JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Vilanova Artigas

João Batista Vilanova Artigas nasceu 23/6/1915, em Curitiba, PR. Engenheiro, Arquiteto, urbanista, professor e líder da “Escola Paulista”, de importância fundamental na formação de uma geração de arquitetos brasileiros. Foi um dos fundadores da FAU-Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e autor do projeto de reforma curricular, na década de 1960, dando novos rumos à profissão, com a inclusão do desenho industrial e programação visual no exercício da arquitetura.

Ainda estudante universitário, frequentou o curso de desenho artístico da Escola de Belas-Artes, travando contato com artistas do “Grupo Santa Helena”, como Alfredo Volpi, Francisco Rebolo e Aldo Bonadei. Tal convivência influenciou seu trabalho como arquiteto. Formou-se engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da USP em 1937, onde o ensino da arquitetura se dá a partir da engenharia e não das belas artes, como ocorreu no Rio de Janeiro. Foi estagiário na Construtora Bratke e Botti e pouco depois, junto com Duilio Marrone, abriu sua empresa de projeto e construção, a “Artigas & Marone Engenheiros”. Em 1944 montou seu próprio escritório de arquitetura, tendo como parceiro o calculista Carlos Cascaldi. Enquanto desenvolve os projetos, tornou-se professor da Escola Politécnica e engajou-se no processo de regulamentação da profissão de arquiteto.

Junto com outros colegas, criou em 1943 a representação do IAB-Instituto dos Arquitetos do Brasil, em São Paulo. A partir daí dá-se o envolvimento com a política e no ano seguinte filiou-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro. Em 1946 ganhou bolsa de estudos da Fundação Guggenheim e passa 13 meses estudando e viajando pelos EUA. De volta ao Brasil, em 1948, liderou um grupo de arquitetos na criação da FAU/USP, onde passou a lecionar. Entenda-se “criação” no sentido literal, pois é de sua autoria o projeto da nova sede da FAU, que hoje leva seu nome. No pós-guerra e na medida em que a Guerra Fria avança, seu discurso ideológico vai se acentuando nos textos que escreve para a revista “Fundamentos”, ligada ao PCB: “Le Corbusier e o imperialismo” (1951), e “Os caminhos da arquitetura moderna” (1952).

Pouco depois, foi conhecer a União Soviética e ficou desencantado com a arte e arquitetura do “Realismo Socialista”. Passou por uma crise profissional que durou até 1950, e inicia projetos residênciais, tais como as casas de Olga Baeta, Rubem de Mendonça e Taques Bittencourt. Em seguida realiza projetos escolares para o governo de São Paulo, na administração Carvalho Pinto, dando início às relações entre arquitetura moderna e o poder público, pouco comum na época. Nos anos 1950-1952 realizou os projetos da Rodoviária de Londrina (atual Museu de Arte) e do Estádio do Morumbi, do São Paulo Futebol Clube, na época o maior estádio do mundo. Em 1961 realizou alguns projetos, que vieram definir as linhas mestras da chamada “Escola Paulista”: Anhembi Tênis Clube, Garagem de Barcos do Iate Clube Santa Paula e prédio da FAU/USP, sua obra mais acabada e definidora de uma nova arquitetura. No ano seguinte passou a se dedicar ao ensino da arquitetura e propõe inovações marcantes na reforma do currículo, que foram adotadas noutras escolas de arquitetura.

Com o golpe militar de 1964, foi preso por alguns dias e ficou exilado por um ano no Uruguai. Na volta ao Brasil passou a viver na clandestinidade até 1967. Voltou a trabalhar no ano seguinte em projetos públicos, junto com Paulo Mendes da Rocha e Fábio Penteado, na construção do Parque Cecap, em Guarulhos, um enorme conjunto habitacional. Em 1968, com o Ato Institucional nº 5, foi afastado mais um vez da FAU e ficou impedido de atuar plenamente por 10 anos. Nesta etapa difícil da vida profissional foi consolado pela UIA-Union International des Architects com o Prêmio Jean Tschumi, em 1972, por sua contribuição ao ensino da arquitetura. Em 1979, quando se dá a anistia, voltou a lecionar na FAU na condição de professor-assistente.

Por uma ironia do destino ou “advertência”, neste período foi professor de “Estudos de Problemas Brasileiros”, uma disciplina imposta pela ditadura às faculdades como instrumento de incentivo ao nacionalismo. Ele aproveitou a “advertência” e levou à FAU, para dar palestras, alguns intelectuais de esquerda, como o ator Juca de Oliveira, o pintor Aldemir Martins e o cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns. Em 1984 retomou o que lhe era de direto: o posto de professor-titular. No concurso, na forma de arguição, para ocupar o cargo, definiu a essência de sua arquitetura: “Quanto a mim, confesso-lhes que procuro o valor da força da gravidade, não pelos processos de fazer coisas fininhas, uma atrás das outras, de modo que o leve seja leve por ser leve. O que me encanta é usar formas pesadas e chegar perto da terra e, dialeticamente, negá-las.”

Seu retorno às aulas de arquitetura na FAU foi festejado pelos alunos e comunidade acadêmica, mas infelizmente não durou muito, faleceu no ano seguinte, em 12/1/1985. O Brasil perdeu um dos maiores incentivadores do ensino na arquitetura e um dos seus melhores arquitetos. Em quase 50 anos de profissão, deixou cerca de 700 projetos de obras públicas e residências. No mesmo ano a UIA-Union Internationale des Architects, concedeu-lhe mais uma homenagem: o Prêmio Auguste Perret 1985, pelo conjunto da obra. Expressiva parte dessa obra ficou registrada no seu livro Caminhos da arquitetura, publicado numa bela edição da editora Cosac Naify, em 2004, e na sua “Casa Vilanova Artigas”, em Curitiba, aberta ao público.

Informa a crítica que sua arquitetura é derivada da engenharia e não das belas-artes, sintetizada em sua frase “Arquitetura é construção e arte”. Melhor dito, está “expressa na criação de grandes vãos e no amplo emprego do concreto armado e aparente, ressaltando o perfil das estruturas e os esforços a que está submetida”. Revela-se aqui certa influência do arquiteto Oscar Niemayer, que utilizando-se também do concreto armado, enfatizava mais o lado artístico, a beleza plástica em suas obras. Em 2015, ano do centenário de seu nascimento, diversas atividades foram realizadas em sua memória: filme Documentário Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz, dirigido por Laura Artigas e Pedro Gorski; lançamento do livro Vilanova Artigas, de Rosa e Marco Artigas e uma exposição –Ocupação Vilanova Artigas – no Itaú Cultural.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Niéde Guidon

Niéde Guidon nasceu em Jaú, SP, em 12/3/1933. Arqueóloga criadora do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, em 1979 e transformado em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Neste Parque criou também o “Museu do Homem Americano” e o “Museu da Natureza”, em 2018, abertos a visitação pública. Mas seus feitos maiores não foram apenas estes. Sua maior façanha foi ter alargado em mais de 40 mil anos a história da humanidade em solo americano, no Brasil. Trata-se de uma descoberta científica que alguns arqueólogos americanos e europeus vêm relutando aceitar, mas que encontra cientistas dispostos a aceitar suas teses arqueológicas.

Seus primeiros estudos se deram na cidade natal e em Pirajuí, para onde se mudou quando perdeu a mãe aos 6 anos, e em Campinas, onde concluiu o curso colegial. Em 1954 entrou na USP-Universidade de São Paulo e concluiu o curso de História Natural. Foi trabalhar no Museu Paulista, dirigido por Herbert Baldus, que a colocou no Departamento de Arqueologia. Querendo se aprofundar na área e não havendo curso de arqueologia por aqui, foi estudar em Paris. Retornou ao Brasil em 1963 e continuou a trabalhar no Museu Paulista e na USP. No mesmo ano organizou uma exposição de pinturas rupestres e recebeu a visita de um senhor que lhe disse: “Na minha terra tem muitas ‘pinturas de índio’ parecidas com estas”. Ela ficou curiosa e anotou o nome do lugar, São Raimundo Nonato, um lugarejo perdido no sertão do Piauí. Junto com umas amigas foi até lá numa longa viagem de fusca, mas não conseguiram chegar devido a queda de uma ponte.

Em 1964, com o Golpe Militar, perdeu o emprego sem nunca ter se metido em política. Alguém de olho no seu cargo dedurou-a como sendo do Partido Comunista. Voltou à Paris, passou a trabalhar como pesquisadora, fez curso de pós-graduação na Sorbonne; foi professora na École des Hautes Études en Sciences Sociales e desenvolveu uma importante carreira acadêmica em arqueologia. Obteve os maiores títulos da universidade francesa, mas não esqueceu a história dos “desenhos de índios” do Piauí. Em 1973 pode visitar o local junto com seus alunos franceses e ficou deslumbrada com a descoberta da maior concentração de sítios arqueológicos com pinturas rupestres do mundo. Constatou que as pinturas eram mais narrativas, com uma grande quantidade de figuras humanas representadas de modo e gestos diferentes e animais também diferenciados. Segundo ela, “parecia uma história em quadrinhos”.

De volta à Paris entrou em contato com o CNRS-Centre National de la Recherche Scientifique, mostrou fotos do local e ressaltou que era uma região sem nenhuma pesquisa. Assim, conseguiu verba dos franceses para mais uma viagem. Arregimentou colegas da USP para ajudar na empreitada e criou a missão franco-brasileira, dando inicio a exploração cientifica do local. A partir de recursos obtidos junto ao BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento, o trabalho resultou na criação do Parque Nacional Serra da Capivara (decreto nº 83.548, de 5/6/1979), com a finalidade de proteger o mais importante patrimônio pré-histórico do País. Mais tarde o Parque foi ampliado (decreto nº 99.143, de 12/3/1990) com a criação de áreas de preservação permanentes de 35 mil hectares. Desde a época em que trabalhou na USP já era amiga do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde foram grandes apoiadores de benfeitorias no Parque.

Toda essa estrutura tem um sentido maior e deve-se aos estudos arqueológicos iniciados por Niéde, que pretende reescrever a história da povoação das Américas. A teoria mais aceita reza que o homem chegou ao continente pelo estreito de Bering, vindo da Ásia, há 15 mil anos. No entanto, ela achou vestígios no local que datam de mais de 50 mil anos. Os papas da Arqueologia não estão ainda inteiramente convencidos, mas o acúmulo de evidências arqueológicas fortalece cada vez mais suas hipóteses. Pesquisas desenvolvidas no Chile, México e EUA corroboram sua tese. Em 2006 foram divulgadas as pesquisas de Eric Boeda, da Université de Paris, e Emílio Fogaça, da Universidade Católica de Goiás, afirmando que os artefatos encontrados no Parque foram realmente feitos por seres humanos, e possuem idade entre 33 mil e 58 mil anos, contrariando os adversários de sua teoria. Ela acredita que o Homo Sapiens chegou na América, vindo da África atravessando o Atlântico. Conforme explicou: “o mar estava então 140 metros abaixo do nível de hoje, a distância entre a África e a América era muito menor e havia muito mais ilhas”.

O Parque conta com 1.354 sítios arqueológicos cadastrados, dos quais 204 estão abertos à visitação pública. Tais evidências justificaram a criação da FUMDHAM-Fundação Museu do Homem Americano, em 1986, cujo objetivo é buscar a “compreensão do bioma da região, a reconstituição do passado humano e sua adaptação ao meio, nas diferentes realidades ambientais pelas quais passou a região, desde a primeira ocupação.” Desde 1991, o parque integra a lista de patrimônios culturais mundiais da Unesco e em 2003 foi considerado pela ONU como Unidade de Conservação com melhor infraestrutura da América Latina. O Museu do Homem Americano vem acumulando uma quantidade razoável de peças desde meados de 1970, e durante esse tempo tem recolhido também muitos objetos, fósseis e peças referentes a natureza. São animais pré-históricos, como a preguiça e o tatu gigantes, que necessitavam de um ambiente exclusivo. Assim, em 2002 foi projetado o Museu da Natureza, localizado a 30 km. da sede da FUMDHAM.

Trata-se de um moderno museu instalado no sertão. Na inauguração, em 18/12/2018, a revista “Veja” dedicou-lhe extensa reportagem com o título: “O óvni no meio da caatinga”, dado sua aparência arquitetônica, uma estrutura de aço e vidro de quatro mil metros quadrados em forma de mandala high-tech. O que se pretende é que o museu seja autossustentável, e para isso é preciso que os governos estimulem o turismo na região. Na opinião de sua criadora, a preservação de todo o Parque só será possível com a exploração turística do local. No momento faltam condições de acesso e infraestrutura adequadas.

Desde 1992 vive em São Raimundo Nonato cuidando do Parque e aos 88 anos, com dificuldades de locomoção, tem anunciado que vai se aposentar. Com quase 60 anos de dedicação exclusiva ao Parque Nacional, museus arqueológicos e expressiva contribuição científica, foi homenageada em diversas ocasiões, não obstante continuar sendo uma ilustre desconhecida pela maior parte do povo de seu País: “Mulher do Ano 1997”, pela revista Claudia, da Editora Abril; “Prêmio Faz Diferença” (2005) pelo jornal O Globo; “Prêmio Tejucopapo”, pela revista Nordeste 21; “Medalha Comemorativa dos 60 anos da Unesco”, (2010); “Medalha de Ouro” na premiação para a cultura ‘Herity Italia” (2010); “Prêmio da Fundação Conrado Wessel” (2013); “Prêmio Itaú Cultural 30 Anos” (2017). De todos estes prêmios, o que ela gostaria mais é ver o Parque sendo visitado pelos turistas de todo o mundo. Ela tem convicção e conhecimento de causa e efeito para achar que a “melhor forma de preservar é trazer turistas e desenvolver a região”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Garrincha

Manoel Francisco dos Santos nasceu em Magé, RJ, em 28/10/1933. Futebolista, conhecido como o melhor driblador da história do futebol. Se a graça do futebol está no drible, Garrincha é o maior jogador. Mesmo na Seleção Brasileira, voltava a driblar o jogador no mesmo lance só pela brincadeira em si. Ficou famoso por seu notável controle de bola, imaginação, habilidade de drible e “finta”. No drible, o jogador realiza um movimento no qual ele passa com a bola e consegue fazer o passe. Na “finta” é quando o jogador realiza um movimento indicando uma ação e atua noutra. Geralmente o adversário fica desestabilizado e pode até cair.

Deste caráter “brincalhão” foi extraída uma pérola do escritor Eduardo Galeano: “Em toda a história do futebol, ninguém deixou mais pessoas felizes. Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomassem a bola, menino defendendo sua mascote – a bola – e ela e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ela pulava sobre ele, ela se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados”. Com sua literatura, Galeano fez um documentário sobre Garrincha. Não por acaso, foi ele o criador do “olé” no futebol. João Saldanha conta que em 1957, no México, num amistoso contra o River Plate, ele fez “gato e sapato” do jogador Vairo: “toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible (a “finta”) e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamavam ‘Ôôô-lé!’ Foi ali naquele dia que surgiu a gíria do ‘olé’. As agências telegráficas enviaram longas mensagens sobre o acontecimento e deram grande destaque ao ‘olé’”.

Era o 16º filho de uma família humilde e o apelido –nome de um passarinho- foi dado pela irmã. Uma poliomielite na infância deixou-lhe com as pernas tortas e parecia incapacitado para o futebol, mas aos 14 anos começou a jogar como amador no Esporte Clube Pau Grande. Sem chance de continuar no time, entrou para o Serrano Football Club da cidade vizinha. Vendo-o jogar, um “olheiro” ex-jogador do Botafogo levou-o para um teste. Após uns dribles em Nilton Santos, o craque da época, foi contratado em 1953 e permaneceu até 1965. Na estreia contra o Bonsucesso, no Campeonato Carioca, o Botafogo venceu por 6×3, quando ele fez 3 gols. O Botafogo foi campeão em 1957, sendo que em 26 jogos, ele marcou 20 gols. Era criticado por driblar demais; porém sua atuação no clássico contra o Fluminense em fins de 1957 deixou claro que ele não poderia ficar fora da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, em 1958.

Sua vida pessoal sempre foi atabalhoada. Separou-se da mulher em 1963, com quem teve 7 filhos, e assumiu o namoro com a cantora Elza Soares, com que se casou em 1966. O tumultuado casamento durou até 1982, quando deu-se a separação devido a ciúmes, traição e brigas decorrentes do alcoolismo crônico que o perturbava. Teve mais um filho com Elza; outro com uma namorada e mais um na Suécia: Ulf Lindberg, numa transa extraconjugal com uma jovem na cidade de Umea durante uma excursão do Botafogo em 1959. Ao todo, calcula-se que teve uns 14 filhos.

Na Copa de 1958 foi um dos principais jogadores, mas só foi escolhido na 3ª partida do torneio. Pouco antes do inicio da Copa havia marcado um de seus gols mais famosos, contra a Fiorentina na Itália. Driblou quatro defensores e o goleiro, antes de parar na linha de gol. Mesmo com o gol aberto, em vez de chutar para o gol, ele ainda driblou o zagueiro Enzo Robotti antes de marcar o gol. A comissão técnica da Seleção ficou aborrecida com a jogada irresponsável e isso provavelmente levou-o a não ser escolhido nas duas primeiras partidas. Logo no inicio da 3ª partida foi decidido um ataque direto do pontapé inicial. Ele recebeu a bola, driblou 3 jogadores e chutou na trave. Em menos de um minuto de jogo, pegou de novo a bola e criou uma chance para Pelé, que também chutou na trave. O jogo foi tão impressionante que ficou marcado na imprensa internacional como “os três minutos mais incríveis do futebol de todos os tempos”. Este foi o cartão de visitas de Garrincha à Copa do Mundo de 1958. O Brasil venceu a partida por 2×0.

Na Copa Mundial de 1962, ao substituir Pelé, tornou-se ídolo nacional. Dos 14 gols do Brasil, 6 passaram pelos seus pés: marcou 4 e encaminhou 2. Na Copa ganhou a “Bola de Ouro” (melhor jogador do torneio), a “Chuteira de Ouro” (artilheiro) e o troféu da Copa do Mundo. Por isto, a Copa de 1962 ficou conhecida aqui, como a “Copa do Garrincha”. O jornalista Sandro Moreyra descreveu seu desempenho: “De repente parou de brincar, virou sério, compenetrado de que a conquista da Copa dependia dele. Quase sozinho, ganhou a Copa. Fez o que nunca tinha feito. Gols de cabeça, pé esquerdo, folha-seca. E driblou como um endiabrado, endoidando os adversários”. No jogo contra a Inglaterra ele roubou a bola de Didi, fez uma pausa, e, de fora da área, acertou um chute folha-seca no ângulo, fazendo o 3º gol. A imprensa britânica disse que “Garrincha era Stanley Matthews, Tom Finney e um encantador de serpentes, todos juntos”. Na semi-final, contra o Chile, foi decisivo, marcando dois dos 4 gols da vitória por 4×2. Seu primeiro gol foi um chutaço de fora da área com o pé esquerdo; o segundo, de cabeça. Uma manchete do jornal “El Mercurio” perguntava: “De que planeta veio Garrincha?”.

A Copa do Mundo de 1966 mostrou Garrincha visivelmente abatido e fora de forma. Uma lesão no joelho atrapalhava seus movimentos. Além disso, os europeus estavam dispostos a não deixar o Brasil vencer a Copa pela 3ª vez consecutiva e usaram a tática de parar o jogo sempre que possível na porrada. Mesmo assim, ele fez um gol na 1ª partida, conta a Bulgária, e Pelé fez o segundo, vencendo por 2×0. No jogo seguinte, o Brasil perdeu por 3×1 para a Hungria. Foi seu último jogo internacional e única vez em perdeu uma partida com a seleção brasileira. Contam-se histórias engraçadas a seu respeito: no jogo contra Rússia, em 1958, os jornalistas souberam que ele era desprovido de educação formal e um deles quis testar seus conhecimentos. Perguntou-lhe se ele sabia o que significava a sigla CCCP na camisa soviética. A resposta foi imediata: “Cuidado com o crioulo Pelé!”. Noutra ocasião, na Alemanha, ele gostou de um rádio de pilha e quis comprá-lo. Mas foi advertido por um colega gozador: “Mas você entende a língua alemã? Esse rádio não vai transmitir em português no Brasil!”.

O fim da carreira começou em 1963 com o agravamento dos problemas contínuos da osteoartrite, causando inflamação cartilagem e inchaço do joelho. A cirurgia, diversas vezes recomendada, finalmente foi realizada em 27/9/1964. Mas via-se que já não era o mesmo jogador. Em 1966 ainda passou alguns meses jogando no Corinthians; outros no Flamengo e no Olaria enquanto vai decaindo como jogador e o álcool vai lhe derrubando como pessoa. Em São Paulo, o Jornal da Tarde de 26/10/1966 deu a manchete: “Mané veio para ser a alegria do Corinthians, não foi. É um homem triste que só vê a bola em treino no Parque São Jorge”. Seu último gol se deu no jogo do Olaria com o Comercial em Ribeirão Preto, em 23/3/1972, encerrando a carreira profissional. A partir daí realizou alguns jogos de exibição até 1982 e faleceu em 20/1/1983, aos 49 anos, vitimado por uma cirrose hepática.

Milhares de pessoas foram às ruas seguir a procissão fúnebre, em uma linha desde o Maracanã até o cemitério. No seu epitáfio lê-se: “Aqui descansa em paz aquele que era a alegria do povo”. No dia seguinte o poeta Carlos Drummond de Andrade deixou registrado sua façanha na crônica publicada no Jornal do Brasil: “Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico, farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo que nos alimente o sonho”.

Considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos, foi votado na Seleção de Futebol do Século XX por 250 dos escritores e jornalistas de futebol mais respeitados do mundo e incluído na Seleção do Todos os Tempos, da FIFA, em 1998. Foi homenageado com seu nome no Museu do Estádio do Maracanã e no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Em 2010, torcedores do Botafogo custearam uma estátua de 4 metros e meio, esculpida pelo artista plástico Edgar Duvivier, localizada frente ao Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro. Conta ainda com uma filmografia: Garrinha, alegria do povo (1962), documentário de Joaquim Pedro de Andrade; Mané Garrincha (1978), documentário de Fábio Barreto; Pelé e Garrincha: Deuses do Brasil (2002), documentário da BBC; Garrincha: estrela solitária (2005), filme baseado na biografia escrita por Ruy Castro, em 1995, uma biografia de fôlego considerada a mais completa até o momento, baseada em muita documentação e 500 entrevistas. Em 2016 foi apresentado o espetáculo musical “Garrincha: uma ópera das ruas”, dirigido por Bob Wilson, reapresentado pela TV Sesc, em dezembro de 2020.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Yvonne Pereira

Yvonne do Amaral Pereira nasceu em Rio das Flores, RJ, em 24/12/1900. Costureira e uma das mais respeitadas médiuns brasileiras, autora de livros psicografados e atuante no mundo espiritual até o presente com um magnífico trabalho glorificando a vida e dirigido aos necessitados de alento e disposição. Na reencarnação anterior veio ao mundo como Leila Vilares Montalban Guzman, uma espanhola que suicidou-se aos 20 e poucos anos, atirando-se no Rio Tejo.

Certamente Yvonne Pereira reencarnou com este propósito: alertar, jogar luz neste desatino humano: suicídio. Não se pode interromper o curso da vida, incluindo a sua própria. Muita gente acha que morrendo todos os problemas se acabam. Sua obra prima Memórias de um suicida (1955) mostra o que sucede após o desesperado gesto. O livro teve uma segunda edição em 1957 e até o momento já teve mais de 30 edições. Trata-se de uma obra cultuada no meio espírita e respeitada na área da saúde mental, conforme relatado no artigo Suicídio na literatura religiosa: o kardecismo como fonte bibliográfica privilegiada, publicado na revista RECIIS: Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, v.4, n.3, set. 2010.

Nascida numa família espírita humilde, com apenas 29 dias foi sufocada por um acesso de tosse e ficou em estado de catalepsia por 6 horas. O médico atestou o óbito e o corpo foi preparado para o velório. Pouco depois, após a despedida dos pais, o bebê acordou chorando. Não obstante os poucos recursos, sua família tinha o hábito de abrigar pessoas carentes em casa, que segundo Yvonne, ficou marcado em sua vida. Ainda criança, aos 4 anos, passou a ver e ouvir “espíritos”, que ela considerava pessoas normais. Entre as aparições, ela distinguia pessoas que seriam seus parentes numa encarnação anterior. Tais visões vinham junto com uma grande saudade desta vivência na Espanha em meados do séc. XIX

Assim, estranhava o pai e irmãos, bem como a casa e cidade onde vivia. Às vezes, após o banho, exigia o vestido bonito e reclamava pela carruagem que deveria levá-la a passeio. Tais fatos geraram conflitos e ela teve que passar boa parte do tempo na casa da avó paterna até os 10 anos. Um novo ataque de catalepsia ocorreu aos 8 anos. Enquanto dormia, seu espírito foi levado até uma imagem do “Senhor dos Passos”, na igreja que frequentava. Sofria muito e pedia socorro. A imagem dirigiu-lhe a palavra: “Vem comigo, minha filha, será o único recurso que terás para suportar os sofrimentos que te esperam”. Aceitou a mão estendida, subiu os degraus e a partir daí não se lembra de mais nada. Esta visão ficou-lhe marcada por toda a vida. Aos 12 anos ganhou de seu pai 2 livros: O Evangelho segundo o Espiritismo e Livro dos Espíritos e no ano seguinte passou a frequentar um centro espírita, vindo a compreender melhor a Doutrina. Em termos de estudo formal, concluiu apenas o antigo curso primário, devido a dificuldades financeiras.

No entanto já escrevia fluentemente sobre literatura, e de forma tão rápida que, mais tarde, veio a identificar como fenômenos de psicografia. Por essa época auxiliava no sustento da família com trabalhos de costura, bordado, artesanato de flores etc. Uma vez aprimorada nestes trabalhos, passou a dar aulas de costura e bordados às moças da favela próxima de sua casa. Aos 16 anos era uma leitora assídua de José de Alencar, Bernardo Guimarães, Alexandre Herculano, Arthur Conan Doyle entre outros. Em seguida passou a se interessar pela linguagem Esperanto e manteve correspondência com outros esperantistas espíritas no Brasil e no exterior. A mediunidade tornou-se um fenômeno comum e ela passou a receber informes, crônicas e contos de espíritos enquanto dormia.

Sua faculdade era diversificada, tendo se dedicado à psicografia, ao receituário homeopático, à psicofonia e, ocasionalmente, aos efeitos físicos de materialização. Com frequência dedicava-se a prática de desobsessão. Tinha uma afeição especial pelos suicidas. Procurava nos jornais e anotava num livro de preces os nomes das pessoas que se mataram e, sabedora dos males que lhe afligiam, orava por eles. Fazia isto como forma de reparação ao seu suicídio na encarnação anterior. Depois de algum tempo, alguns deles vinham agradecer-lhe as preces com abraços e passeios pelo casarão onde morava.

Assim, foi contemplada com amizades no mundo espiritual, incluindo o escritor português Camilo Castelo Branco, que lhe franqueou a psicografia de suas “Memórias de um suicida”. Começou a psicografar desde 1926, mas decidiu publicar somente em meados da década de 1950, segundo ela “após muita insistência dos mentores espirituais”. Deixou mais de 20 obras publicadas e 10 livros infanto-juvenis ainda não publicados. Numa entrevista, em 1972, disse “A formação do meu caráter foi feita pelo Dr. Bezerra de Menezes. Segui sempre os conselhos dele. Mas, houve outros espíritos que me guiaram, como Bittencourt Sampaio e Eurípedes Barsanulpho, com quem trabalhei muito, principalmente em curas de paralíticos”. Pouco depois sofreu um acidente vascular cerebral; ficou impossibilitada de trabalhar e veio a falecer em 9/3/1984, vitimada por uma trombose.

Atualmente é considerada uma das maiores médiuns sob todos os aspectos, dotada de valiosas faculdades sempre postas a serviço dos necessitados. Era uma pessoa exigente e desconfiada quando o fato se relacionava com o mundo espiritual, nunca aceitando nada à primeira vista, sem um exame dentro dos preceitos recomendados pela Doutrina Espirita. Sua vida e legado podem ser melhor conhecidos nas biografias: Yvonne Pereira: uma heroína silenciosa (2003), de Pedro Camilo e Yvonne, a médium iluminada (2007), de Gerson Setini.

Clique aqui e assista a um vídeo com uma entrevista histórica de Yvonne Pereira.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Marcolino Gomes Candau

Marcolino Gomes Candau nasceu em Niterói, RJ, em 30/5/1911. Médico, administrador, meio diplomata e um dos pioneiros da saúde pública no Brasil e no Mundo como diretor-geral da OMS-Organização Mundial da Saúde em seus primórdios (1953 a 1973). Nesse interim foi Ministro da Saúde do Brasil, no Governo João Goulart por 68 dias em 1962.

Diplomado pela Faculdade Fluminense de Medicina, em 1933, e hábil administrador, exerceu cargos de chefia em serviços de saúde em algumas cidades do interior. Em 1938 já ocupava um alto cargo na Secretaria de Saúde, ao mesmo tempo em que ministrava aulas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Na ocasião pediu ao seu amigo Fred Soper, diretor da Fundação Rockfeller no Brasil, que lhe arrumasse uma bolsa de estudos na Universidade Johns Hopkins, nos EUA, mantida pela Fundação. Foi atendido e partiu junto com a esposa, em 1940, para fazer mestrado na área de saúde pública. Pouco depois os EUA entram na II Guerra Mundial e ele retorna ao Brasil para trabalhar no Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores, na Amazônia, cuidando dos “soldados da borracha”.

Sua competência no serviço levou-o à Superintendência do recém criado SESP-Serviço Especial de Saúde Pública, em 1947, uma agência bilateral (Brasil e EUA), para promover o saneamento da Amazônia e do Vale do Rio Doce, que produziam borracha, minério de ferro e mica, necessários à indústria bélica. Por essa época, a revista “Time” publicou uma reportagem onde aparece seu nome e elogios ao seu trabalho no SESP. Pouco antes, em 1945, ocorreu a Conferência de São Francisco, na Califórnia, que deu origem a criação da ONU-Organização das Nações Unidas. O Brasil e a China foram os únicos países a enviarem médicos para a Conferência, e o fato veio a causar uma mudança radical na saúde do Mundo. Numa conversa informal os médicos Geraldo de Paula Souza e Szeming Sze articularam a criação de uma organização mundial para cuidar da saúde, subordinada a ONU. A proposta foi submetida ao plenário e 3 anos depois estava criada a OMS-Organização Mundial da Saúde. Por essa época, Fred Soper deixa a representação da Fundação Rockfeller, no Rio de Janeiro, para dirigir a OPAS-Organização Pan-Americana da Saúde, em 1947, e mais tarde volta a se encontrar com Candau em Washington para lhe proporcionar novo salto em sua carreira profissional.

Enquanto comandava o SESP, presidiu o Congresso Brasileiro de Higiene; criou a Escola de Enfermagem de Manaus e passou a lecionar no Instituto Oswaldo Cruz, que foi integrado à Fundação Oswaldo Cruz. Em 1950 ingressou na OMS, por indicação de Geraldo de Paula Souza, onde veio assumir a diretoria da Divisão de Organização dos Serviços de Saúde. Após dois anos foi trabalhar com seu amigo Soper na OPAS, em Washington. Com sua habitual diplomacia, ficou encarregado de aprimorar as relações entre a OMS e OPAS. O objetivo era que a OPAS se tornasse uma representação da OMS nas Américas, sem perder sua autonomia.

Ficou 14 meses costurando esta aliança e, em março de 1953, voltou para Genebra para ocupar a diretoria-geral da OMS, numa eleição que contou o apoio de seu antecessor, o psiquiatra canadense Brock Crisholm. Na cerimônia de posse homenageou Geraldo de Paula Souza e contou com a presença do recém-eleito secretário-geral da ONU, o sueco Dag Hammarksjöld, de quem se tornou amigo. Os dois estiveram juntos na África, em 1960, na reestruturação do Congo, que se tornou independente da Bélgica. A OMS ainda engatinhava como organismo da ONU com a finalidade de promover a saúde nos países em desenvolvimento. Contava com um Comitê Executivo composto por 18 países, onde os EUA eram representados por Fred Soper, velho amigo de Candau.

Seus primeiros desafios foram enormes: combater a varíola, a malária e o uso do agrotóxico DDT na agricultura. Para combater a varíola, convidou Donald Henderson, do CDC-Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos EUA, para chefiar o programa, que foi um sucesso. Enquanto esteve à frente da OMS, ampliou de 81 países-membros, 1.500 funcionários e um orçamento de U$ 9 milhões para 138 países-membros, 4 mil funcionários e um orçamento de U$ 106 milhões. Hoje a OMS conta com mais de 7 mil funcionários atuando em 150 países. Candau conseguiu, também, que as diretorias regionais fossem designadas pelos países da região e não mais pela diretoria-geral. Outras conquistas foram alcançadas: definição de protocolos globais de tratamento e vacinação; controle de qualidade de medicamentos, planejamento familiar, cuidados com o uso da energia atômica etc., além da inauguração da nova sede em 1966.

Por um breve período, foi Ministro da Saúde a convite do governo João Goulart, em 1962. Permaneceu no cargo apenas 68 dias, até a queda do regime parlamentarista e retornou á diretoria-geral da OMS. Deixou o cargo em 1973 e alguns países queriam-no para um 5º mandato, mas ele recusou. “Estou velho e preciso dar lugar a uma outra geração”. No mesmo ano a 26ª Assembleia Mundial da Saúde prestou-lhe homenagem reconhecendo-o formalmente Diretor-Geral Emérito da OMS. Em seguida casou-se com Sita Reelfs, uma suíça-holandesa funcionária da OMS, com quem viveu mais 10 anos entre Genebra e Rio de Janeiro até 24/1/1983, quando veio a falecer vitimado por um câncer no pulmão. Como é o costume no Brasil relegar a memória de sua gente a um segundo plano, parece que Candau ficou num plano ainda mais distante, não obstante sua projeção internacional e sua contribuição à saúde no Mundo. Mesmo na Wikipedia consta apenas breve verbete traduzido do inglês.

Sua memória foi salva recentemente com um belo perfil biográfico, escrito por Paulo Lyra e publicado na revista Piauí, nº 171, de dezembro de 2020, de onde foram extraídas parte das informações para esta biografia concisa. O autor conclui o perfil escrevendo: “Em contraste com a sua projeção internacional, a informação sobre Candau no Brasil é quase inacessível”. Tal afirmação estaria mais correta se afirmasse que “é quase inexistente”. Um verbete mais completo sobre legado, em inglês, encontra-se no site do Royal College of Phisicians, que inicia dizendo tratar-se de uma das grandes figuras na medicina no século 20. Clique aqui para ler.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Paula Souza

Geraldo Horácio de Paula Souza nasceu 5/7/1889, em Itu, SP. Médico sanitarista, professor e pioneiro da saúde pública no Brasil e um dos fundadores da OMS-Organização Mundial da Saúde. Criado numa das mais tradicionais famílias paulistas, os “Paula Souza” se destacam na história desde o séc. XIX com políticos, engenheiros e médicos renomados. Seu pai – Antônio Francisco de Paula Souza – foi um dos fundadores e diretor da Escola Politécnica de São Paulo.

Ainda adolescente ingressou no curso universitário e graduou-se aos 19 anos pela Escola de Farmácia de São Paulo. Em seguida foi estudar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e tomou gosto pela saúde publica. Enquanto aluno, aproveitou as férias e viajou pela Europa, onde realizou estágios em laboratórios de química e institutos médicos de Berlim, Zurique, Genebra e Paris. Após formado médico, em 1915, trabalhou no Laboratório de Química da Santa Casa, em São Paulo. Em 1918 foi indicado como professor-assistente de higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, dado o interesse na área de higiene e saúde pública.

Visando aprofundar os estudos, foi indicado pelo diretor da Faculdade de Medicina, Arnaldo Vieira de Carvalho, para receber uma bolsa para estudar nos EUA, na Escola de Higiene da Johns Hopkins University, onde foi diplomado doutor na área. Trabalhou no Nutrition Laboratory, em Boston e visitou instituições ligadas a área sanitária, solidificando os conhecimentos que seriam aplicados no Brasil. De volta ao Brasil, em 1914, tornou-se professor-assistente de química médica e, em 1922, tornou-se professor catedrático da Faculdade de Medicina de São Paulo e instalou o Serviço Sanitário de São Paulo. Em 1927 este serviço foi transformado no Instituto de Higiene, com atribuições mais amplas. Organizou serviços especializados de alimentação, de fiscalização do exercício da medicina e da inspetoria da lepra.

Assim, pode-se dizer que foi pioneiro, também, na criação do CFM-Conselho Federal de Medicina e dos conselhos regionais, em 1945. Seu trabalho junto a direção do Instituto de Higiene, após 20 anos de intensa atividade, chegou onde queria: a criação da Faculdade de Saúde Pública, em 1945. Em se tratando de pioneirismo, vale lembrar que esta Faculdade foi pioneira em diversas áreas: Entomologia Médica, Demografia Sanitária, Saúde do Trabalhador entre outras, além de fornecer pessoal especializado para as reformas sanitárias de São Paulo e do Brasil. Um de seus primeiros trabalhos no Instituto foi a criação de um Centro de Saúde Modelo, Dizia que o “centro de saúde” era preciso para acompanhar e prever as doenças na comunidade e não apenas um local que se procura quando já se está com algum sintoma. O “Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza” segue funcionando há quase 100 anos. Inovou em diversas atividades sanitárias, como adicionar cloro na água de abastecimento pela primeira vez no Brasil. Tal procedimento resultou numa notável redução de doenças infecciosas, como a febre tifoide, em São Paulo.

Atuou com afinco na educação sanitária nas escolas, promovendo técnicas básicas de higiene, como lavagem das mãos e a importância do banho. Sua crença era que as crianças levariam tais informações para suas famílias. Em 1925, elaborou a reforma do Código Sanitário criando a “Inspetoria de Educação Sanitária” e “Centros de Saúde”, que foi copiado em outros estados. Teve destacada atuação, também, fora da área acadêmica. Participou da criação da SOBRAHSP – Sociedade Brasileira de Higiene e Saúde Publica, fundada em 1923, tornando-se seu presidente no período 1947-1951. Em meados da década de 1940, através das conexões políticas de sua família, tornou-se representante diplomático do Brasil em questões relacionadas à saúde e, assim, viajou pelo mundo. Foi um dos primeiros brasileiro a escrever artigos sobre a medicina do Japão e da China, que permanecem importantes até hoje.

Tinha grande interesse pelos hábitos alimentares dos lugares que visitava e guardou uma coleção de menus de restaurantes de todo o mundo. Seu fascínio pela comida levou-o apoiar e ajudar a fundar o curso de nutrição na Faculdade de Saúde Pública, um dos mais importantes do País. Foi representante do Brasil na Liga das Nações, futura ONU-Organização das Nações Unidas. Numa das reuniões diplomáticas, em 1945, em conversa com o diplomata chinês Szeming Sze, propôs a ideia de criar uma agência voltada à saúde internacional. No ano seguinte, participou da reunião que esboçou a entidade, fundada em 1948, OMS-Organização Mundial da Saúde. Foi um de seus membros, mas não houve tempo para ver o progresso de sua inciativa. Faleceu de infarto fulminante em 2/5/1951, quando a OMS dava seus passos iniciais.

Atualmente pouco se fala de sua pessoa ou de seus feitos, mas existe a convicção no meio médico que ele representa para o Instituto de Higiene de São Paulo o que Arnaldo Vieira de Carvalho foi para a Faculdade de Medicina de São Paulo e Oswaldo Cruz para o “Instituto de Manguinhos”, a Fundação Oswaldo Cruz. O artigo A casa de Geraldo de Paula Souza: texto e imagem sobre um sanitarista paulista, de Lina Faria, publicado na revista “História, Ciência, Saúde – Manguinhos”, v. 12, nº 3, de dez. 2005, resgata sua história e preenche uma lacuna na história da ciência brasileira. Publicou um grande número de trabalhos sobre saúde pública e de temas correlatos, como a profilaxia das doenças endêmicas; os serviços de saneamento ambiental; os centros de saúde; a formação de pessoal especializado; políticas públicas sobre saúde, muitos deles também apresentados em congressos.

Tais publicações foram essenciais para a institucionalização da saúde pública no País. O artigo acima citado conta com informações sobre o legado de Paula Souza, mas não deixa de ser intrigante o fato de não haver uma biografia especifica dedicada ao reconhecimento de seu trabalho. É o patrono das cadeiras nº 101 da Academia Paulista de Medicina e nº 30 da Academia Paulista de Psicologia. Em São Paulo temos a Rua Paula Souza e o “Centro Paula Souza”, que administra as escolas técnicas, mas homenageiam o pai de Geraldo. O que temos sobre ele são artigos publicados em revistas científicas sobre sua vida e legado, como o escrito por N.M.F. Candeias – Memória histórica da Faculdade de Saúde Pública da USP: 1918-1945 -, publicado em nº especial da “Revista de Saúde Pública”, nº 18, 1984, ou o texto de Cristina Campos – Geraldo Horácio de Paula Souza: atuação de um higienista na cidade de São Paulo: 1925-1945, publicado na revista “História & Ensino, v.6, de out. 2000.

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OS BRASILEIROS: Manoel de Abreu

Manoel Dias de Abreu nasceu em São Paulo, SP, em 4/1/1891. Médico, cientista, poeta e inventor da “abreugrafia”, pequenas radiografias que permitem o diagnóstico precoce da tuberculose pulmonar. Em outros países o exame recebeu nomes como: “schermografia” (Itália), fotofluorografia (França), roentgenfotografia (Alemanha) e microrradiografia (Portugal). No período 1951-1953 recebeu 6 indicações para o Prêmio Nobel de Medicina.

Formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1914, com a apresentação do trabalho “Natureza pobre”, referente à influência do clima tropical sobre a civilização. No mesmo ano, junto com a família, viajou para Lisboa e tem inicio a I Guerra Mundial. Não podendo voltar ao Brasil, mudou-se para Paris, onde passa a morar por 8 anos. Lá manteve contatos com escritores e cientistas, como Baudelaire, Antero de Quental, Nietzche e Darwin, quando decide aprofundar os estudos na medicina. O primeiro emprego se deu no Nouvel Hôpital de la Pitiê, encarregado de fotografar peças cirúrgicas. Dedicado e engenhoso, descobriu um dispositivo especial para obter fotografias da mucosa gástrica. Em 1916 foi trabalhar no Hôtel-Dieu, a Santa Casa francesa, e foi despertado para o estudo da recente especialidade criada pelo físico Wilhelm Conrad Roentgen, em 1895, a Radiologia.

No exame de um caso de tuberculose, realizado junto com seu chefe, Dr. Gilbert, nada foi encontrado de anormal, nenhuma afecção pulmonar ou pleural, conforme as normas de propedêutica clínica, através da percussão e da auscultação. O chefe pediu-lhe para levar o paciente ao laboratório de Radiologia para um exame do tórax, cuja chapa confirmaria o exame clínico. Feita a chapa, o médico ficou surpreso ao constatar uma tuberculose avançada. Conforme Dr. Adauto Barbosa Lima, ex-diretor da Faculdade de Medicina da USP, “aquela contradição entre o achado clínico e o achado radiológico era resultante dos experimentos e conhecimentos médicos na ocasião… A radiologia ensaiava seus primeiros passos”. Em seguida, o Dr. Gilbert confiou-lhe a chefia do Laboratório Central de Radiologia do Hôtel-Dieu, dando inicio a próspera carreira do cientista brasileiro.

Em 1918 foi trabalhar no Hospital Laennec, como assistente do prof. Maingot. Aí aperfeiçoou-se na radiologia pulmonar e desenvolveu a “densimetria”, mensuração de diferentes densidades. Visualizou na fotografia do “écran” fluorescente um meio de fazer o exame do tórax – em massa e a baixo custo – a fim de detectar a tuberculose pulmonar precoce. Tais conhecimentos levaram-no a publicar o livro Radiodiagnostic dans la tuberculose pleuro-pulmonaire, (Editora Masson, Paris), em 1921, obra pioneira sobre a interpretação radiológica das lesões pulmonares. No ano seguinte, retornou ao Brasil e passou a chefiar o Departamento de Raios X da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, no Rio de Janeiro. Encontrou a cidade assolada por uma epidemia de tuberculose e ficou impressionado: “Havia óbitos, não havia doentes, os quais ocultavam seu diagnóstico na espessa massa da população; os poucos doentes que havia, procuravam o dispensário na fase final da doença, quando o tratamento, o isolamento e as várias medidas profiláticas já eram inúteis”.

Por esta época, intensificou as pesquisas de radiografias do tórax, mas os resultados são pífios. Apenas em 1935, com o aprimoramento dos aparelhos radiográficos, retomou as experiências no antigo Hospital Alemão do Rio de Janeiro. Nesse período concebeu um método rápido e barato de tomar pequenas chapas radiográficas dos pulmões para maior facilidade de diagnóstico, tratamento e profilaxia da tuberculose e do câncer de pulmão. Deu-se a invenção da “abreugrafia”, nome dado em sua homenagem e reconhecido em 1936 pela Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, seguido de sua adoção em nível mundial.

No mesmo ano foi convidado pelo prefeito do Rio, o médico Pedro Ernesto, a assumir a chefia do Serviço de Radiologia do Hospital Jesus. Logo depois, foram instalados 3 serviços de recenseamento torácico em São Paulo, noutras cidades do Brasil, Am. do Sul, EUA e Europa. Em 1939 o termo “abreugrafia” foi referendado no I Congresso Nacional de Tuberculose, seguido da aprovação pela União Internacional contra a Tuberculose. Em 1958, o prefeito de São Paulo, Ademar de Barros, determinou que as repartições públicas deveriam adotar o nome e instituiu o dia 4 de janeiro, dia do nascimento do cientista, como o “Dia da Abreugrafia”. Estava apenas imitando o gesto do presidente Juscelino Kubitschek em âmbito nacional.

Em 1957 foi criada a Sociedade Brasileira de Abreugrafia, seguida pela publicação da Revista Brasileira d Abreugrafia. Tal método de diagnóstico de massas de baixo custo e fácil execução popularizou-se rapidamente. Foram criados equipamentos móveis, percorrendo fábricas, escolas e locais mais inacessíveis, fazendo exames e produzindo diagnósticos precoces. Com a diminuição dos casos e custos com outros equipamentos, a abreugrafia foi abandonada. O que não podemos é abandonar a memória de seu inventor, atualmente no limbo da história. Hoje, quando o diagnóstico médico por imagem está no centro das atenções, precisamos lembrar que o Brasil já deu significativa contribuição nesta área.

Manoel de Abreu foi um humanista que abriu mão da patente que lhe renderia bons lucros. Seu desejo era que o aparelho estivesse disponível à todos: “Eu vejo no horizonte a única porta aberta para o futuro, a da ciência (…) A ciência é de algum modo a única forma de ternura (…) As grandes descobertas da medicina foram realizadas por seres sonhadores, sublimes, inspirados pelo amor”.

A importância de seu invento rendeu-lhe algumas homenagens, além das indicações para o Prêmio Nobel: Cavaleiro da Legião de Honra da França; Medalha de Ouro e Médico do Ano em 1950, do Colégio Americano de Médicos do Tórax, entre outras. Sua contribuição à medicina conta com relevantes obras publicadas: Idéias gerais sobre o radiodiagnóstico na tuberculose; Estudos sobre o pulmão e o mediastino; Nova radiologia vascular e Radiologia do coração. Foi também poeta e publicou os livros Substâncias, ilustrado por Di Cavalcanti; Meditações, ilustrado por Portinari e Poemas sem realidade, que ele mesmo ilustrou. Faleceu em 30/1/1962, por ironia do destino, de câncer no pulmão, talvez causado pelo cigarro, hábito mantido desde longa data. Seu legado ficou registrado na biografia escrita por Itazil Benicio dos Santos: Vida e obra de Manoel de Abreu, o criador da abreugrafia, publicada por Irmãos Pongetti Editores, em 1963. Em 2012, no cinquentenário de sua morte, foi lançada, pela SPR-Sociedade Paulista de Radiologia, nova biografia: O Mestre das Sombras – Um Raio X Histórico de Manoel de Abreu, do jornalista e historiador Oldair de Oliveira.

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AS BRASILEIRAS: Edwiges de Sá Pereira

Edwiges de Sá Pereira nasceu em 25/10/1884, em Barreiros, PE. Poeta, jornalista, professora e precursora do movimento feminista no Brasil. Filha do advogado José Bonifácio de Sá Pereira e Maria Amélia Gonçalves da Rocha de Sá Pereira, tradicional família pernambucana. Irmã do renomado jurista Virgílio de Sá Pereira e do conhecido médico Cosme de Sá Pereira, que distribuía remédios em sua residência, dando o nome à avenida “Estrada dos Remédios”, no Recife.

Foi a primeira mulher a entrar para uma Academia de Letras no mundo. Foi também uma das primeiras jornalistas do Brasil e ativista social na luta pelos direitos humanos. Estudou no Colégio Eucarístico e foi professora de Educação Fundamental de História e Português, além de superintendente de ensino em várias escolas do Recife, até o cargo de professora catedrática da Escola Normal. Aos poucos foi estendendo sua atuação para a conquista da emancipação feminina e participou do I Congresso Internacional Feminista, em 1922 e colaborou na fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

No II Congresso Internacional Feminista, realizado em 1931 no Rio de Janeiro, proferiu discurso “Pela mulher, para a mulher”, onde classifica a condição da mulher brasileira em 3 categorias: 1) a que não precisa trabalhar; 2) a que precisa e sabe trabalhar e 3) a que precisa e não sabe trabalhar. Evidentemente estava se referindo ao trabalho externo, fora do lar. Sua atuação dirigia-se a mudar a situação destas últimas. Em 1920 ingressou na Academia Pernambucana de Letras, tornando-se a primeira mulher brasileira a participar de uma agremiação acadêmica, onde chegou a ocupar o cargo de vice-presidente. Pouco depois ingressou na Associação de Imprensa de Pernambuco, repetindo seu pioneirismo como mulher participante de uma entidade jornalística.

Publicou diversas obras nas áreas de poesia, ficção e jornalísticas: Campesinas, Horas inúteis, Joia turca, Um passado que não morre, Eva Militante e A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. Como jornalista, atuou em diversos órgãos da imprensa pernambucana e de outros estados: “Jornal Pequeno”, “A Província”, “Jornal do Commercio”, “O Lyrio” e “Escrínio”, no Rio Grande do Sul. E também revistas como “Vida Feminina”, “Revista do Instituto da Sociedade de Letras de Pernambuco” e “A Nota”.

Sua atuação, tanto nas instituições como na imprensa, ficou marcada pela luta em defesa da cidadania e dos direitos humanos; pela conquista da emancipação feminina e conquista do voto da mulher, participando de campanhas sufragistas. Um direito que foi ratificado na Revolução de 1930. Com a conquista do direito de votar e ser votada, candidatou-se a Deputada da Assembleia Nacional Constituinte, em 1934. Foi também precursora pelo direito ao divórcio e propagava nos jornais que “nenhuma mulher era obrigada a viver ao lado de um homem com que não se entendesse muito bem”.

Como professora, sua atuação na imprensa insistia na necessidade da educação da mulher como único caminho para a libertação. Faleceu em 14/8/1958 e seu acervo documental encontra-se à disposição para consultas no Centro de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.

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OS BRASILEIROS: Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, RN, em 30/12/1898. Historiador, antropólogo, advogado, tradutor, jornalista, folclorista e um dos mais destacados pesquisadores das raízes étnicas do Brasil. Seus primeiros estudos se deram no Atheneu Norte Rio-Grandense, onde se tornou professor de história e diretor. Cursou medicina até o 4º ano, mas sem vocação para isso e interessado em folclore, formou-se em Etnografia, na Faculdade de Filosofia do Rio Grande do Norte e em Direito, na Faculdade do Recife, em 1928.

No ano seguinte, casou-se com Dhália Freire, com quem teve dois filhos. Começou como jornalista e teve seu primeiro trabalho publicado, em 1918, no jornal “A Imprensa”, de seu pai, o coronel Francisco Cascudo: uma crônica intitulada “O tempo e eu”. Colaborou com diversos jornais de Natal e manteve seções diárias nos jornais “República” e “Diário de Natal”, numa coluna chamada “Bric-a-Brac” (bagunça, geringonça, desmantelo) até 1960. Aos 23 anos teve seu primeiro livro – Alma patrícia – publicado, um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores. Teve alguma participação na Semana de Arte Moderna de 1922 e foi amigo de Mário e Oswald de Andrade, a quem chamava de “doido-mor”.

Foi professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito do Recife e de Etnografia Geral, na Faculdade de Filosofia, em Natal. Mas na época o folclore não era prestigiado como estudo acadêmico e ele quase foi demitido do cargo por estudar figuras como o lobisomem. Na política, foi monarquista no inicio e combateu a crescente influência marxista no Brasil, quando Natal foi palco da Intentona Comunista de 1935. Aderiu ao integralismo e foi chefe regional do movimento da “Ação Integralista Brasileira”, movimento nacionalista liderado por Plínio Salgado. Pouco depois, desencantou-se com essa doutrina política e já durante a II Guerra Mundial ficou com os “Aliados”, demonstrando sua repulsa aos fascistas italianos e nazistas alemães. Manteve-se, porém, aliado ao anticomunismo e não se opôs ao Golpe Militar de 1964. No entanto, ajudou diversos conterrâneos perseguidos pelos militares.

Em 1941 fundou a Sociedade Brasileira de Folclore e 2 anos depois foi convidado por Augusto Meyer, diretor do INL-Instituto Nacional do Livro, para redigir o Dicionário do Folclore Brasileiro, lançado em 1954. Em viagens pela África, em 1963, coletou diversas informações, com as quais publicou duas obras básicas sobre as origens da alimentação no Brasil: A cozinha africana no Brasil (1967) e História da alimentação no Brasil (1968). Para ele “nenhuma ciência possui maior espaço de pesquisa e de aproximação humana que o folclore”. Seu interesse pelo folclore deveu-se ao fato de “querer saber a história de todas as coisas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço.”

Sua produção bibliográfica é extensa, com cerca 170 livros e opúsculos, muitos dos quais reeditados até hoje, incluindo obras básicas, como Antologia do folclore brasileiro (1943) Geografia dos mitos brasileiros (1947), Ensaios de etnografia brasileira (1971), e livros clássicos, como Rede de dormir (1959), Vaqueiros e cantadores (1959), Preludio da cachaça (1967) entre outros. Num de seus últimos livros –Tradição, ciência do povo (1971) -, explora conceitos-chave de seu ofício e método de trabalho. Considera que são 3 as fases do trabalho folclórico e etnográfico: “colheita, confronto e pesquisa de origem”, ou seja, a escuta atenta dos informantes, o registro rigoroso das diferentes versões e a busca das origens entendidas. A Editora Global mantém em seu catálogo 45 títulos de sua autoria.

Passou toda a vida em Natal, onde é mantido o “Ludovicus: Instituto Câmara Cascudo”, na casa onde viveu, na avenida que leva seu nome e faleceu em 30/7/1986. Ludovicus é Luis em latim, idioma que ele dominava com perfeição. Não é o local da brincadeira, como pode parecer, mas não deixa de ser apropriado devido ao caráter de suas pesquisas. Foi agraciado com dezenas de prêmios e horarias, tendo seu nome em diversos logradouros de todo o País. Em 1991, a Casa da Moeda emitiu a cédula de 50 mil cruzeiros com sua efígie, que ficou em circulação por três anos. Sua vida foi esmiuçada em algumas biografias, com destaque para Viagem ao universo de Câmara Cascudo (1969), de Américo de Oliveira Costa e Luis da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, (1970) de Zila Mamede. Faleceu em 30/7/1986

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OS BRASILEIROS: Bezerra de Menezes

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu em Riacho do Sangue, atual Solonópole, CE, em 29/8/1831. Médico, escritor, jornalista, militar, político, filantropo e expoente da Doutrina Espírita, conhecido como “o médico dos pobres” e “Kardec brasileiro”. Divide com Chico Xavier a condição de espírita mais conhecido e venerado do Brasil.

Descendente de uma antiga família cigana, posteriormente ligada à politica e ao exército, filho do tenente-coronel da Guarda Nacional Antônio Bezerra de Menezes e Fabiana de Jesus Maria Bezerra. Concluiu a educação elementar em 10 meses; aos 11 anos aprendeu latim; aos 13 substituía o professor no ensino dessa língua; aos 15 mudou-se para Fortaleza e concluiu o curso secundário no Liceu do Ceará. Aos 20 anos, com o falecimento do pai, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Faculdade de Medicina. Para prover os estudos dava aulas particulares de filosofia e matemática. Aos 25 graduou-se médico com a tese “Diagnóstico do Cancro” e foi trabalhar como assistente de seu professor no Corpo de Saúde do Exército Brasileiro.

Aos 26 anos ingressou na Academia Imperial de Medicina e logo candidatou-se ao cargo de professor-assistente de cirurgia na Faculdade de Medicina. No mesmo ano foi empossado como Cirurgião-Tenente do Corpo de Saúde do Exército. Aos 27 anos, bem estabelecido, casou-se com Maria Cândida de Lacerda e tiveram 2 filhos. Aos 32 deu-se uma tragédia: sua esposa veio a falecer de mal súbito, deixando-lhe um filho de 3 anos e outro de 1. Por essa época exercia, além da medicina, o cargo de redator dos “Anais Brasilienses de Medicina” da Academia Imperial de Medicina. A irmã –Cândida Augusta de Lacerda- de sua falecida esposa ajudou a criar os filhos. Esta convivência resultou em casamento com a cunhada em 1865, com quem teve mais 7 filhos. No exercício profissional era um médico caridoso atendendo necessitados que não podiam pagar. Assim, passou a ficar conhecido como o “medico dos pobres”. Chegou a dar seu anel de formatura à uma pobre mulher para que comprasse remédios para o filho.

Com este perfil voltado às pessoas carentes adquiriu popularidade e foi indicado por amigos à Câmara Municipal. Com alguma insistência aceitou a indicação e foi eleito em 1861. Tem início a carreira politica, que se estende até 1885 acumulando mandatos de vereador e deputado provincial, exercendo a presidência da Câmara em algumas ocasiões. Como político teve iniciativas pioneiras, como regulamentação do trabalho doméstico, denuncia dos perigos da poluição e propostas de combate, um problema que já naquela época afetava a população do Rio. Batalhou pela extinção dos artigos nºs 157 e 158 do Código Pena de 1890, que proibiam “praticar o Espiritismo” e promover curas de moléstias curáveis ou incuráveis, que afetavam diretamente as atividades dos centros espíritas.

Um aspecto pouco conhecido é sua vida como empresário. Foi sócio fundador da Companhia Estrada de Ferro Macaé-Campos (1870) e empenhou-se na construção da Estrada de Ferro Santo Antonio de Pádua (1872). Foi um dos diretores da Companhia Arquitetônica de Vila Isabel (1873) e presidente da Companhia Ferro-Carril de São Cristovão (1875), levando os trilhos até os bairros do Caju e da Tijuca. Vale destacar, também, sua atividade política, sem mandato, como intelectual. Participou da campanha abolicionista com a publicação do livreto A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem dano para a Nação (1869), distribuído gratuitamente à população. Dizia-se um “liberal” e propunha imitar os ingleses com a abolição da escravidão. Na grande seca do Nordeste em 1877, publicou o ensaio Breves considerações sobre as secas do Norte. Como médico, lançou novo enfoque sobre as doenças mentais com o ensaio A loucura sob novo prisma: estudo psíquico-fisiológico. Como jornalista, foi redator dos jornais “A Reforma” e “Sentinela da Liberdade”. Como romancista publicou alguns livros de caráter espírita e traduziu as Obras Póstumas de Allan Kardec, em 1892.

Seu primeiro contato com o Espiritismo se deu por acaso. Em 1875 ganhou de presente um exemplar d’O Livro dos Espíritos de seu tradutor e amigo Dr. Joaquim Carlos Travassos. Na volta para casa na Tijuca, distante uma hora de viagem de bonde, foi se entretendo na leitura e deu-se conta que “já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava n’O Livro dos Espíritos. Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença”. A partir daí seu envolvimento com a doutrina foi crescendo. Teve contato as “curas” espirituais pelo médium João Gonçalves do Nascimento, em 1882; passou a contribuir com artigos na revista “O Reformador”, em 1883 e pouco depois decidiu se “converter”, em grande estilo. Aos 55 anos, em 16/8/1886, deu uma palestra no salão da “Guarda Velha”, explicitando sua adesão ao Espiritismo para mais de mil pessoas.

No ano seguinte, a pedido do Centro da União Espírita do Brasil, iniciou a publicação de artigos na seção “Spiritismo – Estudos Philosóficos”, publicados aos domingos, em “O Paiz”, assinados sob o pseudônimo Max, no período 1887-1893. Por essa época, os adeptos da Doutrina Espirita estavam divididos entre os filósofos/cientistas e religiosos. Bezerra de Menezes encontrava-se entre estes últimos, mas transitava bem entre as duas correntes. Assim, foi convocado para superar a divisão e promover a união através da FEB-Federação Espírita Brasileira, em 1889. Iniciou o estudo sistemático de O Livro dos Espíritos em reuniões públicas semanais; passou a redigir o “Reformador”; doutrinar espíritos obsessores; realizou o Congresso Espírita Nacional, reunindo 34 delegações e assumiu a presidência do Centro da União Espírita do Brasil, em 1890. Nos anos seguintes, atuou como vice-presidente da FEB e enfrentou algumas divergências internas e ataques externos ao movimento. Tais divergências fizeram-no afastar-se da diretoria, por um período, sem deixar de frequentar as reuniões e sua coluna no jornal “O Paiz”.

As divergências no movimento espírita chegaram até a direção da FEB, em 1895, e ele foi convidado a reassumir a presidência para apaziguar os ânimos. Iniciou o estudo semanal d’O Evangelho segundo o Espiritismo em reuniões públicas semanais; criou a primeira livraria espírita no País e o departamento de “Assistência aos Necessitados”. Empenhou-se na institucionalização da FEB até 11/4/1900, quando sofreu um acidente vascular cerebral e veio a falecer. A primeira página do jornal “O Paíz”, dirigido por Quintino Bocaiuva, dedicou um longo necrológio ao “eminente brasileiro”. No plano espiritual continua trabalhando em obras e mensagens psicografadas através de diversos médiuns: Chico Xavier, Divaldo Franco. Francisco Assis Perioto, Yvone Pereira, Waldo Viera entre outros, contabilizando mais de 20 livros. É considerado o patrono de centenas de centros espíritas em todo o mundo.

São muitas as biografias retratando sua vida: Legado de Bezerra de Menezes (2008), de Aziz Cury; Bezerra de Menezes: o médico dos pobres (3a. ed. 1979) e o estudo realizado por Canuto Abreu, publicado pela FEESP-Federação Espírita de São Paulo: Bezerra de Menezes: subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895. Tais biografias foram úteis na transposição de sua vida para o cinema, no filme “Bezerra de Menezes: o diário de um espírito”, em 2008, dirigido por Glauber Santos Paiva Filho com Carlos Vereza no papel.

Mensagem de Bezerra de Menezes em 23/5/2020: