JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EITA “MUSQUITIM” FELA DA PUTA!

Dando uma pequena volta pelo mundo da infância (a minha) vou focar hoje, umas traquinagens que me renderam boas sovas e muitos castigos com a cara voltada para o canto da parede.

Toda criança “levada” passou por isso. Quem não passou, com certeza virou vítima de “bullying”, o rótulo afrescalhado do americano.

Chulipa – era mais gostoso ainda, “dar uma chulipa”, passando saliva no dedo e melando da areia, e dando aquele catiripapo vertical na orelha de alguém.

Tirar o selo – geralmente, quem fazia isso, fazia a cada mês. Era comum o corte de cabelo “estilo busca-ré”, onde, metade do quengo era raspado com máquina graduada a zero. Ficava liso, igual bunda de recém-nascido. Dar uma leve pancada, significava “tirar o selo.”

Criança de castigo por desobediência

Pois, hoje, me vieram à lembrança, dois castigos que tomei na infância. O primeiro, até hoje considero “injusto”.

Sempre que ia “jogar barro fora”, tinha que procurar fazer a necessidade no mato. Não tínhamos local apropriado em casa para fazer a necessidade fisiológica. Papel higiênico, a gente só foi conhecer ao mudar para a capital.

Certa vez “precisei jogar o barro fora”. Senti que as galinhas e alguns porcos sentiam tanta fome, que seriam capazes de enfrentar qualquer guerra. A arma que dispúnhamos era uma vara de aproximadamente 3 metros, com a qual mantínhamos o animal distante, momentaneamente, da “obra”.

A solução era, literalmente, “cagar trepado”. Nisso, a “obra” acabou sujando uns porcos da Vovó. Castigo: levar os suínos para banhar no açude, distante da nossa casa por uns bons quilômetros. E aí, veio a calhar aquele ditado: quem com porcos se mete, farelo come.

O segundo castigo, foi mais que merecido. Meu Avô não gostava de castigar os netos – deixava para a Avó, esse “trabalho”.

Eis que cismei de “botar um musquitim” no meu Avô, enquanto ele dormia o sono dos justos, deitado no chão da varanda.

Criança de castigo na escola

“Musquitim”, na minha terra, era o reuso de um palito de fósforo. Enquanto a pessoa dormia, malandra e lentamente, a gente colocava o “musquitim” apagado na testa do dorminhoco, antes, colocando algum calçado na mão. Toca fogo e espera a reação. Quando o “musquitim” tá pegando fogo, o dorminhoco “dá um tapa” para matar o mosquito.

Foi assim. Quando meu Avô precisou matar o mosquito da nesta, deu com o chinelo no próprio rosto. Eita musquitim fela da puta!

Como criança naquele dia só tinha eu em casa, entrei foi nos tabefes. Depois, o castigo pior: tomar banho depois que apanhava.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A REDOMA É DE VIDRO – E NÃO É BLINDADA

Redoma de vidro não protege nadica de nada

Ao longo da minha vida, bem vivida e com ótima infância por sinal, ouvi e acabei aprendendo muita coisa. Cheguei até comer jia, que ainda pegava, para vender para uns padres holandeses que, nos anos 60 chegaram em Fortaleza, com o objetivo de colaborar com a Educação. Mas, uma coisa nunca consegui, por mais pressionado que tenha sido: “engolir sapo” e ficar calado.

E, convenhamos! Após passar incólume por um regime excludente durante 21 anos, de 1964 até 1985, nunca imaginei que, a Constituinte de 1988, conquistada em troca de muitas vidas humanas, fosse tão publicamente desrespeitada, exatamente pelos que, ali colocados, imaginávamos guardiães.

Antes de ir me aconselhar com minha Avó, quero ter a audácia de sugerir aos amigos que comparecem por aqui aos domingos, a leitura de um livro. “Os Onze – o STF, seus bastidores e suas crises”, editado pela Companhia das Letras, escrito pela dupla Felipe Fecondo e Luiz Weber.

Ali, a dupla revela tantas coisas, que poucos acreditam. O que poucos acreditam é que, num país em constante e crescente curva de descrédito, roubalheira, corrupção, desfaçatez, pouca vergonha, e mais uma infinidade de maus adjetivos – mas, justos e cabíveis! – exista em meio a tudo isso, um monstro mais horrendo que Frankstein. É o que mostra a dupla autora do “ex-ce-len-te” livro – porque revelador.

Pois, eis que me arvoro do direito pleno de, querendo mostrar em qual pântano estamos vivendo e sendo obrigados a engolir todo e qualquer tipo de sapo, jia ou rã, antes de sermos devorados pelas cobras que ali sobrevivem.

Supremo Tribunal Federal – haja Justiça!

Transcrevo, ipsis literis:

Página 131: “Era um pedido feito por “Tango”. Na tarde de 15 de abril de 2016, o ofício número 0006/2016 – Gab/VPR chegou à mesa do então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes. Despachado do gabinete da vice-presidência da República, o documento informava que o e-mail marcelatemer@terra.com.br fora “raqueado”. A velocidade com que um papel percorre os escaninhos da burocracia varia conforme o remetente. Nos dias que se seguiram à correspondência, 33 policiais da Equipe A da Divisão Antissequestro da polícia paulista foram mobilizados para investigar o caso. No inquérito, apenas uma menção cifrada às vítimas: “Tango e Mike solicitaram proteção”.

No alfabeto fonético adotado pelos policiais, cada letra é associada a uma palavra……….Tango representava o “T”, de Temer, de Michel Temer; Mike, o “M”, de Marcela, a primeira-dama.” Além do e-mail, os arquivos de áudio do WhatsApp haviam sido violados.

“………………..A dois dias da aprovação pelo plenário da Câmara, da abertura do processo de impeachment de Dilma – uma crise germinada com a colaboração do então vice-presidente, que se afastara politicamente da mandatária -, Temer suspeitava da discrição dos canais oficiais à sua disposição – Polícia Federal e Abin. Preocupado com vazamentos e determinado a pôr um fim rápido à chantagem, Tango recorreu, sem intermediários, a Moraes, enviando-lhe o ofício confidencial. Moraes era um híbrido de político e jurista, como o próprio Temer. Passara pelo DEM e pela USP. Eram seres que se reconheciam, embora não íntimos. Em menos de um mês, os envolvidos foram presos e a gravação furtada do aplicativo da primeira-dama nunca apareceu.” (Página 132).

A seguir, na página 133, o que mais me causou “estranheza”:

“A morte de Zavascki catalisou a única nomeação de Temer, que, durante o processo, revelou a aleatoriedade que permeia as indicações ao Supremo – vinculação partidária com o presidente, linhagem jurisprudencial, manifestações acadêmicas anteriores pouco são levadas em conta. “O Alexandre foi a opção natural com a morte de Zavascki. Tinha dado provas de confiança e discrição no caso do hacker e se aproximara do presidente. Só isso”, lembrou um integrante do primeiro escalão do governo Temer, que acompanhou de perto o processo de escolha para o STF do então ministro da Justiça.”

Ainda na página 133:

“A análise das indicações ocorridas após a promulgação da Constituição mostra, até há pouco tempo, um processo de indicação subordinado a cálculos de política menor, a pequenos agradecimentos, idiossincrasias do presidente, ao marketing político, a padrinhos poderosos, à confiança pessoal do presidente da República na pessoa e não no perfil de quem será o julgador. Isso reduzia quase à insignificância as avaliações sobre o poder das decisões de um ministro do STF para interferir na sociedade.”

Diante de tudo isso (claro que, aqui se trata apenas de um texto provavelmente opinativo interpretado pelos autores, sem deixar de lado os fatos. Fatos verídicos.

Ora, e o que estou pretendendo dizer com isso? Nada.

Apenas dizer que a redoma é de vidro. E, não sendo blindado (por uma gama de contraposições mostradas e, principalmente, pelos fatos estapafúrdios que acontecem desde janeiro de 2019), pode quebrar. E, vê-se que, apenas um cabo e um soldado podem quebrar. Sem tanta força ou trabalho.

Agora, se voltarmos um pouco a fita desse filme que virou pornochanchada, sequer teremos o direito de nos surpreender, pois, Joaquim Barbosa “nos avisou” em várias oportunidades que “aquilo ali” jamais seria uma “instituição onde se faz Justiça”.

Enquanto “falta dinheiro” (e isso nada tem com o Governo Bolsonaro) para impulsionar com a qualidade necessária a pesquisa científica que possa honrar e justificar as nossas universidades – “Os Onze” ainda revela que, cada “Excelência” dispõe naquele “muquifo”, de elevador privativo. São onze “Excelências”, cada um com um elevador privativo, programado para abrir a porta apenas para entrar e sair do gabinete “excelencial”, ou, no salão de sessões. Auxiliares, tantos quantos queiram e solicitem. Veículos com placas camaleônicas – que mudam quando saem do local onde deveriam trabalhar – para não serem flagrados ou identificados.

Vovó, com certeza perguntaria: “Mais menino, se tudo é legal, é feito com toda Justiça e clareza, tudo direitinho, e à luz da Constituição, pra que essas preocupações?”

Pior que isso, é que, aquela conversa de “notável saber jurídico e nada, é a mesma coisa”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TÔ DEVENDO E QUERO PAGAR!

1 – Pai de jumentinho!

Fiquei (e ainda estou) fora do ar por uns dias. Mudei meu provedor de e-mails na Internet e estou esperando a regularização. Não vai demorar muito. Prometo.

E, quando me disponho a rabiscar alguma coisa, o mundo rico que vivi foi o mundo da infância. Da minha infância, vivida no interior, aporrinhando meus avós, espantando ou juntando cabras e bodes para o chiqueiro, e, quando apareceram os pêlos nos devidos lugares, “fazendo fios em jumentinhas”.

Foi quando, certo dia numa capoeira, estava “me aproveitando” de uma certa “diversão dos meninos”, quando escutei minha Avó:

– Tenha vergonha, cabra safado! Vá percurar outra coisa pra cumê!

Vivi o restante daquela idade sendo obrigado a escutar e suportar gozações dos primos, que afirmavam que, meu primeiro filho seria um jumentinho! Arre égua!
E eu acreditava!

2 – O cineasta

Sei que deveria pedir licença para o especialista Altamir para dar uma rápida passeada n o tema cinema. Eu gosto de cinema. Filme que considero bom, costumo ver mais de uma vez. Filmes que considero excelente, vejo apenas uma vez – para não estragar.

Mas, o assunto não é esse. Bifurquei errado e vou corrigir. Quero falar de filme e de cinema, mas de filme e de cinema feito por mim. Sim, fui cineasta e achei que teria futuro. Mas, quando menos esperava e já comemorava a bênção da Lei Rouanet para subvencionar de forma superfaturada as minhas fitas, minha Mãe, com uma “cabada de vassoura” na minha cabeça, me fez acordar do sonho.

A “máquina de projeção”

Juntei alguns mil réis que meu Pai carregava naquele bolsinho pequeno, na frente da calça, próximo da fivela do cinto e me dava. Juntei tanto que, no dia 23 de outubro (data do aniversário de vida dele), pude comprar uma caixa cheia e lacrada de charutos Suerdieck para dar-lhe de presente. Ele agradeceu muito e, toda noite, após o jantar acendia um charuto e fumava.

Minha Mãe dizia que ele “ficava fumando para matar muriçoca”! Por isso e por outra coisa, fiquei patrulhando os 50 dias que meu Pai fumava aquele charuto de cheiro até agradável. Mas, eu tinha um objetivo: pegar o caixote dos charutos, vazio. Era ali que eu montaria toda a minha engrenagem de cineasta.

No dia seguinte ao último charuto, peguei logo a caixa vazia e me apressei. Arranquei a tampa. Colocando a caixa na vertical, furei nela com a serra tico-tico, uma buraco, onde afixei uma lâmpada queimada, marca Phillips (lembro até hoje). Parte da “engenhoca” estava pronta.

Enquanto meu Pai fumava os 50 charutos, fui me preparando. Saía da escola e, em vez de voltar para casa, ia para o Cine Nazaré, onde fiz amizade. Pedi uns pedaços de fita e ganhei quase um rolo. De fita colorida, pasmem!

Lâmpada para auxiliar na projeção da fita

No dia seguinte, em casa, eu precisava testar a projeção. Faltava a iluminação. Sem que minha Mãe visse, subi no telhado da casa e, calculadamente, afastei uma telha, de forma que, passasse por ali a luz do sol.

– Menino, o que tu tá fazendo aí nesse telhado? Perguntou minha Mãe.

– Tô pegando uma arraia (papagaio ou pipa) bonitona que enganchou!

Depois de tudo aquilo, demorei tanto que uma lenta e grande nuvem me roubou o sol. Precisei disfarçar e consegui. Naquele dia o sol não voltaria mais.

No dia seguinte, enchi a lâmpada de água, afixei uns pedaços de fita, peguei um pedaço de espelho e, comecei a projetar o filme. Uma maravilha!

Não gostei foi do resultado final. O funcionário do Cine Nazaré, quando me entregou quase um rolo de fitas, provavelmente sem maldade, não percebeu que existia uns 20 metros de “The End”!

Filmes épicos do meu cinema

Mas os dias seguintes foram proveitosos e me sentia um dos melhores cineastas, ao lado de Jean Luc Godar, Orson Welles e o ainda desconhecido Glauber Rocha.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O VAQUEIRO E A BOIADA

O Vaqueiro “fala” com o berrante no domínio da boiada

Tudo tem um sentido. Tudo faz sentido, ainda que não seja para você. Nada acontece sem que tenha que acontecer. Você ver ou gostar é uma questão normal do universo das coisas.

Alguém pode estar num teatro assistindo uma peça teatral, uma ópera, um musical ou coisa do gênero. Você está ali naquele momento – mas, pelo “querer universal” das coisas, outras pessoas não estarão. É assim que é a vida e o viver. Tudo faz sentido. Repito: ainda que não seja para você.

Há quem aprecie um teatro com uma música clássica, tipo uma música de Johann Sebastian Bach. Há momentos que essa música satisfaz a um e a outros, não. No somatório, a maioria que ouve, gosta.

Mas, há momentos e lugares que, o som de um berrante tangendo uma boiada é muito mais envolvente, e consegue acariciar ao mesmo tempo o nosso ego e o nosso relacionamento individual com a Natureza. Com o boi, com a fazenda. Com a vida que nos satisfaz, naquele momento. É a satisfação comandada pelo universo das coisas.

Um berrante modificando o som universal do prazer diário

Da mesma forma, passear no shopping, na praça, na praia, certamente dará prazer e alegria à alguém. Mas, entre nós, sem que precisemos rotular de simplório ou bobalhão, alguém que sentirá, também, prazer em caminhar por uma fazenda de gado, visitar os currais ou acariciar uma vaca ou um bezerro.

Tudo depende do momento que o universo nos oferece mas, principalmente, do seu estado de espírito. Claro que haverá momentos que o berro de um boi incomodará, da mesma forma que o som alto de uma música vindo de algum lugar também incomodará. Mas, isso será apenas a ação universal benfazeja que ainda não chegou até você.

Vaqueiros em preparação para conduzir a imagem de São Raimundo

Falando especificamente em boi, vaca e bezerro, aproveito para informar aos leitores que, no Maranhão, ainda que aqui não estejam grandes ou os maiores rebanhos bovinos do Brasil, é no Município de Vargem Grande onde se concentra o início da pecuária como força econômica do Estado.

Nos dias atuais, Vargem Grande, que aniversaria no dia 29 de março, e dista 172 km de São Luís é onde acontece o maior festejo religioso do Norte-Nordeste ligado à pecuária. É o festejo que rende homenagens ao santo padroeiro São Raimundo Nonato dos Mulundus, sempre no período de 22 a 31 de agosto de cada ano.

Muito concorrido, o festejo religioso reúne acima de 60 mil pessoas – a população da cidade, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), colhida em 2015, era de 54.845 pessoas.

Além da importância de Vargem Grande no calendário dos acontecimentos religiosos do Estado, a cidade é festejada historicamente, por ter servido de acampamento para a Terceira Coluna, em 1840, em repressão preparativa no combate à Balaiada.

Vaqueiro “condutor” de boiada para o pasto ou para o abate

Lidar com boi não é coisa fácil nem para qualquer um. Há que ter destreza e coragem, mas, principalmente, respeito pelo animal que, na maioria das vezes está sendo levado para o sacrifício do abate.

Ainda que criado com as melhores rações ou nos melhores pastos, o “stress” poderá provocar diferença na qualidade da carne consumida pelos humanos.

Há quem garanta que, o Vaqueiro “conversa com o boi, no estalar do chicote” ou o convida para momentos bons no toque do berrante. Com certeza, será por isso que existem diferentes tons no toque do berrante.

Boi maltratado será sempre boi difícil de lidar. O chicote do Vaqueiro não é para bater no animal. É para garantir a ele, boi, que alguém o está conduzindo com segurança, e sempre em meio da sua comunidade (boiada) – Vaqueiro não toca berrante quando conduz o boi para o abate. O som não seria agradável.

Esporas (sem pontas – para não estressar o cavalo) de Vaqueiro conduzindo boiada

EM TEMPO: Claro que, quem conhece e vive o dia a dia da pecuária, pode e deve ter informações e definições diferentes das que apresentamos aqui – mas, com certeza, será apenas por conta do tamanho continental e das diferentes formas de vida e da produção de alimentos – entre esses, a carne bovina. Nada além disso.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O VÉI DO SACO – E A SERPENTE DE TRÊS CABEÇAS

Mãe ameaçando entregar a filha ao “véi do saco”

Alguém entre os maravilhosos leitores deste Jornal da Besta Fubana já viu uma “casa de avós” no interior, quando recebe os netos para um mês de férias?

Alguém já viu o “aperreio” que fica na casa, quando os netos chegam da cidade durante a noite? Alguém já viu aquele armar as redes, banhar e escovar os dentes antes de deitar?

– Meus fiinhos querem cumê alguma coisa? Pergunta a Avó, mais babona que preocupada.

Pois, uma ou até duas semanas depois de muitas brincadeiras, a mãe avisa para a mãe dela – nesse caso, a Avó – que quer dar um purgante para diminuir as lombrigas dos filhos.

– Você trouxe o remédio, minha filha? Pergunta a Avó.

– Trouxe mãe. Responde a filha.

– Entonces, bem cedim, antes do sol raiar, a gente acorda eles e dá o purgante!

Purgante de óleo de rícino, que saiu da roça em forma de mamona e foi industrializado na cidade grande. Uma verdadeira peste para quem um dia foi criança e precisava tomar. Precisava não. Era obrigado a tomar.

Galo cantava, e mãe e avó já estavam de pé. O frege na cozinha, era grande na preparação do café da manhã. A avó continuava preparando as tapiocas (para alguns, beijus) e o cuscuz de milho feito no prato. Leite de cabra fervia no fogo. Açúcar mascavo, batata doce e macaxeira cozida.

Do quarto, onde as redes estavam armadas, vinha a conversa:

– Acorde José. Acorde e abra a boca pra tomar um remédio! Dizia a mãe.

– Que remédio mãe? Eu num tô doente!

– Tá sim! Tá cheio de lombrigas! Vamos acorde e levante. Abra a boca!

– Eu num quero tomar remédio!

– Não quer? Mãe, a que hora o “véi do saco” passa aqui?

– Não mãe! Pelo amor de Deus! O véi do saco, não!

E foi assim que, durante muitos anos o “Véi do saco” entrou para a vida de muitos sertanejos, virou personagem de cordel, ajudou mães a resolver problemas de desobediência, e ajudou curar muitos meninos e meninas infestados de lombrigas.

Nos dias atuais, nenhum menino ou menina toma purgante. Tampouco conhece o milagroso óleo de rícino (mamona) aplicado e reforçado pelo famoso “Véi do saco”.

Casal administrando purgante numa filha

Aproveitando essa quarentena forçada pela pandemia, muitos estão vendo filmes da Netflix. Muitos estão viajando pela Internet, conhecendo coisas e lugares nunca vistos antes.

E é aí que quero mostrar algo que nunca havia visto, e acredito que vosmecês também.

Numa estrada, na Índia, o trânsito ficou interrompido por conta de uma serpente rara que chamou a atenção de quem por ali trafegava.

Não era uma serpente comum, dessas que até o Lula sabe encantar. Era uma serpente de três cabeças, como mostra a foto anexada.

Du-vi-d-ó-dó que você já tenha visto coisa igual. Já viu rato com nove dedos e vaca peidando. Agora, para ver coisa igual, só indo à Índia ou a Palmares, interior pernambucano.

Serpente com três cabeças

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CANTE LÁ – QUE EU CANTO CÁ

“Poeta, cantô de rua
Que na cidade nasceu
Cante a cidade que é sua
Que eu canto o sertão que é meu

Se aí você teve estudo
Aqui, Deus me ensinou tudo
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui
Que eu também não mexo aí
Cante lá, que eu canto cá”

Pois, foi, e será sempre assim. No sertão onde nasci, xícara é xirca; mulher gostosa é paquetão; japin é xexéu; e chico preto é graúna. Sem esquecer que o peru continua respondendo assovio com glu-glu-glu.

Quando criança criei pássaros. Pouco sabia de liberdade e me satisfazia com a magia dos cânticos de cada um. Eram criados como se filhos fossem, saídos de mim. Hoje, com o que aprendi nos mundos por onde andei, essa foi uma prática que lá deixei.

Xexéu pra mim – japin pra outros

Quando eu era criança, caminhando para a adolescência, “caçava” passarinhos para completar a comida em casa (quase sempre, feijão com nada e menos alguma coisa. Rapadura com farinha seca era a gostosa sobremesa, e a gente comia como se fosse pudim de leite), sem ter ciência de nada e que aquilo era, além de ação para suprir uma necessidade, uma forma de brincar e passar o tempo.

Criança que nunca possuiu uma baladeira, um bornal cheio de pedras, nunca foi criança.

Além de “caçar” os passarinhos, quando encontrávamos algum ninho com ovos, “aquele já era muito mais nosso” que dos próprios pássaros. A gente “pastorava” aqueles ovos por 24 horas, quase chocando-os.

Pois um dia achei um ninho de xexéu, pendurado num galho que, de tantas folhas pesadas, acabou entortanto – e o xexéu, pássaro sabido, não faz seus ninhos em galhos ou locais de fácil acesso. O bicho é sabido.

O xexéu é da família icteridae, conhecida nas regiões onde prevalecem as grandes árvores e as folhagens em forma de palmeiras. É um imitador quase perfeito. O macho mede de 27 a 29,5 cm de comprimento e a fêmea de 22 a 25 cm, pesa de 60 a 98 g. O imaturo é de cor de fuligem em vez de negra. As fêmeas são bem menores que os machos. O canto é tão variado que as vezes causa a impressão de um coro de vários exemplares. É comum os indivíduos imitarem perfeitamente outras aves.

XEXEU CANTANDO

Graúna para mim – Chico-preto para outros tantos

Pela imensidão continental do Brasil, o pássaro graúna é conhecido por vários nomes. Mas, o nome científico é um só: Gnorimopsar chopi, popularmente conhecido como graúna, pássaro-preto, assum-preto, cupido, chico-preto, arranca-milho, chopim, melro ou craúna, é uma espécie de ave da família Icteridae. É a única espécie do gênero. Põe em média 4 ovos em ninhos geralmente construídos em buracos de árvores ou em ninhos abandonados de outras aves. Sua incubação é de 14 dias. Os filhotes permanecem em média 18 dias no ninho. Com 40 dias podem ficar independentes dos pais. Não há dimorfismo sexual ou etário, pois machos e fêmeas cantam, e os jovens são como os adultos.

No Nordeste ocorre a graúna (Gnorimopsar chopi sulcirostris), bem maior que o pássaro-preto. Devido ao nome chopi, presente na identificação científica, essa espécie recebe erroneamente o nome de Chopim ou Gaudério (da espécie Molothrus bonariensis): o macho é azul escuro de tonalidade de metálica, e a fêmea preto fosco.

A graúna era uma ave que, criança, gostava de criar numa gaiola, desde que apanhasse na primeira semana de nascida. Era alimentada no próprio bico, com angu de farinha e leite de cabra. Nunca pretendi “furar os óios”prumode ela cantar mió.

Ave dócil, de fácil convivência – às vezes ficava solta sobre a mesa onde comíamos. Tinha o hábito de voltar para a gaiola, com suas próprias asas e quando tinha vontade. Foi criada solta.

CANTO DA GRAÚNA

Peru – o rei dos que abrem o rabo

Por muitas e muitas vezes já citei aqui, que, minha Avó era meieira. Criava aves que pertenciam ao proprietário das terras onde vivíamos – e o que nascia a partir dali, era dividido ao meio. Criava caprinos, cuja produção leiteira era nossa. Criava galinhas, catraios, patos e perus.

Os perus, como até hoje manda a tradição, eram abatidos apenas no período natalino. E quando Vovó abatia uma ave daquelas, duas coisas apenas me interessavam: as tripas e o papo. As tripas viravam fritura com farofa e o papo virava a nossa bola de jogar nos fins de semanas.

O peru é uma ave que se alimenta de grãos e insetos. Tanto o macho quanto a fêmea têm a cabeça e o pescoço descoberto de penas. Geralmente as penas têm coloração preta, castanha ou até mais clara. Somente o macho possui um apêndice carnoso sob o bico chamado carúnculas. Medem até 1,17 m de altura.

Originário da América do Norte, foi levado para a Europa em 1511. O peru selvagem foi domesticado pela primeira vez no México há mais de mil anos, mas, no começo do século XX, havia desaparecido em grande parte dos Estados Unidos. Nos últimos anos o peru começou a ser reintroduzido no seu lugar de origem com aparente sucesso.

Peru é o nome comum dado às aves galiformes do gênero Meleagris. Uma espécie, Meleagris gallopavo, conhecida vulgarmente como peru-selvagem, é nativa das florestas da América do Norte. O peru-domesticado descende desta espécie.

Por anos, o peru era um dos nossos principais divertimentos, quando, de férias do período escolar nos dirigíamos para o interior. E a gente se divertia, assoviando. O peru respondia com o seu belo e tradicional glu-glu-glu, como pode ser ouvido no áudio a seguir.

PERU: GLUGLUGLU DE BOAS VINDAS

Esse é o papagaio falador que só canta o que lhe ensinam

O papagaio é uma ave rara e, no Brasil, enfrenta uma crescente extinção. Seu aprisionamento por famílias, o retirou do seu habitat de reprodução livre e crescente. Seu nome científico é Amazona aestiva (L.), mas é conhecido vulgarmente como papagaio-verdadeiro, ajuruetê, papagaio-grego, ajurujurá, curau, papagaio-comum, papagaio-curau, papagaio-de-fronte-azul, papagaio-boiadeiro, trombeteiro e louro, é uma ave da família Psittacidae.

O papagaio-verdadeiro é principalmente um papagaio verde com cerca de 38 cm (quinze polegadas) de comprimento e pesa cerca de quatrocentos gramas. Tem penas azuis na testa, acima do bico e amarelo na cara e coroa. Distribuição do azul e amarelo varia muito. A cor da íris dos adultos é amarelo-laranja no macho ou vermelho-laranja na fêmea. Se destaca um fino anel externo vermelho. Os imaturos têm íris marrom uniforme. O bico é negro no macho adulto. É uma das espécies mais inteligentes de ave do planeta. Sua expectativa de vida é de oitenta anos. Os papagaios-verdadeiros também costumam repetir o que ouvem de seus donos. (Este bloco de informações foi compilado do Wikipédia).

PAPAGAIO BOCA SUJA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

RECORRENDO À PSICOLOGIA

O banho dos primos

Era um sábado, lembro bem, embora já se tenham passado mais de 60 anos. No que poderia parecer um cenário teatral, eu acabara de almoçar e resolvi descansar um pouco. Não queria dormir, pois, se assim quisesse armaria uma rede.

Peguei um cambito que Vovô tirara do jumento Moreno, peguei a sela que era usada na montaria do cavalo Salú, arrumei as duas peças de modo a me oferecer apoio e conforto, sentei e me pus a olhar na linha do horizonte. Como se estivesse no deserto do Atacama, na primavera. Me pus a “matutar”, como dizemos naquelas paragens.

Um filme que eu jamais vira, estava passando na minha mente, em “slow motion”. Dava para contar as pessoas, os objetos, e, tudo que enfim, compunha as imagens da fita. Eram imagens policrômicas, que sequer existiam – para os apaixonados, a vida é sempre em policromia, e as paisagens são sempre as mais belas.

Cambito que auxilia às montarias no interior

Eis que, um movimento diferente do que “passava na fita mental” me chamou a atenção. A porteira, que ficava numa distância de uns 40 metros de onde eu estava sentado, me chamou a atenção. Mas, dava perfeitamente para perceber o rabo do cachorro Babalu balançando, frivolamente – a alegria do animal era visível, e eu pude deduzir que ele estava alegre pela aproximação de alguém.

E era mesmo. E estava mesmo. Dois meninos caminhavam ao tempo que também brincavam na frente de um comboio de jumentos conduzidos pelo nosso vizinho Zé de Augusta que, naquele instante transportava a farinha para entregar na manhã seguinte, no comércio do Seu Horácio. Os dois meninos brincavam na frente dos animais, e aquilo alegrava Babalu, que até davas cambalhotas.

Passada aquela aparente festa canina, permaneci sentado onde estava, e não percebi que o tempo passara, que a escuridão da noite mandava torpedos e mais torpedos, avisando sua chegada. Era a noite que se aproximava.

Mas, algo estranho continuava acontecendo, pois Babalu, passada aquela alegria pela passagem dos meninos, continuava na porteira. Vigilante, como sempre fora. E, de repente, começou latir. E latia cada vez mais. Mas, era um latido sem raiva, sem agressividade. Como se pretendesse avisar que alguém de casa se aproximava. E era verdade.

Era Anunciada, minha prima mais velha. Naquele tempo, aparentando 25 anos de idade. Apressada e cabisbaixa, caminhava na direção da nossa casa e mais apressada ainda ficou, quando de longe avistou Vovó. Ofegava. Causava ansiedade em quem viera saber algo na sua chegada.

Babalu o “vigia” da nossa porteira

Com dificuldade de falar, tomada pela emoção dos fatos, Anunciada agarrou-se à Vovó, e fez esforço para anunciar com voz trêmula, e copiosas lágrimas:
– Vó, mamãe tá desesperada! Zildinha acabou de falecer!

Aquele anúncio chocou os que ouviram a triste novidade. A mim, foi como uma facada penetrante na carótida. Eu tinha naquela época um envolvimento muito forte com Maria Zilda, a Zildinha. Namorávamos escondido, por sermos primos – e a gente do interior não aprovava muito naqueles tempos.

Lembro que nos encontrávamos para o banho no açude, nus. Descobrimos e mantivemos por longos tempos, um local só nosso. Nos beijávamos, nos acariciávamos – mas nunca ultrapassamos os limites que a criação daquela época nos impunha.

Vovó decretou silêncio e luto total na casa. Fomos ao velório na mesma noite, e permanecemos para o dia seguinte.

Foi aquela, a minha primeira grande emoção na vida. Passava dias e noites relembrando os bons momentos, as carícias que trocávamos. Zildinha se desenvolvia fisicamente. Ainda não era “uma mulher feita”. Seios crescendo, coxas longas ficando arredondadas e pelos começando aparecer nos devidos lugares do corpo.

Passados todos esses anos, graças à Deus, sem sequelas, recorro à Psicologia dos que lêem essa “gazeta escrota” (fala do próprio Editor), para uma explicação. Se possível pedagógica.

Qual é o comportamento do cérebro e dos demais órgãos que compõem as emoções humanas, numa situação que começou com o descanso conciso e necessário a partir do sentar no cambito; no olhar a emoção do cachorro em dois momentos e com ele compartilhar; no ouvir e participar do anúncio do indesejado da morte da prima amada; no féretro, onde foi enterrada parte emocional de mim; e na volta solitária aos banhos no local onde vivemos bons momentos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CARRO DE BOI

“Trem de bois” (seis) para uma carga mais pesada

“Naqueles tempos, e desde o princípio……” contavam e contarão sempre os mais velhos, quando tiverem o prazer de serem escutados por uma roda arenada de crianças, ávidas para conhecer os tempos da felicidade.

Pois, atenção! – era assim: mais de uma semana, para dois hábeis carpinteiros, com reduzida quantidade de ferramentas à disposição, trabalharem desde o clarear do dia, até ser necessária a luz de lamparina, na confecção de uma ou das duas rodas de madeira. Com as calejadas e até feridas mãos, mas com Fé na orientação divina, tudo faziam para atender as encomendas.

Muitas encomendas, digamos. Um carro de boi especial, era como um moderno veículo blindado dos dias atuais. Sob encomenda.

Duas rodas de madeira, o “eixo” e a justeza na colocação dos carretéis ou roldanas de encaixe para garantir a movimentação. Em alguns casos, a falta dessa engrenagem suscitava, também, o fabrico de encaixe de madeira. Ali, naquele encaixe, era imaginada uma forma de adicionar o “breu” – por isso, com o tempo de uso, era fácil ouvirmos aquele som irritante e estridente do besouro mangangá” quando as rodas estavam em movimento.

– Diiiiiaaaaa!

Era esse o cumprimento de quem, como “schoffer”, conduzia o carro de boi na estrada vicinal nos povoados e sertões de Norte a Sul. Muitas vezes, aquele cumprimento não encontrava destinatário, que provavelmente havia saído cedo para cuidar da roça. Por centenas de vezes, além do som de mangangá produzido pelo movimento da roda no breu, o que se ouvia era o latir do cachorro e, alguns metros depois, o estalar do chicote no tanger do boi.

Carro de boi no transporte da madeira que será “combustível”

Hoje, os moderninhos das escolas pós-Paulo Freire, se acostumaram rotular um veículo que faz o que fazia o carro de boi, de “utilitário”. Nada contra.

Sem uma única preocupação com o preço da gasolina ou do diesel, os donos de uns poucos carros de boi (esse veículo é puxado por uma parelha de bois e nunca tivemos explicação do “desuso” deles como carne para ser consumida quando envelhecem, ou são substituídos por outras parelhas) estenderam ao máximo a utilização, variando de acordo com a necessidade da demanda.

Transporte em geral, por conta do “modismo” que imperava nos interiores, e por conta do estado vicinal das estradas e dos caminhos sem qualquer tipo de urbanização – mas, também, sem tantos buracos como as modernas estradas estaduais e federais dos dias atuais. Por anos, o boi e não o carro, teve serventia na movimentação da “bolandeira” das casas de farinha.

Eis que, a partir da “pandemia” provocada pelas guerras e de outros movimentos sociais anteriores, surgiram a Ford e a GMC, e nos apresentaram os caminhões movidos pelos combustíveis de hoje – mas com a “partida” dada pelas manivelas. Eita coisa mais antiga!

E isso, de forma paulatina, proporcionou a diminuição que levou ao quase desaparecimento do carro de boi, e, esses animais, finalmente puderam descansar. E, infelizmente, foi a vaca que passou ir para o brejo.

Os carros sem os bois aos poucos perderam utilização

Finalmente, os carros e suas rodas de madeira feitas por mãos hábeis e perseverantes, estão fora de uso (no município maranhense de Mirinzal ainda existem, e funcionam, para bem-servir à comunidade que, pasmem, só dispõe de longas estradas vicinais. Em que pese a ousadia governamental de, um dia, se candidatar para resolver todos os problemas brasileiros.

Tudo, literalmente, carros e rodas, nada mais são hoje, que figuras transformadas em motes de poesias, que falam de saudade. Saudade do homem bom e trabalhador. Saudade da Terra e das suas milhares de serventias.

O boi triste e aposentado já não puxa mais os carros – foi substituído pelo “horse”

A transformação dos tempos que nos apresentou o “utilitário”, preterindo o boi, e preferindo o cavalo, sejamos sinceros, serviu para, ao mesmo tempo levar ao esquecimento aquele romantismo que existia nas fazendas, chácaras e sítios.

As vacas, que passaram a ter mais a presença dos seus machos nas “quarentenas”, estão indo mais ao brejo. Agora, para lavar as mãos (uuuiii!) com álcool em gel.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NOVENA PARA SÃO JOSÉ

Banner usado nas novenas dedicas à São José

“Novena é a reza de um conjunto de orações, em particular ou em grupo realizada durante o período de nove dias. Teve sua origem na tradição católica, mas pode ser encontrada também em outras religiões ou crenças. Padre Luizinho, da Canção Nova, explica o significado das novenas: “Novena é uma prática de espiritualidade que fazemos durante nove dias, geralmente para um santo a fim de que ele nos ajude a entrar em contato com Deus pedindo por uma causa.& rdquo;

Lembro como se fosse hoje e tivesse acontecido ontem. Todos que moravam sob o teto do casal Raimunda-João Buretama tinham suas tarefas específicas para cumprir durante a realização das “Novenas em louvor a São José”. As minhas tarefas eram condizentes com a faixa etária: saindo da infância para a adolescência.

Primeiro, capinar com a minha própria enxada (cada pessoa tinha a sua enxada, ora!) o extenso quintal. Depois, quando o mato da capina estava murcho, varrer com uma vassourinha e gadanho (a gente dizia: “varrer gadanhando”); enterrar qualquer possível sujeira feita pelos cachorros ou outros animais – com a intenção de evitar comentários negativos que atingissem os donos da casa.

No começo da tarde, encher os dois potes d´água e as duas quartinhas, colocando-as num local sombrio, expondo-as ao vento para que a água esfriasse para o consumidor. Arear (lavar com sabão, bucha e areia) os canecos, colocando-os nos devidos lugares, ao alcance de quem precisasse usá-los.

A última tarefa era arrumar os bancos e tamboretes de forma a parecerem uma arena, afim de que todos se olhassem durante as orações das novenas.

Altar para novena à São José

Cumpridas as minhas tarefas, eu era mandado preparar o animal que me conduziria até o Açude Novo para um bom banho, esfregando bem as orelhas, as pernas e os pés com sabão e bucha de pepino. Me deslocava esporando o animal, para que ele galopasse, evitando assim as mutucas nas pernas.

Agora, com roupa trocada, ajudando em algumas outras tarefas necessárias e cumprimentando as pessoas que chegavam, oferecendo assentos e outras acomodações. Era então um menino prestativo, e sabia o quanto receber bem era importante para a minha Avó.

Banco coletivo usado nas novenas

– Boa noite, comadre Doca, boa noite compadre João! Era esse o cumprimento dos que chegavam.

– Boa noite compadre, abanque-se. Vamos sentar que a reza começa já. Sentem. Querem tomar água, café ou aluá? Perguntava minha Avó, fazendo a cortesia da casa.

Era naquela noite, a primeira das mais oito que ainda viriam em seguida, que os amigos e vizinhos retiravam dos armários e baús suas melhores roupas, cheirando a naftalina, para se sentirem dignos de um encontro com cunho estritamente religioso.

Afinal, orar para pedir chuvas ao Padroeiro, era uma obrigação de todos que professavam Fé.

– Boa noite, a todos. Vamos dar início às nossas orações, avisava Tia Maria, a responsável pela condução da novena daquela noite. Vamos sentar.

Tamborete com assento de couro

– Amigos, parentes, convidados: em nome da minha irmã Raimunda, e do meu cunhado João, cumprimento a todos, desejando-lhe boas-vindas. Estaremos reunidos aqui durante nove noites em orações, para louvar São José, na esperança de sermos atendidos no nosso mais forte pedido – chuvas para molhar nossas terras, nos permitindo e nos motivando a trabalhar e produzir, para alimentar dignamente as nossas famílias. Falava bem e claro, a Tia Maria.

Era assim. Estavam abertas as Novenas em Louvor à São José na casa de Dona Raimunda e seu marido, João Buretama. Em cada uma das noites, um parente, vizinho ou convidado era chamado a iniciar as orações.

Assim, durante nove dias, a mais famosa e frequentada Novena para São José que se tinha notícia por aquelas paragens, dava início ao périplo de orações a caminho da perpetuação da Fé.

Nos últimos anos que este “neto” devoto teve notícias, ainda houve espaço na programação religiosa para mandar imprimir santinhos com mensagens de devoção e esperanças, dedicadas ao santo Padroeiro do Ceará.

Aluá de abacaxi servido nas novenas

Na última noite do novenário o público era maior. Compareciam o Padre da Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para encerrar o festejo religioso, agradecer pelos momentos de fé cristã, e autorizar, a cada ano, a realização de uma festa profana – onde compareciam sanfoneiros e outros que tais, e eram servidas guloseimas, salgados, doces e aluás (abacaxi, pão e milho) em fartura, antevendo o alcance das graças pedidas à São José.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MOCORORÓ E A PAÇOCA

Caju “in natura” e a paçoca de castanha de caju

Vamos voltar ao sertão, onde ainda existem coisas boas e pessoas com as melhores virtudes dadas por Deus. Aprenderam fazer sempre o bem – por terem certeza que o retorno será sempre o melhor.

Pois, lembrando disso, volto ao sertão na primavera, finzinho de setembro, quando o caju já amadureceu e a gente pode usufruir do que a Natureza oferece – incluindo nesse cardápio, os nasceres e os pores do sol. Como se Leonardo Da Vinci assinasse as mais belas das suas pinturas.

O caju tá maduro. Cheira e nos atrai ao usufruto, como se fosse uma cadela no cio, embevecendo o macho pelo cheiro do feromonas expelido pela vulva junto com a urina. É o estro, conhecido também, como cio, e é nesse momento que acontece a fertilidade. O caju, pelo cheiro forte, atrai as abelhas e os humanos consumidores. Está maduro e, mal comparando, podemos dizer que está no cio.

É nesse momento que o caju produz mais suco. Quando está no cio. E, é nesse instante, que a gente “espreme” o caju para obter mais suco. Espreme com as mãos, pois a gente só “precisa retirar o líquido”. Separamos o suco, e vamos assar e pilar a castanha – num pilão (nada de usar outro equipamento – esse rico alimento tem origem nas tribos indígenas, desde quando eles jamais imaginavam que, um dia, pudesse vir existir o “liquidificador”), produzindo uma paçoca de castanha.

Põe-se uma generosa porção de paçoca num prato (ou outra vasilha) e, em seguida, acrescenta-se o suco. No interior do Ceará, esse alimento rico em tudo, é conhecido como “mocororó”.

Paçoca de carne seca (ou carne de sol)

A paçoca é hoje um excêntrico componente da culinária nordestina. Tradicionalmente servida como “merenda” ou “tira-gosto”, ou ainda, componente dos reconfortantes cafés das tardes, a paçoca tem como principal componente, a carne bovina – por ser mais consistente. A alcatra ou o filé mignom não são carnes adequadas para a paçoca. Usa-se mais a chã, o patinho ou mesmo o lagarto. Esses, antes, transformados em carne de sol, ou, como diz o bom linguajar cearês, “carne seca”, por ter sido posta ao sol para secar.

No início, a paçoca era feita dessa carne, frita que, somada à farinha seca, era socada num pilão, sempre servida como acompanhamento do feijão verde cozido, e bons nacos de abóbora ou batata doce.

Nos dias atuais, a paçoca é vendida em porções nos eventos da culinária nordestina. Acompanhada de uma cerveja gelada é algo imperdível por quem aprecia coisas gostosas.