CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

HENRIQUE PONGETTI – MARCA INDELÉVEL

Meu tio Paulo Afonso Lins dos Santos residia no bairro do Prado, no Recife, e sendo intelectual, atraia pessoas cultas para boas conversas no alpendre de sua casa, aos sábados.

Num desses encontros, lá pelos meses de 1952, quando eu tinha 16 anos, presenteou-me com a 1ª. edição da Revista “Manchete, de Adolpho Bloch. Era uma publicação que aparecia para concorrer com “O Cruzeiro”, de Assis Chateaubriand, publicação que logo se tornou a 2ª. do País.

Do plantel da Redação de Manchete estavam os intelectuais: Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Henrique Pongetti, Fernando Sabino, David Nasser, Nelson Rodrigues, entre outros.

O estilo de Pongetti logo me empolgou e, por isso, passei a ser leitor permanente de “Manchete”, sobremodo porque tio Paulo me emprestava os volumes lidos, pois estava formando uma coleção daquelas revistas.

Não tive o privilégio de conhecer o autor, mas segui seu estilo de crônicas, que comentavam temas da cidade do Rio de Janeiro. O cronista chamava a atenção por seus notáveis títulos:

“O rio que mora no mar.”

Não poderia descrever melhor sobre uma cidade que morava à beira mar. E sabendo-se que o próprio mar que lhe cerca à a extensão de sua área territorial; logo, também é o mar. Então muito própria foi a frase: O rio que mora no mar.

Em uma descrição em que enfocava determinado assunto saiu com esta:

“O Jogo do Bicho se enraizou na alma popular.”

Nem precisa comentar, porque aí estão as “Telecenas”, o “Baú da Felicidade” e vários outros sorteios que fazemos por via eletrônica.

Antes de ingressar nas páginas da Manchete, Pongetti tinha uma coluna permanente no jornal “O Globo”: “Show da Cidade”. Numa entrevista afirmou que o Rio de Janeiro e sua vida mundana eram verdadeiramente um show.

Assim, passei a estudar cada crônica e botar minha imaginação para funcionar, procurando títulos expressivos a fim de atrair o leitor; e lá adiante, no texto, focar uma frase qualquer capaz de lhe despertar atenção.

Notas do pesquisador Bruno Leal de Carvalhio informam que Henrique Feltrini Pongetti nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 18 de janeiro de 1898. Intelectual completo, foi dramaturgo, cronista, roteirista de Cinema e jornalista. Escreveu a peça teatral “Baile de Máscaras“, juntamente com o amigo escritor e jornalista Luis Martins.

Recebeu da Academia Brasileira de Letras o título de: “Príncipe dos Cronistas Brasileiros”. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 81 anos, em 09 de setembro de 1979.

Pongetti deixou para mim – como leitor anônimo – uma herança: a marca indelével de ter aprendido a escrever me aproximando do seu notável estilo de cronicar.

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MALDITA TAMANCADA

Rio Capibaribe. Foto de Tarcizo Leite de Vasconcelos

Na foto vemos um momento raro em que o Rio Capibaribe se encontra com as águas do mar e interrompe sua trajetória, tornando-se, por algum tempo com aspecto de um lago; completamente sem movimentação.

A imagem apresenta o rio dividindo os bairros da Torre com as Graças.

Poucas vezes é possível se observar um momento como esse, mas o artista da fotografia, que geralmente tem olhos de águia, sabe clicar no exato momento do encontro das águas, obtendo um flagrante de raro deslumbramento artístico.

O Recife tem paisagens que somente os artistas sabem apreciar e os fotógrafos – como Tarcizo Leite de Vasconcelos – estão valorizando, notadamente aquelas imagens que dão ênfase a locais de uma cidade que se amplia para o alto, preservando seu principal rio e suas margens.

Não posso apreciar esse espelho d’água sem voltar o pensamento para a infância, tempo em que morei às margens desse mesmo rio, do lado de Afogados. Ali era a minha praia.

Já me referi aos tempos em que nadava de Afogados para as terras do inglês James Cook, atravessando o rio de u’a margem até a outra, região atualmente conhecida como Coque.

Mas esses treinos de natação me custaram caro porque, tendo apenas 12 anos, levei muito castigo, sob a ação da palmatória. E, num certo dia, por haver escondido dias antes o tal objeto para castigos mais severos que mamãe aplicava, ela ficou tão raivosa que pegou um tamanco e me aplicou uma inesperada sova.

De nada adiantou eu haver escondido a palmatória!

Virei gente e aprendi a respeitá-la sem infringir seus métodos. Jamais esquecerei, contudo, aquela maldita “tamancada”.

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PROFESSOR PROCESSADO?

Juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior

Peço licença aos meus generosos leitores para sair um pouco das finalidades de nossas crônicas, a fim de aplaudir a atitude de um Juiz, que transformou em verdadeiro símbolo a decisão sobre um processo sofrido por um professor, por ele julgado, porque se refere a uma história real e a divulgação serve como exemplo.

Infelizmente não tenho referência sobre a nota jornalística que ora transcrevo, todavia, se dela tomar conhecimento, terei o prazer de publicar. Os termos do magistrado estão publicados com exatidão e entre aspas.

ALUNO QUE PROCESSOU PROFESSOR POR TER TOMADO CELULAR EM SALA DE AULA PERDE CAUSA NA JUSTICA!

O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, interior do Sergipe, julgou improcedente um pedido de indenização que um aluno pleiteava contra o professor que tomou seu celular em sala de aula.

De acordo com os autos, o educador recolheu o celular do aluno, pois este estava ouvindo música utilizando fones de ouvido durante a aula.

O estudante foi representado por sua mãe, que pleiteou Reparação por Danos Morais, diante do seguinte argumento: “Sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional sofrido por seu filho”.

Na negativa, o juiz afirmou:

“O professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para encaminhá-lo às luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe”.

O magistrado se solidarizou com o professor e escreveu: “Ensinar é um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, entretanto, parece um carma”.

Dr. Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno descumpriu uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de celulares durante o horário de aula, além de desobedecer, reiteradamente, a orientação do professor.

Ainda considerou que não houve abalo moral, já que o estudante não utiliza o celular para trabalhar, estudar ou exercer qualquer outra atividade edificante.

E declarou:

“Julgar procedente esta demanda, é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a Educação brasileira”.

Por fim, Dr. Eliezer ainda faz uma homenagem ao professor, acrescentando que esse profissional é o mais autêntico dos heróis nacionais:

“No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo, que é cada uma das doutrinas que concordam na determinação do prazer como o “bem supremo” e inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro Herói Nacional.

O professor enfrenta todas as intempéries para exercer seu ‘dever obrigatório como indivíduo, com altivez de caráter e senso sacerdotal.”

Dr. Eliezer Siqueira de Sousa Júnior, é natural de Vitória, ES.. Atualmente é juiz de direito do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. Já exerceu as funções de oficial de justiça, advogado, assessor parlamentar e defensor público no Espirito Santo.

Atuou como ouvidor da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Espírito Santo. Foi professor universitário, aprovado em segundo lugar no concurso público da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), para o cargo de professor.

O fato tem a máxima significação moral nos dias atuais porque ilumina caminhos, divulga a atitude de um magistrado e aponta para a defesa dos mestres, fortalecendo suas atitudes dentro das salas de aula.

Acima de tudo porque professores não podem ser processados quando defendem as normas dos Conselhos Municipais de Educação.

Professor processado? Jamais!…

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APOSENTADORIA E MALANDRARIA

O cantor Boaventura Bonfim, Camila e Cibele

Quando trabalhamos em certas empresas, onde temos o privilégio de permanecer por longos anos, sempre nos vem à mente o dia da aposentadoria.

Éramos jovens trabalhadores e já ouvíamos os mais antigos falando constantemente nesse dia. A data sempre surgia à nossa mente como se fôra um zumbido nos ouvidos, pois se tratava, na verdade, de um patamar triunfal. O pódio da profissão!

Eis, porém, que nem sempre nos preparamos de verdade para a aposentadoria, embora os principais pensamentos sejam realizar várias opções: ter tempo para viajar, montar um negócio ou mesmo não fazer plano algum: “Deixar a vida nos levar”, como diz o Zeca Pagodinho.

Os anos foram passando e muitos de nós que permaneceram em funções importantes – como os magistrados, por exemplo – tiveram seu dia de triunfar; ou seja, chegar à aposentadoria plenamente saudáveis.

Primeiramente alguns profissionais que conheço me disseram que logo nos primeiros dias de malandreiragem se sentiram aliviados pois se livraram dos fardos da responsabilidade diária.

Mas, aí vem aquela coisa de pensar que perdendo a “patente” não se sente mais nada. Um choque, portanto, será a readaptação a um novo estilo de vida. E esse novo anseio chega na sequência dos dias da “liberdade”.

Livre da obrigação de tantos anos começa-se o tiranete da busca de alguma coisa para fazer, pois não é fácil um aposentado – por exemplo: um Juiz de Direito, um oficial de Marinha, arranjar uma atividade rendosa e que para exercê-la se exija apenas meio expediente.

E ficam bom tempo a pensar: “Ser escravo depois de uma carreira tão expressiva, Deus me livre! ”

Um caso típico apresento como exemplo. Tenho um amigo correspondente, ilustre cidadão residente em Fortaleza, com quem quase todos os dias me comunico pela internet, Dr. Boaventura Bonfim, atento leitor desta gazeta do famoso Luiz Berto.

Boaventura tornou-se um caso raro de adaptação a outra atividade, mesmo que não remunerada, mas representa algo que lhe dá gosto incomum: a arte de cantar e de pronunciar conferências sobre vários temas filosóficos e de autoajuda.

Notei, por algumas despretensiosas remessas de suas artes, que ele está desenvolvendo intensa atividades, depois de aposentado. Embora não sendo rendosas, atendem aos seus anseios juvenis mais significativos, uma delas o desejo de um dia vir a ser cantor, independentemente de ter sido identificado como um John Lennon, na juventude.

Equipou-se, para ser, no caso do canto e das palestras, um Influenciador. Tanto que adquiriu microfone e demais apetrechos de cena, e tem preparado bons programas, todos cheios de graça, pois se apresenta, às vezes, com as encantadoras filhas Camila e Cibele.

Aprendeu a fazer a mágica de poder cantar com “orquestras invisíveis”, cujos sons saem de pequena geringonça que coloca discretamente em cima da mesa do estúdio, de onde saem os sons instrumentais, mostrando que seus acompanhantes são de especial categoria. E exibe o macete para seu público.

Já pensou, caro leitor, você cantando no chuveiro sob acompanhamento da Orquestra Cassino de Sevilha, apenas por conta de minúsculo aparelhinho, que funciona como Play Back?

Dá gosto apreciar-se um ex-Desembargador dominar os sons mais emocionantes de inesquecíveis músicas, interpretadas em espanhol; as belas canções dos saudosos Pero Vargas, Lucho Gatica ou Carlos Gardel.

Todavia, tais programas, mesmo sob a égide do amadorismo, merecem se expandir pelas ondas hertzianas, mundo afora, para gaudio de gentes das “Oropa, França e Bahia”, como nos disse o amado Jorge.

Um sujeito de sorte, Dr. Boaventura Bonfim, porque está conseguindo desenvolver, principalmente, a atividade artística que ficou encastoada em sua alma durante tantos anos de intenso trabalho com as leis!

O cantor e sua esposa Edvanda

Agora solta no ar seu canto. Não pode imaginar até onde irá chegar sua voz. Não solicita nem ao menos um magro Pix por suas apresentações.

Recebe sim, uma paga especial: a remuneração em moeda cujo valor nem é capaz de avaliar: a realização de seus sonhos, aqueles inesquecíveis momentos da época em que se apresentava em Crateús, sua cidade natal, como um dos participantes do conjunto “Os Diamantes”.

Como seguidor do futuro “Canal Boaventura”, terei a iniciativa de começar a divulgar suas atividades, para amigos pernambucanos que residem na América do Norte. Seu canto vai ser ouvido por pessoas em Las Vegas, Phoenix, Dallas, San Francisco, Utah e vários lugares do Brasil onde as imagens deste jornal chegam.

O que mais desejo é vê-lo vitorioso nessa atividade pós-aposentadoria. Afinal não é moleza o cidadão se aposentar e ficar a malandrear. Que se torne um cantor de fama é o que peço a Deus, para que jamais venha a ser chamado de malandreante.

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OS ROMANCES HISTÓRICOS

Luiz Berto, romancista e editor do JBF

Confesso que nunca fui habituado à leitura de romances. Embora reconheça ser o ramo da literatura que mais exige competência do artista das letras, pois, cria a história detalhando em diálogos atraentes as passagens de cada ato, com muitos fatos inspirados na História real. Acima de tudo desperta no leitor o desejo de se aprofundar em acontecimentos ali sugeridos pela mente do criador.

No romance-histórico: “Memorial do Mundo Novo”, de autoria de Luiz Berto e publicado pela Editora Bagaço, fui despertado pelo desejo de me aprofundar na História do Descobrimento do Brasil, como o fiz no romance: “A Vida em Flor de Dona Beja”, onde com muita classe, Dr. Agripa Ulysses de Vasconcelos transmitiu aos leitores partes importantes da História de Minas Gerais.

Outro livro, quase romanceado, editado em 1625, que me conduziu também ao desejo de me enfronhar mais em nossa História, foi “Diário de um Soldado”, escrito por Ambrósio Richshofer, marinheiro da esquadra da Cia. das Índias Ocidentais, empresa que invadiu o Brasil e aqui permaneceu durante cerca de 20 anos, época em que se realizaram lutas e aconteceram fatos da maior significação na instituição do Exército brasileiro, fato conhecido historicamente como: “A Restauração Pernambucana.”

No livro de Richshofer não fiquei sabendo apenas de ocorrências durante a longa viagem dos invasores, que se deslocaram dos Países Baixos até Pau Amarelo, mas bem descreveu ele o clima de terror que imperava em alguns atos de barbarismos nos dias daquela guerra que culminou com a expulsão dos holandeses. Naquelas folhas observei que o autor crivou de verdades as ocorrências, mas deve ter, também, romanceado algumas cenas, para atrair os leitores.

Outro romance-histórico que se fez famoso a partir de 2004, foi: “Dona Anna Paes”, da escritora Thelma Bittencourt de Vasconcelos, focalizando momentos daquela que foi esposa do holandês Charles de Tourlon, comentando verdades a partir da recepção oferecida a Nassau, logo à sua chegada, na Rua do Bode. A romancista manteve o leitor sob forte atração por ter sabido reunir fatos históricos com uma ficção envolvente, sobremodo descrevendo casos de amor que de fato ocorreram.

Geralmente o romancista tem o mérito de ativar o interesse pela história. Eu mesmo, que já li muitos livros sobre o tema, entretanto, somente no romance de Luiz Berto, fui despertado para o personagem Diogo de Paiva, ali citado nada menos que 63 vezes. Tal trabalho me despertou interesse em mergulhar nos arquivos da Torre do Tombo, em Portugal, para verificar outras verdades daqueles tempos de conquistas.

O romance-histórico “Memorial do Mundo Novo”, cujas 293 páginas acabei de ler e sublinhar, empolga, acima de tudo, pelo estilo escorreito da narrativa; sobremodo, porque desperta a necessidade de se ampliar o conhecimento, de tão importante tema, nas escolas fundamentais, trazendo, com certa amplitude, tais fatos históricos.

Luiz Berto foi mais longe: focalizou, nas primeiras 16 páginas de seu romance, o descobridor do Brasil, Vicente Iañez Pinzon, herói que até então permanecia desconhecido, pois sempre se ensinou nas escolas, que o descobridor fora Pedro Álvares Cabral.

Temos assim a certeza de que os romancistas sabem despertar o interesse pela História verdadeira através dos caminhos da ficção.

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SÉRGIO LOUREIRO – O AMIGO Nº 1

Dos 32 livros que já escrevi, notadamente os biográficos, 5 não foram publicados, por motivos vários. Via de regra porque os clientes contratantes, nas épocas, apresentaram respeitáveis razões. Assim, meus personagens ficaram no arquivo.

Todavia, chegando a uma idade de vida avançada, resolvi produzi-los, mesmo que em pequenas tiragens e de acordo com minhas disponibilidades, porque os personagens ali enfocados não poderiam permanecer no esquecimento.

Com tal iniciativa desejo apenas entregá-los a algumas bibliotecas e à FUNDAJ – Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, que será a guardiã de meu acervo.

Mas, antes mesmo que as pequenas tiragens ocorram resolvi publicar, em crônicas, algumas partes de cada uma dessas biografias, por se tratar de temas ligados a personalidades importantes da vida do Recife e de minha própria vida, fatos que não devem ficar engavetados.

Esta crônica, porém, é outro caso, porque o livro ainda está em elaboração.

Não é fácil resumir em crônica um livro, mesmo correndo o risco de estar publicando apenas um breve currículo de cada um. Mas o que me importa é não deixá-los esquecidos.

Quem é esse meu Amigo Nº 1 e qual a razão do título?

Bem, ao longo dos anos vividos, a gente vai organizando uma espécie de ranking cujos nomes vão se sucedendo no pódio à medida em que muitos viajam para o Grande Oriente.

Nos anos atuais Sérgio Dias Cesar Loureiro está na primeiríssima posição e apresento provas com robustas razões.

Primeiramente porque se trata de amizade firmada há mais de 60 anos, pois fomos funcionários do Banco do Brasil e nos aproximou ainda mais o fato de haver sido Jarbas Cesar Loureiro – seu pai – meu chefe na CACEX.

Sérgio Loureiro galgou degraus na vida com muito estudo e trabalho: diplomou-se em Administração de Empresas e Engenharia Civil; concursou-se e ingressou no Banco do Brasil, onde permaneceu até aposentar-se.

Fundou a empresa Construtora Ferlou Ltda., com seu colega José Elpídio Ferraz. Anos depois comprou a Planta – Planejamento Técnico de Ajardinamento Ltda., onde trabalhou até aposentar-se definitivamente.

A trajetória foi intensa. Aos 28 anos assumiu a presidência da Associação Atlética Banco do Brasil, ocupando o cargo durante, alternadamente, 16 anos, 12 dos quais estive com ele, como diretor, em época que criamos a Revista AABB e o Memorial, publicamos o livro do Cinquentenário e a biografia de um dos fundadores da associação, o compositor Capiba.

A partir desse convívio social, ideias afins e tantas lutas eleitorais, ficamos amigos-irmãos.

Das realizações como Presidente, além das iniciativas esportivas, sociais e culturais, fez algo inédito: criou um grupo de teatro com a “prata da casa” e realizou vários espetáculos na própria sede e no Teatro do Parque, quando o grupo se tornou profissional.

Poderá se vangloriar de haver adquirido, para o Clube, um imóvel, no Sítio dos Moreira, que ampliou o conforto dos associados, permitindo a construção de amplo estacionamento para veículos.

Com recursos da Associação construiu um Restaurante, um espaço para festas menores: a Cabana, o Ginásio de Esportes, uma biblioteca infantil e um prédio de três pavimentos: o Centro Esportivo, que tem seu nome.

O “Capibão”, boneco-gigante que se tornou um dos símbolos do carnaval do Recife, foi uma de suas realizações; isto sem falar num Parque de Diversões que funcionou durante uma semana, inclusive com Roda-gigante, Pula-pula e Autopista.

Por 16 anos como Presidente e tantas iniciativas, foi agraciado com o título de Benemérito. E com o correr dos anos trabalhando para realizar algumas dessas iniciativas muito nos aproximamos.

E, chegado o tempo de nossas velhices, todos os dias nos telefonamos. É uma espécie de ritual. Na maioria das vezes até sem motivo especial. Apenas para saber como vão nossas saúdes ou para atualizar os assuntos gerais.

Sou um homem muito feliz, afinal, tenho 4 filhos, 12 netos e 11 bisnetos, mas Deus não me deu um irmão físico. Por isso elegi Sérgio Loureiro mais do que um irmão: o Amigo nº 1.

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NEY MARANHÃO – UM PIONEIRO

Em dias de março de 1970 compareci ao Grande Hotel, no Recife, a fim de realizar uma entrevista com o Senador Ney de Albuquerque Maranhão, sobre o comércio Brasil-China. Ouvi daquele parlamentar uma descrição pormenorizada das vantagens de nosso país ter um vínculo mais aproximado com aquela nação.

Fazia ele uma cruzada por vários estados divulgando o tema. Tornara-se uma espécie de Bandeirante, no momento em que a partir dos anos 70, nossos países iniciaram relações diplomáticas, durante o Governo Geisel.

Após os flashes, o fotógrafo Diógenes Montenegro foi dispensado, e concluída uma parte principal do assunto, o Senador notou que eu apreciava a literatura e os conceitos filosofais daquele povo, oportunidade em que passamos bom tempo conversando sobre os modos de viver daquela tão antiga civilização e literatura em geral.

Depois de falar sobre Confúcio, o maior pensador chinês, que viveu 300 anos antes de Jesus Cristo, lembro-me que ele tirou do bolso um papel com anotações e me deu de lembrança. Dias depois que a reportagem foi publicada me passou um telegrama agradecendo.

E recordando aquele expressivo momento, publico alguns conceitos que ele me passou: Lembre-se de cavar o poço bem antes de sentir sede; Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão.

Mas isso era na China tradicional e não nos tempos atuais em que muita coisa ali ficou revirada, em termos de comportamentos, tal a influência da civilização ocidental e devastadoras ações políticas que sob o chicote de tiranos alteraram milenares conceitos.

Tudo muito bonitinho estaria hoje se os gestores da China estivessem obedecendo as regrinhas básicas, mantendo as antigas tradições. Todavia, após os impérios vieram as ditaduras e aquele povo, em sua maioria, mudou seus rumos de vida e seu jeito de ser, ocidentalizando-se e desejando ser a maior potência mundial.

Meu entrevistado naquele dia, entretanto, se concentrou em defender com grande entusiasmo, a aproximação do comércio entre as duas nações, considerando que o crescimento da população chinesa viria dar oportunidade à pecuária e à agricultura brasileira.

Hoje, nosso país registra excelentes laços diplomáticos e o panorama de amizade entre os povos se iniciou sendo historicamente caracterizado por operações comerciais em diversas áreas.

A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e nós somos importante fornecedor de commodities para aquele país. Nessa história me orgulho de haver contribuído com pequeníssima participação, exercendo o papel de jornalista.

Ney Maranhão foi um visionário por desenvolver um magnífico trabalho de aproximação comercial entre a China e o Brasil, há mais de 50 anos.

Era um pernambucano autêntico; inclusive na maneira de calçar e vestir. Mesmo em oportunidades de reuniões formais no Senado Federal não dispensava seus ternos de linho branco e as alpercatas de couro.

Ficou conhecido como um dos pioneiros na defesa constante do estreitamento das relações diplomáticas e o estímulo ao comércio entre as duas nações.

Foi um político de fibra. Marcou sua passagem como homem público de grande valor, durante tantas legislaturas que exerceu. Em 1993, como Senador, foi agraciado pelo Presidente Itamar Franco com a Ordem do Mérito Militar, no grau de Comendador.

Faleceu no Recife aos 11 de abril de 2016, com 88 anos de idade. Pernambuco lhe tributou honras após o falecimento, denominando um trecho da BR 232, que liga o interior à cidade de Moreno, seu torrão natal, com o nome de Rodovia Senador Ney Maranhão, por proposta do Deputado Eriberto Medeiros.

Meu entrevistado foi cinco vezes Deputado Estadual, tendo presidido a Assembleia Legislativa de Pernambuco e assumido, interinamente, o Governo do Estado. Iniciou sua carreira política como Prefeito de Moreno, eleito em 1951. Em outubro de 1954 elegeu-se deputado federal. Integrou também a Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara dos Deputados.

Ney Maranhão será lembrado como um homem público valente, autêntico, destemido, idealista leal e será lembrado por preservar suas raízes. Foi, de fato, um pioneiro nas relações comerciais Brasil-China.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM NEGÓCIO DA CHINA

Sr. Shin Lau e família

Desde menino que ouço mamãe dizer uma frase singular, quando achava que havia obtido uma solução satisfatória para algum problema ou cujo resultado financeiro lhe fosse favorável:

“Foi um negócio da China!”

Na Boa Vista, bairro do Recife onde vivi períodos da primeira infância, ficou em minha lembrança peculiaridades sobre procedimentos comerciais de uma família asiática.

Algumas vezes que fui com a “Secretária” Minervina à lavandaria de propriedade de uma família chinesa, situada na Rua Barão de São Borja, geralmente me chamava a atenção certos procedimentos deles, que para mim eram muito diferentes dos nossos.

Ali trabalhavam marido, mulher e filhas, geralmente todos calçando tamancos e vestindo roupas costuradas à mão, utilizando um tecido branco chamado “Madapolão”. Vestimentas bastante rudimentares.

Eram conceituados. Tanto no trato com os brasileiros – mesmos com as dificuldades vernaculares – quanto na eficiência dos serviços.

Lembro-me que no final da tarde o chinês aparecia montado numa bicicleta para entregar as roupas lavadas e engomadas, com cabides pendurados numa “arara” fixada no bagageiro.

Não se questionava em nenhuma das conversas que eu ouvia o motivo de sua transferência de um país tão longínquo e de costumes tão diferentes. E muito menos suas ideias políticas, como atualmente. Sentíamo-nos irmãos.

O fato é que os preços cobrados pela “Lavandaria do China” – conforme identificávamos seu estabelecimento – eram mais convidativos e ainda recebíamos à domicílio.

Adulto, procurei saber a causa do “ditado”, e utilizando notas do prof. Por Rainer Gonçalves de Sousa, que é Mestre em História, aqui retransmito, porque data da Antiguidade.

A expressão “Negócio da China” tem origem no contato comercial entre Ocidente e Oriente. Desde anos remotos, as atividades comerciais tiveram grande importância no desenvolvimento de determinadas civilizações e promovia rico intercâmbio entre culturas distantes.

Nos fins da Idade Média, a consolidação da burguesia europeia realizou a integração entre Ocidente e Oriente por meio de longas rotas marítimas que buscavam as cobiçadas especiarias oriundas desta região.

Até que a expansão marítimo-comercial ocorresse no início do período Moderno, a busca pelas sedas, temperos, ervas, óleos e perfumes orientais era o grande “negócio da China” para os mercadores daquela época.

Ainda hoje, a expressão “negócio da China” é usualmente utilizada quando alguém obtém algum tipo de acordo bastante vantajoso.

De fato, a concepção desse termo remonta o grande interesse que os comerciantes da Europa tinham em buscar as mercadorias oferecidas pelos chineses e outros povos asiáticos.

Chegando ao século XIX, essa expressão também ganhou força no momento em que a economia capitalista vivia um período de visível expansão. Nessa época, os britânicos cobiçavam a exploração do vasto mercado consumidor chinês, assim como o uso de suas matérias-primas e a grandiosa força de trabalho disponível.

Mamãe – nos anos 40 – costumava comentava que entregar roupas para lavar e engomar na lavandaria do sr. Chin Lau, era “um negócio da China”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

IMPACTO NO MIOCARDIO

Faço jornalismo há mais de 60 anos. Agora, sob o peso dos 88 anos, fora das ruas, transmito notícias, trocando informações via internet através do Grupo “Correspondentes Unidos” e aos sábados publico crônicas.

Aproveito para entregar aos leitores – a título de ilustração sonora – a excelente manifestação do Coronel Cony sobre o tema desta crônica.

Nunca me preocupei tanto quanto nesta semana em que vivemos, diante da expectativa da conclamação para reunir brasileiros na Av. Paulista, o que se fará para reagir, com um “basta”, destinado às atitudes que a Nação Brasileira vem sofrendo diante das misérias cometidas pelas autoridades contra às leis.

Mantenho no WhatsApp um grupo formado por pessoas inteligentes e de cultura. Na troca de mensagens diárias que ali aparecem, quase todos são unânimes em declarar seríssimas preocupações durante esta semana, dias que antecedem ao pronunciamento do ex-Presidente Bolsonaro.

Se estivéssemos diante de simples adversários políticos era uma coisa. Mas, pelo que temos visto, toda a sorte de ações de baixo calão podem ocorrer porque exemplos já tivemos, em dias anteriores, em que contra o povo pacífico os baderneiros já se manifestaram levando os entusiastas patrióticos à prisão sem culpa.

O que mais me preocupa é que durante a manifestação pacífica haja um atentado e que a multidão seja atropelada pelo seu próprio “rolo compressor”, pois se trata de aglomerar u’a multidão incalculável.

Só é possível aliviar a pressão psicológica que temos sofrido se cronicar como se fosse pitoresca a situação; ou seja, publicar que estamos diante de um possível “impacto no miocárdio”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PINZON, O DESCOBRIDOR DO BRASIL

Capitão Vicente Iañez Pinzon

Ao me aprofundar no estudo do livro: “Memorial do Mundo Novo”, com 293 páginas, escrito pelo nosso Editor Luiz Berto, produzido pela Editora Bagaço, lançado em 2008, fiquei imaginando quantos fatos da História do Brasil me foram ocultados durante os cursos Primário e Secundário.

Apreciador da historiografia pátria, tenho procurado me assenhorar de detalhes interessantes de alguns fatos, a partir da fase do descobrimento, e de certo modo, sobre Invasão Holandesa e as Revoluções de Pernambuco, notadamente sobre os bastidores desses acontecimentos, fatos até desconhecidos por muitos leitores.

Procuro não deixar no esquecimento tão significativas páginas vividas na terra de Pernambuco, já que as escolas dos meus tempos não tiveram o cuidado de manter vivos tais acontecimentos, que agora, aqui e ali, reaparecem.

Desejo relembrar nestas crônicas os fatos registrados pelos historiadores de então, pois não foi pequeno o esforço de pesquisa de inúmeros outros historiadores, no sentido de gravar para sempre o que aconteceu nos anos que sucederam ao 1500, data oficializada para o nosso descobrimento.

E o nosso Luiz Berto o fez através de seu precioso romance histórico.

Por força do “Tratado de Tordesilhas” uma parte do Brasil foi destinada a Portugal – separada no mapa por uma linha vermelha – e somente o restante poderia ser explorado pela Espanha, na época conhecida como o Reino de Castela.

Vejamos o resumo do pouco conhecido documento:

Trata-se do registro de um acordo firmado entre os dois reinos – de Castela e Portugal – em 1494, que dividiu o mundo entre os dois domínios ibéricos, definindo os limites de exploração entre portugueses e espanhóis na América do Sul.

Lá vem Pinzon voltando à História!

Aquele herói ibérico foi o descobridor, de fato, do Brasil, tendo viajado por águas desconhecidas e cheias de armadilhas, com as ondas batendo forte no casco do seu navio e chegou aqui em primeiríssimo lugar.

Enquanto o Capitão Vicente Iañez Pinzon – segundo Luiz Berto – segurava com tanta força a corda que atravessava o tombadilho de seu navio o que lhe transtornou a face, dando-lhe expressão rude – pois amargava o terrível desconforto de uma inoportuna cólica intestinal; a popularíssima “dor de barriga” e seus “anexos”.

O mal que lhe tirava o humor, indicava convulsão nas tripas. O momento do Capitão Pinzon não era nada inspirador, pois, traques e ventosidades estrepitosas denunciavam os instantes extremos que vivia o Comandante. As dores se espalhavam em ondas por todo o seu abdômen e pelo “cano de escape” ouviam-se inoportunas flautulências.

Num momento de fuga, a passos largos, logo transformados em desabalada carreira, os marinheiros presenciam um acontecimento singular: vê-se o Comandante rumo ao cagador.

Em seguida ouve-se ele agradecer aos maiores do céu o fim do sofrimento; ao livrar-se das bostas e das pontadas que o castigavam seu ventre.

Sente-se vitorioso ao se livrar das bostas e logo retoma o pensamento glorioso de ter sido o primeiro espanhol a cruzar o Equador terrestre. Mas, como se não bastassem as atribulações da viagem, ainda sofria com pequenos relambórios da barriga. O fim de caganeira.

Mas, logo escuta um dos seus homens, do alto da gávea do seu navio, dar o célebre aviso de “Terra à vista!”.

Era a parte do Brasil que não poderia ser anunciada como “descoberta”, face à linha imaginária do “Tratado de Tordesilhas”, que abrangia boa parte do litoral brasileiro.

Era o atual Cabo de Santo Agostinho de onde o “olheiro” divisava a futura terra pernambucana. O fato logo aliviou o reboliço intestinal que fustigava a paciência do descobridor. Teria estufado o peito e gritado:

“Chegamos, felizmente sem traques e sem bostas!”

Voltamos às palavras do escritor do “Memorial do Mundo Novo”, nosso intrépido romancista, escritor, jornalista e tudo o mais que se refere às letras, Luiz Berto:

Mal sabia o Capitão que estava diante de uma insuperável coleção de “tretas do destino”, mesmo sendo qualificado como notável Comandante, designado por Sua Alteza Fernando III, o Rei de Castela. O pior: não se conforma com a imensa desdita de não poder anunciar ao Mundo Novo sua descoberta.

O fato, para mim mais significativo, foi lembrar que o Capitão espanhol Vicente Iañez Pinzon foi, de fato, o descobridor do Brasil, porque Pedro Álvares Cabral somente pisou na terra brasileira mais de dois meses depois.

Todavia, como no Brasil tudo é diferente, vê-se, na Wikipédia uma nota que afirma ter sido a comemoração do descobrimento há 522 anos, quando Cabral desembarcou em Porto Seguro, litoral da Bahia, em 22 de abril de 1500, tornando a região uma Colônia do Reino de Portugal.

Mas, segundo Luiz Berto, o Capitão Vicente Iañez Pinzon, mesmo se cagando e peidando adoidadamente, descobriu de fato o Brasil, pois dois meses antes aqui desembarcou.