CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CONTATOS NA QUARENTENA

Imagem: Fotoseasch

Selecionei episódios interessantes que envolvem alguns dos meus amigos, nos quais apresento u’a maneira de sobreviver ao Isolamento Social, através de comunicação quase diária com a “velharia”.

Temos um grupo que independente de outros equipamentos, usam o telefone-fixo para conversar à vontade. Prosas de velhos, claro. Mas, tudo na base da zoeira.

O mais descarado, Luiz Carlos, chegou a comentar com minha senhora que não reparasse os seus telefonemas todos os dias, logo cedo, porque era seu hábito “fiscalizar” se todos os velhotes de sua laia estavam bem durante a quarentena. Imagine!…

Tendo ultrapassado os 70 anos de idade, eles procuram notícias, entre si. No caso, como está meu estado de “deteriorização física”. Da mesma forma procedo com eles, embora em dias alternados.

Por isso achei interessante aqui resumir alguns inícios de tais telefonemas e minhas respostas:

Luiz Carlos – Como você tem andado?

Com as pernas; queria que fosse plantando bananeira?

Marco Aurélio – Quem está falando?

É você, claro; eu estou ouvindo!…

Luiz Felipe – Quais são as noticias?

As que estão na mídia; não está lendo?

Sérgio Loureiro –  Não tenho tirado o pé de casa!

E antes, tirava um pé para andar?

Manoel Zé – Tô feito parturiente: de resguardo; e você?

Tô feito o marido; aguardando a quebra do resguardo.

Jair Trindade – Num tais sentindo alguma coisa ruim?

Medo de usar a rede porque não combina com velho.

Telêmaco – Como estais, Carlos Eduardo?

Tô sentado, escrevendo.

Almiro – Num tais misturando os dias da semana, não?

Tô. Agora todos os meus dias são feriados.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O ELDORADO NA PONTA DO DEDO

Fui apresentado à cinematografia em 1942, quando contava cerca de seis anos. Meu tio Érico Carlos Dantas de Oliveira preparou uma festa para celebrar o aniversário de minha priminha, Lucy, de idade semelhante à minha.

Tia Mariita e seu marido moravam na Torre e tendo a casa amplo terraço lateral, ali se instalou um cinema improvisado. Os convidados se acomodaram em cadeiras e bancos. A criançada sentada e os adultos de pé. Era grande a expectativa dos pequeninos. E muitas indagações.

Aquele meu saudoso tio, para encantar a esposa, os filhos e seus amiguinhos, alugou uma empresa que rodava filmes nas residências. A meca do cinema se tornou uma atração. Mas, só fui conhecer aquele “mundo encantado” depois de adulto.

Mas voltemos à década de 40, quando ocorreu meu primeiro encontro com a Sétima Arte. Naquele dia mágico de minha infância me identifiquei com uma grande tela, onde surgiram os já famosos artistas: Stan Laurel e Oliver Hard, mais conhecidos como “O Gordo e o Magro”, cuja fama já percorria o mundo. A trilha musical era ouvida por acordes de piano, e sendo o filme ainda mudo, os pequenos espectadores tinham que entender o que se passava através dos gestos. Tempos depois, já pré-adolescente, fiquei habituado a ir todos os domingos ao Cinema Eldorado, situado no Largo da Paz.

No início da década de 50 já se exibiam os filmes legendados nos vários cinemas do Recife. Mas nos incomodava muito porque não raro perdíamos detalhes de uma cena, pois tínhamos que soletrar as famosas “legendas de João Branco”.

Quanta diferença tecnológica! Meus filhos ainda chegaram a ver os filmes em “Terceira Dimensão”, que eram apresentados no Cinema Art Palácio. O progresso deu pulos. Em dias atuais já funcionam várias salas oferecendo exibições em 3D, com óculos especiais.

Meus bisnetos, hoje rapazes, podem obter a visão de imagens cinematográficas apenas dispondo de um smartphone. Que maravilha!

Ao simples manejo dos dedos Logan, Lucas, Set e Isabela Telga, podem dispor de filmes notáveis, por livre escolha a custo insignificante.

Ah!… Como teria sido bom se eu tivesse – na época de infância – o Eldorado na ponta dos dedos!…

Na Calçada da Fama, um super-herói meio fajuto. Marca de um tempo

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O DEDÃO DE DR. BRÁULIO

Na Pensão de D. Berta, no Recife, como em várias outras que funcionavam na Boa Vista, eram acolhidos rapazes que vinham do interior de Pernambuco e estados vizinhos para fazer cursos superiores no Recife.

Eram hóspedes, entre outros, nomes que se fizeram notáveis na cena pernambucana. Capiba, Carnera e Ariano Suassuna, que estudavam Direito; João, Marcos e Bráulio Baraúna, cursavam Medicina.

Grande galhofeiro, Carnera sempre zoava dizendo que Bráulio não seria bem sucedido na especialidade de proctologia dado ao avantajado tamanho de seu dedo indicador.

Bráulio diplomou-se e Instalou seu consultório, tornando-se renomado na especialidade. Mas, à boca pequena, se tornou conhecido como o “Terror do Edf. Ouro Branco”, em face das conversas que ouviam pelos corredores e no elevador.

Quando havia alguma questão mal resolvida entre eles, o adversário soltava o impropério; que representava uma praga infernal:

– Que um dia o satanás te dê uma hemorroida tratada por Dr. Bráulio!…

Certa feita fui acompanhar um parente que fizera cirurgia de hemorroida. À medida que as pessoas iam saindo do gabinete e passavam pela Sala de Espera observávamos que as fisionomias estavam carregadas de sofrimento. Como se todas esperassem um sacrifício.

Naqueles anos da década de 50 se medicava os pacientes pôs-operados de hemorroida, com a aplicação de nitrato de prata. Um medicamento terrível. Ardia que só pimenta, quando entrava no ânus, segundo os pacientes.

A temida caixinha do remédio e os bastões que eram introduzidos nos ânus

Na sala de espera, todos estavam circunspectos, calados e apavorados. Era o estágio mais tenebroso da cura das hemorroidas: a aplicação do nitrato de prata. Era muito incômodo: o cirurgião enfiava o dedo indicador levando ao ânus um pouco de pomada e em seguida empurrava o bastão medicinal. Para alguns, algo desmoralizante.

Observei que havia um senhor moreno, bem forte, que estava inquieto e trêmulo, com quem fiz certa camaradagem, mas fiquei surpreso quando ele se dirigiu a um dos pacientes que deixara o gabinete do médico.

– Amigo, perdoe a pergunta, mas… ardeu muito?…

De tão sofrido, o infeliz balançou a cabeça afirmativamente, ainda com os olhos lacrimejando.

Naquele momento Abílio me disse que estava quase “cagando fino”, de tanto medo. E ainda lhe incomodava a “dor moral” de levar dedo no fiofó. Foi mais além, na confidência. Falou-me que quando saia de casa, “operação” que fez na maior moita, evitando que o assunto de sua cirurgia não viesse cair nos ouvidos da vizinhança, deu-se a merda.

Ao entrar no táxi, apareceu um conhecido, aposentado, daqueles velhotes chatos, que lhe indagou por que estava mancando, ao que Abílio informou ter sido uma má jogada no basquete; um adversário deu uma cotovelada seu ovo.

A Sala de Espera foi se esvaziando. Chegada sua vez, o afro-nordestino mudou de cor. Entrou quase empurrado pela esposa. Lá dentro, demorou um bocado a conversa preliminar com o médico, a fim de acalmar o homem, que transfigurado, tinha os olhos fixos na mão do médico; principalmente no “dedão” direito, segundo me disse a enfermeira.

Depois se ouviu um silêncio aterrador, o que me fez imaginar seu sofrimento suportando o “dedão” do Dr. Bráulio, sem um único gemido. Ao sair e vê-lo suando mais do que tampa de chaleira, fui eu quem indagou muito discretamente:

– Seu Abílio, ardeu mesmo como pimenta?

– Ardeu que só a bexiga; mas suportei porque sou macho!…

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NO PÉ DO CIPA

No segundo prédio à esquerda ocorreu o fato. Na foto vemos o edifício-sede do Moinho Recife, o Banco do Brasil, os edifícios São Paulo, Socorel, Bandepe, Banco Nacional, o cabaré Chanteclair e a cúpula da Concatedral da Madre de Deus. Foto de Fritz Simons.

Cenário: Elevador lotado.: 22 pessoas. Todos calados e sérios. Fase braba do Regime Militar: 1968. Local: Edf. Capiba, sede do Banco do Brasil. Dentre os muitos passageiros alguns funcionários, dentre eles, as moças Marise e Gerusa, ambas Sonografistas. Estrelas do nosso tema.

Época dos “Gatilhos Salariais”, sistema implantado pelo governo para proteger os trabalhadores contra a inflação.. Era comum os acréscimos mensais de 20 a 30%. A boataria dos reajustes comia no centro. Era um frenesi.

Enaldo Guimarães, ascensorista sempre alegre, anunciou: “Fique no 2!…” Adaptara ele a um jargão que se firmara porque um locutor da Tv Jornal do Commércio recomendava aos ouvintes permanecerem no Canal 2, da emissora de F. Pessoa de Queiroz.

Ao abrir-se a porta do elevador, surge a Sonografista Gerusa. Nessa época o elemento masculino ainda predominava entre o funcionalismo.

Parado o elevador, uma pergunta se ouviu da moça que esperava o ascensor:

– Marise, tem um boato aí que vamos receber 25% este mês!

Logo a resposta imprevisível, que nos deixou estupefatos:

– É boato! Só acredito quando o dinheiro estiver no “pé do cipa”!

E para dar mais teatralidade à afirmativa, Marise bateu com a mão, duas vezes, na região situada entre a pélvis e a coxa. Local anunciado como: “O Pé do Cipa”. O ditado é praxe na linguagem dos menos cuidadosos, quando definem que alguma coisa “está no papo” ou no bolso. Logo, entenda-se que o “pé do cipa” é o mesmo que “coisa garantida”.

Os homens se entreolharam horrorizados com o diálogo e a encenação de u’a moça de tão fino trato e elegância.

O caso se desdobrou. Breno Maciel, sendo um chefe cuidadoso e colega fiel, fez chegar ao pai de Marise, sua preocupação pela expressão vulgar usada por sua filha, que inocentemente a pronunciou, sugerindo orientá-la a respeito. Foi grande o constrangimento, mas fora uma atitude educativa.

O “rolo” subiu no mesmo dia para a Gerência Geral. Manso e cordial Dulcídio foi solicitar ao Gerente Agenor Mendes a transferência de sua filha para outro setor Alegou que na Cobrança trabalhavam muitos rapazes e nem todos rezavam pela cartilha da educação, soltando palavrões, à toda hora, indistintamente. E narrou o fato que acontecera.

O gestor ouviu com muito respeito a narrativa de um pai ainda trêmulo e logo telefonou solicitando que o chefe da CACEX subisse para falar com ele. Jarbas Loureiro foi à Gerência. Depois de ouvir o grave problema da moça permanecer no setor de Cobrança, o Gerente indagou se ele poderia acomodá-la na Carteira de Comércio Exterior.

Jarbas, engatilhou o “sinal vermelho”:

– Agenor, aceitaremos a moça com muita honra mas certo constrangimento, porque fica a ressalva: na CACEX o vocabulário corrente é de “fela da puta” pra cima!…

Marise foi trabalhar no Gabinete Médico. Fechou-se a cortina!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

OPERAÇÃO CHEVROLET

Na década de 40, quando eu contava uns 12 anos, lembro-me da maior astúcia em que já participei em toda a época de menino. Tudo isso pela estratégia de um dos meus camaradinhas da época – Floriano – que sendo o mais velho e inteligente da cambada, arquitetou uma “jogada” para ganhar um automóvel.

A General Motors do Brasil havia empreendido uma campanha em jornais e na Rádio Clube de Pernambuco, (a única existente no Recife), para lançar um novo modelo de carro. O anúncio aparecera nos jornais com o importante título promocional e na rádio o locutor Abílio de Castro dava ênfase, com seu vozeirão, renovando-se várias vezes por dia uma gravação:

Ganhe um Chevrolet 1947, tipo luxo, de graça!!!…

Lembro-me que o locutor dava ênfase espetacular à necessidade de se comprar um sabonete maravilhoso e já ter a possibilidade de sair da loja com a esperança de se tornar dono de um carro.

Os compradores do “Sabonete Lifebuoy” poderiam ser sorteados através de uma chave que estava dentro de um daqueles produtos. E já se falava que alguém, lá no Amazonas, havia ganho um deles, cuja chave fora encontrada quando o sabonete fora cortado ao meio por um dos sabidões da família.

Nessa época, a título de economia, mamãe costumava comprar uma barra de “sabão-amarelo” para lavar roupas, e cortava uns quadradinhos para a gente lavar as mãos. Sabonete, em nossa casa era artigo de luxo e só usávamos para banhos.

Inteligente, Floriano caiu em campo. Era um dos meus amiguinhos, residentes na Vila dos Remédios. Recrutou os meninos mais tolos – dentre eles – o besta que escreve estas notas.

Imaginou a formação de uma espécie de “força-tarefa”, para uma ação coordenada. Criou uma estratégia, cena quase teatral. Nas antigas “Lojas Brasileiras”, ele compraria um único sabonete e ficaria entretendo a moça do Caixa, enquanto a gente em ação procurava os “Lifebuoy” nas prateleiras.

De nossas mães, quase todas costureiras, surrupiamos agulhas, por empréstimo não autorizado. Chegando às Lojas Brasileiras, no Largo da Paz, Floriano retirou um dos sabonetes, já furado, e foi para o Caixa. Pagou e ficou distraindo a moça com alguma conversa fiada.

A jovem ficou desconfiada com tanta prosa e por haver notado que o sabonete comprado estava com três furinhos, no papel do embrulho, mas Floriano soltou a lábia.

Enquanto isto estava em curso a “Operação Chevrolet”: a proeza de enfiar, em um por um, as agulhas nos sabonetes que estavam na prateleira, para ver se encontrávamos alguma “chave da sorte”. Alguns sabonetes foram caindo pelo chão, dado à pressa com que os furos eram feitos e nosso medo de ser flagrados na “Operação”.

Infelizmente um dos funcionários alertou seu chefe e fomos levados à Gerência, tremendo que só varas verdes. O líder da “operação” foi “convidado” a ir, com o funcionário, buscar D. Lola, sua mãe, que acabou sendo a “sorteada” sim, mas para quebrar o galho, pagando a conta do estrago.

Compareceu aflita, coitada, diante da possibilidade de um vexame. Seu filho poderia ter ido bater na Delegacia, que era bem pertinho da loja. A senhora teve que comprar 26 sabonetes furados. Floriano aguentou o tranco. Deve ter tomado aquele castigo, mas não denunciou ninguém.

Todos escaparam ilesos. Todavia, na semana seguinte a “Operação Chevrolet” vazou e mamãe indagou de dedo em riste:

– Ô Carlos Eduardo, você estava metido naquela história do sabonete?

– Que sabonete, mamãe?

– Da chave do carro?

– Que carro, mamãe?!…

Ela desconversou e entendeu que eu estava mais por fora do que cinturão soldado. E com o subterfúgio, escapei de boa surra.

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BOA VISTA – SAUDOSA REPORTAGEM

A praça, a fonte, os pombos e a estátua de Clarice Lispector

O cenário de paisagens e fatos da década de 1940 volta à memória trazendo-me a satisfação de haver vivido dias tão agradáveis. residindo na Boa Vista, um dos bairros mais ativos do Recife. Ali conheci Chaya – Clarice Lispector, que tinha 16 anos. Dela ganhei um inesquecível beijo.

Por sinal, Capiba, também ali residiu, na Rua Gervásio Pires, 224, na antiga “Pensão de Dona Berta Nutels”, onde depois foi a Cooperativa Banco do Brasil, onde também foram hóspedes os estudantes que teriam fama: o compositor Carnera (Felinto Nunes de Castro Alencar) e os rapazes da família Suassuna: Ariano (advogado, professor e escritor), Saulo, João e Marcos (médicos).

Por se tratar de fato histórico, vale assinalar que a PRA-8 fora criada a partir de um clube de radiófilos – estudantes de radiotelegrafia – dentre os quais Oscar Moreira Pinto e Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba.

Aproveito esta data para homenagear a memória de Clarice Lispector, (foto) jovem que conheci quando ainda nem me entendia de gente, pois tinha seis anos.

Minhas primas Nicinha e Yeda me levavam à Praça Maciel Pinheiro, a fim de que eu corresse ao lado da fonte, ver os pombinhos e andar de velocípede.

Ali elas se encontravam com suas amiguinhas, dentre elas Chaya Pinkhasovna, filha de gringos ucranianos; brasileira naturalizada, que adotou o nome de Clarice Lispector e se tornou uma das maiores escritoras brasileiras.

Numa daquelas tardes ganhei um beijo na testa e afagos, de Chaya. Mal sabíamos que muitos anos à frente, o mesmo destino teríamos: a literatura.

Aproveito estas notas para citar alguns personagens de relevo na cultura de Pernambuco, que viveram na Boa Vista, marcando fatos históricos pouco conhecidos pela geração atual.

O tempo de 1940 era uma época dolente. As pessoas andavam a pé e sem pressa. Todo mundo se conhecia pelos nomes. Hoje o cenário volta à memória trazendo-nos a satisfação de haver vivido dias tão agradáveis.

O local, em termos de casario, não mudou quase nada. Na Rua da Alegria residia a Família Maranhão, cujos membros eram ligados à intelectualidade: Luiz Maranhão (teatrólogo e jornalista); meu tio Xavier Maranhão, que era advogado, assinava a “Crônica do Meio Dia” na única emissora que havia no Estado: a Rádio Clube de Pernambuco.

A professora Maria Luiza Maranhão Guimarães, era esposa um dos primeiros cômicos de Pernambuco – Salomão Absalão – cuja identidade era Ary Guimarães. Vale acrescentar que fazia sucesso naqueles tempos o programa “Dona Pinoia e seus Brotinhos”, estrelado por José Santa Cruz, Chico Anysio e Aldemar Paiva.

Clarice com o jovem Antonio Carlos Jobim e um dos livros, lançado em 1964, editado em 22 línguas

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

JUIZ DE VARA PEQUENA

Bóris Trindade sabe teatralizar os “causos” que conta

Na 2ª. Vara Federal, durante os preparativos para início de uma audiência, onde estive representando o Grupo Preserve, assessorando Dr. Bóris Trindade – velho colega de jornalismo no “Diário da Noite” e do Teatro de Amadores de Pernambuco – ouvi esta história incrível, que ficou nos anais do Fórum. O próprio Bóris, com seu estilo bem teatral, narrou o “causo”, que aqui faço minha interpretação literária.

Uma das novas varas criadas em Caruaru, se tornara conhecida como a “Vara Pequena”, face aos poucos processos que estavam nas suas estantes. O Juiz de Casamentos era o Dr. Belestrero Fagundes, que se tornaria conhecido nas rodas pornográficas como o “Juiz da Vara Pequena”. E o magistrado sabendo desses comentários tentava esquecer o que percebia.

Mariquinha era u’a moça, já meio avançada na idade. “Donzela juramentada”, assim conceituada por sua retidão sexual. Estava, explicitamente no caritó. Passara dos 40 e nada de casamento. Nunca havia visto um homem feito inteiramente nu.

O Prof. Hermenegildo, afrodescendente, recém-chegado de Angola, se estabelecera na cidade para ficar. Tinha notícias de que ali se promovia o melhor São João do Mundo. Aposentado, com bom pé de meia, iniciava seus planos para formar uma família, procurava casa para comprar e u’a moça donzela e de bom caráter para se casar.

Lapa de homem da porra, um metro e 80 de altura, preto retinto, homem bonito, atraia pela educação, faces bem delineadas, peitos estufados. Tudo nele era grande.

Conheceu Mariquinha. Olhares fulminantes. As etapas de namoro e noivado foram atropeladas. Casaram-se. O pai da noiva fizera uma festa e até alugara os aposentos numa das novas pousadas da cidade, para que a filha tivesse Lua de Mel no capricho.

Depois da festa a noiva foi levada para o “matadouro”. Estava certa de que naquele cenário tão deslumbrante veria voar pelos ares o tampão de sua virgindade por tantos anos selada, esperando uma “vara”. Depois de uma hora de vinhos e queijos, o que se viu foi um fato assombroso. A noiva saíra do quarto às tontas; correndo, pulou janela, vestida apenas de camisola. Desembandeirada, voltou pra casa dos pais.

Dois dias depois Mariquinha estava diante do Dr. Belestrero, com seu advogado, solicitando anulação do casamento. Contristado, o magistrado começou a perguntar:

– Mas, minha filha, por que você não namorou mais tempo com o tal senhor, para melhor conhece-lo?

– Não dava, Seu Juiz! Com o caritó ninguém brinca! Eu já tenho mais de 40 anos e o homem tinha tudo que eu desejava, menos uma “vara” pequena.

– Menos o que, minha filha?…

– Vou contar tudinho, viu?!… Chegamos ao quarto, ele me ofereceu um “Porto”, vinho de safra que guardou desde os tempos em que lecionara em Coimbra. Depois procurou me mimosear com um queijinho suíço, um beijinho na face e pediu-me para ir ao banho.

Indagada, na véspera, como seria uma Lua de Mel com “Foda Platônica” – conforme lhe havia prometido o noivo – a mãe de Mariquinha havia feito uma breve recomendação, após consultar algumas amigas: Minha filha, escove bem os dentes, passe bem graxa no furico e seja lá o que Deus quiser.

E continua Mariquinha falando ao Juiz.

– O negão voltou da chuveirada enrolado na toalha, cheiroso que só rapariga de feira. Era todo charmoso, delicadíssimo. Um encanto de crioulo. Notei, porém, um primeiro detalhe. Ele tinha um tique nervoso. Coçava-se dando umas unhadas nos peitos; uma espécie de coceira de macaco; umas unhadas bem rápidas. Uma coisa estranha, mas isto não foi o motivo para este pedido de anulação de casamento. Fui tomar meu banho. Aproveitei para me perfumar bem, sobremodo a “perseguida”, os sovacos, e ainda empurrei um supositório de vaselina no orifício anal, para me prevenir de alguma ”introdução alternativa”, já que a foda era “Platônica”. Quando abri a porta do banheiro o que vi foi uma cena pavorosa: o negão deitado, inteiramente nu. Do centro de suas pernas não se via um membro masculino, uma rolinha de nada, e sim aquele molho de ferro em brasa. Um verdadeiro tronco de jacarandá, com a cabeça mais vermelha do que um cu de girafa. E me disse em tom verdadeiramente romântico:

– Venha, querida; venha se enfiar na minha pombinha!…

– O senhor iria, Seu Juiz?

– Iria não, Mariquinha. Deus me livre!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

SALTO SOLTO

Imagem de um dos saltos soltos que eu dava quando criança

O amanhecer é o mesmo, assim como o entardecer e o resto do dia.

No lar, face à extensão da malandragem em que me forçaram a viver, o cotidiano pouco mudou pouco, parecendo, cada dia, um sábado ou domingo.

Estou envolto em cuidados. Dá até pra desconfiar… Esposa e filhos sempre de olho na minha carcaça. Sou alvo de tantos mimos que nem sempre notei. Eu mesmo estou de olho nos que estão em minha volta. Pressinto que me deram uma Aposentadoria Definitiva e compulsória.

No Amanhã mais pra frente, estou prevendo que sempre haverá um “suspeito” de ser portador do vÍrus, por perto, em qualquer esquina, o que me impedirá de seguir pelas calçadas da vida, livre, leve e descontraído; tanto para o trabalho quanto para o lazer.

De velhotes, como eu, que já ultrapassaram os 80, tenho recebido notícias de que a coisa vai “empretecendo” à cada dia. Ouço os mesmos chororôs… Nem uma centelha de esperança vislumbrando melhoras.

Parece que estamos condenados à sofrer a última fase da velhice: a “prisão domiciliar permanente”. Até os governos olham e fixam decretos pensando em nos poupar, reconhecendo que nossa situação é crítica e merece extremos cuidados. Eu preferia que me ignorassem. Preciso me sentir mais autônomo.

Tenho sugerido aos oitentões que não se iludam. Com esse “troço que está aí liquidando vidas”, já enterramos nossos sonhos, desejos e não há como fugir de pensamentos ruins que povoam nossas mentes já enfadadas de tantos deles..

Parece que aquela ave chamada “Preocupação”, – aquela do provérbio árabe – pousou em minha cabeça e deixei que ela fizesse um ninho. Assim, vai demorar muito mais do que o previsto, pois ficou bem acomodada em minha cuca.

A impressão que tenho é que nos obrigaram a ficar numa trincheira de guerra esperando o inimigo invisível e suposto, que talvez só apareça quando se decretar o fim da guerra. E isto é u’a vaga hipótese.

A cada dia que se vai vemos que ela é semelhante a um “salto solto”; daqueles que se dá um pulo para o alto, o corpo rodopia e volta para o chão. Nada se pode prever sobre o que vai acontecer, mesmo que sejamos atletas olímpicos. Tudo são hipóteses e vagas esperanças.