CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A VIDA É ESPUMA

Bairro de Nova Descoberta, Recife. Foto de Izabel Maria da Silva Lopes

Uma vista panorâmica é um ponto de valorização do ambiente onde residimos. Melhor ainda se for clicada de um lugar alto, como esta, captada pela sensibilidade de Izabel Maria.

Poucas vezes temos a consciência do tanto que Deus nos dá gratuitamente, desde o levantar ao deitar dos nossos corpos. É preciso apenas aprender a perceber, por exemplo, a paisagem que está diante dos nossos olhos todos os dias.

Tenho essa consciência. Vivo bem. Melhor do que mereço. A partir de agora percebo que o leitor também poderá se envolver por esse sentimento.

Captando em foto uma simples paisagem ou escrevendo uma crônica, teremos atitudes que marcam instantes de harmonia. Fixam momentos de nossas vidas. Passam para a nossa História.

Tudo que acontece em nossas existências tem seu ciclo. Vivemos décadas bem diferentes, que passam a definir nossas vidas. São fases distintas do aprendizado a chegada à maturidade.

É quando percebemos, através das fotografias retiradas de velhos álbuns, que em cada um desses ciclos em que vamos amadurecendo, estivemos fazendo a nossa parte; transformando nossas vidas em algo bem definido.

Nessa fase temos que entender os golpes do Destino, os quais se apresentam quando menos se espera, como nesta quadra de vida em que o mundo está envolto numa névoa de incertezas cruéis, com a pandemia.

Mas, paciência! Nessa fase poderemos compreender que nosso Destino está traçado e por mais que nos esforcemos para fazer o melhor, sempre haverá um vírus no caminho.

Chegado o tempo de viver a maturidade, um fato novo surge sem que os mais jovens percebam: em nenhum momento, a vida é uma estrada larga e de piso suave.

Não percebemos que ao tomar consciência das responsabilidades como pessoas, passamos a percorrer a trilha, que cada um de nós recebe do Altíssimo para ir abrindo caminhos com os próprios atos e as forças que dispomos.

São os caminhos da vida, onde nem sempre as paisagens bonitas proliferam.

Uma trilha não é um trilho, digo eu. Trilho é um caminho de ferro, seguro, tranquilo por onde o trem de nossa vida vai passando.

Trilha é aquele caminho que cada um de nós vai abrindo pela floresta da existência. Que se vai alargando à medida em que outras pessoas vão passando, depois de nós, até se tornar uma estrada.

Mas, da trilha até a estrada asfaltada, leva tempo. São muitos anos de plantios e colheitas, que formam o tempo de nossa existência terrestre.

E quando se aproximam o fim dos ciclos de vida, é preciso entender que devemos nos comportar como se uma lanterna de popa fossemos. Sempre iluminando os outros, sempre ensinando.

Lanterna de popa é aquela luz que vem da embarcação que está na frente, cujo timoneiro conhece bem o caminho.

Como nos disse o médico-escritor, Pedro Nava:

Somos uma lancha navegando num igarapé escuro com suas luzes de popa ligadas para orientar os que estão vindo, pois já sabemos os caminhos a percorre e temos a obrigação de iluminá-los.

Há anos editei para o poeta Ernane Bezerra um livro onde ele fez u’a metáfora do mar com a vida humana E comentou como um filósofo:

“Nossa vida, sr. Carlos Eduardo, tão cheia de idas e vindas, subidas e descidas, é semelhante à onda, que depois de viajar tanto vem se quebrar na areia da praia, após cumprir seu destino”.

Deixou-nos o poeta esta linda imagem:

Mar te pareces tanto com a vida… Só que és eterno e a vida é espuma

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ANTIGOS E VALOROSOS (II)

Primeira agência do Banco do Brasil em Pernambuco, na Av. Alfredo Lisboa, 427

Em consequência da repercussão das notas anteriores que publicamos, sobre a influência da atuação de antigos funcionários na vida sociocultural e esportiva de Pernambuco, voltamos ao tema, desta vez abordando as décadas de 1950 até a primeira metade de 1986.

Não foram poucos aqueles que se tornaram ilustres, renomados e até beneméritos – tanto que receberam homenagens post-mortem com nomes de ruas e prédios, além de reconhecimento imaterial.

Aqui faço minha homenagem a todos que ainda não estão em nossa lista, porém, logo mais vão ser citados. De início, puxando pela lembrança, temos vários deles aqui assinalados, a quem a História ofereceu o aplauso:

José Hermógenes de Araújo Viana: diplomado pela Universidade de Coimbra, professor universitário, escritor e teatrólogo, fundador do Teatro do Sindicato dos Bancários; Lourenço da Fonseca Barbosa: – mais conhecido como Capiba – advogado, compositor de trilhas para teatro e pintor, tem nome em dois prédios da cidade e melodias que se projetaram internacionalmente;

Carlos Emílio Schuler: fundador da Cooperativa Banco do Brasil em Pernambuco, fundador da AABB-Recife, professor universitário e advogado; Aluízio de Oliveira Periquito: nome de rua no Bairro do Recife; Gutenberg de Arruda Peixoto: Primeiro Delegado Regional da Superintendência da Moeda e do Crédito; Olavo Monteiro de Oliveira Melo: escritor, Delegado do Banco Central do Brasil.

Adalberto Bezerra Camargo: nome de rua; Abimael Rodrigues da Cruz: médico-cirurgião e titular do Hospital Santa Eliza; Adeildo Matos Ribeiro Diretor do Grupo Empresarial Brennand e do Banco da Amazônia S.A.; Agenor Alves dos Santos; escritor e filósofo;

Gastão Betencourt de Holanda: escritor; Osman da Costa Lins: escritor; Agripa Ulysses de Vascomcelos: médico, escritor e novelista; Pedro Lima: Gerente de Câmbio da Direção Geral do Banco do Brasil, Diretor da Cia. Fiat Lux, Diretor da Cia. Indústrias Brasileiras Portela S.A.; Antônio Lustosa Cabral: Conselheiro Fiscal do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários; Antônio Pereira Pinto: Presidente do Banco do Estado de Pernambuco S.A.;

Álvaro Ramos Leal: médico, fundador da AABB-Recife, Secretário de Estado, Diretor do Serviço de Pronto Socorro do Recife, Presidente Emérito do Santa Cruz Futebol Clube; Armínio de Lalor Mota: médico, jornalista e professor universitário; Arnóbio Rosa de Faria Nobre: Presidente do Banco da Amazônia S.A.; Dorival de Souza Carvalho: Diretor do Banco do Estado de Pernambuco;

Eloy Barreto Buarque: industrial do ramo da construção naval, construtor, incorporador e hoteleiro; Everaldo Moreira Veras: escritor; Francisco Bayma: titular das Indústrias Alimentícias Santo Antônio; Francisco das Chagas Queiroga Lopes: titular da Disnove – Distribuidora Nordestina de Veículos Ltda.; Francisco Xavier de Vasconcelos: Diretor do Banco Aliança de Pernambuco; Getúlio Alves de Souza: Diretor da Sodima – Sociedade Distribuidora de Materiais Ltda.;

Gilberto de Oliveira Azevedo: Presidente da Federação dos Bancários Norte-Nordeste, membro da Confederação Nacional dos Trabalhadores, Deputado Estadual; João Batista Cordeiro Campos: Presidente da Casa dos Espíritas de Pernambuco; João José de Lima Costa: Presidente da Cia. de Armazéns Gerais de Pernambuco; Joaquim Amaral Cardoso: Presidente da AABB-Recife, Presidente da Cooperativa Banco do Brasil em Pernambuco;

José Aristophanes Pereira: Diretor da Carteira de Crédito Geral do Banco do Brasil, Presidente do Banco do Estado de Pernambuco; José Maria Aragão de Melo: Presidente do BNH – Banco Nacional da Habitação, Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico para a América Latina; José de Moraes Pinho: escritor Diretor do Banco do Estado de Pernambuco;

Mílton Persivo Rios Cunha: jornalista, ator, poeta, Presidente da Federação dos Bancários Norte-Nordeste; Presidente da AABB-Recife e do seu Conselho;

José Raimundo da Silva: Diretor da Federação dos Bancários Norte-Nordeste; Wilson Gomes de Moura: Grão-mestre da Maçonaria, Presidente da Federação Nacional dos Bancários; José Rodrigues Laureano: Presidente do Conselho Regional de Odontologia;

Josias Pereira da Silva: titular da Arcone – Ar-condicionado do Nordeste Ltda.; Jovelino de Brito Selva: nome de escola no Vasco da Gama e de rua no bairro da Mangueira;

Lauro de Oliveira: Delegado Regional do Banco Central do Brasil; Perilo Humberto de Lima: Diretor da Cia. Fábrica Yolanda S.A.; Rubem Alves Gomes: titular de uma cadeia de hotéis no Recife; Walter Coelho: Presidente da Cagep – Cia. de Armazéns Gerais de Pernambuco, Presidente do Planauto – Plano de Automóveis da AABB;

Severino Oliveira Moura: Conselheiro do Banco do Brasil; o mais antigo funcionário do BB no Brasil; João Alberto Martins Sobral: colunista social mais influente até os nossos dias; Otacílio de Alcântara Venâncio: o mais festejado Diretor Social de Pernambuco.

Era comum juntarem-se companheiros de trabalho para fazer homenagens àqueles julgados merecedores por seus feito. Na foto acima, vemos Jorge Marques de Souza, Lúcio Maria Clementino Pires, Renato Machado Maia, Luiz Gonzaga Alves de Araújo, Milton Correia Rezende, Luiz Mathias de Figueiredo, Fernando da Silva Cunha, Otacílio de Alcântara Venâncio, Agenor Nunes Aragão, Anísio do Monte Portela, Luiz Gonzaga Guilherme de Azevedo, Arlindo Pires e Abelardo Menezes. Foto de Wilson Cunha, em 1951.

Banquete realizado no Restaurante Leite, em homenagem a Francisco Bayma

São tantos que a memória não consegue alcançar. Todos deixaram exemplos de denodo para as gerações que estão vinda, porque foram realmente valorosos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TRÊS GUERRAS PSICOLÓGICAS

Esta criança, a partir dos cinco anos, ouviu o ruído das sirenas nos treinamentos de combate da II Guerra Mundial, no Recife. Sofreu a angústia de seus pais diante das perspectivas de o conflito se alastrar ainda mais. Estávamos em 1943. Foto Brivaldo Stúdio, Recife.

Sei perfeitamente que o inimigo atual, por ser invisível, é mais apavorante do que aquele com o qual me deparei aos cinco anos de idade, ao conviver com uma difícil guerra psicológica, muito mais preocupante, pois eu mal entendia os porquês da vida, o que é diferente hoje, 80 anos depois.

Lembro-me, sem que pudesse entender, na época, por que meus pais haviam saído de sua casinha nova, na Vila dos Remédios e foram passar certo tempo espremidos na casa de meu tio Sebastião. Ele morava na Av. Manuel Borba, junto ao Hotel Central, prédio que acolhia os oficiais da IV Frota Americana do Pacífico, fundeada no Porto de nossa cidade.

O Hotel Central foi construído a partir de uma iniciativa do empresário greco-suíço, Constantin Sfezzo, sendo inaugurado em 1928. Na época da Guerra já havia deixado de ser prédio de apartamentos para funcionar como hotel. Ficou lotado de oficiais da marinha americana.

D. Alice e Seu Arthur foram para o centro da cidade, a fim de atender ao espírito de família. Previa-se um bombardeio à cidade. Todos deveriam lutar, orando juntos.

O blackout (interrupção total de energia) torar-se-ia uma palavra tão costumeira que até um famoso cantor brasileiro ganhou o novo apelido. O famoso Otávio Henrique de Oliveira, também conhecido como General da Banda, se tornou Blecaute.

A II Guerra Mundial atingira nossas águas territoriais. Vivia-se, para nós brasileiros, na verdade, duas guerras. Uma lá na Itália e a outra, aquela do pavor, atacando os que estavam no Recife e nada tinha a ver com os inimigos do Eixo: Alemanha, Japão e Itália. Uma terminaria em 1945, a outra ficaria para sempre em nossas memórias.

Durante as madrugadas papai sintonizava em Ondas Curtas o velho “Colibri” e ouvíamos Luis Jatobá narrando na BBC de Londres, os bombardeios sobre a Grã Bretanha. Isto jamais me saiu da mente.

Minhas tias compreendiam que a guerra chegara ao Recife. Para o fundo mar já haviam ido 13 navios brasileiros, torpedeados em águas do Nordeste. Fora da Barra, muitos outros encouraçados da marinha americana, permaneciam fundeados para guarnecer nossos portos.

Modelo de Fortaleza Voadora, os B-17, que protegiam nossos navios mercantes, acabando com os ataques dos submarinos alemãs. A guerra no Recife chegara pelo mar

Nessa época estava se iniciando a construção do Hospital de Piedade, a pavimentação da antiga Estrada da Imbiribeira e a remodelação do Aeroporto Militar do Ibura. A nova pista facilitaria os pousos e decolagens das tropas norte-americanas, que iam para Dakar. Recife era o ponto de abastecimento.

A criança que eu era, naquele episódio, não sabia o porquê de tantos homens vestidos de branco, num só edifício. Mas, além daqueles, que eram oficiais, havia os de menor patente, que nos dias de folga inundavam as ruas. buscavam os bares e mulheres.

A guerra chegara. Nossos navios estavam sendo bombardeados por submarinos alemãs mesmo sem Declaração de Guerra. Entre 1942 e 1945 foram a pique os navios: Taubaté, Osório, Lages, Antonico, Buarque, Olinda, Cabedelo, Arabutã, Cairu, Parnaíba, Gonçalves Dias, Alegrete, Paracuri, Pedrinhas, Arara, Apalóide, Brasilóide, Tamandaé, Barbacena e Itagiba, a maioria cargueiros e navios-tanque. Total: 1.081 mortos.

No Recife, soldados do IV Exército Brasileiro participavam de exercícios de combate. Os feixes de luz dos holofotes cruzavam o céu à procura do nada. Os alemãs continuavam chegando pelo ar e sim pelo fundo do mar, utilizando seus infernais submarinos U-85, que atacavam como o atual Covid-19, à socapa.

Quando a sirene era ouvida, ao anoitecer, na casa de minhas tias, sabia-se ser sinal de que todas as casas do Recife deveriam permanecer de luzes apagadas. A Tramways desligava tudo até que terminassem os exercícios de defesa.

A cidade ficava totalmente às escuras. Era algo apavorante ouvir a sirena assobiando e se permanecer sob a luz de velas e candeeiros. Terrível era guerra psicológica.

Os tempos se passaram. Ocorreram apenas o terrível pavor. Mas dos bombardeios o Recife escapou. Relembrando aqueles dias, nada menos que 84 junhos se passaram. Agora adulto, recordo outra guerra psicológica, também silenciosa.

Quando pensávamos que a III Guerra Mundial seria entre países, como sempre se previu, com destruição provocada por bombas de hidrogênio despejadas de aviões não tripulados, eis que nos deparamos com o invisível inimigo.

Agressores sem pátria. Minúsculos vírus que formaram vários exércitos e atacam indistintamente pessoas idosas e jovens e em vários quadrantes do mundo.

Já vivi, também, um terceiro momento apavorante: o boato de que a represa de Tapacurá, a maior de Pernambuco, havia se rompido e iria arrasar o Recife. Foram quatro horas de infernal desembesto e apavoramento. As pessoas enlouquecidas correndo pelas ruas feita baratas tontas. Tragédia psicológica que felizmente só durou algumas horas. A Imprensa deu edição-extra. Um livro foi publicado com os depoimentos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DR. KAGALHOSTOF DE BOSTOLEFLAX

Arthur Saraiva Lins dos Santos, saudoso pai e grande galhofeiro

MULEQUE TUTU – Meu pai – Arthur Saraiva Lins dos Santos – tinha o espírito galhofeiro. Não perdia oportunidade para fazer uma “vítima”, adequando novo nome àquelas pessoas que tinham algo “diferente”, tanto no físico quanto no procedimento. Gostava de apelidar, contar piadas e declamar poesias engraçadas.

Na foto do meu velho – que por gentileza do Editor estamos publicando – veja-se uma referência às boas lembranças, nesta homenagem à sua imaculada memória.

APELIDOS NOMEADOS – Suas “nomeações” tinham a força do batismo. E quando o infeliz não gostava aí a nova identidade pegava mesmo. Nunca revelou, porém, que quando criança, tomara o apelido de “Moleque Tutu”, por ser o único moreno da família.

DOUTOR KAGALHOSTOF – Sempre que me via estudando compenetrado, galhofava: “Estude pra ser doutor!”. Dizia e completava: “E será tão famoso que terá seu nome ampliado para: Dr. “Kagalhostof de Bostoleflax”.

CAGALHÃO DE BOSTA – Mal sabia eu, aos oito anos, que a tradução do apelido era uma desgraceira: “Cagalhão de Bosta”.

CU DE PATO – Colega de trabalho, Caixa Pagador do Banco, muito gordo, era meio desarrumado. Trabalhando em pé, sempre estava enfiando os dedos nas partes glúteas, para ajeitar-se. Certa feita indagado sobre porquê se incomodava tanto em ajeitar o fiofó, já meio arretado, disse que tinha uma espécie de “Cu de Pato”. Ele mesmo acabou se apelidando para sempre.

AGULHA DE CROCHÉ – Selênio, magro, muito alto e ágil nas críticas, dizia que gostava de dar alfineitadas aqueles que se metiam em certas enrascadas. Era contumaz em ácidas críticas sobre tudo que ouvia comentar. Terminou conhecido como: Agulha de Croché”.

MEU LINDO – Personagem queridíssimo, certa feita ofereceu um chopp aos amigos, em seu terraço. Sua esposa, muito gentil, atendia a todos com a maior alegria. E referindo-se ao marido, a quem chamava, na intimidade, de “Meu Lindo”, assim se referiu várias vezes. O apelido pegou.

MARIDO DA GIRAFA – Quando a esposa de Anastácio chegou ao balcão foi apresentada a alguns colegas de trabalho, com certo orgulho. Italiana alta, vistosa, aquela estaca de mulher. Sendo muito mais alta do que ele, o pobre coitado, afinal, pegou o inofensivo apelido de “Marido da Girafa”.

INSPETOR SOLHEMETE – Inspetor de Banco já não é boa coisa e existiam, no meu tempo, uns terríveis. Assim era Marcílio Simonette. Sua fama era chegar e com dois meses de trabalho nas agências o Gerente “voava”. Evaldo Oliveira, muito ladino, resolveu batizá-lo como: “Inspetor Só Lhe Mete”.

ADOLFODIAS – Logo na posse, ganhou o apelido formado pelo próprio nome: Adolfo Moreira Dias, através do qual era assim referido e saudado. Achava graça.

ANTICONCEPCIONAL – Quando na década de 60 se instalou no BB o sistema de Caixa-executivo, era um exaustivo trabalho, pois fazia parte da atividade permanecer em pé. As esposas segredavam entre si que seus maridos estavam postergando “aquela obrigação conjugal” e o modelo passou a ser conhecido como: ”Anticoncepcional”, dado à exaustão deles. Os funcionários do setor chegavam em casa e não conseguiam “trepar” nem nas camas. Dormiam nos sofás mesmo.

BARATA DESCASCADA – Cidadão que havia sido acometido de vitiligo, aquela doença que deixa o corpo todo pintado de manchas brancas, tornou-se conhecido, na intimidade, como “Barata Descascada”.

MANEQUIM DE FUNERÁRIA – O colunista fubânico Mardonio Pessoa, nos lembra a alcunha de certo colega dos seus tempos na Mesbla, que andou desfilando de paletó e gravata. Dado ao biótipo físico – magro, alvo e pálido – não deu outra, naturalizou-se: “Manequim de Funerária”.

BODE RESPIRATÓRIO – Gregório era Porteiro e havia rigor com os horários. Depois do expediente, um “ilustre desconhecido” forçou a entrada dizendo que era autoridade. Foi impedido. Da rua, telefonou para o Gerente, que autorizou o ingresso. Momentos depois, recebeu cordial orientação, mas retrucou, dizendo que sempre era tratado como um “Bode Respiratório”. O apelido colou.

BOMBO FROUXO – Pela conformação abdominal, que o obrigava a andar meio desengonçado, recebeu a alcunha de “Bombo Frouxo”.

BOSTA DE URUBU – Um camarada que não parava nos setores, porque sempre amanhecia o dia mascando alho, a fim de tirar o mau hálito provocado pela “Pitucilina”. Ninguém queria estar por perto dele pra não sentir seu “bafo de onça.”

BARÃO DE CHOCOLATE – Mauro Mota publicou “Barão de Chocolate & Cia.”, trabalho mostrando a importância dos apelidos na vida das famílias, das empresas e das cidades, com base no Anuário Pernambucano, de Júlio Pires Ferreira, em 1903.

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ANTIGOS E VALOROSOS

Antiga sala dedicada aos aposentados e entidades ligadas ao Banco do Brasil. Ao fundo o estandarte do BB na Folia e o boneco Capibão, homenagem perene a Capiba. A AABB mantem recinto dedicado aos antigos e valorosos associados

Quando se fala em Capiba pouco se sabe que Lourenço da Fonseca Barbosa, funcionário do Banco do Brasil, foi um dos elementos que mais elevaram o nome da Instituição; tanto que seu célebre apelido foi titulado nome de um dos melhores prédios do Banco no País: o Edf. Capiba, sede da Agência Centro do Recife.

E sendo quem foi, Capiba sempre estará a merecer ser citado em todos os temas ligados às entidades criadas por antigos e valorosos colaboradores daquela casa bancária, a quem tanto devemos.

Cabe aqui recordar, de forma significativa, as palavras de Souza Melo, no dia em que homenageamos aquele compositor, em 1984, face à comemoração dos seus 80 anos. Porém, deixamos para a parte final deste comentário as palavras daquele mestre.

Falando sobre o cotidiano de profissionais que trabalharam durante 30 anos na mesma profissão, devo afirmar que a aposentadoria nos nivela a todos. Nos mantém sob o mesmo patamar; porém, provoca um distanciamento que nos leva à solidão profissional.

Os “pós-laboras” – eis a moderna denominação – sofrem porque seus títulos, os chamados Cargos em Comissão, ficam para trás. Perdem seu efeito como estatus.

O chefe se torna igual ao funcionário mais simples, embora perdure o respeito e as naturais reverências. Os encontros diários vão se tornando raríssimos. As pessoas vão se esquecendo até das fisionomias e dos nomes daqueles com os quais conviveram em longo cotidiano de trabalho.

No Banco do Brasil, felizmente, ainda tivemos, para encurtar as distâncias e nos manter ligados, três instituições de funcionários que nos mantiveram mais próximos: a AAFBB – associação dos antigos, um clube sócio-esportivo e cultural: AABB e um Plano de Saúde: a Cassi.

Antigos e Valorosos – José Augusto de Melo, Deoclécio Vaz de Medeiros, Henrique Wien, Evaldo Armando Oliveira, Milton Persivo Rios Cunha, Anísio do Monte Portela, Lourenço da Fonseca Barbosa, Álvaro Aragão Brito, Nelson Ribeiro e Humberto Leitão da Silva. Foto de Phebus Alves

Até os anos 60 ainda contávamos com uma boa frequência na Sala dos Aposentados, situado no mesmo prédio da maior agência do Recife, na Av. Rio Branco. Até os antiguíssimos ali se reuniam com maior frequência às quintas-feiras, sem que um programa específico houvesse. Era pura e simplesmente para zoar.

Entretanto, na AABB, essa reintegração se faz de modo mais amplo, pois permite que as famílias também façam parte da mesma confraria. Até se procurou congregá-los mais, com a implantação de um ambiente só para eles e as entidades ligadas ao Banco: uma sala especial no Clube.

O local se tornou animado. Havia exposições de arte, conferências, sessões de integração com a Academia de Artes e Letras, conferências da Cassi, horas de arte com pianistas e cantores. Enfim, a sala estava sempre cheia. A confraternização era permanente.

Foi um marco de reivindicações antigas a inauguração da Sala Mílton Persivo Cunha, que se notabilizou com o apelido de Sala dos Aposentados.

Mas a participação foi definhando até que a sala se tornou pouco utilizada. E infelizmente, por isso, foi transferida para um “esconderijo” no 1º andar da AABB, que jamais terá o mesmo glamour de outros dias.

A biografia, o jovem artista e o funcionário aposentado

Sobre o tema, jamais esqueci texto de um dos mais sábios colegas que tivemos: Álvaro de Souza Melo Filho, quando naquela noite, durante esplendorosa festa lançamos sua primeira biografia – “Capiba, sua vida e suas canções” – e ele discursou. Dessa fala, sempre com emoção, tenho repetido suas imorredouras palavras:

Éramos muitos iguais na variedade, variados na unidade e únicos na diversidade. Hoje somos poucos em pleno vigor da atualidade. Os que continuam agradecem a Deus esse crédito de vida para a continuidade das celebrações que acontecem com frequência e têm sabor de uma oração em agradecimento.

Fomos ao entanto, sendo menos ao longo dessa maravilhosa convivência, tanto no trabalho quanto em nossas duas instituições, que nos uniu como escola de valores éticos e morais.

Em toda existência, entretanto, se chega a um momento de tomar consciência de ter irremediavelmente atravessado uma fronteira. Atravessamos a nossa.

Naqueles locais quase sagrados nos reencontrávamos para viver saudades. Todos os dias notava-se um variado público de colegas. Todos tinham em vista recordar momentos e rever amigos.

Por isso, esses lugares nos devolvem um ar de encantadora magia, incomparável reencontro com o tempo perdido; o nosso ontem sempre relembrado em nossas conversas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DEFUNTO LAVADO

Banco do Brasil, onde trabalharam várias “vítimas” de apelidos. Foto Fritz

Por mais que eu queira não consigo aqui me impor como historiador ou biografista, linhas da literatura que profissionalmente adotei há muitos anos.
Eis que aqui, nesta infame gazeta, sempre recebo gentis comentários; todavia, apenas quando me refiro às “safadezas históricas”. Assim, o jeito é permanecer comentando fatos pitorescos.

APIBA – No BB, já nos anos 50, funcionava a “CIA” – Comissão Interna dos Apelidos”, presidida pelo mais safado dos colegas: João de Deus da Silva Carrapateira, sendo Vice-presidente, Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa, ali conhecido como “Apiba”, que era o apelido do apelido “Capiba”.

CARRAPATEIRA – Alguns apelidos, com o tempo, se tornaram as próprias identidades de suas “vítimas”, de tão expressivos que eram. Um deles aquele destinado a João de Deus.

MANÉ PREGUIÇA – Manuel se tornou conhecido após o episódio de um cochilo em serviço, quando trabalhava à noite, ainda no tempo da II Guerra Mundial. Nunca mais foi referido pelo nome de batismo.

Evoluiu, fez Curso de Teologia e ao diplomar-se foi ao Gerente mostrar o “canudo”. Discretamente, aproveitou para insinuar que se divulgasse, diante de seu novo degrau na vida, que os colegas evitassem a zoeira de chama-lo de “Mané Preguiça”, o que ocorria até nas hostes evangelicais.

PASTOR ALEMÃO – Convocado, João Carrapateira, Presidente da “CIA”, compareceu à Gerência, e ouve de Seu Saul Ildefonso de Azevedo, a sugestão de pelo menos criar um novo apelido, que não fosse tão degradante. Sendo Manuel, Presbítero de sua Igreja, logo se espalhou sua nova identidade: “Pastor Alemão”. Foi pior a emenda, como se diz.

DEFUNTO LAVADO – Era um chefe muito educado e cuidadoso. Parecia ter vivido na atual fase de pandemia. Entrava no prédio com uma pasta de couro, contendo xícara, pires, colherinha, guardanapo, saboneteira, sabonete, toalha e álcool; apetrechos para evitar a contaminação.

Sendo chefão, recebia clientes ilustres, mas evitava apertar a mão. Fazia verdadeira ginástica corporal para se esquivar. Quando não conseguia escapar, após o visitante dar as costas, logo se dirigia – inclusive com a pasta – ao wc, para passar álcool nas mãos.

JECA TATU – Aos mais próximos, “Defunto Lavado” deixou escapar que era desportista. Pertencia ao grupo de elite dos atiradores de certo clube dos Aflitos. Nunca podemos imaginar como se comportava pegando em armas, munição e exercitando a modalidade de Tiro aos Pratos, que é dificílima.

Até hoje não se soube como o infeliz apelido de “Defunto Lavado” chegou até as hostes alvi-rubras. Porém, não vingou.

Sabendo-se que era popular o apelido famoso de “Zezé Rato Podre”, velho remador; sendo “Defunto Lavado” muito magro, de fisionomia pálida, houve novo batismo. No Deticapesca, para a turma da pesada, ele virou “Jeca Tatu”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PUTEIRO FLUTUANTE

Restaurante Flutuante, mais conhecido como “O Puteiro de Arlindo”, monstrengo atracado, ao lado da Ponte Maurício de Nassau, no Recife (Foto do Diário da Noite, 1950)

Em 1953 o Recife ainda era meio bucólico. Mas já se projetava em invenções e inovações de alguns modelos de vida. Os bondes começavam a sentir a concorrência dos primeiros ônibus importados da América: os Super-White Marmon Herington, da Pernambuco Autoviária Ltda.

Depois vieram os elétricos. Surgiu a Sudene, com forte influência no crescimento populacional, gente desprovida de condições, motivando o aparecimento das favelas e ampliando as áreas de prostituição.

Mas a cidade transformar-se-ia em Metrópole do Nordeste. A raparigagem, porém, se ampliou, como nos tempos da II Guerra Mundial. As Zonas se espalharam pelo bairro do Sargento Pina, mas o foco principal permaneceu na área circunvizinha ao porto de mar.

João de Morais Moreira, comerciante muito à frente do seu tempo, teve a singular ideia: criar um restaurante que funcionasse sob as águas do Capibaribe. Um restaurante flutuante.

De certo modo, poderia ser um ponto de atração da mulherada, pois distante da chamada Zona do Meretrício, antes de subir a ponte lá estava a atração chamativa.

Mas Moreira pra economizar, criou um estabelecimento comercial improvisado Praticamente um “arranjo” de carpinteiro “meia boca”. Teve o propósito, subliminar de criar um ponto de atração turística da putaria.

Pretendia aproveitar a grande movimentação da “Zona”, onde a “quengagem” explícita funcionava à todo o vapor pelas adjacências.

O Restaurante Flutuante ficava ancorado no Capibaribe, ao pé da Ponte Maurício de Nassau. Por alguns anos passou a fazer parte do roteiro de atrações da “Zona”. Teve sua sorte menos significativa, mas ficaria, igualmente, na História.

Sua construção não contou com uma arquitetura bem definida. Fora montado num tablado em cima de vários tonéis, possuindo uma parte de cobertura sem teto, como se fosse o terraço de uma embarcação.

Possuía mastros com bandeiras. Tudo encantava o passante. Atraia pela singularidade. O freguês podia jantar rodeado pelas águas do Capibaribe. Era uma emoção! Parecia um vapor atracado num porto do Capibaribe.

Nos primeiros anos notava-se o esmero. Em pequeno palco, apresentava-se o pianista George Baltazar. Mesas alinhadas, com toalhas de linho, funcionários bem trajados, corteses e pratos internacionais. Havia pequena pista de dança.

Anos depois, diante de críticas de ferrenhos historiadores e jornalistas, o Flutuante foi perdendo certa classe e passou a enfrentar problemas, a partir de 1959. Transformara-se, de fato, numa agência de prostituição.

Findado o glamour inicial que as novidades despertam o proprietário não acompanhou o modelo dos primeiros anos. Os clientes foram se afastando, havia a presença de muitas “prostitutas pé de chinelo” fazendo ponto pela redondeza. Tornou-se antro de raparigagem, contravenções e brigas, até que foi interditado.

Sempre que passo por perto da Livraria Ramiro Costa fico a recordar aquele tempo, vendo parte do Flutuante perdida num tempo de certo glamour. Ali, resta apenas um pedaço de piso enterrado no mangue, como se a peça permanecesse, marcando o tempo histórico que representou, na atmosfera boêmia do Recife.

Inegavelmente fora uma ação de pioneirismo de Seu Moreira. Mas, tempos depois, quando negociado por um Araque de Polícia de nome Arlindo, se manteve caindo aos pedaços, funcionando, mesmo interditado pela Prefeitura.

Tornou-se o único puteiro flutuante da região.

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CHANTECLER – CABARÉ DAS ILUSÕES

Um semblante na minha memória (Getty Imagens)

O cabaré Chantecler, situado no antigo bairro boêmio do porto, ficará para sempre na memória dos dançarinos da capital de Pernambuco. Notadamente pelos furos que a gente levava nos Cartões de Frequência, para ter o direito de dançar com belas moças.

Um local de fino trato, onde ninguém se recusava a rodopiar no salão, cujo piso era de taco e bem encerado, tendo Inaldo Vilarim por maestro de ótima orquestra e extraordinário repertório romântico.

Ficou fechado durante mais de 30 anos até que a iniciativa privada resolveu apresentar um projeto para ali construir um shopping. Mas ainda hoje permanece como obra parada. Um esqueleto marcado por alegres lembranças dos anos 40/50.

O Chantecler é apenas um símbolo na paisagem da zona boêmia da cidade. Marca forte saudade nas minhas lembranças de solteirice. Com meu tio Sebastião Carvalho, também bancário, solteirão e boêmio, compareci certa noite para conhecer o ambiente.

Subimos uma escada longa, bem lustrada. Ao chegar, graciosa recepcionista nos cumprimentou entregando um “cartão perfurável”, todo cheio de quadradinhos; coisa que não entendi bem para que servia.

No verso, algumas regras de comportamento. Era a forma de registrar quantas vezes os participantes dançavam, a fim de se proceder à cobrança, ao sair. Exigia-se paletó e gravata e não se podia levar companhia. Havia cerca de 20 moças disponíveis distribuídas nas mesas ainda vazias. Estreiante, comecei a indagar:

– E se faltar dançarinas?

– Eles mandam buscar as melhores damas do Puteiro de Zulmira!…

Prédio do antigo Chantecler, Av. Marques de Olinda, Recife

No balcão, o gerente Maricel, com quem fiz amizade, empunhava um pequenino alicate niquelado, e após cada parada da música, as dançarinas iam ao balcão para ele fazer funcionar o furador de cartões.

Meu companheiro explicou detalhes. Quanto mais dançássemos maior seria a conta, além das bebidas que ingeríssemos. Sentamo-nos para nos ambientar.

Ele pediu um conhaque, bebida forte, ara “ativar os nervos” e eu, um guaraná Fratelli Vita, que era delicioso mas não ativava coisa nenhuma. Estava explicado como seria a minha participação como estreiante, pois ele sabia de tudo, por ser habitué.

As dançarinas postas à disposição, nas mesas enquanto vazias. Eram educadas, bem vestidas e não tinham aparência de prostitutas.Ficavam sentadas em local visível como se fossem “de amostra”. Tudo com muita classe. Após a primeira dose de guaraná, algumas perguntas e respostas, me animei.

– De onde eles trazem tantas moças?

– Do “estabelecimento” de “Mari Good”, de Natal.

A sorte, de imediato me bafejara. Uma delas, bem jovem, alva, nascida na Suíça Pernambucana, me fitou com certo olhar de “seca pimenta”. Não resisti. Fui arrastar os cambitos. Já atuando no jornalismo fiz breve entrevista, sem intimidades.

– Costuma vir de dançar aqui?

– Sim; além de apreciar músicas gosto de ambiente alegre. É um bom emprego. Qual é sua ocupação?

– Sou jornalista iniciante. Foca, como chamamos. Mas estou de folga. Também trabalho num Banco americano, aqui perto.

Decorrido breve tempo, embalado por emocionante tango de Gardel, notei que os metais da orquestra deram uma paradinha, permanecendo na cena apenas os ritmistas e o som do piano dedilhado por Isnar Mariano. Ela me pediu licença e indagou se eu continuaria na pista com ela.

– Claro que sim!

Naquele momento eu já havia resolvido dançar até não poder mais. Só pra não perder a dançarina e ter que pegar outra qualquer, se desejasse dançar. Naquele instante em que se afastou com a maior classe, notei o discreto gingado. Fora à Recepção. Precisava perfurar meu cartão. Cumpriria a norma. Tudo certo.

Fiquei por ali um tempo semelhante a um décimo de átomo. Meio largado, mas disfarçando o temporário abandono. Mais ansioso do que cadela no cio.

No balcão vi o semblante do Meireles, sorridente, atendendo à furação de cartões, apresentados num relance, por cada uma das jovens, que deixavam seus pares, para “faturar”.

Ao retornar, breves palavras reconfortantes e começamos a dançar o maior sucesso de Bienvenido Granda: “Perfume de Gardênia”. Um bolero de lascar. Ai nossos rostos já se encostavam em certa intimidade. E nada de conversa para evitar que o coração fraquejasse. Mas, na verdade, aquele órgão das sensações estava querendo pular do peito.

Nova parada. Novo furinho no cartão. Aí “deu brabo”… Escutei emocionado o canto de: “Palavras de mujer”, sucesso do portenho Gregório Barrios. Não havia quem aguentasse! Eu já sentia certa “paixonite aguda” me tomando as entranhas do coração. “Tava bebido!”.

Continuei dançando. Mais animado do que pinto no cocô. Era a orquestra parando, ela me largando, Meireles faturando e recomeçando aquele exercício suave de deslizar nas nuvens.

Rosto no rosto, roça não roça, aquele frenesi. Mas, àquelas alturas… quando o salão ficou com luz de buate… aí “deu a muléstia!” Pensei em comprometer minha gratificação de Natal do Banco. Valeria a pena deixar que Meireles completasse o cartão, furando “na doida”, como se diz no vulgo.

Meu cartão viraria um bagaço, pensei. Mas nem liguei. Os rostos colados, aquele roçadinho de coxa muito discreto, quase inocente; o bongô dominando o compasso, o sax dolente recordando Agostin Lara, aqueles dois pauzinhos mágicos emoldurando o compasso dos boleros e o bandoneon chorando na rampa…. Quem resistiria?

Mas a “consciência” do meu bolso, o compromisso de manter meu orçamento no limite para aquela noite… tudo ficou contra meus anseios.

Imaginei a desgraceira se eu dançasse mais algumas vezes. Teria que ir-me, pois meu tio já me olhava preocupado, diante daquela visão do “meu pré-namoro” com a dançarina de Garanhuns, cujo nome nunca perguntei.

Ouço, como se uma punhalada emocional em final de festa, um substituto do grande Nelson interpretar: “Fica comigo esta noite”. Foi o mesmo que me empurrar de escada abaixo. Beijei a mão da moça demonstrando que tinha classe, me despedi, paguei os furos do cartão e sai furado.

A madrugada corria para o amanhecer. Fora aquele o meu primeiro contato com a noite num cabaré alinhado. Dancei um bocado. Saí enamorado. No verso do cartão que guardei por bom tempo, havia uma recomendação: “Nossas dançarinas não têm permissão para sair com os clientes”. Foi um tiro mortal!

O que me lembro, além da moça com quem quase me apaixonei, é que meu cartão ficou mais furado do que uma tábua de pirulitos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RESPOSTAS EM CIMA DA BUCHA

A Rua da Guia, local do Cabaré de Zulmira, maior puteiro do Recife

Fico sempre a matutar com a capacidade que algumas pessoas possuem de dar respostas precisas. Durante algum tempo selecionei algumas, num caderno para mais adiante escrever sobre o assunto.

E, novamente, graças ao Ibope que minhas crônicas têm merecido de generosos leitores, volto ao tema que enfoca respostas na bucha, capacidade rara de alguns.

Nos idos de 1940 as famílias ainda tinham direito a ter Secretárias Domésticas, às quais eram conhecidas por “Empregadas”. Mamãe era rigorosa nas admissões e não lhe escapava a entrevista prévia.

Certa feita se apresentou, sem recomendação, uma sacripanta ainda nova, de uns 20 anos mais ou menos. D. Alice já não gostou da cara da sujeita. Descabelada, de chinela de vaqueiro, bico do peito quase à mostra.

Mas mandou-a sentar-se no terraço e soltou os verbos indagativos.

D. Alice – Minha filha, você ainda é moça?

Judite – Olhe dona, já perdi meu cabaço há tempos!

Continuando o “questionário”, que era exigido pra começo de conversa, mamãe entrou de sola, na segunda fase. Já com um pé atrás.

D. Alice – Moça, você já teve gonorreia?

Judite – Que eu me lembre não!…

Mamãe, muito ladina, desejou fazer um exame superficial na “camarada”. Pediu que levantasse um pouco o vestido a fim de verificar as pernas, pois notara que havia sinais de “pereba recolhida”, várias manchas escuras.

Tais lesões indicavam claramente sinais de alguma “4ª. Venérea”, a doença infernal que fizera o Recife ter a fama de se tornar conhecida como: “Recifilis, a Venérea Brasileira”. Lá veio a pergunta-bomba:

D. Alice – E essas manchas, o que são mesmo?…

Edite – Ah, minha dona, os “home diz” que é “medalha de bom comportamento”.

D. Alice – Quem lhe deu tanta “medalha” minha filha?

Edite – Trabalhando como “quenga”, lá em Zulmira.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RESPOSTAS ENGATILHADAS

É interessante observar que algumas pessoas respondem indagações de forma muito rápida. Espirituosamente devolvem as perguntas, via de regra, com respostas que fazem rir. Parece que estão com as soluções engatilhadas.

Quando fui contratado para a Assessoria de Imprensa do Sport Club do Recife, tive acesso a algumas festas particulares, promovidas por rubro-negros memoráveis, dentre eles: Mílton Bivar, Murilo Paraíso, Marcelino Lopes e outros próceres da década de 60.

Por ocasião do relançamento da revista daquele clube, em maio de 1965, Dr. Gilberto Duque de Souza e sua esposa, D. Nelly, comemoraram o primeiro aniversário de sua gestão como Presidente do clube, e discretamente, o fato de sua filha Telma, haver sido escolhida para ilustrar a capa da revista.

A fim de animar a festa, o empresário do cantor Altemar Dutra, acedeu a uma sugestão de Palmeira, levando o artista para o jantar na residência do Presidente.

Nos finalmente, depois das merecidas saudações a Gilberto e sua família, houve uma série de fotografias com o astro. Mas, eis que um oportunista, desses “puxa sacos de carteirinha”, caiu na besteira de improvisar, anunciando que o cantor faria uma apresentação-surpresa.

Altemar, muito educadamente, se desmanchou em desculpas ao casal recepcionista. Justificou que havia ido ali por questão apenas de prestígio, sem saber que teria que cantar. Por aquela razão não havia levado seu instrumento.

Mas o fato teria passado sem maiores consequências, a não ser os lamentos femininos. Após o fiasco, um cidadão, caiu na besteira de provocar uma gafe. Pegou
Altemar pelo braço e soltou umas palavrinhas que foram publicadas nos jornais do dia seguinte:

Manuel – Mas Altemar, por que você não trouxe o violão?!…

Altemar Dutra – Porque meu violão não come nem bebe!…

Dr. Pacífico dos Santos, Juiz de Direito, na década de 1940, usava cabeleira cheia, barba longa, costeletas compridas e bigode. Chega a uma barbearia no Largo da Paz, e ao sentar-se, depara-se com uma novidade. Seu cabeleireiro habitual estava de férias. O dono da firma, entretanto, lhe apresenta Manuel, que lhe oferece um largo “Bom Dia”.

Esquecera o chefe de recomendar que aquele ilustre cavalheiro não gostava de conversa mole, porque utilizava o tempo para ler parte do jornal. E puxando conversa preliminar, disse Manuel:

Barbeiro – Doutor, como quer que corte seu cabelo?

Dr. Pacífico – Quero calado!

Visto de fora, pela ótica da clientela, o Banco do Brasil em 1950 representava uma comunidade de funcionários atenciosos, capazes, zelosos e até sisudos. Contudo, longe da trabalheira do expediente, porém, sempre houve entre aqueles senhores, alegria, camaradagem e bom humor.

Retornando de férias quando viveu sua Lua de Mel na Europa, Antônio Victor Pires de Lima Rebelo, se reapresenta para o expediente e começa a discorrer para os colegas as maravilhas da sua excursão. Deixa, porém, uma intimidade para segredar ao seu Chefe, que naturalmente, merecia a melhor notícia.

Ocorre que o Chefe da Carteira Agrícola, era o Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa – nada menos que o irreverente Capiba – conhecido por suas tiradas incomparáveis. Discretamente, Antônio Victor se abaixa e despeja em seus ouvidos que vivera um sonho, passando por lugares muito românticos. E adiantou que guardara a melhor notícia para ele, fraterno amigo.

Antônio Victor – Desconfio que minha mulher está grávida!…

Capiba – Desconfia de quem?…