CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

“NICE GARDEN”

Arthur Augusto Rôxo Pereira havia alertado aos inspetores do Banco do Brasil em Pernambuco, para que nos telegramas de mudança de roteiro evitassem informar claramente os nomes das cidades para onde iriam, posto que tais deslocamentos deveriam se revestir de certo sigilo.

O Inspetor Hamilton Reis, intelectual emérito, funcionário que recentemente viera da Direção Geral para trabalhar em Pernambuco, atendendo à recomendação do Chefe dos Inspetores, ao findar uma inspeção em Garanhuns comunicou que seguiria para uma outra agência e para isto, aplicou seu “Código Confidencial”.

Foi, ele próprio, ao Correio e passou o pitoresco “Telegrama Nacional”, a única via de comunicação da época da época. E codificou a mensagem à sua moda, o que causou risadaria na sala da Inspetoria, no Recife.

O texto entrou para o anedotário regional:

Tomorrow Nice Garden”, ou seja: “Amanhã estarei na agência de Belo Jardim”.

E assim deu notícias para onde seguiria.

O Inspetor pegou o apelido de “Nice Garden”.

Pelo menos não realizou a mesma proeza quando se deslocou para Limoeiro, terra do legendário Coronel Francisco Heráclio do Rego, conhecido como Chico Heráclio, porque se tal tivesse ocorrido ele certamente teria telegrafado:

“Tomorrow Chico City”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FURICO DE OURO

A Agência do Banco do Brasil em Garanhuns, fundada em 10 de novembro de 1923, se estabeleceu na Av. Santo Antônio, 446, com instalações modernas e funcionários de boa categoria, sobremodo em termos de educação.

Não se poderia imaginar que 40 anos depois viesse a registrar um fato capaz de deixar dúvidas quanto à reputação do funcionalismo como um todo, caso houvesse algum “vazamento” sobre o desprezível comportamento de apenas uma pessoa.

Com equipe de quase 20 rapazes, se soube que havia um – considerado “furico de ouro” – porque não se sentando como os demais, e sim colocando as partes glúteas no assento de plástico, defecava acocorado, com os pés em cima da louça com sapato e tudo.

Mas o assunto acabou correndo à boca-pequena, o que levou o então Gerente, Eutíquio Calazans, à obrigação de baixar uma Portaria, alertando para as regras sanitárias, documento que só agora vem à luz, após decorridos mais de 50 anos, o qual merece registro por sua característica tão fora do comum.

Conheci o Gerente Eutíquio quando fiz uma reportagem em sua Agência e o assunto foi relembrado. Em tom de gracejo, sobre o assunto, me disse:

– Olhe Carlos Eduardo, um sujeito que não respeita seus companheiros de trabalho e se torna “notável” por sua má educação, só poderia nos causar profundo desagrado. Aquilo era forma de obrar? Acocorado em cima da bacia do aparelho? De sapato e tudo? Só poderia estar mesmo pensando que tinha um “furico de ouro”.

Esta folha que está a seguir deve ser incluída como documento da “História Caganográfica” de Garanhuns:

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O BECO DA MIJADA

Antiga sede do Banco da Lavoura de Minas Gerais, Recife, vendo-se do lado esquerdo o “Beco da Mijada” e um estacionamento de veículos

Meu leitor Fred Monteiro caiu na besteira de comentar sobre o passado bancário do Recife e isto me lembrou o “Beco da Mijada”, célebre ruela situada em plena zona da raparigagem portuária.

O primeiro emprego do meu caro leitor foi no Banlavoura, agência da Praça da Independência, mas a sede regional estava situada em plena Rua da Guia, “sede oficial” do Baixo Meretrício da Capital.

O Edifício Alfredo Fernandes, construído nos idos de 1930, foi um dos mais modernos do bairro portuário do Recife, formando, um quarteirão de um único imóvel, daqueles construídos nas Américas, após a Primeira Guerra Mundial.

O arquiteto definiu que a entrada lateral ficasse meio voltada para a Rua da Guia, mas transversalmente localizada, dando a impressão que não estava virada para lugar nenhum.

A entrada principal, recebeu a numeração pela Av. Alfredo Fernandes, 149, uma porra de rua estreita, mal pavimentada, que jamais teria fisionomia de avenida. Os trilhos dos bondes ainda estão lá para comprovar nossa história.

Vale nos reportar ao fato pitoresco.

O Restaurante Gambrinos sempre foi o chic do lugar. Seu maior movimento era justamente durante às noites. Entretanto, em que pese sua distinta clientela, sofria muito com a “putanagem reinante nas noitadas da alta boemia

A prostituição dava intensidade à vida do bairro e lucro aos restaurantes e bares. Incomodado com o fato de sempre estarem os sanitários do restaurante cheios e mal cheirosos, o Gerente José Pacífico decidiu só permitir o uso dos “WCs” para a clientela.

Não sendo cliente da Casa, que fosse urinar no inferno!… Para isto criou o velho sistema de mantê-los fechados, só permitindo o acesso através da obtenção de uma chave, que ficava em poder do Caixa.

Os cavalheiros desconhecidos não teriam direito às privadas. Acabaria assim com a esculhambação reinante. Isso motivou um fato “gineco-urológico” que ficaria no anedotário e na própria História do Bairro do Recife.

Tempo houve em que a cambada enchia a cara de cerveja nos bares menos “alinhados” e na hora de fazer o “depósito urinário” corria para o Gambrinos, a casa chic, que mantinha seus “aparelhos” impecáveis.

Impedidos de fazerem seus “derrames” no antigo local e estando com o saco cheio, corriam os mijantes para qualquer esquina, a fim de despejar o que já fora o “precioso líquido”; agora já um “líquido enferrujante”, além de mau cheiroso.

Havia uma ruela que separava a Rua do Apolo e a Rua da Guia, exatamente nos fundos do Edf. Alfredo Fernandes, local onde se havia instalado, em 1949, o Banco da Lavoura de Minas Gerais S.A. O local tornou-se mictório popular.

Às caladas da noite, “na moita” a “urinagem” fora da Lei de Posturas ocorria indecorosamente. Os que se viam “apertados”, iam até o meio da ruela, para melhor se ocultar e soltavam seus “jatos aliviantes”.

Nas manhãs dos dias úteis o funcionalismo do Banco da Lavoura – que ficava exatamente na esquina do beco- não suportava o mal cheiro; e para sanar a problemática, o Gerente, sr. Bravo Rodrigues, mandava jogar baldes de água com detergente, todos os dias, para aliviar.Mas de nada adiantava.

Como solução extrema, meses depois, veio outro Gerente do Banco e teve a “luminosa” ideia de mandar instalar um portão de ferro, com ferrolho e cadeado. Mas, mesmo assim não tinha jeito: a mijação continuaria. A “negrada”, como diria Capiba, arrodeava pela Rua do Apolo e tinha acesso da mesma maneira ao mictório indesejável.

Outra tentativa de solução veio depois de alguns dias, o Síndico do prédio resolveu fechar o lado oposto. Foi ainda pior porque os mijantes, com raiva, passaram a urinar nos portões, principalmente naquele situado na porta do Banco; ou seja ainda mais próximo da entrada de funcionários e clientes.

Ficou na história aquele espaço sem dono, batizado pelos usuários: “O beco da mijada.”

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RUA DE CORNO

Chevrolet 1947, semelhante àquele, que transportava dinheiro para o Banco do Brasil

Na segunda metade da década de 50 chegou do Rio de Janeiro o primeiro caminhão-baú, tamanho médio, com carroceria de alumínio, que se destinaria a outras tarefas, dentre ela transportar valores, entre as agências do Banco do Brasil em Pernambuco.

A Inspetoria Geral, sediada no Rio de Janeiro, estudava a melhoria dos precários serviços de transporte de valores, cujas empresas Preserve e Nordeste estavam ainda em organização.

O “baúzinho”, como ficou conhecido, substituiria os carros-de-aluguel, utilizados precariamente para esse fim.

Tudo era improvisado naquelas viagens; inclusive os responsáveis pelas remessas, funcionários que não tinham habilidades em portar e manejar armamentos, os quais deveriam portar na cinta os “dinossáuricos” revólveres “38 cano-curto”, para a segurança do dinheiro, nas perigosas missões.

Notabilizou-se por trabalhar durante mais de 10 anos nesse serviço, o motorista-proprietário, Napoleão Carneiro, que fazia ponto na Praça Rio Branco, utilizando um automóvel Chevrolet, mod. 1947.

O pequeno caminhão passou a fazer todas as viagens de numerário da região, incluindo João Pessoa e Maceió.

Selecionado para uma das muitas “Viagens de Numerário”, fui com o motorista Joaquim de Lima, conhecido como “Quinzinho”, e o colega, que era Pastor Evangélico, Severino Melo de Freitas, um homem de cor e fina educação.

Transportávamos no “Baú” vários 150 mil Cruzeiros, em cédulas, acondicionadas em 30 sacos de tela de juta. Quanta precariedade e riscos!… Carga muito pequena para um veículo tão grande.

O pequeno caminhão não possuía nenhuma identidade externa, exatamente para não chamar a atenção por onde transitasse.

Durante certa viagem “Quinzinho” começou a soltar umas conversas safadas, “castigando” Severino com pesadas piadas, dosadas de alta “pornofonia”.

No começo da viagem Severino adotaria a máxima protestante de que se deve pregar a palavra de Deus “em tempo e fora de tempo”.

Até Paudalho Severino ficou lendo a Biblia. Depois enveredou para nos doutrinar, dando-nos exemplos de correção . Uma chatice.

Em certo momento, perto de Bezerros, Severino-pastor arretou-se de tanto ouvir safadeza e disse que estava prestes a “fazer uma representação” contra Joaquim.

E veio com esta:

– Sinto-me incomodado por ouvir tantas histórias com palavras de tão baixo calão!

Já estávamos perto de Gravatá, metade da viagem de duas horas. Mas, antes de se calar, para não piorar o clima, “Quinzinho” ainda soltou esta, finalizando a cena:

– Ôxente, quem fica incomodado é mulher menstruada!

O silêncio dominou a cabine durante quase uma hora. Uma atmosfera fúnebre. Deu até sono. Mas, ao entrar em Caruaru, no oitão da Igreja-matriz, o motorista “aplicou a presepada”, que durante os momentos de silêncio, já vinha conjuminando.

Quase 10 horas, sol a pino, o caminhão parou na esquina e sem largar o volante, o safado motorista chamou um guarda que estava meio abestalhado, abrigando-se numa mangueira que havia na calçada, e perguntou:

– O senhor sabe onde fica a Rua Severino Melo de Freitas?

Era exatamente o nome completo do Pastor. Severino logo arregalou os olhos, surpreso, prevendo ser uma presepada de “Quinzinho”.

O guarda tirou o quepe, passou a mão no rosto, enxugando o suor que lhe escorria face abaixo e respondeu:

– Já ouvi falar no nome desse corno, mas não sei onde fica essa rua não, meu camarada!…

Fechou-se a cortina do episódio que entrou para o anedotário do Banco.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CIRCUITO DE BOA VIAGEM

Baratinha Ford mod. 1941, semelhante ao carro de Baby Costa

Há 70 anos, no Recife, eu apreciava com meus amiguinhos, o Circuito Autobilístico de Boa Viagem, que acontecia nas manhãs de domingo e surgiram a partir de 1949. Vibrávamos, gritando e sorrindo face às emoções do estalo dos motores com os escapes abertos.

Em função desses eventos que eram patrocinados pelo Automóvel Clube de Pernambuco, as ruas Barão de Souza Leão e Armindo Moura (atual Porta Larga) foram recapeadas, a fim de formar o quadrilátero da corrida, que se iniciava próximo à esquina da Pracinha, na Av. Boa Viagem.

Dos pilotos pernambucanos, os mais famosos foram Itagibe Chaves, Gegê Bandeira, Baby Costa, além de Chico Landi, que em sua primeira apresentação, veio do Rio de Janeiro, trazendo seu carro-de-corridas num vapor da Cia. de Navegação Costeira.

Muitos anos depois vim a conhecer pessoalmente Itagibe Chaves, o que me causou grande emoção e fiz referências às suas performances.

A Masseratti de Chico Landi

Chico Landi tinha vantagens por concorrer com carro importado da Itália, máquina típica para corridas, que já se sagrara vencedora no Circúito da Gávea, do Rio. Era uma Masseratti muito fogosa, sem capota. Ele já se apresentava com macacão, capacete e óculos especiais.

Sempre era considerado “em vantagem” porque fora participante do famosas corridas até competições fora do Brasil.

Tempo houve em que o Automóvel Clube de Pernambuco excluiu daquelas corridas os “carros especiais”, como aqueles fabricados para competições, permitindo-se os de linha esportiva, como os ingleses mais modernos, como os Subean-Talbot, que fizeram mito sucesso concorrendo sem alterações mecânicas.

Alguns carros de desenhos mais antigos se adaptavam. Competiam sem os paralamas, tampa da mala, estribos e bancos, permitindo-se alterações nos motores, que poderiam ser “envenenados”.

Os Citroen estavam chegando ao Recife e eram infernais principalmente nas curvas. Quando os pilotos do Rio de Janeiro começaram a se apresentar, as corridas o circuito perdeu parte de sua graça, porque eles participavam com carros fabricados para corridas.

Para ver o espetáculo mamãe permitia que eu fosse com Avanildo Maranhão, Pedro Geraldo, Coaraci Ferrer e outros, da faixa dos 14 anos. Ao chegar, tomávamos posição na esquina da Avenida Boa Viagem com a Rua Barão de Souza leão, bem próximo ao local de partida.

Ficávamos sentados no meio fio, sob um sol de lascar, no verão de dezembro até a corrida se iniciar. Outro local muito apreciado pelos espectadores era a curva do aeroporto, quando os motores já haviam esquentado.

O nosso ponto de observação era estratégico, por ser bem próximo da partida e por ali os carros saiam com toda a força. Faziam curvas espetaculares, salientando-se a explosão dos motores, durante as trocas de marchas, quando os escapes pipocavam, provocando grandes emoções.

Dos concorrentes do Recife um dos que mais me impressionaram foi Baby Costa, com sua “baratinha” Ford, mod. 1941, que surgia sem os paralamas, tampa do capô, da mala e os estribos.

Numa daquelas competições ficou na tribuna de honra o ex-campeão mundial argentino, Dom Juan Manuel Fângio, uma legenda das pistas internacionais.

O Recife ficou famoso por esse tipo de esporte que se realizava anualmente. Depois, essas corridas foram transferidas para as pistas da Cidade Universitária e perderam muito público, porque, quando em Boa Viagem, as pessoas iam apreciar as corridas e depois aproveitavam para tomar “banhos-salgado”, como se chamava naqueles anos.

Foram as melhores lembranças esportivas de minha mocidade as manhãs do Circuito de Boa Viagem.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TORTURA DE AMOR

O cantor Waldick Soriano

No jornalismo descobri muitas coisas e obtive respostas sobre fatos interessantes que poucas pessoas conhecem. Alguns deles aqui me reporto, para gaudio do público leitor.

Em Campina Grande, hospedado no Rique Pálace Hotel, solicitei ao Gerente uma mesa para instalar minha máquina de escrever portátil, a fim de começar a redigir uma reportagem para o Diário de Pernambuco.

O melhor lugar escolhido foi no restaurante do hotel, onde me arranjaram uma mesa ampla, em horário de pouco movimento. Estava em missão jornalística, a fim de cobrir eventos no Clube de Caçadores e numa Escola de Paraquedismo que ali existia.

Como se sabe, a “Rainha da Borborema” é rica em valores e pioneirismo. Espalhei a papelada com as anotações e fotografias e comecei a montar a reportagem.

Numa das mesas, bem afastado, olhando para a janela, estava um cidadão todo de preto e chapéu de vaqueiro, entornando uma bebida. Um tipo estranho. Mas fui cuidar do meu ofício.

Meti o sarrafo. Fiquei trabalhando de frente para o suposto viúvo. Depois de algum tempo, ao terminar a redação, comecei a arrumar a papelada e fechando a máquina, percebi que ele se levantara para vir até onde eu estava.

Perguntou se eu era escritor. Respondi ser apenas um aprendiz de jornalista; e pedi desculpas pelo ruído do teclado. Achou graça e bateu em meu ombro com afeição.

Pediu licença, puxou uma cadeira e sentou-se. Parei de trabalhar a fim de escutá-lo; mas na verdade havia concluído a tarefa. Ele começou a fazer perguntas sobre jornalismo, levando-me ao direito de fazer o mesmo com relação à sua estranha pessoa.

– Tenho muita vontade de ser artista; um cantor de fama. Estou tentando. – disse-me.

Saquei meu cartão-de-visita e entreguei, perguntando seu nome e se era fazendeiro.

– Não. Sou Eurípedes. Vivo do palco. Canto e vendo meus discos após os espetáculos nos cinemas, nos clubes e outros palcos. Vivo viajando por este Nordeste ensolarado.

Aí comecei a pensar que já conhecia o sujeito e não sabia de onde. Depois me lembrei que era das capas de discos!

– Por que está vestido de preto?

– Bem, quando eu era menino apreciava muito o cowboy do cinema, “Durango Kid”. Adulto, e já cantando em vários lugares, resolvi adotar seu traje e me apresento, inclusive, de chapéu, utilizando o mesmo estilo, para firmar minha imagem de marca. Meu nome como cantor é Waldick Soriano.

Surpreso, levantei-me respeitosamente e dei-lhe um abraço fraternal, citando várias de suas músicas que eu tanto apreciava, sobremodo: “Tortura de Amor”. Pedi-lhe desculpas por não o haver reconhecido logo, porque jamais o vira tão de perto. Somente através da voz e de capas de discos nas lojas.

Soltou os cachorros. Descreveu sua mini-biografia. Declarou que fora abandonado por sua mãe e a marca da solidão o acompanhava. Uma espécie de recalque, tornando-se a inspiração de cada uma de suas melodias. Naqueles anos já contava com mais de 400 canções gravadas em cerca de 30 discos long-play.

Fiquei admirado e seria outra reportagem para o jornal. Nunca fiz. Só agora me reporto ao fato porque será importante dizer aos leitores porque ele só se apresentava de preto.

Fora batizado Eurípedes Waldick Soriano, mas resumiu o nome por sugestão do empresário. Tinha história de luta. Depois de haver sido garimpeiro, trabalhou na roça e como caminhoneiro de seu pai. Mostrou-me as mãos calejadas pela enxada no garimpo.

Rindo, comentou que a buzina do caminhão tinha “três bocas” e dava pra representar três tons diferentes, como sendo o início de uma música. Quando chegava às cidades, a mulherada abria as janelas para saudá-lo logo que o som das buzinas se espalhava: “Waldick chegou!!!. Era uma alegria! Riu-se em gabação e continuou:

– Houve um tempo em que meu pai achou que eu, com quase 30 anos, estava parado na vida. Só queria cantar, tocar violão e namorar…, e isso não sustentaria uma família. Fui pro garimpo e ganhei o suficiente para ir fazer fortuna em São Paulo. E disse ao meu velho: Se eu não obtiver sucesso não voltarei mais. Todavia, quando buzinar na esquina da rua no meu “possante”, pode crer que estou no auge.

Em tom de galhofa, contou que certa feita, nas suas doidices de “juventude retardada”, pegou um cavalo e desfilou nas ruas de Caiteté, na Bahia, vestido de preto, como se fosse Charles Starret, o ator do cinema que encarnava “Durango Kid”. Mas foi vaiado pela rapaziada, pois não era dia de carnaval.

Sanfoneiro e violonista, adotaria a vida artística como solução para progredir na vida. Já era poeta e escrevia as letras de suas canções. Começou a cantar em pequenas cidades do interior até ser contratado pela Boate Chanteclair, em Belo Horizonte, onde marcou sua qualidade e venceu.

Seus temas eram os amores mal sucedidos, as chamadas músicas para “dor de cotovelo”, as quais tocavam fundo à sensibilidade das pessoas.

Mandou-se para São Paulo, transportado num caminhão “Pau de Arara”, cheio de rapadura. Lá foi procurar a Rádio Record que era muito ouvida em sua terra. Não havia vaga para cantor.

Depois, na Rádio Nacional foi ouvido por um nordestino atencioso e obteve uma carta de apresentação. Venceu as resistências do destino. Mas, assim mesmo, em São Paulo, na fase anterior, teve que passar alguns meses como faxineiro num hotel, engraxate nas ruas e passou muito aperto.

Gravou o primeiro disco cantando músicas de sua autoria. Obteve sucesso, se apresentando pelo interior de São Paulo onde fez espetáculos. Seu maior êxito, na década de 1950, foram as músicas românticas: “Quem és tu?” e “Eu não sou cachorro, não!”. “Estouraram”, como se diz. Passou a disputar com os grandes nomes do Rádio.

Como compositor – disse-me – Orgulhava-se de ter músicas gravadas por Roberto Carlos; e produziu um disco só com músicas do “Rei da Juventude Brasileira”. Muitos outros grandes cantores gravaram suas músicas.

Todavia, tinha que vender discos. Tempos depois, ganhou dinheiro e enfrentou o árido sertão da Bahia, sua terra, num automóvel Ford Galaxie. Chegava nas cidades, parava o carro numa praça para chamar atenção sobre sua presença. Alugava os cinemas para se apresentar e depois vendia discos autografados. A princípio o empresário era ele mesmo e tinhas suas artimanhas e marketing.

A partir daquele encontro em Campina Grande, fiquei sabendo porque o cantor sempre se apresentava de preto e com chapéu de cowboy. Era apreciador do astro do cinema. No íntimo desejara ser Durango Kid, o Cavaleiro do Bem.

Teve fama, ganhou dinheiro, mas gastou parte da fortuna em grandes noitadas e com muitos filhos e esposas que sustentou. Mereceu um filme produzido por Patrícia Pilar. Hoje é lembrança imorredoura todas as vezes em que ouvimos seus maravilhosos boleros, dentre eles, um com letra e música de sua autoria:

“Tortura de Amor”:

Hoje que a noite está calma
E que minh’alma esperava por ti
Apareceste afinal
Torturando este ser que te adora
Volta, fica comigo
Só mais uma noite
Quero viver junto a ti
Volta, meu amor
Fica comigo, não me desprezes
A noite é nossa
E o meu amor pertence a ti
Hoje eu quero paz
Quero ternura em nossas vidas
Quero viver por toda vida
Pensando em ti.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UMA BRAHMA E UMA FICHA!…

Casa semelhante ao Bar Ambassador, situado na “Zona do Meretrício” do Recife Antigo

Na década de 50, sob o vigor dos meus 20 anos, “donzelão” todo, mas já exercendo atividade profissional como bancário, fui levado pelo tio e amigo Sebastião, para conhecer a “Zona de Meretrício” do Recife, situada nas proximidades do cais do porto. Mas ainda não era propriamente uma introdução à putaria, mas uma visita de cortesia, digamos.

Menino criado sob os fortes rigores da religião católica, chegar à segunda década de vida sem “comparecer” à Zona, era motivo de discreta preocupação dos pais. Mas a sífilis nesse tempo grassava e era o espantalho maior da juventude. Sobremodo porque eu já era noivo.

Vivi um tempo em que a juventude não tinha opções para se obter “ficha de macho” a não ser cair na gandaia da “Zona”. As moças eram virgens até o casamento e os namoros sempre motivavam compromisso de casamento. Segui esse caminho. Após um namoro de dois anos, já entrei no noivado e em poucos anos depois, no casamento.

Mas, me vi diante do desejo de conhecer o funcionamento da “prostituição oficializada”, que na década de 1950 se concentrava em dois polos: no Pina e no Cais do Porto, sendo esta a parte mais movimentada. Um território aberto a todos.

Sendo o Bairro do Recife uma ilha, ao se ultrapassar, à noite, qualquer uma das duas pontes – Maurício de Nassau ou Buarque de Macedo – se chegava a uma sociedade sem fronteiras. Tudo era livre, sobretudo a mulherada, que estava ali disponível para atender aos vários gostos.

Ainda vivíamos o rescaldo dos tempos da II Guerra Mundial e os marinheiros norte-americanos deixaram um rastro para o usufruto de “divertimentos masculinos”. Criaram o espaço onde se concentrava a mulherada. No Pina, tínhamos o Cassino Americano, clube chic, onde apareciam mulheres importadas; mas era coisa pra usineiros, pois os preços eram elevados.

Mas era na ilha onde foi fundada a cidade que se concentrava a “festa” para os solteiros, porque tinha mulheres para todos os gostos e desgostos. O Restaurante Gambrinos era o melhor e o dancing Chanteclér, uma espécie de clube dançante, assunto do qual já falei.

O Bairro do Recife era uma Paris. Local bem iluminado. Em cada pardieiro havia as “residências” da mulherada. As ruas estavam sempre transformadas em passarelas; uma espécie de “desfile de modelos”. Ali elas negociavam suas noites ou relações sexuais por instantes.

Fui com a intenção de apenas ver o que era a “Zona”, porque não havia apetite para enfrentar aquele tipo de divertimento. Aquela que seria minha esposa já estava escolhida.

E o que vi foi interessante para observações de um cronista ou um sociólogo. Vale a pena avaliar os hábitos daquela época e hoje estabelecer as comparações.

Um contrassenso: as ruas de Nossa Senhora da Guia, Vigário Tenório e da Madre de Deus e seus diversos becos, não obstante terem nomes religiosos, concentravam mais “casas de prostituição”, que na verdade ficavam localizadas nos velhos pardieiros. De dia um setor bancário e casas do alto comércio. À noite, festa da prostituição.

Depois de breve passeio e explicações sobre o funcionamento da “Zona”, tio Sebastião me levou à um dos bares mais elegantes do Recife, o Ambassador, situado ao lado da Concatedral da Madre de Deus.

Radiola de Fichas. Já nos anos, 50 era um atrativo no do Bar Ambassador

Ambos de ternos completos – imaginem!… – Chegamos ao bar para apreciar os drinks da Casa. Meu companheiro, que era solteirão, comprou também algumas fichas para que eu escolhesse discos que seriam tocados durante nossa estada. Haja Nelson Gonçalves e Sílvio Caldas!…

A radiola automática já era um sucesso. Os discos, escolhidos rodavam de pé. O elegante bar era discretamente um ponto de encontro com as mulheres mais finas da ‘Zona”. Ouvi dizer que ali se tornara o ponto dos que amargavam as “dores de cotovelo”, por causa da vasta oferta de discos a serem rodados na magnífica radiola.

Tio Sebastião foi informando como funcionava aquele local de divertimento. Era um ponto distinto, onde se poderiam encontrar mulheres de fino trato, raparigas bonitas e caras.

Logo à chegada, era de bom tom o boêmio se sentar e pedir ao garçom uma cerveja Brahma e uma ficha. Os discos rodavam. Começava, de fato, a fina boemia. Depois era só dar o braço à criatura que fosse convidada para um drink e sair para desfrutar o melhor da noite, alugando um automóvel para os levar ao Cassino Americano.

Hoje recordando aquela apresentação de minha primeira noite apenas de visita ao meretrício, me lembro que terminamos o “tour” no dancing do Chanteclér, onde a música surgia ao vivo através de uma boa orquestra e havia moças jovens e distintas para se bailar. Bem diferente do bar, onde geralmente se ouvia:

– Garçom, uma Brahma e uma ficha!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O BODE DE CHIQUINHO

Quem é avô sabe que somos capazes de tudo fazer para realizar os desejos de nossos netos.

Chiquinho, meu primeiro neto e sua irmã, Patrícia, estavam passando férias com a gente, visto que moravam com seus pais, em Fortaleza.

Era uma “babação” completa, porque sua irmãzinha, Patrícia, de cinco anos, fazia questão de participar de jogos de mesa improvisados, que eu ia criando para mantê-los sempre aprendendo coisas.

Sentados na mesa da sala, cada um tinha uma folha de papel milimetrado e um lápis, para controle de pontos. Imaginei que as perguntas versassem sobre letras iniciais de nomes de pessoas, de frutas ou de coisas diversas; e à medida que eles iam respondendo contávamos os pontos.

– Um nome de pessoa que comece com a letra “M”, eu “cantava”, pois era o Coordenador do jogo.

E eles iam respondendo até esgotarem os estoques da memória. Era muito engraçado. Assim a noite rolava até chegarem os sonos; e eles iam desenvolvendo rapidez de raciocínio.

Certa noite surgiu a palavra “bode” e Chiquinho parou suas respostas para me dizer que gostaria de ter um bode em nossa casa, porque em Fortaleza, embora residindo na Praia do Futuro, era um apartamento.

Como morávamos numa casa grande, onde havia espaços livres nos quatro lados, e de bichos só tínhamos o cachorrinho Dick e um jabuti batizado de Gedeão, caberia um bode, sem problemas. Minha filha, a mãe dos pimpolhos, bradou:

– Um bode aqui? Vai ser um desmantelo, papai!…

E eu logo “fuzilei”:

– E você vai ser a avó do bode!

No dia seguinte, um sábado, fomos à feira de Afogados e compramos um lindo bode branco, aproveitando para levar uma “cesta básica” para o bicho se alimentar, além de uma corda e a coleira. Meti o bicho na Vemaguete e Chiquinho ficou no banco de trás para ir acariciando o bicho. Satisfeito que só pinto em beira de cerca.

A chegada foi uma festa e sérias críticas à minha doidice. Imaginem criar um bode dentro de uma casa residencial!… O animalzinho estava sempre saltitante. Era lindo. Uma alegria que não tinha trégua.

Jeanine, “a avó do bode”

Indisciplinado, logo que se livrava dos carinhos de Patrícia e de Chiquinho, entrava pelo terraço, passava pelo corredor, pela cozinha e ficava rodando pelo quintal e oitões.

Suportei as críticas pela “loucura” da compra, porque minha filha, Jeanine – considerada pelas crianças “a vovó do bode” – já imaginava quando tivessem que voltar para Fortaleza, a falta que o bicho iria fazer aos seus filhos.

Mas, como se diz: “O tempo resolve quase todos os problemas”. E resolveu de maneira fora dos padrões. À noite, as duas crianças desejaram dormir com o bode. Foi a primeira confusão. Aí deu o primeiro “bode”.

Conseguimos convence-los a fazer uma cama para o quadrúpede e mantê-lo no terraço. As crianças foram dormir inconformadas porque desejavam dormir com o bode, no quarto.

Fiquei como “Fiscal do Bode” até sentir que ele adormecera. Ocorre que depois de certa hora, lá pelas profundas da madrugada, o animalzinho começou a dar sinais de que não desejava ficar sozinho e começou a berrar.

A cantilena foi a noite toda e o berreiro motivou os patos do vizinho que fizeram o coro com Dick, que também latia. Ninguém dormiu direito. Só as crianças.

Ao amanhecer do domingo foi fácil a mãe deles convencê-los a devolver o bode, alegando que ele estava sentindo a falta da mãezinha, que ficara lá na feira. Logo concordaram.

Fui sozinho e negociei com 50% de abatimento. Nunca me esqueci do bode de Chiquinho, que já me presenteou com duas bisnetas: Geovana e Luana e Patrícia, que vive no Texas. com seu marido e meus bisnetos Isabela Telga e Set.

E, como se diz em vaquejada, quando se trata de marcar pontos de vitória: “Valeu Bode!”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O HOMEM QUE MATOU O PAPA

Na gestão de João Baptista Figueiredo na Presidência de República, o último mandatário da Revolução de 1964, durante reunião trimestral da Sudene, no Recife, Amílcar Dória Matos, sendo funcionário da autarquia e escritor, achou z por bem presentear o ilustre visitante com um dos livros de sua autoria: “A morte do Papa”, o que ocorreu através de um dos assessores presidenciais ia, a fim de manter o protocolo.

Terminada a reunião do Conselho Deliberativo, mesmo em meio à barafunda de governadores do Nordeste, secretários, membros da Imprensa e curiosos, o General João Figueiredo, sensibilizado, decide agradecer pessoalmente a oferenda do livro, e como bem próprio era seu estilo procurou localizar o escritor, e em alta voz – posto que seu Ajudante de Ordens estava um pouco distante – soltou o verbo sem cerimônia, ecoando sua solicitação como uma situação de urgência:

– Procurem o homem que vai matar o Papa!…

Começou o burburinho. Verdadeiro frenesi. O Serviço de Segurança do “homem” ficou sem saber como iniciar uma ação, porque o caso era inusitado. Somente depois de alguns minutos é que Amílcar se apresentou e recebeu afetivo abraço do Presidente, que em tom de gracejo lhe disse que o autor correu o risco de detenção, porque ele havia lido o título rapidamente, e em se esquecendo, achou que o Papa estava jurado de morte.

Ao final, tudo se completou com boas risadas e um abraço. A Imprensa noticiou o fato. O livro teve sua venda ampliada diante da ocorrência, tanto que Amílcar recebeu do Editor a sugestão para trocar o título rebatizando o livro para “O homem que vai matar o Papa”. Mas se manteve o original.

Amílcar Dória Matos, foi um dos fundadores do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco, fez curso de Direito nos Estados Unidos, foi alto funcionário da Sudene e do City Bank, e escritor laureado, tornando-se conhecido nacionalmente pelos muitos prêmios que conquistou com seus livros. Infelizmente nos deixou há alguns anos, no auge de sua produção literária.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DONA MARIA DA TAPIOCA

Este camaradinha da foto aí de cima, tirada por Diógenes Montenegro quando completou 80 anos, foi batizado como Lourenço da Fonseca Barbosa, mas ganhou o apelido de Capiba, que se tornou nome de três prédios, duas praças, duas estátuas e um boneco-gigante no Recife e Olinda.

Maestro e compositor nas horas vagas. No trabalho bancário era uma fera. Funcionário atento, competente e rápido nas tarefas, mas sem perder o fino humor, aplicando suas notáveis “tiradas”, engatilhadas para fazer rir. Era um galhofeiro.

Dona Maria da Tapioca era uma senhora que na década de 1950 mantinha, todas as tardes, na frente do prédio do Banco do Brasil, na Avenida Alfredo Lisboa, no Recife, um tabuleiro para vender os produtos que a tornaram famosa.

O terceiro personagem desta pequena crônica é João Castelo, o saudoso “Bico Doce”, que ganhou o apelido por ser um “Emérito” apreciador da “Pitucilina”. Um cabra bom.

Mas sempre estava “queimado”, cheio do “quequéu”; vermelho que só um camarão.

E sempre sem dinheiro, pedindo cruzeiros emprestados a gato e cachorro, sem ter o cuidado de devolver.

Certa feita, findo o expediente, D. Maria da Tapioca foi lá ao 1º andar, onde Capiba trabalhava, acompanhada do solicitante, e perguntou, em alta voz:

– Seu Capiba, o “sinhô” acha que eu posso emprestar 100 cruzeiros a Seu “Bico Doce”?

A afirmativa seria claramente o aval do famoso compositor.

E, mesmo diante do meliante – pois João Castelo era acostumado a tomar dinheiro emprestado e não pagar – Capiba levantou-se, em sinal de respeito, e se pronunciou com veemência, e assim zoando, para que todos os colegas ouvissem:

– Castelo, meu amigo, Dona Maria da Pitomba tem um acordo assinado com o Banco, que permitiu que ela montasse seu tabuleiro na porta de entrada: E assim, nem ela emprestaria dinheiro, nem o Banco venderia tapioca. E estamos conversados!…