JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Alzira Soriano

Luiza Alzira Teixeira Soriano nasceu em 29/4/1897, em Jardim de Angicos, RN, na época um distrito de Lages. Política e primeira mulher prefeita de uma cidade na América Latina numa época em que o “Feminismo” engatinhava. Assim, deu provas de sua condição com base em fatos e atitudes muito além das palavras de ordem e proclamas provenientes de uma necessidade do meio social.

Filha de Margarida de Vasconcelos e Miguel Teixeira de Vasconcellos, coronel da Guarda Nacional e líder politico regional, casou-se aos 17 anos com um promotor público, com quem teve 4 filhas e faleceu 4 anos depois vitimado pela Gripe Espanhola, em 1919. Alzira contava com 22 anos; estava grávida da quarta filha e voltou a morar na fazenda dos pais. Em seguida foi morar no Recife, afim de educar melhor as filhas, na casa da sogra. Porém, não se deu bem e retornou à Jardim de Angicos. Passou a administrar a fazenda e participava das reuniões políticas promovidas por seu pai. Nestas reuniões, chamou a atenção do governador Juvenal Lamartine de Faria e da líder feminista Bertha Lutz, que lá se encontrava justamente para propor uma candidatura feminina.

Lembremos que o Rio Grande do Norte foi o primeiro estado do Brasil a instituir o voto feminino em 1927 e Bertha Lutz foi líder feminista, fundadora da “Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher”, em 1919 e pioneira na luta pelo sufrágio feminino.

Contando com o apoio do pai, de Lamartine e Bertha Lutz, aceitou disputar a prefeitura de Lages como candidata do Partido Republicano em 1928. Durante a campanha sofreu todo tipo de preconceito e difamação. Chegaram a dizer que ela tinha um caso com o governador. Achavam, também, que pelo fato de querer ser uma “mulher pública”, poderia ser uma prostituta.

Foi eleita, em 1929, com mais de 60% dos votos e o fato revelou-se num fenômeno mundial, noticiado no jornal New York Times. O adversário político -Sérvulo Pires Neto Galvão- envergonhado por ter perdido a eleição para uma mulher, abandonou a política e a própria cidade. Seu governo foi responsável pela construção de estradas, mercado público, escolas e a implantação da iluminação pública a vapor. Na eleição presidencial de 1930, apoiou o paulista Júlio Prestes. Porém, com a Revolução de 1930 e o “Estado Novo”, que levou Getúlio Vargas ao poder, os prefeitos de todo o país foram substituídos por interventores.

Apesar de ser convidada a permanecer na prefeitura, não aceitou o cargo de interventora municipal. Antes de deixar o cargo, visitou seus eleitores para agradecer o apoio recebido. Conta a história que um de seus opositores ao vê-la na rua, passou a cantarolar versos contra ela. Sua reação consistiu nuns tapas na cara do opositor, quebrando-lhe os óculos. Em casa e repreendida pela família, revelou que “só tive essa reação por que disse o que faria e não quis bancar a covarde”.

Mudou-se para Natal em 1932, onde as filhas foram estudar; retornou à fazenda Primavera e reconstruiu sua atividade política. Em 1947 foi eleita vereadora de Lajes pela UDN-União Democrática Nacional. Na época enfrentou opositores políticos até em sua família, incluindo o irmão caçula, eleito prefeito. Mas os laços familiares se mantiveram intactos. Foi reeleita vereadora de Lajes por mais dois mandatos e presidiu a Câmara Municipal. Em fins de 1961, descobriu um câncer no útero e foi se tratar no Rio de Janeiro. A doença estava em estado avançado e retornou à Natal, onde veio a falecer em 28/5/1963, aos 66 anos.

Hoje o desenho de seu retrato encontra-se no brasão da bandeira do Município de Jardim de Angicos e é reconhecida como pioneira da participação política da mulher no Brasil. Em 2008, a cidade de Lages instituiu a “Semana Alzira Soriano”, evento anual para concentrar estudos e debates sobre a defesa dos direitos da mulher e sua participação política. Em 2018, a Prefeitura de Jardim de Angicos adotou a data de seu nascimento como feriado municipal.

No mesmo ano recebeu, como homenagem póstuma, o “Diploma Mulher-Cidadã Carlota Pereira de Queiróz”, da Câmara dos Deputados. Ainda não dispomos de uma biografia disposta a relatar todos seus feitos e legado no mundo da Política municipal, aquela mais ligada ao eleitor. Mas podemos contar com um trabalho acadêmico de conclusão de curso de licenciatura em História – A primeira prefeita brasileira Alzira Soriano: o poder político coronelístico, Lages/RN, 1928 – Trata-se de uma pesquisa, digna de uma dissertação de mestrado, desenvolvida por Isabel Engler e apresentada na UFFS-Universidade Federal da Fronteira Sul, em 2019, disponível no link ENGLER.pdf (uffs.edu.br)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Prudente de Moraes

Prudente José de Moraes Barros nasceu em 4/10/1841, em Mairinque, SP. Advogado, político e primeiro presidente civil do Brasil (1894-1898), numa eleição direta. Com ele dá-se a ascensão da oligarquia cafeicultora de São Paulo no poder político nacional e a consolidação da Repúlica, que manteve-se em constante disputa após sua proclamação em 1889.

Filho de Catarina Maria de Moraes e José Marcelino de Barros, foi descendente dos primeiros colonizadores de São Paulo. Ficou órfão do pai aos 5 anos; graduou-se advogado em 1863 e passou a exercer a profissão em Piracicaba por 2 anos. Ingressou na politica e elegeu-se vereador em 1865. Na condição de mais votado, assumiu a presidência da Câmara Municipal. Em 1866 casou-se com Adelaide Benvinda Gordo e tiveram 9 filhos. A casa onde viveram, atualmente sedia o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes. Como vereador conseguiu mudar o nome da cidade de Vila Nova da Constituição para Piracicaba, um nome indígena que significa “lugar onde moram os peixes”.

Na eleição seguinte foi deputado provincial (1868-1869) pelo Partido Liberal. Abraçou a causa republicana em 1876 e a causa abolicionista em 1886. Com a proclamação da República, em 1889, passou a integrar a junta do Governo de São Paulo e logo governador do Estado até 1890 No ano seguinte foi eleito senador, exercendo a presidência da Assembleia Nacional Constituinte e a vice-presidència do Senado (1891). Neste ano disputou a presidência com Deodoro da Fonseca, numa eleição indireta, e perdeu. Porém, assumiu a presidência do Senado até 1894, quando foi eleito presidente da República numa eleição direta. Governou o País até 1898 e passou chefiar o Partido Republicano Dissidente.

Em plena crise econômica, em decorrência da política do “encilhamento”, enfrentou intensa oposição política, liderada por militares florianistas; pelo Partido Monarquista que buscava se reorganizar; e por parcelas dos setores médios da população, além da Revolta Federalista no Rio Grande do Sul em 1893-95. Em 1896 licenciou-se do cargo por motivo de saúde, agravando a crise política, que passou a ser enfrentada pelo vice Manuel Vitorino, aliado de Floriano. A crise agiganta-se com a eclosão da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, liderada por Antonio Conselheiro, e vista como uma reação da Monarquia. Na verdade, era apenas um movimento messiânico pregando uma vida ascética, que atraiu uns 30 mil sertanejos.

Os revoltosos venceram as tropas da Bahia e mobilizou o Exército a enviar tropas federais, sendo vencidas em duas batalhas. A batalha final deu-se em agosto de 1897 com a devastação do arraial de Canudos por uma expedição do Exército de 8 mil homens, equipada com canhões. A batalha resultou numa carnificina denunciada por Euclides da Cunha em seu livro Os Sertões. Pouco depois o presidente reassume o governo na nova sede do governo, o Palácio do Catete. Em 5/11/1897, na recepção dos batalhões que retornavam de Canudos, sofreu um atentado cometido por um soldado, que resultou na morte do ministro da Guerra Marechal Bittencourt. Foi decretado o “estado de sítio” no Distrito Federal, livrando-se dos oposicionistas mais radicais.

Não obstante o período conturbado de seu governo, conseguiu êxitos em questões fundamentais para o País: restabeleceu as relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano durante a Revolta da Armada; assinou o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com o Japão, com o objetivo de fomentar a vinda de imigrantes japoneses; enfrentou a questão diplomática com os ingleses, que tomaram posse da Ilha da Trindade e com a França, que invadiu o Amapá. Nestas questões, valeu-se sempre do arbitramento internacional, contando com os governos de Portugal e Suiça, e foram resolvidas favoravelmente ao Brasil. Obteve sucesso, também, na questão dos limites com a Argentina, arbitrada pelo presidente dos EUA e comandada pelo Barão do Rio Branco.

Não menos fáceis foram as questões econômico-financeiras, herdadas da crise do encilhamento, acentuadas em sua administração, devido aos gastos militares, aumentando as dívidas com os credores estrangeiros. Assessorado por seus ministros da Fazenda, Rodrigues Alves e Bernardino de Campos, negociou com os banqueiros ingleses a consolidação da dívida externa. Ao fim de seu mandato em 15/11/1898, gozava de grande popularidade e passou o cargo ao sucessor Campos Sales. Retornou à Piracicaba e retomou a advocacia até 3/12/1902, quando veio a falecer vitimado por uma tubeculose.

Escreveu, entre outros textos, Orçamento e política geral (1888), Projeto de impostos sobre escravos (1888) e A nação brasileira (1894), além dos discursos e um belo manifesto ao assumir, como primeiro civil, a presidência da jovem República Brasileira. Foi homenageado com seu nome dado à cidades em 3 estados: Presidente Prudente (SP), Prudentópolis (PR) e Prudente de Morais (MG). Entre suas biografias, destacam-se Prudente de Moraes: uma vida marcada (1971), de Antonio Barreto do Amaral, Biografia de Prudente de Moraes (s.d.), da Academia Piracicabana de Letras e Os Presidentes: Prudente de Moraes (1983), de Hélio Silva.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Antonieta de Barros

Antonieta de Barros nasceu em 11/7/1901, em Florianópolis, SC. Professora, jornalista e política, foi a primeira mulher negra brasileira a ocupar um mandato como deputada e uma das primeiras mulheres eleitas no Brasil. Batalhou pela emancipação feminina, pela educação de qualidade e pelo reconhecimento da cultura negra no Sul do País.

Filha da lavadeira Catarina de Barros e Rodolfo de Barros, ficou órfã do pai ainda criança. A mãe era empregada na casa do político Vidal Ramos, pai de Nereu Ramos, futuro presidente da República. Sua irmã e seu irmão foram ativistas no incipiente movimento negro local. Em seguida a mãe criou uma pensão para estudantes em sua casa, criando um ambiente propício à alfabetização dos filhos.

Teve os primeiros estudos na Escola Lauro Miller e aos 17 anos ingressou na Escola Normal Catarinense. Colaborava na edição da revista da escola e presidiu o Grêmio Estudantil. Diplomada professora em 1921, criou no ano seguinte o “Curso Particular Antonieta de Barros” em sua casa, voltado à população carente. Queria ser advogada, mas o curso de Direito era vedado à mulher. Mais tarde lecionou na escola onde fez o curso primário, no Colégio Coração de Jesus e na escola onde se formou professora, na qual foi diretora nos anos 1944-51, quando foi exonerada por motivos políticos. Além do magistério, teve atuação destacada como jornalista e escritora. Fundou e dirigiu o jornal A Semana entre os anos 1922-27, conseguindo com isto outro pioneirismo: a primeira mulher negra a exercer o jornalismo.

Suas crônicas tratavam das questões ligadas à educação, condição feminina, desmandos políticos e preconceito. Em 1930 dirigiu a revista Vida Ilhoa e escrevia sob o pseudônimo “Maria da Ilha”. Em 1937 reuniu algumas de suas crônicas e publicou o livro Farrapos de Ideias. Participou da Associação Catarinense de Imprensa e passou a trocar correspondência com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, através de sua fundadora, a bióloga Bertha Lutz. Em 1934, na primeira eleição em que as mulheres puderam ser votadas, foi convidada pelo deputado Nereu Ramos a ingressar no Partido Liberal Catarinense e candidatar-se a Deputada.

Foi eleita deputada estadual em 1935 e ficou responsável pelos capítulos Educação e Funcionalismo na Assembleia Constituinte. Em 1937 assumiu a presidência da Assembleia Legislativa e concluiu seu mandato no mesmo ano com a instauração do “Estado Novo” e o fechamento dos parlamentos em todo o País. Voltou à política em 1947, foi eleita deputada em 1948, centrando sua atuação na área da educação. Batalhou pela concessão de bolsas de cursos superiores e magistério, dirigidos à alunos carentes e foi autora da lei estadual nº 145, de 12/10/1948, instituindo o Dia do Professor e feriado escolar no estado.

Foi vítima do preconceito e atacada pelo deputado Oswaldo Rodrigues Cabral, em 1951, quando disse que suas ideias políticas e educacionais eram uma “intriga barata da senzala”. Sua delicada resposta veio através de um artigo publicado no jornal O Estado: “Fizemos do Magistério o nosso caminho, e agimos sempre respeitando a professora que não morreu em nós, ainda, graças a Deus. Como, pois, a intriga? Compreendemos que a delicada sensibilidade do nobre Deputado tenha sofrido diante daquela frase. Sua Excelência, para a felicidade de todos quantos são arianos – apesar de portador de um diploma de jornalista – não milita no ensino público. Dizemos felicidade porque, à sua Excelência, falta uma das qualidades de professor: não distinguir raças, nem castas, nem classes”.

Aposentou-se em 1951, mas continuou lecionando até o ano seguinte, quando veio a falecer em 28/3/1952, vitimada pela diabetes. Ela passou por um processo de “apagamento histórico” até fins da década de 1990, quando a ex-senadora Ideli Salvatti iniciou o resgate de sua memória e uma série de homenagens foram e vem sendo feitas com seu nome extrapolando a fronteira de seu Estado: nome do auditório do palácio do governo, nome do programa de formação de jovens aprendizes, projeto de inclusão de seu nome no “Livro dos Heróis da Pátria”, Medalha Antonieta de Barros, comenda da Câmara Municipal, concedida a mulheres relevantes etc., além de seu nome dado à alguns logradouros de Florianópolis. Sua biografia – Antonieta de Barros: professora, escritora, primeira deputada catarinense e negra do Brasil – foi publicada em 2021 por Jeruze Romão.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ary Barroso

Ary Evangelista Barroso nasceu em 7/11/1903, em Ubá, MG. Compositor, pianista, cronista, jornalista, radialista e autor de Aquarela do Brasil, uma das músicas mais gravadas no País, que deu origem ao chamado “samba-exaltação”. Foi um grande revelador e incentivador de talentos musicais.

Filho de Angelina de Resende e do promotor público João Evangelista Barroso, perdeu os pais logo cedo e foi criado pela avó materna e pela tia Ritinha, com quem aprendeu a tocar piano, solfejo e teoria musical. Teve os primeiros estudos em sua cidade natal, Viçosa e Cataguases. Aos 12 anos iniciou como pianista auxiliar no Cinema Ideal, em Ubá, e aos 15 compôs o cateretê De longe e a marcha Ubaenses gloriosos.

Em 1920 faleceu o tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, e recebeu uma gorda herança de 40 contos de réis. No mesmo ano mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi viver sob a tutela do Dr. Carlos Peixoto. Ingressou na Faculdade de Direito aos 18 anos; conheceu e fez amizade com diversos futuros radialistas, juristas, políticos, artistas e caiu na boemia. Assim, foi reprovado no 2º ano e abandonou o curso. Logo, torrou o dinheiro da herança e teve que se empregar como pianista de cinema, teatro e diversas orquestras da cidade.

Sem largar o piano, retomou o curso de Direito, concluído em 1929. Nesse meio tempo, tocou em diversas orquestras e passou a compor: Amor de mulato, Cachorro quente e Oh! Nina em parceria com Lamartine Babo. Junto com Mario Reis compôs Vou à Penha e Vamos de deixar de intimidades, seu primeiro sucesso. No ano seguinte venceu o Grande Concurso de Música Popular, promovido pela Casa Edison e o jornal Correio da Manhã, com a marchinha Dá nela e ganhou 5 contos de réis. Aproveitou o prêmio para casar-se com Ivone Belfort de Arantes, em 1930. Pouco depois foi trabalhar na Rádio Phillips como pianista, mas logo se torna, também, locutor esportivo, humorista e animador.

Em São Paulo, comandou o programa “Hora H”, na Rádio Cosmos, logo transferido para a Rádio Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro. Na mesma Rádio foi substituir um colega como locutor esportivo e empolgou a torcida. Flamenguista fanático, irradiava o jogo ao mesmo tempo em que torcia ostensivamente, comemorando os gols de seu time ou lamentando os gols do adversário. Em 1937 lançou o programa “Calouros em desfile”, onde obrigava os candidatos a só cantarem músicas brasileiras. O sucesso do programa levou-o à grande Rádio Tupi.

Outras gravações vão surgindo até o grande sucesso Aquarela do Brasil, gravada por Francisco Alves em 1939 com arranjos e acompanhamento de Radamés Gnattali, regravada centenas vezes aqui e no exterior. Até hoje é uma das músicas que mais produz direitos autorais ne exterior. Nos EUA foi interpretada por Frank Sinatra e Bing Crosby, cujo sucesso rendeu-lhe um contrato para trabalhar em Hollywood. Compôs a trilha sonora do filme Você já foi à Bahia?, dirigido por Walt Disney e foi premiado pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, em 1944. No ano seguinte compôs a trilha sonora para a comédia musical Brazil, dirigida por Joseph Santley, indicada ao “Oscar” de 1945. Como compositor, deixou diversas músicas clássicas do cancioneiro popular: No rancho fundo (1931), Na batucada da vida (1934), No tabuleiro da baiana (1936), Na baixa do sapateiro (1938), Camisa amarela (1930), Os quindins de Yayá (1941), Risque (1952), É luxo só (1957) etc. Nas décadas de 1940 1950 tornou-se o compositor mais gravado por Carmen Miranda.

Motivado pelos amigos, ingressou na política, em 1946, e foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro, pela UDN-União Democrática Nacional. As duas causas em que mais atuou foi a construção do Estádio Maracanã e a defesa do direito autoral. Era dotado de excepcional senso de humor. Quando foi internado no hospital, diagnosticado com cirrose hepática que o vitimaria, ligou para seu amigo David Nasser, despedindo-se porque ia morrer. Nasser perguntou: “Como você sabe?”. “É que estão tocando muito minhas músicas no rádio”, respondeu tranquilo. Realmente, faleceu em 9/2/1964, num domingo de carnaval.

Segundo os críticos, Ary Barroso celebra a invenção da brasilidade mestiça da Era Vargas, quando o samba, a mulata, a ginga e a natureza tropical passam a traduzir as cores da nação. Foi homenageado pela Escola de Samba União da Ilha do Governador, em 1988, com o enredo “Aquarilha do Brasil”, contando sua história. No ano de seu centenário (2003), a Rede STV SESC SENAC produziu o documentário O Brasil Brasileiro de Ary Barroso, dirigido por Dimas Oliveira Jr., com depoimentos de diversos amigos. Sergio Cabral pesquisou sua vida e escreveu uma bela biografia – No tempo de Ary Barroso – publicada pela Lumiar Editora. Os interessados numa visão panorâmica de seu legado, podem consultar seu site oficial na Internet Ary Barroso : Vida

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carlota Queiroz

Carlota Pereira de Queiroz nasceu em São Paulo, SP, em 13/2/1892. Médica, pedagoga, escritora, historiadora e política, foi a primeira deputada federal do Brasil. Teve uma atuação diferenciada no incipiente movimento feminista e participou dos trabalhos na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1934 e 1935.

Filha de Maria Vicentina de Azevedo Pereira de Queiroz e José Pereira de Queiroz, foi diplomada professora pela Escola Normal Caetano de Campos, em 1909, onde lecionou e foi inspetora de 1910 a 1913. Logo se interessou por métodos modernos de ensino, como os sistemas Frobel e Montessori e pouco depois se entediou com a carreira. Escreveu no seu diário: “Desiludi-me com a carreira de professora. O meio era acanhado, não havia grande futuro, os melhores lugares eram dos homens. Eu aspiro a mais. Deixei o magistério público, continuando a dar aulas particulares para ter certa independência econômica”.

Em 1920 ingressou na Faculdade de Medicina da USP e no 4º ano transferiu o curso para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, vindo a diplomar-se em 1926. Sua tese -Estudos sobre o câncer- recebeu o prêmio Miguel Couto. Na volta à São Paulo, assumiu a chefia do laboratório de clínica pediátrica da Santa Casa de Misericórdia e do serviço de hematologia da Clínica de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP. Em 1929 viajou para a Suíça, na condição de comissionada pelo governo paulista, para estudar dietética infantil.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, organizou e liderou um grupo de 700 mulheres para dar assistência aos feridos. Tal participação e seu envolvimento na luta pelos ideais democráticos defendidos por São Paulo, levaram-na a ingressar na política em 1933, elegendo-se como deputada federal pelo Partido Constitucionalista. Integrou a Comissão de Saúde e Educação, trabalhando pela alfabetização e assistência social. Foi de sua autoria o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais, bem como a emenda que viabilizou a criação da Casa do Jornaleiro e a criação do Laboratório de Biologia Infantil.

Como deputada batalhou pela defesa da mulher e das crianças e, como pedagoga, reivindicou melhorias no sistema educacional. Além disso, publicou uma série de trabalhos em defesa dos direitos da mulher. Ocupou o cargo até o Golpe de 1937, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso. Em seu discurso de posse, discorreu sobre o novo papel que a mulher deveria ocupar no quadro político do País: “Além de representante feminina, única nesta Assembleia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com os seus problemas. (…) Quem observar a evolução da mulher na vida, não deixará por certo de compreender esta conquista, resultante da grande evolução industrial que se operou no mundo e que já repercutiu no nosso país. (…) E assim foi que ingressaram nas carreiras liberais. Essa nova situação despertou-lhes o interesse pelas questões políticas sociais. O lugar que ocupo neste momento nada mais significa, portanto, do que o fruto dessa evolução”.

Como integrante do IHGSP-Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, desde 1934, tinha certa predileção pela história e publicou dois livros sobre a formação de seu Estado, envolvendo sua família: Um Fazendeiro Paulista no século XIX (1965) e Vida e Morte de um Capitão-Mor (1969), ambos publicados pelo Conselho Estadual de Cultura. Na área médica integrou a Associação Paulista de Medicina, Association Française pour l’Étude du Cancer”, Academia Nacional de Medicina e Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires. Em 1950 fundou a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, da qual foi presidente nos anos seguintes.

A primeira deputada federal do País ainda não tem uma biografia p.p. dita, mas tem um biógrafa: Mônica Raisa Schpun publicou extenso artigo – Entre feminino e masculino: a identidade política de Carlota Pereira de Queiroz- nos Cadernos Pagu, nº 12 em 1999, relatando sua vida e legado. Segundo ela, Dona Carlota não era uma feminista-padrão. Ao contrário de Bertha Lutz (a segunda deputada do País), era contrária à criação do Departamento Nacional da Mulher. Ela se opôs que “seus cargos fossem preenchidos por mulheres. Cotas eram consideradas sexistas por Carlota”. Em alguns pontos “não concordava com as feministas… e se permitiu fazer política defendendo aquilo que lhe parecia mais importante”. Os interessados no artigo podem acessá-lo clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Patativa do Assaré

Antônio Gonçalves da Silva nasceu em 5/3/1909, em Assaré, CE. Poeta, compositor, cantor, violeiro e improvisador (repentista). Considerado um dos principais representantes da música popular nordestina do século XX, recebeu o epiteto “Patativa do Assaré” devido ao fato de sua poesia cantada se comparar à beleza do canto dessa ave.

Nascido numa família pobre e vivendo da agricultura de subsistência, ficou cego olho direito, aos 4 anos, deviddo ao sarampo. Aos 8 anos, com morte do pai, passou a trabalhar no sustento da família. Aos 12 frequentou a escola local, onde foi alfabetizado em 6 meses. Aos 16 anos comprou sua primeira viola e passou e cantar repentes com apresentações em festas e feiras. Aos 20 mudou-se para Belém e foi “descoberto” pelo folclorista e jornalista José Carvalho de Brito, correspondente do jornal Correio do Ceará. Apresentando-o com “Patativa”, publicou alguns poemas no jornal e no seu livro O caboclo do Pará e o matuto cearense, um capítulo sobre o jovem violeiro. Pouco depois retornou ao Ceará e incoporou o topônimo Assaré ao nome. “Patativa” é um passáro cantador conhecido na região.

Em meados de 1956, frequentava a feira de Crato e participava de um programa da Rádio Araripe, declamando seus poemas. Aí teve contato com José Arraes de Alencar, que gostou dos poemas e incentivou a edição de seu primeiro livro Inspiração nordestina, em 1956. Mais tarde saiu uma 2ª edição ampliada com o título Cantos do Patativa. Mais um lançamento se deu em 1988, com a coletânea de poemas Ispinho de fulô. Ao todo lançou 12 livros, alguns deles em pareceria ou organizado por Geraldo Gonçalves de Alencar. A fama vai se alargando no encontro com outro ícone nordestino: Luiz Gonzaga gravou sua toada A triste partida e deu o titulo ao seu novo LP em 1965.

Mais tarde, em 1973, Fagner gravou o poema O vaquêro com o nome Sina, sem lhe dar o crédito. Porém retratou-se e tornaram-se amigos, vindo a autorizar Fagner gravar Vaca estrela e boi fubá, em 1980, cantada em dupla com Luiz Gonzaga. Em 1970 lançou uma nova coletânea Patativa do Assaré: novos poemas. O livro que o tornou mais conhecido viria em 1978 com Cante lá que eu canto cá, apresentado na programação cultural do encontro da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 1979. No mesmo ano se apresentou no Teatro José de Alencar, num espetáculo produzido por seu conterrâneo Fagner, que editou o show e lançou o LP Poemas e canções pela gravadora CBS.

A partir daí ficou conhecido no meio intelectual e estudantil, com presença constante em eventos artisticos. No mesmo ano lançou seu primeiro disco “Poemas e canções”, produzido por Fagner. A amizade entre o poeta e o cantor foi consolidada em apresentações, como no Festival de Verão de Guarujá e no Memorial da América Latina, em 1981. Neste ano esteve no programa “Som Brasil”, da TV Globo, apresentado por Rolando Boldrin. Em 1985 Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento e Fagner musicam seu poema Seca d’água, em solidariedade aos flagelados das enchentes no Nordeste. No mesmo ano, o Banco do Estado do Ceará lançou um disco com seus poemas. Em 1989 foi lançado o LP Canto Nordestino, produzido por Rosemberg Cariry. Seus últimos lançamentos foram o livro Aqui tem coisa e o LP 85 anos de poesia, em 1994. Faleceu em 8/7/2002.

Não obstante a popularidade alcançada, costumava dizer que nunca buscou a fama, nem teve intenção de se tornar um profissional da poesia. Manteve a família de 9 filhos como agricultor e passou toda a vida em Assaré. Era dotado de um grande poder de memória e não escrevia seus poemas. Tal capacidade se manteve até mais dos 90 anos recitando os poemas, que se distinguiam pela oralidade no sotaque carregado. Sua obra, quando transcrita para meios gráficos, perde boa parte do significado expresso verbalmente (voz, entonação, pausas, expressões faciais…). Já na oralidade ficam realçados a ironia, veemência, hesitação…

No entanto, ele sabia criar versos nos moldes camonianos, incluindo sonetos na forma clássica. Ele mesmo diferenciava seus versos em linguagem culta daqueles em linguagem popular, que chamava de “poesia matuta”. Mais tarde deixou de fazer cantorias com seus versos para concentrar-se apenas na poesia: “Eu deixei de ser violeiro, porque nunca tive prazer em cantar ao som da viola. (…) minha ideia de versejar estava muito acima dessa nossa poesia de viola, que podemos dizer é uma poesia mais ou menos corriqueira. (…) sempre gostei de escrever meus versos, a atualidade, a marcha da vida”.

Foi homenageado diversas vezes com premiações, títulos e comendas: diploma de “Amigo da Cultura”, outorgado pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (1982); recebeu títulos de doutor honoris causa de 6 universidades; cidadão honorário de Fortaleza (1982) e Rio Grande do Norte (2000); prêmio Ministério da Cultura na categora Cultura Popular (1995); nomeação de duas bibliotecas públicas no Piauí e a rodovia ligando Assaré a Antonina do Norte entre outras homenagens. Em 1999 foi inaugurado o “Memorial Patativa do Assaré” em sua cidade.

No ano de seu centenário (2009), o projeto Patativa do Assaré Encanta em Todo Canto percorreu num caminhão 95 cidades do Ceará com o objetivo de difundir a poesia popular. Alguns livros e biografias dão conta de seu legado: O metapoema em Patativa do Assaré: Uma introdução ao pensamento literário do poeta, de Francisco de Assis Brito, da Faculdade de Filosofia de Crato (1984); Filosofando com Patativa, de Jesus Rocha, pela Stylus Comunicações (1991); Patativa do Assaré: as razões da emoção, de Cláudio Henrique Sales Andrade, pela Editora UFC (2004).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Marie Rennotte

Marie Rennotte nasceu em 11/2/1852, na Bélgica. Pedagoga e médica, veio para o Brasil aos 26 anos e foi naturalizada brasileira em 1889. Radicada em São Paulo, em fins do século XIX, foi uma das primeiras médicas obstetra e ginecologista e pioneira da medicina social no Brasil, além de pioneira, também, no incipiente movimento feminista na virada do século XIX para o XX.

Diplomada professora em Paris (1874), lecionou na Alemanha por 3 anos e veio com a família para o Brasil em 1878. No Rio de Janeiro foi professora até 1882 e mudou-se para o interior de São Paulo. Foi lecionar no Colégio Piracicabano, um inovador internato feminino, onde adotou métodos inovadores positivistas e evolucionistas baseados numa pedagogia ligada a Rousseau, Pestalozzi, Froebel, Comte e Spencer. Para isso teve o apoio de grupos progressistas: liberais, republicanos, maçônicos e abolicionistas, em especial dos irmãos ituanos Morais Barros (Manuel e Prudente, futuro presidente da República). O sucesso da escola despertou o ciúme das Irmãs de São de José, mantenedoras do Colégio de Nossa Senhora do Patrocínio, de Itu, que passam difamar as professoras da nova escola. Em sua defesa, a profª Rennotte publica artigos na Gazeta de Piracicaba e jornais da capital manifestando sua oposição às práticas obscurantistas e retrógadas vigentes no ensino tradicional, pregando uma educação feminina, necessária à emancipação da mulher.

Tais artigos levaram-na a colaborar com Josefina Álvares de Azevedo, na publicação de matérias doutrinárias no jornal feminista A Família, a partir de 1888. Assim, passou a fazer parte de uma plêiade de jovens intelectuais reunidas em torno do jornal: Anália Franco, Zalina Rolim, Narcisa Amália, Júlia Cortines, Revocata Heloísa de Melo, Maria Clara da Cunha Santos, Prisciliana Duarte de Almeida, Inês Sabino e Júlia Lopes de Almeida. Em 1889 viajou para os EUA para estudar medicina e permaneceu por 3 anos, enquanto seu amigo Prudente de Morais acelera a carreira política, torna-se integrante de junta republicana provisória e torna-se o primeiro presidente do Estado de São Paulo.

Em sua curta gestão (1890-91) e inspirado nas experiências pedagógicas do Colégio Piracicabano, ele deflagra radical reestruturação do ensino paulista. Tendo como executores iniciais os médicos Caetano de Campos e Cesário Mota, a reforma será implementada pelos governos estaduais subsequentes. Em 1892 graduou-se médica pela Woman’s Medical College of Pennsylvania. De volta ao Brasil, foi 1ª médica na capital paulista. Em 1893 foi à Paris visando se especializar em ginecologia, obstetrícia e neonatologia, com estágios nos hospitais parisienses Hôtel-Dieu e Saint Louis. Na época seu amigo Prudente de Morais foi eleito presidente da República, na gestão de 1894-98. Volta para o Brasil em 1895 e fixa-se no Rio de Janeiro, obtendo a validação do seu diploma francês. Para isso, foi submetida a uma banca examinadora com a tese Influência da educação da mulher sobre a medicina social. De volta à capital paulista em meados do ano, foi admitida na recém-instituída Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, dirigida pelo cirurgião Luís Pereira Barreto.

Na capital paulista, em franca expansão, passou trabalhar no atendimento às mulheres mais abonadas, a domicílio e no consultório, e às desfavorecidas em ambulatórios e enfermarias hospitalares. Sua participação com artigos na imprensa foi ampliada, como o apoio que deu à profª Leolinda Daltro, em 1896, em sua proposta de assistir os povos indígenas ameaçados de extinção. Foi marcante sua atuação no periódico A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Prisciliana Duarte de Almeida. Com seu envolvimento na vida cultural e política da cidade, foi a primeira mulher admitida no IHGSP-Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1901. Pouco depois tornou-se sócia efetiva da Associação Médica Beneficente de São Paulo, presidida por Arnaldo Vieira de Carvalho, em 1905.

No mesmo ano recebeu o diploma de sócia benemérita do Asilo e Creche da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, fundada e dirigida por sua amiga, a pedagoga espírita Anália Franco. Quando foi oficializada a Cruz Vermelha Brasileira, em 1908, comandada por Pérola Byington, a entidade teve Oswaldo Cruz como presidente de honra e a Dra. Rennotte como organizadora da regional paulista. Em 1918, durante a gripe espanhola, trabalhou intensamente no socorro aos paulistas. No levante militar tenentista de 1924, a cidade foi sitiada e teve cerca de 500 mortos e 5000 feridos. A Santa Casa ficou lotada com mais de 3 mil pessoas, e ela teve que comandar uma enfermaria improvisada nas dependências do antigo Teatro Colombo, no Brás.

Em 1929 proferiu concorrida palestra no IHGSP, sobre “A mulher brasileira na história”, lembrando a figura de Joana d’Arc, contrapondo-a com heroica atuação de Anita Garibaldi e Ana Néri. Pouco depois, na Revolução Constitucionalista de 1932, aos 80 anos já não podia atuar e foi substituída por sua jovem colega Dra. Carlota Pereira de Queiroz, que se coloca a frente da Cruz Vermelha no atendimento ao grande número de feridos. Em meados da década de 1930, ela encontra-se muda, quase cega e desprovida de recursos para se manter. Em decorrência de uma campanha para ajudá-la, coordenada pelo jornalista Mario Guastini, o interventor paulista José Joaquim de Melo Neto concede-lhe uma pensão mensal equivalente a mil cruzeiros para uma manutenção condigna.

Faleceu em 21/11/1942, em plena II Guerra Mundial, foi sepultada no Cemitério da Consolação e recebeu a gratidão e homenagens da Cruz Vermelha Brasileira e do IHGSP, que realizou sessão solene em 2001 comemorando o centenário de admissão da ilustre médica no Instituto, onde é mantido seu arquivo. Biografia ainda não temos, mas contamos um alentado artigo publicado na revista História, Ciências e Saúde, da Fiocruz, (vol. 10, nº 2) de agosto de 2003, publicado por Leonora De Luca e João Bosco Assis De Luca em 2003, disponível na Internet: Marie Rennotte, pedagoga e médica: subsídios para um estudo histórico-biográfico e médico-social

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pixinguinha

Alfredo da Rocha Vianna Filho nasceu em 23/4/1897, no Rio de Janeiro. Músico, maestro, flautista, saxofonista, arranjador, compositor e um dos prestigiados nomes da música brasileira. Contribuiu para que o “choro”, um novo gênero musical, viesse a encontrar uma forma definitiva, tal como o samba e o frevo. Seu legado consolidou o País musical.

14º filho de Maria Raimunda da Conceição e Alfredo da Rocha Vianna, músico amador e flautista nas rodas de choro. Em 1911, aos 13/14 anos, estreia em disco como flautista do conjunto “Choro Carioca”, onde participam dois de seus irmãos: Léo e China. A 1ª música gravada foi a polca Nhonhô em sarrilho, de Guilherme Cantalice. Em seguida arranjou emprego para tocar nos cabarés da Lapa; orquestra do Cine Rio Branco, além de tocar em ranchos carnavalescos, boates, teatro de revista e grupos de choro. Em 1914 registrou sua primeira composição: o tango Dominante, assinado por Alfredo da Rocha Viana (Pizidin). Pela primeira vez que aparece o apelido, que passou por diversas grafias até chegar em “Pixinguinha”.

Sobre a origem do apelido, declarou em 1968: “Pixinguinha é porque eu tive bexiga, então eles me tratavam de Bixiguinha, Pixiguinha… Houve essa complicação de apelidos e eu não sei por que eu fiquei como Pixinguinha. Não sei se foi pelos discos. Não sei por que foi”. Ainda em 1914 entrou para o “Grupo do Caxangá”, nome extraído da música Cabocla de Caxangá, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, sucesso de carnaval naquele ano. Na época o grupo se apresentava de chapéu de palha e os componentes do grupo adotaram apelidos matutos, como “Guajarema”, “Catingueira” etc. Pixinguinha atendia por “Chico Dunga”. Por essa época compôs o choro Carinhoso, uma de suas mais importantes obras gravadas em 1929, e logo passou a integrar o conjunto “Oito Batutas”, que ficou famoso a partir de 1919.

O grupo realizou diversas excursões pelo País e no exterior. Em 1921 apresentaram-se na residência do presidente da República, Epitácio Pessoa, para uma seleta plateia. No ano seguinte embarcaram para Paris, onde passaram 6 meses em apresentações, incluindo uma apresentação para a família imperial brasileira, lá exilada desde 1889. Na volta se apresentaram na Exposição do Centenário da Independência, em setembro de 1922, e participam da primeira transmissão de rádio no País. O sucesso do grupo garantiu a estreia da revista Tudo preto, no Teatro Rialto, em 1926, encenada pela Companhia Negra de Revistas. Na ocasião Pixinguinha conheceu a vedete Albertina Nunes, com quem veio a se casar no ano seguinte. Na apresentação em São Paulo, Mario de Andrade procurou o músico na busca de informações para um livro que estava escrevendo (Macunaíma). Pixinguinha forneceu informações sobre o ambiente na casa de Tia Ciata, um terreiro onde se reuniam festeiros e religiosos para festas de candomblé e música. Mário incluiu no capítulo 7 -“Macumba”- um personagem “negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão”, inspirado em Pixinguinha.

Na década de 1930 foi contratado pela gravadora RCA Victor e criou arranjos para grandes cantores, como Francisco Alves e Mario Reis. Aí trabalhou até 1939, quando foi substituído por Radamés Gnattali. Em 1931, junto com João da Bahiana e Donga, criou o “Grupo da Velha Guarda”. Afim de conhecer melhor a teoria musical, ingressa no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ) e concluiu o curso em 1933. Neste ano passou tocar no dancing Eldorado, onde conheceu o arranjador Radamés Gnattali, que declarou: “Conheci Pixinguinha tocando no dancing Eldorado na Praça Tiradentes, na década de 30. Era uma pequena orquestra de jazz, como muitas da época. Eles faziam uma sessão de choro, e eu ali, aprendendo”. Mesmo com o sucesso, não tinha como se manter e precisava de um trabalho fixo. O prefeito Pedro Ernesto nomeou-o fiscal do Serviço de Limpeza Urbana, em 1934. A nomeação explica-se pelo fato de o prefeito querer montar uma banda da guarda municipal, mas não existindo a função de “maestro de banda” nos quadros da prefeitura, ele foi contratado e logo transferido para outro setor, onde passou a ministrar aulas de música.

Até aqui o choro Carinhoso era apenas música. Os versos de João de Barro só foram incorporados à música em 1937 e tornou-se um dos maiores clássicos com mais de 400 gravações, tornando-se a música mais regravada no País em todos os tempos. Com o sucesso foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga como arranjador e regente. A situação econômica vai melhorando, ele sai do aluguel e adquire sua casa própria no bairro de Ramos, em 1939. No ano seguinte, o maestro inglês Leopold Stokowski chega ao País para 2 concertos no Teatro Municipal e aproveita para colher material para o Congresso Pan-Americano de Folclore, resultando no lançamento do álbum “Brazilian native music” nos EUA. Pixinguinha, além da flauta, entrou com a voz num dueto com Jararaca. Na década seguinte o sucesso continua com a marchinha Alá-la-ô, de Haroldo Lobo e Nássara, gravada por Carlos Galhardo, premiada no Carnaval de 1941. Nássara declarou: “Sem o (arranjo) do grande Pixinguinha, minha música não seria o que é. Alá-la-ô teve um parceiro oculto, de gênio”. Dessa época em diante, passou por uns perrengues, caiu na bebida, sumiu de circulação, “virou um alcoólatra”, era o que se dizia. Chegou a atrasar o pagamento das prestações e foi ameaçado de perder a casa. Nesse período largou a flauta e passou a tocar apenas saxofone.

Quem lhe ajudou a sair do perrengue foi o amigo Benedito Lacerda, propondo uma dupla com flauta e saxofone. Lacerda conseguiu o valor para quitar a dívida da casa e um adiantamento com a RCA Victor. O acordo incluía a gravação de 25 discos em que Lacerda seria seu parceiro em todas as músicas. O amigo Canhoto disse que “As músicas eram só do Pixinguinha. E o Benedito combinou com ele: fazia os discos, mas entrava nas parcerias. Muitas pessoas meteram o pau no Benedito, mas não tinham razão. Ele foi franco”. Em meados de 1945 a situação melhorou com sua contratação pela rádio mais popular do País: a Rádio Nacional. No ano seguinte o compositor e cantor Almirante levou-o para a Rádio Tupi. O dueto permaneceu até 1951 e foi um sucesso. Segundo Brasílio Itiberê. a dupla produziu um contraponto musical “dos mais complexos e de maiores consequências estéticas que existe na música popular brasileira”. Em princípios da década de 1950, junto com Almirante e Benedito Lacerda realiza uma excursão pelo Norte e Nordeste e participa das comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, com o “I Festival da Velha Guarda”. O encerramento do show, no Parque do Ibirapuera, foi uma apoteose contando com veteranos e um jovem violonista de 16 anos: Baden Powell. O sucesso do evento propiciou o II Festival em 1955, agora ampliado para 4 dias e participação do pianista Radamés Gnattali, do violonista Dilermando Reis, das irmãs Linda e Dircinha Batista, entre outros grandes cartazes.

Em 1956 consolida a fama com seu nome dado à rua onde vivia desde 1939. Em fins do ano seguinte teve um encontro com Louis Armstrong no Palácio Laranjeiras, num jantar oferecido pelo presidente Juscelino Kubitschek. A nata da música brasileira estava presente: Dorival Caymmi, Ary Barroso, João de Barro, Herivelto Martins, Lamartine Babo, Ataulfo Alves… Seguem-se mais shows e discos, intercalados por uma crise cardíaca logo superada, até 1958, na festa de recepção da Seleção Brasileira, campeã mundial de futebol. Cobrindo o evento, estava lá seu futuro biógrafo, o jornalista Sergio Cabral: “Eu, que estava lá e já era fã, aproveitei o intervalo da música para ir conversar com ele. Queria puxar o saco do Pixinguinha”. Pouco depois o presidente Jânio Quadros nomeou-o para integrar o Conselho Nacional de Música, a pedido do professor Mozart de Araújo, em 1961. Em seguida enveredou noutras áreas e produziu a trilha sonora do filme Sol sobre a lama (1963), de Alex Viany, em parceria com Vinicius de Moraes. O “poetinha” disse mais tarde que essa parceria “foi uma coisa dos deuses, nenhum casamento valeu tanto dentro da alma quanto essa parceria com Pixinguinha”. Para ele Pixinguinha era “o maior de todos os músicos populares brasileiros”. Logo saiu a primeira gravação da suíte Retratos, em 4 movimentos pela CBS, orquestrado por Radamés Gnattali, que dá ao primeiro movimento o nome de Pixinguinha.

Em meados de 1964 foi internado por 50 dias no Hospital Getúlio Vargas com um edema pulmonar e passou a fazer eletrocardiogramas quinzenalmente. Após gravar um disco em parceria com Vinicius, em 1966, participou da série de depoimentos ao MIS-Museu da Imagem e do Som, seguido de outras homenagens ao completar 70 anos. Na ocasião foi homenageado com um almoço no Palácio do Itamaraty, ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Gilberto Gil, oferecido pelo Ministro das Relações Exteriores, Magalhães Pinto. Pouco depois, foi condecorado com a Ordem do Mérito do Trabalho, pelo Ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho. As homenagens culminam num concerto no Teatro Municipal, onde ele, no camarote presidencial, vê suas músicas interpretadas por Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, conjunto Época de Ouro, entre outros.

O espetáculo resultou no LP Pixinguinha 70, lançado em pelo MIS.

Em 1969, vendeu sua casa em Ramos e mudou-se para outra alugada em Jacarepaguá. Novas dificuldades econômicas levam-no a se mudar novamente, agora para Inhaúma, num apartamento do Conjunto Residencial dos Músicos. Em junho de 1972 sua esposa Betty veio a falecer e a tristeza tomou conta da casa até a manhã do dia 17/2/1973, quando recebe a visita dos amigos Hermínio Bello de Carvalho, Walter Firmo e Eduardo Marques. Conversam amenidades, ouvem música e, na despedida, ele chora. À tarde, foi até Ipanema batizar o filho de um amigo. No instante em que foi assinar o livro da igreja, caiu no altar fulminado por um infarto. Dentre as homenagens ao músico, além das regravações de discos, merece destaque o “Dia Nacional do Choro”, em 23 de abril, data presumida de seu nascimento, criado em 2000; tema-enredo da Escola de Samba Portela, em 1974: “O Mundo Melhor de Pixinguinha”; estátua no Bar da Portuguesa, em Ramos; filme Pixinguinha, um homem carinhoso (2021), dirigido por Denise Saraceni etc. Entre as biografias, cabe destacar: Pixinguinha, vida e obra (1978) de Sergio Cabral, e Pixinguinha, filho de Ogum bexiguento (1998), de Marília Trindade Barbosa e Arthur de Oliveira Filho. Toda sua obra, biografia, cronologia e legado são mantidos pelo IMS-Instituto Moreira Salles, aberto à visitação e no site Pixiguinha.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em 20/7/1869, em Botucatu, SP. Poeta, escritora, professora e tradutora. Foi pioneira da educação infantil, na condição de inspetora do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em fins do século XIX. Colaboradora ativa da Revista do Jardim da Infância (1896), teve atuação destacada na pedagogia e literatura infantil.

Filha de Maria Cândida do Amaral Gurgel e do juiz José Rolim de Oliveira Ayres, tradicional família paulista. Teve os primeiros estudos em Itapeva e desde criança teve aulas particulares de português, francês, italiano e inglês com o conhecido prof. João Köpke, do qual teve influências em sua atividade pedagógica. Devido a profissão do pai, morou em diversas cidades do interior paulista. A vocação de professora foi se aprimorando desde os 15 anos, quando passou a dedicar-se à alfabetização das crianças numa fazenda em São Roque, onde a família morava.

Em seguida, passou a fazer versos, recebendo estímulos do pai, que a colocou em contato com as obras de Ezequiel Freire e Narcisa Amália entre outros. A partir dos 20 anos passou a colaborar com os jornais A Provincia de São Paulo (O Estado de São Paulo) e Correio Paulistano. Em 1893 seu pai foi designado presidente do Tribunal de Justiça do Estado, passando a residir na Capital. Aí ela se entrosou com a elite cultural paulistana e no mesmo ano publicou sua primeira coletânea de poesias – O Coração – recebendo elogios de Olavo Bilac, Artur Azevedo e Vicente de Carvalho.

Por esta época, a capital paulista passava por grandes transformações econômicas e sociais, com a expansão do café e chegada dos imigrantes para suprir a mão-de-obra escrava. Tais mudanças tiveram reflexo na Educação, que passou a formar professores melhor qualificados. Neste surto de desenvolvimento, a Escola Normal passa por uma significativa reforma sob a orientação do prof. Antônio Caetano de Campos, contando com a colaboração de Guilhermina Loureiro de Andrade e Miss Márcia Brown. Assim, a Escola Normal criou o Jardim da Infância que, além de atender as crianças, serviria também para treinar as novas professoras. Foi nesse ambiente que ela pode aplicar seu talento de professora.

Com seus conhecimentos de línguas, traduziu diversas obras utilizadas no Jardim da Infância. Sua colaboração na Revista do Jardim da Infância permitiu a publicação de várias adaptações, traduções e produções originais destinadas às crianças. Na ocasião, atendendo o pedido do prof. João Köpke, publicou o Livro das Crianças, em 1897, distribuído nas escolas públicas. O livro incluía poesias, cantigas e histórias, contando com ilustrações, cujo objetivo era despertar o interesse das crianças pela leitura. Nos anos seguintes colaborou nas revistas Educação e Mensageira: Revista Literária Dedicada à Mulher Brasileira, dirigida por Presciliana Duarte de Almeida. Assim, passou a integrar o “movimento feminista” que se iniciava.

Em 1900 casou-se com José Xavier de Toledo, ministro do Tribunal de Justiça, e escreveu mais um livro de poesias – Livro da saudade -, em 1903, que não foi publicado. Ao ficar viúva em 1918, afastou-se da vida social e literária, vindo a falecer em 24/6/1961, aos 92 anos. Hoje seu nome é lembrado na denominação da Escola Estadual de Primeiro e Segundo graus da Vila Matilde; da Biblioteca Pública Infanto-Juvenil da Vila Mariana e de uma rua na Vila Ede. Foi também homenageada pelo Centro Professorado Paulista, em 1944, e recebeu o título de Mestra do IV Centenário da Cidade de São Paulo, no Instituto de Educação Caetano de Campos, em 1954.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Radamés Gnattali

Radamés Gnattali nasceu em Porto Alegre, RS, em 27/1/1906. Músico, compositor, pianista, maestro e um dos mais destacados arranjadores musicais. Substituiu Pixinguinha na gravadora RCA Victor; trabalhou 30 anos como arranjador na Rádio Nacional; fez arranjos para os 4 grandes cantores do rádio: Francisco Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo e Orlando Silva; participou da criação do choro, como forma musical e foi um dos maiores compositores da música clássica brasileira.

Nascido numa família de músicos italianos, foi iniciado no piano aos 3 anos pela mãe Adélia Fossati Gnattali. Aos 14 ingressou no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e passou a dedicar-se ao estudo da música através do piano, flauta, clarineta, violino e viola, dentre outros instrumentos. Formado em 1924, iniciou tocando piano em cinemas e bailes de Porto Alegre, além de participar de serestas e blocos carnavalescos tocando cavaquinho e violão. No ano seguinte integrou o quarteto de cordas de Henrique Oswald, onde atuou por 4 anos.

Em fins da década de 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro com a intenção de tornar-se concertista. Antes, porém, teve que se manter tocando viola e piano em orquestras de teatro e da Rádio Clube do Brasil e integrar o quarteto do Hotel Central. Em 1930 apresentou ao público suas primeiras composições eruditas. Mas para garantir a manutenção, aproximou-se da música popular e passa a trabalhar como arranjador, regente e compor para o teatro musicado. Por essa época gravou seus primeiros choros utilizando o pseudônimo “Vero”. Com a proliferação das rádios comerciais e início da indústria fonográfica, passou a ser mais solicitado e deixa a carreira de concertista em segundo plano.

Segue compondo música erudita nas horas vagas entremeadas com alguns concertos. Em 1936, foi contratado como maestro e arranjador na Rádio Nacional e criou a Orquesta Carioca. Com o acréscimo de 2 violões, cavaquinho e vasta percussão, criou a Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali, em 1943. A proposta é clara: dar um ar mais brasileiro às orquestrações. Segundo os críticos, ele criou um estilo próprio ao sistematizar uma nova forma de orquestrar o samba, ao transferir a cadência rítmica da percussão para o naipe dos metais. Tal recurso pode ser ouvido no “riff” da Aquarela do Brasil, executado pelos saxofones. “Riff’ (refrão) é um pequeno fragmento rítmico-harmônico, em geral sincopado, executado na forma de “ostinato”, que vem a ser uma figura repetida obstinadamente.

Tal como Pixinguinha, suas composições têm alguma influência do jazz, como no uso da orquestra completa de metais, que gera nos arranjos um timbre influenciado pela música norte-americana, mas criando um estilo próprio. Na década de 1930, o rádio e a música popular representam a ideologia do governo Vargas. Assim, de modo semelhante ao maestro Villa-Lobos, ele aproveita o espaço aberto aos novos maestros e arranjadores. Claro que sua atuação, como a de Villa-Lobos, não é fazer propaganda do governo. Porém, estão em consonância com os projetos do governo e com a atuação da Divisão de Radiodifusão do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda. O trabalho destes compositores ajudou a criar um “imaginário sonoro” do País com um repertório “nacional” de qualidade musical.

Com o fim da era Vargas, em 1945, liberta-se dessa fase nacionalista neoclássica e parte para as grandes formas musicais, tais como “Trio miniatura”, “Brasiliana nº 1” e “Concerto romântico’. Mesmo nos arranjos feitos para os 4 grandes cantores do Rádio, podem-se ouvir alguns instrumentos e timbres considerados como precursores da bossa nova. O arranjo de “Copacabana”, por exemplo, gravado em 1946 por Dick Farney, é considerado por alguns críticos como um marco neste processo, que culminou na bossa nova. Outra inovação é a instrumentação de suas peças, escrevendo para solistas, como “Concerto para harmônica de boca e orquestra”, para Edu da Gaita e “Concerto para acordeão e orquestra”, para Chiquinho do Acordeom.

Com o fim das orquestras radiofônicas e o surgimento da TV, passou a trabalhar na TV Excelsior e TV Globo como maestro e arranjador no período 1968-1979 e volta a dedicar-se à composição erudita. Ainda na década de 1970, com o renascimento do “choro”, deu algumas “canjas” com apresentações em público. Assim, transitou entre o popular e o erudito com uma vasta produção -mais de 400 obras- no repertório da música brasileira. Uma de suas últimas composições foi o “Hino de Mato Grosso do Sul”, que venceu o concurso público nacional, em 1979. Em 1983 recebeu o Prêmio Shell na categoria de música erudita.

No mesmo ano, junto com Elizeth Cardoso, prestou homenagem a Pixinguinha com o recital “Uma Rosa para Pixinguinha” e gravou o disco Vivaldi e Pixinguinha. Encerrou a carreira com a gravação de diversos volumes de história infantil para discos LP (Coleção Disquinho). Em 1986 sofreu um AVC que o deixou meio paralisado e veio a falecer em 13/2/1988. Temos uma vasta bibliografia sobre seu legado musical e em termos biográficos contamos com os livros de Valdinha Barbosa e Ana Maria Devos: Radamés Gnattali, o eterno experimentador, publicado pela FUNARTE, em 1985, e o de Aluísio Didier: Radamés Gnattali, publicado em 1996 pela editora Brasiliana Produções.