JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Clara Camarão

Clara Felipe Camarão nasceu em princípios do século XVII, no Nordeste, às margens do rio Potengi, atual bairro do Igapó, em Natal, RN. Indígena potiguara, catequizada pelos Jesuítas junto com o marido Antônio Felipe Camarão (Poti), conhecido herói da Batalha dos Guararapes, na expulsão dos holandeses de Pernambuco. É reconhecida como uma das primeiras heroínas brasileiras, com destacada atuação na Batalha de Tejucupapo, em 1646.

Sua atuação não se dava apenas junto ao marido, que liderava um grupo de índios em batalhas em Olinda e Recife. Há registros sobre sua participação na escolta de algumas famílias de colonos, fugindo do ataque holandês, em 1637, na cidade de Porto Calvo. A história conta que ela liderava um pelotão feminino de indígenas. Conta também que naquela época, algumas tribos Tupi, incluindo os potiguares, treinavam suas mulheres nos combates.

Sua história pessoal é repleta de lendas, como todas desse período, mas seu nome consta num poema de José da Natividade Saldanha, em 1822, quando cursava Direito na Universidade de Coimbra, publicado num livro de poesias dedicado aos amantes do Brasil, exaltando a coragem de Clara Camarão. Os livros “Brasileiras célebres”, de J. Norberto de S.S, publicado em 1862 pela Livraria Garnier, e “Anno Biographico Brasileiro”, de Joaquim Manoel de Macedo, publicado em 1876 pela Typografia e Litografia do Imperial Instituto Artístico, trazem verbetes relatando seus feitos. Era uma mulher que tinha pleno domínio do arco e flecha, da lança e do tacape, e que investia contra os inimigos montada em seu cavalo.

Um de seus feitos memoráveis e comemorado até os dias atuais é a “Batalha de Tejucupapo”. O episódio ocorreu em 1646, quando a tropa holandesa decidiu invadir o povoado (próximo a Goiana, PE) em busca de comida. A vila era grande produtora de farinha de mandioca e os homens se dirigiam, aos domingos, à feira do Recife para vender o produto. Os holandeses aproveitaram a ocasião para invadir a vila. Os poucos homens que restavam formaram uma barreira de contenção, mas foram abatidos. Ao entrar na vila, a tropa holandesa foi surpreendida por um batalhão de mulheres armadas de arco e flecha e enormes tachos de água fervente misturada com pimenta, jogada nos olhos dos invasores, pelo batalhão feminino comandado por Clara Camarão e mais 3 mulheres (Maria, Quitéria e Joaquina). O elemento surpresa inutilizou os flamengos para o combate e deixou mais de 300 mortos. Pouco depois, o casal Felipe e Clara Camarão, foi agraciado com o hábito de Cristo e gozaram as regalias dos títulos de ”Dom” e “Dona”, concedidos pelo rei Felipe IV devido aos serviços prestados à Portugal.

O episódio ficou marcado na História do Brasil e vem sendo comemorado até hoje, todo último domingo de abril, no distrito de Tejucupapo, em Goiana, PE. Na festa é apresentada um espetáculo teatral, ao ar livre no Morro das Trincheiras, onde se deu a batalha, com a participação de 220 atores, num espetáculo dirigido por Dona Luzia Maria desde 1993. A “Batalha de Tejucupapo” vem sendo contada em livros, filmes e peças de teatro, bem como em teses acadêmicas. O primeiro registro histórico do episódio se deu em 1648, dois anos após ocorrido, pelo frei português Manuel Calado, que presenciou o conflito e publicou o livro “O Valeroso Lucideno”, em Lisboa, e republicado em 1987 pela Editora Itatiaia. Trata-se de uma crônica relatando a resistência portuguesa ao invasor holandês.

Em 1984, a jornalista Marilene Felinto publicou o romance “Mulheres de Tejucupapo”, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de escritora-revelação e foi traduzido em diversos idiomas. O professor de comunicação da Universidade Católica de Pernambuco, Claudio Bezerra, empreendeu vasta pesquisa e publicou o livro “Tejucupapo: História, Teatro, Cinema” pela Editora Bagaço, em 2004. Tais relatos sobre o episódio garantiu à sua protagonista Clara Camarão, a inscrição no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, através da Lei nº 13.422, de 27/3/2017, além de seu nome estampado na Refinaria de Petróleo em Guamaré, RN. Sua última luta se deu ao lado do marido na Batalha dos Guararapes, em 1648, quando ele faleceu pouco depois e ela recolheu-se à vida privada, não sendo conhecidos o local e data de sua morte.

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OS BRASILEIROS: Emílio Ribas

Emílio Marcondes Ribas nasceu em Pindamonhangaba, SP, em 11/4/1862. Médico sanitarista, pioneiro no combate da febre amarela entre outras epidemias e na criação de instituições de pesquisas na área da saúde pública, junto Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Vital Brasil e Carlos chagas. Após os primeiros estudos em escola pública, foi estudar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e graduou-se em 1887, com a tese “Morte aparente de recém-nascidos”, ressaltando os cuidados com o cordão umbilical.

Em seguida casou com Maria Carolina Bulcão e passou a clinicar em Santa Rita do Passa Quatro, SP. Pouco depois mudou-se para Tatuí, onde foi nomeado inspetor sanitário, em 1895. No ano seguinte, como auxiliar do Dr. Diogo Teixeira de Faria, no “Desinfetório Central”, combateu várias epidemias guiado sobretudo pela intuição. Exterminou o mosquito transmissor (Aedes aegyptii) em São Caetano, Jaú, Pirassununga, Pilar, Rio Claro, Araraquara e Campinas, onde foi promovido a chefe da comissão sanitária e permaneceu até 1898. Ajudou Vital Brasil na criação do Instituto Soroterápico, os primórdios do Instituto Butantan, e foi nomeado diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, cargo ocupado até se aposentar em 1917.

Publicou, em 1901, o artigo “O mosquito considerado como o agente de propagação da Febre amarela” e sofreu forte oposição dos colegas, que não acreditavam na transmissão da doença pelo mosquito. Afim de aprofundar o assunto, foi para Cuba acompanhar o trabalho dos médicos Carlos Juan Finlay e Walter Reed, que estavam mais adiantados na pesquisa. Em princípios do século passado Cuba era um celeiro do mosquito e os surtos febre amarela eram recorrentes. No ano seguinte foi para São Simão, afim de deter a 3ª epidemia de febre amarela e só saiu de lá quando conseguiu, com ajuda de outros médicos e voluntários, acabar com a epidemia, limpando o rio que corta a cidade e instalando serviços de saneamento básico.

Retornando â São Paulo, decidiu fazer uma experiência semelhante a realizada pelos colegas cubanos, junto com Adolfo Lutz e mais dois voluntários: deixaram-se picar por mosquitos que estiveram em contatos com doentes de febre amarela, no Hospital de Isolamento de São Paulo (atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas), em 1903. Foi a partir da contaminação de Ribas que Oswaldo Cruz empreendeu a eliminação dos focos de mosquito no Rio de Janeiro. A experiência foi repetida mais duas vezes, sendo a última com 3 imigrantes italianos pagos para ficarem junto a secreções e lençóis usados por doentes de febre amarela. Os resultados provaram que a transmissão não se dava pelo contágio e sim pela picada de mosquitos infectados por pessoas portadoras dessa moléstia.

Ainda em 1903 a experiência foi apresentada no 5º Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, onde ele defendeu o combate com a eliminação do mosquito e não dos meios defendidos pelos “contagionistas”. No mesmo ano a febre amarela foi declarada extinta no estado de São Paulo. Pouco depois uma nova epidemia começa a preocupar os paulistas: a tuberculose. O Governo encarrega-o com a missão de viajar aos EUA e Europa para estudar a profilaxia dessa doença. Trouxe na bagagem algumas ideias que alavancaram a cidade que ficou conhecida como a “Suiça Brasileira”. Campos de Jordão já era famosa pelo seu clima, como um lugar propício ao tratamento da tuberculose. Mas, para chegar lá os enfermos tinha que subir a serram da Mantiqueira em lombo de burros e cavalos. Uma de suas primeiras providências, junto com Victor Godinho, foi a construção da Estrada de Ferro Campos de Jordão, inaugurada em 1914.

O projeto era indispensável não só para o transporte das pessoas, mas para o envio de materiais para a urbanização e construção de hospitais, como o primeiro Dispensário de Tuberculose. A dedicação à este trabalho lhe rendeu honrosa homenagem ainda em vida: seu nome foi dado à praça central de sua cidade. Rendeu também 200 contos de réis, dado pela Câmara Municipal, em 1917, quando se aposentou. Mas, esta “comenda” ele recusou. Como se vê, foi um exímio administrador, além médico dedicado a várias doenças. De seus cuidados no tratamento da lepra, surgiu o “Sanatório de Santo Ângelo”, em Mogi das Cruzes. O primeiro centro de tratamento mais humano de assistência aos hansenianos no Brasil, iniciado em 1917 e inaugurado em 1928.

Seu envolvimento no projeto, junto com o colega Joaquim Riberio de Almeida resultou na construção de uma cidade em miniatura, com igreja, teatro, campo de futebol, praça etc. No conceito da época, o isolamento era um benefício para os doentes e para a sociedade. O sanatório deu origem ao grande “Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti”, que ainda mantém uma ala dedicada aos hansenianos. Em 1922 deu sua última conferência sobre febre amarela no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina de São Paulo, que leva o nome de seu amigo Oswaldo Cruz, e veio a falecer em 19/12/1925. Na celebração dos 150 anos de seu nascimento, realizada em 2012 no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, foi apresentada uma exposição audiovisual sobre a vida e legado do médico e administrador.

Na ocasião, o governador Geraldo Alckmin concedeu-lhe o título póstumo de “Patrono da Saúde do Estado de São Paulo”. Foi também lançada sua biografia: “Emílio Ribas, o guerreiro da saúde”, escrita pelo seu colega José Lélis Nogueira. Trata-se de um vasto levantamento das batalhas travadas por este guerreiro em combate com diversas epidemias. Seu caráter batalhador foi realçado no artigo “Combates sanitários e embates científicos: Emílio Ribas e a febre amarela em São Paulo,” publicado por Marta de Almeida na revista “História, Ciências, Saúde – Manginhos”, vol. VI(3): 577-607, fev. 2000. Clique aqui para acessar.

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AS BRASILEIRAS: Luiza Grimaldi

Luíza Grimaldi Correa nasceu em Portugal, em 1541. Fidalga real portuguesa da antiga Casa de Grimaldi, de descendencia italiana e segunda “capitoa” do Brasil. A primeira foi Brites de Albuquerque, da Capitania de Pernambuco. Casada com Vasco Fernandes Coutinho Filho, segundo donatário da Capitania do Espírito Santo, ficou viúva em 1589 e recebeu como herança a propriedade da Capitania, na época em que Portugal estava sob o dominio español.

Governou a Capitania até 1593, quando, por orden do Rei, o governo foi transferido para seu sobrino Francisco de Aguiar Coutinho. Na condição de terceira donatária, manteve a defesa da terra contra os indígenas e enfrentou o corsário inglês Thomas Cavendish, que já havia saqueado diversos povoados do litoral brasileiro, além de traficantes de escravos e açucar. Auxiliada pelo cunhado Miguel de Azeredo e numa aliança com o cacique Jupi-açu, conseguiu fortificar o povoado e enfrentar os invasores, que tentaram desembarcar ali em 1592.

Na construção dos Fortes de São Marcos e São Miguel, em Vitória, foi orientada pelo seu confessor e amigo Padre José de Anchieta, a quem ajudou na catequese do território capíxaba. Em seu governo, incentivou a vinda de religiosos beneditinos e franciscanos, os quais receberam como doação o Morro das Palmeiras, onde foi erguido o Convento da Penha, uma das joias da arquitetura religiosa colonial. Foi ela quem recepcionu o primeiro bispo do Ro de Janeiro, Dom Bartolomeu Simões Pereira. Foi Também uma grande incentivadora da imigração ao territorio capixaba de espanhóis, judeus, portugueses e colonos de outras capitanías.

Em 1593 retornou à Portugal, onde se recolheu no Convento Paraíso, em Évora e veio a falecer em 1626, aos 85 anos, com o nome Soror Luiza das Chagas. Na Europa, foi uma das pessoas que deporam no processo de beatificação do padre José de Anchieta. A escritora capixaba Bernadete Lyra, doutora em História, passou 4 anos pesquisando sobre sua vida em Espirito Santo e Portugal e escreveu o romance biográfico “A Capitoa”, publicado pela Editora Leya, em 2014. Com base nesta pesquisa, o escultor Hippólito Alves conseguiu esculpir a estátua da “Capitoa” (foto acima), inaugurada em 23/5/2016 e localizada em frente a Casa da Memória, em Vila Velha, no exato local onde nasceu o Estado do Espírito Santo. Na escultura ela aprecia a vista do Convento da Penha.

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OS BRASILEIROS: Adolfo Lutz

Adolfo Lutz nasceu no Rio de Janeiro, em 18/12/1855. Médico sanitarista, zoologista, cientista e pioneiro da medicina tropical e saúde pública brasileiras. Junto com Oswaldo Cruz, Vital Brasil, Emílio Ribas e Carlos Chagas, entre outros, estabeleceu as bases de combate às epidemias e doenças urbanas, bem como a criação de sólidas instituições de pesquisas na área da saúde.

Criado numa tradicional família de Berna, Suíça, seu avô –Friedrich Bernard Jacob Lutz- chefiou o serviço médico do exército da Confederação Helvética. Seus pais –Gustav Lutz e Mathilde Oberteuffer chegaram ao Rio de Janeiro em 1850, no auge de uma epidemia de febre amarela. Em 1855, a cidade, passou por outra epidemia, agora, de cólera. Tanto o pai, que trabalhava no comércio, como a mãe eram grandes empreendedores. Dona Mathilde abriu uma escola, que veio a se tornar o Colégio Suiço-Brasileiro, no bairro Botafogo. Na época, o Rio era conhecido como o “túmulo dos imigrantes”. Isto fez com que a família voltasse à Suíça 2 anos depois. Mas, em 1864, os pais retornaram ao Rio, devido aos negócios, e deixaram os 3 filhos maiores em Basiléia para concluir os estudos. Adolfo contava com 9 anos e desde cedo demonstrava certa precocidade e segurança ao afirmar, aos 6 anos, que queria dedicar-se ao estudo da Natureza. Aos 13 anos já era leitor habitual da bíblia da biologia moderna: A origem das espécies, de Charles Darwin. Graduou-se médico na Universidade de Berna, em 1879 e, no ano seguinte, aos 25 anos, doutorou-se com tese sobre Os Efeitos Terapêuticos do Quebracho. Em seguida, fez cursos de especialização em medicina experimental em Londres, Viena, Praga e Paris, onde foi aluno de Louis Pasteur.

Retornou ao Brasil, em 1881, e foi trabalhar em Limeira (SP), como clínico geral por 6 anos. Interessado na área de pesquisa médica, foi estudar na Alemanha, especializando-se em doenças infecciosas e medicina tropical. Trabalhou junto a Paul Gerson Unna, “papa” da Dermatologia, e publicou seu primeiro trabalho sobre o micróbio da lepra (1886) na conceituada revista (atual) “Dermatologische Wochenschrift”. Foi uma grande contribuição ao caráter não contagioso da doença, motivo pelo qual foi convidado para o cargo de diretor do Hospital Kahili, no Havaí. onde passou a estudar in loco a hanseníase. Aí conheceu Amy Marie Gertrude Fowler, enfermeira inglesa voluntária, destacada pelo destemor com que entrava em contato com os leprosos. Trabalharam duro para demonstrar que a lepra não era uma doença contagiosa. Ao enfrentarem o preconceito dos colegas, suas afinidades se ampliaram e vieram a casar em 11/4/1891. Após breve período na Califórnia (EUA), foi convidado pelo governador de São Paulo, em 1893, como diretor interino do Instituto de Bacteriologia, que mais tarde foi rebatizado com seu nome. O instituto foi criado para estudar e combater as epidemias, endemias e epizootias mais comuns no estado. Com uma pequena equipe, ele foi a alma, o cérebro e a força de trabalho do instituto. Com sua dedicação, foi efetivado no cargo de diretor em 1895, onde permaneceu por 15 anos.

Por essa época, a cidade de Santos sofreu uma grande epidemia de peste bubônica e ele foi para lá junto com outros dois jovens médicos: Emílio Ribas e Vital Brasil, de quem ficou amigo e deu-lhe suporte às pesquisas sobre antídotos para picadas de cobra. Suas pesquisas tornaram-no o primeiro cientista latino-americano a confirmar os mecanismos de transmissão da febre amarela pelo Aedes aegypti, o mosquito vetor dessa doença. Sua dedicação à saúde pública, levou-a pesquisar várias epidemias, como a cólera, peste bubônica, febre tifoide, malária, ancilostomíase, esquistossomose e leishmaniose. Além de pioneiro na área da Entomologia, pesquisou as propriedades terapêuticas das plantas brasileiras. Como zoologista, descreveu várias espécies de insetos e anfíbios. Nesta área, sua filha, a bióloga Bertha Lutz (1894-1976) tornou-se conhecida com a descoberta de 10 espécies de anfíbios e famosa como pioneira na luta pelo voto da mulher. Em 1899, ingressou como membro honorário na Academia Nacional de Medicina. Seu nome passou a ser uma referência nacional na área da bacteriologia, que adquiria papel fundamental na saúde pública, com os surtos de cólera, febre tifoide, disenterias, febre amarela etc.

Neste período publicou dezenas de artigos nas principais revistas do mundo e mantinha contato com diversos cientistas em âmbito internacional. No contato profissional com os brasileiros, seu estilo alemão encontrou algumas dificuldades. Certa vez reclamou que os principais obstáculos não residiam nas condições externas e sim no caráter do brasileiro: “A pontualidade, solidez e sinceridade científica lhe são estranhas, e ele se sente completamente satisfeito em manter as aparências. As antipatias e simpatias pessoais frequentemente tomam o lugar da lei e do direito. O protecionismo e nepotismo são quase um cancro que não se pode exterminar.” Aposentado em 1908, aos 53 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e foi ajudar seu amigo Oswaldo Cruz a erguer o Instituto de Manguinhos. Aí encontrou espaço para se dedicar integralmente à sua vocação de cientista. Pode, enfim, retomar as pesquisas em zoologia e botânica que não puderam ser realizadas a contento enquanto esteve em São Paulo.

Era um homem mais afeito ao trabalho solitário de laboratório e não um líder ou chefe aglutinador e formador de talentos. Não apreciava a publicidade inerente à condição de homem público. Mesmo em São Paulo, sempre deixou à Emilio Ribas o encargo, e louros, das grandes ações públicas. Dizia-se que não era um timoneiro do porte de Oswaldo Cruz. Certamente a união dos dois foi determinante para o sucesso da empreitada em fazer da FioCruz uma instituição respeitada na ciência mundial. Após a morte de Oswaldo Cruz, em 1917, continuou em estreita ligação com o novo diretor -Carlos Chagas- dotando o instituto de uma excelência técnica até 6/10/1940, quando veio a falecer. Em menos de um mês foi inaugurado o Instituto Adolfo Lutz (29/10/1940), a partir de uma fusão do Instituto Bacteriológico com o Laboratório Bromatológico, localizado ao lado da Faculdade de Medicina da USP.

Trata-se de uma das mais renomadas instituições cientificas no mundo. Conta hoje com 11 laboratórios regionais no interior do Estado e foi credenciado pelo Ministério da Saúde como Laboratório Nacional em Saúde Pública e Laboratório de Referência Macroregional. É também o Centro Controlador da OPS-Organização Pan-Americana de Saúde, nas áreas de arbuvírus e vírus influenza. É reconhecido como o principal centro de controle de qualidade de alimentos, bebidas, águas, medicamentos, cosméticos, produtos de higiene etc. Quanto ao legado, toda sua obra (21 livros) foi compilada e organizada pelo historiador Jaime Benchimol e pela bióloga Magali Romero Sá, editada em 4 volumes pela FioCruz em 2004. O mesmo autor escreveu também extenso esboço biográfico, publicado na revista da FioCruz “História, Ciências, Saúde-Manguinhos”, em 2003. Para acessar basta clicar aqui.

Sua filha Bertha Lutz se empenhou na preservação de sua memória e legado ao ponto de projetar um Museu no Rio de Janeiro, com apoio de instituições internacionais, mas não foi concluído. Em 1955 foram realizadas as celebrações do centenário de seu nascimento, registradas no documento “Comissão do centenário de Adolfo Lutz. Adolfo Lutz: vida e obra do grande cientista brasileiro, publicado pelo Conselho Nacional de Pesquisas, em 1956. Seu sobrenome foi homenageado com a denominação científica de uma espécie de perereca (Aplastodiscus lutzorum) e de um mosquito (Anopheles lutzi).]

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AS BRASILEIRAS: Ana Pimentel

Ana Pimentel nasceu em Salamanca, Espanha, em princípios de 1500. Colonizadora, esposa de Martim Afonso de Souza, dama de honra e prima da Rainha Dona Catarina (irmã de Carlos V, Rei da Espanha). Diz-se que era uma mulher de aspecto frágil, mas de grande autonomia. Casou-se em 1524 e no ano seguinte o casal mudou-se para Lisboa, levando Dona Catarina, que se tornou esposa de Dom João III, Rei de Portugal.

Em 1530, o marido foi designado a colonizar a Brasil e combater os franceses, que andavam de olho naquelas terras. Passou 3 anos no Brasil; fundou a vila de São Vicente e retornou à Lisboa em 1533. O Capitão-mór era um fidalgo português, navegante e explorador de territórios d’além mar, que não dispunha de tempo para cuidar da Capitania. Assim, a história conta que seu único ato relativo àquela parte do Brasil, foi providenciar uma procuração à sua mulher para administrar a Capitania. Em 1533 ele foi nomeado Capitão-mór do mar da Índia e depois tonou-se governador da Índia.

Consta que ela passou a cuidar da administração política e administrativa da Capitania por mais de 10 anos, até 1544. Realizou a distribuição das terras em sesmarias, designou alguns dirigentes e introduziu na selva brasileira, o cultivo da laranja, arroz e trigo e mandou vir da Ilha de Cabo Verde, bois e vacas para criar. Assim, pouco depois, os colonos já comiam carne bovina com arroz e trigo, algo nunca visto em terras brasileiras. São tarefas incomuns para uma mulher naquela época, mas que se deram a contento. Além de manter a administração da Capitania a distância, manteve a família de 8 filhos, que teve com o marido entre uma missão e outra, designada pela coroa portuguesa. As más línguas falavam que ela, na condição de dama de honra da Rainha, tinha alguns privilégios que lhe possibilitava contatos furtivos com alguns ordenanças. Mas, tais fofocas partiam de inimigos do marido, que vivia viajando. Logo, é fofoca que não importa na história.

Em 1536 providenciou carta de doação de uma sesmaria para Braz Cubas. 10 anos após, a sesmaria foi elevada a condição de Vila, que tornou-se a cidade de Santos e veio a prosperar mais que São Vicente. Outro de seus feitos foi desobedecer a ordem do marido, que proibia aquele povo de transpor a Serra do Mar, com acesso ao planalto paulista. onde se encontrava terras mais férteis e um clima mais ameno. A proibição devia-se a acordos mantidos em Lisboa, que tinha o planalto destinado a criação da Vila de São Paulo. Desse modo, foi a precursora da ligação do interior com o litoral, propiciando o surgimento dos Bandeirantes e o consequente desenvolvimento posterior da região.

Os primeiros anos da Capitania de São Vicente encontram-se registrados no documento manuscrito, transformado em livro, “O testamento de Martim Afonso de Sousa e de Dona Ana Pimentel”, publicado pela Editora da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais, em 2015. Dona Ana Pimentel administrou a Capitania até 1544 e veio a falecer em 1571.

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OS BRASILEIROS: Teodoro Sampaio

Teodoro Fernandes Sampaio nasceu em Santo Amaro, BA, em 7/1/1855. Engenheiro, geógrafo, escritor e historiador. O local onde nasceu -Engenho Canabrava- hoje é o município que leva seu nome. Filho da escrava Domingas da Paixão do Carmo e Francisco Antonio da Costa Pinto, que não o reconheceu como filho. Alguns dizem que seu pai foi o padre Manuel Fernandes Sampaio, que o batizou e alforriou. Ele mesmo nunca declarou sua paternidade.

Aos 2 anos foi entregue a uma senhora da sociedade, D. Inês Leopoldina, que o criou até os 9. Em 1865 foi levado para o Rio de Janeiro e internado no colégio São Salvador. Ainda estudante, deu aulas de Matemática, Filosofia, História, Geografia e Latim no mesmo colégio a partir de 1871. Ingressou no curso de Engenharia do Colégio Central e passa a trabalhar como desenhista do Museu Nacional. Após formado em Engenharia Civil (1876), estabeleceu como meta adquirir a alforria de seus 3 irmãos: Martinho (1878), Ezequiel (1882) e Matias (1884). Em 1879, integrou a “Comissão Hidráulica do Imperio”, nomeada por D. Pedro II, com o objetivo de melhorar os portos de navegação interior dos rios do Brasil. Seu nome não apareceu no Diário Oficial junto aos demais integrantes, por ser o único negro. Somente após interferência do Senador Viriato de Medeiros é que ele foi incluído.

A Comissão, comandada pelo engº norte-americano William Milnor Roberts, percorreu mais de 2 mil km. pelo Nordeste e Teodoro teve uma atuação destacada pelo seu trabalho. No relatório final da Comissão foi citado como “the best Brazilian engineer in mister Robert’s staff”. Em 1881 foi contratado para trabalhar no prolongamento da linha férrea de Salvador ao São Francisco e no ano seguinte foi nomeado engenheiro chefe da Comissão de Desobstrução do Rio São Francisco. Devido ao trabaho realizado na Comissão Hidráulica, foi convidado, em 1886, por um de seus menbros, -Orville Derby- para integrar a Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, encarregado de elaborar a carta geológica da Província. O acervo de documentos desta comissão deu origem ao Museu Paulista (Museu do Ipiranga), criado em 1891.

Assim, passou a residir em São Paulo por mais de 20 anos e ocupou destacados cargos em órgãos públicos. Participou da criação da Companhia Cantareira, como engenheiro-chefe e, junto com Francisco Sales Gomes, ajudou a fundar a Escola Politécnica, em 1893. No ano seguinte foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e no período 1898-1903 chefiou o Departamento de Águas e Esgoto de São Paulo, além de consolidar sua carreira profissional e intelectual. Não por acaso, seu nome denomina uma das principais ruas da cidade, no bairro de Pinheiros.

Em 1904 retornou Salvador e realizou diversos projetos na área de saneamento básico; construção da cidade satélite, que chamou de “Cidade da Luz”, hoje Parque Nossa Senhora da Luz, em Pituba; represa de Pituaçu e os prédios da Maternidade Climério de Oliveira e da Faculdade de Medicina. Além das contribuições como engenheiro deixou um legado bibliográfico na geografia e história. Seu apego a estes temas, possibilitou uma aproximação com Euclides da Cunha, de quem se tornou amigo e ajudou-o no conhecimento sobre o sertão baiano na elaboração do livro Os Sertões.

Sua obra mais importante: O Tupi na Geographia Nacional (1901) ainda hoje é relevante no conhecimento do papel dos bandeirantes na difusão de topônimos de origem Tupí. Publicou diversos livros sem deixar os trabalhos de engenharia e geógrafo, e presidir o V Congresso Brasileiro de Geografia, em 1912. Principais obras: O rio São Francisco e a chapada Diamantina (1906), Atlas dos Estados Unidos do Brasil (1908), Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil (1922). Tais publicações lhe renderam a Medalha de Prata, ortorgada pela Academia de História Internacional da França, em 1911.

Em 1917 participou da fundação da Academia de Letras da Baihia, ocupando a cadeira nº 32. Como patrono escolheu o engenheiro e também negro André Rebouças. Prestigiado na cidade, teve uma curta carreira política como deputado federal (1921-1923), não pleiteando a reeleição. Foi considerado um dos maiores engenheiros do País, além de eminente historiador e notável tupinólogo. Atuou como sócio efetivo de honra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; sócio fundador do Instituto Histórico de São Paulo e do Instituto Geográfico e Hitórico da Bahia, que presidiu por 14 anos (1923-1937). Foi também socio correspondente dos institutos históricos e geográficos de Minas Gerais, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará, além do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos de vida, dedicou-se ao livro História da Fundação da Cidade da Bahia, publicado postumamente em 1949. Faleceu antes de concluir o último capítulo, em 15/10/1937. Seu nome consta hoje em dois municípos (São Paulo e Bahia) e em diversos logradouros do País. A homenagem mais recente foi a exposição “Teodoro Samaio: um sábio negro entre os brancos”, realizada em São Paulo, no Museu Afro Brasil, em 2007, sob a curadoria de Emanuel Araújo.

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AS BRASILEIRAS: Bárbara Heliodora

Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira nasceu em São João del Rey (MG), em 3/12/1759. Poeta, mineradora e Inconfidente Mineira. Seu nome às vezes é confundido com a crítica teatral Heliodora Carneiro de Mendonça, também conhecida como Bárbara Heliodora, certamente em homenagem à poeta e “Heroína da Inconfidência Mineira”. Coincidentemente foi contemporânea de Bárbara de Alencar (1760-1832), revolucionária pernambucana de 1817 e avó do romancista José de Alencar.

Criada numa tradicional família de mineradores, sua mãe Maria Josefa Bueno da Cunha era descendente do paulista Amador Bueno, aclamado rei de São Paulo, em 1641. Casada com o Inconfidente e poeta Alvarenga Peixoto, fez questão de manter o nome de solteira. Em 1860, seu biógrafo Aureliano Leite, deixou registrado: “ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalentou o seu sonho da inconfidência do Brasil… quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara que o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade, fez com que a posteridade lhe desse o tratamento de Heroína da Inconfidência”.

Na condição de esposa de um dos líderes da Inconfidência Mineira, manteve algumas reuniões dos revoltosos em sua casa. E se não há provas de seu envolvimento na conjuração, é porque o marido resguardou a esposa nos interrogatórios dos “Autos da Devassa”. Assim, ela e sua xará pernambucana, foram as primeiras mulheres brasileiras a participar de uma revolta política. Após o fracasso do movimento, o marido foi preso, teve os bens confiscados e foi deportado para Angola, onde veio a falecer. No entanto, ela reclamou junto a Coroa ser casada em regime de comunhão de bens e, assim, conseguiu ficar com metade dos bens. Parou de escrever, dedicou-se a criação dos 4 filhos e a cuidar de sua propriedade. Infelizmente seus poemas não foram publicados na época e muitos deles foram destruídos durante as devassas na sua casa. Só restaram As Sextilhas ou Conselhos a meus filhos. Veja alguns versos deste poema:

Meninos, eu vou ditar
As regras do bem viver;
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz saber é o pensar.

Neste tormentoso mar
De ondas de contradições,
Ninguém soletre feições
Que soletre feições,
Que sempre se há de enganar,
De caras e corações
Há muitas léguas que andar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem que ratos velhos
Não há modos de os caçar;
Não batais ferros vermelhos,
Deixai um pouco esfriar.

O poema foi publicado equivocadamente em 1830 pelo Cônego Januário da Cunha Barbosa, com o título Conselhos de Alvarenga Peixoto a seus filhos, na Coleção das melhores poesias do Brasil. A correção só ocorreu em 1862, com a publicação do livro Brasileiras célebres, de Joaquim Norberto dos Santos e Silva, onde foram publicadas 9 das 12 sextilhas, cuja autoria é atribuída a ela. Em 1795 sua primeira filha, aos 15 anos, faleceu em decorrência de uma queda de cavalo. Pouco depois e, talvez, devido a estes perrengues, foi criada uma lenda sobre seu enlouquecimento; que vagava pelas ruas de São João del Rey falando coisas sem nexo. Tal lenda chegou a alguns livros publicados mais tarde. Mas a verdade foi restabelecida pelo seu biógrafo Aureliano Leite, em 1860, com a publicação do livro A vida heroica de Bárbara Heliodora.

Na biografia, o autor certifica que ela viveu seus últimos anos em perfeito juízo; cuidou dos negócios da família; foi admitida na Ordem 3ª do Carmo e faleceu aos 60 anos, vitimada por uma tuberculose, em 24/5/1819. Foi sepultada na Igreja Matriz, ”envolta no hábito de Nossa Senhora do Carmo e acompanhada até a sepultura por 9 sacerdotes que lhe fizeram ofício de 9 lições e missa de corpo presente”. O biógrafo conclui que “a uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa”. Tempos depois, em 11/10/1931, o capitão Alberto Carlos da Rocha explicou a origem da lenda de sua loucura, num artigo publicado no periódico “A Opinião de São Gonçalo de Sapucaí”. Em 27/7/1809, ela “vendeu”, por escritura todos os bens ao filho mais velho, temendo uma expropriação. Como a transação prejudicava a Fazenda Real e diante da necessidade de anular a escritura, ela foi declarada demente.

Seu nome tem sido lembrado em diversas homenagens ao longo da história, como no poema intitulado Romance LXXV ou De Dona Bárbara Eliodora, integrante do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Na música, Almeida Prado compôs a “Lira de Dona Bárbara Heliodora”, cantata colonial para soprano, barítono (ou tenor) coro misto & orquestra. No cinema, teatro e TV, também foi retratada em diversas ocasiões. Em 1909, quando foi criada a Academia Paulista de Letras, sua bisneta Presciliana Duarte de Almeida, escritora, jornalista e poeta, escolheu-a como patrona da cadeira nº 8. Assim, Bárbara Heliodora foi a primeira mulher a ocupar esta posição acadêmica no Brasil. Em 1952, Henriqueta Lisboa escreveu o belo poema “Drama de Bárbara Heliodora”, publicado em seu livro Madrinha Lua, que pode ser lido clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Carlos Chagas

Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas nasceu em Oliveira, RJ, em 9/7/1878. Médico, sanitarista, bacteriologista, cientista descobridor da “Doença de Chagas’ e um dos pioneiros da saúde pública. Junto com Oswaldo Cruz e Vital Brasil entre outros, consolidou a medicina experimental no Brasil e teve 4 indicações ao Prêmio Nobel de Medicina, em 1921, ano em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Harvard, nos EUA.

Órfão de pai aos 4 anos, concluiu os primeiros estudos em Itu (SP) e São João del Rey (MG). Aos 19 anos entrou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde ficou conhecido como o “estudante de duas velas”. Como na época estudava-se à luz de velas, ele gastava duas. Em 1902 dirigiu-se ao Instituto Soroterápico, com uma carta de apresentação de seu professor, Dr. Miguel Couto, a Oswaldo Cruz, afim de elaborar sua tese de doutoramento. Concluiu o curso em 1903, com a tese “Estudos hematológicos no impaludismo’. Assim deu-se o contato com seu grande mestre, que o convidou para permanecer em Manguinhos. Atraído pela clínica, recusou o convite; montou consultório no ano seguinte e casou-se com Iris Lobo, com quem teve 2 filhos.

Em 1905 foi à Itatinga (SP), designado por Oswaldo Cruz, para combater a malária. Foi a primeira campanha bem sucedida de combate a malária. De volta ao Rio, em 1906, passa a integrar o grupo de pesquisadores de Manguinhos. No ano seguinte foi designado para combater epidemias em diversas cidades, iniciando uma série de expedições pelo País, cuidando do saneamento básico e saúde pública. Numa expedição à Lassance (MG), descobriu um novo protozoário no sangue de um sagui, que deu o nome “Trypanosoma Minasense”. Em seguida, percebeu vários insetos nas frestas das casas de pau-a-pique, que se alimentavam à noite com o sangue dos moradores, atacando o rosto. Por isto foi chamado de “barbeiro”. Identificou no intestino do inseto um protozoário semelhante ao encontrado no sagui, levando-o a crer que poderia ser uma fase evolutiva do “Trypanosoma Minasense”. Enviou amostras do inseto para Oswaldo Cruz, pedindo-lhe que desse como alimento aos saguis do laboratório. Pouco depois recebeu a noticia que os saguis adoeceram e que havia a presença do Trypanosoma no sangue. Animado, voltou para o Rio e desvenda o ciclo evolutivo do novo protozoário, que recebeu o nome de “Trypanosoma Cruzi”, em homenagem ao amigo Oswaldo Cruz.

Em seguida voltou à Lassance convencido que o parasito descoberto poderia ser causador de doença em animais e humanos. Em 14/2/1909 examinou o sangue de uma criança febril e identifica a presença do parasito. A menina Berenice torna-se o primeiro caso de moléstia provocada pelo novo protozoário. A descoberta consolidou o surgimento de um novo ramo da parasitologia, a “protozoologia”, dedicada ao estudo dos protozoários. Em 15/4/1909 foi publicada uma nota prévia, na revista “Brasil-Médico”, sobre a nova doença. No mesmo dia Oswaldo Cruz fez o anúncio formal à ANM-Academia Nacional de Medicina, da descoberta de uma nova doença: a “Tripanosomíase americana”. Uma comissão dirigiu-se à Lassance para confirmar as provas referentes à descoberta. O presidente da comissão, Dr. Miguel Couto, propôs que a doença fosse chamada “Moléstia de Chags”. A divulgação da descoberta se fez através de revistas científicas estrangeiras e despertou o interesse de cientistas europeus. Em 1909, ele publicou no 1º volume das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz um estudo completo sobre o protozoário, seu ciclo evolutivo e a doença, garantindo-lhe prestigio e a promoção a “chefe de serviço” do instituto, em 1910. Logo foi realizada na ANM sua primeira conferência sobre a moléstia, quando foi reconhecida a importância de seu trabalho.

Junto com Oswaldo Cruz e outros pesquisadores, realizou uma expedição no vale do Amazonas, em 1912, para amplo levantamento médico-sanitário da região, relatando o abandono daquela população e enfatizando a necessidade de medidas sanitárias. No mesmo ano recebeu o “Prêmio Schaudim”, conferido por um júri internacional, através do Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, ao melhor trabalho na área de Protozoologia. Em 1916 se empenhou na campanha pelo saneamento rural do País até 11/2/1917, quando se dá o falecimento de Oswaldo Cruz. 3 dias depois assume a direção do Instituto de Manguinhos. No cargo, buscou consolidar o modelo estabelecido à semelhança do Instituto Pasteur, com autonomia administrativa e financeira e estreita ligação entre a pesquisa, ensino e fabricação de remédios. Com isso garantiu a renda própria do Instituto. Em 1918 criou a “Liga pro-Saneamento do Brasil”, movimento reunindo médicos, cientistas, intelectuais e políticos numa mobilização em prol da reforma dos serviços de saúde pública. No mesmo ano publicou o livro O saneamento dos sertões e foi nomeado diretor Serviço de Profilaxia Rural. Em seguida foi requisitado pelo Governo para chefiar a campanha contra a epidemia de gripe espanhola. O sucesso de sua atuação pesou na escolha de seu nome para comandar a reforma dos serviços públicos de saúde do País.

Em 1919 foi nomeado pelo presidente Epitácio Pessoa para reorganizar a saúde pública. Assumiu a direção do DNSP-Departamento Nacional de Saúde Pública, acumulando com seu trabalho em Manguinhos. No período 1920-1922, ampliou os serviços de saneamento rural, com a instalação de postos de profilaxia em vários Estados. Dedicou-se à formação de profissionais com o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, além de criar a Escola de Enfermagem Anna Nery e o Hospital São Francisco de Assis, como modelo à modernização dos serviços hospitalares do País. Em 1921 fez uma série de conferências nos EUA e tornou-se o primeiro brasileiro a receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Havard. A mesma distinção foi concedida em 1926 pela Universidade de Paris. Conquistou, também, os títulos de membro honorário da Société de Pathologie Exotique (Paris), da Royal Society of Tropical Medicine (Londres) e das Academias de Medicina de Paris, Bruxelas, Roma e Nova York.

De novembro de 1922 a dezembro 1923 a ANM foi palco de uma polêmica envolvendo a doença de Chagas. Um grupo de médicos (Afrânio Peixoto, Henrique Figueiredo de Vasconcelos e Parreiras Horta) contestou a autoria da descoberta do trypanosoma Cruzi, questionaram sua importância e afirmaram não haver provas concretas de sua extensão para além do limites de Lassance. Uma comissão reconheceu o autor da descoberta, mas manteve a dúvida quanto à distribuição da doença no País. Só na década de 1930 a questão foi resolvida. Os médicos argentinos Salvador Mazza e Cecilio Romaña detectaram centenas de casos, comprovando que a doença não estava restrita apenas ao Brasil. Ao mesmo tempo, alguns pesquisadores empenharam-se em comprovar a ampla distribuição da doença de Chagas. Em 1935, seu filho Evandro Chagas criou, em Manguinhos, o Serviço de Estudos de Grandes Endemias, para promover investigações sobre a doença. Finalmente, em 1959, foi realizado o I Congresso Internacional de Doença de Chagas, colocando um ponto final na polêmica. Foi o primeiro e, até hoje permanece, o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor, os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.

Nomeado professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1925, criou a cadeira de Medicina Tropical e estabeleceu as bases desta área no País. Por esta época, representou o Brasil em vários comitês internacionais, como membro do Comitê de Higiene da Liga das Nações. Em 1928 passou a coordenar o Serviço de Propaganda e Educação Sanitária, do DNSP, percorrendo diversos Estados até 1930. Faleceu em 8/11/1934, vitimado por um infarto do miocárdio. Foi homenageado com diversas condecorações em vida e pós-morte, aqui e no exterior: Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália, Comendador da Coroa da Bélgica, Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França; Oficial da Ordem de São Tiago, Portugal; Comendador da Ordem de Afonso XXI, Espanha; Comendador da Ordem de Isabel, a Católica da Espanha; Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia. Teve 4 indicações para receber o Prêmio Nobel de Medicina. Hoje admite-se que o desconhecimento de suas descobertas pelo membros do Comitê Nobel foi decisivo, além do fato de naquela época haver uma preferência pelos cientistas europeus e norte-americanos.

Entre nós, seu nome denomina diversos logradouros, instituições, uma cidade em Minas Gerais e um navio-hospital da Marinha, que presta serviços no Rio Amazonas. Seu legado científico, além das descobertas, é composto de poucos livros. Não dispunha de tempo para escrevê-los, mas deixou uma dúzia de artigos publicados nas principais revistas científicas do mundo. Sua vida e obra foram registradas em algumas biografias, com destaque para o livro de seu colega e romancista Moacyr Scliar “Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento da ciência no Brasil”, publicado em 2002, e do excelente “Carlos Chagas: um cientista do Brasil”, publicado pela FioCruz em 2009, organizado por Simone Petraglia Kropf e Aline Lopes de Lacerda. Trata-se de um levantamento iconográfico e compilação de expressivos documentos referentes à sua vida, obra e legado. O CNPq mantém a “Plataforma Integrada Carlos Chagas”, uma base de dados e informações disponíveis ao público através do site Carlos Chagas. Em 2019, a Academia Nacional de Medicina realizou o Simpósio “Homenagem a Carlos Chagas: a doença, o homem e a história”, com diversas conferências sobre seu legado.

Carlos Chagas – 130 anos – De lá pra cá

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Queiroz da Silva

Maria Queiroz da Silva nasceu em Grossos, RN, em 30/3/1929. Professora, economista, pedagoga, oradora e política na condição de deficiente física de nascença, desprovida das pernas e do braço direito. Pode parecer inacreditável que uma pessoa nestas condições pudesse realizar empreendimentos tais como ministrar aulas, fundar uma escola, construir uma igreja, viajar pelo mundo e assumir o cargo de vereadora na capital de seu Estado. No entanto, é tudo verdade e se constitui num dos casos de superação mais fabulosos em todo o mundo.

De origem humilde numa família de 9 irmãos, era uma criança alegre, comunicativa e dotada de uma inteligência privilegiada. Mas isto não impediu que sofresse preconceito em sua comunidade. Aprendeu a andar sozinha, utilizando joelheiras e queria estudar como fazia os irmãos e colegas, mas sua mãe não estimulava, temendo a discriminação que sofreria na escola. Passou a frequentar uma escola particular em Areia Branca e logo aprendeu a ler e escrever. Uma de suas brincadeiras era ler para as amigas e contar o que aprendeu na escola. Assim foi moldada sua vocação para o magistério. Era dotada de uma vivacidade incomum e rejeitava os sentimentos de preconceito ou compaixão diante de sua deficiência. Ao seu modo conseguiu relativa independência de mobilidade.

Aos 12 anos concluiu o Curso Primário no Educandário Padre Anchieta e decidiu ser professora quando crescesse. Como em Areia Branca não havia ginásio, a família mudou-se para Mossoró onde os filhos poderiam cursar o ginasial. Mas ela não foi aceita em nenhum ginásio, devido a deficiência e tiveram que se mudar para Natal na esperança de continuar os estudos. Passou no “Exame de admissão” ao ginásio, no Colégio Atheneu, mas foi impedida de se matricular. Não acatou a decisão da Diretoria e foi reclamar junto ao Secretário da Educação. Comovido com seu problema, o secretário determinou que sua matrícula fosse aceita.

Concluído o curso ginasial, entrou na Escola Normal do Estado para cursar pedagogia e se formar professora do curso primário. No 2º ano do curso, foi editada a Lei nº 2.889, de 11/1/1961, cujo artigo 21 dispunha: “Os candidatos a exame de seleção deverão apresentar diploma de conclusão de Curso Ginasial… bem como satisfazer os seguintes requisitos: a) Sanidade física e mental; b) Ausência de defeito físico ou distúrbio funcional que contraindique o exercício da função docente. Ou seja, a Lei exigia a sanidade física e reforçava, reiterava a necessidade de “ausência de defeito físico” para que não restassem dúvidas. Como se vê os legisladores da época eram muito “precisos” na sua função “social”.

Mas, como já estava no 2º ano, concluiu o curso em 1962 e foi escolhida como oradora da turma. Pouco antes da formatura, a diretora da escola entrou na classe e perguntou quem gostaria de receber o diploma com o nome escrito em letras góticas. Maria foi a primeira a aceitar. Mas para espanto das colegas, a diretora disse-lhe: “Você não, Maria! Você não receberá o diploma! A sua condição física não permite!” Ela retirou-se da sala em lágrimas e dirigiu-se ao Palácio do Governo. O governador, comovido com sua “via crucis”, revogou a decisão da diretora. O problema agora está em encontrar uma escola onde possa dar aulas. Não encontrou e para realizar sua vocação teve que fundar uma escola, o “Externato Santa Terezinha”, assumindo o cargo de professora e diretora.

Na administração de sua escola, passou a se interessar por economia e ingressou na UFRN-universidade Federal do Rio Grande do Norte. Diplomada em Ciências Econômicas, em 1967, passou a ficar conhecida em Natal como “Baía”. Era seu nome caseiro pronunciado pelos irmãos pequenos, que não sabiam falar Maria. Assim adquiriu popularidade, admiração e respeito na cidade. Em 1976 foi estimulada a candidatar-se a vereadora de Natal, pelo MDB, partido de oposição ao governo militar, e obteve 1636 votos, ficando na 1ª suplência e assumiu o mandato em 1978. Além destes trabalhos, manteve intenso trabalho social na Igreja ao lado do Padre Lucas Batista Neto em viagens internacionais. Comandou, na Praia de Areia Preta, uma campanha de arrecadação de fundos para a construção da Igreja de São Francisco.

Em 19/10/1981, após submeter-se a uma cirurgia cardíaca, veio a falecer. Como é nosso (mal) costume de se reconhecer os valores das pessoas somente após a morte, os políticos de Natal deram seu nome à uma escola pública, em maio de 1982, transformada num estabelecimento de ensino fundamental e ensino médio, em 2002. Mais uma homenagem póstuma lhe foi prestada pela Prefeitura com a inauguração da Rua Vereadora Maria Queiroz, no bairro de Lagoa Nova, bairro nobre de Natal. Em 2019 sua vida e legado foi registrado na biografia “Maria Queiroz BAÍA – Exemplo de superação e luta contra o preconceito”, escrita por Lúcia Eneida Ferreira Moreira, publicada pela Offset Editorial.

Obs.: Este relato biográfico foi realizado a partir da crônica de Violante Pimentel – “A superação” -, publicada neste jornal em 21/2/2020, e alguns dados e informações enviados posteriormente.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Vital Brasil

Vital Brazil Mineiro de Campanha nasceu em 28/4/1865, em Campanha, MG. Médico, cientista, sanitarista, descobridor do soro antiofídico e um dos pioneiros da medicina experimental no Brasil. Seu nome parece título geográfico e é. Foi dado por um costume do pai em denominar os filhos conforme o lugar onde nasceram. Ajudou a criar o Instituto Oswaldo Cruz; criou o Instituto Butantã e o Instituto Vital Brasil: 3 grandes instituições renomadas, necessárias e vitais nesta época subjugada pela pandemia do coronavírus.

Foi parente distante de Tiradentes e, mais próximo, do presidente Venceslau Brás e do mecenas Oscar Americano. No entanto, sua família era humilde e passou a infância no interior de Minas Gerais, trabalhando desde os 9 anos. Aos 15 a família mudou-se para São Paulo onde permanece até os 21. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1886 e formou-se em 1891, com a tese “Funções do baço”. No ano seguinte foi estagiar no Instituto Pasteur, em Paris. Médico no interior de São Paulo, presenciou a morte de vários lavradores, vítimas de picadas de serpentes. Como sanitarista, participou das brigadas de combate a febre amarela e a peste bubônica junto com Oswaldo Cruz.

Deixou registro destas experiências publicado em 2 livros: O ofidismo no Brasil (1906) e A defesa contra o ofidismo (1911), traduzido para o francês em 1914. Viúvo em 1913, casou-se de novo em 1920 e constituiu uma família de 18 filhos, alguns destacados na medicina, farmacologia, veterinária, música, psicanálise, arquitetura, aviação. Convidado pelo governador de São Paulo, foi trabalhar no Instituto Bacteriológico, em 1897, dirigido por Adolfo Lutz. Realizou pesquisas científicas e trabalhou junto com Emílio Ribas, Carlos Chagas e Oswaldo Cruz no combate à peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela.

Em 1901 recebeu do presidente Rodrigues Alves a Fazenda Butantã, para instalar uma “fabrica de soro”, tal como o Instituto Soroterápico Federal, instalado no Rio de Janeiro, em 1900. Em apenas 4 meses foram produzidos os primeiros tubos de soro antipestoso e antiofídico. Em 1925, o Instituto Soroterápico foi rebatizado como Instituto Butantã. Seu trabalho não se limitava a área científica, criou caixas de madeira para captura de cobras e manteve convênios com as ferrovias para o transporte até São Paulo. Realizou duas campanhas públicas simultâneas: numa trocava soro por cobras vivas e noutra esclarecia a população sobre as cobras venenosas.

Em 1903 conseguiu enunciar cientificamente o soro antiofídico, a partir de anticorpos produzidos no sangue dos cavalos, usando o veneno da própria cobra. Em seguida foram produzidas vacinas contra tifo, varíola, tétano etc. As picadas de aranhas venenosas, escorpião e lacraias deram origem a novos soros. Em 1913 voltou ao Instituto Pasteur para novos cursos e visitar outros países. Em 1915 participou do Congresso Científico Pan-Americano, nos EUA, adquirindo projeção internacional. No ano seguinte preparou a patente do soro antiofídico e ao recebê-la, fez sua doação ao governo brasileiro, pois considerava a ciência como um bem público.

Deixou a direção do Instituto Butantã, em 1919, e foi para o Rio de Janeiro criar mais um instituto, apesar de convidado por Carlos Chagas para trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz. Dizia que o Brasil necessitava de mais instituições científicas. Assim, fundou em Niterói, com apoio do governador Raul de Moraes Vieira, o instituto que leva seu nome. As atuais instalações, uma joia da arquitetura moderna, foram projetadas por seu filho, o arquiteto Ãlvaro Vital Brasil. Ocupa uma área de 100 mil m² e edificação de 20 mil m², inauguradas em 1943 no bairro Vital Brasil. Por um breve período voltou a dirigir o Instituto Butantã (1924), mas logo reassumiu a direção do Instituto Vital Brasil (1927), onde permaneceu até o fim da vida.

Faleceu em 8/5/1950, vitimado por uma uremia, agravada por uma peste bubônica e febre amarela, as doenças que combateu em toda sua vida. Deixou um legado considerável e instituições solidas no estudo e combate das moléstias urbanas e doenças tropicais. Recebeu homenagens de todo tipo e figura no “Livro dos Heróís da Pátria”, além de denominar diversos logradouros e escolas em todo o País. Dois museus cuidam da preservação de sua memória e divulgação de seus trabalhos: um no Instituto Butantã, expondo seu laboratório, inaugurado em 1981, e outro na casa onde nasceu, inaugurado em 1988. Seu nome foi dado à aranha caranguejeira, Vitalius sorocabae. Em 2014 recebeu uma placa alusiva aos 120 anos da descoberta do soro antiofídico, no Museu Nacional de História Natural, em Paris.

Foi o primeiro cientista brasileiro a ter uma biografia dirigida às crianças, realizada por Nereide Schilaro Santa Rosa e publicada pela Duna Dueto Editora. O cientista foi biografado em vários livros, mas sua vida e obra completa recebeu justamente esse título: Vital Brazil: Obra Científica Completa (2002), organizada por André de Faria Pereira Neto e publicada pela FioCruz. Faleceu na época em que o Brasil passou a ser visto como o “Pais do Futuro”, e assim se mantém até hoje, quando enfrenta uma pandemia mundial e seus institutos são chamados a colaborar no enfretamento dessa moléstia que assola o mundo. Como se vê, temos pedigree para realizar esta proeza.