Houve um tempo em que essa ação não era permitida.
Talvez muitos não saibam.
Muitos sofreram, outros tantos até morreram para que você tivesse a liberdade de votar. De escolher, e de ter a responsabilidade de decidir o seu futuro e o futuro dos seus frutos.
Mas, algo que você precisa saber: o seu voto, soma e decide, ou não.
Por isso que seu voto é importante. Mas a situação do país, depende muito mais da sua ação, das suas atitudes, da sua cidadania que a governança de A ou B.
Se você votar em favor do B e ele fizer um bom governo – mas se você não for um cidadão correto, que cuide da família, que cuide das raízes, pouco importará o governo correto do B.
Tenho amigos pais e mães que votam no A. É um direito e um entendimento dele – o que não é correto não é o voto dele no A. É a forma como ele conduz a família.
Vi e ouvi a seguinte pergunta de um pai, ao filho:
– Filho, em qual candidato você vai votar, A ou B?
O filho sem titubear, responde com convicção:
– Pai, vou votar no B!
E aí o pai, que vota no A, diz:
– O que? Isso não é possível!
O pai, que vota no A, não aceita o voto do filho – maior de idade, acrescente-se – no B, mas nunca o criticou ou censurou por ele, o filho, ter escolhido e assumido ser gay. Frango. Qualira. Baitola!
É assim. Muitos pais acham que ser gay é um livre arbítrio. Mas, entende que, votar no B, para somar e possibilitar uma correção do rumo do país na educação, na segurança, na economia e na geração de empregos, é muito mais “imoral” que “assumir que queima a rosca”.
Vá e vote. O seu pai é seu pai. Mas o seu filho é seu filho e poderá algum dia trilhar no caminho reto por conta do seu voto.
Na sombra do grande cajueiro, Manoel assava o terceiro tacho de castanhas. Castanhas de caju – a mistura não denuncia se o caju é doce ou azedo, amarelo, vermelho ou rosado. É castanha. E tudo está misturado.
Tá bom e tão assadinhas – decide Manoel.
Com a longa vara puxa o tacho das trempes de pedras. Vira. Rebola areia por cima prumode esfriar e possibilitar a quebração.
A poucos metros das trempes, de Manoel e das castanhas assando, Joaninha quebrava as assadas prumode adicionar no peixe salpresado para o almoço, ao tempo que se via despachando bagagens e fazendo o check-in para Joinville, cidade de Santa Catarina. Viajava para fazer matrícula no curso de arte-educação do Bolshoi.
Joaninha sabia tudo daquela escola. Por isso sonhava, mesmo na hora de quebrar castanhas para o dicumê na roça.
Sabia que ficava em Joinville a única escola de ballet ligada ao Bolshoi. Sabia, também que, no Brasil, aquela escola de arte-educação fora fundada em 15 de março de 2000.
Sabia tudo.
Sabia, também, que aquele seria o primeiro passo para a realização dos seus sonhos – mesmo que vivesse em Queimadas, considerado um povoado dos “cafundós do Judas”!
Antes mesmo de se ver fazendo o check-in e despachando a bagagem, Joaninha se viu “quebrando o porquinho de barro” onde juntou todas as moedas de réis para quando chegasse aquele dia. O dia da viagem. O dia do início de tudo.
Manoel acabou de assar a última “tachada” de castanhas.
Virou o tacho e cobriu com areia para esfriar. Foi quando viu Joaninha inerte, sem bater para quebrar a castanha que segurava na mão.
Não falou nada. Preferiu deixa-la viajando nos sonhos.
Joaninha sabia até que, em Joinville, conseguindo a matrícula, não precisaria de ostentação financeira. Tudo que precisava era querer realizar os sonhos. E ela queria!
O avião taxiava. Lágrimas escorriam face à baixo, pela alegria de ter coragem para iniciar um sonho antigo. Outra, pela tristeza de deixar Queimadas, a assação das castanhas, a quebração, o peixe salpresado e parte da família – que vivia fazendo oração e a incentivando para a realização pessoal.
Manoel saiu dali.
Joaninha continuou a viagem, agora com o avião decolando. Decolando para a vida. O verdadeiro voo da liberdade. A liberdade, redundante, da libertação.
Escalas obrigatórias e técnicas. Mais pousos e mais decolagens. Turbulências. Nenhuma turbulência seria maior que a possibilidade da realização dos sonhos. A emoção. A alegria.
Último pouso. O piloto pedia a atenção dos passageiros para o aviso:
– “Em poucos instantes pousaremos no aeroporto de Joinville. A temperatura local é de 19 graus. Agradecemos a sua preferência em viajar conosco.”
Joaninha saíra do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, com a temperatura de 40 graus – esse era um dos problemas que enfrentaria.
Mesmo debaixo da sombra daquele cajueiro, quebrando castanhas assadas por Manoel, não sentia o calor. Estava acostumada.
No saguão do Aeroporto, ninguém a esperava. Não conhecia nada. Não conhecia ninguém. Tomou um táxi e forneceu o endereço da Pousada Russa – que também não conhecia. Confundia o nome da pousada com o Bolshoi.
Chegou. Pagou a corrida. Foi direto para a “portaria” da pousada e até aceitou “dividir” o aluguel do cômodo com outra ocupante. Humildemente, sabia que precisaria fazer economia para o que teria pela frente.
O cansaço da longa viagem e o frio com o qual não estava acostumada, a fizeram dormir. Dormiu além do previsto. Perdeu o horário do café servido na pousada.
Voltou ao cômodo, trocou de roupa e resolveu partir para o sonho de, algum dia, fazer uma dança com o ídolo Mikhail Baryshnikov. Era chegada a hora.
Novo táxi. O endereço de agora era a Escola do Ballet Bolshoi. No percurso apreciou a beleza da cidade diferente de onde nasceu, cresceu e morava – uma verdadeira capoeira.
Sem estudos, sem as noções necessárias para a vida numa cidade distante da sua, tinha apenas como atender uma exigência da escola e das professoras: a vontade de vencer. Esse foi o único diploma que apresentou.
Chamava a atenção pelo corpo esguio, e, principalmente, pela cor da pele: existe, sim, mas é difícil encontrar uma verdadeira bailarina negra.
Disse de si para ela mesma: “ali estava uma”!
Treinos. Treinos e mais treinos. Muitos treinos. Muitas correções de postura que aceitava humildemente em troca de um objetivo: uma negra vencer como bailarina. Uma bailarina negra, brasileira. Uma bailarina negra, brasileira, nordestina e do Ceará.
Entendeu tudo que valeria à pena.
A Joaninha, a mesma que quebrava castanhas assadas para temperar o peixe salpresado, agora adotaria o nome artístico Joanna Juuas.
Não demorou muito a menina progrediu, motivada por uma força de vontade estranha. Muitos olhares se voltaram para ela. Ganhou matérias jornalísticas promocionais. Muitos confundiam e até esqueciam sua procedência – mas, para ela, com o propósito de vencer, aquilo não importava muito.
Certo dia, meses depois de mudar da Pousada Russa para um flat custeado por patrocínio, o porteiro no edifício onde ficava o flat manteve contato pelo interfone:
– Dona Joanna, está aqui na portaria um casal querendo falar com a senhora. Pelas normas do Condomínio, não posso autorizar a subida deles. A senhora pode descer para recebe-los?
Joaninha….. ops!, desculpas, Joanna Juuas se compôs e desceu.
O casal era uma jovem funcionária da Escola Bolshoi, que acompanhava um emissário do Ballet Bolshoi, de Moscou. O acompanhamento era para facilitar a comunicação, haja vista que Joanna Juuas mal falava o “catarinês”.
Objetivo da visita: a comunicação que Joanna Juuas fora selecionada para especialização em dança clássica no Corpo de Ballet Bolshoi.
Joanna Juuas quase teve um piripaque. Mas conseguiu se controlar.
Não demorou muito e Joaninha, desculpas mais uma vez, Joanna Juuas viajou para a Rússia, mais propriamente para Moscou.
Após horas, dias e meses de muitos ensaios, a estreia.
Na porta do Bolshoi, um banner que cobria parte da parede frontal do Teatro anunciava: “Joanna Juuas, a bailarina negra, faz par com Mikhail Baryshnikov.”
Foi nesse momento que dona Dulce, mãe de Joaninha, postada na porta da cozinha, bradou:
– “Criatura, tu ainda tá quebrando essas castanhas?! O peixe já está na panela e tu ainda vai ter que pilar para fazer o xerém. Cuida mulé.!
Nasci e cresci na roça – me dá prazer relembrar a vida e as alegrias vividas ali. Enquanto tiver lucidez dada por Deus, vou lembrar e me alegrar com tudo que ali vivi.
Quando chegar a hora, não tenho dúvida porque acredito e sou obediente a Deus, voltarei ao barro – como todos.
Por isso, hoje, vou falar do sertão e do barro que aprendemos a usar.
Pote de barro
Num canto daquela casa simples, com piso de barro batido e endurecido, fora erguido um pilar. Com um metro de altura, mais ou menos, para as crianças não malinarem nem os sapos ascenderem durante e anoite.
O “filtro” colocado na boca do pote, era um pedaço de molambo velho, lavado, fervido, que protegia a água para evitar a entrada de mosquitos e troíras.
A água colocada naquele pote era carregada desde o açude (distante de casa por uns cinco quilômetros) em barris de madeira e nuns cambitos carregados pelo jumento Abricó e pela jumenta Belinha – essa, de vez em quando, ajudava na “diversão” dos meninos.
Vovô, e eu nunca soube o motivo, não gostava de colocar no pote a água da chuva (quando chovia) aparada nas calhas feitas nas calhas da árvore sabiá. Sempre preferiu o sacrifício de pegar água no Açude Novo.
Alguidar de barro
O alguidar, também de barro, tinha mil e umas serventias. A principal era torrar os grãos de café, com mel de rapadura e mangirioba – semente que Vovó adicionava para aumentar “a quarta de grãos de café” comprada na bodega do Seu Antônio. Nunca se teve informação que a mangirioba tivesse feito algum tipo de mal a quem o usava.
Outra serventia, era temperar a galinha caipira para o almoço de domingo – dias santos ou feriados.
Penico de barro
O penico, que muitos chamavam também de “urinó” era a salvação dos aperreios noturnos. Na casa da Vovó tinha uso diário de pelo menos uns cinco, quantidade que aumentava durante as férias escolares dos netos.
O chão de barro batido e socado, varrido mais de uma vez durante o dia, recebia os “urinós” debaixo das redes dos meninos que tinham o hábito de “mijar na rede”; outro era colocado ao lado da rede da Vovó, que tinha o hábito de mascar fumo de rolo antes de dormir (que ela falava “drumir”, sem qualquer cerimônia). Vovô sempre levantava e “mijava” fora de casa. Se deliciava com o barulho do mijo tocando no chão.
Usados ou não durante a noite, nas manhãs seguintes a primeira preocupação de Vovó era lavar os penicos com creolina e água fervida.
O barro tem muita utilidade, sim. Mas, a principal, é nos receber de bom grado quando chegar a hora determinada por Deus.
Votei pela primeira vez para Presidente da República, em 1960. Votei em Jânio Quadros.
Sempre votei de acordo com minha consciência e conhecimento das qualidades dos candidatos. Nunca nas promessas que eles fazem. Jânio enfrentou (e venceu) Henrique Teixeira Lott.
Hoje, com vividos 83 anos, a legislação brasileira já me faculta o direito de não “precisar mais votar” – mas, como o jovem que votou pela primeira vez em 1960, vou votar. Entusiasmado!
Vou fazer como faz a abelha em discussão com a mosca: mel é mel, e outra coisa é outra coisa!
Como o voto ainda é secreto, não direi em quem vou votar. Diria, isso sim, em quem não votarei. Mas, com a eleição polarizada, dizer em quem não votarei, é o mesmo que dizer em quem vou votar.
Nos anos das décadas de 50 e 60 – antes do que resolveram chamar de “Ditadura” – votar era um ato de patriotismo. Ato conquistado, diga-se de passagem. Dava gosto votar.
Lembro bem que meu Avô materno, João Buretama, antecipava as tarefas domésticas no sábado, véspera do domingo da eleição. Selava os animais e carregava a água necessária para as tarefas. O açude não ficava tão distante. Era pouco mais de dez léguas a distância que percorria.
Cheios os potes e as terrinas, faltava cortar a lenha para Vovó usar no fogão que faria o dicumê.
No domingo acordava cedo. Soltava as cabras solteiras e ordenhava as que estavam paridas e produzindo leite. Tarefas cumpridas.
Selava o jumento e seguia para a votação – que acontecia no Salão Paroquial da única Igreja daquelas paragens. Votava e voltava para casa com o semblante e o sentimento de dever cívico cumprido, e a palavra empenhada ao patrão.
Os anos se passaram. Saí de Queimadas e fui morar em Fortaleza, onde votei pela primeira vez. Mudei para o Rio de Janeiro, onde me graduei em Comunicação Social (Jornalismo-Radialismo). Casei, tive filhas, separei e divorciei. Mudei para São Luís e comecei a exercer o Jornalismo.
Certo dia fui escalado para fazer parte da equipe jornalística que cobriria a eleição e as apurações. Contagem de votos feita manualmente e pouco fiscalizada, ou, digamos, apuração com cartas marcadas.
Eleição encerrada às 17 horas. Apuração encerrada às 23 horas.
Foi quando constatei que de nada valera o sacrifício de João Buretama, pretendendo cumprir o dever de cidadão, ou, digamos, constatei que, para alguns a grama nunca deixou de ser azul.
Vi, com esses dois olhos que a terra vai comer quando eu voltar ao barro: um candidato a deputado estadual, após o horário estabelecido para o encerramento da apuração, abrir o porta-malas do veículo pessoal e tirar de lá muitas urnas onde estavam depositados os votos de outros João Buretama.
Justificativa: o TRE “esqueceu” de recolher aquelas urnas, e ele, como bom cidadão e honesto, as trouxe para o local da apuração. Trouxe todas intactas.
Li na semana passada uma postagem nas redes sociais que assegurava cientificamente que, o Ceará em menos de uma dezena de anos, não apenas será o maior, mais produtivo e mais desenvolvido estado do Nordeste, e fará parelha com os três mais desenvolvidos do País.
Como certamente diria Vovó Buretama: “Será impossíve”!?
Como diria um amigo dos dias atuais, que mora na mesma rua que eu: “Vamos aguardar”!
Eu diria que a Terra girou, fez o seu movimento.
Aquele que a gente teve notícia na escola primária, quando iniciou os estudos.
Nos anos da década de 50, havia poucas linhas de ônibus urbanos.
Esses, além de poucas linhas, faziam itinerários para atender exclusivamente os moradores de determinados bairros – quero dizer que não se conhecia, ainda, os ônibus que faziam linhas circulares, como hoje. Os horários também eram limitados. A maioria circulava somente até as 22 horas.
Havia, também, discussões pela profissionalização.
Mas, paralelamente, começaram a aparecer as Associações profissionais, que mais tarde formariam os Sindicatos de classes. Foi quando começaram a aparecer as greves.
Horários e itinerários restritos, e greves. Tudo em prejuízo do pagador das tarifas e impostos. Sempre foi assim, e jamais deixará de ser.
O povo tem o poder – mas não tem esclarecimento para usá-lo!
Caminhonete que fazia exclusivamente a linha para a Parangaba
Tal e qual hoje para a existência do Uber, do Moto Uber e do moto táxi, existia naqueles anos a “caminhonete da Parangaba” (como denominávamos).
Fazia um itinerário só, no horário após os ônibus saírem de circulação – sempre às 22 horas – e, quando eram deflagradas as greves dos motoristas dos ônibus urbanos.
O itinerário era da Parangaba para a Praça José de Alencar – uma linha reta, como se fora uma Avenida Brasil, sempre pela avenida João Pessoa.
Para os que não conhecem Fortaleza, nem a avenida João Pessoa: essa avenida foi construída pelos americanos, quando o Brasil não era governado pelo PT, nem pelo STF e muito menos pelo PCC ou pelo CV.
Os americanos ancoravam os navios no Mucuripe com tanques e outros equipamentos pesados, e os “escondiam” numa base sediada no Pici, antes, Pan-Americano.
Para o trajeto de aproximadamente 25 Km, desde o Mucuripe até o Pici, precisaram construir uma pista (concretada com componentes duráveis) que, anos depois seria oficializada como avenida João Pessoa.
Essa pista resistiu por mais de 70 anos. Há alguns anos atrás, por problemas de ajuntamento de óleos graxos e por estar provocando acidentes em virtude de deslizamentos na frenagem, foi substituída. Levou mais tempo para ser retirada, que para ser construída.
Era pela avenida João Pessoa, da Parangaba até a Praça José de Alencar, o único trajeto e itinerário das caminhonetes da linha Parangaba.
Metrô de superfície implantado em Fortaleza
Fortaleza mudou. Cresceu. Principalmente pelos períodos de seca que “tangeram” os sertanejos – nem todos tinham posses financeiras para procurar vida melhor no Sudeste. Mudaram em definitivo para a capital.
Apareceram os bairros.
Mais bairros e mais conjuntos residenciais.
As administrações do município – antes do surgimento do PT (Partido dos Trabalhadores) – recebiam a todos de bom grado.
A população da capital aumentou e os problemas, também. Principalmente os de educação, saúde e segurança.
Saí de Fortaleza em 1967, para o Rio de Janeiro.
Nesses 59 anos, fui no máximo 10 vezes, sempre rever familiares – são esses os meus laços que me obrigam a me atualizar com as mudanças da cidade.
Por mais de dez anos, meu falecido pai juntou e enviou para mim, os jornais impressos O Povo e o Diário do Nordeste – até que descobri a venda desses impressos numa banca de Jornaleiro na frente do antigo Hotel Serrador, na Cinelândia.
Hoje me atualizo assinando as edições on-line desses jornais.
Volto ao primeiro parágrafo desta crônica: o vaticínio das notícias se basearam em alguns itens, que ouso destacar – a garra do povo cearense; a luta pela dignidade pessoal, em vez da aderência e ao ajoelhar-se total para os programas sociais governamentais; o orgulho de manter e lutar para ser reconhecido como povo trabalhador; a chegada de uma dezena, centena de shoppings centers; a chegada de uma escola de nível superior da qualidade e do reconhecimento do ITA; a construção, expansão e funcionamento do Porto de Pecém, mesmo com lastro que só permite o embarque e desembarque de poucos navios; a Transnordestina e a modernização urbanística da cidade.
Mas, a principal aposta e esperança está depositada na eleição de Ciro Gomes para governar o Estado, expurgar o PT e limpar a capital de todas as cracolândias e domínios do crime organizado.
“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. – Gálatas 6:7
Não. Não sou evangélico. Sou católico, ambiente em que fui criado, cresci e fiquei. Mas, felizmente, nada tenho contra quem é evangélico.
Hoje, não versarei sobre religiosidade – mas, sobre a vida.
Sobre plantar e colher para alimentar a família e o mundo. Como alguns fazem ao longo da longa vida. Com humildade e simplicidade, se entregando de corpo e alma.
Semear é uma palavra ampla e tem muitos usos e interpretações – tudo com relação a quem semeia.
Na política temos alguns exemplos, e, entre esses, quase nenhum bem-sucedido. As escolas, no caso, as brasileiras, é onde tudo principia com práticas destorcidas.
A base informativa, quase sempre, está contida n´O Capital, de autoria de Karl Marx, um advogado, jornalista e teórico político que acabou-se transformando num revolucionário socialista. Nascido alemão, em Tréveris, Prússia.
Quem já leu O Capital e interpretou com frieza e isenção, sabe bem do que estou falando. Há distorção entre a teoria e a prática, levando-se em consideração a cultura de vida dos dois países (Alemanha e Brasil).
Eis que, no Brasil, culturalmente diferente da Alemanha, a semeação pode até não ter rendido boa colheita – por ter sido semeada e colhida com a semeadeira e colheitadeira da força – quando, em 1930, Getúlio Dorneles Vargas, militar, advogado e político comandou o que chamaram de Revolução de 1930, depôs Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Assumiu a “revolução” e governou ditatorialmente por 15 anos, até ser deposto. Voltou a presidir o País em 1951, dessa vez eleito por votação direta – quando, pressionado, cometeu o suicídio. Foi, entendemos assim, uma semeadura que não colheu bons frutos.
Mas, entre erros e acertos – mais erros que acertos – chegamos aos séculos XIX e XX.
A sociedade brasileira entrou num período que nos fez sonhar com a boa colheita da semeadura, a partir da mudança de propostas educacionais e informativas com o acesso às práticas pedagógicas capitaneadas por Anísio Teixeira. Talvez, pensamos nós, a falta de chuvas tenha atrapalhado a massificação de muitas boas colheitas.
E aí, a falta dessas chuvas acabou dando espaços para a derrocada. Entramos na fase das “secas” – de chuvas propriamente ditas e de boas ideias e práticas.
Foi quando surgiu, do outro lado do Atlântico, Fidel Alejandro Castro Ruz, nascido em Birán, Cuba, a 13 de agosto de 1926. Isso, por si só não teria tanto efeito negativo, se o “revolucionário-ditador” não tivesse se juntado ideologicamente e às práticas de Ernesto Guevara de la Serna, médico argentino nascido em Rosário.
Adotados, imitados e transformados em “mitos revolucionários”, foram seguidos pelos estudantes brasileiros jovens daqueles anos, com o reforço das teorias de Paulo Freyre – deu no que deu!
Tudo mudou. Apareceram Zé Dirceu, Lula, Dilma, Genoíno, que tentaram implantar a qualquer custo – até de muitas vidas humanas – as práticas que chamaram de socialistas.
Conheci, lá pelos idos dos anos 50, como Praça dos Voluntários. Separada da Cidade das Crianças por um prédio onde funcionou a sede da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Muito próximo da Praça dos Leões – todas no Centro de Fortaleza.
Ali, lembro bem, numa das calçadas da Rua Padre Mororó, nos fins de tardes, dois ou três vendedores ambulantes vendiam peixes. A fiscalização da Prefeitura permitia a comercialização, mas proibia a limpeza dos peixes para evitar o mau cheiro deixado pelas vísceras.
Mas, o bom mesmo, era a sombra que as árvores antigas e desenvolvidas nos oferecia.
A sombra aprazível e o funcionamento da Prefeitura Municipal nos anos 50/60 o funcionamento da Secretaria de Segurança Pública garantiam o ir e vir das pessoas.
Foi quando chegou no local um Engraxate. Depois chegou mais um, em seguida mais outro, até que chegou o quarto Engraxate.
O zelo pelo trabalho que garantiria o pão na mesa da família, acabou sendo recompensado e a própria Prefeitura Municipal tratou de “legalizar” aquele trabalho. Mas, não esqueceu de por limite na quantidade dos “lustradores”.
Os engraxates procuraram retribuir o zelo da Prefeitura. Passaram a atender melhor os clientes, oferecendo cadeiras confortáveis, revistas novas e jornais do dia. Foi nesse tempo que se instalaram também, no local, as primeiras bancas de revistas e jornais.
A praça quase perdeu o nome oficial de Praça dos Voluntários
O engraxate
(homenagem aos que representaram o Brasil em Monte Castelo, na guerra mundial), para Praça dos Engraxates. A Prefeitura não aceitou, pois não ficaria bem esquecer o feito voluntário dos que lutaram por nós.
Da mesma forma que havia um número limitado de “profissionais lustradores”, havia, também, pessoas que preferiam “mandar engraxar” os calçados ali.
O freguês levava um ou dois pares de sapatos, quando iam para o trabalho e pegavam ao fim do expediente. Havia confiança mútua.
Aquela confiança acabou por se traduzir em amizade. A amizade premiava com flanelas novas, escovas, álcool e até latas de graxa Nugget, a preferida daqueles anos.
Os clientes com mais tempo disponível iam para engraxar os sapatos. A sombra das árvores e o carinho do atendimento acabavam propiciando uns breves cochilos.
A clientela cresceu tanto que a demanda de serviços gerava o bom atendimento. A confiança se “espalhou” pela cidade. Sapatos chegavam “precisando de limpeza e reparos” e o atendimento não custava nada além do valor cobrado pela limpeza.
O zelo do lustrador para atender bem
Foi quando Leão (o nome era Ivanildo dos Santos Góis – mas era conhecido pelo apelido de Leão, por ser um fanático torcedor do Fortaleza Esporte Clube) – teve a ideia de convidar dois profissionais “Sapateiros” para se juntar ao grupo de engraxates.
Deu certo.
Sapateiro fazendo pequenos reparos nos calçados
A clientela cresceu. A praça ficou mais famosa. Foi naquele tempo que o povo quis trocar o nome oficial de Praça dos Voluntários para Praça dos Engraxates, sem a intenção de desonrar os que nos representaram na Itália.
Faz tempo não visito Fortaleza, onde ainda tenho familiares (um irmão, com seus filhos, meus sobrinhos; e duas filhas cariocas geradas no meu primeiro casamento).
O calçado atual requer outro tipo de limpeza e “graxa”
A Praça dos Voluntários continua lá. Com suas sombras maravilhosas. Os engraxates já não mais quatro. São vários. As bancas de revistas e jornais desapareceram por falta de leitores, da mesma forma que estão fechando e desaparecendo as livrarias – em no máximo duas décadas, as bibliotecas serão verdadeiros museus. O telefone celular “acabou” com tudo.
Os ambulantes já não vendem mais os seus peixes.
Os dependentes de drogas quiseram instalar na praça, por conta das boas sombras, uma Cracolândia. Os engraxates não deixaram e dispersaram os viciados debaixo de porradas. A polícia ajudou na dispersão e pancadaria.
As pessoas são outras e com elas chegaram os novos calçados. Poucos são os serviços de lustração que aparecem. Mas a sombra continua lá. As cadeiras confortáveis dos engraxates, também.
Alguém viu ou ouviu, no século XX, cachorro ou gato sendo chamado de “pet”?
Alguém considera “isso” uma evolução?
Arre égua!
Não faz tanto tempo assim, na noite das sextas-feiras, antes de irmos para casa ou, no máximo na manhã do sábado seguinte, passávamos numa Locadora e alugávamos trocentas fitas de filmes épicos que assistíamos nas tardes de sábado ou de domingo ao lado da família.
Agora, existem dezenas de empresas com combos (esta denominação também é nova e faz parte da “evolução”) de ofertas de canais pagos com aqueles filmes que víamos nas fitas alugadas nas locadoras.
Isso é evolução?
Pode ser.
Temos “perdido” muitos excelentes atores e atrizes – alguns pela doença popularmente conhecida no Maranhão como “veieira”, que só acomete aqueles que passam dos 80.
O jovem está adoecendo e morrendo aos magotes, mas é por outra doença – o uso de drogas ilegais – que acaba por se tornar incurável e ainda conta com o beneplácito (que eu chamaria de falta de porradas) dos pais.
Quadro negro ou lousa das escolas antigas
Mas, claro, há quem entenda que “evoluímos” na educação. Mas, o que eu vejo é que, a cada dia, os professores sabem menos o que ensinam do que os alunos. Método Paulo Freyre, dizem.
Começo pelo quadro-negro, que também chamávamos de lousa. Ali naquele retângulo – alguns afixados na parede – os professores escreviam com giz branco. Alguns até desenhavam formas geométricas, marcando com giz colorido os pontos de destaques.
Era assim nas aulas de Trigonometria, ou, no ensino colegial, quando escreviam as complicadas fórmulas químicas, que a gente sequer aprendia a desenhar.
Hoje, o quadro-negro não é mais negro. É branco. Os professores não escrevem mais com giz. Escrevem com canetas e tintas “hidrocor”.
Evoluímos?
Tenho minhas dúvidas porque, na moda antiga ou atual, o objetivo era transmitir algo que ajudasse o aluno a compreender.
Aluno à moda antiga escrevendo ou apagando com o “apagador”
No ensino de hoje, raramente o Professor chama o (a) aluno (a) para ir ao antigo quadro-negro ou lousa. Com base em ideias da Teoria da Libertação, o aluno estará sendo “constrangido” ou qualquer outra perseguição da vida moderna.
O “Professor” do método Anísio Teixeira, que, diga-se de passagem, não usava tatuagens nem “dreads”, sabia que o aluno, então reconhecidamente aprendiz, não tinha habilidade para desenhar fórmulas químicas ou geométricas. No máximo, o aluno seria chamado apagar os desenhos das fórmulas.
Evoluímos?
Aparentemente sim. Até por que o(a) aluno (a) vai estar com fones de ouvido escutando o que lhe convier.
Isso, afirmam, é evolução.
Aí aconteceu um salto-triplo do Século XIX para o Século XXI!
Giz de gesso usado pelos professores que não conheciam a hidrocor
Afinal, chegou a hora de perguntar: evoluímos ou involuímos?
O que as escolas e os professores estão ensinando aos alunos?
Na prática da Medicina, o médico já não tem ensinamento para detectar um simples estado febril. Para tudo “pede” exame laboratorial e os contatos dos séculos XVIII e XIX não existem mais. Agora, quase tudo é pela robótica. Melhor seria, entendo, em vez de estudar medicina, o aluno estar no SENAI.
Conclusão de minha inteira responsabilidade: não evoluímos PN!
Antônio Carlos, conhecido como Toinho, era um bodegueiro antigo que teve como exemplo os dois homens que foram crucificados ao lado de Jesus Cristo. Aprendeu tudo, seguiu tudo e não tinha compaixão. Roubava pobres, ricos e remediados.
Não era, nem pretendia ser “político”. Bodegueiro era a mesma coisa de ser político, com a vantagem de não precisar enganar ninguém pedindo votos. Dizia abertamente que, “quem come do meu pirão, apanha do meu cinturão”. Haja vista que vendia fiado e sabia para quem vendia. Agia assim, porque fora enganado várias vezes.
Para quem implorava alguma venda fiado, mostrava uma placa feita por encomenda, que tinha orgulho de exibirr aos pretendentes das compras, que dizia: “Toinho, o 10graçado.”
A balança manipulada por Toinho
Toinho vendia fiado. Tinha uma “caderneta do fiado”, onde anotava os valores e onde também fazia sua politicagem. Anotava sempre valores a mais. Sabia pelas reações de fregueses, quando o “camarada” recebia dinheiro do salário.
E, sabia porque, quando o freguês recebia dinheiro, falava diferente e prepotentemente. Quando não tinha dinheiro e precisava comprar falava diferente. A forma de falar era outra. Humilde. Quase pedindo pelo amor de Deus.
Mas Toinho não “metia a mão nos valores anotados na caderneta do fiado” e tampouco aquela não era a única forma de levar vantagem na comercialização dos seus produtos. O segredo era os pesos. Peso de 1 Kg para vender e peso de 5 Kg para comprar o que revendia.
Toinho, ardilosamente, mantinha entre a balança e o seu corpo quando vendia ou comprava, uma fileira de pesos com uso e tonalidades diferentes.
Quando comprava alguma mercadoria, Toinho usava o peso normal de 5 Kg, sem falcatrua. Quando vendia, usava o peso de 1 Kg com uma chumbada removível, que ele retirava. Na realidade, o peso de 1 Kg para vender, pesava apenas 900 gramas. Quer dizer: Toinho comprava 5 Kg e vendia apenas 4,5 Kg.
Pesos usados por Toinho da Bodega – o 10graçado
As mercadorias de antigamente vendidas nas bodegas, não tinham “prazo de validade” e nunca se teve notícia que, alguma comida com “gorgulho” tivesse sido a causa-mortis de alguém.
Ali, na bodega – do Toinho e dos outros bodegueiros – se vendia de tudo. Creolina, gás para lamparina, sabão em barra inteira e em meia barra. Uma banda de pão, manteiga em retalho, fumo de rolo, colorau, pimenta do reio, banha de porco, anil, carvão em lata pequena e grande, banha de coco e até a famosa “píula do mato”. Era assim que se falava, em vez de “pílula do mato”.
Arroz, feijão, farinha eram vendidos à granel. Retiradas de um saco de 60 Kg, que o bodegueiro esquecia de fechar. Todas as mercadorias retiradas dos sacos com uma concha de alumínio ou com uma metade de cabaça.
Concha
Alguns itens como banha de porco e manteiga (as embalagens eram de latas grandes – e as embalagens pequenas, de 1 Kg ou 500 gramas, eram de manteigas especiais e fora do alcance de quem comprava fiado) a retalho.
Esses produtos eram vendidos acondicionados em papel de embrulho que, normalmente, ficava sobre o balão e também era usado para enrolar toucinho salgado e tripas de boi ou de porco.
Papel de embrulho
A bodega era o único estabelecimento comercial que não precisava do político. Ao contrário. O político era quem fazia uso da bodega, às vezes, até avalizando algumas compras de alimentos para os eleitores. Mas, esses, os bodegueiros, os políticos nunca enganavam – funcionavam como perfeitos cabos eleitorais.