JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Hermilo Borba Filho

Hermilo Borba Filho nasceu em 8/7/1917, em Palmares, PE. Advogado, crítico literário, escritor, jornalista, tradutor, dramaturgo e diretor teatral. Ingressou no Teatro de Amadores de Pernambuco junto com Ariano Suassuna, com o qual fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco e mais tarde criou o Teatro Popular Nordeste e o Teatro de Arena do Recife. Um expoente destacado no Teatro Brasileiro, na Literatura e na pesquisa da cultura nordestina.

Criado numa tradicional família de usineiros no Engenho Verde na Zona da Mata, teve os primeiros estudos em Palmares e logo mudou-se para o Recife, para estudar na Faculdade de Direito. Tornou-se advogado, mas nunca exerceu a profissão. Já na faculdade tomou gosto pelo teatro e passou a atuar junto com os amigos Valdemar de Oliveira, Ariano Suassuna e Samuel Campelo. Em 1947 iniciou como crítico de teatro com a coluna “Fora de Cena”, publicada na Folha da Manhã, do Recife. Em seguida, mudou-se para São Paulo, onde viveu 5 anos e manteve a crítica teatral nos jornais Última Hora, Correio Paulistano e na revista Visão, além de integrar a Comissão Estadual de Teatro.

Em 1957 foi premiado pela APCT-Associação Paulista de Críticos Teatrais como diretor revelação, com a peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. De volta ao Recife, em 1958, passou a lecionar na Universidade do Recife (atual UFPE) e fundou o TPN-Teatro Popular do Nordeste, em 1960, junto com Ariano Suassuna e outros amigos. Pouco depois criou o Teatro de Arena do Recife junto com Alfredo de Oliveira, trabalhando ao lado de Gastão de Holanda, Capiba, José Carlos Cavalcanti Borges, Aldomar Conrado e Leda Alves. Neste ano encenou peças de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, Osman Lins, Gogol, Ibsen e Max Frish, bem como sua peça O cabo Fanfarrão.

Sua companhia teatral acumulou um déficit permanente, fazendo-o atrair operários e estudantes e manter convênios com entidades do comércio e indústria. Mas não consegue liquidar as dívidas e fecha o teatro de 90 lugares. Numa entrevista, questionado se algum dia ganhou dinheiro com teatro, ele cita a montagem de Dercy Gonçalves para sua versão de A Dama das Camélias como exemplo único, e acrescenta: “mas, de repente, verifiquei que a prostituição era muito pesada, e parei”. No período 1959-1968 foi premiado diversas vezes pela Associação dos Críticos Teatrais de Pernambuco e em 1969 recebeu o título de Chevalier de L’Ordre des Arts et Letres, do governo francês. Por esta época fundou o MCP-Movimento de Cultura Popular junto com Paulo Freire e Ariano Suassuna, entre outros simpatizantes do Partido Comunista, vindo a sofrer perseguição política. Foi autor de 18 peças teatrais e 11 livros entre romances e contos.

Seu primeiro romance – Os caminhos da Solidão – saiu em 1957, pela Editora José Olympio. Como dedicava-se mais ao Teatro, o segundo – Sol das Almas – só veio sair em 1964 pela Ed. Civilização Brasileira. Em 1966 empreendeu a escrita de uma tetralogia – Um Cavalheiro da Segunda Decadência -, publicada pela mesma editora e ficou conhecido em âmbito nacional: (1) Margem das Lembranças (1966); (2) A Porteira do Mundo (1967); (3) O cavalo da Noite (1968); (4) Deus no Pasto (1972). O volume 3 discorre sobre um intelectual nordestino em São Paulo, na década de 1950, numa atribulada vida boêmia. Um livro de cunho memorialístico e autobiográfico, que suscitou uma comparação entre o autor e seu dramaturgo predileto Henry Miller.

Seu legado na área teatral vai além da direção e autoria de peças. Publicou Teatro, arte do povo e reflexões sobre a mise en scène (1947), resultado de 2 palestras; História do Teatro (1950), o primeiro manual de história do teatro editado no Brasil; Teoria e Prática do Teatro (1960); Diálogo do Encenador (1964); Espetáculos Populares do Nordeste e Fisionomia e Espírito do Mamulengo (1966) e nova edição da História do Teatro, com o título História do Espetáculo, em 1968. Seu objetivo foi colocar em prática a fusão ente o popular e o erudito, o mesmo objetivo palmilhado por Ariano Suassuna, com o surgimento do “Movimento Armorial”, em 1970.

Num artigo publicado no Diário de Pernambuco, Benjamin Santos, ex-integrante do TPN, relata algumas características do teatro de Hermilo e conclui: “Mais importante, porém, que todos esses aspectos encontrados é a concretização de uma estética do espetáculo. […] Em resumo, seria um teatro com o canto, a dança, a máscara, o boneco, o bicho… uma recriação do espírito popular nordestino […]; o homem brasileiro posto no palco com toda a sua luta, o sofrimento, a derrota, a insistência, a vitória; um teatro de intensidade emocional e crítica, um teatro vivo, aberto, sem a ilusão da quarta parede, permitindo ao público a compreensão maior de sua própria história. O teatro como um ato político e religioso a um só tempo. Esta é a busca de Hermilo”.

Em meados da década de 1970 teve um abalo na saúde e telefonou para seu amigo José Paulo Cavalcanti Filho, em 26/5/1976. Disse-lhe que iria morrer dentro de uma semana e que precisava falar com ele. José Paulo foi até sua casa e tiveram uma conversa antológica, que deverá ser publicada em livro. A conversa ocorreu numa 4ª feira e Hermilo faleceu na 4ª feira seguinte, em 2/6/1976. José Paulo concluiu que seu amigo “era um homem de palavra”. A Prefeitura de Palmares deu seu nome à Fundação Casa de Cultura da cidade, em 1983. Em seguida a Prefeitura do Recife criou o Centro de Formação das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, formado pelo Teatro Hermilo Borba Filho e o Teatro Apolo, em 1988. Uma coletânea de 12 de suas peças foi reeditada e incluída na Coleção Teatro Selecionado, editada pela FUNARTE. Em 2018, no centenário de seu nascimento, o Governo do Estado mudou o nome do “Prêmio Pernambuco de Literatura” para “Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura”.

Sua obra foi analisada no livro Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura, de Sônia Maria Van Dijck Lima, publicado pela Ed. Atual em 1986. Outra oportuna análise sobre o autor e obra encontra-se no livro Hermilo Borba Filho: memória de resistência e resistência da história, publicado por Geralda Medeiros Nóbrega pela Ed. da Universidade Estadual da Paraíba, em 2015.

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AS BRASILEIRAS: Nara Leão

Nara Lofego Leão nasceu em 19/1/1942, em Vitória, ES. Jornalista, artista plástica, atriz e principalmente cantora, conhecida como “Musa da Bossa Nova”. Estreou profissionalmente com voz tímida e destemida em 1964, ano do Golpe Militar, e percorreu as décadas seguintes com opinião, conforme o título do espetáculo que a consagrou como cantora e dois de seus discos.

Filha caçula da professora Altina Lofego Leão e do advogado Jairo Leão, se mudou com os pais e a irmã Danuza Leão para o Rio de Janeiro logo no 1º ano. Lá teve os primeiros estudos e manifestou interesse pela música. Ganhou um violão do pai aos 12 anos e teve aulas particulares com o músico Patrício Texeira. Em seguida ingressou numa Academia de Violão, comandada por Carlos Lyra e Roberto Menescal. Aos 15 anos se enturma com outros jovens que mais tarde daria início a um novo ritmo/estilo musical, a “Bossa Nova”. Aos 16 anos contraiu uma hepatite; afasta-se da escola e passa a trabalhar como secretária de redação e repórter do jornal Última Hora.

Pouco antes de completar 18 anos estreou como cantora no show “Segundo comando da operação bossa nova”. Além de cantar, gostava de fazer xilogravura e atuar no teatro. O surgimento da Bossa Nova deu-se em 1959 com o lançamento do disco “Chega de Saudade”, a estreia de João Gilberto. Por essa época namorou com o compositor Ronaldo Bôscoli e mais tarde manteve um relacionamento com o cineasta Ruy Guerra.

No início da década de 1960 encarou a carreira profissional como cantora e em fevereiro de 1964 lançou seu 1º disco, o LP “Nara”. O sucesso foi instantâneo, levando-a a contratação pela gravadora Philips e o lançamento do 2º LP no mesmo ano: “Opinião de Nara”.

Em outubro de 1964, concede uma entrevista para a revista Fatos & Fotos. A matéria foi intitulada “Nara de uma bossa só, demonstrando sua insatisfação com o epiteto “Musa da Bossa Nova”. Ela era mais do que isso. No ano seguinte, é lançado o 3º LP reiterando sua opinião: “Opinião livre de Nara”, marcando sua presença no cenário político adverso instaurado pelo Golpe Militar de 1964. Foi protagonista do espetáculo musical “Opinião”, com João de Valle e Zé Keti, uma crítica social à dura repressão política imposta pela ditadura militar. O espetáculo continua até o ano seguinte, quando foi substituída pela jovem baiana Maria Bethânia em princípio de carreira. Assim, tornou-se consagrada no púbico. Em 1966 foi intérprete da canção A Banda, de Chico Buarque, premiada no Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

Segue fazendo turnês pelas principais cidade do Brasil e chegou a comandar um programa na TV Record –“Pra ver a banda passar”- em companhia de Chico Buarque. Em fins de 1967 se casou com o cineasta Cacá Diegues e pouco depois deixam o País devido à ditadura militar, para viver em Paris. O casal teve dois filhos: Isabel e Francisco. Em 1968 aproximou-se do grupo tropicalista e participou da gravação do disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, o disco-manifesto do “Movimento Tropicalista. No início da década de 1970 foi considerada a melhor cantora pela APCA-Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Das suas interpretações, vale destacar algumas músicas de sucesso: “O barquinho”, ”A Banda” e “Com açúcar e com afeto”, feita a seu pedido por Chico Buarque, a quem homenageou nesse disco homônimo, lançado em 1980. Dos 28 discos lançados, “My foolish heart” foi o último lançado em 1989. Seu coração “tolo” parou de bater devido a um tumor cerebral inoperável, em 7/6/1989, aos 47 anos. A foto que se vê acima, de Frederico Mendes, foi exposta na capa de seu 17º LP – Romance popular – lançado em 1981, com repertório de músicas de compositores nordestinos. É também a capa de sua última biografia – Ninguém pode com Nara Leão: uma biografia -, escrita pelo jornalista Tom Cardoso, lançada em 2021 pela editora Planeta, cujo mérito maior é a fluência da narrativa. O título reproduz uma sentença proferida por Glauber Rocha em carta endereçada do exílio à Cacá Diegues.

A primeira biografia – Nara Leão: uma biografia – (ed. Lumiar), com um texto mais completo, foi lançada em 2001 pelo experiente biógrafo Sérgio Cabral; a segunda – Nara Leão: a musa dos trópicos – saiu em 2009 pela editora do autor Cassio Cavalcanti; a terceira, numa narrativa mais acadêmica envolvendo as circunstâncias de sua época – Nara Leão: trajetória, engajamento e movimentos sociais -, escrita por Daniel Lopes Saraiva, saiu em 2018, pela editora Letra e Voz. Como era de se esperar, a curta vida de Nara Leão não pode ser contada em apenas uma biografia. Uma visão geral e rápida de sua vida e legado podem ser vistos no site oficial: www.naraleao.com.br

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Joaquim Gomes de Souza

Joaquim Gomes de Souza nasceu em Itapecuru-Mirim, MA, em 15/2/1829. Matemático, astrônomo, filósofo e político, conhecido pelo nome “Souzinha”, é uma das figuras mais interessantes e esquecidas da História do Brasil. Para o cientista José Leite Lopes, trata-se do “primeiro vulto matemático do Brasil – e talvez o maior até hoje”.

Filho de Antônia Carneiro de Brito e Souza José Gomes de Souza, proprietário do Solar Gomes de Souza, no centro histórico de São Luís, atual Museu Histórico e Artístico do Maranhão. Realizou os primeiros estudos em São Luís e aos 14 anos foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Militar da Corte. Mas não se sentiu vocacionado nesta área. No ano seguinte ingressou na Faculdade de Medicina, aos 15 anos, e encontrou na Física e na Química a motivação para suas pesquisas na área da Matemática. Interrompeu o curso de Medicina no 3º ano e passou a dedicar-se como autodidata ao estudo de Cálculo Diferencial e Integral, Mecânica e Astronomia.

Após o 3º ano deixou o curso de Medicina e voltou à Escola Militar para estudar Matemática. Pediu permissão para realizar “exames vagos” de todos os cursos que faltavam para completar o curso de Ciências Matemáticas e Físicas. Nesse intento ganhou a proteção do senador José Saturnino da Costa Pereira, lente da Escola Militar e graduado em Matemática pela Universidade de Coimbra. Foi aprovado com boas notas em todas as matérias e colou grau de bacharel em 1848.

Ao final do ano, solicitou a defesa pública de uma tese sobre o Modo de indagar novos astros sem auxílio de observações diretas, baseada na “Mecânica Celeste” de Laplace, colando grau de doutor em Ciências Matemáticas, com apenas 19 anos. Em seguida foi aprovado no concurso para professor da Escola Militar, tornando-se tenente-coronel e capitão honorário da Escola. Nos anos seguintes dedicou-se, como autodidata, ao estudo da integração de equações diferenciais parciais, equações integrais, usando séries divergentes, e Física Matemática. Em 1855 viajou à Paris e assistiu diferentes cursos de Matemática na Universidade de Sorbonne, em contato com estudiosos franceses e ingleses.

Teve aulas com August Louis Cauchy, o maior matemático de seu tempo. Certa vez o professor apresentou uma equação não integralizável. Souzinha pediu licença timidamente, pegou o giz e demonstrou na lousa onde, por duas vezes, o sábio Cauchy se enganara, sendo levado a concluir erroneamente pela não integralização da equação. Impressionado, Cauchy cumprimentou-o e tornaram-se amigos. Apresentou na Academie des Sciences de Paris os trabalhos: 1) Memória sobre a determinação das funções incógnitas sob o sinal de integral definida, cujo resumo foi apresentado na Royal Society of London, pelo físico G.G. Stokes; 2) Memória sobre a propagação do som e 3) Memória sobre um teorema de cálculo integral aplicado a Física Matemática.

Na ocasião aproveitou o tempo para concluir o curso de medicina na Faculdade de Medicina de Paris. Mesmo estando na Europa foi designado deputado geral pelo Maranhão e casou-se com a inglesa Rosa Edith, em 1857. Retornou à São Luís para tomar posse na Assembleia Geral do Império, onde defendeu projetos voltados à educação. Em 1858 foi nomeado professor de Matemática e de Ciências Físicas e Naturais da Escola Central, sucessora da Escola Militar, e foi reeleito deputado em 1861. Como cientista Souzinha ficou mais conhecido na Europa do que em seu País.

Assim, a divulgação de seus livros se deu a partir da França: Resolução das equações numéricas (1850); Recueil des memoires d’analise mathematiques (1857); Mélanges du calcul intégral (1889) e teve o resumo de seus trabalhos editados postumamente pela Editora Brockhaus, em Leipzig. Seu interesse pela literatura foi manifestado numa coletânea de poesias publicada também pela Brockhaus, em 1859: Anthologie universelle choix des meilleurs poésies lyriques de divers nations dans les langues originales. O livro de 950 páginas surgiu a partir de um encontro que manteve, na Alemanha, com o romancista maranhense Antônio Gonçalves Dias em meados da década de 1850. A conversa girou em torno do lançamento de uma coletânea poética de alta qualidade.

Nos anos seguintes ocorreram tragédias domésticas: sua esposa faleceu e, 2 anos depois, o filho também. A tragédia atingiu-o com uma tuberculose, A doença foi agravada e veio a falecer em 1/6/1864, em Londres, ainda jovem aos 35 anos. No Maranhão é lembrado com um busto de bronze na Praça do Pantheon, em São Luís; tem seu nome estampado em escolas e logradouros da cidade e é patrono da cadeira nº 8 da Academia Maranhense de letras. Em 1996, a FUJB-Fundação Universitária José Bonifácio (RJ) instituiu o Prêmio Joaquim Gomes de Souza, destinado a contemplar os melhores trabalhos apresentados nas Jornadas de Iniciação Científica, Artística e Cultural da UFRJ. É também um dos patronos da Academia Nacional de Engenharia.

Como biografia contamos com artigos e estudos acadêmicos esparsos e textos de alguns entusiastas motivados pela manutenção de sua memória. Gastão Rúbio de Sá Weyne publicou o livreto Joaquim Gomes de Souza – Souzinha entre o cálculo integral e os poemas universais, por inciativa própria, editado em 2012 pela Scortecci Editora. Outro entusiasta -Ubiratan D’Ambrosio- apresentou o trabalho Joaquim Gomes de Souza, o Souzinha (1829-1864) no 3º Encontro da AFHIC-Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul, realizado em Campinas (SP) em 2004. Ele finaliza seu trabalho dizendo que “Um estudo da vida e obras da figura fascinante de Joaquim Gomes de Souza falta na historiografia da matemática brasileira”. Encontramos o verbete “’Souzinha’, o maior matemático da história do Brasil”, no link conhecimento infinito.

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AS BRASILEIRAS: Carolina Florence

Carolina Krug Florence nasceu em 21/3/1828, em Kassel, Alemanha. Professora e distinguida pedagoga colaborando na fundação do Colégio Culto à Ciência, em Campinas (SP). Em 1863 fundou sua própria escola, o Colégio Florence com ajuda do marido, o cientista Hércules Florence, um dos inventores da fotografia.
Filha Elizabeth Debus e João Henrique Krug, demonstrava extraordinária capacidade intelectual e interesse pela Literatura e História. Manifestava determinação na escolha profissional e dedicou-se ao magistério. Teve os primeiros estudos na Escola Ruppel e mudou-se para a Suíça, onde ingressou numa escola de moças, o Instituto de Madame Niederer, e foi aluna de um discípulo de Pestalozzi, já famoso na época devido ao seu método inovador. Até os 24 anos, teve diversas oportunidades profissionais.

Em Altona (Suiça), lecionou no Instituto Biernatriski por 3 anos e chegaram a lhe oferecer o cargo de diretora da instituição. Não pôde aceitar devido a viagem que a família empreendeu, em 1852, para o Brasil, motivada pela perseguição política sofrida pelo pai por ser “liberal”. Vieram juntar-se ao seu irmão mais velho, Vice-Cônsul da Suiça na Província de São Paulo. Em 1854 casou-se com Hércules Florence e manteve o sonho de criar uma escola no Brasil nos moldes daquela que frequentou na Europa.

Em 1863 fundou o Colégio Florence voltado para a educação feminina. Uma escola diferenciada, com aplicação do método Pestalozzi. O Colégio ficou conhecido e famoso em pouco tempo e recebeu a visita de Dom Pedro II em duas ocasiões (1875 e 1886) em grandes festividades envolvendo a cidade. Sua história encontra-se registrada no livro – A educação feminina durante o século XIX: o Colégio Florence de Campinas 1963-1889 -, de Arilda Inês Miranda Ribeiro, publicado na Coleção Campiniana, do Centro de Memória da Unicamp, em 2006.

Em 1889, durante a epidemia de febre amarela, que dizimou cerca de dois terços da cidade, transferiu o Colégio para Jundiaí, onde se manteve até 1928. De formação protestante, nunca estimulou o proselitismo no seu Colégio e procurava incentivar o ecumenismo religioso e cultural. Ao contrário dos colégios religiosos em que as alunas tinham, na maioria das vezes, apenas freiras, no Colégio Florence o contato com os professores favorecia uma educação mais voltada para a realidade social. Vale dizer que na época emergia a necessidade da educação feminina, recomendada pelo escritor José Veríssimo. No entanto, em seu livro A educação nacional, (1906) ele deixava claro que “dado serem as mulheres menos inteligentes do que os homens, elas não devem receber instrução em matemática e outras disciplinas científicas.”

O que diferenciava sua escola era o fato de ser um espaço de aprendizagem da vida cultural. Nos internatos religiosos o estímulo à educação se encontrava na assimilação e dogmas, rezas, abnegação, santificação da mulher; enquanto no Colégio Florence, por ser laico, tratava suas alunas como mulheres para viverem no espaço privado e público. Além disso, procurava absorver dos novos métodos que foram surgindo, contribuições para a melhoria do ensino. Permitia assim, que o corpo docente da instituição elaborasse seus programas de ensino livremente. A abertura às ideias que chegavam com novos professores sempre foi bem recebida.

Desde o início, procurou manter um corpo de professores qualificados. Entre os docentes que passaram por lá destacam-se Hercule Florence, Julio Ribeiro, Rangel Pestana, João Kopke, Emílio Giorgetti, Armelina Lamaneres, Leonor Gomes, Ana Krug Kupfer, Augusta e Isabel Florence, entre outros. Viajou várias vezes à Europa para recrutar professores franceses e ingleses. No ano de 1889, com o início da epidemia de febre amarela que deixou a cidade de Campinas em pânico, Carolina foi prudente. Para evitar o pior, fechou temporariamente as portas do Colégio, e mandou as alunas de volta às famílias, evitando que corressem o risco da doença que dizimou cerca de dois terços da população em um ano.

A atitude foi elogiada pela imprensa e serviu de exemplo para que outras instituições tomassem as mesmas medidas. Pouco depois o Colégio reabriu em Jundiaí e continuou nos moldes idealizado por sua fundadora até 1928, quando foi transformado em Escola Normal Livre. Após 33 anos dedicados a educação, decidiu afastar-se da direção, deixando o cargo com as professoras Hermínia Michaelis, Cecília Almeida e Augusta Florence, sua filha. Em 1907 retornou a Europa para tratar da saúde. Foi viver em Florença, onde veio a falecer em abril de 1913, aos 85 anos. Na falta de uma biografia mais completa, seu legado pode ser visto clicando aqui.

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OS BRASILEIROS: Hércules Florence

Antoine Hercule Romuald Florence, nasceu em Nice, França, em 29/2/1804. Desenhista, pintor, tipógrafo, inventor e polígrafo, i.é, dotado em diversas matérias científicas. Aos 20 anos passou a viver no Brasil e ficou conhecido como um dos pioneiros no invento da fotografia e criador da palavra “photographie”. Acredita-se que não ficou reconhecido no mundo como inventor devido ao excesso de modéstia e viver num país fora do circuito europeu.

Desde criança demonstrava talento para o desenho e logo cedo tornou-se aventureiro viajante. Aos 16 anos tomou um navio e foi parar no porto de Antuérpia, onde foi assaltado. Empreendeu uma viajem, praticamente a pé, até Mônaco, após breve passagem pela Holanda. Em seguida renovou o passaporte e, em 1824, embarcou para o Brasil. Sem falar português, trabalhou numa loja de roupas e numa livraria/tipografia. Soube da realização de uma expedição científica em busca de desenhistas que fizessem a documentação ilustrada de uma grande viagem pelo norte do Brasil.

Era a expedição Langsdorff, uma empreitada fruto das relações comerciais entre a Rússia e o Brasil visando a exploração geográfica e de novos produtos. Foi admitido como desenhista e percorreu 13 mil quilômetros no período 1826-1829. Seu trabalho resultou numa grande coleção de imagens de valor inestimável, segundo os cientistas brasileiros e estrangeiros, conforme ficou registrado no livro Etnografia e iconografia nos registros de Hércules Florence durante a expedição Langsdorff, na província do Mato Grosso – 1826-1829, de Sonia Maria Couto Pereira (Ed. da UFGO 2016). Tal edição foi possível graças ao seu diário de bordo, publicado em 1875 pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, publicado posteriormente em várias edições com o título Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas – 1825-1829. As ilustrações de Florence, os documentos e as amostras coletadas pela expedição Langsdorff foram esquecidas por mais de um século na Academia Imperial da Rússia, em São Petersburgo e redescobertos somente em 1930. Foi publicada aqui, em 1988, pela Editora Alumbramento com o título Expedição Langsdorff: iconografia da Academia de Ciências da União Soviética.

Em seguida, passou a viver em São Paulo, onde casou-se com Maria Angélica Vasconcelos, em 1830, tiveram 9 filhos e fixaram residência nas proximidades de Campinas. Pouco depois observou a descoloração sofrida pelo tecido exposto à luz do sol. Informado pelo botânico Joaquim Correia de Melo das propriedades do nitrato de prata, iniciou investigações sobre fotografia. Suas primeiras experiências com a câmera obscura datam de janeiro de 1833 e encontram-se registradas no manuscrito Livre d’Annotations et de Premier Matériaux. Mais de 150 anos depois, o exame detalhado desse manuscrito por Boris Kossoy levou-o a comprovar o emprego pioneiro da palavra “photographie”, 5 anos antes que o vocábulo fosse utilizado pela primeira vez na Europa. (Kossoy, Boris. Hercule Florence, a descoberta isolada da fotografia no Brasil, 3ed., São Paulo: EDUSP, 2006).

Seu êxito foi construir de modo rudimentar uma câmera escura usando uma lente e uma paleta de cores como base, obtendo uma imagem fotográfica e cunhado o termo que se eternizou como “fotografia”. Constatando-se que o cientista inglês William Fox-Talbot realizou tal façanha, porém alguns anos depois, constata-se que Hércules Florence o antecedeu na invenção de uma foto impressa. Ele mesmo lamentou o fato de não ter sido reconhecido com seu invento, conforme publicou no seu livro-diário “L’Ami des arts livré à lui même ou Recherches et découvertes sur différents sujets nouveaux” (O amigo das artes entregue a si mesmo ou pesquisas e descobertas em novos tópicos diferentes)

Seu lamento é um desabafo diante do fato de viver num país onde o conhecimento não é prestigiado: ”Estou certo de que, se estivesse em Paris, um único de meus descobrimentos poderia, talvez suavizar-me a sorte e ser útil a sociedade. Lá, talvez não me faltassem pessoas que me ouviriam, me adivinhariam e me protegeriam. Estou certo de que o público, o verdadeiro protetor dos talentos, me compensaria de meus sacrifícios. Aqui, porém, ninguém vejo a quem possa comunicar minhas idéias. Os em condições de as entenderem, seriam dominados por suas próprias idéias, por suas especulações, pela política, etc.”

Foi pioneiro também na imprensa. Em 1836 fundou em Campinas O Paulista, primeiro jornal do interior do Estado. Em 1843 inventou um novo método de impressão para evitar falsificações e publicou num folheto apresentado na Academia de Ciências e Artes de Turim, que constatou ser ele um merecedor da proteção do Governo da Sardenha. Em 1847 descreveu o emprego dos “typo-silabas”, ideia precursora da taquigrafia. Como se vê, seus inventos giravam em torno da impressão e documentação. Em 1850 ficou viúvo e pouco depois casou-se com Carolina Krug, educadora e fundadora do Colégio Florence, em Campinas. Seus desenhos do litoral, do interior e da capital paulista serviram de base para diversas pinturas de autores como Benedito Calixto, José Wasth Rodrigues e Alfredo Norfini entre outros, O diretor do Museu Paulista, Afonso d’Escragnolle de Taunay, no período 1917-1945, denominou-o como “patriarca da iconografia regional”. Faleceu em 27/3/1879.

Foi um prodigioso inventor de registros documentais, bem como um documentalista diligente ao deixar publicado diversas publicações contendo valiosas informações sobre suas descobertas, além das citadas no seu livro-diário: (1) Ensaio sobre a impressão das notas de banco por um processo totalmente inimitável, precedido por algumas observações sobre a gravura das mesmas notas, e o modo de se conhecer as que são falsas. Campinas: Tipografia de Costa Silveira, 1841; (2) Zoophonia. Revista do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Brasil. Vol. XXXIX, 1876 e Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. São Paulo: Melhoramentos, duas edições – 1941 e 1948; 3ª ed. em 1977, pela Editora Cultrix e 4ª ed. em 2002, pela Editora do Senado Federal.

Segundo seu biógrafo Leão Estevão Bouroul – Hércules Florence. São Paulo: Tipografia Andrade Mello & Cia., 1900- “a vida de Florence é a narração singela e comovente das peripécias, das descobertas, das viagens, que constituem uma das páginas mais interessantes dos anais do século XIX brasileiro”. Consta mais uma biografia escrita por Dayz Peixoto Fonseca e publicada em Campinas pela Editora Pontes, em 2008: O Viajante Hércules Florence: águas, guanás e guaranás. O Instituto Hercule Florence conta com grande acervo de informações à disposição do público.

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AS BRASILEIRAS: Francisca Diniz

Francisca Senhorinha da Motta Diniz nasceu 30/10/1834, em São João del Rei, MG. Professora, escritora e jornalista. Pioneira do Feminismo no Brasil, teve atuação destacada na educação e participaçãio da mulher na sociedade. Fundou o semanário – O Sexo Feminino -, em 1873, com artigos sobre o dote, abolição da escravatura, pena de morte, sufrágio feminino etc.

Filha de Gertrudes Alves de Melo Ramos e Eduardo Gonçalves da Mota Ramos, e casada com o advogado e jornalista José Joaquim da Silva, diplomou-se professora do curso primário e lecionou em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, onde fixou residência. Logo após formada, passou a dirigir uma escola ao mesmo tempo em que iniciava uma carreira jornalística, escrevendo para a revista A Estação.

Pouco depois, fundou seu próprio jornal – O Sexo Feminino -, “um semanário dedicado aos interesses da mulher”, conforme estampado no título. O jornal foi lançado em Campanha, MG, em 7 de setembro de 1873, marcando a comemoração da Independência do Brasil e, também, a independência da mulher, num editorial na capa do jornal: “Zombem muito embora os pessimistas do apparecimento de um novo orgão na imprensa – O Sexo Feminino; tapem os ouvidos os indifferentes para não verem a luz do progresso, que, qual pedra desprendida do rochedo alcantilado, rola violentamente sem poder ser impedida em seu curso; riam os curiosos seu riso sardonico de reprovação à idea que ora surge brilhante no horizonte da cidade…

…O seculo XIX, seculo das luzes, não se findará sem que os homens se convenção de que mais de metade dos males que os opprimem é devida ao descuido, que elles tem tido da educação das mulheres, e ao falso supposto de pensarem que a mulher não passa de um traste de casa, grosseiro e brusco gracejo que infelizmente alguns individuos menos delicados ousão atirar a face da mulher, e o que é mais as vezes, em plena sociedade familiar!!!”. O jornal era impresso em sua casa e seu marido era editor do jornal O Monarquista.

Em 1875 foi convidada por Dom Pedro II para lecionar na corte e passa a viver no Rio de Janeiro, levando seu jornal a tiracolo, e atinge a tiragem de 4 mil exemplares. Seus leitores iam dos mais ricos -incluindo os membros da corte (Dom Pedro II e a Princesa Isabel eram assinantes) -aos mais pobres. No ano seguinte toda a família foi acometida pela febre amarela; passa por uns perrengues financeiros; e o jornal passa a ser publicado mensalmente por pouco tempo. Só voltou a circular após a Proclamação da República com novo título: O Quinze de Novembro do Sexo Feminino, ou seja: “A República das mulheres”, cujo programa propunha a emancipação feminina através da educação física, moral e intelectual. Trazia também uma coluna tratando exclusivamente do sufrágio feminino.

Colaborou em mais dois jornais do Rio de Janeiro: Primavera e A Voz da Verdade. Era uma defensora intransigente do papel da mulher na nova república que surgia. Seu texto era direto, conclamando à ação: “É tempo de olharmos atentamente para nossa situação. Que papel representa a mulher na sociedade? Quando filha, quando mãe, esposa e viúva, sempre, sempre manietada, oprimida e dominada desde o primeiro até o último homem”. Dava grande importância à educação básica da mulher, tanto para benefício próprio quanto para a melhoria do mundo. Boa parte dos estudos sobre Francisca Diniz estão centrados mais na sua produção jornalística. Porém ela enveredou pela literatura com o livro A judia Rachel: romance original de costumes, publicado em 1886 em coautoria com sua filha Albertina.

Segundo a crítica literária Zahidé Muzart, trata-se de um romance “de aprendizagem”, no sentido de que a obra é um exercício do ofício da escrita. Tendo em vista seus esforços para destacar o papel da mulher na sociedade, a temática de seu livro não poderia ser outro, senão uma crítica ao confinamento a esfera doméstica e seu alijamento da esfera pública. O livro alcançou sucesso de público e crítica, e foi republicado pelo Senado Federal, em 2020, incluído na “Coleção Escritoras do Brasil”.

Sua vida não ficou nos limites da escrita jornalística ou literária. Com o falecimento do marido, e em parceria com suas 3 filhas, também professoras: Amélia, Albertina e Elisa, fundou a Escola Doméstica do Colégio Santa Isabel, em 1890, no centro do Rio de Janeiro. As disciplinas referentes à vida doméstica foram matidas, mas foram ampliadas com o acréscimo de História, Matemática e Geografia. Aí se manteve até 30/10/1910, quando veio a falecer, mantendo a crença que seria pela formação escolar que as mulheres poderiam escolher seu próprio caminho. Em 2013 Bárbara Figueiredo Souto apresentou a dissertação de mestrado – Francisca Senhorinha da Motta Diniz e Josephina Alvares de Azevedo: projetos de emancipação feminina na imprensa brasileira (1873-1894) – no Departamento de História da FFLCH da USP, disponível para consulta. Clique aqui para acessar.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Landell de Moura

Roberto Landell de Moura nasceu em 21/1/1861, em Porto Algre, RS. Sacerdote, cientista e inventor mais conhecido pelo pioneirismo na área das telecomunicações. Para muita gente e instituições como o IEEE-Institute of Electrics and Electronics Engineers, ele é um dos principais inventores do rádio. Em 1893 suas transmissões sem fio alcançavam 8 quilômetros; enquanto o aparelho de Guglielmo Marconi alcançava apenas alguns metros.

Filho de tradicional família gaúcha, estudou no colégio jesuita de São Leopoldo até 1873. No ano seguinte retornou à Porto Alegre e ingressou noutro colégio, onde estudou línguas, humanidades e gramática. Conta-se que aos 16 anos inventou um tipo de telefone, mas não deixou uma descrição do aparelho. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro, afim de estudar na Escola Politécnica. Porém teve uma grande mudança de rumo nos estudos. Seu irmão queria estudar em Roma para ser padre e convenceu-o a seguir o mesmo caminho. Igressou no Colégio Pio Americano, em 1878, e na Universidade Gregoriana, ordenado sacerdote em 1886. Enquanto estudava Direito Canônico, interessou-se também pela ciência e concebeu sua teoria sobre a unidade entre as forças físicas do Universo e sua harmonia. De volta ao Rio de Janeiro em 1887, foi capelão do Paço Imperial e, além de rezar missa, trocava ideias com o imperador Pedro II, conhecido amante das ciências. Pouco depois mudou-se para Porto Alegre, em 1891, onde foi padre e professor de História no Seminário Episcopal. Em seguida foi vigário em Uruguaiana.

No ano seguinte foi transferido para São Paulo, atuando nas paróquias de Santos, Campinas e na capital, como pároco da Capela de Santa Cruz, no bairro de Santana, onde permaneceu até 1900. Ficou mais conhecido através de suas pesquisas científicas, uma atividade mal recebida pelos paroquianos, que chegaram destruir seu laboratório; e pela Igreja, que não admitia a possibilidade vida fora da terra. Ele previa a possibilidade de comunicação entre mundos diferentes. Em 1892 teria construído o 1º transmissor de mensagens sem fio, antes de Guglielmo Marconi, na Itália. Nos anos seguintes realizou experiências de transmissão de som por meio de ondas hertzianas e fez testes com um telégrafo e um telefone sem fio. No entanto a falta de documentação sobre as datas prejudicouu seu reconhecimento internacional. Porém, existem testemunhos de algumas pessoas sobre estes fatos, e em 1899 o Jornal do Commercio puublicou nota sobre seu pioneirismo mundial no campo da transmissão do som sem fio.

Em 1900 ocorreu a 1ª demonstração pública de seus inventos e foram “coroadas de êxito”, conforme noticiou a edição brasileira do jornal La Voz de España, de 10/12/1900. Em 1901 conseguiu a 1ª patente brasileira para seu aparelho sem fio e uma viagem para Itália, França e EUA, onde montou um laboratório em Nova Iorque e ficou lá por 4 anos. Queria obter patente, também, nos EUA. Não conseguiu a patente, mas o jornal New York Herald publicou, em 1902, sua foto com a legenda “Padre Landel de Moura, inventor do aparelho de telefone sem fio”, destacando que “por entre os cientistas, o brasileiro Padre Landell de Moura é muito pouco conhecido”. Alguns , empresários dos EUA ofereceram-lhe uma fortuna para autorizar a produção industrial do aparelho, mas ele recusou alegando: “Os inventos já não mais me pertencem. Por mercê de Deus, sou apenas o depositário deles. Vou levá-los para minha Pátria, o Brasil, a quem compete entregá-los à humanidade”. Em 1904, conseguiu obter 3 patentes nos EUA para um telefone sem fio e um telégrafo sem fio. Ao final do ano criou um sistema de transmissão de imagens à distância tornando-se pioneiro também da televisão e do controle remoto. Mas a documentação sobre isto é pobre, impedindo que se conheça até que ponto ele chegou. De volta ao Brasil, em 1905, assumiu a paróquia de Botucatu, SP, e continou com as pesquisas.

Solicitou aos políticos auxílio financeiro para continuar seus trabalhos e concretizar os inventos, mas não conseguiu sensibilizar os deputados de São Paulo. Chegou a apelar ao presidente Rodrigues Alves, pedindo 2 navios da Marinha para demonstrar a transmissão sem fio em longas distâncias, novamente sem êxito. O assessor encarregado de analisar o pedido não lhe deu crédito e disse ao presidente que “o tal padre é maluco”. Conta-se que na ocasião ele teve um acesso de raiva e destruiu alguns aparelhos. Em seguida, foi obrigado pela Igreja a abandonar seus experimentos. Em 1906 assumiu a paróquia de Mogi das Cruzes, SP, e no ano seguinte voltou à seus experimentos. Escreveu um memorial descritivo dos efeitos eletro-luminescentes de um indeterminado campo energético envolvendo os seres vivos, registrando-os numa fotografia, fenômeno conhecido hoje como “efeito Kirlian”. Na ocasião descreveu os efeitos da eletricidade sobre o corpo humano. Passou mais um tempo vagando por algumas cidades do interior de São Paulo e em fins de 1908 pediu exoneração e retornou à Porto Alegre.

Assumiu a paróquia do Menino Deus e tratou de aperfeiçoar seu sistema de transmissão de imagens, dando-lhe o nome de “televisão’. Com a fundação da Faculdade de Medicina Homeopática em 1914, assumiu uma cátedra junto com seu irmão médico e farmacêutico. Na inauguração da escola, profreriu um discurso sobre a lei dos similares, princípio básico da homeopatia. Porém, no mesmo ano uma crise interna provocou a cisão da faculdade em duas: Faculdade de Ciências Médicas e Escola de Médicina-Cirúrgica, e em nunhuma delas a homeopatia foi incluída. No ano seguinte foi nomeado vigário-geral da Arquidiocese de Porto Alegre e a saúde deu sinais de alerta, levando-o a uma série de pedidos de licença para tratamento médico em estações termais. Por esta época dedicou-se ao estudo da psicologia e espiritismo, para desagrado dos fiéis e da cúpula da Igreja.

Em 1916 foi nomeado cônego capitular do Cabido Metropoloitano de Porto Algre e aprofundou os estudos sobre psicologia, chagando publicar em 1919 o livro Apontamentos de psychologia. Em seguida participou da fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, ampliando sua participação no meio social. A Igreja, mesmo não gostando de suas atividades científicas, tinha na cúpula alguns membros que reconheciam seu valor como religioso. Assim, em 1927 recebeu o título eclesiástico de monsenhor e foi nomeado arcerdíago (ou arquidiácono) no ano seguinte. Mas viveu pouco neste cargo. Na condição de fumante inverterado, era portador de uma tuberculose, que se agravou até 30/6/1928, quando veio a falecer.

Nos EUA ele foi reconhecido por outros inventores e seu nome transita entre membros do renomado IEEE, a maior organização profissional técnica do mundo. Seu pioneirismo na invenção do rádio, na telefonia e telegrafia sem fio desde 1893 conta com vários testemunhos, conforme dois artigos numa grande enciclopédia norte-americana e outras publicações internacionais. Porém no Brasil estas primeiras evidências ainda estão sob controvérsia. Não obstante ser pouco conhecido entre em nós, recebeu diversas homenagens. É cidadão honorário da cidade de São Paulo, patrono da Ciência, Tecnologia e Inovação do município de Porto Alegre, patrono dos radioamadores brasileiros, e em 2012 foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria (Lei nº 12614). Em Porto Alegre, o “Memorial Landell de Moura” batalha para promover seu reconhecimento e mantém um grande acervo de informações à disposição do público. Segundo o Dr. Gildo Magalhães, da USP, sua história “é um retrato das vicissitudes que marcam a trajetória da ciência brasileira”.

Trata-se de um dos nossos cientistas pouco divulgado no Brasil, mas não é por falta de biografia. Ivan Dorneles Rodrigues, tido como o maior conhecedor de sua vida e obra, publicou o livro Pe. Roberto Landell de Moura: a história documentada, pela Editora Corag em 2015. Hamilton Almeida, outro entusiasta no resgate de sua memória, publicou Padre Landell de Moura: um herói sem glória, pela Editora Record, em 2006, e Padre Landell: o brasileiro que inventou o wireless, pela Ed. Insular em 2022. Biografias mais antigas: O incrível Pe. Landell de Moura, de Ernani Fornari, (Ed. Globo, 1960), e Padre Landell de Moura: história de um inventor, de Elida de Freitas e Castro Druck (Ed. Sulina, 1960). A Wikipedia traz um alentado verbete sobre o Padre e o Youtube conta com diversos vídeos sobre sua trajetória.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Rosalina Lisboa

Rosalina Coelho Lisboa de Larragoiti nasceu em 15/7/1900, no Rio de Janeiro, RJ. Escritora, poeta, jornalista, diplomata, ativista política e praticante de jiu-jitsu. Na condição de amiga do presidente Getúlio Vargas, teve atuação destacada na década de 1930 e foi uma das pioneiras do movimento feminista.

Filha de Luiza Gabizo Lisboa e João Gonçalves Coelho Lisboa, deputado e senador pela Paraíba, teve educação refinada com preceptoras estrangeiras, e foi Mestre em história e culturas políticas pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG. Publicou seu primeiro soneto aos 14 anos e aos 15 passou a colaborar na famosa revista Careta. Ainda jovem, casou-se com o comandante Raul Van Rademaker, de quem ficou viúva aos 19 anos. Passou por uns perrengues financeiros e dedicou-se integralmente ao trabalho, escrevendo para revistas e jornais sob diferentes pseudônimos.

Em 1920 foi lecionar inglês no Instituto Benjamin Constant e pouco depois publicou seu livro de poemas Rito Pagão, premiado pela ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1922. Casou-se de novo com James Irwin Miller, gerente da United Press na América do Sul. Na época ficou conhecida como Rainha dos cadetes de Realengo, devido aos seus artigos enaltecendo os jovens oficiais. Na defesa dos oficiais exilados, viajou pela América Latina e viveu alguns anos na Argentina. Foi partidária da Revolução de 1930, ano em que participou do Congresso Feminino Internacional, em Porto Alegre.

Exerceu diversas funções diplomáticas entre 1930 e 1954, estabelecendo uma relação de amizade com o presidente Getúlio Vargas e o ministro Oswaldo Aranha. Foi a 1ª mulher brasileira a ser enviada ao exterior em missão intelectual, em 1932. Por solicitação de Vargas, elaborou programa de propaganda revolucionária pelo rádio e foi a única mulher a integrar o comitê de regulamentação da radiodifusão educativa, em 1933. Com a proximidade do Golpe de 1937 e instauração do Estado Novo, ela foi um dos principais mediadores entre a AIB-Ação Integralista Brasileira e o Governo Vargas. No início da década de 1940, conseguiu anular o 2º casamento e casou-se pela 3ª vez com Antonio Sanchez de Larragoiti, diretor da companhia de seguros Sul América.

Com o fim da II Guerra Mundial, passou a defender maior estreitamento das relações do Brasil com os países vizinhos, aconselhando Vargas, especialmente a Argentina, Chile e Peru.

Em 1945 ocupou a diretoria dos Diários Associados como encarregada das sucursais de Lisboa, Madrid e Paris. Participou, como delegada, da VI Assembleia Geral da ONU, em 1951 (Paris), e propôs o projeto de abolição dos castigos corporais aplicados aos negros na África do Sul. No mesmo ano pronunciou-se na imprensa a favor do divórcio, em apoio a campanha do senador Nelson Carneiro.

Foi membro do conselho consultivo do IBRI-Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, em 1954, e em seguida foi apresentada como candidata ao senado pelo Partido Social Progressista, mas recusou a indicação. Na cerimônia de inauguração da TV no Brasil, em 18/9/1950 nos Diários Associados em São Paulo, ela discursou e recitou um poema na condição de “Madrinha da Televisão”. Além dos artigos nos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e A Nação, deixou publicado os livros O desencantado encantamento (ensaios, 1927), Conferências (1927), Passos no caminho (poesia, 1932), Almafuerte (ensaios, 1951) e A Seara de Caim, romance de 1952, publicado pela Ed. José Olympio, reeditado diversas vezes e traduzido para o francês com prefácio de André Maurois.

Conforme análise de seu arquivo pessoal, depositado no CPDOC da FGV-Fundação Getúlio Vargas, “é curioso perceber que uma escritora brasileira tão consagrada internacionalmente e tão engajada na política, não tenha angariado uma análise mais detalhada de sua controversa vida pública” Ao mesmo tempo em que demonstrava vanguardismo por ser favorável ao divórcio e defender a igualdade dos sexos, ora posicionava-se conservadoramente pregando a formação moral e cívica como garantidoras da ordem política. “De forma, que podemos defini-la revolucionária no campo social e conservadora no campo político”, não obstante suas contribuições na área política e cultural. Faleceu em 13/12/1975.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Sobral Pinto

Heráclito Fontoura Sobral Pinto nasceu em Barbacena, MG, em 5/11/1893. Advogado conhecido pela defesa de presos políticos durante a ditadura do Estado Novo em fins da década de 1930 e a ditadura militar instaurada após o golpe de 1964. Teve atuação destacada na luta pela defesa dos direitos humanos em sua longa carreira profissional.

Conta-se que aos 10 anos presenciou 3 policiais arrastando um preso e dando-lhe chutes e pancadas. O garoto ficou indignado e chamou-os de covardes. Nascia ali o senso de justiça que impregnou sua vida. realizou os estudos secundários no Colégio Anchieta, dos padres jesuítas, em Nova Friburgo, RJ. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Faculdade de Direito, onde foi diplomado em 1917. Trabalhou pouco tempo na área criminalista e foi convidado para ocupar o cargo de Procurador Criminal da República, em 1924. O período do governo de Arthur Bernardes foi conturbado com os movimentos militares revolucionários e ele foi implacável na condenação dos líderes.

Em 1928 foi promovido a Procurador-Geral do Distrito Federal e no mesmo ano ingressou no Centro Dom Vital, criado por Jackson de Figueiredo e Dom Sebastião Leme, ficando responsável pela crônica política publicada no jornal da entidade, A Ordem. Pouco depois deixou a Procuradoria-Geral, recusando qualquer cargo público, passando a ser apenas advogado. Em 1933 aderiu à Liga Eleitoral Católica, a fim de orientar na escolha dos representantes da Assembleia Nacional Constituinte, até que em 1936 surge uma grande causa: defender os líderes da “Intentona Comunista” Luiz Carlos Prestes e o alemão Harry Berger, diante da recusa de diversos advogados. Prestes passou 8 anos de prisão incomunicável, recebendo apenas a visita semanal que o advogado lhe fazia.

No caso do alemão, suas condições no cárcere eram tão desumanas que ele solicitou do governo a aplicação do artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais ao prisioneiro. Mais tarde as razões da defesa foram expostas em seu livro Por que defendo os comunistas. Durante a ditadura do “Estado Novo”, batalhou pela redemocratização através de sua coluna no Jornal do Commercio, incluindo uma grande polêmica travada com o escritor Cassiano Ricardo, diretor do jornal governista A Manhã, publicada no livro Do primado do espírito nas polêmicas doutrinárias: as iras do Sr. Cassiano.

Em 1945 assinou o manifesto de lançamento da Resistência Democrática, convocando a realização da Constituinte, o sufrágio universal, a criação de partidos e dos sindicatos apolíticos. Mais tarde, em 1955, quando um grupo político aliado aos militares tentaram impedir a participação no pleito de Juscelino Kubitschek e João Goulart, ele criou a “Liga da Defesa da Legalidade” para lutar pela realização das eleições e garantir a posse dos eleitos. Com a vitória de Juscelino, pouco depois foi-lhe oferecida uma vaga no STF-Supremo Tribunal Federal. Não foi aceita, para evitar a impressão que seria uma retribuição pela sua atuação na Liga.

Logo após o Golpe Militar de 1964, enviou uma carta ao Marechal Castelo Branco advertindo-o de que sua candidatura, na qualidade de chefe do Estado Maior do Exército, era ilegal, tanto no pleito direto, quanto indireto. Neste período defendeu causas como a Missão Comercial Chinesa, que aqui se encontrava com passaporte diplomático num intercâmbio comercial. Foram presos, torturados e, após a condenação. Foram deportados. Com o AI-5, em 1968, ele foi preso em Goiás por alguns dias. O oficial carcereiro avisou-lhe que o AI-5 visava o estabelecimento de uma democracia à brasileira. Resposta: “Coronel, há peru à brasileira, mas não há democracia à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos”.

Um dos aspectos que mais salientou seu caráter foi o completo desprendimento dos bens materiais. Seu colega Dario de Almeida Magalhães dizia: “Para que esse destino privilegiado de homem livre se realizasse cabalmente, alcançou Sobral Pinto a libertação de um dos jugos mais perigosos e daninhos: a libertação do dinheiro”. Outro colega -Victor Nunes Leal- revela um aspecto de sua atuação: “Sobral Pinto é o crítico vigilante da vida pública, o curador da vivência dos amigos, a consciência de cada um de nós”. Foi conselheiro da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil por vários anos; foi presidente do Centro Dom Vital em dois mandatos e catedrático de Direito Penal da PUC-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Na homenagem que recebeu na Câmara Municipal de São Paulo, em 1976, pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, discursou sobre o Golpe de 1964: “Golpe militar. Não foi Revolução. Não havia naquele movimento nenhuma ideia superior; não havia naquele movimento nenhum propósito de realmente trabalhar para a cultura e o progresso do País’. Na década de 1980, início do período de abertura política teve participação ativa no movimento “Diretas Já” e causou sensação ao participar do histórico Comício da Candelária, em 1984. Foi uma das últimas participações públicas, contando já com 91 anos. Faleceu em 30/1/1991

Foi homenageado com seu nome em alguns logradouros públicos, além do prédio da OAB no Rio de Janeiro, que leva seu nome. Deixou uma enorme quantidade de cartas e artigos na imprensa e dois livros sobre a liberdade: Lições de liberdade (1977) e Teologia da libertação (1984). Sua coragem e legado ficaram registrados em algumas biografias: Sobral Pinto: a consciência do Brasil (2001), de John Forster Dules, publicada também em inglês; Sobral Pinto, o advogado (2002), de Aristóteles Atheniense; Heráclito Fontoura Sobral Pinto: toda liberdade é íngreme (2014), de Márcio Scalero, e uma cinebiografia com o documentário Sobral – O homem que não tinha preço, em 2013, dirigido por Paula Fiuza

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carmen Portinho

Carmen Velasco Portinho nasceu em 26/1/1903, em Corumbá, MS. Engenheira e primeira mulher a receber o título de Urbanista no Brasil, tornando-se sua patrona em 2022. Foi também uma das pioneiras do Feminismo na condição de vice-presidente da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminista em 1922, junto com sua cunhada, a presidente Bertha Lutz.

Filha de Maria Velasco, boliviana, e do gaúcho Francisco Sertório Portinho, mudou-se para Rio de Janeiro aos 8 anos; completou os primeiros estudos e graduou-se engenheira pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil, atual UFRJ, em 1925. Foi a 3ª mulher formada engenheira no Brasil. Manteve estreita ligação com o incipiente movimento feminista na época em prol da educação das mulheres e pela valorização do trabalho feminino fora da esfera doméstica. Em 1930 fundou a União Universitária Feminina, da qual foi a primeira presidente, com o objetivo de defender os interesses femininos nas profissões liberais. No mesmo ano casou-se com o médico Gualther Adolpho Lutz, irmão de sua amiga Bertha Lutz. Separou-se pouco depois e se casou com o arquiteto Afonso Eduardo Reidy, projetista do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Logo após formada, foi trabalhar na Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal e em seguida foi lecionar no Colégio Pedro II, causando um escândalo na sociedade carioca, pois tratava-se de um internato masculino. Foi vítima do machismo também no seu trabalho na Prefeitura. Foi reclamar com o presidente Washington Luiz, que mantinha audiências públicas para ouvir queixas e pedidos de funcionários e cidadãos. Posteriormente foi promovida e conseguiu concluir o primeiro curso de urbanismo no País. Em 1937 fundou e foi a 1ª presidente da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas, visando o ingresso das formandas no mercado de trabalho.

Em 1939 defendeu seu doutorado em urbanismo com a tese “Anteprojeto para a futura capital do Brasil no Planalto Central”. Seu plano tem o formato de um transatlântico, contendo várias características que se encontram no Plano de Brasília, elaborado por Lucio Costa. Pouco depois ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar na comissão de reconstrução das cidades inglesas destruídas na II Guerra Mundial. De volta ao Rio Janeiro, propôs ao prefeito a criação de um Departamento de Habitação Popular (DHP), do qual foi designada diretora na década de 1950. Sua obra maior foi o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, mais conhecido como “Pedregulho”, para abrigar funcionários públicos do município, no bairro de São Cristóvão. O projeto ficou a cargo de seu marido, já reconhecido como um dos grandes nomes da moderna arquitetura brasileira.

Trata-se de um ousado projeto arquitetônico, que conquistou o 1º prêmio da Bienal Internacional de São Paulo (1953) e foi elogiado pelos arquitetos Max Bill e Le Corbusier em visita ao Brasil em 1962. Pela primeira vez centenas de famílias modestas puderam morar numa edificação contando com murais de Cândido Portinari, projeto paisagístico de Burle Marx e piscina. Em sua gestão no DHP foram construídos mais 3 conjuntos de habitação popular menos famosos (Gávea, Vila Isabel e Paquetá) que lhe deram projeção nacional e internacional. Publicou um artigo expondo seu pensamento: “É hora de oferecer ao homem [do século 20], na idade da máquina […] habitação digna de sua era. Uma máquina para viver, bem montada e organizada, que lhe permita recuperar aquela coisa inestimável, que hoje está quase perdida, que é a liberdade individual”.

Sua concepção da arquitetura moderna aliada ao urbanismo consistia em organizar a área residencial em unidades de habitação, separando as funções em um centro administrativo e de negócios, com ênfase em um sistema viário eficiente e equacionado. Em paralelo a construção de conjuntos habitacionais, chefiou as obras de engenharia civil da construção da nova sede do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio Janeiro, projetado por seu marido e inaugurado em 1958. Era a única mulher num canteiro de obras com mais de 450 operários. Com a ascensão de Carlos Lacerda ao governo em 1962, Carmen pediu sua aposentadoria, devido a divergências políticas irreconciliáveis com o governador.

Continuou trabalhando através da iniciativa privada e tornou-se diretora da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial a convite do governador Negrão de Lima, em 1963, onde permaneceu por 20 anos. Foi a 1ª escola de desenho industrial da América Latina. Em 1965 organizou a exposição de arquitetura moderna brasileira para o Instituto Hispânico-Americano de Madri e apoiou alguns artistas espanhóis na mostra de vanguarda “Opinião 65”, no MAM. No ano seguinte recebeu convite do Departamento de Estado dos EUA para visitar o país e manteve contatos com diretores de museus, escolas, galerias de arte e colecionadores. Em 1970 recebeu convite idêntico do governo alemão para conhecer o desenvolvimento do desenho industrial nesse país.

Recebeu diversas homenagens, entre as quais destacam-se as prestadas pela UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro com a instituição do “Prêmio Carmen Portinho”, criado em 1991, destinado anualmente a valorizar a produção científica dos alunos e a mostra “Carmen Portinho: uma homenagem”, em 1993, abordando sua trajetória profissional. Em 1999, ao completar 96 anos foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil e pela Secretaria Municipal de Obras Públicas. No mesmo ano a UERJ prestou-lhe mais uma significativa homenagem: a edição de um livro de arte em grande formato: Carmen Portinho – Por toda a minha vida, com depoimentos a Geraldo Edson de Andrade e Alfredo Brito. Faleceu em 25/7/2001. Seu sobrinho-neto, senador Carlos Portinho apresentou o Projeto de Lei nº 1.679, em 2022, outorgando-lhe o bem-merecido título de “Patrona do Urbanismo no Brasil”, sancionado pelo Senado Federal em 18/8/2022.