HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

INDEPENDÊNCIA DE QUÊ?

Oh! Brasil terra sem lei
Que tu fazes dos teus filhos?
Pois ate aonde eu sei
Não enxerga aos maltrapilhos.
Tu não ouve os favelados
Que choram crucificados
Sem moradia e sem pão
Onde um inocente é preso
E um ladrão sai ileso
Mesmo com o furto na mão

Porque você vira as costas
Quando um menor assassina?
Sequer inventa propostas
Pra que não haja chacina?
Porque não sai do marasmo
Disfarce esse seu sarcasmo
De zombar dos filhos justos
Que sucumbem de desgosto
Por verem o suor do rosto
Financiando os seus custos

Você não olha as mazelas
Que assolam o nosso povo
Nem diminui as sequelas
Trazendo um projeto novo
Sou a sirene que avisa
Eu sou a mão que agoniza
Nas macas dos hospitais
Sou filho da impunidade
Vivo preso numa grade
Com medo dos marginais

Mostre a esses delinquentes
Quem são de fato os heróis
Que sucumbem descontentes
Vítimas de um sistema algoz
Abra os olhos pra pobreza
Que quando senta na mesa
Pra comer só tem migalha
É duro ver a justiça
Se alimentar da carniça
De um cidadão que trabalha

Quem te chamou de gentil
Vive alheio dos maus tratos,
Dos filhos deste Brasil
Que sofrem seus desacatos.
Nesta terra devoluta
Não sobrevive quem luta
Pois a roubalheira viça
Pátria mãe do desmantelo
Que não escuta o apelo
Dessa gente submissa

Que motivo o povo tem
Pra beijar sua bandeira?
Se o tratam com desdém
Lhes jogando na poeira?
Apropriam-se com espólio
Surrupiando o petróleo
E calado a gente vê
Com tanto roubo e desmando
Eu fico me perguntando
Independência de quê?

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

O CORTE QUE A MULHER TEM

Mote de autor desconhecido:

“Quero ver quem cicatriza
O corte que a mulher tem”

Tem um rasgão saboroso
A um palmo do umbigo
Decifra-lo não consigo
Por ser tão apetitoso.
Mesmo não sendo cheiroso
Qualquer um vira refém
A dois dedos do sedém
O danado faz divisa;
“Quero ver quem cicatriza
O corte que a mulher tem”

O cabra estando carente
Vale mais do que safira
Deixa qualquer um na tira
De juiz a presidente.
Amansa cabra valente
O seu poder nos detém
Não considera ninguém
Couro nenhum ele alisa;
“Quero ver quem cicatriza
O corte que a mulher tem”

Sempre nos causa prazer
Sendo liso ou cabeludo
Se tiver lábio carnudo
Qualquer um deseja ter.
Por isso vou lhe dizer
Se esquive, não vá além
Não se apaixone também
Nem venda a sua camisa;
“Quero ver quem cicatriza
O corte que a mulher tem”

Esse corte minha gente
Só sangra de mês em mês
Atrapalhando o freguês
Por não o achar atraente.
Seja macumbeiro ou crente
Quem gosta não se abstém
Vende até um armazém
Sem dó não economiza;
“Quero ver quem cicatriza
O corte que a mulher tem”

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

DOENÇAS DO MEU SERTÃO

Arroto xôco, puxado,
Corpo reimoso, cobreiro,
Pipoca roxa, banzeiro,
Difruço, dor de viado.
Morróida, gôto inflamado,
Panariço e frivião,
Ferida com carnegão,
E as espinhelas caídas;
São doenças conhecidas
Pelo povo do sertão

Bucho quebrado, bicheira,
Entojo e carne triada,
Turica, landra inflamada,
Moleira mole, frieira.
Penço de banda, papeira,
Sete couro, comichão,
Vexame no coração,
As juntas enfraquecidas;
São doenças conhecidas
Pelo povo do sertão

Tiriça, gôgo, boqueira,
Caduquice, passamento,
Lundu, empanzinamento,
Nó nas tripas, sovaqueira.
Bicho de pé, caganeira,
Quebranto e constipação,
Dor nas cruz, cavilação,
As ventas estalecidas;
São doenças conhecidas
Pelo povo do sertão

Macacôa, mal olhado,
Pano branco, farnezim,
Má de rusaro, pantim,
Cabrum, coxó, ariado.
Gastura, bucho empachado,
Capiongo, congestão,
Três sol, tisga, e esporão,
Moquice, mãos dismintidas;
São doenças conhecidas
Pelo povo do sertão

Estopor, xanha, unheiro,
Curuba, fastio, grenguena,
Tá de boi, gota serena,
Sapinho, gagá, algueiro.
Cú de calango, biqueiro,
Lêndea, pereba, cesão,
Sapiranga, machucão,
As gurduveias doídas;
São doenças conhecidas
Pelo povo do sertão

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

NERUDIANDO NA ESQUINA

Hoje estive pessoando
Onde o verso se recria
Andei luas de Cecília
Mergulhei no mar de Mia.
Bebi na fonte de Lêdo
Sentindo a paz de um Aedo
Na mais perfeita harmonia.

Gullar degustei com gula
Nos becos de Coralina
Na rebeldia de Lorca
Nerudiei na esquina.
Bem no meio do caminho
Drummond falava sozinho
Gregoriando a rotina.

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

NAS CINZAS DO FIM DO MUNDO

Hoje as nuvens denunciam
Que no céu há explosão
Humanos se digladiam
Nação combate nação.
A estupidez humana
Embrutecida e insana
Do poço chegou ao fundo…
Em meio a tanto estampido
Arde o amor abatido
Nas cinzas do fim do mundo.

Cheiro de morte na esquina
Onde o amor não prospera
Cresce o ódio entre a ruína
O corpo se dilacera.
Irã ataca Israel
Línguas de fogo no céu
Assassinam num segundo…
Morre a paz de uma criança
Queima os restos da esperança
Nas cinzas do fim do mundo.

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

APELO DE UM CONVOCADO À GUERRA

Imploro em nome da paz
Não quero ser assassino
Matar nunca fui capaz
Nem tive instinto ferino
Tire de mim esse carma
Nunca peguei numa arma
Como posso ir numa guerra?
Ter que pegar num fuzil
Ferir quem não me feriu
Espalhar ódio na terra

Para ferir ser humano
Confesso não tenho alma
Como posso causar dano?
Sendo uma pessoa calma
Junto a outros combatentes
Ter que matar inocentes
Provocar destruição
Jogar bomba nas aldeias
Destroçar casas alheias
A bordo de um avião

O que farei nos conflitos?
Cheio de seres perversos
Com seus poderes malditos
De maldades submersos
Ser vítima de mãos vorazes
Nas chamas dos camicases
Morrer sem pedir socorro
Ter que deixar meus filhinhos
Sofrer por homens mesquinhos
Entrincheirado num morro

Como um soldado guerreiro
Não quero subir em pódio
Ter fama de fuzileiro
Combater ódio com o ódio
Matar por causa banal
Ser um herdeiro do mal
Destruir sonhos e lares
Ser porta-voz da injustiça
Como arauto da cobiça
Derramar sangue nos mares

Será justo eu aceitar
Esse pedido tirano?
Alguém querer me jogar
Neste antro desumano?
Matar, chacinar crianças
Liquidar as esperanças
De um mundo já degradado
Botar fogo nos canhões
Amedrontar as nações
Lançando o fogo cruzado

Se me forçarem a lutar
Jogarei as armas fora
Sem temer em deserdar
Tiro a farda e vou embora
Dispensarei as medalhas
Fugirei sã das batalhas
Porém de cabeça erguida
Se a guerra nada constrói
Deserdarei como herói
Sem ter a honra ferida

Livrai-me dessa má sorte
Chega desse pesadelo
Prefiro as dores da morte
Clamo fazendo esse apelo
Podem gritar com alarde
Me chamarem de covarde
Meu pedido aqui se encerra
Não quero essa violência
Ferir minha consciência
Como assassino de guerra

Do livro Uma lua, um café e um batente