JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Gregório Bezerra

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas, PE, em 13/03/1900. Político e revolucionário. Trabalhou na agricultura ainda criança e ficou órfão do pai aos 7 anos, e da mãe aos 9. Foi morar no Recife junto a família dos fazendeiros que empregavam seus pais, mas não ficou muito tempo. A promessa de estudar não progrediu e permaneceu analfabeto até os 25 anos. Passou boa parte da adolescência dormindo na rua e entre as catacumbas do cemitério de Santo Amaro. Nessa época trabalhou como carregador de malas na estação ferroviária, ajudante de pedreiro, jornaleiro etc.

Como vendedor ambulante de jornas, começou a se interessar pela política, através da leitura que os colegas faziam para ele. Em 1917 foi preso pela primeira vez, quando participava de uma passeata no Recife, reivindicando direitos trabalhistas e em apoio à Revolução Bolchevique, na Rússia. Passou 5 anos preso na Casa de Detenção do Recife, atual Casa de Cultura, onde conheceu o cangaceiro Antônio Silvino, do quem se tornou amigo. Ao sair da prisão, em 1922, e com dificuldades de arrumar emprego, alistou-se no Exército. Aí certificou-se da necessidade de alguma disciplina para aprender a ler e escrever e dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização.

Animou-se com a carreira militar e entrou na Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro, em 1924, permaneceu por 2 anos e logo foi promovido a instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas, devido a sua disciplina e determinação. Em 1929, foi transferido para Recife já como sargento. Motivado pelos amigos e diante da enorme desigualdade social, filiou-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro sem se desligar do Exército. No mesmo ano transferiu-se para o Rio de Janeiro, por ter conseguido matricula na Escola de Educação Física do Exército. Disciplinado, logo foi designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza, em 1932. Por sua própria conta, criou uma célula do PCB em Fortaleza, contrariando a orientação do partido.

Em 1935 participou da “Intentona Comunista”, movimento político promovido pela ALN–Aliança Libertadora Nacional, na condição de líder dos militares. Na tentativa de conseguir armamentos do CPOR, foi preso acusado pela morte de um tenente e ferimento de outro. Foi submetido a severas torturas e recebeu uma condenação de 28 anos, primeiro em Fernando de Noronha, seguida por outra temporada no Rio de Janeiro, no Presídio Frei Caneca. Nesta ocasião, dividiu a cela com o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Foi aí que aprimorou seus conhecimentos sobre as condições econômicas e políticas do Brasil, bem como sobre o movimento comunista internacional.

Com o fim do Estado Novo e a legalização do PCB em 1945, foi anistiado e designado como o principal candidato do partido à Assembleia Nacional Constituinte. Elegeu-se deputado federal por Pernambuco, em dezembro de 1947, com a maior votação do estado. Em janeiro de 1948 foi cassado junto com todos os parlamentares comunistas e passou a viver na clandestinidade por 9 anos. Neste período viajou para Goiás e Paraná, organizando núcleos sindicais. A terceira prisão veio em 1964, com o Golpe Militar. Foi preso enquanto organizava a resistência armada dos camponeses ao golpe em apoio ao governo de João Goulart (federal) e Miguel Arraes (estadual). Levado para o Recife, sofreu as mais terríveis torturas e humilhações públicas. Teve os pés imersos em ácido de bateria e foi obrigado a andar sobre britas. Em seguida foi amarrado em um jipe e arrastado pelas ruas de Casa Forte, enquanto o tenente-coronel Darcy Viana Vilock incitava a população a linchá-lo. O povo, consternado pela cena, não atendeu a incitação do coronel. Estas cenas foram transmitidas ao vivo pela televisão.

Em 1967 foi condenado a 19 anos de prisão, e foi libertado em 1969 junto com outros 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. Passou a viver na Rússia, México e Cuba, só retornando ao Brasil em 1979, com a promulgação da anistia. Em seguida começou a divergir do PCB e desligou-se de seus quadros. No mesmo ano publicou sua autobiografia “Memórias”, relançada em 2011 pela Boitempo Editorial. Pouco depois, filou-se ao PMDB, partido de oposição ao Governo, e candidatou-se a Deputado Federal, em 1982, aos 82 anos. Perdeu a eleição, mas ganhou a suplência. No ano seguinte, com a saúde abalada, declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas”. Faleceu em 21/10/1983. Em sua homenagem, o poeta Ferreira Gullar compôs o poema-cordel intitulado “História de um valente”.

Valentes, conheci muitos,
e valentões, muito mais.
Uns só valente no nome
uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
só com capangas atrás.
Mas existe nessa terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor.

Em 2004 foi realizado o documentário “Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”, dirigido por Anna Paula Novaes, Raquel Barros e Rosevanya Albuquerque. O filme ganhou os prêmios de Destaque e Menção Honrosa no Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Delfina Benigna

Delfina Benigna da Cunha nasceu em 17/6/1791, em São José do Norte, RS, na Estância do Pontal. Poeta destacada como uma das fundadoras da literatura gaúcha. Filha do capitão-mor Joaquim Fernandes da Cunha, responsável pela guarda do Litoral, e Maria Francisca de Paula e Cunha. Sua poesia é fundada unicamente na inspiração e espontaneidade, sem artifícios nem preocupação alguma com os processos estéticos.

Devido a uma epidemia de varíola, ficou completamente cega aos 20 meses de vida. Recebeu da família uma sólida formação cultural e aos 12 anos já ditava seus poemas para os irmãos escreverem. Em 1834 publicou o livro “Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses”, impresso na Typographia de Fonseca & Cia., de Porto Alegre. Foi uma das primeiras obras impressas no Rio Grande do Sul.

Seu pai faleceu em 1825 e ela passou por alguns perrengues com dificuldades econômicas em se manter. Escreveu um soneto-apelo dirigido ao Imperador Dom Pedro I pedindo auxílio e foi contemplada com uma pensão vitalícia, em reconhecimento aos serviços prestados pelo pai como capitão-mor. O fato reforçou sua adesão à Monarquia. Conforme registra o Dicionário de Mulheres, de Hilda Hubner Flores, ela odiava os liberais “Farroupilhas”, e escrevia versos ferinos contra o líder Bento Gonçalves. Como decorrência dessa intriga política, ela teve que exilar-se no Rio de Janeiro, em 1838, onde seu livro foi reeditado pela Livraria Garnier.

Não chegou a se casar, mas dizem que mantinha uma paixão secreta pelo Major Manuel Marques de Souza, o futuro Conde de Porto Alegre, que retomou a capital gaúcha das mãos dos Farroupilhas, em 15/6/1836. Há quem diga que seu amor sublimado tenha sido o motivo do desencanto gravado em seus versos. Há também quem diga que isso é bobagem e que a cegueira já seria suficiente para provocar um desencanto e melancolia com a vida, conforme se vê no soneto:

Em versos não cadentes, oh! leitores,
Vereis os males meus, vereis meus danos:
Da Primavera a gala e os verdores
Nem foram para os meus primeiros anos.

Mesmo na infância experimentei rigores
De meus fados cruéis sempre inumanos,
Que só me destinaram dissabores
Mil males revolvendo em seus Arcanos.

Sem auxílio da luz, que Apolo envia,
Versos dignos de vos tecer não posso;]
Desculpai minha ousada fantasia.

Com estes cantos meus, mortais, adoço
A mágoa que meu estro só resfria:
Se mérito lhe dais, é todo vosso.

Faleceu em 13/4/1857 e sua última obra – Coleção de várias Poesias dedicadas à Imperatriz Viúva – foi lançada em 1846 pela Tipografia Laemmert. O primeiro registro de seu nome na bibliografia brasileira se encontra no livro Mulheres Ilustres do Brasil (1899), de Ignez Sabino, onde são enaltecidos os sentimentos e a qualidade de sua poesia. Consta também um verbete incluído no livro Vozes Femininas da Poesia Brasileira, publicado pelo Conselho Estaudal de Cultura de São Paulo, em 1959, ressaltando seu pionierismo na Literatura. Foi homenageada como patrona da cadeira nº 1 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, e tem seu nome estampado numa rua do bairro Camaquã, em Porto Alegre.

Na falta de uma biografia exclusiva, temos o romance histórico O romanceiro de Delfina, de Stella Leonardo, publicado, em 1994, pelo Instituto Estadual do Livro (RS), contando a saga da poeta. Em 2011, Suzete Maria Santin apresentou na Faculdade de Letras da UFRGS, a tese de doutorado “Delfina Benigna da Cunha: recuperação crítica, obra poétca e fixação do texto”, esmiuçando a obra da poeta e apresentando vasta documentação da época. A tese em 2 volumes se propõe a fazer uma reletura da obra da poeta, “visando a uma abordagem com base na concepção de poesia lírica de Georg Wilhem Friedrich Hegel e de estilo, de Michael Riffaterre”. Recurpera a fortuna crítica sobre a obra e tem sua análise centrada no “amor em uma combinação tensa com a poesia da existência”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pontes de Miranda

Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda nasceu em 23/4/1892, em Maceió, AL Jurista, filósofo, sociólogo e diplomata, distinguido na área do Direito. Criança precoce, aos 7 anos lia em francês e português. Aos 16 anos ganhou do pai uma passagem para estudar matemática e física na Universidade de Oxford, mas preferiu seguir o conselho da tia: estudar na Faculdade de Direito do Recife. A escolha não o impediu de destacar a importância da matemática em suas obras.

No 2º ano da faculdade publicou seu primeiro livro – À Margem do Direito -, elogiado por Ruy Barbosa. Diplomado em 1911, publicou o Ensaio de Psicologia Jurídica, novamente elogiado pelo jurista baiano. Começou a escrever o Tratado de Direito Privado em 1914, buscando livros da Rússia, Índia e de outros países, consultando mais de 3 mil monografias, tratados de direito civil, direito criminal e direito antigo. Lançou o 1º volume somente em 1954. Uma obra monumental em 60 volumes, que foi concluída em 1970. Numa entrevista de 13/3/1978, disse que apesar de considerarem esta a sua melhor obra, preferia seu Tratado das Ações, em 10 volumes.

Foi um escritor prolífico não apenas no número de volumes. De sua lavra saíram 88 títulos de livros dedicados ao Direito e outras áreas. Seus primeiros textos foram elogiados por juristas literatos, como Clóvis Beviláqua e Ruy Barbosa, e pelo crítico José Veríssimo. O livro A sabedoria dos instintos, recebeu, em 1921, o prêmio da Academia Brasileira de Letras-ABL. Em 1925 a ABL voltou a premiá-lo pelo livro Introdução à sociologia geral. Sua predileção pela Matemática, herdada do avô, levou-o mais tarde a lançar mão de célebres equações – desde então identificadas como “equações pontianas” – para expressar seu pensamento.

Na área da Física, fez algumas restrições à teoria de Einstein sobre sua afirmação do encurvamento do espaço. Entrou em contato com o ilustre físico, do qual recebeu a sugestão que ele escrevesse uma tese sobre a representação do espaço e a enviasse para o Congresso Internacional de Filosofia, que se reuniria em Viena, em 1924. Não acatou o conselho de Einstein, pois esta não era sua praia. Sua curiosidade científica não chegou a tanto. A ciência levou-o naturalmente ao agnosticismo, mas isso não impediu de ser amigo do Papa João XXIII. Antes de encontrá-lo, mandou dizer-lhe que não era católico, mas o Papa respondeu que existem muitos católicos no inferno e que o considerava um verdadeiro franciscano. Mais tarde, em 1975, converteu-se ao catolicismo.

Escritor compulsivo e influenciado pela filosofia alemã, através dos colegas da “Escola do Recife”, introduziu novos métodos e concepções em diversas áreas do Direito brasileiro. Ingressou na magistratura em 1924, como juiz de órfãos e em seguida como desembargador do antigo Tribunal de Apelação do Distrito Federal (RJ). Na mesma época, representou o Brasil em duas conferências internacionais: Santiago do Chile e Haia, que levaram-no para a carreira diplomática em 1939, quando foi embaixador na Colômbia. No entanto, convidado para ser embaixador da Alemanha, declinou do cargo, por ser contra governos ditatoriais.

Permaneceu representando o País em conferências internacionais até 1943, quando passou a se dedicar às atividades de parecerista e escritor. É considerado o parecerista mais citado na jurisprudência brasileira. Não obstante ser mais conhecido na área do Direito, foi um pensador, poeta e romancista. A produção bibliográfica na área literária levou-o à Academia Brasileira de Letras em 1979, onde foi recebido por Miguel Reale. Por ironia do destino, veio a falecer em 22/11/1979, no ano em que foi “imortalizado” na ABL. Pouco depois, foi agraciado a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública de Portugal, em 10/2/1981. São muitos os títulos e homenagens que lhe foram prestadas em vida e pós-morte. Foi professor honoris causa de 6 universidades brasileiras.

Em 1994 foi criado o “Memorial Pontes de Miranda” da Justiça do Trabalho em Alagoas, instituído pelo Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região, com o objetivo de preservar e divulgar sua obra, bem como a história da Justiça do Trabalho em Alagoas. O museu ocupa o 3º andar do edifício do Tribunal Regional do Trabalho, conserva um conjunto de objetos pessoais, incluindo sua máscara mortuária, documentos, fotografias, insígnias, móveis e outros itens. Em 1999, foi eleito “Jurista do Século”, através de uma enquete em âmbito nacional, realizada pela revista “Istoé”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pedro Ernesto

Pedro Ernesto do Rego Baptista nasceu no Recife, PE, em 25/9/1884. Médico, político, prefeito do Rio de Janeiro em 2 mandatos na década de 1930. Foi um dos primeiros políticos brasileiro na implementação de uma legislação trabalhista e o primeiro a destacar a educação e apoiar financeiramente o carnaval, prestigiando as escolas de samba. Sua meta era transformar o Rio de Janeiro numa potência turística. Se não conseguiu, ajudou bastante.

Filho de Maria Adelina Siqueira e Modesto do Rego Batista, pequeno comerciante e líder maçônico, que exerceu forte influência em sua formação. Após concluir os primeiros estudos no Recife, mudou-se para Salvador, onde iniciou o curso de medicina e conclui-o no Rio de Janeiro, em 1908. Casou-se com Maria Evangelina Duarte Batista; montou sua clínica (Policlínica de Botafogo) e alcançou grande reputação como cirurgião. Era membro da Academia Nacional de Medicina, do Colégio Americano dos Cirurgiões e da Academia Francesa de Medicina. Na década de 1920 mantinha uma das melhores casas de saúde da cidade, com salas de cirurgia, serviço de raio-x, radioterapia etc. Embora civil, foi membro atuante do “Movimento Tenentista”, de oposição ao governo federal. Não participou diretamente do levante do Forte de Copacabana, em 1922, mas atuou nos bastidores e colocou à disposição sua casa de saúde como refúgio e ponto de encontro dos rebelados. Era conhecido como a “mãe dos tenentes.

O movimento constituiu-se numa das forças que ajudaram Getúlio Vargas na Revolução de 1930, com a deposição de Washington Luís. Na ocasião, tornou-se médico da família Vargas; desfrutava de prestígio junto ao novo governo; participava com frequência das reuniões no Palácio do Catete e foi nomeado diretor do Departamento Nacional de Assistência Hospitalar. Em 1931 fundou o “Clube 3 de Outubro”, afim de dar maior coesão à atuação dos revolucionários históricos. Seus integrantes defendiam que o prolongamento do Governo Provisório deveria durar somente até a eleição de uma assembleia constituinte, que substituiria a Constituição de 1891. Seu prestígio era tamanho que levou o presidente Vargas a nomeá-lo como interventor na prefeitura do Rio de Janeiro, em 1931.

Nesta condição, presidiu o I Congresso Revolucionário reunindo os adeptos e organizações alinhadas com a Revolução de 1930, onde foi deliberado a criação do PSB-Partido Socialista Brasileiro, que nunca se consolidou de modo efetivo. Dois anos após, participou da fundação do Partido Autonomista do Distrito Federal, cujo objetivo era lutar pela autonomia política da cidade do Rio de Janeiro. Sob sua liderança, o partido foi eleito para a Assembleia Nacional Constituinte e suas teses foram aprovadas. No ano seguinte, o partido obteria também uma ampla vitória nas eleições para a Câmara Municipal, elegendo a maior bancada. Assim, tornou-se o primeiro governante eleito da história da cidade, ainda que de forma indireta.

Tanto como interventor como prefeito, seu governo deu especial atenção aos trabalhadores com diversas leis e prioridade nas áreas da saúde pública e educação. Na saúde criou 8 grandes hospitais em regiões mais carentes, e na educação contava com Anísio Teixeira como secretário durante 3 anos. Neste período foram construídas 28 escolas e contratados 800 professores. Pela primeira vez foi criada uma escola pública numa favela – Morro da Mangueira -, em 1935. Vale destacar que até 1930 cerca de 80% das escolas funcionavam em prédios alugados, muitos dos quais com fornecimento precário de água e luz. Outro destaque é que até a década de 1920, os prefeitos cariocas concentravam os investimentos apenas no Centro e na Zona Sul. Sua administração procurou integrar a Zona Oeste, além de ampliar a oferta de serviços públicos na Zona Norte, onde viviam os trabalhadores assalariados.

Com tal programa político, incluindo a ajuda financeira e promoção das escolas de samba, conquistou enorme popularidade, chegando a ser cotado para a Presidência da República. Sua popularidade assustou os grupos de direita e de esquerda, especialmente o presidente Vargas, que viu ali um forte concorrente à causar-lhe problemas em seus planos de governo. Em 1935 aproximou-se da ANL-Aliança Libertadora Nacional, que reunia comunistas, socialistas e tenentes de esquerda. Em julho denunciou a articulação de um golpe dos conservadores e protestou contra o fechamento da ANL pelo governo. Em novembro foi acusado de participar da “Intentona Comunista”, com levantes armados, promovidos pelo PCB-Partido Comunista Brasileiro, em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Realmente, ele foi convidado por Luís Carlos Prestes para o levante, mas sua participação não foi comprovada.

Em abril de 1936 foi preso e ficou encarcerado mais de um ano. Ao sair da prisão em setembro de 1937, foi aclamado em manifestações populares; fez discursos contra Vargas e apoiou a candidatura do governador paulista Armando Sales de Oliveira à presidência da República, marcadas para janeiro de 1938. Mas o golpe de estado decretando o Estado Novo, em novembro de 1937, enterrou sua carreira política. Foi novamente preso e libertado 3 meses depois. Nos anos seguintes, marcados por uma grande desarticulação política da oposição, ele ficou alijado das atividades políticas. Em 1941 viajou aos EUA para uma intervenção cirúrgica e ao voltar, em fevereiro de 1942, divulgou um manifesto de apoio ao governo por romper relações diplomáticas com o Eixo. Passou a defender a união nacional, a pacificação politica e a anistia geral. Retomou as atividades em sua casa de saúde e veio a falecer em 10/8/1942.

Hoje quase não se fala no prefeito carnavalesco, saído do frevo do Recife para levantar o carnaval do Rio. Porém, seu nome foi dado ao prédio da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ao Hospital Universitário, uma escola na Lagoa e uma rua no bairro da Gamboa. Em 2009, foi lembrado no samba-enredo da Escola de Samba Unidos de Cosmos. Consta também um relato de sua vida política, escrito por Thiago Cavaliere – O trabalhismo de Pedro Ernesto: limites e possibilidades no Rio de Janeiro dos anos 1930, publicado pela Editora Juruá, em 2010. Seu arquivo pessoal encontra-se à disposição para consulta no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Darcy Ribeiro II

Foi autorizado pelo Governo a entrar no Brasil para extrair um pulmão, não para morar. Assim, foi recebido pelas autoridades no aeroporto; foi escoltado até a residência onde ficou e passou a ser vigiado pelo DOPS o tempo todo, onde quer que fosse. Pouco depois da cirurgia, o escritor João Antônio, na condição de repórter, foi entrevistá-lo e quase acabou sendo entrevistado. A matéria, publicada no jornal “Ex”, (nº 15, de out./1975), mostrou Darcy recuperado, exultante e perambulando pelo Rio sempre vigiado de perto por dois policiais à paisana. Passou 6 meses nessa rotina já acostumado com os vigias, mas sofrendo pressões políticas. O Governo Militar deixou que fosse operado aqui, achando que ele ia morrer. Como ficou mais vivo ainda, as pressões aumentaram e ele teve que voltar ao Peru para completar seu 3º exílio.

Ao chegar em Lima, em 1975, encontrou o presidente Alvarado enfermo, vitimado por um aneurisma e sem poder governar. Todo seu trabalho estava sendo desmontado e todos seus amigos e equipe de auxiliares haviam sido trocados. Passou uns meses vendo o que fazer, desmontou o Centro de Estudos da Participação Popular e retornou ao Brasil no ano seguinte. Mas, permaneceu pouco por aqui, ficou viajando pelo mundo “consertando” ou planejando universidades: México, Argélia, Costa Rica etc. e tornou-se romancista com o lançamento de Maíra (1976), seu primeiro romance, traduzido em diversos idiomas. Em 1977 participou da 29ª Reunião da SBPC, em São Paulo, e proferiu uma de suas melhores palestras: “Sobre o óbvio”, tratando do ensino público e que abre seu livro Ensaios insólitos, publicado em 1979. Entre as viagens realizadas, foi ao México, em 1978, a convite da UNAM-Universidad Autónoma de México, para gravar um disco “Voz Viva de América Latina”, Trata-se de um projeto de memória e fixação da voz de grandes personalidades da região. O disco nunca foi divulgado no Brasil, mas o Parlamento Latino-Americano conseguiu uma transcrição do depoimento, traduziu e publicou no livreto “Darcy Ribeiro: América Latina Nação”, em 1998. Na época eu trabalhava lá e tive o prazer coordenar a edição do livreto.

Decretada a Anistia, em 1979, foi reintegrado ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e participou do “Tribunal Bertrand Russel”, em 1980 na Holanda, sobre crimes cometidos contra os índios na América Latina. Passando por Paris, recebeu o título de “doutor honoris causa” da Universidade de Sorbonne. Em seguida, uniu-se a Brizola na organização do PDT-Partido Democrático Trabalhista (PDT) e foi eleito vice-governador do Rio de Janeiro, em 1982. Acumulou o cargo com o de secretário de Ciência e Cultura e ficou encarregado de coordenar o Programa Especial de Educação, cujo objetivo era implantar 500 Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), uma escola em período integral para crianças e adolescentes e foi copiado em outros estados. Para isso, criou uma “Fábrica de Escolas” pré-montadas e ao final de 4 anos conseguiu implantar “apenas” 127 CIEPs. Em sua gestão foram criadas a Biblioteca Pública Estadual, Casa de Cultura Laura Alvim, Centro Infantil de Cultura de Ipanema. e o “Sambódromo”, a passarela das escolas de samba, que hoje leva seu nome, e abriga escolas de 1º e 2º grau.

Nas eleições de 1986 foi candidato à sucessão de Brizola no governo do Rio. Mas foi vencido por Moreira Franco numa ampla coligação partidária. Na ocasião o PDT foi acusado de ser conivente com o “jogo do bicho” e, por tabela com o crime organizado. A polarização esquerda x direita foi acirrada, culminando com sua derrota. Em seguida (maio de 1987) foi convidado pelo governador de Minas Gerais, Newton Cardoso (PMDB), para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Social, com a promessa de criar mil CIEPs em todo o Estado. Porém, abandonou o cargo em setembro quando viu que o governador não levava a sério seu projeto. No ano seguinte retomou um sonho antigo: criar em Brasília o Memorial dos Povos Indígenas. Seu amigo Oscar Niemeyer projetou o edifício e o museu-centro cultural e de pesquisa da cultura indígena foi inaugurado no eixo monumental. Com se vê, Darcy foi também um grande museólogo em suas “horas vagas”. Ainda em 1987 foi convidado pelo governador de São Paulo, Orestes Quércia (PMDB), para ajudar Oscar Niemeyer na parte cultural do Memorial da América Latina, inaugurado em 1989. Mais um museu foi criado: O “Pavilhão da Criatividade” lá instalado leva seu nome.

Na primeira eleição presidencial por via direta, em 1989, após o Golpe de 1964, Brizola foi candidato e Darcy percorreu o Pais organizando grupos de intelectuais, sindicalistas e professores para elaborar o programa de governo. Novamente deu-se uma acirrada polarização ideológica entre Lula (PT) e Collor (PRN) e Brizola apoiou o PT no 2º turno das eleições. O bom senso eleitoral não prevaleceu e Collor foi eleito presidente. Nas eleições de 1990 Brizola foi reconduzido ao governo do Rio e Darcy ao senado federal, seu primeiro e único mandato legislativo. No senado priorizou a educação e conseguiu aprovar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, lei 9394/96). A nova concede autonomia escolar em todos os níveis e diploma universitário para todos os professores, incluindo os do curso primário. Entre seus tantos projetos de lei, consta uma que se fosse aprovada, estaria resolvido o problema da falta de órgãos para transplantes nos hospitais. A Lei tornava possível usar os órgãos dos mortos para salvar os vivos. A pessoa que não quisesse doar seus órgãos deveria deixar esse desejo manifesto por escrito. Outra proposta defendia uma lei de trânsito mais favorável aos pedestres contra a selvageria dos motoristas. Preocupado com o ambiente e a memória, conseguiu o tombamento de 98 km. de belas praias e encostas, além de mais de mil casas e sobrados do Rio antigo.

Em setembro de 1991 licenciou-se do mandato para assumir a Secretaria Extraordinária de Programas Especiais do Rio de Janeiro, com a finalidade de retomar a implantação dos CIEPS e coordenar a criação da UENF-Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos, concebida como um centro gerador de tecnologia avançada. Retornou ao Senado em 1992 e no ano seguinte foi conduzido à Academia Brasileira de Letras. Vaidoso assumido, discursou: “Estou certo de que alguém, neste resto de século, falará de mim, lendo uma página, página e meia. Os seguintes menos e menos. Só espero que nenhum falte ao sacro dever de enunciar meu nome. Nisto consistirá minha imortalidade”. Nas eleições presidenciais de 1994, o PDT lançou novamente a candidatura de Brizola, tendo Darcy como vice. Foi combinado entre os dois, caso vencessem as eleições, que Darcy assumiria o Ministério da Educação para implantar os CIEPs em todo o País. A disputa presidencial se deu entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT), onde o primeiro venceu já no 1º turno. Em dezembro do mesmo ano, foi surpreendido com outro câncer na próstata e ficou internado por um mês no Hospital Samaritano, no Rio. Novos e mais graves perrengues lhe atormentam e planeja uma fuga do hospital com ajuda de um amigo. Foi para sua casa em Maricá e justificou a fuga pela necessidade de concluir seu livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995), encerrando a série “Estudos de Antropologia da Civilização”. Trata-se de seu livro mais conhecido e visto como sua obra prima.

Em 1995, ao fazer 73 anos, foi surpreendido com uma grande festa num casarão do Jardim Botânico, promovida por 60 mulheres “ex-esposas, ex-namoradas, ex-amantes e amigas”. O aniversariante ficou à vontade: “Foi a festa mais bonita da minha vida. Foi uma beijação só!”. As ex-esposas Berta Ribeiro e Claudia Zarvos ficaram mais próximas. “As outras todas ficaram ao redor, mas sem ciúme. Foi uma coisa linda!”. Depois foi agraciado com uma desejada comenda: o “Prêmio Anísio Teixeira”, concedida pela Presidência da República à pessoas destacadas na área educacional. Premiações e homenagens foram constantes nessa época. No mesmo ano recebeu o “Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, concedido pela OEA-Organização dos Estados Americanos. Em seguida recebeu da Biblioteca Nacional o “Prêmio Sergio Buarque de Holanda” pela publicação do livro Diários índios (1996). Em janeiro de 1997 recebeu a comenda “Homem de Ideias”, concedida pelo Jornal do Brasil. Esta foi sua última homenagem em vida, cujo título define o agraciado: um homem de ideias e ideais, falecido no mês seguinte, em 17/2/1997. Conforme seu pedido, o corpo foi encomendado pelo teólogo Leonardo Boff, padre proscrito pelo Vaticano, devido a ligações com a “Teologia da Libertação”, e seu amigo pessoal.

Darcy conviveu quase 30 anos com a morte iminente. Conforme atestam os amigos, passou desde então a viver intensamente e com urgência todos seus trabalhos, além de uma pulsão autobiográfica expressa nos livros Migo (1988), Testemunho (1990) e Confissões (1997), que escreveu “com medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim”, confessou no prólogo e não chegou a vê-lo publicado. Esta pulsão levou-o a criar a FUNDAR-Fundação Darcy Ribeiro. “Tanta gente por aí com fundação, eu também quero uma”. Com recursos próprios, biblioteca e arquivos dele e Berta Ribeiro, foi criada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em 1996. Em seguida foi concebido o Memorial Darcy Ribeiro em parceria com o Ministério da Cultura e a UnB, abrigando a biblioteca (30 mil livros) e arquivos do casal. Trata-se de uma bela edificação, “mistura de oca e disco voador”, aterrissando na praça maior da UnB, inaugurada em 2010. Como foi o criador do “sambódromo”, deu o nome de “beijódromo” ao local, para espairecer a rapaziada. Trata-se de uma “fábrica-escola” com auditório, salas de aula, gabinetes de pesquisa, galeria para exposição, cineclube, centro de documentação, café e livraria e uma representação da FUNDAR.

Darcy vem sendo lembrado em todo o País, com seu nome estampado em logradouros públicos e instituições. Em 1998, a Câmara dos Deputados instituiu o “Prêmio Darcy Ribeiro”, uma comenda anual com diploma e medalha concedida a 3 personalidades destacadas na defesa e promoção da educação brasileira. No Carnaval de 2020, foi tema-enredo da Escola de Samba Império da Uva: “Darcy Ribeiro – O Homem muito além do seu tempo!”. Biografias e ensaios biográficos transbordam na Internet, além de suas autobiografias. Mas, como vaidoso assumido, é suspeito para falar de si mesmo. Os interessados em conhecê-lo melhor podem recorrer à outras fontes, como a biografia realizada por Helena Bomeny – Darcy Ribeiro: um sociólogo indisciplinado – publicada em 2001 pela Editora da UFMG, em 2001, ou a de Toninho Vaz – Darcy Ribeiro: nomes que honram o Senado – publicada em 2005 pela Editora do Senado. Foi um dos brasileiros que mais contribuíram na busca de uma identidade nacional e latino-americana do Brasil.

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JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Darcy Ribeiro I

Darcy Ribeiro da Silveira nasceu em Montes Claros, MG, em 26/10/1922. Antropólogo, sociólogo, museólogo, educador. administrador, político e escritor. Foi um dos mais brilhantes pensadores (e fazedores) brasileiros destacado em diversas áreas. Passou a vida repensando o Brasil e suas mazelas; sua riqueza natural e cultural a partir da miscigenação entre brancos, negros e índios. Sua trajetória de vida daria belo documentário da história do Brasil durante a segunda metade do século XX.

Filho de “Dona Fininha” (Josefina Augusta da Silveira), professora que nomeia uma avenida da cidade, e Reginaldo Ribeiro dos Santos, falecido quando ele tinha 3 anos. Sem pai, virou moleque traquino e curioso. Na farmácia do tio, ouviu falar que a quantidade de “azul de metileno” que lá havia daria para pintar o oceano Atlântico. Ficou intrigado com a informação e despejou um pacote na caixa d’água da cidade. A água azul saiu em todas as torneiras, causando pânico na cidade. Aos 17 aos foi estudar medicina em Belo Horizonte, mas sem vocação para isso largou o curso no 4º ano. Em contato com o sociólogo Donald Pierson, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ganhou uma bolsa de estudos e aí foi estudar, em 1944, graduando-se em antropologia, em 1946. No ano seguinte foi trabalhar no SPI-Serviço de Proteção ao Índio e conheceu Rondon e os irmãos Villas-Boas. A partir daí passou a viver 10 anos, alternadamente, entre os índios e no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro –Religião da mitologia Kaiwéu – foi publicado em 1950, e lhe valeu o Prêmio Fábio Prado. Em 1953 criou o Museu do Índio. Mas, logo os irmãos Villas-Boas viram que, além do museu, os índios precisavam de um local para viver seguramente e idealizaram o Parque Indígena do Xingu, cujo projeto foi realizado por Darcy e inaugurado em 1961. Por essa época era um antropólogo completo: organizou o 1º curso de pós-graduação em antropologia (1955) e presidiu a Associação Brasileira de Antropologia (1959)

O Parque é a maior reserva indígena do mundo, onde vivem hoje cerca de 5.500 índios de 14 etnias. Afirma-se que sua criação evitou um grande genocídio no Brasil. Sua dedicação à estes povos, levou-o a elaborar para a Unesco um estudo sobre o impacto da civilização sobre os índios e, em 1954, trabalhou na OIT-Organização Internacional do Trabalho na edição de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. No ano seguinte, com a eleição de Juscelino Kubitschek, foi convidado a participar da elaboração do plano educacional do novo governo, junto com Anísio Teixeira, seu chefe e “guru”. Anísio, vendo que o rapaz prometia, entregou-lhe a Divisão de Estudos Sociais do CBPE-Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. O “cabra” tornou-se um educador obstinado e produtivo. Em seguida, JK pede à Darcy e Anísio para planejarem a Universidade de Brasília-UnB, em 1959. Reuniram um seleto grupo de professores nacionais e alguns estrangeiros e a UnB foi inaugurada em 1962, com Darcy na Reitoria, tendo Anísio como vice. Pouco depois foi conduzido ao MEC-Ministério da Educação e deixou a reitoria com Anísio. O País passa por transformações profundas na Política com o governo de João Goulart e seu envolvimento vai se alargando. Em 1963 convidado pelo presidente para exercer a “eminência parda” do governo e assume a chefia da Casa Civil. Neste cargo, passou a coordenar as reformas estruturais à serem implantadas no Pais.

Com o Golpe Militar de 1964, articulou uma resistência armada, mas não encontrou apoio suficiente e foi obrigado a fugir em direção ao exilio no Uruguai. Em 4 de abril o deputado Rubens Paiva conseguiu um pequeno avião Cessna e um acordo com o pessoal da torre de controle do aeroporto de Brasília. Levou Darcy e Waldir Pires até a cabeceira da pista e ficaram agachados num capinzal aguardando a chegada do avião. O piloto não sabia quem eram e foi orientado apenas a recolher os dois passageiros e levantar voo. Alguém na torre percebeu o rápido embarque e passou uma ordem pelo radio para retornar. O piloto quis obedecer, mas uma contra ordem incisiva de Darcy fez com que o voo prosseguisse até uma fazenda de Mato Grosso, e daí noutro voo até Montevideo.

No Uruguai foi bem recebido e logo foi nomeado professor de antropologia da Universidad de la Republica. Ficou, também, encarregado de presidir um seminário de reformas na universidade, com base no trabalho feito na UnB. Aí tem inicio sua função de “sapateiro remendão” de universidades na Am. Latina, como ele mesmo definia. Com passaporte uruguaio pode viajar pela Europa, Rússia e Cuba, onde manteve encontros com Fidel Casto e Che Guevara em longas conversas. “Sempre me lembrarei dessa conversa com Che. Ele suave e duro como ninguém. Eu me desmanchando, palavroso, em argumentações”, disse mais tarde em suas Confissões (1997). Por essa época começou a escrever seus “Estudos de antropologia da civilização em 5 volumes: O processo civilizatório (1968), As américas e a civilização (1970), O dilema da América Latina (1978), Os brasileiros (1972), Os índios e a civilização (1970). Publicou também A universidade necessária (1970), sintetizando sua experiência em reformas universitárias e, para “espairecer”, fez o primeiro esboço do romance Maíra (1976), com o qual se fez romancista.

Em Montevideo participou da vida cultural junto com Angel Rama e Eduardo Galeano entre outros; escreveu artigos para a revista “Marcha” e participou da edição da Enciclopedia de la Cultura Uruguaia, vendida em capítulos em bancas de jornal. Em meados de 1968, os processos que lhe eram movidos foram anulados pelo STF-Supremo Tribunal Federal. Após 4 anos de exílio e sabendo da “Marcha dos Cem Mil” (26/6/1968) no Rio de Janeiro, se animou a voltar achando que a anulação dos processos lhe favorecia. Mesmo advertido por Jango e Brizola, pediu ao seu advogado Wilson Mirza que avisasse o governo brasileiro que estaria voltando em tal avião, dia tal, no aeroporto do Galeão. Ao chegar foi avisado, ainda no aeroporto, que deveria se apresentar no DOPS-Departamento da Ordem Política e Social. Lá respondeu um longo questionário e foi liberado. Como era o primeiro cassado e exilado que voltava, a imprensa não deu sossego. Passou 3 meses se esbaldando em jantares com os amigos e falando, “pelos cotovelos”, bem do governo deposto e mal da ditadura em diversas entrevistas. Foi advertido pelos amigos: “Isso não se faz na ditadura, Darcy. Ninguém fez isso aqui”. Não demorou para que a polícia batesse na sua porta; mas não o levaram com a promessa de se apresentar ao Superior Tribunal Militar. A ordem era para prender, mas seu advogado apelou para o STF e continuou livre, porém vigiado de perto pelos agentes do DOPS. Até que em 13/12/1968 veio o AI-5 e foi aconselhado a fugir. Mas não admitiu “voltar com minhas próprias pernas para o exílio”. Foi preso no dia seguinte e levado para o batalhão blindado do Rio, numa cadeia que logo ficou lotada de “subversivos”. A prisão durou 9 meses.

Ali passou 3 dias e foi levado para o clube dos cabos. A acomodação melhorou bastante, tanto que deu para fazer a 2ª versão de Maíra. Depois levaram-no para a Fortaleza de Santa Cruz, onde havia muitos estudantes presos e podia conversar com eles no “banho de sol”. Mas isso durou pouco, um oficial do dia proibiu a conversa. Às vezes a proibição não era cumprida e foi advertido: “Se o senhor continuar a falar com os presos, eu tiro o banho de sol deles”. Em seguida foi transferido para a Ilha das Cobras, sob os cuidados da Marinha. Ao chegar foi avisado que devido ao fato de ter sido agraciado com a ordem do mérito naval em grau de grã-cavalheiro, teria direito a prisão de almirante. Aí ficou alguns meses bem melhor instalado. Na Marinha, o pessoal era mais educado e com o tempo passaram a respeitá-lo pelo fato de ter convivido com os índios e ser discípulo de Rondon, herói das forças armadas. Assim, passou a receber visitas semanais de sua esposa Berta e de alguns amigos. Foi convencido pela esposa e amigos a escrever uma carta ao presidente Costa e Silva, pedindo-lhe um passaporte para deixar o País, quando saísse da cadeia, pois havia um convite da Universidade de Columbia, para dar aulas como professor visitante. Concluiu a carta com “Saudações republicanas” e recebeu o passaporte.

Em 1969 foi julgado por um tribunal de oficiais da Marinha e foi absolvido. Em liberdade, ficou alojado na casa de seu advogado e no outro dia, soube que o Exército, em desacordo com a sentença da Marinha, ordenara sua volta à prisão. Desesperado, correu para a Embaixada Americana para conseguir um visto de entrada nos EUA. Teve uma conversa ríspida com o Cônsul, que relutava em lhe dar o visto. “Não estou convencido. Não o vejo como mero professor visitante”. Vendo que não conseguiria o visto, retrucou: “Claro. Sou um eminente antropólogo. Fui honrado com um convite para lecionar na Columbia, coisa que nunca sucederia ao senhor”. A troca de farpas se prolongou com o cônsul dizendo que ele estivera em Cuba em conversas com Fidel e Che. “Tenho aqui uma foto sua em viagem para lá. Aliás, seu arquivo é um dos maiores que temos”. Darcy encerrou a a conversa: “Cuide bem dele. Vai ser útil para meus biógrafos”. Na ocasião, seu amigo José Augustin Michelena, sociólogo venezuelano de passagem pelo Rio, foi acionado para lhe conseguir um visto consular para entrar em Caracas. Junto com Berta, foram para o Aeroporto e deixaram um amigo na fila de embarque, enquanto ficaram dispersos entre as pessoas até a chamada do voo.

Em Caracas foi contratado pela UCV-Universidad Central de Venezuela como professor de antropologia, orientador de teses e a direção de um seminário de renovação da UCV. Posteriormente deu aulas também na Universidade de Mérida. Durante um ano conviveu com a intelectualidade local e viajou pelo Caribe. Se deu bem em Caracas, inclusive com uma namorada de 22 anos, filha de um ricaço. O único problema que teve foi com um adido militar do Brasil, que, na condição de amigo do Ministro da Justiça, impedia que lhe dessem o visto permanente. Foi obrigado a obter visto de turista em Curaçao. Na terceira vez que foi renovar o visto, se aborreceu e reclamou numa entrevista de programa de TV. A apresentadora passou a reclamar que o presidente Caldera estava expulsando da Venezuela um dos maiores intelectuais da Am. Latina, professor contratado pela UCV, devido à pressões da ditadura brasileira. A bronca deu certo e o visto permanente saiu no dia seguinte. Tudo ia muito bem, até a vitória de Allende no Chile, em 1970, seu amigo quando vivia em Montevideo.

Em contatos com o Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, mudou-se para Santiago, em 1971, procurou Allende e se colocou à seu serviço. Na condição de assessor especial redigia os discursos do presidente. Foram 2 anos de trabalho em conduzir o país pela via do socialismo em liberdade, com democracia e desenvolvimento da economia nacional. O único país aliado era Cuba, cuja longa presença de Fidel no país acirrava a esquerda radical, desagradava a elite e alimentava o complô que se armava nos EUA. A situação chegou num ponto em que a esquerda declarou: “A economia deu tudo o que podia dar. Cabe agora à ação política abrir caminhos”. O MIR-Movimiento de Izquerda Revolucionária ganhou força e passou a conspirar querendo dar o golpe para “cubanizar” o processo chileno. A elite passou a conspirar; a classe média perdia o emprego; o povo passou a sofrer com filas até para comprar pão. Faltava alimentos em todos os mercados e alguns itens de consumo diário passaram a ser controlados. O caos se instalou a partir de 1973. Nesta ocasião, Luis Echeverria, presidente do México, achando que Darcy corria risco de vida naquela situação diante de um golpe, designou o escritor Juan Rulfo para ir até Santiago, procurá-lo, levá-lo até a Embaixada e trazê-lo para o México. Rulfo passou alguns dias procurando-o e não encontrou. Outro presidente –Velasco Alvarado, do Peru- havia se antecipado, enviando à Santiago Carlos Delgado com um convite à Darcy para “ajudar a pensar revolução peruana”. Diante da situação chilena, o convite foi aceito de imediato.

No Peru trabalhou junto ao gabinete da Presidência na construção do Centro de Estudos da Participação Popular, com ajuda de Oscar Varsavsky, matemático argentino, inventor da simulação computacional. O Centro resultava de uma parceria com o PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e contava com ajuda da OIT-Organização Internacional do Trabalho. A partir de uma grande base de dados projetou-se um sistema de informações para implementar políticas sociais, que Darcy chamou de “socialismo cibernético”, pois “não se fundava em nenhuma ideologia, mas num jogo de números dentro do computador”. Suas ideias combinavam a implantação de uma modernidade tecnológica com o renascimento da cultura incaica. Porém encontrou resistências entre a intelectualidade peruana, que relutava em admitir um estrangeiro na formulação do novo Peru. Percebeu também que não havia interesse da área acadêmica em estudar o quéchua como uma língua nacional, uma de suas propostas. Mesmo assim, conseguiu a edição de um dicionário geral da língua nativa.

Neste ambiente apreensivo, aproveitou para tirar férias e viajou para Portugal. Lá manteve encontros com amigos lusitanos e o ex-deputado Marcio Moreira Alves, proferindo palestras em Coimbra e Porto. Certa noite acordou mal com muita tosse e expelindo sangue. Ficou assustado; procurou o médico; fizeram exames e pela cara do médico viu que era câncer, mas o médico negou. Encaminhou-o à um oncologista, que também negou: “trata-se de uma tuberculose antiga que voltou”. Darcy não acreditou e Marcio levou-o à Paris para fazer exames no “Cretuil”, o melhor hospital de câncer da Europa. Era um câncer pulmonar. “O senhor tem uma bomba no peito, pode explodir a qualquer momento”, disse-lhe o médico. A cirurgia tinha que ser marcada para os próximos dias. Foi um abalo e tanto; passou por uns perrengues revisando a vida passada e refletindo sobre o que fazer diante do pouco tempo de vida que restava. “Envelheci mais nesses últimos dois meses do que nas últimas duas décadas”, confessou. Recebeu uma oferta para fazer a cirurgia nos EUA e recusou. Para espanto dos médicos franceses, recusou também fazê-la em Paris, dizendo que ia fazê-la no Rio de Janeiro. Fez do câncer seu “cavalo de Tróia” para poder voltar ao Brasil em dezembro de 1974. (Continua)

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No próximo domingo concluiremos a biografia concisa de Darcy Ribeiro com sua volta ao Brasil; seu retorno à política como vice-governador do Rio de Janeiro; como senador; sua luta contra o câncer e seu papel na configuração de uma identidade nacional e latino-americana do Brasil.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Anísio Teixeira

Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité, Bahia, em 12/7/1900. Advogado, escritor e essencialmente educador, foi pioneiro na implantação da escola pública no Brasil. Filho do médico Deocleciano Pires Teixeira, líder político de Caetité. Os primeiros estudos se deram em colégios jesuítas. Cogitou entrar para essa Ordem Religiosa, mas foi dissuadido pelo pai, que já havia projetado uma carreira política para o garoto. Dotado de inteligência excepcional, aos 17 anos foi convidado por Teodoro Sampaio à proferir palestra no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

Em 1918 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Direito e retornou à Salvador. Foi convidado pelo governador Góes Calmon a assumir o cargo de Inspetor Geral do Ensino, em 1924, e enfrentou com determinação o problema da educação. No ano seguinte partiu para a Europa com a finalidade de conhecer o sistema educacional de alguns países e na volta implementou várias reformas no ensino. Assim, deu início a uma profícua carreira de pedagogo e administrador público. Em 1927 foi conhecer o ensino público nos EUA e tomou contato com as ideias do filósofo e pedagogo John Dewey. De volta à Salvador quis fazer algumas mudanças no sistema de ensino, mas foi impedido pelo novo governador. Pediu demissão do cargo e viajou de novo para os EUA, onde fez curso de pós-graduação, na Universidade de Columbia, com John Dewey, em 1928, que exerceu uma influência decisiva em sua carreira de educador. Sua ideia fundamental era ampliar o sistema educacional, privilegiando a formação do professor.

Tornou-se discípulo do filósofo americano e traduziu para o português dois dos seus livros. Publicou seu primeiro livro, “Aspectos americanos de educação”, em 1928. Três anos depois mudou-se para o Rio de Janeiro e ocupou o cargo de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, com a missão de reorganizar o ensino público. Neste cargo instituiu a integração da “Rede Municipal de Educação”, abrangendo desde o ensino fundamental até a universidade. No mesmo ano acumulou o cargo de presidente da ABE-Associação Brasileira de Ensino e junto com Fernando de Azevedo, Lourenço Filho entre outros, elaborou o “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova”, em 1932, um documento propondo uma escola gratuita, laica e obrigatória, e que sofreu forte oposição da Igreja Católica. Os pressupostos da “Escola Nova” tinham como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento no lugar da memorização. Em seguida assumiu a Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro. Na condição de amigo íntimo do prefeito Pedro Ernesto Batista, foi apoiado na criação de novos estabelecimentos de ensino e criou a UDF-Universidade do Distrito Federal, em 1935.

Em termos políticos não aderiu formalmente a ALN-Aliança Libertadora Nacional, uma frente que reunia diversos setores de esquerda. Porém, publicava artigos polêmicos no jornal “A Manhã”, órgão oficioso da ALN. Devido a este envolvimento foi demitido da Prefeitura em novembro de 1935, sob acusação de participar da “Intentona Comunista”. Durante o “Estado Novo”, foi perseguido pelo governo de Getúlio Vargas e voltou a residir em Salvador. Passou a lidar com a mineração, atividade de alguns parentes e a curtir mais os amigos, como Monteiro Lobato, com quem publicou mais um livro: “Educação para a democracia” e fazer traduções. Depois, foi morar em Paris por um breve período e foi nomeado conselheiro da Unesco, em 1946. No ano seguinte, de volta ao Brasil, foi convidado pelo governador Otávio Mangabeira para assumir a Secretaria de Educação e Saúde da Bahia. Dentre outras realizações, construiu na Liberdade, o mais populoso e pobre bairro de Salvador, o “Centro Educacional Carneiro Ribeiro”, mais conhecido por “Escola Parque”, pioneiro ao implantar a educação em tempo integral, e que serviu de modelo para os futuros CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública), criados por Darcy Ribeiro no Rio Janeiro .

Em 1951 criou e dirigiu a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (atual CAPES, que deixou de ser uma campanha para virar uma coordenação), com a finalidade de “assegurar pessoal especializado em quantidade e qualidade para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e privados que visam ao desenvolvimento do país”. No ano seguinte, dirigiu o INEP-Instituto de Estudos Pedagógico e criou o CBPE-Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Em meados da década de 1950 tornou-se uma personalidade conhecida em âmbito nacional com seu livro “A educação e a crise brasileira”, publicado em 1956. Foi presidente da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência em duas gestões: 1955-57 e 1958-59. No final da década, participou ativamente dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases, promulgada em 1961. Logo que Juscelino Kubitschek assumiu o compromisso de fundar Brasília, convidou-o para organizar o plano educacional da nova capital, enquanto Darcy Ribeiro, Ministro da Educação e Cultura, foi designado para criar a UnB-Universidade de Brasília. O jovem Darcy logo tornou-se seu discípulo e deixou-o como reitor da UnB quando assumiu a chefia da Casa Civil, em junho de 1963. Em abril de 1964, com o Golpe Militar, foi obrigado a deixar o País e foi morar nos EUA.

No inicio foi contratado como professor visitante da Universidade de Columbia, em 1964. No ano seguinte passou a lecionar na Universidade de Nova Iorque e depois na Universidade da Califórnia. De volta ao Brasil, em 1966, trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, colaborando na criação do Instituto de Estudos Avançados em Educação, centrado na formação de pessoal em nível de pós-graduação. Era um visionário apaixonado pela educação, que planejava a longo prazo. Em princípios da década de 1970, foi incentivado por amigos a entrar para a Academia Brasileira de Letras e passou a visitar alguns amigos acadêmicos na busca de votos. Após a visita ao amigo Aurélio Buarque de Holanda, Anísio desapareceu. A família passou a procurá-lo e foi informada pelos militares que ele se encontrava detido. Na ditadura do governo Médici era comum o desaparecimento de desafetos políticos e o discurso de Anísio era um incômodo: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública”

Após longa busca pelos quartéis, seu corpo foi encontrado no fosso de elevador do prédio onde residia Aurélio Buarque de Holanda. Não havia sinas de queda, nem hematomas. A versão oficial foi de que sofreu um acidente em 11/3/1971. Apesar do laudo de morte acidental, há suspeitas de que tenha sido vítima das forças de repressão do governo Médici. 41 anos depois, o professor João Augusto de Lima, numa palestra na UnB, declarou: “Em dezembro de 1988, Luiz Viana Filho me confessou que Anísio Teixeira foi preso no dia que desapareceu e levado para o quartel da Aeronáutica, numa operação que teve como mentor o brigadeiro João Paulo Burnier, figura conhecida do regime militar e que tinha o plano de matar todos os intelectuais mais importantes do Brasil na época”. Dois meses antes, o deputado Rubens Paiva também havia “desaparecido” e sua morte pelas forças da repressão só foi confirmada mais de 40 anos depois. A “Comissão Nacional da Verdade” criou em 2012 a Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade e investigou o caso até 2015. Até agora não se chegou a confirmação de assassinato.

Desde o fim da ditadura militar, sua memória e legado vêm sendo resgatados. Começou em grande estilo com sua estampa impressa na cédula de mil Cruzeiros Reais, em 1/10/1993. Em 1998 foi criada, em Caetité, a Fundação Anísio Teixeira, na casa onde nasceu, cujo objetivo, é preservar e divulgar seu pensamento e obra, além de promover o desenvolvimento regional do ponto de vista da educação e da cultura. A entidade abriga Centro de Memória, Biblioteca Pública, Cine-Teatro, Oficina de Arte-Educação, Sala de Cultura Digital e um pátio externo para eventos culturais e educativos. A fundação é presidida por sua filha Anna Cristina Teixeira Monteiro de Barros e o dia de seu nascimento, 12 de julho, é feriado municipal. A CAPES concede anualmente o “Prêmio Anísio Teixeira” à quem contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa e formação de recursos humanos no Brasil e é considerado uma das mais importantes condecorações na área de educação.

Em termos bibliográficos, deixou um legado precioso, que até hoje vem sendo consultado: Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação da escola (1968); Educação no Brasil (1969), Educação e o mundo (1977), publicados pela Cia. Editora Nacional; Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969 (1989), publicado pela Editora da FGV e Educação não é privilégio. 5ª ed. (1994), Educação para a democracia: introdução à administração educacional. 2ª ed. (1997), Educação é um direito. 2ª ed. (1996) e Educação e universidade (1998), publicados pela Editora da UFRJ. A Universidade Federal da Bahia mantém a Biblioteca Virtual Anísio Teixeira à disposição do publico na Internet. Clique aqui para acessar.

Atualmente seu nome denomina duas instituições dedicadas à educação e à formação de professores: INEP-Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Brasília) e IAT-Instituto Anísio Teixeira (Salvador).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pe. Anchieta

José de Anchieta nasceu em 19/3/1534, nas Ilhas Canárias, Espanha. Padre jesuíta, gramático, dramaturgo, poeta, historiador e patrono da cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música. Reconhecido como o Apóstolo do Brasil e um dos fundadores das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, foi declarado co-padroeiro do Brasil, em 2015, na 53ª Assembleia Geral da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e canonizado em 2014, após um processo que durou 417 anos, contando as interrupções.

Criado numa rica família basca, seu pai fazia oposição ao imperador Carlos V e por isto teve que se refugiar nas Ilhas Canárias. Aos 14 anos ingressou no curso de filosofia, na Universidade de Coimbra, e entrou na Companhia de Jesus em 1551. Foi enviado para o Brasil, em 1553, pelo próprio (santo) Inácio de Loyola, o fundador da Companhia. Aportou em Salvador e 3 meses depois foi para a capitania de São Vicente encontrar-se com o Pe. Manoel da Nóbrega. Juntos chegaram ao planalto de Piratininga em 24/1/1554 e no dia seguinte celebraram a primeira missa no povoado, que contava com apenas 130 pessoas. Assim deu-se a fundação de São Paulo na data comemorativa da conversão deste Apóstolo.

Aí foi criado o primeiro colégio dos jesuítas na América, onde passou a viver e trabalhar bastante na catequização dos índios. Ensinou-lhes a língua portuguesa e aprendeu linguagem tupi-guarani; compôs uma gramática própria; escreveu um catecismo e várias peças de teatro e hinos. Consciente da forte impressão que a música produzia nos índios, utilizava-se de canções para a catequese. Escrevia nos idiomas português, latim e tupi-guarani e sua primeira obra Arte da gramática da língua mais falada na costa do Brasil, foi publicada em Coimbra, em 1595. Em 1563, junto com o Pe. Nóbrega negociou a paz entre portugueses e os índios tamoios, que invadiram a colônia de São Vicente. Como prova de seu desejo de paz, entregou-se como refém aos índios e ficou alguns meses entre eles, enquanto a paz era negociada pelo Pe. Nóbrega com a Confederação dos Tamoios. Foi nesse período que escreveu seu famoso Poema à Virgem Maria nas areias da praia, em Ubatuba.

Conseguida a “Paz de Iperoig” com os índios, retomou às missões, sempre atento à educação e saúde dos índios e colonos. Ele mesmo padecia de tuberculose óssea, que lhe causou uma escoliose, agravada durante o noviciado. Além da atividade religiosa, teve participação política na luta contra os franceses que invadiram a baía da Guanabara. Em 1566 foi à Salvador convencer o governador Mem de Sá a enviar tropas para o Rio de Janeiro. Sobre este embate, escreveu “De gestis Mendi de Saa” (Os feitos de Mem de Sá), livro publicado em Coimbra, em 1563. Na ocasião foi ordenado sacerdote na Catedral de Salvador, aos 32 anos. No ano seguinte, partiu com o Pe. Nóbrega para o Rio de Janeiro para fundar mais um colégio, do qual foi reitor no período 1570-1573.

Em seguida retornou à São Vicente para catequisar os índios tapuias. Nesse meio tempo redigiu longos relatórios aos superiores sobre sua atividades, repletos de informações sobre os costumes indígenas, a flora, a fauna, o clima e a geografia brasileira. Tais escritos levaram-no a ser considerado um dos primeiros antropólogos e naturalistas do Brasil. Sua vasta obra só foi totalmente publicada no Brasil em meados do século XX. Em 1997, nas comemorações do IV Centenário do seu falecimento, foi publicado o catálogo “Anchieta: obras na Biblioteca Nacional”, onde constam as referências bibliográficas de 42 títulos de sua autoria, 88 títulos de ensaios e biografias e 190 artigos de periódicos sobre ele, excluindo as obras raras e musicais.

Em 1577 foi nomeado superior provincial da Companhia de Jesus no Brasil, onde permaneceu até 1588, e empreendeu diversas viagens pelo País, desde Cananeia até o Recife, para acompanhar as várias missões já instaladas. Tais missões se estenderam até o Paraguai e Argentina. Na época havia 140 missionários da Companhia no Brasil, os quais Anchieta visitava duas vezes por ano enquanto ia criando escolas e casas de caridade, como a Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro, fundada em 1582, para dar assistência aos doentes e às vítimas das frequentes epidemias. Após deixar o cargo de superior provincial, foi reitor do Colégio dos Jesuítas de Vitória até 1595. Com a saúde abalada, pediu dispensa de suas funções e foi viver em Reritiba (atual Anchieta), onde veio a falecer em 9/6/1597 e sepultado em Vitória.

Durante as solenidades do funeral foi reconhecido como o “Apóstolo do Brasil” e iniciado o processo de canonização, interrompido em 1634, quando foi decretado a espera de 50 anos para tal. Em 1647 o processo é retomado e 5 anos após foi declarado “Servo de Deus” pelo papa Inocêncio X. Novas interrupções surgem até 1736, quando suas “Virtudes Heróicas” foram declaradas pelo papa Clemente. Em 1773 a Companhia de Jesus é suspensa por 100 anos, devido a perseguição do Marquês de Pombal. O processo só foi reaberto no século seguinte e, finalmente, foi beatificado em 1980 pelo papa João Paulo II e canonizado em 2014 pelo papa Francisco, através de uma “canonização equivalente”. Isto se dá quando o Papa reconhece e ordena culto público universal a um Servo de Deus, sem passar pelo processo regular de canonização formal, porque a veneração ao santo já vem sendo feita desde os tempos antigos e continuamente pela Igreja.

Na homilia, o papa Francisco disse: “ele, juntamente com Nóbrega, é o primeiro jesuíta que Inácio de Loyola envia para a América. Um jovem de 19 anos… Era tão grande a alegria que ele sentia, era tão grande o seu júbilo, que fundou uma Nação: lançou os fundamentos culturais de uma Nação em Jesus Cristo”. O Santo Pe. Anchieta conta com 2 santuários: um na cidade onde nasceu, em San Cristóbal de La Laguna, Ilhas Canárias e outro na cidade de Anchieta, no estado do Espírito Santo, fundada por ele. Em 2015 o local, formado pela Igreja Nossa Senhora da Assunção e pelo Museu Nacional São José de Anchieta, foi declarado “Santuário Nacional”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASLEIRAS: Santa Paulina

Amabile Lúcia Visintainer nasceu em Vigolo Vattaro, Trento, Itália, em 16/12/1865. Religiosa fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, canonizada em 2002. Veio para o Brasil aos 10 anos e tornou-se a primeira santa brasileira, recebendo o nome de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus.

Criada numa família humilde de 14 filhos, que em 1875 emigrou para o sul do Brasil e passou a viver na região de Santa Catarina no vilarejo de Vigolo, atual cidade de Nova Trento, onde ficaram todos os tiroleses. Desde jovem dedicou-se aos serviços religiosos de sua paróquia, sempre junto a sua amiga Virginia Rosa Nicolodi e fizeram a primeira comunhão em 1877. As duas amigas atraíram a atenção do padre jesuíta Augusto Servanzi, pela dedicação à paróquia e presteza no atendimento aos mais necessitados. Logo passaram a lecionar o catecismo às crianças, ajudar os doentes e na manutenção da capela. Em pouco tempo Amabile e Virginia passaram a ficar conhecidas de todos os tiroleses da região. Aos 14 anos, numa conversa com o Padre Servanzi, foi-lhe perguntado se gostaria de ser irmã. A resposta foi objetiva: “é a minha mais ardente aspiração”.

O padre se comprometeu a ajudá-la em seu empenho e tornou-se seu guia vocacional. Sua amiga Virginia logo foi envolvida no sonho de se dedicarem ao ideal religioso e se influenciaram mutuamente. Em pouco tempo as duas tornaram-se catequistas, sacristãs e enfermeiras, na condição de “freiras-leigas” no período 1880-1890. Em 1887, com o falecimento da mãe, sua jornada de trabalho foi redobrada com o serviço caseiro, sem abrir mão do serviço assistencial. No ano seguinte teve um sonho, onde a Virgem Maria lhe apareceu e ordenou que fizesse uma obra, na qual “trabalharás pela salvação de minhas filhas”. O sonho ocorreu mais duas vezes e ela se comprometeu com Nossa Senhora em “se esforçar o máximo que eu puder”. Em seguida, conversou com seu pai sobre os sonhos, envolveu o pároco na empreitada e construíram um barracão ao lado da capela, onde improvisaram um “hospital” e as duas amigas passaram a cuidar de doentes desamparados e da instrução de crianças carentes.

Logo surgiu uma mulher com câncer, em estado terminal, que foi amparada pelas amigas em 12/7/1890. A data marcou a fundação do “Ospedaletto di San Vigilio” (Hospitalzinho de São Virgilio), que viria a se tornar a primeira congregação religiosa feminina do Brasil. Em 1894, o “hospitalzinho” foi transferido para a cidade de Nova Trento, num terreno doado pelos benfeitores João Valle e Francisco Sgrott e a obra prossegue em bases mais sólidas ampliando o número de atendimentos. Em seguida as amigas fizeram um retiro espiritual de 8 dias, uma espécie de estágio seguindo instruções de Santo Ignácio de Loyola, antes de se dedicar à vida religiosa. Em 1895 a entidade foi reconhecida como instituição religiosa, social e assistencial pelo bispo de Curitiba e no mesmo ano juntou-se outra jovem –Teresa Maule-, que juntas fizeram os votos religiosos. Na ocasião Amabile adotou o nome de irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus e foi nomeada superiora da instituição. O trabalho e a dedicação destas jovens atraíram outras para o trabalho assistencial, que evoluiu para um orfanato e uma pequena indústria de seda como forma de sobrevivência e manutenção das obras de caridade.

A congregação logo passou a ser reconhecida na região e foi se espraiando. Pouco depois, o padre Luigi Maria Rossi, pároco de Nova Trento e amigo das irmãs, foi transferido para São Paulo e passou a envidar esforços para trazer madre Paulina e suas irmãs afim de dar continuidade a incipiente congregação. Para isso, fez contatos com o bispo de São Paulo e figuras da sociedade paulista, tal como José Vicente de Azevedo, que tinha planos de criar uma instituição de auxílio às crianças descendentes de negros e idosos inválidos ex-escravos. Contatou também as irmãs da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor. Em 1903 as irmãs chegaram em São Paulo e foram instaladas no bairro do Ipiranga para estabelecer a congregação. Logo iniciaram a obra com o “Asilo Sagrada Família”, abrigando ex-escravos e suas famílias jogadas nas ruas após a abolição, em 1888. A obra progrediu bastante e rápido, dado o crescente número de famílias desamparadas. O progresso da Congregação foi se consolidando com a chegada de mais jovens religiosas.

Em meados da primeira década de 1900 entra em cena uma importante senhora da sociedade paulista, viúva, rica e disposta a se tornar benemérita da Instituição Sagrada Família, que mantém o Asilo. Trata-se de Ana Brotero de Barros, que passa a ajudar a instituição com recursos próprios e do governo, onde mantinha contatos políticos. Além disso, contribuiu para inserir a recente congregação no seio da sociedade paulistana. Com apoio do bispo Dom Duarte Leopoldo e Silva e do padre Rossi, mentor das irmãs da congregação, tornou-se presidente da Instituição Sagrada Família, em 1908, A partir daí surgiram divergências entre a madre-superiora da congregação (Madre Paulina) e a presidente da instituição, que estava mais interessada em ampliar as instalações físicas da entidade. Tais divergências levaram ao exilio da Madre Paulina, em 1909, pelo bispo de São Paulo, Dom Duarte, que a mandou para Bragança Paulista, onde foi atuar na Irmandade Santa Casa de Misericórdia e lá ficou por 9 anos.

No entanto não se desligou da congregação por completo, e passou a ajudar a substituta no cargo de madre superiora, sua amiga Irmã Vicenza. Claro que tal ajuda se fazia de modo informal, por cartas, sem que o bispo de São Paulo soubesse. Pois sua determinação era firme em manter a congregação independente de sua pessoa, como ficou confirmado numa destas cartas: “Só tenho a dizer isto: Estou contentíssima de que os outros consigam fazer o que eu, por justos planos divinos, não pude conseguir, sejam louvadas e eu fique à sombra e seja esquecida”. Após 9 anos de “exílio”, foi criado o Colégio Sagrada Família, junto a congregação como forma de subvencionar a instituição, em 1918. Nesta época a Sra. Ana Brotero não estava mais em cena; a congregação encontrava-se noutro patamar e exigindo uma administração mais condizente com seus objetivos. Neste instante, o mesmo bispo que a exilou, chama-a de volta à comandar os destinos da congregação.

Enquanto isso, sua doença (diabetes) progride até 1938, quando tem inicio um período de grandes sofrimentos físicos. Seu braço direito teve que ser amputado, seguido de outras amputações até ficar cega. Foram 4 anos de sofrimentos e de testemunho de fé. Ela permaneceu firme, louvando ao Senhor por tudo e sendo cada vez mais admirada pelas irmãzinhas. Por fim, veio a falecer em 9/7/1942. O papa João Paulo II celebrou sua beatificação em 8/10/1991, em visita a Florianópolis. A canonização se deu em 19/5/2002 pelo mesmo Papa. O Santuário Santa Paulina, em Nova Trento, foi idealizado logo após a beatificação. A construção numa área de 9 mil m² iniciou em 2003 e foi inaugurado em 22/1/2006, com um templo de 6.740 m². com capacidade para 3 mil pessoas sentadas e 3 mil em pé. Uma boa hagiografia da santa foi escrita pela Irmã Célia B. Cadorin: Ser para os outros: perfil biográfico de Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus (Amábile Visintainer) 1865-1942, publicada pelas Edições Loyola, em 2001.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Frei Galvão

Antônio de Sant’Ana Galvão nasceu em Guaratinguetá, SP, em 10/5/1739. Frade e primeiro santo brasileiro, conhecido pelo seu poder de cura, é o padroeiro dos engenheiros, arquitetos e construtores. Sua canonização, em 11/5/2007, foi postulada pela Irmã Célia Cadorin, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, com apoio do Cardeal-Arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. Além de religioso, foi pioneiro como acadêmico ao integrar a “Academia dos Felizes”, a primeira academia de letras do Brasil, em São Paulo, em 1770.

Criado numa família da aristocracia colonial portuguesa, seu pai – Antonio Galvão de França- era Capitão-Mor e comerciante. A mãe – Isabel Leite de Barros – era filha de fazendeiros, descendente do bandeirante Fernão Dais Paes. Passou a infância em Guaratinguetá e, aos 13 anos, foi estudar no Colégio de Belém (jesuíta) em Cachoeira (BA), onde já estudava seu irmão. Aí ficou até 1756 e queria ser padre jesuíta, mas a perseguição do Marquês de Pombal contra esta Ordem, acabou levando-o ao Convento Franciscano de Taubaté. Abdicou de um futuro promissor, tendo em vista a influência política e econômica da família, e entrou no Convento de São Boaventura de Macacu, em Itaboraí, RJ.

Aluno brilhante durante o noviciado, fez sua profissão de fé em 16/4/1761 e defendeu o título de “Imaculada” da Virgem Maria, na época um tema polêmico. Ordenou-se sacerdote no ano seguinte e mudou-se para São Paulo, onde continuou os estudos de teologia e filosofia no Convento de São Francisco. Na viagem, fez uma parada em Guaratinguetá e celebrou sua primeira missa na Matriz de Santo Antônio, onde foi batizado. Em 1768 foi nomeado professor e porteiro do Convento, importante cargo. Era também respeitado pela Câmara Municipal e admirado pelo governador da Capitania Dom Luis Antônio de Sousa Botelho e Mourão.

Em 1770, o governador querendo copiar as academias literárias que iniciavam na Europa, fundou a “Academia dos Felizes”, nossa primeira instituição dedicada às letras. Frei Galvão foi um dos primeiros convidados a integrá-la, onde declamou, em latim, 16 peças, 2 hinos, 1 ode e 12 epigramas de sua autoria louvando Santa Ana e o governador da Capitania de São Paulo. Tal participação foi registrada no artigo de Enio Aloisio Fonda – Academia dos Felizes (1770) e a poesia latina de Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, religioso franciscano -, publicado na Revista de Estudos Brasileiros, nº 13, 1972. Como se vê, Frei Galvão também tinha seus dotes literários.

Por essa época, atuou como confessor no “Recolhimento de Santa Teresa”, onde conheceu a freira Irmã Helena Maria do Espirito Santo, que afirmava ter visões onde Jesus lhe pedia para fundar um novo “Recolhimento” Frei Galvão estudou as mensagens, consultou outros religiosos e concluíram como validas tais visões. A partir daí, contando com seus amigos no governo da província, projetou e deu inicio a construção do novo Recolhimento, chamado “Nossa Senhora da Luz”, fundado em 2/2/1774. Era um lar para meninas que queriam levar uma vida sem fazer votos. No ano seguinte tornou-se diretor e líder espiritual das irmãs. Pouco depois o governo da Província foi substituído, provocando o fechamento do convento. Mas as freiras se recusaram a abandonar o local e, devido à pressão popular e da igreja, o convento foi reaberto. Com a reabertura recebeu crescente número de novas irmãs, obrigando o Frei a fazer uma ampliação, incluindo a construção de uma igreja, inaugurada em 1802. Tal conjunto resultou no “Mosteiro da Luz”, que hoje abriga o Museu de Arte Sacra, uma das maiores coleções do País.

Tempos depois o filho do Capitão-mor da Província foi ofendido por um soldado, que foi condenado a morte. O Frei saiu em sua defesa e por isso foi expulso da cidade. Mais uma vez, a pressão popular revogou a ordem e trouxe o Frei de volta ao Mosteiro. Em 1781, foi nomeado mestre dos noviços em Macacu (RJ). Mas, o bispo de São Paulo, Manuel da Ressurreição, escreveu ao superior provincial: “nenhum dos habitantes desta cidade será capaz de suportar a ausência deste religioso por um único momento”. Assim, ele foi mandado de volta para São Paulo. Em seguida foi nomeado guardião do Convento de São Francisco (1798), sendo reeleito em 1801. Em princípios do século XIX esteve em Sorocaba numa reunião com os religiosos da cidade e foi constatado o progresso da cidade com seus tropeiros. Na ocasião foi lhe solicitado a erguer ali mais um convento e em 1811 fundou o Convento de Santa Clara, onde passou quase um ano.

De volta ao Convento de São Francisco, já idoso, pediu permissão ao bispo Mateus de Abreu Pereira e ao seu tutor para ficar no Mosteiro que ajudou a criar. Veio a falecer em 23/12/1822 e foi sepultado na igreja do Mosteiro, onde seu túmulo até hoje é visitado pelos fiéis favorecidos pela sua intercessão. Na época, a fama de santo já havia se espalhado por todo o País. As pessoas que foram ao seu velório, na ânsia de obter uma relíquia, foram cortando pedaços de seu hábito, que ficou reduzido até a altura dos joelhos. A primeira lápide do túmulo teve o mesmo destino, sendo aos poucos levada pelos devotos. As pedras da lápide eram colocadas em copos d’água para tratar os enfermos.

Alguns fenômenos místicos lhe são atribuídos, como telepatia, premonição, levitação e bilocação. Consta que ele se fazia presente em dois lugares diferentes ao mesmo tempo para cuidar de enfermos que pediam sua ajuda. Certa vez escreveu num pedaço de papel uma frase em latim do Ofício de Nossa Senhora (“Após o parto, permaneceste virgem: Ó Mãe de Deus, intercedei por nós”). Enrolou o papel no formato de uma pílula e deu-o a uma jovem com fortes dores renais. Logo após tomar a “pílula”, a jovem expeliu certa quantidade de cálculo renal e a dor cessou Imediatamente. Noutra ocasião deu outra “pílula” de papel à uma mulher que passava por um parto difícil e a criança nasceu sem maiores complicações. As “pílulas do Frei Galvão” ficaram famosas e ele ensinou as irmãs do Mosteiro a fabricá-las para distribuição gratuita, o que é feito até hoje no Mosteiro. Mas o local de peregrinação do fieis fica em Guaratinguetá, no Santuário Frei Galvão, inaugurado em 12/10/1983.