JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Matta e Silva

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu em 18/7/’1916, em Garanhuns, PE. Médium umbandista e fundador da primeira “Escola Iniciática de Umbanda Esotérica” do Brasil. Considerado codificador da religião, escreveu alguns tratados mediúnicos com o objetivo de esclarecer e unificar a doutrina religiosa. O adjetivo “esotérica” busca se diferenciar das ramificações existentes na umbanda, sem confrontá-las, realizando um estudo de seus componentes e estrutura.

Seu pai, admirador do presidente dos EUA na época, deu-lhe o nome que ninguém sabia pronunciar. Aos 5 anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro e aos 9 a mediunidade começa a se manifestar através de visões de entidades. Nada compreendia do que via e/ou sentia, pois até ali nunca teve formação religiosa; os pais não seguiam religião alguma. Ao 15 anos, morando no centro do Rio e trabalhando como auxiliar de serviço num jornal carioca, teve as primeiras manifestações do Preto-velho “Pai Cândido”. Pouco depois, as incorporações foram regularizadas e passou a atender as pessoas com conselhos e orientações. Pouco depois, já familiarizado com as “visitas” semanais de “Pai Cândido”, os fenômenos e visões desapareceram.

Em 1933, aos 17 anos, foi orientado a encontrar um local para desenvolvimento de sua mediunidade. Passou a visitar diversas “Tendas Espíritas” já existentes na época. Porém, seu mentor espiritual dizia-lhe que deveria ter sua própria casa de auxílio espírita. Em seu 7º livro – Umbanda e o poder da mediunidade – relata que “sempre tive uma tendência irrefreável, desde muito jovem, 16, 17 anos de idade, que me impulsionava a ver as chamadas ‘macumbas cariocas’. Claro está que não estava ainda conscientizado do “por que” de semelhantes impulsos”. Em 1937 mudou-se para o bairro Pavuna, montou um pequeno “Terreiro” e tornou-se “Pai-de-Santo”, com o nome de “Mestre Yapacani”. A partir de 1954, a entidade “Pai Guiné” passou direcionar sua vida mediúnica. Recebeu deste Preto-velho a mensagem “7 Lágrimas de Pai Preto”, que viria a se tornar um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista. Trata-se de uma oração mostrando a realidade do dia-a-dia de um Terreiro e as diferentes pessoas que o procuram em busca de auxílio espiritual. Pouco depois passou a escrever para o “Jornal de Umbanda”, artigos como “A lei dentro da umbanda”, “A magia da umbanda”, “A ponta do véu”, Aos aparelhos umbandistas: Alerta!”, Invocação de umbanda” etc.

Tais artigos preparavam, sem que ele tivesse uma clara consciência do que estava por vir: a obra que viria transformar todo o entendimento que se tinha até então sobre a umbanda. Por essa época teve visões mediúnicas, onde via um “Velho Payé” folheando um grande livro, junto a um colegiado de mentores espirituais, indicando que o momento de escrever obras doutrinárias se aproximava. Assim, em 1956 foi publicada a obra Umbanda de todos nós (A lei revelada), numa edição bancada por ele mesmo. O livro sacudiu o meio umbandista e teve a 1ª edição de 3.500 exemplares esgotada em pouco tempo. A 2ª edição saiu por uma editora conceituada, a Livraria Freitas Bastos. Até aí Seu Matta ainda não sabia que estava iniciando sua missão como escritor codificador da Umbanda.

No ano seguinte publicou Umbanda: sua eterna doutrina, trazendo complexos mapas explicativos e conceitos esotéricos nunca divulgados. A obra é uma continuidade, um aprofundamento da anterior. “Seu Matta” era um pai-de-santo incomum naquele ambiente: tinha convicções firmes, opiniões contundentes e era um crítico severo de alguns rituais praticados na Umbanda. Combatia os rituais de matança de animais, uso de bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros e as vaidades fetichistas. Em 1958 “recebeu” um preto-velho, chamado “Pai Guiné de Angola”, que veio para auxiliar seu guia espiritual “Pai Cândido”. Na ocasião foi riscado o ponto com as “Ordens e Direitos de Trabalho”

O 3º livro – Lições de Umbanda (e Quimbanda) na palavra de um preto-velho – veio em 1961 e foi mais bem sucedido junto ao público que os anteriores. Apresenta o diálogo entre um discípulo chamado Cícero com o Preto-Velho. O estilo do livro na forma de diálogo certamente ficou mais compreensível para o público e ocasionou a necessidade de mais esclarecimentos. Desse modo, Seu Matta continuou sua missão com o 4º livro, publicado em 1963: Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda, aprofundando os conceitos referentes a magia, mediunidade e oferendas numa linguagem mais acessível. No ano seguinte veio a 5ª obra: Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda (1964), onde apresenta uma abordagem prática de alguns rituais da magia de umbanda. No mesmo ano lançou a 6ª obra: Umbanda e o poder da mediunidade, explicando a necessidade de restauração da umbanda no Brasil e mostrando suas verdadeiras origens.

Após breve período de descanso, retornou em 1966 com outra obra sob orientação de uma corrente astral liderada por uma entidade que se identificou como “Caboclo Velho Payé”. A complexidade da obra levou mais de um ano para ser melhor explicada pelos mentores com imagens, quadros, diagramas e informações por via intuitiva. Em 1967 saiu a edição da Doutrina Secreta da Umbanda, complementando e ampliando conceitos tratados no livro Umbanda: sua eterna doutrina, publicado em 1957. Em seguida adquiriu um terreno contíguo a sua casa, em Itacuruçá, e instalou a “Tenda de Umbanda Oriental (TUO)”, onde seus “filhos-de-fé” passaram a frequentar por mais de 20 anos. Alguns destes filhos tornaram-se conhecidos em todo o País e um deles deu continuidade ao seu trabalho de aprofundar os estudos e procurar a unificação da umbanda como religião. Trata-se do paulista Francisco Rivas Neto, que também publicou alguns tratados e fundou a Faculdade de Teologia Umbandista-FTU, em São Paulo, em 2003, mantida pela Ordem Iniciática Cruzeiro do Sul.

Em 1969 veio à tona mais uma obra, segundo ele mesmo “de fôlego”: Umbanda no Brasil. São 368 páginas sintetizando os 7 livros anteriores. Em pouco tempo, o livro esgotou e Seu Matta se consolida como um dos autores mediúnicos mais respeitados no Brasil. Em 1970 publicou seu último livro: Macumbas e Condomblés na Umbanda, trazendo muitas fotos e o registro de vivências místicas e ritualísticas dos cultos afro-brasileiros. Mudou-se para Volta Redonda e passou a dar consultas e palestras na TUO 2 vezes por semana. Em 1977 foi convidado pelo cineasta Rogério Sganzerla para participar do documentário “Ritos Populares: Umbanda no Brasil”, exibido no 23º Festival de Cinema de Turim – Tribute to Rogério Sganzerla, (2005), na Mostra Cinema do Caos CCBB, no Rio de Janeiro (2005) e na “Ocupação Rogério Sganzerla” no Itau Cultural, em São Paulo (2010).

Não tão idoso, mas com a saúde abalada, decidiu voltar a morar em Itacuruçá, em 1984, junto a sua Tenda (TUO) e veio a falecer em 17/4/1988, aos 72 anos. Seus livros e sua trajetória mediúnica redefiniram a Umbanda e deram à religião fundamentos, normas e um sistema de ordenação lógico e racional, sedimentando o conhecimento dos devotos e fiéis que nela expressam sua fé. Além dos devotos, muitos umbandistas e Chefes de Terreiro de várias partes do Brasil procuravam sua Tenda em busca de ajuda ou de uma filiação espiritual que legitimasse a sua própria Entidade.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Santa Dulce

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em Salvador, BA, em 26/5/1914. Religiosa, adotou o nome de Irmã Dulce ao se tornar freira, em 1933, em homenagem a sua mãe falecida quando tinha 7 anos. O pai, Dr. Augusto Lopes Pontes, era dentista e professor da UFBA-Universidade Federal da Bahia. Ainda criança manifestou vocação religiosa e pedia orientação a Santo Antônio para saber se deveria casar ou ser freira. Aos 13 anos, tendo ajudado mendigos, enfermos e desvalidos, decidiu pela vida religiosa e procurou o Convento de Santa Clara do Desterro, mas, não foi aceita devido a idade. Voltou a estudar e foi transformando a casa dos pais num centro de atendimento aos necessitados.

A casa passou a ficar conhecida como “Portaria de São Francisco”. Em 1932 formou-se professora do curso primário e no ano seguinte entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em São Cristovão, Sergipe. Em 13/8/1933, fez profissão de fé e recebeu o hábito de freira. Voltou à Salvador, passou a lecionar no colégio da Congregação e dar assistência aos pobres. Suas atividades não se restringiam apenas a ajudar. Tinha como objetivo criar instituições de auxílio e cooperação. Junto com o frei Hildebrando Kruthaup, fundou a União Operária São Francisco, em 1936, que deu origem ao Círculo Operário da Bahia. A finalidade da União era difundir cooperativas, promover a cultura dos operários e defender seus direitos. Era mantido com o dinheiro arrecadado por três cinemas construídos a partir de doações.

A inciativa deu suporte à inauguração do Colégio Santo Antônio, em 1939, para atender os operários e seus filhos. Hoje o Centro Educacional Santo Antônio (CESA) abriga mais de 300 crianças de 3 a 17 anos, com acesso a cursos profissionalizantes. No mesmo ano invadiu umas casas na Ilha dos Ratos para abrigar os doentes recolhidos nas ruas. Mas logo foram despejados e ela passou a perambular por lugares mais distantes na busca de lugar para abrigá-los. Sem outro espaço, encontrou um local desocupado no Convento, em 1949. Era um galinheiro desativado, que ela transformou em albergue, no qual alojou 70 pessoas. Em apenas 10 anos, esse galinheiro deu origem a Associação Obras Sociais Irmã Dulce-OSID, inaugurada em 1959 e no ano seguinte foi inaugurado o Albergue Santo Antônio. Hoje a OSID é um dos maiores complexos hospitalar com atendimento gratuito do Brasil, com 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários do SUS-Sistema Único de Saúde.

Em 1983 foi ampliado, contando com 400 leitos. O Hospital Santo Antônio atende mais de cinco mil pessoas por dia. Para conseguir mão-de-obra especializada no atendimento, fundou a Associação Filhas de Maria Serva dos Pobres. Em 1980, na visita do Papa João Paulo II, foi convidada a subir ao altar para receber uma bênção especial. O Papa retirou do bolso um rosário, ofereceu-lhe e impulsionou seu trabalho: “Continue, Irmã Dulce, continue!”. Em fins de 1990, passou a sofrer com problemas pulmonares e enfrentou 16 meses de agonia. Foi internada no Hospital Português; em seguida foi transferida para uma UTI do Hospital Aliança, quando ordenou: “Quero morrer ao lado dos pobres”. Assim, foi para o Hospital Santo Antônio, onde passou toda a vida. Em 20/10/1991, recebeu a segunda visita do Papa João Paulo II, que lhe deu a extrema unção. Em 13/3/1992 veio a falecer aos 77 anos e foi sepultada no alto do Santo Cristo, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia.

Posteriormente, foi transferida para a Capela do Hospital Santo Antônio, em cumprimento ao seu desejo. Considerada uma das mais importantes e influentes ativistas humanitárias do século XX, foi indicada pelo presidente José Sarney e pela rainha Silvia da Suécia, para receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1988. Em 2001, foi eleita a “Religiosa do Século XX” numa eleição promovida pela revista “Istoé”. Em 2012, ficou entre as 12 maiores personalidades brasileiras de todos os tempos, numa pesquisa feita pelo SBT-Sistema Brasileiro de Televisão. Em 2014, o Governo da Bahia instituiu a data de 13 de agosto como o Dia Estadual em Memória à Bem Aventurada Dulce dos Pobres. Em 2018 as “Obras Sociais Irmã Dulce-OSID” foi considerada a melhor organização não governamental da Região Nordeste e uma das melhores do Brasil.

No ano seguinte foi canonizada pelo Papa Francisco, mas para o povo de Salvador já era Santa Dulce desde o falecimento, em 1992. O processo de beatificação iniciou em 2000 e passou a tramitar na Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano. A validação jurídica do virtual milagre presente no processo foi emitida pela Santa Sé em junho de 2003, quando ela recebeu o título de Serva de Deus, outorgado pelo Papa João Paulo II. Em 2009, a Congregação anunciou voto favorável reconhecendo-a como ”Venerável”. Tal votação obteve a unanimidade do colégio de cardeais, bispos e teólogos após a análise da “Positio”, um relato biográfico e resumos dos testemunhos dos milagres relatados no processo. Em seguida o Papa Bento XVI aprovou decreto de reconhecimento de suas virtudes. Em 2010 foi realizada a exumação e transferência das “relíquias” para sua capela definitiva, na Igreja da Imaculada Conceição, ao lado da OSID.

A beatificação se deu em maio de 2011, pelo mesmo Papa, por intermédio de Dom Geraldo Magella, em Salvador, último passo para a canonização. A partir daí passará a se chamar “Santa Dulce dos Pobres”, um adjetivo bem apropriado agregado ao seu nome. A canonização se deu em 13/10/2019, com base em 2 milagres certificados. O 1º ocorreu em 2001. Uma paciente, após o parto, apresentava um quadro de hemorragia não controlável e passou por 3 cirurgias num período de 18 horas sem que o sangramento estancasse. Só estancou ao término de uma corrente de orações, proposta por um sacerdote, pedindo a intercessão de Irmã Dulce. O 2º milagre foi a cura de um homem que passou 14 anos cego e passou a sentir fortes dores, devido a uma conjuntivite. Pouco antes de dormir, pediu a Irmã Dulce para que a dor fosse aliviada. Acordou no dia seguinte não apenas aliviado da dor, mas enxergando normalmente. O milagre intrigou os médicos, devido ao fato de mesmo após voltar a enxergar, os exames apontaram lesões que deveriam impedir o sentido da visão.

São quatro as exigências do Vaticano para reconhecimento do milagre e consequente canonização: (1) o fato tem que ser “preternatural”, ou seja, a ciência não consegue explicar; (2) instantâneo, ocorrer logo após a oração/pedido; (3) duradouro e (4) perfeito. A OSID, através de sua Assessoria de Memória e Cultura, contabilizou o recebimento de cerca de 10 mil relatos de graças alcançadas por intermédio da Irmâ Dulce. Sua canonização foi a terceira mais rápida da História (27 anos), atrás apenas de Madre Teresa de Calcutá (19 anos) e do Papa João Paulo II (9 anos). A celebração e festa da canonização em Salvador ocorreu num domingo ensolarado (20/10/2019) na Arena Fonte Nova. No ano seguinte e em todos os outros seu nome é festejado na Bahia todo dia 13 de agosto. Logo após a cerimônia, foram criados o Santuário Santa Dulce dos Pobres, no bairro Roma e a Paroquia de Santa Dulce dos Pobres, no bairro do Saboeiro, em Salvador.

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OS BRASILEIROS: Chico Xavier

Francisco de Paula Cândido Xavier nasceu em 3/4/1910, Em Pedro Leopoldo, MG. Médium, filantropo e reconhecido como o maior líder espírita, contribuiu para tornar o Brasil a pátria do Espiritismo no mundo. Criado numa família humilde de 8 irmãos, ficou órfão da mãe – Maria João de Deus- aos 5 anos. Sem condições de criar os filhos, o pai – João Cândido Xavier- distribuiu-os entre os parentes. Chico foi entregue à sua madrinha, que se mostrou bastante cruel com surras e garfos encravados na barriga, alegando que o “menino tinha o diabo no corpo”. Nesse período já manifestava mediunidade de vidência e teve momentos de consolo em conversas com o espírito de sua mãe católica, que recomendava paciência, resignação e fé.

O pai se casou de novo e a família voltou a se reunir. Na escola escreveu redação para concurso comemorando o centenário da Independência, em 1922, e ganhou menção honrosa. Valeria muito agora sabermos como Chico faria outra redação agora no bicentenário da Independência. Em 2022. As pessoa que têm contato com ele, bem poderiam lhe pedir uma “redação”. Concluiu o curso primário em 1924 e nunca mais frequentou escola. Ainda criança trabalhou em diversas atividades no comércio e continuou tendo visões e comunicações espirituais O pai, não sabendo lidar com o “caso”, encaminhou-o ao pároco, que se tornou conselheiro na solução dos “problemas”, reforçando seu catolicismo. Porém, sem abdicar da religião católica, as visões/comunicações solidificaram o caráter espírita das comunicações mediúnicas.

Em 1927 passou a ler e estudar Kardec e logo fundou o Centro Espírita Luiz Gonzaga. Por essa época começaram a se manifestar alguns poetas da língua portuguesa. No ano seguinte tais poemas foram publicados n’O Jornal, do Rio de Janeiro, e Almanaque de Notícias, de Portugal. Em 1930 prestou concurso e ingressou no serviço público federal como auxiliar de escrevente no Ministério da Agricultura. Em 1931 encontrou seu mentor espiritual Emmanuel, que o informou de sua missão: publicar uma série de 30 livros e que para isso lhe seriam exigidas 3 condições: disciplina, disciplina e disciplina. Em seguida publicou o primeiro livro: Parnaso de além túmulo (1932) pela FEB-Federação Espírita Brasileira. A coletânea de poemas ditados por grandes autores brasileiros e portugueses causou grande repercussão na imprensa e opinião pública.

Na introdução do livro, deixou claro suas intenções: “Não venho ao campo da publicidade para fazer um nome, porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que ainda são estimadas neste mundo”. A partir daí sua fama atravessou fronteiras. O presidente da FEESP-Federação Espírita do Estado de São Paulo, Teodoro Sacco, contou que ele recusou oferta da União soviética, em 1938, interessada em fazer uma conotação do aspecto social da doutrina espírita ao aspecto socializante do marxismo. Ele ficaria lá durante 6 meses e seria remunerado com 500 mil contos de réis, uma fortuna na época. Chico consultou Emmanuel e a resposta foi sucinta: “Se você quiser pode ir, mas eu vou ficar por aqui”. Receber propostas e ajudas foi uma constante em sua vida. Em fins da década de 1940 recebeu vultosa quantia (repassada à FEB para uso caritativo) do empresário Fred Figner, fundador da Casa Edison, pioneiro das gravações de música no Brasil, com o qual manteve amizade. Em 1949, Chico psicografou o livro “Voltei”, ditado pelo “Irmão Jacob”, o espírito de Figner, falecido em 1948. O livro teve várias reedições.

Uma de suas psicografias foi parar nos tribunais e resultou no livro Psicografia perante os tribunais, do advogado Miguel Timponi. Em 1937 publicou o livro Crônicas de além-túmulo, ditado pelo espírito de Humberto de Campos, sem problema algum com a família do escritor. No ano seguinte publicou Brasil: coração do mundo, pátria do evangelho, ditado pelo mesmo autor, numa tiragem de 200 mil exemplares. O sucesso de vendas aguçou o interesse da família em receber os direitos autorais, levando o caso para a Justiça. Após muita discussão jurídica ficou decidido que não cabia ao tribunal se pronunciar sobre a existência ou não da mediunidade. Para concluir, alegou uma obviedade: os direitos autorais só têm validade para as obras escritas pelo autor em vida. Após esse quiproquó, publicou mais alguns livros ditados pelo autor, que passou a se chamar apenas “Irmão X”.

Vale ressaltar que ele foi o “autor” brasileiro de maior sucesso comercial da história com quase 500 títulos publicados, alguns deles traduzidos em diversos idiomas. São mais de 50 milhões de exemplares vendidos, sobre os quais não tinha direito autoral, pois ele não era o autor, reiterava. Tais direitos foram cedidos, em cartório, e encaminhados para cerca de 2 mil instituições de caridade. Em 1943 foi publicado o mais vendido: Nosso Lar, o primeiro de uma série, ditados pelo espírito do médico André Luiz, um clássico da literatura espírita com mais de 2 milhões de exemplares É também o espírito mais conhecido “recebido” pelo médium e um divisor de águas em sua vida. Devido ao fato de ter sido médico em vida, suas obras tratam da saude humana, explicitando mecanismos e reflexões sobre as causas das doenças, fazendo com que a Ciência fosse mobilizada para verificar a veracidade das informações. O resultado da investigação foi publicado na revista “Neuroendocrinology Letters” vol. 34(8):745-755, 2013. Os 5 autores do artigo compararam o conhecimento médico recente com 12 obras de André Luiz, identificando nelas várias informações corretas altamente complexas sobre a fisiologia da glândula pineal, que só puderam ser confirmadas cientificamente cerca de 60 anos após a publicação das obras. Os cientistas ressaltaram que o fato de o médium possuir baixa escolaridade e não ter envolvimento no campo da saúde levanta questões profundas sobre as obras serem ou não fruto de comunicação espiritual.

A vidência do médium suscitou também casos engraçados, como o ocorrido com os repórteres David Nasser e Jean Manzon, em 1944, numa reportagem para a revista “O Cruzeiro”. Fingindo serem estrangeiros e com nomes falsos, foram entrevistar e testar se Chico era ou não um farsante. Foram bem atendidos e receberam, de presente, dois livros com dedicatória, que nem repararam. Ao chegarem em casa, Manzon telefonou para Nasser: “Você já viu o livro que o Chico nos deu?”. Foi ver a dedicatória: “Ao meu irmão David Nasser, de Emmanuel”. O mesmo foi escrito no livro dedicado à Jean Manzon. Em 1959 mudou-se para Uberaba, MG, onde passou a atender no centro “Comunhão Espírita Cristã” até 1975, quando fundou o “Grupo Espírita da Prece”. Por essa época conheceu o médium e médico Waldo Vieira, com quem estabeleceu parceria na publicação de 17 livros. Em 1965 os dois viajaram para Washiinton, EUA, afim de diulgar o espiritismo. Auxiliados pelo presidente do “Christian Spirit Center”, Salim Salomão Haddad, estudaram inglês e lançaram o livro The word of the spirits (tradução de Ideal espírita).

Na década de 1970 seu nome já era conhecido em todo o território nacional. A fama foi alavancada com uma entrevista ao vivo na TV Tupi, em 28/7/1971, no programa “Pinga-Fogo”, com diversos jornalistas e estudiosos, muitos deles, não adeptos do espiritismo. O programa, famoso pelo teor de inquirição feita aos entrevistados, teve a maior audiência na história da TV brasileira, obrigando a emissora a continuar a entrevista noutro programa em 21/12/1971. Nesta época sua saúde, já prejudicada com problemas no pulmão, passou a sofrer de angina. Na década seguinte, com mais de 10 mil cartas psicografadas, recebia todos que vinham em caravanas de todos os cantos do País e do exterior para ter notícias de seus parentes falecidos. Algumas destas cartas desvendaram crimes cometidos e foram aceitas como provas judiciais, livrando inocentes da prisão.

Com sua simplicidade e altruísmo tornou-se mitificado em vida. Em 1981 e 1982 foi indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz através de uma lista encabeçada por Augusto César Vanucci, então diretor da Rede Globo, contando com a adesão de 2 milhões de assinaturas. Mesmo doente do pulmão, agravado com a angina, viveu até os 92 anos e faleceu em 30/6/2002. Costumava dizer que iria “desencarnar” num dia alegre em que o País estivesse em festa para que não sentissem sua partida. De fato, o País estava em ebulição naquele dia com a conquista da Copa do Mundo. Faleceu 9 horas após o Brasil vencer a Alemanha num placar de 2 x 0, tornando-se pentacampeão mundial de futebol. Mesmo assim, 120 mil pessoas não comemoraram o título e foram ao seu velório em Uberaba.

Foi homenageado em vida e pós-morte em diversas ocasiões. Recebeu título de cidadão honorário de mais de 100 cidades. Em 1999, o Governo de Minas Gerais instituiu a “Comenda da Paz Chico Xavier”, outorgada anualmente aos que trabalham pela paz e pelo bem estar social. As casas onde morou foram transformadas em museus. Em 2006, numa votação popular através da revista Época, foi eleito o “O Maior Brasileiro da História“. Em 2009, a rodovia BR 050 recebeu seu nome. Em 2010, ano do seu centenário, recebeu selo e cartão postal dos Correios; a Casa da Moeda do Brasil lançou “Medalha Comemorativa”; a Câmara dos Deputados realizou sessão solene; foi lançado “Chico Xavier – O Filme”, baseado na biografia As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior. Em 2016, a Prefeitura de Uberaba criou o “Memorial Chico Xavier”, aberto a visitação publica. Trata-se de um prédio com galerias de exposição, biblioteca, auditório e praças contemplativas.

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OS BRASILEIROS: Faustino Esposel

Faustino Monteiro Esposel nasceu em 24/10/1888, no Rio de Janeiro. Médico sanitarista, neurologista, psiquiatra, professor e esportista na condição de presidente do Flamengo em 3 mandatos e 5 vezes campeão do futebol carioca. Foi um dos pioneiros na pesquisa e estudos da neurologia, além de esportista e conseguir um lugar privilegiado para estabelecer a atual sede e uniforme do Flamengo. É surpreendente tal disposição e maior ainda ao vermos sua reaparição em Espírito 10 anos após na “pele” de André Luiz, conforme certificado por meio do médium –vale a redundância- Chico Xavier.

Filho de João Paiva dos Anjos Esposel e de Maria Joaquina Monteiro Esposel, realizou os primeiros estudos na Escola Alemã; no externato do Mosteiro de São Bento e diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1910, defendendo a tese “Arteriosclerose Cerebral”, obtendo a nota máxima. Pouco depois foi contemplado com uma viagem à Europa, onde foi aluno de Joseph Babinski e Jules Déjerine, dois “papas” da neurologia. Por essa época, candidatou-se a médico do Hospital Nacional de Alienados, dirigido por Juliano Moreira e foi classificado em 1º lugar.

Participou ativamente da Sociedade Brasileira de Neurologia e Psiquiatria em seus primórdios e integrou a “Missão Médica” brasileira, composta por 86 médicos, que foi à Europa em 1918 para auxiliar os feridos na I Guerra Mundial. Representou o Brasil em diversos congressos e reuniões de médicos na Europa e América do Sul e foi secretário-geral da 2ª Conferência Latino-Americana de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, realizada em 1931, no Rio de Janeiro.

Era um estudioso da mente e, ao mesmo tempo, adepto da educação física e aficionado pelo esporte. Assim, encontrou tempo para, além da dedicação à medicina e ao magistério, dedicar-se também aos esportes como dirigente de associações atléticas. Na época em que o futebol ainda não era uma “paixão nacional”, foi presidente do Flamengo em 3 mandatos (1920-1922; 1924-27 e 1928) e venceu 5 campeonatos cariocas. Como dirigente e com algum trânsito político, conseguiu dos prefeitos Antônio Prado Jr. e Alaor Prata, uma área de 34 mil m² às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas para instalar a nova sede do clube. O uniforme que o Flamengo veste hoje foi criado em sua gestão.

De vez em quando licenciava-se do cargo para outros afazeres, como em setembro de 1926, numa viajem à Europa para uma série de conferências. No ano seguinte, entrou para a Academia Nacional de Medicina, apresentando memória intitulada “Em torno do sinal de Babinsky”. Como professor, destacou-se nos cargos de livre-docente e assistente de Clínica de Doenças Nervosas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; professor substituto da Seção de Neurologia e Psiquiatria da mesma; professor de Neurologia na Faculdade Fluminense de Medicina; professor substituto de Medicina Pública na Faculdade de Direito Teixeira de Freitas e docente de Higiene da Escola Normal do Rio de Janeiro.

Como médico esteve à frente de cargos como chefe de Serviço na Policlínica e Sanatório de Botafogo; adjunto do Hospital da Misericórdia; médico da Associação dos Empregados do Comércio. Um velhinho, zelador de um prédio do Rio, que o conheceu, disse agora há pouco que ele era um médico prestativo que atendia gratuitamente pessoas carentes. Na condição de católico, militou na União Católica Brasileira e foi congregado mariano.

Após o falecimento, em 16/9/1931, passou por uns perrengues no plano espiritual e reapareceu como o Espírito de André Luiz. Amargou a “vida” no “umbral” por uns 8 anos; aprendeu um bocado de coisas; trabalhou outro bocado e foi promovido a “Cidadão do Nosso Lar”. Nesta condição foi-lhe concedida a missão de esclarecer os viventes como a vida continua no plano espiritual, como se organiza e como se dão as relações sociais no “outro mundo”, digamos assim.

Seu reaparecimento se deu em 1941, “recebido” (incorporado) pelo médium Chico Xavier. Pouco depois foi publicado o “romance” contando como se dão as coisas no “Nosso Lar” O fato gerou enorme celeuma no meio espírita. Cogitava-se que André Luiz, em vida, seria Oswaldo Cruz; depois cogitou-se que seria Carlos Chagas entre outros. Porém, após exaustiva pesquisa conduzida pelo jornalista e ex-dirigente de um centro espírita no Rio de Janeiro, Luciano dos Anjos, o espírito denominado André Luiz, médico carioca em vida, foi o Dr. Faustino Monteiro Esposel. Tal informação foi confirmada pelo médium Chico Xavier, que tornou-se um dos maiores “receptores” do espírito André Luiz.

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AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento das doenças mentais. Filha do professor e jornalista Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira, realizou os primeiros estudos no Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 16 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente à medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade e prevenção da doença. Após a formatura, em 1926, o casal foi morar no Rio de Janeiro em busca de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antônio Austregésilo, um dos pioneiros no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público para trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha. Nesta época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.

A militância no PCB durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e ficou presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro no seu livro Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias motivaram sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Octávio Inácio etc. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar a melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Assim, foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung. Em 1960 participou como membro e fundadora da “Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression, em Paris.

De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974 se aposentou e fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, para garantir a permanência da instituição, ainda não integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou a crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”. Ferreira Gullar foi outro admirador e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu o “Museu”. Adorava seu caráter rebelde e publicou seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Foi amiga também de Mario Pedrosa, outro crítico de arte e dizia: “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho inspirou a criação de instituições similares em outros estados e no exterior: Museu Bispo do Rosário (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris). O psicólogo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias num mosteiro. “Ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois veio a falecer em 30/10/1999.

Em 2001 o Centro Psiquiátrico Pedro II, onde trabalhou boa parte da vida, passou a se chamar “Instituto Municipal Nise da Silveira”, o conhecido hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro. Foi homenageada em vida por diversas entidades: troféu “Golfinho de Ouro”, do Museu da Imagem e do Som (1971); “Personalidade Global Feminina”, da Rede Globo (1981); nina “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo MRE (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação (1993) entre outras. Algumas biografias foram publicadas, com destaque para Nise Arqueóloga dos Mares (2008), de Bernardino Carneiro Horta e Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde (2014), de Luiz Carlos Mello, curador do Museu do Museu de Imagens do Inconsciente.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Franco da Rocha

Francisco Franco da Rocha nasceu em Amparo, SP, em 23/8/1864. Médico psiquiatra, escritor, jornalista, ornitólogo e um dos pioneiros no tratamento de doenças mentais no Brasil. Foi também precursor da psicanálise, tendo inspirado e amparado Durval Marcondes, considerado fundador do movimento psicanalítico brasileiro, além de ter idealizado, fundado e dirigido o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, durante 25 anos (1898-1923).

Diplomado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1890, concluiu o curso como interno (médico-residente) na Casa de Saúde Doutor Eiras. Vale ressaltar que Juliano Moreira e ele foram os primeiros médicos a se dedicarem integralmente à pesquisa e tratamento das doenças mentais no Brasil e construírem as duas primeiras instituições permanentes de tratamento destas doenças no Rio de Janeiro e em São Paulo respectivamente. Tais instituições foram criadas quase ao mesmo tempo em dezembro de 1852: “Hospício D. Pedro II”, no dia 5, no Rio de Janeiro e “Asilo Provisório de Alienados da Capital de São Paulo”, no dia 14. No Rio de Janeiro, o “hospício” logo foi instalado em majestoso prédio próximo ao centro da cidade; já em São Paulo foi instalado provisoriamente e só veio a ter sede definitiva em 1896, através do empenho de Franco da Rocha.

Com apoio dos governos de Cerqueira César e Bernardino de Campos, Dr. Franco conseguiu instalar a sede projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo, num amplo espaço de 170 hectares às margens do Rio Juqueri nos arredores da zona norte da capital. A construção e o desenvolvimento do Hospício Juqueri transformou radicalmente a região, tornando-a no Município de Franco da Rocha, criado em 1934. Em meados do século XX chegou a ser o maior hospital psiquiátrico da América Latina. O “Hospício” foi inaugurado em 1898 e no ano seguinte ele se mudou para o local junto com a esposa -Leopoldina Lorena Ferreira- e tiveram 6 filhos. Passou boa parte da vida residindo naquele espaço bucólico, onde desenvolveu o gosto pela ornitologia, vindo a escrever um opúsculo sobre o pássaro tico-tico. Foi o primeiro professor de Neuriatria e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo, proferindo sua aula inicial, em 1919, sobre a psicanálise freudiana. Assim, foi pioneiro na introdução de Freud no Brasil. No ano seguinte publicou o livro O Pansexualismo da Doutrina de Freud, republicado em 1930 como A Doutrina de Freud. O tema despertou o interesse de seu aluno Durval Marcondes, que obteve seu apoio na iniciativa de fundar, em 1927, a primeira instituição latino-americana voltada ao estudo e a divulgação da psicanálise: a Sociedade Brasileira de Psicanálise-SBP, da qual, além de cofundador, foi o primeiro presidente. Mais tarde, quando se aposentou, as relações entre Marcondes e o meio psiquiátrico tornaram-se mais difíceis, o que veio favorecer posteriormente que a SBP acolhesse membros não médicos.

No Juqueri, instituiu o regime de liberdade para os doentes mentais. Na rotina hospitalar, introduziu a terapêutica ocupacional laborativa nas diversas modalidades, especialmente no setor agrícola. Implantou pela primeira vez na América do Sul, em 1908, o sistema de assistência familiar, com a instalação de pacientes em ambiente doméstico, aos cuidados de sitiantes da região no perímetro do hospício. Pouco depois acrescentou 5 colônias autônomas, um pavilhão para menores anormais e um laboratório de Anatomia Patológica. Depois insistiu para que fosse construído um Manicômio Judiciário, reservado aos alienados criminosos, concretizado mais tarde, em 1927. Na área de estudos, pesquisou a psicose maníaca-depressiva e a paranoia, também estudada por Juliano Moreira e Afrânio Peixoto. Passou em revista o quadro da epilepsia psíquica, na ausência de crises motoras, acarretando tantas vezes reações violentas e anti-sociais e as manifestações polimorfas da histeria.

Segundo os colegas, “tinha pelos insanos uma profunda meiguice, uma ilimitada paciência, uma enorme dose de simpatia e piedade”. Segundo ele próprio: “Desdobrar a minha atividade em proveito dos infelizes que carecem de conforto, foi para mim um grande prazer durante a parte mais forte da minha existência”. Costumava advertir: “Nunca se deve contrariar o delírio dos doentes. Devemos sempre nos adaptar ao seu meio, a fim de lhes inspirar confiança. Às vezes é até de boa técnica delirar com eles”. Certa vez, uma paciente delirante, no saguão do Hospício, relutava em ser internada. Declarava que ”daquele salão de baile na Corte, onde se encontrava, ela, uma princesa, só poderia retirar-se dançando ao som daquela música que a orquestra executava”. Ele atendeu-a pacientemente e com uma reverência, pediu-lhe: “Dá-me a honra, alteza, desse minueto?. A paciente satisfeita e feliz, de braço dado com ele, em movimentos de dança, entrou no Hospício. Em 1928, por iniciativa de discípulos e amigos, foi erguido seu busto de bronze no saguão do Hospital. Conta-se, que um velho negro, dos mais antigos do Hospital, sempre se ajoelhava e orava diante do busto de Franco da Rocha. Quando o advertiram de que o busto não era de um santo, mas do diretor, respondeu: “Bem sei disso. Mas é isso mesmo, ele é santo e é o nosso santo. Por isso, não deixo de rezar cada vez que posso junto dele”.

Alguns estudiosos afirmam que, embora muito citado, poucos se debruçaram sobre sua produção intelectual, limitando-se a uma análise superficial de sua biografia, a qual teria sido marcada pela fundação e administração do Hospital do Juqueri. Porém, é na sua produção de livros, artigos e ensaios publicados em revistas nacionais e estrangeiras que se encontra uma fértil seara emblemática de sua eloquência e sagacidade, a qual sugere sua atuação como mais um pensador social dentre os nomes da medicina brasileira na passagem do século XIX para o XX. Segundo Yolanda C. Forghieri, ele foi um dos pioneiros da Psicologia Social no Brasil, tendo estudado as desordens mentais das multidões, os transtornos psíquicos relacionados à raça negra, as epidemias de loucura religiosa. É considerado, também, um dos formuladores da nossa Psiquiatria Forense, pontificando acerca das questões médico-legais relacionadas com os distúrbios da mente. Tais contribuições ficaram registradas no livro Esboço de psiquiatria forense, publicado em 1904 e traduzido para o alemão.

Como escritor não deixou muitos livros; preferia uma comunicação mais direta com o público. Era um jornalista vocacionado e divulgou noções de psiquiatria e áreas correlatas, através de numerosos artigos na imprensa leiga, colaborando nos jornais “O Estado de São Paulo” e “Correio Paulistano”, durante 30 anos. Mas não descuidava da área científica e contribuiu com um capitulo no Tratado Internacional de Psicopatologia, organizado por P. Marie, publicado em princípios do século passado, além de inúmeros artigos nas revistas técnicas nacionais e estrangeiras. Após sua aposentadoria, em 1923, passou a colaborar mais permanente com os jornais e revistas e faleceu em 8/11/1933.

Era um homem culto, dominava diversos idiomas e leitor voraz de obras literárias e sociológicas. Manteve contatos com a turma de Semana de Arte Moderna de 1922 e chegou a receber Mario de Andrade no Juqueri para umas experiências musicais com os pacientes. Foi através desse convívio com os escritores e artistas que ingressou Academia Paulista de Letras em 1930. O sociólogo Paulo Silvino Ribeiro publicou em 2010, nos “Cadernos de História da Ciência” extenso artigo: Franco da Rocha e publicação de suas ideias: uma análise do meio social na explicação etiológica da loucura, onde sintetiza sua atuação e sua representatividade no cenário nacional: “Se a medicina contribuiu para a institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, é certo que a Psiquiatria seria um dos ramos que a representou neste processo, tendo na figura de Franco da Rocha um dos principais nomes nos estudos psiquiátricos na passagem do século XIX para o XX”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Juliano Moreira

Juliano Moreira nasceu em Salvador, BA, em 6/1/1872. Médico psiquiatra e pioneiro ao incorporar a teoria psicanalítica no ensino da medicina. Reconhecido como “fundador da psiquiatria brasileira” por ter revolucionado as concepções e métodos da psiquiatria no Brasil. A revista alemã “Psychiatrische Neurologische Wochenschritf” nº 27, de out./1910, publicou a galeria dos grandes psiquiatras do mundo, onde ele foi o único americano participante.

Filho do português Manuel Moreira do Carmo Jr. e da descendente de escravos Galdina Joaquim do Amaral, empregada doméstica do Barão de Itapuã -Luís Adriano Alves de Lima Gordilho-, renomado médico baiano. São escassas as informações sobre sua infância, mas sabe-se que desde o nascimento conviveu com a família do Barão, um dos diretores da FAMEB-Faculdade de Medicina da Bahia. Na condição de “afilhado” do Barão, pode ingressar no curso de medicina aos 14 anos. No 5º ano (1890) foi interno da Clínica Dermatológica e Sifilográfica e no ano seguinte graduou-se com a tese “Sífilis maligna precoce”, divulgada e elogiada no exterior, no “Journal des Maladies Cutanées et Syphilitiques” e nos “Annales de Dermatologie e Syphiligraphie”. Foi o primeiro pesquisador a identificar a leishmaniose cutâneo-mucosa,

No período 1893-1903 foi alienista e médico-adjunto do Asilo São João de Deus, vinculado à Santa Casa. Em 1896 participou do concurso para professor da FAMEB, enfrentando uma banca examinadora composta de escravocratas. Sob aplausos, apresentou sua tese oral “Disquinesias Arsenicais” e o texto sobre “Meopatias Progressivas”. As provas foram acompanhadas com a presença maciça de estudantes que temiam algum ato que o impossibilitasse de vencer o concurso. No dia do resultado do concurso, o Terreiro de Jesus fervilhava de gente à frente dos portões da Faculdade. Quando viram o resultado, ele obteve 15 notas máximas. Com apenas 24 anos superou concorrentes poderosos e tornou-se o mais jovem professor da FAMEB. A festa de comemoração do mérito sobre o preconceito se estendeu até o Pelourinho.

Participou da “Escola Tropicalista da Bahia” e contribuiu por 10 anos na redação da revista “Gazeta Médica da Bahia”. Liderou uma turma de jovens médicos na fundação da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia, numa luta constante conta o “racismo científico”. Acreditava-se que a miscigenação era a causa da degeneração do brasileiro; que essa mistura e o clima tropical eram causadores das doenças, incluindo as mentais. Juliano combatia tais ideias evolucionistas dominantes, afirmando a necessidade de eliminar preconceitos de cor e casta, e promover um trabalho de higienização mental dos povos. Chegou a ter duros embates com seu colega Nina Rodrigues, que seguia o pensamento vigente. Defendia suas ideias de forma educada e cortês utilizando a ciência em defesa das minorias excluídas, sem o sentimento de inferioridade que sua mestiçagem pudesse sugerir. Mantinha um ritmo de trabalho intenso além de contribuir com diversas revistas nacionais e estrangeiras especializadas.

No período 1895-1902 fez uma série de viagens à Europa para tratar de uma tuberculose crônica, aproveitando a ocasião para alguns estágios e visitas à clinicas psiquiatras e manicômios. Em 1900 participou do Congresso Médico Internacional, em Paris, e no ano seguinte foi eleito, mesmo ausente, Presidente de Honra do IV Congresso Internacional de Assistência aos Alienados, em Berlim. Em 1903, tendo Rodrigues Alves como presidente, foram empreendidas profundas reformas no País. O baiano José Joaquim Seabra foi nomeado Ministro do Interior e Justiça; o Barão do Rio Branco assume a pasta das Relações Exteriores. O País passava por mudanças estruturais.

Pereira Passos, prefeito do Rio, iniciou uma “revolução” urbanística e sanitária na Capital Federal, tendo Oswaldo Cruz na linha de frente, impondo a vacinação obrigatória, que resultou na “Revolta da Vacina” em 1904. Foi nesse contexto que ele esteve no Rio de Janeiro e não voltou mais à Salvador. Numa articulação de Afrânio Peixoto com o Ministro Seabra, foi convidado, aos 30 anos, para dirigir o Hospital Nacional de Alienados. Dá inicio a uma nova fase na história da saúde mental no Brasil. Enquanto Oswaldo Cruz comanda uma “revolução” na saúde contra as epidemias, ele comanda outra na saúde mental contra o tratamento desumano praticado nos asilos. Sua primeira providência foi mudar a vetusta sala do Diretor para uma simples sala no térreo e passa a morar no Hospital. Recebia todos que o procuravam, sem cerimônia. Em 1914 recebeu um paciente famoso -o escritor Lima Barreto-, de quem recebeu o comentário: “Na 2ª feira, antes que meu irmão viesse, fui à presença do Dr. Juliano Moreira. Tratou-me com grande ternura, paternalmente, não me admoestou, fez-me sentar a seu lado e perguntou-me onde queria ficar. Disse-lhe que na seção Calmeil. Deu ordens ao Santana e, em breve, lá estava eu.”

Como medida institucional, manteve contatos com o Ministro Seabra no intuito de garantir assistência aos necessitados. Com isto foi promulgado o Decreto nº 1132, de 22/12/1903, (Lei Federal de Assistência a Alienados). No âmbito interno do hospital, promoveu mudanças significativas: retirou grades das janelas e eliminou as camisas de força; implantou oficinas artísticas; construiu um pavilhão dedicado ao trabalho dos internos; organizou uma biblioteca para uso dos pacientes e funcionários; mudou o foco da psiquiatria francesa, copiada integralmente, para a alemã, adaptada à nossa cultura etc. Com dedicação integral e intensa ao trabalho, descuidava-se de sua saúde comprometida por uma tuberculose crônica.

Em 1905, junto com Afrânio Peixoto e outros, fundou a revista “Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins”. 2 anos após, junto com 40 colegas, fundou a Sociedade Brasileira de Neurologia Psiquiatria e Medicina Legal, cujo objetivo era “fazer uma grande propaganda em favor da melhora da sorte dos alienados”. Em seguida representou o Brasil no Congresso de Medicina de Portugal, onde manteve contatos com Julio Dantas, médico que defendeu a tese “Pintores e Poetas Rilhafoles”, inspirado nas manifestações artísticas dos pacientbes em hospitais psiquiátricos. Trouxe estas experiências para o Brasil, que mais tarde viriam incentivar os trabalhos de Nísia da Silveira.

Participou de diversos congressos médicos na Europa: Milão (1907), Ansterdam (1908), Viena (1908), Londres (1909) Budapeste (1910) Em 1911 foi nomeado diretor da Assistência Médico-Legal de Alienados e na sua gestão (acumulada com a direção do Hospital) criou o Manicômio Judiciário e envidou esforços para a aquisição do terreno, construção e fundação da Colônia Juliano Moreira. Em 1925 comandou uma comitiva recepcionando Albert Einstein em Visita ao Hospital. Em 1928 foi convidado por 4 universidades japonesas para fazer conferências e foi condecorado com a “Ordem do Tesouro Sagrado” pelo Imperador Hiroito. No mesmo ano criou a Seção Rio de Janeiro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, fundada em 1927 pelo Neuropsiquiatra Franco da Rocha, em São Paulo

Impressionante sua capacidade de trabalho, mesmo doente. Dirigiu o Hospital durante 27 anos, até 1930 e ainda encontrou tempo para fundar e dirigir a Academia Brasileira de Ciências no período 1926-29. Com a instauração do “Estado Novo”, em 1930, foi destituído da direção do hospital e aposentado. Seu legado é de 112 artigos científicos publicados no âmbito nacional e internacional, comprovados na dissertação de Vera Portocarrero “Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da psiquiatria” (2003) e na pesquisa realizada pelo IFB-Instituto Franco Basaglia “Fontes primárias e secundárias relativas a Juliano Moreira”. Faleceu em 2/5/1933, pobre, contando com ajuda de amigos na tentativa de sobreviver a doença que o castigara durante anos. Em sua homenagem, o Governo da Bahia criou em 1936 o Hospital Juliano Moreira, onde é mantido um projeto de museu dedicado à sua memória: “Memorial Prof. Juliano Moreira”.

No dia seguinte ao falecimento, o Jornal do Brasil publicou o necrológio “O Brasil (…) não pode avaliar o que perde com o desaparecimento, ontem, do sábio Juliano Moreira. Grande entre os maiores psiquiatras do país, com um renome e uma fama que ultrapassaram as fronteiras brasileiras para fulgurar nos centros científicos mais adiantados do mundo. Juliano Moreira devotou à ciência toda a sua vida e toda a sua dedicação (…) mais tarde, teremos então ideia de quanto perdemos com a sua morte”. Nas biografias que temos publicado aqui, é comum reclamarmos a falta de uma filmografia sobre os ilustres brasileiros. No caso de Juliano Moreira, reclamamos, também, a falta de uma biografia.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILERIAS: Anália Franco

Anália Franco Bastos nasceu em 1/2/1853, em Resende, RJ. Educadora, jornalista, escritora, dramaturga, poeta e filantropa destacada nas áreas da educação e assistência social. Dedicou toda a vida a criação de instituições assistenciais e de ensino: mais de 74 escolas. 23 orfanatos, 2 albergues, creches, orquestra, grupo teatral e diversas oficinas manufatureiras dedicadas às mulheres carentes.

Teve os primeiros estudos em casa, com a mãe professora. Em 1861, a família mudou-se para o interior de São Paulo. Aos 15 anos entrou no magistério como professora auxiliar de sua mãe e pouco depois recebeu permissão para lecionar como professora primária. Em 1872, aos 19 anos, foi aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo, num concurso para professora, mas decidiu ficar no interior. Tal decisão selou seu destino de assistencialista pelo resto da vida. Devido a “Lei do Ventre Livre”, de 28/9/1871, que tornava livre os filhos de escravas nascidos a partir daquele ano, as crianças ficavam sob a custódia das famílias, onde nasciam até os 8 anos.

O Estado delegou aos senhores de escravos esta tarefa sem compensação alguma, ocasionando abusos, descaso e até expulsão dos escravos, com os filhos, de suas terras. Sem condições de se manterem, muitos deles se tronavam mendigos perambulando pelas ruas com suas crianças. Anália passou a redigir cartas para as senhoras fazendeiras, pedindo que amparassem essas crianças, ao mesmo tempo em que criou sua primeira instituição assistencial: a “Casa Maternal”, em Jacareí, uma escola pública. O local foi oferecido por uma das fazendeiras à quem ela pediu para amparar as crianças. A oferta trazia no bojo uma condição explicitada pouco depois: não misturar negros e brancos. Anália não aceitou a proposta, recusou a oferta e passou a pagar aluguel pela casa. A fazendeira não gostou da ousadia e providenciou sua expulsão do local.

Em seguida mudou-se para a capital, onde criou uma escola pública e abrigo para crianças. Depois, com o apoio dos abolicionistas e republicanos, conseguiu implantar mais algumas dessas instituições em São Paulo. Com a abolição da escravatura (1888) e proclamação da República (1889), seu trabalho avançou com a criação de dois colégios gratuitos para meninos e meninas. Em 1898 criou sua própria revista –“Álbum das Meninas”-, a partir das colaborações que já fazia para outras revistas: “A Família”, “A Mensageira” e “O Eco das Damas”. Era uma revista mensal literária e educativa voltada às jovens. Em 1901, junto com 20 senhoras, fundou a AFBI-Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, destinada a apoiar mulheres e crianças em condições precárias. Com isso, conseguiu criar mais escolas públicas e o “Albergue Diurno para os Filhos de Mães Jornaleiras”, um dos braços da AFBI. Logo, pode se dizer que foi a pioneira na criação de creches públicas. Seu lema era “A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar”.

Com ajuda de alguns políticos paulistas, notadamente do Senador Paulo Egídio, conseguiu adquirir a Chácara Paraíso, 75 alqueires de terra na Zona Leste de São Paulo, ao lado do bairro Tatuapé, que pertenciam ao padre Diogo Antônio Feijó, regente do Império no período 1835-37. Neste espaço, instalou a AFBI e fundou a Colônia Regeneradora Dom Romualdo, afim de abrigar e regenerar centenas de mulheres consideradas “desviadas”, como prostitutas ou que engravidavam fora do casamento. 6 anos após fundada, a instituição mantinha 22 escolas maternais e 2 noturnas na capital e 5 no interior. Cerca de 2 mil crianças pobres estavam matriculadas em todas as unidades. Após seu falecimento, o local passou por alguns melhoramentos, foi encampado pela Prefeitura e foi sendo ocupado pela população que para lá se estendia, tornando-se numa das regiões mais habitadas da capital. Pouco depois, foi criado o Jardim Anália Franco, que a partir da década de 1980 recebeu grandes investimentos imobiliários e tornou-se uma “área nobre” residencial na Zona Leste.

Seu empreendimento educacional precisava de muitas professores. Em 1902, criou o “Liceu Feminino”, afim de instruir e preparar professoras para a direção e ensino nas escolas que iam sendo criadas. Nesse meio tempo, publicou diversos livros, folhetos e tratados sobre o processo pedagógico, como o “Novo Manual Educativo”, contendo capítulos especiais sobre a juventude e adolescência. No ano seguinte, passou a colaborar na revista mensal “A Voz Feminina”. Vale ressaltar que tais atividades não tinham cunho religioso. Diziam que ela professava a religião espírita, mas isto era questão de foro íntimo, não estava explícito em seus trabalhos assistenciais. Mesmo assim, foi combatida por jornais católicos da época, dizendo que seu trabalho era algo “perigoso para o sentimento religioso das crianças”.

Seu legado bibliográfico é composto de obras pedagógicas e 3 romances: “A Égide Materna”, “A Filha do Artista” e “A Filha Adotiva”; peças teatrais; e várias poesias, como “Hino a Deus”, “Hino à Ana Nery”, “Hino a Jesus”, “Minha Terra” entre outras. Sua última obra assistencial foi o Asilo Anália Franco, no Rio de Janeiro, concluído pelo marido –Francisco Antônio Bastos- após seu falecimento, em 20/1/1919, vitimada pela gripe espanhola de 1918. “Não teve filhos, mas foi uma grande mãe”. Assim foi descrita por Adalzira Bittencourt no livro “A mulher paulista na história”, publicado em 1954. Dentre suas biografias, vale ressaltar o livro “Anália Franco: a grande dama da educação brasileira”, extenso trabalho de pesquisa realizado por Eduardo Carvalho Monteiro e publicado em 2004, na comemoração dos 450 anos de São Paulo.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Gaspar Vianna

Gaspar de Oliveira Vianna nasceu em Belém, PA, em 11/5/1885. Médico sanitarista e cientista descobridor da cura da leishmaniose. Foi um dos primeiros jovens pesquisadores, arregimentado por Oswaldo Cruz na criação do Instituto Soroterápico, que resultou na FioCruz. Devido as circunstâncias em que veio a falecer, é considerado mártir da ciência.

Filho de Manoel Gomes Vianna e Rita Nobre Vianna, ficou órfão de pai ainda criança. Teve sólida formação educacional e aos 15 anos já havia concluído os cursos primário e secundário no colégio São José e no Lyceu Paraense. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1903, a fim de estudar medicina e encontrou a cidade envolta em duas “revoluções” que se alimentavam reciprocamente: uma urbanística e outra sanitária. Uma sob o comando do prefeito Pereira Passos e outra comandada pelo médico Oswaldo Cruz, ambos designados pelo presidente Rodrigues Alves

Concluiu o curso, em 1909, com a apresentação da tese “Estrutura da célula de Schwann nos vertebrados”, estudo pioneiro na área de pesquisas histolológicas sobre “neurofibrilas”. Durante o curso chamou a atenção do professor de histologia Eduardo Chapot Prévost, tornando-se seu assistente informal, ajudando os colegas em dificuldades na matéria. Lá encontrou seu conterrâneo Bruno Álvares da Silva Lobo, com quem publicou o livro “Estrutura da célula nervosa”. No 4º ano do curso abriu, junto com o irmão, um laboratório de análises próximo â Santa Casa, cuja enfermaria passou a frequentar e realizar necropsias em seu laboratório. Em 1906, quando Rocha Lima deixou o Instituto Soroterápico e voltou à Alemanha para aprofundar seus estudos, ele foi convidado por Oswaldo Cruz para remediar esta ausência, trabalhando na Seção de Histopatologia.

No ano seguinte ingressou, por concurso, no Hospital Nacional de Alienados, dirigido por Juliano Moreira. Logo após a formatura, foi promovido a chefe da Seção de Anatomia Patológica do Instituto Oswaldo Cruz e prosseguiu na carreira acadêmica. Conquistou o título de Livre Docência em Anatomia Patológica, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1913, e passou a reger a cadeira de Histologia Normal da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária do Ministério da Agricultura.

Em 1909, foi convidado por Carlos Chagas para fazer a caracterização histopatológica do recém-descoberto Trypanosoma cruzi. Tal estudo da anatomia patológica da doença de Chagas era essencial para a confirmação do quadro clínico da doença e sua aceitação como nova entidade nosológica. A importância desse estudo ficou na penumbra devido ao sucesso da descoberta da Doença de Chagas. Mas, felizmente, foi publicado em 1911 e até hoje permanece como exemplo de descrição minuciosa ainda atual no estudo do sistema nervoso central na fase aguda da doença.

Pesquisou, também, os Trypanosoma gambiense, T. equinum, T. equiperdum e T. congolense. Com base nestas pesquisas, descreveu uma nova espécie de Leishmania, denominando-a braziliensis, em 1911, responsável pela úlcera de Bauru ou leishmaniose tegumentar americana. Em 1912, propôs um tratamento específico pela injeção venosa do tártaro emético ou antimonial, que era eficaz para conter a enfermidade, abrindo caminho para o uso da substância também no granuloma venéreo e na esquistossomose. Com isto se deu o início da quimioterapia anti-infecciosa. O trabalho foi publicado em alemão e teve repercussão mundial. Em sua tese de livre docência – Moléstia de Posadas-Wernicke. Lesões apendiculares -, descreveu a “blastomicose brasileira” ou paracoccidioidomicose (doença de Lutz, Splendore & Almeida) e não a coccidioidomicose (doença de Posadas & Wernocke), numa época em que o próprio Adolfo Lutz (1908), incorrera neste engano, ao descrever a doença. Pela primeira vez, ele traçou todo o quadro clínico e anatomopatológico da doença de Lutz.

Como se vê, era um jovem e promissor cientista. Em apenas 6 anos (1908-1914) publicou 23 trabalhos científicos de envergadura nas áreas: histologia, protozoologia, zoopatologia, microbiologia e anatomia patológica, micologia e quimioterapia. Em abril de 1914, enquanto fazia necropsia do cadáver de uma vítima de tuberculose, fez uma incisão no tórax em ponto onde, ele não sabia, havia grande quantidade de líquidos contaminados sob grande pressão torácica. Aberta a incisão, um jato contaminado atingiu sua boca, causando grave infecção tuberculosa que evoluiu para granulia e meningite, vindo a falecer 2 meses depois em 14/6/1914, aos 29 anos.

Em Belém, um decreto estadual celebrou o seu nascimento, 5 de maio, como “Dia de Gaspar Vianna” e, em 2001, nas comemorações do 25º aniversário da TV Liberal, de Belém, ele foi eleito “Paraense do Século XX”, pela descoberta da cura da Leishmaniose, que ajudou a salvar milhões de pessoas em todo o mundo. Em âmbito nacional, a “Revista do Hospital das Clínicas de São Paulo” inscreveu-o em uma lista dos dez maiores nomes da medicina brasileira no século XX, após enquete entre entidades médicas, científicas e educacionais. Em maio de 2016, a Assembleia Legislativa do Pará em parceria com a Fundação Hospital de Clinicas Gaspar Vianna, lançou um selo postal em comemoração ao seu aniversário. Na ocasião foi lançada, também, uma revista em quadrinhos contando sua curta e profícua trajetória – “Gaspar Vianna: legado de um herói” – para distribuição aos alunos de ensino médio. Um breve ensaio biográfico – “Opera Omnia de Gaspar Vianna – foi escrito por Edgar de Cerqueira Falcão e publicado, em 1962, pela Empresa Gráfica Revista dos Tribunais.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Auta de Souza

Auta de Souza nasceu em Macaíba, RN, em 12/9/1876. Poeta, professora e figura destacada na religião espírita. Integrante da segunda eração romântica, com alguma influência simbolista, foi considerada por Luís da Câmara Cascudo, a “maior poetisa mística do Brasil”. Seu nome encontra-se estampado em diversas instituições espíritas em todo o País. Sua vida constitui-se numa bela história de superação ocorrida no País.

Filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues, ficou órfã aos 3 anos, com a morte da mãe e aos 4 do pai, vitimados por uma epidemia de tuberculose que assolava o País. Foi criada pela avó materna Silvina Maria Paula Rodrigues, numa chácara no Recife, Aos 11 anos ingressou no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras francesas, e tornou-se ledora compulsiva de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubrind e Fenélon no original, além de muita literatura religiosa. Em 1890 retornou com sua avó para Macaíba.

Aos 14 anos foi também atingida pela epidemia de tuberculose e interrompeu os estudos no Colégio, mas prosseguiu estudando como autodidata. Participou da “União Pia das Filhas de Maria” e ministrou aulas de catecismo, ao mesmo tempo em que escrevia poemas religiosos. Na opinião do crítico Jackson Figueiredo, era uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do Pais. Começou a publicar seus poemas aos 16 anos, quando passou a frequentar o “Club do Biscoito”, associação de amigos que promovia reuniões dançantes e saraus, recitando Casimiro de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias e autores potiguares.

Em 1894 passou a colaborar com a revista “Oásis” e 2 anos depois já colaborava com “A República”, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade na imprensa nacional, incluindo O Paiz, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, passou a escrever assiduamente para A Tribuna, de Natal.. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum naquela época. Colaborava também nos jornais “A Gazetinha”, de Recife, no jornal religioso “Oito de Setembro”, de Natal, e na “Revista do Rio Grande do Norte”.

Em 1895 conheceu o promotor público de Macaíba, João Leopoldo da Silva, de quem ficou enamorada durante um ano. Mas ele veio a falecer devido a tuberculose, que acompanhava seus passos desde a infância. Tal frustração amorosa, junto à orfandade e à religiosidade ficaram marcadas em sua obra poética. Seu único livro – Horto -, publicado em 1900, foi prefaciado por Olavo Bilac e foi republicado diversas vezes, inclusive em Paris. O livro foi bem recebido pela crítica e pelo público, cuja edição esgotou-se em 2 meses. A edição de 1936 foi prefaciada por Alceu de Amoroso Lima e boa parte dos (14) poemas foram musicados.

Faleceu em 7/2/1901, vitimada pela tuberculose, e foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal.. Em 1904 seus restos mortais foram transferidos para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba. Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a cadeira nº 20, em reconhecimento à sua obra. Em 12/9/2008, na comemoração de seu nascimento, foi laçado o documentário “Noite Auta, Céu Risonho”, dirigido por Ana Laurentina Ferreira Gomes, produzido pela TV Universitária em parceria com o Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Riograndenses.

Em 1953, foi criada em São Paulo, por Nympho de Paulo Corrêa, a Campanha de Fraternidade, que mais tarde passou a se chamar “Campanha de Fraternidade Auta de Souza’, realizada em centenas de centros espíritas em todo o País e no exterior. O espiritismo tem cultivado sua obra composta de poemas póstumos. Chico Xavier psicografou o livro Auta de Souza, com sonetos atribuídos ao seu espírito, além de outros poemas publicados no livro Parnasso de além-túmulo (1932). Em 2016 foram musicados, por Carlinhos Santa Rosa, 11 sonetos de sua autoria, psicografados por Chico Xavier e gravados no CD “Presença do Amor”. Sua vida e obra foi escrita em algumas biografias, das quais destacam-se A vida breve de Auta de Souza (1961), de Luís da Càmara Cascudo; Auta de Souza (1991), de Diniz Ferreira da Cruz e Auta de Souza (1924), de Jackson de Figueiredo.