HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

VIVA O POVO NORDESTINO

Sou eu um Zé nordestino
Cheio de birra e pantim
Comedor de rapadura
Com fava quente e “toicim”
Sou versos de Fabião
Sou Elino Julião
Nas unhas do guaxinim

Sou nordestino, não nego
Sou Arlindo, sou João Bá
Genaro, sou camarão
Sou o coroné caruá
Eu sou pife de taboca
Nas mãos de Zabé da loca
Tocando em Taperoá

Eu sou cavalo marinho
Sou matuto campesino
Sou o reflexo de Valença
Num espelho cristalino
Vaqueiro e festa de gado
Eu sou o barro amassado
Pelas mãos de Vitalino

Sou do torrão nordestino
Água bebida em cumbuca
Sou humor de Ludugero
Eu sou ferrão de mutuca
Novena no mês de maio
Eu sou feira de mangaio
Pelos dedos de Sivuca

Sou da terra nordestina
Sou raiz de marmeleiro
Sou rama de jitirana
Sou xique-xique e facheiro
Fuba de milho e coalhada
Eu sou madeira talhada
Nas mãos de Chico Santeiro

HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

O TEMPO E A VIDA

O tempo é tão majestoso
Mas de certo nos derrota
Deixa a gente experiente
Rugas na face ele bota
Sem compaixão nos liquida
Regendo a canção da vida
Sem tocar nenhuma nota

Eu vi a besta do tempo
Num galope sem medida
Anunciando os flagelos
Desta terra combalida
Sem um pingo de clemência
Vi os dentes da existência
Roendo o osso da vida

Reluto entregar-me ao tempo
Com seus caprichos medonhos
Nos estilhaços das horas
Persigo dias risonhos
Lançando flores de vida
Na palidez dos meus sonhos

Minhas maiores lições
Não aprendi na escola
O tempo dita os conselhos
O medo não me controla
Em cada queda um impulso
E o chão servindo de mola

Não sei por que tanta pressa
Se essa vida pouco dura
Somos fantoches do tempo
Placebos de criatura
Correndo não sei pra onde
Marchando pra sepultura

HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

COISAS DIFICEIS DE SE VER

Cabeça de bacalhau
Camisa dez em goleiro
Uma igreja sem degrau
Pé de cobra com unheiro
Bode passar em regato
Cuspe da boca de um gato
Mudo falando besteira
Urubu assoviando
Um pato novo mamando
Foto de sogra em carteira

Pinguço enjeitar cachaça
Um humorista sisudo
Coveiro temer desgraça
Encontrar índio barbudo
Cigano ser enganado
Um valente aposentado
Cair neve no sertão
No espaço um boi voar
Pneu de carro cantar
Em rodovia de chão

HÉLIO CRISANTO – UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

AS VÍTIMAS DA GUERRA

Fugindo sem rumo ao som de um torpedo
Sem força, sem chance, sem ter a família…
Somente a saudade restou na mobília
E as marcas na alma do ódio e do medo.
Sequer como alento recebe um brinquedo
Faminto de paz, sem chão pra morar…
O teto do mundo tornou-se o seu lar
Sem ter um afago das mãos de um algoz
As vítimas das guerras precisam de nós
Da luz de um abrigo, de alguém pra ajudar.