Não poderia faltar às minhas notas biográficas o tempo do nosso futebol juvenil, na Salina do Capibaribe, onde jogávamos de pés descalços.
O piso era excessivamente salinizado e não se via no solo as cores da areia ou do barro, mas apenas o cinzento-claro do sal marinho.
Sendo o rio perto do mar, a zona recebia forte influência do Atlântico, que salgava as águas do rio, formando nas margens, as salinas, piso plano e nivelado.
Nos dias seguintes às nossas “peladas”, o “castigo”. Apareciam os problemas: vermelhidão, pequenos cortes na sola dos pés e aquela queimação infame ao dar passos, mesmo calçados.
A turma dos jogadores de 16 anos pra cima, ávida por se manter ativa no treinamento na pelota, costumava reunir dois times, aproveitando meninos como eu – na faixa dos 12 anos, que eram misturados com os jogadores mais experimentados.
Alguns, com físicos de homens feitos, já candidatos a aprendizes do Santa Cruz Futebol Clube, usavam os meninos entre 14 e 16 anos para completar dois times e treinar.
Este colunista era muito rápido nas carreiras, mas ruim nos dribles. João Viola, com mais de 18 anos, era homem feito e aproveitava minha fragilidade.
Quando notava que eu iria chutar para a rede, gritava: “Deixa que eu chuto!” Era quando “o esférico” se acomodava lá no fundo do “entrançado”. E assim eu fui perdendo oportunidades de vir a ser um Ronaldinho Gaúcho.
Só mais tarde vim a entender que aqueles “malandros” nos enganavam, dizendo que eram formadores de craques para o futebol profissional.
Na verdade, treinavam com a gente. E nós, os “armadores” preparávamos as jogadas para eles fazerem os gols. Depois saiam se gabando da quantidade que faziam.
Os tempos passaram, os praticantes infanto-juvenis cresceram e, como eu, muitos deram adeus às ilusões do futebol. Carregamos, então, nossos fardos e assumimos várias profissões. Aos 14 anos, integrei-me à vida bancária e permaneci até a aposentadoria.
Assim é a vida. Temos que dar “passes” para os outros e não malandrear, sob o grito: “Deixa que eu chuto”.
Bibi Ferreira, atriz brasileira e o ator Herval Rossano
Fui contabilista e na Faculdade de Ciências Econômicas de Pernambuco, estudei as várias formas dos governo, no sentido de “lascar” os humanóides com novas versões do “Quinto dos Infernos”.
O “Quinto”, assim apelidado pelo povão, era um tributo correspondente a 20% de todos os minerais extraídos das minas do Brasil, então colônia de Portugal. A cobrança foi instituída para garantir o exorbitante lucro sobre as riquezas encontradas principalmente em Minas Gerais. Era um verdadeiro inferno, apertar ainda mais os empreendedores com tão vultoso valor; daí a expressão: “Quinto dos Infernos”.
Conforme os “Planos de Conta”, da Contabilidade da época, o Sistema Tributário Nacional, ainda em 1956, adotava-se pesados impostos, para meter o “fumo” no povão: Imposto de “Portas Abertas”, Vendas e Consignações, de Consumo e Imposto do Selo, incidente sobre: documentos de crédito, títulos, contratos, recibo, atos jurídicos, bancários e sobre serviços funerários.
Mas havia ainda, vários outros tipos de Impostos “disfarçados”: as famigeradas: Taxas Municipais de Licença: de Limpeza Pública, Recuperação de Vias, Recolhimento de Lixo, Taxa de Contribuição de Previdência Social, Taxa de Bombeiro, Taxa de Consulta aos cartórios.
Porém, nós tristes mortais, que tanto reclamamos que a modalidade de cobrança das vendas do Comércio pelo novo modelo do Governo – o Split Payment – já apelidado pelos brasileiros de: “Pix dos Impostos” é “pinto”, comparado ao antigo Imposto do Selo.
Modelo de uma Duplicata selada, em 1958
Eu era funcionário de um Banco e atuava no setor de Ordens de Pagamento. No momento em que retirávamos da gaveta uma folha contendo selos de variados valores para colar nos recibos, o cliente era “convidado” a pagar os selos que seriam utilizados. Ou seja, pagava-se antes de receber a transferência de valor.
Ou seja, um sistema ainda mais cruel; muito além do Split Payment, o pagamento antecipado, que o Governo Federal está implantando. Cabe aqui uma historieta:
Chega ao balcão do Banco um casal. Mas eu pouco sabia-se sobre ambos. Constrangido, solicitei os Cr$ 2,50 (dois Cruzeiros e cinquenta centavos) para ser autorizado pagamento. Notei que nenhum dos dois possuía aquele valor, embora significante.
Fiz a proposta: eu pagaria o valor e ao receber eles solicitariam ao Caixa, trocar o dinheiro, de forma que atendesse à despesa dos selos. Dito e feito. Paguei a Amílcar os Cr$ 2,50, colei as estampilhas no recibo, eles assinaram e foram para o Caixa. Momentos depois D. Abigail se dirigiu a mim, devolveu o dinheiro e exclamou, em voz alta:
– Meu filho, você merece um beijo!
Chegando em casa comentei o fato com meu pai, informando que a senhora tinha um nome estranho: Abigail Izquierdo Ferreira. Ele quase saltou da cadeira de balanço:
– Meu filho, você deixou de ganhar um beijo de Bibi Ferreira, a maior atriz do Teatro Nacional!
Recordando este episódio jamais esquecerei do infame Imposto do Selo, que se comparado, o sistema “Split Payment, é pinto”.
Principal transporte público: os bondes da Tramways
Nasci no bairro do Espinheiro, um dos mais centrais e elegantes do Recife. Lugar de sítios, chácaras e casas de veraneio, cujos moradores eram comerciantes, proprietários rurais, e anos depois, profissionais liberais.
Mas nunca gostei desse nome! Espinheiro, um nome horrível!
O Recife de Ontem tinha coisas curiosas, a começar pelas denominações de alguns dos seus bairros, onde viveram famílias importantes, ligados à elite pernambucana.
Se no Espinheiro morou o compositor Capiba, em Bomba do Hemetério, residiu o Governador José Francisco de Melo Cavalcanti. No bairro dos Aflitos, o usineiro Antonio da Costa Azevedo, dono da Usina Catende.
A origem da denominação: Espinheiro, se formalizou face à grande quantidade de arbustos espinhosos encontrados nas margens dos córregos, no tempo anterior ao traçado da Av. Agamenon Magalhães, quando quase tudo era verde.
Depois fomos morar na Torre, nome mais simpático. E, por fim, papai comprou uma casa no bairro que tinha outro nome horrível: Lugar dos Afogados.
Mas, alí foi minha pátria sentimental. Lugar onde pisei ainda menino de cinco anos e só saí depois de casado.
Morávamos em área aterrada, às margens do Capibaribe, na Vila dos Jornalistas. Mas, por pernosticismo, desde menino sempre disse que morava no Largo da Paz, nunca em Afogados.
Na antiga Praça da Paz, que no século anterior fora palco de matanças generalizadas, a partir da ocupação colonial de Pernambuco, as Invasões holandesas, a Guerra dos Mascates, a Revolução de 1930 e a Intentona Comunista em 1935, vivi meu el dorado juvenil.
Lá deixei minhas pegadas. Lembranças que jamais serão esquecidas: os bondes elétricos da Tramways, seguros, frescos e pontuais; os cinemas Eldorado, Pathé e Central; a concentração da juventude bem comportada, passeando nos dias de domingo, as missas na Igreja de Nossa Senhora da Paz.
Felizmente, pouca coisa mudou: a mesma praça, o mercado, a feira. Do Espinheiro e da Torre, poucas recordações.
Felizmente, quase nada mudou: a mesma praça, o mercado, a feira.
Do Espinheiro e da Torre, tenho poucas recordações, mas aquela “Praça dos Namorados”, o Largo da Paz, de ontem, nada se apagará da minha mente.
Alguns bondes da Tramways possuíam “reboques”, para transportar bagagens.
R. G. Watkins, cidadão americano, era meu colega. Ele com elevada função no City Bank e eu, “office-boy”. Optara, a pedido, ser transferido para o Recife, a fim de conhecer melhor o Brasil.
Já trabalhara no México e driblando algumas pronúncias da língua portuguesa, entendia e dava a entender o que pretendia dizer, mesmo adotando o “processo macarrônico”, quando suprimia algumas palavras e juntava outras. Aquele desmantelo!
Falava nossa língua de forma meio confusa e embrulhada, como todo gringo. Notando seu entusiasmo pelo Brasil, logo no primeiro mês de amizade, dei-lhe de presente uma bandeirinha do Brasil, própria para as mesas de trabalho. Ficou muito satisfeito com a oferenda.
Com muito respeito, durante todo o tempo em que trabalhou no Recife, manteve nossa bandeirinha na mesa.
Ganhei, assim, a amizade de Mr. Watkins. Já iniciado no jornalismo, eu tinha facilidades em introduzi-lo em visitas a clubes de língua inglesa. Fomos almoçar no Country e dias depois participamos do “Caxangá Ágape”, no Golf Club.
Comecei o turismo por Olinda, suas paisagens e instituições ligadas à cultura. Visitamos o Mosteiro de São Bento, ficando ele deslumbrado com os cânticos gregorianos dos monges.
Num dia de folga, levei-o à casa do antropólogo Gilberto Freyre, que muito melhor do que eu, tinha conhecimento de nossa cultura e falando inglês fluente, dissertou sobre Pernambuco.
E no final da conversa, regada a Licor de Jenipapo, Dr. Gilberto fez uma análise demorada sobre cada estrofe do Hino Nacional Brasileiro, as qualidades do linguajar de seu autor – Joaquim Osório Duque Estrada – e dissertou sobre as estrofes dos versos, que considerava as mais significativas no hino brasileiro.
À despedida, cada um de nós ganhou um exemplar do livro “Casa Grande e Senzala”.
Passados alguns meses, representando os americanos durante um almoço com todos os funcionários do Banco, ocupou o púlpito para homenagear o Brasil. E ao findar sua oração, atreveu-se a cantar, talvez lembrando a referência do Dr. Gilberto Freyre ao nosso hino.
Com seu jeito de se expressar soltou a voz com o maior entusiasmo, cantando a primeira linha da estrofe do Hino Nacional Brasileiro. Um tanto “macarronizado”, é bem verdade:
“Ubirudu” Ipiranga às margens plácidas…
Na segunda-feira, os funcionários brasileiros mais gaiatos começaram a cantar entre si, uma nova versão do hino nacional brasileiro: “Ubirudu”.
O pai desejava um nome diferente. A mãe escolheu Anielle. E pra ficar mais chic, apareceu uma amiga da família e sugeriu o batismo menina com dois “LL”
Sua sina começaria na pia batismal. Seria diferente das demais criaturas nascidas na “Cerolândia”, perto da Capital. As primeiras letras, aprendeu em casa. Depois, as matérias curriculares, na escola pública.
Taludinha, foi mais além. Era preciso evitar mais despesas do pai. Já moça formada, frequentando alguns ambientes sociais, era preciso ter um dinheirinho para a maquiagem, vestidos e sapatos.
Aventurou-se a vender docinhos nos faróis de trânsito. Precisava, também,aprender as práticas da vida. Exitosa, na primeira semana, vendeu tudo que tinha nas caixinhas dos adocicados.
Olhou para o espelho após o primeiro dia de vendas e ficou cheia de dúvidas. Precisava definir se os automobilistas compravam suas mariolas por se mostrarem nas embalagens atraentes, pelo argumento de que eram feitas em casa, ou se sua sua beleza despertava apoios para as vendas.
Tornou-se mais independente e partiu, com a concordância dos pais, para um emprego formal. Estimaria conhecer mais sobre relacionamentos com profissionais, no trabalho sério num supermercado, colaborando com a religião evangélica e depois, concursada, se tornou funcionária da Câmara dos Deputados.
Nessa última fase, entrou num vespeiro. Mas, vamos pular alguns anos.
A moça cheia de ideias, cada dia mais bela e cativante, logo ao pisar nos primeiros degraus da subida, chegou à conclusão de que teria sido melhor voltar a ser Promotora de Eventos ou até circular pelo interior do supermercado fantasiada de um pacote de macarrão, para promover a marca. Era uma graça e promovia, realmente, o produto.
Foi alertada pelas “fofoqueiras” de elevador”, que o ambiente de trabalho – a Câmara, era muito “pesado” e até, de certo modo, degradante. Teria que aturar diariamente, olhares indesejáveis, comentários maliciosos e atitudes pouco recomendáveis de poderosos eleitos.
Aquele tipo de câmara não seria ideal. Era muito pior do que circular com uma “câmara de ar” remendada. Mas enfrentou, sofreu e aprendeu.
Era, na verdade, o único caminho para a convivência com pessoas que se diziam representantes de alguns habitantes da mesma nação. Logo percebeu que tais grupelhos, na verdade, eram pequenos ajuntamentos de pessoas, geralmente com uma conotação depreciativa.
Permaneceu próxima à “panelinha” enquanto pôde, pois trabalhava na secretaria do gabinete do Todo Poderoso. Sob a máxima cautela, customizou-se, conseguindo resistir às investidas de olhares penetrantes e indiscretos de certos indivíduos sem grande expressão ou relevância, porém maliciosos e oportunistas.
Qualquer joelhinho de fora, estava no papo. Cantada na certa.
O tal grupelho, tinha dimensões montanhosas e população de sombras.
Sempre agia às escuras. Os planos? Meros conchavos. Um pessoalzinho bem identificado pelas alcunhas de Mensalão, Petrolão, Garrafão, Lavajão, Vorcarão e outras ações possíveis de serem judicializadas.
Hoje se sabe que os congressistas, em sua maioria, são dotados dos mais significativos princípios da gatunagem, com o fim de se locupletarem do Poder para ficar “na boa”.
Foi aí que a encantadora Anielle começou a sentir saudades de sua atividade exercida na época juvenil: as vendas de suas mariolinhas nos sinais de trânsito.
E o pior é que, de algum tempo para cá, um dos caciques partidários sugeriu e ela está quase aceitando se candidatar a senadora pelo seu estado de nascimento. Parece que não entendeu que nossa política é constituída de conchavos e conchavantes,
São decorridos mais de 90 anos desde o meu Ontem até o Agora. Do meu nascimento à suposta velhice, o tempo voou. Constatei isso há poucos dias, revendo antigos recortes de reportagens, entrevistas, crônicas e livros do meu acervo.
Francisco Anysio Oliveira de Paula Filho, o fenomenal Chico Anysio, conversando descontraidamente com Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba – de repente ficaram rodeados de admiradores, amigos, escritores e jornalistas.
No ar, saudosas “passagens” que ambos viveram nos primórdios da PRA-8, a Rádio Clube de Pernambuco, na década de 1930, quando Chico participava com Aldemar Paiva, Mercedes del Prado e José Santa Cruz do infernal quadro: “Dona Pinóia e seus brotinhos”. Na mesma época em que Nelson Ferreira era o Diretor Musical e Sivuca (Severino Dias de Oliveira) estava chegando da Paraíba.
Capiba, quase noventão, contava suas memoráveis piadas e Chico dava “risadas dobradas”. De repente, surge uma frase séria do humorista, que me marcou bastante.
Aproveitando, transformei algumas falas em crônica. Vários colegas da Imprensa estavam no papo, o que mais parecia entrevista coletiva, numa tarde que antecedia a um Baile Municipal, no Clube Português do Recife.
Disse-nos Chico:
– O Hoje é tão rápido que mal dá para ser pensado!
E pensando sobre isto refleti que realmente vivemos um tempo muito louco, carregado de angústias, desejos, frustrações, necessidades supostamente inadiáveis, e apelos incessantes de compras de todos os tipos
O veloz progresso moderno acontece de tal forma rápida que força-nos a viver com vertiginosa intensidade. Quase não sentimos o gosto do Agora.
Portanto, guardar a História através de documentos, reter ensinamento e escrever livros é dar o testemunho de nossa preocupação com os que estão por vir à cena da vida abundante que estamos usufruindo agora.
É preciso entender que preservar o Ontem é alimentar um progresso menos penoso no futuro. Os dias que se foram, são relíquias que devemos sempre guardar de alguma forma: na memória, em papel, em fotografias, em fitas-magnéticas, em DVs ou em pendrives.
Nos meus vividos 90 anos o homem avançou muito em seu poder de colher conhecimentos. Primeiro veio o fogo, a roda, o eixo; daí, a tração por animais progrediu sob o impulso da água. Com o giro da roda de vários tamanhos, passamos a usufruir do elemento para tracionar, o tudo que hoje desfrutamos.
Pensemos na roda como tração mecânica, hidráulica, à vapor, óleo, elétrica, vento, jato propulsão e, finalmente, à fogo-propulsor que tem levado nossos foguetes a outros planetas.
E com a interligação de tudo isto, chegamos à época dos satélites extraterrestres. Tudo isso tendo por base técnica a roda, o eixo, a eletrônica, mas sobretudo, à inteligência humana.
Não nos esqueçamos que devemos ao homem das cavernas essa evolução, pois tudo começou com ele e homo-sapiens desenvolveu todos os mecanismos que conhecemos.
Porém, a Tecnologia da Informação, permite aos noventões – como o cronista – sem sair de casa, conseguem correr o mundo, ver imagens e ouvir falas e imagens dos seus bisnetos espalhados pelas américas.
E ampliando um pouco o assunto, vemos que se obteve a utilidade da roda no transporte de pessoas, tanto vertical, quanto aéreo: através dos trens, dos aviões, dos navios, dos submarinos e dos elevadores, agilizando as pessoas e diminuindo seu esforço físico.
É importante afirmar que houve um progresso ainda mais abrangente no início do século passado – década de 1930 – após a II Guerra Mundial, época em que nasci.
Os homens conseguiram obter conhecimentos de vários pontos do universo sem ao menos sair de sua escrivaninha. Assim ocorreu com o livro, o rádio, o cinema e a televisão, independe do transporte das pessoas para estudá-los nas fontes originárias do saber.
As informações são transmitidas tão rapidamente que mal sabemos definir o que chamamos de: Agora. Resta-nos guardar o acervo que dispomos, a fim de preservar o Agora, mesmo que signifique frações íntimas de um breve Ontem.
E somando tudo isto – eu que o diga – é importante admitir que foi um vertiginoso pulo do Ontem até o Agora.
O dicionário e a máquina de processar cartões perfurados
Estávamos, eu e o Marco Aurélio, num Cartório de Registros Civil de Pessoas Naturais – como se pessoas humanas fossem artificiais – quando ouvimos modesta senhora, solicitar o registro de uma filha recém-nascida, cujo nome seria Hollerith.
O atendente, curioso, exclamou: Diferente este nome, não é senhora?! Como conseguiu?
É que meu marido trabalha num Banco e todo final do mês ele vem falando nessa tal de Hollerith e de tanto ouvir isso, achei interessante dar este nome à nossa filha. Singular, não?!
Na verdade, ela ouvira falar, verdadeiramente, no Sistema de Cartões Perfurados, usado na contabilização bancária até o início dos anos 1950.
Herman Hollerith (1860–1929) foi um inventor e estatístico norte-americano, pioneiro no processamento automático de dados. Ele criou a máquina tabuladora eletromecânica e os cartões perfurados, tecnologias que revolucionaram a computação e deram origem à empresa IBM. Seu sobrenome virou sinônimo de comprovante de pagamento de salário no Brasil. Isso aconteceu porque o processamento e cálculo de folhas de pagamento em cartões perfurados foram introduzidos por suas empresas no mercado corporativo.
Os cartões perfurados tiveram grande importância na história da estatística, do processamento de dados e dos pagamentos de funcionários nas empresas mais modernas.
Anteriormente se costumava chamar o envelope-de-pagamento mensal de: “Espelho” ou, igualmente, “Contracheque”; nomezinho fuleiro, porque deveria chamar-se: “A favor do cheque”, porque tal “demonstrativo” garantia ao funcionário verificar o crédito os débitos e o saldo por seu trabalho mensal, a fim de sacar seus cheques, coisa que também já desapareceu.
Na verdade, Hollerith identificava o tal Sistema de Processamento de Dados, que se efetivava através do uso de u’a máquina, com teclado semelhante à de datilografia, que perfurava cartões e uma outra, que os processava, produzindo Folha-de-pagamentos, balanços, etc.
Com o advento dos computadores, anos mais tarde, o sistema caiu em desuso, mas o apelido passou a ser até nome de gente, como vimos na historieta.
Vivi outros momentos da tecnologia bancária. Transitei pelas duas épocas. D. Edna sentava-se junto ao Contador do City Bank, sr. Afonso Leão, munida de um um caderninho listado e um lápis. Ouvia as informações, desenhava uns garranchos conhecidos como estenografia ou taquigrafia, que representavam a “escrita ligeira” e dali saíam notas para as cartas que eram datilografadas.
Afonso Leão, “professor” de Português, sempre mantinha perto de sua mesa um Dicionário Caldas Aulete. Certa vez, por mim indagado porque sempre estava consultando aquele livrão, me respondeu:
Meu filho, se você não ler muito o dicionário, está “bebido” nos futuros concursos. E eu que vivo escrevendo cartas e ensinando nosso idioma para alunos dos “cursinhos”, necessito deles a todo instante. E você sabe que tal livro é conhecido como “O pai dos burros”?!
Mas, como tudo o tempo leva, o livrão de Francisco Júlio de Caldas Aulete, que hoje possui uma versão atualizada com mais de 818 mil verbetes, perdeu alguns pontos para um outro dicionário, mais popular, conhecido pelo apelido de “Aurelião”, obra que consagrou o mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que, aliás, tem parentesco com o cantor Chico Buarque.
E nesse vai-e-vem dos modernismos tecnológicos, a obra do “Mestre das Alagoas” também está sendo sobrepujada pela Inteligência Artificial.
Portanto, já se pode dar adeus a Aurélio e Hollerith.
Luiz Carlos, este colunista e o escritor Euler de Souza, no Clube Português do Recife, durante o “emplacamento compulsório”
No último 18 de junho, dois fraternos amigos homenagearam o cronista pela “quota máxima” atingida: 90 anos de idade, meta para poucos mortais. Um almoço com minha família no Clube Português do Recife representou sinônimo de fraternidade e prestígio, ao chegar a esta marca. Uma graça de Deus!
No dia anterior, a Presidente Thelma Loureiro de Carvalho, da Academia de Artes e Letras, me colocou, com todas as honras, na Mesa dos trabalhos e ao final da assembléia festiva convocou a plateia a formar um coro e interpretar a cançoneta “Parabéns pra você”.
Para fins de “amostras grátis” devo dizer que não é moleza tal corrida de obstáculos. O destino foi generoso e a sorte me empurrou. Só fiz amigos. Alguns que conheci superficialmente se equivocaram com minhas ideias e os falamos apenas respeitosamente.
Nasci no Espinheiro, meus pais nunca se separaram, fui filho único, tive direito a nota em jornais, logo que “desembarquei”. Fui bancário a partir dos 14 anos, por três décadas.
Aposentei-me com 30 anos, alguns dias e poucas horas. Na mesma semana assumi uma assessoria no Grupo Preserve onde permaneci quase 10 anos.
Publiquei a primeira matéria em jornal aos 15 anos e ainda ontem os editores do Diário de Pernambuco se mostraram generosos comigo, publicando mais um artigo.
Fui diretor do Naútico, durante seis anos; do Internacional, quatro anos; do Sport, dois anos e da AABB-Recife, alternadamente 12 anos.
De medalhas, guardo uma tuia: do Salesiano, do Náutico, do Atlético, além de várias da AABB-Recife. Carrego, também, no matulão, dois títulos de Benemérito, e dois de Reconhecimento, sendo um durante as comemorações dos 100 anos do Banco do Brasil em Pernambuco. Já correm o mundo alguns dos meus 35 livros escritos.
Mas vim com o bisaco cheio de obrigações. O destino traçou minhas metas difíceis e perigosas. Da “Véia da Foice” escapei várias vezes.
Pequenino ainda, correndo pela calçada do Hotel Central, dei uma topada, bati com o “quengo” na calçada. Fiquei” cego durante mais de 26 horas. Uma tragédia para a família!
Adulto, limpando uma calha, cai do telhado. Depois, outra queda: na escada do primeiro andar de um prédio, escorreguei, fui bater no térre;, quebrei dois ossos da canela. No hospital, meteram-me um pedaço de titânio com quatro parafusos. Virei um “Robocop Brasileiro”.
Passageiro de um Fusca, à noite, numa estrada alagoana, em missão jornalística, vindo de Aracaju, numa curva fechada, batemos de frente numa jamanta e capotamos feio. Saímos vivos.
Um aperto de lascar foi quando, por cima da cidade de Brasília, voei aflito, por quase 30 minutos sem pousar, sentado e bem amarrado na poltrona de um Electra da Varig, com mais 48 vizinhos, “aflitos rezadores”.
Perto do Aeroporto o “desgramado” PP-VJM – 2784 “novinho em folha”, começou a circular pelo céu, deu cinco voltas pelas nuvens, como se estivesse mostrando aos infelizes passageiros, que já estávamos a caminho “desta para uma melhor”. Eram os Bombeiros na pista, em exercício.
Tive a felicidade de extirpar dois “bichos” daqueles tão assustadores, que comem os humanos por dentro e se alastram, às vezes pensando que fígado é picanha.
Em outros tempos estive soltando sangue pelo “cano ladrão” e fui pra faca costurar as hemorróidas. Após ter sido esfaqueado pelo bisturi do Dr. Booz, esperei vitorioso os visitantes. Aí a porca torceu o rabo!
O primeiro a chegar, às seis da manhã, foi meu Gerente José Augusto, que disse reservadamente: Depois da cirurgia sob anestesia, sei que, agora, sua dor é apenas moral!
Precisava lembrar que eu tinha sido operado através do canal “escapativo do barro”, precisava?!… Foi outro pedaço carregado de más lembrança, porque durante a recuperação cai dentro de uma bacia de água aquecida a 80º graus e queimei as duas bolinhas de gude. Foi danado?
E sobre os ganhos e perdas, prefiro não falar dos desamores. Costumo usar o artifício do saudoso Álvaro Moreira, quando o entrevistei no Rio Grande do Sul: “Seu Carlos, por favor, “As amargas, não!” Depois publicou um livro com este título, que ainda hoje faz sucesso.
Afinal, falar os maus pedaços dos “noventinha” é lasca!
Com discreto orgulho posso dizer que vivi em dois séculos.
Um deles, registrou o despertar da “Tecnologia da Informação”. Mas, coisas de leve… Só desejos, desenhos e ideias meio avançadas para aqueles tempos em que o esforço físico prevalecia sobre nossas futuras máquinas, objetos que ainda não existiam como hoje. Nem pensar!
É bom lembrar que antes do invento do nosso amigo”Gut” (Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg), já havia comentários entre as dondocas, de que viria coisa boa por lá.
Naqueles tempos já se falava que os monges da Cordilheira do Himalaia, aquela turminha de cabecinhas raspadas que vestem túnicas e vivem lá pras bandas da Ásia, Índia, Nepal, China e Butão já produziam livros religiosos e científicos, mas sem reproduzi-los.
Utilizavam, em vez de canetas, penas de pombo, que eram mergulhadas em tinta, para ir escrevendo, e depois encaderná-los. Quem duvidar é só dar uma subidinha até o Himalaia para entrevistar algum monge-escritor.
O outro século, nos permitiu um pulo vertiginoso: a descoberta de métodos e processos, a partir do invento criado por Thomas Alvas Edison, com a fabricação do mimeógrafo manual.
Mas, como neste mundo “nada se cria e tudo se copia”, veio um gaiato e numa conversinha ao pé do ouvido, num bar e soltou, na maior moita, uma ideia para o inventor:
Meu véi, cria um treco que supere o invento desse tal de Gutenberg! Esse camaradinha é muito devagar!…
A evolução científica nos traria, muito mais tarde, a fotocopiadora elétrica, tipo “Lumoprint” – que considero “a mãe das xerox” – embora exigindo que a entrada de papéis para a impressão ocorra com a colocação de um por um. Ainda mais com a desvantagem: os impressos surgem húmidos
Sabemos que o maquinismo mais moderno de uma xerox é capaz de se colocar uma resma de papel “A-4” na bandeja e a impressão vai ocorrendo simultaneamente, inclusive de frente e verso.
Todavia, durante muitos anos, utilizou-se mimeógrafos.
Meu amigo Luiz Felipe de Morais Moura, que durante muitos anos operou essas máquinas, nos falou sobre históricos assuntos vinculados a essas máquinas.
A palavra vem do grego: “mimeo” (imitar, copiar) e graphos (escrita). O mimeógrafo foi u’a máquina simples, fácil de operar e muito econômica.
Era um equipamento destinado à reprodução de textos e até desenhos, em grande quantidade. Foi muito utilizada principalmente em escolas e escritórios, mantendo-se no mercado até o aparecimento da fotocopiadora (Xerox).
Sua descoberta está ligada ao conhecido cientista americano Thomas Edison, que em 1876 patenteou um sistema de duplicação de documentos, que serviram de base para o novo invento. Posteriormente, Albert Blake Dick aperfeiçoou o invento, popularizando o nome: “Mimeograph”.
O texto que se desejava copiar era datilografado em uma folha especial chamada “estêncil”. As letras datilografadas nas populares “máquinas de escrever”, sem uso das “fitas”, perfuravam a camada de cera das folhas, permitindo a passagem da tinta impressora.
Ao girar o cilindro do mimeógrafo – que inicialmente era manual – a tinta atravessava essas perfurações e reproduzia centenas de folhas com o mesmo “estêncil”. Aquela máquina tão simples de operar, era a maneira econômica de produzir apostilas, provas escolares e livros.
Creio até que o Banco onde trabalhei, mantinha um mimeógrafo funcionando, a fim de resguardar o sigilo de seus documentos, evitando que assuntos internos se tornassem públicos, ao serem impressos em tipografias, ou muito demorado se fossem reproduzidos através de papel-carbono, que era o barato dos anos 30.
Quando a mimeografia se tornou comércio, surgiram pequenos pequenos pontos que passaram a ser conhecidos como “Copiadoras”. Mas, diante da irregularidade ocorrida com cópias de livros, ocorreu uma recomendação judicial por parte das empresas editoras, em virtude de estarem seus principais produtos sendo copiados em quantidades espantosas.
O trabalho de operar um mimeógrafo era simples, mas a tinta me incomodava tanto que eu era obrigado a trabalhar de máscara, a fim de evitar danos à saúde. O característico odor da tinta, à base de álcool, era um castigo.
A partir de 1990 os mimeógrafos foram substituídos definitivamente pelas fotocopiadoras eletrônicas que receberam a marca: Xerox, as quais podem ser alugadas.
As Copiadoras, ficaram cientes das recomendações judiciais, quanto ao Direito das Editoras, tornaram-se pequenas empresas, recolhem os impostos devidos e se firmaram no mercado, inclusive alugando essas copiadoras e computadores a terceiros, fazendo manutenção, etc.
Mas, uma “Lumoprint” que operei quando trabalhava na Secretaria da Gerência do Banco do Brasil, jamais sairá das minhas melhores lembranças por ter sido considerada a precursora das xerox.
Hoje, com esses mecanismos de Caixa-eletrônico, Pix e a velocidade das comunicações por satélite, as pessoas “setentonas” que formavam o povão nos anos 50, sentem-se, digamos assim, ludibriados pela ciência, por não ter implantado, já naqueles anos, maneiras menos trabalhosas de lidar com moedas, papéis-moeda, transferências bancárias, empréstimos, movimentação entre contas, ordens de pagamento, cheques e notas promissórias.
Cabe, aqui, rememorar, para fins didáticos, como tudo isso funcionava. Pra começar, pessoas físicas não podiam ter conta em Banco. Só aos grandes comerciantes e industriais era dado esse privilégio. Uma forma de preconceito social!
No Recife a antiga Caixa Econômica Federal de Pernambuco implantou a Caderneta de Poupança, onde qualquer mortal poderia guardar seu dinheirinho. Mas, para movimentá-la, o titular teria que ir à Caixa, que situava-se na Avenida Guararapes, 161, no bairro de Santo Antônio. Apresentada a Caderneta, o Caixa fazia as anotações dos depósitos ou recebimentos.
Há 70 anos a Caixa contava com um departamento autônomo de jogos de azar, denominado: Loteria da Caixa Econômica, que lembro-me bem, foi gerenciado durante muitos anos por Nivaldo Bastos de Figueiredo, até sua aposentadoria. O modelo tentou eliminar o antigo “Jogo do Bicho”, que continuou proliferando e mantendo os “bicheiros” milionários.
Nos dias atuais o sistema atualizou-se e passou a funcionar como bets, que em inglês é to bet (apostar), plataformas digitais de apostas de quotas fixas que permite aos usuários dar palpites em resultados de partidas esportivas ou mesmo jogos de azar.
Na década de 50, quando iniciei-me na carreira bancária, se um pobre mortal desejasse transferir dinheiro para qualquer lugar onde tivesse Bancos, era necessário comparecer ao balcão do setor de Ordens de Pagamento, preencher um formulário, comprar estampilhas de Educação e Saúde, (que representava o Imposto Federal sobre movimentações Financeiras), colar no papel, datar e assinar por cima dos selos.
Hoje é o Pix quem resolve tudo, apenas com toques de dedos na telinha de um smartphone. É tiro e queda!
Para fazer qualquer pagamento naqueles anos, era necessário ao correntista utilizar cheques, que representavam “´dinheiro à vista”. Entretanto, tais papéis tiveram seu significado desvirtuado, servindo como garantia de empréstimo a agiotas e vendas parceladas, no comércio.
Não era possível escapar do Imposto Federal. Nos próprios Depósitos em Conta Corrente o interessado tinha que entregar ao Caixa Cr$ 2,50 (dois Cruzeiros e cinquenta centavos). Os correntistas – como o cronista – não costumavam sair de casa sem um talão-de-cheques no bolso, papeis que funcionavam como moeda, em qualquer eventualidade. Havia certo charme em se sacar um talão e emitir um cheque. Era sinal de poder financeiro.
Mas o recebedor teria que ir ao Banco para efetuar o depósito e também pagava a taxinha de Cr$ 2,50 par efetuar a operação.
Novamente o Pix em cena! Com a vantagem da isenção de taxas. Acabou-se a chatice de se conduzir o talão de cheques, correndo o risco (em caso de recebimento) de se estar de posse de um “Borrachudo”; ou seja, aquele tipo de cheque que bate no Banco e volta; no caso de insuficiência de fundos.
Nessa fase os Bancos davam a entender suas solidez, através de grandes edifícios, com fachadas caprichadas, como o London and River Plate Bank, e outros, instalados no bairro do Rio Branco, no Recife: o Banco Francês e Italiano para a America do Sul, o Royal Bank of Canadá, o Banco Nacional Ultramarino, o The National City Bank of New York, formando o que se convencionou chamar de: Wall Street pernambucana.
Para concluir meu livro: “Recife da Moeda ao Crédito”,que seria editado em 2005, recorri ao Banco Central do Brasil, localizado em Brasília, que me enviou carta informando relação das instituições possuidoras de agências em funcionamento no Recife, sendo a parte singular da correspondência, a citação do Banco Simples S.A., que apesar de não possuir agência neste estado, tinha endereço de sede o Recife.
Mas, pretendo deixar para a próxima crônica os comentários a respeito dessas informações e focalizar a parte do Pernambuco Histórico, quando falaremos, entre outros fatos, que a primeira instituição bancária das Américas foi instalada no Recife, graças `iniciativa de Nassau: a Casa Bancária Fugger, de origem alemã e a primeira moeda de ouro cunhada nessa mesma região, em 1645, no término do período holandês
Quando o Banco do Brasil se tornou um Conglomerado Financeiro, pois perdera a Conta Movimento – que era reservada ao Banco Central – ocorreu o pioneirismo das inovações mais importantes, dentre elas o Cheque Especial (com limites para a garantia de fundos), primeiro serviço desse porte, do Mercado brasileiro.
Depois, a partir de maio de 1964, a Agência Centro do Banco do Brasil em Pernambuco remodelou o primeiro pavimento de seu edifício-sede, para oferecer os serviços dos Caixas-eletrônicos, oferecendo quase todas as modalidades de operação, inclusive empréstimos de Pessoa Física.
Para facilitar as transações entre Pessoas Físicas e o Comércio, o BB implantou o primeiro Cartão Múltiplo circulante em no Brasil, pois reunia as funções de movimentação de contas e Cartão de Crédito num só produto: o Ourocard. E demonstrando audácia burocrática, foi instituído o modelo de Caixa Executivo, diminuindo muito as filas nos Caixa.
Todavia, mesmo com essas facilidades, o Pix veio tornar os Bancos brasileiros – independente das vultosas operações de Pessoa Jurídica, ligadas à Carteira de Comércio Exterior e financiamentos planejados pelo Governo Federal – quase em meras figuras decorativas.