JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A POESIA DA NATUREZA

O tapete de folhas do outono tecido pela Natureza

Com certeza trabalhando melhor que todos os poetas que existiram ou existem no mundo, entre 20 de março e 21 de junho, a Natureza usa o vento, e escreve no chão com folhas multicoloridas, poemas inteiros dignos de serem inseridos nas mais perfeitas coletâneas.

É o outono!

Naquele tapete multicolorido, por horas, o vento faz o seu papel e propicia o acasalamento das folhas de ipês com as folhas das acácias para garantir a geração de algo tão belo, que ninguém se atreveria a fazer, ou descrever. Só Deus, usando a natureza e o vento.

Nas primeiras semanas de março o ensaio se repete. Como acontece todos os anos. As folhas, no cio, amadurecem e caem abertas, prontas para serem possuídas e fecundadas – e os incautos ainda vociferam que o vento é fresco (no sentido da homossexualidade).

O trabalho do sol não fica fora. O da chuva, idem. Como componentes das ininterruptas edições poéticas, a cada ano, por três meses, o amadurecimento da Natureza numa gestação tão profícua quanto bela.

O viçoso tapete de folhas

As várias espécies de árvores, independentemente de qual família pertençam, no outono, se entregam à beleza da transformação e da renovação.
É o rejuvenescer!

É o florir!

É o preparar para o frutificar que se aproxima.

Novos frutos e novas sementes – a garantia da eternização do que existe de mais belo no planeta Terra. A árvore e seus frutos.

Mas, como seria a primavera se, entre ela e o outono não existisse o inverno?

É?!

Se logo após o outono, começasse a primavera?!

Será que as árvores seria mais belas, com seus encantadores ares e cores primaveris?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O BONDE E A GAIVOTA

Bonde 38 no trajeto para o Centro

1 – O BONDE

Era exatos 11 km a distância percorrida pelo bonde 38, do ponto final da linha, no bairro Perizes até o Centro da cidade. Esse percurso demorava um pouco mais de 1 (uma) hora para ser percorrido, por conta do excesso de paradas e o embarque e desembarque de passageiros.

Desde a estação Santo Amaro, até o abrigo público na Praça João Lisboa, naquele sobe-e-desce, o 38 carregava cerca de 250 passageiros do início ao fim do percurso. Na estação Santo Amaro, a demora não era tão grande, haja vista que o motorneiro Saturnino, apelidado por todos com o carinhoso “Salu”, virava a lança elétrica num piscar de olhos – também não demorava mudar de posição e dar partida para mais uma viagem. Agora, de volta.

Mas, algumas paradas estratégicas eram necessárias. Uma, na feira livre, quando o 38 trafegava de Perizes para o Centro, para que alguns vendedores de legumes, frutas e outros que tais descessem para vender seus produtos, e outros para “fazer a própria feira” da semana. Isso sem contar algumas pessoas que se dirigiam para o Centro no percurso da volta, após realizarem suas compras na própria feira livre.

Outra parada que muitos de hoje chamariam de “parada técnica”, acontecia quando o sinal ficava vermelho, avisando que vinha outro bonde no sentido contrário na mesma linha. Havia a necessidade de esperar a passagem do 30.

Pois, nessa espera, a vida de “Salu” foi embalada e teve uma drástica mudança. Durante as cinco ou seis viagens diárias entre os dois pontos finais, aquela parada no sinal vermelho, sempre por volta das 10 horas, foi transformada no alimento sentimental da alma do motorneiro. Na parada para esperar o sinal, “Salu” avistava numa janela de uma casa do outro lado da rua, uma bela e sorridente senhorita. Apoiada na janela, a jovem sorria, distribuindo a alegria que vinha de dentro de si.

Por vários dias, meses e anos, aquele verdadeiro presente acabou cativando “Salu”. Com o tempo, Salu sequer observava se o sinal ficara vermelho ou pouco lhe interessava se o bonde 30 passara ou não. Era o sorriso da jovem que o fazia parar.

Aos poucos, os meios de transportes da cidade e do bairro foram se modernizando. Não demorou muito, até que o novo Prefeito resolveu extinguir o serviço dos bondes, substituindo-os por ônibus, também elétricos, para aproveitar a rede aérea já instalada.

A empresa alocada para a prestação do serviço dos bondes foi avisada da medida drástica e intempestiva do novo Prefeito. Eis que, numa manhã de sábado, consciente de que aquele seria o seu último dia de trabalho, por volta das 10 horas, “Salu” cumpriu a parada técnica. O sinal estava vermelho. O bonde 30 não tardaria a trafegar no sentido contrário. “Salu” parou o bonde 38, se atreveu a acenar para a jovem, que abrira aquele maravilhoso sorriso, como se estivesse retribuindo a gentileza.

O 38 foi ao Centro, cumprindo seu destino. Na viagem de volta passaria ainda mais próximo da janela da jovem sorridente. Ela já não estava mais na janela. Aliás, na viagem de volta do bonde 38, ela nunca permanecia ali, encostada e distribuindo sorrisos. Foi aquela a última viagem do bonde 38.

Demitido, “Salu” recebera proposta para continuar trabalhando na empresa. Mas precisaria mudar de cidade: Rio de Janeiro, ou Santos. Preferiu resolver a vida, e foi fazer uma visita para a senhorita da janela.

Na residência foi muito bem atendido pelos pais da jovem. Inicialmente não demonstrou que era apaixonado pela beleza jovem que enfeitava aquela janela. Mas, ousou perguntar. E perguntou.

Como resposta teve o anúncio de que a jovem havia viajado para a Alemanha, para concluir um tratamento de saúde: era autista. Aquele lindo sorriso das 10 horas, na janela, era inconsciente.

Moça linda na janela

2 – A GAIVOTA

2304 o voo internacional

O voo 2304 internacional da Varig, partindo do Aeroporto de Guararapes (Gilberto Freyre) com destino a Espanha, e pouso programado para o Aeroporto Adolfo Suárez (Madrid-Barajas) acontecia três vezes por semana.

Foi, provavelmente, por conta disso que o sistema de fiscalização federal brasileiro centralizou em Recife a checagem e liberação internacional das viagens. Recife era o centro de atendimento, quando se referia aos viajantes do norte e nordeste. Anos depois, Belém passou a atender esse serviço, e hoje quase todas das capitais nordestinas têm seus serviços alfandegários e federais para esse fim.

Mas, era mais ou menos assim que funcionava, quando ainda existiam as linhas aéreas da Varig e da Vasp.

A rota, quem viajava sabia, era a mesma. Durou anos assim. A Varig também tinha o hábito de manter sempre a mesma tripulação. Isso, entendiam os administradores, garantia o bom desenvolvimento do trabalho, principalmente das atendentes de bordo (Aeromoças) que também ficaram conhecidas de alguns passageiros que viajavam com mais frequência para as terras bascas.

A coisa funcionava tão bem, que, entre as atendentes, um sorriso podia significar mais que um cativante sorriso. O sorriso dizia algo.

Aquela equipe funcionava bem. Suas famílias eram amigas e quase todos se conheciam.

O comandante da aeronave, Filemon, era tão responsável, amável e competente, que jamais confiava em deixar aquele moderno e potente avião (naqueles tempos!) com o piloto automático.

Com o passar dos tempos foi descoberto que ele, Filemon, mantinha um relacionamento forte e fervoroso com a aeromoça Anna Paula, um espetáculo de mulher, poliglota e muito competente profissional nas suas tarefas de bem-atender os passageiros, e manter o respeito dos demais amigos tripulantes.

À medida que o tempo passava e as viagens aconteciam, Filemon e Anna Paula se apaixonaram perdidamente. A responsabilidade na execução diária e pública do trabalho, entretanto, não lhes permitia transgredir ou confundir as coisas.

Eis que, certo dia e num raro momento de folga entre uma viagem e outra, Anna Paula precisou sair da rotina e foi visitar um parente que se encontrava hospitalizado. Ela receava que aquele parente se encantasse num dia e momento que ela estivesse do outro lado do Atlântico.

No percurso para o hospital, um acidente automobilístico ceifou a vida da jovem senhorita. Consternação total, principalmente entre os demais componentes da equipe de trabalho.

O voo 2304 tinha viagem programada para o dia de féretro. Ninguém da tripulação pode comparecer, muito menos Filemon, a quem competia conduzir a aeronave da Varig.

O sol brilhava no céu de brigadeiro, quando a aeronave levantou voo. Os vários sorrisos dos tripulantes, percebia-se, não tinha espontaneidade. Mas existiam.

A gaivota em voo transatlântico

Quando a aeronave atingiu a altitude estabelecida pelas normas, durante cerca de 20 minutos sobre o Atlântico, incrédulo, Filemon percebeu que, cerca de 200 metros da cabine de comando, uma gaivota plainava acompanhando o avião. Ele não teve dúvidas que, debaixo daquelas penas, com os pés esticados para impelir o voo, tinha alguém que ele conhecia.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A POESIA DO FAZER

Neruda, Camões, Gonçalves Dias, Cora Coralina, Drummond, Patativa do Assaré, Thiago de Mello, Dalinha Catunda, J. G. de Araújo Jorge, Marcos Mairton, Florbela Spanca e tantos outros que formam os campos coloridos da poesia que nos acaricia a alma, purificando nosso âmago e nos colocando na retidão do caminho para o bom e o bem da vida. Suas poesias, independentemente do veio ou das glosas que semeiem, são, verdadeiramente, os sustentáculos das nossas almas.

Mas, o fazer poético em versos são, além de tudo, linhas paralelas que um dia se encontrarão e cruzarão na impossibilidade imaginária, com o fazer das mãos, que transformam o barro em verdadeiros poemas artesanais para o resto da vida e o alcançar dos olhos.

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Patativa do Assaré

“Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.”

Patativa do Assaré

Nascido, criado e vivido em Assaré, alto sertão do Ceará, a 5 de março de 1909, Antônio Gonçalves da Silva começou a cantar tal qual o pássaro, e virou “Patativa”. Voou em nuvens azuis e brancas, próprias do “céu de Brigadeiro”, para dizer ao mundo que o sertão não brilha e vira notícia apenas pelo sofrer. Tem brilho e encantamento, também, no fazer. E danou-se a fazer poesia. Poesia diferente da maioria dos salões de luxo. Poesia de gente. Poesia real, tanto quanto o sangue que corre célere pelas artérias dos humanos.

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Fazer escultural do Mestre Vitalino

Ora, juntar letras no fazer das palavras e dá-lhes sentido e vida poética, não é magia nem feitiçaria. É arte e manifestação divina que Deus, o Onipotente, escreve com nossas mãos para o alento contínuo das vidas.

E, assim pensando, o que dizer com o fazer tirado do barro, da mesma matéria que faz os humanos, e dar-lhes a forma imaginária do viver que o fazer transforma?

Pois, assim fez algum dia, Mestre Vitalino, que produziu com o barro as imagens feitas e guardadas na retina.

“Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino, nasceu em Caruaru, Pernambuco, a 10 de julho de 1909, e faleceu na mesma Caruaru, a 20 de janeiro de 1963. Foi um importante artesão, ceramista popular e músico, sendo considerado um dos maiores artistas da História da arte do barro no Brasil.

Era filho de um lavrador e de uma artesã que fazia panelas de barro para vender na feira. Ainda criança, começou a modelar pequenos animais de seu repertório rural, como bois e cavalos, com as sobras do barro usado por sua mãe na produção de utensílios domésticos para serem vendidos na feira de Caruaru. Os primeiros bonecos que criava eram seus brinquedos, e o barro que mais tarde serviria de matéria prima para a sua arte, era retirado das margens do rio Ipojuca, local onde Vitalino brincava durante sua infância.

Nos anos 1920, Mestre Vitalino cria a banda Zabumba Vitalino, da qual é o tocador de pífano principal. Na década de 1930, possivelmente influenciado pelos conflitos armados do período, modela seus primeiros grupos. As cenas que remetem à ordem e ao crime no sertão brasileiro são recorrentes em sua produção. (Informações compiladas do Wikipédia)

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Dalinha Catunda

“Quero viver utopias
Tenho tanto amor pra dar
No calor da minha rede
Inda quero me embalar
Mesmo no outono da vida
Ai, ai, ui, ui,
Vejo meu sonho brotar.”

Dalinha Catunda

A cearense Maria de Lourdes Aragão Catunda, mais conhecida como Dalinha Catunda, filha de Espedito Catunda de Pinho e Maria Neuza Catunda, é uma cordelista, declamadora e contadora de histórias. Traz no sangue o dom artístico, pois a mãe era poetisa e a tia contadora de histórias. Natural de Ipueiras (CE), nasceu no dia 28 de outubro de 1952 e radicou-se, ainda jovem, no Rio de Janeiro.

Desde cedo aprendeu a transformar sentimentos em versos e prosas, e ao produzir trabalhos de reconhecido valor literário cultural, Dalinha Catunda conquistou espaço hegemonicamente masculino da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), ocupando a cadeira 25 cujo patrono é Juvenal Galeno.

No balançar da rede, tacando o pé na parede para dar impulso ao descanso, Dalinha dá luz aos versos numa gestação profícua e bela.

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Cerâmica poeticamente produzida na Ilha de Marajó

A arte marajoara é um tipo de cerâmica fruto do trabalho das tribos indígenas que habitavam a ilha brasileira de Marajó (próximo a Belém, no estado do Pará), na foz do rio Amazonas, durante o período pré-colonial de 400 a 1400 d.C. O período de produção desta cerâmica tão sofisticada esteticamente é chamado de “fase marajoara”, uma vez que existem sucessivas fases de ocupações na região, cada uma delas com uma cerâmica característica.

A fase marajoara é a quarta fase de ocupação da ilha. Sucessivamente as fases de ocupação são: Fase Ananatuba (a mais antiga), a Fase Mangueiras, a Fase Formigas, a Fase Marajoara e a Fase Aruã. Destas cinco fases, a Fase Marajoara é a que apresenta a cerâmica mais elaborada, sendo reconhecida por sua sofisticação.

A cerâmica marajoara foi descoberta em 1871 quando dois pesquisadores visitavam a Ilha de Marajó, Charles Frederick Hartt e Domingos Soares Ferreira Penna. Hartt impressionou-se tanto com o que viu que publicou um artigo em uma revista científica, revelando ao mundo a então desconhecida cultura marajoara.

Os marajoaras ou cultura do Marajó foram uma sociedade que floresceu na Ilha de Marajó ou Rio Amazonas na Era pré-colombiana. Em uma pesquisa, o arqueólogo Charles Mann sugere datas entre 400 e 1600 para a cultura. Contudo, atividade humana desde 1000 a.C. já tinha sido reportada nesses locais. A cultura parece ter persistido na era colonial. A cultura pré-colombiana do Marajó pode ter desenvolvido estratificação social e comportado uma população de 100 000 pessoas. Pesquisas posteriores encontraram origem natural para grande parte das estruturas, contestando exigência demográfica e de complexidade de relações de trabalho. (Informações compiladas do Wikipédia)

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Thiago de Mello

“Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.”

Thiago de Mello

Amadeu Thiago de Mello, nasceu em Barreirinha, a 31 de março de 1926. É um poeta e tradutor brasileiro. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador.

No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou à sua cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. A sua poesia escrita foi Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida que rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, um prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

BITÔNIO – O EREMITA

Bitônio o velho contador de estórias que virou eremita

Meninos, se aproximem. Peguem seus banquinhos e fiquem prestando atenção, sem cochilar, que vou lhes contar uma estória – que, talvez um dia vire história.

Na sequência, ele mesmo, Bitônio, puxou para mais perto o seu tamborete, ao tempo que limpava o cachimbo, preparando-o para mais um suprimento de fumo. Eram aquelas duas coisas que lhe davam o prazer: a atenção da meninada que compunha o “auditório”, e o prazer tragado do velho cachimbo de fumo.

Sentado, limpando a garganta com um pigarro enquanto acendia a “labareda” do tição para tocar no cachimbo, Bitônio atreveu-se a perguntar:

– Tá todo mundo prontinho prumode prestá atenção?

Como se estivessem participando de um ensaio de coral, todos responderam ao mesmo tempo:

– Taaaammoooossss!

Palco armado, plateia aflita e atenciosa, eis que as cortinas se abrem:

“Era uma vez um jovem nascido na riqueza material e na lucidez do trato e da convivência familiar. Ele era parte da família dos Cruz, que criava gado e explorava a agricultura na Espanha, mais propriamente na cidade de Soldeu, em Andorra, na Espanha, fronteira com a França. Antônio, uma forte homenagem que os pais faziam ao Santo. No Brasil, em meio à própria família, era tratado carinhosamente por “Bitônio”.

A família mudou cedo para o Brasil, e escolheu viver num povoado chamado Alegria, em Pedreiras, no Maranhão. Alegria ficava no pé da serra, lugar apropriado para a pecuária e a agricultura. Ali começaram a explorar a plantação de uvas com extensos parrerais; e criar gado, com a intenção de produzir queijos. Tudo ao pé da Serra da Libânia.

Os anos se passaram, a família cresceu com a chegada de outros filhos. Progrediu financeiramente, e acabou por se tornar conhecida e referência de tudo que estava certo. Família exemplar.”

Enchendo o cachimbo de fumo mais uma vez, “Bitônio” tentava fazer mágicas para que a plateia não percebesse que o personagem central daquela estória/história era ele mesmo. E continuou:

“Mas, a bondade só é boa e praticada, porque existem a maldade e os males fortalecidos por ela. Como dizem na maioria dos lugares: não há regra sem exceção.

A família do Cruz não seria a exceção da regra das maldades que destroem tantas coisas boas. Pois o nome dessa exceção era Agamenom, um dos mais novos da família. Ninguém conseguia explicações para sua vinda ao mundo. Com certeza não era obra divina.

Na vivência diária, todos trabalhavam juntos. A família não estava “dando conta de administrar de forma conveniente” os afazeres produtivos daquela “fazenda-família”. Houve necessidade da contratação de auxiliares, e isso começou a reunir pessoas vindas de diferentes lugares.

Eis que, de uma família descendente de franceses, apareceu Luciette, cuja formosura chamava a atenção de muitos. Pois Luciette foi contratada como responsável para atender e encaminhar os pedidos e encomendas dos itens ali produzidos e vendidos.

Não demorou muito, Luciette – embora o objetivo inicial não fosse esse – literalmente, enfeitiçou Bitônio.”

Curioso, demonstrando que prestava atenção à estória/história, Carrinho indagou:

– Tio “Bi”, ela botou feitiço no homem?

Embaraçado com a pergunta e mais ainda com a provável resposta, Bitônio atendeu Carrinho:

“Presta atenção, menino. “Feitiçou”, queria dizer que fez com que Bitônio se apaixonasse por ela.” E continuou a narrativa.

Os dois resolveram casar e o desejo foi atendido e abençoado por todos os familiares. Houve aquela enorme festa com o povo e amigos mais próximos comparecendo em grande número.

Aconteceu, entretanto que, invejoso e preocupado apenas em dificultar a vida e atrapalhar a felicidade dos outros, Agamenom resolveu investir contra Luciette. No início recebeu represália. Mais adiante as coisas começaram a mudar.

O que aconteceu foi que, poucos anos depois, Luciette cedeu e aceitou trair o marido que, até então a tratava muito bem e sem dar motivos para que ela o traísse. Mas acabou traindo. E o fez de forma tão explícita que todos souberam e ela não conseguiu mais esconder.”

A águia voou para o distante além

Nesse instante, a plateia embevecida, aguardava a continuidade e o desenrolar da estória/história, enquanto Bitônio voltava a abastecer o cachimbo. Novo pigarro, e continuou a narrativa.

“Quando a maioria esperava uma reação violenta de Bitônio, ele resolveu que a apenas aparente solução que o momento exigia, era acabar com a vida dos dois. Mas, num isolamento inicial, recompôs suas ideias e perguntou à si mesmo: o que ganharia com isso? Ele mesmo respondeu: nada!

Na madrugada seguinte, sem falar nada sequer para os pais, Bitônio arrumou algumas roupas, fósforo, querosene, lamparina, sal, açúcar e uma panela velha e saiu de casa sem destino certo. Acreditava que Deus o iluminaria e o ajudaria a encontrar conforto para continuar vivendo.

Quando o galo cantou anunciando o novo dia, quase todos reunidos para o desjejum, apenas alguns deram pela ausência de Bitônio. A mãe, aflita, ordenou que alguém fosse acordar Bitônio para o café.

Na volta, uma empregada, demonstrando tristeza, disse:

– “Seu Bi, não está na cama, nem dormindo”!

Foi, então, naquele momento que todos os olhares se voltaram para Luciette e Agamenom – e eles puderam sentir que a vida mudaria a partir daquele momento. Terminaram o café e, apressados, levantaram.

A coruja branca virou nova paixão

Bitônio procurou Deus e encontrou. Encontrou ensinamento e a luz que iluminou sua vida. Descobriu, entre outras coisas, que é possível o ser humano ter bons propósitos, abominar a violência e, por fim, viver sem a companhia de mulher. O que ele nem ninguém consegue, é viver sem Deus.

Alguns anos depois chegou à família, a informação que dava conta que Bitônio vivia sozinho, como um verdadeiro eremita, na parte mais alta da Serra da Libânia. Se acostumara com tudo, incluindo as dificuldades. Descia quase todos os dias para pescar no riacho que, com certeza, fora colocado ali por Deus e descoberto para saciar sua sede e matar a fome.

Todas as carências de Bitônio eram resolvidas pela Natureza. A Paz chegou junto com o gosto de apreciar os pássaros, como se um São Francisco de Assis estivesse presente nele.

Beija-flor os mensageiros entre Deus e Bitônio

Convivendo com as aves, a Natureza, e podendo usar o que Deus colocara à seu dispor, Bitônio transformou-se num homem bom, útil e sem maldades. Com o coração voltado apenas para fazer o bem. Era a retribuição do que Deus lhe proporcionava.

O tempo passou – nada como esperar o tempo passar, para fazer alguém enxergar as melhores soluções! – e Bitônio resolveu deixar o seu casebre humilde entre duas pedras grandes, inicialmente, uma vez por ano. Transformou-se num eremita contador de estórias/histórias, preferindo a plateia de meninos, que ele, dizendo apenas para si, acreditava que poderiam ser seus filhos, se o casamento com Luciette não tivesse sido interrompido pelo destino – mas ele acreditava fortemente, que o acontecido o levou a encontrar Deus e as boas atitudes.

Na primeira visita de Bitônio à antiga casa da fazenda, teve conhecimento que Luciette e Agamenom, envergonhados com o que fizeram, resolveram pelo suicídio através de envenenamento. Os pais também faleceram e os irmãos mais jovens passaram a tomar conta da fazenda.”

Ainda houve tempo para que uma criança, aflita e curiosa, tivesse coragem para perguntar:

– “Tio Bi, o “Bitônio” também morreu?!

A resposta, claro, não poderia ser outra:

– Não filha. Bitônio estará sempre vivo na lembrança de vocês. Vocês lembrarão deles, sempre que tratarem bem um beija-flor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AFINAL, QUE PAÍS É ESTE?

Vacinação contra o C-19 – atendimento Drive Thru

Não ainda insistir ou teimar. O Brasil não é um país para ser administrado ou vivido por amadores. Tem que ser mesmo “profissional”.

No próximo 30 de abril, se Deus me permitir, chegarei aos 78. Lúcido, revascularizado (safenado) há quase dez anos, vacinado contra o C-19 no último dia 4 (primeira dose), espero conseguir tomar a segunda dose, essa programada para o próximo deia 25. Coronavac. É a que tem, e não a que eu tenha escolhido.

Me entendo como gente que entende as coisas, desde que tinha 12 anos de idade. Já se passaram 66. Nasci no Ceará, de lá saí para o Rio de Janeiro, conheço um pouco do Paraná e já fui várias vezes a passeio em São Paulo. Estive em Recife, que não conheço; em João Pessoa e Campina Grande, que também não conheço; em Natal, em Belém, em Salvador, em Brasília.

Querem minha sinceridade?

Pois bem. Nunca vi, desde os 12 anos de idade, um país tão esculhambado, avacalhado, escrotizado com esse nosso Brasil. Ô país filho-da-puta, que tem um magote de filho-da-puta, gente!

Aqui tudo que é contrário ou do contra, é valorizado e funciona bem. No Brasil, é bonito dar o rabo e quem acha isso feio é rotulado de homofóbico e está praticando crime. O certo é queimar a rosca. Então queimem seus porras. Dêem até virar carvão!

A pessoa pode escolher abortar (está cometendo um crime contra uma criança); pode escolher ser lésbica ou gay, que estará exercendo o seu direito de vida. Mas, escolher ser “bolsonarista”, não pode. Quem faz essa escolha é fascista, é miliciano e outras merdinhas mais.

Roubar é “top” (desde que roube quantia que dê para dividir com quem deveria puni-lo). Ser honesto e correto, é apenas um apreciador da frase célere de Rui Barbosa.

É o país da esculhambação, ou não é?

Estão tentando implantar o auxílio do VAR na arbitragem do futebol. Observem como se com porta o Árbitro de futebol na Europa, e o tempo que ele leva para tirar uma dúvida e decidir o que fazer – e, depois, compare com o tempo que leva um mesmo Árbitro apitando um jogo de futebol no Brasil, quando precisa recorrer ao mesmo VAR. É uma viadagem sem tamanho. Estica o bracinho para um lado, estica o bracinho para o outro lado e acaba decidindo o que o VAR “determina”, e não o que realmente aconteceu.

É o país da esculhambação, ou não é?

No Brasil estão cobrando mais pressa na vacinação contra o C-19. Tem quem cobre que, alguns países até já terminaram de vacinar, mas esquecem que o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, que é um país continental de trocentos locais de difícil acesso e o escambau. Mas, cobram pressa na vacinação. E dizem até que não há vacina para atender a todos.

Atendem idosos dentro dos carros de passeio. Atendimento “Drive Thru”. Mas, quem não tem carro, é atendido em moto, bicicleta, velocípede, canoa, cavalo, e bem que poderia ser atendido em avestruz ou camelo.

É o país da esculhambação, ou não é?

Grande Otelo – o eterno “Macunaíma”

No Brasil, tudo que é sacanagem frutifica. E não é de hoje que isso acontece. Lembrem o “Febeapa” do Sérgio Porto. Lembrem os célebres romances escritos por Jorge Amado, “Dona Flor e seus dois maridos” – tudo é uma sacanagem só. E é uma das obras mais lidas desse autor. Policarpo Quaresma, você já ouviu falar? Pois é. É por aí que vai a coisa neste país.

É o país da esculhambação, ou não?

Mário de Andrade, no século passado escreveu “Macunaíma” e resolveram rotular de “o herói sem caráter”. Não!……. é o puro herói brasileiro, sem precisar acrescentar nada!

Raul Seixas – ícone da mistura da verdade com a esculhambação

E na música?!

Claro que temos muita cosia boa na música – na música antiga, diga-se. Por que a atual, se misturarem com bosta não fará diferença. Só vai aumentar o “monte” e o tolete. E aumentar a catinga.

De repente, assim não mais que de repente, a mídia (que tem parte que dá para juntar com a música e a bosta e também só vai aumentar o volume) descobre “gênios” e os leva aos píncaros da glória. Endeusam. Leva-os aos Olimpo.

Alguns – por falta de inteligência, mesmo! – confundem letras inteligentes, de qualidade que alguns compositores do passado reuniam. Exemplo? Entre todas as letras escritas por Djavan, quem encontrar uma única que não preste, vai ganhar uma noite de paz e felicidade ao lado do Maurino Júnior, o meu amigo mais querido que eu não tive o prazer de conhecer pessoalmente – mas, qualquer dia Luiz Berto vai nos reunir para saborearmos uma fava rajada com colchão de bode francês. E tendo o prazer de escutar os solos geniais de Goiano ao violão.

Além de Djavan, para mim, um “gênio”, tivemos Belchior, Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Dolores Duran, Taiguara, Vinícius de Moraes, Ivan Lins, Tom Jobim, e isso sem esquecer Humberto Teixeira e João do Vale que, por décadas disseram o que de melhor aconteceu em musicalidade e poesia vindo do sofrido Nordeste.

Como esquecer Falcão e Raul Santos Seixas, baiano que veio ao mundo em 1945 e nos deixou aos 44 anos?

Esse, o verdadeiro “Maluco Beleza” que nos presenteou com “Gita”, “Ouro de tolo” e “Mosca na sopa”, coroando e confirmando que, “tudo que é esculhambação” prolifera entre nós.

É o país da esculhambação, ou não é?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS HEROÍNAS E AS CHORONAS – HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Lágrimas espontâneas e sinceras – de alegria ou tristeza

Prevenir é melhor que remediar. Assim, ensinado que fui por uma mulher (minha Avó) e trazido ao mundo por outra mulher (minha Mãe), alucinado por mulher, na cama, fazendo sexo, ou em qualquer outra atividade – nunca comemorei nem entendo por que de termos um “Dia Internacional da Mulher”. Para mim, sem frescuras, todo dia é dia da mulher.

Mas, também sei – e é essa minha opinião! – há mulheres que sequer deveriam existir. São problemas, sim. E problemas de difíceis soluções que vieram ao mundo apenas para atazanar, inclusive a si próprias. Para essas, tem que ter um dia especial, sim: o Halloween!

Agora, também sem frescuras, há uma situação maravilhosa: essas mulheres difíceis, problemáticas (ainda que sem necessidade de serem atingidas ou provocadas), são em número significativamente menor. E é isso que é bom!

Neste instante, entretanto, o que queremos mesmo é falar sobre o “Dia Internacional da Mulher” – neste momento com comemorações e enfoques diferentes, por conta dessa pandemia que nos prende a tudo e a todos, e nos impossibilita do aconchego da convivência.

Acácia Imperial (Cassia fistula), popularmente conhecida como “Acácia chorona”

Como escrevemos parágrafos acima, “todo dia é dia da mulher”, para os que gostam da fruta, e para os que respeitam como parceira forte na construção familiar.

Não cerramos fileira ao lado dos que defendem essa coisa do “empoderamento” feminino, haja vista que nossos antepassados nos ensinaram valores que até hoje respeitamos, tipo: “uma casa sem mulher, não é uma casa e jamais será um lar”.

A mulher precisa trabalhar? Tem o direito de construir sua independência?

Claro que tem todos esses direitos. Mas, não haverá como separar as coisas e haverá sempre uma cobrança, ou uma jornada que vai além do trabalho profissional.

A sociedade chamada moderna, nos últimos anos vem conseguindo impor valores diferenciados (e quem não aceita-los, será rotulado de machista), mudando o dia-a-dia de muitas casas, com a mulher saindo para o trabalho e, em alguns casos, assumindo o protagonismo, com fatia maior na assunção das despesas financeiras. Nada de errado nisso.

Queiram ou não, isso tem causado diversos problemas para as famílias. Às vezes, exigindo jornada tripla para garantir o “comando” da família, ou a pecha da desestruturação familiar por conta do “abandono dos filhos” na condução comportamental e educativa. Uma babá, uma governanta, uma cuidadora jamais conseguirá substituir a mãe.

Mas, sentimentalmente falando, a mulher, por sua participação no mundo, faz jus a todas as homenagens – e ainda poderiam ser acrescentadas outras.

Mulher é um ser especial. Quando quer ser especial. E é um ser diferente, quando quer atrapalhar a vida de outrem – jogando fora todos os bons valores.

Eu, particularmente estou no “segundo casamento” (sou divorciado do primeiro – de onde nasceram duas filhas, ambas adultas e independentes. Residem em Fortaleza, com a mãe) – e isso pode significar o quanto gosto da parceria da mulher.

Sou radical. Acho que um casal é formado por um homem e uma mulher. As demais escolhas, para mim, nada mais são que um acinte à religiosidade – e todos que pensam diferente pagarão por isso, no dia da prestação de contas. Mesmo assim, por saber que cada um responderá por si, a escolha de cada um nada me diz respeito.

A mulher é especial. A mulher chora. A mulher não é apenas uma rosa. A mulher é uma cachoeira de acácias distribuindo beleza, vida, perfume e sensibilidade. A mulher é uma acácia chorona.

Lágrimas femininas na semeadura do amor

Bobagem grande, imaginar que a mulher é uma chorona. A mulher é o ser mais forte que Deus colocou na Terra – deu-lhe não apenas a capacidade de ser o principal meio de geração da vida, com um “ninho” que suporta adversidades, traumas e é de uma estrutura muito frágil, apesar da capacidade ímpar de reconstrução e recuperação. É da mulher, o dom divino da geração da vida.

Como diz o compositor Ivan Lins na letra do seu sucesso que rende homenagem às mulheres:

“Essa firmeza nos teus gestos delicados
Essa certeza desse olhar lacrimejado
Haja virtude, haja fé, haja saúde
Pra te manter tão decidida assim
Que segurança pra dobrar tanta arrogância
Que petulância de ainda crer numa esperança
Quem é o guia que ilumina os teus dias?
E que te faz tão meiga e forte assim
Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher
Como te atreves a mostrar tanta decência?
De onde vem tanta ternura e paciência?
Qual teu segredo, teu mistério, teu bruxedo
Pra te manter em pé até o fim?
Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher”

Acácia branca (Moringa oleífera) importante na Fitoterapia

A intenção foi essa, sim. Juntar a mulher e a sua disponibilidade a qualquer momento (se for mãe, então, o filho ou a filha – não apenas serão protegidos em qualquer circunstância, como poderão contar com ela, inclusive com a disponibilidade da própria vida) compará-la com as acácias, de quaisquer cor, perfume ou utilidade.

As acácias são, por rigor, qualquer mãe.

Amarela, branca, roxa, rosa ou vermelha – e as mães, nova, meia idade ou velha, estarão sempre disponíveis.

Se me fiz entender, por isso que, todo dia é dia da mulher!

Acácia vermelha (Sesbania punicea) de todas é a mais rara

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PANDEMIA DO C-19 – O QUE É MESMO “ESSENCIAL”?

Hoje nosso texto vai fazer jus, literalmente, ao título escolhido anos atrás para a coluna. Vamos enxugar gelo e, para isso, vamos colocar nossas luvas plásticas – pouco diferentes das que estão sendo usadas aqui e alhures, como meio de prevenir o contágio pelo C-19.

Assim, para não ficarmos tão distantes do assunto Covid-19, que tem tomado até mais da metade do tempo que qualquer padre tem usado nos sermões das missas dominicais, vamos falar do “fique em casa”, que está levando alguns miseráveis à cometer suicídio, por não vislumbrarem qualquer perspectiva de solução.

Dito isso, vamos relembrar de algumas profissões que, ainda que não fossem consideradas essenciais, não haveria, jamais, como obedecer o “fique em casa”.

* * *

Arrumador de pinos de boliche:

Você já imaginou, em algum desses dias atuais, baixar o aplicativo no seu celular e fazer uso de uma assinatura para reservar um horário para jogar boliche com um amigo obedecendo todos os critérios recomendados pelas autoridades sanitárias, com o objetivo de reduzir ao mínimo a possibilidade de contágio pelo C-19?

Ou, digamos, você usa de todos os seus direitos para marcar um horário especial naquela Casa de Jogos do Morumbi, bairro luxuoso da capital paulista e, assim sem mais nem menos, o nazi-governador daquele Estado decreta o “lockdown”?

Arrumador de pinos de boliche em plena atividade

E agora, você vai se divertir jogando boliche aonde?

Tudo isso, porque o calça-apertada considera que o “Arrumador de pinos de boliche” não tem família para sustentar, e sua profissão não é essencial. Pode até não ser essencial. Mas, você precisa diminuir o estresse jogando boliche, ora! E quem vai usar o tempo para jogar é pagador de impostos.

* * *

Despertador humano (batedor):

Essa profissão de “Despertador humano”, uma dia já foi muito importante. Importantíssima, diríamos!

Sempre foi profissão executada por mulher, quase que na sua totalidade. Foi oficialmente extinta no ano de 1876, época da Revolução Industrial na Europa.

No Brasil, entretanto, a “profissão” teve curta duração, haja vista que nenhum marido aprovava que sua mulher acordasse e levantasse com o dia clareando para ir tocar canudinho de som na janela de alguém. Deu uma confusão miserável e, querendo ou não, os familiares da casa de onde saíra a mulher também acabavam “despertados”. Despertados por tabela, digamos.

As antigas “profissionais Despertadoras”

Agora, a confusão era maior, quando uma mulher tocava o canudinho ao lado da janela onde um casal dormia, e a dona da casa acordada bradava: “acorda e levanta, pois a rapariga já está te chamando para as safadezas.” Como diria Adonias para Maurino – “deu uma confusão do caraio, para filho-da-puta nenhum ficar sorrindo.”

Nessa pandemia do C-19, com o “fique em casa” determinado pelas autoridades sanitárias, a profissão foi literalmente extinta.

* * *

Leitor de fábrica:

Operários escutam Leitor enquanto trabalham na fábrica de cigarros

Evidente que não conhecia todos os acometidos de C-19 que foram a óbito. Mas, uma coisa eu asseguro: mais de 90% dos acometidos pelo coronavírus que moravam em São Luís e foram a óbito, eram fumantes ou ex-fumantes. Os pulmões, aprendi na universidade, não são um órgão que se “limpe” dando descarga, como um vaso sanitário. Nossas constantes mudanças climáticas exigem mais trabalho dos pulmões – que ainda estão sendo sacrificados com o uso intermitente da máscara.

Assim, é evidente, que o “Leitor de fábrica” cuja profissão era promover entretenimento aos operários da fábrica de cigarros e outros tabacos é alguém dispensável. Descartável e nem precisa vir mais ao trabalho, pois foi uma profissão que desapareceu.

Agora, o operário da fábrica de cigarros, nesse ninguém toca. Afinal, quem produz mais linfomas pulmonares ao mesmo tempo que gera mais arrecadação para os estados?

* * *

Coletor de sanguessugas:

Sanguessuga coletado por profissional especializado

Até o fim do século XIX, a modalidade de tratamento médico conhecida como sangria ainda era utilizada em boa parte do mundo. E isso podia ser feito com o auxílio de sanguessugas, que eram vendidos aos médicos pelos coletores. Hoje a sangria terapêutica ainda é utilizada em casos específicos, como em pacientes com hemocromatose, policitemia vera e poliglobulia (provocada pelo excesso de glóbulos vermelhos no sangue). Mas sanguessugas não são mais necessários.

Tanto quanto a utilização pela medicina, o “Coletor de sanguessuga” foi abolido e tangido das profissões brasileiras através das leis. Senado federal, Câmara federal, assembleias estaduais, secretarias estaduais e municipais, vereadores e auxiliares fizeram lobby e tangeram com sal grosso e cabo de vassouras não apenas os sapos cururus. Tangeram, também, o “Coletor de sanguessuga”. Daí, a exagerada quantidade que temos desses “insetos”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

FAÇA-SE A LUZ! (DISSE DEUS) E, LOGO, AS TREVAS FORAM ILUMINADAS

Luzes iluminando a Terra

Palavras têm significados mil. Mas, o que vale mais é o significado que queremos dar. Para sair das trevas, qualquer pessoa ou objeto precisa de luz. Ainda que tênue, mas, luz.

Condenar à escuridão é impedir o direito de sair das trevas. O arado ou o trator, qualquer um, impede que o grão saia das trevas, aterrando-o na germinação. A semelhança é voraz, e pertinente ao aborto. Em gestação, ao bebê é negado o direito de sair das trevas para sorrir ou chorar com a luminosidade da vida, também chamada de luz. A mãe, ao dar à luz, tira o bebê das trevas. É legal ou humano negar a luz para quem está nas trevas?

Assim, também, ensinar à quem não sabe e quer aprender, é mostrar a luz. A luz a que todos e qualquer um têm direito. A luz do saber. O direito de sair das trevas do desconhecimento, da ignorância.

Uma nova vida ainda nas trevas

Não lembro mais onde li: “…. na construção do mundo, quando tudo ainda era trevas, Deus, na sua onipotência, criou a luz, dizendo: faça-se a luz!

E assim a luz foi feita, e tudo ficou claro”. Também não sei “quem soube disso” primeiro, já que não existia nada além das trevas e do mundo que estava sendo criado. Mas, em Deus eu acredito e acreditarei sempre. Deus é a própria esperança e Fé.

Da mesma forma, também não sei de onde viemos, a não ser que somos gerados no ventre de uma mulher (essa, também segundo os ensinamentos religiosos, criado por Deus, o Onipotente, a partir de uma das costelas do homem – também não sei quem viu isso para registrar. É o ensinamento da Fé.)

Há quem diga (e eu mesmo já repeti isso várias vezes) que viemos do barro, e para lá voltaremos. É um raciocínio lógico, principalmente após a morte.

Entretanto, por mais que se aproxime do mais provável início da vida de todas as espécies, incluindo a espécie humana, a ciência jamais terá o crédito do que seja realmente verdadeiro. Afinal, somos a evolução do espermatozoide, somos um transformação do macaco ou somos bonecos feitos do barro.

Se assim for, palmas para o Mestre Vitalino (Vitalino Pereira dos Santos) que fez milhares de “gente e animais” sem precisar produzir espermatozoide – e nem lhe cobraram “espermograma”. Seria Vitalino apenas um Mestre, ou um novo Deus?

Assim, raciocinemos: claro que o caminho mais curto e próximo da verdade é o caminho da Fé. A Fé em Deus, e na sua extrema bondade, ao criar o homem e todos os seres vivos da Terra.

Pois, se Deus criou a luz, tirando das trevas o universo e tudo que existe, por que transgredimos e nos arvoramos do direito de optar pela manutenção de humanos nas trevas. É. Nas trevas da placenta, e os condenamos eternamente às trevas, quando discutimos e aprovamos o aborto?

Ainda que nos casos de violência (estupro) ou malformação genética e reprodutiva, por que “aprovar o aborto” e não entender a cessação do sofrimento e da dor, aprovando a eutanásia?

Haverá sempre alguém que se atreverá à responder: apenas à Deus cabe o destino da vida das pessoas. É mesmo? E o aborto, quem recebeu procuração de Deus, o Onipotente?

Será que, aprovando o aborto, estamos também aprovando o não nascimento e proliferação do grupo sem caráter, do grupo que se alimenta do ódio e procura multiplicá-lo?

Não sei. Se você sabe me explique. Mas, aproveite e desenhe, para meu melhor entendimento e aceitação.

Aproveite e me convença: “por que os velhos morrem”? Claro que eu sei que não apenas os velhos morrem.

Velhice a caminho de volta às trevas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTRADA E A VEREDA

Na longa estrada da vida algumas pedras precisam ser vencidas

Ainda consigo lembrar. Eu tinha exatos dez anos de idade, quando precisamos sair de Queimadas, naquele tempo um simples povoado de Pacajus. Meu pai, que havia sido demitido de um colégio onde lecionava Aritmética, voltava a trabalhar. Agora, nomeado como Fiscal da Fazendário (Secretaria Estadual da Fazenda do Ceará), e tínhamos que mudar para a capital.

Antes da viagem, uma olhada rápida no quintal da Vovó. Pela última vez. Eu ia embora, e ali deixava as mangueiras, os cajueiros, as galinhas, os patos, os capotes, uma jumenta, o cachorro Pintado e aquele barulho melódico de todos os fins de tarde do Vem-vem e das cigarras. Também lembro, ainda, que eu fui o último a me despedir de Vovó, abraçando-a também pela última vez. Depois do abraço, corri e deslizei o último pau da porteira, fechando-a.

Nunca mais voltei ali. Nunca mais olhei minha Avó, nem nunca mais cacei passarinhos, nem escutei os voos rasantes das corujas. Os pirilampos ficaram para trás. As mutucas, também. E ali se encerrava um dos mais importantes e construtivos ciclos da minha vida. Ciclo da infância, da liberdade, e das brincadeiras respeitosas.

Fui o último a subir no caminhão. Não tive coragem de olhar para trás, porque ali ficava parte de mim. (“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”)

Naquele dia, primeiros anos da década de 50, a viagem que hoje não consome 30 minutos para percorrer o percurso, levou mais de três horas. E o caminhão não parava. Apenas a distância que não queria diminuir, como se nos convidasse à voltar para continuar a vida na roça, apanhando cajus, pescando piabas, caçando passarinhos – e, vivendo!

A estrada era a continuação da vereda

Caminhão da mudança acionado pela manivela. Tudo funcionando. Eu, viajando junto das panelas velhas, redes, cristaleira e tamboretes, tão logo o caminhão teve acesso à vereda, me agarrei ao cachorro pela possibilidade que ele, já sofrendo saudade, resolvesse pular do caminhão e voltar para o aconchego da Vovó. Os animais nunca perdem ou esquecem o “arquivo” do faro. Eu, sem perceber que Vovó entrara na casa, faço meu último aceno – provavelmente para o tudo onde vivi e aprendi a viver como gente.

Felizmente que os tocos que ainda ficaram na vereda aberta à base de foice e machado, não furaram os pneus. A estrada longa foi alcançada e prometia nos levar à uma nova vida, sem muitas coisas que ficaram para trás, mas com a esperança de vitórias.

O caminho que nos levou à estrada

A cada árvore da vereda que deixávamos para trás, era um desvio para não machucar. Como se eu conhecesse folha por folha, galho por galho, e tivesse o nome de cada uma. Atingimos a estrada sem problemas.

Agora, como o cachorro não se atreveria mais a pular para tentar voltar, se aquietou sobre um colchão velho de molas. Eu fui para a frente e fiquei à mercê do vento que tocava no meu rosto, lavando-o. Deformando-o pela força da ventania. Enfrentar aquele vento, era, sem dúvida, abrir as portas do futuro.

A “cidade grande” foi atingida. Nos dirigimos na direção do mar, como se algum navio estivesse à nossa espera. Não houvera nenhum milagre de Moisés, tampouco estávamos diante do Mar Vermelho. Era a praia do Pirambu, e ali nos aguardava a “Comissão de Recepção”: um gato mariscado, que provavelmente esperava a maré secar para permitir que os siris viessem à tona como presas incautas a lhe proporcionar o jantar de todos os fins de tarde; um cachorro vira latas, que caçava restos de comida trazidos pela maré enchente.

A casa: paredes e telhado de palhas. Um barracão onde estacas internas permitiam armar as nossas redes. Água, apena a do mar – felizmente havíamos trazido um pote, uma quartinha e algumas latas que poderiam servir de depósito.

Mas, finalmente, estávamos numa nova estrada e poderíamos iniciar a caminhada que nos permitiu chegar até aqui.

Vereda e ao fundo dá para ver a nossa casinha branca que ficou

Na manhã do novo dia, o barulho sufocado das ondas do mar, que não ficava distante. Algo em torno de sessenta metros, num espaço separado pela praia pouco frequentada. Não havia urbanização, e os frequentadores que por ali passavam, eram pescadores a caminho de seus barracos – iguais ao nosso.

Teresa, uma jovem criada por mamãe, era uma espécie de Governanta. Tudo mandava fazer ou fazia ela própria. Serviu o café: café preto e um banda de pão com nada. Hoje entendo que aquilo já era o nosso muito.

Mãe saíra à procura de trabalho, enquanto o pai para assumir um novo emprego. Aos sábados e domingos, todos nós saíamos para procurar um novo local de moradia.

Durante a noite, a poesia vinda do mar nos mostrava o caminho que precisaríamos seguir para, como Don Quixote, encontrar um moinho que pudesse nos proporcionar novos ventos, novos ares na continuidade da estrada que a vida nos oferecia.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MAURINO JÚNIOR “GO HOME”

Maurino acompanhado do tutor à espera da nave

Sniff, sniff, sniff!

Neste mundo que vivemos nos dias atuais, estamos entregues às incertezas. Uma certa OMS (Organização Mundial da Saúde) não sabe sequer para que existe, muito menos quais são suas tarefas além da “cagação” de bolotinhas caprinas. Diz hoje, amanhã desdiz.

Pois, ontem, no exato momento em que o STF, em decisão monocrática do bebedor de whisky determinava um alongado prazo de 48 horas para que Jair Messias Bolsonaro resolvesse a escassez de chuvas no Brasil, capaz de provocar novas queimadas nas águas dos rios Negro e Amazonas, o JBF, aparentado mais próximo do STF perdia um dos mais importantes colaboradores.

É! Maurino Júnior, “go home”!

A partida, um pouco parecida com fuga, não foi das entranhas de Spielberg. Foi do cafofo do “Cabaré do Berto”, até quando não se sabe, gerenciado por professor Assuero, filho da quarta geração do Mestre Yoda.

Lágrimas! Muitas lágrimas!

Até deu pra gente escutar um aboio vindo das Ipueiras, gritado por Dalinha, quando pescava tilápias na beirada do açude com isca de minhoca:

– Eeeeuuu achooo ééééé pooouuuco!

Maurino conduzindo a bike a caminho da “naveporto”

Por mais incrível que possa parecer, os meios de comunicação “fora do planeta Terra” funcionam às mil maravilhas, e quem os administra sequer pensa em privatização. Tá tudo nos trinques.

Afirmo isso por experiência própria. Ontem, estava eu observando no circuito fechado a minha criação de camelos de três corcovas, quando a campainha tocou. Era um “mensageiro” vestido de Homem Aranha, que veio entregar uma correspondência com embalagem diferente. Recebi, pois veio endereçada à mim. Observei o remetente.

Com certeza nenhum de vocês vai acreditar. Era a primeira missiva de Maurino Júnior neste primeiro semestre de 2021. Está morando na estrela Sírius, onde abriu uma bodega (filial) em parceria com Jessier Quirino.

A nave que “sequestrou” Maurino pousando em Palmares/PE

Na bodega, afirma Maurino, é claro que estão à venda pendrives com todos os shows de Jessier e CDs de Xico Bizerra – DETALHE: lá, afirma Maurino, ninguém precisa usar máscara contra o C-19, pois os hospitais de campanha que foram instalados abusaram de usar a Cloroquina. Ninguém morre por lá. Quando morre, é de morte matada ou morrida, e o legista que informar errado no atestado de óbito, nunca merecerá o beneplácito de “Boca de Priquito”.

Maurino afirma que, por lá, a alimentação é farta. Diferente da Venezuela. O futebol não existe por lá. O único “jogo” que funciona em Sírius, é a filial da Roleta do Cu-Trancado, que paga 0% de impostos e está de vento em popa, pois ninguém ganha, mas também ninguém joga.

Hoje, quando as estrelas começarem a brilhar, vou tentar me comunicar com Maurino Júnior através dos sinais de “Libras”. Meu intérprete será aquele mesmo que trabalha com Bolsonaro. Ganhou o cargo, depois que “mandou todo mundo à puta que pariu”, numa recente live presidencial.

Maurino usa um super telescópio fabricado em Oeiras, que foi enviado para ele por Cícero Tavares.