ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

REQUIESCAT IN PAX

Tenho acompanhado nesses últimos dias os tsunamis de lama, merda e safadeza que tomou conta do país, e, com a minha cupidez caeté, estou lambendo os beiços, atiçando a minha fogueira irracional e torcendo para que um pedaço de toitiço sobre para eu colocar no espeto e saciar a minha fome anticivilizacional neste quadrante do planeta. E, chego a uma conclusão aterradora: a república brasileira morreu. Virou um cadáver insepulto fedendo, se decompondo em plena praça pública.

Não digo que a democracia brasileira morreu. Esta está morta há muito tempo. Aliás, quase não dá para precisar quando a democracia morreu e qual a sua causa mortis. Apenas se pode constatar a sua morte a partir da fedentina de seu cadáver. Desde a dita redemocratização, o Estado brasileiro foi organizado como um grande balcão de negócios feito para poucos, perpetuando oligarquias políticas que, desde o golpe de 15 de novembro se assenhorearam do poder e nunca mais o largou.

E, nesses cento e pouco anos, com contrações e distensões, o arremedo de democracia brasileira, afastou o povo das decisões políticas, construiu um arcabouço burocrático que criou uma casta dicotômica: a classe burocrática que se adonou do Estado, e o resto, cuja única função é sustentar o falacioso estado democrático.

No entanto, é necessário não confundir democracia com república. A China é uma república, a Nicarágua é uma república. A Coreia do Norte é uma república, Cuba é uma república, porém, estão longe, mas muito longe de serem democracias. A república, do latim, res pública, ou coisas do povo, na sua tradução mais lata, é sistema de governo que, em tese deveria se sustentar baseada na vontade da sociedade, no ordenamento jurídico definido pela sociedade expressa nas leis, na sua constituição, no direito natural e positivo, e o Estado seria apenas a expressão da vontade da sociedade, organizado para, temporariamente, através de representantes, refletir o bem comum e as determinações dos seus mandantes: o povo.

A República brasileira morreu. E aqui o termo que eu uso para morte é nekhrós, – olha Violante, caeté também sabe grego -, morte no sentido literal, desprovido de vida, sem o animus vital. E, além de morta, a república brasileira virou um cadáver insepulto, decompondo-se de maneira rápida e violenta para narizes e bocas para quem quiser ver.

Ouço um número de analistas políticos falando em salvar o que resta da democracia brasileira, mas não tocam na questão fundamental que eu vejo. Não há que salvar algo que já está morto. Da mesma forma, esses mesmos “analistas” não tocam na pergunta fundamental que deveria ser feita: Tem como salvar uma república que morreu e já está em adiantado estado de putrefação? Respondo: não. Não tem como devolver a vida a um sistema que já está entrando em estado enfisematoso. Na tanatologia, esse estado é quando o cadáver começa a inchar, a emitir gases putrefatos e a liquefazer os tecidos.

Esse é o estado da república brasileira. Está morta. Está putrefata. Está começando a eliminar necrochorume altamente contaminante. E, morreu pela nossa leniência com o errado, pela nossa moral elástica, pela nossa incapacidade e discernir o que certo e o que é errado. O que estamos vendo na dita “crise” entre os poderes não é causa da morte da república. É apenas consequência. Vocês, meus caros caetés, podem até discordar de meu pessimismo, e da minha constatação, mas é uma consequência lógica do sequestro do Estado pelas oligarquias políticas que desde 1899 vem se adonando do país. Uma hora, ou outra, as tentativas de manter o embalsamamento desse cadáver iria dar com a cara na parede. Esse momento chegou.

Eu não acredito que haja uma resposta a essa inação. Cadáver não reage. Cadáver não se posiciona. Há apenas uma aceleração do processo de putrefação que pode ser percebida pela cumplicidade dos poderes ditos republicanos, com a ilegalidade, com o crime e com a safadeza.

Há esperanças? Não acredito nessa possibilidade de se ressuscitar esse cadáver e coloca-lo em pé. Não vejo possibilidade de se animar esse cadáver. Seria apenas um zumbi autofágico. A república brasileira, no atual estágio de putrefação de morte, apenas precipita o país para um abismo estarrecedor que mata qualquer oportunidade de salvação. E, também, não acredito na possibilidade de renovação com eleições. Será apenas mudar a roupa do cadáver, em sepultá-lo.

Confesso que não tenho competência de propor solução alguma, mas apenas constatar que a república que nasceu em 1899, através de um golpe militar que excluiu o povo, morreu no século XXI, e aqueles que sempre parasitaram nela, estão renitentes em enterrar esse cadáver fedorento, mesmo que, para continuarem a se beneficiar, destruam a nação como um todo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CEDO DEMAIS!!

Eu já disse várias vezes, principalmente aqui nesta gazeta, que a corrupção nunca foi o objetivo central de Lula e do PT nesses quase dezoito anos de governo. Alguns podem até discordar desta minha visão, porém, reitero e, de novo, reitero: a corrupção nunca foi o objetivo final de Lula e do PT enquanto estiveram e estão no poder. O plano é mais obscuro, é mais profundo. A corrupção, as bandalheiras, os roubos, as negociatas envolvendo cargos de poder são apenas consequências e reflexos desse plano.

Nesta semana, Pindorama está basbaque com as revelações sobre tráfico de influência, corrupção passiva, advocacia administrativa, compra de autoridades por milhões de dinheiros captados por fraude bancária, por roubo, na cara dura, de fundos de pensões, entre outras roubalheiras que ainda não conhecemos. Mas também, encerra uma lição para banqueiros, empresários, gestores de fundos financeiros, industriais, e todos aqueles que movimentam o mundo financeiro pindoramense, e vamos voltar a essa lição no final deste texto.

As revelações do expediente extra público de Alexandre de Morais, na semana passada, o modo de operação com que integrantes do supremo tribunal federal – assim mesmo, em minúsculo, para homenagear o caráter de lata de lixo da atual composição da corte -, a cara de paisagem do presidente do senado federal, o silêncio sepulcral do executivo, a posição canhestra das ditas “entidades da sociedade civil organizada”, esse conceito arcano e hermenêutico das categorias hegeliana de sociedade, em uma atitude que lembra a Omertà da máfia siciliana – OAB, ABI, Sindicatos, Conselhos Profissionais, até mesmo associação de moradores de bairro – revelam como o plano profundo de Lula e do PT está se concretizando.

A síntese é simples: Lula e o PT nunca focaram na corrupção. O plano era e, ainda é mais profundo, baixar a régua moral da sociedade, pois isso facilita a dominação da estrutura estatal e a perpetuação no poder, descartando a democracia como um estorvo. A moralidade, esse ente absoluto que indica o certo e o errado, o legal, do ilegal, do moral, ao imoral, da aceitação passiva, à resistência e denúncia pública foi sendo anestesiada ao longo desses dezoito anos, sempre um passo adiante. A cada denúncia, a cada descoberta de safadeza, a inação daqueles que deveriam ser responsáveis por investigar e punir quem se desviasse do certo e do legal, rebaixaram, um pouco, de cada vez, essa régua moral nacional, a ponto de não nos escandalizarmos dos roubos bilionários em empresas estatais, em roubos de velhinhos aposentados, em déficits e mais déficits dessas excrescências chamadas empresas estatais.

Só que esses caras se precipitaram. Eles agiram cedo demais na testagem da régua moral que, para eles já devia estar próxima do zero absoluto, totalmente parada e congelada, sem nenhuma manifestação de movimento. O erro palmar, que envolve os três poderes republicanos foi a ação precipitada e afobada, imaginando que a sociedade já estivesse como o sujeito que se apronta para ir ao um casamento e entra em uma missa de sétimo dia, sem se dar conta do engano, ou como o sujeito que sentindo calor, sai de casa para tomar um sorvete e acaba tomando um café recém coado.

Era apenas questão de tempo para a régua moral de Pindorama chegar ao zero absoluto. Mais um ano de governo luloso e tudo estaria preparado para empalmar o poder, declarar o país uma nova Nicarágua, sem eleições, tudo para o bem da democracia. Mas faltava “combinar com os russos”. Faltou essa estratégia de longo prazo, talvez pelo fato do “Nine” já estar no fim da vida, da ansiedade de seus cúmplices em testar o plano e constatar que ele deu certo. Infelizmente, por enquanto, e, para o bem da nação, deram com os burros n’água.

Não estou dizendo que eles não conseguirão. Podem até conseguir no médio prazo, mas vai ficar mais difícil a partir de agora, apesar da falta de perspectiva do pindoramense, de sua proverbial preguiça caeté, de sua inabilidade intelectual, de sua formação educacional precária, de seu QI que está abaixo de um bonobo, e de sua fixação em festas, em bagunça, em divertimento, enquanto a lona do circo pega fogo, com todo mundo dentro.

Os perpetradores desse plano, na sua ânsia de testar o plano, não calcularam os custos a que se submeteriam, e a revolta de alguns bastiões de moralidade, apesar do silêncio indecente e criminosa da dita “sociedade civil organizada”. É um teste assustador para toda a população ver suas instituições comandadas por bandidos que deveriam estar presos. É aterrador ver que, aqueles que deveriam estar a serviço da sociedade, simplesmente dão uma “banana” para o cidadão, vão cometer seus crimes, nem que para isso tenham que destruir as instituições republicanas – Ah… República….esse golpe que esculhambou este país e só gerou vergonha e desastre institucional -, o povo que se dane, só serve para trabalhar, pagar seus impostos em dia e, no máximo gritar gol.

E, a lição que fica para banqueiros, financistas, empresários, industriais é uma só: alimentar político, ministros de cortes supremas, mandatários e autoridades que decidem os destinos da nação com dinheiro sujo é o mesmo que alimentar abutres com as mãos: uma hora, ou outra, eles vão devorar seus dedos.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

OS DENTES DO MONSTRO

Na terça feira (18/08) recebi no grupo de zap do meu local de trabalho um recorte do instagran, da ANPUH – Associação Nacional de Professores Universitários de História – com uma nota de repúdio ao Senado Federal pela censura a um livro que iria ser publicado pela gráfica daquela casa legislativa. O livro, diga-se de passagem, necessário, fala sobre a história do Brasil, principalmente sobre o período cívico-militar, que muito historiador com menos de quarenta anos chama de ditadura militar.

Eu, caeté que gosto de atiçar o fogo só para ver a fogueira irracional de Pindorama crepitar mais alta, que gosto de dizer que o céu é verde, só para deixar os outros irritados, desci a minha borduna feita de guatambu e questionei….. agora? Foi o bastante para se levantar um alarido de guerra na taba, pintarem os corpos com urucum e colocarem o cocar de guerreiros.

Mas, o fato, esse ente que não controlamos é teimoso como uma vaca dentro de uma quitinete. Por mais que tentemos jogar uma toalha por cima, por mais que tentemos fazer dela uma parte da mobília, ela vai continuar cagando, mijando e berrando para quem quiser ouvir. Não tem como esconder o fato, depois que ele faz a zona dentro da quitinete.

Passei a lembrar aos meus interlocutores que entidades como a Anpuh, e não somente ela, mas muitas outras, quando viram o monstro nascer acharam ele bonitinho. E, de fato, quando ele nasce é quase inofensivo, não tem dentes, tem olhinhos calmos, procura sempre um colo onde possa se aquecer e se aninhar.

Senão vejamos; quando a suprema corte brasileira proibiu advogados de ter acesso a processos para defenderem seus clientes, violando uma prerrogativa que eu considero sagrada, não vi a OAB, a ABI, a Anpuh, nenhum conselho regional de nenhuma profissão, nenhum sindicato, nenhum veículo de informação levantarem suas vozes e clamarem contra. Ao contrário, quando o monstro mostrava seus dentes e suas garras nascendo, enquanto estava dirigido àqueles considerados inimigos, ou adversário, houve até aplausos.

Quando essa mesma corte, através de um de seus ministros chantageou um acusado pela tentativa de golpe de carochinha do oito de janeiro, a fazer uma delação com aquilo que ele queria, nenhuma dessas entidades, nem mesmo a outrora honrada Polícia Federal disse um “A” contra essa arbitrariedade, já que era contra o inimigo da “democracia e da liberdade”. Não vi sindicato de nenhuma categoria, nem federação, ou confederação, emitirem nota de repúdio.

Quando um ministro da suprema corte entregou um arquivo com mais de quarenta mil página para a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e deu quinze dias para essa defesa apresentar seu libelo, nem a AOB, nem a ABI, nem a imprensa, nem ninguém que está à frente de organizações falou nada. Muitos, inclusive, até aplaudiram a vontade de “celeridade” desse ministro para se fazer justiça. O monstro estava mostrando seus dentes e garras, mas ainda eram pequenos e metia pouco medo.

Quando esse mesmo ministro negou a advogados o sagrado direito de audiência presencial, houve, inclusive, advogados que aplaudiram a medida, quanto ao resto da dita “sociedade civil organizada”, o que se ouviu foi um retumbante silêncio. Mais uma vez o monstro exercitava seu poder com a conivência e proteção de quem tinha o poder de trancá-lo em um baú de ferro e jogar a chave fora.

Neste ano, o monstro, já taludo, mandou quebrar o sigilo de uma fonte jornalística, violando uma cláusula pétrea da constituição brasileira, começou uma onda de gritaria. Tímida, mas, no meu pensar caeté, tarde demais. O monstro já está em sua fase adulta, incontrolável, indomável, como sempre foi.

Depois disso, o presidente de plantão baixa decreto estabelecendo censura prévia nas redes sociais. Com termos vagos e imprecisos, as ditas “fakes News” serão tudo aquilo que o monstro quiser que seja, e as plataformas que dão suporte a essas redes, ou censuram previamente qualquer notícia que desagrade o monstro, ou vai ser punida.

O monstro, diga-se de passagem, não tem coloração ideológica, não tem afinidade político-partidária, não tem filiação filosófica, não tem compromisso com ninguém a não ser consigo mesmo. Ele é manso enquanto todos fazem aquilo que ele quer e manda. Qualquer desvio ele mostra os dentes e as garras e devora.

Nesse quid pro quo com meus colegas de zap, sempre há aqueles que se fazem de desentendidos, de tolos a serviço de uma causa, a pergunta mais comentada foi: você fala de um monstro, mas não diz quem é esse monstro. Precisa? Só sendo um canalha com carteirinha, ou um lunático com laudo poderia fazer uma pergunta dessas, pois sabem, e muito bem do que estou falando. Eu o chamo de monstro, mas a Língua Portuguesa tem um nome bem menos glamouroso para ele: CENSURA.

Entidades como AOB, ABI, Anpuh, ANDES, FASUBRA, CUT, CONTAG, CNTE, Conselhos Regionais de diversas profissões, Associações de Magistrados, Sindicatos de todas as categorias cevaram o monstro, acalentaram o monstro, colocaram o monstro no colo para ele ninar, trocaram as fraldas do monstro. Agora que ele cresceu e os dentes e garras definitivas se firmaram, começaram, ainda que timidamente a reclamar da cria que eles mesmo pariram.

Temo que seja tarde demais!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PT E MORALIDADE

Todas as vezes que ouço e vejo os escândalos de corrupção envolvendo a classe política brasileira, uma sigla é constante: PT, ou Partido dos Trabalhadores. Desde o começo do século XXI, quando Lula assumiu pela primeira vez a presidência da república, não houve um escândalo sequer que esse bando não estivesse atolado até o nariz nas falcatruas cometidas contra o país.

Isso leva a um tema que já tratei aqui e que volto agora só para provocar. A corrupção do PT não é e nunca foi o objetivo final do bando. Não é e nunca foi estratégia de surrupiar o dinheiro do otário pagador de imposto. Ela é consequência de algo muito maior e mais nefasto para a sociedade como um todo e que envolve perspectivas geracionais de longo prazo. E, estou falando da moralidade social como um todo.

Eu acredito que a Moral é um valor absoluto, não relativo, não individual, cuja fonte transcende o meramente humano. Todos nós, independente de onde nascemos, fomos criados, ou vivemos, temos uma consciência inata do certo e do errado, do bom e do mal, do belo e do feio que é despertado na mais precoce infância. Porém, o século XXI busca relativizar todos esses conceitos e valores.

Fala-se em moral relativa, em verdade relativa, em estética relativa que se amolda ao gosto do freguês e dos vendilhões da hora. Não é à toa a cultura nacional normalizar o esteticamente feio, a arte militante que acanalha a própria arte, a escola utilitária, a música – se é que essa bizarrice da atualidade pode ser chamada de música -, o teatro, o cinema e a máquina de fazer doido.

No campo político, os ataques são mais diretos. Enquanto nos outros meios essa relativização moral entra de forma sorrateira, sob o escuda da “diversidade” e da “tolerância cultural”, no mundo político a coisa é bem mais escancarada e feita à luz do dia, sem o menor pudor. E, com o PT, desde a primeira vez que chegou ao poder, a relativização da moral social foi construída de maneira sorrateira, mas constante.

Veja-se o os atuais escândalos do INSS, do Banco Master, dos empréstimos consignados envolvendo os três poderes da república. Ministros de Cortes Superiores agindo como funcionário de banqueiro para defender seus interesses, irmão de presidente saqueando aposentado através dos “sindicatos de aposentados”, excrescência bananeira cujo único objetivo é assaltar velhinhos e suas miseráveis aposentadorias, presentes e brindes a senadores, deputados, aos chefes da Casa Legislativa, reuniões na surdina com o chefe do executivo.

E o que chama atenção é o volume de dinheiro envolvido nesse festim diabólico em que a sociedade só é chamada para cobrir os rombos da gatunagem. Eu, quando vejo políticos de outras nações pegos em rapinagem, são algumas centenas de milhares de dólares. Lembro-me de um caso japonês em que o ministro do transporte, se não me engano, pediu demissão e renunciou ao mandato porque aceitou dez mil dólares de um empresário. O mundo dele caiu.

Aqui em Pindorama, dezenas de milhares de reais é troco de pinga. A corrupção aqui é de milhões para cima, como o escritório de advocacia, da mulher de ministro do supremo tribunal federal – assim mesmo em minúsculo -, recebe 120 milhões para elaborar um código de ética que qualquer estagiário do primeiro ano de Direito faz em 30 minutos. Ministro recebendo por “venda” de resort, viagens para degustar uísque em outro país, tudo pago por banqueiro bucaneiro com interesses na Corte Suprema de Justiça.

Mas, toda essa bandalheira é reflexo e não causa de um problema mais profundo que foi gestado e parido por Lula da Silva e seu bando. O PT e Lula sempre tiveram a intenção, não de roubar, mas de rebaixar a régua moral da sociedade, tornando-a insensível a essa podridão toda. Desde 2003 há um ataque silencioso, porém eficaz na destruição, ou banalização da moralidade absoluta. Há quarenta anos, aquilo que era escandaloso, que provocava repulsa na sociedade, não tem mais o mesmo efeito na sociedade. Não porque nos acostumamos com a corrupção e o assalto institucionalizado, mas porque a nossa moralidade foi rebaixada a níveis subglaciais. Repete-se o jargão de Adhemar de Barros “rouba, mas faz”, como houvesse equivalência entre uma coisa e outra.

É incrível como não estamos nas ruas, nas praças públicas clamando por punição desses agentes corruptos. Na nossa mente a corrupção virou algo banal, como se fizesse parte da nossa dinâmica de sociedade, com se a corrupção fosse parte da paisagem política e social, e já não provoca horrores, não provoca indignação. Mas isso acontece não porque deixamos de ser insensíveis, mas nossa régua de moralidade foi rebaixada, intencionalmente por Lula da Silva e seu PT, que fomos nos acostumando, fomos nos dessensibilizando, fomos aceitando essa situação como parte integrante da nossa moralidade.

Lula da Silva e seu bando conseguiram o que queriam. O Brasil hoje, é um país cuja régua moral está abaixo de zero. Lula da Silva e seu PT, tomaram a censura feita por Ivan Karamazov, e a transformaram em uma filosofia de vida: Deus morreu, tudo é permitido! Mas, há espaço para rebaixar ainda mais essa régua moral. Para o PT é preciso que toda a nação tenha a mesma baliza moral que seu deus e patuá, ou seja, nenhuma. Lula da Silva não tem moralidade alguma, não tem limites, não tem baliza. E, é para esse lodaçal que Lula da Silva e o PT querem levar toda a nação de arrasto.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

DONA COTINHA

Recebeu na pia batismal da comarca de Flores de Ingá o nome de Maria Clotilde Nascimento Neves, Cotinha para os íntimos. Desenvolveu-se bela moça, com os seus etcéteras e tal, talqualmente uma tanajura, daquelas que tem seus avantajados do de baixo, amarrados nos do de cima, apenas por um nó que parecia tolete de taquara.

Cidade pequena onde todo mundo se conhece, Maricota foi o sonho e o patuá de muitos moleques de sua mesma idade, e quando ficou mais taluda, foi a responsável por muita espinha de adolescente e braço forte de muitos marmanjos. Não era a garota de Ipanema decantada por Tom Jobim, como naquela música, emboramente relembrasse aquela moça, já que aquele sujeito fez despertar muita lascívia Pindorama afora, em homens machos de todos os quadrantes, e fora do Brasil também.

Ganhara duas vezes o prêmio de miss Flores do Ingá, com seu porte chamativo e dois mimosos que sempre estavam bispando o universo, nunca para o horizonte e muito menos para o inferno. Esse era seu maior chamativo. E, como toda moça recatada vivia do grupo escolar para casa, desta para igreja e depois para casa novamente. Nunca se soube se teve namoricos escondidos, embora houvesse um magote de pretendentes, a maioria não era para casamento, como sempre ocorre nesses casos.

Mas, casou-se, e bem casada, diga-se passagem. Um médico novo, apessoado, afamado na cidade pela competência e maestria na composição de beberagens e sinapismos que expulsava as mazelas dessaúde daquele burgo pequeno, mas bem arrumado.

Como todo casamento bem ajustado vieram os filhos: duas meninas e um menino. As filhas herdaram a mesma beleza da mãe, a mesma exuberância, só que com cabelos loiros como os do pai, embora naquela época cabelo loiro, ou era de gente importada do estrangeiro, ou comprada na botica. O filho já nasceu taludo e foi encompridando até ficar tão alto quanto o pai.

E, como sempre, a vida vai passando. Como sempre, a areia do tempo vai escorrendo devagar por aquela ampulheta. Os filhos cresceram, foram estudar fora onde se casaram, construíram vida e foram rareando as visitas na cidade de nascença. O marido, já encanecido pelo tempo, certo dia, tomou uma facada de um vento encanado, bem no vazio das costelas e partiu numa noite de dezembro chuvento nas asas de um caburé.

Dona Cotinha ficou sozinha em um casarão que, de repente ficou grande demais para uma saudade e uma vida sozinha. Os filhos longe, o marido no barro do cemitério. E foi ficando tristenta, calada, quase sem sair de casa, recebendo visita quase nenhuma. Só a missa era espaço frequentado. Passado um tempo, nem isso. E, como toda cidade que evolui Flores do Ingá também evoluiu, perdendo a memória das gentes antigas.

Cheia de viver, não suportando mais a solidão, Dona Cotinha, certo dia, deixou seu exílio voluntário e foi ao médico. A aparição da velha teve parecença de um fenômeno celeste não esperado. Chegou ao consultório do novo doutor e fez os exames normais para uma senhora de sua idade, Na saída foi específica.

– Doutor, me responda uma coisa: onde fica o coração?

– Bem, Dona Cotinha, nas mulheres, geralmente o coração fica na altura do bico dos seios, mas por quê?

– Nada não, só para saber! E foi embora para casa.

No outro dia, notícia do jornal da cidade espantou todo mundo: “Idosa de 89 anos tenta suicídio dando um tiro no próprio joelho!”

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CICARINO DANTAS

Para Matilde Urbach

Era aguardenteiro em Pau Grande, daquele tipo de homem que só reserva paixão e amor pelo precioso líquido da cana. Dono de pasto vasqueiro, talqualmente o pai, o avô e o bisavô, desde o gosto do primeiro leite tomou paixão pela profissão cachacista, mesmo tendo uns cascos de gado que engrandecia sua terra de cana e cachaça.

Era homem ciumento, mas guardava ciúmes apenas para o precioso líquido que escorrupichava de suas turbinas de cobre areadas que chegavam a cegar no polimento dos metais. Devocioneiro de Santa Bárbara, São José e São Jorge carregava sempre um patoá encangalhado no pescoço e um oratório com água benta e as imagens dos santos de sua devocionice. Seu maior medo era morrer em caminho ermo, vítima de emboscada, ou mesmo no dente de jararaca, era morrer desbenificiado dos favores da religião e de seu povo de batina.

Apreciava fazer auditoria, sem hora marcada na usina de sua propriedade, aproveitava para gambá o asseio dos funcionários, o ritmo suíço de seu fabrico de cachaça, obtemperando com o mestre de alambique os melhores jeitos de se retirar da cana o doce mais de nababo para se fazer a melhor aguardente.

Reclamativo, como todo dono, queria isso, queria aquilo, mandava isso, mandava aquilo, dando reprimenda em João Fundo de Garrafa, que sugava um alambique mais que morcego e mamava uma cachaça mais que menino novo em peito de mãe de primeiro leite. Emboramente fosse reclamão, alma mais simples e inocente estava ali.

Até que veio a grande peste de trinta e quatro. Era um morrer de gado, um latir de cachorro, um assobiar de lobisomem. São Bartolomeu, nas noites ventosas estumava aquela matilha de empestiado a fuçar porteira, a arranhar janela e a correr pelos campos. No casarão de Cicarino, depois das Aves – Maria, a nenhum ser vivo era franqueado a gozar sua mulata no depois da meia noite, ou mesmo a fazer vadiagem em pés de casuarinas, ou moita de gravatá. A mão ossuda da morte estava por todo lugar.

E o gadinho ralo de Cicarino começou a morrer, como se a ceifadora tivesse contrato de firma assentada em cartório para levar para terra do além a fonte de leite de seus meninos. Somente o canavial e os alambiques continuavam produzindo, mas via-se o medo encalistrado nos olhos e almas dos seus empregados.

Prontamente apareceu nas terras vasqueiras de Cicarino um crioulo com grande fama de benzedor, desses que com uma reza braba, um fumegador de matar caninana no barato de duas braças, prontamente a debelar qualquer compromisso da peste com suas posses. Mas, sua fama de catimbó era meio esquisita. Para a reza dar certo e o rezador espantar a peste, este deveria ficar sozinho no quarto com a mulher do aguardenteiro, nus, com as janelas fechadas.

A coisa ficava pior, porque, segundo alguns maledicentes, o benzedor teria que passar a verruma dele no corpo todo da mulher do fazendeiro contratante, a mode a mazela ser debelada e o gado ir sendo salvo à medida que o crioulo rezava em partes específicas do corpo da dita senhora. Cicarino meio que desconfiou, mas como a certeza do prejuízo e os dissabores de ter que começar tudo do zero o espantava, concordou com esse método esquisito.

Dia aprazado para a benzedura, foi o rezador com suas trapizongas para o quarto, chamou a mulher do aguardenteiro, enquanto este estava gambando o polimento de seus mimos de fabricar cachaça. Ao saber do ocorrido, Cicarino deixou os seus afazeres mais rápido que um calangro quando vê perigo. Chegou em casa botando os bofes pra fora, e antes que o benzedor começasse a sua reza, gritou: olha, seu benzedor, a vaca preta e o boi zebu pode deixar morrer, viu…..

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CAETICES

Ziad

Ziad Daud Ibrahim era comerciante de papelaria em Corumbá/MS e sua loja era bem movimentada porque fazia as vendas a crédito a todas as escolas públicas do município, na base do: quando entrar o dinheiro a gente corre aqui e paga. Naquela época eu adjuntava com a diretora da escola onde trabalhava e era o preferido para negociar com ele. Na sua língua arrevesada sempre dizia “brofessora Neuza non boa negociante, Ziad brefeve brofessor Roque”. Isso porque o velho gostava era de negociar, e não vender. E a negociação demorava horas, misturada com chá e pechincha. Seu filho, Sami era um amor de pessoa. Educado, fino, delicado. Alguns, na atualidade iriam dizer que era fresco, mas não. O rapaz era trabalhador e sabia conquistar fregueses. Casado, com um moleque de 4 anos que tinha o satanás no couro. Certa vez em uma negociação vespertina, vi o garoto ir para a rua. Seu Ziad, com um corpanzil de entulhar qualquer recinto, de dentro da loja grita: vilhinha, entra loja, entra senão babai dá a bunda! Olhei para o lado, disfarcei o sorriso e continuamos a negociar.

Eulâmpio

Eulâmpio foi meu aluno na sexta e sétima série do antigo primeiro grau – daí vocês já percebem que este caeté que vos fala já tá queimando óleo 45 e prafrentemente disso – Menino fora de tempo, atrasado em todas as situações, até para falar. Certa vez cobrei dele uma atividade de Língua Portuguesa que passara uma semana antes. Deu aquele sorriso idiotizado, escandindo cada ritmo do riso. Professor – numa voz que misturava batata assada e mingua na boca -, eu não fiz. Sai com minha mãe e esqueci. Isso porque eu pedira a atividade na quinta, e já estávamos na segunda-feira da semana seguinte. Coçou a cabeça, enfiou o dedo no nariz e foi sentar. Na última vez que o vi era assessor parlamentar de um vereador da Cidade Branca. Nesse momento me deu vontade de também sorrir com aquele olhar abobalhado que era a marca registrada de Eulâmpio com todos os seus professores.

Tio Vicente

Tio Vicente – saudoso e alegre tio – era loroteiro até não poder mais. Não pescava nem gripe, mas todo fim de semana era convidado pelos amigos para ir para a pescaria, só para ouvirem as lorotas dele, e meu irmão Heraldo atiçava ainda mais esse lado dele. Certa vez, na fazenda contamos que vimos um ninho de arichiguana – é um tipo de abelha preta que dá muito aqui no Centro Oeste. Produz um delicado mel claro, mas ferra doído -. Tio Vicente, de imediato disse que iria pegar essa colmeia. E planejou: iria montar em um cavalo, galopar, passar pela colmeia, laçar o tronco onde ela estava. Com a corrida, o tronco batendo no chão, espantaria as abelhas e ficaria só os favos de mel. Melhor dito, foi executado. Nós observando as peripécias dele. De fato, galopou, laçou o ninha e saiu correndo. Quando o laço deu o estirão, a cilha do cavalo arrebentou e o laço fez o efeito elástico. Titio voltou com a cela e tudo e bateu de costas no tronco onde estavam as abelhas, perdendo o ar. Voltou quinze minutos depois, todo ferrado e ameaçando surrar o primeiro moleque que risse dele.

Tio Coró

Tio Coró, também conhecido como Sebastião Siqueira da Cunha, tio por ter casado com minha tia era funcionário do Banco do Brasil, mas o que mais gostava era de caça, na época em que as pessoas se preocupavam mais com a manutenção da família do que em queimar mato enrolado em seda. Naquela sexta à noite, saiu ele e dois cupinchas que não se desgarravam e foram caçar cateto nas matas de São Vicente, a uns 80 Km de Cuiabá. Tio Coró tinha uma carabina 12 cano serrado. Dedé, amigo, compadre e cúmplice dele só relatou o seguinte: estavam no carro quando tio Coró viu um vulto correndo ao lado da pista. Sacou a sua carabina e lascou o tiro. O gatilho até pulou na alegria da pólvora. Mas, tio Coró esqueceu que a carabina tinha cano serrado e colocou a mão de apoio bem na boca do pau de fogo. O resultado foi dois dedos da mão esquerda a menos, uma corrida no pronto socorro e uma semana meu tio enchendo a paciência de minha tia, em casa, por causa do incidente.

Alvino

Outro que gostava de caça era o cunhado de meu irmão o Alvino. Meu saudoso irmão, Ronaldo contava que certa vez foram levar uma carga da cidade para o sítio de um senhor em que ele trabalhava de motorista, naqueles caminhões Mercedes, que o povo de má língua chama de muriçoca. Alvino levava a espingarda – e naquela época era muito comum, não tinha essa baboseira de porte e posse de arma – ao lado de seu banco. Meu irmão contava que Alvino viu um vulto correndo ao lado do caminhão, pediu para meu irmão segurar a direção, sacou a carabina e deu dois tiros no vulto que entrou no mato. Parou, desceu e foi ver o que havia abatido. Encontrou o estepe do caminhão que se soltara, com dois tiros na banda de rolagem, morto, mortinho da silva, em uma vala ao lado da rodovia.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

SEU JACÓ

Para Jesus de Ritinha de Miúdo

Conheci Seu Jacó quando o velho já estava dobrando a folhinha de dezembro com seus noventa e seis anos bem vividos e melhor consumido. Velho somítico, canguinha, unha de fome, pão duro, munheca de samambaia, pata de vaca, sovina, miserável, beira de sino, mesquinho, avarento, muquirana, cainha, forreta, do tipo que não dá bom dia para não gastar a língua.

O Benjamin, seu filho, vinho da mesma pipa que eu, me contava histórias divertidas do velho, como quando ele, ainda jovem, caixeiro viajante, foi acusado de ter prometido e não entregado uma panela para um compadre, também judeu. Levado às barras dos tribunais, deu-se que a querela só não caiu no terreno do deboche porque o juiz não permitiu, mas o Isaac dizia: Jacó brometeu banela pra eu, ia dar de graça, de amigo! E, seu Jacó seco respondia: Eu non brometer nada. Eu não dar nada. Nem bom dia Jacó dar, merendíssimo juiz!

Isso, nos casos que envolviam negócios e dinheiros, o que aliás, seu Jacó tinha aos tubos. Tudo guardado em jóias e ouros, já que seu Jacó não confiava em banco, e, muito menos em papel pintado e distribuído pelo governo. Governo ser safado! Jacó non usa babel bintado de governo. Jacó non ser mula de carga.

Essas eram as quizílias do cotidiano. Mas, Benjamim havia me contado que, na juventude Seu Jacó era grande frequentador de puteiro, dessas casas suspeitosas que só abriam suas portas à noite e moças alegres e divertidas com a cara toda pintada e sorriso fácil frequentam.

Mas, segundo o Benjamim, a grande façanha de Seu Jacó foi quando ele, já beirando os cinquenta, longe de casa por mais de par de meses, foi numa dessas casas e já chegou falando:

– Jacó quer moça bonita, dessas de bundón larga, mas que gosta de abanhar!

Aquila sentença arrepiou a maioria das meninas.

– Jacó baga bem, bom dinheiro bra moça bassar um noite com Jacó, mas moça brecisa gostar abanhar.

E o silêncio cada vez mais imperioso, ainda que Seu Jacó oferecesse cinco vezes mais o valor tabelado naquele comércio. Até que apareceu uma crioula, daquelas bem fornida de seus etceteras e tals que pegou o desafio pelos chifres se gambando de que ia arrancar dinheiro daquele judeu muquirana, ainda que com um frio na barriga. Subiu com seu Jacó para o quarto e foi logo perguntando:

– Seu Jacó, eu aceitei pelo valor que o senhor me ofereceu, mas antes de a gente ir para a cama o senhor pode me satisfazer uma curiosidade? O senhor gosta de bater, mas até quando o senhor bate?
– Simples. Jacó bate até hora que buta bretona de bundón devolve dinheiro de Jacó!

Mas isso são histórias de antigamente. Seu Jacó, já naquela idade, com o espinhaço já vergado pela idade, com aquela coloração pálido cadavérica, pisou no prego e murchou. Pegou uma gripe, da gripe passou para a pneumonia, da pneumonia passou para a UTI e na UTI tomou pau e foi reprovado. No leito de morte, já com os olhos baços (Violante irá ao delírio com este verbete), chamou toda a família.

– Rute minha mulher. Você voi combanheira de Jacó durante cinquenta e cinco anos.Quando Jacó faliu você estava ao lado de Jacó. Quando Jacó foi roubado você estava ao lado de Jacó. Quando casa de Jacó queimou toda você estava ao lado de Jacó. Conclusão de Jacó, Rute, minha esposa: Você deu azar danado bra Jacó em cinquenta e cinco anos.

Apesar de Dona Rute ficar emputiferada da vida, nada disse, devido ao momento final do marido naquela cama de hospital.

– Benjamin, filha meu, chega berto. Você abrendeu com Jacó tudo sobre comércio, mas ainda tem algo – e mostrou um grande relógio bolso de ouro cravejado de rubis grandes e pequenos – esta relógio bertenceu a bai da bai da babai. Depois bertenceu ao bai do babai, e por fim chegou ao babai, minha filha!

Benjamim, todo emocionado, com os olhos marejado de lágrimas, olhando para o pai e para o relógio, apertava as mãos de seu Jacó.

– Entón, Benjamin, filha minha. Esta relógio tem história de nossa família, e neste último momento, babai quer te dizer: quer comprar? Babai faz preço baratinha, bra relógio continuar no família.

Dito isso, entregou a alma a Iavé!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

É LULINHA??

Tenho acompanhado, aqui da minha taba, com aquela proverbial preguiça caeté, as safadezas que estão ocorrendo em Pindorama e os guabirus “pìu grasso” que estão se enrolando nos diversos escândalos envolvendo grossos dinheiros roubado do otário pagador de imposto. E essa reflexão fez-se-me lembrar de um vaticínio do grande Potiguara Maurício Assuero quando o aiatolá Mulamed Ladron foi eleito. Se bem se me alembro, perguntaram a ele, em um seminário sobre contabilidade atuarial o que ele considerava como andariam as contas públicas, com a eleição do nosso aiatolá e ele, mangando, mas dizendo a verdade, espinafrou a plateia dizendo que seriedade iria se ter com aquele prontuário policial na cadeira de presidente.

Acertou no vinte! Nem demorou três anos para que os escândalos financeiros começassem a aparecer no atacado e no varejo, explodindo com os casos da ladroagem escancarada dos velhinhos do INSS e agora o golpe bilionário do Banco Master que já soterrou o STF com a lama podre do escândalo, colocou dois ministros – Dias Tóffolli e Moraes -, não como ministros, mas como gangsteres e criminosos que atuam na corte suprema do país, defendendo interesses próprios e de seus comparsas, e soberanamente dão uma banana para o pagador de impostos.

Mas, tudo isso são detalhes dentro de esquema maior e bem mais perigoso para o Mulamed Ladron: o envolvimento do nome do filho, conhecido como Lulinha, na roubalheira dos velhinhos aposentados do Brasil. E, eu chamo a atenção da bugrada de Pindorama porque a história apresentada, o enredo costurado tem falhas, tem inconsistências que não se ajuntam. É como a história do fazendeiro mentiroso que diz que atirou no ouvido direito de um veado e a bala saiu na pata esquerda. Simplesmente é estapafúrdia.

Ainda que eu, caeté, tenha uma preguiça monumental de pensar, vamos pensar um pouco. Um sujeito que era catador de merda de elefante em zoológico, de repente ganha uma bolada para entregar para uma operadora de telefonia um programa de jogos para celular. Nunca entregou, a operadora foi para o vinagre, mas a grana caiu na conta do rapaz. Mas isso, foi lá no começo do século XXI, quase todo mundo já esqueceu dessa maracutaia.

Agora o caso é outro. O mesmo catador de bosta recebe uma bolada inicial de 30 milhões de reais e uma mesada de 300 mil reais mensais, morando na Espanha, para fazer lobby no governo do pai, o dito aiatolá defensor de tiranos e ditadores, e facilitar a vida de ladrões de velhinhos. Eu, apesar de minha preguiça, não consigo ver nexo algum nessa ópera bufa que tenta tirar o foco do essencial e colocar no acessório.

Ainda que o dito “Lulinha” tivesse esse suposto acesso aos estamentos do poder comandado pelo pai, não faz sentido algum esse recebimento de dinheiro, mesmo porque o trabalho de lobista necessita tutano, massa cinzenta e desenvoltura para transitar pelas esferas do poder, coisa que esse senhor nunca teve, mesmo porque tem uma capacidade intelectual limitada.

Não, meus caros, para ser politicamente correto, “povos originários”, não é o senhor Lulinha o foco dessa mesada. Tem muito mais minhoca embaixo desse lameiro, tem muito surubim escondido embaixo dessas pedras nas sombras das águas. Eu não acredito um grama nessa conversa fiada de que Lulinha é um operador competente para se chegar a esses valores bilionários de ladroagem.

Lulinha é só um painel luminoso, só a fachada de um moulin rouge – hoje estou exercitando a língua de Racine -, todo iluminado e colorido para esconder algo mais sórdido e para esconder o beneficiário final dessa grana toda que era surrupiada dos velhinhos deste país amaldiçoado pelas nossas escolhas erradas.

Dinheiro é a coisa mais difícil de se esconder. Como a história do bode na sala, basta seguir o rastro do dinheiro, ou o cheiro do bode. Alguém, em Pindorama, que ainda não perdeu a sanidade, ou não se rendeu à canalhice institucionalizada, acredita mesmo que Lulinha recebia por mês, o que eu recebo por ano, morando na Espanha, retribuições por abrir portas para negócios safados, em Brasília? Alguém que ainda não recebeu um laudo do CID-10, atestando idiotia total, ou inimputabilidade, acredita que o beneficiário final dessa mesada é mesmo o Lulinha? Alguém pode me explicar, como se eu tivesse cinco anos de idade, que essa lorota contada e recontada, tem fundamento na verdade?

Não meus amigos! Lulinha não é o beneficiário final dessa bolada suja. É apenas um testa de ferro, um intermediário. Se ainda houver um pingo de honestidade e ética nas instituições dessa famigerada república, basta seguir o cheiro do bode e se chegará ao beneficiário final dessa ladroagem toda. Eu não acredito um grama que Lulinha seja esse beneficiário final, ou seja esse lobista competente que abre todas as portas na república petista, ainda que seja o filho do aiatolá presidente.

Meu conselho, se é que conselho de caeté vale alguma coisa: sigam o cheiro do bode e o rastro do dinheiro. A única coisa que fico de torcida é que sobre pelo menos um naco da panturrilha do “Sardinha” para eu poder assar aqui na minha taba.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

MIGUEL RUFINO

Tinha 1,96 metros de altura. Crioulo convicto daqueles de retinir à luz do sol. Desabusado de boca, invencioneiro e linguarudo, o povo de Currais de Dentro não via a hora dele se tornar importante, coisa de secretário municipal, ou algo mais avantajado como deputado, ou senador.

Devocioneiro de São Bartolomeu conhecia toda raça de vento e era municiado das mais variadas rezas para cortar febre palustre, ou miasmas dos pântanos que rodeavam a cidade. Nunca ficara doente, até ria, pouco casista, dos casos de doença que ouvia ter na cidade. Para cada mal tinha uma receita certeira, uma garrafada bem preparada, principalmente para as pantaneiras muito comum na cidade. Dizia que, para febre palustre, tinha uma garrafada que era pior que coice de mula. A mezinha caía no covil da pantaneira e a peçonha da febre saia nas urinas.

Para o povo atrasado da cidade, que era Currais de Dentro, Miguel Rufino era uma espécie de santo milagreiro, doutor em poções e sinapismos e benzedeiro oficial que curava espinhela caída, leiteira virada, bicho de pé. Só não curava falta de donzelismo porque dizia que isso era igual bananeira. Uma vez que deu fruto, não tinha mais o que fazer.

Era, também, conhecedor de toda raça de assombração que existia no mato. Benzia encruzilhada, ou aceiro ofendido por visagem do mato, ou mangação de lobisomem. Aliás, conhecia toda a raça desses assombrados só pela marca do pelo. Desde os tubianos nanicos, até os barrosos, de porta de cemitério, daqueles garbosos que arrepiam só com o uivo empestiado. Nunca que Miguel Rufino ia tremelicar de medo por causa de lobisomem de beira de estrada.

Mas, como nem tudo são fl ores, num domingo, que pita cachimbo, Miguel Rufino sentiu no vazio das costelas, bem lá, no miolo da lombar, uma pontada dolorosa que foi evoluindo para algo mais sério. Firmado na sua jurisprudência de medicação natural, recusou-se a buscar médico da cidade. A malina desfez de seus medicamentos e toda a sua parentagem obrigando Miguel Rufino a buscar doutor formado, já que tinha ficado mouco e perdido a capacidade de cheirar. Foi convencido pelo compadre Abelardo a procurar ajuda do Doutor Orozimbo, médico novo, desses de canudo ainda molhado pelos esforços dos exames.

Chegou ao consultório do doutor, entulhando sala e saleta e quase danifica uma teia de aranha que era da especial predileção do médico. O doutor, todo cheio de salamaleques e donzelices espantou-se com aquele crioulo de dois metros de altura entrando em seu consultório. Olhou o sarro da língua, futucou o sovaco com o apurador de febre, ponhou uns gravetos nas ventas dele e apalpou as conchas das orelhas.

– Doutor, dou duas semanas para ficar livre dessa mazela! O médico, colocou o “mata piolho” debaixo do queixo e sentenciou. É, seu Miguel. Doença cavilosa, dessas que tiram o cheirar do nariz e o escutar das orelhas, mas vou passar um remédio aqui para o senhor tomar duas colheres no depois do jantar e, em quinze dias o senhor vai estar novo e cheio de energia como aquele cabrito da Arca do Noé.

Meio descrente, Miguel Rufino pegou o papel com aquela garatuja de médico que só Belzebu consegue entender e foi na botica do Serafim preparar a beberagem, que era mais amarga que fel de sogra depois de brigar com o genro.

Duas semanas passadas e bem contadas, o doutor Orozimbo encontra Miguel Rufino todo embonecrado e cacarejoso na feira da cidade, mais falante que candidato a deputado em busca de voto. Miguel Rufino ao ver o doutor veio cambaio, com todos os dentes gozando a alegria da cura e do bom serviço do doutor médico.

– Doutor, eu tenho que agradecer a poção que Vossa Senhoria me passou. Já cheiro e escuito tudo dereito, ingual quando eu era criança e vou lhe provar. Vou soltar um peido aqui, daqueles silenciosos, mas fedido o suficiente para espantar todo esse povinho daqui da feira.

E soltou aquela bufa triunfal, certeira e convicta. Aspirou parta sentir a catinga. Viu, doutor? O povinho não ouviu nada, mas sentiu a catinga e saiu rapidinho daqui de perto. Doutor Orozimbo olhou para o céu, colocou a mão no ombro de Miguel Rufino e disse confiante: passa amanhã cedo no consultório, vamos ter que trocar o remédio para poder curar os seus ouvidos.