JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VAI UM CAFEZINHO AÍ?!

Etíope na colheita do café

O café é uma bebida preparada a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. Tradicionalmente consumido quente, também servido gelado. A bebida contém cafeína, substância com efeito estimulante, cuja concentração varia conforme o método de preparo, situando-se geralmente entre 80 e 140 mg por cerca de 207 ml.

Estudos epidemiológicos sugerem que o consumo moderado de café pode estar associado à redução do risco de doenças cardiovasculares, embora os resultados variem conforme a metodologia e a população analisada. O Dia Mundial do Café é celebrado em 13 de abril.

O café é originário das terras altas da Etiópia, em um local chamado Kaffa. Porém, a palavra “café” não é originária de Kaffa, e sim da palavra árabe qahwa, que significa “vinho”. Por esse motivo, o café era conhecido como “vinho da Arábia” quando chegou à Europa no Século XIV.

Uma lenda conta que um pastor chamado Kaldi observou que seus carneiros ficavam saltitantes e conseguiam percorrer longas distâncias ao comer as folhas e frutos do cafeeiro. Ele experimentou os frutos e sentiu maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o fato, começou a utilizar uma infusão de frutos para resistir ao sono enquanto orava.

Parece que as tribos africanas, que conheciam o café desde a Antiguidade, moíam seus grãos e faziam uma pasta utilizada para alimentar os animais e aumentar as forças dos guerreiros. Seu cultivo se estendeu primeiro na Arábia, onde os manuscritos mais antigos mencionando a cultura do café datam de 575 no Iêmen. Até então, era comum o consumo da fruta in natura. O conhecimento dos efeitos do café disseminaram-se e no século XVI o café foi levado a península Arábica, sendo torrado para se transformar em bebida pela primeira vez na Pérsia. Na Arábia, a infusão do café recebeu o nome de kahwah ou cahue. Enquanto na língua turco otomana era conhecido como kahve, cujo significado original também era “vinho”. A classificação Coffea arabica foi dada pelo naturalista Lineu.

O café, no entanto, teve inimigos mesmo entre os árabes, que consideravam suas propriedades contrárias às leis do profeta Maomé. No entanto, logo o café venceu essas resistências e até os doutores muçulmanos aderiram à bebida para favorecer a digestão, alegrar o espírito e afastar o sono, segundo os escritores da época.

No Brasil, o estado de Minas Gerais destaca-se como o principal produtor nacional, com cerca de 26,6 milhões de sacas, correspondendo a mais de 50% da produção brasileira e aproximadamente 17% da produção mundial.

O município de Patrocínio, em Minas Gerais, saltou três posições e assumiu a liderança no ranking de produtores do grão. Em 2012, a safra de café atingiu 64.789 toneladas naquele município (2,1% do total nacional). As informações são da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Café em sacos

O sucesso da lavoura cafeeira em São Paulo, durante a primeira parte do século XX, fez com que o Estado se tornasse um dos mais ricos do país, permitindo que vários fazendeiros indicassem ou se tornassem presidentes do Brasil (política conhecida como café com leite, por se alternarem na presidência paulistas e mineiros), até que se enfraqueceram politicamente com a Revolução de 1930.

Uma cronologia do café no Vale do Paraíba Paulista seria a seguinte:

· fins do século XVIII – exportação insignificante por Santos

· 1790 – primeiras plantações em Areias

· 1797 – 100 sacos de café exportados por Santos

· 1801 – exportação de 34 sacas

· 1803 – irradiação dos cafezais em direção a Parnaíba

· 1807 – exportação de 316 sacas

· 1822 – pequenos cafezais em Cachoeira, Taubaté, Guaratinguetá

· 1822 – em Jacareí, se plantava em larga escala

· 1822 – em Taubaté, todos abandonavam a cana de açúcar para investir em café

· 1822 – de Lorena até Bananal, apareciam os primeiros barões do café

O café era escoado das fazendas depois de secados nos terreiros de café, no interior do estado de São Paulo, até as estações de trem, onde eram armazenados em sacas, nos armazéns das ferrovias, e, depois embarcado nos trens e enviado ao Porto de Santos, através de ferrovias, principalmente pela inglesa São Paulo Railway.

Consumo

Os maiores consumidores de café per capita do mundo encontram-se no Norte da Europa, mais concretamente nos países nórdicos. A Finlândia é o atual líder do ranking com 3 a 4 xícaras de café por dia, o que equivale a aproximadamente 5,8kg ao ano, seguida de perto pela Noruega e pela Suécia. Esse consumo elevado dos finlandeses, justifica-se porque esse país, localizado no norte da Europa, possui temperaturas de extremo frio no inverno, ou seja, suas condições climáticas contribuem para a necessidade de consumo da bebida, consumido quente.

Apesar do Brasil ser um dos países a produzir mais café no mundo, estando em primeiro lugar no ranking, os brasileiros não consomem tanto café, visto ao que produzem. Com o cafezinho incluído tradicionalmente na cultura brasileira, atualmente o Brasil é o 14º país que mais consome café por habitante do mundo. (Informações compiladas do Wikipédia)

Grãos de café após secagem prontos para torrar

Independentemente da origem, da produção e do consumo, o café ganhou “status” brasileiro. Empresas brasileiras se dignam a observar “a hora do café” para seus funcionários. Normalmente um intervalo de 15 minutos. Era assim, quando trabalhei no Rio de Janeiro. Não sei se a prática seguiu moda Brasil à fora.

Rapadura garante um café mais gostoso

Conheci café através de uma velha que não nasceu na Etiópia. Nasceu dos índios Paiakus. Adulta e casada, sempre “mandava” (era, era assim mesmo: mandava) meu Avô comprar fumo de rolo na bodega que não ficava tão próximo, e “pedia” (agora, ela pedia mesmo) para Vovô comprar, além da pinga para tomar antes do banho, rapadura e uma quarta (250 gramas) de grãos de café. Àquelas 250 gramas ela adicionava mangirioba e torrava tudo num tacho, sem esquecer de transformar a rapadura em melado que adicionava aos grãos torrados.

Depois, punha à secar o café torrado.

A etapa seguinte era levar ao pilão, e pilar. Peneirava numa arupemba e, os pedaços que ficavam eram passados pelo moinho manual de mesa.

Aquele café era muito gostoso!

E eu nem desconfiava, naquele tempo, que os grãos eram originários da Etiópia, mas multiplicados nos sertões de Minas Gerais.

Era um pó de café tão forte e gostoso, que ela “passava” duas vezes. Fervia água numa lata dependurada numa vara sobre o fogão, e adicionava nacos de rapadura. Coava num saco velho e levava ao bule. A mesa ainda era composta com leite de cabra, batata doce cozida e beiju de farinha com nacos de coco.

Tacho usado para torrar grãos de café

Muito mais que selar o jumento, e se deslocar até a bodega para comprar fumo de rolo, pinga rapadura e grãos de café, Vovô tinha a “obrigação” de colocar o machado no ombro e sair na mata cassando uma árvore cujo tronco servisse para fazer um pilão.

E, convenhamos, um pilão não é feito de uma noite para o outro dia. É trabalho! A peça mais fácil é a “mão-de-pilão”, que pode ter uma ou duas cabeças. E essas cabeças são feitas, via de regra, nas tardes de domingo depois da madorna do almoço.

Pilar café é um serviço que requer perícia. Café é caro. Durante o pilar, perder café que encha uma colher, é prejuízo. O pilão também pila milho torrado para fazer fubá, milho cru para fazer xerém para os pintos e massa para fazer cuscuz. Além de pilar arroz para retirar as cascas.

Esse tipo de trabalho ainda hoje é mantido em alguns povoados municipais.

Café sendo “pilado” no pilão

Durante muito tempo, nas capitais e cidades grandes, era fácil beber um cafezinho. Os fumantes adoravam acender um cigarro após o café vendido nos balcões. Hoje, mesmo com o Brasil dominando o ranking do consumo, aquele cafezinho numa xícara pequena desapareceu.

Agora, só se bebe café nos shoppings. Café expresso, diga-se.

Nesses shoppings, o café expresso é sempre degustado em rodas e conversas entre amigos.

O que mais assusta aos mais antigos, é a quantidade de cafés isso, cafés aquilo.

Mas, a cultura que faz o Brasil dominar o ranking do consumo desse produto etíope, continua sendo o café matinal de todo dia. Às vezes, um “café da manhã” está repleto de frutas, yogurts, sucos e o que menos se vê é o café.

Por falar nisso, aceita tomar um café comigo?

Minha Avó em voz alta diria: “o café tá botado”!

O nosso famoso cafezinho

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A VIAGEM

A estação deserta após viagem

A viagem da volta ao final das férias, sempre vai ser muito diferente e menos emocionante que a viagem da chegada para viver o período de férias. Férias escolares, explique-se.

Na chegada, há lágrimas. Lágrimas de alegria.

Na viagem da volta, também há lágrimas. Lágrimas de tristeza, de despedida.

A chegada é feita com flores de boas-vindas. A viagem da volta leva sempre malas abarrotadas de tristezas e da saudade que começa a bater naquele instante.

A estação vive festa para a viagem de chegada.

A estação cresce impulsionada pelo fermento da alegria. Na viagem da volta, a estação se entristece, se apequena, diminui.

A viagem será sempre uma viagem.

* * *

A espera

A espera do encontro poético

Esperei, conforme combinamos.

Escolhi um dos melhores locais para esperar-te, conforme tens demonstrado nas nossas (mais tuas que minhas) comunicações.

Esperar é ter a certeza da tua presença.

É como a rima de um soneto, e de uma poesia, cuja ausência gera um descontrole – e o encontro e a poesia não se completam.

Esperei, conforme combinamos.

Escolhi um lugar onde as flores estavam vicejantes, bonitas, tanto quanto tu e a tua presença.

Enquanto esperava, e, sentindo a tua ausência, colhi flores que tinham o teu perfume – talvez por isso a tua demora me fez entristecer..

Esperei, conforme combinamos.

Não combinamos tua demora, tampouco tua ausência.

Escolhi um bom banco, onde havia as flores mais lindas e perfumadas. Os lampiões desenhavam o entorno de uma neblina fraca. Pouco sabiam que eu estava te esperando, conforme combinamos.

A neblina virou chuva. Os lampiões acendiam e apagavam sinalizando que não virias, e fui embora.

Molhado.

Triste.

Cabisbaixo, mas consciente que te esperarei. Se combinarmos.

* * *

A semente semeada

Semear sementes é dar chances à vida

“Porque, assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Soberano, o Senhor, fará nascer a justiça e o louvor
diante de todas as nações.”

O que você semear, nascerá.

E o fruto, doce ou azedo, chegará até você.

Alguém que caminhou pelo deserto, passou sede e sofreu fisicamente, pelas mãos divinas alcançou a “Terra prometida” – e é chegada a hora de semear a boa semente. Essa nascerá e servirá de alimento para muitos.

O bezerro de ouro edificado com o vosso sangue e a vossa adoração, perecerá.

O despertar será renovado – porque de Deus, ninguém zombará.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A REVOLUÇÃO DOS CURURUS

Bola de Neve o cururu líder da “revolução”

Nascido Eric Arthur Blair no dia 25 de junho de 1903 na Índia, mas, famoso e mundialmente conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, o autor do livro best-seller traduzido para a língua portuguesa com o título de “A revolução dos bichos” é motivação e inspiração para revoluções.

Perseguidos durante anos por “Napoleão” (Napoleon) os bichos foram aprisionados numa espécie de “Papudinha” existente na selva, pelo simples fato de reclamarem a escassez da ração.

Foram enganados e presos. A partir de então, a ração passou a ser apenas uma vez por dia e, ainda assim, apodrecida.

A humilhação, o sofrimento e a perseguição foram tamanhas que, “do nada”, apareceu “Bola de Neve” disposto a liderar um levante sem fim e sem medição das consequências: o movimento ficou conhecido como “A revolução dos cururus”.

Eu, Zé Ramos (conhecido apenas entre os familiares, pelo pseudônimo de “Zé Alfredo”) nascido não na Índia, mas entre eles com descendência materna dos índios Paiakus, vou lhes contar em poucas linhas os dias que antecederam, como aconteceu e as consequências dessa “cururuzada”.

Bola de Neve “convencendo” a perereca

Lembro ainda que era noite. Chovia. Aquela chuva fininha, mas que molha muito. Principalmente o chão de terra “regando” as plantas. Por volta da meia-noite a chuva cessou.

Como trombetas anunciando algo, as cigarras começaram a cantar. Foram seguidas pelos grilos e, como marcação orquestral ouvia-se o coaxar dos sapos. Era o sinal para a luta contra as tiranias de Napoleão. Ninguém ali o suportava mais.

Foi quando Bola de Neve, o mais antigo e maior cururu da Papudinha, resolveu esquecer a perereca com a qual se multiplicava por instantes, e resolveu organizar aquela cururuzada para que a Revolução tivesse êxito.

Todos os sapos, bichos e afins à luta.

“Chega de injustiça. Queremos tratamento e ração diferenciada. Temos esse direito. Tudo está consagrado pela nossa constituição aprovada no dia 22 de setembro de 1988, e promulgada no dia 5 de outubro do mesmo ano” – bradava Bola de Neve!

Mas, Napoleão, o tirano, por inúmeras vezes invadiu o matagal, ofendia os bichos e até jogava água de sal nos cururus, depois de inúmeras vassouradas como castigo. Sempre determinando um prazo de 48 horas para que todos se humilhassem.

A hora dele havia chegado!

Bola de Neve orientando um dos muitos soldados da Revolução dos Cururus

Eis que o destino final do tirano Napoleão começava a ser desenhado.

Do outro lado do rio de águas caudalosas, havia uma selva repleta de ocupantes esclarecidos e poderosos. Eles também tinham entre si, o seu Bola de Neve, com características diferenciadas. Ele era quase “albino” e tinha entre os auxiliares alguém de extrema confiança e conhecedor das falcatruas e perversidades de Napoleão. Os dois se identificaram muito com Bola de Neve. Se tornaram amigos confiáveis e agiram rápido.

Traçaram as ações e nelas tiveram o apoio total de Patinhas, o multimilionário que vivia encantado com outros planetas.

Foram à travessia das águas caudalosas do rio e atravessaram até com muitas facilidades. Prometeram ações diversas para o começo de outubro.

Pelo visto, sem contar a tremedeira, o tirano Napoleão encontrou panos para as mangas das camisas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FOME DESCONHECE A PRESERVAÇÃO DAS ESPÉCIES

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração”

Música “Súplica Cearense”, da autoria de Gordurinha e Nelinho

Por que, em alguns países a “caça esportiva” (caçar pelo prazer da prática) é permitida?

Como perguntou Chico Anísio durante uma entrevista ao Jô Soares: “Que falta vai fazer à humanidade, o Mico Leão Dourado, se matarem todos?

E eu aproveito e pergunto: qual é mesmo a utilidade do Tamanduá, do Rinoceronte, da Zebra?

Claro que, quem nasceu no Rio de Janeiro, foi educado por boas famílias, estudou em boas escolas e nunca sentiu nem ouviu o ronco das tripas, só come picanha, choriço, carnes argentinas e churrascos gaúchos, será um eterno defensor das espécies, muitas das quais ele sequer ouviu falar.

Agora alguém que nasce e vive na região desprotegida de planejamento de captação da água, onde o índice pluviométrico é baixíssimo e que muitos vivem rezando “para o sol se esconder um tiquinho, pedindo pra chover, mas chover de mansinho pra ver se nasce uma planta no chão” que possa ter alimento para o gado, para as cabras, para as galinhas e para os peixes, jamais vai deixar de comer o que lhe sacie a fome.

Gado morto pela falta d´água

O criador, cabisbaixo, olha em volta e até aonde a vista alcança: tudo seco.

Olha para o boi, até então de estimação, pois era quem reproduzia a maior parte dos bezerros dali.

O boi parece chorar.

Sente o que pode acontecer.

Sabe que, de um jeito (abatido pelo proprietário) ou de outro (se permanecer vivo e sem ter nada para comer) a morte é inevitável.

Os meninos já sentem a escassez. Nenhuma caça.

O camaleão, primeira opção para evitar que a fome os matasse tal qual o boi, já fica difícil de caçar. A coloração atrapalha. Não é mais verde. Virou cinzento e se confunde com as estacas e os paus das árvores e das cercas.

Camaleão só é preservado onde há o verde e a fartura

Não é difícil encontrar alguém vendendo carne de jacaré nas feiras de muitos interiores do Maranhão. Como é abatido e a qual espécie pertence, também não sei. Mas, pela forma como é vendida aquela carne, com certeza quem vende sabe que é proibido.

Quem compra, também sabe.

Mas, em outros lugares, a fome não quer saber de proibição.

E cabe uma pergunta: por que o homem não pode comer carne de jacaré, e o jacaré por comer o homem?

Alguém pode até me rotular de idiota por fazer essa pergunta.

Mas, o jacaré está sempre com fome?

Quando ele não está com fome, deixa de ser predador?

Desde quando existe a letra daquela música, dizendo que, “jacaré que não se vira, vira bolsa de madame”?

Jacaré gordo que merece ser comido

Mas, repito a pergunta feita no início deste texto: por que a “caça esportiva – sem que se saiba o destino da caça abatida – é permitida” e a caça para a sobrevivência é proibida?

Por que as leis brasileiras que tratam desse assunto são tão idiotas e seletivas?

Não. Não vou escrever aqui que é proibido “espantar” uma baleia em alto mar. Também não vou dizer que, seletivamente, em alguns casos, as leis brasileiras são mandadas pcdc!

Paca pode ser comida e mostrada que está “gostosa”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MAIS ANTIGO GRUPO DE ZAP-ZAP

“Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até, até sonhar de madrugada
Uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar”

Depois de caminhar alguns minutos pelas veredas na direção do açude, Zoraide de Juca – nos interiores do Ceará, ninguém é conhecido pelo sobrenome. Alguém sempre será “Zé de Miguel”, “Zoraide de Juca”, “Beatriz de Luciano”, “Domingo de Zenaide”, e daí em diante – carregando na cabeça uma bacia com roupas e uma rede cagada para lavar.

No bornal, uma barra de sabão em pedra, cachimbo, uma faca pequena, fumo de rolo, rapadura e farinha seca para a merenda. A água já tem no açude.

Mais com pouco chegam Damiana de Inácio, Domingas de Getúlio e Sandra de Zezim do Bode – assim conhecido por ser o único matador de caprinos nas redondezas.

Pronto. Está formado o mais antigo grupo de zap-zap. Tem até nome registrado no cartório do povoado: “Amigas do Açude e do Sabão”.

– A trouxa hoje tá muito grande, por isso vou cuidar comigo! Falou Domingas de Getúlio!

– Mermã, a minha também não tá pequena e o diacho é que é quase só roupa branca. Os meninos vão precisar pra ir à missa no domingo, disse Sandra de Zezim do Bode.

Eis que o conversê muda de tom:

– Muié, tão dizeno que a fia de Maria do Rosário tá de bucho! Tá prenha mesmo… e não quer dizê quem é o pai, prumode num dá confusão!

As muiés reunidas na lavação

Naqueles tempos passados, “embuchar” a fia de alguém conhecido, tinha que casar. E, se não casasse, o buraco era mais pro lado do que pro meio. O cabra ia se ver!

Domingas de Getúlio não parava de falar. Mas, também não parava de esfregar a roupa. Repentinamente, saiu de soslaio pras bandas do matagal. As outras pensavam que ela tinha “ido conversar com o sabugo de milho” – mas, não foi, porque não levou a vara prumode ispantá os poicos.

Quando menos as outras esperavam, Domingas tava de volta. Tava de volta com uma braçada de ramos de melão São Caetano, que, nas necessidades, dava pra substituir o sabão – só num dava quando a roupa a ser lavada era branca.

– Mulé de Deus (disse Damiana de Inácio), o teu sabão acabou-se foi? E por causo de que tu num falô, mulé?! O sabão que eu truxe vai dá que sobra!

Damiana de Inácio lavando uma rede

– Deixa assim, cumade! Eu num calculei dereito a quantidade de roupa – disse Domingas.

– Ora, bom basta! Retrucou Damiana de Inácio.

Era chegada a hora da merenda. O sinal era o afastamento das amigas para a sombra grande e confortável da ingazeira.

Bacias e cumbucas pra cá, latas vazias pra cá e a merenda começou a aparecer. Nisso, Damiana de Inácio olhou para as amigas e começou a sorrir, certamente lembrando de alguma coisa do passado.

A cobrança veio rápida. Conta Dami, conta. Pediram as outras.

– Se essa ingazeira tivesse boca e falasse!….. KKKKKKKKKK

– O que foi mulé? Perguntaram as outras.

– Afffmaria! O hôme era um jumento, vote! Começou Damiana.

As outras arregalaram os olhos em expectativa.

– Vocês são doidas, num posso dizê! Só digo (gargalhando alto) que o hôme era um jumento. Mas que foi bom, isso foi! Concluiu Damiana.

– Só pode ter sido Getúlio, descobriu Sandra de Zezim do Bode!

– E, como diabos tu sabes, que Getúlio é um jumento, mulé?! Perguntou Domingas, já exigindo explicações!

Foi nesse exato momento que a filha de Maria do Rosário, a grávida, aparece. Foi, também, quando aquele assunto acabou.

– Saliente que só, Damiana, que naquele ambiente de lavação de roupa na beirada do açude, sabia de tudo, vociferou:

– Eita, espia aí a buchuda! Será que vai nascê um “jumentinho”???!!!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MARAVILHOSO TEMPO DO RÁDIO

O céu tá ficano vremeio. Com certeza, é coisa de Deus. Só pode!

É o que minha vista tá alcançando. Daqui mais com pouco, o dia tá amanhecido.

Era assim!

Sempre foi assim na visão do povo que produz para dar o dicumê que quem num planta e ainda reclama o preço!

E o dia tá chegano. Clarim, clarim com um sol maravilhoso.

O rádio portátil ou não, dá a direção de tudo

Seu Messias, antes mesmo de tomar o café com beiju, babata doce cozinhada e amassada num prato de barro onde vai botar leite de cabra fervido, tá sentado no batente da porta da cozinha escutando o rádio. O programa matinal do rádio diz tudo. Dá tudo que muitos precisam ouvir antes de pegar o matulão e partir pra roça.

De repente, a característica sonora do Repórter Esso invade os tímpanos de Messias:

– Atenção, muita atenção!

Em cadeia nacional, o seu Repórter Esso informa: “Morreu o Presidente Getúlio Vargas! Dentro de instantes, diretamente do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, mais detalhes desse fatídico acontecimento”!

Assustado, Messias nem conseguiu levantar do batente da porta.

Rádio Philco antigo

Era assim. Foi assim durante muito tempo.

O programa de rádio era o GPS de quem morava na roça. Informava desde chá para combater gripe, ensinava como assar uma carne na panela de pressão, ensinava como tomar medicamentos alopáticos. Tipo: “Melhoral, melhoral! É melhor e não faz mal. Ou, ainda: “Vick vaporub, o descongestionante das crianças!

Ícones desconhecidos entravam pelas portas da frente das casas, deitavam nas redes e nas camarinhas sem pedir licença. Sempre através do rádio.

Heron Domingues, Narcélio Limaverde, Gontijo Theodoro, Ivan Lima e até Valdir Amaral, o “indivíduo competente – dez é a camisa dele.”

Atualmente os programas radiofônicos só tocam música. Não sei se em obediência à legislação, mas o rádio AM está sendo substituído pelo rádio FM. Tremendo desserviço para os “Seu Messias” da roça e da vida.

A noite chegando e trazendo chuva

Durante anos, nas emissoras PRE-9 e Assunção Cearense, OLIVEIRA RAMOS, meu irmão que chegou (e foi embora) primeiro, se transformou no GPS dos Messias da vida, comandando um programa sertanejo, no entardecer de cada dia: “Segura o bode”!

Era ao mesmo tempo o nome e o chavão do programa sertanejo, que Ele misturava com histórias e estórias vividas no sertão, nas Queimadas, na Guaíúba e na Pacatuba – mas tinha alcance estadual, e, provavelmente, nacional.

Mudou o rádio, ou, mudamos nós?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TRAQUES E BOMBAS

“Pula a fogueira, iaiá
Pula a fogueira, ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor

Pula a fogueira, iaiá
Pula a fogueira, ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor

Nesta noite de festança
Todos caem na dança, alegrando o coração
Foguetes, cantos e troça, na cidade e na roça
Em louvor a São João”

Francisco Alves

Os anos eram 1952 e 1953. Tenho absoluta certeza.

Pela referência religiosa ligada aos santos Antônio, 13; João, 24; e Pedro, 29, os festejos e quase todos os arraiais eram montados nos pátios das igrejas – a quem também, por justo, cabeça bom percentual do lucro das barracas. Barracas de diversões com jogos infantis e juvenis e comidas típicas.

Ao final de cada noite, como acontecia também nos festejos dos santos e santas que nomeavam as paróquias, o leilão. Aí, o rateio do lucro, era meio a meio.

Detalhe: a igreja só cedia o espaço físico. Nunca comprava ou pagava nada. Só recebia.

Fogos de artifícios

E é aí que entra a história do que vivemos na tenra infância.

Em Fortaleza chegavam os fogos e os artifícios fabricados pela Caramuru.

A publicidade começava a acontecer a partir do começo de maio. Fogos: para a criança que os pais começavam a comprar – traques, fósforos luminosos e bombinhas.

Outras fábricas que nunca se sou se eram idôneas, fabricavam as bombas “rasga lata” e alguns foguetes.

Meu pai me abastecia de traques. Éramos sete irmãos. Os dois mais velhos já viviam a adolescência e os mais novos ainda não haviam chegado. Eu em 1952, tinha apenas 9 anos. Era o escolhido para as proezas do pai.

Os traques que explodiam no chão e nas paredes

Quando chega a noite, lá íamos nós (mãe, tia, primos e primas) para os arraiais da Igreja Matriz. Apenas para nos divertir, pois nunca participamos dos leilões que apregoavam galinhas e perus assados – não havia dinheiro para um único lance.

Mas, havia sempre diversões que nos cabiam: jogo do preá; laçar “carteira” de cigarros; tiro ao alvo – isso sem contar a possibilidade de saborear o algodão doce, os churros, as pipocas e as “chegadinhas” (casca do sorvete, vendidas sem o sorvete).

Vez por outra os auxiliares da igreja mandavam para os ares um ou até dois foguetes – claro que o índice de violência era muito pequeno e todos assistiam aquelas explosões em paz.

Mas, mesmo com o baixo índice de violência, os malefícios estavam sempre presentes. Os maus elementos fabricavam e vendiam (e encontravam quem comprasse) as bombas “rasga lata” – um artefato de explosão forte e barulhenta. Era comum, alguém usar uma lata de leite Ninho e “riscar” o fósforo da bomba e cobrir com a lata.

Era um barulho e perigo enorme. Mas, para uma criança de 9 ou 10 anos de idade, sempre foi uma diversão muito arriscada.

Bomba rasga lata

Quase que como um aviso, foguetes eram acesos e mandados para os céus, anunciando o encerramento do arraial naquela noite. A seguir, estava sendo iniciado, também, mais um leilão em benefício das “obras” da Igreja Matriz.

Foguetes juninos

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MAGIA ESTÁ DE VOLTA

A magia do ritmo alucinante do bumba-boi do Maranhão

Aqui e também acolá, já se ouve o som dos pandeirões e o ritmo alucinante das matracas e as letras tocadas e cantadas das toadas dos ensaios redondos do bumba-boi do Maranhão.

É simplesmente envolvente!

A Ilha, cantada nos pequenos versos mas significativos quase sempre é o tema central. Ruas, praças e palcos se enchem de pessoas, turistas ou não, contagiadas pelos encantos e pela magia da maior e mais importante manifestação cultural do Maranhão.

Anos se passam. Novas toadas são ditas e cantadas. Mas jamais conseguirão superar as duas obras-primas imortalizadas por Zé Raimundo Gonçalves e Chagas da Maioba:

Chagas, o Cantador da Maioba (Mudou para outro novilho)

Se Não Existisse o Sol

Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

É boi, rapaziada

Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

É boi, é boi, é boi

Esqueça

José Raimundo Gonçalves (falecido) imortalizou a “toada”

Esqueça aqueles momentos, felizes que você me deu
Esqueça aquele juramento, que fizemos só você e eu
Esqueça a noite, a madrugada, e a Lua que já se perdeu
Esqueça a noite, a madrugada, e a Lua que já se perdeu

Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu
Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu
Esqueça essa felicidade que um dia fiz você viver

Mas não se esqueça de dizer amor
Como é que eu faço para lhe esquecer
Mas não se esqueça de dizer amor
Como é que eu faço para lhe esquecer

Boi Pirilampo

A primeira semana tem a mesma emoção da última, com o encerramento, dia 30, dos festejos de São Marçal. Arraiais montados nos espaços públicos e praças dos bairros tornam o mês de junho na maior manifestação cultural do Maranhão.

A pobreza é esquecida, a situação política é esquecida e tudo é transformado num sorriso (ainda que momentâneo) produzido pela magia junina.

Os ensaios redondos dão a largada até os batizados e atingem o ápice com as apresentações.

O que se ouve no primeiro momento é o cantar da toada cantada por Coxinho, agora transformada em Lei estadual. Toda apresentação de bumba-boi, independente do sotaque, se curva diante da tradição e abre as apresentações cantando:

“O lombo do meu boi
Tem um céu todo estrelado
Ferro em brasa não encosta
Meu boi é mimoso
Meu boi é mimado”

Festejos de Santo Antônio, dia 13. A tradição toma conta das pessoas que fazem da crendice o seu desejar mais próximo. Água na bacia para ver o namorado, faca na bananeira, fogueiras, casamentos e batizados de fogueira perpetuam ao longo de décadas a magia junina.

Canjica, milho assado, pamonha, arroz doce, mingau de milho (macunzá) e a culinária nordestina em primeiro lugar. Quadrilhas portuguesas, casinhas da roça e….. claro, bumba-boi.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DONA MARIA, A MORADORA DA CASA 82

Dona Maria reflexiva

A vida não está boa. Agora. Mas, já foi excelente, antes. Tudo acontecia dentro de uma normalidade e seguia os caminhos da humanização que sonhamos.

Dona Maria, soube-se tempos depois, nascera ali naquela casa 82, Rua das Paparaúbas. Ali também crescera, enfrentou a juventude, e casou. Casou com João, naquele tempo, Cabo da Marinha de Guerra. Era Taifeiro (aquele que cuida e se envolve com a alimentação – no caso dele, no navio).

Embarcado, João passou mais tempo da vida no navio que em casa. Naquela casa de número 82. E, sempre que João desembarcava revivia com Dona Maria, a quente lua de mel. A gravidez era inevitável, e, João nunca acompanhou a luta de Dona Maria durante a gestação dos cinco filhos. Três meninos e duas meninas.

Sem reclamar, Dona Maria cuidava de tudo. E ninguém reclamava de nada. Só Ela, que, às vezes, carente, se obrigava a recorrer aos métodos antigos para satisfazer as carências do corpo. As maiores carências eram satisfeitas no desembarque de João.

Dona Maria era a mãe e o pai dos filhos. Cuidava de tudo. Da escola, da orientação familiar, das dificuldades e, principalmente, de esclarecer as dúvidas e os questionamentos dos filhos.

Cuidava, sozinha, dos afazeres domésticos daquela casa 82.

Muitos aniversários e datas religiosas foram vividos sem a presença paterna. Mas, Dona Maria, por acreditar em milagres, durante os aniversários dos filhos, guardava sempre uma fatia do bolo para João. Entendia que era seu dever e a forma de imaginar a presença do marido.

Os anos iam passando. Os filhos, todos já adultos e agora graduados nas universidades, começaram a cuidar de suas próprias vidas. Dona Maria já não lavava mais as fraldas e nem passava no ferro as camisas usadas pelos filhos ainda alunos. Todos, inclusive as duas meninas, já cuidavam de suas vidas.

Numa manhã de uma quinta-feira, a campainha da casa 82 tocou. De soslaio, Dona Maria viu uma viatura da Marinha. Imaginou que João estivesse voltando de mais uma viagem de serviço.

Do carro desceu um oficial da Marinha, em vez de João. O oficial pediu a presença de Dona Maria, pois tinha algo a comunicar. O falecimento de João. O desmaio foi inevitável. O oficial procurou apoiar Dona Maria, ao tempo que garantia que a Marinha cuidaria de tudo. Do translado do corpo, ao sepultamento.

Os dias seguintes não foram os mesmos. Dona Maria reuniu os cinco filhos e lhes comunicou o fato. Toda a vizinhança da Rua das Paparaúbas soube, e, claro, demonstrou solidariedade. A vida seguiu, mas de forma diferente.

Os filhos casaram. Todos. Os netos começaram a chegar. Mas, contrastando com os anos anteriores, as visitas dos filhos foram “roubadas” pelo modernismo e os novos valores que a sociedade enfrenta diariamente.

Dona Maria, a moradora da casa 82 da Rua das Paparaúbas “adotou” um novo filho. O croché. Com ele e ao lado dele vivia as folgas das atividades domésticas, agora não tão intensas.

Todo fim de tarde, tão logo “o sol esfriava”, Dona Maria brincava com o novo filho, sem chupeta, sem fralda e sem carrinho. Era ali que vivia cada dia, cada fim de tarde. Até que as estrelas cadentes parecessem visitá-la.

O croché preenche a ausência dos filhos

A prática desenvolveu a atividade de Dona Maria. Dona Maria evoluiu tanto nos cuidados com aquele filho adotivo, que passou a receber encomendas. A diminuição das despesas domésticas com a saída dos filhos naturais daquela casa 82, não afetou a pensão que Dona Maria continuou recebendo pelo falecimento de João. O que valia para ela, era a ocupação do tempo vago e o preenchimento da solidão inevitável.

Dona Maria: “eu me abraço abraçando o tronco da árvore”

Aquela casa 82 da Rua das Paparaúbas parecia ser muito distante para os filhos fazerem uma visita. Viviam alegando que não tinham tempo – mas eram vistos nos fins das tardes passeando com os cães e cadelas que, insuflados e absorvidos pelo modernismo, passaram a criar. Até lhes davam nomes humanos.

Para Dona Maria, só o croché.

Certo dia Dona Maria precisou comprar agulhas novas – as antigas estavam lhe trazendo lembranças (João, em vida, trouxera da Hungria e as presenteou, para quem sabe, as necessidades de algum dia) desconfortáveis e precisou comprar novos novelos de linhas coloridas para as encomendas das clientes. Aproveitou e foi dar um rápido passeio pelo parque.

Ali, avistou uma das duas filhas passeando com duas cadelas nas coleiras. Não se aproximou. Preferiu olhar de longe.

Correu e abraçou o tronco de uma árvore, enquanto pensava em voltar para casa e conviver com o filho adotivo – o croché.

A partir daquela descoberta, Dona Maria passou a chamar aquele tronco de árvore de João.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MEU LIVRO DE ELI

O caminho perseguido dia após dia

Faz pouco tempo. São passados poucos anos, quando a Summit Entertainment apresentou no Brasil, a obra de ação e ficção científica “O livro de Eli”, dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes, tendo como protagonista o genial Denzel Washington.

Quem não viu, perdeu uma magnífica obra de entretenimento. O filme é daqueles que nos permite e faz comer vários pacotes de pipocas.

Eis que, quando a cor alaranjada do nascer do dia ouvia o cantar madrugador do galo, e, sem dizer “bom dia” penetrava por todas as frestas que existiam na parede da casa, eu, ainda atordoado, levantava da rede num pulo só, e me dirigia à latada para apreciar e me deixar “lavar” por aquela luz divina. Um bálsamo!

Poucos minutos depois daquele espetáculo que poucos têm o privilégio de ver, café tomado, me punha na estrada longa da vida, caminhando para onde, com certeza desejaria, voltar: a vida.

O sol morno terminava de iluminar o meu rosto, enquanto, com métodos e com obrigações a cumprir, eu caminhava para pegar o sol e trazê-lo para dentro de mim, como se aquela luz fosse egoisticamente só minha.

E não era – “o sol sempre foi e será para todos”.

Uns poucos aproveitam sua luz divina e brilham, espraiando bondade. Fazendo o bem. Iluminando a escuridão de muitas almas caminhantes. Como eu, que insistia em continuar caminhando para pegar o sol.

Não. Eu não sou apenas mais um Eli. Eu sou outro Eli. Diferente dos Elis da vida e com a vontade de escrever o meu próprio livro. Com o nascer do sol de cada dia, e o caminhar que a vida nos permite.

Embevecido pelo caminhar incessante, envolvido pela luz solar que aos minutos que passam muda da cor alaranjada e, com o milagre de todos os dias, se torna incolor. Mas continua nos banhando, lavando e secando para a vida. Para o caminhar que quer apenas pegar o sol e trazê-lo para dentro de si. Egoisticamente.

Agora, o sol se faz sentir pelo calor. Pela intensidade de si mesmo.

Mais uma manhã se foi. O galo desperto já cantou. Agora o som da vida é inaudível. Quase nulo. Mostrando apenas o movimento forte e passageiro das nuvens brancas que, pelo movimento, nos mostra o azul infinito do céu.

Caminho. Eis que chego ao pico onde o caminhar feito me permite olhar o sol, conversar com ele, que, como mais uma bênção de Deus, volta a se alaranjar. Agora, pela cor de despedida daquele dia – mas certamente voltará amanhã e será cumprimentado pelo cantar madrugador do galo.

Aos poucos, aparentemente repetindo o espetáculo matinal, agora ao reverso, o sol vai se escondendo e nos deixando órfãos da beleza repetitiva de todos os fins de tarde.

O fim do dia poético da caminhada

Eu, ungido ou não, conversei com o sol. Como se Ele, o sol, fizesse parte da minha família. Havia ares de intimidade, de proximidade, de confiabilidade…. e de respostas dadas, convincentemente.

Quem sabe, amanhã, quando o galo me acordar e as cores alaranjadas repetirem o espetáculo da invasão pelas frestas da parede, eu volte a tentar pegar o sol.
Egoisticamente, e só para mim.

Desço do ponto do qual pude apreciar e conversar com o sol – agora, meu amigo íntimo. Nos envolvemos. Nos aproximamos a ponto de revelar nossos segredos e nossos desejos mútuos.

Eu, de pegá-lo só para mim.

Ele, de me fazer ver e entender, que “o sol é para todos”.

Assim Deus quer e permite.

Por hoje estou convencido. Provavelmente amanhã pensarei diferente.

A volta para a casa

Caminho de volta para a casa. Satisfeito por ter escrito mais uma página do “meu” livro de Eli.

Espero ter o privilégio divino de acordar com o cantar do galo, enquanto me regozijo pela volta.

Amanhã, com certeza o galo canta. Hoje, agora, meu prêmio é a sinfonia rítmica e de paz das cigarras.