JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Zilda Arns

Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, SC., em 25/8/1934. Médica pediatra e sanitarista, filantropa, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Foi indicada várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento ao seu trabalho de assistência social junto às famílias e crianças de todo o mundo, em 2006.

Filha de Gabriel Arns e Helene Steiner, uma família de descendentes alemãs, com 12 irmãos: 7 professores e 4 religiosos. Formou-se em medicina pela UFPR-Universidade Federal do Paraná e fez cursos de especialização em Pediatria Social, Educação Física e Medicina Sanitária. O que levou-a à pediatria foi o grande número de crianças internadas com doenças de fácil prevenção, como diarreia e desidratação. Logo passou a trabalhar no Hospital Pediátrico César Pernetta, em Curitiba. Casou-se em 1955 com Aloísio Bruno Neumann e teve 6 filhos. Em fins da década de 1970 assumiu muitos compromissos profissionais e passava toda a semana em São Paulo, visitando a família em Curitiba nos fins de semana. Em 18/2/1978, seu marido sofreu um infarto fulminante, aos 46 anos, após salvar uma das filhas de afogamento na praia de Betaras. Durante um bom tempo, ela se lastimou por não estar presente na ocasião e sentiu-se culpada pela tragédia.

Em seguida passou a se dedicar mais ao trabalho comunitário junto à periferia no planejamento e organização de postos de saúde, muitos deles funcionando em casas paroquiais e entidades religiosas. Em 1980, o cientista Albert Sabin esteve em Curitiba, e ficou impressionado com seu trabalho. Convidou-a para coordenar a campanha de vacinação antipoliomielite na cidade de União da Vitória, que enfrentava uma epidemia de paralisia infantil. Na ocasião, ela desenvolveu uma técnica de trabalho, depois adotada pelo Ministério da Saúde em todo o País. Pouco depois iniciou um trabalho em Florestópolis, que apresentava uma taxa de mortalidade infantil de 127 crianças por mil habitantes. Após um ano, o índice caiu para 28 crianças. Para isso dedicou-se à educação higiênica das famílias pobres e ensino na preparação do “soro caseiro”, uma fórmula simples e de baixo custo, que ajudou bastante no controle da diarreia infantil. Na época o “soro caseiro” foi considerado um avanço da Medicina, devido a simplicidade da fórmula.

Ainda em 1980 foi designada para dirigir o Departamento de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Saúde do Paraná, onde instituiu os programas de planejamento familiar, prevenção do câncer ginecológico, saúde escolar e aleitamento materno. Em princípios da década, James Grant, diretor da UNICEF, convenceu o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, de que a Igreja poderia ajudar a salvar milhares de crianças que morriam de desidratação e incentivou-o a iniciar uma campanha nacional contra a mortalidade infantil. Não faltaria recursos, garantiu, mas era preciso um líder. Sem tempo nem agenda para a empreitada, sugeriu o nome de sua irmã. Pouco depois, a CNBB convidou dona Zilda para criar a Pastoral da Criança, tendo em vista seu trabalho realizado em Florestópolis.

Ao longo de 25 anos, a Pastoral atendeu mais de 1 milhão e 400 mil famílias pobres mais de 1 milhão e 800 mil crianças menores de 6 anos em 4060 municípios do Brasil. Um trabalho realizado por mais de 260 mil voluntários, baseado num tripé: visita domiciliar às famílias, dia do peso (ou Dia de Celebração da Vida) e reunião mensal de avaliação e reflexão. Anos depois, recebeu mais um convite da CNBB: fundar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa, em 2004. Em pouco mais de 10 anos, essa Pastoral contabilizava o atendimento a mais de 100 mil idosos, através de 12 mil voluntários de 570 municípios e 141 dioceses em 25 estados brasileiros.

Além de coordenar os trabalhos destas pastorais, foi representante titular da CNBB no Conselho Nacional de Saúde e membro do CDES-Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Sua atuação nas pastorais da criança e do idoso extrapolou as fronteiras do País e se expandiu por mais de 20 países da América Latina, Ásia e África. O reconhecimento internacional de seu trabalho se vê nos títulos e comendas recebidas: Menção especial pelo UNICEF-Brasil, como personalidade brasileira de destaque no trabalho em prol da saúde da criança (1988); Prêmio Internacional OPAS em Administração Sanitária (1994); Medalha Direitos Humanos da Entidade Judaica B’nai B’rith (1999); Prêmio USP de Direitos Humanos (2000); Comenda Ordem do Rio Branco, grau de Comendador (2001); Eleita “Heroína da Saúde Pública das Américas” pela OPAS (2002); Opus Prize (EUA) em 2005. Foi também cidadã honorária de 11 estados e 32 municípios brasileiros, além de doutora honoris causa de 5 universidades. Na imprensa internacional era conhecida como “a Madre Teresa brasileira”.

Em 2010 sua agenda contava com diversas viagens internacionais em missão humanitária com palestras e seminários. A viagem para o Haiti foi adiada 4 vezes diante de tantos convites, mas foi realizada em 12 de janeiro, quando proferiu palestra procurando motivar os lideres e voluntários da Pastoral da Criança, em Porto Príncipe. Ao término da palestra permaneceu na Igreja Sacre Coeur para atender às perguntas da plateia. Nesse instante ocorreu o terremoto, fazendo o prédio desabar atingindo-a junto com outros religiosos. Em sua palestra destacou o respeito e cuidados com as crianças, concluindo: “Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças… Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”. Estas foram suas últimas palavras.

Ao receber a notícia, seu irmão o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns ficou comovido por um instante, mas logo se recompôs e exclamou: “Que morte linda!”. Depois soltou uma nota: “Zilda morreu de uma maneira muito bonita, por defender uma causa em que sempre acreditou”. No mesmo ano sua irmã Otília Arns publicou um livro, uma biografia familiar – Zilda Arns: a trajetória da médica missionária -, contando a história dos antepassados e depoimentos de seus familiares. Em 2016 Frei Diogo Luís Fuitem fez uma justa homenagem, em nome da Igreja, e lançou Dra. Zilda Arns: uma vida de doação, publicado pela Edições Loyola. Pouco depois Ernesto Rodrigues lançou Zilda Arns: uma biografia (2018), publicado pela Editora Rocco, um “retrato nítido e sem retoques”, que não representa apenas um jargão editorial.

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OS BRASILEIROS: Dom Evaristo Arns

Dom Frei Paulo Evaristo Arns nasceu em Forquilhinha, S.C., em 14/9 1921. Frade franciscano, cardeal, escritor, jornalista, filósofo, teólogo e arcebispo-emérito de São Paulo, ficou conhecido pela coragem na luta por justiça social, direitos humanos e reestabelecimento da democracia no País na década 1970 em diante. Descendente de uma família de imigrantes alemães com 12 irmãos, incluindo: 1 frade, 2 irmãs freiras e Zilda Arns, médica e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa.

Ingressou na Ordem Franciscana, em 1939, e ordenou-se presbítero em 1945, em Petrópolis. Durante o noviciado cursou a Faculdade de Filosofia de Curitiba e Faculdade de Teologia de Petrópolis. Aí também lecionou no Instituto Teológico Franciscano e na Universidade Católica. Visando se aprimorar no magistério, foi estudar filosofia na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde concluiu o doutorado com a tese “A técnica do livro em São Jerônimo”, em 1952. De volta ao Brasil, lecionou em cidades do interior de São Paulo e retornou à Petrópolis, onde passou uns 10 anos lecionando na faculdade onde estudara e ajudando na redação da revista “Vozes”. Foi nomeado bispo pelo Papa Paulo VI, em 1966, e indicado para auxiliar o cardeal Dom Agnelo Rossi na Arquidiocese de São Paulo. Passou 4 anos como vigário episcopal integrando padres, religiosos e leigos; criou a Missão do Povo de Deus; multiplicou os ensinos do Concilio Ecumênico Vaticano II e estimulou a criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na condição de bispo auxiliar, foi designado membro do secretariado do Vaticano para os não-crentes, em 1968, e foi eleito secretário nacional de educação da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em seguida substituiu Dom Agnelo Rossi no cargo de arcebispo metropolitano de São Paulo, em 1970.

No auge do período da ditadura brasileira, a política foi marcada pela luta armada entre os grupos de oposição e o governo, com torturas e abusos políticos. Já em 1969, apoiou ou os frades dominicanos presos sob a acusação de envolvimento com o guerrilheiro Carlos Mariguela. No ano seguinte, diante das torturas ao padre Giulio Vicini e a assistente social Iara Spadini, exigiu dos militares que ambos fossem examinados por médicos. O comandante do II Exército negou o pedido, fazendo-o a recorrer ao governador Abreu Sodré, que também recusou. As relações do clero com os militares começou a azedar de vez com a prisão de dom Aloísio Lorscheider, em outubro de 1970, pelo DOPS. Foram 4 horas de interrogatório, tempo suficiente para mobilizar o alto clero, com envio de carta ao presidente Médici, lamentando a “deterioração dos vínculos, e também ao Papa Paulo VI. A imprensa do Vaticano noticiou o fato e causou impacto internacional. Foi quando se criou a “Comissão Bipartite”, fórum de discussão reservado, que funcionou até 1974, afim de acertar as arestas entre a Igreja e o Estado.

Em seguida foi proibido de visitar presos políticos numa greve de fome, no dia de Pentecostes em 1971, e fez afixar em centenas de igrejas uma carta na qual lamentava que “Neste país cristão, quando estão em jogo vidas humanas, aquele que de Deus recebeu o múnus de pastor seja impedido de cumprir sua missão específica, aliás garantida por nossa Carta Magna”. Em 1972, esteve à frente do lançamento do documento “Testemunho de Paz”, denunciando os sequestros e torturas nas prisões. O documento teve sua divulgação proibida e foi intimado pelo Estado-Maior do Exército. Ouviu do general Antônio Carlos Muricy que o documento fazia acusação grave e que ele poderia ser processado por isso. Sua resposta foi: “aceito o processo, contanto que seja público e que sejam dadas garantias às testemunhas que, nos hospitais e outros lugares, acompanharam pessoas que foram torturadas e morreram”. Em 1972, criou a Comissão Brasileira de Justiça e Paz para denunciar os abusos do regime militar. Nessa época, peregrinava pelos quartéis, usando sua influência para libertar dezenas de presos políticos. No ano seguinte foi sagrado cardeal e continuou a luta pelos direitos humanos, colecionando rusgas com os militares e reprovações de setores mais conservadores da Igreja.

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AS BRASILEIRAS: Mãe Menininha do Gantois

Maria Escolástica da Conceição Nazaré nasceu em Salvador, BA, em 10/2/1894. Mãe-de-santo (Iyalorixá) mais conhecida do Brasil. Descendente de escravos africanos da Nigéria, foi designada ainda criança para comandar o Terreiro do Gantois, fundado em 1849 por sua bisavó Maria Julia da Conceição. Cultuada em Salvador, Jorge Amado disse: “A mais doce das criaturas, a mais nobre das senhoras, a mais bela das Oxuns, a mãe da bondade”. Dorival Caymmi também não deixou por menos e cantou: “a estrela mais linda, o sol mais brilhante, a beleza do mundo, a mão da doçura, o consolo da gente, a Oxum mais bonita”.

O Terreiro do Gantois foi tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN em 2002 e está localizado no alto do bairro Federação, em Salvador. Trata-se de um terreno arrendado de uma família de traficantes de escravos de origem belga e mantém a tradição do matriarcado, com dirigentes femininas, sucessão hereditária e linhagem consanguínea. Mãe Menininha foi a 4ª Iyalorixá na cadeia sucessória, empossada aos 28 anos, em 18/2/1922. “Quando os orixás me escolhera eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”. Na época era casada com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira e teve 2 filhas, ambas iniciadas desde cedo, conforme a tradição da Casa. Sua história confunde-se com a história do candomblé na Bahia. Falava o idioma ioruba e detinha o conhecimento das línguas jeje e bantu, conferindo-lhe o domínio de orações, cantigas e poemas de cunho litúrgico.

Na época a perseguição da polícia aos cultos africanos era implacável e foi arrefecendo a partir da década de 1930. Porém ainda restava uma Lei de Jogos e Costumes condicionando a realização de cultos à autorização policial e limitação de término às 22 horas. Ela foi uma das principais articuladoras contra tais proibições e restrições. Dizia ao Delegado: “Isso é uma tradição ancestral, doutor. Venha dar uma olhadinha o senhor também”. A Lei foi extinta em meados da década de 1970. Bem antes disso ela abriu as portas do Gantois aos brancos e católicos. Conforme o Prof. Cid Teixeira, da UFBA, ela “como um bispo progressista da Igreja Católica, modernizou o candomblé sem permitir que ele se transformasse num espetáculo para turistas”. Com sua diplomacia conquistou adeptos importantes e seu legado maior foi imprimir respeitabilidade à sua religião.

No período em que foi sacerdotisa, o Terreiro recebia com frequência diversas autoridades, políticos e artistas em busca conselhos e orientações. Por outro lado, nunca deixou de frequentar a missa aos domingos e convenceu os bispos da Bahia a permitir a entrada nas igrejas de mulheres vestidas com as roupas tradicionais do candomblé. Indagada sobre o sincretismo religioso, respondia com simplicidade: “Deus? O mesmo Deus da Igreja é o do candomblé. A África conhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum. A morada Dele é lá em cima, e a nossa cá embaixo”,

Junto a direção do Terreiro, acumulava outros cargos, como Presidente de Honra, orientadora e fundadora da UBEPCA-União Brasileira dos Estudos e Preservação dos Cultos Africanos e Presidente da Sociedade Gueledé. Foi homenageada em diversas ocasiões: Comenda da Ordem das Artes e das Letras, do Ministério da Cultura da França; Comenda Sic Illa ad Arcam Reversa Est – Medalha 2 de Julho (Independência e Liberdade Sempre/1823); Comenda Legião do Mérito Presidente Antônio Carlos e a Comenda Regente Feijó entre outras.

Tal como todas as mães-de-santo, ela fazia questão de manter o Terreiro como uma casa de caridade e mantinha seu próprio sustento sem nunca cobrar pelos serviços prestados. Mantinha tabuleiro de frutas na rua, quitanda, dona de restaurante, além de costureira e doceira. Após dirigir o Terreiro por 64 anos, faleceu em 13/8/1986 e os filhos deixaram seu quarto intacto, com os objetos de uso pessoal e ritualísticos e mobiliário. Em 1992, o aposento foi transforado em “Memorial Mãe Menininha”, tornando-se uma das atrações do Terreiro e um espaço de educação patrimonial. Conta com mais de 500 peças referentes à história, cujo acervo foi arrolado e documentado em livro bilíngue, publicado em 2010.

No carnaval de 1976 foi homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre de Padre Miguel, com o enredo “Mãe Menininha do Gantois”, onde esteve presente, apesar da idade. Em 2017, no carnaval paulista, A Escola de Samba Vai-Vai, apresentou o enredo “No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu… Menininha, mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”. Em 2006 foi publicado o livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia pela Editora Corrupio. Foi um trabalho de pesquisa, coordenado por Cida Nóbrega e Regina Echeveria, que levou 6 anos recolhendo depoimentos de amigos, colaboradores e reunindo reportagens, artigos e livros escritos sobre o Gantois e Mãe Menininha. Atualmente o Terreiro do Gantois é comandado pela Mãe Carmen, sua filha de sangue mais jovem.

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OS BRASILEIROS: Grande Otelo

Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em Uberlândia, MG, em 18/10/1915. Ator, produtor de cinema, cantor, compositor, poeta e um dos grandes comediantes brasileiro. Inaugurou a indústria cinematográfica no País com mais de 100 filmes em meados do século passado. Digamos, então, que ajudou a criar o cinema brasileiro enquanto indústria. Claro que também é arte, e tanto é que na fase seguinte dá-se o “Cinema Novo”, destacado em todo o Mundo na arte cinematográfica. Aí Grande Otelo pontifica mais um vez no clássico “Macunaíma”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1969.

Destacou-se na área do humor e passou a vida driblando a tragédia: teve o pai assassinado e a mãe alcoólatra, de quem separou-se aos 10 anos. Mais tarde (1949), já consagrado como ator, sua mulher suicidou-se após matar o filho de 6 anos, enteado do ator. Era uma criança desinibida, metia-se na conversa dos adultos e cantava para eles, principalmente para os hóspedes do Grande Hotel de Uberabinha (atual Uberlândia), mediante o pagamento de um tostão por música. Pouco depois fugiu de casa com um grupo de teatro mambembe e passou a viver em São Paulo. Voltou a fugir e após idas e vindas do Juizado de Menores, foi adotado pela família do político Antonio de Queiroz. Teve inicio certa estabilidade na vida, vindo a estudar no Liceu Coração de Jesus, mas seu caminho estava traçado para o Teatro.

Em 1927 entrou na Companhia Negra de Revistas, tendo Pixinguinha como maestro, e dá inicio a carreira artística. Em 1932 ingressou na Companhia Jardel Jércolis e devido ao talento no palco, recebeu o apelido “Grande Otelo”, adotado como nome artístico. Jardel foi pioneiro do “Teatro de Revista” e incluiu-o numa turnê pela América Latina, Portugal e Espanha. Na volta, passou a atuar nos principais cassinos do Rio e São Paulo, particularmente do Cassino da Urca, onde era a grande estrela. Em 1942 estava no elenco do filme “It’s all true”, de Orson Welles, que o considerou o maior ator brasileiro. Tornou-se um dos personagens-símbolo da alma brasileira com 118 filmes, dezenas de peças de teatro e programas de TV de grande sucesso exercitando a autoparódia típica do bom humor carioca.

Seu nome alcançou repercussão internacional talvez a maior depois de Carmen Miranda. Nas “chachadas” do cinema atuava em dupla com diversos comediantes, particularmente com Oscarito. Era um ator que representava sem parecer representar e tinha plena convicção de seu trabalho. Em 1946 concedeu uma entrevista ao jornalista Carlos Eduardo dos Santos, do Recife, e declarou: “Meu trabalho é fazer graça para os outros rirem”. Sua atuação no palco contribuiu decisivamente para a criação de uma linguagem própria de teatro musical, expressada através do “Teatro de Revista”, um modelo genuinamente brasileiro. A estreia no cinema se deu em 1935, com “Noites cariocas”. Mas é pouco divulgada sua atuação como compositor de sambas clássicos, como “Praça onze”, junto com Herivelto Martins, seu compadre e principal parceiro musical.

No período 1939-1961 gravou 8 discos e tinha a música como um segundo talento. Adorava a condição de sambista tanto quanto a de ator. A partir da década de 1960, passou a atuar na televisão, em novelas de grande sucesso, como “Uma Rosa com Amor” e “Mandala”, entre outras. Outro talento pouco conhecido é sua veia poética, expressa mais tarde ao publicar o livro Bom dia manhã, coletânea de poemas e músicas, organizada por Luiz Carlos Prestes Filho, em 1993, lançado pela editora Topbooks. O livro foi apresentado por Jorge Amado, abordando a genialidade do artista, e prefaciado por Antônio Olinto, numa análise da essência poética e do pensamento do autor. Foi homenageado em diversas ocasiões, como no desfile da Escola de Samba Beija-Flor, com o enredo “Grande constelação de estrelas negras”, em 1983.

Sua cidade natal prestou-lhe significativa homenagem dando-lhe o nome ao Teatro local e realizou grande evento por ocasião do seu centenário, em 2015. No inicio da década de 1990, lamentou-se de sua condição financeira: “Fiz muita gente ficar rica e fiquei pobre”. Necessitando trabalhar, foi convidado por Chico Anísio para integrar o elenco da “Escolinha do Professor Raimundo”, na TV Globo. Seu último trabalho foi uma participação na novela “Renascer”, em 1993. Em seguida viajou à Nantes, França, para receber homenagem no festival que exibia um documentário sobre artistas negros brasileiros. Mas não chegou a receber a homenagem. Ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, sofreu um infarto fulminante e veio a falecer em 26/11/1993, aos 78 anos.

Em 2007, o acervo Grande Otelo foi recebido oficialmente pela FUNARTE -Fundação Nacional de Arte e encontra-se à disposição do público para consultas. Quanto as biografias, a primeira – Grande Otelo: um artista genial – foi escrita por seu amigo Roberto Moura e publicada pela editora Relume Dumará, em 1996, com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Trata-se de um relato mais íntimo expondo facetas pouco conhecidas do ator e do cidadão. Mais tarde, Sergio Cabral recompôs sua trajetória pessoal e profissional, resultando numa alentada biografia – Grande Otelo: uma biografia -, publicada em 2007 pela Editora 34. Temos também uma biografia focada mais na carreira cinematográfica e as relações raciais, É o que nos entrega o livro de Luiz Felipe Kojima Hirano: Grande Otelo: um intérprete do cinema e do racismo no Brasil, publicado pela Editora da UFMG, em 2019.

Com tanta biografia, ainda precisamos saber mais sobre o personagem e a pessoa, destacando o produto Grande Otelo da pessoa Sebastião. É o que vemos na tese defendida na UFU-Universidade Federal de Uberlândia, em 2016. São poucas vidas que resultam em tese acadêmica. A vida de Grande Otelo mereceu esta distinção e teve sua vida esmiuçada e analisada pelo historiador Tadeu Pereira dos Santos numa tese de 597 páginas: Entre Grande Otelo e Sebastião: tramas, representações e memória. Um trabalho de fôlego para “desentranhar, via caráter relacional o sujeito Sebastião dos seus personagens e do produto cultural Grande Otelo, percorrendo os âmbitos ficcional e real”.

A tese não resultou em livro, mas pode ser acessada na Internet. Basta clicar aqui.

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AS BRASILEIRAS: Therezinha Zerbini

Therezinha de Godoy Zerbini nasceu em São Paulo, SP, em 16/4/1928. Advogada, assistente social, fundadora e líder do MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, em 1975, que precedeu o CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia, em 1978, finalmente conquistada em 1979. Era casada com o general Euryale de Jesus Zerbini, irmão do médico Euryclides Zerbini, primeiro cirurgião da América Latina a realizar um transplante de coração. Casou-se em 1951, quando ele era comandante da Força Pública e ela assistente social no Hospital do Mandaqui.

Sua luta política teve inicio com o Golpe Militar de 1964, quando o marido foi preso por defender a ordem constituída. Ele foi um dos 4 generais e único com comando de tropa, a assumir uma posição legalista contrária aos golpistas. Em 3/3/1964 foi chamado ao Ministério da Guerra, apresentou-se ao novo Ministro, Costa e Silva, e encaminhado ao I Exército. Lá foi informado da prisão e enviado ao Forte de Copacabana, onde ficou por 45 dias. Foi o 1º dentre os militares a perder os direitos políticos por 10 anos e reformado em seguida. Dona Therezinha só ficou sabendo da prisão após alguns dias e do seu paradeiro após um telefonema para o presidente Castelo Branco: “Não estou ligando para que soltem meu marido. Quero apenas saber onde ele se encontra”.

Libertado e fora do Exército, o general decidiu realizar um sonho antigo: estudar filosofia. Entrou na USP-Universidade de São Paulo, onde conheceu Frei Tito de Alencar, dominicano do movimento estudantil, de quem se tornou amigo. Em 1968, Frei Tito pediu ajuda a Dona Therezinha na realização de um evento de estudantes, sem especificar do que se tratava. Ela encaminhou o pedido a um amigo do marido, dono de um sítio em Ibiúna (SP), que acabou sediando o 30º Congresso da UNE-União Nacional dos Estudantes, que se encontrava na clandestinidade. A prisão dos 706 estudantes -536 homens e 170 mulheres- se deu em outubro de 1968. Frei Tito foi solto em seguida, mas passou a ser vigiado pelo aparato repreensivo. A 2ª prisão ocorreu em novembro de 1969 e as investigações levaram à Dona Therezinha, que foi conduzida no mês seguinte ao DOPS-Departamento de Ordem Política e Social para interrogatório e logo liberada. Mas ficou enquadrada na Lei de Segurança Nacional.

Em 11/2/1970 recebeu a visita dos policiais da OBAN-Operação Bandeirantes em sua casa. Para preservar o marido e os filhos, assumiu o papel de dona de casa cordata e inofensiva, inclusive oferecendo-lhes café. Mas não houve jeito, foi levada para a cadeia na Rua Tutóia, onde passou 5 dias ouvindo gritos dos presos torturados, mais uma semana no DOPS e em seguida levada para o presídio Tiradentes, onde passou mais 6 meses e conviveu com a então guerrilheira Dilma Rousseff. Em 1975, declarado Ano Internacional da Mulher, aproveitou para criar o MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, unindo-se à luta pela redemocratização do Pais. Foi um passo decisivo para o movimento, com a morte do jornalista Vladimir Herzog e a primeira grande manifestação popular de protesto, em São Paulo. No mesmo ano lançou o manifesto do MFPA, conseguindo 16 mil assinaturas de apoio e empenhou-se nas denúncias de presos políticos e torturas, que eram negadas pela ditadura.

Em seguida foram formados os Comitês Femininos pela Anistia nas principais cidades do País. Era um movimento legalizado com estatuto e registro em cartório, constituído por mulheres de classe média, que fazia oposição “por dentro” do regime, alertando-o sobre sua própria justificativa inicial: preservar a democracia, que agora estava ameaçada pelo totalitarismo. Em 1978 o movimento foi ampliado transformando-se no CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia com apoio da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil. A reivindicação passou a ser anistia ampla, geral e irrestrita. Em março, com a visita do presidente dos EUA Jimmy Carter a Brasília, ela conseguiu driblar a segurança e entregou uma carta a Rosalyn Carter, em nome das mulheres brasileiras, denunciando as prisões arbitrárias, a tortura e o pedido de anistia. Com a promulgação da “Lei da Anistia”, em 1979, ela passou a trabalhar ao lado de Leonel Brizola na criação do PDT-Partido Democrático Trabalhista, quando Brizola perdeu a sigla PTB para Ivete Vargas. Dirigiu o núcleo do PDT em São Paulo até 2002, aos 80 anos.

Considerada comunista pelos órgãos de segurança e feminista pela imprensa, ela mesma declarou nunca ter aderido a nenhum desses movimentos. Não foi à toa que deu o nome “feminino” ao movimento. Numa entrevista em 2006 disse: “O primeiro confronto que eu tive não foi nem com os gorilas. Foi com as feministas aqui de São Paulo. Porque elas queriam se apropriar do Movimento Feminino pela Anistia. Elas diziam que a luta do MFPA era feminista. Eu digo: Não, vocês estão equivocadas. A luta do Movimento Feminino pela Anistia é uma luta de cidadania, da mulher cidadã. Não tem nada de feminista. Nós não estamos lutando por avanços. Depois cada um vai fazer o que quiser”. Junto com este posicionamento, havia o fato de não se filiar ao PT e nas eleições presidenciais de 2010, que elegeu Dilma Rousseff, ela foi a 5ª pessoa a assinar o “Manifesto pela Defesa da Democracia”, lançado por intelectuais e políticos contrários ao PT. Por não participar do hegemônico partido da esquerda na época, seu nome ficou meio apagado no espectro politico nacional.

Devido a tal opção foi pela esquerda petista de “ultrapassada”, “burguesona” e até “folclórica”. Assim, foi excluída das mais importantes coletâneas memorialísticas de personagens na luta pela anistia. Felizmente não deixou que essa exclusão apagasse seu nome da História e deixou registrada sua luta no livro Anistia: semente da liberdade, uma coletânea de entrevistas, publicado em 1979, pela Editora Salesianas. Mais tarde outros pesquisadores cuidaram de reafirmar sua trajetória política. Em 2012, o jornalista Paulo Moreira Leite lançou o livro A mulher que era o general da casa: histórias da resistência civil à ditadura, pela editora Arquipélago. Perguntado porque escreveu o livro, a resposta foi sucinta: “Therezinha Zerbini merece ser lembrada pelo papel que desempenhou na resistência civil ao golpe. (…) É bom saber que, em plena ditadura, uma senhora de traços ainda belos, dois filhos para cuidar, assumiu seu lugar em nossa história e foi capaz até de vender uma joia de família para pagar as despesas de uma viagem internacional onde defendeu a anistia aos presos políticos brasileiros”.

Em 2014 recebeu uma homenagem da Prefeitura de São Paulo por sua luta contra a ditadura. Foi a última homenagem que recebeu em vida, vindo a falecer em 14/3/2015. Pouco depois a homenagem foi concretizada com seu nome dado a um viaduto na zona central de São Paulo, em substituição ao nome “31 de Março”, que homenageava o Golpe Militar de 1964.

Clique aqui para ver vídeo de entrevista com Therezinha Zerbini

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OS BRASILEIROS: Sílvio Romero

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em 21/4/1851, em Lagarto, SE. Advogado, escritor, crítico literário, poeta, historiador, filósofo, jornalista e político. Ainda garoto, mudou-se para o Rio de Janeiro onde completou os primeiros estudos no Ateneu Fluminense. Em seguida partiu para o Recife e entrou na Faculdade de Direito, concluindo o curso em 1873. Foi um destacado participante da “Escola do Recife”, um movimento intelectual, filosófico, jurídico, poético… ao lado de Tobias Barreto.

Em 1875 elegeu-se deputado por sua província, quando já atuava como crítico literário de vários jornais do Recife e Rio de Janeiro. Seus dois primeiros livros foram publicados em 1878: A filosofia no Brasil e Cantos do fim do século (poesias). Lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910. Neste período manteve estreito convívio com os intelectuais cariocas, junto aos quais fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Seu apego a literatura resultou na publicação da Introdução à História da Literatura Brasileira, em 5 volumes, em 1882. No entanto perdeu o interesse pela poesia, encerrado em 1883 com a publicação de Últimos harpejos. No mesmo ano publicou mais dois livros, fruto de seu interesse pelo folclore: O elemento popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil. A partir de 1891, passou a colaborar com artigos para o jornal carioca “Diário de Notícias”, dirigido por seu amigo Rui Barbosa. No mesmo ano, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. Foi um dos primeiros pensadores a se interessar por Antônio Conselheiro, o qual via como missionário vulgar que agregara em torno de si fanáticos depredadores. Seu amigo Euclides da Cunha, tendo sido enviado para Canudos, foi responsável pelo esclarecimento dos fatos ainda nebulosos para muitos intelectuais da época.

Entre 1900 e 1902 foi deputado federal pelo Partido Republicano, trabalhando na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Seu posicionamento ideológico pregava um “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”. Em termos literários não tinha posições definidas: “Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca pude me separar delas”. Não obstante sua competência, era conhecido pelo embate violento e intolerante contra outros escritores, intelectuais e políticos, gerando numerosas polêmicas com pessoas conhecidas como Lafayette Rodrigues Pereira, José Veríssimo, Teófilo Braga etc.

Segundo Antônio Cândido, é considerado como “uma das fontes básicas do pensamento e da literatura nacional”. Como resultado de sua investigação nesse campo, publicou Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira (1888). O interesse pelo aprendizado sociológico inspirou a publicação dos Estudos de Filosofia do Direito (1895) e dos Ensaios de Sociologia e Literatura (1901). De 1890 a 1911, publicou, entre outros títulos, o ensaio Machado de Assis (1897), em que faz violenta crítica e mereceu resposta de José Verissimo, em defesa de Machado. Crítico polêmico, sarcástico, violento em suas afirmações, é considerado hoje, ao lado de Veríssimo e Araripe Júnior, um dos criadores da crítica literária no Brasil.

Foi um pesquisador prolífico com mais de 70 livros publicados. Sua força estava nas ideias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. Sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo. Sua obra principal é A História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, em que expõe “o essencial do que desejava dizer sobre a cultura e mesmo a sociedade de seu país”. A primeira parte do livro é dedicada aos “elementos de uma história natural de nossas letras, as condições de nosso determinismo literário, com as aplicações da geologia e da biologia às criações do espírito”, A segunda parte, por sua vez, “apresenta, em largos traços, o resumo histórico das quatro grandes fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autônomo (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação crítica (de 1870 em diante)”.

Como crítico, condenou o indianismo de autores como Gonçalves Dias e José de Alencar que, segundo ele, apresenta uma visão precária da formação histórica do Brasil, uma vez que há pouca informação sobre a vida real dos indígenas e, portanto, não é possível reconstituí-la com exatidão em romances históricos ou poemas épicos. O sentido da crítica, para ele, não é apenas fazer uma ampla análise e revisão de valores, letras e artes, conforme observa Antônio Candido, mas também de demolir aquilo que julga anacrônico ou contrário à evolução cultural. O caráter muitas vezes polêmico de suas opiniões é decorrência dessa noção da crítica como um elemento para a reforma social e intelectual do país.

O mapeamento que fez da literatura brasileira, de suas origens até o século XIX, é o mais completo e detalhado que se fizera até então, colocando seu autor na posição de fundador dos estudos literários brasileiros. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias. Faleceu em 18/6/1914.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Luciana de Abreu

Luciana Maria de Abreu nasceu em 11/7/1847, em Porto Alegre, RS. Professora, escritora, poeta e pioneira na luta pela emancipação da mulher. Abandonada na “Roda dos expostos” logo após o nascimento, foi adotada por uma família que lhe proporcionou educação e formação como professora e tornou-se a primeira mulher brasileira a ingressar numa sociedade literária e primeira a ocupar a tribuna para discursar sobre a condição feminina.

Foi adotada pela esposa de Gaspar Pereira Viana, um guarda-livros da casa comercial Porto & Irmãos. Apesar de modesta, a família cuidou bem da educação da criança, que demostrava certa vivacidade e facilidade no estudos e um gosto especial no trato com outras crianças. Logo cedo verificou-se o caráter de líder e dedicação aos estudos, particularmente nas letras, rabiscando historietas após os primeiros anos de escola. Conta-se até de um “romance” iniciado na época. Além dos cuidados da família, a menina teve como madrinha Clara Soares de Paiva, esposa do comendador Israel Soares de Paiva, rico comerciante e incentivador das artes. Promovia saraus literários em sua casa, onde a menina era a atração recitando textos escolhidos pela madrinha, que lhe abastecia de livros.

Aos 10 anos tornou-se uma leitora compulsiva de tudo que lhe caía nas mãos. Os pais, vizinhos e professores mantiveram o hábito de leitura da criança com livros, sem abrir mão de seu desempenho nas prendas domésticas, desde a costura, arrumação da casa e cozinha. Aos 20 anos foi pedida em casamento e em 1867 casou-se com João José Gomes de Abreu, com quem teve 2 filhos: Maria Pia e Teófilo. Em seguida surgiu o desejo de se tornar professora, tendo e vista não apenas seu gosto em lidar com crianças, mas também para ajudar no orçamento familiar.

Em 1869 entrou para a Escola Normal de Porto Alegre, criada naquele ano, e pouco depois conseguiu entrar no magistério da província. Por essa época ficou conhecida no meio cultural e saraus literários com sua desenvoltura nos poemas e textos que escrevia. No ano anterior foi criado o “Partenon Literário” da cidade pelo Dr. José Antônio do Vale Caldre e um grupo de intelectuais, entre os quais Apolinário José Gomes Porto alegre e José Bernardino dos Santos, poeta, romancista e dramaturgo. Ela foi convidada a participar da agremiação e tornou-se uma oradora talentosa. De seus discursos poucos se salvaram, pois muitos deles eram de improviso e apenas 3 foram publicados na Revista Trimestral da Sociedade Partenon Literário.

O primeiro, publicado em 1875, tratou exclusivamente da emancipação da mulher; o segundo discurso foi sobre a educação das mães de família, reiterando a necessidade e responsabilidade na educação dos filhos: “Minhas senhoras, nós temos sido vítimas dos prejuízos das preocupações do século, nós temos sido olhadas como seres à parte na grande obra de regeneração social, quando, sem nós, impossível seria à humanidade aperfeiçoar-se e progredir. […] Nós temos sido caluniadas, dizendo-se que somos incapazes dos grandes acontecimentos, que somos de inteligência fraca, de perspicácia mesquinha, e que não devemos passar de seres caseiros, de meros instrumentos do prazer e das conveniências do homem, quando o nosso ensino tem preparado os mais perfeitos heróis da humanidade; e quando, à testa das nações, quer na cadeira, quer na oficina modesta do operário, temos dado exemplos de assombrar os povos e os séculos!”

O terceiro foi um discurso como oradora oficial por ocasião do 11º aniversário do Partenon, em 1879. Seu discurso foi um apelo às mulheres conclamando sua participação: “E vós, senhoras brasileiras, que reunis à beleza plástica uma vasta inteligência e um terno coração, não quereis que pulse ele ao amor das letras e da glória nacional?. Ontem, proscritas da ciência e consideradas apenas meros ornatos dos salões, deu-vos o Parthenon um lugar de honra no banquete do progresso. Hoje, que a voz autorizada de Andrada se elevou no parlamento nacional em prol de vossos foros, estreai no Parthenon o uso de vossos direitos”.

Junto a causa feminina, engajou-se também na abolição da escravatura, na defesa da república e do voto da mulher, em sintonia com os acontecimentos na Inglaterra. No ano seguinte deu-se uma grande epidemia de tuberculose em Porto Alegre, vitimando a jovem professora aos 32 anos de idade, em 13/6/1880. Seus poemas foram recolhidos por Dante de Laytano e publicados em 1949 sob o título de Preleções. Além dos discursos, esta é a única obra que restou certificando seu talento literário. Em 2012 o escritor Benedito Saldanha lançou o livro Luciana de Abreu abordando sua trajetória de vida numa trilogia sobre o Partenon Literário, publicado pela Edijuc. Seu nome ficou registrado na cadeira nº 38 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul; numa rua do bairro Moinhos de Vento e numa escola publica no bairro de Santana, em Porto Alegre.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Érico Veríssimo

Èrico Lopes Veríssimo nasceu em Cruz Alta, RS, em 17/12/1905. Um dos mais populares romancista brasileiro, que imprimiu uma identidade própria ao “gaúcho” e projetou o Rio Grande do Sul na cultura brasileira com seus tipos humanos e características regionais, cuja obra foi amplamente adaptada para o cinema e TV. Foi também um dos escritores brasileiros mais traduzidos no Mundo, destacando o País no plano internacional.

Nascido numa família afortunada e tradicional, que passou por uma falência financeira, filho do farmacêutico Sebastião Veríssimo da Fonseca e Abegahy Lopes. Realizou os primeiros estudos no Colégio Venâncio Aires e aos 10 anos criou uma revista “Caricatura”, com desenhos e pequenos textos. Aos 13 já lia alguns autores nacionais e estrangeiros e frequentava assiduamente o cinema da cidade. Aos 15 passou a estudar num internato de orientação protestante de Porto Alegre, onde se destacava como bom aluno.

Em 1922 seus pais se separaram e, junto com a mãe e irmãos, foi morar com os avós maternos. Novas dificuldades financeiras fazem a família retornar à Cruz Alta, em 1926, onde tentou seguir a profissão de farmacêutico. Junto com um amigo de seu pai, ficou sócio da Farmácia Central e amargou mais uma falência em 1930. Passou a trabalhar como professor de literatura e língua inglesa. No ano anterior publicou seu primeiro texto – Chico: um conto de Natal – na “Cruz Alta em Revista”, seguido de mais dois na “Revista do Globo” e no jornal “Correio da Manhã”. Com a falência, decidiu retornar à Porto Alegre e viver de seus escritos. Foi contratado como secretário de redação da “Revista do Globo” e passou a conviver com os escritores Mario Quintana e Augusto Meyer entre outros.

No ano seguinte voltou à Cruz Alta para se casar com Mafalda e foram morar em Porto Alegre, onde finalmente adquiriu uma estabilidade financeira. Vieram os filhos Clarissa (1935) e Luis Fernando (1936) e mais tarde declarou que sem o bom-senso e a paciência da esposa não seria escritor. Por essa época, passou a traduzir livros ingleses para ajudar no orçamento doméstico. O primeiro foi O sineiro (The ringer), de Edgar Wallace. Passou, também, a colaborar aos domingos nos jornais “Diário de Notícias” e ”Correio do Povo”. Em 1932 foi promovido a diretor da “Revista do Globo”, onde indicava livros para tradução e publicação. No mesmo ano estreia com uma coleção de contos – Fantoches -, não bem recebida pelo mercado livreiro.

Algum sucesso veio ocorrer no ano seguinte com a tradução do livro Contraponto (Point conter point), de Aldous Huxley e a publicação do primeiro romance: Clarissa. O segundo romance – Caminhos cruzados -, em 1935, foi considerado subversivo pelo DOPS-Departamento de Ordem Pública e Social e renegado pela Igreja Católica, causando-lhe um interrogatório. A partir daí deslanchou a carreira de escritor com mais dois romances em 1936, uma continuação de Clarissa: Música ao longe, que lhe rendeu o Prêmio Machado de Assis, e Um lugar ao sol. Nesta época trabalhou na Rádio Farroupilha, narrando histórias infantis no programa “Os três porquinhos” e escreveu diversos livros infanto-juvenis. A consagração nacional e internacional veio em 1938 com o livro Olhai os lírios do campo, traduzido em diversos países. Só a partir daí é que “pude fazer profissão da literatura”, afirmou.

Em seguida assumiu o cargo de conselheiro da Editora Globo e intensificou o trabalho de seleção de livros estrangeiros para tradução e publicação, incluindo autores badalados na época: Thomas Mann, Virginia Wolff, Balzac etc. e criando coleções de livros como “Nobel” e “Biblioteca dos Séculos” de grande sucesso editorial. Em 1941 morou por 3 meses nos EUA, a convite do governo como parte da “política da boa vizinhança”, mantida pelo Governo Rooselvelt. De volta ao Brasil, publicou O resto é silêncio, a história do suicídio de um mulher que ele viu se atirar de um prédio 2 anos antes. Em 1943 foi convidado pelo Departamento de Estado dos EUA para ministrar aulas de literatura brasileira, por 2 anos, na Universidade da Califórnia. O convite foi aceito de imediato, devido aos atritos que vinham ocorrendo com a ditadura de Getúlio Vargas. As viagens aos EUA lhe renderam mais 2 livros: Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1947).

A partir de 1947 iniciou uma trilogia – O tempo e o vento -, que veio a se tornar sua obra-prima. A ideia inicial era contar 200 anos de história do Rio Grande do Sul (1745-1945) num único volume. O projeto resultou em 3 volumes com mais de 2 mil páginas. O 1º – O continente – saiu em 1949 e representa um marco em sua carreira. Aí encontram-se seus personagens mais conhecidos: Ana Terra e o capitão Rodrigo Cambará. Em 1950 iniciou o 2º – O retrato -, publicado no ano seguinte e segundo ele mesmo inferior ao 1º. Em 1952 tentou escrever o 3º volume, mas foi interrompido por outros livros. Publicou Noite em 1954 e foi agraciado com o prêmio Machado de Assis, da ABL-Academia Brasileira de Letras. No período 1953-56 foi diretor do Departamento de Assuntos Culturais da OEA-Organização dos Estados Americanos, voltando a residir nos EUA.

Por esta época tentou escrever a última parte da trilogia, mas não conseguiu. De volta ao Brasil em 1957 deu-se nova tentativa de concluir O arquipélago, titulo do 3° volume. Outra tentativa infrutífera se deu em 1958. Neste ano sentiu um incômodo no coração. 3 anos depois sofreu o primeiro infarto do miocárdio e após um repouso absoluto voltou a trabalhar n’O arquipélago, e entrega-o à editora em 1962. Segue publicando sucessos editoriais, como O senhor embaixador (1965), refletindo os problemas da América Latina, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti; uma autobiografia – O escritor diante do espelho (1966) – e Incidente em Antares (1971). Foi sua contribuição ao movimento literário “Realismo fantástico”, vigente na época, relatando uma rebelião dos mortos diante de uma greve de coveiros na fictícia cidade de Antares. Aproveitou a alegoria para criticar a ditadura brasileira na época.

Em 1975 lançou o 1º volume de suas memórias – Solo de clarineta -, um plano de nova trilogia que ficou apenas em 2 volumes. Foi vitimado por um infarto fulminante em 28/11/1975. O lançamento completo das memórias só foi possível em 1976 com o 2º volume numa edição póstuma organizada por Flávio Loureiro Chaves. Seu falecimento provocou uma comoção nacional e seu amigo Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema A falta de Érico Veríssimo: “Falta alguma coisa no Brasil…/Falta uma tristeza de menino bom…/Falta um boné, aquele jeito manso…/Falta um solo de clarineta”. Deixou um legado de 38 obras publicadas e a identidade definida do gaúcho brasileiro. Em 2002 foi criado, em Porto Alegre, o Centro Cultural Érico Veríssimo, contando com um Memorial e vasta documentação sobre o escritor.

Em meados da década de 1970, em plena ditadura brasileira, não era visto pelos críticos e intelectuais da época como um escritor “engajado”, como se dizia. Mas ele tinha uma explicação para esta visão: “O que dá a ideia de que não sou um escritor participante é a minha recusa em transformar romance em panfleto político”. Sua explicação pode ser melhor apreciada no livro organizado por Maria da Glória Bordni – A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política -, publicado pela Editora Globo, em 1999.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Clementina de Jesus

Clementina de Jesus da Silva nasceu em 7/2/1901, em Valença, RJ. Cantora dotada de um timbre de voz potente e ancestral e um repertório de músicas afro-brasileiras tradicionais, que efetivou a religação do Brasil à África. Nascida num reduto de “jongueiros”, cuja dança e cantos exerceram forte influência na formação do samba carioca, foi descoberta como intérprete destas canções tradicionais aos 62 anos e tornou-se patrimônio da música popular brasileira. É reconhecida como o elo perdido entre a cultura negra brasileira e a África Mãe.

Filha da parteira Amélia de Jesus dos Santos e do capoeira e violeiro Paulo Batista dos Santos, mudou-se para a capital aos 8 anos e estudou no Orfanato Santo Antônio. Desenvolveu uma crença católica junto com rezas em dialeto africano, constituindo-se num exemplo típico do sincretismo religioso vigente no País. Vivendo no bairro de Oswaldo Cruz, participou do grupo de “Folia de Reis” do mestre João Cartolina, que levou-a para o bloco “As Moreninhas das Campinas”, embrião da Escola de Samba Portela. Nas décadas de 1920, 30 e 40 atuou no carnaval como diretora da Escola de Samba Riachuelo, nos primeiros anos da Portela e da Mangueira. Aí tomou parte nas rodas de samba e conheceu boa parte dos sambistas tradicionais, como Paulo da Portela, Claudionor e Ismael Silva.

Sua voz chamava a atenção de todos e Heitor dos Prazeres fez-lhe um convite para ensaiar suas pastoras. Por essa época trabalhava como empregada doméstica e cantava sem intenção de se tornar profissional. Em 1940 casou-se com Albino Pé Grande e foi morar no Morro da Mangueira, ampliando as rodas de samba. Sua carreira profissional deu-se por acaso, quando o compositor Hermínio Belo de Carvalho encontrou-a numa festa da Penha, em 1963, e ficou fascinado pela autenticidade de seu estilo e voz. Pouco depois deu-se um reencontro na inauguração do restaurante Zicartola e firmaram uma programação de ensaios para o espetáculo “Rosa de Ouro”, em 1965. Trata-se de um show que ficou na história do samba carioca, com a participação de Aracy Côrtes e diversos sambistas, entre os quais uns iniciantes como Paulinho da Viola e Elton Medeiros. Clementina saiu dali consagrada pela crítica e exaltada pelo público.

Em 1966 participou do Festival de Arte Negra, em Dakar (Senegal) e teve o palco invadido para abraçá-la. No mesmo ano representou a música brasileira no festival de cinema de Cannes, onde ganhou um buquê de flores de Sophia Loren. Ainda no ano, gravou seu primeiro disco intitulado “Clementina de Jesus”. Teve apenas 5 discos-solo gravados e nunca foi um grande sucesso de vendas, devido talvez ao fato de boa parte de suas gravações serem temas folclóricos ou sua voz não se enquadrar nos padrões estéticos tradicionais. Participou de diversos discos dos grandes intérpretes da MPB, que faziam questão de ter sua voz registrada em seus álbuns. Despertou a africanidade em João Bosco e lançou Martinho da Vila como mestre do samba e partido-alto. Ao vê-la cantar Milton Nascimento exclamou: “Era a África na minha frente”. O maestro Francisco Mignone definiu-a como um “fenômeno telúrico exclusivamente brasileiro”.

Toda a nata da MPB queria estar ao seu lado, incluindo alguns oportunistas que se aproveitavam de sua imagem. O fato chegou a gerar uma crítica do jornalista Artur da Távola, que publicou na sua coluna n’O Globo. : “Clementina é importante por ser uma deusa do Brasil real. Para o Brasil oficial, ela é comemorada como raridade folclórica, espécie de mito que serve aos propósitos o Brasil real, propagandísticos ou justificadores da aparente paz social. Mas, para ela é a própria capacidade de sobreviver do povo”. Mas também contou com nomes expressivos ao seu lado, como Pixinguinha e João da Baiana, participando do antológico LP “Gente da Antiga”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, em 1968.

Em vida recebeu várias homenagens, entre elas a do então Secretário de Cultura do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, no Theatro Municipal, em agosto de 1983. Foi a primeira vez que o samba entrou naquele vetusto ambiente. Darcy foi acusado de por em risco o templo da música erudita e contou em sua autobiografia: “Frequentadores habituais do teatro se danaram, apoiados pela imprensa, contra a ousadia de levar uma cantora negra, pobre e favelada para cantar no seu reduto elitista. Esses idiotas se esbaldavam quando o teatro se abria para qualquer cantorzinho francês”. Junto com ela no palco ”vestida como uma rainha, beliscava os braços e gritava: ‘É verdade, professor! Não estou sonhando’”. Elizeth Cardoso, Nelson Cavaquinho, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, João Nogueira entre tantos confirmavam: “É tudo verdade”.

No mesmo ano foi uma das homenageadas pela Escola de Samba Beija Flor no enredo “A grande constelação das estrelas negras”, campeã naquele ano. Em 1985 recebeu do governo francês, através do Ministro da Cultura Jack Lang, a “Comenda da Ordem das Artes e Letras”. Foi a última homenagem recebida em vida. Não resistiu ao 5º derrame e faleceu em 19/7/1987 aos 86 anos. Em 2013 foi apresentado o espetáculo musical “Clementina, cadê você?”, no Teatro Laura Alvim, considerado um dos melhores do ano. O título do espetáculo serviu de enredo para a Escola de Samba Tradição, em 2016.

No ano seguinte a escritora Janaina Marquesin junto com outros pesquisadores, após 6 anos de trabalho, lançou o livro “Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus” pela editora Civilização Brasileira. Em 2018 foi lançado o documentário “Clementina” pela Dona Rosa Filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em 2021 seria homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre, de São Paulo, com o enredo “Quelémentina cadê você?”, mas não foi possível devido a pandemia. Por enquanto aguardemos o carnaval chegar.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Madame Satã

João Francisco dos Santos nasceu em 25/2/1900, em Gloria do Goitá, PE. Cozinheiro, segurança, artista transformista e personagem da vida noturna e marginal da Lapa carioca em meados do século passado. Foi considerado o “homossexual mais macho” do Brasil, casado com mulher e pai de 6 filhos adotivos, que brigava com a polícia e defendia os mais fracos e prostitutas na rua. O apelido “Satã” surgiu no carnaval de 1938 e foi premiado num concurso de fantasia, promovido pelo bloco “Caçadores de Veado”, no Teatro República.

Criado numa família humilde de 18 filhos, perdeu o pai aos 7 anos, deixando a mãe numa situação precária. Para ajudar na manutenção da família, o garoto foi trocado por uma égua com um criador de cavalos, que lhe prometeu casa e estudo. Não cumpriu o prometido e empregou o garoto em sua fazenda. No ano seguinte, numa viagem até Itabaiana, PB, o garoto conheceu Dona Felicidade, que incentivou-o a fugir da fazenda e ir morar com ela no Rio de Janeiro, onde montou a pensão “Hotel Itabaiano”. Ai passou a trabalhar na condição de semiescravidão. Insatisfeito com essa vida, fugiu de novo em 1913 e passou a viver na Lapa. Vivendo na rua, pensões, bares etc., conseguiu emprego de vendedor ambulante de pratos e panelas, bem como serviços de cozinha, Foi também segurança, garçom, cozinheiro e capoeirista.

Nesse ambiente fez amizade com “Sete Coroas”, o maior malandro e “cafetão” da época. Em 1922 decidiu ser artista, influenciado pela companhia francesa “Ba-ta-clan”, que passou pelo Rio apresentando seu teatro de revista. Em 1923, com falecimento do malandro, Satã assumiu seu “posto” na Lapa e deu início a prodigiosa carreira de malandro e uma incipiente carreira de artista transformista nas boates e bares do bairro. Por esta época foi cozinheiro na “Pensão do Catete”, onde conheceu a atriz Sara Nobre, que o apresentou ao mundo do teatro. Trabalhou por algum tempo no espetáculo “Loucos em Copacabana”, interpretando a “Mulata do Balacochê”. Sua primeira briga deu-se com um vigilante chamando-o de “veado”, em 1928. O vigilante morreu ao cair e bater a cabeça no meio-fio da rua. Foi preso e passou mais de 2 anos na Ilha Grande. Absolvido, alegando legítima defesa, pretendeu mudar de vida e casou com Maria Faissal, em 1934, com quem teve 6 filhos adotados.

Mais tarde, um policial irmão do vigilante morto na briga, impediu-o de entrar na boate Pigalle, que resultou numa briga. O policial levou uma surra e Satã foi preso em flagrante, amargando mais 2 anos de prisão. Pouco depois de sair da prisão, foi tomar um aperitivo no Bar Canaã e encontrou um sargento do Exército, que forçou uma troca de copos: cada um deveria tomar a bebida do outro. Como Satã não gostava de militar, recusou a troca e o sargento não suportou a desfeita. Entraram em luta e o sargento disparou-lhe 6 tiros. Nenhum acertou-o e o sargento fugiu. Satã perseguiu-o e cortou-lhe a bunda com uma navalha. Por esta agressão pegou mais 4 anos de prisão. Ao ser libertado decidiu montar família; adotou uma filha e abriu uma lavanderia. Na ocasião um homossexual foi morto nas redondezas e ele foi preso como suspeito. Foi torturado por 3 dias para confessar um crime que não praticou e ficou 2 dias preso. Fechou a lavanderia e abriu uma pensão, onde abrigava prostitutas e foi se firmando no negócio. Logo, chamou a atenção da polícia alegando que ele estava praticando lenocínio.

Chamado a depor na Delegacia, foi interrogado e levou um tapa do delegado. Satã revidou; levou uma grande surra dos policiais presentes e ficou preso por um ano e meio. Em seguida houve mais uma briga com a polícia. Conta-se que o delegado Frota Aguiar o perseguia constantemente. Satã ligou para ele negando as acusações que lhe eram imputadas. O delegado reagiu dizendo que ia dar-lhe uma surra e prendê-lo. Enfurecido, Satã disse-lhe: “Tá bem, eu vou aí. Mas saiba que eu vou quebrar-lhe a cara”. Cumpriu a ameaça; quase morreu de tanto apanhar dos policias e foi preso de novo. Virou freguês da prisão em Ilha Grande e mantinha bom relacionamento com outros presos e a administração do presídio. Aí trabalhava na cozinha desde sua primeira passagem. Em 1943 resolveu fugir, atirando-se no mar e nadando até a praia do Leblon. Exausto, acabou sendo preso e voltou ao presídio, de onde saiu em 1946. No mesmo ano teve que enfrentar 12 soldados da Aeronáutica, a pedido de sua amiga Nilsa. Os soldados não queriam pagar pelo “serviço”. A briga se prolongou até a Taberna da Glória com golpes de capoeira e a navalha atemorizou os soldados. Na delegacia, o inspetor foi rude no inquérito e acabou levando uns socos, resultando em mais uma prisão de 19 meses.

Em princípios dos anos 50 passou a viver numa rotina mais tranquila e voltou a trabalhar em shows imitando Carmen Miranda. Mas em seguida foi acusado de receptação e pegou mais 4 anos de cadeia. Esta prisão foi emendada com outras acusações e falhas no sistema carcerário, prolongando a prisão. Em 1955 deu-se a famosa briga com o sambista Geraldo Pereira. Conta Satã que foi ofendido e chamado para a briga. Com apenas um soco e uma queda o sambista veio a falecer. Laudos médicos inocentaram Satã da morte do sambista, alegando que a causa foi um derrame cerebral. Mas a lenda –que ele havia matado um cara com apenas um soco- se espalhou rápido e ampliou ainda mais sua fama de valente. Esta foi, talvez, sua última prisão, que durou até 1965, quando decidiu largar de vez a “vida bandida”, abandonar a Lapa e passou a viver com a família num lugar conhecido: a Ilha Grande, na Vila do Abraão. Ao longo da vida Satã passou quase 28 anos (intercalados) na prisão. Passou por 29 processos e foram lhe atribuídos cerca de 100 assassinatos e mais de 3 mil brigas.

Já envelhecido, voltou a fazer o que sabia: cozinhar para fora a pedido dos clientes, fazer faxina na casa de ex-policiais e funcionários do presídio etc. Tempos depois, em 5/5/1971, foi entrevistado em sua casa pela turma do “Pasquim”: Millôr Fernandes, Paulo Francis, Sergio Cabral, Jaguar, Fortuna, Chico Júnior e Paulo Garcez. Os interessados na entrevista podem acessá-la clicando aqui. A longa entrevista “ressuscitou” sua fama e recolocou-o no “palco”, vindo a fazer parte de algumas peças de teatro e shows. Na esteira da entrevista, foi lançado em 1972 o livro Memórias de Madame Satã, escrito por Sylvan Paezzo e, em 1974, o filme “Rainha Diaba”, dirigido por Antonio Carlos Fontoura, com Milton Gonçalves no papel-título. Outro filme, -“Madame Satã”-, abordando sua vida antes de receber o famoso apelido, foi lançado em 2002 dirigido por Karin Aïnouz, com Lázaro Ramos no papel-título. Em 2015 este filme entrou na lista, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, dos 100 melhores filmes brasileiros.

O epílogo de sua vida se deu princípios de 1976, quando foi encontrado num hospital de Angra dos Reis, internado como indigente. Ao saber do fato, Jaguar resgatou-o e levou para um hospital em Ipanema, mas veio a falecer em 12/4/1976, devido a um câncer pulmonar. Porém, Jaguar disse em entrevista que ao encontrá-lo “ele estava com 47 quilos, metade de seu peso normal. Naquele tempo, em 76, não se falava ainda disso, mas tenho certeza de que ele morreu foi de Aids”. Em 1985 foi lançada sua biografia Madame Satã: com o diabo no corpo, escrita por Rogério Durst. O autor conta que este livro caiu nas mãos de Chico Buarque, que anos depois lançou sua “Opera do Malandro”. Em 1990, a Escola de Samba Lins Imperial desfilou com samba-enredo “Madame Satã”.