CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O NEGÓCIO

A vivência bancária me proporcionou momentos que jamais esquecerei; sobremodo os pitorescos, alguns dos quais tomei conhecimento por ouvir falar e outros por presenciar.

O Substituto de Inspetor – Pedro Berto Filho – foi a Palmares, para verificar como estava a situação da Indústria de Laticínios Rosa dos Ventos, cujo dono falecera há cinco meses.

O Banco do Brasil havia aplicado valores significativos para o crescimento daquela empresa. Mesmo sem haver atrasos, era de praxe, inspecionar. Estando o Inspetor de férias foi escalado o Substituto para a missão.

O representante do BB observou que o funcionamento da empresa estava normal. D. Maria das Mercês, viúva de Zé Galdino, assumira a firma com muita competência.

O beneficiamento, as vendas e os recebimentos tudo se processava normalmente. As contas estavam em dia, sobretudo os pagamentos ao Banco.

O Substituto do Inspetor verificara tudo pela Contabilidade com assistência do Contador da empresa.

Como teria que seguir para outra missão Pedro Berto Filho passou um telegrama para seu chefe:

“Tudo OK. Viúva continua com o negócio aberto.”

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DEVEDOR COMEU A GARANTIA

Uma cena interessante vivi foi quando trabalhei na MOVEC – Unidade Móvel de Crédito Rural, do Banco do Brasil, juntamente com Joaquim Moreira Lima e Cleto Vicente de Paula.

Na época em que o Presidente Jânio Quadros resolveu despejar crédito do Banco do Brasil pelo interior, nem ao menos se exigia um cadastro mais cuidadoso dos tomadores de dinheiro emprestado, como era a norma do Banco.

Em peruas Rural Willys nos embrenhávamos sertão à dentro oferecendo crédito a gato e cachorro.

Quando se espalhou a notícia, alguns “espertos” arranjavam gado emprestado para mostrar aos fiscais da CREAI, desejando comprovar que havia garantia e assim obter empréstimos mais polpudos, para comprar bens e fazer viagens com a família.

Embolsada a grana, os animais eram senvergonhamente devolvidos aos vizinhos.

Quando os atraso de pagamento começavam a pipocar, voltávamos em busca das justificativas; e no caso, fazer um relatório das razões apresentadas para promover acordos de parcelamento.

Lembro-me nessa fase, de um fato inédito.

Cliente “malandro” pegou um empréstimo, dando como garantia 75 cabeças de gado, quando na verdade era dono de apenas uma vaca. Mas, quando Maurino Siqueira, Fiscal da CREAI no Recife, chegou à sua fazenda a fim de conferir a garantia, notou que não havia a boiada que vira anteriormente.

E sob o argumento para tentar enganar o fiscal, Zé Quirino, o devedor, afirmou – teatralizando certa consternação fisionômica – que por motivo da seca que assolou a região, teve que vender todo o gado, a fim de alimentar a família, ficando apenas com sua vaquinha de estimação, a “Mimosa”.

Mas não deu pra nos enganar!

Na parte final do relatório onde constavam as considerações, o Fiscal assinalou que no terraço da fazenda havia uma caminhonete Ford, novíssima, de cabine dupla, que deve ter sido comprada com o empréstimo, porém, não servia de garantia, porque houve a alegação que estava ali na sua casa porque o primo viajara, estando o veículo em nome de um dos seus parentes. Para simplificar a “embrulhada”, o fiscal registrou:

“Em suma, devo dizer que o devedor além de ser um descarado, comeu a garantia”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O DIÁRIO TAQUI!…

Havia certo alvoroço na Contadoria. Estávamos em 31 de dezembro de 1956. Último dia de trabalho, a moçada inquieta, festas de fim de ano à vista…

Seu Aragãozinho, o Contador, “arrancava os cabelos” pela falta de um documento, exatamente no dia em que se deveria juntar tudo para fazer o Balanço Anual.

Mas apareceu uma diferença de centavos; a mais miserável para qualquer contabilista. Nesses casos era preciso cotejar todos os papéis do mês para se encontrar o erro que provocara a diferença.

Pois, no exato dia “D” desapareceu o lote do Diário do Movimento de 15 de setembro de 1952, imprescindível para se elucidar uma daquelas diferenças de centavos que tanto perturba os Contadores. E cadê o Diário?

Notou-se um vai-e-vem incomum no setor; gavetas abrindo-se e fechando-se, armários vasculhados, muitos funcionários consultados e Seu Costa Souza, o Subgerente, quase perdendo a paciência; um inferno.

Nisso aparece um cabra novo, que passara no concurso em 2º lugar, doido para comprovar sua eficiência e dispara um cochicho no ouvido de um colega:

– Se estão procurando o Diário de 17 de setembro, vou busca-lo!…

Era Biuzinho de D. Zefa, registrado na Cédula de Identidade como Severino Alexandre de Melo, rapaz de 19 anos, seco que só uma vara de bater pecado mas ágil como um macaco procurando macaca.

Desceu a escadaria como quem desce num escorrego de brinquedo e mandou-se, às carreiras, para a Praça da Independência, onde ficava o arquivo do jornal de Dr. Chateaubriand.

Lá, acionou velho amigo, Fernando da Cruz Gouveia, e quase se ajoelhou pedindo-lhe a edição do Diário de Pernambuco de 15.09.1952.

Pagou o preço e nem quis recibo. “Queimou o chão” de volta à Agência.

Lá chegando, esperado com ansiedade, estufou o peito como se o “Herói do Dia” fosse, disparou uma frase que ficaria no anedotário e provocaria em todos uma risadaria incontida.

A preocupação continuou reinando até que horas depois o arquivista trouxe o Diário Contábil tão procurado.

Mas valeu o espírito de iniciativa daquele novo funcionário, que depois foi enaltecido pelos seus chefes, em que pese sua inocente interpretação do problema.

Mas ninguém se aguentou quando ele disse com o maior entusiasmo:

– O Diário “taqui” meu chefe!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FLATULÊNCIAS INSALUBRES

Em certo clube aqui do Recife, quando exerci cargo de Vice-presidente Cultural, me deparei com situação singular.

Um associado, que se dizia ex-Juiz de Pequenas Causas, se aboletava logo cedo na Sala dos Aposentados, instalava seu laptop, espalhava seus papéis na mesa de reuniões e passava a dominar o cenário.

Na hora de escrever, sem cerimônia alguma, abocanhava um lote de papéis tipo “A-4”, da estante do departamento. Quando notava que ninguém o observava, ensacavava-os em sua mochila. Iniciava seu “trabalho” navegando na Internet, todo pomposo.

Uma das senhoras do meu Departamento, que ali fora instalada, dias depois, fez discretos comentários sobre os furtos de papel e a insalubridade do ambiente. Procurei ouvi-la em separata diante denúncia tão significativa.

Segredou-me haver observado que os incômodos surgiram depois que o Dr. Salvilino Travassos Serpa começou a comparecer ali durante todas as manhãs, o que lhe obrigava, de vez em quando, a sair, a fim de aspirar ar puro, em que pese ser o ambiente ser climatizado.

Alegou a Diretora de Aposentados, que o ambiente havia se tornado verdadeiramente insalubre devido às flatulências constantes expelidas pelo orifício retal do dito-cujo, dizendo-me ela:

– O ex-Juiz se inclina na cadeira, procurando disfarçar, como se fosse coçar o tornozelo, levanta uma parte da bunda, e ficando livre o “cano de descarga”, dispara sem piedade, peidos a granel, de odor insuportável. Parece ter o intestino podre!

Fui primeiramente ter uma respeitosa conversa com o “peidão”, acompanhado de um assessor, tratando o assunto com o maior cuidado. Comecei pelas beiradas.

Ao solicitar sua atenção para os fatos e lhe transmitindo que as reclamações tinham cabimento, fiz-lhe ciência de que ele costumava usar muitos papéis destinados ao serviço do clube; além de soltar cada “pum” infernal.

Segurar peido dos outros não era brincadeira, aleguei ao jurisconsulto peidante.

Nas semanas seguintes, o ex-magistrado continuou soltando suas flatulências, agora sem o disfarce de “coçar o tornozelo”. Estava nos desafiando.

Passou a soltar seus peidos ainda mais à vontade; “na banguela”, como se diz, o que obrigou a pobre senhora a pedir transferência de setor. Uma gozação geral se espalhou pelos corredores: “A História do Juiz peidão”.

Sem alternativas senão a instância do Comité de Ética, escrevi ao Vice-presidente Administrativo:

FLAUTULÊNCIAS INSALUBRES – Já se tornou deboche o procedimento nocivo por parte do Sócio sr. Silvilino Travassos Serpa, que se arvora de haver sido Juiz de Vara Pequena, fato que está a merecer pena ou corrigenda regimental.

São repetidas irregularidades de ordem “sanitária” e moral, pelo que pedimos ser este registro encaminhado à instância correspondente.

Tornar a Sala dos Aposentados um ambiente insalubre e irrespirável é uma delas, em virtude da liberação de “gases intestinais”, pútridos em seu mais alto grau de decomposição, muitas vezes sem quaisquer disfarces e até “sonoros”.

Alguns peidos e sua forma de expeli-los são típicos de um sujeito descarado. Mais parecendo o ronco de uma moto Honda e cujo odor impregna o ambiente afugentando os frequentadores.

Advertido, na amaior diplomacia, ficou afobado e desejou saber quem o havia denunciado, a fim de tomar as “providências físicas” e até jurídicas.

Desejei contornar o assunto, durante a reunião, mas a Comissão de Ética não o perdoou. Resultado: exclusão sumária do “peidante” do quadro de associados.

E recordando aquele episódio tão nefasto, lembrei-me que num momento preocupante da conversa, quando tentei apaziguar a situação. Ele se levantou, após ouvir-me, brabo que só uma capota choca e com voz de trovão, bateu com a mão na mesa e engatilhou:

– Este clube não presta mais! Aqui não se pode nem peidar!…

Vista parcial da Sala dos Aposentados

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AMIGOS BEM CASADOS

Ann Mércia e o pintor Halmiro

Ouvi dizer que todo ser masculino só se completa quando encontra aquela parte de sua costela, que teria sido retirada por Deus para compor o ser mais perfeito, a mulher, figura que completaria o Todo Divino: o casal.

Em nossa trajetória de vida – o eterno aprendizado – quase sempre custamos a encontrar esse ser que nos completa. Mas, em outros casos, Deus nos mostra, logo no verdor dos anos, aquela que palmilhará conosco os futuros caminhos que focam a formação de u’a família.

E que família eles construíram! Bruno é arquiteto e Gabriela, ortodentista.

Mas, o certo é que possamos nos alinhar de tal forma que cheguemos a palmilhar os novos caminhos sofrendo menos as agruras das topadas, das quedas e com força para levantar novamente. A esposa é o guia, o Anjo da Guarda.

Conheci a fonte onde se iniciou a vida de Almiro, seu pai, o saudoso Humberto Leitão da Silva, aquele que levou a semente à sua esposa, d. Maria de Nazaré, e gerou-se um profissional magnífico – Almiro Antônio – cujo timbre de identidade artística se conhece por Halmiro, que ai está, em vivência plena de sua arte, produzindo excelente obra, participando de constantes exposições.

Quadro de Halmiro

O encontro do artista com Ann Mércia foi uma dádiva divina. Há 56 anos se conhecem e há muito tempo convivem. Geraram filhos admiráveis e agora cultivam a fase do outono da vida, sempre juntos e em todos os momentos sociais.

Brindo o querido casal de amigos bem casados na comemoração relevante que acontece em suas vidas. Até invejo o comportamento de ambos: dois velhotes jovens como nos mostra o flagrante da comemoração das Bodas de Ouro..

Que continuem felizes e alegres, produzindo coisas boas para todos, pelo menos por mais cinco décadas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM FRANGO CHAMADO LOLITA

Lolita – Arquivo de Jair Gomes Trindade

Ainda na década de 1970 os pederastas eram muito mal vistos e desrespeitados como cidadãos. Tanto que a maioria dos “tendenciosos” se ocultava, evitando dar a entender que fossem invertidos; ou seja: Veados, Boiolas, Uranistas, Maricas, Afeminados, Baitolas, Bundeiros, Frangos, Frescos, Queimadores do Carretel e mais uma dezena de denominações pouco republicanas.

Qualquer homem solteirão poderia ser enquadrado como “duvidoso” ou “pedreiro de meia colher”. Mesmo que não ostentasse qualquer trejeito, segundo os estudos do “especialista em viadagem”, meu amigo Jair Gomes Trindade.

No Banco do Brasil, por detrás dos balcões, havia funcionários que se assemelhavam a crianças em férias. Fora do expediente valia tudo. Inventavam-se apelidos e fazia-se presepadas incríveis.

O frango Lolita foi personagem de várias situações pitorescas com a turma do Banco. Mas tudo era armação. Certo dia chegou no balcão procurando Marco Aurélio, na véspera do casamento com Consuelo. Imaginem!

Tratava-se de um senhor de uns 40 anos que não tinha endereço nem atividade profissional definida. Era parrudo e brigão. Capaz de enfrentar até três policiais de cada vez. Mas quando atacava a viadagem se requebrava mais do que porta-bandeira de escola de samba:

Cantava pelas ruas, músicas de dor-de-cotovelo citando nomes de algum colega com o objeto de desmoralizá-lo. Tudo armação.

Ia para a porta do Banco, em pleno expediente e gritava:

– Lula, meu fio, venha logo! Tô lhe esperando na Rua da Guia.

Lolita era seu apelido. Seu nome, desconhecido. Vivia de limpeza dos locais onde se estabeleciam os puteiros do bairro do Rio Branco. Às vezes criava casos com as locatárias, motivando brigas homéricas. Havia cacetada geral, porque a Rádio Patrulha entrava em cena.

Mas a presepada maior foi armada em dias de 1964, em plena gestão da “Redentora”. Um ex-gerente de agência do interior – comunista todo – que havia sido destituído pelo Inspetor, voltou para o posto efetivo, trabalhando na Agência Centro do Recife. Mas preparou sua “vingança saramaligna”.

Gratificou Lolita para fazer a cena. Não se esqueceu que o Inspetor mastigava alho para não deixar transparecer o bafo de onça, pois bebia todos os dias uma boa dose de Pitu. Por isso sabia que recebera o apelido de “Bico Doce”.

O frango vestiu-se como gente e chegou ao setor de Câmbio, já em final de expediente, procurando Seu “Bico Doce”, colega que estava investido de alta cargo na Inspetoria e sabia ser possuidor do infame apelido.

Atendido no balcão por José Tavares e indagado sobre quem Lolita desejava falar com o Inspetor, saiu com esta, em alta voz:

– Diga a ele que é Lolita, a futura noiva dele.

Foi um arrazo! Antes de ser conhecido como “Bico Doce”, o Inspetor Meneguetti recebera a alcunha de: “ Inspetor So-lhe-mete”, porque por onde passava o gerente caia.

Mas o apelido de “Bico Doce” era uma facada na alma dele. Tinha horror. Logo que chegou para atender o suposto cliente, citado como “um senhor que estava procurando o Inspetor”, começou o fuzuê, quando Lolita disse bem alto:

– Meu “amô”, vim buscar o leite de nossas crianças!

Nessas alturas, os funcionários que de nada sabiam quanto à presepada, imaginaram que algo forte iria acontecer. A coisa ficaria feia e foram saindo sorrateiramente de suas mesas para não testemunhar.

O gerente que fora destituído da Agência de Palmares se vingaria.

O Inspetor arrodeou o balcão, já arretado, e foi atender Lolita perto do elevador. O frango armou um espetáculo. Partiu para os beijos e gritos histéricos. Solimete, depois do empurra-empurra, não teve outra alternativa senão lhe mandar um murro nas ventas.

Aí danou-se: o frango passou a se sacudir e gritar:

– Bate “Bico Doce”, bate Inspetor de merda. Bate nesse amor que já foi teu!!!…

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SE MIJAR DE “COCA” EU ATIRO!

Na década de 1980, logo que me aposentei do Banco do Brasil, fui ser auditor do Grupo Preserve, empresa de segurança e transporte de valores do velho amigo, Osmar Salvado de Lima. Organização com um braço de filiais na Paraíba, fazia parte do meu metier, também, empreender esporadicamente viagens a Salvador, Rio de Janeiro e cidades da Paraíba e do Ceará.

Certa feita, numa sexta-feira, pedi autorização para retornar de Campina Grande aproveitando uma das viaturas blindadas, um carro-forte que retornaria ao Recife com o cofre vazio, pois entregara o dinheiro na agência local do Banco. Logo, sem muito rigor para a condução de funcionários e afins.

Mas, como em tudo na vida há um macete, ao parar diante da filial da Preserve em Campina Grande, para me apanhar, notei ao ser encaminhado para a entrada no ‘Super Hulk”, que alí já havia um passageiro. Um rapaz em trajes civis, que se achava aboletado junto a um dos Seguranças, no banco dianteiro. A prosa estava animada demais para um motorista de carro blindado.

De Campina em diante tive que suportar a prosa, porque era em alta voz. O jovem parecia ser artista de alguma coisa. Na maior intimidade contava mil lorotas sobre suas peripécias nos palcos. Era um jovem meio destrambelhado. Magro, com cabelo de várias cores, calças apertadas, camisa tipo balalaica e botas alvirrubras.

Bastante afrescalhado, inclusive no tom de voz e trejeitos. Seguiria para o Recife, a fim de se deliciar numa noitada de arte em uma buate gay da Boa Vista. Por estar sentado junto ao motorista, notei a primeira irregularidade. Ali deveria estar o Segurança que era o Fiel de Tesouraria; portanto, a autoridade da viagem e não um carona.

Como seria natural, respondi a algumas perguntas durante a prosa iniciada pelo motorista, um conhecido veterano da Preserve, muito falante, que me forneceu algumas informações sobre a viagem.

Ao saber de minha função e estimando que alguma autoridade eu tivesse, capaz de prejudicá-los – pois soubera que eu era Auditor e acabara de fazer uma Inspeção naquela cidade – começou a se desculpar por estar levando o carona, solicitado por um dos seus amigos de Campina Grande. Com a cara mais deslavada do mundo, tentou me convencer de sua seriedade, informando que estava conduzindo o moço quase à pulso.

– Olhe, Seu Carlos, este rapaz é afilhado de um homem do Banco e não pude negar a vaga na viagem, acima de tudo porque o blindado estava vazio. O senhor compreende, a Preserve é cliente do Banco… Mas já estou arrependido porque se o senhor botar isso no seu relatório poderei levar uma lapada. E esse cabra tá me incomodando com essa conversa mole!

Permaneci falando o mínimo necessário depois da confissão do motorista. Notei que o ambiente ficou meio carregado. O “rapaz alegre” ficou sério e calou-se, depois de discreto aviso de Elias, levando o dedo aos próprios lábios.

Antes de chegar a Bayeux o veadinho teve um “ciricutico” e notei que ele ficou se espremendo, até que falou baixo com o motorista, pedindo uma paradinha no acostamento porque ele estava “se-uri”, ou seja, quase se urinando.

– Elias, meu filho, dá u’a paradinha aí no acostamento que preciso dar u’a mijadinha!…

Seria a segunda irregularidade grave do motorista porque carros-blindados não devem parar nas estradas em locais não previamente autorizados. Elias já vinha meio arretado, constrangido com o fato de estar levando um carona sem autorização da Base ainda mais diante do Auditor carregando um gaysildo.

Mas parou e o rapaz desceu ligeiro, já desafivelando o cinturão pra tirar as calças, ao invés de abrir o fecheclér e sacar o “instrumento” urinário.
Estranhei o modo, mas admitindo que o rapaz não era macho mesmo, me fiz de inocente. De repente, um susto. Vi o motorista sacar a arma, abrir a porta, apontar para o destrambelhado e em voz alta dizer:

– Olhe, cabra, se mijar de “coca” dou um tiro na sua bunda!…

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CAPIBA E NELSON – MACACOS EM FÉRIAS

Capiba e Nelson: dois galhofeiros. Foto: Diógenes Montenegro

Após 1984, quando biografei Capiba, ouvi através das entrevistas realizadas, uma coisa interessante. Dizia-se existir certa “disputa artística” entre ele e o saudoso maestro, Nelson Ferreira.

Certo apreciador de Nelson teve a audácia de me dizer que se não fosse o espírito corporativo da turma do Banco do Brasil e o próprio emprego vitalício, Capiba seria menos conhecido. De fato houve razões.

Enquanto Nelson lutava para viver, passando madrugadas inteiras regendo orquestras, copiando músicas e fazendo arranjos, dependia dessas atividades porque não tinha emprego fixo.

Mas, na verdade, nunca entre os dois se soube de nenhuma animosidade. Pelo contrário, quando se encontravam a galhofa comia no centro. Pois eram dois brincalhões e mestres nas respostas rápidas.

Em uma oportunidade, quando cobríamos noite de Carnaval no Clube Internacional do Recife, fomos entrevistar os dois personagens e a jovem Estagiária que estava comigo caiu na besteira de cometer uma gafe, perguntando qual dos dois era mais velho.

Nelson, de pronto, disparou na frente: “Eu nasci no outro século!… Capiba é uma criança…”

De outra feita, estando Nelson, no estúdio da PRA-8, durante o programa “Hora Azul das Senhorinhas”, onde tocava piano, perguntei se ele seria também pintor, já que em cima do piano havia um quadro à óleo.

– “Não meu filho! O único pau que costumeiramente uso para trabalhar é a batuta de maestro!”

Depois que se aposentou Capiba, ficou com o tempo mais folgado e passou a dedicar-se à pintura, dizendo que o pincel, seria, doravante, sua batuta regendo orquestras de imagens coloridas.

Mais uma vez entra a Associação Atlética Banco do Brasil e promove sua primeira exposição de arte plástica. Participando do empreendimento por delegação do Presidente, Sérgio Loureiro, cuidei da exposição.

A providência inicial foi contratar uma seguradora. Ao chegar à sua casa o primeiro trabalho foi numerar e anotar as legendas de cada quadro. Num deles não havia ainda o título.

A imagem se referia a macacos numa floresta, tomando banho num lago, um deles pendurado pelo rabo bebendo água.

Ele parou para pensar e como sempre galhofeiro, disparou: “Macacos em férias”. A risadaria foi geral.

Nelson Ferreira, também um gaiato, foi um dos mais notáveis de nossa cena musical. Criou valsas, sambas, xotes, chorinhos, operetas, frevos-canções, frevos-de-rua, tudo quanto fosse letra e música.

Seu cunhado Walter de Oliveira escreveu e publicou nos anos 50, sua biografia. Há pouco tempo a jornalista Ângela Fernanda Belfort lançou um trabalho mais completo e atual sobre Nelson.

O compositor Capiba, nascido em Surubim – que escreveu dois livros – foi biografado por três autores, um deles, citado em mais de um livro.

Nelson Heráclito Alves Ferreira também nasceu no interior, na cidade de Bonito, em Pernambuco, tocava violão, violino e piano. Assinou composições de vários ritmos e estilos, como foxtrote, tango, canção, valsa, mas se tornou conhecido como compositor de frevos.

Imagino que o título do quadro que acima me referi se haja derivado de certa tirada de Nelson, há muitos anos, respondendo a um repórter indiscreto.

Ambos os compositores eram amigos, tanto que Nelson fez vários arranjos para discos de Capiba. E quando o tal repórter-investigativo e indiscreto perguntou qual o nível de intimidade entre os dois, Nelson respondeu, escapando pella tangente:

– “Somos dois macacos em férias!”

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COCÔ NA CABEÇA

Lourenço da Fonseca Barbosa, o inimitável Capiba

“Espinha de Peixe”, meu saudoso colega Humberto Leitão da Silva, magricela por excelência, ficou espantado com certa cena que presenciou na década de 1940. Dois funcionários saindo da cúpula, lá do 3º pavimento do prédio, de cuecas.

Um deles foi identificado como o novato Lourenço da Fonseca Barbosa, recém-empossado e o outro, Pero Rodrigues de Sena, ambos admitidos “a título Precário”; ou seja, durante dois anos, ficariam em período de experiência.

Uma notícia correu à boca pequena.

– De cuecas, em pleno expediente, viram dois colegas trabalhando no setor de Arquivo Geral!

O “Prédio Velho”, situado na beira do cais do Porto do Recife, era um “forno” e os novos funcionários foram incumbidos de arrumar o Arquivo, tendo que deslocar pesados fardos com documentos, para várias estantes em dois andares, onde se exigia o uso das escadas e um sobe-desce infame para relocar farto material.

Para não amarrotar seus ternos brancos, de linho “York Street”, (o chic da época) o Chefe de Serviço sugeriu aos rapazes que poderiam tirar as camisas e gravatas, face ao calor do ambiente.

Logo que deu as costas, os funcionários fecharam a porta e tiraram também as calças, ficando apenas com as célebres “cuecas samba-canção”. Como por aquele pavimento poucos passavam, não haveria problema.

O fato não deu em nada porque “Espinha de Peixe” ficou de bico calado por muitos anos. Até que numa discussão, defendendo que o nome de Capiba deveria ser colocado na fachada do Prédio Novo, por seu mérito; enquanto o outro implicava que deveria merecer uma estátua na Pracinha do Diário.

E “Espinha de peixe” esbravejou:

– Aqui não tem um cabra mais meritório do que Capiba! (o então Precário: Lourenço da Fonseca Barbosa) que trabalhava até de cueca, naquele “forno”, que era a cúpula do “Prédio Velho”.

E no suave bate-boca Capiba se levanta e engatilha:

– Estátua? Deus me livre. Não quero que depois de morto venham os pombos fazer cocô na minha cabeça!

Mas o destino daria boa resposta: hoje o nome do compositor está na fachada da principal Agência do Banco do Brasil em Pernambuco e a estátua está à beira do Capibaribe, onde o Clube de Máscaras Galo da Madrugada faz a volta; ou seja, no coração do Recife.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CHUPAR MUITAS É PECADO!

Nesta casa a cena se passou há 80 anos

Chupar ou não chupar, eis a questão, diria o filósofo. Porém, não chupar é impedir um desejo que aflora logo nos primeiros anos da infância do ser masculino, a começar pelo seio materno e depois pela chupeta.

Após o meu nascimento, que ocorreu na casa de tia Nana e seu marido, o jornalista Xavier Maranhão, ainda permanecemos no Espinheiro cerca de três meses, até que papai trocou a casa onde residia por u’a melhor, mais ampla.

Fomos residir na Rua Conde Irajá, que me lembro bem, a casa tinha um quintal com muitas árvores frutíferas, sobretudo mangueiras. Recordo aqui de um fato interessante. Uma grave estripulia.

Já habitávamos o lugar há cerca de quatro anos, tendo meus pais conquistado boa vizinhança. Mamãe costumava fazer a feira semanal aos sábados, relativamente perto de onde morávamos, mas, desejando ir numa sexta-feira, estava difícil, porque papai estava trabalhando e não poderia ficar tomando conta do filho. Levar um cerelepe como eu seria complicado.

Era preciso ir ao “Bacurau” – apelido do Mercado da Madalena – e comentou o fato com D. Marluce, a vizinha. No final da conversa houve uma oferta para sua filha Marilene ficar com a criança. Mamãe aceitou, preferindo que a moça fosse lá para a nossa casa. E adiantou:

– Meu homenzinho tomará conta dela!…

Antes de sair adiantou à “cuidadora” que havia mangas disponíveis numa bacia de rosto, que estava na mesa da cozinha, todas lavadas. E Marilene poderia aproveitar para fazer um lanche, à vontade, já que em seu quintal não havia mangueiras.

Logo que mamãe saiu sugeri que fossemos para o quintal porque havia muitas mangas também pelo chão. Eu estava louco para chupá-las sem limite. Uma trela, naturalmente.

Por cautela mamãe não deixava que eu saboreasse mais do que uma por dia, para evitar desarranjo intestinal. E citava que “A gulodice era um pecado!”

Mas, diante de sua ausência, eu me esqueci propositadamente do pecado e ocultei da moça a recomendação materna.

A vizinha apanhou várias mangas, lavou-as com cuidado, sentamos num canteiro que havia no quintal e “mandamos ver”.

Só me recordo é que a moça levantou o vestido com a maior naturalidade, para evitar os pingos, sentou-se e abriu as pernas em atitude infantil. Perdemos a conta de quantas mangas chupamos.

Ao chegar, mamãe constatou que estava tudo em ordem. Estávamos na mesa de jantar fazendo desenhos com lápis de cor. Marilene, prestando contas, disse-lhe que da bacia só havia provado uma única manga, sem se referir àquelas tantas que chupara comigo, apanhadas do quintal, na maior folia.

No dia seguinte fui acometido de séria infecção intestinal, ao ponto de ser levado ao médico. No dia seguinte, à noite, ao conversar com a mãe de Marilene, pelo muro, mamãe citou o fato de eu havia sido atacado por uma infernal diarreia, daquelas de “chicotinho”.

Ouviu, então, que sua filha também estava do mesmo jeito. E nos primeiros ataques até obrara na cama.

– Que coincidência! – Exclamou mamãe, na maior inocência.

Na manhã seguinte, a vizinha foi lá em casa pedir desculpas pela traquinagem de sua filha, atribuindo a temporária doença intestinal, à quantidade de mangas que ambos haviam chupado. Dois traquinos!

Após a visita da vizinha, mamãe pegou-me pelo braço e com o dedo em riste lembrou a recomendação:

– Eu não lhe disse que chupar muitas era pecado?!…