CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O CANTO DO CISNE

Capa e contracapa do livro

Na última quarta feira, no Salão Nobre da Associação Atlética Banco do Brasil, nas Graças, lancei a 2ª biografia que escrevi sobre um dos maiores compositores brasileiros: Lourenço da Fonseca Barbosa, nosso saudoso Capiba, apresentada em livro com 302 páginas, das quais, mais de 180 com foto-ilustrações, com o miolo todo em couchê e capas coloridas.

A festa foi uma louvação àquele maestro, pianista, poeta, compositor, pintor, escritor e piadista, apresentando uma Hora de Arte, com show do pianista Marcos Menezes e a cantora Lua, tendo como plano de fundo e trilha sonora, todos os ritmos de Capiba.

Mesa de Honra: Carlos Eduardo, Paula Rubens, Luciano Lobo, Zezita, Euler, Francisco Melo e Luiz Guimarães. – Foto de Débora Barros.

A escritora Paula Rubens, patronesse da festa, assumiu a tribuna para descrever suas impressões sobre o livro:

Começo pela capa que retrata Capiba com um sorriso de menino arteiro; tão realista que parece estar apenas esperando que a gente lhe dê corda e puxe conversa. Mas, meu encantamento vai além da apresentação do visual, descobri algumas convergências entre o autor e o biografado.

Assim como as músicas de Capiba, descomplicadas e ricas de significado, também traduzem a história social do carnaval. A escrita de Carlos Eduardo encanta pela simplicidade, pelo humor e por ser saborosamente coloquial. Na dimensão histórica da obra, encontrei meu maior encantamento.

E findou suas palavras informando que a grande novidade, o mérito maior de Carlos Eduardo, foi ter ido além da música e da trajetória pessoal do biografado e por motivação de Capiba, contou a história de toda uma época, mantendo viva a memória do compositor e a história geral do Brasil.”

Após a apresentação do livro, pela Patronesse, a solenidade continuou. Na Mesa de Honra estavam: Carlos Eduardo, Paula Rubens, Luciano Lobo, Zezita, Euler, Melo e Luiz Guimarães.

Falei, então, sobre lindas aves que proliferam na Ásia Central e Oceania, que proliferam alimentando-se em águas rasas, junto às margens de lagos, rios e açudes, onde existe vegetação aquática abundante: os cisnes.

E esses animais me lembraram, naquele momento, a expressão: “O canto do cisne”, metáfora que se refere à última grande realização de uma pessoa, antes do fim da carreira profissional ou de sua vida.

Trata-se, porém, de uma lenda que aqui se faz como metáfora. Dizia-se, na Antiguidade, que o cisne-branco passava a vida em silêncio ou emitindo sons pouco melodiosos, uma espécie de grunidos. Entretanto, momentos antes, quando pressentia que a morte se avizinhava, entoava uma canção extremamente bela, depois tombavam inertes.

Um casal de cisnes brancos nas águas da Índia. Foto iStock.

E dei continuidade à minha oração acrescentando:

Esta noite representa para mim, o “Canto do Cisne”, porque já completei 90 anos. Publiquei 34 livros, tenho 4 filhos, 12 netos e 11 bisnetos. Quantas realizações divinas!

Portanto, o bom senso recomenda que devo concluir minha atividade profissional, como autor e editor de livros, ausentando-me de vez. E dessa forma, ofereço às gerações atuais, algumas notas biográficas sobre um velho amigo, na data das comemorações dos 122 anos do seu nascimento, avaliando a dimensão de eternidade com outras figuras do Pernambuco cultural.

E o faço emocionado, para louvar um compositor que em vida recebeu a maior honraria de Pernambuco: o título de Comendador da Ordem de Guararapes, Classe Ouro.

E depois da partida para a Eternidade, foi incluído entre os três maiores personagens do século passado, juntamente com o sanfoneiro Luiz Gonzaga e o sociólogo Gilberto Freyre.”

Juntamos, numa festa quase íntima, a família do compositor, com destaque para a viúva Zezita e parentes que vieram de Salvador. E em atmosfera de júbilo, louvamos Capiba como se um santo fosse, como me disse o Dr. Gilberto Freyre.

Luciano Lobo, Presidente da AABB, declarou ao jornal Folha de Pernambuco que o livro era mais um importante trabalho do Departamento Cultural, para a preservação da cultura de Pernambuco e que, seu clube, ao apoiar a iniciativa, reafirmava o compromisso de prestigiar os valores dos nossos artistas.

Encerrou suas palavras reafirmando o compromisso de fazer parte do projeto de valorização do esporte, da cultura e do lazer dos associados do Clube. Emocionado, pronunciou: “Viva Capiba! Viva a Cultura pernambucana! E viva a AABB-Recife!

Euler Araújo de Souza, Vice-presidente de Comunicação, da AABB e Presidente Emérito da Academia de Artes e Letras da AABB-Recife, organizador dos trabalhos complementares da edição do livro e os detalhes da festa, ocupou a tribuna manifestando seus pensamentos, através de simbólico discurso:

A cada dia em que celebramos manifestações de reverência à nossa identidade cultural, cumprimos um imperativo dever humanitário. Hoje, as homenagens vão para a plenitude artística da obra de Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) e para o autor do livro “Viva Apiba”.

É provável que ninguém guarde uma compreensão tão intensa e íntima sobre o Mestre Capiba quanto o escritor Carlos Eduardo Carvalho dos Santos. Sua autoridade sobre o tema é indiscutível, está fundamentada na erudição, em anos de convivência genuína e na sólida amizade com o maestro.

Contudo, se houver outra mente que compartilhe de tamanha sabedoria, isso nos deve ser recebido com entusiasmo, pois o conhecimento e a transmissão de saberes constituem os pilares de qualquer civilização desenvolvida.

O livro é extraordinário: uma obra primorosa, tecida com narrativas envolventes e um acervo iconográfico fascinante. Ao concluir sua leitura, manifestei meus sentimentos.

Esta é uma bela obra. Nesse instante, com a imaginação ainda no calor do contexto literário, senti a voz de Capiba ao piano me dizendo: Você diz que ela é bela; Ela é bela sim senhor.

O autor é uma fortaleza longeva cuja sabedoria atravessa mais de nove décadas. Ao soprar essas palavras ao silêncio, mais uma vez vi Capiba replicar nas teclas do piano: “Ele é madeira de lei que cupim não rói”.

A AABB Recife, mais uma vez, cumpre sua missão institucional e sociocultural ao salvaguardar a memória coletiva e, neste ato solene, reverenciar o legado de seu próprio cofundador. Parabéns ao escritor Carlos Eduardo por manter viva essa chama e semear a cultura brasileira. Viva Capiba!

Portanto, sinto-me rejubilado por haver completado a obrigação sentimental de transmitir um recado àquele que partiu rumo à Eternidade. E em sua maneira de “engolir as consoantes”, falamos mais alto, como me disse Ariano Suassuna: “Bravo! Viva Capiba”!

E foi assim, caros leitores, que completei minha tarefa de historiador, louvando a memória de personagens que projetaram ainda mais a cultura brasileira; melhor dizendo, terá sido meu “Canto dos Cisnes”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DEPOIS DO FURO RADIOFÔNICO

Parecia uma baleia mostrando a cauda

No verão de 1974, 11 de setembro, através do Repórter Esso, edição matutina, da PRL-6 – Rádio Jornal do Commercio, se ouviu a notícia de que na madrugada chuvosa um avião de grande porte havia saído da pista, derrubara o muro e foi parar na Estrada da Batalha, no Recife, com sérias avarias, mas todos os passageiros se salvaram.

Estando de férias do Banco, peguei a bicicleta, mesmo com a placa vencida, pois nessa época todos os biciclos tinham que ter matrículas no Detran, como os demais veículos.

Mandei-me para a região do Ibura, deslocando-me pelos 6 km. da Avenida Mascarenhas de Morais, até as proximidades do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. Eu era aspirante a repórter do Diário de Pernambuco e vivia ansioso para dar um furo jornalístico.

Durante o trajeto fui pensando nas aulas de jornalismo que frequentei no Ginásio Pernambucano, as principais delas, versando sobre manchetes, legendas e as descobertas após as primeiras publicações, que poderiam conter assuntos importantes, depois do “furo” das primeiras notícias.

Sob a inspiração de repórter-investigativo, cheguei bem perto do acidente e me surpreendi com a brutalidade do desastre. Vi logo a parte alta daquele trijato da Varig e pedaços da fuselagem por todos os lados.

De início minha impressão de espanto, surpresa e lamento, sem entender o porquê da falha, quantos passageiros e tripulantes haviam escapado. Surgiram em mim, no silêncio da rodovia sem trânsito, os questionamentos.

Parecia a cauda de uma baleia, fora do mar. A aeronave não estava ainda isolada com aquelas fitas amarelas que costumamos ver em acidentes. Podia se chegar mais perto. Até tocar no avião, como se fossem todos os espectadores, chorar com aquela viatura feita para voar e pousar com a maior precisão.

Fui rodeando o avião, como quem fareja. Fui dominado por uma certa tristeza. Como aquele veículo tão grande e tão moderno que eu via sempre nas nuvens, poderia ter escorregado pela pista, furado o muro indo parar na Estrada da Batalha ?! Muitas dúvidas ainda sem respostas.

O “Repórter Esso” havia dado o “furo” através de um hábil “Repórter de Setor”, aquele que atravessa as madrugadas de plantão na Polícia, no porto e no aeroporto, mas caberia ao menino-repórter levantar os detalhes: as causas principais, os porquês, a falha mecânica e a Diógenes Montenegro acionar sua “Laica”, a fim de colher várias fotografias.

Para isso eu estava ali, pronto para a tarefa que Nilo Coelho, professor de jornalismo, me ensinara: descobrir os detalhes importantes ocorrido nos bastidores, depois do “furo”, após o acontecimento, documentar nas horas seguintes o que aconteceu: em suma, escavacar. Fazer o exame detalhado que as primeiras notícias não haviam ainda informando os leitores.

O boeing 727-100, prefixo PP-VLU esparramara-se, ocupando a estrada, de uma calçada à outra. Procurei ver o nome e o símbolo da aeronave, mas soube que haviam pintado os dois lados, para evitar a exposição do nome famoso: Viação Aérea Riograndense – VARIG.

Um trijato da Varig preparando-se para voar. Foto de Vito Cedrini.

Senti-me jornalista. Comecei a anotar alguns detalhes para compor minha reportagem, que poderia ser sensacional. Pedalei para o quartel da II Zona Aérea mas, ainda muito jovem, fui barrado na Portaria. Deram-me pouca importância porque estava sem a credencial. Notei que nada sobre o assunto poderia ali obter.

Toquei para o Hotel Boa Viagem, depois de ouvir dois vigilantes noturnos, responsáveis pela segurança de lojas, sediadas ali perto do aeroporto e pessoas de um prédio onde funcionava um departamento da Varig. No hotel tomei conhecimento de outros fatos não anunciados pelo noticiário radiofônico.

Durante o pouso sob forte chuva, baixa visibilidade e com a pista muito escorregadia o “bicho” passou direto pela cabeceira da pista do aeroporto, quebrou o muro e invadiu a área urbana.

O fato: o avião escorregou no final da pista, ao pousar, e foi parar sobre a antiga Pracinha da Madeireira, cruzando o acesso à avenida, que era a saída para a BR 101. Todos os 79 passageiros e 14 tripulantes escaparam apenas com ferimentos leves.

Curioso como todo repórter novo, fui ouvir meu amigo Avanildo Maranhão, presidente do Grêmio dos Funcionários da Varig, por qual razão pintaram o nome prefixo da aeronave, ao que ele me adiantou:

É uma prática comum na aviação comercial. Para mitigar danos à imagem, as equipes técnicas do aeroporto, pintavam o avião para apagar a logomarca da proprietária na fuselagem e a iniciativa ocorre logo nas primeiras horas após acidentes, para evitar fotos associando o nome das proprietárias aos acidentes.

Mesmo permanecendo no restaurante do hotel até quase meio dia, visando entrevistar alguns passageiros, não consegui e tive que ir para o jornal e escrever o que observei de mais importante. Jamais esquecerei daquela reportagem!

As imagens históricas mostravam a cauda característica, em “T”, do Boeing 727 atravessado no meio da estrada, cercada por curiosos, ciclistas e caminhões de carga que não puderam passar.

Meti o pé na bicicleta, fui pra casa tomar banho, me vestir feito gente e me mandei para a Redação do jornal, onde havia máquina de escrever. Meti os dedos no teclado, narrando tudo que vi e ouvi.

No entanto, o Redator-chefe já recebera oficiais da Aeronáutica para explicar detalhes do acidente, possibilitando que o noticiário fosse o mais aproximado da realidade possível e se evitasse especulações.

Escrevi três laudas e a manchete: Pássaro pintado pousa na Estrada da Batalha.

Mas a manchete não foi publicada daquela forma. Fiquei triste por que se tivesse aparecido meu nome e a poética manchete, acho que o relato do jornal teria sido menos dramático.

Mas, em alguns dos meus parágrafos foi publicado que parecia uma baleia em terra. Meu esforço pessoal valeu, porque consegui explorar direitinho as melhores histórias.

A operação de resgate foi feita no próprio local para retirar o avião da rua, pois ele não ficou simplesmente além do muro do aeroporto: sua posição comprometeu a passagem pela estrada, exatamente a única que, na época, dava acesso à saída Sul do Recife. A técnica das equipes foi importante, porque não foi fácil liberar a via e remover um avião daquele porte.

Ao que se sabe o avião foi totalmente recuperado no Recife e meses depois estava voando normalmente. Pouco se sabe a respeito do que apurou o setor especializado da Aeronáutica sobre a ocorrência, o que vale ser melhor explorado, noticiando-se os fatos depois do “furo” radiofônico.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AUTÔMATOS AMESTRADOS

Imagem autoexplicativa

Há tempos, conversei com Miguel Meira de Vasconcelos, meu amigo, Presidente do Centro de Estudos de História Municipal de Pernambuco sobre a importância das pesquisas jornalísticas.

Lembrou-me ele sobre a obra monumental do saudoso jornalista Luiz do Nascimento: História da Imprensa de Pernambuco, abrangendo o período de 1821 a 1954, composta em múltiplos volumes, produzido pela Editora Universitária da UFPE.

Abordamos a sistemática da participação dos jornais locais e as influências circunstâncias daquelas folhas, nos vários momentos da atualidade brasileira, tanto na política quanto na economia, na sociedade, na educação e na geografia da Capital.

E tendo conhecido aquele dedicado colega durante uma das reuniões do Centro, conversamos bem à vontade e lhe passei algumas duplicatas de pequenos jornais informais, nos quais tive pequenas participações.

Um deles, do Colégio Universo, de Olinda – que titulei: Universo Noticioso; outro, do Colégio Moderno, de Afogados, que tomou o nome de Folha Afogadense, e finalmente um que motivou a preservação da Lagoa do Araçá, na Imbiribeira, de nome pitoresco, mas abordando temas sérios: o Danado de Bom. De todos guardei mais de um exemplar.

E há poucos dias, trocando ideias com Phillippe Gusmão, amigo e intelectual pernambucano, residente no Rio de Janeiro, falamos sobre os jornais impressos e os digitais, dizendo-me ele:

Hoje, a cansativa leitura digital, imposta pelo “avanço” da tecnologia, aliada à pressa e o imediatismo das nossas atribuladas vidas, nos provoca desânimo e cansaço.

Sinto até descrença do conteúdo, o que faz com que quase nunca nos aprofundemos nas leituras, tanto pelo teor tendencioso, quanto pelas “fake news” plantadas.

Sinto saudade dos jornais autênticos onde, somente os editoriais expressavam o pensamento dos donos ou de alguma corrente social.

Sinto saudades da maior pureza e transparência dos jornais e revistas de antigamente e da atmosfera de novidades e descobertas, que a compra e a leitura de cada um deles nos proporcionava.

Lembro-me das edições encorpadas do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, repletos de conteúdo de qualidade. Lembro-me do caderno especial deste último, intitulado Clube das Leitoras. E da expectativa criada pela chegada às bancas, ou em casa por assinatura, das revistas O Cruzeiro, Manchete, A Cigarra, Revista do Rádio, Fatos & Fotos e outras.

Mas esse tempo passou. Estamos agora na era da Internet, dos sites e dos blogs, do YouTube e do WhatsApp; com notícias e conteúdo novo minuto a minuto brotando dos nossos “smartphones”. Eles regem o nosso dia-a-dia de uma maneira escravizadora, mas apagaram completamente o brilho e o prazer da busca pela informação!

Somos agora, espécie de autômatos amestrados, ávidos por conteúdo, mas sem saber o que fazer com ele; sem raciocinar, sem filtrar e pior, sem tirar qualquer proveito, na imensa maioria das vezes!

Pelos comentários do meu observador e sábio amigo, não podemos deixar de reconhecer que na verdade somos, hoje, apenas autômatos amestrados.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

HALMIRO – UM MESTRE DA GEOMETRIA

O artista Halmiro ao lado  da dra. Ester Lopes de Melo

A geometria nas artes plásticas é uma forma de expressão pouco difundida, tanto na pintura quanto no desenho; isto porque é difícil de ser produzida.

Sendo a área da matemática que estuda as formas, os tamanhos e as posições relativas das figuras e as propriedades dos espaços, exige muita dedicação do artista.

Quadro da coleção da Dra. Marília Mary

Na pintura, acima de tudo.  Porque o foco está na imaginação acentuada, capaz de entrelaçar linhas e pintar cores variadas, sem que a harmonia confunda o espectador.

É, portanto, arte e ciência, pois os traços dão ao espectador  belas ilusões de ótica.  Há artistas – como o meu amigo Halmiro – que se dedicaram à criação de formas geométricas verdadeiramente encantadoras, deixando o registro de sua maravilhosa arte e originalidade.

Quadro da coleção de Carlos Eduardo

As dobras com as quais ele cria suas telas, representam certa magia pela grandiosidade da marca inconfundível de seu trabalho, demonstrando uma linha de pensamento artístico de inconfundível beleza plástica.

As linhas e formas geométricas com as quais Halmiro trabalha, certamente marcarão um tempo de grande fulgor da cultura brasileira contemporânea, de acordo com  o crítico Paulo  Fernando Craveiro.

Para o professor Luiz Nelson Ganem, outro crítico carioca, as abstrações geometrizadas que Halmiro produz, vêm alcançando resultados de grande harmonia plástica.

Dos geometristas se requer uma certa sistematização – como Halmiro tem desenvolvido seu trabalho, na busca da técnica difundida pela Escola Bauhaus, de Budapeste, marcadamente científica e ao mesmo tempo inventiva e fascinante.

Quadro da coleção de Humberto Leião da Silva

Quadro da coleção de Capiba

O artista é um velho amigo e para promover suas obras, já organizei no Recife,uma exposição individual que obteve significativo êxito de crítica e público.  

Almiro Antônio Barreto da Silva, cujo nome artístico é Halmiro, bancário aposentado, vem se dedicando a essa modalidade participando de exposições coletivas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e em Salvador, na Associação  Cultural/Brasil Estados  Unidos, tendo sido premiado em vários desses certames.

No estúdio, Halmiro atende pelos contatos: Cel. 81 997280449 e 81 995379902.

Pelo que vemos, Halmiro é um mestre geometrista.

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NÃO TEM ALGUÉM”!

Beatriz Azevedo de Almeida Santos

Os netos e bisnetos vão nascendo e nem sempre o avô vai podendo conhecê-los logo no berçário da maternidade. Alguns dos meus, só vim a conhecer depois de adultos, dado à distância dos lugares onde nasceram e vivem.

Aproveitando uma ida ao Rio, fui a São Paulo conhecer a neta Beatriz, filha de Luciene e do marido, meu primogênito, Carlos Eduardo.

Chegar em outra cidade surge logo a vontade de conhecer novos ambientes públicos, rever as ruas, dar uma olhadela nas livrarias e conhecer pessoas. Assim fiz. Aproveitei e comprei um livro.

No dia seguinte, pela manhã, reservei todo o expediente para a netinha. Pedi para assistir os noticiários da tv, enquanto minha nora e o filho foram trabalhar.

Aparelho ligado, Cid Moreira no ar, notei uma discreta conversa de Beatriz com a babá, solicitando alguma coisa que, a princípio não entendi.

Em instantes a secretária doméstica me sugeriu colocar filmes de desenhos animados. Ouvi quando a netinha pulou no sofá, toda contente, e apontou o dedinho para um videocassete: “As aventuras de Pluto”.

Pluto, o herói de Beatriz

Enquanto o desenho preferido da pequena Bia rodava na tela, aproveitei para dar uma olhadela no livro que comprei no dia anterior. Fiquei sentado no tapete e abri o livro, na maior “secura” para começar a ler a biografia de Assis Chateaubriand.

Numa folga da leitura, parei, a fim de lhe dar um beijo. Foi a senha que ela aguardava para iniciar um diálogo. E tinha razões.

Luciane me havia dito que sua filha gostava muito do cãozinho endiabrado da Disney, que fazia sua parte do universo da animação tradicional. Ele não era interpretado por um ator de carne e osso, como no cinema, mas sim por profissionais de voz, que chamamos de dubladores.

Ao longo dos anos, eles têm sido os principais responsáveis por dar vida aos sons, latidos, resmungos e expressões do Pluto. E tome prosa com netinha!

– Vovô, o senhor gosta do “Pluto”?

– Sim, minha filha, Gosto muito!

– Mas vovô, o Pluto “tá” aqui na televisão. Não “tá” no livro não!

Fiquei envergonhado. Fechei o livro e comecei a prosear com ela.

– Você gosta de morar neste lugar, minha filha?

– Gosto muito vovô. Tem até piscina! Vamos ver lá embaixo?

– Minha querida, você acha que tem alguém por lá?

– Tem vovô. Eu garanto!

Tentando escapar, argumentei:

– Mas hoje é segunda-feira, dia em que os rapazes devem estar limpando a piscina e o portão do jardim deve estar fechado.

– Mas vamos lá pra ver se tem alguém, vovô!…

Com esse povinho miúdo não se deve discutir. Fomos descendo no elevador e ela sempre se referindo ao tal Pluto. Deve ter visto o filminho tantas vezes que já estava com as histórias decoradas.

Apresentei-me ao Porteiro, informando que era avô da criaturinha. Telefonou e conferiu. Livre acesso. Abriu o portão da enorme área ajardinada onde estava a piscina. Deserto total. Nem o sol compareceu.

Seguimos para o amplo jardim próximo à piscina e depois que ela deu uma olhada geral, ficou meio desanimada ao notar que não havia pessoa alguma alí, como eu havia imaginado.

Olhou pra mim com uma carinha de desiludida e exclamou, dando um pequeno “escorrego” na língua pátria:

– É vovô, não tem “alguém” mesmo!

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IMPÉRIO AUSTRO-HUNGARO

Maria Leopoldina da Áustria

Continuo a dar credibilidade a alguns dos meus sonhos porque estou certo de que eles me trazem sugestões motivadoras, sobremodo para alguns lembretes históricos.

Hoje, pouco antes de acordar, apareceu-me uma placa rodoviária: “Império Austro-Húngaro”. Mas por qual razão? Pulei do “berçário” e fui encontrar na enciclopédia, já pensando nessa bagunça geopolítica em que vive o Brasil.

A “mensagem” certamente indicou outros tempos do nosso país, quando alguns personagens estão esquecidos nos comentários dos nossos Canais de Vídeo.

Maria Leopoldina da Áustria, por exemplo. Poucos se reportam à ilustre dama, nas notícias atuais, em termos comparativos com nossa essência política, sobretudo ela, que foi a primeira mulher a governar o Brasil como estado soberano.

Não foi apenas a esposa de D. Pedro I. Mas, regente, estrategista política e primeira imperatriz do Brasil. Também foi rainha consorte de Portugal durante o breve reinado de seu marido entre 10 de março e 2 de maio de 1826.

Isto é que era mulher! Não há semelhanças com outras, alcunhadas de “Primeiras Damas”, que se comportam de modo inexpressivo, prejudicando a nação e seus contribuintes, provocando despesas fora dos nossos lastros.

Meu sonho desta manhã, foi assim, igualmente, o lembrete de que o Império Austro-Húngaro era significativamente menor que o Brasil, possuindo uma área equivalente a menos de 8% de todo o território brasileiro atual.

E nós estamos vivemos a época de reeleger um presidente que já se mostrou um destruidor de todos os nossos valores.

Devemos, portanto, a Dona Maria Leopoldina da Áustria o muito que o Brasil ainda tem de bom em termos de administração e política, sobretudo por sua descendência com o Império Austro-Hungaro.

Mapa do Império Austro-Húngaro

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ENCONTRO COM O “REI DO BRASIL”

Dr. Chateaubriand. Foto em 1957

Anadiplose pode até se assemelhar a algum nome de doença ou medicamento, mas não é. Pouco conhecida como figura de literatura, é uma forma de linguagem escrita que consiste na repetição da última palavra ou frase, logo no início ou mesmo no final da matéria.

Esta palavra ouvi numa das entrevistas do Dr. Assis Chateaubriand, homem de muita cultura e empresário criador do maior grupo de mídia brasileiro: os Diários e Emissoras Associados.

Através de vínculos com o jornalismo e literatura aprendi a apreciar aquele cidadão paraibano que se fez gigante na terra pernambucana, mostrando ao mundo o que é começar como repórter de jornal e se tornar o maior empresário do ramo.

Referindo-me a vários perfis biográficos anotei fatos interessantes: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, em 1892. Em 1904 veio residir o Recife e estudou no Ginásio Pernambucano. Aos 14 anos teve sua primeira experiência jornalística. Em 1908 ingressou na Faculdade de Direito e passou a colaborar no jornalismo, colaborando no Jornal Pequeno, Jornal do Recife e no Diário de Pernambuco.

Em 1913 bacharelou-se em Direito e já ocupava posição de destaque no jornalismo, chegando a Editor e Redator-chefe do Diário de Pernambuco. De 1915 a 1917 foi professor de Direito Romano e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito do Recife.

Em 1917 deixou definitivamente o Recife e transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde continuou sua carreira jornalística e jurídica.

Minha admiração por Dr. Chateaubriand se agigantou pelo que ouvi em diálogos esparsos, de gente como Muro Mota, Gilberto Freyre, Nelson Saldanha e Aníbal Fernandes; alguns desses, durante breves viagens no pequeno elevador do edifício-sede do Diário de Pernambuco.

Ele tinha como características pessoais, além da virtude do reconhecimento aos seus funcionários, a nacionalidade brasileira. E para demonstrá-la titulou todos os seus jornais, revistas, rádios e televisões com nomes baseados na língua tupi, excetuando-se aqueles adquiridos já com seus títulos fundamentados.

Tornaram-se marcas indeléveis: Rádio Tamoio, Rádio e Tv Tupi do Rio e São Paulo, Rádio Tamandaré e muitos outros órgãos de Comunicação Social, sedimentando as origens indígenas do País através do idioma originário brasileiro. A escolha de nomes indígenas ampliou seu Plano de Integração Nacional promovido pelos jornais, rádios e emissoras de televisão, criando um definitivo elo com os setores da nacionalidade brasileira.

Segundo notas de Fernando Moraes: “Em 21 de setembro de 1959, Chateaubriand instituiu o chamado Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados e transferiu 49% das ações de suas empresas para 22 auxiliares principais e seus dois filhos. Depois, em 1962, ele doou aos 51% restantes para o mesmo grupo, completando a estrutura do Condomínio.

A intenção de Chateaubriand era impedir que o enorme patrimônio dos Diários Associados fosse simplesmente herdado e eventualmente desmembrado pelos familiares. As participações receberam cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade. Assim, o funcionário escolhido não podia simplesmente vender sua participação nem deixá-la como herança.

Venho seguindo nestas crônicas o estilo de David Nasser, notável jornalista e escritor, que publicava crônicas e reportagens nas páginas da revista O Cruzeiro e costumava concluí-las citando o título. E isto se chama: anadiplose.

Até poucos dias, quando fiz reportagens para o Departamento de Projetos Especiais do “Diário”, sob a orientação de Arijaldo Carvalho, comentei com meus colegas um episódio interessante, que ora descrevo.

Fui cobrir um banquete de gente importante, no Restaurante Leite, em 27 de abril de 1957, acompanhado do fotógrafo Diógenes Montenegro. Nós nos “plantamos” lá até que chegaram os comensais.

Esperamos o término do almoço para colher as fotos. Ao final, o chefe dos garçons veio com a nota e o Dr. Chateaubriand tomou a frente. Nem leu, assinou a conta e datou. Minha surpresa foi quando ele deu boa gargalhada e disse:

– Este é meu cheque. Mande para o Diário!

Cheguei a ficar bem perto do homem que era considerado conforme o título do livro de Fernando Morais, que depois virou filme. No dia seguinte, nossa reportagem foi publicada na primeira página:

Assis Chateaubriand, de passagem pelo Recife, oferece banquete às Classes Produtoras de Pernambuco.

Entretanto, sabedor que o magnata dos Diários Associados dominava bem o vernáculo, fiquei ansioso para perguntar a ele como se concluir bem uma crônica.

Mas, minha missão era apenas reportar, não entrevistar. E reconhecendo a minha função de aprendiz, diante do “Rei da Imprensa Brasileira”, permaneci calado.

Se eu tivesse alguma intimidade com ele, teria perguntado qual a maneira de findar uma crônica com alguma palavra ou frase expressiva. Certamente teria ele dito que eu explicasse ao leitor o que significava a palavra anadiplose.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

SONHOS – SINAIS DE ALERTA

Fase inicial: imagens hipnagógicas: momento entre a vigília e o sono

Longe dos meus desejos querer emparelhamento com os mestres em interpretação de sonhos. Desejo apenas reafirmar, por experiência própria e ocorrências que vivi, que os sonhos são coisa séria, sinais de alerta.

Continuarei falando de minha experiência, tentando transmitir para outras pessoas como convivi com o que chamo de “fenômeno”, assunto ainda pouco difundido pela ciência.

Desejo transportar para as pessoas da minha época a vivência do que tenho sonhando, procurando interpretar alguns detalhes de como é possível proceder às buscas de significado.

Não me refiro nem comento sobre psicanálise. Os trabalhos de Jung e Freud superam quaisquer semelhanças.

Longe de mim está esse procedimento! Desejo apenas mostrar que cada pessoa tem sonhos e eles representam, em alguns casos, orientações para o futuro de suas vidas.

A parte difícil, no entanto, é compreendê-los para uso de uma vida melhor, pois essas manifestações oníricas visam dar sinais para nossos procedimentos de vida.

Assunto muito explorado como um meio de se usufruir vantagens econômicas, é possível que o interesse maior de alguns seja projetar seus autores. Há até dicionários sobre sonhos!

Aos que buscam entender os próprios sonhos, recomendo que logo quanto possível comuniquem a alguém, as histórias, bem detalhadas, de forma que, mais adiante, ocorrendo um fato semelhante, possa o depoimento de outras pessoas servir de comprovação.

É meio chato, compreendo, quando nossos familiares chegam a comentar em forma de gracejo: “Qual é o sonho do dia?” Mas, quando algo bem parecido com o que foi sonhado, causa espanto.

Quando criança ouvi falar de fatos interessantes: sonhos que representavam tradições populares, mas se confirmavam. Minha avó Maria Cordeiro de Carvalho, de origem interiorana, tinha suas “traduções” e comentava o que hoje dizem os dicionários de sonhos:

Sonhar com cobra, alertava para traição.

Cobra atacando: costuma ser associado a sensação de ameaça, conflito ou alguém em quem se deve ter cautela.

Cobra escondida: pode simbolizar algo que ainda não está claramente percebido — uma preocupação, segredo ou situação mal resolvida.

Cobra perseguindo: tradicionalmente relacionado a fugir de um problema ou preocupação.

Matar uma cobra: frequentemente interpretado como superação de uma dificuldade ou vitória sobre um adversário.

Muitas cobras: pode representar excesso de preocupações, conflitos ou pessoas ao redor que provocam desconfiança.

Cobra tranquila: nem sempre tem significado negativo; pode representar transformação, renovação ou uma mudança importante.

Cobra mordendo: na tradição popular, é um dos sonhos considerados mais fortes como “aviso” de traição, conflito ou decepção.

Os sonhos com cobras aparecem em muitas tradições populares como sinais ou alertas. O sonho, por si só, não anuncia necessariamente que algo acontecerá.

Mas ao deitar creio que o melhor momento está entre a vigília e o sono. Depois que a gente se entrega a Morfeu (o deus do sono) e Nix (a deusa da noite), é a entrega total. Depois do sono profundo podem até aparecer sirenes anunciando alerta.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Imagem pictórica que indica direção única

Venho buscando, desta vez, historiar, focando bases e formas de comunicação humana, através dos tempos. Mas, vale adiantar: que as teses são complexas.

Entendo que em tempos recuados, quando os hominídeos habitaram a terra, aqui chegaram de uma só vez; porém, sob a forma de tribos, distribuídas distintamente entre raças e lugares.

Convenhamos que minha tese se concentre na afirmativa de que a terra foi povoada por brancos, negros, vermelhos e amarelos, que ocuparam os vários continentes e foram se integrando, atrvés da Comunicação, até os dia atuais, conforme veremos.

Mas como teriam feito essa integração entre as raças e desbravado os continentes?

Bem, entendo que, os peixes e os pássaros chegaram primeiro. Muito antes de Adão e Eva, que é conversa pra boi dormir. Na sequência, surgiram nossos ancestrais, divididos nas várias raças que hoje temos conhecimento.

Depois, de algum artefato misterioso, desembarcaram por aqui os primatas. Mas, para continuar tenho que apelar para Charles Darwin, aceitando sua “Teoria da Evolução das Espécies por meio da seleção natural”. E como diria o cômico “Gordurinha”: “O primata perdeu o rabo e virou homem. Vá la…

Os macacos das várias espécies foram ficando, mas mantiveram seus “quadrados”. Árvores, frutos e peixes, davam no meio das canelas. Nem precisavam fazer feiras, ter dinheiro, essas coisas. Aí, depois de uma porrada de anos, chegaram os casais. Começou a confusão!

Das cavernas, saiam ao amanhecer, para procurar o “café da manhã”, depois o almoço e em seguida o jantar. E comendo, comendo, tiveram que ir andando para outros lugares onde havia mais mangas, cajus, laranjas, etc.

Chega-se à conclusão que esse primeiro grupo de “candidatos a indígenas”, por acaso executaram a primeira “experiência sonora” do nosso planeta: a cacetada.

Usaram toras de pau, que batendo umas sobre as outras, provocavam sonoridade e espantavam os pássaros.

Inaugurava-se a “Comunicação de Massa”. Rolou mais outra porrada de tempo até que essa primitiva tribo se aproximou de outra. E, como as entrevistas de Marília Gabriela, diante do “Cara a Cara”, surge a emoção e com ela a lágrima.

Pois é, esse notável H2O, pingado diretamente do globo ocular, cascateando rosto abaixo, foi demonstrativo do sentimento maior, que jamais foi evidenciado pelo coração ou pelo fígado.

Pode ter sido a 2ª forma de Comunicação em nosso planeta: a “Lacrima Christi”, a emoção divina, que depois de avacalhada, virou até nome de vinho, lembrando a música de Humberto Teixeira: “Chorou por mim não fica, soluçou vai pro borná”.

A partir dessa fase de mistura das tribos, os maridos que desejavam chamar as eposas quando estas estavam tomando banho lá pras bandas do rio Ganges, os pretos tocavam os cacetes nas toras, provocando uma espécie de sirene, para chamá-las.

Anos mais avançados, depois de muitas andanças, as tribos foram se misturando, e a moçada tirando uma “casquinha” aqui, outra ali, e a mulherada foi embarrigando. Estava descoberta a “mistureba”: a sedução, o coito, o amor, o chifre e a sacanagem.

E – botemos anos nisso – foram as tribos descobrindo outros semelhantes, terras e continentes. Aí, por onde iam passando, melavam os dedos no barro molhado e lambuzavam as pedras, criando a linguagem dos sinais: o sol, os veados, os pássaros. Ou seja, deixando seus rastros, através de imagens pictóricas.

E em novos encontros já se evidenciava a confiança, representada pelo abraço, o sorriso, o oferecimento. Quando outras raças foram se encontrando surgiu a Comunicação de verdade, embora representada por garatujas que só os amarelos conheciam: o mandarim.

Outra tonelada de anos e aparecem as novidades: a escrita à mão, os tipos móveis de Gutenberg, a prensa e muito mais tarde, a máquina-de-escrever, e o jornalismo, que meu colega Wladimir Maia Leite chamou: de “O Ofício da Busca.”

Mas, para “jornalistear” foi preciso inventar o estudo, o diploma, o “furo”, o “foca”, os novos verbetes: mídia, blogueiro e até esse tal de Influenciador. Logo na sequência, as letras que eram impressas através da fita e hoje, letras-de-luz do computador.

E nesse emaranhado de novidades, me sinto perdido operando uma dessas máquinas que levam nossas mensagens, respondem nossas questões e corrigem pequenos erros, além de não exigirem tinta nas telas. E tudo isso forma o pacote de uma ciência que nos dias atuais se tornou tão necessária: à Comunicação Social.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

VIAGENS ATRAVÉS DOS SONHOS

Mohammad Reza Pahlavi, derrubado pelos aiatolás

Meu interesse maior, nesta crônica, é compartilhar meus sonhos e resultados, com os leitores, para que tirem bom proveito dessa atividade, na certeza de que tais manifestações procedem de outra dimensão.

Tudo começou com a curiosidade em saber de onde vinham os filmetes que me chegavam através dos meus sonhos, os quais se tornaram cada vez mais intensos.

Em qualquer momento que eu me deitava, logo era transportado para uma outra dimensão, creio eu. Não havia como justificar para onde teria ido, quais as paisagens e cenas vividas e com quais pessoas havia conversado.

O fato é que durante o sono sempre desconfiei que não estava no mundo onde estou vivendo. Mas sim, em outra dimensão.

Às vezes me sentia apenas espectador de rápida cena; uma espécie de trailer. Noutras, protagonista de uma espécie de peça de teatro, com atores desconhecidos e histórias inverossímeis. Coisas ou fatos que não têm aparência de verdade.

Mas as histórias me intrigavam, sobretudo pelos cenários e fundamentos ocultos, como se fossem mensagens para uma vida melhor. Sinais de alerta. Porém, a parte perturbadora, viria em seguida.

Ao acordar, sentia que havia ido a algum lugar em tempo completamente desconhecido. De 1976 para os dias de hoje, a impressão sobre tais fenômenos continua para mim, um mistério, embora haja alguns palpites.

Hoje continuo sonhando, em qualquer hora do dia ou da noite. Na cidade onde vivo ou para onde esteja deslocado.

O interesse maior, entretanto, foi em fase muito anterior ao hoje em que vivo; foi quando passei a ter sonhos recorrentes e que predizem fatos. Bem, aí tive mesmo que me aprofundar na área da pesquisa que se entende por “Imaginário”.

Há exatamente 50 anos – quando comecei a desenvolver uma pesquisa científica, me impressionei tanto, que tive que buscar ajuda no Centro de Pesquisas sobre o Imaginário, divisão do Departamento de Antropologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, do Ministério da Educação e Cultura.

Trocamos correspondência, marquei entrevista e conversei longamente, com a doutora Danielle Perin Rocha Pitta, professora, pesquisadora e Coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário, do Instituto.

Danielle foi pioneira dos estudos do Imaginário no Recife e criou o Catálogo de História Oral. Trocamos ideias científicas sobre os acontecimentos oníricos que eu estava vivenciando; aqueles que são relativos, principalmente, aos sonhos que predizem ocorrências as mais diversas.

Sonhar, relembrar, anotar, interpretar e acontecer o que foi presenciado durante o sono, se tornaram fatores motivadores da busca do entendimento.

O mais profundo desejo do sonhador é conhecer os porquês da atividade, às vezes tão intensa que desenvolvemos quando sonhamos. Fui buscar no “Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário” melhores entendimentos, a fim de tratar os sonhos como ciência. Em paralelo mergulhei nos livros especializados.

Aprendi e realizei demorados exercícios diários: a fim de memorizar o que sonhava. Passei a anotá-los. Fiz a organização cronológica, numerando-os e gravando os horários em que acordava. Organizei até um gráfico-estatístico, a fim de fazer um estudo mais demorado. Não só anotava, mas comecei a numerá-los e registrar a hora que acordava.

Durante mais de dois anos – de 1976 a 1978 – assim procedi. Juntei tudo e encadernei 3 volumes. Só agora despertei para a necessidade de condensar o assunto em algumas publicações de jornais.

Em estado mais adiantado comecei a escrever verdadeiras crônicas sobre os filmetes mais significativos que eu havia presenciado e fiquei preocupado ao notar que parte daquelas coisas aconteciam. Ou seja, eu estava a caminho de perscrutar fatos. E comecei a guardar documentos a respeito.

Meus sonhos anteviam fatos! Em sua minoria eram premonitórios. Aconteciam. Era preciso realmente me dedicar a um trabalho científico. Fiquei convicto dessa realidade quando tive esta manifestação onírica:

Sonho nº 129 – Recife, 16 de janeiro de 1979. – Eu estava em um país estrangeiro participando de uma cerimônia de deposição de um monarca que tinha o nome de Reza, que era empurrado para um barranco, selando seu destino de imperador.

Alguns dias depois, o Diário de Pernambuco publicava a manchete: Mohammad Reza Pahlavi derrubado pelos aiatolás do Irã.

Guardei a folha do jornal durante muitos anos, como comprovante. Fiquei alegre porque tinha adivinhado um fato internacional. Momentos depois, preocupado, porque tendo vivido vários outros sonhos que prediziam os fatos, não seria agradável que eu me tornasse um “adivinhador”.

Mas não pude negar que esta foi minha principal viagem através dos sonhos.