Estou de volta; foram meses de afastamento, graças a problemas profissionais e de saúde, passando por um vírus (de computador) que acabou com arquivos pessoais e profissionais; inclusive meus textos da coluna. Agora recuperado, volto aos braços da Besta, graças à generosidade de mestre Berto. Em frente, pois.
Como sabem meus raros leitores, em textos anteriores procurei apresentar aquelas que considero as causas de nosso mergulho na insegurança jurídica; no ativismo supremo e suas consequências políticas, legais e sociais.
Eu pretendia continuar nesta linha, porém nestes meses de ausência foram tantas e tão absurdas as notícias nesta seara que perdi totalmente a linha do tempo e a capacidade de manter um mínimo de coerência entre análise e realidade. Ademais, penas bem mais competentes já deram conta do recado por aqui. Realmente o Brasil não é para amadores.
Dito isso, quero retomar este contato trazendo uma reflexão a partir de uma experiência pessoal, ocorrida há poucos dias, nada muito interessante, mas reveladora dos tempos sombrios em que vivemos. É um pouco longa; desculpem.
Minha cidade possui uma vida noturna e cultural bastante diversificada, tem para todos os paladares. Gosto de frequentar alguns pubs da região central, onde servem cerveja artesanal acompanhada por bandas de rock e blues, meu estilo favorito. Nestes lugares, frequentados por pessoas de minha idade, tenho vários amigos de copo e de cruz, como diria Chico Buarque, vários também são advogados, o que torna o local saudavelmente insalubre.
Pois bem, de volta à ativa, fui encontrar alguns amigos; colocar o papo em dia e matar a saudade de minha cervejinha produzida no local.
Estávamos em um grupo de 4 pessoas, em pé em torno de um barril à guisa de mesa, quando dois rapazes e uma moça se aproximaram e pediram licença para também usarem a “mesa” para colocarem seus copos, já que o local estava lotado.
Logo percebemos tratar-se de um grupo gay. Nenhum problema, autorizamos e os convidamos a se juntarem à nossa turma. Isso é comum no local.
A conversa seguiu sobre vários assuntos até que nossos novos amigos, de alguma forma, conduziram o assunto para homofobia e política, e passaram a desancar a sociedade conservadora típica da cidade e coisas assim. A certa altura perceberam que ninguém estava nem aí para isso e perguntaram: “vocês são de direita?” Uma colega advogada respondeu que sim, éramos profissionais do direito.
“Não, eu perguntei se são de d-i-r-e-i-t-a”. Resposta afirmativa e o clima mudou; pesou. A moça chegou a lamentar: “puxa, até agora estávamos interagindo de forma tão legal…”
Ato contínuo passaram a dizer que os conservadores eram intolerantes, discriminadores e a porra toda, sem se darem conta de que até aquele momento estávamos interagindo e os tratando sem qualquer diferença. Logo pediram a conta e foram embora sem se despedir. Não fizeram a menor falta…
Este fato me fez pensar: Em que momento a ideologia política passou a substituir a educação, a gentileza, o bom humor ou a cultura como motivo para a aproximação social. Ou a ausência destes valores como motivo para o afastamento?
Nossa sociedade está adoecendo rapidamente. Antes eu achava que o vitimismo e o patrulhamento estavam restritos às redes sociais, sob o domínio dos ditos influencers, mas ao que parece já faz estragos na vida real.
Não faço questão de conviver com a intolerância dos tolerantes; aliás, a pregação da dita tolerância é uma das coisas mais ofensivas que se pode imaginar. Repito aqui a frase que encerrou aquela conversa e fez os tolerantes irem embora: Eu jamais frequentaria um lugar no qual as pessoas me admitissem por serem tolerantes. Podem ir tolerar a pqp!
Não está longe o dia em teremos que usar uma espécie de símbolo costurado às vestes para identificar nosso posicionamento ideológico, para sermos admitidos em qualquer ambiente, a começar pelas universidades e círculos “artísticos”; da imprensa ou, pior ainda, do poder judiciário. Deus me livre!
Pois bem, contei esta passagem apenas para dizer que pretendo voltar ao tema em meus próximos textos, com base em um caso jurídico extremamente emblemático que, ao menos do ponto de vista legal, abriu as portas do inferno. Até.