JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESPERA

Eu estive aqui.

Marcamos que nos encontraríamos.

Lembras?

Esperei. Esperei e esperaria mais – se era esperar que querias que eu fizesse.

Não viestes.

Não virias mais?

Não vens?

Mas, continuarei esperando.

Estarei aqui amanhã – a partir da hora que combinamos.

Posso esperar?

Tu vens? Vens mesmo?

Acredito, e, por isso, esperarei.

Ainda que não venhas, estarei esperando.

Esperarei esperando, até que a espera me diga que não virás,

Ou, que a espera é uma forma inútil de esperar.

Esperei.

Estive aqui. Consegues ver?

Escolhi um lugar que nos cabia

E agora, só cabe a espera.

* * *

Transformação

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero um campo, sem ventos fortes
E um corpo puro como tuas entranhas.

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero o cheiro do mel polinizado
Para acalmar minha ansiedade.

Quero o néctar do teu corpo
Para alimentar minhas borboletas.
Quero a beleza e o cheiro do teu corpo
Para o pouso demorado do meu.

Quero o néctar, quero teu corpo
Quero teu cheiro, quero, enfim,
Me transformar numa borboleta.
Para viver uma vida sem fim.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A VILA DO JOÃO-DE-BARRO

A nova moradia do João-de-barro

São muitas as leis brasileiras que protegem as florestas.

O povo brasileiro é quem faz com que essas leis não signifiquem muita coisa – e, nisso, tem a conivência dos aplicadores dessas leis como forma de punir e coibir a repetição dos crimes ambientais.

Na Austrália, algumas leis não são diferentes das leis brasileiras. O que faz a diferença é a aplicação da legislação vigente com maior rigor – e isso garante o respeito às leis e a preservação do meio ambiente.

No Brasil, todo dia é dia de caçar.

No Brasil, todo dia é dia de prender e criar pássaros silvestres, em que pese a também corriqueira e repetitiva apreensão dos transgressores – mas a pena aplicada é que desmoraliza a legislação e incentiva a continuidade da prática do crime.

Conheci Timbaúba, um povoado localizado entre Queimadas, outro povoado, e Pacatuba, municípios atualmente integrados à Região Metropolitana de Fortaleza. Timbaúba é onde existia uma importante (ainda que pequena) mata no pé da serra do município de Pacatuba. Era ali, na Timbaúba, que muitos desenvolviam o hábito de caçar (e matar) passarinhos e outros animais silvestres (cotias, pacas, tatus, camaleões, teiús, mucuras e até alguns veados) para o complemento alimentar.

Mas, era lá, também, na Timbaúba, que as crianças e alguns adultos apreendiam pássaros e capturavam outros tantos, em arapucas e alçapões e, por vezes, ainda recolhiam nos ninhos os filhotes recém-nascidos.

Criavam os filhotes para o deleite de escutar o canto ou para uma futura venda. Sabiás, galos de campina, rolinhas, azulão, sanhaços, graúnas, corrupiões e xexéus. Frutas e papa de leite com farinha de mandioca serviam como alimento para os filhotes.

Naqueles anos, diferentemente de hoje, não eram tão numerosas as famílias que ali viviam por livre escolha. A capital não ficava tão distante e onde as principais dificuldades podiam ser resolvidas em pouco tempo.

Numerosa, a família de José Dourado, mais conhecido por “Seu Zeca” que, ao lado de Dona Amarilis, chegou naquela localidade no início dos anos 40. Mais precisamente, no ano de 1943. Cada ano, nascia uma criança. E assim foi em 43, 44 e 45.

Depois nasceriam outros. Duas meninas e mais um menino, num total de seis filhos.

Infelizmente, por total descuido da gestão pública municipal, as escolas de iniciação (primário, ginasial e científico) não eram tantas. Quem pretendesse ir à frente nos estudos, precisaria mudar de cidade para alcançar novas metas.

Não foi diferente com a família de “Seu Zeca” e Dona Mamá (Amarilis), que acabaram entendo que, por força da necessidade do estudos dos meninos, precisariam mudar para a capital, ainda que ali mantivessem aquele pequeno sítio. E assim fizeram.

Trouxeram parentes de Queimadas para morar na casa da Timbaúba e, só então, resolveram mudar para a capital.

Qualquer mudança de lugar de moradia por longo tempo será traumática para alguém. As antigas amizades, a vizinhança conhecida, as facilidades de locomoção e o conhecido estilo de vida. Quem parte sofre, ainda que sonhe com melhores perspectivas, e quem fica vai nutrir o sentimento da perda por algum tempo.

Os três meninos mais velhos precisavam dar continuidade aos estudos. Paulo, 13 anos; Moisés, 12 anos; e, Alfredo, 11 anos. Paulo, além dos estudos, tinha algumas tarefas domésticas em apoio aos pais e era o responsável por levar todo dia o almoço de “Seu Zeca” quando esse cuidava da roça – e lá havia sempre alguma coisa por fazer.

Moisés e Alfredo ajudavam a mãe nas tarefas domésticas e estudavam. Nas horas vagas, se dedicavam à caça de passarinhos, armando arapucas e catando filhotes. Os dois, diziam os outros meninos de Timbaúba, eram donos de ótima pontaria e tinham as melhores baladeiras. Sabiam quase tudo de pássaros e até conseguiam imitar o cântico de alguns deles, como o bem-te-vi e a graúna.

Alfredo, sempre mais tímido, mas também bom conhecedor de passarinhos, conseguiu tirar do ninho ainda em penugem, um casal de João-de-barro e dele cuidou por meses.

Chegara o dia da partida. Sem alcançar outra solução, Alfredo resolveu abrir a gaiola e soltar o casal de João-de-barro, antes, tendo o cuidado de acariciar demoradamente as cabeças das duas aves. As aves voaram, mas pousaram num florido ipê que havia ao lado da porteira de acesso para a casa da família.

O caminhão da mudança partiu, e algumas lágrimas impediram que alguém prestasse atenção no que acontecia em volta. Antes que o caminhão sumisse definitivamente na estrada, Alfredo e Moisés ainda viram o aceno do casal que ficara morando na casa da Timbaúba.

Na viagem poucas palavras. Paulo observava o casario diferente da vida urbana da capital, sem qualquer semelhança com as casas simples da Timbaúba. Moisés e Alfredo traçavam planos, antes mesmo de saber se ainda conseguiram matrícula numa nova escola da capital.

A primeira semana na nova moradia foi atribulada. Novas amizades e até dava para perceber algum tipo de rejeição entre as crianças que já moravam naquela rua e os que acabavam de chegar.

O tempo passou. A primeira semana, a segunda e a terceira. As aulas foram iniciadas numa escola não tão distante dali. Livros novos, amigos novos, professores novos e uma nova rotina.

Mas, jamais deixaram de ter espaço para o lazer. E tinham. Moisés e Alfredo se revezavam no pedalar da bicicleta que trouxeram de Timbaúba. Alfredo, quando chegou sua vez de pedalar, foi um pouco mais distante.

Enquanto esperava a passagem de um carro, teve a atenção desviada pelo destino.

É, só pode ter sido o destino ou a interferência da natureza das coisas. Ao levantar a vista para um poste, Alfredo nem acreditava no que estava vendo e falou mais alto para si mesmo:

– Meus bichinhos! São eles! Os meus passarinhos!

Alfredo acreditava mesmo que o casal de João-de-barro também resolvera acompanhar a família e, num poste de madeira, resolveu construir ali a sua nova moradia. E até foi mais longe: construiu quase que uma vila inteira, sinalizando que a família estava próximo de crescer. A fêmea pusera três ovos.

Coisas que só Deus pode fazer e nos permitir compreender.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ZÉ, O RUDE

Zé com sua negritude reforçada pela persistência

Nascido no dia 29 de fevereiro, Zé aprendeu e aceitou a conviver sem comemorar datas de aniversário. Isso porque, comemorar ano sim, ano não, não era coisa que lhe satisfizesse.

A primeira infância vivida entre enxadas, foices e carpina nos roçados do interior deram tons escurecidos e características de rudeza à sua forma de vida.

Não recebia gentilezas e isso fez com que as desconhecesse.

Frequentou pouco a escola, até que entendeu, que, o que aprendera era suficiente para caminhar vida afora. Para nortear seu destino e ajuda-lo a escolher o melhor para si.

Essas coisas petrificaram em Zé a dura rotina da vida. Não via necessidade em andar por aí “arreganhando os dentes”, como ele próprio falava, quando alguém se dispunha a ouvi-lo.

Entretanto, haverá sempre na face da Terra, aquele que, um dia, iluminado por Deus, conseguirá enxergar o seu real caminho e encontrará o começo do seu destino.

E por que seria diferente com Zé?

Rudeza é uma característica pessoal. Não é um castigo que a vida impõe.

E foi num final de dia, quando sentou na ponta da calçada de casa para limpar a enxada e a foice que usara na roça durante todo o dia debaixo daquele sol escaldante, que Zé foi tocado pela mão suave do destino.

Ocorreu que Zé viu uma nova luz e decidiu que aquele seria o seu último dia de trabalho na roça. Sairia pelo mundo, à procura de um objetivo, e do por que viera fazer o que na Terra.

À noite, após um bom banho com água da terrina, foi jantar. Foi a melhor hora que entendeu ser propícia para comunicar aos pais a sua decisão:

– Pai e mãe, não vou mais trabalhar na roça. Alguém está me dizendo que minha missão na Terra é outra.

Sem entender a decisão intempestiva do filho, ainda jovem, com apenas 16 anos, os pais indagaram:

– Vais fazer o que e aonde menino?

Respondendo com a intenção de colocar ponto final na conversa que, para ele já estava decidida, Zé atendeu a curiosidade dos pais:

– Não sei ainda. Sinto que tem lugar melhor para mim fora daqui.

Quase nenhuma roupa, pouca coisa de higiene (escova de dentes, pente, barbeador, creme dental) e algumas cuecas compuseram “a mala” de viagem de Zé.

O trem era o transporte mais fácil e barato. Os pais, chorosos e inconformados, foram leva-lo a estação.

Pouco demoraram na estação, pois o trem não demorou muito a encostar e muito menos demorou para embarque e desembarque de passageiros e carga. Mas, ainda coube uma despedida e desejos de boa sorte no novo caminho seguido.

A cidade era uma novidade e aquilo tudo atrapalhou Zé. Rodopiou em torno de si mesmo. Examinou seus pés, mãos e sentiu o coração bater mais forte. Chegara a hora de ir à luta. De cuidar de si, de tentar ser e viver como alguém.

Zé não sabia sequer se, na cidade que acabara de conhecer, morava algum parente. Também não pretendia procurar ninguém, haja vista que agora era (e queria continuar sendo) um novo Zé. Zé, o rude, mas vitorioso às suas custas, com o seu trabalho e sem favores de terceiros. Apenas o reconhecimento, quando esse chegasse, seria bem-vindo.

Depois de procurar uma hospedagem, Zé encontrou uma pensão, onde pagaria por semana, com direito ao café da manhã e almoço ou jantar. Precisaria pagar uma semana “adiantada” e assim o fez.

No dia seguinte, vestindo a melhor roupa, saiu à procura de trabalho, com disposição para começar no próprio dia. Trabalho simples, ainda que com salário pequeno, não era coisa difícil de encontrar. E não foi.

Zé conseguiu trabalho para fazer a limpeza geral de um Teatro – e, como precisava trabalhar após os ininterruptos espetáculos, conseguiu também um aposento para morar no próprio local de trabalho. Aceitou o trabalho, o salário e o aposento, o que o livraria do pagamento da hospedagem na pensão.

Não demorou muito para que Zé aprendesse todo o serviço que fazia todos os dias. Inclusive o que fazia após os espetáculos que lotavam o teatro e exigia a cada fim de apresentação uma faxina mais rigorosa para tudo estar bem feito no dia seguinte.

Encaminhado, Zé começou a se organizar. Havia estudado pouco, mas o suficiente para aprender a ler. Com algumas economias que conseguia fazer, comprou livros – didáticos e paradidáticos. Poderíamos até dizer que, se tornando autodidata, Zé voltou a estudar. Tomou gosto pelos livros a cada vez que conseguia descobrir novos caminhos.

Quando a primavera chegou, trazida pela segunda metade de setembro, chegou também o anúncio de uma apresentação especial: a apresentação anual da Orquestra Sinfônica – o que exigia ensaio por muitos dias. O trabalho de Zé, naqueles dias, se resumiu ao básico necessário, que alguns chamam de “manutenção”. Sobrava tempo e o barulho produzido pelos metais da orquestra e outros instrumentos acabaram atrapalhando os estudos e as leituras de Zé.

E aí vem aquele ditado popular: “Deus fecha uma janela, mas a sua bondade enorme acaba abrindo uma porta”. E aquilo foi bom, pois o “faxineiro” passou a ser obrigado a conviver com aquele barulho, ao qual acabou se acostumando. Passou a gostar do que ouvia.

Ninguém precisa correr à procura do destino. Destino é algo que está traçado e tudo acontece quando tem que acontecer. Numa manhã, após demorados ensaios da Orquestra, fazendo o seu trabalho diário, Zé, o rude, encontrou um calhamaço de papeis esquecido por alguém – provavelmente o Maestro!

Guardou para entregar no dia seguinte. Quando tentou fazê-lo, o próprio Maestro afirmou que, por ter perdido, já conseguira uma nova edição e entregou para que Zé jogasse fora aquele velho calhamaço. Mas ele não jogou. Curioso, resolveu guardar para examinar depois.

Sem entender muito o que via naquela papelada toda, Zé indagou a um músico que estava descansando:

– Que calhamaço de papel é esse, amigo?

Sem muita preocupação, o músico respondeu:

– O nome disso, Zé, é partitura. Aí está tudo que o músico precisa saber para tocar.

A partir daquela noite, sempre que a Orquestra encerrava o ensaio e todos os músicos iam embora, antes de iniciar a limpeza necessária, Zé observou com atenção diferente, um dos instrumentos que os músicos não precisavam guardar ou cobrir. O piano.

Fabricado em madeira de lei, muito limpo e conservado, o piano conseguiu atrair a atenção do faxineiro, que a cada dia se interessava mais pelo instrumento. Usando aquela partitura velha jogada no lixo pelo Maestro, na qual Zé aprendera ler e destrinchar todos os sinais que ali estavam escritos, por todas as noites que os ensaios foram mantidos, após o encerramento e com o teatro fechado, sempre que terminava seu trabalho, Zé passou a praticar piano e aprendeu a tocar a partir daquela partitura velha.

Por algum tempo, depois de pedir demissão do trabalho no teatro, Zé, o rude, sumiu. Ninguém mais soube do paradeiro de Zé por alguns anos seguidos.

Entretanto, certa noite passeando em Paris, um casal brasileiro teve a atenção chamada por um cartaz num famoso teatro da capital francesa. A atenção deveu-se pelo cartaz estar escrito em português, de forma clara e direta:

– “Zé, o rude”! Era o chamamento para o concerto daquela noite na capital parisiense. Teatro superlotado naquela noite, na noite seguinte e na terceira noite.

O programa era aberto com o solo de “Tico-tico no fubá”, e encerrado com o solo de “Aquarela do Brasil”!

Zé, nem com aquela magistral mudança de vida em etapas, conseguia deixar de ser rude.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

JÁ TIVE UM TIO BEIJA-FLOR

O beija-flor da Vovó

Vovó, mãe da minha mãe, era uma negra de descendência indígena que nasceu em Pacajus, interior do Ceará, onde, por muitos anos viveram os índios paiacus. Pele negra, que ficou mais negra ainda pela constante e obrigatória convivência sob o sol e o calor abrasador – sem que uma coisa implique a outra.

Vovó era filha de Nanahme – quinta geração dos índios paiacus – e teve duas filhas por conta do convívio com os negros vindos da África. Assim, em nada nos diminui ou ofende o termo “afrodescendente”. Realmente o somos. Somos legítimos descendentes de negros africanos e de índios.

A necessidade de “sair de baixo da saia rodada da mãe” fez com que Vovó procurasse um rumo na vida. Aprendeu a fazer tudo que era necessário para viver onde vivia. Cozinhava, lavava roupa, matava galinhas, fazia fogueiras, torrava café, fazia farinhada, tangia animais, criava galinhas e tinha extrema habilidade com a foice, o machado ou com a vassoura. Aparou netos e bisnetos. Era uma parteira leiga – daquelas do lençol grosso e encardido mas sempre limpo.

O marido só vivia para ela e para o trabalho. Os dois fumavam no mesmo cachimbo. Era minha Avó quem cuidava das tarefas “domésticas” – enquanto a parte que exigia mais esforço físico ficava com o Avô.

Foi a Avó quem construiu no final da casa, e onde ficava a cozinha, um girau onde lavava as panelas de alumínio, as panelas de barro, os alguidás e os pratos, também de barro. Ali, debaixo do girau, quando caía algum resto de comida dos pratos que estavam sendo lavados, os pintos comiam. Caroços de feijão cozidos, sementes de melancia, de maxixe, de tomate, de quiabo – ao serem molhados pela água que caía da lavagem dos pratos e panelas, nasciam. Antes de frutificar, floresciam.

Do que florava, quando as galinhas não comiam, alguns pássaros se regozijavam. Faziam a festa, num ambiente totalmente doméstico. Entre esses pássaros, começou a aparecer um beija-flor.

Vovó, nesse tempo, não tinha idade tão avançada. Assim, pensar que ela estava caducando ao ouvi-la “conversar” com o beija-flor, nunca nos pareceu justo. Mas ela conversava, sim. E até insinuava que o beija-flor respondia:

– Quer mais um pôquim d´água bixim?! Quer meu fii?

E entendia que respondia e atendia ao pedido da minúscula ave. Aquele beija-flor, sem documento cartorial, sem qualquer papel, passou a ser “filho” da Vovó e, portanto, meu tio. Exigente, matriarcal e dominadora por excelência, minha Avó até fazia questão que os netos – sem exceção – pedissem a bênção diária ao “tio” voador. E não ganharia o naco diário de rapadura o neto que não pedisse a bênção ao bixim.

A noite chegava e algumas horas depois, o novo dia. Louça do café para lavar, feijão para limpar retirando os gorgulhos, lavar e botar no fogo. Uma rápida passada pelo girau e Vovó não viu o beija-flor. Pegou a vassourinha e foi tentar enganar a si própria, fingindo que limpava o quintal. Nova vassourada e nova olhadela para debaixo do girau. Agora uma olhada mais demorada. Não viu o beija-flor. Olhou, olhou e procurou mais demoradamente. Não viu nada.

– Meu Deus dos céus, por onde andará o meu bixim?!

Cuidando da montaria para seguir para a labuta na roça, meu Avô, sem saber muito do que se tratava, ralhou:

– Tá falando sozinha, véia?

– Que nada hômi, é meu bixim que num tô veno!

– Véia, derna de quando, um passarim que veve avuando, soltim nas capoeiras, é teu?

– É meu sim. Eu dô água, dô de cumê, dô meus óios espiando pra ele, admirano, banhano, entãosse é meu, sim! É mais um fii que crio!

O Avô amuntousse no animal e foi trabaiá. A Vovó continuou resmungando e, quando o sol começou a esquentar, de foice na mão foi pegar uma caminhada de lenha prumode fazê o dicumê. Tinha muita lenha na latada, que o Avô nunca deixava faltar. O que a Avó queria mesmo, era um motivo para sair para procurar o beija-flor.

Saiu, procurou e nada encontrou. Almoçou com o Avô, deitou rapidinho para uma madorna, mas o barulho dos chocalhos nas cabras e bodes no chiqueiro acabou acordando a Avó. Pegou a foice de novo e foi apanhar mais lenha – mas ela mesma assumira que era apenas um pretexto para procurar o beija-flor.

Entre entristecida e ansiosa, Vovó pisava em tocos, gravetos, touceiras de ortiga e em quem mais aparecesse pelo caminho. O barulho da corrida de um teiú sobre as folhas secas assustou Vovó, como se estivesse num pesadelo. Aquilo lhe chamou a atenção, e ela voltou a observar os galhos com mais interesse. Via besouros mangangás, calangos das costas verdes, chapéus de marimbondos e até cobras verdes. Mas não conseguia ver o que procurava: o “seu” beija-flor.

Por não ser primavera, não havia flores. Esperava encontrar o “seu” beija-flor pousado num galho qualquer, voando, rodopiando e fazendo aqueles voos tão rápidos que só os experientes conseguem vê-los.

O ninho e os ovos do beija-flor da Vovó

Assim, como que uma ação divina, o vento soprou mais forte. Galhos balançaram, folhas se afastaram e Vovó teve a atenção chamada por um ninho minúsculo. Num galho muito fino (que dificultava o acesso de cobras), lá estava um ninho que Vovó conhecia. Um ninho de beija-flor.

Usando a foice, Vovó procurou um galho ainda maior e o cortou, deixando nele um gancho. Teve a feliz ideia de abaixar o galho para conferir se era realmente o ninho do “seu” beija-flor.

Difícil saber, mas para ela, era o ninho do “seu” beija-flor e aquela era a única justificativa possível para o desaparecimento momentâneo dele da floração dos tomateiros nascidos debaixo do girau. Alegre, e mansamente foi soltando o galho puxado com o gancho, até ter certeza de que o “seu” beija-flor não perceberia que alguém se aproximara da sua futura cria.

Chegando à casa de volta, Vovó jogou caroços de milho no quintal e acabou pegando uma das maiores galinhas do terreiro. Colocou vinagre numa tigela, aparou sangue e mergulhou a galinha abatida na água quente para a devida limpeza. Preparou uma galinha à cabidela para comer com o véio, que não demorou chegar e foi logo se abancando na mesa posta também na cozinha.

– O que tem prumode cumê, véia?

Um sorriso largo, escondendo as lágrimas derramadas na tristeza com o repentino desaparecimento do “seu” beija-flor, chamou a atenção do Avô.

Galinha à cabidela da roça

– Galinha? Galinha à cabidela? Hoje é niversário de quem, muié?

– Véio, num é niversário de ninguém. É que tô avuando de alegria cuma um beija-flor, apois encontrei o meu bixim. O danisco vai sê papai e eu vô sê Avó de novo e tu, meu véio, vai ser Vovô de novo!

– Amém véia! Eu já tavo atarantadim catua tristeza, teu chôro dento de casa, se entristeceno pelos cantos, sem nem querê dá uma cachimbada cum teu véio!

– Véio, ante de cumê vamo rezá. A gente tá precisano de agradecê a Deus pela graça alcançada!

– A graça de tê comida na nossa mesa, né véia?!

– Não véio, por causa de que eu encontrei o meu bixim. Tomara que os meus netim nasça tudo direitim, cagraça de Deus!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SENADINHO DO ANGICO

Angico transformado em Senadinho

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali, também, que o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.

Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também onde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto a sanfona de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo no Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede para escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau.

Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-latas pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unhas das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo-do-cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá umbu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

Era a vida da roça e do Senadinho do Angico. Continua sendo inté hoje!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CORRIMBOQUE E O RAPÉ DA TIA MARIA

Rapé no corrimboque

Tia Maria era a primogênita da minha avó. Mais velha que minha mãe – nasceram apenas elas duas. Minha mãe era neta de índia e Tia Maria, também, claro. Apesar disso, existia muita diferença física entre as duas. Minha mãe tinha o cabelo tipo “Black Power” e Tia Maria tinha o cabelo tipo Iracema, a virgem dos lábios de mel, personagem de José de Alencar. Minha mãe era mais do lado negro, africano. Tia Maria era totalmente “índia”.

As duas foram criadas no ambiente das dificuldades inerentes à época – 1915 para frente e, muitas vezes, se deixaram flagrar juntas rindo das “coisas do mundo moderno” que chegaram a viver nos anos 60. As duas são falecidas.

Tia Maria não conheceu totalmente os aspectos orgânicos da mulher. Nunca menstruou. Sim, antigamente, provavelmente por conta da alimentação diferente dos dias atuais, as jovens só conheciam menstruação depois dos 18 anos. Hoje, as meninas já sabem disso aos 11 anos.

Tia Maria casou aos 16 anos com Antônio Luciano, cabra bom de trabalho. Verdadeiro mestre no manuseio da foice, da enxada e do machado. Nascido no interior do Mato Grosso, chegou ao Ceará com vinte e poucos anos. Arrumou trabalho e terra para morar. Nem “esquentou tamborete” namorando e já foi pedindo para casar com Tia Maria.

A partir daí, Tia Maria não conheceu menstruação. Engravidou, pariu aos nove meses. Antes de conhecer o ciclo menstrual, já estava grávida novamente. Era, como dizíamos – os sobrinhos – “saindo gente e entrando gente”. Foram 23 filhos, todos vivos até a maioridade. De noite, a casa, com tantas redes, parecia uma hospedaria em dia de lotação.

Tia Maria fumava cachimbo e mascava fumo – uma cusparada dela matava qualquer mangangá e paralisava qualquer rola-bosta.

Mas, a principal diversão de Tia Maria era “cheirar rapé”. Quando estava grávida – e sempre estava – não fumava nem mascava. Aliviava a tensão e bolinava o vício cheirando rapé. O rapé que ela mesma fazia.

Mandava comprar fumo de rolo, daquele bem curtido, desenrolava e punha a secar ao sol. Torrava o fumo num alguidar de barro próprio para aquele serviço. Fazia o mesmo com a semente da imburana e ainda acrescentava a casca seca e esfarelada do cumaru.

Em algumas cidades interioranas do Nordeste, o rapé é largamente consumido e utilizado para provocar espirros que livrem da “constipação”, aliviando a respiração. Alguns usuários se viciam – caso da Tia Maria.

Numa bela manhã Tia Maria resolveu merendar algumas mangas. Comeu por ela, pela criança que tinha na barriga e por ela de novo. No dia seguinte a caganeira não esperou pelo raiar do sol. Dia claro, e Tia Maria já estava correndo para o buraco da merda, local onde as pessoas faziam suas necessidades fisiológicas. Cagou que deu tremedeira. Continuou cagando aquela bosta rala o dia todo.

– Eita! Vai acabá cagano inté o minino! –  advertiu Antônio Luciano.

– Mermão, hômi de Deus, tu quer que eu faça o que?

Tia Maria havia escutado, mas não se lembrava quando nem onde, que além dos remédios caseiros, o bom para acabar com aquela caganeira era esquecer. Esquecer até que tinha fiofó. E, para esquecer ou lembrar de alguma coisa, Tia Maria sabia que o bom mesmo era cheirar rapé.

– Minino, traz daí o meu corrimboque! – pediu a um dos filhos que estava mais próximo.

Zé Luciano, de oiças bem abertas escutou o pedido-ordem da mãe e se apressou em obedecer.

Tia Maria deu duas cafungadas no rapé. Não demorou e a resposta veio. Começou a espirrar. E tome espirro e mais espirro.

– Mulé, tu tá suano frio, quidiabos tu tem? – arguiu Antônio Luciano.

E tome espirro e, a partir daí, quanto mais espirrava, mais Tia Maria se cagava. Era um espirro pelo nariz e uma chicotada de merda por baixo. E tome rapé e tome espirro e tome caganeira!

A queda de pressão e o suor frio de Tia Maria começaram a preocupar Antônio Luciano, que se apressou em chamar a Rezadeira do lugar, Gertrudes de Noca, ficando mais aflito depois que Tia Maria desmaiou. Mas os espirros não paravam. Nem a caganeira, agora de chicotadas!

Gertrudes de Noca chegou, começou a rezar “in cruz” com capim limão, arruda e pião roxo. Ao passar alho nos pulsos de Tia Maria e perceber que essa despertara, Gertrudes de Noca perguntou:

– Maria, acorda Maria! Tu tá sentino arguma coisa? Tu quer arguma coisa?

– Quero o meu corrimboque, com o meu rapé!!! – respondeu Tia Maria.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS ÁCAROS E OS CUPINS DA POLÍTICA BRASILEIRA

Ácaro em fotografia aumentada milhares de vezes

Não vou citar nomes. Não preciso, pois está muito fácil encontra-los. Basta dar uma olhada nos plenários das casas legislativas, para encontrar alguns dormindo, roncando ou peidando sem horário marcado, e até com baba escorrendo pelo canto da boca.

Partindo do princípio das exigências atuais da graduação de Mestrado/Doutorado para assegurar o direito de lecionar na maioria das universidades brasileiras, proponho esta pequena reflexão, indagando: “Quem graduou os que ensinam Ciência Política”?

Essa política brasileira praticada atualmente é fruto dessa “Ciência Política” tornada matéria em grade curricular?

Arre égua!

Votando desde 1960/61, tenho observado e deduzido que, um alto percentual de políticos brasileiros não conseguem ser superiores, tampouco diferentes dos insignificantes e invisíveis ácaros, ou dos cupins devoradores de madeira.

No exercício dos mandatos, sabe Deus conseguidos como e a que custo, se transformam em cupins. Fora dos mandatos, por incompetência de desempenho, se transformam em ácaros. Vegetam na poeira e se alimentam das bactérias produzidas nas frestas e casas de aranhas desenvolvidas nos armários, nos guarda-roupas e gavetas.

E é dali, daquele recôndito, que sabem e resolvem tudo aquilo que não fizeram no exercício dos mandatos. Opinam que é uma maravilha. Têm solução para tudo. Mas, repito: no exercício do mandato não fazem “porra nenhuma” ou “merda alguma”!

São siameses em qualquer lugar deste continente. Aqui mesmo neste Maranhão de rios abundantes e piscosos, onde por coincidência resido, encontramos alguns desses ácaros e cupins por excelência.

Esses, conseguem enxergar erros e defeitos em todas as ações propostas ou desenvolvidas pelo governo federal (não apenas no atual) – caso específico da malha ferroviária, que acena com a queda no custo do transporte de riquezas e alimentos produzidos no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goias e cidades do Norte. Exemplo? O boicote ao “Ferrogrão”.

Eis que, num estalar de dedos, os ácaros aparecem para enaltecer o provável crescimento e desenvolvimento econômico do Estado, apontando créditos exclusivos para o governo estadual?

É mole? Não cabe aí mais um sonoro “arre égua”?

Como é que alguém que conhece e vive no Maranhão, principalmente em São Luís, pode encontrar motivos para votar contra o marco do saneamento básico?

Pois acreditem, o atual Prefeito de São Luís, quando no exercício do mandato de deputado federal, votou contra a aprovação do marco do saneamento – e faz tempo a “Ilha” vive atolada na lama e na merda. As praias estão sempre impróprias para o banho.

Outros, relembrando a fala popular do jabuti na árvore, que durante as enchentes foram ali colocados por alguém, e tiveram a chance de fazer alguma coisa pela educação, principalmente estadual, entraram num casulo e, de jabutis se transformaram em cupins.

Cupins da política devorando a madeira

Sabem de tudo, sugerem soluções para tudo, criticam tudo que outros fazem mas, no cargo que podiam ter feito o mínimo, continuaram sem fazer “merda nenhuma”.

Pior, é constatar que, um mandato de quatro anos demora muito terminar, além de projetar sofrimento eterno num mandato de oito anos.
E, pasmem: a Política é uma Ciência!

Pelo menos é o que o progressistas afirmam.

Arre égua!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A GRAÚNA DE JOÃO BURETAMA

A graúna Nêga Véia”

Foi por muito pouco, um tantinho de nada, que João Buretama não pegou a cobra caninana comendo a graúna velha no ninho feito no pé de pau (uma catingueira que disputava a sobrevivência com um pé de avelós – este, conhecido também como “cachorra-magra” de reconhecido valor curativo contra alguns tipos de câncer). A bicha conseguiu fugir mais rápido que pensamento, enquanto Buretama desembainhava o facão Collins de 30 polegadas – quase uma espada.

Foi quando descansava à sombra da catingueira, que João Buretama descobriu o ninho da graúna. Subiu cuidadosamente, e encontrou o ninho, com dois ovos. Acompanhou o choco e quase ajudou no “parto” do casal de filhotes. O macho, dizem os especialistas, nasce sempre primeiro.

João Buretama trabalhava diariamente, cuidando do roçado, onde tinha algumas linhas de mandioca e feijão, sem contar pouco mais de cem touceiras de macaxeira e muitos pés de maxixe, que ficavam mais próximos da vazante do pequeno açude. Dali, tirava o alimento para a filharada e aderentes.

João cuidava de algumas covas de batata doce quando escutou um piado diferente, próprio de ave que foi pega pelo predador. Parou com a enxada, pôs-se a escutar, até descobrir que o som estranho vinha da catingueira. Andou rápido. Andou mais rápido ainda. Quase correndo, encontrou uma cobra caninana se esgueirando entre as folhas secas, consumando a fuga.

João desembainhou o Collins – que mais parecia uma espada – deu alguns golpes no chão, mas a cobra, com a fome saciada, conseguiu fugir.

– Bicha desgraçada! Comeu o meu passarim!

Na verdade, o passarinho comido pela cobra caninana não era de João. Era do mundo, era da natureza, propiciando o equilíbrio entre as espécies e enriquecendo-as. Mas, no interior é sempre assim. Criou, é “dono”.

Quando alguém vê um canário e ele volta ao lugar onde foi visto, ele passa a “pertencer” a quem o viu. Vai continuar solto, voando, cantando. Mas será sempre de quem o viu por uma ou mais vezes. São essas as coisas boas do sertão, que pontificam e diferenciam entre as coisas das cidades asfaltadas e metrópoles.

Dando uma leve pancada na testa, João lembrou dos ovos que tinha visto no ninho. Sabia ele que, provavelmente, o primeiro ovo, que muitos entendem como sendo o macho, já tivera a casca rompida há alguns dias. A fêmea dessa espécie (graúna, chico preto, melro – gnorimopsar chopi) é mais preguiçosa. Demora mais para nascer e a se movimentar em busca do alimento. Há quem afirme que seja por isso que ela – a fêmea – cresce mais.

Pois o filhote havia saído à procura de alimento quando a caninana pegou a mãe no ninho. A aproximação de João Buretama apressou a fuga da cobra que, em parte, tivera um bom alimento.

Atônito, João lembrou que o filhote que acabara de romper a casca do ovo morreria de fome. Com todo cuidado possível, parou o trabalho, pegou a graúna fêmea ainda filhote, e levou para casa. Não tinha gaiola, e aninhou a ave entre alguns panos velhos. Antes de voltar para continuar a labuta, recomendou à mulher que fizesse uma papa de farinha seca com leite de cabra e, com um garrancho improvisado de colher, tentasse dar para a nova inquilina da casa.

De noite, na chegada à casa, a primeira pergunta de João foi pela nova “cria” da casa. Aquele amontoado de carne com alguns “canhões” nascendo, apenas dormia. Se fosse humana, estaria roncando, certamente.

O tempo passou. A graúna cresceu. Ficou coberta de penas e até ensaiou os primeiros voos. João entendeu que chegara a hora de prendê-la numa gaiola, pois ela poderia voar e nunca mais voltar. Aí veio a mágica da natureza. João achava que não ficava bem chamar a graúna de “graúna”, ou simplesmente “passarinha”. Assim, batizou-a de “Nêga véia”. Embora fosse nova, ou apenas uma “adolescente”.

“Nêga véia” pra cá, “Nêga véia” pra lá, e assim os dias se passaram. Num belo fim de dia e João chegou a casa, trazendo uma gaiola de talos de carnaubeira que encomendara ao Zé do Pifo, um desocupado que vivia fazendo aquelas coisas. Muitas sob encomendas.

“Nêga véia” dormia tranquilamente sobre uma tábua, onde também ficavam um vasilhame de barro com água e outro com a comida (milho verde, papa de farinha, arroz cozido). João colocou tudo, inclusive “Nêga véia”, na gaiola, e fechou a porta da dita cuja.

Com o surgimento dos primeiros raios da claridade daquele domingo, João pegou um caneco com água e foi “moiá os óios prumode tirá a remela.” Pegou o café e, com o cachimbo numa mão, e a faquinha de cortar o fumo na outra, sentou-se num tamborete próximo de onde havia pendurado a gaiola com “Nêga véia”. Sentou, e continuou cortando o fumo, enquanto oiava pra gaiola.

A natureza se manifestara, como que por um passe de mágica. “Nêga véia” começou a desfiar um cântico tão maravilhoso que levava qualquer um às lágrimas: fiu-tu-fiu, fiu-tu-fiu-fiu! Repete a mesma coisa várias vezes.

“Nêga véia” nunca havia cantado antes. João parou de cortar o fumo e ficou de olhos arregalados e marejados, espiando e procurando entender aquilo.

Quem conhece a letra da música gravada por Gonzagão: “… furaro os óios, do assum preto, prumode assim, ele cantá mió” com certeza vai entender o que aconteceu.

Ninguém furou os óios de “Nêga véia”. João escutou mais uma vez o cântico de “Nêga véia” e começou a achar que tinha algo de diferente naquilo. Algo fora de rotina. Não era toda graúna que cantava pausado daquele jeito, como se pretendesse dizer algo, como se pretendesse falar com alguém. Como se pedisse alguma coisa. Não era um cântico. Era um lamento.

João tirou “Nêga véia” da gaiola e esticou o dedo indicador da mão direita, como quem pede o pé a um papagaio. “Nêga véia” pousou no dedo de João, e, em vez de voar, pulou para a tábua onde costumava dormir e comer. Viver, enfim. E, imediatamente, parou de cantar.

Finalmente, João entendeu que o cantar de “Nêga véia” era um lamento. Um pedido para sair da gaiola, para continuar solta como manda a Natureza. Assim como quem pretendia dizer que tinha algo a cumprir e, presa, isso ficaria difícil.

Os dias se passaram e “Nêga véia” começou a alçar voos mais altos e mais demorados. No fim do dia, ao entardecer, depois do cântico do Vem-Vem, regressava para casa e, pousada e educadamente sacudindo todas as penas como se tirasse algo do corpo, ficava arrepiada e adormecia. Assim era, até os primeiros raios do novo dia.

Os voos demorados de “Nêga véia” já não incomodavam tanto a João. “Nêga véia” aprendera a sair para procurar alimento, da mesma forma que aprendera a voltar ao fim do dia, cansada, como se voltasse de um dia de trabalho. E era. “Nêga véia” estava trabalhando. “Maquinando” alguma coisa.

Todos os dias, sem que João percebesse, “Nêga véia” voava, voava e, de mansinho, pousava entre os galhos daquela antiga e velha catingueira. A velha catingueira onde nascera e, sabia, onde também perdera a mãe, comida pela caninana.

O calor tórrido e o vento parado faziam do ambiente um mormaço só. A sombra da catingueira era um oásis e, depois de secar o suor com a ponta da camisa, João foi refrescar o corpo na sombra da catingueira, sua velha conhecida. Usando o chapéu de palha como se fora um travesseiro, João olhou para cima e, como que por milagre, viu a ave e a identificou como sendo “Nêga véia”. E era “Nêga véia”, com certeza.

Mas o que “Nêga véia” estaria fazendo ali, naquela fatídica catingueira, depois de tanto tempo? Depois de reconhecer “Nêga véia”, tinha também certeza que ela voaria, e voltaria para casa ao fim do dia, depois do cantar do Vem-Vem.

Mas, olhando mais fixamente, João percebeu que um galho estava mais grosso do que de costume. Fixou o olhar e percebeu que o “galho” se mexia lentamente. Abriu ainda mais os olhos e viu: era aquela mesma caninana miserável que comera a mãe e conseguira fugir e, agora, ali nas suas ventas, começava a armar o bote para pegar também “Nêga véia”.

Com violência hercúlea e a raiva de todos os demônios, João desembainhou o Collins e usou toda a sua força para cortar o galho e, ao meio, a caninana. “Nêga véia” continuava inerte no galho, não tão alto. Antes de alçar voo, “Nêga véia” foi pulando de galho em galho, até que se aproximou da caninana e, percebendo que ali não havia mais vida, voou e voou até chegar próximo da casa de João (e dela).

Quando o Vem-Vem cantou, ao escurecer, “Nêga véia” voou e pousou na tábua onde fora criada. E, como a dar vivas à Natureza por aquilo que pode ser considerada a vingança da morte da mãe, começou a cantar:

– Fi-fiu-tifi, fiu-fi-fiu!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VOLTANDO PARA O FUTURO

Molhe de “mastruço” para a “meizinha”

Vamos fazer hoje mais uma volta ao passado, caminhando sempre na direção do futuro. Venha comigo. Se aprochegue. Se ajunte à nós.

Vá ao balcão da empresa aérea, faça seu “check-in”, despache sua bagagem e se prepare para o embarque. Se possível, escolha uma janela na fileira de três bancos. Ponha o cinto de segurança. Boa viagem.

Ir para a frente, nada mais é que caminhar para voltar ao barro, de onde saímos, no passado. E todos, meninos, meninas, homens e mulheres farão essa viagem – para onde não existem parques de diversões, jardins zoológicos ou áreas verdes para piqueniques. Não sei dizer mais nada. Afinal, nunca estive lá.

Às quatro horas da tarde, quando, para alguns, o sol está mais frio, nos reunimos na calçada daquela casa e escolhemos os times. Seis para cada lado – sem que o dono da bola aceite ser o goleiro, embora ele seja gordo, branquela e muito ruim de bola.

Mas, a bola é dele, ué! Fazer o que?

O jogo começa, e Ribinha, o mais habilidoso entre os peladeiros, logo marca dois gols. Num desses, driblou até o goleiro improvisado, que aceitou jogar ali apenas um tempo, e até quando o adversário marcasse cinco gols.

No campo havia um lado onde o piso era de barro. De um barro mais duro. Numa nova tentativa de driblar o marcador, Ribinha perdeu o controle da bola e chutou o chão. Arrancou metade da cabeça do dedão do pé.

Coisa horrível! Zulive!

Ninguém tinha coragem de olhar, mas o acidentado saiu de campo por alguns momentos, foi ao lado, pegou um pedaço de pano velho, do qual fez uma pequena tira e amarrou o ferimento. Voltou para o jogo.

Se fosse hoje, o acidentado teria que esperar o ambulância do SAMU – Eita que o Brasil de hoje só tem baitola!

Como o sangramento não estancava, Ribinha pegou uma mancheia de areia, jogou na cabeça do dedão e voltou a amarrar o pano velho. Mas a pelada continuou e ainda mais animada. Ribinha, jogando como se fora um saci, ainda marcou mais um gol.

Finalmente o placar atingiu 5 a 3. Favorável ao time onde Ribinha jogava. Intervalo. Hora de beber água. Não tinha substituição, pois ninguém queria sair do jogo. Nem o gordo dono da bola, que era apenas um reforço para o time adversário.

A poucos minutos do reinício do jogo, o goleiro caiu errado, tocou com a mão no chão e ficou com o dedo “dismintido” – hoje o menino vai direto para a Traumatologia do hospital.

Aquele, naquele dia, apenas saiu do jogo e foi para casa. Aproveitou para tomar banho.

Voltou para a rua com o dedo “dismintido” envolto num emprasto de mastruço que a avó dele fizera. Dois dias depois estava totalmente curado.

Mercúrio cromo para machucados

O dia seguinte era um domingo. Dia de almoço em família, quando as avós paparicam os netos e escondem algumas balas jujubas para presentear os preferidos.

Não conheço uma única avó que não tenha um(a) neto(a) preferido. Se for menina, essa será aquela que mais parece com ela. Em tudo. Até tem os peitos pequenos e a bunda grande e arrebitada.

Vovó acordou cedo e foi pegar e matar duas galinhas caipiras para o almoço. As tripas, o mucuim e a moela eram separados para o guisado do Ely Neto, o neto preferido do avô Ely. E ninguém tascava. Pois sim!

Uma galinha precisava ser sangrada para a cabidela. Uma bacia de porcelana com vinagre e um pouco de sal, fora separada para aparar o sangue da penosa.

Ao fazer a sangria, a galinha “estrebuchou” e a avó acabou fazendo um pequeno corte num dos dedos da mão. Mas terminou o serviço. Largou tudo sobre a pia e foi cuidar de estancar o sangramento. Pegou o mercúrio cromo e “embebedou” num pouco de algodão. Pôs sobre o corte e amarrou o dedo com um pano velho. Dois dias depois estava com o dedo curado e já ajudando a lavar um tanque de roupas sujas.

Se fosse hoje, teria recorrido ao Plano de Saúde à procura de um médico que, com certeza (em conluio com os laboratórios – de onde recebe uma boa comissão de propina) pediria até eletro-encefalograma, exames de fezes, de urina e ainda requisitaria aquele exame que mede a pressão e o “doente” passa 24 horas com aquela merda colada ao corpo. Coisa de médico fdp e da geração Paulo Freire de uma universidade “pagou-passou”.

Merthiolate o santo curativo

Não esqueça que a próxima parada técnica para reabastecer é também o seu destino. Desembarque, e vá até o guichê da empresa e aproveite para marcar a sua volta à realidade e ao mundo atual.

Não precisa esperar a bagagem. Afinal, você embarcou apenas para matar a saudade e corrigir a caminhada na direção da volta ao barro. É para a volta que a gente anda tanto para a frente.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NEM ROMEU TAMPOUCO JULIETA

Serenata à namorada

Vou-me embora pra Pasárgada. Lá, não sou amigo do Rei, mas sou da Corte, sem ser vassalo e muito menos o “bobo”.

Vou pegar meu matulão, encher minha cabaça d´água e pegar a estrada para refazer o que fiz de bom na tenra mocidade. O ruim, nem pensar em refazer.

Volto ao tempo em que rapaz namorava moça e homem namorava mulher – e quem fazia o que faz hoje, desonrava a família. Tempos bons, quando até um inocente beijo na boca tinha que ser escondido.

Sexo com a namorada?

Zulive! Nem pensar!

Ou o jovem se masturbava no recôndito da camarinha, ou “demorava muito no banho”, ou pedia dinheiro aos pais para “trocar o óleo” com as prostitutas. E os pais sempre davam. Achavam melhor financiar a “troca de óleo” do filho, que escutá-lo, mais adiante, escolhendo como presente de aniversário um sutiã “Du Loren”!

Essa narrativa que ninguém me pediu, me levou de volta à “minha primeira vez”. Foi no Motel Calango.

Foi bom, e me custou alguns problemas. Deu bucho e teve resultado. Já se vão 62 anos!

Aquela falta de compromisso resultou na necessidade de jogar fora várias cuecas da marca Torre, branquinhas e lavadas com anil (quem lavava minhas cuecas era minha santa Mãe – hoje faço isso há mais de 50 anos). Uma gonorreia braba que me fez ter que recorrer à 1 milhão e 200 mil unidades de Benzetacyl. Fiquei curado, mas passei perrengue. Eita injeção filha da puta! Mas “seuve” e cura.

Quatro anos depois, a vida sorriu. O romantismo chegou, e trouxe com ele o meu entendimento do que era gostar de alguém. Homem gostando de mulher – no caso, rapaz, gostando de moça. Diferente de hoje, onde a escolha desnuda o convívio familiar.

Dinheiro e gastanças fáceis

Foi a partir de então, que conheci as mensagens contidas em algumas letras musicais:

“Contigo aprendi
Que a vida se renova a cada instante
Contigo aprendi
A conhecer o mundo, a ver adiante
Aprendi
Numa semana contar mais de sete dias
A ver maiores as pequenas alegrias
E a crer nos outros, eu contigo aprendi
Contigo aprendi
Que existe luz na noite mais escura
Contigo aprendi
Que em tudo existe um pouco de ternura
Aprendi
Que pode um beijo ser mais doce e mais profundo
Que posso ir-me amanhã mesmo deste mundo
As coisas boas eu contigo já vivi”

Mas, o jovem será sempre um eterno irresponsável que, somente levando tropeços vai conseguir amadurecer – isso, se enfrentar o mundo e os problemas. Se continuar “debaixo da saia” da mãe, o máximo que conseguirá ser é um baitola. Reclamará da vida, reclamará que sofre bullying – até que os pais lhe atendam e, para não vê-lo cair em depressão, lhe presenteiem com um sutiã.

Pois, por dois ou três anos consecutivos, ainda morando em Fortaleza, eu tinha cinco namoradas – e frequentava quase diariamente a casa de todas elas. Era um fdp.

Peguei um ônibus da Expresso de Luxo, viajei quase três dias e fui aprender a viver e amadurecer no Rio de Janeiro, onde morei por mais de duas dezenas de anos e casei pela primeira vez – enlace que me presenteou com duas filhas maravilhosas. Mas, também não tive vida fácil. Os tropeços serviram, como disse antes, para me ajudar a amadurecer e ser um homem de fato. Hoje, um idoso que faz qualquer coisa para não prejudicar ninguém.

Na Cidade Maravilhosa me tornei “macaco de auditório” do Feitiço da Vila, do Canecão, da Portela, do Botafogo de Futebol e Regatas e realmente aprendi que, “a vida se renova a cada instante” (tal qual a letra da música caribenha gravada por Moacir Franco).

Passei a gostar de gafieira, onde aprendi a dançar. Passei a amar o fado português e o tango argentino. Mas nunca esqueci, e jamais esquecerei as muitas serenatas feitas nas frentes das casas das namoradas.

Sem ser Romeu, e ela sem ser Julieta.

Esses tempos são o sal e o fermento da vida. E jamais voltarão.