CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MEU PRIMEIRO ENTREVISTADO

Sebastião Bernardes de Souza Prata – Grande Otelo

Em 1946 eu contava 10 anos e começava a despertar para o jornalismo. Com outros meninos residentes na Vila dos Remédios, em Afogados, criamos o jornal: “A Voz da Vila”.

A parte de “impressão” era feita por uma vizinha D. Malvina, que colava, as tiras datilografadas por mim, utilizando u’a máquina de escrever “Underwood”, com a qual papai trabalhava em casa.

Em letras garrafais ela abria os títulos e criava as vinhetas. Apresentávamos assim um jornal ilustrado Mas, cada edição tinha a tiragem de apenas uma unidade.

A vida do “jornal” foi efêmera. Não passou de três edições porque a circulação era muito complicada. Entregávamos o “canudão de cartolina” numa casa vizinha, explicávamos o que era o jornal e pedíamos à família para após a leitura passar para o vizinho, e daí por diante.

Mas nosso noticioso teria certa fama face a um “furo de reportagem”. Num domingo chega à casa de meus pais um Buick preto, conduzindo dois artistas famosos e um sobrinho de papai, Paolo Emílio, residente no Rio de Janeiro.

Sendo empresário de artistas se fez acompanhar de um senhor bem baixinho, preto retinto, chamado Sebastião e uma senhorita que era famosa cantora radicada nos Estados Unidos: Carmen Braw.

A cantora estava com uma ressaca infame, face à participação em dois shows: um, no palco-auditório do Rádio Jornal do Commercio outro, no Roof Garden e Dancing, a casa noturna mais prestigiada do Recife.

Depois das apresentações, ainda esticaram até o Cassino Americano, no Pina e a beberagem se prolongou até a madrugada. Foi uma carraspana de lascar.

Mamãe fora solicitada a medicar a cantora, com um produto caseiro, algum chazinho, mas dado ao estado crítico da artista, que apresentava fortes dores de cabeça, ela resolveu lhe aplicar uma poderosa injeção de “Xantinon com B-12”, receita infalível para ressaca.

Enquanto esterilizava a seringa, mamãe – falando pela primeira vez o “inglês macarrônico” – lhe ofereceu a cama do casal para a visitante receber a furada de modo mais confortável, e em seguida dar um cochilo restaurador. O “morenaço” aproveitou pegou no sono.

Na sala, o sr. Sebastião ficou sentado, aparentemente preocupado com o estado de sua colega. Aproximei-me dele oferecendo suco de maracujá, informando que era calmante. Seria o primeiro personagem importante que eu entrevistaria de verdade, para o nosso “jornal”. Apresentei-me, expliquei as razões das indagações e ele se soltou.

– Seu nome?

– Sebastião Bernardes de Souza Prata, mas me chamam de “Grande Otelo”, o porquê, não sei. Nasci em Minas Gerais Meu trabalho é fazer graça para os outros rirem..

O boato se alastrou.

Ao notar que a frente da casa ficara cheia de crianças, indagou o porquê e eu lhe disse que aqueles meninos quase todos, já o conheciam porque seus filmes passavam no Eldorado, o principal cinema do nosso bairro.

O ator teve a generosidade de pedir que eles pudessem entrar para conversar. Acariciou a todos beijando suas cabeças. Aí a entrevista virou bagunça porque todos desejaram perguntar alguma coisa. Grande Otelo respondeu-as com o maior carinho.

Biuzinho, filho de Mané Fogão, correu à casa de D. Lola e pediu o jornal emprestado para mostrar ao visitante. Ele ficou admirado e disse que sentia orgulhoso em dar uma entrevista para um jornal produzido por crianças.

A fama não havia alterado sua simplicidade. Otelo já era um ator famoso face às comédias da Atlântida Cinematográfica, quando se apresentava com o ator brasileiro Oscarito, nascido na Espanha, formando uma dupla impagável.

Fui perguntando… Fiquei sabendo que ele só tinha um filho, mais conhecido pelo apelido de “Chuvisco”, porque quando nasceu estava chuviscando.

A conversa durou um bocado. Perto do meio dia, meu primo e os artistas abraçaram meus pais e despediram-se. O carrão negro se afastou sob palmas espontâneas da criançada, admiradores do famoso cômico.

Grande Otelo nasceu em Uberaba, MG, em 18 de outubro de 1915 e faleceu em Paris, durante uma temporada, em novembro de 1993. Foi ator de teatro, cinema e televisão, comediante, produtor e cantor. Seu principal papel foi no filme “Macunaima”.

Carmen Sílvia Braw Munfelt, nasceu em Kongsvinger, na Noruega, mas portava nacionalidade chilena. Bailarina, atriz e cantora se apresentou durante muitos anos no Cassino Atlântico do Rio de Janeiro. Depois se radicou nos Estados Unidos, participando de pelo menos três filmes.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ASSALTANTE DESTRAMBELHADO

Assaltante raivoso: nada levou

Nesta crônica desejo alertar os leitores para detalhes de como proceder evitando assaltos em suas residências. Ou seja, as articulações que os agentes do mal organizam para invadir seus lares aproveitando-se de simples “conversas sociais”, aquelas que nos parecem inocentes e inofensivas.

Passados 35 anos da ocorrência, ainda guardo na memória, os detalhes que agora transmito ao público. Estabeleci amizade com uma cidadã e deixei-me levar por algumas trocas de confissões. Dias depois, a amigos íntimos ela deixou escapar que estava “se ajeitando” com um velhote descasado, que vivia sozinho numa enorme casa, de muros altos, e guardava dólares, para um futuro giro pelo exterior.

Notícia de dólar para quem é chegado às facilidades de obtenção de dinheiro, corre depressa. No círculo social estava uma criatura que viu no fato uma oportunidade de alinhavar um assalto.

Herlando, de posse dessas informações da namorada, aluga uma Kombi com motorista e contrata um capanga. Dias antes eu havia torcido o tornozelo e estava com uma “bota de gesso”, andando com dificuldade. Toca o telefone. A “Servidora” de minha casa atende:

– Casa de Seu Carlos Santos? Aqui é uma equipe dos Correios e temos uma encomenda para ele remetida por D. Maíra Pimentel, do Rio de Janeiro. Queremos confirmar o endereço. Chegaremos já.

Maíra, era u’a ex-Miss Náutico e Miss Pernambuco, minha amiga de infância, sobre quem costumava divulgar ações. Toca o interfone e a “Servidora” atende. Era o homem dos Correios, para entregar a encomenda. Como eu já estava no terraço, autorizei a abertura da chave elétrica do portão de ferro e fui, mesmo mancando, receber o pacote.

Um jovem alto, de casaca de couro, sapatos de verniz e calças jeans. Mas nada de fardamento do Correio. Estranhei. Mas logo ao me identificar levei um empurrão. Cai de costas com todo o corpo. Uma covardia para quem tinha cabelos brancos e estava com uma “bota de gesso” na perna.

– O que é isto, rapaz, você está doido?! Estou engessado!…

– Entre, estou apressado; é um assalto. Quero seus dólares e as joias da família!

E sacou um “assombroso” Taurus, 38, cano longo. O outro cabra, foi entrando ligeiro e nervoso. Ao chegar à sala se deparou com a “Servidora” e sacou uma faca. Empurrou-a para os quartos da casa, onde foi desarrumando os guarda-roupas e levantando os colchões.

O “galã”, ameaçando-me com o “ferro”, ordenou-me deitar no chão da sala. Depois meteu o cano num dos meus ouvidos. Fiquei inerte, totalmente vencido. Logo depois, ele começou a levantar os quadros da sala, com a ponta do revólver, procurando um cofre oculto na parede. Coisa de filme.

Por sorte, eu havia instalado na antiga suíte de casal meu “home-office”. E notaria depois – felizmente – que ninguém acionou uma só gaveta da escrivaninha, onde eu guardara um pacote com alguns dólares, que seriam para comprar “Travelers Cheques”, logo que pudesse andar normalmente.

Já meio nervoso o bandido-chefe recebeu a confirmação de que nos quartos não tinha nada de joias. Só roupas. Aí veio o pior.

– Onde está o cofre com os dólares que o senhor tem?!… Vamos lá, senão eu lhe meto um caroço no intestino! Levante-se!

Com o “trabuco” pressionando minha mandíbula, fui empurrado até onde funcionara meu antigo escritório, lá nos fundos da casa.

Abri a porta, mostrei-lhe o cofre enterrado na parede, rolei o segredo e mostrei que nada havia. Ensacou o revólver e foi saindo. Acompanhei-o até o portão. Um rapaz de uns 30 anos, de boa postura, muito bem vestido. Na saída ainda dei-lhe conselhos. Estava visivelmente desolado pelo destrambelho.

Ao relatar esta ocorrência em detalhes deixo uma advertência aos meus leitores para que o fato sirva de exemplo. Nenhum tipo de conversa deve ser trocada com pessoas cujas relações forem recentes; notadamente se envolverem valores ou empodeiramento.

Mas a “novela” continuaria. O outro bandido conversara com a “Servidora”; pedira um copo d’água e trêmulo lhe informou que entrara naquele assalto porque devia dinheiro de compra de droga a Herlando. Completou informando quem me havia denunciado. Exatamente a amiga de u’a moça com quem saí algumas vezes e a prosa havia ocorrido num salão de beleza.

Na semana seguinte a “Servidora” atendeu outro telefonema lá em casa. Era o comparsa, dessa vez informando que Herlando fora preso.

Contou que namorada dele ensinava natação no Clube Internacional e de tanto fazer perguntas às senhoras banhistas sobre os trabalhos de seus maridos, despertou atenção da Segurança do clube, que por azar tinha um Diretor que era aposentado da PM e a “investigadora” foi “enquadrada”.

Com base nesses informes, Herlando que era também traficante de entorpecentes, foi “chaveado” pela Federal, seu belo e reluzente Taurus, recolhido; ganhou viagem pra São Paulo com direito a usar um par de algemas até o xadrez.

Enquanto isso eu estou aqui contando a história verídica de um verdadeiro assaltante destrambelhado. Foi acreditar em conversa fiada de mulher fofoqueira e se ombreou com um comparsa que era bem parecido com o “Doidinho”, companheiro Buck Jones, nos saudosos filmes de cowboy.

De nada adiantaram os muros altos, chaves elétricas, porque a inteligência dos amigos do alheio pode se basear em informações apuradas num salão de beleza, para traçar um plano, no caso, infrutífero.

Nunca esqueci o tamanho do cano do revólver que forçou minha mandíbula a tal ponto que ainda hoje me incomoda.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

OS BRÔNQUIOS DA BALEIA

Brônquios de um peixe semelhante à baleia

Certa feira, na década de 70, fizemos uma visita a João Pessoa, onde fomos ver a suposta “pesca da baleia”, a pedido de amigos do Rio de Janeiro.

Era inverdade o que diziam algumas agências de turismo. Não deveriam promover a Paraíba daquela maneira, pois, o que se veria não era a pesca propriamente dita, mas a chegada dos animais abatidos e sua industrialização, o que se tornou para mim um espetáculo, tenebroso.

O que se chamava “caça às baleias” era a visão de uma atividade industrial desenvolvida no distrito de Costinha, proximidades de João Pessoa.

O auge da industrialização aconteceu quando a Copesbra – Cia. de Pesca Norte do Brasil, fábrica de capital japonês, estabeleceu uma base naquele distrito, em 1958, que na verdade era uma subsidiária da Nippon Reizo KK, onde só se via japonês trabalhando.

Segundo registros oficiais a Copesbra havia pescado 793 baleias até 1974. O óleo e a carne eram exportados para o Japão.

Depois de um giro na acolhedora capital da Paraíba, fomos à praia de Costinha, para ver a chegada das baleias capturadas. Esperamos até o começo da madrugada quando o primeiro dos dois navios chegou.

Lá já estavam vários grupos de turistas. Participei de um espetáculo que jamais desejei ver novamente. Os animais serviam como partícipes de um espetáculo de horrores.

Era madrugada quando um pequeno navio pesqueiro japonês aportou, trazendo penduradas pelos lados de fora da embarcação, quatro baleias. Começa o desembarque, iniciando-se em amplo pátio próximo ao cais, o drama. Homens e máquinas começam a processar a industrialização, cortando o animal em pedaços.

Eu e as outras pessoas que me acompanharam jamais havíamos visto de perto um daqueles animais, e por isso a grande curiosidade. Sabíamos que as baleias não eram animais agressivos e isto aumentou a angústia das pessoas que estavam comigo.

Um guindaste retira do navio a primeira baleia, que é jogada em cima de um grande tablado de piso metálico, onde a serra elétrica cortava a parte da cabeça, enquanto outros operários especializados – todos japoneses – vão conduzindo mangueiras d’água de grande potência, que afastavam o sangue.

Dentro de 30 minutos só havia pedaços, que eram colocados em caixotes de plásticos que depois seguiriam para o porto em caminhões frigoríficos, com destino aos mercados do exterior.

Saímos logo que vimos o primeiro sacrifício. Todos os turistas estavam tristes. Na rua, numa loja comercial, ao lado havia uma vasta quantidade de material que os visitantes compravam para servir como peças de enfeite.

Fascinado, comprei uma guelra de baleia, fim de decorar a parede de nossa sala.

O vendedor transformava as guelras que eram postas à venda, prendendo-as com um grampo, de forma que ela tomava um jeito arredondado e encantador.

Mantive o adorno em casa por algum tempo, mas depois me livrei dele, porque todas as vezes que o apreciava me lembrava do sofrimento das baleias.

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ASSALTANTE TRAPALHÃO

A moça havia comprado vistoso automóvel há poucos dias, e após o exaustivo trabalho noturno num plantão em Serviço de Saúde, retornava ao lar ao raiar da manhã, quando foi assaltada no estacionamento. Entregou as chaves e se foi.

O bandido levou seu carrão, e talvez prevendo que tivesse GPS – e isso atrairia a Polícia – deixou a viatura em rua próxima do assalto, a fim de ir “depená-lo” com os comparsas, mais tarde, como geralmente fazem os ladrões de automóveis.

Ocorre que as ações de buscas se fizeram com eficiência e a polícia, utilizando Programa de Inteligência, localizou o veículo em uma rua nas proximidades do assalto, poucas horas depois.

O pitoresco da história é que tendo a moça deixado o jaleco em cima da bolsa, no banco traseiro, o bandido não viu. Na pressa de sair do veículo levou apenas uma sacola que estava no banco dianteiro, a qual continha apenas sua marmita.

Os procedimentos foram corretos. Na hora do assalto a proprietária entregou o carro sem fazer alarde, não discutiu, nada argumentou nem olhou para trás.

Havia colocado a bolsa principal contendo seus pertences mais valiosos no banco de trás que, por acaso, cobrira com um jaleco branco. Assim, o afoito assaltante se foi sem levar nada de valor.

Recuperou fácil seu carro, sem prejuízo, face à eficiência da polícia do Recife.

Aliás, já se disse que mulheres sozinhas não devem conduzir automóveis em horários pouco favoráveis à sua própria segurança; notadamente se forem veículos de alto valor.

O fato foi real. Fica o exemplo.

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BECO DO CU DO BOI

Se eu disser que no Recife tem uma rua com o nome de “Beco do Cu do Boi” vão dizer que me empirulitei. Mas é verdade pura e verdadeira. Histórica, até.

Nos anos de 1910 tinha a Prefeitura um convênio com o Instituto, Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco para em caso de troca do antigo nome das ruas, afixar em placa de azulejos o nome original e o porquê da troca.

E mais ainda, ao serem fixadas as placas que seriam homenagens a personalidades, que se fizesse o registro do nome completo da pessoa e constassem dados sobre o porquê da homenagem.

Com o passar dos tempos, a lei caiu em desuso. Não se sabe mais quem foi o ilustre. Acima de tudo se tem dado “ilustratividade” até a quem não a mereceu. Avacalharam a iniciativa do jornalista que criou o modelo de procedimento.

Entrevistei um Vereador que conseguiu mudar o nome da rua onde morava a fim de homenagear sua mãe. Essa rua fica nas proximidades da Lagoa do Araçá, sendo a denominação anterior: Rua Venezuela. Louvo a atitude do filho, mas…

Em recentes dias, um dos nossos burgos-mestres criou um costume de implantar em cada uma dessas antigas artérias dados sobre o significado da homenagem, seu nome anterior e ainda, deu identidade à iniciativa, denominando-a “A História nas Paredes”. Ótima iniciativa.

Com o progresso, nossos famosos becos se transformaram em ruas e assim mudaram de nome: Beco do Veado, Beco da Facada, Beco da Latrina, Beco do Mijo, etc., todos estes funcionando com os nomes originais há até bem poucos anos, nomes que todo mundo pronuncia com a maior tranquilidade.

Na coluna de Mário Melo, jornalista e historiador, Presidente Perpétuo do Instituto Histórico, edição de 23 de janeiro de 1931, ele publicou:

Escreveu-me também um zombeteiro que eu devia restaurar a placa da rua hoje conhecida como Joaquim Felipe e outrora conhecida como uma parte anatômica e pouco cheirosa do boi.

Esse cavalheiro queria ver o monossilábico anatômico escrito na placa certamente para envergonhar-nos toda a vez que o lessem viajantes ilustres e senhores de distinção.

Consta na placa de azulejo que Joaquim Felipe da Costa a quem foi dado o novo nome da rua, foi Tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia, prestando serviços sem remuneração, durante muitos anos àquele instituição beneficente.

Sobre o tema, aproveito para narrar o pitoresco.

Eu entrevistava ilustre dama no Clube Internacional do Recife, ao lado de outros casais em redonda mesa de pista, tendo ao lado, de pé, o fotógrafo do jornal, Chico Fagundes, quando perguntei onde morava e ela informou:

– Na Rua Joaquim Felipe, 271, apto. 1002.

– Em qual bairro? Indaguei.

Ao responder-me que era na Boa Vista, pedi, que me informasse o roteiro, para que eu pudesse orientar o mensageiro quando lhe fosse entregar as fotos.

Notei que a face da madame ficou ruborizada diante da necessidade de atender ao detalhamento.

Foi quando Chico Fagundes “disparou” com a detestável impropriedade, coisa que não poderia ter sido jamais declarada diante de ilustres casais que estavam em nossa mesa, exatamente na noite de gala em que se comemorava os 100 anos do Clube Internacional do Recife.

Também fiquei estatelado quando meu companheiro engatilhou:

– É o antigo Beco do Cu do Boi!

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EJACULANDO A ESMO

Bairro da Madalena, Praça João Alfredo, Recife

Homero de Carvalho, conhecido como “Mergulhão” foi um dos tipos pitorescos do Banco do Brasil-Recife. Homem bastante estranho. Caladão, fisionomia fechada, alto, forte, de boa saúde e sólida condição moral, não gostava de piadas nem palavrões.

A título de exercício, quase todos os dias, vestia seu macacão tipo “Shazam”, calçava suas alpercatas de couro e se mandava a pé da Madalena, onde residia, até o bairro do Rio Branco, onde trabalhávamos. Um estirão de quase 12 km.

Chegava mais suado do que tampa de chaleira. Entrava no chuveiro, depois se vestia como o Banco exigia: camisa branca e gravata. E iniciava seu trabalho com disposição de um jovem.

Entretanto, um dos pontos chamavam a atenção em seu modo de trabalhar, pois “especialista” numa antiga máquina de registrar o livro “Diário de Contas Correntes”. Era uma estrovenga manual que recebia enormes fichas, entremeadas por um papel-carbono, sendo acionada por enorme veio manual. Só esse “exercício” dispensaria o esforço que ele fazia quase todos os dias andando de sua casa até o Banco.

Entretanto, conhecedor da CLT, tinha o hábito de dar uma “parada estratégica” a cada 60 minutos, a fim de repousar, aproveitando o que a legislação facultava a tais trabalhadores. Nesses intervalos ficava na janela fazendo exercícios respiratórios e apreciando o movimento dos navios no porto.

Intelectual, dono de linguajar escorreito, dominando bem o vernáculo. “Mergulhão”, mesmo no trato normal com os colegas, usava palavras empoladas. Conversar com ele era um suplício porque gostava de nos deixar embatucados, sem saber o significado de algumas palavras que proferia.

Certa feita, ao chegar, suado e ofegante, contou a José Canuto uma história que lhe impressionou.

– Meu amigo Canuto, estou estupefato! Ao raiar da manhã, quando o Rei dos Astros, se apresentava já ofuscante, pronto para viver as sendas comuns da vida, preparei-me para a caminhada até a gloriosa instituição onde labutamos e ao passar pelo quarto de meu filho, Alvinho, esbugalhei os olhos diante do que vi na porta entreaberta.

Surpreendido fiquei estatelado. Deparei-me com meu descendente sentado na cama, sem roupa, movimentando, em compassos alternados, seu membro viril, com os globos oculares fixos numa revista de imagens inadequadas à sua idade, onde se viam mulheres despidas.

E “meu menino”, com a face mergulhada na gravura de u’a bela dama que se mostrava com protuberantes seios, ele em plena tesão dos seus 14 anos, feito um desvalido, ejaculava numa “solitariedade” de dar pena.

E diante de minha inusitada presença o adolescente deu um grito após o espirro do esperma que ganhava as alturas:

– Pai, vai embora, que eu tô gozaaaaando!…

– Meu filho, nunca pensei que você ejaculava a esmo!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

“SOQUE NO RABO!”

Feira de Caruaru – Foto Amaraji Notícias

Costumo matutar sobre a inteligência e o raciocínio rápido das crianças e sendo bisavô de onze dessas criaturinhas, falo de cátedra. Somente com a “Prata da Casa” tenho material suficiente para comentar coisas tão interessantes durante agradáveis crônicas.

Devo o hábito de colecionar frases dos pequeninos ao Dr. Pedro Bloch, brasileiro naturalizado, nascido na Ucrânia, que anotava num caderno do consultório tudo quanto presenciava sobre crianças e isto deu motivo aos seus notáveis livros.

Pedro Bloch

Médico foniatra, e nas horas vagas: jornalista, compositor, poeta e dramaturgo. Publicou mais de 100 livros infanto-juvenis. Dentre as dramaturgias famosas, “As mãos de Eurídice” foi a mais encenada nos anos 50.

Livros de Pedro Bloch

Os pequeninos voltam ao palco de minhas crônicas.

Minha primeira neta, a Patrícia, hoje residente na América, quando tinha três anos, acocorou-se para apanhar um lápis e soltou um sonante “pum”. Ao ser indagada sobre o porquê, saiu-se com esta:

– É couro curto, vovô!

Certa vez, entrevistando Dumuriê, na residência dele, a netinha nos chegou meio chorosa reclamando:

– Vovô estou com muita dor de cabeça!

E Dumuriê, como bom avô:

– Venha cá, minha filha, deixe-me “ver” essa dor de cabeça.

– Pode não vovô, é dentro da cabeça.

De outra feita fui mostrar o mar ao meu sobrinho André Luiz, de cinco anos. Ao chegar à praia de Boa Viagem, ele já sem os sapatos, correu para a água molhou a mão e levando-a à boca, disse:

– Tio, quem salgou essa água toda?

O filho mais novo, aos três anos, vinha conosco no carro e estando no banco de trás, em certo momento, espichou-se até a janela do carona e vendo parado ao nosso lado um carro de funerária levando um caixão, saiu-se com esta, dando um grito inesperado:

– Motorista! Esse defunto aí atrás deve estar fedendo muito, não é?

Lulu, de três anos, presa em casa pela pandemia, sem direito a passar a manhã na Escolinha, revira todo o apartamento com o mano Pedrinho, de cinco. Nas peripécias da “dupla-dinâmica” ocorreu uma manobra mal calculada por ela e sua cabecinha foi maltratada, causando o maior berreiro.

O papai Felippe intercedeu para abrandar o drama:

– Venha cá, Lulu, deixe eu fazer uma massagem nessa cabecinha.

– Passa não papai! Só passa se você me der um “Danoninho” e me levar pra casa de vovó Juju!

Na década de 40 eu era rei, convivendo numa casa onde havia seis adultos e só uma criança. Numa jogada mal calculada, quando treinava na oficina de meu tio Tantão, dei uma martelada no dedo e tal foi a dor que corri para a cozinha à procura de apoio com a tia.

– Teteza, eu já posso chamar “Pinóia”?

– Pode meu filho. “Pinóia” o padre deixa, viu?!…

E soltei ressonante “Ora Pinóia!”, como se isso fosse um desabafo, por ser, no meu entendimento, um palavrão vingativo.

Fico agora entristecido, nestes anos do Século XXI, ao observar que os palavrões correm soltos em todas as idades e locais, não mais se respeitando nem os pais.

Outro dia, Biuzinho, filho de uma comerciante da Feira de Caruaru, ao pedir dinheiro à mãe e lhe ser negado, soltou um estridente conjunto de palavrões, sem cerimônia, o que me assombrou. Mas, era um fato recorrente bem aos modos destes infelizes “tempos modernos”:

– Puta que pariu, mãe! Pois soque seu dinheiro no rabo!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

BODE PRA CACETE

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, submersa para formar o lago de Itaparica, em Petrolândia, Pernambuco

Numa das viagens que fiz desenvolvendo atividades para o Departamento de Projeto Especiais do Diário de Pernambuco, em anos recentes, éramos comandados por Arijaldo Carvalho, que projetava as pautas, definia as missões de cada jornalista e os levava às cidades do interior, para a cobertura.

Quando Petrolândia completou 100 anos, em 2009, o governo local projetou um mês de eventos culturais, culminando com a edição do encarte do Diário, com cerca de 40 páginas.

Como se sabe a região se tornou conhecida pela quantidade de restaurantes que servem carne de bode. Numa dessas viagens, paramos para almoçar na estrada, em pequena casa de pasto, onde se come refeições ligeiras, sendo o bode é a carne preferencial.

Quase às 14h., com as barrigas reclamando falta de alimentos, paramos num desses locais. Éramos cinco: um fotógrafo, um cinegrafista e dois jornalistas, além de Arijaldo; todos esfomeados. Na porta do “estabelecimento” já estava D. Zefinha, a dona, que abriu os braços de felicidade por faturar mais quatro pratos e cumprimenta nosso chefe-de-viagem, como se um filho fosse.

Jornalista Arijaldo Carvalho

Após o fraternal amplexo Arijaldo deu o primeiro “grito de guerra”

– D. Zefinha, sirva-nos cinco bodes!

Alguns de nós não conhecia aquele tipo de carne, pouco comum na Capital, mas no interior, é o “filé”. De pronto a senhora indagou em brado forte:

– Mas seu Arijaldo, o senhor tem certeza que seu pessoal quer comer bode? Não preferem uma carnezinha de sol? Tá uma delícia!…

– Quer, D. Zefinha.! Todos eles estão com cara de quem só gosta de bode. Tem mais, com a fome que estão eles comem até papel de jornal com farinha.

– Mas me diga uma coisa, Seu Arijaldo, toda vez que o senhor vem aqui com seus amigos só pede esse tipo de carne… Por que o senhor gosta tanto de bode?

– Porque na outra encarnação eu fui cabra! E gosto de bode pra cacete!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

QUERUBIM BAR

Parque Solon de Lucena, João Pessoa. Foto de Washington Medeiros

Sempre acreditei existir uma simbiose perfeita entre leitores e cronista. E dou exemplos nestas notas.

Sobre tema onde abordei a cacofonia, meu caro amigo, jornalista Sanelvo Cabral, enviou uma das lembranças que certamente fará constar em sua biografia. Disse-me por escrito:

Certa feita no Diário Oficial do Município do Recife criei um espaço onde informava a atividade do Prefeito, naquele dia. E para ser bem objetivo dei o título: “O Dia do Prefeito”. Em algumas edições o noticiário chegou a ser publicado. Mas depois, alguns colegas me alertaram: Sanelvo, estão lendo: “Odiado Prefeito”. A fim de corrigir troquei o título para: “Diário do Prefeito”.

Esta outra vem dos anais do Banco onde trabalhei até me aposentar.

Sendo presepeiro e piadista, meu amigo Ernesto Viriato convenceu o inocente colega Eugênio Vasconcelos a bolar um nome para seu buteco, que funcionava na cúpula do Prédio Velho do BB. Na verdade era uma lanchonete e não um bar, pois ali havia a limitação para a venda de bebidas, em virtude de ser um estabelecimento bancário.

Todas as tardes Eugênio passava pelos setores anunciando verbalmente as novidades de cada dia, a fim de atrair colegas para o lanche. Ernesto, então, pediu a “Paulo Catinga” para desenhar num papelão, um “reclame” com o nome escolhido para a lanchonete.

Seria uma propaganda volante, fixada num pedaço de madeira, de forma que o propagandista pudesse rodá-lo numa posição em que o anúncio chegasse mais fácil aos olhos de todos.

Mas o objetivo era pregar mais uma de suas peças. O pobre passou a transitar feito um idiota, divulgando o anúncio já “trambicado”.

Imagine-se uma salada ser apenas com duas frutas! E ainda mais com a “cacofonia explícita” do nome do estabelecimento! Duas presepadas numa só tacada.

Querubim Bar.
Oferta do Dia:
Salada de 12 frutas. (10 laranjas e duas bananas).

Foi um carnaval de risadas, até que o portador foi alertado para a brincadeira.

Outra “parada” ocorreu quando em crônica recente, me referi a um cabra que parecia ter o “furico de ouro”, pois só obrava com os sapatos em cima da tampa da privada.

Eis que recebi de um amável leitor, este versinho, escrito atrás da porta do wc da faculdade em que o respeitável aluno estudou.

Toda vez que cago
Sinto tristeza profunda
A tolete bate na água
E a água bate na bunda.

Outro leitor me lembrou de um versinho que seu pai contava, sobre uma Pensão em que se hospedara, em Marilândia, que tinha preços muito baratos, mas “castigava” na quantidade de alimentos, deixando os hóspedes sem o desejo de retornar por causa da fome que passavam durante a hospedagem.

O cardápio era cruel: pela manhã, café pequeno e uma bolacha Americana. No almoço, um ovo e uma colher de arroz e uma de feijão. À noite, sopa de cabeça-de-peixe, só com o olho do animal.

No último dia de sua estada, o hóspede foi ao sanitário e lá deixou pregado, num papelão, a expressão de sua revolta:

Adeus pensão desgraçada
Nunca mais me verás tu
Criei ferrugem nos dentes
E teia de aranha no cu.

Outro exemplo engraçado. Em João Pessoa, nos anos 50, havia uma pequena rua ladeirosa, perto do Centro, onde se encontra o bucólico Parque Solon de Lucena, uma das maravilhas daquela cativante capital. Bem na metade da rampa se instalou um famoso bar, ponto que tomou o nome de “Bar Querubim.”

A fama correu. Meses depois surgiu um gaiato invejoso para “detonar”, fixando no banheiro o versinho:

Essa Paraíba
É mesmo de encantar
Subindo: “Bar Querubim”
Descendo: “Querobim Bar”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O PANO DA PRIQUITA

Praia do Carmo, Olinda, atualmente, em flagrante de Alamy Stock

Na década de 20 os Banhos Salgados, logo ao amanhecer, eram recomendados para curar doenças de pele e de nervos, por conterem, as águas do mar, grande quantidade de iodo. Por esta razão, Olinda passou a ser a praia preferida pelos moradores do Recife e localidades próximas.

Os padrões das roupas de banho, na época, eram bem diferentes. Senhoras e senhoritas se vestiam obedecendo padrões rígidos, a fim de cobrirem seus corpos.

Entre as praias dos Milagres e do Carmo, onde as ondas eram mais revoltas, havia pescadores disponíveis, que por pequenas gratificações ofereciam-lhes mais segurança, através de um “varadouro”, improvisado por cordas interligadas a paus enterrados na areia, permitindo aos frequentadores a tranquilidade de ali se segurarem para não serem tragados pelas ondas.

Logo ao amanhecer chegavam as famílias. As vestimentas obedeciam a um padrão moral que hoje pareceria ridículo. Pelas fotos do Arquivo Público de Olinda se vê que os corpos das senhoras e senhoritas eram quase todos cobertos.

Roupas femininas da época. Homens do mar protegiam as senhoras contra a fúria das ondas

A partir dos anos 50, quando surgiram maiôs “Catalina” durante a difusão dos Concursos de Miss, os padrões das roupas de banho permitiram às mulheres adotar um estilo cada vez mais incongruente; ou seja, em desacordo com os padrões morais dos anos 20.

Depois de 1946, quando o Atol de Bikini ficou famoso pelas explosões atômicas, a pequena ilha de corais situada no Oceano Pacífico, inspirou os estilistas de moda e criou-se uma “vestimenta sumaríssima” que ficou conhecida como biquíni, caindo em cheio no gosto popular.

Os maiôs já haviam se reduzido bastante, deixando o corpo da mulherada à vista. Porém, os modistas foram traçando as novas roupas cada vez com menor quantidade de tecido, ao ponto de se popularizar e aportuguesar o biquíni, cujo nome foi inspirado naquele atol oceânico.

Aliás, o biquíni nem é mesmo “roupa de banho”, pois mais parece um guardanapo com dois laços, que dá a impressão de cobrir as partes pudicas de cada jovem e até das balzaquianas mais afoitas.

Nos anos 30, aos seis anos de idade, fui partícipe de um desses passeios, quando meus pais, minhas tias Laura, Tereza e a prima Nicinha utilizaram um Banho Salgado. Suas roupas cobriam até os joelhos. O pudor ainda era congruente; isto é dentro de padrões – se não de elegância – pelo menos de moralidade.

Sendo o terminal do bonde da linha Olinda-Carmo, a concentração de pessoas era maior. Somente anos mais tarde, após as obras dos arrecifes artificiais instalados para conter o avanço do mar, é que a praia do Carmo se requalificou, permitindo ao público desfrutar os Banhos Salgados sem perigo, pois hoje existe grande faixa de terra, boa arborização, barracas de lanches e muita gente bonita.

Já sob a predominância de modelos revolucionários das Roupas de Banho, a partir de 1950, começamos a observar que com apenas dois guardanapos se poderia criar um modelo de verão: um biquíni; tempo em que a incongruência passou a servir de mote para os poetas versejarem.

Aproveitando o tema, criei um mote para o poeta Carlos Antônio Rabelo glosar:

O mote:

O pano desta priquita
É bastante incongruente.

A glosa:

E porque de tão pequeno
Até para um clima quente
O pano dessa priquita
Dá num buraco de dente
Mesmo que seja bonito
Para o tamanho do priquito
É bastante incongruente.