JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CAMAPU, O LOBO MAU E A VOVOZINHA

Camapu em fase de crescimento e maturação

“Camapu é uma planta medicinal que serve para tratar doenças neuro-degenerativas, diminuir o colesterol e fortalecer a imunidade. Consumi-la pode ajudar ainda no fortalecimento da imunidade, prevenindo o desenvolvimento de gripes e resfriados. Camapu, fisalis ou juá-de-capote é muito comum aqui no nosso país, em diversas regiões. Na verdade, são duas as espécies: o Camapu (Physalis pubescens) e o Juá de capote (Physalis angulata), com diferentes características que podem ser facilmente cultivadas aqui.

Mas, o interessante é que a ciência está estudando esta planta pois, ela ajuda na recuperação dos neurônios e, portanto, das doenças neuro-degenerativas como o Alzheimer, o Parkinson e diversas outras.” (Transcrito do Wikipédia)

No meu Ceará, é popularmente denominada de “canapum”, e a sabedoria popular afirma que, o canapum também tem uma importante relevância social: serve para mantar a fome, quando consumido em quantidade significativa.

Camapu (ou canapum) maduro

Eis que, vou lhes contar uma história, com letras e tintas fortes de estória, que teria acontecido na Timbaúba, pequeno povoado situado no pé da serra que divide os povoados de Timbaúba, Queimadas e Pacatuba (onde hoje funciona a fábrica de envasamento da cervejaria Heineken, no Ceará).
Pois, lá pelos anos 50, quase todos os dias, e sempre antes que o sol esquentasse, Vovó saía à caça de melão São Caetano, cuja rama usava como sabão para lavar algumas redes, trapos velhos e outras peças de roupa. O fruto maduro daquele melão, ela usava para alimentar os passarinhos criados por Vovô, e ainda os dividia com patos e galinhas criados soltos no quintal. Nós, os netos, escondíamos alguns melões maduros, para usarmos na armação das arapucas para pegar sabiás e corrupiões.

Certo dia sentimos a ausência da Vovó. Tínhamos certeza que ela saíra para fazer a obrigação descrita acima. Mas, a demora começou a nos preocupar. Todos que viviam debaixo do teto da Vovó e do Vovô sabiam que Vovó começara esquecer das coisas. Achávamos que ela estivesse sofrendo de amnésia.

Vovó se danava a procurar o cachimbo por todos os cantos da casa, quando o dito cujo estava guardado num dos bolsos do vestido. Entretanto, ninguém se atrevesse a fazer alguma gozação. Era cabo de vassoura na cabeça e no espinhaço – era assim que ela punia os netos ou quem se atrevesse a “mangar” dela.

Vovó feliz por recuperar a memória

A demora continuava nos preocupando. Resolvemos sair à procura dela pelo mato. Antes de sairmos, resolvemos comunicar ao Vovô o que estava acontecendo.

– Ela deve de ter ido percurar aquela galinha pedrês botadeira de ovo que ela sentiu falta de menhanzinha bem cedim!

Pelo sim ou pelo não, resolvemos sair para procurar a véia. Foi quando Dudu, o irmão mais velho vaticinou:

– Será que ela esqueceu de voltar pra casa, ou tomém esqueceu o camim?

Depois de algum tempo de procura, o cachorro Pintado nos ajudou na caça. Vovó estava com um cesto cheio de canapuns, e continuava à procura de mais. E quanto mais procurava, mais encontrava, e aquilo a prendia no meio da mata.

Quando nos avistou, Vovó foi avisando:

– Meninos, a fome tavo bateno nim mim, quandi comecei a comer uns bixinhos desse. Foi quando me alembrei que a galinha que eu vim procurar está choca dentro daquele urinó de barro, e nim véspera de tirar os pintim. Tomém me alembrei que aqui neste mato tem um lobo solto. Um lobo mau!

– Vó, no Brasil não tem lobo, tentei ajudar.

– Tem sim, ora! Um tal de lobo guaraná!

– Vó, não é lobo guaraná, senhora. É lobo guará!

– Apois entãosse é esse mesmo!

O lobo mau que queria comer a vovozinha

Vovó precisou de ajuda para carregar a quantidade de canapuns que apanhara, que teve o peso aumentado pelo “despotismo” (fala lá dela, Vovó) de rama de melão São Caetano e muitos melões para os passarinhos de Vovô.

Quando chegamos de volta à casa, fomos discutir aquele assunto. Chegamos à conclusão que Vovó havia recobrado a memória, que as mãos não apresentavam aquele tremor em excesso, característico de quem, além de sofrer de amnésia, começa apresentar sintomas do mal de Parkinson.

E arriscamos:

– Vó, a senhora contou quantos canapuns a senhora comeu?

– Meninos, nem me alembro. Sei que comi foi muito, que inté enchi minha barriga!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PONTE AÉREA DA BAITOLAGEM

Quem conhece Fortaleza, capital cearense, por visita turística ou por ter nascido lá, ou, ainda, por ter morado na “Loira desposada do sol”, certamente conhece a parte mais antiga do Centro da cidade. Talvez conheça, também, a Rua Castro e Silva, a antiga Cadeia Pública, a Santa Casa de Misericórdia e a antiga Estação de trens da RVC (Rede Viação Cearense) – tudo isso, vizinhança do conhecidíssimo e muito visitado “Curral das éguas”.

Pois, tão logo “dei baixa do serviço no Exército” (CPOR – onde tomei três doses de vacina à base de Ivermectina, Hidroxcloroquina e Zinco – que fazia doer até miolo de pão), trabalhei alguns meses na Casas Silcar, representante da concessionária Chevrolet e da Frigidaire, que ficava na Rua Sena Madureira, ao lado do Mercado Central. Depois passei a trabalhar na Western Company Limited, empresa inglesa prestadora dos serviços de cabogramas. E tudo aquilo ficava como se fosse dentro de uma bacia de alumínio.

A Western usava dois tipos de tarifas: a tarifa comum, para os cabogramas comuns e de textos reduzidos; e o CTN (Correspondência Telegráfica Noturna), essa com tarifa abaixo de 50% do preço da tarifa comum.

Trabalhávamos em três turnos de seis horas cada. O turno da noite começava às 17 e 18 horas e encerrava às 23 e 24 horas. Quando era necessário, um Operador de Teletipo (minha função e de outros) permanecia na empresa, e fazia “O.T.” (Over time), recebendo, além das horas extras, a regalia de ser conduzido à casa por táxi. Essa hora extra consistia em esperar a chegada dos cabogramas CTNs procedentes de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, preparando-os para a entrega nas primeiras horas do dia seguinte.

Via de regra, eram ordens de transferências bancárias, ou pautas para os jornalistas correspondentes dos jornais Estado de São Paulo, Jornal do Brasil com maior frequência (lembro que eram Egídio Serpa e Rogaciano Leite).

Durante a espera da chegada desses CTNs, como ainda não havia jogo transmitido pelas televisões, a gente se “impirilutava” para o Curral das Éguas (ZBM) ou, para a putaria que reinava na Rua Franco Rabelo e, próximo dali, a famosa buate 80.

Era na Franco Rabelo que reinava o “senhor” José Benedito de Lima, pouco conhecido como tal, mas muito conhecido como “Zé Tatá”. Zé Tatá era um desses que hoje são rotulados popularmente de “Queimador de rosca” ou “Generoso do traseiro”; ou, numa linguagem mais atual que em nada atenua o objetivo, “gay”. Para o cearense, “Baitola”!

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Zé Tatá – o baitola macho

Zé Tatá – O gay-macho: bom de porradas contra três ou quatro (e botava pra correr!)

Nascido em Salvador/BA, JOSÉ BENEDITO DE LIMA, em 1929, ainda criança (pouco mais de dois anos de idade) foi morar em Fortaleza, por conta da transferência do pai, então militar do Exército. Poucos anos depois, o pai faleceu vítima de um acidente num treinamento militar.

Filho único, ainda JOSÉ BENEDITO virou estudante no Colégio Maristas, na capital cearense. Não ficou livre da “zoeira” (os bobalhões de hoje denominam de “bullying”) própria do cearense. Assim, quando era repreendido por algum professor(a) no Colégio, aceitava e respondia apenas, “tá” repetidas vezes. Virou então “Zé Tatá”. Dono das casas noturnas (pensão) Ubirajara, Hollywood e Tabariz. Desfilava no carnaval vestido de baiana e imitava Carmem Miranda.

Zé Tata era um negrão de mais de um metro e noventa. Chamava atenção, por onde passava, por ser um homem, negro, forte, alto e belissimamente vestido de mulher. Ninguém tinha coragem de dizer qualquer coisa que ofendesse a integridade moral de Zé Tata.

Mas vamos ao início da história deste personagem baiano que, nos anos 50 e mais, era a rainha do Carnaval de Rua de Fortaleza: Zé Tata. José Benedito de Lima nasceu em Salvador, em 1929. Aos 2 anos idade perdeu seu pai vítima de acidente em um treinamento militar. Filho único de mãe viúva, foi criado em Fortaleza num conjunto habitacional do exército do Brasil. Sua mãe ganhava uma modesta pensão e tinha que trabalhar como empregada doméstica pra criar seu filho amado. Zé, como era conhecido pelos colegas, estudou no colégio Marista, onde também ganhou o apelido de Tata. Dizem que, quando ele ficava nervoso ao ser repreendido pela professora, dizia: – Ta! Ta! Daí virou o Zé Tata.

Quando menino, passou por todas as fases, foi levado, brigão, namorador… Sempre foi um aluno mediano, mas esforçado e logo estava numa escola de Sargentos do Exército, onde estudou enfermagem. Na Escola Militar descobriu que era diferente dos outros meninos: enquanto os outros tinham desejos sexuais por meninas, ele adorava ver os meninos pelados no vestiário. No início, achou estranho, mas rapidamente gostou da ideia. Ele se destacava em todas as atividades que fazia: era ótimo lutador, jogava futebol e queria participar de tudo que envolvia contato físico com os garotos da academia.

Quando estava com 19 anos, foi convidado para se fantasiar de mulher e sair com um grupo de amigos pra desfilar no Carnaval do centro de Fortaleza. Pediu ajuda a sua mãe, que não estranhou, pois aquilo era costume de Carnaval. Ele, então, se montou e se transformou numa mulher de quase dois metros de altura. Salto altíssimo, vestido longo e maquiagem impecável. Decidiu não usar peruca, deixou seu cabelo natural, bem batido, como deve usar um militar. Foi o dia mais feliz na vida de Zé Tata. Lá foi ele realizado, se sentido uma dama. Porém, na vida, nem tudo são flores e, logo que chegou ao centro, uma turma de machões bêbados resolveram brigar com os rapazes – Vamos dar porrada nessas raparigas que não gosto de veado, alguém gritou.

Começou aquela pancadaria. Zé Tata vinha mais atrás e quando chegou perto viu os amigos dele sendo surrados por um bando de bêbados gritando ofensas. O sangue de Zé Tata nunca ficou tão quente, deu um grito e partiu pra briga. Eram mais de vinte homens cercando Zé Tata. O primeiro que chegou perto levou um chute na cara, o salto alto de Tata arrancou sangue do dito cujo que já caiu semimorto. Os outros, vendo aquele negrão enorme ficaram sem saber o que fazer. Zé Tata partiu feroz para cima deles, derrubando um por um com socos, pontapés, cabeçadas, pernadas… Quando a polícia chegou, o quadro era de trinta homens no chão e uma bicha enorme, gritando, chorando e batendo em que chegasse perto. Foi preciso mais de dez policiais para conter a ira de Zé Tata que foi preso e autuado como agressor e perturbador da ordem pública. Ninguém mais foi preso. Só não foi pior porque o Raimundo, um dos amigos que apanharam, defendeu Tata.

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Madame Satã

Anos 60, em Fortaleza; final dos anos 60 e começo dos anos 70, no Rio de Janeiro. Em Fortaleza, a “loira desposada do sol”, proximidades da Rua Franco Rabelo, do Curral das Éguas e do Quartel da Décima Região Militar. No Rio de Janeiro, a Lapa e o Bairro de Fátima. Tempos bons, de época braba.

Domingo pela manhã no Rio, a venda de selos pelos “Filotélicos” que viviam, e gastavam fortunas com as coleções. Algumas crianças se dirigiam para o Passeio Público, esperando o horário da primeira sessão infantil das manhãs dos domingos no Metro Boavista.

Em Fortaleza, a noite da sexta-feira e do sábado. A ZBM fervilhava e era ali que as coisas aconteciam. Fortaleza não era 5% do que é hoje e do que disponibiliza em opções de lazer noturno. No passado, na ZBM, era só para “molhar o biscoito”.

João Francisco dos Santos – Madame Satã

João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá/PE, a 25 de fevereiro de 1900, e faleceu no Rio de Janeiro, a 12 de abril de 1976, mais conhecido como Madame Satã, foi um transformista brasileiro, uma figura emblemática e um dos personagens mais representativos da vida noturna e marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX.

Nascido em Glória do Goitá, um município brasileiro localizado no interior do estado de Pernambuco, na Zona da Mata, João Francisco se mudou para a Lapa – que na época passava por um processo de transformação e gentrificação – aos 13 anos, onde viveu como moleque de rua até conseguir um emprego como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio.

Navalha – a arma de Madame Satã

Madame Satã tinha fama. Para uns, uma má fama. Para outros tantos, a fama de brigão que, provocado “não batia fofo”. Enfrentava qualquer um. Tinha o hábito de vestir a cor branca. Nas ocasiões especiais preferia o paletó e calças de linho – e tamancos de madeira. Num dos bolsos internos do paletó, a inseparável amiga navalha.

Naquela região da Lapa, indo do final do gradeado do Passeio Público e cafés e bares nas imediações do Arcos até a Rua do Senado com Rua do Riachuelo e ladeiras de subida para Santa Teresa, Madame Satã era conhecido e temido. Só quem o dominava era a patrulha da Polícia Especial, antecessora da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Tamancos de madeira – o “escudo” de Madame Satã

Muito bom de briga, Madame Satã também tinha seus desafetos que, em duplas, o enfrentavam. Para esses, Satã (contam alguns que presenciavam os desafios) punha a amiga navalha numa das mãos e um dos tamancos de madeira na outra – trocando-as quando se defendia ou quando atacava. E os ataques eram quase sempre fatais.

Nos dias atuais tudo é diferente. A navalha, nem os barbeiros a usam mais. Os marginais criminosos preferem os fuzis de alto poderio, a grande maioria importados (na verdade, contrabandeados) de países especialistas em guerras. E até já se atrevem a trafegar na área que antigamente era dominada por Madame Satã.

DETALHE: Madame Satã também era baitola e não se escondia no armário. Mas essa era outra guerra, na qual ele sempre era derrotado. E, em vez de navalhas, espadas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OLÊ MULÉ RENDÊRA, OLÊ MULÉ RENDÁ

Bilros manipulados pelas mãos hábeis das rendeiras

Como se fora uma ladainha das festas profanas, das muitas que ainda hoje são realizadas em muitos lugares do Nordeste, a letra da música imortalizou a lembrança cultural de alguém que, inicialmente não passava de um sofrimento obrigatório, para “passar o tempo” – enquanto Lampião não chegava.

Lembro, era assim:

“Olê, mulé rendêra
Olê, mulé rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá
(Tu me ensina a fazê renda)
(Que eu te ensino a namorá)

Lampião desceu a serra
Foi dançá em Cajazeira
Encontrou Maria Bonita
Que virou mulé rendêra
Encontrou Maria Bonita
Que virou mulé rendêra”

Crescemos escutando coisas assim ou parecidas. O tempo passou e algumas pessoas da família até se envolveram diretamente com a atividade da manipulação dos bilros, dos espinhos de cardeiro (nome que damos aos espinhos de cactos no Ceará), às almofadas arredondadas, linhas quase sempre branca e uns desenhos (modelos) em papel seguidos à risca para a formação das peças de renda.

A “rendêra” virou “Rendeira” depois de uma pertinente e admirada musicalidade até então considerada matuta – mas que sempre teve muito do contar o sofrimento de alguns que viviam apenas esperando a morte, ou a felicidade com os namorados que conviviam com o cangaço.

Mãos hábeis seguram os bilros que seguem o “modelo” de alguma peça de renda

Minha hoje falecida tia-avó Teté foi uma ainda “rendêra” de mancheia. Se, viva estivesse, seria hoje uma “Rendeira” dessas de grifes famosas cujas lojas funcionam apenas nos “xópis”, com peças de valor individual inalcançável para alguns. São peças feitas sob encomendas.

Pois Teté me mandava para as capoeiras “caçar, tirar e trazer” espinhos de cardeiro para que ela pudesse afixar os trabalhos já feitos nas almofadas. Fazia peças que, à primeira vista, nem os melhores teares da indústria eram capazes.

Teté foi apenas mais uma que viveu o sonho de esperar a chegada de alguém do cangaço de Virgulino. Teté morreu virgem (cabaço) e se contentava apenas com a almofada entre as pernas. Calma. A almofada! Nada de bilros!

Peça de renda feita por rendeira de Beberibe

Nos dias atuais, fazer renda em artesanato é uma profissão. Reconhecida. Pelo menos em meio aos artesãos.

Não exige estudo, não exige graduação acadêmica, mestrado ou doutorado – e ninguém exige para que o “deploma” seja amostrado. É um trabalho feito com as mãos. Há quem afirme que a tradição da renda teria vindo da Europa e da África.

Já lemos em algum escrito que, ansiosa para agradar à “dona”, uma escrava, com a habilidade desenvolvida com o que aprendera com os antepassados, fazia peças para a patroa. Agradou e, ansiosa para proporcionar às semelhantes o mesmo direito de ter a amizade das patroas, ensinou.

No Brasil, renda de artesanato é considerado “coisa de branco”, daí a aproximação pelo menos teórica, que teria com os antigos escravos. No Ceará é uma fonte de renda (dinheiro). Cascavel, Beberibe, Aracati têm polos de produção e propagação desse tipo de artesanato.

Mas a maioria aproxima a “Rendêra” com o fato da espera por alguém. A mulher “esperava alguém” e aproveitava para preencher o tempo fazendo renda.

“Rendêras” fazendo poesia com linhas, bilros e espinhos

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS SORRISOS INGÊNUOS DA INFÂNCIA

Nos anos da década de 70, composta para tentar incentivar a seleção brasileira de futebol na jornada épica no México, mais propriamente em Jalisco e Guadalajara, independentemente da situação sócio-política que vivíamos, a letra da música garantia que éramos 70 milhões de habitantes. Os veículos de comunicação eram confiáveis e os interesses de manipulação não existiam.

O mundo parecia ser maior. Parecia haver mais espaços para todos e isso garantia a quase total ausência das maldades, dos males e dos maldosos. Éramos ingênuos, sim. Éramos “educados” por nossos pais. Jamais pelos Conselheiros Tutelares – esses que ninguém sabe de onde saíram e qual os passados pregressos. Mas, foram oficialmente autorizados pelo Estado para entrarem nos nossos lares e chafurdarem nossas intimidades com os filhos.

E era aquela ingenuidade que nos levava a rir de muitas coisas, principalmente as que eram mostradas nos cinemas, nos circos com palhaços diferentes dos que hoje tentam fazer graças em algumas instituições brasileiras.

Não. Não citei aquela instituição pretensamente suprema, tampouco algum poder legislativo. Você que, pela lógica das coisas, pensou isso.

Como não rir dos trejeitos de Cantinflas, com aquele andar atrapalhado pelas próprias calças?

Como não rir do andar embaraçado e fala amatutada de Mazzaropi, sempre com aquela galinha colada sob o sovaco?

Como não rir do Oscarito, que conseguia roubar as cenas, mesmo atuando ao lado de Grande Otelo e Eliana?

Como não rir dos espalhafatos de Zé Trindade e a sua “tara” por mulheres?

Vejamos e relembremos um pouco de cada um deles.

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CANTINFLAS

Cantinflas arrancava gargalhadas com as “marmotas”

Cantinflas, nome artístico de Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes, nascido na Cidade do México, a 12 de agosto de 1911, e falecido na mesma Cidade do México, a 20 de abril de 1993. Nasceu em uma família muito humilde e tinha 12 irmãos. Teve uma adolescência marcada pela pobreza, o que o levou a começar a trabalhar muito cedo, primeiro como engraxate e depois como aprendiz de toureiro, motorista de táxi e pugilista. A sua vida mudou quando, aos vinte anos, trabalhando como empregado em um teatro popular, teve a oportunidade de substituir o apresentador do espetáculo que adoeceu. Ao inverter frases, trocar palavras e abusar do improviso, Cantinflas conquistou o público hispânico. As suas origens inspiraram várias personagens, entre eles o famoso El Peladito. A sua maneira de falar acabou por prejudicar a sua carreira internacional. Dos mais de 40 filmes que fez, a maior parte foi produzida pela sua própria companhia. Em Hollywood, teve apenas dois filmes: A Volta ao Mundo em 80 Dias, um sucesso de bilheteria e vencedor do Oscar de melhor filme em 1956, e Pepe, um fracasso de público e crítica. A sua carreira durou até a década de 1980. A crítica, porém, destaca que os melhores filmes do comediante foram feitos entre as décadas de 1940 e 1950. Entre os seus trabalhos mais elogiados deste período, estão Os Três Mosqueteiros (1942), O Circo (1943), El Supersabio, O Mágico (1948), O Bombeiro Atômico (1950) e Se Eu Fosse Deputado, todos escritos para ele pelo seu amigo Jaime Salvador. (Informações do portal Wikipédia).

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MAZZAROPI

Mazzaropi e o famoso cachimbo

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, 9 de abril de 1912, e faleceu também em São Paulo, a 13 de junho de 1981. Considerado o maior cômico do cinema brasileiro, é o único artista que ficou milionário fazendo filmes no país. Suas produções foram fenômeno de público por mais de três décadas. Filho de Bernardo Mazzaropi, imigrante italiano e Clara Ferreira, brasileira nascida em Taubaté (São Paulo), filha de imigrantes portugueses da ilha da Madeira. Com apenas dois anos de idade sua família muda-se para Taubaté no interior de São Paulo, onde estavam seus avós maternos. O pequeno Amácio passava longas temporadas no município vizinho de Tremembé, na casa do avô materno, o português João José Ferreira, exímio tocador de viola e dançarino de cana-verde. Seu avô também era animador das festas do bairro onde morava, às quais levava seus netos que, desde cedo, entram em contato com a vida cultural do caipira, que tanto inspirou Mazzaropi.

Em 1919, sua família volta à capital e Mazzaropi ingressa no curso primário do Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Bom aluno, era reconhecido por sua facilidade em decorar poesias e declamá-las, tornando-se o centro das atenções nas festas escolares. Em 1922, morre o avô paterno e a família muda-se novamente para Taubaté, onde abrem um pequeno bar. Mazzaropi continua a interpretar tipos nas atividades escolares e começa a frequentar o mundo circense. Preocupados com o envolvimento do filho com o circo, os pais mandam Amácio aos cuidados do tio Domenico Mazzaroppi, em Curitiba, onde trabalhou na loja de tecidos da família. Já com quatorze anos, em 1926, regressa à capital paulista ainda com o sonho de participar em espetáculos circenses. Finalmente entra para a caravana do Circo La Paz. Nos intervalos do número do faquir, Mazzaropi conta anedotas e causos, ganhando uma pequena gratificação. (Informações pesquisadas no Wikipédia).

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OSCARITO

Oscarito e seu sorriso inesquecível

Oscarito, nome artístico de Oscar Lorenzo Jacinto de la Inmaculada Concepción Teresa Díaz nasceu em Málaga, a 16 de agosto de 1906, e faleceu no Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1970. Foi um ator hispano-brasileiro, considerado um dos mais populares cômicos do Brasil. Ficou famoso pela dupla que fez com Grande Otelo, em comédias dirigidas por Carlos Manga e Watson Macedo. Nasceu em uma família circense, vindo para o Brasil com um ano de idade, mas somente naturalizou-se em 1949. Estreou no circo aos cinco anos de idade, e ali aprendeu a tocar violino, sendo ainda palhaço, trapezista, acrobata e ator. Estreou no teatro de revista em 1932, na peça Calma, Gegê, que satirizava o ditador Getúlio Vargas, de quem se tornaria amigo. No cinema, estreou em Noites Cariocas, de 1935, embora tenha figurado num filme anterior, e foi nessa arte que ganhou enorme popularidade no país. Fez parceria com Grande Otelo em diversos filmes de chanchada. Seu nome, no Brasil, era paralelo para os maiores humoristas do cinema, como Charles Chaplin ou Cantinflas. Foi casado com Margot Louro, com quem teve dois filhos. Na manhã de 15 de julho de 1970, sentiu-se mal, devido a um AVC, e foi internado, já em coma, vindo a morrer em 4 de agosto. Seu corpo foi velado no salão nobre da Assembleia Legislativa da Guanabara, com a presença de mais de duas mil pessoas. (Informações do Wikipédia).

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ZÉ TRINDADE

Zé Trindade gostava mesmo de mulher

Zé Trindade, pseudônimo de Milton da Silva Bittencourt é baiano de Salvador, onde nasceu a 18 de abril de 1915; faleceu no Rio de Janeiro, a 1 de maio de 1990. Foi ator, músico, poeta e comediante brasileiro de rádio, teatro, cinema e TV, famoso por jargões como “Mulheres, Cheguei!” e “Meu Negócio é Mulher”. Nasceu em tradicional família baiana, porém, o seu pai, herdeiro de uma grande fortuna, é deserdado porque se casa com uma mulher pobre (a mãe de Milton). A sua infância, até os onze anos, foi muito sofrida. Nessa idade, se emprega como contínuo em um hotel da capital baiana e faz amizade com Jorge Amado e Dorival Caymmi, que, como os outros hóspedes do hotel, apreciam suas piadas, versos, poemas ou letras de músicas. Em 1935, entrou para a Rádio Sociedade da Bahia, vivendo um bêbado no programa Teatro Pelos Ares e em 1937, chegou ao Rio de Janeiro, integrando o elenco de humoristas da Rádio Mayrink Veiga. Fez sua estreia no cinema em 1947, no filme O Malandro e a Granfina e só parou em 1987, numa ponta em Um Trem para as Estrelas, perfazendo uma carreira de 38 filmes. Participou pouco de televisão, mas chegou a atuar com Chico Anysio e na novela Feijão Maravilha (1979), do programa humorístico Balança Mas Não Cai (1982) e da minissérie Memórias de um Gigolô (1986). Morreu de câncer no pulmão, em 1 de maio de 1990, no Rio de Janeiro, aos 75 anos. (Informações do portal Wikipédia)

Para essas figuras dedicávamos nossos sorrisos das tardes de domingo. Não tínhamos a tecnologia do telefone para mudar nossos caminhos, como faz a maioria nos dias de hoje.

Aprendemos a rir e gargalhar alto. Não nos incomodávamos com “bullying” (coisa de baitola), não ficávamos caçando Pokémon e nada sabíamos de Instagram e afins. Desconhecíamos a depressão.

Mas, éramos felizes, sim. E ríamos!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PASSEANDO PELAS ARTES

Garrincha passa e o marcador fica no chão

Hoje peço licença aos amigos leitores, para falar um pouco do futebol, meio no qual dormi e acordei por alguns anos.

Sou torcer alvinegro, com ênfase para Ceará Sporting Club, Botafogo de Futebol e Regatas e Santos Futebol Clube. Na primeira preferência, por ser o clube da minha terra natal; na segunda, por conta desse ser humano genial, cuja alegria inocente era levar alegria para todos; e, finalmente, no terceiro, por conta da genialidade do negão que vestiu e honrou a camisa 10, fazendo dela, mundo à fora, um ícone da excelência.

1 – MAMÉ GARRINCHA

“Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha ou simplesmente Garrincha foi um futebolista brasileiro que se notabilizou por seus dribles desconcertantes, sendo considerado por muitos o mais célebre ponta-direita e o melhor driblador da história do futebol.” (Wikipédia)

Longe de mim a pretensão de querer contar a história de Garrincha, uma figura demasiadamente conhecida, não apenas nos meios futebolísticos, ou, por conta de algumas peripécias na vida particular – e isso não me diz respeito.

Dito isso, muitos, mas nem todos sabem, que Garrincha nasceu Manoel Francisco dos Santos, no povoado Pau Grande, em Magé, no Estado do Rio de Janeiro, a 28 de outubro de 1933. Foi ali que Ele ensaiou e desenvolveu os primeiros dribles, construiu as primeiras gaiolas e criou os adorados passarinhos.

Há pouco para se dizer ainda sobre Garrincha. Muitos já disseram tudo, graças à adoração que o também botafoguense Sandro Moreyra tinha pelo genial jogador. Mané era assunto preferido de Sandro, mesmo quando o Botafogo não jogava.

O que já se sabe era que, quando jogava o Botafogo de Garrincha contra o Flamengo de Jordan ou o Vasco de Coronel, os torcedores dos clubes, adversários em campo, se deliciavam pelos momentos chaplinianos que “Mané” proporcionava. Era uma delícia, e há quem afirme que, até o marcador se sentia feliz em viver o seu dia de “João”, como passou a ser rotulado o pretenso marcador que tomava baile.

Até onde se sabe, pelo que muitos disseram, uma vida desregrada após a aposentadoria no futebol, foi a causa principal que levou Mané Garrincha à morada eterna, no dia 20 de janeiro de 1983 – dia consagrado à São Sebastião, no Rio de Janeiro.

Pau Grande – bucólico povoado onde nasceu Garrincha

Sobre Garrincha, além de ter presenciado em inúmeras oportunidades nas arquibancadas do Maracanã aquele drible seco sempre para o lado direito depois de um “faz-que-vai-mas-não-vai” para a esquerda, um momento triste que presenciei sobre uma figura tão importante no Brasil e mundo à fora.

Toda manhã de domingo, eu ainda morador do Rio de Janeiro, cultivava o hábito de comprar vários jornais (O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal dos Sports, Gazeta Esportiva, Correio Braziliense, Diário do Nordeste e O Povo), numa banca de jornaleiro que existe ainda hoje, na frente do antigo Hotel Serrador, na Cinelândia. Comprava e lia todos. Levava uma ou até duas sacolas de jornais para ler em casa.

Eis que, ao pagar e receber os jornais, caminhei na direção da antiga Mesbla. Foi quando encontrei, sentado no meio-fio da Rua Senador Dantas, todo vestido de preto (como se estivesse usando luto), a figura inconfundível de um dos maiores jogadores de futebol do mundo: Mané Garrincha.

Percebi que ele estava insone e, aparentemente, alcoolizado. Não tentei ajuda-lo, pois tive receio de ser confundido. Segui meu caminho, enquanto ele ficara sentado no mesmo lugar. Provavelmente escutando os aplausos recebidos tantas vezes das arquibancadas do Maracanã. Aplausos vindos até dos torcedores de times adversários.

2 – CHARLES CHAPLIN

Outros tempos, outros pais e outras mentalidades. Quem estudava tinha apenas um dia para o descanso ou lazer: o domingo. Domingo era dia de cinema ou futebol para a estudantada, ou, ainda, para a juventude transviada o dia para descansar da ressaca do sábado. Diferente de hoje, que a farra começa na sexta-feira. Vida que segue.

E a estudantada sempre (ou quase sempre) ia ao cinema. Trocar revistas em quadrinhos ou figurinhas de álbuns, e depois o filme em cartaz.

Final dos anos 40 e quase todos os anos 50, a produção cinematográfica era limitada. Perdurava ainda o filme mudo (sem som audível) e muitos desenhos, rotulados de “animados”. Filmes de faroeste ainda eram raros – e havia até quem imaginasse que, a poeira feita pelas carruagens perseguidas pelos índios, pudesse provocar gripes. Arre égua!

Chaplin – o mito da então arte cinematográfica “muda”

Difícil mesmo era esquecer que, o grande nome dos filmes daqueles poéticos tempos era Charles Chaplin. Na verdade, Charles Spencer Chaplin, percussor do cinema mudo, nascido no Reino Unido, mais precisamente no povoado Walworth, dependente de Londres, a 16 de abril de 1889.

Charles Chaplin, que viria a falecer em Manoir de Ban, na Suíça, no dia 25 de dezembro de 1977, em vez de receber presentes de Natal, fez foi presentear a criançada e o cinéfilo com fitas inesquecíveis como O Grande Ditador, O Garoto, O Vagabundo e o impagável Tempos Modernos.

Lembro que vi todos esses filmes, como lembro também, da magistral interpretação de Geraldine Chaplin como “Tônia” no filme “Dr. Jivago” ao lado de Omar Shariff e Julie Christie. Geraldine sempre recebeu cobranças por melhores interpretações, apenas pelo fato de ser filha de Chaplin.

Cemitério onde estão os restos mortais de Chaplin e da família

Tudo momentos proporcionados pela arte. Quando Garrincha driblava, a ponto de destruir o marcador, provocando risos e/ou aplausos das superlotadas arquibancadas do Maracanã, era a arte se impondo de forma magnífica no futebol.

Não seria diferente, quando as plateias uníssonas gargalhavam como os trejeitos de Chaplin em quase todos os seus filmes. Mas, entre tantos, havia também aqueles que iam às lágrimas. Tudo, arte pura.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESPERA!

Mãos envelhecidas aprenderam a esperar

Carmem, Dona Carmem, Carminha. Era esse o nome de uma mulher que nasceu, cresceu, casou, teve filhos, e viveu longos anos na comunidade conhecida como Europinha, parte do município de Beberibe no Estado do Ceará.

Naquele tempo, quando perdurava a seca contínua, que não atendia à esperança das orações pela vinda das chuvas, a vida não era fácil para ninguém. Dona Carminha, claro, não podia ter para si e para a família, algo diferente.

A “reca” de filhos que teve com o marido Augusto – foram oito, ao todo – conseguiu sobrevida por conta do sacrifício que os pais faziam para garantir que, na hora do “dicumê”, os pratos não estivessem vazios – ou cheios de nada.

Oito filhos. Cinco rapazes e três moças sobreviveram pelo esforço desmedido dos pais, com maior atuação de Dona Carminha na responsabilidade de quase tudo. Augusto se encarregava “apenas” do abastecimento das necessidades domésticas. O mais era com Dona Carminha.

O que se soube tempos depois, foi que, daqueles oito filhos, apenas três (rapazes) conseguiram atravessar a adolescência e atingir os degraus dos adultos. Problemas de saúde e de convivência levaram os outros cinco.

Os três que ficaram, casaram e foram cuidar das famílias. Augusto teve problemas de saúde e também teve o CPF cancelado, e foi morar ao lado direito do “Pai”, na Vila da Eternidade.

A Europinha inteira tinha noção dos esforços de Dona Carminha para atravessar o Mar Vermelho e conduzir com boa performance os três filhos. Enfrentou necessidades, e viu a fome de muito perto, sem necessitar do uso de lupa.

Fez o que todas as mães fazem. Sacrificou-se, por entender que “cuidar de filhos” é papel e responsabilidade dos pais. E assim, por conta do destino, ela continuava viva, mas só.

Dona Carminha envelheceu e cansou. Cansou fisicamente, mas continuou jogando o jogo da vida contra as dificuldades, da mesma forma como fazem tantas outras mães.

Só, em casa – sem receber de volta a atenção, o carinho ou o sacrifício que ofereceu aos oito filhos, fortalecidos quando a prole ficou reduzida a apenas três. Tudo aumentou. A atenção dobrou, o carinho aumentou e o sacrifício triplicou.

Nada em troca. Nem a necessária atenção.

Esperando a visita dos filhos

Eis que, a festa pagã que comemora o dia dedicado às Mães quase sempre no segundo domingo de maio chegou. Para Dona Carminha era um dia igual a tantos outros que ela, aos 75 anos convivera.

Mas, aquele “Dia as Mães” para Dona Carminha foi diferente. Não por ter recebido atenção ou carinho dos filhos. Foi diferente porque foi encontra-la sentada numa cadeira de rodas num abrigo para idosos e, na prática, desamparados.

Após o almoço servido no abrigo, a sesta vespertina para descansar de tanto descanso, e descaso. Banho, melhor roupa, cabelos penteados e a espera na área de visitas do abrigo.

Espera. Espera, e espera. A claridade do dia foi embora, e foi substituída pela lugubridade noturna.

Nada mudou. Apenas a espera continuou. Os filhos, provavelmente, se deliciavam na frente da televisão sendo cúmplices de um bom filme da Netfix.

E assim vai ser sempre. Alguns continuarão esperando apenas o desfecho da vida e a certeza de que, antes, toda a missão foi cumprida.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FALTA QUE A “NEGONA” ME FAZ NO “DIA DAS MÃES”

A “Negona” continua presente em mim

Hoje peço permissão aos leitores-seguidores para falar um pouco de mim, falando da parte que já se foi, mas continua presente no DNA. Incluindo as atitudes diárias e a falta de “frescuras”. Aquela parte que ia direto ao assunto, sem “arrodeios” e sem mimimis.

Vou falar da minha “Negona”!

* * *

I

Hoje, entre beijos, bênçãos, almoços e presentes, muitos comemoram o Dia das Mães – uma festa pagã que a maioria discorda quando já não tem mais o que comemorar. Aprendi na escola, antes de Paulo Freire, que isso tem o nome de “hipocrisia”.

Pois, na parte que me toca a lembrança, ainda está viva na memória, aquela figura de 1,79m tocando com força nos punhos da minha rede, ainda sem a claridade do dia. Depois, aprendi que o nome daquele momento era “madrugada”. Carinhosamente, chamado de “madrugadinha”, ou antes mesmo que o galo cantasse.

– José, acorde. Tá na hora de tomar o purgante!

E era um purgante mesmo, na pior acepção da palavra. Eram duas colheres de sopa do intragável óleo de rícino!

Zulive! Me causa arrepios ainda hoje, só em lembrar.

Tomava o purgante e a bacia colocada debaixo da rede para aparar o mijo durante a noite, já havia sido substituída pelo penico. Era só descer da rede e fazer o serviço. Poucas horas depois, o penico estava cheio de “macarrão vivo”!

Affffmaria! Zulive, de novo!

Mas, aquele solavanco no punho da rede, dado por aquelas mãos fortes, era mais um aviso divino entre tantos que filhos e filhas podem usufruir das mães. É a necessária limpeza do corpo dos vermes absorvidos pela liberdade de andar descalço no quintal.

Melhor ainda que o intragável óleo de rícino, é a lamparina acesa colocada no caminho de cada um – filho ou filha – para iluminar a melhor direção nas coisas da vida.

O nome da criatura que faz isso, que te deu óleo de rícino, que te iluminou o caminho e que te mandou “esfregar bem as orelhas” durante o banho, é “Mãe”!

No meu caso específico, tive a liberdade de chama-la de “Negona”, para ter sempre em resposta aquele sorriso largo, como se estivesse recebendo um buquê das mais lindas rosas e margaridas.

Que falta me faz, hoje, a minha “Negona”!

* * *

II

Elza pariu um casal de filhos. Uma fatalidade surgida no caminho ceifou a vida de ambos, quando cada um já havia posto no mundo três filhos. Ao todo, seis.

Elza viveu anos de saúde e Paz. Viveu como Deus lhe permitiu.

Hoje, domingo, 9 de maio, Elza não usufrui do prazer de ouvir a acariciante palavra “mãe”.

“Vó” – é a palavra que Elza escuta!

O mundo atual dos “politicamente corretos”

Quando compreendermos que o caminho nem sempre é o mesmo para todos, seremos dignos de viver e estaremos prontos para compreender que nenhum momento ou nada será diferente daquilo que o universo divino escreve e reserva.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“JURINHA” – A VÉIA DESBOCADA

Juraci de Souza Mendonça – “Jurinha”

Naquelas paragens, as coisas diferentes, fora dos hábitos tradicionais acabam chamando a atenção de todos. Pois, era assim com Juraci de Souza Mendonça, pouco conhecida pelo extenso e pomposo nome. Mas, facilmente conhecida pelo apelido “Jurinha”.

Aquele povoado se dava ao luxo de ter arredores produtivos e muito frequentados. E, um desses “arredores” era conhecido por Calango. Poucos sabiam o motivo do nome, mas era assim que ficou conhecido.

O povoado principal era Cipoal, assim conhecido porque era de lá que vinham todos os cestos fabricados em grandes quantidades, e que serviam para os agricultores transportarem seus produtos colhidos na roça.

Jurinha nasceu no Calango. Mas, largada dos pais ainda menina, encontrou guarida no Cipoal. Era ali que ganhava a vida e aporrinhava a vida dos outros.

E por que foi largada pelos pais, quando saía da infância para a adolescência?

Porque “deu” muito cedo. E “deu” para muita gente. E quem não mostrava interesse, ela ia lá e “traçava”.

Pois, a forma de entender a vida, foi o motivo principal de ter sido largada pelos pais. Pais trabalhadores, corretos, sérios e muito religiosos, que não admitiam ter uma ainda menina em casa, mas já tão puta. E “dava” sem receber nada em troca. Dava pelo prazer de dar. Era de putada! (Ops!)

Pois “Jurinha” passou as várias fases da vida na putaria. Se vestia muito mal, apenas com o objetivo de chamar atenção. Num povoado onde a temperatura normal beirava os 40 graus, “Jurinha” calçava umas botas pretas e longas que ficavam acima dos joelhos. Uma minissaia tão “mini” que, qualquer movimento a calcinha aparecia. Mas, era exatamente aquilo que ela queria. Era debochada.

Claro que, escolhendo aquela forma de vida, “Jurinha” jamais encontraria alguém (homem) que se interessasse por uma convivência séria. E ainda assim, ela cagava e andava para isso.

O tempo passou. “Jurinha” precisou de sustento. E aí entrou na gandaia e começou a “faturar” alguns incautos que não a conheciam e que, esporadicamente, precisavam ir até Cipoal.

E o tempo foi passando e “Jurinha” envelhecendo. A freguesia, ainda que de incautos, diminuiu. O pouco que ganhava na cama, consumia na mesa de bebida. Envelheceu e ficou mais feia fisicamente do que quando ainda dava para qualquer um.

Debochada, virou desbocada. Quem se dirigisse à ela de alguma forma, em resposta ouvia um palavrão. Dos mais cabeludos. Desacatava as pessoas, ofendia os guarda municipais com a intenção de ser presa – na delegacia teria comida de graça!

Quer dizer: era feia e debochada, mas não era burra. Era égua, mesmo!

Mesmo envelhecida e castigada pelo tempo, e por nunca ter-se preocupado consigo mesma na juventude, “Jurinha” não era conhecida apenas porque tinha dado muito quando menina. Ou por que fosse desbocada soltando palavrões os mais inadequados contra qualquer pessoa, independente do sexo ou da idade.

Certo dia, ao cruzar na calçada do passeio com uma menina de uns 8 anos, essa teve a infelicidade de dizer:

– Mãe, olha que velha feia!

Pra que?! “Jurinha” parou e disparou:

– Véia feia é a boceta da tua mãe, filha de uma piranha!

Era daí para pior o repertório de palavrões de “Jurinha”. Mas, todos sabiam, “Jurinha” depois que envelheceu, não se transformou numa má pessoa. Apenas respondia às provocações. E respondia tudo como muitos queriam ouvir – daí as provocações.

Os “filhos” de Jurinha

As dificuldades acabaram fazendo com que “Jurinha”, aos poucos, se transformasse numa pessoa mais calma. Sem ódio no coração, por ter sido largada pela família, apenas por que gostava e sentia prazer em dar. Dar o que lhe pertencia, claro! Sentia prazer em dar e entendia que ninguém tinha o direito de proibi-la daquilo.

A vida continuava, enquanto a morte não chegava. “Jurinha” conseguiu atenção de pessoas boas e passou a morar num cômodo abandonado de uma velha fábrica de cestos. Ali passou a viver e dar os restos de comidas para cães e gatos que também se abrigavam no local.

A meninada acrescentou mais um apelido: “Jurinha”, a mãe do cachorros e gatos”! E ela nem se incomodava mais com aquilo, pois não lhe fazia mal algum. Chegava a rir, quando os cães se engatavam, ou quando os gatos faziam aquele barulho característico do gozo no sexo. Aquilo mexia com as passadas vezes que ela também “dava”. Eram momentos de felicidade para ela.

Eis que, certa tarde, quando uma mulher da vizinhança foi levar o resto de comida para os cães e gatos, percebeu algo diferente acontecendo naquele cômodo abandonado. Em vez de avançarem para ela, os cães continuaram deitados, com as cabeças encostadas no chão. Não estavam satisfeitos nem alegres pela chegada do que comeriam.

A mulher se aproximou e conseguiu perceber que “Jurinha” havia comprado passagem para a eternidade. Abandonada pela família, amada pelos animais.

MORAL DA HISTÓRIA: “Nem o Diabo é ruim para todos” – embora a convivência não seja bem aceita.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ANDARILHO

Amâncio “pegando” uma estrada na caminhada sem objetivo

Não lembro ao certo quantos alunos éramos na sala de aulas da quarta série ginasial do tradicional, diferente e magnífico Liceu do Ceará. Mas lembro, sim, éramos muitos e nos conhecíamos todos. Éramos amigos, sem as baitolagenzinhas do “bullying”! Se precisasse, a gente saía era na porrada mesmo.

O ano letivo tinha início quase sempre na segunda quinzena de fevereiro. Em junho, ao fim das provas escritas e orais, começavam as férias por todo o mês de julho. Tudo recomeçava no primeiro dia de agosto, a não ser que aquele dia fosse um sábado ou domingo.

Todos que já alcançaram a faixa etária dos 50, e conseguiram ultrapassagem pela esquerda sem causar problemas para quem vem na contramão para chegar aos 60, 70 e mais alguma coisa, sabem que “quem procura, acha” e que “quem semeia, colhe”. Sabem mais ainda: “é para a frente que a gente anda”!

Pois, Amâncio Batista de Queiroz, aluno número 4 no livro de chamada, era natural de Quixadá. Quinto filho da abastada família dos Queiroz, proprietária de quase tudo na “Terra dos Monólitos”, da “Pedra da Galinha Choca” e do açude de Cedro. Como se tornaram proprietários do que ali possuíam, poucas pessoas sabiam ou faziam questão de saber – naquele tempo, sem internet, sem “zapzap” todos se preocupavam mesmo era com o trabalho e o sustento da família.

Por falta de escolas municipais na cidade, Amâncio, que podia e tinha condições financeiras para estudar na Europa, preferiu mesmo foi o tão bom quanto os melhores, Liceu do Ceará.

Presente entre os melhores alunos da classe, Amâncio tinha uma mania – hoje, os frescos chamam de “hobby”. E ainda tem que ser escrito em inglês. Viadagem pura. Coisa de quem gosta de sentar na boneca.

Amâncio gostava de andar. Era “andarilho”. Quem conhece Fortaleza, certamente sabe a distância que existe entre o bairro Benfica, onde Amâncio residia numa pensão de amigos dos Queiroz, para o Liceu do Ceará. Amâncio ia caminhando, diariamente, do Benfica para o Liceu. Ia e voltava. Andar, para Amâncio tinha o mesmo prazer que “tocar uma bronha” com as duas mãos. E gozar.

Eis que terminam aos aulas do primeiro semestre do ano, com a grade curricular rigorosamente cumprida. Após as provas escritas e orais do meio do ano, as férias.

Pernas, pra que te quero?!

A maioria não tinha mesmo para onde ir. Naquele tempo, viajar para a Europa não era coisa tão fácil. A gente aproveitava para passar uma semana com os avós no interior, e outros até que procuravam atualizar seus álbuns de figurinhas.

Mas, Amâncio era diferente. Era outra pessoa. E tinha para onde ir. As férias começavam no dia 15, e no dia 17 ele já estava na estrada.

É foi isso mesmo que você leu: “na estrada”!

Pedra da Galinha choca em Quixadá ao lado do açude Cedro

Quem serviu ao Exército, sabe bem a dimensão do que o Amâncio fazia. Quem serviu ao Exército, quando fazia “marchas” de 20 km, cansava. Havia até quem “baixasse hospital” e ficava até dois ou três dias em recuperação.

Amâncio, não. Amâncio era “andarilho profissional”. E, pasmem: de Fortaleza até Quixadá, são exatos 167 km. É mole?
Não, não é mole não!

Parece mentira, mas Amâncio levava até três dias caminhando nesse percurso. Claro que parava para descansar e, às vezes, também para dormir em alguma cidade. Mas, na manhã seguinte, após o café, botava o pé na estrada.

Repito: Amâncio era “andarilho profissional”!

Saía da pensão onde morava, no Benfica. Seguia pela Avenida 13 de Maio, até encontrar a Rua Rio Branco, no antigo São João do Tauape. Seguia na direção de Messejana, Horizonte, e pegava a BR-116 até Pacajus. Ali, o destino era Quixadá, sempre pela BR-122. Não caminhava durante a noite, embora a temperatura fosse mais amena. Ele preferia parar em algum lugar, onde descansava, jantava e dormia.

Contava Amâncio, que era comum esse diálogo com alguém que passava por ele, na estrada:

– Tá indo pra onde, meu jovem? Perguntava alguém, com a intenção de oferecer ajuda.

– Ainda não sei pra onde vou! Respondia Amâncio, sem pretender receber ajuda.

– Quer uma carona? Perguntava o motorizado.

– Não! Não quero. Muito obrigado! Respondia Amâncio e continuava a caminhada.

Quando se aproximava de Quixadá, apesar de ser ali a “Terra dos monólitos” (pedras, muitas pedras), o clima era mais ameno. Não. Não era mais ameno. É que Amâncio sabia que já estava chegando e aquilo mudava o seu astral.

Como todo bom cearense, Amâncio também tinha o seu veio cômico e gostava de umas respostas engraçadas e cheias de ironia.

Ele próprio contou (na volta das férias) que, certa vez, quando já se sentia em Quixadá, um passante motorizado parou o carro e perguntou:
– Tá indo pra onde, jovem?

– Tô indo botar meus ovos para a galinha chocar!

No fim das férias, claro, os familiares não permitiam que Amâncio retornasse a pé. Afinal, voltava sempre na véspera do início das aulas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A LAGARTA QUE QUERIA VOAR

A lagarta procurava o luar mais alto – para de lá tentar voar

Acostumada a produzir o que comia, mania que herdou dos pais e avós, Zefinha transformou a área onde morava numa verdadeira horta. Nunca pensou em “produzir para exportar” e no futuro ser incluída numa comunidade “Agro”. Sempre se conformou em poder produzir (graças à Deus!) o suficiente para comer ao lado da família.

Semeava e comia batatas. Semeava e comia feijão. Semeava e comia milho. Semeava e comia macaxeira, tomate, jerimum, cebolinha, cenoura, goiaba.
Algumas flores, cultivava. Até construiu um caramanchão, pensando em um dia fazer “selfies” com os netos.

Zefa tinha uma preferida entre todas plantas que cultivava. Um frondoso “pé de lírio” de flores brancas e cheirosas – também usava o “leite” para fins medicinais, para curar “dedos desmentidos”. Fazia um emplasto de pano velho ou algodão, e amarrava no “desmentido”.

Mas, ali naquele “pé de lírio” vivia um morador diferenciado. Uma moradora, aliás.

Era uma lagarta muito bonita. Daquelas que comem todas as folhas até “espocar”. E, tal qual fazia minha Avó, Zefa vivia dizendo que aquela lagarta era propriedade dela. Ela que havia descoberto e alimentado com as folhas do “pé de lírio”. Ninguém a convencia do contrário.

Mas, aquela lagarta fora proibida de sair do “pé de lírio” para tentar passear pelo caramanchão. Se desobedecesse, seria jogada para o chão, onde viraria “jantar das galinhas”!

Eis que Zefa passou a chamar aquela lagarta de “Comadre”. Ninguém entendia essa escolha. Nunca houvera batismos, crismas nem passagens nas fogueiras juninas. Mas, estava decidido por Zefa: era “Comadre”. E pronto!

“Comadre”, enquanto continuava comendo folhas, acalentava dois desejos: voar, era o primeiro. Voar para conhecer o caramanchão, era o segundo desejo.

O tempo passava correndo. “Comadre” rezava todos os dias antes de “pegar o travesseiro reparador”. Rezava pedindo à Deus para que se transformasse num casulo. Acordava durante a noite, em meio aos sonhos onde se “pegava” voando para aquele mundo florido que era o caramanchão.

Estava terminando o outono. Em seguida chegaria o inverno e, se o mundo continuasse mundo, em breve viria a primavera – tempo da floração e da vida colorida.

“Comadre” foi atendida pela Natureza e se transformou numa borboleta

Certo dia, com os olhos grandes e quase saltando das órbitas, “Comadre” sentiu calafrios. Olhou em volta de si mesma e percebeu algumas alterações. Tinha em volta de si, o início da formação de um casulo e, quando tudo estivesse concluído, a realização dos sonhos de querer voar. Voar e conhecer o caramanchão.

As folhas protegeram o casulo das fortes chuvas. Foi assim, durante o duradouro inverno.

Na casa, Zefa dava voltas procurando a “Comadre”. Mal sabia que “Comadre” agora vivia a transformação de tudo dentro de um casulo e em breve realizaria o sonho de voar. Na verdade, “Comadre” nunca se conformou em ser uma lagarta devoradora de folhas, sem o direito de conhecer as belezas da vida – pelo menos a beleza que ela imaginava existir ali ao lado. Naquele lindo e florido caramanchão.

Parecendo um milagre – e era, o milagre da transformação pela Natureza! – logo no primeiro dia da primavera o casulo se abriu. Dele, aos voos ainda cambaleantes saiu uma borboleta, que durante alguns meses não passava de uma lagarta.

E agora, realizando sonhos que acalentaram a vida anterior, como se tivesse conhecimento do que a lagarta sonhava, a borboleta voou e pousou nos primeiros ramos floridos que enfeitavam o caramanchão.

MORAL DA HISTÓRIA: “Ainda que você seja uma gorda e vagarosa lagarta, nunca desista do sonho de querer voar.”