CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MACACHEIRA MAL CHEIROSA

Os mais velhos – não se pode negar – são “professores de vida”. Devemos, portanto, estar atentos para sempre que possível transmitir aos nossos pósteros os valores que a vida nos ensina. Sobremodo em termos de precaução.

Eu, a exemplo, nos meus saudáveis 85 anos, ainda consigo com facilidade escrever meu besteirol aqui e ali, costumo sair sozinho, mas sempre estou dizendo à minha santa esposa – coitada, sofrida pelos 32 anos de convivência matrimonial – que estou começando a ficar velho.

Hoje confirmei. A PVC chegou! (Porcaria da Velhice Chega).

Ela estava no banho e havia deixado uma panela no fogão, com o fogo aceso, pois colocara uma macaxeira para ser saboreada durante o jantar, e pressentiu que estava na hora de fechar o gás. Aí apelou:

– Meu filho, – olhem só; de Meu Velho passei a Meu Filho – apague o fogo da macaxeira, por favor!

Rápido que só um preá, chispei da cadeira em que estava sentado, escrevendo, e fui e fui dar uma rodada no pitôco do fogão. Olhei pelo fundo da panela e vi que a chama se apagara.

Pra mim tudo certo. Só que, pensei em completar a “operação”, acionando novamente o tal pitôco, reabrindo, assim, o gás. Coisa de velho!

Saindo do banho e depois dos “complementos” ela foi para a cozinha e ao passar por mim, na sala, balbuciou em voz alta:

– Que cheiro diferente tem essa macaxeira!…

Ao chegar à cozinha, identificou a “desgraceira”. O gás estava escapando. Eu havia deixado o pitôco do butano aberto.

Logo que providenciou a solução de fechar o bico, abriu todas as janelas e a porta principal do apê e partiu pra cima de mim espantada, com os olhos arregalados feito uma garoupa do rio Amazonas:

– Meu filho, você está mesmo ficando velho!… Pois não é que deixou o fogão ligado! …

Ao que respondi com a maior seriedade:

Eu já repeti isso várias vezes. Acho que agora você entendeu! Comecei a ficar velho!…

Bendita a “macaxeira mal cheirosa”…!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TEATRO DE PERNAMBUCO: MAIS UM ATO

Vista interna do Teatro de Santa Isabel, o mais antigo teatro de Pernambuco

Nossa chegada ao Rio de Janeiro, com o TAP, como falei na crônica anterior, foi também, o ápice da história de um menino que se iniciou na arte teatral participando de um espetáculo infantil na Escola Bom Bosco, do Recife, em 1949.

Depois foi aproveitado numa peça de adultos em um grupo de teatro suburbano e deu um passo maior quando escolhido para ser artista do Teatro de Amadores de Pernambuco. Um grupo com características profissionais.

O menino considerou-se artista, de fato, quando dirigido pelo polonês Ziembinsky e se apresentou no Teatro Regina, do Rio de Janeiro, recebendo louvores da Imprensa especializada, cujos recortes de jornais, guardou durante quase 70 anos.

Mas a História registra fatos interessantes até que ele chegasse à fama. E disso pretendo falar porque é parte da História do Teatro de Pernambuco e de minha história. Vale ser contada.

Depois de participar do drama: “As Árvores”, de autoria do catendense Aristóteles Soares da Silva, segunda peça dirigida por meu pai, (Arthur Lins dos Santos), consideraram-me preparado para enfrentar qualquer plateia.

No Atlético, um clube do bairro dos Afogados, tivemos o privilégio de estar com Aristóteles em vários ensaios e ele muito concorreu para a escolha dos cenários e detalhes da encenação. Numa dessas participações, declarou-se emocionado por constatar que seu primeiro trabalho estava em cena.

“As Árvores”, depois de apresentada pelo GTA – Grupo Teatral de Amadores do Atlético, tantas vezes, foi adaptada para o TAP-Teatro de Amadores de Pernambuco, tomando o nome de “Sangue Velho”, com a concordância do autor. Seu valor foi tão real que se incluiu na excursão ao Rio de Janeiro para ser encenada no Teatro Regina, na Cinelândia. Uma casa menor, porém com todos os requisitos para grandes espetáculos.

Logo que chegamos Reinaldo foi verificar os equipamentos e conferir algumas medidas no palco, porque teria que ali instalar uma casa e fazer chover de fato. Com uma fita-métrica confirmou osespaços e tudo que poderia dispor.

Profundidade de palco: 10m; largura: 12,5m; profundidade do proscênio: 7m; altura da caixa cênica: 6,5m; 3 camarins e 3 sanitários. Bem menor do que o Santa Isabel, mas perfeito para qualquer espetáculo.

Teatro Regina, do Rio de Janeiro, dotado de 331 lugares

Mas o Teatro de Santa Isabel entraria na minha História, como entraram o Atlético e a Escola Dom Bosco, de D. Arcelina Câmara. Levado por meu pai, para os ensaios de marcação, entrei pela primeira vez no Teatro de Santa Isabel acanhadamente, pela porta dos fundos que é acesso dos funcionários e artistas. Prédio bem diferente do Teatro do Atlético: tudo era grandioso e moderno.

Teatro de Santa Isabel, Recife

O Santa Isabel sempre foi uma casa suntuosa e construída para funcionar como teatro, dispondo de equipamentos da mais alta qualidade. Seus espetáculos sempre foram grandiosos, salientando-se operas, cantores, instrumentistas e grandes orquestras internacionais. Dentre as apresentações mais famosas, ouvimos falar da Companhia Lyrica Italiana G. Marinangelli, que apresentou a ópera “La Traviata”, em 1858.

Em épocas outras o teatro recebeu visitantes ilustres como o imperador Dom Pedro II e foi palco da campanha abolicionista de Joaquim Nabuco, da qual fez parte meu avô paterno, Pacífico dos Santos, que discursou com seu irmão Claudino dos Santos, em favor dos mesmos ideais, conforme consta da publicação: ”A Imprensa e a Abolição”, editada pela FUNDAJ – Editora Massangana, em 1988.

A história do prédio – antes chamado Teatro de Pernambuco – foi marcada por situações inesperadas, das quais detalharei em outra oportunidade, embora não possa deixar de assinalar breves tópicos.

Pouco antes da sua inauguração, em 18 de maio de 1850 o seu nome foi mudado para Teatro de Santa Isabel, em homenagem à Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon, nascida no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1846, filha de Dom Pedro II, o imperador do Brasil, com sua esposa, Tereza Cristina. Até anos recentes se entendia que o título seria uma homenagem à Santa Isabel dos católicos.

Da História que vivi – e não fatos que apenas pesquisei – posso falar de alguns eventos ocorridos nos anos 50. Foram reuniões do mais alto significado político e econômico, uma dos quais fui espectador, como jornalista: a fundação do CODENO – Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, com a presença do Presidente Juscelino Kubitschek, reunião que deu origem à criação da SUDENE, em 18 de dezembro de 1950.

Muitos anos depois, em 1984, lá estive como convidado, para apresentação do show: “Capiba e seus Poetas”, oportunidade em que lancei o livro “Capiba, sua vida e suas canções”. Assim, se tornou sempre renovada emoção entrar naquele “palácio do teatro”.

Outro dia fui com minha neta Gabriela – que reside nos Estados Unidos – mostrar-lhe o teatro, salientando que naquele palco pisara seu trisavô lutando pela abolição da escravatura no Brasil, e seu avô, como artista amador, deixando-a encantada com os fatos e a grandiosidade do prédio.

Mas, a primeira vez que vi o Teatro de Santa Isabel por dentro foi um alumbramento. Fui entrando, dominado por certo ar de cerimônia. Orientado por meu pai fui conhecendo os muitos detalhes dos bastidores, onde ficam os camarins, os cenários e as coxias.

O palco, uma enormidade. Diante dos meus olhos, a ribalta: uma caixa enorme que rodeava todo o espaço da frente, onde apareciam luzes embutidas com o fim específico de iluminar os atores e o cenário.

No centro daquela “caixa de luzes havia um alçapão coberto por uma abóboda que permitia ao “Ponto”, (um profissional altamente especializado), “soprar” em voz baixa, para os atores, as falas que lhe faltavam por algum deslize de memória”. Assim, o “Ponto” era o elemento socorrista dos atores.

Nos dias atuais essa estratégia foi abandonada porque a tecnologia substituiu aquele profissional de raríssima qualificação, por equipamentos eletrônicos, em que o diretor conduz as falas dos apresentadores, como se percebe na Televisão.

Percorro os anos e vou me lembrando dos profissionais com os quais conviveria no Recife e no Rio de Janeiro: Mário Nunes, o cenógrafo; o “Ponto”. Abelardo Cavalcanti, mais conhecido como “Coleguinha”. Sentado no auditório, visei um gringo de cabelos brancos, calado, único espectador a apreciar o ensaio: era Ziembinsky, que viria a ser meu novo diretor, há pouco contratado por Dr. Valemar de Oliveira para dar mais efusão ao desempenho do TAP.

E papai continuava me informando sobre os detalhes do funcionamento de uma peça num teatro mais completo. Fui sendo apresentado a alguns outros: Francisco Miranda, o Contrarregra, aquela função que julguei estranha para funcionamento de uma peça. Depois o maquinista José Barros, e o eletricista, Reinaldo Rosa Borges de Oliveira, estudante de medicina, também ator, filho do diretor do teatro.

Na peça “Sangue Velho” eu participava apenas do 1º ato. Deveria, portanto, ser liberado mais cedo. Todavia, naquela noite de minha introdução no TAP, papai resolveu ficar comigo.

Alí, naqueles instantes, todas as pessoas eram adultas e desconhecidas para mim e isso poderia provocar acanhamento. Sendo um “encachaçado” por Teatro gostaria de ver o primeiro ensaio-de-marcação de “Sangue Velho”, sentado no auditório quase vazio, para ver seu filho cumprir sua missão.

De repente se apresenta à gente a atriz Margarida Cardoso que indaga se eu serei o filho dela na peça. Logo em seguida, vem Baby (Octávio da Rosa Borges), irmão do compadre de papai – Dr. Roberto Sarmento da Rosa Borges – que seria meu pai no 1º ato. Comecei já me aclimatando com pessoas que não seriam tão desconhecidas assim…. Todos foram muito receptivos comigo.

Houve orientação para que os demais atores ficassem no auditório. No palco somente os participantes do 1º ato, os cinco atores: Baby, Margarida, Valter, Reinaldo eu. Todos com papéis datilografados nas mãos. E eu sem nada. Fui alertado pelo Ziembinski, lá no auditório, mas Dr. Valdemar explicou que eu conhecia bem o texto, pois já interpretara a peça algumas vezes.

A pedido do sr. Coleguinha, um alçapão – espécie de esconderijo situada na ribalta – foi aceso e ele já estava lá dentro, pronto para “soprar” o ensaio. Lá no alto do palco vi muitos painéis pendurados por cordas, o que me assustou. Eram os cenários que desceriam para formar cada um dos atos. Um sistema mais moderno do que o teatro do Atlético, porém uma coisa assustadora.

Mas isto foi apenas a minha apresentação em “Sangue Velho” no Teatro de Santa Isabel, os demais atos virão depois, porque o TAP permaneceria no Teatro Regina, do Rio de Janeiro, durante quatro semanas, em cada uma delas um espetáculo diferente e casas lotadas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TEATRO EM VÁRIOS ATOS

Cine Teatro Apollo, localizado em Palmares, é o mais antigo do interior de Pernambuco. Fundado em 6 de dezembro de 1914 – Foto de C.C .Hermilo

O Teatro entrou na minha vida por descendência. Meu avô paterno, João Pacífico Ferreira dos Santos, além de Juiz de Direito, era jornalista, escritor, poeta, professor, político e teatrólogo.

Isto sem falar que quando acadêmico de Direito lutou com Joaquim Nabuco contra a escravidão. Por estas qualificações foi imortalizado com seu nome num dos logradouros do Recife: Rua Pacífico dos Santos, no antigo bairro do Paissandu.

Durante vários anos, logo que se casou, residiu em Palmares onde produziu a maior parte de sua obra teatral, mesmo sendo pai de cinco filhos.

Escreveu várias peças, algumas das quais encenadas, tendo iniciado com “Amor que salva”, levada ao palco em 1904 na cidade de Ribeirão, Pernambuco e as demais em Palmares.

De sua cartela de produção, (que consta em livro escrito à mão em minha estante), fui encontrar algumas indicações dos seus trabalhos, os quais transcrevo os títulos, com a grafia da época.

Para o teatro: “Consequências do Ciúme” (representada); “Chufas e Lufas”; “Palmares na Ponta” (representada); Ribeirão em cena; “Effeito magnético”; “Filho da sciência”; “Bendengó Assu”; “Amor que salva”; “Charlatães” e “Sogra domesticada”.

Papai viveu esses momentos em que vovô Pacífico, já morando no Recife, e com família ainda mais numerosa, pois sendo viúvo casara-se novamente, escrevia até altas madrugadas.

Além de jornalista mantinha intenso programa de trabalho profissional. Partícipe da política aliou-se à Campanha do General Emídio Dantas Barreto, que derrubou a oligarquia de Rosa e Silva, sofrendo inclusive um atentado à bala, na Pracinha do Diário.

Folhas da peça “Amor que Salva”, escrita por Pacífico dos Santos, encenada em Ribeirão, PE., em 1904

E diante dessa ascendência colateral, observando suas técnicas e ensinamentos, fui herdando o gosto para a escrita e o teatro. Assim – como disse acima – por tal influência, ingressei no nos trabalhos nde palco e no jornalismo, porque via meu velho – semelhante ao procedimento de meu avô – atravessar as madrugadas escrevendo, aproveitando uma antiga máquina “Underwood” semi-portátil.

O Recife até 1950 não conhecia a Televisão, tornando o teatro e o cinema os pontos de divertimentos chic das famílias. Como o cinema era a diversão mais popular, a arte teatral e musical, com as operetas e apresentação de cantores famosos, eram oferecidas ao público nos teatros. Presenciei no Santa Isabel e no Teatro do Parque, apresentações de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Francisco Alves.

Tudo muito alinhado. Cavalheiros de terno completo e os cantores acompanhados por orquestras. Os espectadores sentados em poltronas confortáveis e camarotes exclusivos. Muito diferente de hoje, quando as multidões alucinadas gritam de pé, com os braços para cima como quem pede socorro.

A cultura teatral e o chamado Teatro de Revista, no Recife – começou a aparecer com a formação de grupos artísticos locais e se intensificou a partir de 1927, com produção de operetas produzidas em nossa terra.

Uma das primeiras operetas levadas à cena no Recife foi “Bobby e Bobette”, escrita por Valdemar de Oliveira com a colaboração de seu amigo Samuel Campelo, apresentada no Teatro Santa Isabel pelo Grupo Gente Nossa.

Na década de 1950, conforme pude observar, foram surgindo novos teatrólogos em Pernambuco, os quais abasteceram os grupos de artistas que se foram formando na Capital, alguns dos quais encenando peças de autores de nossa terra, como Aristóteles Soares (de Catende), Pacífico Sobrinho (de Palmares) e Isaac Gondim Filho (do Recife).

Montando peças de autores da Região os novos grupos de teatro divulgavam também nossa cultura e expandiam o prestígio do nosso teatro pelas cidades do Sul.

Assim, ainda aos 15 anos, espectador de um desses movimentos – o Grupo Teatral de Amadores do Atlético – dirigido por meu pai, fui aproveitado para atuar como ator. Iniciei-me com participação na peça “As Árvores”, de Aristóteles Soares, no teatro do Atlético, no bairro de Afogados.

Depois fui integrado ao Teatro de Amadores de Pernambuco e excursionei ao Rio de janeiro, conforme comentei em crônica anterior, que ora dou prosseguimento, como se fosse uma peça teatral.

Quando chegamos ao Aeroporto Santos Dumont, do Rio de Janeiro, e fomos recebidos por significativo grupo de pessoas da Colônia de Pernambuco, sob aplausos. O entusiasmo era tão grande que me deu a impressão de sermos uma equipe de teatro internacional.

Em se falando de Teatro, transfiro para a próxima crônica os comentários da Imprensa carioca, sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco, cujos recortes guardo há quase 70 anos. Vou transcrever observações de um garoto de 15 anos que chega à Capital da República para se apresentar num teatro.

Narrarei o que foram nossas apresentações no Teatro Regina, do Rio de Janeiro; detalhes sobre os procedimentos técnicos, a participação de Ziembinski e muitas história engraçadas sobre esse polonês na direção do meu espetáculo. Falarei das montagens, das apresentações, das reações do público e da mídia.

São detalhes que não podem ficar esquecidos dos meus descendentes. Afinal, como diria o velho Arthur Santos: “Essa minha “cachaça” por teatro veio por descendência.” Assim digo eu!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PERNAMBUCO EXPORTA VALORES

O “Douglas” aguardando embarque do TAP. Recife, janeiro de 1953

Quando aos 12 anos pisei num palco pela primeira vez, na Escola Dom Bosco, no Recife, jamais imaginei que três anos mais tarde eu embarcaria por via aérea para uma excursão ao Rio de Janeiro, com o TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco.

Na escola, bem menino ainda, fui o anão “Dengoso” na peça “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando, porém, papai começou a organizar shows do chamado teatro de revista num palco improvisado no Atlético Clube de Amadores, fiz par com Zayra Pimentel no musical: “A Dança das Palmeiras”, criado pelo clarinetista Jair Pimentel com textos de Arthur Santos.

A escola de teatro do Atlético se desenvolveu a partir de abril de 1951 e encenou peças importantes, a segunda delas: “As Árvores”, do teatrólogo catendense Aristóteles Soares. Os cronistas especializados: Isaac Gondim Filho e Jaime Souto aplaudiram o trabalho, publicando elogiosos comentários no Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco.

Numa dessas exibições, estando na plateia, Dr. Valdemar e Oliveira apreciou o tema e propôs levar um dos atores do GTA – Grupo Teatral de Amadores, para encená-la no Teatro Santa Isabel, com a equipe do TAP. Fui o escolhido. A peça foi reescrita e rebatizada com título de “Sangue Velho”, recebeu cenografia do pintor Mário Nunes e durante quatro semanas lotou o Teatro Santa Isabel.

Dr. Valdemar de Oliveira acertou com meus pais que todas as noites me levaria após os ensaios. Combinaram que se o TAP tivesse que excursionar ao Rio de Janeiro ele me levaria na equipe.

Nessa fase embora menino de 15 anos, enfrentei o histórico palco do Santa Isabel dirigido por Ziembinsky. Foram várias récitas. “Sangue Velho” fez tanto sucesso que acabou escalada para a excursão ao Rio de Janeiro.

Em princípios de janeiro de 1953 os técnicos Alceu Domingues Esteves e Aluísio Pereira foram despachados para a missão das montagem e voaram com os cenários das peças: “A Casa de Bernarda Alba”, “Esquina Perigosa”, “A Primeira Legião”, “Arsênico e Alfazema” e “Sangue Velho”.

Uma curiosidade: Alceu tinha a responsabilidade de continuar fazendo chover e trovejar no palco do Teatro Regina, do Rio, como o fizera várias vezes no Santa Isabel. Com uma folha de zinco que era balançada bem depressa ele imitava o trovão, e através de uma bomba d’água provocava chuva real, o que alucinava os espectadores quando a água desaparecia num esgoto instalado no palco. Uma coisa inédita para aquele tempo.

Homem de Imprensa, cronista diário, Dr. Valdemar soube atrair muitas pessoas para o Aeroporto Internacional do Ibura, no Recife, a fim de assistir à partida da equipe, que contava com mais de 20 atores do TAP. Embaixo do “Curtiss Commando” da Aerovias Brasil, um potente bimotor, tiramos uma fotografia e embarcamos.

Meu grande alumbramento seria voar. Recebi os abraços de meus pais, ficando eles, entretanto, com a preocupação de minha ida ao Rio para passar quinze dias sem o acompanhamento paterno.

Ao me acomodar perto da janelinha, a primeira coisa estranha: a poltrona, que como as demais, eram muito inclinadas. Naquela época a bequilha dos aviões era traseira, deixando a aeronave com o nariz para cima.

O “Douglas” estava cheio de artistas de teatro porque era um vôo fretado:: Adelmar de Oliveira, Alderico Costa, Alredo de Oliveira, Antônio Brito, Ceci Cantinho Lobo, Cremilda Ebla, Dinorá Rosa Borges de Oliveira (Diná), Edissa Bankovsky, Francisca Campelo de Oliveira, Maria Eugênia Sá Rosa Borges, Janice Cantinho Lobo, José Maria Marques, Margarida Cardoso, Maria do Carmo Costa Xavier, Otávio da Rosa Borges, Paulo Marcondes, Reinaldo Rosa Borges de Oliveira, Tereza Farias Guye, Vicentina Freitas do Amaral, Valter de Oliveira, Valdemar de Oliveira, Carlos Eduardo Carvalho dos Santos e Clóvis de Almeida.

Recebemos algodão para colocar nos ouvidos, a fim de diminuir o ruído dos motores, que ainda eram à explosão. Voaríamos abaixo das nuvens e em poucos momentos, entre elas, o que nos permitia ver a geografia dos lugares por onde voávamos. O “Douglas” foi saindo do chão e logo passamos a sobrevoar o mar de Piedade e depois fomos na reta de Alagoas.

Outro alumbramento: o pouso em Salvador para reabastecimento e almoço. O chão se aproximando e eu grudado na janela para não perder um lance. Um pequeno sopapo dos pneus do “Curtiss Comando” no solo, o taxiamento e a parada dos dois motores. Descemos a escadinha e logo aos primeiros momentos um flash. Só a partir daquele instante me senti artista de fato. Estávamos diante dos jornalistas. Passamos a ser gente importante.
Apresentações, abraços, novos amigos. A Bahia em peso para saudar o TAP. Uma enorme mesa com as bandeiras do Brasil e da Aerovias nos esperava. Um banquete. A primeira festa de glorificação da equipe do teatro pernambucano, que foi recebida por representantes do governo da Bahia, membros da classe teatral e a Imprensa.

Um sacrista de um garçom me ofereceu sopa e indagou-me se seria “quente” ou “fria”. Claro que preferi “quente”. Mas quando dei a primeira colherada logo percebi que havia caído numa “pegadinha”. Era pimenta só. Adelmar mandou trocar o prato e repreendeu o garçom. Ainda vi risos discretos. Meu primeiro contato com a Bahia foi apimentado!

Novamente no avião. Teríamos mais duas horas próximos das nuvens. Quando começamos a sobrevoar o interior do Rio de Janeiro, exatamente em cima de Campos dos Goitacazes, comecei a ver uns quadros verdes lá embaixo e fui perguntar ao Dr. Valdemar. Ele me explicou bem direitinho que eram campos cultivados e indicou, pelos nomes, alguns acidentes geográficos: rios, lagos e restingas. Uma aula.

O bravo bimotor chega, enfim, ao sobrevoo pela Baia de Guanabara e vai perdendo altura descendo em pleno mar – aquela situação estranha – até alcançar a pista do Aeroporto Santos Dumont. Muita emoção para quem voava pela primeira vez!

No saguão, muita gente partindo e chegando, pois vários aviões haviam descido e subiriam logo mais. Na pista vi um “Super Constelation” da Varig. Uma observação da criança que eu era: quatro motores! Pra que tantos, se nós chegamos até aqui com dois?

O Administrador do Grande Hotel OK, onde o grupo se hospedaria, se apresenta e anuncia que há vários carros de aluguel à nossa disposição. A partir daí me deslumbrei para sempre com o Rio de Janeiro, então Capital da República.

“Sangue Velho” no Teatro Regina: Valter, Carlos Eduardo e Reinaldo

O resto fica para o próximo ato.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RECIFE EXPORTAVA TEATRO

Cine-teatro Parque. Antes, o teatro-jardim, um dos poucos do Brasil

Na década de 1940 o Recife vivia uma época de grande efervescência teatral. A Televisão ainda não havia chegado aos nossos lares e a arte cênica se mantinha como extraordinário atrativo para as famílias de fino trato. Era chic frequentar um teatro.

Das lembranças de minha juventude recordo que funcionavam no Recife o Teatro Apolo, fundado em 1842, Teatro Santa Isabel, em 1850. Em 1915 surgiu um dos únicos teatros-jardim existentes no Brasil, o Parque, na Rua do Hospício. Funcionava também o Teatro Helvética, mais popular de todos, situado na Rua Imperatriz Tereza Cristina, fundado em 1923.

Depois apareceram outros: o Teatro de Emergência Almare, em março de 1950, construído por arrojada iniciativa do então radialista Alcides Teixeira, a fim de fazer seus programas de auditório. Situado na entrada da Av. Dantas Barreto, que ainda não estava totalmente pronta mas ocupava toda a sua largura, na esquina da Praça do Diário.

Fabricado com madeira era uma coisa estranha, provisória. Depois, a título precário, foi legalizado pela Prefeitura, para a exibição de programas radiofônicos de auditório, artes cênicas e servia para convenções de partidos políticos.

Alcides Teixeira, construtor do Teatro de Emergência Almare

Alcides Teixeira, que se tornara radialista famoso, pelas dificuldades de apresentar seu “Programa das Vovozinhas” para um grande público, resolver construir um teatro-auditório, armando um monstrengo que durante bom tempo atingiu suas finalidades.

Deixaria seu nome na História, além de ter sido eleito deputado estadual sob o slogan de Deputado-vovozinhas, dado à destinação de seu programa de Rádio, dedicado à terceira-idade, uma das grandes audiências de todas as manhãs.

O prédio que anos antes abrigou o Cine Atlântico do Pina, seria mais tarde reformado para funcionar como casa de espetáculos, tomando o nome de Teatro Barreto Jr. Nos dias atuais dispomos dos teatros Guararapes, Teatro Rio Mar, Teatro Caixa Cultural, Teatro Boa Vista-Salesiano, Nosso Teatro (do TAP) e o Teatro Joaquim Cardoso da UF-PE.

Não se pode deixar de citar que em Brejo da Madre de Deus, agreste pernambucano, foi construído, durante vários anos, o Teatro Nova Jerusalém. O maior, ao ar-livre, do mundo, fundado por Plínio Pacheco.

Plínio Pacheco, idealizador do maior teatro ao ar-livre do mundo

Ainda comentando sobre a década de 1940, os anos se passaram e atividade cultural do Recife foi tomando impulso, com a projeção do grupo cênico: Teatro de Amadores de Pernambuco, fundado em 1941, por iniciativa de Valdemar de Oliveira que perenizou sua turma de artistas, grande parte formada por pessoas de sua família.

Valdemar de Oliveira: médico, jornalista, ator e teatrólogo

Mas era necessário ensinar arte teatral. Meu pai sabia que isso seria o caminho para a descoberta de novos talentos e a continuidade da arte cênica entre nós.

Um clube suburbano – o Atlético Clube de Amadores – construiu, em 1948, com recursos próprios, um prédio anexo à sua sede, que viria a ser o primeiro teatro-escola do Recife, iniciativa de Arthur Lins dos Santos – meu pai – quando Diretor Cultural do clube. O interessante é que nos intervalos de encenações o prédio funcionava como escola pública municipal.

Ali formou-se uma escola de teatro, com rapazes e moças da localidade, todos estreantes, grupo que encenou várias peças, dentre elas “Nada”, de Ernani Fornari e “As árvores”, de Aristóteles Soares. Está última foi encenada em várias cidades de Pernambuco.

Estava na programação do GTA uma outra peça, cujo texto estava quase pronto, de autoria do meu saudoso velho, porém, não chegou a ser concluído tendo em vista uma das grandes cheias que se abateram sobre o Recife, levando os originais pelo Capibaribe abaixo e em muito danificando também a sede do clube.

Recorte da revista “O Cruzeiro”, dos Diários Associados, em 1952

Em 1952 a revista O Cruzeiro, a mais famosa da época, publicou uma reportagem assinada por José Alberto Gueiros sobre a excursão do Teatro de Amadores de Pernambuco, ao Rio de Janeiro, da qual participei quando tinha apenas 15 anos.

Sobre a apresentação de suas quatro peças encenadas no Teatro Regina, falarei na próxima crônica, salientando que nessa época Pernambuco exportava Teatro.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CISNE BRANCO, HINOS E AUTORES

Cisne Branco navio-escola da Marinha do Brasil

Sou insistente preservador dos Direitos Autorais. Não apenas porque me enquadro na categoria de autor e editor de livros, visto que estas estão regulamentadas nacionalmente sob a exigência de Fichas Catalográficas e ainda por uma Convenção Internacional que instituiu o ISBN – International Standard Book Number.

Capiba já me havia dito, certa feita, que pelo menos a publicação ou dicção dos nomes dos compositores, quando havia interpretações ou publicações, por exemplo, era algo sagrado.

Quando tentei publicar a foto de um PL de suas músicas num dos meus livros ele deu um sinal de atenção porque ela estava editada e eu precisaria de uma autorização do detentor dos direitos autorais.

Não apenas me incomodo com certa desatenção pela maneira vigente que se vem procedendo, sem se publicar as autorias das músicas.

Tanto as eruditas quanto as populares – sobretudo, dos hinos nacionais – os quais estão sendo divulgados neste momento histórico do País, constantemente, em vários canais de televisão, blogs e emissoras de rádio. Entretanto os produtores se esquecem de fazer referência aos nomes dos seus autores, dando até, mais relevância aos intérpretes.

O Hino Nacional Brasileiro gravado na voz de Fafá de Belém é algo esplêndido e sobre isso se vem dando justa relevância. Mas quem são seus autores?

Poucos sabem que tal obra é de autoria de Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada, praticamente desconhecidos das gerações atuais.

Nos meus tempos de escola primária constava na 4ª. capa de nossos cadernos pautados, o Hino Nacional, aparecendo seus autores. Depois, o costume foi tristemente abolido pelas editoras.

Aos 16 anos, quando me ioniciei no jornalismo, cheguei a fazer uma reportagem na “Folha da Manhã” – jornal do Dr. Agamenon Magalhães – encaminhando ao antigo Ministério da Educação e Cultura a ideia de se aproveitar as 2ª. e 3ª. capas daqueles nossos cadernos, com a publicação dos demais hinos nacionais. Papai redigiu e encaminhou a carta.

Muito desejei que dentre eles fosse impressa, também, a canção “Cisne Branco”, considerada oficialmente o Hino da Marinha do Brasil, na época magistralmente interpretada por Emilinha Borba, inclusive em filme da Atlântida Cinematográfica Brasileira.

Uma curiosidade. A parte instrumental da introdução do Hino Nacional Brasileiro possuía uma letra, que acabou excluída da versão oficial e foi atribuída a Américo de Moura

Esse hino é um dos símbolos nacionais de nosso país. Sua melodia foi composta por Francisco Manuel da Silva, em 1831 e a letra tem autoria de Joaquim Osório Duque Estrada, em 1909, escolhida através de concurso público.

Constatei em reportagem de televisão, vista há alguns meses, na qual foi estrela uma antiga professora – cujo nome infelizmente não guardei – que aos 90 anos cantou, a pedido do repórter, com facilidade, o Hino Nacional completo; ou seja, incluindo sua Introdução.

Aproveito como se fossem minhas, algumas palavras do acadêmico Rui Cavallin Pinto, para embasar estas notas.

“Para justificar, lembramos que o Hino Nacional brasileiro – como era interpretado em nosso tempo de escola – tinha mais letra do que o de hoje, porque se cantava também a Introdução.”

A respeito, vale lembrar momento incômodo em que o Presidente Bolsonaro, quando recentemente esteve em Pernambuco para u’a manifestação popular, em Santa Cruz do Capibaribe, pediu ao público para cantar a Introdução, como antigamente. E poucos sabiam.

Voltando ao comentário do acadêmico Rui Cavallin Pinto:

“Para os mais antigos, a melodia do nosso hino conservou até há pouco tempo sua tonalidade original de 1831, composto por Francisco Manoel da Silva e com letra de Ovídio Saraiva de Carvalho, a fim de servir à solenidade de abdicação de D. Pedro, com a denominação de: “Hino 7 de Abril”.

Entretanto, em 1841, teve nova versão que o transformou em “Hino da Coroação”, para os festejos da assunção ao trono, de D. Pedro II, agora com letra de João José Silva Rio.

Em 1889 veio a República, quando o Governo Provisório abriu concurso público para o símbolo do novo regime, quando, entre outras 40 composições, quem acabou classificado foi o belo hino de Leopoldo Miguez, figura que ganhou, post-mortem, nome de rua no Rio de Janeiro.

Independente desse resultado, a manifestação popular se inclinou a favor da conservação da melodia do antigo hino. e essa opinião chegou a ganhar tal intensidade conquistando a adesão do Marechal Deodoro da Fonseca, que, em 1890, o oficializou como o Hino Nacional brasileiro, enquanto o de Leopoldo Miguez passou a ser o “Hino da Proclamação da República”.

Voltando, porém, ao roteiro histórico, a esse tempo se viu que ele precisava de uma moldura vocal, um texto poético e patriótico que exaltasse os novos tempos da República, o que só aconteceu em 1922, quando o governo adotou a letra de autoria do poeta Joaquim Osório Duque Estrada, por decreto editado pelo Presidente Epitácio Pessoa.

Assim, como se vê, embora a versão original da música tenha sido preservada com pequenas correções de compasso, os versos foram sendo substituídos por outros, para solenizar importantes momentos históricos da vida nacional.

O próprio compositor Duque Estrada, posteriormente, fez diversas modificações. Ainda durante o Governo Vargas foram criadas comissões destinadas a adotar uma versão definitiva, para a letra.”

Enfim, dos versos cantados na minha infância, ainda se pode resgatar a parte suprimida, que corresponde à Introdução – que é instrumental, pedaço que não figurava no original de Joaquim Osório Duque Estrada.

“É difícil admitir que o hino nacional de um país – um dos seus símbolos mais representativos – possa ganhar “emenda oficial”, ser difundida nacionalmente durante uma geração inteira e depois suprimida, sem maiores explicações públicas.

Talvez tudo se deva ao tempo de Getúlio Vargas, quando o governo procurou dar forma definitiva à melodia e ao poema patriótico. A propósito, vale lembrar que na opinião do maestro Alberto Nepomuceno, todo hino deve ter letra e ser cantado por inteiro, até a introdução instrumental.”

Cabe-me rever um fato interessante quando alguns militares da PM de Santa Cruz do Capibaribe resolveram, informalmente, e sem acompanhamento de banda, cantar o Hino Nacional na versão oficial em homenagem ao Presidente da República, momento em que foi acompanhado pela multidão.

Jair Bolsonaro, então, aproveitou para pedir que eles cantassem como era antigamente, ou seja, com a Introdução, o que se tornou um espetáculo ainda mais vibrante. Isto porque quem foi do Exército costuma cantar a versão integral do hino; ou seja, com a Introdução cantada.

Por estes dias tenho visto magníficas apresentações de hinos patrióticos principalmente a linda “Canção do Exército Brasileiro,” deixando-se de citar o nome dos seus autores, o letrista Ten Cel Alberto Augusto Martins e a partitura musical de Tenório de Magalhães.

Falar dos dobrados brasileiros é repaginar o passado, o tempo de minha juventude, quando gravei na lembrança definitivamente a interpretação de Emilinha Borba – A Favorita da Marinha” – cantando: “Cisne Branco”.

Canção reconhecida como o Hino da Marinha brasileira, que teve letra de autoria de Benedito Xavier de Macedo e música de Antonino Manuel do Espírito Santo, ambos da Marinha de Guerra do Brasil.

Por isso, fico a lamentar quando surgem músicas, comentários ou vídeos, notadamente nossos históricos dobrados, que mesmo nas escolas atuais, quando raramente acontece interpretá-los, não são citados seus criadores. Está na hora e se rever tal procedimento!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MACACO-SECO

Macaco-seco, apelido de Florisvaldo de Melo Rego

Em junho de 1986 publiquei um livro sobre a História do Banco do Brasil em Pernambuco, no qual fiz comentários sobre o Sistema Bancário que funcionava em nosso Estado, onde constaram comentários sobre todos os Bancos que se estabeleceram na cidade do Recife, naquela década, ampliando a matéria com notas a partir da instalação dos primeiros estabelecimentos bancários em nossa cidade.

A História registra, através da pena de Flávio Guerra, eminente historiador de Pernambuco, que em 1816, a Carta Régia de 16 de fevereiro, veio permitir ao Banco Real do Brasil – a primeira empresa do gênero no País – a abertura e uma Caixa de Descontos que depois passou a ser Caixa-filial em Pernambuco.

Em 1824 instalou-se na sede da Associação Comercial, no atual Marco Zero, uma Caixa Econômica, destinada a empréstimos e depósitos. O historiador Francisco Augusto Pereira da Costa comentou na sua coleção – “Anais Pernambucanos” – que na mesma época se instalou no Recife a “Companhia de Olinda”, para operar com desconto de Letras e Bilhetes de Alfândega. Em 1851 criou-se o Banco de Pernambuco, de fato o primeiro sob a denominação de Banco.

O êxito do meu livro – graças ao impulso do Diário de Pernambuco, que publicou uma página inteira em seu Caderno Viver – foi de tal medida que editei três edições. No ano seguinte à sua publicação, a Direção Geral do Banco do Brasil recebeu solicitação da Library of Congress Office Brazil – American Consulate General, informando que a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos tinha grande interesse na publicação.

E completava: “Apreciaríamos receber as obras que porventura tenham sido editadas sobre o mesmo tema, a fim de encaminhá-las à sede da Biblioteca, em Washington, D.C. – Lygia Maria Ballantyne – Fiel Director.”

O Autor havia imaginado um trabalho amplo sobre os Bancos de Pernambuco, sobre o qual se debruçou durante quase dois anos, sem, porém, imaginar que um tema restrito ao registro de tais instituições viesse a ter tão significativa repercussão, tudo graças ao cuidado com os registros da Ficha Catalográfica e do ISBN – International Standard Book Number, iniciativas que sempre recomendo a quem deseja publicar livros, pois torna as obras internacionalmente conhecidas.

Aproveitei, o referido compêndio, para fazer uma abordagem sociológica sobre a Instituição onde trabalhei até me aposentar, com referências especiais aos seus funcionários, incluindo minibiografias de alguns, que no exercício de outras atividades se sobressaíram na vida de nossa cidade. Dei certo relevo à parte pitoresca de nossa intimidade como colegas, durante os momentos de folga.

Longe da azáfama do expediente, sempre houve no seio do funcionalismo, alegria, camaradagem e bom humor, o que nos tornou uma unidade dinâmica. Colegas muito espirituosos “batizavam” os recém-empossados logo à sua chegada, havendo até uma simbólica “Comissão dos Apelidos”.

O sociólogo Mauro Mota, um dos acadêmicos do Recife, publicou interessante relação de apelidos – “Barão de Chocolate & Cia.” – onde enfoca a primeira publicação do gênero: “Alcunhas Famosas de Pernambuco”, de Júlio Pires Ferreira, editada pelo Anuário Pernambucano, de 1903.

Os apelidos foram as páginas que esquentaram a matéria do meu livro que foi reimpresso três vezes. Ainda hoje, decorrido mais de trinta anos, ainda recebo comentários sobre esta parte em que nossos nomes foram substituídos por apelidos que se notabilizaram. E assim, volto ao assunto apenas citando uma historieta a respeito.

MACACO-SECO – Ilustre e muito respeitado chefe da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial, ao aposentar-se, foi homenageado no próprio gabinete. Durante o agradecimento pela generosidade de seus colegas à sua despedida, fez pequeno discurso.

Florisvaldo de Melo Rego, porém, deu a bobeira de anunciar sua tristeza por não haver sido “agraciado” com um apelido, embora soubesse que era carinhosamente conhecido por: “Melo Rego”.

Os que estavam ao seu redor caíram na risada porque somente ele desconhecia que fora, há anos, “batizado” com o infernizante apelido de “Macaco-seco”, pois, era portador de corpo esguio e fisionomia cujas peles da face eram um pouco encolhidas, bem parecia com um símio ressecado.

Certo dia, para resolver galho grosso num contrato de financiamento, para o qual precisava de detalhamentos do parecer a fim de colocar seu jamegão, o saudoso Gerente da Agência Centro, Saul Ildefonso de Azevedo – que já adotara, na intimidade, uns poucos apelidos, para se referir a algum colega – me chamou e disse, sem perceber a “periculosidade” da frase:

– Por favor, Carlos Eduardo, peça a “Macaco-seco” para dar um “pulinho” até aqui.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RICA DESCENDÊNCIA

Bisnetos americanos: Isabela Telga e Set

Deixo aqui, de certo modo, uma homenagem às minhas descendências. Principalmente aos meus onze bisnetos, o que não é trunfo fácil para qualquer velhote ostentar.

Ser bisavô de tantas criaturinhas me estufa o peito. A primeira – Isabela Telga – nascida na América do Norte, filha de Patrícia e James. E acho que fechei a rosca com a chegada da caçula – Luana – pernambucana do Recife, ainda com dois anos.

Quando aos 21 anos casei-me, nem poderia imaginar que viesse a ser tão numerosa a descendência. E para descrever melhor, uso os numerais: 4 filhos, 12 netos e 11 bisnetos, além dos quatro filhos. São, portanto, 27 criaturas que estão levando meu sobrenome Santos pelo mundo afora.
Entre a vidinha deles e o que observei na infância dos meus filhos, há grandes diferenças de educação, pois os lugares, os modos e os tempos onde foram criados apresentam características bem diversas.

Os tempos deram um pulo enorme desde que minha descendência se foi formando, a partir do ano de 1960, quando nasceu meu primogênito – Carlos Eduardo de Almeida Santos – até a chegada de Luana, uma das bisnetas, que veio nos encantar a partir de 2019; ou seja, decorreram aproximadamente 60 anos.

Luana, a bisneta caçula brasileira

O que lamento, nessa decorrência, é que os pequeninos de hoje estão sendo criados sem a liberdade que meus primeiros filhos usufruíram. Podiam brincar nas ruas sem perigos.

Os brinquedos das crianças de hoje são comprados em lojas e visam prende-los em apartamentos, tornando-se as escolas o único refúgio para sua convivência com outras crianças. Vê-se, com certa tristeza que vivem “pregados” às telinhas dos aparelhos eletrônicos que os viciam inexoravelmente.

Tenho que aceitar os rigores que o progresso lhes está impondo. Dos bisnetos, a primogênita, Isabela Telga, se prepara para entrar em período de faculdade, nos Estados Unidos, pois já conta quase 18 anos. E depois que casar-se, certamente iniciar-se-á uma outra geração.

O que me orgulha é possuir descendência tão rica. Afinal, só bisnetos, tenho a honra de informar, são onze. Os netos são doze e filhos quatro.

E isto não é trunfo para qualquer velhote não!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

HISTÓRIAS PITORESCAS DA IMPRENSA

Um dos mais bem-feitos periódicos humorísticos do Recife. Circulou até 20.10.1909

Fernando Lobo, jornalista, escritor e produtor de televisão, (por sinal pai do cantor Edu Lobo) pessoa finíssima que conheci em 1984, por apresentação de Capiba, me disse uma frase que para mim se tornou clássica:

“Recordar não é querer que o tempo volte. É mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações”.

Por isso entrego aos meus leitores títulos de jornais que circularam no meu Pernambuco, para as suas comparações entre o Ontem e o Hoje.

Conheci um documentarista de grande valor: Luiz do Nascimento, uma figura que para mim se notabilizou por um trabalho que levou anos para ser concluído.

Durante tarefas comuns que exercemos no Centro de Estudos de História Municipal, como colaboradores, previ o quão seria útil seu trabalho tão abnegado: “A História da Imprensa de Pernambuco”, como o foram igualmente outros, incluindo-se Francisco Augusto Pereira da Costa e Nelson Saldanha.

Luiz do Nascimento deixou uma obra pouco comum, na qual reuniu títulos de periódicos que circularam em Pernambuco, entre os anos de 1821a1954.

Agora, dando um giro pela obra do saudoso jornalista fui encontrar verbetes interessantíssimos no sumário do seu trabalho: “Índice Alfabético dos Títulos de Periódicos que Circularam em Pernambuco”.

Aproveito para galhofar, mas falo sério quando faço comentários a respeito de comparações das épocas de ontem, com as de hoje. Por exemplo: houve jornais humorísticos que falaram sobre coisas muito sérias. Vejamos.

O jornal “Lanterna Mágica”, em sua edição nº 223, de 20 de maio de 1988, em que pese ocupar-se de temas pitorescos, comemora festivamente a libertação da escravatura.

Ora vejam! Um órgão humorístico abre uma edição inteira para comemorar o fato mais significativo daqueles anos.

Publicou em sua primeira página excelente retrato de D. Izabel, Princesa Imperial Regente do Brasil, com versos assinados por Carneiro Vilela.

D. Izabel, Princesa Regente

O jornal foi ainda mais além e fugindo de seu escopo. descreve a grande movimento de pessoas nas ruas do Recife, em 15 de maio, a entrega das bandeiras das associações abolicionistas ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, após a passeata das nações africanas, fatos que transformaram um jornal humorístico em algo muito sério.

Anos mais tarde falaria o artista Chico Anísio (Francisco Anisio de Paula Oliveira Filho): “As críticas mais sérias, quando ditas com boa dose de humor inteligente, atingem às finalidades com maior força”. E perduram.

Embora toda aquela edição do “Lanterna Mágica” haja se dedicado às festividades comemorativas do fim da escravatura, jamais perdeu sua essência de humor.

Vejamos os títulos de jornais, coletados por Luiz do Nascimento e por mim comentados.

ABC – Órgão Literário, Noticioso e Independente. Garanhuns. Não poderia haver título mais expressivo para tratar de literatura.

Abelha – Jornal do município de Vitória de Santo Antão, cidade destaque na produção de apicultura.

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CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PREFIXOS DE RÁDIO

Em 1965: Romildo, Edson de Almeida, Almy e Isaltino

O programa de Rádio mais conhecido nos anos 50 foi o “Repórter Esso”, que cobrindo boa parte do Brasil dava prestígio aos prefixos das emissoras que o transmitiram por mais de 27 anos.

Quando eu tinha uns 10 anos, (1946), era seduzido pelos programas da PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco. O único meio de comunicação sonora de massa que havia no Recife. Por isso me empolgava.

Era um alumbramento ouvir aquelas vozes límpidas e sem erros de gramática, nos noticiários, nas radionovelas, nas crônicas e anunciando as músicas.

Naquele tempo se destacavam em Pernambuco as vozes de José Renato, Abílio de Castro, Aluízio Pimentel e Fernando Castelão.

Se acaso sintonizássemos as Ondas Curtas, a fim de localizar as emissoras do exterior, era maior a vibração, porque se ouvia os locutores brasileiros que atuavam no exterior, dentre eles Aymberê e Luiz Jatobá, ambos da BBC de Londres.

Passei a ter o desejo de ser locutor de Rádio. Vivia anunciando os programas da época como se ao microfone estivesse. Parecia um “peãozinho doido” andando por dentro de casa, com a boca próxima a uma lata de leite, para ter a impressão que era um microfone.

Várias vezes mamãe me ouviu falando no banheiro, local em que havia boa ressonância: “E agora vamos ouvir a “Crônica do Meio Dia”, escrita por Xavier Maranhão, na voz de Abílio de Castro.”

Em 1948 meus tios Moacir e Floriza, permitiam que eu ligasse o enorme rádio “Murphy”, na casa deles, próxima à nossa, deixando-o sintonizado nas Ondas Médias e Curtas, através das quais se localizavam as emissoras do Rio de Janeiro, Meca do Rádio, na época.

O que me empolgava muito era a forma como os locutores ditavam os prefixos.

Outra de minhas doidices infantis, exercitada para ser um locutor carioca: “Rádio Nacional, Rio de Janeiro, Brasil, falando diretamente de seus estúdios, no Edf. “A Noite. E agora passamos a apresentar o Programa César Ladeira.”

E do lado de cá, no Recife, utilizando o rádio de nossa casa, um “Philco”, eu vibrava com o único prefixo de radio-broadcasting que se dispunha: “PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco, Brasil, falando diretamente do Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto.” Era um barato!…

Amadurecendo, entendi que para ser um locutor primoroso era preciso dominar bem o vernáculo, pronunciar com perfeição todos os “S” e “R”, além de ter a arcada dentária perfeita. Mas eu era bastante dentuço, além disso, fanhoso. Adeus locução!

Por imposição do destino me dediquei à escrita em jornais, porém nunca deixei de admirar a locução dos grandes noticiaristas que passaram pelo Rádio pernambucano.

Lembro-me bem das programações esportivas onde se apresentavam dois locutores ao mesmo tempo, falando da Cabine de Imprensa do Sport Clube do Recife, criada sob a inspiração do Diretor Pedro Bezerra Cavalcanti, a primeira do Norte-Nordeste.

Fernando Ramos e Fernando Castelão. Cada um transmitia um lado no jogo. Em campo, Jota Soares e Haroldo Praça faziam os comentários técnicos.

Era interessantíssima a coordenação entre eles. Castelão estava falando ao microfone e quando a bola ultrapassava a linha divisória do campo, definindo o local das duas equipes, quem tomava a palavra era Fernando Ramos. Um espetáculo de coordenação!

Recordo, para conhecimento das gerações atuais, os grandes locutores, apresentadores e atores das novelas do nosso Rádio: Abílio de Castro, Geraldo Liberal, Dantas de Mesquita, Fernando Castelão, Fernando Ramos, José Renato, Barbosa Filho, Aldemar Paiva, Ziul Matos, Samir Habou Hana, Paulo Duarte, Paulo Fernando Távora, Tavares Maciel, Geraldo Freyre e Edson de Almeida, este, que durante 12 anos foi o responsável pela apresentação do “Repórter Esso”, o noticioso de maior audiência em todo o País.

Com o advento da Televisão no Recife, no início dos anos 60, parte da força e dos talentos do rádio se dividiu ou migrou para esse novo e poderoso canal de comunicação. Em consequência, os grandes apresentadores do Rádio foram saindo para a Televisão, dentre eles Fernando Castelão que batia todos os ibopes com o seu “Você Faz o Show”, no horário nobre dos domingos.

A partir dos anos 80 as emissoras do Recife passaram oferecer mais jornalismo, esportes e prestação de serviços, ficando com as Televisões os espetáculos de auditório.

Pouco antes, no final dos anos 70, apareceram as FM’s, e assim as emissoras de broadcasting tiveram que ser totalmente reformuladas.

Não realizei meu desejo de criança que seria me tornar locutor de Rádio, porém, aprendi a escrever notícias breves e hoje administro um grupo de comunicação, via WhatsApp, que denominei “Correspondentes Unidos”, interligando pessoas de vários lugares do País e até do estrangeiro.

Recordo proveitoso estágio de Jornalismo na PRL-6 – Rádio Jornal do Commercio, onde aprendi a escrever no padrão exclusivo exigido para o “Repórter Esso”, o mais famoso noticiário de todos aqueles tempos no Brasil. Meus orientadores foram Isaltino Bezerra e Romildo Cavalcanti, aqui homenageados na foto principal destas notas.

Assim os prefixos de rádiojornalismo que eu vivia falando na casa de meus pais, feito um peãozinho doido, tiveram grande influência em minha trajetória através das notícias escritas.

Na foto acima, os locutores Fernando Castelão, Tavares Maciel, Ziul Matos e Abílio de Castro e os artistas: Ary Santa Cruz, Rildo Uchoa Cavalcanti, Oswaldo Silva, Hélio Peixoto, Dorinha Peixoto e Mercedes del Prado, todos do “cast” da PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco. Foto no “Palácio do Rádio”, em 1946.