horas ou dias guardado dentro de um “balão” daqueles que servem para decorar festas?

Não é o vento? Então!

O vento é bom. É o vento que mantém a lavareda e queima o carvão da churrasqueira. É o vento que leva os balões multicoloridos em passeios da Capadócia – não fosse o favor do vento, não adiantaria a queima do gás que impulsiona o balão. É o vento que o mantém no alto.

É o vento que “tange” a nossa vida, que leva para distante as aleivosias ou as vicissitudes de cada um de nós.

O moinho e seu “catavento” não seriam o que são, se não fosse o vento. Vento é vida. Vento impulsiona as correntes marinhas e cria as ondas. Vento acende e apaga fogo.

E, finalmente, é o vento quem carrega desde muito longe o som que emoldura nossas vidas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EU CREIO, PAI!

Quem suportaria essa “coroa” além de ti?

Jesus, aprendi que nenhum de nós vai ao Pai, que não seja através de ti. E eu creio nisso. Creio, firmemente!

Creio, também, que só estou aqui porque Tu queres. Sei que permitistes que eu cumpra a minha missão – para, só então, voltar para o lugar de onde vim. O barro.

Mas, nesses 79 anos completados há poucos dias, aprendi muito. Aprendi com as pessoas certas, creio. Vivi vendo e procurando (além de valorizar) compreender o sacrifício que fizestes e o sangue que derramastes por mim, por nós. Por todos nós.

E, ao que parece, em troca temos dado tão pouco – provavelmente, menos do que o pouco que Tu pedes, em troca de tudo que fizestes.

Derramastes o teu sangue. Entregastes o teu corpo em sacrifício por nós – e até esquecestes de Ti próprio.

Vês!….

Viemos do pó e ao pó voltaremos, depois da nossa missão. Mas, nesse intervalo entre a chegada e a volta, nos permites o usufruto do que só Tu és capaz de criar – e de colocar à nossa disposição.

Tudo parece pintura e até as que realmente o são, como Capela Sistina e tantas outras que destes mãos, olhos e sensibilidade para Michelangelo, Vincent van Gogh, Monet, Manet, Toulouse-Lautrec, Leonardo da Vinci, Gauguin e tantos outros nos deliciarem com cores mágicas. Cores divinas. Cores tuas.

Jesus, quem na Terra conseguiria pintar o arco-íris?

E quem faria isso usando apenas a “tela” que usas?

E as tintas – alguém conseguiria mais belas que as tuas?

Senhor, e o vento, que fizestes forte para tanger os maus; fraco para acariciar os bons, e raivoso para castigar aqueles que teimam em desobedecer – e que só lembram de Ti nas necessidades?!

E o mar?

Quem mais poderia criar o mar, senão Tu?

Quem mais é capaz de manter a vida de todos e de tudo, se não Tu?

E a chuva, o sol, a noite, o dia e o cântico mavioso dos pássaros – alguém seria capaz de criar tudo isso e manter, além de Ti?

Por tudo isso Jesus, caminho único que nos leva à Deus, eu vivo.

Eu creio!

Conscientemente, o somatório de tudo, ainda será muito pouco ou quase nada para explicar o mistério da Fé.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DEUS PÔS AS MÃOS NA TRANSPOSIÇÃO DO VELHO CHICO

Transposição do Velho Chico mudou a paisagem

Jovem turista hospedado no hotel cinco estrelas, escolhe uma mesa vazia próxima da piscina, e senta. Chama o Garçom, e diz:

– Me veja uma água Perrier!

Atencioso, o Garçom se curva para o jovem, e responde:

– Um momento apenas, senhor!

Diferente em tudo, de como e quando minha avó Raimunda ordenava:

– Meu fio, bote os cambitos no jumento e vá buscar um “camim” d´água, prumode eu lavá essas coisas que tão no girau!

E lá ia eu sem direito a resmungar, pois com certeza um pedaço de rapadura eu ganharia na volta e, na “boquinha da noite”, deitado com a cabeça na perna dela, eu ainda ganhava de bônus uns “cafunés”. Daqueles que a gente escuta o dedo estalar.

Distante daquela cena doméstica, tudo era desolador. Milho e feijão semeados que não nasceram. Manivas de mandioca ressecadas e nem mesmo a maliça (erva daninha espinhosa e sensível) crescera.

Na capital, os políticos diziam que faziam tudo para melhorar aquela situação. Como? Rezariam para São José ou enviariam carta para São Pedro, pedindo chuva?

Só chuva resolveria a situação. Melhor dizendo: só água melhoraria aquela situação que a seca transformara os roçados em cenas tristes e cheias de carcaças de animais mortos de sede.

A seca dizimou muitas gerações nordestinas

Toda noite, o rádio anunciava na Voz do Brasil, que era calamitosa a situação do sertão da Paraíba, Pernambuco e Piauí. Os municípios cearenses de Icó e Barro perdera parte da sua população. A fuga para escapar da seca era diária e constante.

Cena comum, era olhar as estradas repletas de pessoas carregando pertences em fuga. Dormindo ao relento, pedindo socorro nas igrejas e até acampando sob as árvores que encontravam pelas estradas em busca de nada.

Na realidade, procuravam a esperança. E quem espera, um dia alcança. Mas, ninguém conseguia ficar parado. Era o flagelo total.

Crianças caminhavam léguas transportando água

Havia a desconfiança de que alguém ganhava com aquilo. Chamavam de “a indústria da seca”. Começaram a aparecer os caminhões-pipas. A indústria e a comercialização de cisternas e o transporte d´água em maior quantidade. Era a confirmação de que alguém estava ganhando com a seca.

Era chegada a hora de acreditar nos videntes. Um dia alguém dissera que, não demoraria muito, o sertão viraria mar.

Só um Messias para tanger o bezerro de ouro, acalmar o povo faminto e levar esperança de que, “a mão de Deus seria colocada para aplacar aquela penosa e secular situação.

Eis, finalmente, que Deus usou suas mãos e conduziu o Messias.

A água da transposição está garantindo a boa agricultura

O milagre seria chamado de “transposição”. A “transposição” do Rio São Francisco, outrora imaginada por Dom Pedro, relembrada pelo então ministro Andreazza e, sejamos honestos, iniciada durante os governos petistas. Com inúmeras falhas que não puderam ser corrigidas por conta do superfaturamento, a obra foi aos poucos sendo abandonada. O povo perdera sua importância – e suas vidas também.

Eis que, no dia 1 de janeiro de 2019, Jair MESSIAS Bolsonaro assume a Presidência da República e começa montar sua equipe técnica de trabalho. Tarcísio Freitas, o nome do anjo que, demonstrando competência e seguindo sempre a orientação divina, inicia a obra da transposição salvadora.

Horas, dias, meses e os primeiros trechos começaram a ser inaugurados. A água salvadora estava chegando e se misturavam com as lágrimas de alegria, que por anos foram de lamentos e tristeza pelas vidas perdidas.

Os campos e serras, antes vermelhos pelo barro ou cinzento pela seca, como uma pintura de Vincent van Gogh, em milagre, ficaram verdes. Verdes e produtivos como nunca haviam sido.

Acabaram as fugas. As famílias se fixaram nas suas glebas e recomeçaram na construção das suas vidas e se vangloriando da produção de alimentos para si e para o mundo.

Graças à transposição.

Petrolina desenvolve cultura da uva e do vinho gerando empregos

O solo, antes ressequido, agora é verdejante. O interior nordestino que já recebe a água da transposição, já não é mais o “polo da seca”. Ali, agora, há trabalho. Há vida. Há produção e há uma dose enorme de felicidade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LIBERDADE, OU, LIBERDADE!

Dudu “empinando” a pipa para a liberdade

Luiz Eduardo. Mas podem chamar de Dudu. Ele até gostava. Se sentia bem. Íntimo, amigo!

Dudu era filho único de Messias e Dalva. Era único por entenderem que era aquele mesmo que eles poderiam criar, com carinho, atenção e sem deixar faltar nada na viabilização dos estudos – para que ele, Dudu, só se preocupasse mesmo e muito com os livros.

Messias e Dalva eram casados. Messias era filho de Marina, que ficara viúva há pelo menos duas décadas. Marina, como toda Avó, amava mais Luiz Eduardo que o próprio filho, Messias. Dudu era quase tudo para Marina. Além de único neto.

Marina morava numa casa “ainda em construção”, numa reforma iniciada pelo falecido marido. Quando tivesse o dinheiro suficiente, ela concluiria a reforma. Por enquanto, a casa grande, fora concluída apenas no primeiro pavimento, com a laje servindo também de futuro piso para o segundo pavimento.

Eis que, certo dia o destino disse “presente” e se fez cumprir. Messias e Dalva foram vítimas fatais de um acidente automobilístico. Dudu estava na escola, quando a avó Marina foi buscá-lo, aproveitando para acalmá-lo de alguma forma na hora de transmitir a notícia fatídica.

A princípio foi muito difícil para Dudu. Seria parta qualquer um. Mas, o tempo passou e ele, Dudu, acabou aceitando o destino. Menor de idade, sem renda e sem muita coisa, passou morar com a Avó – essa, viúva e também só.

Um, dois, três anos – período difícil para Dudu.

Ele precisava se apegar a alguma coisa, e acabou fazendo isso.

A avó fazia tudo por ele. Pretendia, única e exclusivamente, que ele fosse feliz. Que encontrasse o melhor destino e tivesse uma vida diferente dos demais.

Estudioso. Concentrado no que fazia e pretendia, Dudu dava o máximo de atenção aos estudos, mas não se descuidava do lazer, da brincadeira e da diversão.

Eis que Dudu se encantou com a brincadeira da pipa. Pipa, arraia, papagaio – fosse o que fosse. Era uma nova conquista de Dudu.

Mas, naquela novidade havia um particularidade. Dudu se acostumou a “soltar a pipa” num lugar cativo – a laje da casa inconclusa da avó. Era ali que, claro, Dudu se sentia do “dono do pedaço”.

Mandava a pipa para o ar, sozinho. Sem eira nem beira.

Pipa é algo para voar em liberdade

Dudu não conhecera algo que não fosse a liberdade. Sempre foi assim. Na convivência com os pais e, agora, na convivência com a Avó. Liberdade era o tema. Era o mote. Liberdade era tudo.

Por que Dudu escolhera para mandar a pipa para o ar, desde a laje da casa inconclusa da Avó?

A liberdade era o foco.

Dudu não queria a companhia de outros meninos. Os outros, com certeza, viveriam em torno do “corte” das pipas. Tudo em função do cerol, um elemento que descaracterizava o “soltar a pipa”.

Apreciador da liberdade, o que Dudu gostava mesmo era de “botar a pipa” no ar e, quando tivesse certeza da boa altura, romper a linha e deixar que a pipa seguisse seu caminho da liberdade.

A pipa. A liberdade. A realização de Dudu. Nada de cerol, nada de corte, nada de voltar a ser “pega” por outros meninos.

A liberdade era o mote. Era o êxtase.

A liberdade da pipa e da vida.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ZÉ OU ZÉ ALFREDO

Eu “praça” em 1961

Amigos, hoje vou honrar o nome da coluna: Enxugandogelo. Tenho certeza que em nada vou acrescentar de proveitoso neste primeiro domingo de maio do ano de 2022.

Pois, ontem, sábado e 30 de abril, recebi a graça divina, e cheguei aos 79 anos. Como se essa graça divina por si só não fosse suficiente, Deus, na sua imensa bondade, me deu um valioso bônus: a lucidez.

Nasci no dia 30 de abril de 1943, em Queimadas, então e ainda povoado de Pacajus. Vim ao mundo através de parto normal, feito e ajudado pela parteira Raimunda Buretama, por acaso, minha Avó materna.

Comecei a andar cedo e logo após o primeiro aniversário, já subia no parapeito onde ficava o pote com água. Eu mesmo me servia, quando o cururu que meu Avô criava permitia. Foi naquele parapeito onde também tomei meu primeiro catiripapo: subi no parapeito, enfiei a caneca no pote, peguei água e bebi. Despejei o resto que ficou na caneca, dentro do pote.

– Não faça mais isso! Gritou minha Avó, ao perceber o que fiz.

Cresci em liberdade total e sempre corrigido nos momentos oportunos, sem direito a choro, mimimi, ou as atuais frescuras que os pais permitem. Esses são coniventes com os descaminhos dos filhos.

Cedo ganhei uma enxada e um par de botinas para calçar quando fosse “ajudar o Avô a limpar a roça”, evitando algum acidente de percurso ou ferimento nos pés. Meu primeiro “trabalho” oficial em meio a família, foi “colocar os grãos de milho ou feijão” nas covas preparadas para o plantio.

A bifurcação no caminho

Os períodos de seca daqueles anos, que criavam na linha do horizonte apenas miragens, acabaram ensejando nossa mudança em êxodo, para a capital, Fortaleza. Os avós, meeiros das terras de propriedade da família Albano, preferiram permanecer morando em Queimadas. Fora mantido o ponto de referência e de “socorro” numa necessidade extrema.

Era a hora de trocar o poético cântico do vem-vem nos fins de tarde, quando eu sentava na porteira para apreciar o também poético sono do sol que se deitava num céu límpido que nos dava a certeza da impossibilidade de chuvas, pelo barulho dos motores dos carros no tráfego da capital. Era a hora de esquecer a inesquecível sinfonia das cigarras e dos grilos e perder os voos rasantes dos morcegos e andorinhas pegando mariposas.

E, lá fomos nós. Na capital, a vida desestruturada e a certeza da desesperança. Só pai e mãe trabalhavam. Moradia de desabrigado foi erigida na orla marítima, mais precisamente no Pirambu.

A mudança necessária trouxe junto a adolescência e o convívio dos poucos amigos (ainda não haviam sido feitos). A escola, o Curso Primário, o Exame de Admissão e o acesso ao Liceu do Ceará.

A primeira namorada, com frequência na casa dela e a aceitação da família veio aos 16 anos. Havia uma diferença de idade de 6 anos, de mim para ela, então com 22. As irmãs dela diziam que, “ela estava me criando” – daí ela mesma me chamar de “bebê”.

Aos 18 anos, a bifurcação. Tudo poderia ter sido diferente. Fiz concurso e logrei aprovação para a ESA (Escola de Sargentos das Armas), então funcionando em Três Corações/MG.

Em janeiro de 1961, Jânio Quadros assumiu a Presidência da República. Na estruturação da sua equipe de trabalho, incluiu também alguns conceitos e fez algumas mudanças estruturais. No concurso para a ESA, fui aprovado e classificado num grupo de 40 candidatos em Fortaleza. Me submeti e logrei aprovação nos exames médico, físico e psicotécnico. Ficamos aguardando a convocação e o chamado para o embarque para Três Corações. Nunca consegui descobrir minha classificação entre os 40 aprovados. Apenas 30 foram chamados e fiquei entre os 10 para uma convocação futura possível. Nunca aconteceu.

Em 15 de maio de 1962, ingressei no Exército Brasileiro como praça. Fui servir no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) de Fortaleza. Servi por um período acima do normal, em virtude da quantidade pequena dos novos praças. Ao final do período, fui convidado pelo então Comandante do CPOR, Tenente-Coronel Celestino Nunes de Oliveira, para ingressar no CPOR como aluno e me tornar Oficial R-2. Agradeci e fui cuidar da vida, continuando no caminho escolhido na bifurcação.

Trabalho na Western como Teletipista, depois de ser aprovado e rejeitar ingressar no Banco do Brasil. Fui eleito para compor a Diretoria do Sindicato dos trabalhadores na categoria, que ainda tinha a adesão dos funcionários dos Correios e, posteriormente, da recém-criada Embratel.

E o “namoro” continuava e a cada dia se tornava mais firme. Tinha mais liberdade e era quase que “o homem da casa” da namorada.

Eis que, no trabalho na Western, conheci alguém de preponderante influência no meu destino. Resolvi “terminar” o namoro antigo.

Eu hoje veím veím

Resolvi me envolver com o futebol. Fiz o Curso de Arbitragem e, ingressando na FCD (Federação Cearense de Desportos), hoje FCF (Federação Cearense de Futebol), me tornei um dos principais árbitros ascendentes, passando a fazer parte de uma elite que tinha ainda Gilberto Ferreira, Adelson Julião, José Felício Lopes, José Leandro de Castro Serpa, Lourálber Monteiro. Me tornei amigo pessoal de Manoel Amaro de Lima, de Clinamulte França, de Sebastião Rufino.

Por motivos que prefiro não mencionar, pedi demissão da Diretoria do Sindicato da categoria, fiz acordo com a Western, recebendo todos os meus direitos trabalhistas. Mudei para o Rio de Janeiro com a cara e a coragem. Sem profissão definida, além de ter conseguido transferência formal para o quadro de Árbitros da Federação Carioca, graças a uma indicação e o aval do General Aldenor Maia, então presidente da FCD.

No Rio, trabalhei dois anos na COSIGUA (Companhia Siderúrgica da Guanabara – naquela época em processo de privatização após a compra feita pela família Landau) e acabei me tornando “metalúrgico” tendo, inclusive, viajado para São Paulo em mais de uma oportunidade para ouvir falas em comício do líder sindical. Logo fui tocado pela mosca azul e me arrependi. Até saí da COSIGUA e fui trabalhar numa Editora Gráfica.

Casei em 1973. Separei em 1983. Me graduei em Comunicação Social – Jornalismo. Estagiei no Jornal do Brasil (curricular) e na Rádio Imprensa (curricular). Mudei para o Maranhão em 1987, onde me dediquei integralmente ao Jornalismo. Sou aposentado pelo INSS.

Sou hipertenso, o que me levou à uma “Revascularização” (Ponte de Safena). Desde então faço uso de medicação contínua.

Constituí uma nova família em São Luís, da qual nasceram três filhos – dois moças e um rapaz, todos adultos e escolarizados com ingressos em universidades.

Oficialmente sou divorciado do primeiro casamento, que me deu duas filhas nascidas no Rio de Janeiro. Hoje residem em Fortaleza – e há cerca de dois meses ficaram órfãs de mãe.

Pois, ontem, 30 de abril de 2022, Deus me conduziu pelo caminho da humildade e me permite, quando posso, servir à outrem, cheguei aos 79 anos.

Olho pelo retrovisor, vejo um caminho longamente percorrido, mas, tão digno que, se fosse necessário faria tudo mais uma vez.

Levemente escuto a sinfonia da cigarra e dos grilos; e, a cada fim de tarde me imagino sentado na porteira para olhar o pôr do sol e escutar o cântico do vem-vem.

ANALISANDO:

1 – Com certeza, se em 1961 em tivesse sido chamado para a ESA (Escola de Sargento das Armas) em Três Corações, após o curso e promovido a Terceiro Sargento, na volta para Fortaleza teria casado com a então namorada. O caminho seguido teria sido outro – e nem posso afirmar que hoje estaria aqui, vivo e lúcido;

2 – O surgimento de outra jovem na minha vida (na verdade, apenas namoricamos, viemos ter algo mais sério anos depois, mas nunca nos assumimos), mudou a rota e me colocou aqui hoje;

3 – Com certeza, Deus Onipotente foi a luz e a mão com o dedo apontado indicando o caminho a seguir. Minha vida sempre pertenceu a Ele.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CANJICA DA VOVÓ

Milho nascendo em fileira

Hoje, próximo de uma data significativa, resolvi dar uma volta no tempo, e relembrar um pouco das boas coisas vividas no sertão – então adolescente, sempre passando as férias escolares na cada da minha Avó, figura que, se fosse minha mãe, não faria nenhuma diferença. As duas, Avó e Mãe, eram quase que a mesma pessoa.

Meu Avô, homem de poucas letras, conhecia apenas o mundo em volta de si mesmo. Tudo se resumia ao redor do que ele via e conhecia. Nunca ouvira falar de escola ou de estudar. Mas, a sensibilidade divina adquirida, compreendia e aceitava que o mundo, para outros, ia além das manhãs, tarde e noites nas Queimadas (povoado onde todos convivemos). Ele sabia que existia um mundo além daquele onde vivia. Admitia e aceitava.

Mas, nós, os netos por vezes nos cercávamos da crença que, pelo menos nos meses das férias, o mundo era aquele ali, onde vivíamos e do qual usufruíamos só coisas boas que hoje são apenas saudades.

E nunca deixamos de aceitar que ali tínhamos muito que aprender. E fazíamos isso com prazer e sem cerimônia.

Cedo entendemos que, para semear alguma coisa, precisávamos preparar a terra. Limpar a terra. Preparar a terra para o momento oportuno de semear. Tantas e tantas linhas, tantos e tantos roçados preparávamos com as nossas enxadas e com a nossa coragem. O fruto de tudo, com certeza, viria depois.

Semear o milho, para nós, era como sentir muito cedo o cheiro da canjica com coco e aquelas borbulhas de algo que nos ligaria cada vez mais à terra e aos nosso costumes – para alguns, efêmeros e passageiros prazeres. Para nós, parte da nossa própria vida e razão de existir.

Semear o milho na terra preparada, e, vê-lo crescer até “embonecar”.

Milho “embonecando

Avistada a “boneca”, o objetivo se imaginava mais próximo. E era verdade. Os resultados positivos de tantos dias trabalhados na terra, sol a sol, agora estavam por vir. Com certeza.

Enxadas à mão, a manutenção da limpeza das ervas daninhas era uma constante – que ali significava também com uma vigília ao crescimento e desenvolvimento daquelas espigas verdinhas do milho mole até atingir o amarelecimento da secagem.

Milho em espiga verdinha

Quem planta, colhe.

Quem plantar e cuidar, vai ter boa safra. No milho, e na vida.

É o milho verde que vai servir para alguma coisa. Para canjica e pamonha, por exemplo. É o filho bem orientado que vai seguir o bom caminho – esse, é o bom fruto que proporcionará a boa colheita.

Colhido, o milho verde vai à ralação.

Ralado, vai à preparação para a canjica ou para a pamonha – duas coisas que satisfazem aos que sabem o que isso significa. Desde o semear, passando por todos os demais caminhos, até o consumir – se possível com um “pozinho” de canela.

Ralação do milho verde

A ralação precede ao cozimento. Não é algo fácil. É preciso saber o que está fazendo, para não correr o risco de desperdiçar tudo que foi feito e ter que voltar à estaca zero.

Tantas espigas raladas produzirão uma quantidade xis de milho ralado que, passado por uma separação (uma “peneiragem”) produzirá um líquido que será levado ao fogo, com o acréscimo de adoçante e/ou coco ralado – sem que esse acréscimo seja algo obrigatório.

Canjica de milho verde

Podemos afirmar sem medo de errar, que tanto a canjica quanto a pamonha são duas especiarias entre as mais desejadas que a culinária sertaneja produz a partir do milho verde. O cuscuz, outra maravilha produzida com o milho, entra num estágio mais adiante – com o milho seco e moído.

Pamonha à moda sertaneja

Comer uma canjica de milho verde um dia após a sua feitura é algo divino, quase sempre à disposição daqueles que vivem na roça e trabalharam o milho a partir da sua colheita. Produzindo de forma positiva em todas as suas etapas.

Quem, como eu, viveu essa preparação da terra para o plantio do milho até o sentar à mesa para o usufruto do que foi produzido, com certeza não terá lido aqui nada que surpreenda. Mas, servirá para, entre outras coisas, matar a saudade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MUNDO VISTO DA MINHA JANELA

Minha janela aberta para o meu mundo

Manhã de qualquer dia.

Em qualquer lugar, tão logo a vida se dana a tocar mais alto que todos os badalos de todos os sinos rebimbando ao mesmo tempo.

Num mesmo tom e com o mesmo som. Como se fora a abertura de uma ópera. No teatro da vida que existe em cada um de nós.

Blém, blém, blém!

Abro a minha janela. Uma e, depois, a outra.

As duas abertas para o meu mundo, tingido de um acastanhado claro. Mas, meu. São assim as minhas janelas.

O horizonte (meu!) se acastanha e, num mundo só meu, a poesia tem as cores que eu queira dar. Que eu queira pintar. Que eu queira ver. E, quero-o castanho neste momento.

Até um oásis, antes de um verde azulado pela profundidade, se tinge de tons castanhos – como meus olhos. Como meus olhos em janelas de mim mesmo querem ver.

É assim que eu quero ver, desde as minhas janelas recém abertas. Abertas às escâncaras, para um mundo castanho – como meus olhos de janelas abertas para o que antes, no horizonte, era totalmente azul.

O azul que outros olhos viam era azul

As minhas janelas!

Janelas de mim mesmo, que me transformei, tal qual as casas de antigamente, uma porta e duas janelas, numa moradia de coisas boas, pautáveis e paladares.

Coisas acastanhadas!

Como meus olhos, de um tom castanho claro, que consegue, nos momentos de felicidade, “ver a cor do som”. Dar cor castanha ao som.

Janelas de mim mesmo.