JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FOME DESCONHECE A PRESERVAÇÃO DAS ESPÉCIES

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração”

Música “Súplica Cearense”, da autoria de Gordurinha e Nelinho

Por que, em alguns países a “caça esportiva” (caçar pelo prazer da prática) é permitida?

Como perguntou Chico Anísio durante uma entrevista ao Jô Soares: “Que falta vai fazer à humanidade, o Mico Leão Dourado, se matarem todos?

E eu aproveito e pergunto: qual é mesmo a utilidade do Tamanduá, do Rinoceronte, da Zebra?

Claro que, quem nasceu no Rio de Janeiro, foi educado por boas famílias, estudou em boas escolas e nunca sentiu nem ouviu o ronco das tripas, só come picanha, choriço, carnes argentinas e churrascos gaúchos, será um eterno defensor das espécies, muitas das quais ele sequer ouviu falar.

Agora alguém que nasce e vive na região desprotegida de planejamento de captação da água, onde o índice pluviométrico é baixíssimo e que muitos vivem rezando “para o sol se esconder um tiquinho, pedindo pra chover, mas chover de mansinho pra ver se nasce uma planta no chão” que possa ter alimento para o gado, para as cabras, para as galinhas e para os peixes, jamais vai deixar de comer o que lhe sacie a fome.

Gado morto pela falta d´água

O criador, cabisbaixo, olha em volta e até aonde a vista alcança: tudo seco.

Olha para o boi, até então de estimação, pois era quem reproduzia a maior parte dos bezerros dali.

O boi parece chorar.

Sente o que pode acontecer.

Sabe que, de um jeito (abatido pelo proprietário) ou de outro (se permanecer vivo e sem ter nada para comer) a morte é inevitável.

Os meninos já sentem a escassez. Nenhuma caça.

O camaleão, primeira opção para evitar que a fome os matasse tal qual o boi, já fica difícil de caçar. A coloração atrapalha. Não é mais verde. Virou cinzento e se confunde com as estacas e os paus das árvores e das cercas.

Camaleão só é preservado onde há o verde e a fartura

Não é difícil encontrar alguém vendendo carne de jacaré nas feiras de muitos interiores do Maranhão. Como é abatido e a qual espécie pertence, também não sei. Mas, pela forma como é vendida aquela carne, com certeza quem vende sabe que é proibido.

Quem compra, também sabe.

Mas, em outros lugares, a fome não quer saber de proibição.

E cabe uma pergunta: por que o homem não pode comer carne de jacaré, e o jacaré por comer o homem?

Alguém pode até me rotular de idiota por fazer essa pergunta.

Mas, o jacaré está sempre com fome?

Quando ele não está com fome, deixa de ser predador?

Desde quando existe a letra daquela música, dizendo que, “jacaré que não se vira, vira bolsa de madame”?

Jacaré gordo que merece ser comido

Mas, repito a pergunta feita no início deste texto: por que a “caça esportiva – sem que se saiba o destino da caça abatida – é permitida” e a caça para a sobrevivência é proibida?

Por que as leis brasileiras que tratam desse assunto são tão idiotas e seletivas?

Não. Não vou escrever aqui que é proibido “espantar” uma baleia em alto mar. Também não vou dizer que, seletivamente, em alguns casos, as leis brasileiras são mandadas pcdc!

Paca pode ser comida e mostrada que está “gostosa”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MAIS ANTIGO GRUPO DE ZAP-ZAP

“Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até, até sonhar de madrugada
Uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar”

Depois de caminhar alguns minutos pelas veredas na direção do açude, Zoraide de Juca – nos interiores do Ceará, ninguém é conhecido pelo sobrenome. Alguém sempre será “Zé de Miguel”, “Zoraide de Juca”, “Beatriz de Luciano”, “Domingo de Zenaide”, e daí em diante – carregando na cabeça uma bacia com roupas e uma rede cagada para lavar.

No bornal, uma barra de sabão em pedra, cachimbo, uma faca pequena, fumo de rolo, rapadura e farinha seca para a merenda. A água já tem no açude.

Mais com pouco chegam Damiana de Inácio, Domingas de Getúlio e Sandra de Zezim do Bode – assim conhecido por ser o único matador de caprinos nas redondezas.

Pronto. Está formado o mais antigo grupo de zap-zap. Tem até nome registrado no cartório do povoado: “Amigas do Açude e do Sabão”.

– A trouxa hoje tá muito grande, por isso vou cuidar comigo! Falou Domingas de Getúlio!

– Mermã, a minha também não tá pequena e o diacho é que é quase só roupa branca. Os meninos vão precisar pra ir à missa no domingo, disse Sandra de Zezim do Bode.

Eis que o conversê muda de tom:

– Muié, tão dizeno que a fia de Maria do Rosário tá de bucho! Tá prenha mesmo… e não quer dizê quem é o pai, prumode num dá confusão!

As muiés reunidas na lavação

Naqueles tempos passados, “embuchar” a fia de alguém conhecido, tinha que casar. E, se não casasse, o buraco era mais pro lado do que pro meio. O cabra ia se ver!

Domingas de Getúlio não parava de falar. Mas, também não parava de esfregar a roupa. Repentinamente, saiu de soslaio pras bandas do matagal. As outras pensavam que ela tinha “ido conversar com o sabugo de milho” – mas, não foi, porque não levou a vara prumode ispantá os poicos.

Quando menos as outras esperavam, Domingas tava de volta. Tava de volta com uma braçada de ramos de melão São Caetano, que, nas necessidades, dava pra substituir o sabão – só num dava quando a roupa a ser lavada era branca.

– Mulé de Deus (disse Damiana de Inácio), o teu sabão acabou-se foi? E por causo de que tu num falô, mulé?! O sabão que eu truxe vai dá que sobra!

Damiana de Inácio lavando uma rede

– Deixa assim, cumade! Eu num calculei dereito a quantidade de roupa – disse Domingas.

– Ora, bom basta! Retrucou Damiana de Inácio.

Era chegada a hora da merenda. O sinal era o afastamento das amigas para a sombra grande e confortável da ingazeira.

Bacias e cumbucas pra cá, latas vazias pra cá e a merenda começou a aparecer. Nisso, Damiana de Inácio olhou para as amigas e começou a sorrir, certamente lembrando de alguma coisa do passado.

A cobrança veio rápida. Conta Dami, conta. Pediram as outras.

– Se essa ingazeira tivesse boca e falasse!….. KKKKKKKKKK

– O que foi mulé? Perguntaram as outras.

– Afffmaria! O hôme era um jumento, vote! Começou Damiana.

As outras arregalaram os olhos em expectativa.

– Vocês são doidas, num posso dizê! Só digo (gargalhando alto) que o hôme era um jumento. Mas que foi bom, isso foi! Concluiu Damiana.

– Só pode ter sido Getúlio, descobriu Sandra de Zezim do Bode!

– E, como diabos tu sabes, que Getúlio é um jumento, mulé?! Perguntou Domingas, já exigindo explicações!

Foi nesse exato momento que a filha de Maria do Rosário, a grávida, aparece. Foi, também, quando aquele assunto acabou.

– Saliente que só, Damiana, que naquele ambiente de lavação de roupa na beirada do açude, sabia de tudo, vociferou:

– Eita, espia aí a buchuda! Será que vai nascê um “jumentinho”???!!!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MARAVILHOSO TEMPO DO RÁDIO

O céu tá ficano vremeio. Com certeza, é coisa de Deus. Só pode!

É o que minha vista tá alcançando. Daqui mais com pouco, o dia tá amanhecido.

Era assim!

Sempre foi assim na visão do povo que produz para dar o dicumê que quem num planta e ainda reclama o preço!

E o dia tá chegano. Clarim, clarim com um sol maravilhoso.

O rádio portátil ou não, dá a direção de tudo

Seu Messias, antes mesmo de tomar o café com beiju, babata doce cozinhada e amassada num prato de barro onde vai botar leite de cabra fervido, tá sentado no batente da porta da cozinha escutando o rádio. O programa matinal do rádio diz tudo. Dá tudo que muitos precisam ouvir antes de pegar o matulão e partir pra roça.

De repente, a característica sonora do Repórter Esso invade os tímpanos de Messias:

– Atenção, muita atenção!

Em cadeia nacional, o seu Repórter Esso informa: “Morreu o Presidente Getúlio Vargas! Dentro de instantes, diretamente do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, mais detalhes desse fatídico acontecimento”!

Assustado, Messias nem conseguiu levantar do batente da porta.

Rádio Philco antigo

Era assim. Foi assim durante muito tempo.

O programa de rádio era o GPS de quem morava na roça. Informava desde chá para combater gripe, ensinava como assar uma carne na panela de pressão, ensinava como tomar medicamentos alopáticos. Tipo: “Melhoral, melhoral! É melhor e não faz mal. Ou, ainda: “Vick vaporub, o descongestionante das crianças!

Ícones desconhecidos entravam pelas portas da frente das casas, deitavam nas redes e nas camarinhas sem pedir licença. Sempre através do rádio.

Heron Domingues, Narcélio Limaverde, Gontijo Theodoro, Ivan Lima e até Valdir Amaral, o “indivíduo competente – dez é a camisa dele.”

Atualmente os programas radiofônicos só tocam música. Não sei se em obediência à legislação, mas o rádio AM está sendo substituído pelo rádio FM. Tremendo desserviço para os “Seu Messias” da roça e da vida.

A noite chegando e trazendo chuva

Durante anos, nas emissoras PRE-9 e Assunção Cearense, OLIVEIRA RAMOS, meu irmão que chegou (e foi embora) primeiro, se transformou no GPS dos Messias da vida, comandando um programa sertanejo, no entardecer de cada dia: “Segura o bode”!

Era ao mesmo tempo o nome e o chavão do programa sertanejo, que Ele misturava com histórias e estórias vividas no sertão, nas Queimadas, na Guaíúba e na Pacatuba – mas tinha alcance estadual, e, provavelmente, nacional.

Mudou o rádio, ou, mudamos nós?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TRAQUES E BOMBAS

“Pula a fogueira, iaiá
Pula a fogueira, ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor

Pula a fogueira, iaiá
Pula a fogueira, ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor

Nesta noite de festança
Todos caem na dança, alegrando o coração
Foguetes, cantos e troça, na cidade e na roça
Em louvor a São João”

Francisco Alves

Os anos eram 1952 e 1953. Tenho absoluta certeza.

Pela referência religiosa ligada aos santos Antônio, 13; João, 24; e Pedro, 29, os festejos e quase todos os arraiais eram montados nos pátios das igrejas – a quem também, por justo, cabeça bom percentual do lucro das barracas. Barracas de diversões com jogos infantis e juvenis e comidas típicas.

Ao final de cada noite, como acontecia também nos festejos dos santos e santas que nomeavam as paróquias, o leilão. Aí, o rateio do lucro, era meio a meio.

Detalhe: a igreja só cedia o espaço físico. Nunca comprava ou pagava nada. Só recebia.

Fogos de artifícios

E é aí que entra a história do que vivemos na tenra infância.

Em Fortaleza chegavam os fogos e os artifícios fabricados pela Caramuru.

A publicidade começava a acontecer a partir do começo de maio. Fogos: para a criança que os pais começavam a comprar – traques, fósforos luminosos e bombinhas.

Outras fábricas que nunca se sou se eram idôneas, fabricavam as bombas “rasga lata” e alguns foguetes.

Meu pai me abastecia de traques. Éramos sete irmãos. Os dois mais velhos já viviam a adolescência e os mais novos ainda não haviam chegado. Eu em 1952, tinha apenas 9 anos. Era o escolhido para as proezas do pai.

Os traques que explodiam no chão e nas paredes

Quando chega a noite, lá íamos nós (mãe, tia, primos e primas) para os arraiais da Igreja Matriz. Apenas para nos divertir, pois nunca participamos dos leilões que apregoavam galinhas e perus assados – não havia dinheiro para um único lance.

Mas, havia sempre diversões que nos cabiam: jogo do preá; laçar “carteira” de cigarros; tiro ao alvo – isso sem contar a possibilidade de saborear o algodão doce, os churros, as pipocas e as “chegadinhas” (casca do sorvete, vendidas sem o sorvete).

Vez por outra os auxiliares da igreja mandavam para os ares um ou até dois foguetes – claro que o índice de violência era muito pequeno e todos assistiam aquelas explosões em paz.

Mas, mesmo com o baixo índice de violência, os malefícios estavam sempre presentes. Os maus elementos fabricavam e vendiam (e encontravam quem comprasse) as bombas “rasga lata” – um artefato de explosão forte e barulhenta. Era comum, alguém usar uma lata de leite Ninho e “riscar” o fósforo da bomba e cobrir com a lata.

Era um barulho e perigo enorme. Mas, para uma criança de 9 ou 10 anos de idade, sempre foi uma diversão muito arriscada.

Bomba rasga lata

Quase que como um aviso, foguetes eram acesos e mandados para os céus, anunciando o encerramento do arraial naquela noite. A seguir, estava sendo iniciado, também, mais um leilão em benefício das “obras” da Igreja Matriz.

Foguetes juninos

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MAGIA ESTÁ DE VOLTA

A magia do ritmo alucinante do bumba-boi do Maranhão

Aqui e também acolá, já se ouve o som dos pandeirões e o ritmo alucinante das matracas e as letras tocadas e cantadas das toadas dos ensaios redondos do bumba-boi do Maranhão.

É simplesmente envolvente!

A Ilha, cantada nos pequenos versos mas significativos quase sempre é o tema central. Ruas, praças e palcos se enchem de pessoas, turistas ou não, contagiadas pelos encantos e pela magia da maior e mais importante manifestação cultural do Maranhão.

Anos se passam. Novas toadas são ditas e cantadas. Mas jamais conseguirão superar as duas obras-primas imortalizadas por Zé Raimundo Gonçalves e Chagas da Maioba:

Chagas, o Cantador da Maioba (Mudou para outro novilho)

Se Não Existisse o Sol

Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

É boi, rapaziada

Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

É boi, é boi, é boi

Esqueça

José Raimundo Gonçalves (falecido) imortalizou a “toada”

Esqueça aqueles momentos, felizes que você me deu
Esqueça aquele juramento, que fizemos só você e eu
Esqueça a noite, a madrugada, e a Lua que já se perdeu
Esqueça a noite, a madrugada, e a Lua que já se perdeu

Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu
Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu
Esqueça essa felicidade que um dia fiz você viver

Mas não se esqueça de dizer amor
Como é que eu faço para lhe esquecer
Mas não se esqueça de dizer amor
Como é que eu faço para lhe esquecer

Boi Pirilampo

A primeira semana tem a mesma emoção da última, com o encerramento, dia 30, dos festejos de São Marçal. Arraiais montados nos espaços públicos e praças dos bairros tornam o mês de junho na maior manifestação cultural do Maranhão.

A pobreza é esquecida, a situação política é esquecida e tudo é transformado num sorriso (ainda que momentâneo) produzido pela magia junina.

Os ensaios redondos dão a largada até os batizados e atingem o ápice com as apresentações.

O que se ouve no primeiro momento é o cantar da toada cantada por Coxinho, agora transformada em Lei estadual. Toda apresentação de bumba-boi, independente do sotaque, se curva diante da tradição e abre as apresentações cantando:

“O lombo do meu boi
Tem um céu todo estrelado
Ferro em brasa não encosta
Meu boi é mimoso
Meu boi é mimado”

Festejos de Santo Antônio, dia 13. A tradição toma conta das pessoas que fazem da crendice o seu desejar mais próximo. Água na bacia para ver o namorado, faca na bananeira, fogueiras, casamentos e batizados de fogueira perpetuam ao longo de décadas a magia junina.

Canjica, milho assado, pamonha, arroz doce, mingau de milho (macunzá) e a culinária nordestina em primeiro lugar. Quadrilhas portuguesas, casinhas da roça e….. claro, bumba-boi.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DONA MARIA, A MORADORA DA CASA 82

Dona Maria reflexiva

A vida não está boa. Agora. Mas, já foi excelente, antes. Tudo acontecia dentro de uma normalidade e seguia os caminhos da humanização que sonhamos.

Dona Maria, soube-se tempos depois, nascera ali naquela casa 82, Rua das Paparaúbas. Ali também crescera, enfrentou a juventude, e casou. Casou com João, naquele tempo, Cabo da Marinha de Guerra. Era Taifeiro (aquele que cuida e se envolve com a alimentação – no caso dele, no navio).

Embarcado, João passou mais tempo da vida no navio que em casa. Naquela casa de número 82. E, sempre que João desembarcava revivia com Dona Maria, a quente lua de mel. A gravidez era inevitável, e, João nunca acompanhou a luta de Dona Maria durante a gestação dos cinco filhos. Três meninos e duas meninas.

Sem reclamar, Dona Maria cuidava de tudo. E ninguém reclamava de nada. Só Ela, que, às vezes, carente, se obrigava a recorrer aos métodos antigos para satisfazer as carências do corpo. As maiores carências eram satisfeitas no desembarque de João.

Dona Maria era a mãe e o pai dos filhos. Cuidava de tudo. Da escola, da orientação familiar, das dificuldades e, principalmente, de esclarecer as dúvidas e os questionamentos dos filhos.

Cuidava, sozinha, dos afazeres domésticos daquela casa 82.

Muitos aniversários e datas religiosas foram vividos sem a presença paterna. Mas, Dona Maria, por acreditar em milagres, durante os aniversários dos filhos, guardava sempre uma fatia do bolo para João. Entendia que era seu dever e a forma de imaginar a presença do marido.

Os anos iam passando. Os filhos, todos já adultos e agora graduados nas universidades, começaram a cuidar de suas próprias vidas. Dona Maria já não lavava mais as fraldas e nem passava no ferro as camisas usadas pelos filhos ainda alunos. Todos, inclusive as duas meninas, já cuidavam de suas vidas.

Numa manhã de uma quinta-feira, a campainha da casa 82 tocou. De soslaio, Dona Maria viu uma viatura da Marinha. Imaginou que João estivesse voltando de mais uma viagem de serviço.

Do carro desceu um oficial da Marinha, em vez de João. O oficial pediu a presença de Dona Maria, pois tinha algo a comunicar. O falecimento de João. O desmaio foi inevitável. O oficial procurou apoiar Dona Maria, ao tempo que garantia que a Marinha cuidaria de tudo. Do translado do corpo, ao sepultamento.

Os dias seguintes não foram os mesmos. Dona Maria reuniu os cinco filhos e lhes comunicou o fato. Toda a vizinhança da Rua das Paparaúbas soube, e, claro, demonstrou solidariedade. A vida seguiu, mas de forma diferente.

Os filhos casaram. Todos. Os netos começaram a chegar. Mas, contrastando com os anos anteriores, as visitas dos filhos foram “roubadas” pelo modernismo e os novos valores que a sociedade enfrenta diariamente.

Dona Maria, a moradora da casa 82 da Rua das Paparaúbas “adotou” um novo filho. O croché. Com ele e ao lado dele vivia as folgas das atividades domésticas, agora não tão intensas.

Todo fim de tarde, tão logo “o sol esfriava”, Dona Maria brincava com o novo filho, sem chupeta, sem fralda e sem carrinho. Era ali que vivia cada dia, cada fim de tarde. Até que as estrelas cadentes parecessem visitá-la.

O croché preenche a ausência dos filhos

A prática desenvolveu a atividade de Dona Maria. Dona Maria evoluiu tanto nos cuidados com aquele filho adotivo, que passou a receber encomendas. A diminuição das despesas domésticas com a saída dos filhos naturais daquela casa 82, não afetou a pensão que Dona Maria continuou recebendo pelo falecimento de João. O que valia para ela, era a ocupação do tempo vago e o preenchimento da solidão inevitável.

Dona Maria: “eu me abraço abraçando o tronco da árvore”

Aquela casa 82 da Rua das Paparaúbas parecia ser muito distante para os filhos fazerem uma visita. Viviam alegando que não tinham tempo – mas eram vistos nos fins das tardes passeando com os cães e cadelas que, insuflados e absorvidos pelo modernismo, passaram a criar. Até lhes davam nomes humanos.

Para Dona Maria, só o croché.

Certo dia Dona Maria precisou comprar agulhas novas – as antigas estavam lhe trazendo lembranças (João, em vida, trouxera da Hungria e as presenteou, para quem sabe, as necessidades de algum dia) desconfortáveis e precisou comprar novos novelos de linhas coloridas para as encomendas das clientes. Aproveitou e foi dar um rápido passeio pelo parque.

Ali, avistou uma das duas filhas passeando com duas cadelas nas coleiras. Não se aproximou. Preferiu olhar de longe.

Correu e abraçou o tronco de uma árvore, enquanto pensava em voltar para casa e conviver com o filho adotivo – o croché.

A partir daquela descoberta, Dona Maria passou a chamar aquele tronco de árvore de João.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O MEU LIVRO DE ELI

O caminho perseguido dia após dia

Faz pouco tempo. São passados poucos anos, quando a Summit Entertainment apresentou no Brasil, a obra de ação e ficção científica “O livro de Eli”, dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes, tendo como protagonista o genial Denzel Washington.

Quem não viu, perdeu uma magnífica obra de entretenimento. O filme é daqueles que nos permite e faz comer vários pacotes de pipocas.

Eis que, quando a cor alaranjada do nascer do dia ouvia o cantar madrugador do galo, e, sem dizer “bom dia” penetrava por todas as frestas que existiam na parede da casa, eu, ainda atordoado, levantava da rede num pulo só, e me dirigia à latada para apreciar e me deixar “lavar” por aquela luz divina. Um bálsamo!

Poucos minutos depois daquele espetáculo que poucos têm o privilégio de ver, café tomado, me punha na estrada longa da vida, caminhando para onde, com certeza desejaria, voltar: a vida.

O sol morno terminava de iluminar o meu rosto, enquanto, com métodos e com obrigações a cumprir, eu caminhava para pegar o sol e trazê-lo para dentro de mim, como se aquela luz fosse egoisticamente só minha.

E não era – “o sol sempre foi e será para todos”.

Uns poucos aproveitam sua luz divina e brilham, espraiando bondade. Fazendo o bem. Iluminando a escuridão de muitas almas caminhantes. Como eu, que insistia em continuar caminhando para pegar o sol.

Não. Eu não sou apenas mais um Eli. Eu sou outro Eli. Diferente dos Elis da vida e com a vontade de escrever o meu próprio livro. Com o nascer do sol de cada dia, e o caminhar que a vida nos permite.

Embevecido pelo caminhar incessante, envolvido pela luz solar que aos minutos que passam muda da cor alaranjada e, com o milagre de todos os dias, se torna incolor. Mas continua nos banhando, lavando e secando para a vida. Para o caminhar que quer apenas pegar o sol e trazê-lo para dentro de si. Egoisticamente.

Agora, o sol se faz sentir pelo calor. Pela intensidade de si mesmo.

Mais uma manhã se foi. O galo desperto já cantou. Agora o som da vida é inaudível. Quase nulo. Mostrando apenas o movimento forte e passageiro das nuvens brancas que, pelo movimento, nos mostra o azul infinito do céu.

Caminho. Eis que chego ao pico onde o caminhar feito me permite olhar o sol, conversar com ele, que, como mais uma bênção de Deus, volta a se alaranjar. Agora, pela cor de despedida daquele dia – mas certamente voltará amanhã e será cumprimentado pelo cantar madrugador do galo.

Aos poucos, aparentemente repetindo o espetáculo matinal, agora ao reverso, o sol vai se escondendo e nos deixando órfãos da beleza repetitiva de todos os fins de tarde.

O fim do dia poético da caminhada

Eu, ungido ou não, conversei com o sol. Como se Ele, o sol, fizesse parte da minha família. Havia ares de intimidade, de proximidade, de confiabilidade…. e de respostas dadas, convincentemente.

Quem sabe, amanhã, quando o galo me acordar e as cores alaranjadas repetirem o espetáculo da invasão pelas frestas da parede, eu volte a tentar pegar o sol.
Egoisticamente, e só para mim.

Desço do ponto do qual pude apreciar e conversar com o sol – agora, meu amigo íntimo. Nos envolvemos. Nos aproximamos a ponto de revelar nossos segredos e nossos desejos mútuos.

Eu, de pegá-lo só para mim.

Ele, de me fazer ver e entender, que “o sol é para todos”.

Assim Deus quer e permite.

Por hoje estou convencido. Provavelmente amanhã pensarei diferente.

A volta para a casa

Caminho de volta para a casa. Satisfeito por ter escrito mais uma página do “meu” livro de Eli.

Espero ter o privilégio divino de acordar com o cantar do galo, enquanto me regozijo pela volta.

Amanhã, com certeza o galo canta. Hoje, agora, meu prêmio é a sinfonia rítmica e de paz das cigarras.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SOMOS PARTE DA NATUREZA

Sabiá Laranjeira tem um cantar cativante

“A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também

Tu que andas pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor
Tem pena d’eu
Diz por favor
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor”

Comer paca (cuniculus paca) é proibido?

Nascendo e vivendo na roça, a gente (por extrema necessidade e para não morrer de fome) come tanta coisa, que, sinceramente falando, entendo que, quem defende e afirma essa atitude ser criminosa, nunca ouviu o “ronco das tripas vazias”.

Tem tanta coisa com as quais deveríamos nos preocupar mais: a água que bebemos, é realmente potável? Você tem certeza que, comprando aquele garrafão d´água, vai beber a água saudável?

Pois, assim como entendo como “frescura moderna que passamos a adotar”, entender como crime o consumo da paca, muito mais ainda, entendo como idiotice considerar crime “espantar as baleias com o ronco do jet-ski.” Coisa de quem não tem o que fazer!

Lá pelos anos da década de 50, meninos usando calças de suspensórios, apurava uns trocados para comprar as figurinhas do álbum, pegando e vendendo jias. Quem consumia eram os padres-professores do Colégio Piamarta que, naqueles anos funcionava no bairro Montese, em Fortaleza.

Quem era o “criminoso”: quem pegava para vender ou quem comia as jias?

Mas, claro, não era qualquer “jiazinha”. Era uma espécie que se desenvolvia nas valas que existiam no Canal do Jardim América. Os padres eram holandeses – e valorizavam tanto as jias, que as preparavam para comê-las aos domingos.

Eis que, longe dali, sofrendo as agruras e a fome braba provocada pela seca no Ceará, a meninada despreocupada com as leis, pegava seus bodoques e baladeiras e saíam para “caçar o dicumê”. Na volta, às vezes, trazia até cobras jibóias – mas era comum trazer também camaleão (iguana, que, sem folhas verdes para comer, ficavam cinzentas), teiú, paca, tatu, rolinhas e beija-flor.

Ficávamos na dúvida entre praticar o crime (que desconhecíamos naquela idade) pelo abate dessas espécies e morrer de fome.

Claro, não foi esse o caso do “sem-o-dedo-mindim”!

Arapuca para pegar sabiás

Eis que, quem me deu o prazer de ler estas mal traçadas linhas, e se leu com atenção, deve estar se perguntando: e por que o sabiá?!

Lenda ou verdade, aprendemos naquela idade que, Sabiá Laranjeira e Anu Branco ou Preto, quem “mata para comer” jamais terá um bom futuro pela frente.

E, menino acredita em tudo que os mais velhos falam. Menino acredita até que matar para comer paca não é crime, como também não é crime trocar o voto nas eleições por promessas que jamais serão cumpridas.

E por que procurar Melão São Caetano para fazer chamariz para o Sabiá Laranjeira?

O Sabiá, dizem os “antigos”, mesmo estando preso na arapuca, vai continuar cantando – e o cântico vai atrair fluidos positivos para aproximar outros animais “caçáveis e comíveis”.

Lenda?

Há quem acredite em lobisomem e Saci Pererê, ou no Diabo sem “dedo-mindim”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ÀS MÃES

“Parir é fácil e dolorido – mas realiza. Difícil é criar.” – Raimunda Buretama

Dona Quiterinha

Engole o choro!!!
Se eu for aí e encontrar, vou esfregar na tua cara!
Você apanhou foi pouco. Se prepare para quando seu pai chegar!
Já te fa-lei que vo-cê pre-ci-sa res-pei-tar su-a ir-mã!!!

Quem teve a sorte de ter Mãe, e não nasceu de chocadeira, com certeza identifica fácil esse linguajar. A última frase é icônica: pronunciada silabicamente, quando a Mãe castigava o filho ou a filha.

Hoje, depois de um longo tempo de passeios, volto ao batente para render homenagem às nossas rainhas. Escolhi duas personas: Dona Jordina, a minha rainha de todos os castelos; e Dona Quiterinha, a Mãe-Rainha do Papa Berto.

Meu computador deu pane (PC), e não consegui fazer backup de nada. Este é um computador novo. No computador que deu pane, estavam gravadas todas as minhas fotos pessoais, familiares e outras que uso normalmente. Perdi todas.

Assim, como falo sempre (e muito) da minha Avó (Raimunda Buretama) postarei uma imagem que não é ela, é simbólica.

Raimunda Buretama

Lá naquelas paragens, do outro lado do rio, onde provavelmente a lua se esconde, existia uma casa de taipa, com a sala repleta de tamboretes para o descanso das visitas. Na latada, os assentos eram os cambitos e alguns poucos tamboretes com fundos de couro de bodes e cabras.

Na cozinha espaçosa, forno movido a lenha, uma panela grande “amornava” água para garantir o primeiro banho do menino, antes mesmo da primeira mamada. Era um frege de tias e comadres. Enquanto uma preparava o banho, outras se preparavam para depenar galinhas, patos, capotes e até um peru que tomava conta do quintal. A preparação do almoço.

Comadre Chica, a parteira da família que tinha aparado os filhos mais velhos, vez por outra passava na camarinha para ver a situação da parturiente: “tá chegando a hora”!

Raimunda Buretama, soltou uma de suas muitas pérolas: “Ora, bom-basta….. “parir é fácil e dói, mas realiza a muié. Difícil mermo é criar” nesse mundo de meu Deus.”

Da camarinha iluminada por duas lamparinas, veio o aviso:

“Tá nascendo, força minha comadre, só mais um pouquinho.”

“Nasceu!!!!!”

Tragam a água morna, que eu já cortei o cordão do “imbigo”!

Era, naquele dia, 30 de abril de 1943.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTANTE – PARTE DO MEU TODO

Estante onde está depositado um vasto aprendizado

A sala, como muitas de antigamente, ficava na parte frontal da casa. Uma casa grande, como eram as casas antigas. Ao lado daquela sala, uma entrada que conduzia à sala de estar que era usada também como sala de jantar. Dependências antigas, simples, mas muito arejadas e confortáveis.

Uma porta que, aberta, conduzia à sala em questão – alguns chamavam também de biblioteca. Mas não era nada disso.

Um pequeno abat-jour, era o único objeto de decoração sobre a mesa, sempre limpa e servindo de apoio a leitura. Ao lado, uma cadeira espreguiçadeira de vime contendo alguns almofadados para apoio e conforto do usuário.

A estante era a peça principal da sala. A peça mais importante. Uma mobília do estilo Luiz XV, transportada no século passado diretamente de Carcassonne, por mais de noventa dias de uma viagem de navio na travessia do Atlântico.

Mas, a estante de importante e significativo valor sentimental, tivera sua importância quadruplicada pelo conteúdo. Pelo que guardava nas prateleiras internas. Vidas, ensinamentos, conselhos e valores morais e religiosos indubitáveis.

Livros e objetos colecionados

Claro, as enciclopédias Lello Universal e Barsa tinham lugar de destaque. Almanaques de revistas em quadrinhos do Mandrake, Fantasma, Tarzã, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira e o impagável Homem de Borracha, carinhosamente encapados. Um pacote com mais de 200 charges do Amigo da Onça, autoria de Péricles, publicadas pela revista O Cruzeiro.

Medalhas conquistadas, troféus, algumas lembranças familiares e, claro um lugar de destaque para um “retrato” da Vovó. Vovó, parte de mim, minha raiz firme e segura que ainda hoje cresce para o centro da Terra.

Livros da Editora Nova Aguilar: poesia completa de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira, Eça de Queiroz.

A vida e bibliografia esmiuçada – e lida – de Machado de Assis: Quincas Borba, O Alienista, Dom Casmurro, O Enfermeiro.

Eça de Queiroz: O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro, A Ilustre casa de Ramires.

Entre os preferidos, lidos, relidos, trilidos: Os elefantes não esquecem, Dando milho aos pombos, O caso dos dez negrinhos, Os relógios, Mistério no Caribe, todos da impagável Agatha Christie.

Ali, naquela estante, tinha vida, experiência, aprendizado e a luz necessária para iluminar meu caminho durante décadas, e me ajudar fortemente na construção da minha família.

Parte do muito que conquistei e aprendi

Por anos seguidos Deus me permitiu praticar parte do que aprendi nos livros. Criei em mim o hábito da leitura e o vício de ler. Aprendi no curso de Jornalismo. A gente precisa ler tudo que nos cai às mãos. Usar, na prática, é alternativa e arbítrio de cada um.

Ler é viajar sem fazer check-in, viajando sempre no luxo e usufruto do leito – ônibus, navio, trem ou avião.

Ler é viver – e ninguém jamais conseguirá escrever, sem ler.