JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Martha Rocha

Maria Martha Haelecker Rocha nasceu em 19/9/1932, em Salvador, BA. Eleita Miss Bahia, aos 21 anos, foi a primeira Miss Brasil, aos 22, em 1954. No mesmo ano foi bem cotada para vencer o concurso de Miss Universo, nas casas de apostas dos EUA, mas ficou como vice, projetando-a no cenário nacional. O ideal de beleza consolidado pela baiana seguiu influenciando algumas gerações por mais alguns anos.

Filha de Hansa Hacker Rocha e Álvaro Pereira Rocha, uma família de 10 filhos. Segundo ela mesma: “Nossa casa era austera e grande. Era sala de visita para lá, sala de não sei quê para cá, portas fechadas sempre. Eu sonhava com aquela sala onde jantavam as irmãs mais velhas com meus pais. Ficava sempre de olho comprido, jantando com os irmãos menores e vovó Eulália”.

Casou-se aos 24 anos com o banqueiro português Álvaro Júlio Victorino Piano e tiveram 3 filhos: Álvaro Luis, Carlos Alberto, nascidos em Buenos Aires, e Fernanda, falecida aos 29 anos, em 2009, fato que a deixou muito deprimida por longo tempo. Como Miss Brasil, teve uma agenda de viagens pelo País. Em 1955 visitou Caxias, no Rio Grande do Sul. A imprensa local noticiou: “Vaidosa ao extremo, a miss veio escoltada por uma secretária particular e uma cabeleireira, que costumavam acompanhá-la em todas as visitas pelo país”.

Em 2015 o jornalista Ancelmo Goes revelou a história das duas polegadas a mais para consolar o orgulho brasileiro. No Carnaval de 1955 lançaram uma marchinha, gravada pela própria Martha, onde se cantava “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas, e logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz!”. Tudo foi combinado com os demais jornalistas e a própria Martha autorizou a versão.

Em 16/2/1959, seu marido faleceu num acidente de avião. Dois anos após, casou-se com Ronaldo Xavier de Lima, com quem teve uma filha, a artista plástica Claudia Xavier de Lima. A partir de 1996, passou a aparecer em júris de concursos de beleza, tornando-se a primeira miss a cobrar cachê para tais eventos. Mais tarde, explicou numa entrevista que era uma necessidade, pois no ano anterior perdera todo o dinheiro que tinha com a falência de uma instituição financeira (a Casa Piano) comandada à época por um de seus familiares.

Em 2000, descobriu ser portadora de câncer de mama e passou a ter outro estilo de vida. Nessa época, mudou-se do Rio para Laranjal, bairro de Volta Redonda. Foi homenageada, em 2004 (50º ano do concurso de Miss Brasil), com uma exposição itinerante de fotos de sua trajetória, contando inclusive com o Rollys Royce que ganhou no concurso.

Em março de 2019, revelou em seu Facebook que por questões financeiras, estava vivendo no lar de idosos Carol Caminha, em Niterói. “Não me sinto diminuída” por isto, acrescentou. Faleceu em 4/7/2020, aos 87 anos após uma insuficiência respiratória seguida de um infarto. Recebeu, também, outras homenagens como o bolo ou a torta “Martha Rocha”. A receita foi criada por Dair da Costa Terzado, da Confeitaria das Famílias, em Curitiba. A pick-up Chevrolet 3100, lançada em 1955, recebeu o apelido “Marta Rocha”, devido aos “quadris” largos.

Seu nome foi usado como apelido num sorvete e até num tipo de pão doce. Os interessados em conhecer mais a primeira Miss Brasil, podem recorrer a ela própria em Martha Rocha: uma autobiografia, publicada por Ida Pessoa, pela Editora Objetiva em 1999.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ivo Pitanguy

Ivo Hélcio Jardim de Campos Pitanguy nasceu em 5/7/1926, em Belo Horizonte, MG. Cirurgião plástico, professor e escritor. Em 2008, a revista New York Magazine chamou-o de “o rei da cirurgia plástica” e a revista alemã Der Spiegel de “Michelangelo do bisturi”.

Filho de Maria Stael Jardim de Campos Pitanguy e do médico Antônio de Campos Pitanguy. Teve os primeiros estudos em Belo Horizonte e cursou medicina na UFMG até o 4º ano e, sem interromper os estudos, foi servir no CPOR-Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, do Exército. Em seguida transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, onde concluiu o curso, ao mesmo tempo em que servia na Cavalaria dos Dragões da Independência.

Iniciou a formação cirúrgica no Hospital do Pronto-Socorro do Rio de Janeiro, atual Hospital Souza Aguiar. Vocacionado para a cirurgia plástica, inscreveu-se num concurso organizado pelo Institute of International Education e ganhou um bolsa de estudos que o levou aos EUA como cirurgião residente no Bethesda Hospital. Logo foi “visiting fellow” da Mayo Clinic, em Minnesota e do Serviço de Cirurgia Plástica do Dr. John Marquis Converse, em Nova Iorque.

De volta ao Brasil, retornou ao Hospital onde se formou cirurgião e recebeu convite do prof. Marc Iselin, em visita ao hospital, para ser seu “assistant étranger” em Paris. Ficou por 2 anos, período em visitou os serviços de cirurgia plástica dos professores C. Dufourmentel e R. Mouly em Paris e do prof. Paul Tessier em Suresnes. Tal formação foi reforçada com uma bolsa de estudos do British Council, quando frequentou os serviços de cirurgia plástica de Sir Harold Gillies, em Londres; Sir Archibald McIndoe, no Quenn Victoria Hospital e do prof. Kilner, no Churchill Hospital, em Oxford.

Novamente no Brasil, sentiu a necessidade de criar uma Escola e ressaltar a importância social da cirurgia plástica para a classe médica e a população em geral. Criou o Serviço de Queimados do Hospital do Pronto-Socorro e o primeiro serviço de cirurgia de mão e de Cirurgia Plástica Reparadora da Santa Casa. Em seguida assumiu a cátedra de cirurgia plástica da Universidade Católica do Rio de Janeiro e mais tarde a do Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas. Nesta época, com a colaboração dos médicos residentes, pôde tratar de forma abrangente as vítimas do grande incêndio do Gran Circo Norte-Americano em Niterói, despertando a atenção para a importância social da cirurgia plástica.

Em 1963 inaugurou a Clínica Ivo Pitanguy, integrada a 38ª Enfermaria da Santa Casa, permitindo a formação profissional e de ensino. Trata-se de um centro de saúde que atende os mais pobres, abolindo da especialidade seu caráter elitista. A clínica tornou-se um centro de referência nacional e internacional na área frequentada por cerca de 5 000 cirurgiões plásticos, entre fellows e visitantes. Sua clínica/escola mudou os padrões da cirurgia plástica mundial, não apenas pelas técnicas revolucionárias empregadas, mas pela filosofia que permeava. Sob sua orientação, o curso de 3 anos de pós-graduação na PUC/RJ, formou 500 cirurgiões plásticos de mais de 40 países.

Ministrou inúmeros cursos de Cirurgia Plástica no Brasil e no exterior, destacando-se o 1º Curso de Extensão Universitária em Cirurgia Plástica, da então Universidade do Brasil, ministrado no anfiteatro da Clínica Ivo Pitanguy, unindo a iniciativa privada ao ensino público. Organizou o 1º Curso de Cirurgia da Mão, o 1º Curso de Cirurgia Plástica da Academia Nacional de Medicina; os Cursos da Universidade Camplutense de Madrid; o Curso de Cirurgia Plástica do XXIII World Congress of the International College of Surgeons, além de cursos na Universidade de Harvard e Universidade de Paris.

Recebeu diversos títulos e prêmios honoríficos: Philosophiae Doctor Honoris Causa, pela Universidade de Tel Aviv (1986) e Honoris Causa pela UNIRIO (2016), Cidadão Honorário do Rio de Janeiro (1976), Chanceler da Universidade de Paris (1988) e Membro Honorário da Società Medica di Bologna (1988), Humanitarian Award, pela University of Chicago (1984), Prêmio Cultura per la Pace, concedido pelo Papa João Paulo II (1989).

Foi membro titular da Academia Nacional de Medicina, Academia Brasileira de Letras, Academia Brasileira de Médicos Escritores, Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura e várias associações médicas internacionais. É autor de mais de 900 trabalhos publicados em prestigiadas revistas nacionais e internacionais. Deixou mais de 20 livros técnicos publicados, entre os quais a obra Aesthetic surgery of the head and body, eleito o melhor livro do ano (1981), na Feira Internacional do Livro de Frankfurt e livros de memória ou biográficos: Aprendendo com a vida (1993); Cartas a um jovem cirurgião (2009); Vale a pena viver (2014).

Faleceu em 6/8/2016, aos 90 anos, vitimado por um ataque cardíaco. No dia anterior a sua morte estava carregando a chama olímpica dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lydia Moschetti

Lydia Bastogi Giannoni Moschetti nasceu em 14/9/1888, em Fuceccheio, região Toscana da Itália. Atriz, cantora lírica, poeta, escritora, pintora, professora e filantropa. Criou o “Instituto Santa Luzia – Escola Profissional para Cegos e Surdos Mudos”, em 1941, a “Fundação Banco de Olhos de Porto Alegre”, em 1956 e foi homenageada com o título de “Mãe dos Cegos do Rio Grande do Sul”.

Descendente de uma família nobre, veio para o Brasil (Santos) aos 19 anos, junto com mãe e 8 irmãos. O pai veio antes e a vinda da família deu-se devido a problemas financeiros. 2 anos após, casou-se com o patrício Luiz Moschetti e foram morar em Porto Alegre. O marido, engenheiro eletromecânico formado em e Turim representante da FIAT Autmóveis no Brasil, logo mudou de atividade e em 1911 abriu uma fábrica de embalagens de papelão, obtendo certa ascensão social.

Dedicou-se às obras de caridade, com o dinheiro arrecadado da venda de suas joias e bens pessoais. Criou creches, orfanatos e transformou seu palacete residencial numa “pupileira”, que veio a se tornar um Banco de Olhos, hoje portentoso Hospital oftalmológico. Diversificou sua filantropia até a criação de suas instituições para cuidar de cegos e surdo mudos nas décadas de 1940 e 1950. O marido faleceu em 1967 e ela continuou mantendo as instituições de caridade, além de dedicar-se a escrever.

Amante da literatura, fundou a Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul e publicou diversos livros, entre os quais: A sobrinha do cardeal, Um baile e uma vida, No altar da caridade, A morte das ilusões, Poesias esparsas, A vida é um ponto de ?, Autobiografia e História das minhas fundações. A academia logo estabeleceu intercâmbio cultural com escritores da América Latina, Europa e Ásia, estabelecendo um sistema de permuta reunindo milhares de livros.

Assim, foi criada a biblioteca com acesso ao público e em 1949 foi realizada a 1ª Exposição do Livro Latino, nas dependências da Faculdade Católica de Filosofia da PUC/RS. Nas décadas seguintes, a Academia já contava com vasta produção de eventos, como lançamento de novos autores; recepção de personalidades ilustres; concursos literários de âmbito nacional; palestras sobre temas variados; cursos de atualização direcionados ao magistério; oficinas de criação literária etc.

Na década de 1970, a acadêmica Noemy Valle Rocha fez a doação de um sobrado no bairro Cidade Baixa, onde a Academia instalou sua sede própria. Em 1972 foi inaugurado, em Farroupilha, o Museu Municipal Casal Moschetti, formado a partir de objetos doados por Lydia Moschetti, como homenagem por ser esta cidade considerada berço da imigração italiana no Estado. Faleceu em 5/8/1982, aos 94 anos, e recebeu o título de cidadã honorária, além de ter seu nome dado à uma rua de Porto Alegre.

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OS BRASILEIROS: Oliveira Lima

Manuel de Oliveira Lima nasceu em 25/12/1867, em Recife, PE. Escritor, crítico literário, diplomata, historiador, professor e jornalista. Representou o Brasil em diversos países, foi professor-visitante da Universidade Harvard, nos EUA e membro-fundador da Academia Brasileira de Letras.

Filho de Maria Benedita de Miranda e Luís de Oliveira Lima, começou a atuar como jornalista aos 14 anos no Correio do Brazil, jornal fundado por ele em Lisboa. Formou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1887, e passou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em 1890. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão, Venezuela, Inglaterra e Estados Unidos e foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão.

Foi criticado por alguns políticos devido ao seu posicionamento contrário a participação do Brasil na 1ª Guerra Mundial, sua proximidade com a Alemanha e por não aprovar o expansionismo brasileiro, como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco.

Era um leitor voraz e também escritor. Foi autor do 3º livro brasileiro sobre o Japão, publicado em 1903. A biografia que escreveu sobre o rei D. João VI é considerada obra de referência sobre esta figura histórica. Foi amigo íntimo de Gilberto Freyre e trocava cartas com Machado de Assis.

Em 1916 doou sua grande biblioteca à Universidade Católica dos EUA, em Washington, e para lá se mudou em 1920. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, de 58 mil livros, função que desempenhou até sua morte, quando foi sucedido pela esposa Flora de Oliveira Lima. Em 1924 tornou-se professor de Direito Internacional na mesma universidade e foi indicado como professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.

Faleceu em 24/3/1928 e foi sepultado no cemitério Mont Olivet, em Washington. Na lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros”. Publicou mais de 12 livros de história, entre os quais: Memória sobre o descobrimento do Brasil, História do reconhecimento do Império, No Japão, Secretário Del-Rei, Dom João VI no Brasil. Este último, é considerado uma obra clássica, tendo em vista o rearranjo realizado na historiografia brasileira.

Alguns autores como Gilberto Freyre, Otávio Tarquínio de Sousa e Wilson Martins já escreveram sobre os relatos de Oliveira Lima, incluindo fatos relevantes sobre a situação internacional de Portugal em 1808, a chegada da corte no Brasil, a formação do primeiro ministério e as primeiras providências, a respeito da emancipação intelectual, sobre sua vida privada e outros tópicos debatidos ao longo da sua obra.

Ocupou a cadeira nº 11 da Academia Pernambucana de Letras e é patrono da cadeira nº 31, na expansão posterior da entidade. Em 1897, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na condição de fundador da cadeira nº 39, tendo Francisco Adolfo de Varnhagen como patrono.

Em 2012 Julio César de Oliveira Velloso apresentou a dissertação de mestrado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP-Universidade de São Paulo, intitulada Um Dom Quixote gordo no deserto do esquecimento: Oliveira Lima e a construção de uma narrativa da nacionalidade. O texto considera que 3 momentos fundamentais forjaram a nacionalidade brasileira: a vinda da corte portuguesa para o Brasil, a forma que tomou a declaração de independência em relação a Portugal e o reinado de Dom Pedro II.

A tríade de escritos que trata desta narrativa da nacionalidade é composta por: Dom João VI no Brasil (1909), O Movimento da Independência (1921) e O Império Brasileiro (1928). Em 2017 a CEPE-Companhia Editora de Pernambuco lançou o livro Oliveira Lima: Um Historiador das Américas, de Paulo Roberto de Almeida e André Heráclio do Rêgo.

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AS BRASILEIRAS: Ruth Escobar

Maria Ruth dos Santos Escobar nasceu em 31/3/1935, em Porto, Portugal. Atriz, produtora e diretora teatral e política como deputada estaual. Na segunda metade do século XX, tornou-se personalidade destacada do teatro de vanguarda brasileiro.

Emigrou com sua mãe Marília do Carmo para o Brasil em 1951, aos 16 anos. Dois anos depois já estava trabalhando como repórter e editora de revistas, enquanto exercia atividades como ativista cultural. Casou-se com filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar e, juntos, partiram para a Europa, em 1958, onde fez cursos de interpretação. Ao retornar para o Brasil, montou sua própria companhia – Novo Teatro – em parceria com o diretor Alberto D’Aversa. Em 1962, encenou Mãe coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht e Males da juventude, de Ferdinand Bruckner, ambas dirigidas por D’Aversa.

Pouco depois encenou Antígone América (1962), com texto de seu marido, dirigido por Antonio Abujamra. Foi uma peça fundamental em sua trajetória, abordando as tensões sociais da época pré-golpe militar de 1964. Em seguida separou-se do marido e passou a reunir recursos para criar seu próprio teatro. Em 1964, resolveu fazer teatro popular e adaptou um ônibus, transformando-o em palco, levando-o à periferia de São Paulo, com o nome de Teatro Popular Nacional (TPN). A experiência contou com Antônio Abujamra, que dirigiu A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna, e Silnei Siqueira, que encenou As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, entre outros.

Pouco antes de o TPN encerrar suas atividades, deu-se a inauguração do Teatro Ruth Escobar, em 1964, no local onde se encontra até hoje no bairro da Bela Vista. Logo casou-se com o arquiteto Wladimir Pereira Cardoso, que se tornou seu cenógrafo e seguiram-se outras encenações: A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, dirigida por José Renato (1964); O Casamento do Sr. Mississipi, de Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares (1965); As Fúrias, de Rafael Alberti, encenada por Antonio Abujamra, (1966); O Versátil Mr. Sloane, de Joe Orton, dirigida por Antônio Ghigonetto (1967) e Lisístrata (ou a Greve do Sexo), de Aristófanes e encenação de Maurice Vaneau (1968).

Convidou o diretor Victor Garcia para uma nova montagem da peça Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, em 1968, numa antiga oficina remodelada, onde participou como atriz e produtora. No ano seguinte, teve o prestígio ampliado com a produção de O Balcão, de Jean Genet. Com esta peça, arrebatou todos os prêmios importantes do ano, e foi agraciada com o troféu “Roquette Pinto” como a personalidade do ano. Pouco depois criou o Centro Latino-Americano de Criatividade, que durou pouco por falta de recursos. Em seguida liderou manifestações contra o regime militar e fundou o Comitê da Anistia Internacional.

Com o 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974, passou a apresentar o melhor da produção cênica mundial. São Paulo pôde conhecer o trabalho de Bob Wilson (Time and Life of Joseph Stalin – David Clark), a premiada montagem de Yerma, por Victor García, com Nuria Espert; além dos encenadores Andrei Serban e Jerzy Grotowski. Produziu Autos Sacramentales, outra encenação de Victor García baseada em Calderón de la Barca. Depois de estrear em Shiraz, no Irã, a peça teve êxito na Bienal de Veneza, Londres e Lisboa. No 2º Festival Internacional, de 1976, trouxe para o Brasil o grupo catalão Els Joglars, com Allias Serralonga; os City Players, do Irã, com uma inusitada montagem de Calígula, de Albert Camus; a companhia Hamada Zenya Gekijo, do Japão; o grupo G. Belli, da Itália, com Pranzo di Famiglia, dirigida por Tinto Brass, entre outros. Em seguida voltou à cena para interpretar “Ilídia” em A Torre de Babel e trouxe o autor Fernando Arrabal para dirigi-la.

Entre as grandes atrações do 3.º Festival Internacional, de Teatro, em 1981, estavam o grupo norte-americano Mabu Mines; o belga Plan K; o La Cuadra, de Sevilha; além do uruguaio Galpón e do português A Comuna. Na década de 1980 afastou-se um pouco do teatro, quando foi eleita deputada estadual para 2 legislaturas, vindo a dedicar-se a projetos comunitários. Pouco depois, retornou aos festivais internacionais, ampliando sua abrangência ao trazer grupos de dança, de formas animadas ou aqueles que uniam todas essas linguagens. Em 1986, foi agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal e no ano seguinte recebeu a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, de Portugal.

Logo decidiu publicar Maria Ruth – Uma Autobiografia (1987), contando sua trajetória, mesclando a produção cultural com sua atuação social. Entre 1994 e 1997, voltou a produzir festivais internacionais, com o nome Festival Internacional de Artes Cênicas. Em seguida recebeu, do governo francês, a condecoração da Legião de Honra. Em 2001, criou uma versão de Os Lusíadas, de Camões, seu último trabalho nos palcos, como produtora. Em 2000, foi diagnosticada com a doença de Alzheimer, que agravou-se comprometendo sua memória e atividade profissional. Em 2006, sua filha Patrícia Escobar, conseguiu interditar seu patrimônio na justiça e acusou o escritório de advogados de não estar cuidando devidamente do seu patrimônio. Faleceu em 5/10/2017 aos 82 anos.

O velório se deu no teatro que leva o seu nome. Em 2021, o pesquisador Álvaro Machado retratou sua vida e obra em “[…] metade é verdade – Ruth Escobar, publicado pela Edições SESC. um calhamaço de 624 páginas e 347 imagens. O título recorre a uma pergunta que ela costumava dirigir aos novos colaboradores de suas diversas atividades. Ciente das fantasias e dos mitos a seu respeito, ela prevenia: “Sabe todas aquelas histórias que você já ouviu sobre mim? Pois, metade é verdade”.

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OS BRASILEIROS: Ascenso Ferreira

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu em Palmares, PE, em 9/5/1895. Poeta e folclorista, foi protagonista da 2ª fase do Movimento Modernista de 1922, no Recife, com uma poesia destacando a temática regional. Foi o primeiro poeta brasileiro a gravar seus poemas declamados em disco.

Filho de Maria Luísa Gonçalves Ferreira e Antônio Carneiro Torres. Foi reconhecido como inovador pelos poetas Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que ressaltou no seu artigo “Ritmo novo: “Só mesmo Ascenso Ferreira trouxe para o modernismo uma originalidade real, um ritmo verdadeiramente novo”. Segundo alguns críticos, ele apresenta o “modernismo brasileiro como uma pluralidade mais ampla do que a iniciativa de um grupo de autores paulistas’.

Aos 16 anos publicou seu primeiro poema – Flor fenecida – no jornal A Notícia de Palmares, em 1911. Mudou-se para o Recife em 1920, tornou-se funcionário público e passou a colaborar com o Diário de Pernambuco e outros jornais. Em seguida, casou-se com Maria Stella, filha do literato Fernando Griz. Pouco depois, integrou o Movimento Modernista e em 1927, incentivado por Manuel Bandeira, publicou seu primeiro livro Catimbó e logo viajou pelo País, promovendo recitais de poesia.

Em 1933 conheceu Maria de Lourdes Medeiros e passou a viver com ela também. Em 1941 publicou o segundo livro Cana Caiana. O terceiro livro Xenhenhém logo ficou pronto, mas só foi publicado em 1951 e foi o primeiro livro surgido no Brasil apresentando um disco de poesias recitadas pelo autor, incluindo o poema O trem de Alagoas, musicado por Heitor Villa-Lobos.

Em 1955, participou da campanha presidencial de Juscelino Kubitschek e foi nomeado para a direção do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Porém, foi cancelado devido a pressão de um grupo de intelectuais recifenses que não aceitava o poeta e boêmio irreverente no cargo. Foi nomeado, então, assessor do Ministério da Educação e Cultura.

Em 1963, a Editora José Olympio relançou seu primeiro livro Catimbó, junto com outros poemas. Na década de 1980, Alceu Valença reavivou a memória do poeta junto ao grande público com a música Vou danado pra Catende, com versos extraídos do poema O trem de Alagoas, num arranjo renovado e ritmado como um trem em movimento.

Era uma figura exótica, com quase 2 metros de altura, gordo, alto e usava um chapéu de abas largas. Era um boêmio, estava sempre com um charuto na mão e recitava seus versos com grande personalidade e graça. Em seu poema intitulado ironicamente “Filosofia”, escreveu:

Hora de comer – comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Em 2015 a CEPE-Companhia Editora de Pernambuco, publicou a coletânea Como polpa de ingá maduro: poesia reunida de Ascenso Ferreira, organizado pela doutora em Línguas Hispânicas e Literatura pela Universidade da Califórnia, Valéria Torres da Costa. Faleceu em 5/5/1965 e a Prefeitura de Recife prestou-lhe homenagem com uma estátua sua na Rua do Apolo, no Recife, onde o poeta gostava de caminhar.

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AS BRASILEIRAS: Dona Ivone Lara

Ivonne Lara da Costa nasceu em 13/4/1921. Enfermeira, assistente social, compositora e cantora, ficou conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba. Foi a primeira mulher a compor um samba-enredo, vindo a integrar a ala de compositores de sua escola, a “Império Serrano”, em 1963. Seu nascimento em 13 de abril foi instituído em Lei como “Dia Nacional da Mulher Sambista”.

Filha de Emerentina Bento da Silva e João da Silva Lara, ambos ligados a música. Formada em enfermagem e serviço social, trabalhou na área de saúde por mais de 30 anos. Teve atuação destacada na reforma psiquiátrica no Brasil, ao lado da médica Nise da Silveira, antes de se aposentar, em 1977, e dedicar-se à carreira artística.

Perdeu a mãe aos 3 anos de idade, o pai aos 16, e foi criada pelos tios, com quem aprendeu a tocar cavaquinho, ouvindo samba; teve aulas de canto com Lucília Guimarães e recebeu elogios de seu marido, o maestro Villa-Lobos. Teve uma família formada por músicos: casou-se, em 4/12/1947, com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da Escola de Samba Prazer da Serrinha. Aí conheceu alguns compositores que vieram a ser seus parceiros, como Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira.

Passou a maior parte de sua vida dedicada ao serviço de saúde. Entrou na Faculdade de Enfermagem (atual UNIRIO) aos 17 anos; aos 21 prestou concurso público no Ministério da Saúde e aos 25 foi trabalhar no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Aí especializou-se em terapia ocupacional e trabalhou por mais de 30 anos na Colônia Juliano Moreira, com pacientes de doenças mentais. Formou-se, também, em Serviço Social e teve atuação destacada nesta área, reconhecido pela professora da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ, Graziela Scheffer, que publicou o artigo acadêmico “Serviço social e Dona Ivone Lara: o lado negro e laico da nossa história profissional”, em 2021 na revista Opera.

Tinha uma visão diferenciada dos diagnósticos médicos, que desacreditavam da condição mental dessas pessoas e trouxe a “terapia musical” para seus pacientes. Utilizando-se de seus contatos, conseguiu patrocínios para adquirir os instrumentos e criou uma oficina de música, passando a promover festas e eventos de socialização entre os pacientes, familiares e funcionários. A oficina deu origem ao bloco de carnaval carioca “Loucura Suburbana”, em 2001.

Compôs o primeiro samba – Nasci para Sofrer -, que se tornou o hino da escola de samba Prazer da Serrinha, fundada na década de 40 e extinta em 1952. Com a fundação da escola de samba Império Serrano em 1947, passou a desfilar na ala das baianas. Seu primo Antônio dos Santos, conhecido como Mestre Fuleiro recebia os créditos pela maioria das primeiras composições, pois os sambas eram compostos apenas por homens. Trata-se de um ardil premeditado entre os dois. Primeiro ele apresentou os sambas na ala dos compositores como se fossem dele. Só mais tarde quando alcançavam sucesso, ele revelou como sendo de sua prima.

Assim, ela só foi integrada na ala dos compositores do Império Serrano em 1963, após 11 anos contribuindo com a escola. Em 1965, passou a assinar sambas enredo com seu próprio nome. Desse modo tornou-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo. Em 1970 gravou seu primeiro disco “Sambão 70”, obtendo grande sucesso. Em 1986 compôs um jingle para a campanha de Wellington Moreira Franco nas eleições para governador e o sucesso da canção foi apontada como responsável pela vitória naquele ano.

Participou como atriz em alguns filmes e foi a Tia Anastácia no programa “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Deixou mais de 20 discos gravados e suas músicas vêm sendo interpretadas pelas principais cantoras e cantores brasileiros. Uma de suas músicas mais conhecidas, em parceria com Délcio Carvalho, foi Sonho Meu, sucesso na voz de Maria Bethânia e Gal Costa em 1978, cujo álbum ultrapassou um milhão de cópias vendidas. Em 2010 foi a homenageada na 21.ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Em 2012, recebeu homenagem do Império Serrano, com o enredo Dona Ivone Lara: O enredo do meu samba.

Em dezembro de 2014 foi a homenageada na 19ª edição do Trem do Samba; em 2015, entrou para a lista das “Dez Grandes Mulheres que Marcaram a História do Rio”. Faleceu em 16/4/2018, aos 97 anos. Algumas biografias dão conta de seu legado: Nasci para sonhar e cantar: Dona Ivone Lara: a mulher no samba, de Mila Burns, publicada pela Ed. Record, em 2009; Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba, de Lucas Nobile, publicada pela Sonora Editora, em 2015, e Ivone Lara: A dona da melodia, publicada pela Ed. Garamond, em 2010.

Uma cinebiografia intitulada Dona Ivone Lara: O Prazer da Serrinha, com roteiro de Elísio Lopes e Igor Verde, encontra-se em fase de produção com lançamento previsto para 2026. O longa retrata sua trajetória, focando a carreira musical, bem como sua atuação na área da saúde mental.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pelé (II)

Antes da Copa do Mundo de 1958, a CBD contratou o psicólogo João Carvalhaes para submeter os atletas a testes de “avaliação de inteligência e equilíbrio psicológico”. Pelé marcou 68 de 123 pontos, o que motivou Carvalhaes a recomendar a comissão técnica que não o levasse, por ser “obviamente infantil” e não possuir senso de responsabilidade suficiente para um jogo coletivo. A recomendação não foi seguida, e Pelé integrou o elenco que iria para a Suécia. Sobre o ocorrido, ele comentou, décadas depois, que não se sentia “muito responsável” com 17 anos, e que só pensava “em jogar” e que tudo “era uma festa” e emendou que jogadores mais experientes da equipe, como Didi, Nílton Santos e Gilmar, “carregavam o peso”.

Em 29/6/1958, se tornou o jogador mais jovem a disputar a final da Copa do Mundo aos 17 anos e 249 dias. Marcou 2 gols na etapa final e o Brasil venceu a Suécia por 5–2. Seu 1º gol no canto da rede, foi escolhido como um dos melhores da história das Copas. Quando a partida terminou, Pelé desmaiou em campo e foi reanimado por Garrincha. Já recuperado, ficou emocionado e chorando, enquanto era parabenizado pelos companheiros de equipe. A imprensa proclamou Pelé a maior revelação da Copa.

Em 1959, foi convocado para servir no Exército. Benedito Ruy Barbosa, seu biógrafo, acredita que a convocação tenha se dado de forma proposital, “para chamar a atenção para o Exército e para as Forças Armadas”. Pelé disputou várias partidas com a Seleção Brasileira do Exército, e foi campeão sul-americano, marcando o gol decisivo no jogo final contra a Seleção Militar da Argentina. Com a camisa do Exército, Pelé atuou em 10 partidas, marcando 14 gols. Em 2010, em comemoração ao seu 70º aniversário, o Exército Brasileiro homenageou o atleta, com a inauguração do “Espaço Pelé” no Museu do Desporto do Exército.

No Torneio Rio-São Paulo marcou um de seus gols mais famosos contra o Fluminense, no Maracanã: recebeu a bola na entrada de sua própria área, e correu todo o campo driblando 6 adversários e o goleiro, antes de chutar para o gol. Uma placa foi encomendada citando “o gol mais bonito da história do Maracanã” dando origem à expressão “gol de placa”, que virou sinônimo de gol espetacular. Seu desempenho nos jogos despertou o interesse dos times italianos Internationale, Juventus e Milan, com a oferta de 600 milhões de liras pelo jogador. Um valor recorde para a época, que girava em torno dos 250 milhões de lira.

O assédio desses clubes pela sua contratação incomodou o então presidente Jânio Quadros, que mandou um bilhete à João Mendonça Falcão, presidente do Conselho Nacional de Desportos, afirmando que lhe preocupava “a reiterada contratação de futebolistas brasileiros por clubes estrangeiros, concluindo que aguardava providências de Falcão. Sua pretensão era declarar Pelé um “tesouro nacional”, e com isso impedir sua ida ao exterior. O ato do Presidente foi objeto de críticas na época, que apontavam a inconstitucionalidade de se privar Pelé de seus direitos constitucionais.

Um dos momentos marcantes de sua carreira foi o milésimo gol em 19/11/1969, no jogo contra o Vasco da Gama, seu time do coração. Foi um gol de pênalti e ele foi cercado jornalistas e dirigentes do Santos. Pegou a bola, beijando-a e oferecendo o gol às crianças, pessoas pobres e velhinhos cegos. O jogo foi suspenso por 20 minutos, e Pelé deu uma volta olímpica no estádio, com uma camisa do Vasco com número “1000” nas costas. Em sua crônica semanal, Carlos Drummond de Andrade deixou registrado: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.

Seguiram-se diversos jogos todos bem sucedidos. Porém, em 1974 convocou uma auditoria para conhecer sua situação financeira e descobriu que não ia bem, particularmente com a empresa Fiolax, uma fábrica de peças de borracha, da qual foi sócio e devia milhões de dólares. “Eu devia milhões, estava determinado a pagar minhas dívidas e eu sabia que jogar futebol era de longe a melhor coisas que eu podia fazer”. Em seguida surge o time norte-americano New York Cosmos disposto a contratá-lo. As tratativas para isso duraram algum tempo, pois o governo brasileiro mantinha uma certa resistência.

Com a intenção de convencer Pelé e o governo brasileiro, o secretário de estado ds EUA, Henry Kissinger, chegou a enviar telegrama ao chanceler brasileiro pedindo ajuda para convencer Pelé, alegando que a contratação contribuiria para estreitar as relações entre os países. Desse modo Pelé aceitou a proposta e o Cosmos anunciou oficialmente sua contratação em 10/6/1975. Em seguida Pelé se encontrou com o presidente Gerald Ford, na Casa Branca. A expectativa era que Pelé poderia “estimular o futebol profissional bem como o interesse geral no esporte dentro do país”.

Em seu livro Pelé: A importância do futebol, ele afirma que o acordado era 1 milhão de dólares por sete anos. As cifras apontadas pela imprensa variavam entre 2,8 milhões, 4,5 milhões e até 7 milhões de dólares por 3 anos de contrato, mas o New York Times anunciou que o contrato era de 7 milhões, mas 2 milhões eram de impostos. Ou seja, o Rei Pelé ganhou 5 milhões de dólares e foi apontado como o atleta mais bem pago do mundo. A estréia se deu em 15/6/1975, num empate em 2–2 contra o Dallas Tornado. A partida atraiu imensa atenção por todo os EUA e foi transmitida para 30 países pela rede CBS. Pelé fez um gol e por diversas vezes permitiu que seus companheiros ficassem cara a cara com o goleiro adversário. Em 1/10/1977, encerrou sua carreira em uma partida de exibição entre o Cosmos e o Santos, em Nova Iorque no Estádio dos Giants. Em seu discurso de despedida, Pelé pediu que a multidão repetisse com ele 3 vezes a palavra love. O ato serviu de inspiração a Caetano Veloso para compor a canção “Love Love Love”.

Em 1992, ele foi nomeado embaixador da ONU de ecologia e meio ambiente. Além disso, apoiou várias causas de caridade, como Action for Brazil’s Children, Gols Pela Vida, Aldeias Infantis SOS, The Littlest Lamb, Prince’s Rainforests Project entre outras. 2 anos depois foi foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da UNESCO. O presidente Fernando Henrique Cardoso o nomeou para o cargo de Ministro do Esporte, em 1995. Neste esse período, ele propôs uma legislação para reduzir a corrupção no futebol brasileiro, que ficou conhecida como “Lei Pelé” e deixou o cargo em 2001.

Anos depois abraçou a causa da caridade participando da Cúpula Olímpica da Fome, em 2012, organizada pelo ministro britânico David Cameron. Em 2014 foi inaugurado o Museu Pelé, em Santos e em 2016 leiloou mais de 1,6 mil itens de uma coleção que acumulou ao longo de décadas e arrecadou 3,6 milhões de libras para caridade. Em 2018 fundou sua própria organização de caridade, a Fundação Pelé, para capacitar crianças carentes e desprivilegiadas de todo o mundo.

Em agosto de 2021, foi diagnosticado com câncer no cólon. Em dezembro de 2022, foi divulgado que o tratamento quimioterápico não era responsivo e foi substituído por um tratamento paliativo. Após um mês internado num hospital em São Paulo, faleceu em 29/12/2022, aos 82 anos, e foi sepultado no Memorial Necrópole Ecumênica, em Santos.

No vídeo abaixo, o gol mais bonito que Pelé não fez na semifinal da Copa do Mundo de 1970

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pelé (I)

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23\10\1940, em Três Corações, MG. Jogador de futebol, foi tri-campeão na Copa Mundial em 1958, 1962 e 1970; maior artilheiro do Santos Futebol Club e teve atuação destacada em duas Copas Libertadores da América e dois campeonatos Mudiais Interclubes. Em 2000, ganhou o prêmio de Melhor Jogador do Século, junto com Maradora. No mesmo ano, foi eleito Atleta do Século pelo COI-Comitê Olímpico Internacional. Em 1995, foi nomeado Ministro do Esporte, no Brasil, e em 2010 foi nomeado presidente honorário do clube New York Cosmos, dos EUA.

O nome “Pelé” surgiu ainda criança, quando pronunciava erroneamente o nome do goleiro Bilé, do Vasco da Gama. Não sabia que o nome “Bilé” significa “milagre” em hebreu e não tem nenhum significado em português. Mas foi o que se deu na vida do garoto que gostava de futebol. Filho de Celeste Arantes e do jogador João Ramos do Nascimento, conhecido como Dondinho. Aos 3 anos, mudou-se para São Paulo, onde viveu em diversas cidades. A primeira foi Bauru, onde levou uma vida modesta e aprendeu a jogar futebol com seu pai.

Iniciou jogando no time “7 de Setembro”, em terra batida e descalço. Daí passou para o “Ameriquinha”, calçando chuteiras pela primeira vez e foi campeão. Aos 13 anos passou a jogar no “Baquinho”, equipe infantojuvenil do Bauru Atlético Clube, onde despontou com brilho entre os colega. Em 1954 seu time enfrentou o campeão infantojuvenil de São Paulo e venceu a partida por 12 a 1, com 5 gols dele, que foi destaque no jornal da cidade. Em 1955 desfizeram o “Baquinho” e criaram o “Radium”, um time de futebol de salão, surgido na época.

Pelé e sua equipe ganharam o primeiro campeonato e os seguintes. Sua superioridade técnica sobre os outros garotos era tamanha que a Liga de Futebol Amador determinou que ele só poderia jogar no gol ou na zaga. Se passasse do meio do campo com a bola, seria falta para o adversário. Mais terde ele admitiu que o futebol de salão, por ser mais rápido ajudou-o a pensar melhor e mais rápido. Além disso a modalidade pemitia-lhe jogar com adultos quando tinha 14 anos. Num dos torneios foi considerado jovem demais para pariticipar, mas jogou e foi artilheiro da competição.

Aos 16 anos recebeu uma proposta do Bangu Futebol Clube, mas sua mãe recusou. Em seguida foi convidado pelo Espote Clube Noroeste e teve a poposta novamente recusada. Waldemar de Brito, técnico do Bangu, sugeriu o Santos Futebol Clube. Sua mãe não queria que ele seguisse a carreira futebolista, mas acabou cedendo e ele foi para Santos, em 1956. Brito apresentou-o como o jovem de 15 anos que seria o maior jogador do mundo. O treinador do Santos – Luis Afonso Pérez – ficou impressionado com o rapaz e providenciou um contrato com o clube, em junho de 1956.

Iniciou na equipe amadora com um salário de 6 mil cruzeiros, que era enviado para sua mãe. A estreia profissional se deu em 7/9/1956 contra o Corinthians de Santo André, onde venceu por 7-1, marcando seu 1º gol na carreira profissional. No torneio Rio-São Paulo de 1957 começou a se destacar em âmbito nacional, onde foi artilheiro. No mesmo ano, o Santos fez um combinado com Vasco da Gama para disputar o Torneio Internacioinal do Morumbi, organizado pelo São Paulo para ajudar na construção do seu estádio. Na 1ª partida contra o time português Belenenses, ele marcou 3 gols, na goleada de 6-1. Neste torneio ele fez 5 gol em 3 partidas. A imprensa vaticinou o “nascimento do futuro craque da Seleção”, chamando a atenção do seu treinador Sylvio Pirilo.

Após o término Torneio, com apenas 10 meses de carreira, foi convocado pela Seleção Brasileira. Na época, seu time de coraçao, o Vasco da gama, tentou contratá-lo por duas vezes, mas não conseguiu. No Campeonato Paulista de 1957, já com a camisa nº 10, foi aritlheiro do ano com 57 gols. No torneio Rio-São Paulo de 1958, sua atuação no jogo contra o América, lhe rendeu a alcunha de “Rei”. Nelson Rodrigues publicou a crônica “A realeza de Pelé”: “Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável — a de se sentir rei, da cabeça aos pés”.

No mesmo campeonato de 1958, foi novamente artilheiro com 58 gols e 80 durante o ano. Seu desempenho despertou o interesse dos italianos para levá-lo para o Inter de Milão. As tratativas não progrediram devido a revolta dos torcedores com sua possível saída do Brasil. Em 1959 o Santos fez uma excursão pela América, visitando 7 países. Foram 14 partidas com 15 gols dele. No ano seguinte a excursão foi pela Europa em 9 países, com 22 jogos. Pelé foi a atração principal com 28 gols. Na goleada sobre o Inter de Milão, foi aplaudido de pé pela torcida adversária.

De volta ao Brasil, o Santos disputou o Campeonato Paulista e marcou 155 gols, recorde que se mantém até hoje com 46 gols de Pelé. Neste campeonato marcou o gol considerado o mais memorável em sua carreira, num jogo comtra o Clube Atlético Juventus. Ao receber um lançamento, aplicou de costas, uma “meia lua” em seu marcador, sem deixar a bola tocar no chão, e na sequência chapelou três adversários, incluindo o goleiro, e fez o gol sem deixar a bola cair. Não havendo imagens de vídeo do jogo, elé pediu que uma animação de computador fosse feita com esta finalidade. 5 décadas depois, uma placa foi colocada no estádio em homenagem ao lance.

(continua no próximo domingo)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Lia de Itamaracá

Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu em 12/1/1944 em Pernambuco, na ilha que leva seu nome. Cantora, compositora e dançarina, é considerada a mais célebre cirandeira do Brasil. Ficou conhecida por Lia nos anos 1960, depois que Teca Calazans, incorporando versos cantados pela cirandeira, acrescentou:

“Esta ciranda quem me deu foi Lia,
que mora na Ilha de Itamaracá”

Leva uma vida modesta na Ilha e trabalhou como merendeira em uma escola pública. Canta e dança ciranda desde menina. Gravou seu primeiro disco aos 33 anos, em 1977, sob o título A rainha da ciranda. Conhecida em seu Estado, ganhou projeção nacional a partir da apresentação no festival “Abril Pro Rock”, em 1998 no Recife. A projeção internacional veio com o lançamento do álbum Eu sou Lia, em 2000. Uma resenha publicada no New Iork Times, deu-lhe o título de “Diva da Música Negra”.

O disco foi distribuido, também, na França e no ano seguinte ela foi convidada para fazer uma turné em Paris, onde fez várias apresentações. Pouco antes disso, recebeu o título de “Doutora Honoris Causa” da UFPE-Universidade Federal de Pernambuco, em 2019 e seu álbum “Ciranda sem fim” foi eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros, pela APCA-Associação Paulista de Arte. Seu amigo, o Mestre Capiba, ajudou-a na projeção, quando lhe deu de presente esta canção:

“Minha ciranda não é minha só
é de todos nós
a melodia principal quem guia é a primeira voz
pra se dançar ciranda
juntamos mão com mão
formando uma roda
cantando uma canção…”

Entre 2003 e 2019, participou em pontas ou como personagem em pelo menos seis filmes. Dois deles dirigido por Kleber Mendonça: o curta-metragem Recife Frio (2009) e Bacurau (2019) Foi também personagem principal do curta-metragem documental Formiga Come do Que Carrega (2013), do diretor Tide Gugliano. Fez, também, uma participação especial no premiado longa-metragem Sangue azul (2014), dirigido por Lírio Ferreira.

Nos últimos anos, Lia vem reebendo diversas homenagens. Foi condecorada com a “Ordem do Mérito Cultural”, pelo Ministério da Cultura e recebeu a comenda “Patrimônio Vivo de Pernambuco” do Governo de seu Estado. Em 2020, foi homenageada pelo Bloco Afro Ilú Oba De Min, no carnaval em São Paulo, e o Banco Itaú dedicou-lhe a 55ª edição do programa Ocupação Cultural, realizada em abril-julho de 2022. É uma das poucas negras brasileiras que recebeu o Certificado de Ancestralidade da “African Ancestry Inc., através do estudo de DNA, como descendente do Povo Djola da Guiné-Bissau, em 2015.

Foi considerada uma das 100 personalidades negras influentes da lusofonia, integrando a 100 Power List, iniciativa da revista digital “Bantumen”. Em 2023. No mesmo ano fez uma apresentação no Festival de Música Mundial Horizonte, em Koblenz, Alemanha. No carnaval de 2024, foi homenageada como enredo por duas escolas de samba: no Rio de Janeiro pelo Império da Tijuca e em São Paulo pela Nenê de Vila Matilde. Atualmente Lia canta e não sei se ainda dança, mas comanda o Centro Cultural Estrela de Lia, em Itamaracá.