JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Vinícius de Moraes I

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu em 19/10/1913, no Rio de Janeiro. Diplomata, jornalista, advogado, cantor, compositor, dramaturgo, crítico de cinema e essencialmente poeta lírico notabilizado pelos seus sonetos. Ficou célebre, também, como boêmio inveterado, “casadoiro” e um grande conquistador.

Filho de Lydia Cruz de Moraes, pianista amadora, e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário público, poeta e violinista amador, teve os primeiro estudos na Escola Afrânio Peixoto, onde rabiscou os primeiros poemas. Em 1924 ingressou no Colégio Santo Inácio; entrou no coral e começou a fazer pequenas peças de teatro. Em seguida fez amizade com os irmãos Campos e Paulo Tapajós e compôs os primeiros poemas.

Ingressou na Faculdade Nacional de Direito em 1929 e graduou-se advogado em 1933. Durante o curso tornou-se amigo do escritor Otávio de Faria, que estimulou sua carreira literária e promoveu seu ingresso no movimento nacionalista “Ação Integralista Brasileira”. Por um breve período, trabalhou como censor de cinema no Ministério da Educação e Saúde e em 1937 publicou Soneto de Katherine Mansfield, na revista Anauê! No ano seguinte ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Retornou ao Brasil em 1949 e passou a trabalhar no jornal A Manhã, como crítico de cinema.

Foi também colaborador da revista Clima e prestou concurso para diplomata no MRE-Ministério das Relações Exteriores, em 1942, mas não passou. Tentou de novo no ano seguinte e foi aprovado. Assumiu o posto de vice-cônsul em Los Ageles, EUA, em 1946, e retornu ao Brasil em 1950, com a morte do pai. Na década de 1950 atuou como diplomata em Paris e Roma, onde mantinha animados encontros na casa de seu amigo Sergio Buarque de Holanda.

Em fins de 1968 foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5 e afastado da diplomacia. O motivo alegado foi seu comportamento boêmio, que comprometia suas funções. Mas, foi anistiado (post-mortem) em 1998. Em 2010 recebeu promoção póstuma ao cargo de ministro de primeira classe do MRE. O cargo -o mais alto da carreira diplomática- equivale a embaixador. Sempre apaixonado, casou-se nove vezes e manteve uma vasta obra na literatura, teatro, cinema e música e dizia que a poesia foi sua primeira maior vocação. Dizia também que suas outras artes derivam do fato de ser poeta.

Na música teve como parceiros a nata da MPB: Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho, Baden Poweel, João Gilberto, Carlos Lyra, Antonio Maria… João Cabral de Melo Neto, que dizia não gostar de música, opinou: “se ele não fizesse tanta musiquinha, seria um poeta ainda maior”, que ganhou gargalhadas do poeta. Vinicius foi prolífico tanto como compositor como poeta. Em fins da década de 1920 compôs 10 canções gravadas pelos Irmãos Tapajós, em 1932. No ano seguinte lançou o primeiro livro de poemas: O Caminho para a distância e continuou produzindo canções e poemas simultaneamente.

Por esta época fez amizade com Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Oswald de Andrade e passou por uma fase mística, quando ganhou o “Prêmio Felipe D’Oliveira” pelo livro Forma e Exegese (1935). Em seguida lançou Ariana, a Mulher (1936), uma temática que passou a predominar em sua carreira. Na década de 1940 deu-se uma mudança de fase e passou a escrever em linguagem mais simples e sensual abordando, eventualmente, temas sociais. Publicou os livros Cinco Elegias (1943) e Poemas, Sonetos e Baladas (1946). Além de poeta e compositor, atuou como jornalista e crítico de cinema, chegando a lançar, em 1947, a revista Filme, junto com o cineasta Alex Vianny.

Pouco antes viajou pelo Nordeste junto o escritor americano Waldo Frank e, vendo a seca e a pobreza nordestina, passa a se influenciar pelos ideais comunistas. Em seguida foi para os EUA, como diplomata, numa curta temporada e retorna ao Brasil no inicio da década de 1950. Gravou seu primeiro samba – Quando tu passas por mim -, em 1953, com Aracy de Almeida em parceria com Antonio Maria. No mesmo ano foi para Paris trabalhar na embaixada brasileira.

No ano seguinte publicou Antologia Poética e a peça Orfeu da Conceição. Na busca de alguèm para musicar a peça, encontrou Antonio Carlos Jobim, um jovem pianista, dando origem a uma fecunda parceria, de onde sairam: Garota de Ipanema, Eu sei que vou te amar, Lamento no morro, Chega de Saudade entre outras. A peça deu origem a dois filmes (1): “Orfeu Negro”, uma produção ítalo-franco-brassileira, em 1959, dirigido por Marcel Camus, premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e Palma de Ouro no Festival de Cannes e (2) “Orfeu”, em 1999, dirigido por Cacá Diegues.

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AS BRASILEIRAS: Aracy Rosa

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa nasceu em Rio Negro, PR, em 5/12/1908. Diplomata e poliglota, trabalhou no consulado brasileiro em Hamburgo, Alemanha. Ficou conhecida como “O Anjo de Hamburgo”, devido a ajuda que prestou a muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil a partir de 1938, com a proibição estabelecida no Governo Vargas.

Filha de Sidonie Moebius de Carvalho e Amadeu Anselmo de Carvalho, dono do Grande Hotel de Guarujá, onde passou a infância. Casou-se aos 22 anos com Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve um filho e separou-se 5 anos depois, indo morar com a tia na Alemanha. Dominando 4 idiomas, foi trabalhar no consulado brasileiro, chefiando a Seção de Passaportes. Em 1938 passou a vigorar no Brasil a circular secreta nº 1.127, restringindo a entrada de judeus no País. Ela ignorou a restrição e não colocava a letra “J”, identificando quem era judeu, nos vistos de entrada, permitindo com isto a livre entrada no Brasil.

Por essa época conheceu João Guimarães Rosa, cônsul adjunto, e passaram viver juntos até 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e apoiou os países aliados na II Guerra Mundial. Devido a eclosão da guerra, o retorno ao Brasil teve algumas dificuldades. Ficaram 4 meses sob custódia do governo alemão e só foram liberados após uma troca por diplomatas alemães. Como ambos eram divorciados, tiveram que se casar no México.

Aracy ficou conhecida pela ajuda que prestou aos judeus, salvando-os do Holocausto. Mas pouco se fala de sua importância na vida do marido como escritor. As pesquisadoras Elza Miné, da USP-Universidade de São Paulo, e Neuma Cavalcanti, da UFC-Universidade Federal do Ceará, estudaram as cartas do casal e encontraram informações reveladoras: “Serás tudo para mim: mulher, amante e companheira. Sim, querida, hás de ajudar-me a escrever os nossos livros. Tu mesma não sabes o que vales. Eu sei. Serás, além de inspiradora, uma colaboradora valiosa, apesar ou talvez mesmo por não teres pretensões de ‘literata pedante”, escreveu Rosa em 1942.

Noutra carta, de 1946, escreveu: “O teu, o nosso Sagarana está quase pronto. Pegue um exemplar para nós. Seria uma alegria dupla: a chegada de ARA e SAGARANA. Mas em caso de perigo, joga fora o Sagarana e venha só a ARA, que é 300 bilhões de vezes mais importante para mim”. Sua obra prima Grande Sertão: Veredas foi dedicada a ela em 1956. Conta-se que ela não apenas revisava os textos do escritor; eventualmente modificava algumas partes.

Anos depois ela voltou a ajudar perseguidos políticos. Em 1964, após o Golpe Militar, deu guarida a alguns intelectuais e compositores, como Geraldo Vandré, de cuja tia Aracy era amiga. Em 8/7/1982, o governo de Israel incluiu seu nome no Jardim dos “Justos entre as Nações” do Museu do Holocausto, devido a sua bravura na salvação de muitos judeus do extermínio comandado pelo nazismo. A homenagem foi realizada, também, no Museu do Holocausto de Washington, nos EUA.

Ficou viúva em 1967 e mais tarde foi acometida pelo mal de Alzheimer, vindo a falecer em 28/2/2011, aos 102 anos. Foi sepultada no Mausoléu da ABL-Academia Brasileira de Letras, ao lado de seu marido. No mesmo ano a historiadora Mônica Schpun lançou sua biografia enfatizando o feito heroico: Justa: Aracy de Carvalho e o Resgate de Judeus: Trocando a Alemanha Nazista pelo Brasil, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 2011.

A história de Aracy foi retratada também no documentário “Esse viver ninguém me tira”, de Caco Ciocler, produzido em 2014, à disposição no Youtube. O governo brasileiro entrou no rol das homenagens, em 2019, quando os Correios fizeram circular 54 mil selos especiais com sua imagem estampada. Mais tarde, a TV Globo em parceria com a Sony Pictures Television, exibiu a minissérie Passaporte para a liberdade, em 2021, mostrando sua trajetória.

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OS BRASILEIROS: Mário Ferreira dos Santos

Mário Dias Ferreira dos Santos nasceu em Tietê, SP, em 3/1/1907. Advogado, jornalista, escritor, professor, e filósofo criador de um sistema denominado “Filosofia Concreta”. Filho do português Francisco Dias Ferreira dos Santos, dono de uma companhia teatral itinerante, em Pelotas, RS, e um dos pioneiros do cinema. Realizou o filme mudo “Os óculos do vovô” (1913), o filme brasileiro mais antigo que se tem notícia, tendo o próprio Mário como ator infantil.

Os primeiros estudos se deram no Ginásio Gonzaga, instituição jesuíta de Pelotas. O ateísmo do pai não impediu seu desejo de entrar nesta Ordem religiosa aos 14 anos, mas foi desaconselhado pelo padre: “Deves ir para o mundo, teus caminhos serão outros, porém mais tarde sei que voltarás a nós”. Em 1925 ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre e diplomou-se 1930. Passou a escrever em jornais de Pelotas e no “Diário de Notícias” e “Correio do Povo” de Porto Alegre. Participou da Revolução de 1930, ocasião em foi preso devido as críticas feitas ao novo regime. Em 1940 foi contratado pela Livraria do Globo como tradutor de latim, grego, alemão e francês.

Foi tradutor de diversos filósofos: Aristóteles, Pitágoras, Nietzsche, Kant, Pascal, Tomás de Aquino, Duns Scott, Henri-Frédéric Amiel e o poeta Walt Whitman. Em 1945 mudou-se para São Paulo e continuou o trabalho de tradutor na Editora Flama. Criterioso, procurava manter-se fiel ao ritmo, ao estilo e às modalidades da expressão Nietzscheana, colocando-se na posição de sentir como Nietzsche escreveria “Zaratustra” em português. Pode-se dizer que foi ele quem trouxe Nietzsche para o Brasil, com os livros “Vontade de potência” e “Assim falava Zaratustra”.

Passou a escrever sobre filosofia utilizando-se de pseudônimos e em 1946 publicou dois livros: Teses da existência e da inexistência de Deus e Se a esfinge falasse. No ano seguinte dedicou-se unicamente à filosofia vivendo fora do meio acadêmico, motivo pelo qual foi ignorado no meio intelectual. Vivia exclusivamente de sua advocacia, do magistério particular e como empresário editorial. Com dificuldades para publicar seus livros, fundou suas próprias editoras, a Logos S.A. e a Matese S.A. e foi pioneiro no sistema de venda de livros a crédito, de porta em porta. Escreveu vários livros sobre Filosofia, Psicologia, Oratória, Ontologia, Lógica etc.

Sua obra é composta por mais de 50 livros, alguns de grande sucesso editorial, contribuindo efetivamente para a popularização do estudo da filosofia no Brasil. Seu Dicionário de filosofia e ciências culturais, em 4 volumes (1963) chegou a 4ª edição em 3 anos. Era um pedagogo por excelência e esforçava-se em escrever obras de iniciação e referência: Filosofia concreta (3 volumes, 1956), Sociologia fundamental e ética fundamental (1957), Métodos lógicos e dialéticos (3 volumes, 1959), Tratado de economia (2 volumes, 1962), Filosofia e história da cultura (3 volumes, 1962), Análise de temas sociais (3 volumes, 1962) etc.

A “Filosofia Concreta” é baseada na lógica, não havendo possibilidade de discordância de seus pressupostos, a que chamou “Teses”. A primeira tese é a fundamentação de toda a sua filosofia: “Alguma coisa há, e o nada absoluto não há”, da qual extraiu outras teses, passando pelos principais tópicos da filosofia através dos métodos da Filosofia da matemática. Cario Beraldo, no verbete que dedicou à filosofia de Mário Ferreira na Enciclopédia Filosófica do Centro di Studi Filosofia di Gallarate, definiu sua filosofia como uma síntese “ao mesmo tempo tradicional e pessoal”. Seu trabalho vem sendo elogiado por sua forma e rigor de análise. Ele parte de pressupostos aparentemente simples para chegar na resolução de problemas de ordem maior. Seu biógrafo, Luís Mauro Sá Martino, conta que “Havia um problema: praticamente não existiam livros sobre os assuntos aos quais ele se referia. Filosofia era um produto importado e caro. As obras filosóficas principais não estavam traduzidas e os textos em circulação, em sua maioria, eram precários.”

No início da década de 1950, ele arquitetou uma obra de larga escala, a “Enciclopédia das Ciências Filosóficas”, na qual trataria da base filosófica de todas as áreas do conhecimento. Outros filósofos se preocupavam apenas com a formulação dos pensamentos, enquanto ele pretendia ser lido e compreendido por todos. A Enciclopédia tinha uma clara intenção social. Seu objetivo primordial era levar conhecimento ao povo e estimular o pensamento filosófico. Como não havia livros suficientes com os conceitos principais da filosofia, foi preciso começar do zero, construir as bases de um pensamento filosófico e, em seguida, expor sua filosofia original. Todo seu esforço foi voltado a escrever filosofia para o grande público, buscando afirmar nossa independência e capacidade para desenvolvimento de uma inteligência filosófica brasileira. Sua crença baseava-se no fato que o brasileiro era um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, que corresponda ao verdadeiro sentido com que foi criada desde o início.

Tinha convicção que o brasileiro era um povo receptor de ideias filosóficas vindas de todas as partes, sem encontrar um caminho para si mesmo. Acreditava que nós deveríamos criar este caminho e que sem esta visão positiva e concreta da Filosofia não seria possível solucionar os inúmeros problemas vitais próprios de nossa cultura. Apesar de uma prolífica obra, seu trabalho não encontrou grande difusão na academia brasileira ou estrangeira, e permanece pouco citado ou debatido. O Ph.D Stanislavs Ladusãns, um dos primeiros divulgadores de sua filosofia, o classificou como “o homem que ainda não foi descoberto no Brasil”. De acordo com o Prof. Carlos Aurélio Mota de Souza, doutor pela USP, ainda há muitas obras inéditas de Mario Ferreira que permanecem desconhecidas do grande público. O PhD. pela Universidade de Stanford, João Cézar de Castro Rocha, atribui esse ostracismo à década de 1950, pois, durante esse período, havia o desejo de incutir a pesquisa nas universidades, ambição que se chocava diretamente com o autodidatismo de Mário.

Faleceu em 11/4/1968 e ainda hoje é possível encontrar sua Enciclopédia de Filosofia (14 volumes) em algum sebo. Atualmente a editora “É Realizações” tem 10 de seus livros publicados e adquiriu os direitos de toda sua obra. Um ensaio biográfico e uma entrevista com o filósofo podem ser encontrados nos links:

http://www.tirodeletra.com.br/ensaios/VidadeMFS.htm

http://www.tirodeletra.com.br/ensaios/MarioF.Santos

Entrevista.htm

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AS BRASILEIRAS: Ana Barandas

Ana Belmira da Fonseca Barandas ou Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, seu nome literário, nasceu em Porto Alegre, RS, em 8/9/1806. Segundo a historiadora Hilda Flores, “é a primeira mulher poeta-cronista-novelista do Brasil”; para Maria Helena de Bairros “foi uma das introdutoras da forma narrativa na literatura sulina e brasileira” e segundo Sergio Barcelos Ximenes, Eugênia ou a filósofa apaixonada (1845) é a primeira história de ficção de escritora brasileira e Diálogos (1845), o primeiro texto feminista do teatro nacional”.

A pioneira da literatura feminina e feminista no País era filha de Ana Felícia do Nascimento e Joaquim da Fonseca Barandas, um casal de portugueses. O pai, cirurgião culto, amealhou considerável riqueza e possibilitou refinada educação literária e musical à filha. Casou-se em 1822 com o advogado português José Joaquim Pena Penalta e viveram alternadamente no Rio de Janeiro e Porto Alegre até 1843, quando se deu a separação do casal.

Após a morte do pai, em 1850, ela assumiu a chefia da família. Seu primeiro contato com o feminismo se deu com a leitura do livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens (1832), escrito por Nísia Floresta (1810-1885), de quem se tornou amiga. Na Revolução Farroupilha (1835-1845, tomou partido a favor do Império contra o separatismo. Em 1845 publicou o livro O ramalhete, ou flores escolhidas no jardim da imaginação, reeditado pela historiadora Hilda Flores, em 1990, e lançado pela Editora Nova Dimensão/EDIPUCRS.

Trata-se de uma coletânea de poesias, crônicas e contos escritos ao longo da década anterior, onde expressa o amor, suas alegrias e desilusões; a experiência da guerra; o patriotismo numa reflexão filosófica e crítica social. Segundo os críticos, “registra-se em sua obra um certo grau de erudição e um desejo de filiar-se a uma tradição pelo fato de ter invocado figuras mitológicas para traduzir a fatalidade das situações e dos atos humanos”.

O caráter feminista de sua obra foi acentuado no texto Diálogos, uma argumentação que se contrapõe ao machismo dominante. Uma batalha intelectual entre os personagens Mariana (a própria autora), Huberto (o pai ultra-conservador) e Alfredo, o primo conciliador que aceita em parte as mudanças e inovações impostas pela Revolução Farroupilha. No conto Eugênia ou a filósofa apaixonada, ela se posiciona contra o casamento arranjado pelos pais, um costume comum na época.

No texto A filosofia por amor, defendeu que as mulheres passassem a participar das preocupações políticas, ou seja, daquilo que diretamente influenciava a vida da mulher, de seus maridos e filhos. De resto, uma preocupação compreensivel em tempos de guerra. Ainda segundo Maria Helena de Bairros Campos, em sua tese de doutorado “A produção de poesia lírica das mulheres sul-riograndenses: uma escrita amarfanhada” defendida em 2004, na PUC/RGS, ela “fez uso da temática da guerra como mote para a criação literária”.

Faleceu em 23/6/1863 e não dispomos de uma biografia da autora, mas contamos com um estudo bio-bibliográfico: Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, escrito por Hilda Agnes Flores, publicado em “Travessia – Revista de Literatura Brasileira”, nº 23, 1991. Clique aqui para acessar.

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OS BRASILEIROS: Leonel Brizola

Leonel de Moura Brizola nasceu em 22/1/1922, em Carazinho, RS. Engenheiro e político, exerceu destacada liderança como prefeito, secretário de obras públicas, deputado estadual e federal e, por fim, como governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro no final do século XX. Foi um dos principais políticos ligados ao movimento trabalhista e fundador do PDT-Partido Democrático Trabalhista.

Filho de Onívia de Moura e José Oliveira dos Santos Brizola, assassinado em 1923. A mãe perdeu o marido e as terras e passou por dificuldades para manter a família. Aos 10 anos Brizola foi morar num hotel, onde lavava os pratos e carregava malas em troca da moradia. Pouco depois ganhou uma bolsa de estudos e concluiu o curso primário no Colégio da Igreja Metodista. Aos 14 anos mudou-se para Porto Alegre, trabalhou como engraxate, ascensorista e fez um curso de técnico rural. Participou de concurso público e trabalhou no Ministério da Agricultura e Prefeitura de Porto Alegre entre outros empregos.

Aos 17 anos ingressou no curso de engenharia civil da UFRGS, concluído em 1949. Durante o curso, organizou a ala jovem do PTB – Partido Trabalhista Brasileiro e conheceu Neusa Goulart -irmã do futuro presidente João Goulart-, com quem casou-se em 1950. O casamento em São Borja teve Getúlio Vargas como padrinho. Deputado estadual em 1947, foi secretário de Obras Públicas, em 1952, com atuação relevante no Primeiro Plano de Obras do estado, com obras de infraestrutura, rodovias e saneamento básico. Em 1954 foi eleito deputado federal com grande votação. No ano seguinte fundou e dirigiu o tabloide O Clarim, para comunicar e obter apoio aos seus projetos.

Em seguida foi eleito prefeito de Porto Alegre com o slogan “Nenhuma criança sem escola”. Ampliou o número de vagas na rede de ensino e urbanizou grande parte dos trechos próximos ao Rio Guaíba. Como governador do Estado, em 1959, recebeu o apelido de “lobisomem” por comandar, à noite, um programa na Rádio Farroupilha para prestar contas ao eleitorado. Era um orador articulado e se utilizou do poder de comunicação do rádio. Quando assumiu o governo, o déficit no ensino público era de 270 mil vagas. Assim, fez um acordo com as escolas privadas, em troca de professores do estado e verbas públicas, para disponibilizar vagas gratuitas aos mais pobres.

Ao término de seu mandado haviam sido construídos 6302 estabelecimentos, dos quais 5902 eram escolas primárias; 278 escolas técnicas e 122 ginásios (as chamadas “Brizoletas”). na época, o Rio Grande do Sul passou a ter a maior taxa de escolaridade do País. Seu governo priorizou também uma política de investimentos com capital nacional e encampou empresas multinacionais, como a Bond and Share (energia) e ITT-International Telephone and Telegraph, causando problemas nas relações Brasil-EUA. Criou também o IGRA-Instituto Gaúcho de Reforma Agrária para solucionar o problema da propriedade da terra no Estado, fornecendo recursos e equipamentos aos agricultores. Ampliou a reforma agrária doando mais de mil hectares de suas terras, na Fazenda Pangaré, a um grupo de famílias e deu início a uma cooperativa agrícola.

Em agosto de 1961, quando os militares tentaram impedir a posse de João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros, ele criou a “Campanha da Legalidade”, através de um grupo de estações de rádio para garantir a posse do novo presidente. Para isso, fez do Palácio Piratini uma trincheira, contando com o apoio do Exército regional, e chegou a armar parte da população civil para impedir o golpe. Os militares ordenaram o bombardeio do Palácio, mas a ordem não foi cumprida pelos sargentos e suboficiais da Base Aérea de Canoas. Após doze dias de uma guerra civil iminente, Goulart aceitou a proposta dos militares e foi empossado presidente.

Em 1962 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde elegeu-se deputado federal e manteve-se até o Golpe Militar de 1964, quando foi exilado no Uruguai e pouco depois passou a viver na Europa. Após 15 anos de exílio, retornou ao Brasil com o decreto da Anistia em 1979. Lutou pela retomada da sigla PTB, mas perdeu-a para Ivete Vargas, e fundou o PDT-Partido Democrático Trabalhista. Foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, tendo Darcy Ribeiro como vice e ocupando algumas secretarias. Em sua gestão foram construídos o “Sambódromo”, que abriga escolas de 1º e 2º grau. 127 CIEPs-Centro Integrado de Educação Pública, projetados por Oscar Niemayer, UENF-Universidade Estadual do Norte Fluminense, Biblioteca Pública Estadual entre outras destacadas obras. Foi candidato na eleição presidencial de 1989, sem êxito, e voltou a governar o Rio de Janeiro, em 1990, eleito no primeiro turno.

Para ele, o trabalhismo era uma doutrina política que se contrapunha ao comunismo, que surgia em Cuba na década de 1960. Já em 1958 deixou claro em seu manifesto que “o trabalhismo se inspira na doutrina social cristã; o comunismo é a abolição da propriedade; o trabalhismo defende a propriedade dentro de um fim social; o comunismo escraviza o homem ao Estado e prescreve o regime de garantia do trabalho; o trabalhismo é a dignificação do trabalho e não tolera a exploração do homem pelo Estado nem do homem pelo homem”. Faleceu em 21/6/2004 e foi incluído no “Livro de Heróis da Pátria”, em 2015. No mesmo ano em que faleceu, o PDT aprovou a incorporação de seu nome à Fundação que ajudou a criar, passando a se chamar Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini.

Os gaúchos reverenciam seu legado com uma estátua de bronze em tamanho natural, exposta nas cercanias do Palácio Piratini, em Porto Alegre. Sua vida foi narrada em algumas biografias: El caudillo – Leonel Brizola: um perfil biográfico (2008), de Francisco das Chagas Leite Filho; A razão indignada: Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1974-2004) (2016), de Américo Freire e Jorge Ferreira; Leonel Brizola: uma biografia política (2015), de Alexandre Brust e Nilton Nascimento e Brizola (2015), relato de memórias e fatos curiosos descritos pelos amigos Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro.

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AS BRASILEIRAS: Esperança Garcia

Esperança Garcia nasceu numa fazenda de propriedade dos jesuítas, onde hoje fica o município de Nazaré do Piauí, PI, provavelmente em 1751. Escravizada e primeira mulher advogada brasileira, um título simbólico outorgado pela OAB-Ordem dos Advogados do Brasil, em 5/9/2017.

Com a expulsão dos jesuítas do Piauí, em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, a menina de, aproximadamente, 8 anos, foi levada como escrava para a casa do capitão Antônio Vieira de Couto. Em 6/9/1770 escreveu uma carta ao então presidente da Província de São José do Piauí, Gonçalo Lourenço de Castro, denunciando maus-tratos contra ela e seu filho, pelo feitor da Fazenda Algodões. Pedia, ainda, para retornar à Fazenda, onde queria batizar sua filha.

Não se tem notícia de alguma providência tomada, mas sabe-se que pouco depois fugiu da fazenda e seu nome reapareceu numa relação de trabalhadores escravizados da Fazenda Algodões, datada de 1778, casada com o angolano Ignácio e com 7 filhos. Sua carta, redigida em 6/9/1770, é considerada a primeira petição de direito escrita por uma mulher. O documento foi descoberto no Arquivo Público do Estado do Piauí, em 1979. Devido ao caráter histórico da carta, o dia 6 de setembro é celebrado como o Dia Estadual da Consciência Negra no Piauí.

Carta na íntegra:

“Eu sou uma escrava de Vossa Senhoria da administração do Capitão Antônio Vieira do Couto, casada. Desde que o capitão lá foi administrar que me tirou da fazenda algodões, onde vivia com o meu marido, para ser cozinheira da sua casa, ainda nela passo muito mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que cai uma vez do sobrado abaixo peiada; por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar há três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar ao procurador que mande para a fazenda aonde me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha”

Aprendeu a ler e escrever provavelmente com os padres jesuítas. Após a expulsão dos jesuítas do Brasil e a mudança da fazenda para outros senhores de escravo, foi transferida para as terras do capitão Antônio Vieira de Couto. Longe do marido e dos filhos maiores, usou a escrita para reivindicar seus direitos. Sua carta reclama as violações a que foi submetida, pois desrespeitavam a lei conforme Decreto 1.695 de 1869, que proíbe a venda de escravos debaixo de pregão, separar o marido da mulher, o filho do pai da mãe, salvo quando maiores de 15 anos.

Segundo os pesquisadores a carta é um de ato de resistência, um tipo específico de resistência: uma atuação como membro da sociedade escravocrata que denuncia e pede proteção do Estado, como um Habeas Corpus, numa expressão de exercício da advocacia em nome próprio e de outras mulheres que também sofriam maus-tratos. Em 2009 foi criado em São Paulo o “Coletivo Cultural Esperança Garcia”, formado por mulheres negras e periféricas, com a finalidade de fomentar ações de educação, arte e cultura negra para pessoas em situação de vulnerabilidade, conforme o blog http://esperanca-garcia.blogspot.com

Como homenagem e reconhecimento histórico, Esperança Garcia denomina uma maternidade na cidade de Nazaré do Piauí e o auditório da UnB-Universidade de Brasília. Em 2017, o Memorial Zumbi dos Palmares, em Teresina, passou a denominar-se Memorial Esperança Garcia.] No Carnaval de 2019, a Estação Primeira de Mangueira prestou-lhe homenagem com o samba-enredo “História pra Ninar Gente Grande”. No mesmo ano foi apresentado o Projeto de Lei nº 3.772-A inscrevendo seu nome no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria’, tendo como relatora a deputada Benedita da Silva.

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OS BRASILEIROS: Mario Juruna

Mário Juruna, batizado Mário Dzuruna Butsé, nasceu na aldeia Xavante Namakura, próximo a Barra do Garças, MT, em 3/9/1943. Líder indígena e político ligado ao PDT-Partido Democrático Trabalhista. Foi primeiro deputado federal indígena do Brasil.

Filho de Isaías Butsé, chefe da aldeia Namakura, o principal cacique do povo Xavante. Seu primeiro contato com os brancos se deu aos 17 anos, quando sucedeu o pai na liderança da aldeia. Pouco depois passou a viajar pelo Brasil e na década de 1970 passou a frequentar a sede da FUNAI, em Brasília, em busca da demarcação das terras indígenas e fazer denúncias contra o Estatuto do Índio.

Tal Estatuto, nos artigos 2, 17 e 22, permitia que os povos indígenas pudessem ser removidos de suas terras, de maneira permanente ou temporária, com as seguintes condições: por imposição da segurança nacional; para a realização de obras públicas que interessem ao desenvolvimento nacional; para a exploração de riquezas do subsolo de relevante interesse para a segurança e o desenvolvimento nacional. Sua atuação e visibilidade na imprensa denunciando a precária situação dos índios fizeram com que tomasse a decisão de adotar um posicionamento mais firme e efetivo em sua luta.

Assim, em 1982 telefonou para Leonel Brizola, dirigente do PDT-Partido Democrático Trabalhista, manifestando interesse em se candidatar a deputado federal. No ano seguinte foi eleito com 31 mil votos. Uma de suas primeiras iniciativas na Câmara dos Deputados foi a criação da Comissão Permanente do Índio no Congresso Nacional, em março de 1983, que dá início a atual Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. A partir daí, amplifica sua atuação junto as comunidades e instituições de proteção aos povos indígenas. Em seu primeiro discurso na Câmara Federal, declarou “Sou homem do povo, sou homem de campo, quando me criei não encontrei nem um branco, não encontrei nem um avião, nem automóvel, nem estrada; onde me criei era sertão, eu só escutava canto do passarinho, e hoje eu encontro muito pressão contra índio, e invasor, e estrada. A gente está recebendo muita pressão”.

Em 1980 foi convidado, junto com Darcy Ribeiro, a participar do Tribunal Bertrand Russel, na Holanda, onde denunciou os abusos que os indígenas do Brasil estavam sofrendo com a ocupação de suas terras pelos brancos e os assassinatos cometidos contra os índios. Ficou conhecido como um deputado combativo, tendo sempre um gravador portátil para registrar as conversas com políticos e autoridades, para cobrar depois o que era prometido. Não confiava nas promessas ou afirmações dos políticos. Em 1982 foi publicado o livro O Gravador do Juruna, organizado por Antônio Hofeld e Assis Hofman, publicado pela editora Mercado Aberto.

No prefácio, Darcy Ribeiro traça um breve perfil de Juruna: “Como e por que este líder de uma aldeia indígena com menos de 100 pessoas se impõe, assim, a todos nós? Metade da resposta se encontra certamente na forte personalidade de Mário Juruna que faz sentir, de imediato, o seu carisma. A outra metade está na autenticidade de sua encarnação da causa indígena. Ele é a grande voz índia do Brasil que calou indigenistas, antropólogos e missionários que pretendiam interpretá-la. Depois de Rondon, os índios do Brasil têm pela primeira vez um representante incontestável: Mário Juruna”.

Foi um crítico ferrenho da FUNAI, que segundo ele não representava os povos indígenas adequadamente. Como Deputado, conseguiu a aprovação do projeto que alterava a composição de sua diretoria, incluindo pessoas indicadas pelas comunidades indígenas, que podiam ser índios ou indigenistas reconhecidos.

Em 29/3/1984, a Rede Globo dedicou o programa “Globo Repórter” à análise da questão indígena no Brasil, onde Juruna foi apresentado junto com uma entrevista realçando sua luta pela demarcação das terras. Em 1986 tentou se reeleger na Câmara Federal. Não conseguiu, mas continuou participando na política mesmo sem cargo político. Em 1994 houve nova tentativa, mas não foi eleito. No ano seguinte atuou como assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. Sua saúde era precária – sofrendo de diabetes e artrose infecciosa – e veio a falecer em 17/7/2002.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lota de Macedo Soares

Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, mais conhecida como Lota, nasceu 16/3/1910, em Paris, França. Arquiteta, paisagista e urbanista autodidata, fez do aterro do Flamengo um jardim -Parque do Flamengo-, consagrando o Rio de Janeiro como “Cidade Maravilhosa” na gestão do governo Carlos Lacerda, em 1960. A empreitada evitou a construção de 4 avenidas com prédios à beira-mar.

Filha de Adélia de Carvalho Costallat e José Eduardo de Macedo Soares, Tenente da Marinha baseado na Europa. A família retornou ao Brasil em 1912 e o pai fundou o jornal O Imparcial, precursor do Diário Carioca. Na década de 1920, devido as críticas que o jornal fazia ao governo, o pai teve que fugir para a Europa, onde Lota estudou até os 18 anos num colégio interno na Suíça, e retornaram ao Brasil. Na década de 1930, teve aulas de arquitetura com Carlos Leão e pintura com Candido Portinari na Universidade do Distrito Federal.

Era fã da corredora de carros Mariette Hélène Delange e chegou a participar de algumas corridas do Circuito da Gávea. Por esta época ficou conhecida no meio intelectual e artístico do Rio. Em meados de 1942, passou uma temporada em Nova Iorque e fez alguns cursos no Museu de Arte Contemporânea. De volta ao Rio, foi vizinha e amiga do futuro governador Carlos Lacerda e conheceu, em 1951, a poeta Elizabeth Bishop com quem viveu até 1967. Bishop é uma das poetas mais famosas dos EUA, que veio para o Brasil passar 2 semanas e ficou por mais de 20 anos. Segundo os críticos este período em que ficaram juntas, foi o mais produtivo da poeta, tornando-a vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956.

Quando Lacerda assumiu o governo do recém-criado estado da Guanabara, em 1960, convidou Lota para trabalhar num projeto de remodelação ao longo da Praia do Flamengo. Sua proposta ampliou bastante o aterro; impediu a construção de prédios e criou a Fundação Parque do Flamengo, da qual foi designada presidente. Na eleição seguinte Lacerda não foi eleito e a pressão dos sucessores levou-a a pedir demissão. Mas o Parque já estava pronto e foi inaugurado em 17/10/1965, contando com 1.200.000 metros quadrados.

O Parque passou a ser chamado oficialmente de Parque Brigadeiro Eduardo Gomes (o trecho entre o Aeroporto e o Monumento aos Pracinhas) e de Parque Carlos Lacerda (área do Monumento aos Pracinhas até o Túnel do Pasmado). Lacerda formou um grupo de trabalho, sob o comando de Lota, visando a urbanização do aterro Glória-Flamengo a partir do desmonte do Morro de Santo Antonio. Ela montou a equipe contando com o arquiteto Affonso Reidy, que foi diretor do Departamento de Urbanismo na década de 1940 e alimentava a ideia de criação do Parque desde aquela época.

A equipe contou também com o paisagista Burle Marx e diversos engenheiros e arquitetos. Conta-se que ela era uma chefe durona e que Burle Marx chegou a chamá-la de prepotente e autoritária em entrevistas nos jornais. Lota e Bishop viveram juntas de 1951 a 1965. Dois anos após, Lota viajou a Nova Iorque para encontrar Bishop. No mesmo dia foi encontrada no sofá da sala com um vidro de antidepressivos na mão. Entrou em coma e faleceu pouco depois, em 25/9/1967.

Em 2008 Nadia Nogueira lançou o livro Invenções de si em histórias de amor: Lota-Bishop, pela editora Apicuri. Em 2011 Carmen L. Oliveira lançou o romance biográfico Flores raras e banalíssimas: a história de Lotta de Macedo Soares e Elizabeth Bishop, pela editora Rocco. Em 2013 o livro foi transposto para o cinema com o filme Flores raras, dirigido por Bruno Barreto, tendo Glória Pires no papel de Lota.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Leopoldo Nachbin

Leopoldo Nachbin nasceu em 7/1/1922, em Recife, PE. Professor, matemático e um dos fundadores do IMPA-Instituto de Matemática Pura e Aplicada e do CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Ficou conhecido pela formulação do “Teorema de Nachbin”, usado para estabelecer um limite no crescimento de uma função analítica.

Filho de Léa Drechter Nachbin e Jacob Nachbin, uma família judaica, vinda da Europa em princípios do século XX. Ainda criança demonstrava interesse pela matemática e estudou num colégio onde foi amigo inseparável de Clarice Lispector. Mais tarde, quando já era escritora famosa, ela relembrou a antiga amizade numa crônica – As grandes punições – publicada no Jornal do Brasil em 1967 e dizia que ele era “um dos maiores matemáticos que hoje existem no mundo”.

No colégio foi aluno do prof. Luís Freire, conhecido estimulador de talentos, que o aconselhou a estudar no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 17 anos. A partir de 1940 e, simultaneamente com o curso de engenharia, frequentou como ouvinte o curso de matemática, pois não era permitido a matrícula em dois cursos ao mesmo tempo. Ainda aluno, tornou-se auxiliar de ensino no curso de cálculo infinitesimal, em 1941, e no mesmo ano publicou seu primeiro trabalho acadêmico, aos 19 anos, nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Em 1943 graduou-se em engenharia civil pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil.

Em 1947 foi contratado como professor da Faculdade Nacional de Filosofia e no ano seguinte prestou concurso de Livre Docência em Análise Matemática na mesma faculdade. Mais tarde tornou-se professor titular do CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e UFRJ-Universidade federal do Rio de Janeiro. Em 1948 foi estudar nos EUA, na Universidade de Chicago e manteve contatos com renomados matemáticos, como André Weil, Jean Dieudonné, Marshall Harvey Stone e Laurent Schwartz.

Na década de 1950 foi empossado na Academia Brasileira de Ciências. Lindolpho de Carvalho Dias, um dos primeiros diretores o considerava “excelente matemático, extremamente competente”. Fundou, também, a ELAM-Escola Latino-Americana de Matemática, em 1967. Foi o primeiro matemático a receber o prêmio Moinho Santista, em 1962 e primeiro brasileiro a palestrar no Congresso Internacional de Matemáticos, na Suécia, naquele ano.

Publicou 10 livros, a maior parte no exterior e centenas de artigos em revistas especializadas. Foi editor da prestigiada série “Mathematical Studies”, publicada pela editora North Holand. Suas contribuições situam-se nas áreas de Análise Funcional, Análise Harmônica, Topologia, Álgebras Topológicas, Teoria da Aproximação e Holomorfia em Dimensão Infinita. Segundo ele mesmo, seu trabalho mais importante é o estudo dos espaços Hewit-Nachbin.

Foi professor visitante e conferencista em renomadas instituições: Institut des Hautes Études Scientifiques (IHES), as Universidades de Paris VI, Chicago, Oxford, professor titular da University of Rochester e da Escola Normal Superior de Pisa. Em 1970, recebeu uma medalha honorífica da Universidade de Liege e, em 1973, recebeu o título de professor Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco. Recebeu, em 1982, o Prêmio de Ciências Bernardo Houssay, da Organização dos Estados Americanos (OEA) e, nesse mesmo ano, por ocasião de seus 60 anos, foi homenageado com um simpósio internacional de matemática realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A UNICAMP-Universidade Estadual de Campinas concedeu-lhe o título de professor Honoris Causa em 17/8/1989. Faleceu ainda jovem aos 67 anos, em 3/4/1993, em plena atividade. Em agosto de 2014, a biblioteca do Instituto de Matemática da UFRJ passou a denominar-se “Biblioteca Professor Leopoldo Nachbin”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Bartira

Bartira (também conhecida como Potira) ou Isabel Dias foi uma indígena Tupiniquim e uma das primeiras colonizadoras de São Paulo, em princípios do século século XVI. Sua prole de 3 filhas e 5 filhos se constituiu nos formadores da elite colonial paulista.

Filha do cacique Tibiriça, líder Tupiniquim, casou-se com João Ramalho, o famoso degredado português, possivelmente, em 1515. Na época era comum a união de mulheres indígenas com brancos europeus, visando a manutenção de alianças politicas e familiares que favorecia tanto os nativos como os colonizadores. Ela foi batizada pelos jesuitas, recebendo o nome de Isabel Dias.

A Igreja viu no enlace uma boa oportunidade para a conversão dos nativos, visto que Bartira era filha de um respeitado cacique. Os brancos também viram ali uma facilidade para a conquista portuguesa do planalto paulista. Quase todos seus filhos se destacaram na política e economia da região. Joana Ramalho casou-se com Jorge Ferreira, capitão mor da capitania de Santo Amaro e depois ouvidor da capitania de São Vicente. Antônia Ramalho casou-se com Bartolomeu Dias Nunes Camacho, figura destacada na colonização do litoral paulista.

O filho mais velho – André Ramalho – ficou conhecido por ter acompanhado o padre Manuel da Nóbrega no trabalho de catequese dos índios pelo sertão. Alguns netos e bisnetos descendentes dos primeiros fihos também tiveram posição de destaque no periodo colonial. Além dos 8 filhos com Bartira, conta a história que João Ramalho tinha uma numerosa prole com outras mulheres. Atualmente o nome Bartira anda negligenciado na historiografia do Brasil. Seu nome consta em alguns relatos, mas poucos citam o fato dela ter sido uma mulher indígena influente, guerreira e que falava outras línguas. Sua imagem está sempre ligada ao pai Tibiriçá e ao marido João Ramalho, restringindo seu protagonismo na História.

Na década de 1930 havia uma estátua em bonze de Bartira (foto acima) localizada no Jardim Helena, Zona Leste de São Paulo, esculpida por João Batista Ferri, próxima de um casarão do século XVI, que ficou abandonado por um longo periodo. Mario de Andrade, que além de escritor, foi um dos fundadores do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, defendeu arduamente o tombamento do local, que só veio ocorrer na década de 1990. A escultura foi estraviada ou roubada há muito tempo e atualmente a Prefeitura busca revitalizar o local. Porém sem uma proposta de refazer a estátua de Bartira.

Bartira teve trajetória semelhante a de outra índigena já incluida em nosso Memorial. Trata-se de Paraguaçu (1503-1583), filha do cacique Taparica, na região da Bahia e esposa do náufrago português Diogo Álvares, o Caramuru. Parece que nos primórdios do descobrimento havia o costume dos grandes caciques oferecerem suas filhas aos primeiros colonizadores.

Pouco se sabe acerca do falecimento de Bartira, algumas pesquisas apontam que ocorreu em 1559, quando teria completado 54 anos. Outro documento data sua morte no ano de 1550. Sua história, como a de tantos outros colonizadores do Brasil, é quase desconhecida. É mais uma vítima da falta de políticas de preservação e segurança do patrimônio público. Hoje sua memória resiste apenas na denominação de uma rua no Bairro Perdizes, em São Paulo.