JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Foto 1 – Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Foto 2 – Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Foto 3 – Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

Nicolau entendia que, galinha, sempre será galinha. E, no sentido que os modernos usam hoje, essa palavra: ficar de galinhagem. Esquecendo o apelido de doido, e agindo mais como verdadeiro tarado, Nicolau esqueceu o milho jogado por Vovó, e foi “cloacar” com Francisca. Francisca, ansiosa e sentindo a falta de Artur, o galo Rei do Terreiro, espiando para Nicolau, não resistiu ao rosnar do maluco.

Vovó bem que tentou impedir aquele verdadeiro estupro, mas chegou atrasada. Exatamente quando Nicolau estava nos finalmente, e “desceu” de cima de Francisca batendo as asas como se pretendesse dizer: “finalmente, te peguei”!

E aquele conhecido ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti, continuava, com o milho sacudido dentro da cuia!

Aquela manhã ficaria marcada, realmente, como uma segunda “Revolução dos bichos”. E tudo acontecia exatamente na hora em que todos estavam soltos no quintal, comendo milho e bebendo água, ou, uns “comendo” os outros.

O quintal da Vovó sempre teve aves, e galinheiro. Mas, “galinhagem” não ocorria sempre – o que nos levava a acreditar que aquela manhã, em meio às cuias de milho e mais alguns ti-ti-ti, pê, ti-ti-tis, era revolucionário. Nunca houvera cornagem em meio aos bichos. Ainda que fosse uma manhã atípica.

Artur apareceu exatamente na hora que Nicolau, contando vitória e vantagem, sacudia as asas com ar de superioridade. Abriu as asas, fez aquele conhecido rodopio de asas abertas e deve ter pensado consigo mesmo:

– Vou dar o troco, e mostrar quem é o corno aqui.

Foto 4 – Artur na hora da vingança

Artur começou sua pretensa vingança bicando o chão. Bicou milho, cantou e procurou a terrina com água. Se serviu de umas “bicaradas” na água, e foi à luta. Disfarçadamente, esticando o pescoço, nada mais fazia que procurar Benevalda, a pata – por quem o maluco Nicolau nutria uma paixão enorme. Ciúme, era só o que ele sentia.

Não demorou muito, Artur conseguiu localizar Benevalda, distante dali uns 15 metros, caminhando “pateticamente” para a terrina d´água. Artur apressou os passos, alcançou Benevalda, e sem muita cerimônia, “crau”! Cravou Benevalda, esperou o relaxamento da cloaca, o que lhe garantiria a troca do óleo.

Vitorioso, sacudiu as asas, arrepiou-se todo e cantou!

– Corno é o escambau!

Mas, aquele dia literalmente revolucionário estava longe de terminar. Vovó já se recolhera para a camarinha e Vovô achava que ela teria ido buscar mais milho. Não foi. Foi verificar se todos os ovos estavam nas suas devidas cumbucas – pois o que vira naquela manhã no quintal, tinha tudo para que ela desconfiasse que não criava bichos aves. Criava verdadeiros “animais” – ainda que alguns tivessem recebido nomes de humanos.

Foto 5 – Assim fica difícil legendar e saber quem é o que

Quando Vovó continuava contando ovos dentro das cumbucas, Vovô assistia, incrédulo, uma cena para ele nunca vista. Sem que até hoje se tenha uma explicação em termos de “quem comia quem”, o cachorro Berimbau estava literalmente engatado com o galo Artur. Com certeza, um dos dois jogou água fora da bacia – mas, era apenas a confirmação de uma nova e moderna “Revolução dos bichos”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ROLO DE FUMO E A PROSA NA CACHIMBADA

Rolo de fumo

Diferente da maioria dos outros estados brasileiros, o “falar cearense”, vez por outra enfeitado pela verve da comicidade, é tipo cartão de visita ou convite de apresentação. O que nem seria necessário, pois existe cearense morando até na lua. A NASA levou experimentalmente, um Pedreiro e um Servente de Pedreiro, com o objetivo de construir as primeiras vilas e realizar um teste de como alguém poderia sobreviver naquele mundo, sem ter certeza que existe água potável. E, sejamos sinceros, cearense é phoda nisso.

Sem deixar pegar vereda diferente na prosa, indo para a capoeira e nunca para o xópi, quero focar hoje o fumo. É o fumo que, no Brasil tem sua melhor fabricação nas Alagoas. É ali que se planta, se curte, se produz e vende – mas poucos fumam. É de lá que saem os rolos. Rolo de fumo. Mas, e o que tem o cearense com isso?

A verve cearense, muito antes de abolirem os primeiros escravos brasileiros, já apelidava o “negro” – e não o escravo – de “pau de fumo”. Também, nenhuma relação com o pênis avantajado da negrada. Nenhuma relação ofensiva ou humilhante. Pode até não haver carinho mas, com certeza para nós cearenses, “pau de fumo” vai muito além daquela mangueira com fumo enrolado ou com algo ofensivo ao afrodescendente.

Pois, foi com canivete feito de uma banda do Gillete Blue Blade, ou com uma peixeira de 25 polegadas sacada da bainha de couro, que vi pela primeira vez meu Avô cortando fumo para fumar no cachimbo – de barro.

Nas tardes de domingo, a paisagem nunca mudava: meu Avô, João Buretama sentado na latada, botando a prosa em dia com meu tio Antônio Luciano. Vez por outra, Vovó cortava a prosa e servia um café quente daqueles grãos torrado e pilado em casa. E a prosa continuava, mantida pelas cachimbadas.

Prosa na “cachimbada”

* * *

O ZAP-ZAP DOS ÍNDIOS

Zap-zap indígena

Descoberto por conta do destino e da forte ventania que mudou o caminho para as índias, o Brasil, desde aquele “fatídico” 22 de abril de 1.500 convive com a mentira, aceitando-a como verdade. Tem quem afirme que, quando o Monte Pascoal foi avistado, de lá já saíam sinais de fumaça que os índios enviavam numa conversa por zap-zap com a tribo que vivia em Fernando de Noronha. Verdade ou mentira, fica o registro.

Longe dali, do outro lado do Atlântico, as mensagens “zapianas” entre os índios americanos do Alabama já existiam, avisando que o homem branco tentava invadir aquelas terras para construir o caminho do “cavalo de aço” (trem). Foi por conta disso que o chefe Cabeça de Touro organizou o primeiro levante naquelas plagas, e entregou o comando para Flecha Ligeira, aquele guerreiro que tirava a exibia os escalpos dos homens brancos.

Os anos se passaram, alguns hábitos mudaram, e outros nem tanto. O homem branco construiu e passou a usar o Cavalo de Aço que o levou em definitivo para novas terras. Fizeram avenidas, arranhas-céus, shopping centers e venderam parte dos direitos para a Samsung que fabricou os telefones celulares – a forma moderna do homem branco para enviar suas mensagens. Algumas mentirosas, tal qual aquela do dia 22 de abril de 1.500. A essas mensagens deram o nome de “fake news” – prova de que os índios americanos continuavam mandando seus sinais pela fumaça.

Junto com os sinais, os índios americanos exportaram também a linguagem. E é exatamente essa linguagem importada, que passamos a chamar de stand-up, que o cearense chama de baitolagem. Coisa de fresco, de queimador de rosca.

Por que, temos tanta vergonha de falar a nossa língua?

Que beleza existe em “dèjavu”? Em “monsieur”?

Ou, em mister, background, know-how, feed-back?

Imagine, o dia que Luiz Berto chegar em Palmares, e o ladrão da Roleta do Cu-Trancado começar a falar: “Mister and miss, make yours plays”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A SOLIDÃO INEVITÁVEL E O AMOR ETERNO

Idoso dando continuidade à vida

Era apenas o início de mais um dia, como tantos outros. Mas, o frege naquela casa fazia parecer que ninguém dormira – o barulho causado pela movimentação da preparação da filharada para começar mais um dia de trabalho e sustentação da roça. Era assim, na casa de Doroteu e Alice.

A casa, ainda desarrumada, tinha uma porção de quartos e camarinhas. Meninos e meninas dormiam no mesmo aposento, uns nus e outros vestidos, pois, maldade das ideias estava distante dali e todos se respeitavam.

Café servido e tomado. Tapiocas, cuscuz, leite de cabra, macaxeira cozida, batata doce e até carne assada faziam o “breakfeast” da família numerosa de Dodô de Alice – era assim que Doroteu, casado de papel passado com Alice, era conhecido por aquelas paragens. Guaiúba, mais precisamente. Hoje, Região Metropolitana de Fortaleza.

Eis que os tempos mudaram. Os meninos cresceram, casaram e tiveram que procurar seus destinos. As meninas não foram diferentes, embora Maria Alice, a caçula, tenha feito peraltices com alguém sem-futuro, no que resultou numa prenhês indesejada.

Todos da Guaiúba viram o crescimento e o esfacelamento natural daquela família. Eis que Maria Alice, por conta dos dotes físicos avantajados, não demorou muito para conseguir um novo interessado – que assumiria, também, o “bruguelo” que não era seu filho biológico. Mas, isso era o menos importante para quem pensava em “desfilar” pela cidade com aquele monumento de mulher.

Alice encantou-se. Com os filhos todos em novas vidas, o passar do tempo mostrou para Dodô de Alice, a solidão. Momento inevitável para quem vive. Por amor à quem lhe ajudou na construção da vida e da família, Dodô de Alice decidiu que sua cama seria transformada num catre, e não seria mais dividido com outra mulher. Reuniu os filhos e decidiu que a casa da Guaiúba seria de Maria Alice. E assim foi feito.

Dodô de Alice partiu para uma nova vida, não tão nova, porque solitária. Num terreno que ainda era parte da propriedade da família, nas proximidades do Açude Novo, resolveu fazer a sua própria moradia. Não demorou muito e, numa semana, um casebre foi erguido. Varas nas paredes sustentariam a rede armada. Um pote com água, era a única “mobília” decorativa do ambiente, com o enfeite de uma caneca de alumínio. Num canto, um fogão com “duas bocas” tocado a lenha, para cozinhar o feijão e o que mais houvesse.

Dodô de Alice ainda conseguiu superar aquela solidão que a vida lhe impôs, por pelo menos dez anos. Nesse período, em duas oportunidades teve a presença de alguns filhos e muitos netos – sempre no dia 29 de fevereiro, data do seu aniversário. Nesses dias, o almoço que regava o encontro, era organizado e servido debaixo de uma frondosa mangueira, onde ele, caprichosamente, esculpiu com um canivete, dois corações unidos pela flecha do cupido, com os dizeres: Dodô e Alice!

* * *

A NUDEZ QUE A CHUVA DESENHAVA

Banho de chuva e o prazer dos olhares

Vila Pasteur, uma das três vilas que ficava na “Baixa da Égua”. Morador mais antigo daquela vila, Messias ao concluir sua moradia, lembrou de atender um pedido das crianças, e construiu no alto da frente da casa, um jacaré. É, um jacaré – que é como todos denominam aquela manilha de cerâmica colocada no alto e na frente da casa, para o escoamento das águas da chuva. É certo que as chuvas eram escassas, mas não custava nada atender o pedido das crianças.

O tempo passou, e mais vizinhos chegaram e construíram suas casas, separadas umas das outras por pequenos muros altos nas laterais e baixos nas frentes – forma de garantir a manutenção da amizade dos vizinhos.

As crianças de Messias, nascidas do ventre de Divanira, eram três: Carla, Ana Carla e Carla Ana. As três, chegaram para se juntar à Monalisa, fruto de outro relacionamento amoroso de Messias.

Monalisa era estudante universitária e pretendia, um deia, se tornar Odontóloga. Em casa, preferia os livros, principalmente os didáticos relacionados à sua futura profissão.

Os “meninos e os homens” da vizinhança afirmavam que, Monalisa, se fosse possível fazer uma comparação, nada ficaria devendo à Sônia Braga, nos mais tentadores anos da juventude da atriz, que a televisão e as telas do cinema mostraram para nosso deleite.

Perfeita, a Natureza às vezes impõe castigos aos humanos. Houve tempo em que chuva era algo raro naquela Vila Pasteur. Ainda bem que, quando chovia, chovia forte e por vários minutos. Permitia um bom banho debaixo do jacaré da casa de Messias – um prêmio para os meninos e a confirmação para os rapazes, de que, “quem espera, sempre alcança”.

Vestida de chitão e uma minúscula calcinha, Monalisa, como qualquer deusa, se punha a banhar debaixo daquele jacaré. Nenhum rapaz aparecia (todos, literalmente todos, se escondiam atrás das portas e janelas), para ver Sônia Braga no corpo de Monalisa. Quanto mais chovia, mais o vestido colava no corpo, desenhando e esculpindo a beleza natural de uma fêmea.

Distantes, todos torciam para que Monalisa “lavasse o cabelo”, pois significaria demorar mais tempo debaixo do jacaré, expondo uma nudez que só a imaginação consegue desenhar e descrever. Muitos caíam em depressão, quando a chuva parava, acabando com o privilégio. Sem que se soubesse definir, se nua ou molhada, Monalisa, após deliciar os olhares dos rapazes, entrava rápido. Eu, como se dirigisse uma cena de um filme, digo: corta!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ÉRAMOS FELIZES – E SABÍAMOS DISSO!

Os meados da década de 40, reforçados pelos anos 50 e o começo dos anos 60, foram os que mais formaram e qualificaram mão-de-obra no Brasil. Dois ícones qualitativos e pódios mais altos desejados por aqueles que, naqueles tempos pensavam apenas em constituir e construir família. Infelizmente, o modernismo e a tecnologia, num somatório, não se pode apostar em algo positivo.

Os pais que conseguiam vagas para matricular os filhos no SESI ou no SENAI, onde aprendiam e se especializavam verdadeiramente na profissão, se consideravam ganhadores de loteria. Era um prêmio à família, aprender Mecânica, Tornearia, Funilaria e muitas profissões que significavam verdadeiras cartas de alforria daqueles tempos.

Eu, só consegui ter uma profissão definida, na década de 80. Antes, fui de fabricante de sacos de papel para vender peixes, vendedor de cocadas, vendedor de “filhóis” e até Caixeiro de bodega – e foi ali que descobri que, 1 Kg só continha 850 gramas. Arre égua!

Aprendi “Dactilografia” e me aproximei de ser Auxiliar de Escritório. Dali, trabalhei como Teletipista na Western, onde aprendi transmitir e receber cabogramas – foi, também, quando pela primeira vez me tornei sindicalista. Foi ali, também, onde fiz a primeira grande besteira da minha vida, enveredando pelos caminhos da ideologia política. E isso me fez desistir de assumir uma aprovação num concurso para o Banco do Brasil – apenas por que o salário recebido na Western era melhor.

Foi essa lembrança, que me encaminhou para a matéria da coluna de hoje. “Antigas profissões”, que eram uma garantia contra o desemprego. Hoje, entendo eu, não há “desemprego”. O que há, realmente, é muita gente sem qualificação profissional. Todos querem ser Advogados ou todos “abrem” uma Farmácia.

No final da década de 60, já morando no Rio de Janeiro, conheci até algumas famosas agências de emprego. A TéD, era uma das mais prestigiadas e respeitadas, haja vista que, antes de encaminhar qualquer candidato a um emprego para a empresa com quem mantinha contrato, testava e até treinava o futuro empregado.

Agências de empregadas domésticas mantinham cadastros de “empregadas” e de “patrões”, incluindo referências de quem se candidatava. Esse item, hoje, é conhecido como “Diarista”.

Vamos ver profissões antigas que, se ainda não sumiram, estão a caminho:

O OURIVES

Ourives

Ourives é aquele que trabalha com ourivesaria (homem ou mulher – mas, é raro conhecer alguma mulher trabalhando nessa profissão) e ainda hoje existem profissionais em pequena escala. Profissão que existia há 2.500 anos antes de Cristo. Comprovação feita, segundo descobertas de peças trabalhadas com esmero, encontradas em sítios arqueológicos no mar Egeu.

A profissão de Ourives ainda é bastante comum, ainda que sem a mesma procura e valia de antigamente. A arte da ourivesaria é considerada uma das profissões mais antigas do mundo.

Atualmente, existem as chamadas “Casas de Ourives”, que costumam fazer consertos em joias ou ornamentos, em quase todas as cidades do mundo.
Mas, como tantas profissões, o “Ourives” está desaparecendo com o passar dos tempos.

O FERREIRO

Ferreiro

“O Ferreiro é uma pessoa que cria objetos de ferro ou aço forjando o metal, ou seja, através da utilização de ferramentas como fole, forja, bigorna, martelos, dobra e corta, e de outra forma moldá-la na sua forma não-líquida. Geralmente o metal é aquecido até que brilhe vermelho ou laranja, como parte do processo de forjamento. Ferreiros produzem coisas como portões de ferro forjado, grelhadores, grades, lustres, luminárias, mobiliário, esculturas, ferramentas, implementos agrícolas, religiosos e objectos decorativos, utensílios de cozinha, e armas.

Durante a Idade Média era comum a imagem do ferreiro da aldeia, responsável por praticamente toda a metalurgia do feudo ou povoado. Sendo que muitas vezes, nestes tempos, o ferreiro se tornara sinônimo de forjador de armas, já que era função dele fabricar as armas (espadas, lanças, machados, etc.) utilizados pelos soldados da época.

Com a revolução industrial, a partir do século XVII, o oficio de ferreiro foi gradualmente sendo substituído pelas indústrias metalúrgicas, sendo que a profissão sobrevive até hoje apenas em regiões menos desenvolvidas e/ou para a forja de objetos com finalidade principalmente decorativa.

Acredita-se que a profissão de ferreiro exista desde quando o homem aprendeu a manipular e moldar os metais (em torno de 2000 a.C.), sem grandes distinções até os tempos atuais.” (Fonte: Wikipédia)

Nos dias atuais, o Ferreiro quase não existe. É um trabalhador raro de ser encontrado, haja vista que, grande parte dos objetos da linha, são fabricados pela indústria pesada. A continuação da vida (que estou me negando a rotular de “evolução”), deixou um pouco de lado esse profissional. Antes, no começo deste século, portas, portões, basculantes, janelas, etc., estavam sendo fabricados pelo mesmo profissional, agora, estranhamente rebatizado de “Serralheiro” – o que acabou se tornando definitivo, com a chegada e o uso do alumínio em grande escala na confecção de muitos itens, antes fabricados exclusivamente com o ferro.

O MARCENEIRO (OU CARPINTEIRO)

Marceneiro ou Carpinteiro

Há quem afirme, que São José era Carpinteiro, prática que evoluiu e foi reconhecida como profissão. Na profissão, São José teria tentado iniciar Jesus Cristo, fabricando alguns utensílios domésticos. Foi então, que apareceu a Marcenaria, cujo profissional é rotulado de Marceneiro. São profissões próximas, dependentes, mas não iguais.

“A Marcenaria – O marceneiro trabalha exclusivamente na fabricação, conservação, reparação de móveis, além de outros objetos de decoração a base de madeira. Por isso, podemos dizer que o trabalho do marceneiro é mais artesanal e delicado se comparado a carpintaria.

O marceneiro para o desenvolvimento de seu trabalho utiliza de técnicas exclusivas e ainda conta com matéria-prima nobre e de qualidade, pois os móveis e enfeites devem ser feitos com madeiras de boa qualidade.

Vale lembrar que a marcenaria se derivou da carpintaria, adequando algumas técnicas para melhor desenvolvimento de seus produtos. O marceneiro durante muito tempo foi considerado um artesão de móveis, no entanto, hoje, com os avanços da tecnologia, seu trabalho foi reduzido devido a indústria moveleira que utiliza em suas fábricas, máquinas.

A Carpintaria – A carpintaria costuma trabalhar essencialmente com madeira maciça em seu estado natural, comum na construção civil e naval. Os carpinteiros, necessitam de conhecimentos geométricos e precisão técnica, precisam ter conhecimento dos diferentes tipos de materiais e técnicas a serem utilizadas naquele tipo de madeira. Está é uma das principais diferenças entre marceneiros e carpinteiros.

A carpintaria é uma das profissões mais antigas e abrange uma série de trabalhos, tais como: escadas, portas, soalhos, telhados e até obras de menor dimensão mais comum na construção naval.” (Fonte: Wikipédia)

O ESTIVADOR

Estivador

Passados dois ou mais séculos, muita coisa (e profissão) mudou de conceito. Passou a receber o apoio da tecnologia, e teve o reconhecimento dos legisladores, que criaram e aprovaram leis determinantes no exercício de cada profissão. O Estivador, no princípio, nada mais era que o reles “carregador de sacos, volumes de diferentes pesos, e, quase sempre, em situações desfavoráveis” para muitos.

Há quem afirme que, tudo dependia do “pouco estudo, muito mais do que da força física”, sem que também tivesse qualquer aproximação com a cor da pele – muitos estivadores, no passado, eram negros.

“Hoje, o Estivador é o técnico responsável pela colocação, retirada e/ou arrumação de cargas nos porões, ou sobre o convés de embarcações principais e auxiliares, autopropulsadas ou não. O Estivador é imprescindível para execução do transporte marítimo, ficando encarregado da movimentação e sinalização para o movimento de cargas e equipamentos a bordo.

Normalmente, confunde-se o Estivador com outras classes de operários do porto: o Estivador só trabalha a bordo, e nunca em terra. Quem fica sobre carretas ou vagões do lado de fora é o Arrumador de cargas; Quem opera as pranchetas e anotações é o Conferente; Quem opera os guindastes de terra, são os portuários (Estivador não opera guindaste, opera guincho, pois o guincho é acessório do veículo de transporte).

Hoje em dia, grande parte desta atividade está automatizada. Mesmo assim, é considerado um trabalho perigoso, insalubre e estressante, já que as condições de trabalho quase sempre não são boas, podendo ocasionar acidentes. Até a primeira metade do século XX, cabia aos estivadores a tarefa de embarcar a carga nos navios transportando parcelas dela nas costas, frequentemente embaladas em sacos de 60 quilos.” (Fonte: Wikipédia).

O CAÇADOR DE RATOS

Caçador de ratos

Como pode ser facilmente percebido pelos leitores, algumas informações sobre profissões antigas que continuam existindo ou não, foram compiladas na Wikipédia, fruto de pesquisa que acabou me atualizando, e levando a conhecer mais um pouco do desconhecido.

E, nessa “pesquisa”, consegui encontrar duas “profissões” que, hoje podem ser consideradas estranhas: o Caçador de ratos, e o Despertador humano.

O Caçador de ratos, que também os abatia, era empregado da gestão pública nos séculos passados, em lugares que não dispunham de saneamento básico nas principais ruas e logradouros. Como o mundo era outro, pouco ou quase sem contaminação, os ratos caçados e mortos, eram colocados livremente à venda. É os ratos mortos eram vendidos (e, creio eu, consumidos).

Dizer que a profissão foi extinta é desprezar os agentes antipraga, ou dedetizadores modernos. Em certos casos, são chamados exclusivamente para exterminar ratos, mas, no passado, era comum contratar os serviços de caçadores de roedores que, com seu equipamento e know-how, entravam em sótãos, porões, bueiros, sistemas de esgoto, atrás dos temíveis ratos. Durante a Primeira Grande Guerra, com a escassez de alimentos, os especialistas encontraram uma segunda fonte de renda, comercializar os ratos para serem comidos.

O Despertador humano, é uma antiga profissão, totalmente extinta. O trabalho consistia em despertar alguém mediante contrato. O contratante assinava um termo de serviço com o(a) contratado(a), indicando, além do horário, o endereço residencial. Para não incomodar a vizinhança, o que poderia caracterizar perturbação do silêncio e do descanso, o Despertador humano trabalhava com objeto que poderia ter o tamanho do alcance aumentado ou diminuído, conforme a necessidade de atendimento apenas ao contratante. O objeto era uma espécie de corneta.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TRANSPOSIÇÃO QUE VIROU TRANSFUSÃO

Ou, “Uma ponte de safena nas veias da vida”

Água que alimenta a vida no planeta

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.

Patativa do Assaré

Dia histórico, o 26 de junho de 2020. A fome, que noutros tempos matou muita gente, naquele dia recebeu o “tiro de misericórdia”, e anteviu a transformação dos campos e roçados esturricados em pastagens verdejantes convidando para o trabalho e o plantio.

Incontáveis as vezes que, desesperados, saíamos de foice na mão e cabaça no ombro, à procura d´água.

Os açudes, no barro esturricado, nos obrigavam a procurar água noutros lugares. A saída era o cipó da mucunã (cuja semente, em outros lugares é conhecida como “olho de boi”), onde a Natureza divina deposita no seu âmago uma pequena e saudável reserva.

Cipó de mucunã

Distante de algum dia ser uma “torneira”, o cipó é algo muito além da vida. Água saudável e, dizem, medicinal. Mas, por vezes, é apenas o líquido que abastece a ansiedade e mata a necessidade do corpo humano.

Às vezes o “segredo” está na forma de cortar

Não é “qualquer um” que encontra e identifica o cipó d´água. É necessário vivência e, mais ainda, precaução na hora de verificar e tentar cortá-lo. Não é raro encontrar cobras venenosas enroladas e camufladas nos cipós.

A vida do sertanejo passa por todo esse tipo de perigo – e, sempre para suprir uma necessidade vital.

Assim, que importância tem o fato de descobrir “quem idealizou” fazer a transposição?

Idealizar por idealizar, quem vive naquela região, antes castigada pela Natureza e hoje abençoada por ações de pessoas que sequer nasceram ali – vem idealizando há mais de um século e sabe que “apenas idealizar e nada fazer”, não é o mais importante.

Agora, complementando a boa ação, o Governo Federal precisa viabilizar e facilitar o apoio logístico (equipamento de irrigação, energia elétrica barata, transporte e principalmente cooperativas) para o Agricultor que tem coragem e disposição para retribuir.

Semente da mucunã (olho de boi)

Quem nunca foi ao Ceará, certamente não conhece, por óbvio, e jamais ouviu falar numa espécie de “triângulo” formado pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Desses, o mais conhecido é Juazeiro do Norte – assim chamado, para fazer diferença com Juazeiro da Bahia, não tão distante dali, separado de Petrolina/PE, pelas águas que serpenteiam o Velho Chico.

Do lado Norte, a saída ou entrada por Sobral e Tianguá ou Chaval; do lado Sul, Icó, que leva à Petrolina e, logo depois, Juazeiro da Bahia; noutro ramal, levando à Paraíba, Jati – esse último, o caminho da “transfusão” chamada de “transposição”. É o Ceará, aberto ao Brasil.

Desde aquele histórico 26 de junho, discute-se a paternidade da transposição. Se, fora daquele Estado, alguém pega em armas e se engalfinha por conta disso, no Ceará, os beneficiados se regozijam e, com jumentos com cambitos, latas, tonéis e cabaças, se preocupam apenas em encher os potes e as quartinhas.

Na esteira das ações, o livramento definitivo para a raiz da mucunã, e os joelhos postos ao chão, em oração de graças e agradecimento: à Deus, o Onipotente.

Momento da chegada da água em Jati

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS MENINOS DE ONTEM

O pau que dá em Chico, dá em Francisco? Nem tanto. Poderia ser mas, hoje, por conta da diversidade cultural deste País continental, que tem as “porteiras” abertas para pessoas com diferença de raça, credo e entendimento, não há como acreditar em “tudo linearmente, com a mesma facilidade de entendimento e prática.”

E isso, aqui e alhures, em todos os polos do planeta, contando ainda com a mudança climática, a cultura de vida a facilidade e o alcance dos apoios que a tecnologia oferece e, no somatório, transforma num peso importante e decisivo para a nossa forma de vida.

A Antropologia + Sociologia que compõem as mais variadas formas de “políticas públicas e urbanas” mundo à fora, acabaram fazendo com que, o hoje, seja diferente do ontem, e esses dois, mais diferentes ainda, do amanhã. É arriscado apostar na perseverança das coisas – deixando de lado, claro, a questão da religiosidade.

Dito isso, continuo acreditando que, “tudo de bom, ou tudo de ruim” que de alguma forma nos encaminha para as boas ou más ações, tem uma nascente única: dentro de casa, na família e por conta da saturação dessa, se as coisas não caminharem bem; ou, também, dentro de casa, graças ao “domínio dos gestores domésticos”, se tudo acontecer como todos desejamos que aconteçam.

É ali, na família, onde tudo começa. O bom, ou o bem; e o mau ou o mal.

A infância atual caga para o mundo

A boa e apropriada terra, preparada e cuidada, vai produzir boa plantação e melhor colheita. Isso é fato. É bíblico. Não poderia ser diferente o resultado com o ser humano, cuidado e preparado na infância com boas maneiras e ações que levem à uma boa vida (nesse caso, a colheita). Entre esses bons e eficientes “cuidados” com a infância, entre os mais positivos está o “brincar”.

Trocentos anos atrás, por conta da falta de dinheiro e por melhor entendimento da vida, pais e mães até incentivavam os filhos para a brincadeira sadia e construtiva que proporcionasse melhor e frutífero convívio social – e isso produzia uma resposta social maravilhosa.

A brincadeira semeava a convivência. Criava não apenas os anticorpos da defesa humana, como edificava o convívio social para uma vida de Paz e harmonia, tanto em meio a família, quanto num futuro, fora dela. Mas, na construção de uma nova família – era o “crescei e multiplicai-vos”.

Os pais brincavam junto, ensinavam a brincar e a fabricar os próprios brinquedos, imaginando que, daquela forma, os filhos se apegassem mais ao que faziam, por aprenderem as dificuldades que enfrentavam.

Brincando de forma saudável para o convívio e disciplina

Haviam também, o apego ao local apropriado para brincar. E isso levou à disseminação da cultura de “encontro” sem enfrentamento. Pensava-se numa troca de experiências entre as diferentes classes socioeconômicas. Aí surgiram, por necessário, as tais cidades ou parques das crianças. Nada melhor que um domingo no parque.

O progresso social foi de encontro à descoberta da “ludoterapia” (se é que assim poderíamos chamar), um diferente forma de curar, brincando. Ou, integrar, brincando. Método ainda muito utilizado para aproximação e convivência dos Portadores da Síndrome de Down.

A necessidade de defesa que os corpos humanos passaram a demonstrar, levaram à necessidade da criação dos anticorpos – e até Vovó já sabia: meninos e meninas precisam brincar juntos, tendo contato direito com a Terra. No interior onde nasci, alguns teóricos passaram a chamar essa fase de “a festa das lombrigas”.

E, realmente foi algo factual. A bactéria da lombriga entrava junto com o anticorpo. Mais tarde, o purgante de óleo de rícino (mamona) expulsava as lombrigas e aumentavam o sistema imunológico pela permanência dos anticorpos.

O dia da lama proporciona o contato direto com a terra e os anticorpos

As crianças de ontem, claro, não eram anjos. Eram apenas “filhos” – e, ainda hoje, filho não tem defeitos. Principalmente para os pais, esses de hoje, completamente diferentes dos de ontem. Os exemplos, se são bons, serão absorvidos e repetidos. Os maus exemplos, da mesma forma. E aí nunca haverá absolvição.

Pegar uma cadeira pesada, colocá-la diante de um armário de parede, subir e dali retirar uma lata para subtrair uma colherada de leite em pó (que ficará grudado no céu da boca), muitos de nós fizemos. Pegar um grampo de cabelo feminino e tentar enfiá-lo na tomada da eletricidade, outros tantos também fizeram. E, quando muitos fizeram isso, não havia a tecnologia atual, tampouco o atendimento médico tinha a possibilidade da rapidez de hoje.

Depois desse lamaçal um bom banho resolve tudo

O que se depreende atualmente no mundo infantil, é que as mudanças impostas pela convivência social, pelas intempéries ambientais, e, principalmente pelas falhas absorvidas pela educação doméstica com o reforço da deficiência da escolarização, é que, a criança de hoje é diametralmente oposta à criança de ontem – e tudo, repito, começou dentro de casa.

Numa culminância, não há como negar que, entre o céu e a Terra, existe algo além dos aviões de carreira. Se o mundo já não é mais o mesmo, e o ar é rarefeito por conta da falta de saneamento básico e uma absurda produção de lixo orgânico que, ao mesmo tempo contamina o ar, o lençol freático e o que dali evapora vai contaminar também a camada de ozônio, é evidente que, quem está entre o céu e a terra, usufruindo inclusive do alimento produzido nesse ambiente, se não tiver os anticorpos necessários, vai ser pego e contaminado por qualquer “gripezinha”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

GERAÇÃO DE IDIOTAS

A “involução” da espécie humana

Tem sido difícil conviver diariamente com tanta coisa sem-sentido. Tem sido difícil conviver com tanta gente que vive “achando que é”, sem sê-lo.

Minha atenção está sendo levada pelos veículos de comunicação do Maranhão – o que não tem sido tão diferente em outros estados – pela quantidade de publicidade “oficial” (é, dessa paga pelo governo, com o dinheiro que arrecada dos impostos que pagamos, e que deveria ter outra finalidade) veiculada sem sentido, na ânsia de “ensinar alguém a lavar as mãos”. “Ora vão à merda”! Com certeza diria minha falecida Avó Raimunda, com tanta falta do que fazer.

Será que tem mesmo neste mundo, alguém que não saiba “lavar as mãos” e precise ser “ensinado”?

Sei que tem que nunca tenha aprendido escovar os dentes, lavar a xeca ou o fiofó. Tem quem, se pegar em merda, vai lavar as mãos. Mas, quando “joga barro fora”, acha que papel higiênico “limpa”!

Para mim, isso soa como algo que tenta “idiotizar” as pessoas. Tipo, dizer: você sequer sabe lavar as mãos!

É assim que se lava as mãos, visse!

Juro que olhei na televisão, dia desses, alguém se referindo a um “aplicativo”, que resolveram chamar de “app” que já existe e pode ser acessado pelo celular (tinha que ser, né?!) com todos os itens ensinando como se deve lavar as mãos. E, pasmem, após a lavação, “como passar álcool em gel”! É mole, ou quer mais?

É uma geração de idiotas, ou não?

MAIS UM

Quem ainda não teve o desprazer de conhecer até as tripas do “Supremo”, é só comprar e ler

Ontem, finalmente, concluí a leitura do livro (que achei maravilhoso, por revelar detalhes até então distantes de mim, e tão desconhecidos quanto um roçado que ganhei na lua) “Os Onze”, com autoria de Felipe Recondo e Luiz Weber. Eu gostei, e recomendo – quem já bebeu até sopa de pedra, como eu, não vai vomitar. Com certeza.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TEMPO DE GUARNICÊ

Santo Antônio “afogado” por quem procura marido

Ontem, 13 de junho, dia consagrado a Santo Antônio, foram oficialmente iniciados os festejos religiosos do mês, no Maranhão. Com simpatias, fogueiras, muitas brincadeiras tradicionais, podemos dizer que, “começou o São João”, embora o dia em que comemoramos em louvor ao santo, seja apenas no dia 24 de junho.

Nesta segunda semana do mês, também de forma oficial, foram iniciados os batizados dos bomba-bois, festa cultural do Estado, patrimônio imaterial do Brasil, de acordo com a Unesco.

Durante a segunda semana de junho, são divulgadas e conhecidas as novas “toadas” (músicas apresentadas) que vão conduzir a boiada em todos os terreiros onde se apresentam. Quem apresenta a “toada”, não é o “cantor”. É o “Cantador”. Mas, há também aqueles que cantam e, sem terem ligações com os “bois”, se transformam em cantores e cantadores ao mesmo tempo. É o caso de Papete.

José de Ribamar Viana, conhecido como Papete, nasceu em Bacabal, a 8 de novembro de 1947, e faleceu em São Paulo, a 26 de maio de 2016), foi um cantor, compositor e percussionista brasileiro.

Papete estudou no Colégio Marista Maranhense. Estudou também reportagem fotográfica em São Paulo. Trabalhou por sete anos em uma casa de música, o Jogral, onde deu início a sua trajetória musical. Trabalhou como produtor, pesquisador e arranjador na produtora Discos Marcus Pereira. Foi eleito um dos três melhores percussionistas do mundo quando participou do Festival de Jazz de Montreux na Suíça nos anos de 1982, 1984 e 1987.

Também acompanhou o músico italiano Angelo Branduardi na década de 80, se apresentou com o saxofonista japonês Sadao Watanabe, com Toquinho e Vinicius, e posteriormente com Toquinho, por treze anos fazendo com este mais de mil apresentações em mais de vinte países. Trabalhou com os maiores artistas da MPB, como Paulinho da Viola, Miucha, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, Marília Medalha, Chico Buarque, Sá e Guarabira, Almir Sater, Rita Lee, Diana Pequeno, Renato Teixeira, Martinho da Vila, entre outros.

Compôs com Josias as canções e o libreto da ópera “Catirina”, marco da cultura maranhense nos anos 90. Um dos projetos que coordenou, originou a obra Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão lançado em novembro de 2015.

Catirina

Catirina que só quer
comer da língua do boi
carne seca na janela
quando alguém olha pra ela
pensa que lhe dão valor

Ai Catirina poupa esse boi,
Ai Catirina poupa esse boi.
Que quer crescer

Papete

Coisa bela pela plasticidade, e encantadora pela evolução dos movimentos, nesse período da magia que envolve a cultura popular maranhense, é o bumba-boi de orquestra (aqui, chamado de “sotaque” – o que caracteriza ritmo, sonoridade e percussão diferentes). E, um desses momentos mágicos e encantadores é apresentado pelo Boi Pirilampo.

Existindo há mais de três dezenas de anos, o Boi Pirilampo é o elemento mágico que se tornou conhecido a partir da beleza e da simplicidade da toada “Esqueça”, carro-chefe do grupo, onde quer que se apresente. Infelizmente, problemas de desentendimento entre o autor da toada e os comandantes (aqui chamados de “amos” – no caso, é o “amo”) levaram à uma decisão judicial que, hoje, proíbe a apresentação da toada. Mas, você pode ouvi-la logo abaixo.

Passistas do Boi Pirilampo

Esqueça – Composição de José Raimundo Gonçalves – Boi Pirilampo

Esqueça aqueles momentos, felizes que você me deu
Esqueça aquele juramento, que fizemos só você e eu
Esqueça a noite, a madrugada, e a lua que já se perdeu
Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu

Humberto – Cantador e Amo do Boi de Maracanã

Muitos neste Brasil já ouviram a maranhense Alcione apresentar essa toada (“Maranhão meu tesouro, meu torrão”) e isso contribuiu para que o bumba-boi da zona rural de São Luís ganhasse notoriedade e seja um dos mais festejados da Ilha. Infelizmente, o Cantador e amo do Boi de Maracanã, Humberto, faleceu há poucos anos atrás deixando uma lacuna aberta na vida da cultura popular maranhense.

Maranhão Meu Tesouro, Meu Torrão

Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Fiz esta toada, pra ti Maranhão
Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Eu fiz esta toada, pra ti Maranhão
Terra do babaçu
Que a natureza cultiva
Esta palmeira nativa
É que me dá inspiração

A pandemia instalada no Brasil por conta do Corona vírus diminuiu o ímpeto e limitou as apresentações juninas no Maranhão. Entretanto, como os batalhões diminuídos para atender as determinações das autoridades sanitárias, ainda assim, na noite de ontem aconteceram alguns batizados.

Ainda é dúvida na cidade, o que vai acontecer nos dois últimos dias seguidos do mês, com encerramento oficial dos festejos religiosos. No dia 29, consagrado à São Pedro e, no dia seguinte, 30, consagrado à São Marçal, dia em que acontece há mais de 50 anos, em São Luís, um encontro de bumba-bois de todos os sotaques.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CANJICA, A MAÇÃ DO AMOR E O ROLETE DE CANA

Milho verde apropriado para a canjica

Começa o mês de junho e a gente já consegue ouvir, longe, os sons das zabumbas, das sanfonas, dos foguetes e dos ensaios das quadrilhas juninas. É a confirmação da tradição cultural de um país que, ainda que enfrentando uma pandemia, ousa se divertir. Mês joanino, de Santo Antônio, São João e São Pedro; e junino dos trinta dias do mês de junho.

No meu Ceará, tradicionalmente e neste ano, a agricultura familiar recebeu a bênção divina das chuvas (muita água em alguns lugares, mas nada que atrapalhe) e tem a colheita assegurada. A fartura. O arroz, o feijão, a mandioca e o milho.

Canjica de milho verde decorada com canela em pó

A primeira colheita do milho preserva e mantém a tradição de uma culinária rica que leva alegria às mesas das famílias dos muitos agricultores. Tão logo a boneca vira sabugo, e a espiga fica completa, vem a primeira colheita – e a garantia do milho cozido ou assado; da pamonha e da canjica.

No próximo sábado, 13, dia consagrado à Santo Antônio, as primeiras fogueiras são acesas e as tradições culturais e folclóricas ganham nova pintura – mas, sempre mantendo a tradição trazida, ensinada e perpetuada pelos nossos antepassados.

Aprendi com os avós que, 17 dias após o “amadurecimento” do milho, as espigas já estão prontas para “virar” – por algum tempo, na posição que brota, a espiga apanha sol, e seca. É chegada a hora de “virar” a espiga para secar na outra posição. É a cultura da roça que nenhuma escola ensina.

Para aprender, tem que viver no meio e sentir prazer em fazer o que faz: pôr alimento na mesa.

Maçã do amor

Quase sempre no início da segunda semana do mês de junho, muitas Igrejas realizam (ou, “realizavam”) seus preparativos para render homenagens ao santo padroeiro. Entre esses preparativos, por tradição, são realizados os folguedos – em Fortaleza e de resto no Ceará, são conhecidos como “quermesses” – que duram cerca de 30 dias.

Os folguedos antigos reuniam os jovens enamorados e aqueles que pretendiam namorar. Os rapazes, roupas simples, mas sempre bem vestidos; as moças, acompanhadas das mães ou tias, primeiro assistiam a Santa Missa. Depois, “ganhavam” uma pequena folga das mães e se permitiam namorar.

Carrossel, roda gigante, tiro ao alvo, laça cigarros, pescaria, eram algumas das diversões apresentadas durante os folguedos, tudo permitido e organizado pela paróquia. Ao final de cada noite, o leilão de prendas domésticas – o “frango assado” ainda era uma grande novidade nos anos 50 e 60. Os valores arrecadados, descontados os custos e as despesas, eram em benefício da paróquia.

A “maçã do amor” era uma tradição. O rapaz juntava dinheiro durante toda a semana, para oferecer, à noite, aquela gostosura à namorada. Os dois mordiam a maçã, juntos. Pena que ainda não existia a “selfie”.

Barraca com vendedora da maçã do amor

Faz tempo que, festança junina que representa tradição e respeito, não pode4m faltar alguns itens como cacho de pitombas, caldo de cana com pastel, pipoca, algodão doce e, principalmente, rolete de cana.

Nos folguedos nordestinos, a cana caiana da qual é feito o rolete, é parte da cultura das coisas importantes. Ainda hoje, a cana de açúcar é uma das maiores riquezas do Brasil, produzindo, entre outras coisas, o açúcar, o metanol e principalmente o álcool.

Desde os primórdios, os engenhos fazem a riqueza de muitos “senhores”, gerando empregos e desenvolvimento. Mas, também de forma tradicional, jamais deixará de existir o trabalho escravo no plantio, no cuidado durante a lavoura e no corte da cana de açúcar.

Cana caiana

Vale registrar que, no caso específico do “rolete de cana”, ele é vendido em vários lugares, incluindo praias, estádios de jogos de futebol e até faz a alegria de crianças em festas de aniversários.

Roletes de cana caiana

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EITA “MUSQUITIM” FELA DA PUTA!

Dando uma pequena volta pelo mundo da infância (a minha) vou focar hoje, umas traquinagens que me renderam boas sovas e muitos castigos com a cara voltada para o canto da parede.

Toda criança “levada” passou por isso. Quem não passou, com certeza virou vítima de “bullying”, o rótulo afrescalhado do americano.

Chulipa – era mais gostoso ainda, “dar uma chulipa”, passando saliva no dedo e melando da areia, e dando aquele catiripapo vertical na orelha de alguém.

Tirar o selo – geralmente, quem fazia isso, fazia a cada mês. Era comum o corte de cabelo “estilo busca-ré”, onde, metade do quengo era raspado com máquina graduada a zero. Ficava liso, igual bunda de recém-nascido. Dar uma leve pancada, significava “tirar o selo.”

Criança de castigo por desobediência

Pois, hoje, me vieram à lembrança, dois castigos que tomei na infância. O primeiro, até hoje considero “injusto”.

Sempre que ia “jogar barro fora”, tinha que procurar fazer a necessidade no mato. Não tínhamos local apropriado em casa para fazer a necessidade fisiológica. Papel higiênico, a gente só foi conhecer ao mudar para a capital.

Certa vez “precisei jogar o barro fora”. Senti que as galinhas e alguns porcos sentiam tanta fome, que seriam capazes de enfrentar qualquer guerra. A arma que dispúnhamos era uma vara de aproximadamente 3 metros, com a qual mantínhamos o animal distante, momentaneamente, da “obra”.

A solução era, literalmente, “cagar trepado”. Nisso, a “obra” acabou sujando uns porcos da Vovó. Castigo: levar os suínos para banhar no açude, distante da nossa casa por uns bons quilômetros. E aí, veio a calhar aquele ditado: quem com porcos se mete, farelo come.

O segundo castigo, foi mais que merecido. Meu Avô não gostava de castigar os netos – deixava para a Avó, esse “trabalho”.

Eis que cismei de “botar um musquitim” no meu Avô, enquanto ele dormia o sono dos justos, deitado no chão da varanda.

Criança de castigo na escola

“Musquitim”, na minha terra, era o reuso de um palito de fósforo. Enquanto a pessoa dormia, malandra e lentamente, a gente colocava o “musquitim” apagado na testa do dorminhoco, antes, colocando algum calçado na mão. Toca fogo e espera a reação. Quando o “musquitim” tá pegando fogo, o dorminhoco “dá um tapa” para matar o mosquito.

Foi assim. Quando meu Avô precisou matar o mosquito da nesta, deu com o chinelo no próprio rosto. Eita musquitim fela da puta!

Como criança naquele dia só tinha eu em casa, entrei foi nos tabefes. Depois, o castigo pior: tomar banho depois que apanhava.