JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SEU JULIM E O DIA DAS CRIANÇAS

Seu Julim e o prazer em fazer a felicidade dos outros

Dia da criança como muitos nunca tiveram.

Depois do almoço preparado por Joana, que resolvia abater três ou quatro galinhas bem cevadas no quintal, e algo mais que se fizesse necessário para preparar a cabidela, arroz novo torrado e socado no pilão, e depois lavado na arupemba (uma espécie de peneira fabricada pelos indígenas) sem tirar aquele gosto de queimado, farinha seca crocante, feijão de corda verde com quiabo, maxixe e jerimum, além de um gostoso pirão escaldado.

Tava pronto o almoço para os parentes e a meninada que se preocupava mais nas brincadeiras da roça que em ganhar presentes da Estrela, como acontece hoje. Se bem que os brinquedos da Estrela foram substituídos pelos celulares, tabletes e autorizações para baixar os aplicativos.

As crianças têm novos hábitos. Os pais são outros. A maioria afeita à transferir responsabilidade na estruturação da família. Escancaram as portas para o Estado, e depois usam uma lupa na procura do culpado.

Almoço servido e comido, as redes são armadas na latada e no alpendre comprido da casa. É naquela rede que a gente ficar tacando o pé na parede, e aproveita pra coçar as frieiras dos dedos nas beiradas da rede tijubana e ficar escutando aquele rangido do armador como se fora um besouro mangangá.

Não tive e jamais terei vida melhor. Que aconteçam tantos e tantos Dia da Criança.

No finzinho da tarde, com o sol ainda morno, mas de quando em vez a gente escutando o barulho do chocalho preso no pescoço do bode no chiqueiro, a cadela Pintada se despedaçava na direção da porteira e se danava à latir. Chamando a atenção de todos que estão no alpendre se balançando nas redes.

– É seu Julim!

Apois, Seu Julim, em todo Dia das Crianças se dava ao trabalho de selar um burro formoso e trotar mais de dez léguas – tudo prumode ter o prazer de contar histórias e algumas estórias para a criançada. Tinha até criança que se banhava e arrumava todim, butando brilhantina nos cabelos, prumode ficar assentado e quietinho escutando as estórias de Seu Julim.

Logo que apeava do burro e o acomodava para descansar e beber água, Seu Julim achava bonito e educado cumprimentar os adultos da casa, um por um, e só então dizia o que fora fazer.

Antes de deitar na rede para balançar, Vovô João Buretama tinha a obrigação de preparar o tamborete que Seu Julim usaria para sentar e entreter a criançada. Também fazia questão de manter algum tição aceso em brasa no fogão. Era o tição que Seu Julim usaria para acender o fumo do cachimbo.

Tamborete posto e Seu Julim sentado. Agora era picar e socar o fumo no cachimbo, enquanto as crianças se aproximavam, uma a uma para sentar numa roda em forma de arena.

Tição no cachimbo e uma sugada. Tição de novo no cachimbo, até que a brasa quebrava e caía. Mas o fumo do cachimbo estava aceso.

– “Era uma vez, um Rei de uma cidade muito distante!…….”

– Seu Julim, essa estória aí o sinhô já contou!…… garantia Moisés, um dos mais antigos que já desfrutara das tardes do Dia da Criança em pelo menos três oportunidades.

– Já contei? Mas vou contar de novo, pois você drumiu antes deu acabar de contar!

Longe dali, com a penumbra da noite chegando, o sonoro e triste cântico do vem-vem dava a garantia que todos estavam mesmo era na roça, e não num shopping cheio de barulho e escadas rolantes. Muito movimento, mas sem a vida que nos faz bem e amamos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DIFÍCIL MAS ETERNA E APRECIADA DOÇURA DO MEL

Mel de abelha só sabe fazer o bem

Os tempos estão amargos. Precisamos adoçar isso um pouco, e falar de mel. Falar da doçura do mel, passeando um pouco e rápido pela dificuldade de “fabricar” algo tão doce e benéfico para a saúde. Benefício sem nenhuma contraindicação. É doce e só faz o bem.

Hoje viajaremos na doçura do mel. Com o devido cuidado, para não nos lambuzarmos.

“O mel é um produto natural obtido a partir do néctar das flores e de excreções da abelha. Além de ser um ótimo adoçante natural, este alimento é cheio de benefícios porque conta com ação antimicrobiana, capaz de impedir o crescimento ou destruir micro-organismos e assim proteger contra doenças.”

O mel com “industrialização” apenas na embalagem

Dito acima, o mel é um produto do néctar das flores visitadas e polinizadas pelos vários tipos de abelhas que o Único Poderoso colocou no mundo. Cada tipo com sua resistência de habitat, capacidade produtiva diferenciada, e motivação recebida da Natureza, em especial na estação primaveril.

Sem flores não haverá mel. Quanto mais o humano (???!!!) destruir a natureza inviabilizando a visível existência das estações climáticas no planeta, sem árvores, menos abelhas teremos e o mel será transformado em algo de acentuado amargor diferente.

Veja o que garante a Nutricionista TATIANA ZANIN a respeito dos benefícios do mel para a saúde humana:

“O mel possui propriedades nutritivas e terapêuticas que trazem vários benefícios à saúde. É rico em antioxidantes que protegem o corpo e o coração do envelhecimento, auxilia na diminuição da pressão sanguínea, dos triglicerídeos e do colesterol, contém propriedades contra bactérias, fungos e vírus, combate a dor de garganta e a tosse e pode ainda ser usado como adoçante natural.

No entanto, mesmo com todos esses benefícios, o mel deve ser consumido com moderação, já que ainda é rico em calorias e açúcar. A substituição do açúcar puro pelo mel em alguns alimentos ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis e pode trazer muitas vantagens para a saúde. Algumas dessas vantagens são:

1. Aumentar as defesas do corpo – Os compostos presentes no mel conferem poder antioxidante, o qual ajuda na proteção do corpo. Entre os benefícios, destaca-se a redução do risco de infarto e derrames, promoção da saúde dos olhos, além de auxiliar no tratamento de alguns tipos de câncer, como o de rim, impedindo a multiplicação das células cancerígenas.

2. Melhorar a saúde do coração – O mel traz benefícios à saúde do coração pois é capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e reduzir a formação de coágulos. Esse processo ajuda na diminuição da pressão arterial, prevenindo assim doenças do coração.

3. Melhorar o colesterol e diminuir os triglicerídeos – O mel pode ser um bom aliado no combate ao colesterol alto, pois diminui os níveis de colesterol “ruim” (LDL) e aumenta o colesterol “bom” (HDL) do corpo. Ainda, o mel pode ajudar a diminuir os níveis de triglicerídeos porque pode ser usado como substituto do açúcar. Geralmente, dietas ricas em açúcar e carboidratos refinados causam aumento dos níveis de triglicerídeos, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes tipo 2.

4. Combater bactérias e fungos em feridas – O mel possui propriedades que reduzem o tempo de cicatrização, pois é capaz de esterilizar feridas reduzindo a dor, cheiro e tamanho, promovendo, assim, a sua cura, sendo considerados eficaz e até melhor do que alguns curativos.

Pode ser também uma ótima opção para tratar úlceras nos pés de diabéticos pois combate os germes e ajuda na regeneração dos tecidos. O mel também já vem sendo usado para curar lesões de herpes oral e genital, já que reduz a coceira e funciona tão bem quanto as pomadas encontradas na farmácia. Também pode tratar bactérias resistentes a antibióticos, úlceras e feridas a longo prazo após a cirurgia e queimaduras.

5. Aliviar a dor de garganta, asma e tosse – O mel reduz a inflamação e inchaço da garganta e dos pulmões, sendo eficiente ainda nos casos de gripe e resfriado, melhorando o sono. É indicado tomar duas colheres de chá de mel na hora de dormir, pois o doce faz com que mais saliva seja produzida. Isso melhora a mucosa da garganta protegendo contra a irritação, reduzindo e aliviando a tosse, sendo, em muitos casos, mais seguro e eficaz que alguns xaropes.

6. Melhorar a saúde gastrointestinal – O mel é um prebiótico muito potente que nutre as bactérias boas que vivem no intestino. Logo, é benéfico para a digestão e para a saúde em geral. Além disso, também pode ser usado para tratar problemas digestivos, como diarreia e é eficaz no tratamento para as bactérias Helicobacter pylori, causadoras de úlceras gástricas. Ainda, outro chá que pode ser feito para combater a má-digestão é de mel com canela, pois esses dois alimentos naturais ajudam a melhorar o processo digestivo como um todo.

7. Ajudar na memória e ansiedade – O uso do mel em substituição ao açúcar vem sendo associado com a melhora da memória e dos níveis de ansiedade. Além disso, estudos indicam que o mel também pode melhorar a memória de mulheres na menopausa e pós-menopausa.

8. Tratar hemorroidas – O mel possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes, que reduzem o sangramento e aliviam a dor e a coceira causadas pelas hemorroidas. Para esse efeito, basta misturar mel, azeite de oliva e cera de abelha e, depois, aplicar na região.

9. Combater a obesidade – Devido às suas propriedades, o mel melhora o controle de açúcar e gordura no sangue, reduzindo o estado inflamatório e auxiliando na manutenção do peso.” (Tatiana Zanin).

E… quem faz esse mel ser tão doce?

A abelha “engenheira do doce mel

Os especialistas afirmam que existem várias espécies de abelhas, sendo necessária, às vezes, a mudança de nome dessas espécies, de região para região deste país continental. Abelha africana, jandaíra, araçá, uruçu, mandaçaia, tiúba, jataí, contando ainda os marimbondos chapéu, amarelo e outras espécies, todas produzindo mel.

Cada espécie de abelha “trabalha” com tipo diferente de flores, de onde extrai o pólen. São chamadas também de “abelhas operárias” e recebem comando da “abelha rainha” – mesmo tipo de vida da Rainha da Inglaterra. Reina, mas não manda nada.

Marimbondo chapéu ou marimbondo de fogo

O marimbondo produz mel. Não se tem informação afirmando o consumo do mel produzido pelo marimbondo – sempre em menor quantidade que o produzido pelas abelhas. Provavelmente, por conta das diferenças entre as colmeias.

Do marimbondo se tem informação dizendo da dor provocada no ser humano pela “ferroada” desse mosquito. Quem já teve a má sorte de ser ferroado pelo marimbondo não faz nenhum elogio.

Eu mesmo, criança e ainda morando em Queimadas, quase perdi um primo por conta de uma ferroada do marimbondo chapéu. Um só marimbondo não. Vários. Foram ferroadas nos lábios e nos olhos. A falta de cuidado adequado levou à uma infecção, e essa causou problema grave para a visão.

Colmeia do marimbondo chapéu

Distante da intenção de procurar mel (e era fácil encontrar enxames de arapuá, uma abelha preta que constrói colmeia nas árvores semelhante ao cupinzeiro), a infância premiava a meninada com a diversão do “caçar com baladeiras” – alguns até contribuíam com rolinhas, juritis, camaleão, teiú, nambus para completar o “dicumê”, quase sempre feijão com nada – e era isso que a levava à mata.

Comum encontrar cobras verdes, cobras de cipó, libélulas, gafanhotos, calangos, mané-magos, louva-deus e também muitos marimbondos.

Criança que sabe ser criança, “não bole com marimbondo”, era o que aconselhavam os avós, quando pegávamos a baladeira e o bornal com pedras e outros apetrechos apropriados para aquela divertida obrigação de caçar.

Marimbondo não ficava fora do caminho. Avistado, ninguém se atrevia e mexer. Quando se atrevia, mexia e saía de perto.

Marimbondo da febre

Entretanto, havia nas Queimadas uma espécie rara de marimbondo desconhecida para um sem-número de pessoas mas, conhecida pela meninada, principalmente a que andava pelas matas caçando aves ou filhotes ainda nos ninhos para criar. Era criado com a intenção do entretenimento, sem qualquer tipo de maldade com as pequenas aves.

Essa espécie de marimbondo construía uma colmeia em forma de pera, mas os “afuleimados” garantiam que se assemelhava a um seio de menina. Pequeno e rijo. Era ali que viviam os marimbondos que, ferroando alguém, provocava febre. Provavelmente, era uma espécie que tinha alguma serventia para os pesquisadores. Essa espécie, ninguém se atrevia à saber se produzia mel ou apenas ferroava.

Mas, entre todas essas espécies de abelhas ou marimbondos que produzem mel, uma espécie em especial chama a atenção de duas comunidades: a comunidade indígena, que faz uso do mel para fins terapêuticos; e a comunidade dos pesquisadores, que há anos tenta descobrir a forma habitacional em função do pequeno porte da abelha e a sua real utilidade medicinal para a saúde humana.

Comumente é conhecida como “abelha mosquito” e é o seu tamanho minúsculo que causa curiosidade. Escolhe os lugares mais fáceis de serem encontrados, tanto para viver quanto para produzir.

A abelha mosquito escolhe o jucá ou pau-ferro para construir suas colmeias. Constrói no miolo dessas árvores a sua colmeia e ali produz e se reproduz, sem a preocupação de ser incomodado. Mas os indígenas sabem a forma para extrair o mel medicinal da abelha mosquito.

A abelha “mosquito” de mel medicinal preferido pelos indígenas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PRAÇA

Toda e qualquer cidade tem seu ponto de referência. Seu ícone, ainda que não seja o ponto principal da cidade.

Em Recife, por exemplo, temos o “Marco Zero”; em Salvador temos o “Pelourinho”; no Rio de Janeiro temos a “Cinelândia”; em Ribeirão Preto temos o “Bar Pinguim”. Até em Palmares/PE, temos o local da roubalheira, onde funciona a roleta do Cu-Trancado.

Assim, em Fortaleza não poderia ser diferente. Com tantos lugares repletos de passagens históricas, de momentos de glórias – mas o ícone será sempre a Praça do Ferreira. Era ali que muitas coisas aconteciam, aconteceram e continuarão acontecendo. É o coração da cidade.

Ali, onde hoje é o ponto mais importante e “falado” da cidade, um dia já foi tão insignificante que poucos se preocupam em saber. Foi um areal onde existia apenas umas poucas e crescidas árvores (mongubas e castanholas) e uma cacimba. Ainda sem denominação oficial, a famosa Praça do Ferreira era conhecida por “Feira Nova”, por ser ali que acontecia uma feira nos finais de semanas.

Por volta de 1842, a praça já recebera novo nome: Praça Dom Pedro II, denominação sugerida pelo próprio construtor e então presidente da Câmara – Antônio Rodrigues Ferreira, boticário, que aproveitou para instalar seu primeiro “negócio” na então Rua da Palma, hoje conhecida como Rua Major Facundo.

Esse comércio de medicamentos manipulados ganhou fama. Era na frente ou dentro do próprio estabelecimento, que passou a ser conhecido como Botica do Ferreira”, que a maioria das pessoas cultivou o hábito de se encontrar, transformando-o numa referência local. E isso foi o ponto inicial para que a Botica do Ferreira, após mudar de lay-out, se transformasse na hoje Praça do Ferreira, a partir do ano de 1871.

Antiga foto de urbanização da Praça do Ferreira no século XIX

Fortaleza crescia. Novos bairros se formavam a partir de pessoas tangidas dos lugares onde nasceram pela escassez de trabalho, principalmente aqueles voltados para a agricultura.

Influenciadas pelo fato do movimento abolicionista de 1882, em Redenção, distante dali por apenas 55 km, famílias, agora “livres da escravidão formal”, partiram em busca de novos rumos. Como Fortaleza não ficava tão distante, esse foi o local mais procurado.

A população da capital cresceu (não apenas por esse motivo) e novos bairros surgiram na periferia. Mas, o “ícone” ainda era a já Praça do Ferreira.

A partir de então as necessidades foram impondo as reformas. Lojas comerciais, cafés e demais pontos de encontros e reuniões. Quiosques foram erguidos. A política chegou e passou a ter importância de alta relevância na cidade. E a Praça do Ferreira era o local escolhido para a solidificação das parcerias. Três novos pontos surgiram. Na realidade, três quiosques onde se tomava café e conversava: Café do Comércio, Café Elegante e Café Java.

Novo lay-out da Praça do Ferreira onde já aparece o relógio

A então gestão pública ganhou o seu quinhão. Foi ali que surgiu o primeiro ponto de funcionamento da fiscalização, erigido pela Companhia de Luz.

Por sua vez, a mesma gestão municipal tomou a iniciativa de privatizar e gradear a secular cacimba que atendia o serviço de água para a comunidade. Sobre a cacimba mandou instalar um cata-vento para facilitar o bombeamento da água. Foi construído ali, também, um jardim que deu novo visual à Praça do Ferreira.

Finalmente, a partir de 1920, o então prefeito Godofredo Maciel resolveu dar uma forma urbanística definitiva para a praça. Mandou demolir os quiosques, haja vista que perderam a importância no desenvolvimento da cidade. Em seguida mandou ladrilhar a imensa área e aproveitou para construir um famoso coreto, que anos depois seria demolido pelo município e ali colocado o famoso relógio que, reformado por várias vezes, enfeita o principal cartão postal do centro de Fortaleza.

A atual Praça do Ferreira

Após ter sido em 1839 um imenso areal, em 20 de dezembro de 2001, pela lei municipal 8.605, a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza.

Durante anos, a hoje Praça do Ferreira foi palco de fatos e momentos históricos que marcaram a vida fortalezense. Surgiriam nos anos seguintes os bares, cafés, agências bancárias, cinemas em lugares onde antes, existiam apenas o Boticário Ferreira e sua significativa importância para as decisões políticas, sem esquecer os membros que compunham a Padaria Espiritual.

Chegaria sem demora a época do abrigo, costumeiro ponto de encontro e discussões de assuntos da política, da segurança da cidade e, principalmente, do futebol. Chegariam os hotéis Savanah e o Cine São Luiz para somar à vida noturna e boêmia da cidade ao lado do já existente Excelsior Hotel e Clube do Advogado – esses dois últimos na esquina da Rua Guilherme Rocha, mas voltados para a Praça do Ferreira.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PARTO E O PATO

A “parteira” e o bebê

Tudo tem seu começo, meio e fim. Tudo que tem vida passa por essas escalas da Natureza. O ciclo vital.

Menino ainda, sem conhecer o prazer de fazer e a alegria de ver nascer, levei algum tempo para entender a “diferença” entre o sentar à mesa para uma refeição em família, e o entrar na camarinha para ver uma criança nascendo.

Era assim naquele tempo que está distante. Só permaneceu na memória e na poesia da saudade. E, da mesma forma, era ali naquele não ter nada de nosso, que a Fé semeava a esperança para nos premiar com a colheita de dias melhores. Cada criança que nascia, era a forma prática da colheita da esperança.

O choro era o bom anúncio do resultado daquela torcida empurrada pelos “força”, mais “força”, tá nascendo. Aguenta firme!

Antes, o cenário mostrava uma bacia de ágata com água quente e uma jarra com água fria para a necessidade de “esfriar um pouco”. Uma tesoura com pouco uso, mas muito antiga, era o único instrumento cirúrgico usado por Dona Tina (Esmerantina Costa), madrinha e comadre de quase todas as famílias daquele povoado. “Parturiou” quase todas as mulheres e aparou quase todas crianças que ali nasceram.

Bacia de ágata usada na assepsia do recém nascido

– É um menino!

Um anúncio feito em estridente grito por Dona Tina, encerrava a expectativa do nascimento de mais um rebento, ornamentado pela possibilidade de boa saúde da criança e da mãe. O futuro não lhes pertencia – mas, naquele instante, era reforçado pela esperança semeada pela Fé, de que tudo seria só felicidade.

A tesoura que cortava o cordão umbilical – nunca se teve notícia de infecção

O corte e a sutura do cordão umbilical acompanhado pela imersão na água para a assepsia, coroavam o trabalho de parto de Dona Tina em “Donana” (Ana Beatriz) que, automaticamente, se transformava em “Comadre Tina”.

Abraços e parabéns e a primeira mamada da nova mãe. Sem charutos nem champanhes, na cozinha o furdunço era intenso na preparação do enorme pato “cevado” especialmente para aquele momento de alegria.

– “Donana” num pode cumê pato, gente!

Era o principal conselho da agora Comadre Tina. A solução era abater aquela galinha, também cevada com carinho para a oportunidade. Por três dias, só “Donana” comeria daquela galinha de parida. Mas, o que ela mais gostava era de beber o caldo.

Três ou quatro mulheres preparavam o “dicumê festivo”, enfeitado e reforçado por uma paçoca de castanha de caju com charque, as duas socadas num pilão batido a quatro mãos. A paçoca substituía a farinha seca – mas continha parte dela. O arroz colhido na pequena roça fazia parte de tudo. Torrado e pilado, além de posteriormente lavado e escorrido na “arupemba”. Tinha sabor especial. Aquele gostinho de queimado sem ser “queimado”.

O pato que pagava o pato

– Já mataro o pato?

Era a pergunta feita por Comadre Salustiana, convidada especialmente para comandar a cozinha naquele dia – por conta dos trabalhos de parto de “Donana”.

– Inda não!….. respondeu Abigail, ocupada em preparar a paçoca no pilão.

– Apois adindonde que tá o danisco?

Quis saber Salustiana, já portando uma faca e uma bacia com um pouco de vinagre.

– Tá ali, amarradim, o coitado! Respondeu toda pesarosa Abigail.

Com tantas auxiliares naquele dia especial, preparar o almoço para alguns convidados não era tarefa difícil. Parto feito, pato abatido e comida a caminho da mesa. Sangrar o pato, cortar e fazer o molho pardo, naquele lugar parecia ser muito mais fácil que fazer um parto. O parto é a primeira etapa e o pato a consumação.

Pato ao molho pardo

Chegava a hora do servir. Salustiana serviu às crianças (a mim, inclusive) e mandou que fossem para o alpendre da casa. Quem quisesse mais, poderia vir pedir.

Finalmente, a oração. Oração pela chegada de mais um rebento com saúde. Oração pela pronta recuperação da mãe – já em preparativos para daqui a dois meses começar a fazer mais um. Era assim que a coisa era naquele interior cearense.

Almoço comido. Todos alegres e satisfeitos. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.

– Compadre Augusto, vosmecê aceita batizar meu menino?

– Depende compadre. Cuma é o nome que vosmecê quer botar nele?

– “Getúio”, compadre!

– Eita meu compadre! Bom nome. Bem escoído. Nome de Presidente da República!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SENADINHO DO ANGICO

Na sombra do angico transformada em Senado e Câmara tudo era aprovado

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali também que, o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.
Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também aonde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto o fole de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo do Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede e escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau. Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-lata pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unha das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo do cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá embu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

O viver na roça que faz o verdadeiro pacote da saudade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS “PÚBERES” E AS “ADÚLTERAS”

Antigo “Curral das Éguas” em Fortaleza dos anos 40/50

Costumo dizer que as muitas coisas boas do passado ainda não dobraram a esquina da curva do tempo. Se a visão falha, a memória ainda permite lembrar e, assim, terminamos vendo. Ainda dá para ver que, naquele tempo de pureza e pessoas boas, andar de bicicleta e tocar o sinal pedindo passagem, ou viajar uma pequena distância num Jeep Willys era melhor que ir à Disney, onde as crianças são iniciadas em putarias.

Eu escrevi “putarias”. Talvez eu não quisesse escrever “putarias”. Mas escrevi, e é assim que vai ficar. E, já que falei em Disney e escrevi “putarias”, tal qual a Disney, era no “Curral das Éguas” onde os púberes eram iniciados nas putarias do sexo.

Naquele tempo, beijar na boca, só se fosse escondido de muitos – e muitas namoradas não permitiam. Achavam que engravidariam. Aquilo significava para elas, uma iniciação à incitação sexual. Como dizemos hoje, a chegada nas “preliminares”, onde meninas e meninos ficam excitados e molhadinhos, se não tiverem sido “orientados” para outras preferências.

E foi por conta dos muitos que não conheceram o “Curral das Éguas” ou locais iguais, que chegou forte entre nós essa idiotice de “orientação sexual”, em vez de “opção sexual”. Estão querendo nos empurrar goela à baixo, termos que têm outro significado, e querem que aceitemos como eles querem. Estudei foi no Liceu do Ceará, na época em que havia professores que, ao mesmo tempo eram autores de livros da língua pátria.

“Orientação” vem de “orientar”. “Orientar” que dizer “ensinar”. E sexo sem um mínimo de amor é a mesma coisa que cagar. Não precisa de “orientação”. Ninguém ensina ninguém a fazer sexo. Agora, “opção sexual”, é o direito que qualquer um tem de praticar sexo da forma que lhe convier. De forma ativa ou passiva, embora tenha crescido muito o número dos que preferem a fungada no cangote – e eu não tenho nada contra. O que estou tentando dizer é que, orientação é uma coisa e opção é outra. Querem que troquemos os significados. Ninguém vai me obrigar a isso.

Pois, foi ali no “Curral das Éguas”, hoje bairro Moura Brasil, que dei minhas primeiras “pimbadas” – naquele tempo ninguém comia a namorada com a facilidade que come hoje. Precisávamos satisfazer nossas taras nos cabarés, nos chatôs, nas casas de putarias – e precisávamos pagar para fazer sexo que não fosse com a própria mão ou nas jumentinhas da capoeira no sertão.

Hoje, se o namorado não procura logo sentir o cheiro da “xana” no primeiro encontro, para aprovar ou não a depilação total feita com cêra quente, a namorada manda andar e procurar algum gay.

E, como a memória ainda funciona bem, lembro bem de como eram as “suítes” onde o pau cantava na xana de Xolinha. Tinha que pagar antes o valor estipulado pela Cafetina. Era xis pelo tempo pretendido da transa, e xis pelo “serviço” da prostituta. Compunham o cenário da suíte: um rolo de papel higiênico (toalha esterilizada e para o casal, nem pensar), uma bacia de ágata, um pedaço de sabão, e uma jarra com água – chuveiro íntimo com ducha antes e depois da fudelança, é coisa dos tempos que querem confundir “orientação” com “opção”. Era um tal de ouvir o “choque-choque” da água batendo no saco!…..

Nas noites do Curral das Éguas todos os gatos eram pardos

Sem preliminares. Era o que dizia a mulher, pois ela precisava atender outras pessoas e faturar o dela para pagar as contas, pagar a parte do cara que arrumara a vaga para ela no prostíbulo, além de precisar comprar calcinhas novas e atraentes.

Muitos não conheceram a Fortaleza desses tempos. O “Curral das Éguas” funcionava e existiu durante décadas numa área que ficava atrás da Estação Ferroviária e da Cadeia Pública e Santa Casa de Misericórdia. Foi ali que muitos conheceram as principais doenças venéreas que perturbavam, mas não matavam como as doenças dos tempos modernos.

Com a chegada da modernidade trazendo os cinemas “Drive-in”, e junto os carros com ar-refrigerado e os preservativos (que antes eram chamados de “camisa de vento”); a liberação de funcionamento dos motéis até ao lado dos templos religiosos, não teve outro caminho para o “Curral das Éguas” e os iguais, que não fosse a falência.

Uma verdadeira “putaria” que fizeram com os contumazes frequentadores. Ali, muitos conquistaram as atuais esposas e com elas construíram probas famílias, apenas confirmando que a honra nunca esteve entre as pernas. É algo conhecido em meio à família e vive no lado esquerdo do peito.

Ponto de honra do “Curral das Éguas”: afastado dali por cerca de 50 metros, a Polícia mantinha um Posto Policial e quase não intervia naquele frege ou no puteiro. Desentendimentos por conta de embriaguez e briga entre putas por conta daquele homem que “pagava mais” por uma “pimbada”, era coisa comum. Mas, continuava sem intervenção policial. Era crime hediondo vender a única droga que existia com facilidade naqueles tempos: maconha.

Dia desses retornei à Fortaleza para rever familiares e ouvi de um sobrinho policial militar: “Tio, não existe mais o Curral das Éguas. A putaria agora é na cidade inteira, incluindo os apartamentos de edifícios com coberturas.”

Bairro Moura Brasil – um dia foi o Curral das Éguas

Agora, o que jamais vão conseguir substituir é o “Serviço de Autofalante Rosa do Lagamar”, funcionando graças à uma irradiadora de três bocas, espraiando mensagens românticas e músicas idem, com variação da preferência musical. Ali, onde muitos anunciavam (pagando) que a noite estava começando e acabavam de chegar “no pedaço”, era comum escutar a sofrência cantada por Orlando Dias:

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CHUVA QUE MOLHA A ALMA

Homem protegido da chuva – chapéu, capa plástica e galocha

Quando nasci, dois irmãos já haviam chegado antes de mim. Meu pai já tinha mais de 40 anos. Era um homem amadurecido, vindo de ultrapassagens de empecilhos difíceis. Foi professor, naquela época, de Aritmética, trabalho para o município. Ali conseguiu ultrapassar o primeiro grande empecilho: foi demitido, mas saiu ileso e garantiu sua dignidade.

Os muitos amigos que havia feito ajudaram na caminhada. Se soubesse dirigir veículos, teria sido motorista de ônibus intermunicipal. Como não era habilitado, foi trabalhar como Cobrador de ônibus na empresa intermunicipal de um antigo amigo.

Iniciou preparação para um concurso público. Fez e foi aprovado. Foi a partir de então que se transformou em Fiscal Fazendário do Estado.

Foi a partir daí que conheci meu velho Pai. Até onde sei, antes de assumir a família, um verdadeiro boêmio. Notívago, gosto pelas serestas e pelas coisas fáceis da noite. Depois que conheceu minha mãe e constituiu família, um santo homem. Mudou de vida completamente, professor que era, e precisava dar exemplos. Bons exemplos, diga-se.

Andarilho por natureza, meu pai tinha paixão por “andar”. Andar, no sentido físico da coisa, sem que isso tivesse alguma ligação com a necessidade esportiva do andar, do caminhar. Andava por que gostava. E o tempo não era problema para ele. Andava com o sol à pino ou com aquela chuva que molhava tudo. Até a alma!

Guarda chuva uma das “armas” do meu pai

Hoje, anos depois da partida e do encantamento do meu velho pai, lembrei uma imagem que tenho gravada: após caminhar por cerca de 10 ou mais quilômetros debaixo de uma chuva torrencial (com bastante dinheiro no bolso para viajar de ônibus e ficar livre daquela chuvarada), meu pai entrando em casa completamente encharcado. Molhado do pés à cabeça e, pasmem, com um guarda-chuva, com uma capa e com uma galocha. Não adiantava falar nada. Aquilo, aquele banho lhe dava prazer.

O guarda-chuva do meu pai, abandonado

Meu pai foi homem metódico. Tudo que precisava cumprir como pagamento ao início de cada mês, era devidamente anotado. Aquela anotação era “riscada” quando era paga. Aprendi muito com ele e hoje repito algumas daquelas coisas que ele fazia. Sou extremamente organizado com minhas coisas do dia a dia, em casa. Parece chato. Mas sou assim e não vejo necessidade de mudar.

E aí talvez eu não esteja conseguindo me fazer entender. O que o Zé Ramos está querendo dizer, falando algo da vida dele com o pai, numa postagem textual onde ninguém tem qualquer tipo de interesse com o Alfredo Ramos (meu pai)?

E aí eu respondo: meu pai, além de ser meu pai, biologicamente falando, me inspirou, meu fez ver o mundo com os olhos da simplicidade e da verdade e, foi a primeira pessoa que me disse que, “o Brasil é um problema sem solução”!

Um país que tem a gente que tem, que tem os políticos que tem, que tem a educação que tem, que tem o judiciário que tem, que tem o sistema educacional que tem, e que tem, ‘PRINCIPALMENTE’ as escolhas e opções políticas que tem, jamais conseguirá chegar em algum lugar.

Quem que estudou, que tem mais de 60 anos de vida, que algum dia imaginou que aceitaria ouvir dizer que a única solução para este Brasil é a intervenção militar?

Quem está satisfeito com a situação político-administrativa do Rio de Janeiro, e acha que algo diferente de uma intervenção vai resolver alguma coisa?

Quem acha que os políticos que compõem a Câmara e o Senado alguma dia vão resolver “essa merda que está aí”? Fui! Meu pai, acho, estava certo.

EM TEMPO: Se alguém que lê essas maltraçadas linhas não entendeu o que pretendi dizer (principalmente) nas entrelinhas, eu tô é fudido e desisto de tudo!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SAUDADE!

A lágrima salgada da saudade

Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!

É uma saudade danada! Saudade de ti, de mim, de nós!

Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!

Saudade até de quando eu for!

Dói!

Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.

Dói muito!

Saudade daquela noite em que quase nos entregamos, e das lágrimas que chorei por te perder!

Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.

Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.

Saudade do menino que fui e do velho que serei. Saudade de mim, de ti, de nós!

Dói e corta fundo!

Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!

Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andei.

Saudade da minha infância. Da bila, do pião, da cachuleta, da arraia, do corrupio, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.

Saudade das arapucas armadas e dos sabiás pegos. Saudade dos sabiás comidos e até dos que conseguiram fugir. Parabéns sabiás! Tomara não sintam saudades de mim.

Saudade – Pablo Neruda

Saudade é amar
Um passado
Que ainda
Não passou.
É recusar
Um presente
Que nos machuca,
É não ver
O futuro
Que nos convida.

Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.

Saudade da paz que eu quero ter e da que eu nunca tive.

Saudade grande. Dói!

Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LAURA – A MENINA QUE CATAVA FLORES

Laura no trabalho de catar flores

Provavelmente nos meados dos anos 20, Basileo Munhoz, nascido em Campanillas, bairro antigo da cidade de Málaga, na Espanha, depois de trabalhar alguns anos no Jardim Botânico – Histórico La Concepción, resolveu mudar em definitivo para o Brasil. Ainda solteiro, conseguir o visto definitivo não foi coisa difícil. Tentou e conseguiu.

Viajando de navio, levou alguns dias para desembarcar em Santos, litoral de São Paulo. Na cidade portuária procurou trabalhar, mas não conseguiu. Viajou por terra para Minas Gerais e, em menos de uma semana já estava trabalhando numa fazenda que produzia bebidas. Ali, também não conseguiu se adaptar. Embarcou no trem dos sonhos, com uma pequena mala cheia de ventos e de esperanças.

Dias depois acordou, já em Redenção no interior desprotegido e esquecido do Ceará. Na terra da cachaça e dos canaviais, Munhoz conheceu Bernarda, quarta ou quinta geração de africanos feitos escravos. Namorou. Namorou mais e mais. Namorou sem reservas e sem cuidados.

Coisa de duas ou três semanas depois, escutou de Bernarda uma preocupação:

– Bem, estou aflita! Minha menstruação está atrasada há mais de uma semana. Bernarda “buchou”.

Meses depois, sem eira nem beira, nasceria uma menina com traços visuais flamencos e sangue brasileiro. Chamou-se Laura. Laura, filha de Bernarda com Basileo, dois canavieiros que aprenderam fazer dos dias de vida o mais doce açúcar.

Basileo casou de papel passado. Resolveu que deixaria para trás, em Campanillas de Málaga, o Munhoz, agora assumidamente transformado em Muniz. Basileo Muniz, Bernarda Muniz e Laura Muniz. Uma família!

Como jamais haverá mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe, o período de valorização e importância da cana-de-açúcar e derivados sofreu um baque com a queda da economia, a variação para menor das exportações e os problemas naturais de qualquer economia de um país. Os dias ruins bateram à porta.

No auge, movido mais pela força do trabalho de Basileo e Bernarda, uma boa reserva financeira permitiria a compra de uma extensa área de terras, mas sem muita utilidade agrícola. Era uma terreno acidentado, repleto de dificuldades.

Um único benefício: um córrego que banhava parte da área e, durante o ano inteiro produzia um verde mais verde que muitos verdes.

Laura crescia. Pelos, seios e “aqueles dias” vieram quase todos no mesmo mês. No Ceará, diz-se: “ficou mocinha”!

Menina moça, pouca roupa, seios rijos e crescentes desprotegidos do sutiã, saia curta, acima alguns centímetros das patelas e bulindo cagente quando trocava os passos. Colhendo flores, colhendo margaridas, colhendo camomilas e espraiando vida e juventude num desenho inconfundível de desejos explícitos.
Assim era e ficou Laura, a menina que catava flores e margaridas para vender e colorir a vida – dela e de quem a olhasse.

Basileo que era Munhoz e virou Muniz, envelheceu. Bernarda, que era apenas Bernarda e também virou Muniz, cumpriu a missão divina da multiplicação e, com Laura já “mocinha ascendente”, encantou-se.

No campo banhado pelo córrego, a cada primavera de todo ano, as margaridas se misturavam com a Laura e as camomilas, viravam buquês perfumados nos vasos, muitos até sem água, levando a vida pela vida e pela eternidade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ODORICO PARAGUAÇU FAZENDO FALTA NO BRASIL – SUCUPIRA E O POEMA DA TERRA QUE FICOU POR LÁ

Odorico e as irmãs Cajazeiras

Publicada em 1605, mas, provavelmente escrita antes disso, “Don Quixote”, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra registra passagens bem atuais e outras que estão por vir (coincidências, acredita-se). São mais de quatro séculos de vaticínios.

A revolução dos bichos” (Animal Farm), escrita por George Orwell, e publicada em 1945, vai completar nessa segunda-feira 17, 75 anos, e nela também há passagens coincidentemente atuais.

E o que tem de atual nisso?

Poderia ser “as promessas feitas à Sancho Pança”. Não? Afinal, as eleições no Brasil já estão batendo à porta. Ou que os bichos, se revolucionem e evitem pelo menos o caminho das panelas.

Assim, imagino que não estarei exagerando, se disser que, a novela “O bem amado”, escrita em 1973 por Dias Gomes, nos transporta para o momento atual vivido pelo Brasil, mais propriamente pelos ansiosos prefeitos de centenas de “Sucupiras”, que tentam justificar parte do dinheiro surrupiado via Orçamento de Guerra, com o aval do STF (Supremo Tribunal Federal), e, além dos hospitais de campanha, se deleitam com as imagens das sepulturas enfileiradas. Muitos sonham com isso, transformando sonhos em água para lavar o dinheiro.

E pouco se importam se algum “Nezin do Jegue”, em momentos mais que sóbrios, e sem tocar fogo no álcool consumido na bodega do Jessier Quirino vai furar a quarentena e gritar a todos pulmões: “São todos uns Odoricos, esses prefeitos ladrões”!

Nezin do Jegue (Wilson Aguiar)

Don Quixote acalentava o sonho levado pelos moinhos, mas ora ouvia e ora não achava importante escutar o escudeiro Sancho Pança, à quem fizera promessas. Sonha até hoje. Mas Cervantes entregou ao mundo a ideia da perseverança, na procura da realização do sonho, ainda que esse pareça impossível ou pouco provável.

George Orwell conseguiu dizer que, “nem os bichos se conformam tanto, de forma tão degradante e resolvem partir para a revolução, tentando impor novas ideias que os libertem da submissão ou do “só servir para ser comido”. Às favas o conformismo e ao inferno a aceitação total e perene das coisas que não são boas. Isso, creio, poderia ter alguma ligação com o povo brasileiro nas últimas eleições, mudando o caminho da história. Exatamente quando o “#elenão” perderia até para a Marina.

Dias Gomes sequer faz uso do Zeca Diabo, contratado para solucionar o problema “equacionatório, imaginatório e realizatório” de Sucupira, e da consumação corruptiva de Odorico Paraguaçu. É o Brasil de hoje mostra do há 45 anos atrás.

Estranhei que, na verossimilhança não haja um mínimo de espaço onde possamos inserir as atuais decisões do STF. Seria, por acaso, a necessidade de nos apropriarmos das notícias através do Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) ou de Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), proprietário d´A Trombeta (TV Globo)?

Chico “Maranguape” Anysio

* * *

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Ficaram também Belchior,
Fagner, Cego Aderaldo,
Sem esquecer Zé Tatá.

Terra do meu Padim Ciço,
Castello Branco, Paulino Rocha,
Não esquecendo Florinda,
Prometendo lembrar sempre
Que Zé de Alencar vem de lá.

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Ficaram também, Mucuripe
O Orós, a guabiraba, e o sapoti
Mas ficou eterno o Liceu do Ceará.

Terra do peixe biquara, do Cumbuco
Louvando o Xico Bizerra de lá,
Não esqueci as rendeiras, as redes,
Macaúba, murici e o pão do aluá
Patativa, Juazeiro, Messejana e Tauá.

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Tenho sofrido, aprendido, vivido
Alimentando a Fé e a certeza
Que um dia voltarei para lá.

Composição deste colunista