JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Francisca Julia

Francisca Julia César da Silva Münster nasceu em Eldorado, SP, em 31/8/1871. Professora, poeta, pianista, crítica literária e expoente do movimento “parnasianismo”, ao lado de Olavo Bilac, Raimundo Correa e Alberto de Oliveira, a “Trindade Parnasiana”. Ficou conhecida como “Poeta do Impassível”, valendo-se de uma linguagem e de figuras mitológicas e históricas. É também reconhecida como precursora da literatura infantil no Brasil, com o Livro da infância (1899), destinado às escolas públicas.

Ainda criança demonstrava habilidade com as letras. Aos 8 anos mudou-se com a família para São Paulo e aos 14 passou a escrever sonetos para os jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano e Diário Popular. Tais publicações lhe abriram as portas para trabalhar nos periódicos “Álbum”, de Artur Azevedo e “A Semana”, de Valentim Magalhães, no Rio de Janeiro. Ninguém acreditou que aqueles versos fossem de uma mulher. O crítico João Ribeiro achou que fossem de Raimundo Correia usando pseudônimo. Mas quando soube de fato, empenhou-se na publicação de seu primeiro livro de poemas – Mármores -, em 1895. O livro foi elogiado pela crítica e ficou conhecida no métier literário.

Olavo Bilac apreciou a forma de seus versos e a linguagem remoçada “por um banho maravilhoso de novidade e frescura”. A consagração veio em seguida com seu rosto estampado nas capas de revistas. O próximo livro surgiu apenas em 1903: Esfinges, que veio a ser uma edição ampliada de Mármores, do qual excluiu 7 poemas e incluiu 20. Em 1904 foi integrada ao comitê central brasileiro da “Societá Internazionale Elleno-Latina”, de Roma. Por razões nunca esclarecidas, abandonou a vida pública em São Paulo e foi morar em Cabreúva, em 1906, onde sua mãe exercia o magistério e ela foi professora particular de piano para crianças. Ainda em Cabreúva foi membro da Academia Paulista de Letras, fundada em 1907 mas não vingou. Refundada em 1909, recusou o convite por não querer ingressar sem seu irmão Júlio César da Silva, também poeta prestigiado.

Em 1909 proferiu uma conferência no salão da Câmara Municipal de Itu: “A feitiçaria sob o ponto de vista científico’, revelando sua personalidade mística e interesse em temas espirituais. Neste ano casou-se com Philadelpho Edmundo Münster, tendo como padrinho o poeta Vicente de Carvalho. A partir daí, passou a viver mais isolada do público e dedicar-se mais aos estudos místicos e espirituais. Seu último livro – Alma infantil – saiu 1912, escrito em parceria com o irmão e dedicado às crianças, alcançou grande repercussão nas escolas públicas e grande parte da tiragem foi adquirida pelo Secretário do Interior, Altino Arantes.

Em 1916, seu marido contraiu uma tuberculose e ela mergulhou numa depressão profunda. As poucas poesias que ainda escreve refletem uma mulher que almeja a paz espiritual fora do plano terrestre. Numa entrevista à Correia Júnior, disse que sua “vida encurta-se hora a hora”. Mesmo assim, saíram algumas poesias na revista “A Cigarra” e prometia mais um livro chamado “Versos áureos”. Em 31/10/1920, o marido faleceu. Pouco depois do sepultamento, no dia de finados, ela foi repousar no quarto e ingeriu grande dose de narcóticos, vindo a falecer em 1/11/1920. O fato causou comoção no circuito literário de São Paulo, e foi homenageada com seu nome numa importante rua do bairro de Santana. No ano seguinte saiu uma 2ª edição ampliada do livro Esfinges.

No sepultamento no Cemitério do Araçá, estiveram presentes alguns dos próceres da Semana de Arte Moderna, que viria ocorrer em 1922: Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Martins Fontes, Paulo Setúbal e Ciro Costa, que discursou à beira do túmulo. Ali ficou decidido que iriam homenageá-la com um mausoléu.
Solicitaram ao então governador Washington Luís e o pedido de uma estátua foi encaminhado ao jovem escultor Victor Brecheret, que estudava em Paris e trabalhou 2 anos na escultura. 10 anos depois, a estátua chegou e em 1933, o senado paulista aprovou a implantação da enorme estátua “Musa Impassível” em seu túmulo. Na ocasião Menotti Del Picchia fez um discurso comovente: “A estátua que se ergue hoje… a Musa Impassível, é um mármore criado pelo cinzel triunfal de Victor Brecheret. Na augusta expressão dos seus olhos, do seu busto ereto, da suas mãos rítmicas, há toda a grandeza e a beleza daquela musa impassível da formidável parnasiana… O estatuário é bem digno da poetisa”.

O nome da estátua – esculpida em granito carrara com uns 3 metros de altura e pesando 3 toneladas – foi extraído de um de seus poemas mais famosos, publicado no livro Mármores. Em 2006, através de um acordo entre a Prefeitura e o Estado de São Paulo, essa estátua saiu do mundo dos mortos para entrar na vida da cidade: foi removida para a Pinacoteca de São Paulo. No centenário de seu falecimento, em 2/11/2020, a UFU-Universidade Federal de Uberlândia realizou um evento reunindo professores e pesquisadores com palestras e debates sobre a vida e obra da poeta. Na ocasião deu-se o lançamento do livro Versos áureos, com poemas selecionados, organizado pelo professor Carlos Augusto de Melo. Existem alguns artigos e textos avulsos, à disposição na Intenet, sobre sua trajetória de vida e obra. No entanto, estamos devendo ainda uma biografia mais completa sobre a “Musa Impassível”.

Clique aqui para assistir ao vídeo contendo homenagem ao centenário de morte da escritora Francisca Júlia da Silva

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OS BRASILEIROS: Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11/12/1910, no Rio de Janeiro, RJ. Compositor, cantor, violonista e um dos nomes mais destacados não apenas no samba, mas na história da música popular brasileira. Sua contribuição foi fundamental na legitimação do samba como ritmo genuinamente brasileiro. Em seu curto período de vida deixou mais de 250 músicas, muitas delas clássicas do cancioneiro popular.

Nascido de um parto complicado, que incluiu o uso de fórceps para salvar a vida da mãe e da criança. Além disso, tinha uma hipoplasia, com uma diminuição da mandíbula, que marcou sua feição dotando-o de uma fisionomia particular. Cresceu no bairro carioca de Vila Isabel, reduto de boêmios e sambistas tradicionais do Rio de Janeiro, oriundo de uma família de classe média. Estudou no tradicional Colégio de São Bento e dizem que, não obstante a inteligência, não era um aluno aplicado nos estudos.

Aprendeu a tocar bandolim de ouvido ainda adolescente e gostou da atenção que despertou nos ouvintes. Pouco depois passou ao violão e logo fazia parta das rodas de samba. Aos 21 anos entrou na Faculdade de Medicina, mas cedo se deu conta da inviabilidade do projeto de ser médico diante da vida de artista que se apresentava entre as noitadas regadas a cerveja. Aos 19 anos já era integrante do “Bando dos Tangarás”, ao lado de Braguinha, Almirante e Henrique Brito. Em 1929 compôs Minha viola e Festa no céu e no ano seguinte, aos 20 anos, surge o primeiro grande sucesso Com que roupa?, uma de suas clássicas composições,

No folclore musical surgiu uma história em que ele, em certa noite, queria sair com os amigos, mas sua mãe não deixou, escondendo suas roupas. Foi aí que perguntou: “Com que roupa eu vou?” Mas esta história foi desmentida por Almirante, seu parceiro e primeiro biógrafo. Ele atesta que os primeiros acordes da música eram muito parecidos aos do Hino Nacional. O problema foi detectado pelo maestro Homero Dornelas e Noel prontamente fez a modificação. O fato é que ele era um grande cronista e suas músicas eram um retrato da vida simples e cotidiana, que primam pelo humor e pela veia crítica. Orestes Barbosa chamava-o de “o Rei das letras”.

O cotidiano e o humor sempre estiveram nas letras de suas músicas, incluindo as “brigas”. Numa polêmica com seu rival Wilson Batista, os dois pelejaram em sambas. Os dois andaram enamorados de uma morena do “Dancing Apollo. Noel compôs o samba Rapaz folgado, detonando a empáfia de Lenço no pescoço, de Wilson. Este, quando ouviu o samba, deu o troco com Mocinho da Vila, aconselhando Noel a cuidar de seu microfone e deixar quem era malandro em paz e ao final orgulhava-se “modéstia à parte, eu sou rapaz (folgado?)”. Noel continuou a polêmica com Feitiço da Vila: “modéstia à parte, eu sou da Vila (Isabel)”. Em seguida, Wilson compõe Conversa fiada, questionando a superioridade do bairro. Noel retruca com o samba Palpite infeliz. Ao final da “briga”, os dois tornaram-se parceiros e amigos.

A vida boêmia nos bares da lapa era intensa e parece que começava cedo no café da manhã: Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça… Essa Conversa de botequim é um dos seus maiores sucessos. Até agora já foi executada mais de 546 mil vezes na Spotfy e 1.3 milhão de vezes no Youtube. Ao longo da breve vida teve muitas namoradas e foi amante de outras já casadas. Aos 24 anos casou-se com Lindaura Martins, por quem tinha certo afeto, mas era apaixonado mesmo por Ceci, prostituta de um cabaré na Lapa. Essa paixão resultou no samba Dama do Cabaré, outro sucesso. Ele quis tirá-la da “vida fácil”, dar-lhe uma casa e uma vida tranquila como amante. Mas ela recusou a oferta; não queria ser uma “manteúda”; queria alguém que assumisse o casamento. Era uma mulher bonita, elegante e educada. Mas ele não pode encarar o escândalo social e na família, que não aceitaria o casamento com uma meretriz.

A vida boêmia segue o curso, às vezes interrompida com tratamentos contra a tuberculose que o consumia. Viajou diversas vezes para cidades montanhosas em função do clima e passou uma temporada em Belo Horizonte. De lá, escreveu ao seu médico, Dr. Graça Melo: “Já apresento melhoras/Pois levanto muito cedo/E deitar às nove horas/Para mim é um brinquedo/A injeção me tortura/E muito medo me mete/Mas minha temperatura/Não passa de trinta e sete/Creio que fiz muito mal/Em desprezar o cigarro/Pois não há material/Para o exame de escarro”.

De volta ao Rio, sentiu alguma melhora e parou com as medicações. Achou que estava curado, mas pouco depois adoeceu fortemente, não conseguindo mais se alimentar e nem levantar da cama. Faleceu repentinamente em 4/5/1937 aos 26 anos. Sua vida foi filmada e biografada diversas vezes. São filmes de curta, média e longa duração, com destaque para “Noel – Poeta da Vila” (2007), baseado na essencial biografia Noel Rosa: uma biografia (1990), de João Máximo e Carlos Didier. No teatro também foi retratado na peça O poeta da Vila e seus amores (1977), de Plínio Marcos e cenário de Flávio Império, inaugurando o Teatro do SESI, em São Paulo. Em 2010, centenário de seu nascimento, a Escola de Samba Unidos da Vila Isabel desfilou em sua homenagem com o samba Noel: a presença do “Poeta da Vila”, de Martinho da Vila. Em 2016 foi agraciado in memoriam com a “Ordem do Mérito Cultural do Brasil”, na classe de grão-mestre.

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OS BRASILEIROS: José Lutzenberger

José Antonio Lutzenberger nasceu em 17/12/1926, em Porto Alegre, RS. Engenheiro agrônomo, cientista, escritor, filósofo, ambientalista e pioneiro na luta em defesa do meio ambiente. Trocou uma próspera carreira, como técnico e executivo de empresas multinacionais, pela organização do movimento ecológico na década de 1970, com a publicação do “Manifesto Ecológico Brasileiro”.

Filho do artista plástico Joseph Franz Seraph Lutzenberger e Emma Kroeff, imigrantes alemães, desde criança mantinha contato e encanto pela natureza. Estudou no Colégio Farroupilha e do Rosário, com interesse em química e física. Após o serviço militar, entrou na Faculdade de Agronomia, da UFRGS e demonstrava temperamento combativo. Era visto como excêntrico pelos colegas. Diplomado em 1950, passou 2 anos nos EUA fazendo pós-graduação na Universidade de Louisiana em agroquímica. De volta à Porto Alegre, empregou-se na Companhia Riograndense de Adubos, onde trabalhou por 4 anos e transferiu-se para a Sulpampa Agropastoril, no cargo de intérprete de línguas do diretor da Basf, empresa associada. Em 1957 foi convidado para trabalhar na Ciba-Geigy, na Alemanha, na área de agrotóxicos. Em seguida mudou-se para a Venezuela, atuando como técnico e executivo na área de adubos da Basf. Pouco depois, já casado e com 2 filhas, foi transferido para o Marrocos, em 1966. Na condição de executivo bem sucedido, conheceu diversos países.

Na Venezuela esteve em contato com o cientista Leon Croizat, aprofundando os estudos em biogeografia. O interesse nos problemas causados pelo agrotóxico foi despertado com a leitura do livro Silent Spring (1962), de Rachel Carson, com quem manteve contato. Discordava dos ataques que a cientista sofria dos empresários da indústria química e passou a se interessar pela ecologia. A “crise existencial” ou profissional iniciou quando a Basf passou a produzir agrotóxicos. O dilema foi resolvido com o pedido de demissão, em 1970. Ano seguinte fundou a AGAPAN-Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, a primeira “Ong” ecológica do País. Logo tornou-se líder do movimento com o lançamento do “Manifesto Ecológico Brasileiro: o fim de futuro?”, numa tiragem de 46 mil exemplares. Em seguida foi impresso em papel jornal e formato “pasquim” de 22 páginas e foi vendido em bancas de jornal. Assim o movimento ecológico tomou as ruas. Com o manifesto, tornou-se importante líder no movimento ambientalista internacional, recebendo cumprimentos do cientista Konrad Lorenz, Prêmio Nobel de Medicina.

Antes do “manifesto” já havia publicado muitos artigos denunciando o desastre ecológico e viajou pelo mundo dando palestras e conquistando adeptos. Se em alguns setores da sociedade era tratado como gênio e pioneiro, noutros era tido como louco e fanático. Denunciava a poluição do lago Guaíba, a perseguição aos morcegos de Porto Alegre, o desmatamento e a redução das áreas verdes urbanas, o uso de agrotóxicos e da energia nuclear etc. Com o empenho e as lutas da AGAPAN, obteve conquistas como a criação do Parque Delta do Jacuí, do Parque Estadual de Itapuã e da Reserva Biológica do Lami. Mas a luta mais notória que enfrentou foi contra a produtora de celulose “Borregaard”, que poluía o ar e as águas do rio Guaíba. Para muitos foi “uma das mais importantes lutas ecológicas da história”, inaugurando um inédito processo de revisão de métodos produtivos. Em fins de 1973, a fábrica foi interditada.

O movimento ecológico torna-se mais expressivo em termos políticos com a criação dos “partidos verdes” em todo o mundo. A entrada de novos atores na AGAPAN, afastou-o da entidade em 1987. “Aconteceu que surgiu um grupo de guris que não sabia nada de nada e que transformou a Agapan em política partidária. E aí eles perderam, inclusive, a penetração nos meios de comunicação. Eles não tinham nada a dizer”. Ao deixar a AGAPAN, criou a Fundação Gaia, dedicada a promoção de um modelo de vida sustentável. A fundação atua na área de educação ambiental e na promoção de tecnologias socialmente compatíveis, tais como a agricultura regenerativa, o manejo sustentável dos recursos naturais, a medicina natural, a produção descentralizada de energia e o saneamento alternativo. Presta, também, consultoria ambiental para auxiliar municípios e estados a implantar o desenvolvimento sustentável. Seu envolvimento com a questão ambiental rendeu-lhe o prestigioso “The Right Livelihood Award 1988”, conhecido como o Prêmio Nobel Alternativo na área de ecologia, em Estocolmo.

Além de manter a Fundação, conduzia uma empresa de reciclarem de resíduos industriais. Em 1990, o presidente Fernando Collor, interessado em melhorar a imagem do Brasil no exterior e tendo em vista a realização da CNUMAD-Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento ou “Rio-92”, convidou-o para assumir a pasta do Meio Ambiente e comandar os preparativos para a grande conferência. Sua ideia era que o Brasil deveria encaminhar uma proposta em que os países possuidores de florestas de grande porte fossem recompensados, através de um fundo internacional, pelo prejuízo de não explorá-las. Defendia ainda que a diplomacia brasileira deveria adotar uma legislação internacional sobre florestas e no estabelecimento de metas precisas para evitar o desmatamento. Em termos políticos p.p. dito, dizia: “Li Marx de ponta a ponta no original, em alemão. Ele é tão tecnocrata quanto os capitalistas; Hitler e Mussolini também diziam ser socialistas, como Fidel. Essa palavra e ser de esquerda não significam mais nada”.

Sua permanência no governo durou mais que o previsto (março/1990-março/1992), tendo em vista o temperamento direto e pouco dado às conveniências políticas. Foi demitido antes mesmo da Rio-92, logo após denunciar a corrupção no IBAMA, que ele acusava de ser uma “sucursal de madeireiros”. Nos 2 anos como ministro realizou algumas conquistas, como a demarcação de terras indígenas, em especial a dos Ianomâmis, em Roraima; a definição do conceito de Área de Proteção Ambiental na nova legislação; a decisão do Brasil de abandonar o projeto da bomba atômica e a assinatura do Tratado da Antártida e da Convenção sobre a Diversidade Biológica. Já fora do governo, fez um importante pronunciamento na Rio-92, quando foi homenageado e recebeu convite de Dalai Lama para uma conversa privada. No mesmo ano participou do “Simpósio Internacional sobre questão da Ética na Política”, organizado pelo Instituto Goethe.

Seu último trabalho no governo foi de consultor ambiental no estado do Amazonas, em 1997. Faleceu em 14/5/2002 e foi sepultado no bosque da Fundação Gaia do modo como pediu: nu envolto num lençol e sem caixão para não deixar marcas. Suas ideias e legado ficaram registrados em centenas de artigos e livros, dos quais vale destacar: Pesadelo atômico (1980), Ecologia: do jardim ao poder (1985) e Gaia, o planeta vivo (1989). Em termos biográficos, temos Sinfonia inacabada: a vida de José Lutzenberger (2005), de Lilian Dreyer e Lutz – A história da vida de José Lutzenberger, o grande ambientalista do Brasil (2019), de Amauri Antonio Confortin e outros autores. Recebeu títulos de “Doutor honoris causa” de diversas universidades no Brasil e no exterior e foi agraciado com uns 80 prêmios, homenagens e condecorações.

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AS BRASILEIRAS: Bidu Sayão

Balduína de Oliveira Sayão nasceu em Itaguaí, RJ, em 11/5/1904. Cantora lírica, reconhecida como uma das grandes estrelas de ópera do mundo e uma das maiores intérpretes do Brasil. Foi aluna de Arturo Toscanini, que a chamava de “la piccola brasiliana” e projetou-a na Europa. Ao se apresentar na Casa Branca, recebeu convite do presidente Roosevelt, para se tornar cidadã estadunidense, mas declinou: “No Brasil eu nasci e no Brasil morrerei”.

Aos 11 anos, o tio pianista, sugeriu que ela se tornasse cantora. Mas que ela queria atriz de cinema, profissão pouco recomendável, na época, para “moças de família”. Foi sugerido, então, que estudasse música, mais especificamente canto. Cantou algumas músicas do tio
e uma amiga avisou-a que a soprano romena Elena Theodorini estava no Rio dando aulas de música. A professora ficou empolgada com a menina, que veio a tonar-se sua melhor aluna. 4 anos depois, a mestre voltou à Europa e sugeriu à família que ela fosse estudar no exterior. Assim, foram para a Romênia, onde prosseguiu nos estudos. Em seguida passou a viver em Nice, França, onde recebeu aulas do tenor polonês Jean de Reszke, um dos tenores mais famosos do mundo, e consolidou sua técnica vocal.

Aos 20 anos, após 4 de estudos rigorosos, estava pronta para encenar o papel principal na ópera Romeo e Julieta no teatro Ópera de Paris. A plateia ficou encantada e recebeu elogios efusivos da crítica. Em seguida partiu para Roma e procurou o Teatro Constanzi, o maior da cidade, onde se apresentou com a ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, em 1926, Nesta apresentação foi consagrada como uma das grandes soprano do mundo. Em 1928, já casada com o empresário Walter Mocchi apresentou-se no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. A plateia lisboeta ficou encantada e orgulhosa de ver uma brasileira, uma quase patrícia, no placo.

De volta à Itália, fez uma apresentação especial para recepcionar o príncipe Alberto e a princesa Maria José, da Bélgica. Mussolini, seu fã ardoroso, exigiu que lhe dessem o papel principal na ópera Don Pasquale. Mas, ponderaram que só artistas italianos poderiam participar da ópera. Mas, como contrariar o “Duce”?. Mais uma vez brilhou no papel de “Norina”. Na década seguinte se apresentou no Metropolitan Opera House, de Nova Iorque, na ópera Manon, de Massenet. A apresentação lhe proporcionou um contrato para integrar o elenco do Metropolitan durante muitos anos. A baixa estatura e o timbre da voz propiciaram uma adequação para papéis femininos mais delicados. Nos anos seguintes apresentou-se no Teatro Colón, em Buenos Aires, Rio de Janeiro, ao lado de Guiomar Novaes e no Recife, junto com o barítono Giuseppe Danise, com quem viria se casar anos depois.

Conta a história que numa apresentação, em 1937, no Teatro Municipal do Rio, quando ela já era famosa na Europa, foi vaiada ao cantar Pelléas et Mélisande. Conta-se, também, que vaia teria sido organizada pela claque da meia-soprano Gabriella Besanzoni, que não estava disposta a vê-la em desvantagem diante do sucesso de Bidu Sayão. O fato causou-lhe tristeza e mágoa justamente por ocorrer em sua terra natal. Logo depois foi confortada pelos aplausos que obteve no mesmo ano, na apresentação que fez no Metropolitan Opera House, interpretando Manon, de Jules Massenet. Só retornou ao seu País, para novas apresentações, 11 anos depois, nas montagens de Romeu e Julieta e Pelléas et Mélissande, em 15 e 17 de agosto de 1946, as últimas em solo brasileiro, e retornou aos EUA, onde vivia.

A apresentação no Metropolitan Opera House e posterior contratação foi possível a partir da indicação feita pelo maestro Arturo Toscanini, de quem foi amiga e, dizem as “más línguas’, amante. A dupla realizou memoráveis apresentações, como a ópera La Damoiselle Elue, de Debussy, no Carnegie Hall, em Nova Iorque. O crítico Olin Downes escreveu: “A srta. Sayão triunfou da forma como uma Manon deveria triunfar, com educação, jovialidade e charme, e também pela maneira como fez de sua voz um veículo de expressão dramática”. Pouco depois, aos 34 anos, foi recebida, na Casa Branca, pelo casal Roosevelt. Um crítico do O “New York Times” disse que “Ela não demorou a mostrar os méritos de sua arte. Sua voz possui doçura, delicadeza e suavidades pronunciadas. Sua escala é excepcionalmente uniforme durante todo o compasso e alcança o Mi bemol mais agudo… Além da suavidade, a técnica vocal… tem absoluto comando do legato delicado e muito acima da média da flexibilidade e agilidade”. Permaneceu 15 anos como a principal soprano lírica do Metropolitan, que mantém um quadro a óleo na galeria dos grandes nomes da ópera. Em alguns momentos, sua voz elevava-se a alturas quase inacreditáveis e ali permanecia -pendurada, como uma cotovia- desabafando seu coração para o céu”, escreveu um crítico do “Winnipeg Tribune”.

Em 1940 esteve no Brasil junto com o tenor Tito Schipa, dirigidos por Toscanini. Em pleno “Estado Novo”, sob o comando de nacionalistas exacerbados, tal como ocorreu com Carmen Miranda, foi criticada devido ao sucesso alcançado nos EUA. Em meados de 1950, conheceu Villa-Lobos e dizem que “a química entre eles foi imediata’. Segundo o biógrafo Dennis Daniel “o relacionamento amoroso foi evidente”. O fato é que os dois se adoravam, e não apenas em termos artísticos. O compositor se referia a ela como “meu violino humano”. Estava falando do corpo da cantora? A versão do biógrafo: “A referência ao instrumento se prende à capacidade que Bidú possuía de cantar uma parte específica das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ sem a letra, apenas com a boca fechada, sua voz soprano ressonando dentro da cavidade bucal como se saísse pela nariz, uma técnica conhecida como ‘bocca chiusa’”. A cantora acabou agradando o exigente compositor. Fato é que o disco das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ conseguiu ser o mais vendido nos EUA por 2 anos consecutivos.

Não obstante ser apaixonada pelo Brasil – “nada magoava mais Bidú do que ser chamada de antipatriota”, suas relações com a terra natal foram tumultuadas desde 1937, com a vaia que levou no Teatro Municipal do Rio. Mas melhoraram bastante com o convite que recebeu em 1995 para desfilar no carro alegórico da Escola de Samba Beija-Flor, quando sua vida e carreira foram tema do enredo no carnaval. Porém, com tantos anos vivido e a carreira feita nos EUA, naturalizou-se americana em 1960, aos 59 anos, mas não perdeu a cidadania brasileira. Vivia em Lincolnville, Maine, onde faleceu em 12/3/1999, aos 97 anos, sem realizar um de seus desejos: rever a Baía da Guanabara. Havia uma viagem agendada para este propósito no ano de seu centenário, mas não houve tempo.

Seu biógrafo – Denis Allan Daniel -, que tem nome americano mas é brasileiro, lançou em 2019 Bidú: paixão e determinação, uma alentada biografia, lamenta: “É triste ter de aceitar que não há uma só lápide em algum cemitério, ou um monumento no Brasil, para honrar a memória de Bidú Sayão. Encontrei na Internet outro livro, que parece ser uma biografia: Bidú Sayão: o rouxinol brasileiro, lançada por Fernando de Bortoli, em 1992, publicada pela Editora do Autor. Será porque não encontrou editora? E assim lamentamos todos o cuidado que temos com nossos grandes talentos brasileiros. Uma nesga de lembrança da grande soprano restou em Belo Horizonte, com a criação do “Concurso Internacional de Canto Bidú Sayão”, em 1999.

Clique aqui para assistir ao vídeo intitulado “Bidú Sayão – A cantora brasileira que conquistou o mundo!!”

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OS BRASILEIROS: Guerreiro Ramos

Alberto Guerreiro Ramos nasceu em 13/9/1915, em Santo Amaro da Purificação, BA. Sociólogo, professor, advogado, jornalista e político. Destacado estudioso da questão social e racial, é segundo o fundador do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard, Pitirim Sorokin, um dos autores que mais contribuíram para o progresso da sociologia no mundo.

Após os primeiros estudos, no Ginásio do Estado, em Salvador, ganhou uma bolsa de estudos do governo para estudar na Universidade do Brasil (RJ), onde diplomou-se em ciências sociais em 1942 e em Direito no ano seguinte. Foi influenciado pelos intelectuais católicos franceses, sobretudo Jacques Maritain, com que teve ligações pessoais, e Emmanuel Mounier. A partir de 1944, passou a ser influenciado por Max Weber e se interessar pela teoria das organizações. Na área cultural, foi ligado ao Teatro Experimental do Negro-TEN, comandado por seu amigo Abdias do Nascimento, que lhe entregou a coordenação do departamento de estudos e pesquisas, denominado Instituto Nacional do Negro. Uma de suas atividades se deu com o “Seminário de Grupoterapia”, com base no psicodrama como um “espaço que possibilita catarse e reflexão das sequelas trazidas de um passado escravo, de uma vivência de ausência de um lugar, de uma identidade fragmentada”.

Assessorou o presidente Getúlio Vargas em seu 2º governo e pouco depois foi designado diretor do Departamento de Sociologia do ISEB-Instituto Superior de Estudos Brasileiros. O ISEB, com autonomia administrativa e plena liberdade de pesquisa e opinião, constituía-se num importante núcleo de formação da ideologia “nacional-desenvolvimentista”, que impregnou todo o sistema político no período 1954-1964. Ele foi um dos formuladores desta ideologia, junto com Hélio Jaguaribe, Candido Mendes de Almeida, Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré etc. No ISEB, apoiou as propostas da CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina, da ONU, e publicou 2 livros que se tornaram clássicos: Introdução crítica à sociologia brasileira (1957) e A redução sociológica (1958).

Em 1960 entrou na política partidária, participando do diretório nacional do PTB-Partido Trabalhista Brasileiro. Em 1961 foi Delegado do Brasil na XVI Assembleia Geral da ONU, na Comissão de Assuntos Econômicos. No ano seguinte candidatou-se a deputado federal na “Aliança Socialista Trabalhista”, formada pelo PTB e o PSB-Partido Socialista Brasileiro, quando obteve a 2ª suplência. Em seguida publicou o texto “Mito e verdade da revolução brasileira”, junto com seu manifesto ao PTB sugerindo que o partido renunciasse a “ideologia marxista-leninista”. Como jornalista, colaborou nos jornais “O Imparcial” (MG), “Última Hora”, “O Jornal” e “Diário de Notícias” (RJ). Seus artigos, analisando o marxismo, renderam-lhe viagens à URSS e China e diversas conferências internacionais.

De volta ao Brasil, escreveu uma série de artigos criticando o Partido Comunista, quando foi acusado de traidor e oportunista pelos colegas. Foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a criticar Stalin. Desde meados da década de 1950 já era um pensador respeitável com livros publicados em espanhol. Foi professor da EBAP-Escola Brasileira de Administração Pública, da FGV, e ministrou cursos no DASP-Departamento de Administração do Serviço Público. Em 1955 deu aulas como professor-visitante da Universidade de Paris. Neste ano, foi publicado no México seu livro Sociologia de la mortalidade infantil, que impressionou o grande sociólogo russo Pitirim Sorokin.

No período de agosto de 1963 a abril de 1964, foi deputado federal e teve os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1964. Na ocasião foi acolhido por Luis Simões Lopes, presidente da FGV, como professor. Em 1966 recebeu um convite da USC-University of Southern California, onde passou a lecionar e só voltou ao Brasil algumas vezes como visitante. Em princípios da década de 1970 foi “visit-fellow” da Yale University e professor-visitante da Wesleyan University. Faleceu em Los angeles, em 7/4/1982, e deixou publicado alguns livros essenciais ao conhecimento de seu País: Sociologia industrial (1951), Cartilha brasileira do aprendiz de sociologia (1955), Introdução crítica à sociologia brasileira (1957), Condições sociais do poder nacional (1957), O problema nacional do Brasil (1960), A crise do poder no Brasil (1961), A redução sociológica (1964). Seu último livro – A nova ciência das organizações: uma reconceitualização da riqueza das nações (1981) – foi publicado pela Universidade de Toronto e só depois teve sua tradução publicada no Brasil.

Outro livro – Mito e realidade da revolução brasileira (1963) – ficou conhecido como “o livro proibido de Guerreiro Ramos”. Publicado no ano anterior ao golpe militar, foi incluído no “index” dos livros proibidos pela ditadura e só foi republicado em 2016 pela Editora Insular. Trata-se da exposição de sua tese sobre a necessidade de um caminho brasileiro para o socialismo, contrapondo-se à importação de modelos de revolução. Desse modo, foi um livro que desagradou tantos os militares golpistas como os políticos e intelectuais de esquerda, que ainda seguiam a cartilha dos comunistas soviéticos, através do Partido Comunista. Certamente, esta foi uma das razões para que o livro caísse no limbo da história.

Foi um sociólogo diferenciado, que não se via entre os intelectuais em discursões acadêmicas. Via-se como “um sociólogo em mangas de camisa”, como costumava dizer. Sua área de trabalho era a organização e administração pública, como indica sua vinculação a Fundação Getúlio Vargas. Em 2010, o Conselho Federal de Administração instituiu o “Prêmio Guerreiro Ramos de Gestão Pública”, concedido aos destacados gestores do ano. Em 2014 foi publicado, pela FGV numa edição bilingue, uma série de entrevistas de importantes professores e pesquisadores brasileiros (7) e norte-americanos (9) com depoimentos sobre a pessoa e seu legado: Guerreiro Ramos: coletânea de depoimentos, organizada por Bianor Cavalcanti, Yann Duzert e Eduardo Marques.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lygia Clark

Lygia Pimentel Lins nasceu em 23/10/1920, em Belo Horizonte, MG. Pintora e escultora reconhecida como uma das mais destacadas artistas brasileiras do século 20, Foi uma das fundadoras do Movimento Neoconcretista, em 1959, e gostava de autointitular-se uma “não artista”, ou melhor ainda, uma “propositora”. Tinha como proposta a “desmistificação da arte e do artista e a desalienação do espectador”, cuja apreciação consistia num compartilhamento na criação da obra de arte.

Filha de uma família de juristas, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947 e iniciou estudos na área artística sob a supervisão de Burle Marx. Em seguida mudou-se para Paris, onde viveu por 3 anos (1950-1952) e teve cursos mantidos por importantes artistas: Fernand Léger, Arpad Szènes e Isaac Dobrinsky. Trabalhou com desenhos e teve suas primeiras pinturas a óleo. Realizou sua primeira exposição individual no Institut Endoplastique em 1952. No mesmo ano retornou ao Rio e expôs suas obras no MEC-Ministério da Educação e Cultura. Logo, passou a integrar o “Grupo Frente”, composto por Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Abraham Palatik, Lygia Pape e Hélio Oiticica. Reuniam-se no MAM e na casa do crítico Mario Pedrosa, constituindo-se no marco histórico do movimento construtivo no Brasil.

Em 1954 participou da Bienal de Veneza, com a série “Composições”, onde incorporou a moldura como elemento plástico em suas obras. A partir daí passou a trabalhar com instalações e “body art”, uma manifestação da artes plásticas, onde o corpo do próprio artista pode ser utilizado como suporte ou meio de expressão. Em 1959, participou da I Exposição de Arte Neoconcreta, integrada por Ferreira Gullar, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. Sua proposta era que a pintura não se sustentava mais em seu suporte tradicional. Nas “Unidades 1959”, moldura e “espaço pictórico” se confundem, um invadindo o outro quando pinta a moldura da cor da tela. É o que ela chama de “linha orgânica”.

Em 1960 lecionou artes plásticas no Instituto Nacional dos Surdos (RJ) e criou a série “Bichos”, construções metálicas geométricas que se articulam por meio de dobradiças e requerem a coparticipação do espectador. “Caminhando” (1964) é a obra que marca essa transição, onde o próprio participante realiza a obra de arte. Tal participação passa a ser constante em suas obras, levando-a a dedicar-se à exploração sensorial e a participar do Simpósio de Arte Sensorial, em Los Angeles em 1969. No ano anterior foi convidada pela Bienal de Veneza a expor, em sala especial, toda a sua trajetória artística. Em seguida, decidiu mudar-se para Paris, onde viveu de 1970 a 1976. A partir daí sua arte tomou novo rumo, concentrando-se no desenvolvimento de experiências sensóriais e seu uso terapêutico. Acreditava que arte e terapia andavam juntas. Assim, achava que “objetos manuseáveis que criava ou recolhia da natureza, como balões de ar, sacos de terra e água e até pedras, poderiam ter o dom de curar os males da alma”.

Enquanto viveu em Paris, teve sessões de análise com o conhecido psicanalista Pierre Fédida e lecionou na Faculté d’Arts Plastiques St. Charles, na Sorbonne, de 1970 a 1975. Voltou ao Rio de Janeiro, em 1976 e intensificou o estudo das possibilidades terapêuticas da arte sensorial, trabalhando com objetos relacionais. Assumiu de vez este enfoque em suas obras e pouco depois estava proferindo palestra – “O método terapêutico de Lygia Clark” – no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1982). Dessa época em diante passou a diminuir o ritmo de suas atividades e publicou os livros Rio meu doce rio e Livro-obra (1983), uma obra aberta contendo estruturas manipuláveis, contando a trajetória de sua obra desde as primeiras criações até o final de sua fase neoconcreta.

A partir da década 1980 sua obra ganha reconhecimento internacional com retrospectivas em vários países e em mostras antológicas. Uma grande retrospectiva, com sala especial dedicada a ela e Hélio Oiticica, foi realizada em 1986, por ocasião do IX Salão de Artes Plásticas, no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Esta foi sua última exposição em vida. Foi vitimada por um ataque cardíaco em 25/4/1988. Sua obra foi umas das mais valorizadas no mundo das artes. Em maio de 2013, a obra “Contra Relevo” foi arrematada num leilão em Nova Iorque por US$ 2,2 milhões, tornando-se a obra mais valiosa de um artista brasileiro. Em agosto do mesmo ano, a obra “Superfície Modulante” alcançou a cifra de R$ 5,3 milhões, num leilão promovido pela Bolsa de Arte de São Paulo.

Em 2014, o MoMA-Museum of Modern Art, de Nova Iorque, apresentou uma grande retrospectiva com 300 obras reunidas a partir de coleções públicas e privadas, englobando 4 décadas de sua carreira artística. Hoje ela conta com obras expostas em 18 museus do mundo. Ao longo da carreira realizou 136 exposições coletivas e 20 individuais no Brasil e no exterior. Seu legado artístico ficou registrado no livro Lygia Clark: obra-trajeto, de Maria Alice Milliet, publicado pela Edusp, em 1992. Outros livros explorando sua arte: O espaço de Lygia Clark (1994), de Ricardo Nascimento Fabbrini; Relâmpagos com furor: Lygia Clark e Hélio Oiticia, vida como arte (2004) de Beatriz Scigliano Carneiro e Lygia Clark: linhas vivas (2013), de Renata Sant’Anna e Valquíria Prates e Lygia Clark: the abandonment of art, 1948-1988, numa bela edição ilustrada contendo toda sua obra.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: João Cândido

João Cândido Felisberto nasceu em Encruzilhada do Sul, RS, em 24/6/1880. Militar da Marinha e líder da “Revolta da Chibata”, em 1910, ficou conhecido como “Almirante Negro”. Filho de ex-escravos, entrou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre, em 1895. Ao contrário da maioria dos marinheiros, que eram recrutados à força pela polícia, alistou-se como grumete em 10/12/1895, aos 14 anos, no Rio de Janeiro.

Viajou bastante pelo Brasil e vários países do mundo nos 15 anos que esteve na ativa da Marinha. Boa parte das viagens eram de instrução em navios de guerra. A partir de 1908, alguns marinheiros foram enviados à Inglaterra para acompanhar o final da construção de navios encomendados pelo governo. Lá ficou sabendo do motim feito pelos marinheiros russos, em 1905, numa luta por melhores condições de trabalho. Trata-se da revolta do Encouraçado Potemkin, que virou filme do diretor Sergei Einsenstein em 1925. Era um marinheiro competente, admirado pelos colegas e elogiado pelo comandante, devido ao bom comportamento e por ser um bom timoneiro. Era a pessoa talhada para liderar a “Revolta da Chibata”. O uso da chibata na Marinha foi abolido, por lei, em 1889. Porém o castigo continuou a ser aplicado, a critério dos oficiais, no contingente de 90% de marujos negros e mulatos. O clima de revolta contra esse abuso crescia na tripulação.

Num clima de revolta, os marinheiros, liderados por João Cândido, tiveram audiência com o Governo na presença do Ministro da Marinha, Alexandrino de Alencar, reivindicando o fim dos castigos físicos. Mas nada foi providenciado e os marinheiros decidiram fazer uma sublevação pelo fim do uso da chibata em 25/11/1910. Antes porém, ocorre um fato que precipitou a revolta. 3 dias antes, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas, que não foram interrompidas mesmo após desmaiado, diante de toda a tripulação do navio Minas Gerais. A punição se devia ao fato de o marinheiro ter sido flagrado com uma garrafa de cachaça a bordo.

Á noite do dia 22/11/1910, sabendo que o comandante, João Batista das Neves, dormiria fora do navio, os marinheiros planejaram a tomada de posse das armas, domínio dos oficiais em seus camarotes e o controle do navio, bem como dos demais ancorados na baia da Guanabara. No entanto, o comandante voltou mais cedo do que previsto e surpreendeu os marinheiros no início da revolta. Os ânimos acirrados de ambas as partes resultou no ferimento de um dos marinheiros pelo comandante. Um deles mais exaltado retrucou o ferimento com um tiro na cabeça do comandante e dá-se o combate nos navios Minas Gerais, Bahia e São Paulo com mais 2 oficiais e 3 marinheiros mortos.

João Cândido foi indicado pelos demais líderes como o comandante-em-chefe de toda a esquadra em revolta, composta por 6 navios. Acalmados os ânimos, o “Almirante Negro”, assim chamado pela imprensa, declarou ao Correio da Manhã: “As carnes de um servidor da pátria só serão cortadas pelas armas dos inimigos, mas nunca pela chibata de seus irmãos. A chibata avilta”. Por 4 dias os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro apontaram seus canhões para a Capital Federal e mandaram um recado: “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira”. A rebelião, envolvendo 2379 homens, terminou com o compromisso do governo em acabar com o uso da chibata e conceder anistia aos revoltosos. A anistia foi aprovada no dia 25 e publicada no Diário Oficial, mas não foi cumprida pelo governo. No dia 28 foi publicado um decreto permitindo a expulsão de marinheiros que representassem algum risco para a Marinha.

Pouco depois correu o boato que o Exército iria se vingar da humilhação sofrida pelos marinheiros e deu-se a eclosão de um novo motim entre os fuzileiros navais, na Ilha das Cobras, em 9/12/1910. Não tinha ligação com a Revolta da Chibata, mas lá se encontravam presos muitos marinheiros participantes da revolta. O novo motim foi reprimido com um bombardeio sobre pouco mais de 200 amotinados e serviu de justificativa para o governo implantar a lei marcial. João Cândido chegou a ordenar tiro de canhão sobre os marinheiros-fuzileiros amotinados para provar sua lealdade ao governo. Mas, não adiantou. Com a lei marcial, centenas de marinheiros foram dados como mortos ou desaparecidos e 2000 marinheiros foram expulsos da Marinha. Onze foram fuzilados a bordo do Navio Satélite, que levava 105 marinheiros rebeldes para serem jogados nos seringais do Acre.

Apesar de não ter participado deste 2º levante (se é que houve), João Cândido foi expulso da Marinha e preso em 13/12/1910. Foi encarcerado num cubículo, onde 16 dos 17 companheiros de cela morreram asfixiados. No mês seguinte foi transferido para o Hospital dos Alienados, como louco, mas logo retornou à prisão. Foi solto em 1912, contando com a defesa do rábula Evaristo de Moraes, que atuou de graça. A partir daí passou a viver precariamente, trabalhando como estivador na Praça XV. Em 1930, em meio a efervescência política com o “Estado Novo”, foi preso acusado de subversão, mas logo foi solto. Em 1959 voltou à sua cidade natal para ser homenageado, mas a interferência da Marinha proibiu a cerimônia. No mesmo ano sua memória foi resgatada pelo jornalista Edmar Morel, no livro A Revolta da Chibata. O livro teve 5 edições e praticamente ressuscitou o líder da Revolta que voltou a ser notícia meio século após o acontecimento. Em seguida o velho marinheiro recolheu-se em São João de Meriti, onde levou uma vida pacata, adoeceu e morreu de câncer em 6/12/1969, aos 89 anos. Na década seguinte, os compositores Aldir Blanc e João Bosco prestaram-lhe homenagem com a música “O mestre-sala dos mares”, mas a censura não gostou e seu apelido “Almirante Negro” teve que ser mudado para “Navegante Negro”. Em 1982, o historiador Marcos Antônio da Silva publicou o livro Contra a chibata: marinheiros brasileiros em 1910, lançado pela editora Braziliense. Por esta época, a “Revolta da Chibata” ainda era tema de interessa geral, fazendo com que o livro de Edmar Morel fosse reeditado pela quarta vez, em 1986.

Tantas lembranças da Revolta e o heroísmo de seu líder, levaram o historiador e almirante Helio Leoncio Martins a publicar o livro A revolta dos marinheiros 1910, em 1988, que se constituiu na versão oficial da Marinha. O livro foi incluído na “Coleção Brasiliana”, vol. 384, e destaca os problemas gerais de interpretação histórica. Seu relato pretende adotar uma posição neutra quanto ao movimento e refuta o reconhecimento de João Cândido como seu líder maior e como herói. Em 2005, seu nome foi apresentado como projeto de lei nº 5874/05, inscrevendo-o no “Livro dos Heróis da Pátria”. Porém, foi arquivado porque tal homenagem só poderia se dar após 50 anos da morte da pessoa. Este requisito foi adquirido em 2019, mas até agora nenhum projeto de lei foi reapresentado.

Em novembro de 2007, o “Almirante Negro” foi homenageado com uma estátua nos jardins do Museu da República (antigo Palacio do Catete). Na ocasião foi exibido o filme “Memórias da Chibata”, de Marcos Manhães Marins e uma exposição fotográfica. No ano seguinte, na comemoração da “Abolição da Escravatura”, foi publicada a Lei nº 11.756, concedendo anistia “post mortem” ao líder da Revolta e seus companheiros. No entanto, a Lei foi vetada pelo governo na parte em que determinava a reintegração de João Cândido à Marinha. Tal ato imporia à União concessão de aposentadoria e pensão aos seus dependentes, bem como uma possível corrida de outras famílias em busca de reparação financeira. A Lei foi vetada por não apresentar a necessária fonte de custeio. Na realidade, apenas 2 famílias se apresentaram como descendentes destes marinheiros.

Em novembro de 2008, a estátua do “Almirante” foi transferida para a Praça XV de Novembro, no centro do Rio, num evento contando com a presença do presidente Lula, familiares do marinheiro etc. A Marinha não compareceu alegando não poder comemorar, pois prezava a disciplina e a hierarquia. Em 2010 foi dado o nome “João Cândido” ao navio petroleiro da Transpetro, a pedido do presidente da República. A última homenagem que se tem notícia ocorreu em 2018 com a peça Turmalina 18-50: os últimos dias do Almirante Negro em terra, do dramaturgo Vinicius Baião.

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AS BRASILEIRAS: Johanna Döbereiner

Johanna Liesbeth Kubelka Döbereiner nasceu em 28/11/1924, em Aussig, República Checa. Engenheira agrônoma, pioneira na área de biologia do solo. Trabalhou no Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, o precursor da Embrapa Agrobiologia. Sua atuação possibilitou o avanço do programa Pró-Álcool, além de colocar o Brasil como o 2º maior produtor de soja do mundo. Seus estudos e pesquisas foram decisivas na produção de alimentos mais baratos e saudáveis, garantindo-lhe a indicação ao Prêmio Nobel de Quimica, em 1997.

Filha do cientista Paul Kubelka, professor de Química da Universidade de Praga e fabricante de produtos químicos de uso na agricultura. O pai foi preso por ajudar judeus na persguição nazista e a mãe -Margarete Kubelka-, morreu num campo de concentração. Após um periodo de perseguições, a familia se instalou na região de Munique, onde ela ingressou na Universidade de Munique, em 1947, no curso de agronomia. Lá conheceu o estudante de medicina veterinária Jürgen Döbereiner, com quem se casou em 1950. Em seguida o casal veio para o Brasil e ela foi trabalhar com o Dr. Álvaro Barcellos Fagundes no atual Centro Nacional de Pesquisa em Agrobiologia da Embrapa, em Seropédica (RJ), onde vivia.

Em sua primeira publicação tratou da relação entre bactérias fixadoras do nitrogênio e plantas superiores e causou estranheza entre os colegas por não haver na literatura qualquer relação entre estes elementos. Naturalizou-se brasileira em 1956 e pouco depois foi fazer pós-graduação nos EUA, onde concluiu o mestrado em 1963, na Universidade de Universidade de Wisconsin-Madison. Em seguida foi à Paris fazer um curso de bacteriologia, no Instituto Pasteur. De volta ao Brasil, montou uma equipe e deu inicio as pesquisas sobre a fixação de nitrogênio atmosférico em gramíneas (milho, sorgo e cana-de-açucar. Ela e seus colegas descreveram mais de nove espécies de bactérias diazotróficas, fato inédito para o Brasil na área agrícola

Sua contribuição científica consistiu em aproveitar as associações entre plantas e bactérias fixadoras de nitrogênio (FBN), contrária ao uso da adubação nitrogenada obrigratória e desenvolvendo uma tecnologia capaz de diminuir e até eliminar nossa dependência desse modo de cultivo. Ou seja, a FBN possibilita a substituição de adubos químicos nitrogenados oferecendo, assim, vantagens econômicas, sociais e ambientais. Isto fez com que o Brasil tivesse o menor custo de produção de soja do mundo. Em 1974 foi a primeira cientista a descrever a ocorrência de uma associação ente bactérias fixadoras de nitrogênio do gênero Azospirillum e a gramínea Paspalum notatum, em seguida tais bactérias foram descritas para o milho e plantas forrageiras. Em 1988 estas associações foram extendidas para a cana-de-açucar. Pode-se dizer que suas descobertas causarm uma revolução na agricultura brasileira e propiciaram uma poupança de 1 a 2 bilhões de dólares por ano.

Foi uma das cientistas estrangeiras que mais se apegou ao Brasil. Na década de 1980, um centro de pesquisas canadense convidou-a para trabalhar ganhando 5 vezes mais seu salário na Embrapa. “Sou extremamente grata ao País que me acolheu quando eu precisei. Por amor ao Brasil, continuo na Embrapa”. Certa vez uma repórter disse-lhe “Mas a senhora não é brasileira!”. A resposta veio rápida: “Minha filha, talvez, mais do que você. Porque sou brasileira por opção, e não porque nasci aqui”.

Em pesquisa realizada pela Folha de São Paulo, em 1995, foi considerada a mulher brasileira mais citada pela comunidade científica mundial, e a 7ª considerando-se todos os cientistas do país. Ocupou a vice-presidência daa Academia Brasileira de Ciências, membro da Academia de Ciências do Vaticano e da Academia de Ciências do Terceiro Mundo. Foi agraciada com diversas premiações: prêmio Frederico Menezes Veiga (Embrapa, 1976), prêmio Bernardo Houssay da OEA (1979); Prêmio de Ciências da UNESCO (1989), Ordem de Mérito de Primeira Classe da República Federal da Alemanha (1990); Prêmio México de Ciência e Tecnologia (1992) e Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito (1994). Recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade da Flórida (EUA) e da UFRJ.

Deixou mais de 500 artigos publicados nas principais revistas do mundo e teve participação destacada em mais de 60 seminários científicos internacionais. Exerceu a profissão até mesmo depois de ter sido diagnosticada com problemas neurológicos e veio a falecer em 5/10/2000. Seu colega e amigo, o geneticista Clodowaldo Pavan disse que “a contribuição de Johanna Döbereiner para a Ciência e o Brasil foi de um nível invulgar e por isso teve amplo reconhecimento internacional”. Disse bem: “amplo reconhecimento internacional”. Falta-lhe apenas o reconhecimento nacional, pois entre nós é uma ilustre desconhecida. Em reconhecimento ao seu trabalho, a Embrapa publicou o livro, uma fotobiogragia, Hanne – Johanna Döbereiner, uma vida dedicada à ciência, em 2018, produzida pela jornalista Kristina Michaelles, com ajuda do marido Jürgen Döbereiner.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Milton Santos

Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, BA, em 3/5/1926. Escritor, professor, jornalista, advogado, cientista e um dos maiores geógrafos do mundo. Considerado um dos mais destacados intelectual brasileiro, lutou contra o modelo de globalização vigente, que chamava de “globalitarismo”, e propunha a construção de outra realidade possível, considerada mais justa e mais humana.

Filho e neto de professores primários, apendeu álgebra e francês em casa. Aos 10 anos foi aluno interno do Instituto Baiano de Ensino, onde tomou gosto pela geografia com o prof. Oswaldo Imbassay. Aos 13 anos lecionava matemática e aos 15 geografia. Aos 22 formou-se em Direito pela UFBA, mas nunca advogou. Foi dar aulas de geografia no Colégio Municipal de Ilhéus. Por essa época tomou gosto pela política e entrou no jornalismo como correspondente do jornal “A Tarde” e depois editor sem abandonar a geografia. Seu 3º livro – Zona do cacau; introdução ao estudo geográfico – tornou-se um clássico como volume 296, da Coleção Brasiliana, em 1957.

Influenciado pela escola francesa do pós-guerra, seu interesse era centrado na geomorfologia e climatologia. Aos poucos foi se interessando pela demografia e por um entendimento global do meio físico-natural, incluindo a dimensão econômica nas relações cidade-campo, apartir da influência recebida do geógrafo Pierre George. Pouco depois do casamento com Jandira Rocha, mudou-se para Salvador tornando-se professor na Universidade Católica de Salvador, em 1956. No mesmo ano participou do Congresso Internacional de Geografia, no Rio de Janeiro, e travou contato com grandes geógrafos que já conhecia por suas obras. Na ocasião foi convencido por Jean Tricart a fazer um curso de doutorado no Instituto de Geografia da Universidade de Strasbourg, um dos mais renomados da Europa. Concluiu o curso em 1958, com a tese O centro da cidade de Salvador, e retorna ao Brasil.

De volta a Salvador, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da UFBA, sempre em contatos com os mestres franceses. Pouco depois tornou-se Livre Docente em Geografia Humana pela UFBA, participando ativamente da vida acadêmica, jornalística e política. Em 1961 o presidente Jânio Quadros convidou-a a participar da comitiva numa visita à Cuba e foi nomeado subchefe da Casa Civil na Bahia no curto mandato presidencial. Em 1963 foi eleito presidente da AGB-Associação dos Geógrafos Brasileiros e no mesmo ano o governador Lomanto Júnior convidou-o para presidir a CPE-Comissão de Planejamento Econômico da Bahia. Enquanto isso, prestou concurso para lecionar na UFBA, mas teve os planos interrompidos pelo golpe militar, em abril de 1964.

Foi preso pelo Exército, por 90 dias, e sofreu um AVC-Acidente Vascular Cerebral em meados de junho. Recuperou a saúde e foi solto após a intervenção do cônsul da França, em Salvador, Raymond Van der Haegen, junto aos militares. Havia recebido vários convites de universidades francesas e após 6 meses de prisão domicilar, partiu para a França já separado do primeiro casamento. Lecionou geografia na Universidade de Toulouse, achando que poderia voltar em breve com o fim da ditadura. Viveu 3 anos em Toulouse e mudou-se para Bordeaux, onde conheceu sua segunda esposa, Marie Hélene Tiercelin, entre suas alunas. Em maio de 1968, em plena efervescência politica, lecionava na Universidade Sorbonne e trabalhava como diretor de pesquisa em planejamento urbano no IEDES-Institut d’Étude du Développement Économique et Social.

Em 1971 foi convidado para lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá. Em seguida foi pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, onde trabalhou com Noam Chomsky. Foi aí que iniciou sua grande obra – O espaço dividido -, publicada em 1979. Em seguida fez um périplo por alguns paises latino-americanos, universidades europeias e africanas. Na veneuela, foi diretor de pesquisas sobre planejamento urbano num projeto da ONU e manteve contatos com técnicos da OEA-Organização dos Estados Americanos. Tais contatos lhe proporcionou um convite para lecionar na Faculdade de Engenharia de Lima, Peru, ao mesmo tempo em que foi contratado pela OIT-Organização Internacional do Trabalho para elaborar um estudo sobre a pobreza urbana na América Latina.

Por esta época foram intensificados os estudos sobre os processos de urbanização das cidades do “terceiro mundo”, que renderam novas viagens: volta à Venezuela para lecionar na Faculdade de Economia da Universidade Central; organizou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde viveu por 2 anos, e recebeu convite para retornar ao Brasil, para lecionar na Universidade de Campinas. Mas as condições políticas do Brasil na época não lhe eram favoráveis. A Columbia University, em Nova Iorque soube aproveitar melhor seu talento. Em fins de 1976 houve novos contatos para trabalhar no Brasil. Tentou a UFBA, mas ocorreram novos impedimentos. Recebeu convite para lecionar na Nigéria, mas a vontade de retornar ao Brasil era maior. Algumas colegas geógrafas brasileiras se empenharam em trazê-lo e conseguiram um posto como consultor de planejamento urbano na EMPLASA-Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano.

Com seu retorno deu-se uma grande mudança estrutural no ensino e na pesquisa em Geografia no Brasil. Em 1977 passou a lecionar na UFRJ e no ano seguinte foi contratado como professor titular do Departamento de Geografia da USP, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1997, e continuou como professor convidado. Seu livro Por uma nova geografia, publicado em 1978, abriu caminhos para o entendimento de novas configurações urbanas e causou impacto na área. Suas atividades no ensino e execução de projetos lhe garantiu a conquista do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel da Geografia. Foi o único latino-americano a receber a comenda.

Em meados de 1990, soube que portava um câncer de próstata, mas continuou na USP até 2000 e lançou mais 2 livros. No ano seguinte, a doença agravou-se e veio a falecer em 24/6/2001. Uma de suas expressivas contibuições ao estudo da geografia urbana foi derrubar as velhas noções de centro e periferia. Antes mesmo que o conceito de “Globalização” se generalizasse, ele já advertia para “a possibilidade do fim da cultura como produção orginal do conhecimento”. Não se trata de ser contra a globalização e sim contra o modelo vigente no mundo, que ele chamava de “globalitarismo”. Tais ideias foram apresentadas em seu último livro Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (2000). No penúltimo livro A natureza do espaço (1996) pretendeu estabelecer “uma teoria geral do espaço humano, uma contribuição da geografia e reconstrução da teoria social”.

Além das diversas homenagens e premiações, recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de 14 universidades no Brasil e exterior e deixou mais de 40 livros publicados, muitos deles em diversas edições. Devido a sua contribuição no ensino superior e afim de reverenciar sua memória, a ABMES-Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior instituiu, em 2004, o Prêmio Milton Santos de Educação Superior, outorgado a cada dois anos aos nomes indicados pelas instituições associadas. Uma biografia homenageando-o foi publicada na revista eletrônica “Scripta Nova”, da Universidade de Barcelona, em 2002 e pode ser consultada no link El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos (ub.edu)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Tavares de Miranda

Maria do Carmo Tavares de Miranda nasceu em Vitória de Santo Antão, PE, em 6/8/1926. Filósofa, pedagoga, teóloga e tradutora em 8 idiomas, incluindo o grego, latim, aramaico e hebraico. Era chamada por Gilberto Freyre, de quem foi assistente, de “filósofa de Paris”. Ocupou o cargo de professora livre docente em filosofia da educação da UFPE-Universidade Federal de Pernambuco por mais de 20 anos.

Sobre a conquista deste cargo vale lembrar que ela venceu o concurso para a Cátedra de História e Filosofia da Educação, em 1960, numa acirrada disputa com outro pretendente de peso: Paulo Freire. Ele com a tese “Educação e atualidade brasileira” e ela com a tese “Pedagogia no tempo e na história”. A disputa gerou polêmica e rendeu alguns artigos na imprensa local e revistas acadêmicas na época. Anos depois Paulo Freire disse que “perdi a cátedra e ganhei a vida”, pois sem a cátedra pode se dedicar mais ao seu método de alfabetização e ao MCP-Movimento de Cultura Popular, no Recife.

Teve sólida formação escolar na condição de filha do professor André Tavares de Miranda, que mantinha um educandário na cidade. Era irmã do conhecido colunista social Tavares de Miranda, da Academia Paulista de Letras. A formação acadêmica se deu com duas graduações (Letras Clássicas e Filosofia) na UFPE e dois títulos de doutora em Filosofia pela Universidade de Sorbonne, em Paris (1956), e pela Universidade de Friburgo, na Alemanha. Em 1966, junto com Gilberto Freyre, teve atuação destacada no Seminário de Tropicologia, mantido pela Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, e assumiu sua direção com o falecimento do sociólogo, em 1987. Neste cargo coordenou a publicação dos Anais do Seminário e organizou o curso Fundamentos da Tropicologia, em 1988.

Tropicologia, em resumo, vem a ser uma nova área de estudo englobando a sociologia, antropologia e ecologia surgida em princípios do século XX para combater a ideia de que o trópico é inabitável pela raça caucasiana. A crença era que as mais brilhantes civilizações floresciam principalmente nas zonas temperadas. A faixa intertropical, seguindo este raciocínio, era vista como o habitat de negros e bugres incultos. Tanto o trópico seco se mostrava hostil à civilização, como o trópico húmido se constituía num pesadelo com suas endemias. Nestes ambientes imperava a pobreza devido indolência inerente às raças inferiores, as únicas que conseguiam sobreviver em tais condições. Tratam-se de conceitos, ou melhor, de preconceitos enraizados na sociedade elitista. No Brasil, Gilberto Freyre foi um dos mais destacados estudiosos da Tropicologia.

Enquanto coordenadora do mestrado em Filosofia da UFPE, no período 1979-1982, implantou a Biblioteca do Curso e o Seminário de Pesquisa Filosófica. Recebeu forte influência do filósofo alemão Martin Heidegger, de quem foi aluna, assistente tradutora de sua obra “Da experiência do pensar”. Quando ele não podia ministrar suas aulas, era ela quem o substituía. Lembremos que na época ele contava com outra aluna brilhante: Hannah Arendt, Em 1977, publicou o livro Sobre o caminho do campo de Martin Heidegger, onde homenageia o mestre além de fazer uma apurada análise de sua obra. Em 1983 entrou para Academia Pernambucana de Letras e 3 anos depois aposentou-se como professora da UFPE, ocasião em que recebeu o título de professora emérita daquela universidade. A partir daí passou atuar como professora visitante e conferencista em universidades brasileiras e no exterior.

Atuou como membro titular de diversas instituições: Sociedade Interamericana de Filosofia, Associação Latino-Americana de Filósofos Católicos, Instituto Brasileiro de Filosofia, Sociedade Helênica de Estudos Filosóficos, Associação Goerres Gesellschaft para o Desenvolvimento Científico, Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, Instituto de Conhecimento Hebraico, Academia Brasileira de Filosofia e Academia Internacional de Filosofia da Arte, em Atenas. Tais participações não a afastaram de sua cidade natal, no interior de Pernambuco. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão e deixou todos seus bens móveis (incluindo a biblioteca) e imóveis doados em testamento ao Instituto após seu falecimento em 20/12/2012.

Colaborou com diversas revistas nacionais e estrangeiras, com artigos sobre filosofia, educação e religião. Dentre os livros publicados, destacam-se: Educação no Brasil: esboço de estudo histórico (1960–2.ed. 1975-3.ed. 1978), Fé hoje? (1966), Os franciscanos e a formação do Brasil (1969-2.ed. 1976), O ser da matéria (1976), Conjugando memórias (1987), Caminhos do filosofar (1991), L’art, la science et la méthaphysique (1993), Aventura humana (1996), Papas: trajetória e testemunhos (2008).