JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NO ESCURINHO DO CINEMA

Pipoca doce no escurinho do cinema

Há quem diga que o Brasil não mudou. Mudou, sim. Há dois anos atrás, era perda de tempo transportar carga pela BR-163, na região amazônica. Atualmente, tem quem esteja fazendo turismo, deixando de viajar para a Disneylândia, preferindo conhecer cobras, mosquitos, saborear a culinária da região e até montar em búfalos em regiões que passaram a ter acesso fácil e privilegiado com a inauguração da BR-163. Distorcer fatos, qualquer um pode. Incluindo entre esses, uma gama de babacas.

Pois, nessas visíveis mudanças que aconteceram, uma é o namoro. É, a forma de namorar, independentemente da faixa etária. Antes, “segurar a mão” era uma saliência, um atrevimento que poucos ousavam.

Beijar na boca?!

Pelo amor de Deus!!!

Só se fosse escondido de muitos, incluindo a família.

Hoje, a própria família da “moça” oferece o quarto da dita cuja, para um “namoro mais seguro” – e, como a carne é fraca, né! Pimba na raspadinha!

E o que tem o escurinho do cinema e pipoca doce com isso, Zé Ramos?

A tranquilidade aparente não mostra onde estão as mãos

Espiem. Lá pelos anos 60, início da década, já ganhando meu próprio dinheiro e sem muitos compromissos domésticos, namorava, curtia noites, frequentava bons restaurantes e bares, viajava e, além de estudar, comprava livros. Gostava muito de cinema. Nunca perdi um bom lançamento, quando o filme era exibido no Cine São Luiz, o mais confortável de Fortaleza naquela época.

Mas, “namorando”, respeitava os valores da época. Só beijava a namorada, se estivéssemos sós. E era beijo rápido. Beijo “de língua”, só no escurinho do cinema, onde o “Lanterninha” não dava conta de vigiar as ações de todos. E tome beijos e tome amassos.

Não lembro bem qual filme estava sendo exibido, pois isso não importava muito. O melhor filme era o “escurinho”. Normal comprar pipocas. No momento só tinha pipocas doces. Vai essa mesma!

Frente antiga do Cine São Luiz de Fortaleza – hoje totalmente diferente

Ora, se havia algum tipo de “má intenção”, essa com certeza não era só minha. Não era só eu que estava pensando bobagem, ou querendo libidinagem, perversão, bolinagem.

E o que te garante isso, Zé Ramos?

Pois, para ir ao cinema, a namorada punha uma saia bem rodada, bem larga, sem muita dificuldade para algumas coisas. E “quase tudo” acontecia no escurinho do cinema.

Há quem afirme que, o “planeta” é uma coisa, e o Universo é outra. Faz sentido, sim. Pois, não existe no planeta terra, nada tão perfeito quanto a Natureza. Cada coisa que está no planeta tem uma razão de ser, e existir. Nessa relação, ouso incluir as “formigas”, cujo tamanho contradiz sua força hercúlea. E, essa força fica ainda maior, quando existe a união. Um formigueiro é algo complicado, difícil de entender.

Aí “começa o filme”. Mão pra lá, mão pra cá. Mão na pipoca doce, beijo na boca. E segue o filme.

Esperta, e aparentemente carente de ações, a namorada deixa cair uma pipoca sobre a saia. O namorado (eu, claro!) se aventura a retirar a pipoca da saia plissada da namorada. Eis que a namorada põe a mão sobre a mão do namorado (eu, de novo!), dizendo sem dizer nada, que o importante não era pegar a pipoca. Era sentir o volume da ansiedade sob a saia, muito bem plissada e passada no ferro com esmero.

Como isso aqui não é um ambiente erótico, e às vezes é lido por João Berto, uma criança no auge da inocência e da puberdade, vou direto ao assunto:

Dedos melados de pipoca doce, caminho para a satisfação descoberto e visitado. Minutos intermináveis levam ao êxtase. Mas, aí é que vem a ação da Natureza.

Inexplicavelmente, que diabos tantas formigas estavam fazendo ali, entre o saco de pipocas, levando a doçura do açúcar para o formigueiro sob a saia plissada?

Mas, a Natureza vai continuar merecendo meu respeito. Afinal, formigas não pagam ingresso de cinema, tampouco são convidadas, mas não escolhem hora apropriada para incomodar.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A REVOLUÇÃO DOS PEIXES

Geleira “derretendo” por conta do Aquecimento Global

Começo essa crônica de hoje, me fazendo uma pergunta: será que a pirralha Greta sabia ou sabe de tudo isso e não nos disse?

Ou, será que ela só se preocupa com o que acontece no Brasil? Nos EUA, na Austrália, na França acontecem tantas ou mais catástrofes que no Brasil – e ela não diz nada, não se manifesta por que?

$era que pode $er algo encomendado?

Tá parecendo que i$$o é coi$a de bra$ileiro!

Pelo sim ou pelo não, fui reler, para tentar fazer alguma relação (se é que existe, e eu não havia percebido antes, quando li pela primeira vez) “A revolução dos bichos”, obra épica satírica do inglês George Orwell, escrita e impressa pela primeira vez em 1945. Final da Segunda Guerra mundial – essa, entre os homens(???!!!).

E como na fazenda do George havia mais de um “porco” (Napoleão Bonaparte, Bola-de-Neve, Velho Major) e apenas um burro (Benjamin) e as “mulheres” tinham nomes citados, mas não tinham ações (no romance!), fiquei matutando como conseguiam se comunicar e entender entre roncos e relinchos.

Teriam as tempestades alguma influência do “derretimento” das geleiras?

Deixando um pouco de lado a famosa “Revolução dos Bichos”, esquecendo um pouco a Fazenda, ou o curral onde vivem e dormem os animais – no caso da “Revolução” do Orwell, onde os animais tramam tudo, usando seu linguajar apropriado. Só não pode ser em “libras” – situo essa minha “revolução” no mar, e nas profundezas, onde peixes e demais habitantes também tramam e fazem suas revoluções, de preferência bem próximo de uma Amazônia de algas marinhas.

Podemos até afirmar que, “há horas que o mar não está pra peixes”!

Cá fora das águas, na orla marítima, uns poucos homens falando línguas diferentes umas das outras, vivem dizendo que o “Aquecimento Global” está provocando a mudança de temperatura, e essa está provocando problemas para os continentes gelados, para as geleiras e seus habitantes e, esses, aborrecidos, também resolveram fazer suas revoluçõezinhas. E não olvidem: a água que vem de cima, conhecida como chuva, tem muita e estreita relação com a água que está no mar.

Habitante do mar comanda as reuniões dos cardumes em revoltas

Entre as muitas ideias e reivindicações que o Comandante Jubarte tem ouvido dos que estão no seu entorno, estão a promessa de “desovar” menos, com o objetivo de povoar cada vez menos os mares. Outra ideia é a criação de um sociedade anônima que devolva em dobro todo mal que o homem tem feito aos mares e seus habitantes, incluindo o vazamento de óleos. Mas, esse, a Greta não soube. Provocar tempestades, propõe o tubarão, uma espécie de Benjamin dos mares.

– Quem provoca tempestades não somos nós, Benjamin. É a resposta raivosa do mar por conta da temperatura e das agressões que sofre!

Flagrante do exato momento de uma reunião no fundo do mar

Numa completa demonstração de que “os humanos não são os únicos humanos” do Universo, o Golfinho usou toda sua formalidade para pedir a palavra. E disse:

– Somos os mais prejudicados pelas fortes tempestades e por outras catástrofes que acontecem em nossas casas. Mas, não podemos deixar de pensar nos pinguins! Esses sim, estão perdendo seu habitat!

Nem preciso dizer que Golfinho foi efusivamente aplaudido, e as enguias fizeram questão de incluir os ursos polares e leões marinhos que, sem geleiras não terão moradia nem comida.

– Vai ficar é ruim pra nós, disseram as enguias!

Pinguim e Urso polar perdem habitat e alimentação com o Aquecimento

Pois tal e qual o passarinho, que, sem as árvores e sem os mosquitos, lagartas e sementes que garantem suas cadeias alimentares e lugares apropriados para reprodução e continuação das espécies, e mudam para o parapeito da janela do João Berto no confortável apartamento do Apipucos, as espécies que habitam as geleiras, se não saírem mundo à fora com uma trouxinha de pertences, uma filharada e rapadura, farinha e uma cabaça d´água, morrerão na seca, pois o “mar vai virar sertão”.

Imaginemos uma reunião de pinguins vindos da Antártida, acontecendo de madrugada, no Marco Zero de Recife. O alvoroço que isso poderá causar no estado onde nasceu o homem mais honesto do mundo. Até aquele homem da roleta, lá de Palmares, vai bater em retirada, procurando a Zona da Mata.
Tudo por conta do “Aquecimento Global”!

É?

Não. Não é.

Nós, aqui fora do mar, e distantes das geleiras, que somos os responsáveis pela necessidade que os bichos de George Orwell tiveram para fazer a sua revolução; e os peixes e viventes dos mares do Zé Ramos encontraram para motivar suas reuniões. E, nem precisaram convocar as algas marinhas, os camarões, os siris, caranguejos e ostras. Fecharam o mar. Lacraram, literalmente.

Pinguins batendo em retirada no início do êxodo

Nesse raciocínio, cientistas e estudiosos afirmam que, o nível do mar está subindo por conta do “Aquecimento Global”. Sendo isso verdadeiro, os habitantes das ilhas começarão a sentir os efeitos em muito breve.

No Brasil, Florianópolis, Vitória e São Luís que se preparem – e não haverá sistema de drenagem para dar conta das águas pluviais.

Especificamente São Luís, onde o gestor público faz questão de esconder o lençol freático, plastificando com asfalto até encostas e ladeiras, a situação já é caótica quando o índice pluviométrico é diferenciado.

Rios que têm influência dos mares serão mais um problema para as cidades

Ora, desde cedo aprendi com uma certa senhora que, quem conhece a terra onde vai plantar, produzir e viver, é o Agricultor; quem engorda o boi na fazenda, é o olho do dono; quem conhece fogo, é o Bombeiro que o apaga; quem conhece o doente, deveria ser o Médico. Mas, agora, é a máquina.

Assim, por que nunca se tem notícia de que, nessas reuniões e congressos para discutir esse novo fenômeno (Aquecimento Global), nunca se tem as presenças de quem vive no mar? Marinheiros, pescadores e até se fosse possível, os peixes, baleias e representantes de cardumes?

Quem é do mar, não enjoa!

Infelizmente, as reuniões vivem superlotadas. Mas, não é de especialistas nos assuntos. É de empreiteiros e outros interessados. E o que se vê, ao final de cada congresso ou reunião, quase todos “pedindo dinheiro”.

Pedem dinheiro para resolver os problemas urbanos e sociais; pedem dinheiro após as catástrofes causadas pelo caos nas cidades por eles administradas.

Mas, a culpa será sempre do “Aquecimento Global”!

Cidade de Osasco literalmente “debaixo d´água”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PRA LÁ COM ESSE NEGÓCIO!

Lilico concluía sua piada com o bordão “pra lá quesse negócio”!

Mais uma vez volto ao sertão, e novamente, ao povoado onde nasci – que, aliás, vivo pensando que nunca deveria ter saído de lá. Penso, também, que minha Avó jamais deveria ter-se encantado. Deveria estar contando as prosas dela, me dando cafunés, criando os passarinhos dela soltinhos e dando a cada um deles um nome de gente – para ela, bicho, principalmente ave, era melhor do que muitos seres.

Se alguém lhe perguntasse: Dona Doca, quem é melhor? Lula, ou aquele urubu?!

Não tenho dúvida que ela responderia:

– Meu bixim, o arubu é muito mais mió, ora! Apois, o arubu come a carniça dele, de bicho que morre. O arubu num rôba!

Pois, essa mesma Dona Doca Buretama, como já foi dito inúmeras vezes, criava patos, galinhas, perus, cabras e bodes como meieira do dono das terras. Ficava com uma parte, e entregava a outra parte para o “patrão”.

Mas, o “patrão” tinha outros moradores, que faziam a mesma coisa. E um desses moradores era o Cícero de Zefa, conhecido como Cicim (ele não aceitava que o chamassem de “Cissim”. Era “Cicim”, mesmo e tamos conversados).

Eis que, certo dia, sem avisar nem nunca ter falado nada, Cicim chegou na casa da minha Avó, com um galo enfiado no sovaco direito. Minha Avó achou que o galo tava com “gogue” e o vizinho precisava de uma meizinha pro bicho.

– Cumade Doca, sei que hoje num é seu niversáro, mais vim lhe trazer um presente. Tô lhe dado inté de papé passado o galo Gegê, com muita saúde, fogoso e bom quisó!

Como no sertão viaja há séculos, o dito popular que ensina: “cavalo dado, num si óia os dentes”, Vovó mandou que ele soltasse o galo no quintal, que de mais com pouquinho ela botava milho pro bicho.

Mas, Vovó ficou matreira com aquele presente. Porque, tão logo soltou o galo no quintal, Cicim foi fazendo meia volta, e pegando o caminho de casa.

Eis que, pra ter certeza que o galo num tava com fome, Vovó foi na camarinha e pegou uma cuia com milho para jogar no quintal. Se o galo estivesse com fome, com certeza procuraria comer.

Mas, o melhor vem agora. Vovó tinha o hábito de dar nome às galinhas que tinha no quintal. E aquela que mais botava ovos, ela dava o nome de umas “fuampas” que ela achava que viviam às custas do Vovô, João Buretama. E, uma dessas galinhas, ela chamava de Maria Francisca, pois a penosa botava dois ovos por dia, e ela achava que era porque os galos viviam “subindo nela”. Tal qual a “fuampa” que não podia ver os trocados de Vovô, e logo se engraçava, fingindo desejo de nhanhar.

Pois, mais parecendo uma águia, “Maria Francisca” tão logo o galo Gegê abaixou as asas e começou a fazer roda, olhando de soslaio, ela conseguiu arranjar forças nunca se sabe de onde, e saiu voando.

Vovó estava no girau, lavando alguns pratos e, ao ver aquilo, admirada, soltou um grito:

– Valha-me Deus! O que qui tá contecendo? Galinha num avua!

Ora, aqui todos sabem que o cruzamento ou a cobertura, ou o sexo, ou ainda a trepadinha entre aves, é feita com as cloacas, sendo que a cloaca do macho é diferente da cloaca da fêmea.

Mas, Vovó, ainda boa das vistas, garantiu que conseguiu ver que Gegê não tinha uma cloaca. Tinha era um “martelo” dependurado naquele lugar. E ela jura que, na linguagem com que se comunicava com as aves dela, a “Maria Francisca” ao ver o “martelo” de Gegê, saiu avuando e até dizendo:

– Pra lá quesse negócio!

Anos depois foi descoberto que Cicim agira de má vontade e por ciumeira, pois o patrão havia concedido mais umas linhas de terra pra Vovó e Vovô aproveitarem na roça.

Eita que ciúme é coisa feroz! Pra lá com esse negócio, siô!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

FREGUÊS DE BODEGA

Cesto com ovos de galinha caipira

Um amigo fraterno que viveu e morreu em Pindaré-Mirim, por anos foi o responsável pelo abastecimento da cidade, com pães. Início da madrugada, todos os dias, já levantava da cama e começa “bater a massa do trigo”. Quem não conheceu Paulo, e jamais comeu o pão que ele fazia, não nasceu em Pindaré-Mirim ou nunca acordou naquela cidade.

Pindaré-Mirim é um antigo município do Maranhão, cidade onde primeiro foi instalada neste Brasil, energia elétrica como força motriz. As demais cidades, onde antes de Pindaré-Mirim “chegou a energia elétrica”, são capitais dos estados.

Engenho Central “São Pedro” em Pindaré-Mirim no Maranhão

Mandado construir por um grupo de canavieiros da região, o Engenho Central São Pedro, aproveitando o leito do caudaloso rio Pindaré para transportar seus produtos no abastecimento das cidades vizinhas com o açúcar produzido no engenho, contratou a construção, instalação e funcionamento de uma linha férrea para fazer a ligação entre o Engenho e a Fazenda Santa Filomena, onde era produzida a cana-de-açúcar.

Após incompreensível abandono, o Engenho Central São Pedro foi totalmente restaurado no ano passado pelo Iphan, sendo transformando num Centro de Atividades para os moradores da cidade e ponto turístico onde abriga peças e valores da Cultura Popular do Maranhão.

Pois, dito isso e informado, num início de tarde qualquer, depois da sesta habitual, Paulo encostava a cadeira de macarrão plástico na varanda frontal da casa e, além de “esquentar os miolos” com um litro da cachaça Pitu, tinha e mantinha ao seu redor um selecionado grupo de pinguços para escutar suas prosas. Nenhum Pedro Bó no grupo que escutava, mas ninguém se ausentava, pois bebida de graça prende qualquer um.

Não faz tanto tempo assim, Paulo, numa prosa muito divertida sobre algumas figuras emblemáticas da cidade, contou que, certo dia alguém entrou no comércio de Pepeu (nome fictício!) procurando ovos de galinha caipira. Um cesto cheio de ovos estava sobre o balcão de madeira, ao lado de ossos, carne de porco e peixes salpresados. Pepeu apontou para o cesto e perguntou debochadamente:

– Ovos, é isso aí?

O freguês já ficou um pouco sem graça pelo deboche, mas continuou com as perguntas, passando também a escolher os ovos caipiras. Pegou um ovo, balançou ao lado do ouvido; separou. Pegou outro ovo, balançou novamente ao lado do ouvido, separou. Pegou o terceiro ovo, balançou ao lado do ouvido e, quando ia separar, foi interrompido por Pepeu, que gritou:

– Pare amigo! Pare! Você não quer comprar ovo! Você quer comprar é maracá! E, maracá eu não vendo. Quem vende é Zé Bimbim (nome fictício), o maior boieiro da cidade!

“Maracá” – instrumento de percussão usado no bumba-boi do Maranhão

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTACA CHORONA

A estaca transformada em “ mourão” quando ainda era viva

Existem centenas de milhares de pessoas que são completamente diferentes das outras. Eu, provavelmente, sou uma dessas pessoas. Não tenho nada contra aqueles que “amam os animais”, ainda que esse amor não seja verdadeiro e a alegria apareça apenas na hora da fotografia. Entendo isso como hipocrisia, e, nessa altura do campeonato não vejo motivos para mudar o meu comportamento.

Maltrato os animais? Não. Apenas não os quero na minha cama, na minha rede, na minha mesa. Mas, sinceramente, nada tenho contra quem manda fazer uma cadeirinha para o cão comer sentado na hora do almoço – entendo como “mesa da refeição” como algo sagrado, tipo a Santa Ceia – ou manda colocar um berço para o danisco dormir o sono da tranquilidade no mesmo aposento. Sei de pessoas (homens e mulheres) que usam os animais para perpetrar o sexo doentio.

Agora, uma árvore, se ela for cortada, sou até capaz de mandar rezar uma missa de sétimo dia, de trinta dias, e de um ano. Árvore não dá apenas sombra. Os frutos e o trabalho que, junto com a Natureza, faz por nós.

Imbuia secular foi derrubada e ninguém protestou. Nem a Greta!

Não vejo e não quero traçar paralelos de animais e árvores. São diferentes e certamente são úteis, mas de formas diferenciadas.

Já escrevi aqui, antes, o motivo da minha rejeição ao cão e ao gato. Estou vivendo um segundo casamento, a construção de uma segunda família. Sou divorciado legalmente da primeira esposa. Minha primeira mulher ainda hoje sofre por conta da “toxoplasmose” adquirida pelo convívio próximo com animais (gatos, principalmente). Esse problema nos levou à perda de quatro filhos, um após outro, gravidez após gravidez. Foi, também, o motivo principal da separação.

Juazeiro – além da sombra e dos frutos, tudo pode ser usado pela medicina em favor do homem

E as árvores?

Se estiver no local adequado, se receber o tratamento adequado, uma árvore jamais causará algum problema ao ser humano. Só benefícios.

Na minha casa mantenho vasos com plantas. Prefiro aquelas que “ajudam em alguma coisa”. Cultivo cebolinha, coentro, pimenta de cheiro, pimenta malagueta, pimenta murici, quiabo e plantas decorativas.

Tenho aquário, onde crio peixes. Crio canários belgas, cujos cânticos me deixam alegre. Tenho respeito pelos canários, pelos peixes e pelas plantas. O mesmo respeito que tenho por qualquer ser humano.

Assunto dessa crônica é a árvore. Cortado de forma inadequada para uso indevido, um velho ipê teve o seu desenvolvido tronco utilizado como “mourão”, uma estaca mais grossa e mais segura para garantir a sustentação e o peso do arame na construção de uma cerca.

A cerca protegia a fazenda de Seu Ribamar, um fazendeiro e conhecido pecuarista das Queimadas. Pagou caro pela construção da cerca, mas ficou famoso mundo à fora, não pela riqueza ou pela quantidade do gado que produzia metade da riqueza do lugar.

Ribamar ficou famoso por ser “proprietário” da estaca que chorava e criou raízes depois de cortada. Não tinha folhas mas continuava produzindo resina – e isso, para os moradores locais, nada mais era que lágrimas. Lágrimas da estaca que chorava.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MOCHILA E A VOLTA AO INÍCIO DA VIDA

Porteira de acesso à casa da Vovó

Nunca atrasava ou adiantava. O ônibus da empresa Expresso de Luxo, da família Paula Joca fazia a linha intermunicipal entre Pacajus e Fortaleza. Saindo de Fortaleza na “Cidade das Crianças” rigorosamente às 15:30 h, sempre e pontualmente às 16:00 estava parando no Olho d´Água, hoje Horizonte.

E, não havia demora, por que o tráfego pela BR-116, ainda era pequeno, e a estrada de boa qualidade facilitava o percurso de pouco mais de 40 Km.

Desci do ônibus e, como fiz por muitos anos durante as férias, peguei a direção da estrada vicinal, de areia pura e frouxa, que levava à casa da minha Avó. Mochila nas costas, ainda pensei em tirar o tênis e percorrer a distância de uns 6 Km descalço. Mas, logo vi que, ainda que sendo a mesma, a estrada não tinha mais tanta areia. Segui caminho.

O sol começara a esfriar, e logo entendi que não havia necessidade de andar rápido, pois Vovó e Vovô me receberiam bem na hora que eu chegasse.

Andava e andava, tendo sempre a atenção voltada, de repente, para algo que acontecia. A mesma cerca velha feita de toras de sabiá (mimosa caesalpiniaefolia) construída há dezenas de anos. Quase tudo igual.

Longe dali, mas tão perto para a captação dos ouvidos, a rolinha cantava chorosa, fogo-pagooooouuuuu, fogo-pagoooooouuuu, num lamentável cântico que tornava o fim de tarde mais triste ainda. E tome estrada. Aquela mesma que, antes tão distante, agora era percorrida com apenas um “salto” (dizer da Vovó).

Caminhando, sozinho, sequer sentia o peso ou o incômodo da mochila. Não demorou, e cheguei na porteira corrediça da casa da Tia Maria e ainda me atrevi a avisar:

– Ô de casa, tô chegando! Tô passando, mas depois eu volto!

E continuava a caminhada, que tinha o objetivo de atingir e atravessar a mata fechada antes da noite chegar. Precisaria caminhar por mais de meia hora mata à dentro, antes de atingir a porteira do destino. Não era recomendável atravessar, andando no escuro aquele matagal, sempre avisou o meu Avô.

E, poucos metros antes de entrar na mata, o susto veio através do vôo repentino no “inhambu”, despertando um medo que até então não existia. Mas, era seguir em frente, e deixar pra lá as crendices nas assombrações e lobos maus.

Mata atravessada, eis a porteira à frente. Longe, dava para escutar o toque-toque da mão do pilão, pilando fubá de milho torrado, ou café: – toque, toque, toque tão ritmado que mais parecia um ensaio de bateria de escola de samba do Rio de Janeiro!

Anunciada – a prima pilando fubá de milho torrado

Provavelmente, o rangido feito pela dobradiça enferrujada, ao abrir o portão-porteira, despertou o cachorro Bimba, até então em sono profundo, enquanto deitado sobre o forro do cambito encostado na parede da sala. Desesperado e balançando o rabo, veio ao meu encontro. Cheirou. Conferiu o faro, e me deixou entrar sem alarido ou latido.

Subi o batente, abri a porta de baixo, pois a de cima estava sempre aberta. Apesar do silêncio, arrisquei um cumprimento:

– Ô de casa! Tem alguém aí? Vó, a senhora tá em casa?

Resolvi entrar e, como conhecia a casa em todos os cômodos, fui até a cozinha e vi o fogo do fogão aceso e, sobre a bancada, a fumaça do café que estava sendo preparado (provavelmente para a novidade que estava chegando – eu!), ainda fora do bule.

Já demonstrando preocupação, voltei a chamar. Vóóóóó, a senhora está em casa? Tá onde?

Como, provavelmente, ela estaria em casa, pois era a hora de preparar o dicumê para o Vovô, resolvi procurar também no quintal, onde talvez ela tivesse ido pegar uma toras de lenha para atiçar o fogo.

Café ainda no coador esperando a visita

Descendo o batente da porta da cozinha, logo percebi as galinhas ciscando o chão à procura de milho, ou algo para comer. Eram muitas as galinhas criadas no sistema “meeiro” com o dono das terras – e a netaiada, crescida e morando na capital, nem vinha mais aos domingos, suscitando o abate das penosas. A tendência era aumentar o rebanho.

Se eram tantas as galinhas, com certeza em alta postura, dava para imaginar a quantidade de ovos guardados nas cuias da Vovó dentro da camarinha – esperando alguém para levar pros meninos na cidade grande, ou para fazer aquela gemada gostosa, caso alguém precisasse.

Como continuei chamando e não fui atendido, deduzi que não havia ninguém em casa. Coisa lógica.

Galinhas soltas cacarejando no quintal

Continuei passeando pelo quintal, quando avistei, ao lado do antigo girau, aquela mesma porca pintada na cara, comendo babugens ao lado dos dois bacurins – e esses me deram a impressão que continuavam do mesmo tamanho de mais de 50 anos atrás.

A porca e os bacurins procurando “babugens”

Interessante que, um dos bacurins tinha a cara “cagada e cuspida” de Zé Luciano, um primo, que não dispensava nada. Comia até buraco na cerca, ou na parede. Nem me admiro que tenha emprenhado a coitada da porca. Se é que isso seria possível.

Embora já se fizesse escutar, a cantata das cigarras e dos grilos, ainda havia claridade. Como não aparecia ninguém, continuei passeando pelo quintal, matando a saudade da convivência com os bichos criados por Vovó.

Foi quando percebi que, uma pata pastoreava os onze patinhos que acabara de alimentar, e agora os levara à beber água. Um pato, mais afoito, acabou caindo dentro da bacia improvisada de bebedouro. Todos, inclusive a pata, levantaram os olhos para mim, admirados pela presença – depois, descobri que fazia muito tempo não recebiam o incômodo de ninguém.

Pata e patinhos assustados com minha presença

Segui o passeio, e ninguém dava o ar da graça. Comecei me sentir “só”, necessitando entender o por que de, até aquele momento, não ter aparecido ninguém. E a noite começava a dar o ar de sua presença. Pelo menos eu teria que me preparar para enfrentar a noite, sozinho, enquanto Vovó ou Vovô não chegavam de volta para casa.

Galo Messias “galando” mais um ovo para a cuia da Vovó

Ali mesmo onde estava, escutei (ou imaginei ter escutado) um latido de Bimba. Era a senha que eu precisava, para ter a certeza que alguém chegava de volta em casa. Fui até a portas de entrada e, percebi que não era ninguém menos que o jumento Policarpo, querendo entrar – e ele mesmo, com certeza, como se acostumara fazer durante todos aqueles anos, caminhou até encontrar o buraco da cerca por onde entrava para dormir ao lado do chiqueiro das cabras.

Assim, continuei andando, agora, curioso para conhecer as novidades. E, aparentemente não havia muita coisa nova naquela casa com ares de abandonada, embora o fogo do fogão se mantivesse acesso e o coador do café ainda fumegasse.

E, daquela forma, quem havia jogado milho para as galinhas; ou, quem havia servido água da bacia para os patinhos?

Antes de resolver parar para entrar e procurar uma lamparina, percebi o que para mim era uma novidade, sim. A moita de “mufumbo” havia crescido, e dessa feita, os catraios haviam posto muitos ovos – e nenhuma cobra se atreveu a come-los.

Os ovos das “capotas” (catraias) continuaram já eram muitos

Ligeira, a noite chegou e me pegou desprevenido. Como e onde encontrar uma lamparina que iluminasse aquela casa até a chegada da Vovó?

Eis que, enquanto procurava a lamparina, tropecei, e me dei conta que, nas costas, carregava uma mochila. Perguntei para mim mesmo: de onde saiu essa mochila? Eu nunca possui ou usei mochila, quando era criança!

O barulho do carro que faz a coleta do lixo de dois em dois dias, me acordou. Só então consegui perceber que tudo aquilo não passara de um sonho. De um bom e saudoso sonho.

Mas, e o cheirado de Bimba, o cachorro; o fogo aceso no fogão e o café fumegante; o milho para as galinhas; a água para os patinhos, e a chegada da noite? Como explicar tudo isso?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O LINGUAJAR “CHULO” DO CEARENSE

“Curral das éguas” – ZBM da Fortaleza antiga

Quem acessa pela primeira vez este JBF (Jornal da Besta Fubana), que neste começo de ano tem trocado mais de cabeça do que o Lula troca de mentiras, vai ler: “A gazeta mais escrota da Internet”.

Pois, saibam alguns que, “escrota” pode até não ser feminino de “escroto” mas, com certeza é um dos palavrões mais “escrotos” no Ceará. Da mesma forma, alguém rotular alguém de “canalha” no Ceará, fique certo que está desafiando para briga de porrada, mesmo. Não é diferente com o termo chulo “escroto(a).”

Mas, como O JBF também é cultura, vou tentar relembrar aqui nesta segunda postagem do ano, algumas situações (ou termos) chulas que, ou usamos muito, ou quase nunca usamos no dia a dia do meu Ceará – terra boa pra caralho (ops!).

“Quebrar o cabresto” – Homem que faz sexo pela primeira vez, rompendo o prepúcio. Fazer sexo faz bem ao corpo humano – masculino ou feminino. Nos dias atuais, essa prática salutar está totalmente desvirtuada, invadida que foi pelo homossexualismo, isso se olharmos para os ensinamentos religiosos. Muitos que, no Ceará se acostumaram dormir em redes, com o pênis ereto pela necessidade de urinar, “quebravam o cabresto “roçando” na própria rede.

“Abriram as portas do inferno” – Fala-se quando chegam muitas mulheres feias, juntas, numa festa. Isso não é algo que se considere “chulo”, mas uma zoação. Uma “mangação”. A rapaziada jovem, em grupos, que tinha o hábito de frequentar as “tertúlias” nos poucos clubes sociais de Fortaleza, gozadores por excelência, ficavam à espreita de quem chegava ou saía antes da hora. Muitas meninas, ainda sem namorados, gostavam de ir às festas em grupos. Quando chegavam juntas, os rapazes cochichavam: “abriram as portas do inferno”.

Zé Tatá – o veado mais “macho” da antiga Fortaleza

“Açucareiro” – Mulher, quando fica brava. Elas, geralmente assumem uma posição, com as duas mãos na cintura, semelhante a um açucareiro.

“Amancebado” – Amigado, aquele que vive maritalmente com outra pessoa, sem estar casado legalmente. Nos dias atuais, diz-se que são “companheiros” e já é uma relação considerada legal.

“Amassar um Bombril” – Foder, transar. Depilação de partes do corpo, incluindo as genitálias (masculina e feminina), é moda nova. Alguns (homens e mulheres), por escolha própria, ainda não aderiram ao “depilar total”. Assim, alguns homens ou mulheres conservam os pelos pubianos (nessa referência, o “Bombril”) e, quando os dois fazem sexo, os pelos se juntam – estão amassando Bombril.

“Amulegar” – Apalpar os seios. No caso, os seios da mulher. “Amulegar” de vez em quando, se transforma num ato erótico. Carícias preliminares.

“Anel de couro” – Ânus, fiofó, bufante, roscofe, rosca. No linguajar atual, quando alguém está fazendo sexo anal, está “queimando rosca”.

“Areia de cemitério” – Pessoa que não gosta de dividir. “Você é igual a areia de cemitério, quer comer tudo sozinho.”

“Arroz” – Homem que anda com muitas mulheres, mas não namora (fode) nenhuma. “Igual a arroz. Só serve para acompanhar.”

“Baitinga” – Veado.

“Balançar a roseira” – Peidar.

“Barba, cabelo e bigode” – Trepada completa (de cabo a rabo) com direito a sexo oral, anal e convencional.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FAZENDA AURORA – SUAS LAGARTAS E BORBOLETAS

Fazenda Aurora e seu campo de girassóis

Tudo, acreditem, aconteceu na Fazenda Aurora, uma das maiores propriedades de Ricaço, sujeito caladão, que só se preocupava em ficar cada dia mais rico com a plantação, colheita, e venda de girassóis.

Numa manhã chuvosa de domingo, na casa de Dona Lurdinha, os moradores só perceberam alguns estragos feitos pela chuvarada, depois que o dia clareou.

Aquele cheiro gostoso e inconfundível de terra molhada, ajudava abrir o apetite para o farto café da manhã para quem ainda estivesse sonolento, mas já preparado para a pequena caminhada que levaria até à Santa Missa de domingo, celebrada pelo Padre Elói.

Antes mesmo que todos saíssem de casa, o sol deu o ar da graça, desenhando pelas frestas das telhas, reais obras de arte. E esse mesmo sol começou a agir, esquentando o solo, fazendo com que todos esquecessem que, horas antes havia caído quase que uma tromba d´água.

E, aproveitando que todos saíram de casa a caminho da Igreja, Mimosa, uma horrível mas colorida lagarta, resolveu sair do esconderijo por debaixo de umas folhas grandes, e iniciou seu trabalho de devastação do verde que, de tão bonito, fazia tremer a vista de quem olhasse procurando a linha do horizonte.

A feia lagarta Mimosa

E destruía, ao mesmo tempo que comia, enquanto caminhava aos pulos na direção da enorme plantação de girassóis. E caminhava aos saltos, ao tempo que se dobrava e desdobrava. Sabida, procurava a sombra das folhas verdes que não lhe interessavam. Ela queria mesmo era os talos e os botões dos girassóis.

À medida que o tempo passava, mais ela comia e destruía. Uma brisa leve lhe trouxe o aroma dos girassóis, fazendo-a compreender que a plantação não estava perto. Continuou comento. Continuou destruindo, até que, anestesiada, quase dormindo, sequer se deu conta que havia chegado na plantação. Adormeceu.

Casulo de lagarta para borboleta

A alta temperatura lhe trouxe um esconderijo. Uma sombra escura de várias folhas muito verdes. Foi coberta por um casulo. Veio a tarde, e veio a noite, e, no dia seguinte veio o amanhecer, o entardecer, e um novo anoitecer.

Um dia, dois dias, vários dias, um mês. Mais um mês e mais outro. Aquele casulo tomava forma diferente, querendo dizer que não era mais uma horrível lagarta chamada Mimosa, por ironia.

A bela transformação da Natureza

Eis que, belo dia – por coincidência, também domingo! – a Primavera chegava, trazendo aquele mar amarelo de centenas de milhares de girassóis. O casulo, se abria, enfim! E um vento forte açoitou a Natureza e deu asas a uma bela e pintada borboleta, que, ao lado das abelhas, parecia pousar em cada girassol, para agradecer-lhes a beleza da transformação da vida.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINOS, EU VI!

A selfie da inocência – eu vi

Eu vi, um dia, o mar pegando fogo. Eu vi um navio carregado de óleo pegar fogo em alto mar, na Baía de São Marcos, em São Luís, e aquele marzão pegando fogo, fazendo a água ferver para cozinhar os peixes.

Meninos, eu vi. Vi, um dia, uma lagarta caminhar centenas de quilômetros, comendo e destruindo tudo, até atingir um campo de girassóis, e ali transmutar em casulo, e voar como uma borboleta multicolorida.

Meninos, eu vi. Vi faz tempo, um jumento subir em relinchos numa jumenta, desesperada pelo gozo, e, onze meses depois, pelo mesmo canal do prazer, expelir um burrego saltitante como se fosse de borracha.

Óleo de bacalhau o pior remédio do mundo – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, certo um dia, um homem chorando copiosamente e em desespero, por ver um dos seis filhos morrendo de fome e de sede, na terrível seca de 1957 que assolou o meu Ceará.

Meninos, eu vi. Vi e ainda me lembro, de minha Avó sentada no chão, numa tarde de domingo, me catando lêndeas e me dando cafunés – daqueles que estalavam o dedo! – enquanto eu sonhava com a maravilhosa sonata dos pássaros maviosos.

Meninos, eu vi. Vi, faz muito tempo, uma galinha das mais queridas criadas pela Vovó, botar um ovo de perua – fora “galada” por um peru tarado! – e de tanto fazer força, acabou morrendo “entalada” pelo furico.

Meninos, eu vi. Vi, certo dia, meu bom e trabalhador Avô conversando com um burro na capoeira, se lamentando da seca que levou a água que eles bebiam, matando tudo e, em lágrimas, beijando a cabeça do animal que, minutos depois morreria de sede.

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, como observador anônimo em Palmares, Luiz Berto ganhar três vezes seguidas na roleta do Cu-Trancado. Essa roleta, precisa ser muito amigo do dono, ou policial dos brabos para conseguir ganhar.

Meninos, eu vi. Vi e não faz tanto tempo, o nosso querido colunista Goiano, defensor peremptório de Lula da Silva, todo enrolado num belo cachecol russo, sentado na calçada da adega parisiense Le Comptoir, sorvendo taças e mais taças do bordeaux Château Bolzan.

Pinguim sobre geladeira Frigidaire – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, Chupicleide se mijar-se da cabeça aos pés de tanta alegria, ao receber de Luiz Berto os salários atrasados dos meses de julho, agosto, setembro e outubro, graças às doações dos fanáticos e embevecidos leitores desta gazeta escrota.

Meninos, eu vi. Vi chegar a hora da despedida de tantos amigos feitos aqui neste ano de 2019, esperando merecer a atenção desses mesmos e de mais amigos, na leitura desta porcaria de coluna, para que Polodoro continue arrebentando “a coisa” de Xolinha. Um maravilhoso 2020 para os que aqui comparecem. Paz, alegria e saúde para todos e para as famílias.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DILEMA DA VIDA – ESTUDAR OU APRENDER

“Coroné” sonha em decidir as coisas do mundo ao seu redor

Queimadas foi, algum dia, o povoado onde vim ao mundo, parido por minha mãe e “parteirado” por minha Avó – essa, para mim, só não foi minha mãe. Foi quase tudo. Sempre a amei. Demasiadamente.

Pois, Queimadas ficava ali num conglomerado de nada, próximo e ao mesmo tempo distante (pelas dificuldades de acesso) de Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, Guarani, Horizonte. Era um povoado pertencente a Pacajus.

Joaquim Albano Nogueira, latifundiário que amava quem trabalhava, desde que trabalhasse para ele, era um homem bom, apolítico – e essa era a principal qualidade dele, vista dos tempos atuais – que nem sabia o total das posses. Tinha terras que nem conhecia. Mas tinha certeza que eram dele.

Homem rude, sem nenhum estudo formal, se vivesse nos dias atuais, provavelmente seria comparado a um Paulo Freire, “filósofo prático e autodidata que era”.

Certa vez, torando um pedaço de rapadura de coco com farinha seca, eu passava pelo alpendre da casa da fazenda, quando escutei dele, o que, dito hoje, seria um vaticínio digno dos maiores pensadores da humanidade. Se fosse uma criança e do sexo feminino, seria com certeza comparado à uma Greta Thunberg:

“As pessoas que mais estudam, são as que menos aprendem. Estão tão ocupadas, estudando, que não arrumam tempo para aprender nada.”

Seu Quincas – era como gostava der ser chamado pelos muitos empregados e familiares – tinha dinheiro de sobra. Tinha tanto, que nem conseguia contar. Gostava mais de quem “trabalhava” do de quem “estudava”.

Certa vez, deitado numa bela e alva rede armada no alpendre da fazenda, sem tirar as botas nem as esporas, enquanto fumava o cachimbo, soltou essa rude pérola: “tudo que eu tenho, foi Deus quem me deu, mas é fruto de muito trabalho. Se eu tivesse estudado, com certeza não teria trabalhado.”

E ainda emendou: “conheço um doutorzinho, homem muito sabido, estudado, se veste bem, come do bom e do melhor, mas de vez em quando viaja até três dias de onde mora, para vir aqui me pedir um dinheirinho emprestado. E é tão sabido, e aprendeu tanto, que aprendeu até nunca me pagar o que empresto.”

E aproveitou para concluir: “não são em nada diferentes de alguns prefeitinhos que, de vez em quando, vem aqui me pedir voto. Eu não sou dono de voto de ninguém, mas o que eles acabam levando mesmo é dinheiro emprestado. E é por isso que, em vez de estudar, eu prefiro mesmo é trabalhar. Mas não sou contra quem estuda – mas acho que quem estuda deveria pelo menos aprender alguma coisa.”