O dicionário e a máquina de processar cartões perfurados
Estávamos, eu e o Marco Aurélio, num Cartório de Registros Civil de Pessoas Naturais – como se pessoas humanas fossem artificiais – quando ouvimos modesta senhora, solicitar o registro de uma filha recém-nascida, cujo nome seria Hollerith.
O atendente, curioso, exclamou: Diferente este nome, não é senhora?! Como conseguiu?
É que meu marido trabalha num Banco e todo final do mês ele vem falando nessa tal de Hollerith e de tanto ouvir isso, achei interessante dar este nome à nossa filha. Singular, não?!
Na verdade, ela ouvira falar, verdadeiramente, no Sistema de Cartões Perfurados, usado na contabilização bancária até o início dos anos 1950.
Herman Hollerith (1860–1929) foi um inventor e estatístico norte-americano, pioneiro no processamento automático de dados. Ele criou a máquina tabuladora eletromecânica e os cartões perfurados, tecnologias que revolucionaram a computação e deram origem à empresa IBM. Seu sobrenome virou sinônimo de comprovante de pagamento de salário no Brasil. Isso aconteceu porque o processamento e cálculo de folhas de pagamento em cartões perfurados foram introduzidos por suas empresas no mercado corporativo.
Os cartões perfurados tiveram grande importância na história da estatística, do processamento de dados e dos pagamentos de funcionários nas empresas mais modernas.
Anteriormente se costumava chamar o envelope-de-pagamento mensal de: “Espelho” ou, igualmente, “Contracheque”; nomezinho fuleiro, porque deveria chamar-se: “A favor do cheque”, porque tal “demonstrativo” garantia ao funcionário verificar o crédito os débitos e o saldo por seu trabalho mensal, a fim de sacar seus cheques, coisa que também já desapareceu.
Na verdade, Hollerith identificava o tal Sistema de Processamento de Dados, que se efetivava através do uso de u’a máquina, com teclado semelhante à de datilografia, que perfurava cartões e uma outra, que os processava, produzindo Folha-de-pagamentos, balanços, etc.
Com o advento dos computadores, anos mais tarde, o sistema caiu em desuso, mas o apelido passou a ser até nome de gente, como vimos na historieta.
Vivi outros momentos da tecnologia bancária. Transitei pelas duas épocas. D. Edna sentava-se junto ao Contador do City Bank, sr. Afonso Leão, munida de um um caderninho listado e um lápis. Ouvia as informações, desenhava uns garranchos conhecidos como estenografia ou taquigrafia, que representavam a “escrita ligeira” e dali saíam notas para as cartas que eram datilografadas.
Afonso Leão, “professor” de Português, sempre mantinha perto de sua mesa um Dicionário Caldas Aulete. Certa vez, por mim indagado porque sempre estava consultando aquele livrão, me respondeu:
Meu filho, se você não ler muito o dicionário, está “bebido” nos futuros concursos. E eu que vivo escrevendo cartas e ensinando nosso idioma para alunos dos “cursinhos”, necessito deles a todo instante. E você sabe que tal livro é conhecido como “O pai dos burros”?!
Mas, como tudo o tempo leva, o livrão de Francisco Júlio de Caldas Aulete, que hoje possui uma versão atualizada com mais de 818 mil verbetes, perdeu alguns pontos para um outro dicionário, mais popular, conhecido pelo apelido de “Aurelião”, obra que consagrou o mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que, aliás, tem parentesco com o cantor Chico Buarque.
E nesse vai-e-vem dos modernismos tecnológicos, a obra do “Mestre das Alagoas” também está sendo sobrepujada pela Inteligência Artificial.
Portanto, já se pode dar adeus a Aurélio e Hollerith.

