CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CORRESPONDENTES UNIDOS

Apaixonei-me pelo radio-amadorismo quando eu contava uns 10 anos de idade, depois de conversas com meu tio Pericles Pacífico Galvão dos Santos, irmão de papai, nascido do primeiro matrimônio de meu avô, João Pacífico Ferreira dos Santos e Anna Alexandrina Galvão dos Santos.

Sempre que mamãe ia ao centro da cidade do Recife, a fim de comprar aviamentos para suas costuras, eu a acompanhava. E nessas andanças ela me levava. “A Nova Magnólia”, às “Casas José Araújo” e ao armazém de Fortunato Russo Sobrinho, eram as lojas que visitávamos com mais frequência.

De sua programação de visita às lojas, havia costumeiramente uma passadinha pela Farmácia Fernandes, na Rua Nova, de propriedade de meu saudoso tio. Ele nos recebia em sua escrivaninha e a prosa versava sobre assuntos de família.

Rádio-amador, prefixo PY 7- BN, dono de um automóvel Nash muito bonito, comerciante titular da firma Pericles Santos & Cia. Ltda., dona do Laboratório Labortecne Ltda. e da Farmácia e Drogaria Fernandes, “Tio Lique”, tal qual seu apelido, me falava sobre a atividade de se comunicar com as pessoas, via rádio, o que já me fascinava.

Recordo a atenção que ele me dispensava, respondendo perguntas e ensinando-me como tecnicamente as coisas funcionavam nos radiotransmissores e receptores. Reabrindo as gavetas da memória, recordo o que me disse sobre as Ondas Hertzianas.

Ouvi que fora o físico alemão Heinrich Rudolf Hertz quem construiu o primeiro transmissor de ondas. E depois – mais recentemente – graças a noções que recebi de meu filho Gustavo Jorge, atualizei as informações.

Em sua série de experimentos, o Prof. Hertz determinou a frequência e o tempo de propagação das ondas eletromagnéticas, concluindo-se que elas se propagavam através do éter, na mesma velocidade da luz. Isso permitiu a transmissão de voz através de rádios transmissores e receptores.

O físico alemão Heinrich Rudolf Hertz

Em 1888 Hertz publicou suas experiências. Contava apenas 31 anos. Faleceu em 1º de janeiro de 1894, aos 37 anos de idade, vítima de septicemia. Em sua memória passaram a ter seu nome as ondas eletromagnéticas, conhecidas como: Ondas de Hertz.

Isso me despertou a admiração por aquela atividade, através da qual ele mantinha muitos amigos residentes em várias cidades do Brasil. Meu fascínio pela transmissão de informações em geral começou através das conversas com “Tio Lique.”, o radioamador.

Aprendi, então, a “operar” como “Esparadrapo” (aquele que vive colado ao aparelho de rádio-receptor), através das Ondas-curtas, onde se ouvia as transmissões de um grupo de apreciadores que trocava entre si serviços de informações, em sua maioria ajudando as pessoas em suas dificuldades, geralmente durante as madrugadas, quando era melhor a propagação das Ondas Hertzianas.

Falar sobre radioamadorismo levaria muitas laudas e não é, agora, o caso. Já fiquei muitas horas da madrugada com o ouvido “colado no radiozinho “Philco”, aainda funcionando a válvulas, quando recém-casado, instalei uma antena externa potente para melhor captar as transmissões, mesmo dificultado pela estática, que naquele tempo era terrível.

Rádio-receptor dos anos 50

Fascinava-me ouvir as chamadas dos aficionados, do Recife para Porto Alegre e vice-versa. Já amanheci o dia saindo de casa para dar um recado urgente à família de uma pessoa que estava desaparecida e fora encontrada em distante rincão gaúcho. Sentia-me um radioamador “adotivo” e seguia seus métodos. Na verdade um Agente e Notícias.

Adulto, a partir dos 15 anos, fascinado pelo jornalismo compreendi que meu destino estava ligado às informações entre as pessoas. E isso pratiquei durante mais de 50 anos nas atividades em jornais.

Agora idoso, tenho o privilégio de me tornar um receptor e transmissor de notícias, graças ao Satélite, que me permite mandar e receber informações, transportar imagens e até filmes, não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo, sem sair de minha escrivaninha. Considero-me um radioamador sem registro, porém com atividade diária, iniciando ainda de madrugada.

E nesse embalo adotei um estilo de correspondência por correio eletrônico, a partir de meu “bunk”, em Olinda, engordando minha cartela de amigos, que chegou a contar com mais de 50 comunicantes via e-mail.

Ao aprender o manuseio do aplicativo Whats App, multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz para smartphones, que além de mensagens de texto atendem às remessas de vídeos e documentários em PDF, dei um pulo em meu sonho de me tornar um Agente de Notícias Internacional.

Não que eu deseje tanto nem vise ganhos pecuniários, mas resolvi me tornar o que sempre desejei: um jornalista independente internacional, operando para restrito número de 72 amigos, com quem frequentemente me atualizo no que acontece em todos os quadrantes do mundo.

Inicialmente criei um grupo pequeno onde consegui chegar aos Estados Unidos para falar com minha nora Eliane, meus netos e bisnetos, depois fui varando o Brasil inaugurando bons amigos como Dr. Pedro Salviano Filho, no Paraná, Brito e Zanetti em São Paulo e até gente do Amazonas.

Fora do âmbito familiar organizei um grupo de colegas jornalistas e passei a prospectar artigos e reportagens que julgava de importância geral e assim compartilhar notícias “quentes”. Através de sugestão do médico e jornalista, Luiz Guimarães, titulei a “instituição”: “CE – Comunicado Expresso”.

Depois de adotar o “zap” a iniciativa tomou vulto e renomeei a iniciativa, que passou a ser: “Correspondentes Unidos”. Jamais provei brinquedo tão atraente.

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BOAS LEMBRANÇAS

Evandro de Castro Lima – “Príncipe de Riad”

Emplaquei 85 anos de vida. E agora? O que me resta é continuar vivendo com saúde e relembrar boas coisas.

Volto ao passado como se aquelas épocas fossem um aperitivo para a nova vivência. Principalmente as fases do jornalismo.

Em 1989, fui entrevistar o carnavalesco Evandro de Castro Lima, campeoníssimo apresentador de fantasias, que se preparava para desfilar no Sport Club do Recife.

Nos bastidores a primeira pergunta que lhe fiz foi banal, mas a resposta foi inteligente e deu boa manchete:

– O senhor deve gostar muito de carnaval. não é mesmo?

– Gosto. Mas não para ficar rebolando nas pistas. Apresento-me como o “Príncipe de Riad”, como agora, o “Sultão de Marraquexe”; até me transformo em “Nuvens de Prata” e vibro com esses momentos em que desfilo apenas nas passarelas.

– Qual a empresa que cria estas maravilhas?

– Tenho uma equipe de trabalho que transforma meus sonhos em fantasias de tecidos e lantejoulas. São pessoas competentes que fazem as pesquisas, os desenhos, e bordadeiras dedicadas que se empenham vários meses para que eu possa brilhar nas passarelas.

Estive por instantes com um homem de fino trato, culto e de prosa fácil. Era natural sua dificuldade para falar em função da fantasia que lhe envolvia a face. Mas se ofereceu em todos os ângulos que Diógenes Montenegro precisou fotografá-lo.

E na primeira página do Diário da Noite surgiu a reportagem:

Príncipe de Riad no Recife.

Certo exagero de um jovem repórter, naturalmente.

Outro momento que guardo boa lembrança foi quando viajei certa vez por via aérea, vindo do Rio, com o etnógrafo Mário Souto Maior, diretor da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.

Era noite e o jeito foi puxar conversa para superar duas horas sem as belas paisagens nas janelinhas.

Homem de alta cultura, logo nos identificamos pelos mesmos gostos. A prosa correu frouxa.

Fizemos amizade tão próxima que lhe solicitei o prefácio para um dos meus livros. E ao receber o texto, dias depois, me encantei, pois começava assim:

Conheci o autor numa atmosfera de sonhos; ou seja, nas nuvens, pois viajávamos de avião retornando ao Recife.

Não poderia imaginar que aquele escritor fosse – como constatei depois – autor do famoso livro: Dicionário do Palavrão. Mas é importante salientar que sob sua especialidade publicou mais de 15 livros, alguns dos quais prefaciados por Gilberto Freyre.

Uma obra de paciência. Mário foi homem dedicado à pesquisa. Deixou um legado expressivo:

Antologia da Poesia, Comes e Bebes do Nordeste, Dicionário da Cachaça, Nordeste: A Inventiva Popular, Livro das Adivinhações, Nasce um Cabra da Peste, Alimentação e Folclore, Dicionário de Folcloristas Brasileiros, Painel Folclórico do Nordeste, A língua na Boca do Povo, Em torno de uma Possível Etnografia, O Homem e o Tempo, Nomes Próprios Pouco Comuns, Galaláus e Batorés, a Morte na Bota do Povo e por aí vai.

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PERNAMBUCO VOCÊ É MEU!

O jornalismo é uma estrada fascinante. Semelhante a um trem, passa por muitas estações e se conhece muita gente boa. Num desses caminhos conheci Aldemar Mário Buarque de Paiva.

Nome dos mais conhecidos em todos os setores sociais, culturais e radiofônicos do Nordeste, se notabilizou por haver sido fundador da Rádio Difusora de Maceió, cidade onde nasceu, e se tornou popular como poeta, escritor, compositor, cordelista, jornalista, produtor artístico e publicitário.

Em sua cartela de composições assinou mais de 70 músicas, dentre elas, as mais conhecidas: Pajuçara e o frevo em parceria com Nelson Ferreira Pernambuco você é meu! Como poeta se notabilizou com o monólogo Papai Noel, que ganhou a cena nacional na interpretação do ator Lúcio Mauro.

Era um corpo vestido de alegria! Meu colega na Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Quando chegava já vinha mostrando os dentes, fazendo propaganda de Pasta Dental Kolinos.

Verdadeiramente uma pessoa de criatividade difícil de avaliar. Todavia, para mim, sua característica mais acentuada era o poder de alegrar as pessoas, contando piadas, criando situações hilárias e até aprontando presepadas incríveis.

Certa feita eu estava no auditório da Rádio Jornal do Commercio, já no prédio da Rua do Lima, cobrindo a escolha da Miss Pernambuco, com o fotógrafo Diógenes Montenegro, para a coluna social de Alex.

Na mesa dos jurados, entre outros, Capiba, Claudionor Germano, Fernando Barreto, Zayra Pimentel e Aldemar Paiva. As candidatas a miss desfilavam tendo cada uma delas a etiqueta de identificação, representada por um grande número preso com uma cartolina, ao maiô, no alto das coxas.

Acidentalmente um dos números ficou mal colocado dificultando a visão dos jurados. Nesse instante, Capiba inclinou-se, tirou os óculos e aproximou o rosto para ter melhor visão do número. Foi quando ouvi o seguinte diálogo, falando inicialmente o radialista, que sentara-se junto dele:

– Capiba, tais te lembrando do tempo em que tu eras bom nisso?

E como um foguete, o compositor disparou contra Aldemar:

– Pergunta a tua mãe!…

Mas Aldemar daria o troco. Apresentador do programa de maior audiência nas manhãs do Rádio Pernambucano até a década de 1980 – “Pernambuco você é meu” – o radialista levou ao ar a seguinte Campanha:

Meus caros ouvintes, Capiba está fazendo 80 anos na próxima semana e o presente que ele mais gosta de receber são gatos de raça. Sendo cidadão muito caridoso, costuma recolher os felinos que perambulam pela Rua Barão de Itamaracá, no Recife, para acomodá-los em sua casa.

O efeito foi impressionante. Na mesma tarde chegaram gatos, de saco. As pessoas chegavam no jardim e jogavam os felinos.

Tempo houve em que a família contava com 17 gatos e todos eram tratados com o maior cuidado. Capiba acabou por se afeiçoar aos animais que os tratava como se seus filhos fossem.

Ainda hoje, a viúva, D. Zezita, que reside em Surubim, tem uma criação de vinte e dois gatos e mais seis cachorros, muitos dos quais levou do Recife.

Quando lancei o livro O Banco do Brasil na História de Pernambuco ele estava viajando e não podendo comparecer me mandou um cheque para reservar um exemplar, acompanhado com o seguinte verso:

Carlos Eduardo:
Tanto para o coquetel
quanto para o lançamento
eu faço um triste papel
porque na data me ausento…
Porém, aqui apresento
minha desculpa e sou franco:
– Admiro seu arranco
de escritor, como Nabuco,
Botando com amor o Banco
Na História de Pernambuco.

Com muita estima, Aldemar Paiva – 13.-7.1983.

* * *

Pernambuco, Você é Meu – A trajetória do Multimídia Aldemar Paiva

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UM FAZEDOR DE CLUBES

Estátua de Capiba, na rua do Sol, Recife

A saudosa escritora Zilah Barbosa Torres, sobrinha de Capiba, me confiou, em dias de 1985, a organização da festa para o lançamento de seu livro: “Capiba – Um nome, uma vida, uma época”. O evento aconteceu no Forte das Cinco Pontas, contou com a participação da Orquestra de Cordas Dedilhadas e oferecemos um coquetel aos convidados.

Ela me falou sobre assuntos interessantes sobre sua família. Disse-me que seu tio – Lourenço da Fonseca Barbosa – desde a infância era apreciador do futebol. Costumava juntar seus coleguinhas, em Taperoá, na Paraíba, para boas peladas que se realizavam em qualquer terreno baldio.

E foi mais além, tirando uma de minhas dúvidas, ao afirmar que Capiba era um apelido de família, não especificamente o mais famoso de todos: Lourenço Capiba; pois assim eram conhecidos seus demais parentes: Severino Capiba, Pedro Capiba, Tereza Capiba e Herman Capiba. A popularização do termo indígena quase se tornou um nome de família: os Capiba, como eram conhecidos os descendentes do velho Severino Athanásio, Mestre de Bandas famoso no inteior.

Desejoso de levantar as ligações do único fundador vivo da AABB, naquela época, anotei dados de um cidadão que foi, no dizer de Fernando Lobo, “Um fazedor de tudo, sobretudo de músicas e times de futebol”.

Em Campina Grande, onde morou, Lourenço Capiba começou a jogar futebol em clubes e o primeiro deles foi o América, no qual foi reconhecido como bom jogador, jogando na posição de Centro Atacante.

Depois se transferiu para o time juvenil do Campinense Clube, enquanto seus irmãos João Capiba e Severino Capiba jogavam no esquadrão principal.
Quando menino já era apreciador do Santa Cruz Futebol Clube, time do Recife, e sob essa inspiração fundou em 1922, em companhia de seu amigo Hilton Vieira, uma equipe de futebol chamada Santa Cruz, time que fez sucesso por bom tempo, em Campina Grande.

Fundou na mesma cidade um clube com as cores vermelha, verde e branca, que adotou o nome de “Palestra”, talvez em homenagem ao “Palestra Itália”, de São Paulo, que mais adiante se denominaria: Palmeiras. Fez parte também do América Campinense.

Logo que a família foi transferida, por uns tempos, para João Pessoa, ele se articulou com os desportistas locais e se filiou ao América Futebol Clube, o qual era composto, em sua maioria, por estudantes.

Nesse tempo começou a ter compromissos profissionais, atuando como pianista do Cinema Rio Branco, que apresentando filmes mudos necessitava de música para animar as imagens.

A partir dos anos 30, nomeado através de concurso, para o Banco do Brasil, assumiu na Agência do Recife, que funcionava num prédio alugado à Rua do Bom Jesus.

Em 1935 associou-se ao Santa Cruz Futebol Clube, recebendo a Carteira nº 183, a qual seria doada à “Sala da Memória Tricolor”, acontecimento datado de 30 e setembro de 1984, quando comemorou 80 anos de idade. Foi Conselheiro e proprietário das Cadeiras Cativas nºs. 224 e 225.

Naquela época o Recife lhe tributou várias homenagens, inclusive o lançamento de sua primeira biografia, sob minha assinatura: “Capiba, sua vida e suas canções”.

Estátua de Capiba, na AABB. Foto de Ismênia Teles

Capiba inaugurou o Memorial Tricolor recebendo a homenagem do Presidente Vanildo de Oliveira Ayres, presenteado-o com uma nova Carteira de Sócio, que lhe isentava de contribuição; uma faixa de Tri-super Campeão do campeonato de 1983, uma camisa nº 9, relativa à sua antiga posição de pebolista amador e uma placa de prata registrando o agradecimento dos tricolores por haver sido de sua autoria o Hino Oficial do clube.

Logo que tomou posse no Banco do Brasil se articulou para formar um time, ao que recebeu o nome de “Satélite Club”, que nos anos de 1930 a 1939 obteve muitas vitórias nos torneios bancários.

Em julho de 1939, Lourenço Capiba assinaria a ata de fundação da Associação Atlética Banco do Brasil. Na verdade, seu fundador nº 1, pois o “Satélite” fora incorporado à AABB e ele seu principal organizador. Hoje tem uma estátua na sede, por iniciativa de Euler Araújo de Souza, grande amigo da cultura.

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GENERAL TIMOSCHENKO

As tardes de domingo na Rádio Jornal do Commercio, durante o “Programa Ernani Seve”, para mim eram a atração maior dos tempos de juventude. Inesquecíveis, e acredito, para todos aqueles que viveram a década de 1950.

Como eu já praticava o jornalismo profissional naquela rede de Comunicação, (Caderno de Domingo do Jornal do Commercio) era-me permitido transitar pelos corredores da Rádio com certa facilidade.

Um dos momentos mais agradáveis era o “Programa Ernani Seve”. Não que tivesse ele a voz de um Luiz Jatobá, mas havia em sua pessoa uma encantadora educação que se observava, no trato com os artistas e nas brincadeiras com o auditório. Era u’a uma pessoa muito atraente.

Uma de suas peculiaridades era manter os apelidos que corriam nos bastidores e acabavam se tornando marcas-registradas de alguns:

– E agora vamos apresentar: “Mimi Castilho”, nossa querida Almira do Amorim Castilho!…”

O modelo deu tão certo que ele se referia aos mais conhecidos até no palco, não pelos nomes dos registros, mas sim pela identidade artística.

Às vezes se fazia de distraído – mesmo com Dr. Pessoa de Queiroz no auditório – e soltava os apelidos: Mimi Castilho, Jackson do Pandeiro, Camarão, Chocolate, Gordurinha.

Mas certa tarde se atrapalhou quando foi anunciar uma cantora que estava em experiência:

– Ouçamos agora, com o Regional de Luperce Miranda, uma cantora que estamos lançando e deverá ser um sucesso: Maria Daidece. Na verdade o nome da pobre moça era Maria da Daidescena, um nome meio estrambólico, mas ele se atrapalhou com o papelzinho que lhe passaram de última hora, e na pressa, pronunciou: “Maria Dá e Desce”.

Foi um “buruçu” dos infernos pelos corredores, pois sabia-se que a candidata, sendo “ratazana de auditório,” vivia em busca da fama. Por isso, “facilitava alguns amassos” com os “influentes” da emissora, segundo noticiava a “Rádio Peão”.

Mas, como seu nome não ajudava o Produtor do programa, – malandro todo – resolveu dar-lhe um “empurrão” rumo ao estrelato, mesmo correndo o risco de avacalhar a situação do Apresentador.

Fez a “adaptação”, numa tarde em que Dr. Pessoa não comparecera. Chegada a hora, tendo um cantor faltado ao programa, quase empurrou a jovem. E a pobre ganhou o apelido de “Maria dá e desce”. Uma alcunha que remete ao velho ditado: “Ou dá ou desce!”. O episódio ficou na história do Rádio.

Certa feita Ernani Seve meteu-se em outra, registrando para sempre alcunha, que se tornou nome artístico. De tanto assim proceder, animou-se, e no palco, anunciou, pelo apelido, o maestro da orquestra, legitimando seu nome mais conhecido, que ultrapassou o espaço radiofônico, tornando-se carinhosamente conhecido entre a família e os amigos.

Foi assim:

– E agora, na enternecedora voz de Antônio Laborda ouviremos a canção “Maria Betânia”, de Capiba, acompanhado pela Jazz Paraguary, sob o comando do Maestro Timoschenko.

A inquietação foi de tal ordem que Dr. Pessoa lhe indagou, dias depois, no gabinete da diretoria, se ele sabia de onde vinha aquele apelido. E naturalmente não sabia, mesmo porque não foi ele quem “batizou” Lula com o nome do general russo Semion Timoschenko, herói da II Guerra Mundial.

Luiz Caetano, competente maestro pernambucano, de fato, era muito parecido com o general. Os rostos, quase iguais. Assim, Timoschenko tornou-se emblema. Nome de General e hoje desfruta tranquilo sua aposentadoria dedilhando seu sax no terraço de casa.

Maestro Luiz Caetano, o “Timoschenko” do Recife

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NOTAS DE ANTIGAMENTE

Grupo Escolar Amaury de Medeiros, a primeira “escola de verdade”

Papagaios falam? Se uma ave pode falar, as crianças também aprendem a se comunicar facilmente através das repetições. “Cadê Cleó? Cadê Cleó?” Por que os papagaios falam? Esta questão faz parte de minha história mais remota.

Alfabetizado por mamãe Ingressei na “Escola de D. Cleomar”, que funcionava numa casa bem próxima à nossa, na Vila dos Remédios, em Afogados. Vale comentar como era o ensino na década de 1940 e suas notáveis peculiaridades.

Éramos apenas cinco alunos, quase todos da mesma idade. Arivaldo era o mais velho, contava sete anos. A sala de visitas era a escola improvisada. Quando todos estavam reunidos na mesa de jantar, a professora se assemelhava, nos dias de hoje, ao chefe de uma reunião. Não havia quadro-negro, mas ela criava modos de salientar as gravuras numa tela de cartolina.

Muitas coisas interessantes guardo numa das gavetas do coração, sobre passagens de vida daqueles momentos, onde tudo tinha os encantos da “primeira vez” e o improviso fazia o ensino naquela escolinha funcionar. Anotei algumas cenas num velho caderno talvez prevendo que serviria para temas das futuras crônicas, quando eu desejasse escrever sobre as coisas do “meu antigamente”.

Todos os dias mamãe me levava e trazia, embora a escolinha fosse perto de nossa casa, defronte à residência de Tia Floriza. Dos apetrechos para as aulas, lembro-me apenas de uma caixinha com lápis de várias cores, o apontador, uma borracha, daquelas que eram enfiadas na cabeça dos lápis. O lanchinho ia embrulhado num guardanapo e junto, ia um copo de alumínio. Tudo acomodado dentro de uma sacolinha de tecido grosso, com alça, que ela fizera com o maior esmero para essa destinação.

Era um orgulho ir para a escola conduzindo aquela sacolinha no ombro. A impressão é que eu estava indo para u’a missão, que compreendia o horário das 8 às 11h. De fato, era. Pois aprender, seria a missão mais importante de todos o tempos de nossas vidas. E aquela incumbência era a base de tudo. O impulso para a gente se projetar na sociedade. A empolgação não era pequena. Sentíamo-nos importantes à medida em que sabíamos ler, escrever e contar. Todos os dias chegávamos em casa com uma novidade aprendida. Uma delas foi a história do papagaio “Zezinho”.

Fiquei boquiaberto quando D. Cleomar me respondeu porque seu papagaio falava: “Cadê Cleó? Cadê Cleó?”, frase que lhe foi ensinada por seu marido, sr. Vinícius. Explicou-me que sendo aves muito inteligentes, os picitacídeos aprendem a repetir os sons de nossas palavras e assim, desde que treinados como o nosso foi, “Zezinho” aprendeu essas repetições e consegue reproduzir nossas frases.

Era muito engraçado. Quando estávamos em aula o bicho começava a falar e repetia v: “Cadê Cleó? Cadê Cleó? E ela carinhosamente respondia: Tô aqui, Zezinho!

Outro episódio interessantíssimo foi quando experimentamos a escrever de fato frases completas. Pelo modelo contido no “Caderno de Caligrafia Vertical”, muito usado na época, aprendíamos aprimorar a letra. “Nicolau vai puxar o carrinho”, era a frase-guia para a gente copiar várias vezes e ir fazendo dos garranchos letras mais aprimoradas. Escrevi muitas vezes esta frase, porque tínhamos que reproduzi-la, escrevendo em cima das linhas retas das pautas impressas no caderno.

Os “Deveres de Casa” consistiam em algumas continhas simples e um ditado, que as mães deveriam ler para a criança copiar.

Maria Ester, nossa coleguinha, recebera aplauso da professora logo nos primeiros dias, porque, na “prova da letra”, existente nos “Deveres de Casa”, tinha que ser escrita numa folha em branco, sem desaprumar a letra, e ela o fez sem perder o prumo da linha.

Certa feita, Arivaldo descobriu o macete. A mãe da menina, D. Malvina, contara a D. Lola, mãe de Vavá, que ajudava a filha, botando uma régua no papel em branco e marcava a folha com a ponta da unha, de forma que a colega escrevia, obedecendo cuidadosamente a linha imaginária. Na verdade era a “linha invisível”. Porque o sulco da unha era a “estrada” para a escrita seguir retilínea.

“Hora do Recreio”, não era possível porque não havia espaço para se correr ou brincar mas era sagrado o momento do lanche e um tempo de repouso para as conversas. geralmente os alunos traziam seus lanches de casa. Lembro-me que eu possuía um copo de alumínio, que se encolhia, para diminuir o espaço na sacolinha, no qual eu tomava o suco com um sanduiche de meio pão francês e queijo.

A professora tinha uma filhinha – Tereza Fernanda, de uns dois anos, que ficava sentada em sua cadeirinha alta utilizada em suas refeições. Ela ficava parte das aulas perto da gente, aproveitando para se distrair com um “cotôco” de lápis e uma folha de papel-de-pão, que riscava por algum tempo.

As aulas tinham “paradas técnicas”. Nos instantes em que era necessário a professora ir à cozinha dar u’a mexida na panela do feijão ou colocar a criança no berço, “pedia tempo”. A gente parava e ficava proseando. Enquanto distraia-se com os alunos, Tereza Fernanda permitia que a mãe passasse uma vassourinha na casa.

A primeira tarefa do dia era uma cópia caligráfica. Depois, havia um ditado, que conferidos um a um, oferecia os primeiros ensinamentos, comentando-se os erros. A aritmética fazia parte da trilogia inicial de qualquer iniciante: ler, escrever e contar. No meu caso fui apenas aprimorar alguns ensinamentos, porque saíra de casa alfabetizado.

Os objetos utilizados para nos mostrar a maneira mais fácil de contar, eram utilizando-se os talheres da casa da professora, aproveitados para facilitar o entendimento visual, porque não havia lousa. Nos dois primeiros meses de aulas, a professora desenhava os números em uma folha de cartolina, escrita a lápis. Para a aula do dia seguinte ela apagava tudo para aproveitar o papel. Um artifício inteligente.

À medida em que o faturamento foi se solidificando, ela adquiriu um tripé e um quadro-negro. Aí foi Hollywood! Para nós se passava uma verdadeira e fascinante fita do cinema.

Não fiquei naquela escolinha muito tempo porque aos sete anos fui matriculado num estabelecimento preparado para o ensino primário: o Grupo Escolar Amauri de Medeiros, para onde seguia com mamãe, que nos primeiros dias teve que ficar comigo, porque me amedrontei com tanta gente num só lugar, um prédio enorme, os sons de um sino que tocava para indicar a hora de começar as aulas, a hora do lanche e o final do turno.

Saí do aconchego de colegas que se conheciam de perto, para u’a multidão escolar, com muito alvoroço. Tudo diferente. Ninguém conhecia ninguém. Amedrontavam-me as cenas daquele cotidiano tão diferente.

Mas foi meu grande salto de modernidade de hábitos. A nova escola tinha tudo que um estabelecimento de ensino precisava, a partir de um prédio imponente, com dois pavimentos, construído com a finalidade específica, situado na Rua São Miguel, perto do Largo da Paz. Havia mesas especiais para cada aluno e um espaço embaixo da banca para a colocação dos nossos pertences. O Quadro-negro era enorme e cada sala contava com cerca de 15 alunos.

A “Hora do Recreio” era uma bagunça que eu jamais experimentara: as crianças gritavam muito, desciam correndo pelas escadas de madeira, fazendo a maior zuadeira. Todas as classes se reuniam no pátio, na maior balbúrdia. Foi um choque observar assustado aquele momento, porque era a minha estreia numa “escola de verdade”, mas onde a organização deixava a desejar. Ninguém podia conter a fúria da meninada enlouquecida.

No primeiro dia de frequência, quando mamãe pediu minhas impressões, eu empertigado declarei:

– Agora estou numa “escola de verdade”, mas muito anarquizada!

Nunca perdi o contato com a família daquela mestra. Quando Tereza Fernanda casou-se, D. Cleomar foi residir com ela, no bairro das graças. Ao saber que completara 90 anos, fui mais uma vez visitá-la com minha família. Uma prosa cheia de boas recordações. Era uma pequena escola, mas ali, na pequenina casa da Rua Gaspar Drumond, 129, aprendi o que eram os primeiros modelos de convivência organizada em sociedade.

Que bom poder reviver essas memórias!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PORNOGRÁFICO ABECEDÁRIO

D. Alice, minha santa mãe e primeira professora

Em 1942, aos cinco anos, considerei-me alfabetizado por mamãe. Foi um período encantador, Cheio de descobertas. Depois fui para a escola de D. Cleomar Reis Seixas, na Vila dos Remédios, no Recife.

De início papai comprou um livrinho chamado: “A Carta de ABC”, e um outro, chamado: “Tabuada”. Pra mim foram uma atração.

Antes mamãe me ensinou recortado, de revistas e jornais, algumas ilustrações, para que eu gravasse as letras, frases e os motivos das gravuras.

Nas letras fui até bem; facilmente formei frases. Meu destino estaria selado: dedicar-me-ia às ditas cujas. Mas nos cálculos emperrei. E continuaria “travado” todo o tempo, tornando-se barreiras difíceis nos concursos que fiz para me tornar bancário.

O abecedário, de início, foi complicado, mas depois que ela me ensinou sua forma de gravar na mente, em linguagem marcada pelos batuques dos punhos na mesa, a coisa melhorou:

A B C D – E F G H – I J L M… etc.

Anos depois os métodos confundiram a cabeça da gente, inserindo letras usadas nos idiomas estrangeiros: K, Y e W, que se pronunciava, no vulgo: “V-W”. Pra mim uma “engembração”. Mas fui absorvendo.

Decorrido um estirão de tempo enfrentei três reformas do idioma pátrio. Um inferno “abecedal”. No concurso do Banco do Brasil não tirei 10 porque deixei de botar um circunflexo na identificação da capital gaúcha: “Pôrto Alegre”, “chapeuzinho” que, no caso, acabou sendo abolido.

O segundo período, foi mais interessante, pois parecia que estávamos aprendendo a marchar:

Bê-a-ba=BA; Bê-é-bé=BE; Bê-i-bi=BI.. .E mamãe ia batendo com a mão na mesa dando o rítmo, fator que facilitava, e muito, o aprendizado.

Depois, entravamos numa espécie de carretilha e se tornava muito engraçado o modo de se aprender a junção das consoantes:

BA, BE, BI, BO, BU.

Era um aprendizado ritmado e isso animava as sulas. Em seguida, quando eu já estava dominando o conhecimento das letras e suas ligações para formar as palavras, as aulas passaram a ser ainda mais deliciosas.

Entretanto, no período em que estávamos desenvolvendo a forma ritmada das consoantes, notei que mamãe não verbalizou as letras “A” e “C”, não me ensinando a partir do “A” e pulando do “B” para o “E”.

Ao alertá-la para o provável “escorrego” me disse que sendo o “A” uma vogal, deveríamos aprender a formar primeiro as consoantes. E ao ser indagada por que pulou o “C” ela desconversou e disse-me.

– Ah, me esqueci. Depois a gente volta!

Ladina, sabia que aquela parte não daria boa sonoridade, por isso se esquivara, a fim de passar-se por “esquecida”.

Anos depois, já estudando no Ginásio Amauri de Medeiros, uma escola pública de Afogados, os alunos mais adiantados faziam questão de “cantar” o abecedário batendo ritmadamente.

Durante o recreio, a título de bagunça, todos “cantavam” o que minha primeira professora, não ensinou nem deixou-me aprender e se fez de “esquecida”: o famoso: C-a-ca= CA; C-e-Ce=CE; C-e-Ci=CI – e C-o-co= CO; C-u-Cu=CU.

Ao chegar em casa lembrei a D. Alice – na maior inocência – que havia aprendido com os coleguinhas da nova escola a parte que ela havia “esquecido”; um pedaço que para mim só veio a ser conhecido como pornografia, anos depois, junção de letras que seriam repetidas nas muitas anedotas que sempre gostei de contar:

Cuidados e ensinamentos de mãe ficam para sempre!

Cartilha do ABC em uso na década de 1940

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ACADÊMICO POR ACASO

Patrimônio Cultural Pernambucano

A Academia de Artes e Letras de Pernambuco funciona no antigo prédio da Faculdade de Medicina, juntamente com outras instituições de cultura memória, ensino e pesquisa.

Um prédio que tem atividade intensa porque ali estão a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, o Memorial da Medicina, a Academia Pernambucana de Medicina e o Museu da Medicina. O edifício foi construído em 1927 e está situado à Rua Amaury de Medeiros, nº 206, no Derby, Recife.

Já me indagaram por qual razão me reporto a Capiba com tanta frequência nas minhas crônicas. Naturalmente porque era pessoa de fino trato, trabalhamos juntos no Banco do Brasil, éramos amigos-irmãos e fui seu primeiro biógrafo, quando em 1984 ele completou 80 anos.

A proximidade me levou ao fortalecimento de uma amizade que perdurou até o dia em que ele desapareceu, e continua com a estima e respeito que tenho por Zezita, sua viúva. A alguns dos seus amigos fui apresentado, recebendo incomparável impulso.

Quando ambos estávamos aposentados eu ia buscá-lo às tardes de quarta-feira para fazer visitas aos amigos. Ele ditava o roteiro e marcava os horários. Zezita deixava que saíssemos sozinhos.

Uma dessas visitas foi à casa de um dos seus melhores letristas – o médico e poeta Ferreyra dos Santos – com quem ele produziu a “Valsa Verde”, o hino de formatura dos médicos.

Essa música se tornou um clássico. Lançada em 1932, gravada inicialmente em disco 78-RPM, seguindo-se várias outras, a partir de Cristina Araújo, Sérgio Gaia, Claudionor Germano e Expedito Baracho, sendo a mais recente interpretada por Paulinho da Viola, sob acompanhamento de Rafael Rabelo.

VALSA VERDE

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Pelos meus olhos tristes
Nunca percebia
Não sei quem és e te recordo
E te desejo tanto
Pra ilusão de minha vida…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Que o meu sonho de amor
De verde iluminou
Depois o anseio
Que em mim ficou…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Pelos meus olhos tristes
Nunca percebia
Não sei quem és
E te recordo
E te desejo tanto
Para a ilusão de minha vida…

Não sei bem quem és
Mas sei que entraste em meu olhar
Como na sombra entra uma réstia
De excelsa luz
Que o meu sonho de amor
De verde iluminou
Depois o anseio
Que em mim ficou…

Poeta Ferreyra dos Santos, Capiba e Paulinho da Viola

Chegamos à praia de Candeias. O reencontro foi emocionante. Tamanha era a ansiedade que o poeta e sua esposa já estavam no portão. Seguiu-se a prosa solta e muitas recordações da década de 30. Enquanto eu percorria a casa conhecendo o acervo de imagens e troféus dos seus tempos de atleta do Náutico, os dois proseavam alegremente no terraço e falavam da nova gravação da Valsa Verde com o famoso jovem Paulinho da Viola. A música já era um clássico.

Após o lanche, participei da conversa para sugerir a utilização de um dos salões da AABB, onde seria realizada a festa de entrega do título de Acadêmico Emérito da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, a Capiba. Aconteceria uma linda festa, inclusive com Ariano Suassuna, um dos seus amigos da juventude.

O médico José Ferreyra dos Santos já era meu conhecido, pois fomos diretores do Clube Náutico Capibaribe em 1958, sendo ele Vice-presidente do Conselho Deliberativo. Durante a prosa aventou-se a possibilidade de meu ingresso na sua academia, logo à primeira vaga, pois a Instituição precisava de um jornalista atuante, para promover os eventos.

Os anos se foram e Ferreyra dos Santos ficou mais próximo de mim. Mas, infelizmente, se encantou antes. Presenciei no hospital seus momentos finais, juntamente com um dos seus filhos.

Anos mais tarde participando do II Encontro de Jornalistas do Interior de Pernambuco, realizado em Caruaru, meu nome foi citado ocasionalmente e alguém se levantou para me comunicar que eu havia sido eleito para ocupar a Cadeira nº 1 da Academia de Artes e Letras, e que há tempo estava sendo procurado.

Deixara Ferreyra dos Santos, com seus colegas acadêmicos, o pedido de minha indicação, que foi respeitado pelos acadêmicos. E assim ingressei naquele quadro de intelectuais, por acaso, sem ao menos me candidatar. Tornei-me “acadêmico biônico”. Algo “sui generis”.

Mas o impulso foi de Capiba, que naquela tarde de verão, em Candeias, sugeriu meu nome. Por isso se engrandeceu nossa amizade e meu bem-querer por ele.

Hoje, lembrando desses episódios tão alegremente vividos, pranteio aquele atleta, poeta e médico que às sextas-feiras dedicava todo o seu expediente para atender, de graça, a clientela pobre do bairro de Santo Amaro, no Recife, e ainda lhe pagava os remédios.

Por sugestão de Capiba e sua indicação me tornei acadêmico por acaso.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FAZER O QUE?

Capiba e Fernando de Castro Lobo

Jamais pude imaginar que decorrido meio século depois escutaria dos lábios de Fernando Lobo (pai do grande cantor e compositor Edu Lobo) uma história tão impressionante sobre uma viagem de vapor do Recife ao Rio. Noite em que por coincidência eu estava no mesmo lugar.

Capiba e Fernando seguiriam para o Rio de Janeiro e quando prestes a subir a escada do navio chegaram umas distintas senhoritas da alta sociedade, amigas deles, com um pacote grande, embrulhado para presente.

Disseram ser uma caixa, contendo um “Bolo Souza Leão” para eles fazerem o favor de entregá-la a umas primas delas que estariam no cais do Rio, esperando. E que eles não teriam trabalho nenhum de ir levá-la na Tijuca.

Eu contava seis anos. Era minha primeira vez a um cais de porto. Fora levar tia Tereza para embarcar. A cena jamais me saiu da mente, quando, em outra cena, ao longe, o barco se fez ao mar, sem que ao menos tivesse faróis dianteiros, como os automóveis. Parecia uma panela de ferro boiando na escuridão.

Contou-me Fernando que no cais do Rio, para recebê-los os estavam as moças que foram recepcioná-los.

Mas o “porém” é que durante a demorada viagem de cinco dias, começou a aparecer formigas, saindo do pacote, causando complicações no camarote. A solução que os portadores viram foi abrir a escotilha e jogar a caixa no mar. Afinal, era apenas um bolo!…

Mas ocorre que não era.

Frenéticos acenos partiam no porto do Rio de Janeiro na chegada do enorme barco de ferro, que foi amarrado no cais. Lá estavam as moças, donas do pacote, acenando alegremente, indicando que eram elas que estavam credenciadas para o recebimento.

Capiba e Fernando não tiveram outra alternativa a não ser contar a verdade: haviam jogado a caixa ao mar, porque havia formigas.

Eis que logo se ouviram choros e comentários ácidos, alusivos à irresponsabilidade dos dois rapazes.

– Vocês não poderiam ter feito isto! Ali estavam os ossos de papai!…

Fazer o que?…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MAMEI ATÉ DEMAIS!…

Este colunista aos três anos de idade, e oitenta anos depois

– Carlinhos, tua mãe tá chamando pra mamar!!!…

Não seria crível se ouvíssemos hoje uma serviçal no portão da casa de meus pais dando um grito assim, porque não se entenderia que aos sete anos uma criança ainda mamasse nos seios de sua mãe. Ocorre que o episódio sui generis, foi um fato.

Mesmo sendo mamãe oriunda do interior e costumeira fosse nossa ida, todos os dias, à vacaria situada perto de nossa casa, justificar-se-ia a criança gostar de leite, mas não ao ponto de haver mamado “até os sete anos”. Por isso tenho que explicar as circunstâncias do fato.

Aos 24 de março de 1944, ao ganhar a única irmã, a sujeitinha era tão preguiçosa que nem pra mamar acordava; e nossa mãe começou a ficar com os seios enrijecidos, pedrando o leite. Diante dessa circunstância, o médico orientou para que se botasse seu irmãozinho para sugar as mamas da parturiente, em horários sequenciados.

E para essa missão fui incumbido. Nas horas pré-determinadas eu era “convocado”, e após um banho, entrava no quarto, deitavam-me no colo de mamãe e iniciava a tarefa, que não durou mais de um dia; logo Maria Alice abriu os olhos e foi cuidar do que era seu.

Na infância, vivida às margens do Capibaribe, nadei tipo o Tarzan do cinema, subi em mangueiras como se um macaco fosse e joguei muito futebol. Nunca quebrei um osso, talvez beneficiado pelas santas mamadas que dei em minha mãe aos sete anos de idade.

Anos depois, notando que eu continuava muito magricela, mamãe me aplicou famoso produto popular na época – “Calcigenol Irradiado” – que tomei durante vários anos, ao ponto de só vir a quebrar os dois ossos da canela, (a tíbia e o perônio) quando aos 65 anos caí de um 1º andar e rolei pela escada. E mesmo havendo, antes, sofrido um capotamento de automóvel, só tive arranhões.

Fica evidente que o certo será dizer que “Mamei com sete anos.” e não “até os sete anos!”

Hoje, aos oitenta e cinco, estou com poucos sulcos no rosto, com o Prontuário Médico zerado de doenças, o que se pode avaliar e comparar pelas fotos.

Teriam sido aquelas santas mamadinhas dos sete anos?