JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Sobral Pinto

Heráclito Fontoura Sobral Pinto nasceu em Barbacena, MG, em 5/11/1893. Advogado, Jurista e defensor dos Direitos Humanos. Enfrentou a ditadura do “Estado Novo”, com Vargas em 1937-1945 e a ditadura militar instaurada com o golpe militar de 1964. Um dos nomes mais relevantes na formação do Estado de Direito no Brasil.Sobral Pinto - Correio IMS

Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, hoje incorporada a UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começou atuando na área de Direito Privado, mas ficou notabilizado como brilhante criminalista e defensor de perseguidos políticos. Defendeu o político Luiz Carlos Prestes, preso após o levante comunista de 1935, entre outros.

Defendeu, também, o militante comunista Arthur Ernest Ewert, mais conhecido pelo nome clandestino Harry Berger. O “Alemão” foi um dos fundadores da ANL- Aliança Nacional Libertadora e atuante na “intentona comunista” de 1935 ao lado de Prestes. Preso, foi torturado severamente e Sobral Pinto foi convocado a defende-lo. Antes de tudo, exigiu do Governo a aplicação do artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais ao prisioneiro, fato inusitado na área da defesa dos direitos humanos.

Outra causa que lhe garantiu renome foi a defesa do Hotel Copacabana Palace, na sua inauguração, em 1922, no Centenário da Independência do Brasil. Mas, devido a um atraso foi inaugurado em 1924. Nesse meio tempo, o Governo tentou boicotar os jogos de azar dos cassinos. A família Guinle, dona do hotel, que investiu uma fortuna no casino, gastou mais um pouco na contratação de Sobral Pinto para defender sua causa e teve a licença prorrogada.

Como prolongamento da causa Prestes, conseguiu salvar sua filha Anita Leocádia Prestes, nascida num campo de concentração nazista. Conseguiu o reconhecimento da paternidade da criança e a documentação necessária para seu retorno ao Brasil, enfrentando as imposições alemãs da Gestapo. Ao fim da carreira, recusou um convite do presidente Juscelino Kubitschek para assumir o cargo de ministro do STF-Supremo Tribunal Federal, alegando que não queria que supusessem que sua defesa da posse do presidente tinha sido movida por interesse pessoal.

Durante a ditadura militar, foi homenageado na Câmara dos Vereadores de São Paulo pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, em outubro de 1976. Em seu discurso de agradecimento, esclareceu definitivamente a dúvida sobre o golpe de 1964:

“Golpe militar. Não foi Revolução. Não havia naquele movimento nenhuma ideia superior; não havia naquele movimento nenhum propósito de realmente trabalhar para a cultura e o progresso do País”.

Na década de 1980, participou ativamente do movimento das “Diretas Já”. Em 1984, foi aplaudido efusivamente ao participar do Comício da Candelária, defendendo o reestabelecimento das eleições diretas. Atuou na OAB-Ordem dos Advogados do Brasil como conselheiro federal. Foi integrante de um grupo de intelectuais católicos, vindo a presidir o Centro Dom Vital durante 20 anos (1971-1991), criado em 1922 para reunir os intelectuais atuantes do catolicismo brasileiro.

Faleceu em 30/11/1991, aos 98 anos e vem sendo homenageado como um dos maiores juristas brasileiros Em 2013, foi lançada sua biografia no documentário Sobral: O Homem que não tinha preço, dirigido por Paula Fiuza. A biografia p.p. dita foi escrita pelo historiador brasilianista John W.F. Dulles: Sobral Pinto: a consciência do Brasil, publicada pela Editora Nova Fronteira, em 2002. Um título que dá a dimensão exata de sua grandeza.

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AS BRASILEIRAS: Maria Bonita

Maria Gomes de Oliveira nasceu em Santo Antônio da Glória, atual Glória, BA, em 8/3/1911, no povoado de Malhada da Caiçara, atualmente no município de Paulo Afonso. Cangaceira e companheira de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, foi a primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros.

Filha de Maria Joaquina Conceição e José Filipe Gomes de Oliveira, foi a segunda filha de uma família de 12 irmãos, casada com o primo num matrimônio arrumado pelas famílias. Um relacionamento conflituoso que durou pouco, decorrente do ciúme do marido boêmio. Em 1930, numa das andanças de Lampião na região, se encontraram e passaram a viver juntos. Sua incorporação ao bando ensejou o acolhimento de outras mulheres entre os cangaceiros e mudou os métodos e estratégias de combate, visando salvaguardar as mulheres.

Quando engravidavam, os filhos eram doados à parentes próximos. Ela mesma teve uma filha, que cresceu em Jeremoabo e foi criada pelo padrinho. Na história consta que ela era tão vaidosa quanto Lampião. Usavam o mesmo perfume francês, andava com vestidos de seda, portava moedas de prata, joias caras, broches, botas de cano curto e enfeites de ouro decoravam seus cabelos. Traída constantemente, tinha crises de ciúmes do companheiro e alguns relatos afirmam que ela teve um caso com um comerciante, João Maria de Carvalho, para se vingar das traições sofridas.

Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita, apelido que só se difundiu após sua morte. Há algumas versões sobre a origem desse nome. Uma delas diz tratar-se de uma invenção dos repórteres dos jornais do Rio de Janeiro, possivelmente inspirados no filme Maria Bonita, lançado em 1937 e baseado na obra de mesmo nome de Afrânio Peixoto, de 1921. Outra, que teria sido dado por soldados que se impressionaram com a beleza da cangaceira.

Em 28/7/1938, os cangaceiros estavam acampados num local conhecido como Grota do Angico, no então município de Porto da Folha, SE, quando o bando foi atacado de surpresa pela polícia alagoana, conhecida como Volante. 11 cangaceiros foram mortos e degolados. Maria, tentando fugir, foi baleada 2 vezes e logo em seguida foi decapitada viva.

Na história do cangaço, ficou tão conhecida quanto seu companheiro lampião. Vale citar 2 livros expondo sua trajetória de vida e sua importância no bando: Maria Bonita – A Rainha do Cangaço, de João de Souza Lima, lançado em 2022 pela Editora Oxente e Maria Bonita: sexo e violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiro, lançado em 2018 pela Ed. Objetiva. Conta também com 2 cinebiografias: Lampião e Maria Bonita, uma minissérie da TV Globo, de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, exibida em 1982 e o filme Maria Bonita, rainha do cangaço, dirigido por Miguel Borges, em 1968. Na cidade de Paulo Afonso, BA, o município onde nasceu, o prefeito restaurou sua casa e instalou o “Museu Casa de Maria Bonita”, em 2006.

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OS BRASILEIROS: Adoniran Barbosa

 

João Rubinato nasceu em Valinhos, SP em 6/8/1910. compositor, cantor e ator. Conhecido como o “Pai do samba paulista”, foi um das figuras mais representativas da música popular brasileira ao criar uma identidade própria do samba. Uma das características mais marcantes de suas canções está no uso do dialeto ítalo-paulista e no retrato do cotidiano do povo urbano de origem italiana de alguns bairros paulistanos, como Barra Funda, Brás e Jaçanã.

Filho de Emma Ricchini e Francesco Fernando Rubinato, imigrantes italianos. Vieram para o Brasil em 1895 e, em São Paulo, passaram pela Hospedaria dos Imigrantes e logo foram trabalhar na agricultura na cidade de Tietê. Pouco depois mudaram-se para Jundiaí, Santo André e se estabeleceram em São Paulo. Com 7 irmãos e necessitando trabalhar, largou a escola ainda cedo. Seu primeiro emprego, aos 12 anos, foi de entregador de marmitas, das quais surrupiava alguns bolinhos de carne para matar a fome.

Logo após a adolescência, queria ser artista, cantor. Porém sem padrinhos, sem instrução e tendo que trabalhar, o sonho foi deixado de lado. Retomou depois adotando um nome mais apropriado: pegou Adoniran, de seu melhor amigo, e Barbosa, sobrenome de seu ídolo, o cantor de samba Luís Barbosa. Iniciou como compositor e gravou “Dona Boa’, marcha de carnaval na voz de Raul Torres em 1935, vencendo o concurso de canções carnavalescas, promovido pela Prefeitura de São Paulo. Aos 25 anos e vencedor de um concurso, animou-se a gravar o disco “Agora pode chorar”, que não foi bem sucedido.

Persistiu na carreira de artista e foi para o rádio como ator interpretando diversos tipos populares. A partir destes programas “encontrou a medida exata de seu talento, em que a soma das experiências vividas e da observação acurada deu ao país um dos seus maiores e mais sensíveis intérpretes”. Movido pelo desejo de se tornar intérprete e não apenas compositor, “passa a conviver com os sambistas entre uma parceria vendida aqui e outra acolá, que davam o testemunho da importância que a linguagem popular assumia como veículo social”.

Suas canções são o retrato exato desta linguagem e os tipos humanos que surgem deste discurso são representativos da cidadania brasileira. “Os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem social e existencialmente solitário, estão intactos nas criações de Adoniran, no humor descrito nas cenas do cotidiano. A tragédia da exclusão social dos sambistas se revela como a tragicômica cena de um país que subtrai de seus cidadãos a dignidade”.

O primeiro sucesso veio com a canção muito conhecida até hoje nas rodas de samba: Trem das Onze (1951). Porém, só obteve o estrondoso sucesso quando foi regravada pelo conjunto “Demônios da Garoa”. O curioso é que o conjunto paulistano e a música falando de São Paulo foi bem sucedida primeiro no Rio de Janeiro. Em seguida casou-se com Matilde, que ajudou-o a se estabelecer na vida artística. Outro sucesso deu-se em 1956 com a música Iracema narrando mais uma crônica urbana de São Paulo. “Um retrato sensível da cidade, do povo e dos amores perdidos no caminho da modernidade”, relatou um crítico da época. Assim, passa a viver para o rádio, a boêmia e para Matilde. Nos últimos anos de vida, com o enfisema pulmonar avançando e não podendo mais manter a vida boêmia, dedica-se a recriar alguns dos espaços mágicos que percorreu na vida.

Inventou para si uma pequena arte, com pedaços velhos de lata, de madeira, movidos a eletricidade. São rodas-gigantes, trens de ferro, carrosséis e pequenos objetos como enfeites, cigarreiras, bibelôs, etc. criando um mundo mágico. Quando recebe alguma visita, que se admira com os objetos criados, ouve dele que “alguns chamavam aquilo de higiene mental, mas que não passava de higiene de débil mental…” Como se vê, cultiva o humor como marca registrada. Marca aliás, que aliada à observação da linguagem e dos fatos trágicos do cotidiano, fezz dele um sambista tradicional e inovador.

Faleceu em 23/11/1982, aos 72 anos, e foi homenageado várias vezes: Em 2020, no 110º aniversário, foi gravado o álbum Onze, com 11 músicas inéditas. O disco foi indicado ao prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode. Em São Paulo tem uma rua com seu nome no bairro da Bela Vista e outra com o nome “Trem das Onze” no Jaçanã. No Carnaval de 2022, a Escola de Samba Dragões da Real homenageou-o com o samba enredo. Na sequência, a revista Rolling Stone Brasil elegeu Trem das Onze entre as 100 maiores músicas nacionais e Adoniran entre os maiores artistas da música brasileira. Em 2023 a esquina símbolo de São Paulo (Av. Ipiranga com Av. São João) ganhou 2 estátuas: Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, os representantes do samba paulista.

Deixou 12 discos gravados e 7 coletâneas de seus sucessos. Como biografia, temos os livros Adoniran: uma biografia de Celso de Campos Jr., publicado pela Editora Globo em 2003; Adoniran – Se o senhor não está lembrado de Flávio Moura e André Nigri, publicado pela Ed. Boitempo em 2002; Adoniran, dá licença de contar, de Ayrton Mugnaini Jr., publicado pela Ed. 34 em 2002 e Adoniran Barbosa – O poeta da cidade, de Francisco Rocha.

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AS BRASILEIRAS: Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13/12/1935, em Divinópolis, MG. Poeta, escritora, filósofa e professora. Representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta a incorporação dos papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa. Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, tornando-o universal, político e social.

Filha de Ana Clotilde Corrêa e do ferroviário João do Prado Filho, passou a escrever os primeiros versos com a morte da mãe, aos 15 anos, em 1950. No ano seguinte, inicia o curso de Magistério, concluído em 1953 e passa a lecionar no Ginásio da cidade em 1955. Casou-se em 1958 e teve 5 filhos. Pouco antes do nascimento da última filha, ela e o marido iniciam o curso de Filosofia na Faculdade de Ciências e Letras de Divinópoli, concluído em 1973.

Com a morte do pai, em 1972, sentiu-se estimulada a escrever de modo mais consstente. 4 anos depois enviou carta e originais de seus poemas para o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que sentiu-se animado em enviar para Carlos Drummond de Andrade para apreciação. Drummond também gostou dos poemas e enviou os originais à Pero Paulo Sena Madureira, da Editora Imago, sugerindo sua publicação e escreveu uma crônica em sua coluna no Jormal do Brasil sobre a nova poeta. Assim, foi lançado em 1976 o livro Bagagem, no Rio de Janeiro, com a presença de nomes ilustres como Juscelino Kubitschek, o próprio Drummond, Nélida Piñon, Antonio Houais, Clarice Lispector e Affonso Romano de Sant’Anna entre outros.

Em 1978 lançou O Coração Disparado e ganhou o Prêmio Jabuti. No ano seguinte estreou na prosa com Soltem os Cachorros e passa a ter sucesso, tendo que abandonar o magistério. Escreveu também peças de teatro; passa a dirigir um grupo amador e encena O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna e A Invasão, de Dias Gomes. A convite do prefeito de Divinópolis, comandou a Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura no período 1983-1988. Pouco antes, Fernanda Montenegro estreia Dona Doida: Um Interlúdio, baseado em textos extraidos de seus livros. O espetáculo foi bem sucedido aqui, nos EUA, Itália e Portugal. Em 1985, participou em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América. Em 1991 foi publicada sua Poesia Reunida.

Retornou à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, em 1993, integrando a equipe de orientação pedagógica e no ano seguinte, após um longo periodo sem fazer poesia, lançou o livro O homem da Mão Meca. Disse que o livro foi iniciado em 1987, mas, em seguida foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Revelou que vê “a aridez como uma experiência necessária” e que “essa temporada no deserto” lhe fez bem. Nesse período, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

Sua obra é marcada pela aproximação entre cotidiano e transcendência, articulando experiências comuns da vida doméstica, da religiosidade e da condição feminina por meio de uma linguagem coloquial e intimista. Sua poesia transforma situações banais em reflexões existenciais e espirituais, Outro aspecto recorrente em sua obra é a relação entre erotismo e fé religiosa, onde associa corpo, desejo e espiritualidade sem estabelecer oposição entre essas dimensões, integrando elementos da tradição católica à experiência cotidiana.

Essa combinação tornou-se uma das marcas mais reconhecidas de sua escrita e contribuiu para debates críticos sobre gênero, religiosidade e literatura brasileira. Sua produção literária também é reconhecida pela centralidade da experiência feminina. Temas como maternidade, casamento, envelhecimento, trabalho doméstico e memória aparecem de forma recorrente em seus textos. Costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Vivendo na pequena cidade onde nasceu estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá. Sua obra conta, até até agora, com mais de 20 livros de poesia e prosa, inclindo as coletâneas e antologias.

Em 2014, foi condecorada pelo governo brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural. 10 anos depois recebeu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra e no mesmo ano, de 2024, tornou-se a terceira escritora brasileira a receber o prêmio Camões, a maior premiação literatura portuguesa e brasileira. Não dispomos de uma biografia sua, mas temos uma análise crítica de sua obra – Poesia e desordem: escritos sobre poesia & alguma prosa – escrita por Antonio Carlos Secchin, da ABL, e publicada pela editora Topbooks, em 1996.

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OS BRASILEIROS: Cruz Costa

João Cruz Costa nasceu em São Paulo, SP, em 13/2/1904. Filósofo, ensaísta, professor, sociólogo e biógrafo. Foi aluno “número 1” da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em 1934, onde mais tarde tornou-se catedrático. Sua produção intelectual tem como base “estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história”. O título do seu livro mais conhecido: Contribuição à História das Ideias no Brasil (Ed. José Olympio, (1956) é uma síntese perfeita do seu objetivo e foi traduzido para vários idiomas.

Filho de mãe descendente de italianos e pai português, enveredou pela área da medicina, estudando na Alemanha e no Brasil. Porém, verificou que não era sua vocação: “Comecei estudando medicina, revelando assim um interesse prático pelo homem, se não por ele, por sua saúde. Eu fizera aqui uns vagos estudos de filosofia para satisfazer as exigências dos preparatórios… Fui depois para a França em 1923 e entrei no curso preparatório da Faculdade de Medicina de Paris. Um dia, num grupo de brasileiros, encontrei o prof. Georges Dumas, que era grande amigo do Brasil, que me perguntou qual a especialização que eu iria fazer na medicina. A minha resposta foi: a psiquiatria. O velho Dumas, que era médico e agrégé de Filosofia, aconselhou-me então que fizesse estudos de filosofia e convidou-me para assistir às suas divertidas aulas aos domingos, no Asyle de St’Anne.”

Foi aí que tomou gosto pela área e ingressou na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP-Universidade de São Paulo. Licenciado em 1937, manteve contatos com os professores da Missão Francesa, na USP, especialmente com o prof. Jean Maugue, do qual tornou-se assistente. Em seguida defendeu tese de doutoramento: Crítica das ideias políticas tomistas de Suarez, na USP em 1940. Na década seguinte, prestou concurso para assumir a cátedra de filosofia e tomou posse em 1951.

Em 1958, teve problemas com o então governador Jânio Quadros, devido a uma entrevista aos Diários Associados, onde chamou de levianas as palavras do governador, que havia se dirigido de maneira ríspida ao Diretor da FFCL Eurípedes Simões de Paula. Por isso, recebeu uma pena de repreensão e o caso teve repercussão, indo parar na capa do jornal Folha da Manhã. Ele levou o caso para o STF-Supremo Tribunal Federal, que deferiu seu pedido, cancelando a punição. O governador acatou a decisão e o professor publicou um sarcástico comentário na Folha da Manhã: “Sempre foi hábito do sr. governador ser breve, como testemunham seus famosos bilhetes. Desta vez, entretanto, houve por bem s.exa. estender-se em longos reparos à decisão do Egrégio Supremo Tribunal que, por unanimidade, o compeliu a cancelar o ato que me levara a apelar para aquela alta Corte de Justiça.”.

Em janeiro de 1964 foi obrigado a depor no DOPS sobre a manifestação de apoio ao registro do Partido Comunista do Brasil assinado por um grupo de intelectuais. No ano seguinte foi denunciado pelos colegas da USP e foi afastado do cargo de professor. Teve que se refugiar na França onde passou a lecionar. Sua preocupação era viabilizar um pensamento nacional autônomo, com destaque ao advento do positivismo como momento de maior transformação da história brasileira.

Desempenhou funções relevantes, como a de conselheiro da Biblioteca do Congresso em Washington, convidado pelo governo dos EUA em 1948); membro da Comissão de História das Ideias do Instituto Pan-americano de Geografia e História; correspondente da Cátedra Alejandro Korn, de Buenos Aires; condecorado com o título de doutor honoris causa da Universidade de RennesI. Foi duas vezes homenageado pelo governo francês, como Cavaleiro da Legião de Honra e Palmas Acadêmicas no grau de cavaleiro.

Em seus últimos anos, ficou amargurado com a ditadura instalada no País e o clima de delação entre alguns colegas “dedo-duros” da faculdade. Faleceu em 10/10/1978 e segundo seu amigo, o prof. José Arthur Gianotti: “Cruz Costa cumpriu seu ciclo de vida; sua irreverência; sua ironia; sua forma de ser brasileiro estão vivas entre nós. Para ele só restava uma vida vegetal , que sempre recusou”. Sua biblioteca, com mais de 9 mil livros, foi doada à Faculdade de Filosofia da USP.

Sua produção intelectual conta uma dúzia de livros sobre diversas áreas, especialmente sobre o desenvolvimento da filosofia no Brasil, “procurando estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história e indicando com isso a diversidade dos seus conhecimentos. Divulgava-os pela docência e artigos em linguagem simples por meio de importantes jornais da época: O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal de São Paulo, Minerva de Buenos Aires e Jornadas do México.

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AS BRASILEIRAS: Maria Boa

Maria Oliveira Barros nasceu em Remígio, PB, em 24/6/1920. Empreendedora bem-sucedida dona de um cabaré, em Natal, RN, na década de 1940 e seguintes. Um luxuoso prostíbulo com apresentações musicais, teatro de revista e encontros casuais. No início sua clientela era constituída principalmente por soldados norte-americanos, instalados na base de Natal, durante a II Guerra Mundial. Teve seu nome gravado numa aeronave da FAB-Força Aérea Brasileira.

Na adolescência ajudava o pai numa banca da feira de Campina Grande e ganhou o apelido de Maria Boa, devido a gentileza com os fregueses e, também, aos belos atributos físicos. Era uma moça bonita, que chamava à atenção com seus cabelos pretos e longos. O apelido não agradou o pai, mas encantou os rapazes que passavam na barraca só pra vê-la. Ela acabou engraçando-se por um deles, que tirou-lhe a virgindade. O pai exigiu o casamento como reparação, mas o rapaz recusou. Ela se viu abandonada pelo namorado e pelo pai, que a expulsou de casa.

A mãe sentiu muito o desfecho da tragédia, mas não pode fazer nada e teve que aceitar a decisão do marido seguindo o padrão exigido pela sociedade local naquela época. A família não podia manter sob o mesmo teto uma filha sem honra. Era este era o costume. A partir daí, ela sentiu-se estranha e indesejável na cidade e foi tentar uma nova vida na capital João Pessoa, em meados de 1935. Arrumou emprego numa tipografia como secretária. Pouco depois conheceu um político; namoraram; brigaram e ela foi ameaçada de morte. Em pouco tempo passou a ganhar a vida como prostituta em algumas cidades da Paraíba até chegar em Natal.

Segundo relata o jornalista Luiz Henrique Gomes, há uma controvérsia entre os cronistas sobre o modo como chegou em Natal. Diz-se que ela já trabalhava num bordel, quando Madame Georgina, dona da Boate Estrela, soube que em Campina Grande havia uma bela jovem que acabara de cair na vida. Foi até lá e trouxe-a para sua Boate. Outra versão conta que ela chegou em Natal, em julho de 1942, aos 22 anos. “Sem eira nem beira”, porém bonita e atraente, logo encontrou emprego na Boate Estrela, onde foi bem recebida por Madame Georgina, que não poupou nos vestidos e joias, nem nas músicas para apresentá-la à sua clientela. Logo encontrou um alto funcionário público, com quem manteve relacionamento e engravidou. Ao saber da gravidez, o namorado não gostou e acabou o namoro. Ela abortou, ficou impossibilitada de procriar e abalada com a situação, afastou-se do Cabaré.

Em seguida trabalhou em algumas “casa de drink” e tinha como característica o respeito e educação. Era reservada, não tolerava gaiatices e tratava os clientes com cortesia. Levava seu trabalho a sério e era respeitada pelas colegas. Por esta época os soldados norte-americanos se instalaram em Natal, causando uma mudança urbana na capital potiguar. Em 1943, a cidade com 40 mil habitantes fervilhava com a chegada dos 15 mil militares americanos, que trouxeram o cinema de Hollywood, cigarros com filtro, coca-cola e os bailes na base militar alimentando fantasias de progresso material. Foi aí que ela aguçou o tino empreendedor. Percebeu que a cidade não dispunha de um lugar onde os homens pudessem se divertir. Em parceria com um amigo, alugou um casarão e montou seu negócio. Além dos soldados norte-americanos, a casa era frequentada pelos homens da alta sociedade e, assim, prosperou, rapidamente.

O Cabaré tornou-se um lugar conhecido não só pela prostituição. Mantinha uma boa cozinha e dizem que lá foi o primeiro lugar a servir o galeto assado, quando só existia o frango caipira cozido. Em pouco tempo reuniu um time de garotas bonitas dos estados vizinhos e fez com que sua Boate se tornasse uma referência no turismo da cidade e ponto de encontro dos empresários, fazendeiros e políticos da região. O serviço era impecável naquele ambiente, digamos, do pecado. Cuidava da saúde das moças e exigia algum recato na recepção e trato com os clientes. Foi neste ambiente que Maria Boa reinou com seu Cabaré.

Sua fama chegou também aos militares da aeronáutica brasileira. Os aviões B-25 eram identificados com variadas cores, conforme o local da base aérea. Na Base de Natal, além das cores foi acrescido desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia, ao lado esquerdo da fuselagem. Na aeronave 5079 foi aplicado o desenho e o nome de Maria Boa. Alguns tenentes levaram-na até o hangar dos B-25 para lhe mostrar a homenagem prestada, deixando-a comovida.

Com o tempo adquiriu a sobriedade de uma madame. Não gostava de ser fotografada nem dava entrevistas, talvez para proteger sua família. Adotou duas crianças e manteve-as em boas escolas. Ajudou a pagar os estudos das primas e sobrinhos e fazia questão que todos tivessem uma formação diferente da sua. Chegou a ajudar inúmeras famílias carentes e as mães de suas funcionárias. Enfim, o nome Maria Boa fez justiça ao nome e tornou-se uma mulher respeitada e admirada em Natal. Em 1997, aos 77 anos, tinha problemas cardíacos e passou por uma cirurgia de alto risco. Pouco depois teve um AVC e faleceu em 22/7/1997. No dia seguinte o Diário de Natal estampou a manchete: “Morre a Dama das Camélias”.

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OS BRASILEIROS: Chico Mendes

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15/12/1944, em Xapuri, AC. Seringueiro, sindicalista e ambientalista, considerado líder e mártir na luta pela preservação da Floresta Amazônica.

Filho de Maria Rita Mendes e Francisco Alves Mendes, migrante cearense, foi alfabetizado pelo pai aos 19 anos e iniciou na vida sindical aos 30, como secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Em seguida foi passou a liderar os seringueiros na luta contra o desmatamento da floresta. Uma luta pacífica onde os trabalhadores protegiam as árvores com seus próprios corpos. Participou, também, de ações em defesa da posse da terra pelos habitantes nativos.

Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e pouco depois foi eleito vereador pelo MDB. A partir daí passou a receber ameaças dos fazendeiros. Ainda em 1977, tornou-se correspondente do jornal O Varadouro, distribuindo-o entre os seringueiros. Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores-PT, sendo uma das principais lideranças no Acre e participou de comícios ao lado de Lula na região.

No mesmo ano foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional como subversivo, mas foi absolvido por falta de provas. Em 1981 assumiu a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Em 1985 liderou o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros, que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros adquiriu repercussão nacional e internacional e a proposta de criação da “União dos Povos da Floresta” na defesa dos seringueiros, castanheiros, pescadores, quebradeiras de coco e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas.

Na ocasião deu-se uma aliança com os índios, levando o governo a criar reservas florestais para a colheita não-predatória de matérias-primas como o látex e a castanha do pará. Em 1986, junto com alguns companheiros, concorreram ao cargo de deputado estadual, mas não foram eleitos. Em 1987 recebeu a visita de membros da ONU-Organização das Nações Unidas, quando denunciou alguns projetos financiados por bancos estrangeiros que estavam devastando a floresta e promovendo a expulsão dos seringueiros.

As denúncias foram levadas ao Senado dos EUA e à um dos bancos financiadores, o BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento. Os financiamentos foram suspensos e ele foi acusado pelos fazendeiros e políticos locais de “prejudicar o progresso da região”. Recebeu alguns prêmios internacionais, incluindo o “Global 500”, da ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente. Em 1988 participou da implantação das primeiras reservas extrativistas do Estado do Acre e a partir daí passou a receber ameaças dos membros da recém criada União Democrática Ruralista-UDR. Na sequência percorreu o País, participando de seminários e palestras, onde denunciava as intimidações sofridas pelos seringueiros. Após a desapropriação do Seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, agravaram-se as ameaças de morte. Tais ameaças foram amplamente divulgadas e ele comunicou o fato às autoridades policiais e governamentais solicitando proteção.

Enquanto se tornava conhecido, ganhando notoriedade nacional e internacional, passou a contar com escolta policial para garantir sua segurança em aparições públicas. Tais fatos ampliaram a ira dos proprietários de terras até 22/12/1988, quando foi assassinado nos fundos de sua casa com tiros disparados por Darci Alves, cumprindo ordens do pai Darly Alves, grileiro de terras. Dias antes o Jornal do Brasil se recusou a publicar uma entrevista, onde ele denunciava as ameaças de morte. A alegação da recusa baseou-se no fato de que as ameaças politizavam demais a questão ambiental.

Porém, diante da consumação das ameaças, o Jornal do Brasil publicou a entrevista no 1º caderno da edição 25/12/1988, seguida de um editorial na primeira página. Mais de 30 entidades se manifestaram, exigindo uma punição dos criminosos. Em dezembro de 1990, a justiça condenou Darly e, seu filho Darcy a 19 anos de prisão, um fato inédito na justiça brasileira. Passados mais de 30 anos, Darcy Alves Pereira assumiu a diretoria do Partido Liberal, em Medicilândia, PA. No mesmo dia foi destituído do cargo pelo presidente do PL Valdemar Costa Neto, alegando que não sabia que ele foi o assassino de Chico Mendes.

Em 1990 foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes, alcançando diversas cidades e 970 mil km. de floresta e um milhão de hectares. A Reserva tem como objetivo salvar a floresta e permitir a proteção dos produtores locais e dos povos indígenas. Em seguida sua esposa e filha criaram a ONG Instituto Chico Mendes afim de desenvolver projetos socioambientais no Acre. Ele foi homenageado em diversas ocasiões, como a criação do prêmio “Medalha Chico Mendes de Resistência”, em 1989, concedido anualmente a pessoas ou grupos ligados a luta pelos direitos humanos. Em 2007 foi criado o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade-ICMBio, responsável pela gestão do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Em 2011 ele ganhou uma estátua com sua “cabeça de retrato”, exposta no parque Ibirapuera, em São Paulo.

Seu nome aguarda a inscrição no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” e em 2012 foi eleito o 28º “maior brasileiro de todos os tempos”, em votação realizada pelo Sistema Brasileiro de Televisão-SBT. Integra o “Calendário de Santos” da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, como testemunha profética, tendo sua festa litúrgica comemorada em 22 de dezembro. Em 2013, uma nova espécie de pássaro — Zimmerius chicomendesi — foi nomeada em sua homenagem. Diversos documentários sobre sua trajetória encontram-se à disposição no canal Youtube. Uma extensa reportagem foi publicada na forma de livro por Zuenir Ventura – Chico Mendes: crime e castigo – lançado pela editora Companhia das Letras, em 2003.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Dandara dos Palmares

Dandara dos Palmares nasceu em 6/2/1694, em Pernambuco ou África. Foi uma guerreira do período colonial do Brasil. Sua memória transcende os limites da história documentada para afirmar-se como símbolo de liberdade, luta e liderança feminina na defesa do seu território. Teve papel decisivo na criação do Quilombo de Palmares, no século XVII, liderado por seu marido Zumbi dos Palmares.

Sua vida é envolta em mistério, pois quase não existem dados sobre sua trajetória, inclusive se nasceu no Brasil ou na África. Descrita como uma heroína, dominava técnicas da capoeira e lutou ao lado de homens e mulheres nos ataques ao quilombo estabelecido no século XVII na Serra da Barriga, atual Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas, criado em 2007. Em 1630 os ataques se tornaram frequentes, com a invasão holandesa.

Segundo a narrativa em torno de Dandara, ela teve papel relevante no rompimento do marido com seu antecessor, Ganga-Zumba, primeiro grande chefe do Quilombo. Em 1670, Ganga Zumba, filho da Princesa Aqualtune e tio de Zumbi, assume a chefia do quilombo. Teve seu auge na segunda metade do século XVII, constituindo-se no mais emblemático dos quilombos formados no período colonial. O Quilombo contava na época com mais de 30 mil habitantes.

Num dos últimos confrontos e após não concordar com o acordo político proposto pelos colonizadores portugueses, foi presa e preferiu cometer suicídio se jogando de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escravizada. Estudos recentes destacam Dandara como líder de um dos mocambos de Palmares, responsável por aconselhar a comunidade em temas políticos e econômicos, e por organizar a resistência em aliança com outras mulheres líderes do movimento.

Tais estudos buscam compreender a atuação de Dandara a partir de uma cosmovisão negra, que reconhece os corpos e saberes quilombolas como portadores de racionalidades próprias, articuladas entre África e diáspora. Segundo estudos realizados por Décio Freitas e publicados no livro Palmares – A Guerra dos Escravos (1984, ed. Mercado Aberto), Dandara foi uma descendente do Rei do Congo, na África e da princesa Aqualtune.

Em 2019 o grupo “Samba de Dandara”, sob a direção de Samuel Silva e produção de Laís de Oliveira, gravou o álbum Samba de Dandara exaltando a força ancestral feminina dessa mulher. Em2022 Jarid Arraes publicou o livro As Lendas de Dandara, uma quase biografia com relatos fantásticos, lançada pela Editora de Cultura Ltda. No carnaval do ano seguinte, a Escola de Samba Acadêmicos do Jardim Bangu homenageou-a com o samba-enredo “Dandara: o preço da liberdade”.

Os sambas-enredo costumam cair no esquecimento logo após o carnaval; porém em 2019 seu nome foi inscrito em folhas de aço no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” à disposição do público no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília, através da Lei nº 13.816, de 2019.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ênio Silveira

Ênio Silveira nasceu em 18/11/1925. Renomado editor, comandou a prestigiada Editora Civilização Brasileira por uns 50 anos. Com sua visão não elitista do livro, provocou uma revolução no mercado livreiro no Brasil, particularmente nas áreas da sociologia, economia e política, propiciando a edição entre nós dos clássicos autores nestas áreas.

Estudou na Escola Livre de Sociologia, da USP-Universidade de São Paulo, e após formado buscou emprego numa editora. Através de amigos foi apresentado a Monteiro Lobato, que por sua vez apresentou-o ao seu amigo e ex-sócio Octalles Marcondes Ferreira, dono da Companhia Editora Nacional. Com tal indicação, obteve o emprego em 1944 e passa a conviver com grandes escritores e intelectuais, dentre os quais o sociólogo Fernando Azevedo e o pedagogo Anísio Teixeira, assessores culturais da empresa.

Em 1946 mudou-se para Nova Iorque York, onde realizou o curso de editoração na Universidade de Columbia e fez estágio na importante editora Alfred Knopf. Lá, aprendeu as modernas técnicas de produção e divulgação de livros, muito úteis para sua atuação inovadora no mercado editorial brasileiro. De volta ao Brasil, no início da década de 1950, entrou em contato com seu antigo patrão e recebe a proposta de assumir a editora Civilização Brasileira, no Rio de Janeiro. Sob seu comando, a editora deslancha. Seu crescimento vertiginoso é atribuído a uma visão inovação em termos de divulgação, como a publicidade de livros em outdoors, algo inédito no mercado livreiro do Brasil.

A editora possuía um amplo catálogo, que contemplava desde de grandes obras literárias até livros universitários. Foram as publicações nos campos da sociologia, da economia e da política que transformaram a Civilização Brasileira em referência na área política. Vale dizer que, apesar de ser declaradamente comunista, seu desejo era contribuir para a transformação da realidade nacional e pela independência de pensamento. Por isso, suas publicações não se restringiam aos clássicos marxistas, mas contemplavam autores que, em sua opinião, pudessem contribuir para “o arejamento dos espíritos” e para novas formas de pensar o país.

A partir de 1964, com a ditadura militar, editou diversas publicações de oposição ao regime e periódicos que promoviam o livre debate de ideias numa época de restrição democrática, como a Revista Civilização Brasileira. Foi perseguido; teve os direitos políticos cassados; preso 7 vezes e foi alvo de alguns inquéritos policiais. Milhares de exemplares de livros da editora foram apreendidos e destruídos e seu patrimônio foi dilapidado. Porém, nada disso foi o suficiente para intimidá-lo.

A partir de 1966, a editora passou por graves problemas financeiros e teve que pedir concordata. Com dificuldades de se manter, resistiu mais algum tempo e em 1985 decide procurar Manuel Bulhosa, banqueiro português e dono da editora Bertrand, que tinha interesse em expandir seus negócios no Brasil. Desse modo, a editora Civilização Brasileira foi adquirida pela editora Bertrand, assumindo o compromisso de não descaracterizá-la. A negociação garantiu que ele permanecesse como conselheiro da Bertrand e diretor da Civilização Brasileira até 11/1/1996, quando faleceu vitimado por um edema pulmonar.

No mesmo ano, Bulhosa vendeu a editora ao grupo editorial Record. A editora Civilização Brasileira lançou mais de 2 mil livros e ficou conhecida por seu perfil combativo, destacando-se no campo da resistência à ditadura militar instaurada no Brasil após o golpe de 1964. Além de sua enorme contribuição para a cultura brasileira, Ênio Silveira teve protagonismo no cenário político, lutando incansavelmente pela democracia, a despeito de todas as violências das quais foi vítima.

Em termos biográficos, contamos com 2 livros, que retratam a saga da editora e do seu editor: Ênio Silveira: o editor que peitou a ditadura, de Sérgio Franco, pela Alameda Editorial em 2025 e Ênio Silveira: Coleção “Editando o Editor” vol. 3, organizado por Jerusa Pires Ferreira, lançado pela Editora EDUSP em 1992.

Clique aqui para assistir vídeo sobre Ênio Silveira.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILERIAS: Maria Della Costa

Gentile Maria Marchioro Della Costa Polloni nasceu em 1/1/1926, em Flores da Cunha, RS. Atriz e produtora teatral, foi uma das mais relevantes protagonistas da renovação do teatro brasileiro em meados da década de 1950, com a criação do Teatro Maria Della Costa.

Filha de Hermelinda Della Costa e Amadeo Marchioro, estreia na companhia de Bibi Ferreira, com a peça A Moreninha (1944), de Joaquim Manuel de Macedo. Muito bonita, trabalhou também como “show-girl” no Cassino Copacabana e desfiles de moda. No ano seguinte foi para Portugal estudar arte dramática com a atriz Palmira Bastos, no Conservatório Dramático de Lisboa.

Logo de volta ao Brasil, ingressou no grupo “Os Comediantes”, participando de peças como Rainha Morta, de Henry de Montherlant e direção de Ziembinski (1946). Na peça, conheceu Sandro Polloni, que se torna seu marido e administrador de sua carreira. Na sequência, encenou Terras do Sem-fim (1947), uma adaptação do livro de Jorge Amado; Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (1947) e Lua de Sangue, de Georg Buchner (1948).

Neste ano, fundou com seu marido o TPA-Teatro Popular de Arte, e estreou a peça Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, no Teatro Fênix e outras peças, obtendo sucesso de público e crítica. Em 1951, teve uma passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), para apenas um espetáculo, Ralé, de Máximo Gorki, com direção de Flaminio Bollini. Nessa época, o casal passa a se dedicar à construção da sua sede própria, o Teatro Maria Della Costa, inaugurado em 1954, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Seu repertório é considerado um dos melhores do teatro brasileiro. Para a produção inaugural, trouxe da Itália o diretor e cenógrafo Gianni Ratto, que montou O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, onde ela no papel de Joana D’Arc, alcança um dos pontos altos de sua carreira.

A companhia empreende uma excursão pela Europa, EUA e Buenos Aires, onde lotam as salas de teatro por 45 dias. Ao visitar Nova Iorque conheceu o autor Arthur Miller e dele traz, para comemorar os 10 anos de seu teatro, a peça Depois da Queda, dirigida por Flávio Rangel, que dirigiu também as peças Homens de Papel, de Plínio Marcos (1967), Tudo no Jardim, de Edward Albee (1968), entre outras. No cinema atuou em diversos filmes: O Cavalo 13 (1947), O Malandro e a Grã-fina (1948), Inocência (1949), Caminhos do Sul (1949) e Moral em Concordata (1959). No premiado filme Areião (1952), foi dirigida por italiano Camillo Mastrocinque. Na televisão teve pouca participação: a telenovela Beto Rockfeller, na TV Tupi (1968) e na TV Globo, Estúpido Cupido (1976) e Te Contei (1978).

Em 1956, volta a encenar 3 espetáculos criados por Flaminio Bollini: A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca; Rosa Tatuada, de Tennessee Williams; e Moral em Concordata, de Abílio Pereira de Almeida. Segue-se uma longa visita a Lisboa, com parte do repertório montado pela companhia. Em 1958, Bollini é trazido mais uma vez para dirigir a primeira montagem profissional brasileira de uma peça de Bertolt Brecht: A Alma Boa de Set-Suan. Em 1959, decidiu confiar a um jovem e desconhecido diretor, Flávio Rangel, a peça Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri. Foi o primeiro espetáculo brasileiro convidado a apresentar-se no Festival do Teatro das Nações, em Paris, e ganhou o prêmio de melhor trabalho folclórico.

Um dos sucessos de sua companhia foi a encenação da peça Bodas de Sangue, de Frederico Garcia Lorca, em 1973, com encenação de Antunes Filho. A partir daí foi reduzindo sua atuação no teatro e passa a dividir o tempo com a administração do hotel em Paraty. Junto com o marido, fundam o “Hotel Coxixo”, atualmente “Pousada Literária”. Suas últimas encenações foram Motel Paradiso (1982), de Juca de Oliveira; Alice que Delícia (1987), de Antônio Bivar e Temos que Desfazer a Casa (1989), de Sebastián Juvent.

Em 2002 foi homenageada pelo Ministério da Cultura com a Ordem do Mérito Cultural e faleceu em 24/1/2015.

Duas biografias apresentam amplo levantamento da vida da atriz que impulsionou o teatro brasileiro: Maria Della Costa: Seu teatro, sua vida, de Warde Marx, publicada pela Imprensa Oficial do Estado e Fundação Padre Anchieta, em 2004, bem como sua trajetória empresarial: Uma empresa e seus segredos: Companhia Maria Della Costa, de Tânia Brandão, publicada pela Editora Perspectiva, em 2009.