JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Marinheiro Marcílio Dias

Marcílio Dias nasceu em 12/6/1838, em Rio Grande, RS. Marinheiro da Armada Imperial Brasileira, considerado herói da Batalha Naval do Riachuelo durante a Guerra da Tríplice da Tríplice Aliança, em 1865.

Filho de Pulsena Dias e Manuel Fagundes Dias, ingressou na Armada Imperial em 1855, aos 17 anos, como grumete, e assentou praça no Corpo dos Imperiais Marinheiros. No ano seguinte embarcou na corveta Constituição e depois no navio Tocantins. Em 1861 foi promovido a marinheiro de 3ª classe; em 1862 a 2º classe e no ano seguinte, já na Escola de Artilharia, foi classificado como “Praça Distinta”.

Em 1863 foi aprovado como marinheiro-artilheiro e embarcou na corveta Parnaíba, em expedição ao Rio da Prata. Em julho de 1864, foi promovido a marinheiro de primeira classe (equivalente hoje a cabo). Em fins de 1864 teve seu batismo de fogo contra as forças do Uruguai. No assalto final à Praça Paysandu, numa batalha que durou 52 horas, foi um dos bravos combatentes e ficou famoso com seu grito de “Vitória” na torre da Igreja Matriz de Paysandu aos seus companheiros com a bandeira do Brasil.

Numa das batalhas, sua corveta foi cercada por 3 navios paraguaios, onde travou uma luta corpo com 4 inimigos. Armado de sabre abateu 2 deles, mas teve seu braço decepado, causando-lhe a morte no dia seguinte, em 12/6/1865, aos 27 anos e foi sepultado com as honras do cerimonial marítimo no rio Paraná. Dois meses após, o Quartel-General da Marinha Imperial incorporou um navio a vapor para servir no transporte de tropas e batizou-o de “Marcílio Dias”, em homenagem ao seu heroísmo na Batalha do Riachuelo.

Em seguida, foi homenageado noutras ocasiões. Em 1891, um torpedeiro de alto mar, construído em Londres, também foi batizado com seu nome. Em 1910, o Almirante Alexandrino Faria de Alencar criou a “Medalha Marcílio Dias de Valor Militar”, destinada a homenagear os alunos que mais se destacam nas Escolas de Aprendizes-Marinheiros do Brasil. Em 1919, foi fundado o Clube Náutico Marcílio Dias, em Itajaí, SC. Em 1922 foi fundada o Instituto Estadual de Educação Cabo de Esquadra Marcílio Dias, em Torres, RS.

Em 1926, a Fundação do Amparo ao Marujo Brasileiro recebeu o nome de Casa Marcílio Dias, embrião do atual Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), no bairro Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro. Em julho de 1940, o presidente Getúlio Vargas participou do lançamento ao mar do contra-torpedeiro Marcílio Dias, em mais uma homenagem ao marinheiro. Várias outras instituições, militares ou civis, em todo o Brasil, assim como ruas, praças e outros logradouros foram batizados com seu nome.

Sua biografia foi publicada em 2 livros: 1) Marcílio Dias: Imperial Marinheiro, de Didio Iratym Affonso da Costa, publicado pela Ed. Mundomar, em 1943 e 2) O Vaivém da Memória: Marcílio Dias e João Cândido na História, de Álvaro Pereira do Nascimento, parte IV do livro Repensando o Brasil dos Oitocentos; cidadania, política e liberdade, publicado pela Ed. Civilização Brasileira, em 2009.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Felipa

Maria Felipa de Oliveira nasceu em data incerta em princípios do século XIX na Ilha de Itaparica, BA. Heroína negra, foi combatente destacada na campanha da Independência do Brasil na Bahia, em 1823.

Descendente de negros escravizados, vindos da África (Sudão). De estatura alta e corpulenta, trabalhou como marisqueira, pescadora, serviço braçal e aprendeu a brincar e se defender na luta da capoeira. No período entre 1822-1823 liderou um grupo de 200 pessoas nas batalhas contra os portugueses que atacaram a Ilha de Itaparica, incendiando algumas embarcações portuguesas. A narrativa oral afirma que enfrentou os portugueses usando folhas de cansanção, uma planta que queima a pele, causando derrotas na tropa portuguesa.

Sua participação nas batalhas mostra como a luta pela independência da Bahia, mobilizou outras mulheres que a historiografia insistiu em apagar. Tais conflitos envolviam os movimentos populares, multirraciais e descentralizados, integrando as redes de vigilância e defesa. Tem sido lembrada junto a outras mulheres da época, como Maria Quitéria e Joana Angélica, com sua atuação popular, atuando fora das tropas formais e mobilizando comunidades locais.

Sua história foi registrada por Ubaldo Osório Pimentel, avô do romancista João Ubaldo Ribeiro, no livro A Ilha de Itaparica: história e tradição, publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, em 1979, e permanece, ainda hoje, na memória popular. Tal memória pode ser vista no Curuzu, bairro da Liberdade, em Salvador -Casa de Maria Felipa-, que abriga o acervo doado pela pesquisadora Eny Kleyde Farias, como resultado de 10 anos de trabalho e pesquisa sobre sua vida. Desde 2009, em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana, a Casa concede o título “Maria Felipa na Contemporaneidade” às mulheres mais destacadas em sua época.

Em 2023, foi inaugurado na então Praça Cairu, no bairro do Comércio, em Salvador, um monumento a Maria Felipa criado pela artista baiana Nádia Taquary. A obra, com cerca de quatro metros de altura, foi instalada de modo que a figura ficasse voltada para a Ilha de Itaparica. No ano seguinte, a Praça Cairu passou a denominar-se oficialmente Praça Maria Felipa, consolidando no próprio local do monumento a homenagem à personagem.

O nome de Maria Felipa também foi atribuído a instituições e iniciativas públicas na Bahia. Em Itaparica, a rede municipal de ensino mantém a Escola Municipal Maria Felipa. Na Polícia Militar da Bahia, o Centro de Referência da Mulher Policial Militar – Centro Maria Felipa -, criado em 2006, desenvolve atividades de atenção às policiais e de promoção de estudos, programas e formação relacionados às questões de gênero na corporação.

A Câmara Municipal de Salvador outorga anualmente o “Prêmio Maria Felipa”, destinado ao reconhecimento de mulheres negras com trajetórias ligadas à luta contra o racismo e à defesa de direitos. Faleceu em 4/7/1873 e 150 anos depois foi homenageada com a citada em Salvador, próxima ao Elevador Lacerda, em 2023, na praça que leva seu nome. Em 2017 foram criadas no Rio de Janeiro e Salvador as primeiras escolas afro-brasileira. Trata-se de um projeto educacional que visa abordar a questão racial de modo a superar pela via educacional o racismo estrutural enraizado no Brasil.

Tal projeto foi solidificado, em 2019, com a criação do Instituto de Educação Maria Felipa de Educação, arte, cultura e tecnologia, em Salvador, com uma série de projetos que dão suporte às suas atividades. Em 26/7/2018 Maria Felipa foi incluída no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, através da Lei Federal nº 13.697, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília. Em termos biográficos, contamos com o livro da pesquisadora Eny Kleyde Farias Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia, publicado em 2010 pela editora Quarteto, em Salvador e Maria Felipa: a heroína negra entre silenciamentos e resistências, de Lucineide Santos Vieira, publicado pela Revista África e Africanidades, em 2025.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: José Feliciano

José Feliciano Fernandes Pinheiro nasceu em 9/3/1774, em Santos, SP. Magistrado, escritor, historiador e político, teve atuação destacada no período da independência e imperial. Fundador do IHGB- Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838; e um dos primeiros administradores da Santa Casa de Misericórdia e incentivador da criação das faculdades de direito de São Paulo e Olinda em 1827.

Filho de Maria Elisa Júlia de Lima e do Coronel de Milícias José Fernandes Martins, estudou na Universidade de Coimbra, onde formou-se em 1799, em Letras e Cânones. Retornou ao Brasil, em 1800 e veio a ocupar o cargo de juiz das alfândegas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Entre 1811 e 1812 foi auditor-geral do exército; eleito deputado da Corte Portuguesa, por São Paulo, em 1821, passando a viver em Lisboa, retornando ao Brasil logo após a declaração da Independência, em 1822.

Foi Deputado Geral da Assembleia Constituinte de 1823, pelo Rio Grande do Sul, quando propôs a criação de uma universidade no Brasil. Para isso, foi criada uma comissão. Porém com a dissolução da Assembleia, o projeto foi adiado. Em seguida foi nomeado presidente da província do Rio Grande do Sul, onde permaneceu até 1826. Por esta época fundou a primeira tipografia e recebeu a primeira leva de imigrantes alemães, em São Leopoldo.

Nos anos 1825-1826 foi provedor da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e obteve do Imperador autorização para criar 10 loterias a fim de angariar fundos para as obras do prédio. Sob sua gestão a Santa Casa foi instituída em 1826. No ano anterior entrou para o Conselho do Império e foi condecorado no ano seguinte com o título de Visconde, quando foi escolhido como conselheiro de Estado e senador do Império, permanecendo até 1847.

Em 1827 alcançou o cargo de Ministro da Justiça e efetivou a criação das duas primeiras faculdades de Direito em São Paulo e Olinda. Em algumas ocasiões foi encarregado de missões de caráter diplomático. Segundo José Veríssimo foi um historiador que além de “memórias biográficas de compatriotas ilustres ou sobre limites do Brasil e ainda monografias interessantes para a nossa história literária, escreveu uma obra notável para o tempo e ainda hoje estimável, Anais da Capitania de São Pedro” (1819).

O livro, publicado em 1819, constitui-se numa obra de referência básica os estudos da formação histórica do Rio Grande do Sul. Vale lembrar que foi em princípios do século XIX que se deu o processo de libertação e constituição dos nossos país do Cone Sul e os tratados se sucediam com rapidez, onde os limites meridionais da Pátria eram guardados a ferro e fogo. Foi no período 1811-1812 que as lutas de emancipação das colônias espanholas se intensificaram, levando o governo de Dom João VI a penetrar naquela região para garantir os limites das terras brasileiras. José Feliciano teve atuação destacada neste período

Tal participação lhe garantiu uma vaga de Deputado nas Cortes de Lisboa, com a Revolução Constitucionalista de 1820, representando a província rio-grandense do sul. São Paulo, não esqueceu seu filho dileto e elege-o também como representante da província onde nasceu. Em 1824 foi designado Presidente da Província do Rio Grande do Sul e passou a se dedicar à colonização da região. Seu projeto mais bem-sucedido foi a fundação da colônia alemã de São Leopoldo, segundo ele mesmo um núcleo colonizador destacado como “o primeiro e mais importante de todo o Brasil”.

Em seguida foi designado para o cargo de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, onde referendou o Decreto que instituiu os cursos jurídicos no Brasil, em 1827. Na ocasião, foi agraciado com o título de Visconde, acumulado com o cargo de Conselheiro de Estado e Senador por São Paulo. Com a abdicação de Dom Pedro I, em 1831, afastou-se do métier político e dedicou-se ao estudo e educação dos filhos.

Faleceu em 6/7/1847 e em 2011 teve seu nome inscrito no “Panteão dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Além Anais da Capitania de São Pedro” (1819), deixou mais algumas obras fundamentais sobre a história: Cultura americana. 2 vols. Lisboa, 1799; História nova e completa da América. 2 vols. Lisboa, 1800; Sistema universal da história natural. Lisboa 1801; Memórias do Instituto Histórico. R. Janeiro, 1839, entre outras.

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AS BRASILEIRAS: Eny Cezarino

Eny Cezarino nasceu em 23/4/1917, em São Paulo. Bem-sucedida empreendedora, dona de um cabaré em Bauru, SP, na década de 1940 e seguintes até 1983. Localizado nos arredores da cidade, numa área de 12 mil metros, seu prostibulo foi considerado um dos maiores e melhores da América Latina.

Filha da francesa Angelina Bassoti Cesarino e do italiano José Cesarino, foi educada em colégio de freiras e criada para arrumar um bom casamento. Ainda jovem, perdeu a virgindade com o pai de um amigo por simples curiosidade. Pouco depois fugiu de casa e foi viver no Rio Janeiro, onde conheceu um gigolô e namorado no Cassino da Urca, levando-a a conhecer alguns prostíbulos em São Paulo, Porto Alegre e Paranaguá. Foi aí que teve notícias da cidade de Bauru e de seu progresso com a chegada da ferrovia.

Ficou sabendo também através de uma amiga recrutadora de prostitutas, que a Pensão Imperial de dona Nair estava precisando de mulheres para dar conta da demanda crescente da cidade. De fato, com o progresso o dinheiro passou a irrigar a cidade. Em Bauru, se dava a baldeação para vários ramos da ferrovia e a cidade se expandia em novos negócios. Em fins de 1945, mudou-se para Bauru; comprou a Pensão Imperial; fez uma reforma incrementando o ambiente e alavancou seu “negócio”. Dotada de senso empreendedor, em poucos anos tornou-se poderosa, influente e amiga de empresários e políticos.

Em seguida comprou um imóvel fora do perímetro urbano e instalou o “Eny’s Bar, o maior e mais luxuoso bordel do País. No seu auge, 1963-1983, seu bordel contava com 70 moças, 20 funcionários registrados em carteira, 40 quartos, saunas, jardins, restaurante, piscina, bares e salões de festas. Chegou a realizar festas de confraternização e convenção de políticos. A pista de dança tinha o formato de violão. Um dos ilustres frequentadores, Vinicius de Moraes, confidenciou ao parceiro Toquinho “que a prioridade em Bauru era a Casa de Eny” Eles podiam até nem fazer show, mas “deixar de passar na Eny, jamais”.

Dona Eny cuidava das moças com médicos, bons perfumes, podiam estudar, se quisessem e tinham que manter algum recato. As que vinham de fora, eram orientadas a trazer o título de eleitor, pois ela era também uma boa “cabo eleitoral” e bem relacionada com os políticos da cidade. Seus familiares sabiam de sua profissão e recebiam ajuda financeira. A única exceção era sua avó Rosa, com quem não falava. Chegou a ser conhecida como uma benemérita ajudando creches, escolas e obras sociais mantidas por irmãs de caridade.

Possuía 26 imóveis; foi casada umas vezes; não teve filhos; mas perdeu grande parte da riqueza e morreu pobre em 25/8/1987, aos 69 anos. Atribuiu sua decadência a mudança dos costumes e ao surgimento dos anticoncepcionais, que liberaram as “moças direitas” a ter sexo com os namorados, além de alguns golpes que recebeu de seus contabilistas. O local onde ficava seu bordel, o trevo na entrada de Bauru, recebeu seu nome como homenagem.

Em 2002, Lucius de Mello escreveu o livro Eny e o grande bordel brasileiro, publicado pela Editora Objetiva. Uma biografia romanceada num misto de reportagem e “causos” sobre os frequentadores. Alguns deles famosos como Vinicius de Moraes e, conforme citado no livro, os presidentes Jânio Quadros e João Goulart. Desde cedo manteve bom relacionamento com políticos.

Sua fama adquirida em Bauru deve-se, em parte a um cliente, frequentador de sua casa, que ajudou-a adquirir o terrento onde instalou seu bordel. Em seguida ele candidatou-se a prefeito e deputado estadual, elegendo-se nos dois cargos. Eny lhe garantia o voto de alguns clientes e suas moças, mantendo o discurso: “O voto é uma carta poderosa que temos na manga, meninas. Temos que saber usá-lo na hora certa. Somos putas, vagabundas, como dizem as damas da sociedade, mas somos um colégio eleitoral. Só as mulheres que moram na Costa Ribeiro elegem um vereador nesta cidade. Portanto, meus amores, votem de cabeças erguidas, orgulhosas porque nós todas somos cidadãs brasileiras e merecemos respeito”.

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OS BRASILEIROS: Mestre Pastinha

Vicente Ferreira Pastinha, mais conhecido por Mestre Pastinha, nasceu em 5/4/1889, em Salvador, BA. Mestre da Capoeira, considerado um dos precursores desta luta/jogo de origem africana, desenvolvida na Bahia pelos negros escravizados na época colonial.

Filho de uma ex-escravizada baiana e um comerciante espanhol, conheceu a capoeira ainda criança, quando essa prática era proibida no Código Penal, sujeita a pena de prisão por 2 dias a 6 meses, tendo o período dobrado no caso dos “chefes ou cabeças”. Aprendeu a jogar (ou lutar, ou dançar) com o velho Benedito, um negro liberto que viu-o apanhar algumas vezes de um garoto maior que ele.

“Quando eu tinha uns dez anos um outro menino mais forte do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando dele, sempre. Então eu ia chorar escondido de vergonha e de tristeza. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu uma briga da gente. Vem cá, meu filho, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. O aprenizado durou alguns dias e ele me dizia: não provoque, menino, vai botando devagarinho ele sabedor do que você sabe (…). Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito.”

Estudou no Liceu de Artes e Ofícios e entrou na escola de aprendizes de marinheiros, em 1902, onde praticou esgrima (com espada e florete); aprendeu a tocar violão e ensinava capoeira a seus amigos. Em 1910, aos 21 anos, pediu baixa da Marinha e tornou-se professor da capoeira, apesar da proibição em Lei. Mais tarde, em 1952, fundou o CECA-Centro Esportivo Capoeira Angola na Praça do Pelourinho, frequentado por diversos mestres, como Valdemar da Paixão, Noronha, Maré, Divino, Traíra, Curió, Albertino e Gildo, mantendo a tradição dos angoleiros.

Em 1964, lançou o livro Capoeira Angola, com prefácio de Jorge Amado, defendendo a natureza não violenta do jogo e afirmando que a capoeira conferia dignidade, honradez e decência aos seus praticantes. Foi uma expressiva contribuição à cultura afro-brasileira, que motivou o Mestre a realizar o sonho de conhecer a África. Em 1966, foi representar o Brasil, apresentando a Capoeira Angola, no “1º Festival Mundial das Artes Negras”, em Dacar, capital do Senegal.

A partir daí a capoeira ganhou expressão e foi disseminada pelo País e pelo mundo. Sua história de vida e os ensinamentos, junto com a de outros mestres da Capoeira Angola que tenham sido seus alunos ou não, motivou outras pessoas a praticar a capoeira e foi um fator importante para que essa expressão se disseminasse pelo País e pelo mundo, tornando-se um dos símbolos da cultura brasileira.

Sua expressividade levou o IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a registrar a Roda de Capoeira como patrimônio cultural imaterial dos brasileiros, em 2008. Em seguida, foi inscrita no “Livro de Registro das Formas de Expressão” e no “Livro de Registro dos Saberes”, respectivamente. 6 anos depois, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura-Unesco conferiu à Roda de Capoeira o título de “Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade”. Mestre Pastinha faleceu em 13/11/1981, aos 92 anos, e deixou um expressivo legado ao patrimônio da cultura popular brasileira.

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AS BRASILEIRAS: Margarida Alves

Margarida Maria Alves nasceu em 5/3/1932, em Alagoa Grande, PB. Trabalhadora rural e sindicalsita, foi uma das pioneiras dirigentes sindical no País. Sua história de luta inspirou a criação da “Marcha das Margaridas”, em 2000, um evento realizado de 4 em 4 anos, organizado pela Contag-Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura.

Filha de Alexandrina Inácia da Conceição e Manoel Lourenço Alves, uma família de 9 irmãos, viveu no Sítio Jacu até os 22 anos, quando foram expulsos da terra e passaram viver na periferia da cidade. Estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental já na fase adulta; participou do movimento sindical rural e tornou-se presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, em 1973, aos 40 anos.

Em sua gestão batalhou pela conquista de direitos trabalhistas, como carteira de trabalho assinada, 13º salário, jornada de trabalho de 8 horas, férias e licença maternidade. Também lutava pelo fim do trabalho infantil e a criação de escolas. Criou um programa de alfabetização de adultos, inspirado na pedagogia de Paulo Freire, voltado aos trabalhadores. Moveu mais de 100 ações na Justiça do Trabalho, enfrentando os proprietários de terras e usineiros de açúcar, particularmente, os donos da Usina Tanques.

Em seu discurso no Dia do Trabalho, em maio de 1983, pronunciou a frase que ficou retida na memória do movimento: “Da luta eu não fujo. É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Neste ano o Ministério Público contava com 72 ações na Justiça do trabalho contra fazendeiros e usineiros, movidas por ela. Por esta época, foram intensificadas as ameaças de morte por telefone e cartas, até que em 12 de agosto daquele ano um pistoleiro contratado bateu na sua porta, perguntando: “É a dona Margarida?”. Foi morta alí mesmo enquanto seu fllho brincava na calçada.

O crime teve grande repercussão nacional e internacional e foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O fato deu mais força de mobilização às organizações de trabalhadores rurais de todo o Brasil e resultou na criação da “Marcha das Margaridas”, um evento de grande visibilidade e a mais notável expressão de luta por direitos das trabalhadoras do campo. Em 1985 o Ministério Público denunciou 3 pessoas que poderiam estar envolvidas no crime, mas foram absolvidas.

Em 1988 deu-se uma nova acusação envolvendo outros fazendeiros como mandantes do assassinato. Apenas uma pessoa ficou presa durante 3 anos e em 2001 foi absolvida. Assim, o crime político nunca foi resolvido. A casa onde morava foi comprada pela Prefeitura e virou museu em 26/8/2001. Na fachada ficou registrada sua conhecida frase: “Da luta não fujo. É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Abaixo de uma das janelas tem uma placa: “Aqui foi assassinada em 12/08/1983 a líder sindical Margarida Maria Alves”. Na sala da casa/museu consta a reiteração de sua frase em letras garrafais: “Da luta eu não fujo”.

12 de outubro, o dia do seu assassinato, foi instituído pela Lei nº 12.641, como Dia Nacional dos Direitos Humanos. Além desta homengem e ter seu seu nome dado à “Marcha das Margaridas”, recebeu postumamente o Prêmio Pax Christi Internacional, em 1988. Pouco depois, o Arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, mudou o nome do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba para Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves, em 1994. Em agosto de 2023, ela passou a constar no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, conhecido como Livro de Aço, aberto à visitação pública no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Em 2017 o cineasta Barak Fernandes produziu o documentário Nos caminhos de Margarida.

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OS BRASILEIROS: Sobral Pinto

Heráclito Fontoura Sobral Pinto nasceu em Barbacena, MG, em 5/11/1893. Advogado, Jurista e defensor dos Direitos Humanos. Enfrentou a ditadura do “Estado Novo”, com Vargas em 1937-1945 e a ditadura militar instaurada com o golpe militar de 1964. Um dos nomes mais relevantes na formação do Estado de Direito no Brasil.Sobral Pinto - Correio IMS

Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, hoje incorporada a UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começou atuando na área de Direito Privado, mas ficou notabilizado como brilhante criminalista e defensor de perseguidos políticos. Defendeu o político Luiz Carlos Prestes, preso após o levante comunista de 1935, entre outros.

Defendeu, também, o militante comunista Arthur Ernest Ewert, mais conhecido pelo nome clandestino Harry Berger. O “Alemão” foi um dos fundadores da ANL- Aliança Nacional Libertadora e atuante na “intentona comunista” de 1935 ao lado de Prestes. Preso, foi torturado severamente e Sobral Pinto foi convocado a defende-lo. Antes de tudo, exigiu do Governo a aplicação do artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais ao prisioneiro, fato inusitado na área da defesa dos direitos humanos.

Outra causa que lhe garantiu renome foi a defesa do Hotel Copacabana Palace, na sua inauguração, em 1922, no Centenário da Independência do Brasil. Mas, devido a um atraso foi inaugurado em 1924. Nesse meio tempo, o Governo tentou boicotar os jogos de azar dos cassinos. A família Guinle, dona do hotel, que investiu uma fortuna no casino, gastou mais um pouco na contratação de Sobral Pinto para defender sua causa e teve a licença prorrogada.

Como prolongamento da causa Prestes, conseguiu salvar sua filha Anita Leocádia Prestes, nascida num campo de concentração nazista. Conseguiu o reconhecimento da paternidade da criança e a documentação necessária para seu retorno ao Brasil, enfrentando as imposições alemãs da Gestapo. Ao fim da carreira, recusou um convite do presidente Juscelino Kubitschek para assumir o cargo de ministro do STF-Supremo Tribunal Federal, alegando que não queria que supusessem que sua defesa da posse do presidente tinha sido movida por interesse pessoal.

Durante a ditadura militar, foi homenageado na Câmara dos Vereadores de São Paulo pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, em outubro de 1976. Em seu discurso de agradecimento, esclareceu definitivamente a dúvida sobre o golpe de 1964:

“Golpe militar. Não foi Revolução. Não havia naquele movimento nenhuma ideia superior; não havia naquele movimento nenhum propósito de realmente trabalhar para a cultura e o progresso do País”.

Na década de 1980, participou ativamente do movimento das “Diretas Já”. Em 1984, foi aplaudido efusivamente ao participar do Comício da Candelária, defendendo o reestabelecimento das eleições diretas. Atuou na OAB-Ordem dos Advogados do Brasil como conselheiro federal. Foi integrante de um grupo de intelectuais católicos, vindo a presidir o Centro Dom Vital durante 20 anos (1971-1991), criado em 1922 para reunir os intelectuais atuantes do catolicismo brasileiro.

Faleceu em 30/11/1991, aos 98 anos e vem sendo homenageado como um dos maiores juristas brasileiros Em 2013, foi lançada sua biografia no documentário Sobral: O Homem que não tinha preço, dirigido por Paula Fiuza. A biografia p.p. dita foi escrita pelo historiador brasilianista John W.F. Dulles: Sobral Pinto: a consciência do Brasil, publicada pela Editora Nova Fronteira, em 2002. Um título que dá a dimensão exata de sua grandeza.

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AS BRASILEIRAS: Maria Bonita

Maria Gomes de Oliveira nasceu em Santo Antônio da Glória, atual Glória, BA, em 8/3/1911, no povoado de Malhada da Caiçara, atualmente no município de Paulo Afonso. Cangaceira e companheira de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, foi a primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros.

Filha de Maria Joaquina Conceição e José Filipe Gomes de Oliveira, foi a segunda filha de uma família de 12 irmãos, casada com o primo num matrimônio arrumado pelas famílias. Um relacionamento conflituoso que durou pouco, decorrente do ciúme do marido boêmio. Em 1930, numa das andanças de Lampião na região, se encontraram e passaram a viver juntos. Sua incorporação ao bando ensejou o acolhimento de outras mulheres entre os cangaceiros e mudou os métodos e estratégias de combate, visando salvaguardar as mulheres.

Quando engravidavam, os filhos eram doados à parentes próximos. Ela mesma teve uma filha, que cresceu em Jeremoabo e foi criada pelo padrinho. Na história consta que ela era tão vaidosa quanto Lampião. Usavam o mesmo perfume francês, andava com vestidos de seda, portava moedas de prata, joias caras, broches, botas de cano curto e enfeites de ouro decoravam seus cabelos. Traída constantemente, tinha crises de ciúmes do companheiro e alguns relatos afirmam que ela teve um caso com um comerciante, João Maria de Carvalho, para se vingar das traições sofridas.

Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita, apelido que só se difundiu após sua morte. Há algumas versões sobre a origem desse nome. Uma delas diz tratar-se de uma invenção dos repórteres dos jornais do Rio de Janeiro, possivelmente inspirados no filme Maria Bonita, lançado em 1937 e baseado na obra de mesmo nome de Afrânio Peixoto, de 1921. Outra, que teria sido dado por soldados que se impressionaram com a beleza da cangaceira.

Em 28/7/1938, os cangaceiros estavam acampados num local conhecido como Grota do Angico, no então município de Porto da Folha, SE, quando o bando foi atacado de surpresa pela polícia alagoana, conhecida como Volante. 11 cangaceiros foram mortos e degolados. Maria, tentando fugir, foi baleada 2 vezes e logo em seguida foi decapitada viva.

Na história do cangaço, ficou tão conhecida quanto seu companheiro lampião. Vale citar 2 livros expondo sua trajetória de vida e sua importância no bando: Maria Bonita – A Rainha do Cangaço, de João de Souza Lima, lançado em 2022 pela Editora Oxente e Maria Bonita: sexo e violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiro, lançado em 2018 pela Ed. Objetiva. Conta também com 2 cinebiografias: Lampião e Maria Bonita, uma minissérie da TV Globo, de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, exibida em 1982 e o filme Maria Bonita, rainha do cangaço, dirigido por Miguel Borges, em 1968. Na cidade de Paulo Afonso, BA, o município onde nasceu, o prefeito restaurou sua casa e instalou o “Museu Casa de Maria Bonita”, em 2006.

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OS BRASILEIROS: Adoniran Barbosa

 

João Rubinato nasceu em Valinhos, SP em 6/8/1910. compositor, cantor e ator. Conhecido como o “Pai do samba paulista”, foi um das figuras mais representativas da música popular brasileira ao criar uma identidade própria do samba. Uma das características mais marcantes de suas canções está no uso do dialeto ítalo-paulista e no retrato do cotidiano do povo urbano de origem italiana de alguns bairros paulistanos, como Barra Funda, Brás e Jaçanã.

Filho de Emma Ricchini e Francesco Fernando Rubinato, imigrantes italianos. Vieram para o Brasil em 1895 e, em São Paulo, passaram pela Hospedaria dos Imigrantes e logo foram trabalhar na agricultura na cidade de Tietê. Pouco depois mudaram-se para Jundiaí, Santo André e se estabeleceram em São Paulo. Com 7 irmãos e necessitando trabalhar, largou a escola ainda cedo. Seu primeiro emprego, aos 12 anos, foi de entregador de marmitas, das quais surrupiava alguns bolinhos de carne para matar a fome.

Logo após a adolescência, queria ser artista, cantor. Porém sem padrinhos, sem instrução e tendo que trabalhar, o sonho foi deixado de lado. Retomou depois adotando um nome mais apropriado: pegou Adoniran, de seu melhor amigo, e Barbosa, sobrenome de seu ídolo, o cantor de samba Luís Barbosa. Iniciou como compositor e gravou “Dona Boa’, marcha de carnaval na voz de Raul Torres em 1935, vencendo o concurso de canções carnavalescas, promovido pela Prefeitura de São Paulo. Aos 25 anos e vencedor de um concurso, animou-se a gravar o disco “Agora pode chorar”, que não foi bem sucedido.

Persistiu na carreira de artista e foi para o rádio como ator interpretando diversos tipos populares. A partir destes programas “encontrou a medida exata de seu talento, em que a soma das experiências vividas e da observação acurada deu ao país um dos seus maiores e mais sensíveis intérpretes”. Movido pelo desejo de se tornar intérprete e não apenas compositor, “passa a conviver com os sambistas entre uma parceria vendida aqui e outra acolá, que davam o testemunho da importância que a linguagem popular assumia como veículo social”.

Suas canções são o retrato exato desta linguagem e os tipos humanos que surgem deste discurso são representativos da cidadania brasileira. “Os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem social e existencialmente solitário, estão intactos nas criações de Adoniran, no humor descrito nas cenas do cotidiano. A tragédia da exclusão social dos sambistas se revela como a tragicômica cena de um país que subtrai de seus cidadãos a dignidade”.

O primeiro sucesso veio com a canção muito conhecida até hoje nas rodas de samba: Trem das Onze (1951). Porém, só obteve o estrondoso sucesso quando foi regravada pelo conjunto “Demônios da Garoa”. O curioso é que o conjunto paulistano e a música falando de São Paulo foi bem sucedida primeiro no Rio de Janeiro. Em seguida casou-se com Matilde, que ajudou-o a se estabelecer na vida artística. Outro sucesso deu-se em 1956 com a música Iracema narrando mais uma crônica urbana de São Paulo. “Um retrato sensível da cidade, do povo e dos amores perdidos no caminho da modernidade”, relatou um crítico da época. Assim, passa a viver para o rádio, a boêmia e para Matilde. Nos últimos anos de vida, com o enfisema pulmonar avançando e não podendo mais manter a vida boêmia, dedica-se a recriar alguns dos espaços mágicos que percorreu na vida.

Inventou para si uma pequena arte, com pedaços velhos de lata, de madeira, movidos a eletricidade. São rodas-gigantes, trens de ferro, carrosséis e pequenos objetos como enfeites, cigarreiras, bibelôs, etc. criando um mundo mágico. Quando recebe alguma visita, que se admira com os objetos criados, ouve dele que “alguns chamavam aquilo de higiene mental, mas que não passava de higiene de débil mental…” Como se vê, cultiva o humor como marca registrada. Marca aliás, que aliada à observação da linguagem e dos fatos trágicos do cotidiano, fezz dele um sambista tradicional e inovador.

Faleceu em 23/11/1982, aos 72 anos, e foi homenageado várias vezes: Em 2020, no 110º aniversário, foi gravado o álbum Onze, com 11 músicas inéditas. O disco foi indicado ao prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode. Em São Paulo tem uma rua com seu nome no bairro da Bela Vista e outra com o nome “Trem das Onze” no Jaçanã. No Carnaval de 2022, a Escola de Samba Dragões da Real homenageou-o com o samba enredo. Na sequência, a revista Rolling Stone Brasil elegeu Trem das Onze entre as 100 maiores músicas nacionais e Adoniran entre os maiores artistas da música brasileira. Em 2023 a esquina símbolo de São Paulo (Av. Ipiranga com Av. São João) ganhou 2 estátuas: Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, os representantes do samba paulista.

Deixou 12 discos gravados e 7 coletâneas de seus sucessos. Como biografia, temos os livros Adoniran: uma biografia de Celso de Campos Jr., publicado pela Editora Globo em 2003; Adoniran – Se o senhor não está lembrado de Flávio Moura e André Nigri, publicado pela Ed. Boitempo em 2002; Adoniran, dá licença de contar, de Ayrton Mugnaini Jr., publicado pela Ed. 34 em 2002 e Adoniran Barbosa – O poeta da cidade, de Francisco Rocha.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13/12/1935, em Divinópolis, MG. Poeta, escritora, filósofa e professora. Representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta a incorporação dos papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa. Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, tornando-o universal, político e social.

Filha de Ana Clotilde Corrêa e do ferroviário João do Prado Filho, passou a escrever os primeiros versos com a morte da mãe, aos 15 anos, em 1950. No ano seguinte, inicia o curso de Magistério, concluído em 1953 e passa a lecionar no Ginásio da cidade em 1955. Casou-se em 1958 e teve 5 filhos. Pouco antes do nascimento da última filha, ela e o marido iniciam o curso de Filosofia na Faculdade de Ciências e Letras de Divinópoli, concluído em 1973.

Com a morte do pai, em 1972, sentiu-se estimulada a escrever de modo mais consstente. 4 anos depois enviou carta e originais de seus poemas para o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que sentiu-se animado em enviar para Carlos Drummond de Andrade para apreciação. Drummond também gostou dos poemas e enviou os originais à Pero Paulo Sena Madureira, da Editora Imago, sugerindo sua publicação e escreveu uma crônica em sua coluna no Jormal do Brasil sobre a nova poeta. Assim, foi lançado em 1976 o livro Bagagem, no Rio de Janeiro, com a presença de nomes ilustres como Juscelino Kubitschek, o próprio Drummond, Nélida Piñon, Antonio Houais, Clarice Lispector e Affonso Romano de Sant’Anna entre outros.

Em 1978 lançou O Coração Disparado e ganhou o Prêmio Jabuti. No ano seguinte estreou na prosa com Soltem os Cachorros e passa a ter sucesso, tendo que abandonar o magistério. Escreveu também peças de teatro; passa a dirigir um grupo amador e encena O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna e A Invasão, de Dias Gomes. A convite do prefeito de Divinópolis, comandou a Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura no período 1983-1988. Pouco antes, Fernanda Montenegro estreia Dona Doida: Um Interlúdio, baseado em textos extraidos de seus livros. O espetáculo foi bem sucedido aqui, nos EUA, Itália e Portugal. Em 1985, participou em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América. Em 1991 foi publicada sua Poesia Reunida.

Retornou à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, em 1993, integrando a equipe de orientação pedagógica e no ano seguinte, após um longo periodo sem fazer poesia, lançou o livro O homem da Mão Meca. Disse que o livro foi iniciado em 1987, mas, em seguida foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Revelou que vê “a aridez como uma experiência necessária” e que “essa temporada no deserto” lhe fez bem. Nesse período, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

Sua obra é marcada pela aproximação entre cotidiano e transcendência, articulando experiências comuns da vida doméstica, da religiosidade e da condição feminina por meio de uma linguagem coloquial e intimista. Sua poesia transforma situações banais em reflexões existenciais e espirituais, Outro aspecto recorrente em sua obra é a relação entre erotismo e fé religiosa, onde associa corpo, desejo e espiritualidade sem estabelecer oposição entre essas dimensões, integrando elementos da tradição católica à experiência cotidiana.

Essa combinação tornou-se uma das marcas mais reconhecidas de sua escrita e contribuiu para debates críticos sobre gênero, religiosidade e literatura brasileira. Sua produção literária também é reconhecida pela centralidade da experiência feminina. Temas como maternidade, casamento, envelhecimento, trabalho doméstico e memória aparecem de forma recorrente em seus textos. Costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Vivendo na pequena cidade onde nasceu estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá. Sua obra conta, até até agora, com mais de 20 livros de poesia e prosa, inclindo as coletâneas e antologias.

Em 2014, foi condecorada pelo governo brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural. 10 anos depois recebeu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra e no mesmo ano, de 2024, tornou-se a terceira escritora brasileira a receber o prêmio Camões, a maior premiação literatura portuguesa e brasileira. Não dispomos de uma biografia sua, mas temos uma análise crítica de sua obra – Poesia e desordem: escritos sobre poesia & alguma prosa – escrita por Antonio Carlos Secchin, da ABL, e publicada pela editora Topbooks, em 1996.