JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pelé (I)

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23\10\1940, em Três Corações, MG. Jogador de futebol, foi tri-campeão na Copa Mundial em 1958, 1962 e 1970; maior artilheiro do Santos Futebol Club e teve atuação destacada em duas Copas Libertadores da América e dois campeonatos Mudiais Interclubes. Em 2000, ganhou o prêmio de Melhor Jogador do Século, junto com Maradora. No mesmo ano, foi eleito Atleta do Século pelo COI-Comitê Olímpico Internacional. Em 1995, foi nomeado Ministro do Esporte, no Brasil, e em 2010 foi nomeado presidente honorário do clube New York Cosmos, dos EUA.

O nome “Pelé” surgiu ainda criança, quando pronunciava erroneamente o nome do goleiro Bilé, do Vasco da Gama. Não sabia que o nome “Bilé” significa “milagre” em hebreu e não tem nenhum significado em português. Mas foi o que se deu na vida do garoto que gostava de futebol. Filho de Celeste Arantes e do jogador João Ramos do Nascimento, conhecido como Dondinho. Aos 3 anos, mudou-se para São Paulo, onde viveu em diversas cidades. A primeira foi Bauru, onde levou uma vida modesta e aprendeu a jogar futebol com seu pai.

Iniciou jogando no time “7 de Setembro”, em terra batida e descalço. Daí passou para o “Ameriquinha”, calçando chuteiras pela primeira vez e foi campeão. Aos 13 anos passou a jogar no “Baquinho”, equipe infantojuvenil do Bauru Atlético Clube, onde despontou com brilho entre os colega. Em 1954 seu time enfrentou o campeão infantojuvenil de São Paulo e venceu a partida por 12 a 1, com 5 gols dele, que foi destaque no jornal da cidade. Em 1955 desfizeram o “Baquinho” e criaram o “Radium”, um time de futebol de salão, surgido na época.

Pelé e sua equipe ganharam o primeiro campeonato e os seguintes. Sua superioridade técnica sobre os outros garotos era tamanha que a Liga de Futebol Amador determinou que ele só poderia jogar no gol ou na zaga. Se passasse do meio do campo com a bola, seria falta para o adversário. Mais terde ele admitiu que o futebol de salão, por ser mais rápido ajudou-o a pensar melhor e mais rápido. Além disso a modalidade pemitia-lhe jogar com adultos quando tinha 14 anos. Num dos torneios foi considerado jovem demais para pariticipar, mas jogou e foi artilheiro da competição.

Aos 16 anos recebeu uma proposta do Bangu Futebol Clube, mas sua mãe recusou. Em seguida foi convidado pelo Espote Clube Noroeste e teve a poposta novamente recusada. Waldemar de Brito, técnico do Bangu, sugeriu o Santos Futebol Clube. Sua mãe não queria que ele seguisse a carreira futebolista, mas acabou cedendo e ele foi para Santos, em 1956. Brito apresentou-o como o jovem de 15 anos que seria o maior jogador do mundo. O treinador do Santos – Luis Afonso Pérez – ficou impressionado com o rapaz e providenciou um contrato com o clube, em junho de 1956.

Iniciou na equipe amadora com um salário de 6 mil cruzeiros, que era enviado para sua mãe. A estreia profissional se deu em 7/9/1956 contra o Corinthians de Santo André, onde venceu por 7-1, marcando seu 1º gol na carreira profissional. No torneio Rio-São Paulo de 1957 começou a se destacar em âmbito nacional, onde foi artilheiro. No mesmo ano, o Santos fez um combinado com Vasco da Gama para disputar o Torneio Internacioinal do Morumbi, organizado pelo São Paulo para ajudar na construção do seu estádio. Na 1ª partida contra o time português Belenenses, ele marcou 3 gols, na goleada de 6-1. Neste torneio ele fez 5 gol em 3 partidas. A imprensa vaticinou o “nascimento do futuro craque da Seleção”, chamando a atenção do seu treinador Sylvio Pirilo.

Após o término Torneio, com apenas 10 meses de carreira, foi convocado pela Seleção Brasileira. Na época, seu time de coraçao, o Vasco da gama, tentou contratá-lo por duas vezes, mas não conseguiu. No Campeonato Paulista de 1957, já com a camisa nº 10, foi aritlheiro do ano com 57 gols. No torneio Rio-São Paulo de 1958, sua atuação no jogo contra o América, lhe rendeu a alcunha de “Rei”. Nelson Rodrigues publicou a crônica “A realeza de Pelé”: “Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável — a de se sentir rei, da cabeça aos pés”.

No mesmo campeonato de 1958, foi novamente artilheiro com 58 gols e 80 durante o ano. Seu desempenho despertou o interesse dos italianos para levá-lo para o Inter de Milão. As tratativas não progrediram devido a revolta dos torcedores com sua possível saída do Brasil. Em 1959 o Santos fez uma excursão pela América, visitando 7 países. Foram 14 partidas com 15 gols dele. No ano seguinte a excursão foi pela Europa em 9 países, com 22 jogos. Pelé foi a atração principal com 28 gols. Na goleada sobre o Inter de Milão, foi aplaudido de pé pela torcida adversária.

De volta ao Brasil, o Santos disputou o Campeonato Paulista e marcou 155 gols, recorde que se mantém até hoje com 46 gols de Pelé. Neste campeonato marcou o gol considerado o mais memorável em sua carreira, num jogo comtra o Clube Atlético Juventus. Ao receber um lançamento, aplicou de costas, uma “meia lua” em seu marcador, sem deixar a bola tocar no chão, e na sequência chapelou três adversários, incluindo o goleiro, e fez o gol sem deixar a bola cair. Não havendo imagens de vídeo do jogo, elé pediu que uma animação de computador fosse feita com esta finalidade. 5 décadas depois, uma placa foi colocada no estádio em homenagem ao lance.

(continua no próximo domingo)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lia de Itamaracá

Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu em 12/1/1944 em Pernambuco, na ilha que leva seu nome. Cantora, compositora e dançarina, é considerada a mais célebre cirandeira do Brasil. Ficou conhecida por Lia nos anos 1960, depois que Teca Calazans, incorporando versos cantados pela cirandeira, acrescentou:

“Esta ciranda quem me deu foi Lia,
que mora na Ilha de Itamaracá”

Leva uma vida modesta na Ilha e trabalhou como merendeira em uma escola pública. Canta e dança ciranda desde menina. Gravou seu primeiro disco aos 33 anos, em 1977, sob o título A rainha da ciranda. Conhecida em seu Estado, ganhou projeção nacional a partir da apresentação no festival “Abril Pro Rock”, em 1998 no Recife. A projeção internacional veio com o lançamento do álbum Eu sou Lia, em 2000. Uma resenha publicada no New Iork Times, deu-lhe o título de “Diva da Música Negra”.

O disco foi distribuido, também, na França e no ano seguinte ela foi convidada para fazer uma turné em Paris, onde fez várias apresentações. Pouco antes disso, recebeu o título de “Doutora Honoris Causa” da UFPE-Universidade Federal de Pernambuco, em 2019 e seu álbum “Ciranda sem fim” foi eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros, pela APCA-Associação Paulista de Arte. Seu amigo, o Mestre Capiba, ajudou-a na projeção, quando lhe deu de presente esta canção:

“Minha ciranda não é minha só
é de todos nós
a melodia principal quem guia é a primeira voz
pra se dançar ciranda
juntamos mão com mão
formando uma roda
cantando uma canção…”

Entre 2003 e 2019, participou em pontas ou como personagem em pelo menos seis filmes. Dois deles dirigido por Kleber Mendonça: o curta-metragem Recife Frio (2009) e Bacurau (2019) Foi também personagem principal do curta-metragem documental Formiga Come do Que Carrega (2013), do diretor Tide Gugliano. Fez, também, uma participação especial no premiado longa-metragem Sangue azul (2014), dirigido por Lírio Ferreira.

Nos últimos anos, Lia vem reebendo diversas homenagens. Foi condecorada com a “Ordem do Mérito Cultural”, pelo Ministério da Cultura e recebeu a comenda “Patrimônio Vivo de Pernambuco” do Governo de seu Estado. Em 2020, foi homenageada pelo Bloco Afro Ilú Oba De Min, no carnaval em São Paulo, e o Banco Itaú dedicou-lhe a 55ª edição do programa Ocupação Cultural, realizada em abril-julho de 2022. É uma das poucas negras brasileiras que recebeu o Certificado de Ancestralidade da “African Ancestry Inc., através do estudo de DNA, como descendente do Povo Djola da Guiné-Bissau, em 2015.

Foi considerada uma das 100 personalidades negras influentes da lusofonia, integrando a 100 Power List, iniciativa da revista digital “Bantumen”. Em 2023. No mesmo ano fez uma apresentação no Festival de Música Mundial Horizonte, em Koblenz, Alemanha. No carnaval de 2024, foi homenageada como enredo por duas escolas de samba: no Rio de Janeiro pelo Império da Tijuca e em São Paulo pela Nenê de Vila Matilde. Atualmente Lia canta e não sei se ainda dança, mas comanda o Centro Cultural Estrela de Lia, em Itamaracá.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Prestes

Luís Carlos Prestes nasceu em 3\1\1898, em Porto Alegre, RS. Engenheiro militar, político e secretário-geral do PCB-Partido Comunista Brasileiro no período 1943-1980. Foi apontado como um dos políticos mais influentes do País durante o século XX e ficou conhecido por liderar a “Coluna Prestes” na década de 1920.

Filho de Maria Leocádia Felizardo Prestes e Antonio Pereira Prestes, capitão do Exército. Aos 6 anos, a famíia mudou-se para o Rio de Janeiro e 4 anos depois perdeu o pai. A mãe, professora, tratou de alfabetizar o garoto em casa. Ingressou no Colégio Militar aos 11 anos, visando cursar a 2ª série. Aos 18 anos ingressou na Escola Militar do Realengo, formando-se oficial da Arma de Engenharia, em 1920, aos 22 anos.

Por esta época passou a se interessar pela política, junto com seus companheiros de turma: Juarez Távora, Siqueira Campos, Eduardo Gomes e Cordeiro de Farias entre outros. Na condição de tenente, foi engenheiro na 1ª Companhia Ferroviária de Deodoro. Mas como seu chefe estudava medicina e pouco comparecia no trabalho, era ele quem de fato comandava. Em 1921 pediu demissão e assumiu o cargo de instrutor na Escola Militar, onde permaneceu por apenas um ano. Participou do Movimento Tenentista, uma revolta de jovens oficiais contra a República Velha, de combate a corrupção, o coronelismo e o voto de cabresto. O Tenentismo estendeu-se de 1922 a 1927 e teve Prestes como um dos seus líderes dando origem à “Coluna Prestes”, em 1925.

Trata-se de um contingente rebelde com 1.500 homens, que percorreu 25 mil km. do Pais em 13 estados por mais de 2 anos. Por essa época sua liderança no movimento lhe garantiu a alcunha de “Cavaleiro da Esperança”. Em 1928 passou um período na Bolívia estudando marxismo e travou contato com os comunistas argentinos Rodolpho Ghioldi e Abraham Guralski, dirigente da Internacional Comunista. Pouco depois foi convidado ao comando militar da Revolução de 1930, ao lado de Getúlio Vargas, mas não aceitou. Para ele, tal “revolução” era apenas uma disputa de oligarquias e sua proposta incluia a organização e participação do povo na conquista de um novo modelo econômico. Escreveu um manifesto expondo seus ideais e divulgou no âmbito nacional.

Em 1931, foi convidado para conhecer a União Soviética e lá passou um período trabalhando como engenheiro e se aprofundando nos estudos marxistas-leninistas. Por pressão do Partido Comunista da União Soviética, o PCB-Partido Comunista Brasileiro o aceitou como filiado em agosto de 1934.

Em seguida, foi eleito membro da comissão executiva da IC-Internacional Comunista. Em dezembro de 1934, voltou ao Brasil como clandestino, acompanhado pela alemã Olga Benário, também membro da IC. No ano seguinte foi criada a ALN-Aliança Libertadora Nacional, uma frente de esquerda reunindo comunistas, alguns tenentes, operários intelectuais, tendo Prestes como presidente de honra.

Sua liderança possibilitou uma articulação visando a derrubada do Governo Vargas, em 1935. Ocorreram algumas insurreições em Natal e Recife, chegando ao Rio de Janeiro e outras capitais. O movimento foi apoiado logistica e financeiramente pela União Soviética, através do Secretariado Latino-Americano, sediado em Montevidéu. No entanto, os levantes foram derrotados pela violenta repressão do Governo Vargas sob o comando de Filinto Muller, chefe da polícia política. O Levante de 1935 ficou pejorativmente conhecido pelos militares como “Intentona Comunista”. Prestes perdeu a patente de capitão, foi preso por 9 anos e foi anistiado por Vargas, em 1945, em troca de apoio político.

As relações entre Vargas e Prestes foram marcadas por uma grande rivalidade, traumas pessoais e pitadas de interesses políticos. Enquanto Prestes estava na cadeia, Vargas decretou a deportação de sua esposa Olga Benário para a Alemanha, sabendo que ela iria para um campo de concentração nazista, onde foi morta. Enquanto estava presa, nasceu sua filha Anita Leocádia Prestes, que foi resgatada pela mãe de Prestes, após intensa campanha internaciona. Após a anistia, em 1945, foi eleito deputado federal, mas renunciou para assumir a vaga de senador no período 1946-1948. Na Assembleia Constituinte de 1946, foi líder da bancada comunista de 14 deputados, incluindo Jorge Amado, Carlos Mariguela e João Amazonas.

Em 1950 casou-se com Altamira Rodrigues Sobral, que passou a se chamar Maria Prestes, tiveram 7 filhos e viveram juntos por 40 anos. Em 1958 foi preso mais uma vez, porém teve a prisao revogada por mandato judicial. Após o Golpe Militar de 1964, teve os direitos políticos revogados por 10 anos, foi perseguido pelo governo e fugiu para a União soviética em fins dos anos 1960 e regressou ao Brasil após a anisitia em 1979. No ano seguinte publicou uma Carta aos Comunistas, comunicando seu rompimento com o PCB. Durante toda a vida, lutou para a contrução de um partido comunista efetivamente revolucionário.

Na década de 1980 foi assediado por grupos e personalidades de esquerda para que liderasse um novo partido revolucionário, que para ele só poderia surgir das lutas do povo. Apoiou seu conterrâneo Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro, em 1982 e à Presidência da República, em 1989. Por este gesto recebeu o título de presidente de honra do PDT-Partido Trabalhista Brfasileiro, cargo que manteve até sua morte em 7/3/1990.

Ao longo da história, tem sido retratado no cinema, na televisão e na literatura, Nos filmes O país dos tenentes (1987), de João Batista de Andrade; Olga, baseado no romance homônimo de Fernando Morais; na novela Kananga do Japão (1989). Em 1997, foram lançados os documentários Prestes, O Cavaleiro da Esperança e O Velho – A história de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança e no ano seguinte, centenário de seu nascimento, a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio prestou-lhe homenageou no carnaval com o enredo “Cavaleiro da Esperança”. Em Santo Ângelo é mantido o Memorial Coluna Pretes, um museu contendo a memória da marcha e pertences de seu protagonista. Em termos biográficos, temos a biografia romanceada de Jorge Amado O Cavaleiro da Esperança (1944); os livros de sua filha Anita Lecádia Prestes Luiz Carlos Prestes – O combate por um partido revolucionário, 1958-1990 (2012) e Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro (2016); Daniel Aarão Reis Um revolucionário entre dois mundos (2014) e Boris Koval Vida e luta do Cavaleiro da Esperança (2005).

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AS BRASILEIRAS: Marquesa de Santos

Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em São Paulo, SP, em 27/12/1797. Viscondessa e mais conhecida como Marquesa de Santos, Integrou a nobreza na época do Brasil colonial e tornou-se célebre pela longa e influente relação mantida com o imperador Dom Pedro I.

Filha de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas e João de Castro Canto e Melo, 1º Visconde de Castro, descendente de nobres famílias da elite paulista. Casou-se, em 1813, aos 15 anos com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, descrito como violento e jogador compulsivo, que agredia a esposa, até fisicamente. Após o casamento, mudaram-se para Vila Rica, onde nasceram os 3 primeiros filhos.

Devido a vida conturbada do casal, ela voltou à casa dos pais em São Paulo, em 1816. Tentaram uma reconciliação em 1818, mas as agressões do marido se intensificaram. Em 6/3/1819 chegou a atacá-la com 2 facadas. Ele foi preso e ela passou a batalhar pela separação. O divórcio só foi concedido em 21/5/1824, quando ela já era amante do imperador. O longo processo decorrido acusava-a de adultério para justificar a violência. No entanto testemunhas e provas mostravam que o marido tentara assassiná-la para se apossar das terras herdadas em Minas Gerais.

Conheceu D. Pedro em 29/8/1822, pouco antes da Proclamação da Independência do Brasil, e já no ano seguinte o Imperador instalou-a numa casa no Rio de Janeiro. Em 1826 ganhou um presente do imperador: a famosa “Casa Amarela”, uma luxuosa mansão próxima à residência oficial do Imperador, na Quinta da Boa Vista. Em seguida concedeu-lhe títulos e honrarias: Viscondessa em 1825 e Marquesa em 1826. A escolha “de Santos” foi uma provocação aos irmãos Andrada, seus inimigos políticos, naturais de Santos. Exilado na França, José Bonifácio reagiu; “Quem sonharia que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas! Que insulto desmiolado!”.

A relação longa e notória com D. Pedro durou cerca de 7 anos, embora ele mantivesse outros casos, incluindo a irmã de Domitila, Maria Benedita. A presença de Domitila na corte causou profunda humilhação à Imperatriz. A nomeação da amante como dama de companhia foi o ápice do escândalo, obrigando a imperatriz a conviver oficialmente com a rival. A morte de Leopoldina, em dezembro de 1826, gerou uma crise política e acusações de que uma suposta agressão física de D. Pedro teriam precipitado sua morte. Porém, relatos médicos indicaram uma infecção puerperal como causa mortis. Mais de 180 cartas trocadas revelam a profundidade e a complexidade da relação, da qual nasceram 5 filhos, mas apenas 2 chegaram à fase adulta.

O relacionamento terminou em 1829 e D. Pedro foi pressionado a contrair novo matrimônio para garantir a sucessão e restaurar sua imagem na Europa. Foi negociado o casamento com a princesa Amélia de Leuchtenberg e a família da noiva e as cortes europeias, horrorizadas com o escândalo da amante, impuseram como condição o afastamento definitivo de Domitila da corte. D. Pedro se convencera de que sua presença no Rio de Janeiro era inoportuna e que sua mudança para São Paulo era essencial. Assim, Domitila retornou à sua província natal, encerrando um capítulo intenso e controverso de sua vida, bem como do império brasileiro.

Sua presença na corte marcou profundamente o 1º Reinado, influenciando a política e a vida da família imperial. Em São Paulo, adquiriu um grande casarão no centro histórico da cidade, hoje conhecido como “Solar da Marquesa de Santos”, tornando-se ponto de encontro da elite paulistana, palco de saraus e bailes. Em 1842 se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos políticos mais influentes da província, tornando-se uma poderosa, matriarca, respeitada por suas atividades filantrópicas e sua forte personalidade. Sua figura histórica, complexa e controversa, foi objeto de intensa disputa memorialística. Foi retratada ao longo do tempo como uma vilã ambiciosa, uma heroína romântica e, também, como uma mulher que desafiou as convenções sociais e exerceu notável desempenho sobre sua própria vida.

Após a morte do marido, em 1857, se tronou uma figura respeitada, dedicando-se a obras de caridade e auxiliando estudantes da Faculdade de Direito. Segundo o biógrafo Paulo Rezzutti, ao contrário do que a historiografia tradicional sugeria, Domitila nunca foi uma “pobre coitada”, mas sim uma hábil administradora de sua fortuna e uma mulher consciente de seu poder, como demonstra uma carta a um genro: “Eu sendo mulher lembro-me do futuro”. Faleceu em 3\11\1867 e seu túmulo tornou-se local de peregrinação. Domitila transformou-se numa espécie de “santa popular”, invocada por prostitutas (por ter sido estigmatizada em vida) e por mulheres que buscam um bom casamento, inspiradas em sua capacidade de se reerguer e formar uma nova família de prestígio após o escândalo com o imperador.

Sua biobibliografia é vasta com destaque para o livro de Mary del Priore A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos, publicado pela editora Rocco, em 2012 e o livro de Paulo Rezzutti A verdadeira história da Marquesa de Santos, publicado pela Geração Editorial, em 2013, reeditado como A história não contada pela editora Leya, em 2019 e 2023.

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OS BRASILEIROS: Cartola (II)

Continuação da coluna anterior

No início da década de 1960, Cartola foi zelador da Associação das Escolas de Samba, no centro do Rio de Janeiro, que se tornou ponto de encontro de sambistas. Além das rodas de samba, Dona Zica passou a servir uma sopa aos participantes. Estimulado por amigos, resolveram aplicar a fórmula música-comida em um sobrado da rua da Carioca, em 1963 e deram o nome Zicartola. A iniciativa contou com apoio financeiro de empreendedores considerados “mangueirenses de coração”, como o empresário Renato Agostini.

O Zicartola se tornou um marco na história da MPB. Além da boa cozinha comandada por Dona Zica, Cartola era mestre de cerimônias, propiciando o encontro entre sambistas do morro, compositores e músicos de classe média ligados à Bossa Nova, além de poetas-letristas, como Hermínio Bello de Carvalho e jornalistas musicais, como Sérgio Cabral. Velhos sambistas, como Nelson Cavaquinho e Zé Kéti, se juntavam a novos talentos, como Élton Medeiros e Paulinho da Viola. Contava também com presença constante de alguns dos melhores representantes do samba de morro e diferentes gerações de cantoras, como Elizeth Cardoso e Nara Leão.

Naquele ambiente, compôs com Elton Medeiros o samba O Sol Nascerá, que se tornaria um de seus grandes clássicos. Compôs também Alvorada um samba feito a seis mãos. Compusera com Carlos Cachaça a primeira parte, que decidiram mostrar a Hermínio Bello de Carvalho, que escreveu então os versos da segunda parte, que ele musicou na hora. O ambiente virou moda no Rio de Janeiro, inaugurando um gênero de casa noturna que viria a se propagar nas décadas seguintes. No entanto, o bar durou pouco e, mal administrado, fechou as portas após dois anos, seu dono não tinha tino comercial.

Em 1964, Cartola e Zica se casaram oficialmente e na véspera ele compôs Nós Dois para ela. No ano seguinte foi lançado o disco-álbum com as gravações do “Show Opinião”, incluindo O Sol nascerá. Esta gravação tornou Cartola conhecido pelo público classe média da época, projetando-o no mercado do disco. Em 1965 iniciou a construção de uma casa (verde e rosa) ao pé do morro da Mangueira, em terreno doado pelo então Estado da Guanabara. Em seguida participou de dois discos de Elizeth Cardoso, que gravou “Sim”. Em 1966 gravou com Clementina de Jesus Fiz por você o que pude.

Em 1968 participou em duas faixas do LP “Fala, Mangueira”, que reuniu, além dele, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus e Odete Amaral. No mesmo ano gravou com Odete Amaral Tempos Idos e com Ciro Monteiro gravou Tive Sim. Em 1970 protagonizou uma série de apresentações promovidas pela UNE-União Nacional dos Estudantes, intituladas Cartola Convida, recebendo grandes nomes do samba. Naquele ano, a Editora Abril Cultural lançou um volume dedicado à sua obra na série História da música popular brasileira, onde interpretou Preconceito. Em 1972 Paulinho da Viola gravou Acontece e Clara Nunes gravou Alvorada. Em 1973, Elza Soares gravou Festa da Vinda.

A consagração definitiva se deu em 1974, quando finalmente gravou seu primeiro disco solo lançado pelo produtor de discos e publicitário Marcus Pereira. O disco foi considerado um dos melhores daquele ano, e reuniu uma coleção de obras-primas e uma equipe de instrumentistas de primeira. Pouco depois a mesma gravadora lançou o LP História das escolas de samba: Mangueira, no qual interpretou algumas faixas. Animado com o sucesso do primeiro LP, Marcus Pereira lançou o segundo LP, intitulado Cartola (1976). O sucesso do álbum foi puxado por uma de suas mais famosas criações, As Rosas Não Falam. O lançamento elevou-o a um patamar de qualidade musical inédito, que se estendeu por meses em todo o País.

Em meio ao grande sucesso, voltou a desfilar pela Mangueira, após 28 anos de ausência no desfile de carnaval. Em 1977, a Rede Globo apresentou o programa Brasil Especial, dedicado exclusivamente a Cartola, obtendo grande audiência. No mesmo ano excursionou pelas principais cidades brasileiras e gravou seu terceiro disco solo: Verde que te quero rosa, com igual sucesso de público e crítica. Em 1978, em busca de mais sossego, mudou-se para o bairro Jacarepaguá e foi morar numa casa, sua primeira casa própria. Frente a sua porta fizeram uma praça batizada de ’As rosas não falam’.

No mesmo ano estreou seu segundo show individual “Acontece” e em novembro, no septuagésimo aniversário, recebeu uma grande homenagem na quadra da Mangueira. Por essa época participou de um programa na Rádio Eldorado, cantando e contando um pouco de sua vida. Depois a entrevista foi lançada em LP com o nome “Cartola – Documento inédito”. A saúde não ia bem, sofria de um câncer na tireoide e foi operado naquele ano. Enquanto isso pipocavam diversas gravações de sua autoria na voz de grandes intérpretes. Em dezembro de 1978 deu-se sua apresentação no Ópera Cabaré, em São Paulo, gravado ao vivo e lançado em disco. Foi sua última apresentação. A doença progrediu e veio a falecer em 30/11/1980. Na semana anterior, fez um pedido: “Quando for enterrado, quero que Waldemiro toque o bumbo” 3 dias antes, o poeta Carlos Drummond de Andrade ao saber que ele estava doente, prestou-lhe homenagem numa crônica: “Cartola no moinho do mundo” (‘Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando’).

As diversas homenagens que vieram em seguida, confirmam seu nome como um dos maiores da MPB. Em 1982 foi lançado o disco “Ao Vivo” e a Funarte lançou o LP ”Cartola, entre amigos”. Em 1984, em comemoração ao octogésimo aniversário de nascimento, a gravadora Som Livre lançou o LP “Cartola – Bate outra vez”, reunindo a nata da MPB. em 1998, Artur Oliveira e Marília Trindade Barboza publicaram a biografia Cartola, os tempos idos, pela Editora Griphus. Em 2001, a RCA relançou em CD o disco “Verde que te quero Verde” e foi fundado o Centro Cultural Cartola.

Em 2004, estreou no Centro Cultural Banco do Brasil, o musical “Obrigado Cartola”, de Sandra Louzada; em 2007 foi lançado o filme “Cartola – Música para os olhos“, dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda; em 2008, ano de seu centenário, foi homenageado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti com o enredo “Cartola, o teu cenário é uma beleza”. O selo Biscoito Fino aproveitou a ocasião para gravar o disco “Viva Cartola – 100 anos”; no Carnaval de 2022 foi homenageado pela Mangueira em seu enredo.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Cartola

Angenor de Oliveira, nasceu em 11/10/1908, no Rio de Janeiro-RJ. Compositor, poeta, violonista e cantor de músicas clássicas da MPB. Compôs As rosas não falam, O mundo é um moinho, Acontece, O sol nascerá entre outras e participou da fundação da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Filho de Aída Gomes de Oliveira e Sebastião Joaquim de Oliveira, seu nome era Agenor, mas foi registrado Angenor, fato descoberto anos depois quando foi se casar com Dona Zica, em 1960. Nasceu no bairro do Catete e aos 8 anos a família mudou-se para o bairro das Laranjeiras, onde teve contatos com o samba e aprendeu a tocar violão com seu pai. A família de 8 filhos passou por uns perrengues financeiros e teve que mudar, em 1919, para a nascente favela no Morro da Mangueira, onde fez amizade com Carlos Cachaça, que além de amigo por toda a vida, tornou-se parceiro em alguns sambas. Nesta época conheceu outros apreciadores do samba, da boemia e, digamos, da malandragem. Após o falecimento da mãe, terminou o curso primário e foi trabalhar como servente de pedreiro. Para se proteger do cimento e cal caindo na cabeça, passou a usar um chapéu-coco e com isso ganhou dos colegas o apelido “Cartola”.

Aos 17 anos, ainda novato na vida boêmia, teve alguns conflitos com o pai e foi expulso de casa. Passou um tempo levando a vida de vadio, bebendo, perambulando na noite e dormindo em trens do subúrbio. Tal vida levou-o à doença e ficar acamado num barraco. Uma vizinha -Deolinda- casada e com uma filhinha ficou com pena dele e passou a cuidar e gostar daquele rapaz de 18 anos. Acabaram se envolvendo e decidiram viver juntos. Ela deixou o marido, levando a filha, que Cartola passou a criar como sua. Enquanto isso o ofício de compositor e violonista se afirmava nos bares e pontos locais ao lado do amigo Carlos Cachaça. Junto com outros amigos, formaram uma turma de brigões e arruaceiros e criaram um bloco carnavalesco, denominado justamente de “Bloco dos Arengueiros”, em 1925. Não havia intenção alguma de se criar uma escola de samba, mas foi o que se deu.

O bloco fundiu-se com outros e deu origem a agremiação Estação Primeira de Mangueira, criada em 28/4/1928. Cartola foi um dos 7 fundadores e diretor de harmonia, em que permaneceu até 1930. O nome da escola de samba foi escolhido devido ao fato de ficar no Morro da Mangueira a primeira estação de trem partindo da Central do Brasil. Ele compôs o primeiro samba – Chega de demanda – escolhido para o desfile. A partir daí começou a ficar mais conhecido e passou a vender alguns sambas para cantores famosos.

Pouco depois foi procurado por Mário Reis, através de Clóvis Miguelão, que foi até o morro comprar uma música. A música – Que infeliz sorte – não se adaptou à voz de Mário Reis e acabou sendo lançada por Francisco Alves, o maior ídolo da música na época. Muitos outros sambas foram vendidos ao cantor e serviu para projetar o compositor. Ele cedia apenas os direitos sobre a vendagem de discos e conservava a autoria, o que ajudou bastante expandir seu nome no mercado de discos.

Em 1932, Francisco Alves e Mário Reis gravaram outro samba seu: Perdão, meu bem. Nesta época conheceu e manteve parceria com Noel Rosa, resultando no samba Tenho Um Novo Amor, interpretado por Carmen Miranda. No mesmo ano a Mangueir foi campeã do desfile promovido pelo jornal O Mundo Esportivo, com a música Pudesse Meu Ideal, sua primeira parceria com Carlos Cachaça. No ano seguinte viu pela primeira vez um samba seu se tornar sucesso comercial: Divina Dama, na voz de Francisco Alves. A partir dai, passou a compor exclusivamente para a sua escola no morro e ficou por um tempo fora do círculo artístico e de produção discográfica.

Em 1935 a Mangueira foi premiada de novo com um samba seu: Não quero mais, em parceria com Carlos Cachaça e Zé da Zilda, gravado em 1936, por Araci de Almeida e regravado, em 1973, por Paulinho da Viola, com o título alterado para Não Quero mais amar a ninguém. Em 1940, dá-se novo impulso na carreira. Foi convidado pelo maestro Heitor Villa-Lobos, seu fã, para formar um grupo de sambistas com Donga, Pixinguinha, João da Baiana, entre outros, para fazer algumas gravações de MPB para o maestro norte-americano Leopold Stokowski, acompanhado da Orquestra Sinfônica da Juventude Americana, que percorria a América Latina recolhendo músicas nativas. Dos sambas gravados por ele Quem me vê sorrindo saiu em um dos quatro discos de 78 rpm, lançados comercialmente apenas nos Estados Unidos pela gravadora Columbia.

Em seguida atuou como cantor na rádio e ainda em 1940 criou, junto com Paulo da Portela, o programa A Voz do Morro na Rádio Cruzeiro do Sul, apresentando inéditos. Em 1941 formou, junto com Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres, o Conjunto Carioca, que durante um mês realizou apresentações em um programa da Rádio Cosmos, em São Paulo. Nos anos seguintes, teve pouca participação no cenário musical. Apareceu como corista da gravação de alguns cantores na Colúmbia e chegou a se apresentar com um grupo de morro no Cassino Atlântico.

Para agravar a situação, contraiu meningite, ficando breve período andando de muleta. Foi cuidado por Deolinda, mas pouco depois ela faleceu e ele desapareceu durante uns 7 anos. Fora do ambiente musical, muitos pensavam até que tinha morrido. Chegou-se a compor sambas em sua homenagem. Passou um período difícil em sua vida. Sem mais a atenção de Deolinda e o prestígio no morro da Mangueira, vivia numa favela no bairro do Caju, com uma mulher chamada Donária. Conseguiu trabalhos modestos, como o de lavador de carros e vigia de edifícios.

Seu destino foi alterado com a entrada em cena de uma nova -e definitiva- mulher em sua vida. Quando Eusébia Silva do Nascimento, a dona Zica, o encontrou, ele estava entregue à bebida, desdentado e sobrevivendo de biscates. Apesar disso, Zica, uma antiga admiradora, se apaixonou por ele, e o levou de volta ao morro da Mangueira, indo morar numa casa na subida do morro, perto da quadra da escola de samba. Em 1957 trabalhava como vigia e lavador dos carros dos moradores de um edifício em Ipanema. Certo dia foi identificado pelo jornalista Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta), sobrinho do crítico musical Lúcio Rangel, que havia dado ao sambista, anos antes, o apelido de Divino Cartola.

Ao vê-lo magro e maltrapilho, Stanislaw decidiu ajudá-lo, começando por divulgar a redescoberta. Àquela altura, Cartola era dado como desaparecido ou mesmo morto por muitos de seus conhecidos e admiradores. O reencontro com o jornalista foi definitivo para a retomada de sua carreira como músico e compositor. A promoção rendeu algumas apresentações na Rádio Mayrink Veiga e em restaurantes, além de matérias em jornais e revistas. Sérgio também arranjou para o sambista, por meio do cronista e pesquisador Jota Efegê, um emprego de contínuo no jornal Diário Carioca em 1958. No mesmo ano foram gravados seus sambas Grande Deus e Festa da Penha, respectivamente por Jamelão e Ari Cordovil. Em 1960 Nuno Veloso gravou Vale do São Francisco, um em sambem parceria com Carlos Cachaça.

(continua no próximo domingo)

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AS BRASILEIRAS: Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cruz Cesar nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 2/6/1952. Poeta, crítica literária, professora e tradutora, considerada um dos principais nomes da “geração mimeógrafo”, movimento literário da poesia marginal na década de 1970, pela valorização do cotidiano, da liberdade estética e da resistência política.

Filha de Maria Luiza Cesar e Waldo Aranha Cesar, fundador da editora Paz Terra. Foi licenciada em Letras pela PUC-RJ-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1975; cursou o mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro, cuja dissertação resultou na publicação do livro Literatura não é documento, publicado em 1980, Uma de suas professoras, Heloisa Buarque de Holanda, incluiu-a em sua antologia 26 Poetas hoje, seleção de talentosos representantes daquela geração.

Foi uma poeta precoce. Aos 6 anos ditava poemas para sua mãe e chegou a escrever um poema com 5 estrofes, que foi publicado no boletim escolar dirigido aos professores do Colégio Bennetti. Deu-lhe o título “Uma poesia de criança”. Em seguida seu talento precoce foi reconhecido pela escritora Lúcia Benedett, que em 1959 publicou o artigo “Poetisas de vestidos curtos” na Tribuna da Imprensa, afirmando: “Ao entregar ao público os versos de Ana Cristina, sinto a mesma natural reação de alguém que vê nascer uma flor num canteiro cultivado. Ana Cristina começou a fazer poemas antes de saber ler e escrever. O mecanismo de escrita ainda não está para ela suficientemente adestrado para correr em socorro de sua inspiração poética”.

Em 1960, manifestou o gosto pela escrita, comprovado no bilhete destinado ao Papai Noel. No bilhete ela pede: “três cadernetas e um bloco grande com pauta”, e continua: “Papai Noel, em todos os meus presentes quero um cartão escrito com a letra do Sr., hein?”. Em 1969 viveu durante um ano na Inglaterra através de intercâmbio escolar e, ao retornar passou a escrever e publicar em revistas e jornais alternativos e seguiu publicando edições independentes. Mais tarde voltou à Inglaterra para fazer um mestrado em tradução e lá escreveu o livro de poemas Luvas de pelica.

Enquanto isso, colaborava com críticas jornalísticas em revistas e revistas brasileiras e internacionais. Sua obra apresenta uma linha fina entre o ficcional e o autobiográfico através de um estilo informal e aparente improviso. Perguntada se sua poesia era racional: “É muito construída, muito penosa”. Segundo o prof. Michel Riaudel, da Universidade Sorbonne e autor do e-book A nebulosa marginal e Ana Cristina Cesar, “ela brinca com as expectativas do seu tempo e simula intimidade, mas mina a linearidade narrativa com cortes, colagens e jogos de palavras. Utilizando uma linguagem com expressões e falas cotidianas, cria textos densos e reflexivos”. Foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty, em 1970.

Sua morte prematura aos 31 anos com o suicídio, contribuiu para alimentar o mistério sobre sua vida. Publicou apenas um livro de poesias distribuído no circuito comercial, em 1982: A teus pés. O poeta Armando Freitas Filho, seu amigo e apresentador da obra, caracteriza sua obra poética com “um tom coloquial, a experiência imediata e cotidiana, captada através de uma escrita sem aura, instantânea, longe das dicções solenes, sisudas e premeditadas da literatura em geral e das vanguardas estabelecidas e dogmáticas”.

Seu interesse pela palavra ficou registrado nos livros publicados e em muitos dos cadernos que estão em seu arquivo aos cuidados do IMS-Instituto Moreira Salles. São estudos, resenhas, poemas, rasuras e mais poemas. Num deles, que data de 1961, aos 9 anos ela já se considerando “autora”, deixa o aviso ao leitor: “Poesias – Só leia se estiver com o coração puro e doce”. Ler com o coração: pressuposto requerido para entender o ritmo ora denso, ora fluido em sua literatura

A poeta precoce faleceu em 29/10/1983, aos 31 anos, Segundo Elizama Almeida, da Coordenadoria de Literatura do IMS, “Se julgamos prematura sua morte, vemos por outro lado que seu início na vida literária, felizmente, também o foi. Com incrível desenvoltura revelada não só nos livros publicados até aquele ano como nos inéditos post-mortem, a autora de A teus pés ainda hoje nos deixa na mesma suspensão em que ficou antes de ir, por vontade própria, ao encontro da “Dama branca”, que, como escreveu Manuel Bandeira, lhe sorriu em todos os desenganos”

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OS BRASILEIROS: Naná Vasconcelos

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu no Recife, em 2/8/1944. Músico considerado uma autoridade mundial em percussão, recebeu o Prêmio Grammy oito vezes e foi eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo, pela revista americana “Dow Beat”, a mais prestigiada publicação sobre jazz.

Filho de Pierre de Holanda Vasconcelos, também músico de quem ganhou, aos 11 anos, seu primeiro instrumento musical: um bangô. Aos 12 anos já acompanhava o conjunto do pai e tocava nos bailes do clube carnavalesco do Recife “Batutas de São José”, onde aprendeu a tocar em grupo.

Ainda jovem, foi percussionista da Banda Municipal do Recife, tocou maracas nos frevos de Nelson Ferreira e acompanhou o cantor cubano Bienvenido Granda nos estúdios da gravadora Rozenblit. Na época, a percussão se restringia aos pandeiros, tambores, tumbadores, maracas e bangôs. Em 1966 passou a se interessar pelo berimbau e explorou todas as potencialidades do instrumento. Uma de suas influências foi o rockeiro Jimi Hendrix, que ao explorar todos os recursos musicais da guitarra, lhe abriu as portas para as ilimitadas possibilidades do berimbau.

Passou a tocar vários ritmos transportando a técnica usada na bateria para o berimbau, que era, até então, usado apenas na capoeira. Segundo o pesquisador Ben-Hur Demeneck, ele “conseguiu fazer do berimbau um instrumento solista, tanto em grupos de jazz quanto em orquestras eruditas. A sua trajetória musical pode encher páginas com as ocorrências nominais de suas conquistas globais. No entanto, para comentar sua musicalidade, nenhuma delas compete com a perturbadora capacidade de arrancar o público de sua realidade mais imediata e de atarantar os críticos com sua variedade de timbres”.

Em 1967 ganhou uma passagem de ônibus do Mestre Capiba e foi para o Rio de Janeiro se aventurar na carreira de músico. Embora tocasse todos os instrumentos de percussão, na década de 1960 especializou-se no berimbau e tornou-se o percussionista preferido pela maioria das estrelas da MPB e do Rock “Udigrudi” da época. Gravou com Milton Nascimento, Gal Costa, Jards Macalé, Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Luiz Eça, Mutantes, Som Imaginário etc.

No ano seguinte, viajou para São Paulo e juntou-se ao Quarteto Novo acompanhando Geraldo Vandré. A crítica assinalou que “ele foi um grande valorizador da cultura negra, da percussão brasileira, da dança e de todas as influências afro-brasileira. Autodidata, declarou: “Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra.” Sua discografia conta com mais de 25 discos e tocou junto com os grandes astros da música internacional, tais como Gato Barbieri, Don Cherry, Pierre Favre, Pet Metheny, Jim Pepper, Gery Thomas, Talking Heads, Ginger Baker, Paul Simon, B.B. King e Herb Albert entre outros.

Além dos diversos prêmios, recebeu diversas honrarias: 62ª posição na lista dos 100 Maiores Artistas da Música Brasileira pela revista Rolling Stone Brasil, em 2008; Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, no grau Grã-Cruz, em 2013; Título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, em 2015. Em julho de 2015, foi diagnosticado com um câncer de pulmão e manteve-se em atividade: “Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra”. Faleceu em 9/3/2016, aos 71 anos.

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OS BRASILEIROS: Liêdo Maranhão

Liêdo Maranhão de Souza nasceu no Recife, PE, em 3/7/1925. Dentista, folclorista, escritor, escultor, cineasta, fotógrafo e pesquisador da cultura popular. Segundo Ariano Suassuna, “é um dos maiores conhecedores da literatura de cordel do Brasil”.

Teve os primeiros estudos em colégios do Recife e formou-se pela Faculdade de Medicina, Odontologia e Farmácia do Recife, em fins da década de 1940. Logo após a formatura, na condição de carnavalesco “juramentado”, fundou junto com seu irmão a Escola de Samba Estudantes de São José, o bairro onde nasceu e passou toda sua juventude. Frequentava diariamente o Mercado de São José, ponto de encontro com os tipos que se tornaram os protagonistas de seus livros. Sua intimidade com o Mercado resultou no livro O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste: homenagem ao centenário do Mercado de São José 1875-1975, publicado em 1977 pela Prefeitura do Recife.

Segundo Mark J. Curran, chefe do Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade do Arizona, EUA, “é um monumento sobre a cultura popular do Nordeste”. Para Raymond Cartel, diretor do Centro de Pesquisa Luso-Brasileira da Universidade de Sorbonne, em Paris, “é a maior autoridade das ruas do Recife”. No início da década de 1960, viajou para a Europa, onde passou 3 anos e conheceu 11 países. Fez estágio como dentista no Hospital de La Pitié, em Paris. Com o auxílio de uma bolsa de estudos, estagiou no Hospital Provincial de Madrid. Após muitas viagens de carona, lavar pratos em restaurantes, carregar e descarregar caminhões, tocar pandeiro e trabalhar em teatros, casou-se com a espanhola Bernarda Ruiz e retornou ao Brasil, indo morar em Olinda.

Em 1964, passou a fazer esculturas em madeira, sendo premiado no Salão de Arte do Estado de Pernambuco. Participou do “Atelier + 10”, em Olinda ao lado de artistas plásticos como João Câmara e Vicente do Rego Monteiro. Por essa época ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro e foi Secretário de Finanças do Diretório Municipal. Participou do Movimento de Cultura Popular do Recife no primeiro mandato do governo Miguel Arraes. A partir de 1967, iniciou uma viagem pelo interior do estado em busca de folhetos de cordel para uma pesquisa sobre os cangaceiros. Queria saber como é o cangaço visto pelo povo.

Apaixonou-se pela literatura de cordel e fez um documentário em 16 mm registrando os folhetos na década de 1970, intitulado O folheto. Mais tarde publicou O folheto popular: sua capa e seus ilustradores, publicado pela Editora Massangana, em 1981. Como conhecedor da poesia popular, colaborou com artigos na Revista Equipe, dos servidores da SUDENE, e do Jornal Universitário, da UFPE. Como escultor, foi premiado no XXX Salão Oficial de Arte do Museu do Estado de Pernambuco. Ao longo da vida, tornou-se um colecionador da cultura popular, incluindo objetos e documentos raros, como os livros sobre medicina popular e culinária nordestina, além de folhetos de cordel.

Sua casa, em Olinda, tornou-se um museu folclórico, transformada hoje em “Casa da Memória Popular”, contendo mais de 2 mil fotos e cerca de 10 mil itens dispostos à visitação pública. Na condição de memorialista, deixou publicado alguns livros indispensáveis ao conhecimento da cultura nordestina: Classificação popular da Literatura de cordel (Editora Vozes, 1976), O povo, o sexo e a miséria ou o homem é sacana (Ed. Guararapes, 1980), Conselhos, comidas e remédios para levantar as forças do homem (Ed. Bagaço, 1982), Cozinha de pobre (Ed. Bagaço, 1992), Marketing dos camelôs do Recife (Ed. Bagaço, 1996), A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido (Edição do autor, 2004), Rolando papo de sexo: memórias de um sacanólogo (Ed. Livro Rápido, 2005).

Após seu falecimento, em 2014, a Prefeitura do Recife perpetuou sua presença com uma estátua de bronze em tamanho natural na praça do Mercado, seu ponto de encontro com a cultura pernambucana e com os recifenses.

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AS BRASILEIRAS: Ana Aurora

Ana Aurora do Amaral Lisboa nasceu em 24/9/1860 em Rio Pardo, RS. Professora, escritora, poeta, dramaturga, jornalista, e ativista política. Foi precursora do ensino supletivo para adultos e pioneira do movimento feminista com destacada atuação política em fins do século XIX e princípios do século XX. Junto com a irmã Zamira, fundou o Colégio Amaral Lisboa.

14ª filha de Maria Carlota do Amaral e Joaquim Pedro da Silva Lisboa, comandante da Guarda Nacional de Rio Pardo. Diplomou-se na Escola Normal de Porto Alegre, em 1881, com distinção em todas as matérias e foi contratada como professora do Estado. Sua família tinha posicionamento contrário ao Partido Republicano. Eram federalistas e o fato causou-lhe perseguições políticas, que a obrigou a exonerar-se do cargo público e entrar no Partido Federalista, vindo a participar da Guerra Federalista no Rio Grande do Sul em 1893.

Na época sua irmã publicou na imprensa um poema elogiando o federalista Gumercindo Saraiva. Um republicano, major do Exército -Antero de Fontoura-, não gostou do elogio feito ao seu opositor e achando que foi ela e não a irmã a autora do poema, escreveu-lhe uma carta recriminando a atitude nos seguintes termos: “Essa não é a missão da mulher, deixar o lar doméstico para vir intrometer-se na política. Com tanto cultivo da inteligência, não pensais que a mulher, principalmente a solteira e sem pai, deve arrojar-se a vir provocar homem…” Ela se aborreceu com o insulto e decidiu resolver a parada nos moldes gaúchos da época.

Adquiriu uma arma, procurou o major e exigiu retratamento apontando-lhe a arma. Deve ter se desculpado, pois o desfecho não resultou em tiro, mas lhe rendeu um processo-crime. Foi julgada e absolvida por estar no pleno direito de “defesa da honra”. Este pode ser mais um pioneirismo alcançado por Ana Aurora, por se beneficiar de um direito até então só utilizado pelos homens. O episódio ficou marcado em sua biografia e alavancou sua carreira como colunista política e “membra honorária” dos federalistas. Pouco depois, junto com as irmãs Zamira e Carlota, fundou o Colégio Amaral Lisboa, dirigindo-o até 1924. Junto ao trabalho educacional, foi articulista em diversos órgãos da imprensa, onde expunha seus ideais políticos e educacionais. Através destes artigos, alguns deles utilizando-se de pseudônimos, ganhou notoriedade na política local.

Colaborou no jornal A Reforma, do Partido Federalista; no O Canabarro, de Santana do Livramento; Gaspar Martins, de Santa Maria; Correio do Povo, de Porto Alegre e jornais do Rio de Janeiro. Foi também escritora, poeta e dramaturga, tendo o primeiro livro – Minha defesa – publicado em 1895. Em Caxias do Sul, fundou e dirigiu o periódico O Estímulo, mantido de 1916 a 1918, ao mesmo tempo em que se dedicava a Literatura. Seu segundo livro – Traços meus -, uma coletânea de contos, foi publicado em 1924, pela Livraria do Globo.

Manteve intensa vida social com participação destacada na Sociedade Feminina Sempre-Viva e Grêmio Rio-pardense de Letras. Em 1915 criou curso de ensino noturno gratuito para adultos, bem antes do ensino supletivo ser instituído em 1931. Casou-se em 1922 com o Dr. Hermenegildo de Barros Lins e mudaram-se para o Ceará. Após breve estadia no Rio de Janeiro, voltou a morar em Rio Pardo, onde passou a cuidar do Colégio fundado pela família.

Junto com a irmã Zamira, dedicou-se durante 55 anos ao ensino, acolhendo alguns alunos gratuitamente. Em meados da década de 1930, o colégio passou por uns perrengues financeiros, devido em parte ao episódio ocorrido com o major, e as irmãs tiveram que viver numa condição precária em idade avançada. Em 1937 o governo do Estado, em reconhecimento aos serviços prestados na educação, lhes concedeu uma modesta pensão vitalícia, permitindo-lhes a sobrevivência. Seus ex-alunos também reconheceram suas contribuições ao ensino e ergueram uma herma na Praça Barão de Santo Ângelo, no centro da cidade, em 1944, expondo o busto das irmãs. Na inauguração do pedestal sua expressão, aos 84 anos, exprimia uma comoção e agradecimento à homenagem prestada.

Faleceu em 22/4/1951 e deixou alguns livros publicados, além dos já citados: Preitos à Liberdade e A culpa dos pais. Em termos biográficos, encontramos apenas breves verbetes na Wikipedia, que serviram para costurar esta síntese, e o livro Mulheres em cena: as trajetórias de Ana Aurora e Malvina Tavares no limiar do século XX, de Carlos Dias, publicado pela Editora Primas, em 2016. Malvina Tavares foi uma destacada ativista política, contemporânea de Ana Aurora, que se encontra no radar deste Memorial.