CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ÁGUAS DE 1949

Ponte do Salgadinho partida ao meio

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levavam ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ENDIVIDANDO

Existe uma expressão muito comum no linguajar brasileiro: “Vender o almoço para comprar a janta”.

Mas na realidade o raciocínio aqui é o contrário: está na hora do almoço e o sujeito descobre que o dinheiro só dá para comprar um PF com arroz, feijão, ovo e uma coxa de galinha. Aí surge a idéia: se juntar o dinheiro da janta, dá para ir num restaurante legal e encher a pança. Na hora do jantar, aplica-se o mesmo raciocínio e usa-se o dinheiro que seria para o almoço do dia seguinte. E assim por dia, empurrando o problema para mais longe, porque, como disse um ministro da fazenda certa vez, “divida não se paga, dívida se rola”.

Os economistas têm uma expressão chique para essa questão: “preferência temporal”. Eles a usam quando uma pessoa compra um carro novo parcelado em 72 vezes e acaba pagando o dobro do preço, ao invés de juntar o dinheiro primeiro e comprar o carro à vista depois.

Os bancos ficam felizes com esse tipo de cliente. Dão a ele tanta preferência que as pessoas que pensam em tomar um empréstimo para investir em uma empresa são deixadas de lado. É que um investidor faz contas para saber se o retorno do investimento vai compensar os juros pagos, enquanto o consumidor comum só quer saber quanto é a prestação, ou às vezes nem isso. Quanto ele está dando de lucro para o banco é algo que definitivamente não lhe interessa.

Com tudo isso, não é surpresa nenhuma constatar que metade da população adulta do país está inadimplente – 81,7 milhões de pessoas segundo o Serasa, com uma dívida média por consumidor de seis mil e seiscentos reais. O Serasa também informa que 42% dos inadimplentes já estiveram com o nome sujo anteriormente, ou seja, são reincidentes na inadimplência.

O governo diz estar preocupado, mas no fundo também gosta dessa situação. Por um lado, o lucro dos bancos é altamente taxado, o que transforma o governo em um sócio privilegiado dos bancos, participando do lucro sem participar do risco. E do outro lado, o alcance da visão dos políticos é sempre limitado à próxima eleição, o que faz com que eles se preocupem em deixar os eleitores felizes no curto prazo. Além disso, quando a situação parece estar ruim, especialmente em ano eleitoral, é sempre uma boa oportunidade para o governo inventar uma nova medida populista que traga alegria imediata e adie o problema para o ano seguinte.

DEU NO X

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

FUTEBOL, O ÓPIO DAS MULTIDÕES

Ah, o futebol no Brasil… esse espetáculo quase sagrado que se ergueu não apenas como esporte, mas como religião de massas, ópio das multidões e fator de exclusão social velado. Desde o primeiro choro de uma criança, lá está ele: a bola rolando, a televisão ligada, o vizinho gritando, o tio comentando sobre o último escândalo do campeonato, a professora mencionando o gol de ontem… tudo conspirando para que cada ser humano, voluntariamente ou não, absorva a ideia de que amar o futebol é sinônimo de ser brasileiro, e, se não amar, você é, no mínimo, uma aberração social.

Não se engane: não é apenas amor pelo esporte. É um padrão cultural imposto com mãos invisíveis, mais sutil e perseverante do que qualquer ditadura. Cada conversa de elevador, cada intervalo de trabalho, cada reunião familiar está, de alguma forma, insinuando que, se você não acompanha o futebol, algo está errado com você. E o mais fascinante é que essa pressão nem sempre vem acompanhada de violência — é um terrorismo psicológico elegante, disfarçado de “simplicidade e paixão nacionais”.

E cá estamos nós, os insolentes; mas nós, os insolentes, os hereges do esporte obrigatório, temos a audácia de olhar além da bola. Ah, sim: ousamos explorar o mundo. E que mundo!

• Tênis: pura estratégia, reflexo, precisão cirúrgica. Cada saque, cada voleio, cada devolução é um cálculo matemático da alma. Aqui, a beleza é racional e estética — e não um espetáculo barulhento de torcedores histéricos.

• Fórmula 1: engenharia, coragem e perícia no limite humano. Enquanto uns aplaudem gols previsíveis, nós nos emocionamos com cada curva a 300 km/h, cada ultrapassagem milimétrica, cada motor rugindo como fera selvagem.

• Motovelocidade: ousadia no extremo, adrenalina sem igual. O piloto se torna poesia em movimento, voando sobre o asfalto, enquanto o resto do país segue hipnotizado por um uniforme verde e amarelo correndo atrás de uma bola.

• Hóquei, Rugby, Ski Alpino, Golf, Baseball, NFL: cada esporte com sua complexidade, sua inteligência, seu risco e emoção. Cada um um mundo próprio, infinitamente mais rico do que qualquer campeonato nacional de futebol que insiste em se repetir com a previsibilidade de novela das seis.

Nós, os heréticos, os que não nos curvamos diante do altar do Maracanã ou do Mineirão. Para nós, o mundo é mais vasto do que 11 contra 11 em um gramado. Nós procuramos a adrenalina no gelo do hóquei canadense, o cálculo preciso do golfista concentrado, a estratégia intensa de um jogo de rugby ou até a precisão quase cirúrgica do quarterback na NFL. Porque, meus amigos, a beleza da competição não precisa vir embrulhada em verde e amarelo — e sim, ela pode ser muito mais refinada, complexa e intelectualmente estimulante.

O futebol, no Brasil, transformou-se em uma espécie de grande narrativa obrigatória, uma encenação de identidade nacional que se sobrepõe à diversidade dos gostos, das culturas e, ouso dizer, das inteligências. Para os que ousam fugir do script, a consequência não é excomunhão formal, mas sim aquele olhar discreto de reprovação social, a piada indireta, a pergunta inevitável: “Como assim você não gosta de futebol?” Como se a vida pudesse ser resumida a um campeonato interminável, com gols, gritos e discussões intermináveis sobre árbitros.

E ainda assim, não podemos deixar de rir. Porque a ironia do Brasil futebolístico é tão intensa que até o mais cético se vê diante de uma comédia: está todo mundo envolvido, discutindo, apaixonado, mas, no fundo, o país inteiro está de olhos vidrados em algo que, racionalmente, é apenas uma bola sendo chutada. É um teatro magnífico, com direito a drama, tragédia e óperas de torcidas, e nós, os não fiéis, apenas observamos com um misto de divertimento e incredulidade.

Portanto, caros heréticos do esporte obrigatório: celebremos nossa rebeldia silenciosa. Que possamos encontrar adrenalina, emoção e beleza onde quisermos — no hóquei, no jazz, na bossa nova, no progressive rock ou até no silêncio elegante de uma Antena 1 tocando Nat King Cole à meia-noite. Porque nem tudo é futebol, nem tudo precisa ser futebol, e, às vezes, fugir da imposição cultural é a forma mais pura de inteligência e prazer.

E, cá entre nós, se algum dia alguém nos perguntar com aquele ar de reprovação: “Como assim você não gosta de futebol?”, podemos apenas sorrir e responder com toda elegância: “Meu amigo, prefiro o mundo inteiro à sua bola.”

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

DEU NO JORNAL

LEÃO XIV E A DEFESA DA DIGNIDADE HUMANA E DA VIDA EM TODOS OS MOMENTOS

Editorial Gazeta do Povo

No terceiro dia de sua visita à Espanha, iniciada no dia 6 e que deve se estender até a próxima sexta-feira, dia 12, o papa Leão XIV foi recebido no Palácio das Cortes, a sede do Congresso dos Deputados, e se dirigiu aos cerca de 600 parlamentares espanhóis com um discurso ao mesmo tempo respeitoso e forte, e que já se pode considerar histórico. Nele, o líder da Igreja Católica expôs uma concepção da pessoa humana que transcende convicções ideológicas, e que merece a atenção de legisladores não só em uma Espanha e uma Europa cada vez mais seculares, mas em todo o mundo, pois recorda verdades que um dia podem ter sido evidentes a todos, mas que ao longo dos últimos séculos têm sido soterradas por ideologias as mais diversas.

“Venho perante todos vós como bispo de Roma e pastor da Igreja Católica”, iniciou o papa, ciente de que os líderes religiosos têm todo o direito de manifestar no espaço público, mas que ao fazê-lo precisam usar argumentos que possam ser compreendidos e compartilhados por todos, independentemente da fé. “Respeitando a missão própria das instituições e a legítima responsabilidade de quem recebeu o mandato de legislar”, Leão XIV invocou toda a rica tradição cultural e jurídica da Espanha, com um olhar especial para a Escola de Salamanca e seu papel nas discussões sobre as relações entre os descobridores espanhóis e os povos do Novo Mundo recém-descoberto.

Os mestres de Salamanca, disse o papa, “compreenderam que a razão não podia ser invocada para revestir de legitimidade o que a força ou o interesse apresentavam como conveniente” e levantaram “a pergunta pelo valor irredutível de todo o ser humano e os limites morais do poder”. Concluíram “que a autoridade traz sempre consigo uma responsabilidade e que todo o ser humano deve ser reconhecido como sujeito de direitos e deveres”, e que “a medida das relações sociais” é “a dignidade, a justiça e o bem comum”. Estes são os princípios que devem nortear o trabalho do legislador. Quando ele não respeita a dignidade humana, quando aprova leis injustas, quando despreza o bem comum, quando nega direitos aos seres humanos, ele abusa de sua responsabilidade.

“Os novos mundos que se abrem diante de nós já não se desenham nos mapas: desdobram-se na técnica, na economia, na biomedicina e no universo digital, onde o poder humano alcança âmbitos cada vez mais delicados da vida pessoal e social”, continua o papa, afirmando que “toda sociedade autenticamente justa edifica-se sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana. Tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento. Pertence a todo ser humano pelo simples fato de existir, e por isso deve orientar todo o ordenamento jurídico positivo”. Ainda que também a Igreja proclame essa dignidade intrínseca do ser humano, diz Leão XIV, ela é algo reconhecível por qualquer pessoa dotada de razão.

E o reconhecimento dessa dignidade tem consequências práticas, que impõem um dever moral ao legislador. Leão XIV pede atenção especial à família, “fundamento natural da comunidade”; defende o papel da educação, ressaltando que “há de respeitar sempre o ‘direito fundamental e inalienável’ dos pais a ‘escolher o tipo de instrução e formação a transmitir aos filhos, em conformidade com as suas convicções morais, culturais e religiosas’”; trata da questão migratória e daqueles que “veem-se obrigados, por circunstâncias muitas vezes dramáticas, a partir das suas comunidades e a deixar para trás entes queridos, histórias e vínculos”; critica o rearmamento, ameaça à paz entre as nações; e pede respeito à “liberdade de pensamento, de consciência e de religião, direito fundamental que tutela o âmago mais íntimo das pessoas”.

Acima de tudo, Leão XIV afirma que a convicção sobre a dignidade humana tem de se refletir em leis que defendam integralmente a vida humana. “Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros?”, questionou o papa. “A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização. Toda vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua concepção até ao seu ocaso natural, em cada circunstância da sua existência”, continuou Leão XIV, sabedor de que entre os que o ouviam havia parlamentares que aprovaram a legalização da eutanásia na Espanha, em 2021, bem como ampliações ao direito ao aborto em 2010 e 2023, sempre sob governos de esquerda – o atual primeiro-ministro, Pedro Sánchez, pretende incluir o direito ao aborto na Constituição espanhola, assim como fez a vizinha França em 2024.

Ao terminar seu discurso, Leão XIV foi aplaudido de pé por sete minutos. Mas o aplauso não será sincero se os deputados e senadores espanhóis não colocarem em prática os princípios defendidos pelo papa. “Uma lei não alcança a sua verdadeira grandeza pelo mero fato de ter sido formalmente aprovada; alcança-a quando, além de ser válida na sua forma, pode comparecer perante a dignidade da pessoa e sair desse exame sem se envergonhar”, disse o pontífice; que os parlamentares espanhóis olhem para o que vêm aprovando, para o que pretendem aprovar, e julguem com honestidade a grandeza ou a miséria do seu trabalho.

PENINHA - DICA MUSICAL