Acho que esta coluna saiu um tanto melancólica, destoante do clima leve e bem-humorado de nossa querida gazeta. Espero não aborrecer com esta breve experiência pessoal e as reflexões dela decorrentes; prometo não repetir. Em frente, pois.
No último fim de semana tirei um tempinho para ajeitar os livros de minha estante e aproveitar para retirar a camada de poeira regulamentar; resultado do tempo decorrido entre a última vez que os manuseei e a proverbial terra vermelha deste recanto do país.
A cada volume me perdia em recordações do tempo em os havia lido, pois há muito adquiri o hábito de anotar, nas contracapas, o local e data em que comecei e finalizei as leituras; incrível como o tempo passa! E é sobre um livro, ou melhor, sobre o tema de um livro, que quero tratar aqui.
Ocorre que entre espirros e recordações, abri minha antiga edição de “Conversa na Catedral”, obra genial do peruano Mario Vargas Llosa, publicada originalmente em 1969. Minha edição é de 1977.
Logo no primeiro parágrafo, o protagonista Santiago Zavala se pergunta: “Em que momento o Peru se fodeu?”. Perdão pela palavra chula, mas é assim mesmo que está escrito.
A leitura desta obra é desafiadora, com quebras temporais e geográficas; diálogos e personagens se misturando no tempo e no espaço, pois a história se desenrola a partir de uma conversa de bar entre o protagonista e um interlocutor, cujas recordações e revelações, de certa forma, respondem à pergunta inicial.
O enredo não traz uma resposta com dia, mês e ano, e o autor deixa o leitor descobrir, pois ela emerge das entranhas das relações entre as pessoas que compõem a sociedade peruana daquela época e, a meu ver, da época atual. Em toda a américa latina.
Os personagens, muitos inspirados em pessoas reais, pertencem a todas as camadas da sociedade; desde a elite econômica e política até trabalhadores humildes, passando por artistas, jornalistas e prostitutas. E todos se deixam enredar em uma espiral de corrupção; violência e mesquinharias. Sempre buscando extrair algum proveito próprio do sistema vigente.
Sim, o Peru se fodeu porque sua sociedade assim o permitiu. De forma consciente ou não; por ação ou por omissão, todos são culpados pela degradação ética e moral que corroeu e corrói o país. Esta é a conclusão a que cheguei após a leitura.
Não há como ler esta obra sem se perguntar: E o nosso país? E o Brasil? Em que momento nos fodemos?
Desde já peço desculpas a quem ler o que segue; é mera opinião pessoal.
Talvez eu seja pessimista, mas acho que o permanente estado de atraso, miséria, corrupção e injustiças vividos por nosso fodido país é resultado das escolhas da própria sociedade. Assim como no livro, o Brasil, enquanto povo, escolheu por ação ou omissão se foder.
Os atos que nos levaram e este status quo podem ser consultados nos grossos volumes da imensa biblioteca das escolhas infelizes; das chances desperdiçadas e da escrotidão humana.
Quando o Brasil se fodeu? Posso estar errado, mas para mim, assim como no Peru de llosa, nosso país escolheu e escolhe todos os dias se foder. E o faz a cada voto desperdiçado; a cada pequena sinecura aceita; a cada dar de ombros à safadeza dos poderosos; a cada transferência de culpa pelos próprios erros…..
Eu não seria capaz de enumerar todas as pequenas e grandes razões e, pior, nem seria preciso pois todos sabemos. Llosa poderia ter escrito este livro no Brasil de hoje e a história seria a mesma.
Como parar de se foder? Sinceramente não sei, ou talvez saiba, todos sabemos, mas não temos disposição para fazer. Espero, sinceramente, estar errado e que num futuro, próximo ou distante, algum escritor genial nos conte, em uma agradável conversa de botequim como tiramos a poeira ‘vermelha’ de cima do país e paramos de nos foder.