JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CABELOS BRANCOS

O vovô “fiador”

O bairro tinha uma denominação elogiável: Bela Vista. Fica na periferia de Fortaleza.

Hoje, pelo crescimento demográfico, com a população praticamente dobrada, a distância para o centro da cidade diminuiu bastante – pela velocidade dos veículos, pela qualidade das vias e pelas várias opções do transporte urbano.

Pois, na Bela Vista, havia um local que poucos não conheciam e muito menos não sabiam onde ficava. Era a bodega do Moreira. Francisco de Alencar Moreira, “comerciante” que não aceitava a adjetivação, naquele tempo considerada moderna. Preferia era “bodegueiro” mesmo.

Moreira vendia de tudo na bodega. Do carvão (desde o tempo em que o gás butano não era parte do orçamento familiar da grande maioria), passando pelo pão, feijão e outros secos e molhados, até a cachaça.

Em local destacado e apropriadamente visível, pendurou uma placa: “Não vendo fiado. Só se o freguês estiver acompanhado do avô”.

A Bela Vista não conhecia “desemprego”. Ali, quase todos moradores trabalhavam, ou faziam algo considerado trabalho, a única fórmula para ganhar os caraminguás do sustento.

Houve um tempo (e quem tem mais de sessenta anos sabe disso) em que, o “dicumê” precisava ser comprado todo dia.

Dona Ceci era uma dona de casa esperta, inteligência aguçada, e, para não fugir do que determinava a placa afixada na bodega do Moreira, todo dia mandava Dirceu (o filho) comprar o “dicumê”, fiado. Dirceu andava alguns metros até a bodega, e a tiracolo levava “Seu Domingos”, o avô.

– Seu Moreira, mamãe mandou comprar fiado: feijão, arroz, farinha, tripa de porco salgada, pó de café, açúcar, colorau e banha de porco. E mandou dizer para anotar no caderno. Eu trouxe o meu Avô!

Reclamar de que e como?

A encomenda consistia em: meio quilo de feijão de corda, meio quilo de arroz, um quilo de farinha seca, meio quilo de tripa de porco, duzentas gramas de pó de café, um quilo de açúcar, duas colheres de colorau e cem gramas de banha de porco. Tudo atendido, e anotado no caderno.

– Seu Domingos, falta o senhor afiançar!

Com muito sacrifício e dores, Seu Domingos “arrancava” dois cabelos brancos dos bigodes e os entregava à Moreira. Pronto. Estava ali a garantia de que o fiado seria pago.

Mas, não se animem e pouco se decepcionem. Isso acontecia lá pelos anos 50, chegando aos 60. Era no tempo em que, além de honrar os cabelos brancos, o “homem” tinha honra e presava por ela. Honrava a família e a sua história, sem estória nenhuma vivida. O homem tinha vergonha na cara.

Mas, nos dias atuais, o modernismo ia passando e freou. Estancou. Abancou-se. Apeou e, para ser mais sertanejo, como se fala na roça onde nasci, “atamboretou-se” e está esperando que o café seja servido.

Reparem – em quase todos, exceção aos carecas – nos cabelos dos personagens envolvidos, ou, pelo menos denunciados como tal, por quem vive de investigar (e eu não quero me dar o direito de, como outros, dizer que é mentira ou perseguição política). Todos de cabelos brancos. Todos com excelentes salários pagos pelos bons empregos.

Aparentemente (embora os atos indiquem o contrário), todos com famílias constituídas – e nem por isso, com inteligência e respeito por elas.

Para esses, pelo que se vê nos noticiários das televisões, Seu Moreira, o da bodega da Bela Vista, não venderia fiado nem que estivessem acompanhados do tetravô.

Os cabelos brancos desses não valem nada, e ainda lhes falta vergonha na cara.

* * *

Mais um dia especial:

De novo, peço licença aos possíveis leitores, para dedicar esta crônica à Ana Karina, minha filha mais velha.

Karina nasceu ontem, 20 de abril, na Zona Oeste (Campo Grande) do Rio de Janeiro. Já passou dos 40!

A foto anexada mostra a efervescente adolescência. Atualmente reside em Fortaleza, no bairro Henrique Jorge.

Ana Karina

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DOR

A dor da caminhada sem destino

A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuassem a acalentar um sonho. O sonho do vento, e, mais tarde, o milagre da chuva.

A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que, nem os mais fortes conseguem suportar.

Doía!

Doía muito mais que um corte fazendo sangrar em qualquer local do corpo.

Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que, num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito. Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna.

Doía muito. Doía mais que a sede, ou o martírio de sonhar com a água.

Eu não sabia que doía tanto.

A seca dói.

Dói ainda mais, na alma – e perpetua essa dor – que no corpo.

Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.

Não há poesia nesse sofrimento.

Só dor!

Dor que dói.

A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais.

A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não.

A dor dói.

A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo. Não há direito de escolher o cardápio, porque a fome é analfabeta, não escreve nada, e tampouco consegue ler. Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.

A seca dói.

Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.

Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.

Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”. Coisa de gente que nunca sentiu dor.

* * *

A DOR ESPECIAL – A DA AUSÊNCIA

Minha querida mãe

Peço licença hoje aos leitores, para render homenagem (e dedicar essa simbólica crônica de fuga das dificuldades dos dias vividos no sertão onde nasci) à minha Mãe.

Se viva fosse, dona Jordina, nascida no dia 14 de abril de 1917, estaria completando 107 anos.

Espero que esteja partindo o “bolo de carimã” (que ela tanto gostava) enfeitado com estrelas e nuvens brancas, e ofereça o primeiro pedaço à Deus – o Nosso Criador.

Hoje, “siora”, divido o meu “dicumê” consigo e sou todo gratidão pelas vitórias conseguidas no viver e na vida iluminada por Deus, para que tenhamos suportado e superado, juntos, tantas dores.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SERTÃO E O SERTANEJO

Agricultores a caminho do trabalho

Joelhos dobrados cobertos pelos trapos velhos e macios do dormir, sentada na cadeira velha de palhinha que herdou da avó Emerenciana, Alice – para os de casa, “Alicinha” – sorve os últimos goles do café torrado e pilado em casa pela mãe Dona Alice Maria, enquanto, tentando se proteger de um frio apenas imaginário, observa Nonato arrumar as tralhas para sair para mais um dia de labuta na roça. É a rotina.

Só que, essa rotina, hoje, foi emoldurada por uma insistente neblina, que mais tarde pode se transformar numa boa chuva.

Queira Deus!

E a rotina mostra a parentada de Nonato (cunhados, filhos, sobrinhos e agregados – entre eles o jovem marido de Alicinha) caminhando para a carpina e a preparação da terra que, graças às chuvas que vão cair, produzirá o básico da agricultura familiar para o sustento: milho, feijão, mandioca, batata, maxixe, quiabo e melancia.

Tudo faz parecer um filme em repetição na televisão.

A caminhada para a roça é longa, mas rápida. Um silêncio absoluto domina a fila indiana, onde, quase hábito natural, o primeiro da fila “conversa” com o último e os entremeados apenas escutam. Parece algo combinado – mas não é. Isso faz com que a caminhada pareça diminuta, para um percurso de quatro a cinco quilômetros.

No outro cenário – o da casa – Alice Maria já está no meio da jornada, que agora conta com a participação mais ativa de Licinha. A panela de feijão ferve no fogão tocado a lenha. O tempero, por hora, é apenas sal e banha de porco e alguns nacos da carne de boi separados e salgados para essa finalidade.

Licinha pegou na despensa dois generosos pedaços de camurupim (um peixe que habita o mar profundo da costa nordestina do Brasil) salgado e os transformou em pedaços menores para facilitar o cozimento e a liberação da quantidade exacerbada do sal, enquanto assa as castanhas de caju que comporão a moqueca.

Depois de assadas, as castanhas serão socadas no pilão (monjolo – para outros), peneiradas e postas de lado para receber o coentro e a cebolinha com tomates picados.

Observação: como hoje é domingo, vou parar por aqui com a preparação, para evitar atrapalhar o almoço de alguns amigos. Principalmente aqueles que já provaram dessa culinária.

No roçado, a neblina continua caindo sem atrapalhar o trabalho. Linhas de roça são limpas em poucas horas, enquanto uma dupla prepara as “covas” para o plantio da batata doce e da mandioca, ao mesmo tempo que, com dois bornais (um de cada lado) Manim vai “semeando” para o plantio das manivas e das rodelas da batata.

Nonato para e dá uma olhada no que já está pronto. Aproveita para limpar o suor salgado que lhe corre pela face. Aproveita, também, para dar um comando:

– Vamo atochar, cabrada, prumode a gente terminar esse seuviço hoje!

A carpina da área a ser plantada

O sol está quente. Muito quente. Alguns param para pegar um gole d´água e molhar a garganta – e só aí percebem que o tempo está passando e a hora do “dicumê” está se aproximando.

Durante o dia, em casa, ninguém para de trabalhar. Todos têm suas tarefas e as procuram executar com a perfeição rotineira e a filosofia do “é bom para uns e para todos”.

Para apressar o esfriamento das cascas das castanhas, Licinha cobre com uma leve camada de terra, pega uma cuia, um pedaço de madeira e um caco de telha quebrada e começa a “descascar” as castanhas, uma atividade que, pela prática dela, não demora muito.

Nisso, Alice Maria começa a pilar as castanhas assadas, numa forma de apressar o preparo do almoço dos “trabaiadores no roçado”.

O almoço logo fica pronto: moqueca de camurupim, feijão de corda, farofa de cuscuz de milho, pedaços de rapadura e duas cabaças com água fresca tirada da quartinha que ficara na janela para esfriar.

Licinha prepara tudo num caçuá. Põe nos cambitos colocados na égua Bonita e parte para a roça, onde os “trabaiadores” a esperam atônitos e já com as tripas roncando. A chegada dela é uma festa. Todos param de trabalhar e caminham para uma sombra de juazeiro que serve de refeitório.

Colheres, pratos de ágata, farinha e o aviso forte de Licinha:

– Essa moqueca tem que dá pra todos!

A sobremesa, pedaços de rapadura. Caneca d´água e o direito a um rápido descanso na sombra que serviu de refeitório, enquanto chega a hora do segundo expediente da jornada repetitiva de todos os dias.

Na casa, Alice Maria espera o retorno de Licinha para a refeição das duas, sentadas no chão da “sala de jantar” sobre um surrão de palha. A mesa é posta nas próprias panelas e a comida servida com colheres de pau. Diferentemente dos “trabaiadores” na roça, a sobremesa das duas é o caldo da moqueca misturado a uma poaca de farinha seca.

Depois, em vez do descanso de direito, a limpeza das panelas e pratos e a preparação para a noite que chegará. E o dia seguinte.

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A CASA-MAL-ASSOMBRADA

Casa-mal-assombrada

Construída numa área elevada pouco mais de um metro do nível local, a residência da família Silva Costa teve seus momentos áureos na época do domínio da cana-de-açúcar.

Era ali que muitos donos de engenhos do lugar se reuniam durante a noite para acertar contas, conhecer os lucros que estavam tendo, e, até para negociar a venda de alguns poucos negros escravos.

Há quem afirme que, em meados do século XIX, por conta do descobrimento da sonegação de impostos, o Governo resolveu fiscalizar com mais veemência, provocando, entre outras coisas, o desinteresse dos canavieiros pelo plantio e colheita da matéria prima (cana-de-açúcar). Muitos proprietários de terras resolveram mudar para centros urbanos desenvolvidos, onde certamente poderiam investir noutros negócios.

E assim era feito.

No povoado Pedras Verdes (onde diziam que havia minas de turmalinas – o que teria gerado o nome de Pedras Verdes), a casa dos Silva Costa chamava a atenção de quem por ali passasse, com a rodovia passando ao lado, numa distância de 120 metros. De longe se avistava o casarão. Um verdadeiro fascínio, quando habitado.

Os proprietários foram embora, e, os poucos escravos desapareceram, tentando viver a liberdade noutro lugar.

Sem habitante, sem cuidado e manutenção, a deterioração chegou a galope. Pássaros, cobras, urubus, corvos, raposas e outros tantos animais fizeram dali a sua moradia. Alguns cavalos que serviam aos proprietários, sem alimentação e sem cuidados, acabaram morrendo de fome e as carcaças tornaram o ambiente lúgubre e de um fedor insuportável.

Rápidos e levados pelo vento, os boatos ganharam a vizinhança, dando conta de que a casa era mal-assombrada, e em noites de lua cheia se escutavam gemidos de escravos, uivos de raposas, sobrevoos de corujas – tudo provocado por uma forte ventania que chegava naquela casa construída um pouco mais alta do nível do chão.

Soube-se, também, que havia um sótão no interior da casa, e que lá vivia uma velha com duas cabeças, que fora ali aprisionada para não ser vista por ninguém. Teria morrido de fome e sede – e agora vivia aparecendo para cobrar atenção dos proprietários.

Verdade ou não, em noite de lua cheia nenhum passante se atrevia a andar devagar naquela estrada, de onde diziam avistar luzes incandescentes e ouvir muitas vozes – que afirmavam ser dos antigos proprietários negociando preços da matéria prima e a venda de escravos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PENUMBRA

 A penumbra do anoitecer

A luz do dia vai sumindo, tal qual água que se esconde na areia do deserto. Rápido, muito rápido.

O vento forte traz consigo a penumbra, aliada ao anúncio da escuridão noturna. Escurece, e estamos juntos, um ao lado do outro. Estamos misturados numa situação em que só a tua cabeça preconceituosa guardou a diferença – a diferença da tonalidade da nossa tez.

Por segundos, minutos e horas, a cor da nossa pele é a mesma – como na realidade é, e deveria ser. Nem era necessária a chegada da penumbra para ficarmos iguais. Apenas um coração bom e uma sensatez bastariam.

Passam segundos, passam minutos, passam horas – a penumbra desaparece e leva junto o teu raciocínio e a tua humildade. Tua cabeça volta para a mesmice e tua sensibilidade se transforma em pedra. Voltas ao teu status quo – ele é teu.

Tu és tu – e serão necessárias muitas noites transformadas em penumbra, para perceberes que temos a mesma tez. A mesma cor.

As nossas diferenças estão apenas no caráter. Não na cor da tez. Nessa particularidade, nenhum vento forte tangerá a penumbra que habita em ti. Infelizmente.

Que Deus (todo poderoso – aquele mesmo a quem recorres nos desesperos) te tire definitivamente da penumbra.

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O CONFORTO E PRAZER DE REVIVER

Hoje faço uma pequena homenagem a mim mesmo, “republicando” a crônica “A segunda Revolução dos Bichos”, algo que, na época da primeira publicação, ousou levar a imaginação dos leitores ao best seller de George Orwell.

Como um “bônus agalopado”, aproveito e também rendo homenagem aos sete (7) comentaristas, e as réplicas que lhes dei.

* * *

A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Publicado em 2 de agosto de 2020

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

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O QUE MUDOU: O MUNDO OU AS PESSOAS?

“Radiola antiga” era o principal móvel da sala

Faz tempo que defendo a tese proferida por muitos, que “o mundo mudou, ou está mudando” – eu continuo na mesmice, e vou defender que, o mundo não muda. As pessoas mudam, isso sim. Infelizmente, de algumas décadas para cá, começou a acontecer uma “involução”.

E, entendo eu, tudo a partir da concepção equivocada, que defende que a “escola educa”. Quem educa é a família. Eu, estudante noutro tipo de escola e educado por outro tipo de família e criação, vou continuar dizendo que, ainda que nunca tenha sido seu papel, “a escola atual deseduca”, por tentar apontar um caminho que não lhe compete.

Seria aceitável se afirmássemos que, no máximo, a escola informa e, nos dias atuais, mal e porcamente, haja vista que a genialidade paulofreiriana suscitou nas cabeças dos legisladores boquirrotos, “proibir reprovar os que não sabem nem aprenderam nada”. Leis reforçadas, diga-se de passagem, pela maioria dos que deveriam ensinar – pecadores por conveniência.

Dito isso, vamos aos exemplos factuais de que o mundo não muda, e as pessoas, sim. E que a educação não é papel da escola, mas, da família.

Brasil à fora, qualquer ser humano que jamais tenha frequentado uma escola, numa estrada ou num lugar qualquer, ao chegar ou passar por outro, “educadamente” cumprimenta-o, dizendo: “bom dia, ou boa tarde, ou, ainda, boa noite”.

Muitos que nasceram ou vivem dentro de uma escola, jamais entenderão isso. “Educação familiar”!

Fazendo amizades no cafezinho

Nasci em Pacajus, hoje parte da Região Metropolitana de Fortaleza. Ali, nos anos 50 e 60, as tardes dos sábados ou manhãs dos domingos eram animadas pelas boas músicas com letras que diziam alguma coisa.

Programas de auditórios animados por César de Alencar, ou televisivos conduzidos por J. Silvestre ou pelo casal Aerton Perlingeiro e Lolita Rodrigues, ou o simples “fazer rodar os discos de vinil” com músicas cantadas por Ângela Maria, Cauby Peixoto, Ivon Cury, Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira e tantos outros, acabavam por tornar nossos fins de semanas e tardes mais aprazíveis.

Era habitual aos que trabalhavam fora de casa, “arrumar um tempinho para o cafezinho”. Pessoas marcavam encontros para o café, e era quando se comentava sobre o jogo passado de futebol ou alguma notícia relevante divulgada pelos noticiosos radiofônicos.

Em Fortaleza, lembro bem, tínhamos o Café Walcan, o Cearazinho, ou, até mesmo o Café do Pedão da Bananada, no Abrigo da Praça do Ferreira.

Em Ribeirão Preto, o Café Palheta era o principal e mais frequentado “point” para o deguste dessa maravilha. Ali, famosos ou não que pretendessem, deixavam seus autógrafos numa coluna arredondada mantida estrategicamente pelos proprietários. Coisa que se repetia, também, na filial do Café Palheta de Curitiba.

Hoje, quase tudo é diferente. Não por que o “mundo mudou”. Mas, porque “as pessoas e gerações mudaram”.

Café Senadinho em Curitiba

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A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MORENA TROPICANA – EU QUERO SEU CALOR!

Mulher brasileira esbanja beleza

Morena Tropicana – Alceu Valença

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo
Melão maduro, sapoti, juá
Jaboticaba, teu olhar noturno
Beijo travoso de umbu cajá

Pele macia
Ai! carne de caju!
Saliva doce, doce mel
Mel de uruçu

Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vem me desfrutar!
Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vou te desfrutar!

Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!
Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!

Alguém já parou para pensar e apreciar a beleza da mulher brasileira, independente da sua proximidade com ela?

Pois, faça isso!

Faça isso e veja que, a ausência dos olhos azuis e transparentes é compensada pela tez da cor de jambo e emoldurada pelas curvas sempre mais perigosas que as curvas da estrada de Santos. Delineadas, definitivas, sem obstáculos, e como se tudo isso não bastasse, com versos poéticos escritos por Deus através da Natureza.

Na foto anexada para ilustração, observe atentamente o conjunto de perfeições que faz essa menina morena tropicana, e brasileira. Precisa de olhos azuis?

E a beleza escuda detalhe importante em se tratando de Brasil: é afrodescendente!

E alguém liga para isso?

Observe a boca dessa belezura com o lábio superior protegido por um buço apenas imaginável, mas perceptível quando a respiração nasal fica mais ofegante.

É linda!

É brasileira!

É tropicana!

A televisão tem sido o altar onde aparecem algumas mulheres quase santas – mas anjos, com certeza – como um desafio para quem tanto aprecia a beleza de dançar um tango, banhar nu num igarapé ou, simplesmente, apreciar e tentar vencer o desafio que é a beleza de Débora Nascimento.

Foi a Vênus Platinada quem nos apresentou a beleza agressivamente brasileira da Vênus Tropicana dos olhos levemente esverdeados.

As novelas globais de hoje não demonstram muitas preocupações com as qualidades interpretativas de atores e atrizes. O que interessa é a beleza fisionômica aliada a beleza física. O resto não conta muito.

E foi exatamente numa novela global que apareceu Débora Nascimento, hoje, com certeza, uma das mulheres mais bonitas do Brasil, enquanto a qualidade interpretativa fica em segundo plano. Sim, e de Sonia Braga, todos já esqueceram?

Esqueceram que ela um dia foi Gabriela e desfilava essência e cheiro de cravo e canela?

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A SOLIDÃO

Lulu na janela

Nascida Luzia, filha de pais portugueses que chegaram ao Brasil no século passado. Era a única filha de uma prole de quatro. Entretanto, quase ninguém sabia seu verdadeiro nome, pois era mais conhecida naquela rua, pelo apelido carinhoso e respeitoso de Lulu.

Aquela moradora da Rua do Gás, no bairro Andiroba conhecia a todos, e sabia da vida da maioria.

Pudera. Nascera ali, crescera ali, casara ali e ficara viúva ali, havia pouco tempo. Não teve filhos por conta de problemas de saúde. Sofria de toxoplasmose.

Não vivia só porque, com ela, morava uma “secretária” criada pela mãe, que parentes conheceram no interior da Bahia. A “secretária” já era mais idosa que Lulu. Era a responsável por quase tudo e por quase nada. Sempre foi assim, permitindo que Lulu pudesse trabalhar até garantir a aposentadoria.

Famosa, Lulu havia trabalhado durante anos numa emissora de televisão da cidade.

Depois do falecimento do marido, Lulu caiu na solidão e, após aposentadoria, sem filhos e sem afazeres domésticos, que ficavam na responsabilidade da “secretária”, passava as cinco horas da tarde de todos os dias, debruçada na janela. Provavelmente esperava o passeio e o pouso das andorinhas que escreviam poemas em voos. Cada voo mais sinuoso que o outro. Claro, as odes de um poema precisam ser diferentes.

“Boa tarde” para um, “boa tarde” para outro, e, da janela só saía, quando falava o primeiro “boa noite”!

Ninguém entrava ou saía daquela casa, além da “secretária”, que, pelo menos uma vez na semana saía para ir ao comércio, onde se abastecia de víveres.

Às vezes (fora frutas e legumes) a compra era para a semana toda.

Vez por outra, a meninada traquinas tocava a campainha e corria. Aquilo irritava Lulu que, às vezes, fosse quem fosse, nem atendia mais.

Pois, ontem, durante as cinco horas da parte da tarde e começo da noite, não havia ninguém naquela janela.

Lulu, a moradora, estava sendo velada entre preces na capela Sossego Eterno. O corpo sairia dali para ser cremado, como era o desejo dela!