CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NOVENTINHA É LASCA!

Luiz Carlos, este colunista e o escritor Euler de Souza, no Clube Português do Recife, durante o “emplacamento compulsório”

No último 18 de junho, dois fraternos amigos homenagearam o cronista pela “quota máxima” atingida: 90 anos de idade, meta para poucos mortais. Um almoço com minha família no Clube Português do Recife representou sinônimo de fraternidade e prestígio, ao chegar a esta marca. Uma graça de Deus!

No dia anterior, a Presidente Thelma Loureiro de Carvalho, da Academia de Artes e Letras, me colocou, com todas as honras, na Mesa dos trabalhos e ao final da assembléia festiva convocou a plateia a formar um coro e interpretar a cançoneta “Parabéns pra você”.

Para fins de “amostras grátis” devo dizer que não é moleza tal corrida de obstáculos. O destino foi generoso e a sorte me empurrou. Só fiz amigos. Alguns que conheci superficialmente se equivocaram com minhas ideias e os falamos apenas respeitosamente.

Nasci no Espinheiro, meus pais nunca se separaram, fui filho único, tive direito a nota em jornais, logo que “desembarquei”. Fui bancário a partir dos 14 anos, por três décadas.

Aposentei-me com 30 anos, alguns dias e poucas horas. Na mesma semana assumi uma assessoria no Grupo Preserve onde permaneci quase 10 anos.

Publiquei a primeira matéria em jornal aos 15 anos e ainda ontem os editores do Diário de Pernambuco se mostraram generosos comigo, publicando mais um artigo.

Fui diretor do Naútico, durante seis anos; do Internacional, quatro anos; do Sport, dois anos e da AABB-Recife, alternadamente 12 anos.

De medalhas, guardo uma tuia: do Salesiano, do Náutico, do Atlético, além de várias da AABB-Recife. Carrego, também, no matulão, dois títulos de Benemérito, e dois de Reconhecimento, sendo um durante as comemorações dos 100 anos do Banco do Brasil em Pernambuco. Já correm o mundo alguns dos meus 35 livros escritos.

Mas vim com o bisaco cheio de obrigações. O destino traçou minhas metas difíceis e perigosas. Da “Véia da Foice” escapei várias vezes.

Pequenino ainda, correndo pela calçada do Hotel Central, dei uma topada, bati com o “quengo” na calçada. Fiquei” cego durante mais de 26 horas. Uma tragédia para a família!

Adulto, limpando uma calha, cai do telhado. Depois, outra queda: na escada do primeiro andar de um prédio, escorreguei, fui bater no térre;, quebrei dois ossos da canela. No hospital, meteram-me um pedaço de titânio com quatro parafusos. Virei um “Robocop Brasileiro”.

Passageiro de um Fusca, à noite, numa estrada alagoana, em missão jornalística, vindo de Aracaju, numa curva fechada, batemos de frente numa jamanta e capotamos feio. Saímos vivos.

Um aperto de lascar foi quando, por cima da cidade de Brasília, voei aflito, por quase 30 minutos sem pousar, sentado e bem amarrado na poltrona de um Electra da Varig, com mais 48 vizinhos, “aflitos rezadores”.

Perto do Aeroporto o “desgramado” PP-VJM – 2784 “novinho em folha”, começou a circular pelo céu, deu cinco voltas pelas nuvens, como se estivesse mostrando aos infelizes passageiros, que já estávamos a caminho “desta para uma melhor”. Eram os Bombeiros na pista, em exercício.

Tive a felicidade de extirpar dois “bichos” daqueles tão assustadores, que comem os humanos por dentro e se alastram, às vezes pensando que fígado é picanha.

Em outros tempos estive soltando sangue pelo “cano ladrão” e fui pra faca costurar as hemorróidas. Após ter sido esfaqueado pelo bisturi do Dr. Booz, esperei vitorioso os visitantes. Aí a porca torceu o rabo!

O primeiro a chegar, às seis da manhã, foi meu Gerente José Augusto, que disse reservadamente: Depois da cirurgia sob anestesia, sei que, agora, sua dor é apenas moral!

Precisava lembrar que eu tinha sido operado através do canal “escapativo do barro”, precisava?!… Foi outro pedaço carregado de más lembrança, porque durante a recuperação cai dentro de uma bacia de água aquecida a 80º graus e queimei as duas bolinhas de gude. Foi danado?

E sobre os ganhos e perdas, prefiro não falar dos desamores. Costumo usar o artifício do saudoso Álvaro Moreira, quando o entrevistei no Rio Grande do Sul: “Seu Carlos, por favor, “As amargas, não!” Depois publicou um livro com este título, que ainda hoje faz sucesso.

Afinal, falar os maus pedaços dos “noventinha” é lasca!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PRECURSORA DA XEROX

Copiadora semiportátil Lumoprint

Com discreto orgulho posso dizer que vivi em dois séculos.

Um deles, registrou o despertar da “Tecnologia da Informação”. Mas, coisas de leve… Só desejos, desenhos e ideias meio avançadas para aqueles tempos em que o esforço físico prevalecia sobre nossas futuras máquinas, objetos que ainda não existiam como hoje. Nem pensar!

É bom lembrar que antes do invento do nosso amigo”Gut” (Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg), já havia comentários entre as dondocas, de que viria coisa boa por lá.

Naqueles tempos já se falava que os monges da Cordilheira do Himalaia, aquela turminha de cabecinhas raspadas que vestem túnicas e vivem lá pras bandas da Ásia, Índia, Nepal, China e Butão já produziam livros religiosos e científicos, mas sem reproduzi-los.

Utilizavam, em vez de canetas, penas de pombo, que eram mergulhadas em tinta, para ir escrevendo, e depois encaderná-los. Quem duvidar é só dar uma subidinha até o Himalaia para entrevistar algum monge-escritor.

O outro século, nos permitiu um pulo vertiginoso: a descoberta de métodos e processos, a partir do invento criado por Thomas Alvas Edison, com a fabricação do mimeógrafo manual.

Mas, como neste mundo “nada se cria e tudo se copia”, veio um gaiato e numa conversinha ao pé do ouvido, num bar e soltou, na maior moita, uma ideia para o inventor:

Meu véi, cria um treco que supere o invento desse tal de Gutenberg! Esse camaradinha é muito devagar!…

A evolução científica nos traria, muito mais tarde, a fotocopiadora elétrica, tipo “Lumoprint” – que considero “a mãe das xerox” – embora exigindo que a entrada de papéis para a impressão ocorra com a colocação de um por um. Ainda mais com a desvantagem: os impressos surgem húmidos

Sabemos que o maquinismo mais moderno de uma xerox é capaz de se colocar uma resma de papel “A-4” na bandeja e a impressão vai ocorrendo simultaneamente, inclusive de frente e verso.

Todavia, durante muitos anos, utilizou-se mimeógrafos.

Meu amigo Luiz Felipe de Morais Moura, que durante muitos anos operou essas máquinas, nos falou sobre históricos assuntos vinculados a essas máquinas.

A palavra vem do grego: “mimeo” (imitar, copiar) e graphos (escrita). O mimeógrafo foi u’a máquina simples, fácil de operar e muito econômica.

Era um equipamento destinado à reprodução de textos e até desenhos, em grande quantidade. Foi muito utilizada principalmente em escolas e escritórios, mantendo-se no mercado até o aparecimento da fotocopiadora (Xerox).

Sua descoberta está ligada ao conhecido cientista americano Thomas Edison, que em 1876 patenteou um sistema de duplicação de documentos, que serviram de base para o novo invento. Posteriormente, Albert Blake Dick aperfeiçoou o invento, popularizando o nome: “Mimeograph”.

O texto que se desejava copiar era datilografado em uma folha especial chamada “estêncil”. As letras datilografadas nas populares “máquinas de escrever”, sem uso das “fitas”, perfuravam a camada de cera das folhas, permitindo a passagem da tinta impressora.

Ao girar o cilindro do mimeógrafo – que inicialmente era manual – a tinta atravessava essas perfurações e reproduzia centenas de folhas com o mesmo “estêncil”. Aquela máquina tão simples de operar, era a maneira econômica de produzir apostilas, provas escolares e livros.

Creio até que o Banco onde trabalhei, mantinha um mimeógrafo funcionando, a fim de resguardar o sigilo de seus documentos, evitando que assuntos internos se tornassem públicos, ao serem impressos em tipografias, ou muito demorado se fossem reproduzidos através de papel-carbono, que era o barato dos anos 30.

Quando a mimeografia se tornou comércio, surgiram pequenos pequenos pontos que passaram a ser conhecidos como “Copiadoras”. Mas, diante da irregularidade ocorrida com cópias de livros, ocorreu uma recomendação judicial por parte das empresas editoras, em virtude de estarem seus principais produtos sendo copiados em quantidades espantosas.

O trabalho de operar um mimeógrafo era simples, mas a tinta me incomodava tanto que eu era obrigado a trabalhar de máscara, a fim de evitar danos à saúde. O característico odor da tinta, à base de álcool, era um castigo.

A partir de 1990 os mimeógrafos foram substituídos definitivamente pelas fotocopiadoras eletrônicas que receberam a marca: Xerox, as quais podem ser alugadas.

As Copiadoras, ficaram cientes das recomendações judiciais, quanto ao Direito das Editoras, tornaram-se pequenas empresas, recolhem os impostos devidos e se firmaram no mercado, inclusive alugando essas copiadoras e computadores a terceiros, fazendo manutenção, etc.

Mas, uma “Lumoprint” que operei quando trabalhava na Secretaria da Gerência do Banco do Brasil, jamais sairá das minhas melhores lembranças por ter sido considerada a precursora das xerox.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FIGURAS DECORATIVAS

Fachada do London and River Plate Bank, no Recife

Hoje, com esses mecanismos de Caixa-eletrônico, Pix e a velocidade das comunicações por satélite, as pessoas “setentonas” que formavam o povão nos anos 50, sentem-se, digamos assim, ludibriados pela ciência, por não ter implantado, já naqueles anos, maneiras menos trabalhosas de lidar com moedas, papéis-moeda, transferências bancárias, empréstimos, movimentação entre contas, ordens de pagamento, cheques e notas promissórias.

Cabe, aqui, rememorar, para fins didáticos, como tudo isso funcionava. Pra começar, pessoas físicas não podiam ter conta em Banco. Só aos grandes comerciantes e industriais era dado esse privilégio. Uma forma de preconceito social!

No Recife a antiga Caixa Econômica Federal de Pernambuco implantou a Caderneta de Poupança, onde qualquer mortal poderia guardar seu dinheirinho. Mas, para movimentá-la, o titular teria que ir à Caixa, que situava-se na Avenida Guararapes, 161, no bairro de Santo Antônio. Apresentada a Caderneta, o Caixa fazia as anotações dos depósitos ou recebimentos.

Há 70 anos a Caixa contava com um departamento autônomo de jogos de azar, denominado: Loteria da Caixa Econômica, que lembro-me bem, foi gerenciado durante muitos anos por Nivaldo Bastos de Figueiredo, até sua aposentadoria. O modelo tentou eliminar o antigo “Jogo do Bicho”, que continuou proliferando e mantendo os “bicheiros” milionários.

Nos dias atuais o sistema atualizou-se e passou a funcionar como bets, que em inglês é to bet (apostar), plataformas digitais de apostas de quotas fixas que permite aos usuários dar palpites em resultados de partidas esportivas ou mesmo jogos de azar.

Na década de 50, quando iniciei-me na carreira bancária, se um pobre mortal desejasse transferir dinheiro para qualquer lugar onde tivesse Bancos, era necessário comparecer ao balcão do setor de Ordens de Pagamento, preencher um formulário, comprar estampilhas de Educação e Saúde, (que representava o Imposto Federal sobre movimentações Financeiras), colar no papel, datar e assinar por cima dos selos.

Hoje é o Pix quem resolve tudo, apenas com toques de dedos na telinha de um smartphone. É tiro e queda!

Para fazer qualquer pagamento naqueles anos, era necessário ao correntista utilizar cheques, que representavam “´dinheiro à vista”. Entretanto, tais papéis tiveram seu significado desvirtuado, servindo como garantia de empréstimo a agiotas e vendas parceladas, no comércio.

Não era possível escapar do Imposto Federal. Nos próprios Depósitos em Conta Corrente o interessado tinha que entregar ao Caixa Cr$ 2,50 (dois Cruzeiros e cinquenta centavos). Os correntistas – como o cronista – não costumavam sair de casa sem um talão-de-cheques no bolso, papeis que funcionavam como moeda, em qualquer eventualidade. Havia certo charme em se sacar um talão e emitir um cheque. Era sinal de poder financeiro.

Mas o recebedor teria que ir ao Banco para efetuar o depósito e também pagava a taxinha de Cr$ 2,50 par efetuar a operação.

Novamente o Pix em cena! Com a vantagem da isenção de taxas. Acabou-se a chatice de se conduzir o talão de cheques, correndo o risco (em caso de recebimento) de se estar de posse de um “Borrachudo”; ou seja, aquele tipo de cheque que bate no Banco e volta; no caso de insuficiência de fundos.

Nessa fase os Bancos davam a entender suas solidez, através de grandes edifícios, com fachadas caprichadas, como o London and River Plate Bank, e outros, instalados no bairro do Rio Branco, no Recife: o Banco Francês e Italiano para a America do Sul, o Royal Bank of Canadá, o Banco Nacional Ultramarino, o The National City Bank of New York, formando o que se convencionou chamar de: Wall Street pernambucana.

Para concluir meu livro: “Recife da Moeda ao Crédito”,que seria editado em 2005, recorri ao Banco Central do Brasil, localizado em Brasília, que me enviou carta informando relação das instituições possuidoras de agências em funcionamento no Recife, sendo a parte singular da correspondência, a citação do Banco Simples S.A., que apesar de não possuir agência neste estado, tinha endereço de sede o Recife.

Mas, pretendo deixar para a próxima crônica os comentários a respeito dessas informações e focalizar a parte do Pernambuco Histórico, quando falaremos, entre outros fatos, que a primeira instituição bancária das Américas foi instalada no Recife, graças `iniciativa de Nassau: a Casa Bancária Fugger, de origem alemã e a primeira moeda de ouro cunhada nessa mesma região, em 1645, no término do período holandês

Quando o Banco do Brasil se tornou um Conglomerado Financeiro, pois perdera a Conta Movimento – que era reservada ao Banco Central – ocorreu o pioneirismo das inovações mais importantes, dentre elas o Cheque Especial (com limites para a garantia de fundos), primeiro serviço desse porte, do Mercado brasileiro.

Depois, a partir de maio de 1964, a Agência Centro do Banco do Brasil em Pernambuco remodelou o primeiro pavimento de seu edifício-sede, para oferecer os serviços dos Caixas-eletrônicos, oferecendo quase todas as modalidades de operação, inclusive empréstimos de Pessoa Física.

Para facilitar as transações entre Pessoas Físicas e o Comércio, o BB implantou o primeiro Cartão Múltiplo circulante em no Brasil, pois reunia as funções de movimentação de contas e Cartão de Crédito num só produto: o Ourocard. E demonstrando audácia burocrática, foi instituído o modelo de Caixa Executivo, diminuindo muito as filas nos Caixa.

Todavia, mesmo com essas facilidades, o Pix veio tornar os Bancos brasileiros – independente das vultosas operações de Pessoa Jurídica, ligadas à Carteira de Comércio Exterior e financiamentos planejados pelo Governo Federal – quase em meras figuras decorativas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CHARLES ATLAS DEPOIS DA GRIPE

Ângelo Siciliano, (Charles Atlas) e Gabriel Ganley, ambos falecidos

Aos 10 anos, na década de 1940, magro que só uma “vara de bater pecados”, preocupando meus pais por minhas “canelas finas”, porque, segundo um médico, eu era um menino predisposto à uma doença grave, dei de cara com com um anúncio sobre fisiculturismo.

Grudei-me à ideia de me tornar um Charles Atlas (Ângelo Siciliano), atleta italiano que havia se tornado um famoso fisiculturista e empresário, conhecido principalmente por popularizar programas de exercícios físicos, no início do século XX.

Ele nasceu na Itália mas se mandou com os pais para os Estados Unidos, quando ainda jovem. Era raquítico e na escola sofria descriminação. Logo começou a desenvolver um método de treinamento físico pessoal e rapidamente se tornou empresário.

Seria um dos precursores do fitness. A pesquisa de jornais nos informa que a modalidade tem origens remotas.

A história do fitness evoluiu da busca pela sobrevivência e estética na Antiguidade para um estilo de vida global e acessível. Passou pelos ideais gregos de corpo e mente, pela musculação no século XIX, pela febre da aeróbica nos anos 80 até as modernas redes de academias e ferramentas digitais.

Na Grécia Antiga, o culto ao corpo buscava estética, saúde e preparação militar. Na época, criaram-se os primeiros ginásios. Na Índia, a Yoga já unia movimento, respiração e bem-estar.

No século IX o alemão Eugen Sandow desbrava novos caminhos, sendo o primeiro a explorar uma uma ideia inovadora. Foi o influenciador do fitness, abrindo academias e vendendo os primeiros Suplementos.

Os exercícios físicos passaram a ser vistos como formas de higiene e prevenção de doenças oriundas do sedentarismo.

A partir dos anos 70 e 80 explodiu a “Febre Aeróbica”, marcando a popularização das academias de ginástica, com o fisiculturismo ganhando força nas praias da Califórnia, com o sucesso de propagandas com celebridades como Jane Fonda, popularizando a aeróbica.

Jane Fonda, consagrada pelo cinema americano, promoveu o fisiculturismo

Clique aqui e veja vídeo com Jane Fonda no instagram

Todavia, o maior incentivador da modalidade foi, realmente, o italianinho, então raquítico, que adotou o nome comercial de Charles Atlas, criando, inclusive, programas de treino por correspondência, modelo pelo qual se tornou afortunado empresário.

Jovem e inteligente, criou o exercício que se tornou conhecido como “Tensão Dinâmica”, que consistia em se usar apenas a força do corpo, sem necessidade de frequentar academias.

Tornou-se conhecido por artigos e publicações em revistas de quadrinhos e jornais, inclusive a historieta de um garoto franzino que se tornou um homem forte.

E sabendo dessa história, fui na mosca!

José Maria Cordeiro de França, meu saudoso primo que era padre salesiano e dominava bem o inglês, costumava se atualizar, com a assinatura de jornais e revistas americanas. E sabendo do meu desejo de me tornar um jovem musculoso, admitiu que minha ânsia tinha lógica.

Era natural um garoto esquelético querer se tornar um John Weissmuller, o famoso Tarzan dos filmes da década de 40.

Certa feita, me transmitiu sua ideia de patrocinar a compra de um curso de Charles Atlas, por correspondência, porém, em dias mais para a frente, quando eu tivesse o corpo melhor formado e, isto, depois de falar com mamãe para obter sua concordância.

Lá vem a estrepolia! Mamãe não concordou, naquela fase em que eu contava uns 12 anos, receosa de danos ao meu corpo.

Jamais tirei o assunto da cabeça. Aos 15 anos, já como “Office-boy” do City Bank, tendo recebido o primeiro ordenado, fui correndo à Casa Esporte, especializada em artigos da espécie e comprei um par de marombas.

A ideia era me tornar um “Carlos Atlas”!

Mas, sem seguir, “no capricho”, o método técnico daquele que havia sido “O homem mais bem desenvolvido do mundo”, empenhei-me em transformar minha fraqueza em “musculosidade explícita,” a fim de desfilar pela praia de Boa Viagem e chamar a atenção da moçada.

Todavia, logo no início do “marombamento”; ou seja, levantando aquelas duas bolas de ferro, passei vários dias seguintes com dores na munheca e nos braços. Acabei desistindo.

Mas permaneci com o pensamento de algum dia vir a ser, pelo menos, um “Charles Atlas depois da gripe”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ESMERILHANDO VÁLVULAS

Renault 4-CV, tipo “Rabo Quente” e o JK nacional, projeto da Alfa-Romeo

Quando um motor de um carro começa a vazar compressão é necessário condicioná-lo e uma das tarefas a serem executadas por mecânicos especializados se sobressai pelo trabalho no cabeçote e o esmerilhamento das válvulas, ação relativamente complexa, que se procede somente em oficinas conhecidas como “Retíficas”.

Todos aqueles que possuíram carros importados sabem disso. Eu mesmo cheguei a possuir dois, um Renault Juvaquatre, modelo 1953, e um outro, um “fogoso” Renault 4-CV, conhecido no Brasil pela alcunha de “Rabo Quente”, por ter o motor traseiro,” a novidade do pedaço”.

Um saudoso amigo, Aníbal Rezende Gonçalves, me contou que certa feita, foi levar seu esportivo Henry Jr., a Campina Grande, para abrir o motor e verificar certa perda de potência. Dias depois, retornou, muito satisfeito porque seu carro mais parecia a Maserati de Chico Landi.

O esportivo Henry Jr., foi um automóvel compacto, de linhas ultra modernas, produzido pela Kaiser-Frazer Inc., na década de 1950, nos Estados Unidos. Aliás, falar sobre veículos é recordar seus interessantes apelidos:

O Volkswagen TL 1600 sedã, produzido entre 1968 e 1971 era conhecido como “Zé do Caixão”; já o Volkswagen, nacionalmente identificado como “Fusca” por causa das lanternas traseiras grandes e arredondadas foi, em 1979 batizado de “Fafá”, em referência a uma das maiores cantoras brasileiras, que possuía volumosos seios. O Henry Jr. recebeu a amarga alcunha de “Maria Promessa”.

Os excelentes caminhões produzidos pela Fábrica Nacional de Motores, cujo símbolo da marca era representado apenas pelas letras: F.N.M., recebeu a alcunha de “Fenemê”; o pequeno Renault 4-CV, por seu motor traseiro, ficou conhecido como “Rabo Quente”; o minúsculo Renault Dauphine, foi batizado por “Leite Glória”, porque tendo frágil carroceria, assemelhava-se à do leite em pó, cuja Propaganda salientava que seu leite se desmanchava sem bater.

O sedã FNM-JK, denominado assim em homenagem ao ex-Presidente Juscelino Kubitschek, ficou identificado apenas como JK. Um carro excelente. O melhor dos produtos brasileiros, na época. Tinha bom espaço, quatro portas e força incrível.

O JK deixou saudades ao sair de linha. Vários fatores contribuíram, dentre os quais: custava caro fabricá-lo no Brasil porque o projeto era da italiana Alfa Romeo. Além do alto custo de produção, era muito sofisticado para a época em que o mercado não atendia aos sedãs de luxo.

Felizmente, nos dias atuais trocamos os os carros, em face de vários fatores: quando se tem dinheiro saindo pelo cano ladrão, pelas facilidades de financiamento ou por simples vaidade.

Outrora as pessoas que possuíam Fuscas tinham a facilidade de trocar seus motores velhos por outro, recondicionado pela fabricante, “novinho em folha”, e os concessionários facilitavam a logística da troca. Ademais, porque, tais motores podiam ser retirados apenas com o desenroscar de 4 parafusos.

Nós, cronistas e historiadores, costumamos comparar fatos de ontem com os hábitos da atualidade. Por exemplo, reviver tempos em que tínhamos que levar nossos carros importados, para para recuperar motores, através do esmerilhamento de válvulas.

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DOS TERMOS COMPARATIVOS

Praça Rio Branco – Recife

Relembrar não é doença de idosos. É mais uma arte de historiar, por escrito ou em palavras, a fim de se deixar mais visíveis as marcas de alguns fatos importantes sobre a vida da capital de Pernambuco.

Na época colonial, a exemplo, as primeiras edificações do bairro-lha tinham, no máximo, três pavimentos e não possuíam elevadores. Erguiam-se coladas umas às outras, sem ventilação, sem jardins, sem quintais e sem “visão de rua”. Algumas, no pavimento residencial, possuíam varandas.

Exemplo disso é um dos nossos relicários, a antiga Rua dos Judeus, atual Rua do Bom Jesus, nascida no primeiro bairro da cidade, identificado anteriormente com: Frei Pedro Gonçalves do Recife.

No cadastro da Prefeitura, entretanto, consta que, o primeiro zoneamento residencial, foi Nossa Senhora do Pilar, atualmente apenas conhecido como Pilar.

Com o tempo, as pessoas começaram a identificar toda a região da ilha-bairro, como: Rio Branco, denominação atribuída ao Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Jr.). Pouco havendo lembranças do bairro do Pilar, que nos dias atuais se amplia e adapta-se à modernidade.

As velhas casas de comércio da Rua dos Judeus, situavam-se nas partes térreas, os 1ºs andares serviam moradia e os pavimentos superiores ficavam disponíveis para as mercadorias. Um exemplo da arte dos portugueses, que costumavam habitar no mesmo local do comércio que exploravam.

Os modelos coloniais, muitos anos mais tarde, viriam a ceder lugar ao modernismo. Mesmo nas vilas populares, as casas tinham o privilégio de possuir jardim, oitão, quintal e ampla visão da rua.

Para falar sobre o bairro, recorro às notas do meu saudoso amigo, o historiador, José Luiz da Mota Menezes:

O bairro teve esse nome em homenagem a Frei Pedro Gonçalves, franciscano de destaque, que viveu na época, tornando-se emérito por seu trabalho religioso e social desenvolvido na primitiva zona residencial daquela ilha.

Um nome tão extenso foi alterado com o passar do tempo e a imperiosa necessidade das pessoas. E foi diminuindo esse nome até se tornar conhecido apenas, como: Rio Branco, que logo mais teria destaque em função do logradouro denominado: Marco Zero.

O bairro do Pilar, localizado próximo à região portuária, tem esse nome ligado às tradições católicas. Na época colonial era comum batizar localidades com denominações de devoção mariana. O nome, portanto, se refere à Nossa Senhora do Pilar. A exemplo, temos várias outras denominações, inclusive o nome de Nossa Senhora do Rosário da Torre, atual bairro da Torre.

Lembro-me dos biscoitos fabricados pela Cia. de Produtos Pilar: Maria, Maizena e cream-cracker, que eram vendidos, em latas enormes, sob a forma de paralelogramo e outras com embalagem de papelão e formato de um bangalô inglês.

A fábrica foi fundada em 1875, pelo cidadão português Luiz da Fonseca Oliveira e ainda está em plena atividade, situa-se na Rua do Pilar, 89, esquina do antigo Cais do Apolo, atual Av. Martin Luther King.

Assim, sinto-me bem ao rememorar, com olhar didático, alguns episódios vividos, os quais remontam aos tempos do Ontem, a fim de dar aos jovens de hoje a oportunidade de ampliar seus conhecimentos sobre a cidade do Recife.

É oportuno que se conheça a máxima de Fernando Lobo:

“O melhor do passado é se poder analisar as épocas e achar graça no contraste das comparações.”

Somente assim será possível entender bem as épocas, sob a ótica dos termos comparativos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DO BABÃO AO LADRÃO

Faixa fixada em prédio, na cidade de Presidente Prudente

Outro dia, um jovem espirituoso resolveu colocar uma faixa colorida, em terreno baldio, bem defronte ao prédio de sua namorada, com os dizeres:

“Marina, você é minha e nem o boi lambe!…”

Numa cidade do interior, pouco desenvolvida, isso chegou a ser atração turística. Mas a placa desapareceu dias depois, por iniciativa da Prefeitura, alegando que não havia licença.

Há quem diga que o pai da moça, um ex-militar de alto coturno, teria reagido, estimulando a providência junto ao Burgomestre. Tudo “por baixo dos panos”, como nos diz o ditado.

Mas a ocorrência tinha um significado poético e sentimental. João Alberto namorava com Marina às escondidas. Moça bonita, 16 anos, “donzela”de carteirinha”, xoxotinha pedindo ação, primeiro namorando, só se falavam na porta do colégio. Em suma: “Um perigo!”

Insistente e astuto, sabendo que Marina gostou da frase e da demonstração explícita, João Alberto preparou mais uma, e de noite foi lá com alguns amigos e fincou no mesmo local, dois paus e a a segunda bendita faixa:

“Marina, só você navega em meu coração!”

A essa altura, a escola onde estudava a jovem entrou em rebuliço. Era só no que se falava. E sabendo que a coisa tinha motivado a namoradinha, dias depois, apareceu mais uma faixa:

“Marina, quando lhe vejo meu coração lateja em festa.”

Aí já avacalhou! Ampliou-se a questão, por vários ângulos.

Para se vingar, o Coronel Genésio, ex-comandante do 14º RI-SP, pai da moça, brabo que só uma capota choca, revidou, embora de forma também inteligente e estratégica.

Na janela do seu próprio apartamento fixou uma faixa bem grande, com a palavra quase ofensiva: “Babão!”

O “amado” da filha do Coronel, “murchou”. Foi um míssil na sua ardilosidade. Mas, como ambas as mensagens foram inteligentes, não houve dúvidas: o artifício do jovem apaixonado “foi um arraso”!

Meses depois, João Alberto resolveu enfrentar o velho Genésio, de frente. Apresentou suas “credenciais militares”: disse que havia feito o CPOR e era concursado e se tornou funcionário da Segurança da Cia. da Vale do Rio Doce, dourando suas frases com miçangas e lantejoulas.

O Coronel, “deu uma aliviada” e permitiu o “namoro vigiado”. Mas, já havia imaginado botar um tanque de guerra para ostensivamente circular pela rua da escola, pra esculachar mesmo. Mas, ex-colegas de farda conseguiram evitar que a ideia vingasse. Assim teria sido demais!…

Tempos depois, sempre escoltada pela doméstica da casa, a mocinha cumpriu o programa de aulas normalmente. Meses à frente, aconteceu o noivado, depois o casamento. Tudo normal. Na sequência, nasceu o primeiro bruguelo, neto do Coronel e sua “reprimida” esposa, D. Matilde, coitada.

As placas, porém, não foram esquecidas.

E pouco depois de um ano, após o enlace matrimonial de Marina e João Alberto, ocorreu o nascimento do primeiro rebento do casal. Festas para todos os visitantes e até nota em Ibrahim Sued, fato que motivou João Alberto, na maior moita, a instalar mais uma placa, dessa vez com um sentido oculto; quase vingativo:

“O Coronel, ganhou um netinho!”

Mas, como dizem que o passado às vezes se repete, façamos referência a uma certa placa, embora apenas colada na janela de um apartamento, que nada tem a ver com nossa historieta.

Todavia, ao invés de “Babão”, estava escrito: “Ladrão”. Aí deu-se a bexiga da cilibrina”.

Tal iniciativa, incomodou os poderosos de plantão.

Por idéia dos pelegos, a Polícia foi pedir ao proprietário para retirar a “homenagem”, alegando que a expressão poderia resultar em crime, assinalado no artigo 2469 do código sacanocrático brasileiro.

Foi um verdadeiro buruçu. O fato se expandiu na Internet, em centenas de canais. O proprietário, sabendo que episódio teria desdobramento, “aprontou”.

Dias depois, caiu em circulação a foto de um prédio ostentando, em cada janela, placas onde se lia, em letras garrafais, a palavra da atualidade: Ladrão, Ladrão, Ladrão, Ladrão.

Era Ladrão que não acabava mais! Todo o condomínio se associou à resplandescente “homenagem”, em solidariedade.

Aí se entendeu que a solução aplicada pelos jagunços-policiais, foi muito pior, porque desencadeou a ira condominial.

No 1º de maio apareceu na Internet outra foto, no mesmo prédio, ainda pior, com palavras vingativas, porém, mais inteligentes. Só que representou – sabemos nós – u’a mensagem ainda mais contundente. Foi de lascar!

O proprietário que anteriormente fora pressionado pela Polícia – que apareceu em sua casa sem mandado, sem nada; só com a cara e a coragem, concordou em retirar a “faixa ofensiva”. Compreende-se, assim, a revolta no Condomínio!

Mas, dois dias depois, instalou mais uma, um tanto vingativa:

Se a moda pegar em nosso país, não haverá político que não se ofenda quando ocorrer fato semelhante, cabendo à jagunçada solicitar aos editores do dicionário Aurélio, a retirada do verbete: Ladrão.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

SINISTROS CARECAS

Arnaldo Jabor

Aproveitei alguns pensamentos “alfinetantes” do saudoso Arnaldo Jabor para ilustrar nossa redação, com o desejo de despertar o orgulho dos brasileiros de bem, que ainda podem reagir para tirar o Brasil do buraco em que está metido.

Há 20 anos, aquele famoso escritor, cineasta e apresentador de tv, deixou frases que poderíamos considerá-las brocados clássicos do nosso tempo; ou seja, marcas emblemáticas das formas de procedimento.

Foram conceitos que profetizaram épocas e, ao mesmo tempo, servem de comparação com fatos da atualidade, porque há semelhanças entre elas e eles, os que se entranham na política-partidária, mesmo sem votos.

Algumas afirmações do cineasta descrevem parte de histórias análogas àqueles personagens que se encontram com as rédeas da Nação, em nossos dias.

Desta vez escrevemos uma crônica diferente. Fizemos um arranjo, adaptando algumas coisas bem ditas por Jabor, que como Nelson Rodrigues, “alfinetava”, sem pena, essa cambada que usufrui do Poder para se locupletar.

Vejamos as semelhanças com frases de Arnaldo Jabor:

Sou hoje parte dos detritos da nação!
O Brasil já assumiu a própria miséria.
Os marxistas de galinheiro estão infiltrados no Poder.
O serviço público está em aparelhamento crescente.
Não há um plano de governo, nem sabem governar.
Parecem macacos disputando minhocas num buraco.
Todos querem meter as mãos nas cumbucas do Estado.
Um dia, Zé Dirceu encontrou Lula e foi uma festa!
O grevista virou robô do Zé, seu manobreiro nas sombras.
Na porta das fábricas, ambos eram “símbolos de santidade.”
E unidos na luta, criaram um partido que seria sério, se não fosse enganoso.

O pedaço entristecedor de tudo isso é que eles visavam transformar, a partir daquela época, num prazo de 30 anos, o partido numa república sindicalista. Mas, essa evidência, logo despertou os intelectuais co-fundadores, que eram pessoas idôneas e capazes de apresentar planos.

E diante dessas conclusões bem amadurecidas, caíram fora do partido que congregaria trabalhadores de vários níveis: Heloísa Helena, Hélio Bicudo, Sérgio Buarque de Holanda, Dom Paulo Evaristo Arns, Cristovam Buarque, Ruy Fausto, Paulo Arantes, Antônio Cândido e vários outros, empobrecendo a legenda e desviando-a dos seus princípios basilares.

Deu no que deu!

As críticas e a revolta salientaram a “esquerdalhação” dos princípios éticos originais; a guinada para a centro-esquerda e o papel submisso que a intelectualidade passou a ter nos governos, envolvendo a substituição de figuras históricas por burocratas de meia tigela, alterando a base de apoio intelectual do partido.

E aí foram aparecendo os “ptralhas” e os políticos canalhas. A agremiação passou a agregar tudo quanto não prestava em termos de gente aproveitadora. Até que perderam o controle total das maracutaias que foram proliferando sem estribeira.

Hoje o que se vê, o Brasil é um país anarquizado, com milhares de pessoas dependentes de uma CPI, onde o “Careca do INSS”, culpado por considerável desfalque nos contracheques dos velhinhos, perambula nas vozes da mídia falada e escrita.

Mas há um outro careca, que se apresenta vestido de preto, arquiteto provisionado das manobras jurídicas mais escusas, que tanto infernizam os homens de bem.

Mas – vejam bem – não devemos incluir aqueles que, calvos por natureza, são políticos dignos e aplaudidos, como o senador Esperidião Amin, honra e glória da nação brasileira.

Esperidião Amin

Sabemos que na História atual, alguns descabelados, desejam ser líderes, sem votos, nas cenas de uma cambaleante democracia.

E como diria Arnaldo Jabor, se vivo fosse: “Os dois tipos aqui assinalados, são, na verdade: sinistros carecas”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

EU QUERO É ROSETAR

Jorge Veiga, o caricaturista do samba

Quem quiser que se dane! Posso até ficar “antigo”; com o espinhaço fora de forma e a lataria danificada, mas não envelhecerei. A partir de agora eu quero é rosetar!

O poema “Deixem-me Envelhecer”, que se tem atribuído a Mário Quintana, é uma das criações de Concita Weber, maranhense, que mora atualmente na Alemanha.

Trata, a notável peça, do desejo de aceitar a velhice com naturalidade. Sobremodo porque essa fase não aparece como um raio. Vai chegando devagarinho: uma dorzinha aqui, outra ali, u’a preguinha no papo, um pé inchado, a dentadura frouxa…

No meu caso, tenho resistido. Quero ficar com meu chinelo velho, guardar meus “trecos” em lugares de sempre, contar minhas histórias quase infantis, escrever meu besteirol, assobiar músicas antigas e puxar conversas até com quem não conheço.

Em suma, ter independência para viver a vida bem ao meu gosto. Eu quero é rosetar!

Vale lembrar que o verbo rosetar representa certo brasileirismo, pois segundo o “Aurélião”, significa divertir-se, folgar e aproveitar a vida.

E o que os “antigos” mais gostam? De recordar! Assim, vale lembrar a composição de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira, gravada por Jorge Veiga, grande sucesso no carnaval do Rio, em 1950.

Para completar, devo informar que “Eu quero é rosetar” se tornou filme, no qual, faziam muitas trapalhadas os saudosos atores: Oscarito e Grande Otelo. Um clássico da chanchada brasileira, produzido pela Atlântida Cinematográfica Ltda.

Aliás, o gênero de comédia musical foi muito popular nas décadas de 1940 e 1950, produzidos por Watson Macedo e Carlos Manga, para a Atlântida, a produtora mais influente do cinema brasileiro, chegando a produzir 66 filmes.

E pra conferir mando para os amigos antigos um aperitivo para rosetar, ouvindo as deliciosas marchinhas cariocas:

Pois é nessa pisada em que estou engrenando a 3a. marcha, porque, a partir de junho, não me importa que a mula manque, eu só quero é rosetar.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CARA A CARA

Marília Gabriela “Cara a Cara” com Jô Soares (07/06/1988)

Entrevistar não é coisa fácil. Por isso, admiro os profissionais que sabem fazê-lo com graça e boa qualidade.

Marília Gabriela, na TV, tornou-se campeã de audiência durante entrevistas, por saber mergulhar na intimidade de cada personagem, sem cair nas indiscrições ou mesmices.

Outro dia, na TV, revi Jô Soares, no “Cara a Cara com Gabi”, na Bandeirantes. Foram momentos para registro na História do Teatro, do Rádio e da TV, mostrando a atividade profissional do artista.

Daquela entrevista selecionei partes para embasar esta crônica, sobressaindo-se algumas respostas dele.

Jô Soares

O humorista tem que ser múltiplo. Deve escrever, representar, saber contar piadas; e ao mesmo tempo, quando no palco ou fora dele, também causar risos.

Todo gordo já é engraçado; e se for gordo nem precisa ser humorista. Fiz do meu tipo físico u’a marca emblemática, inclusive para dar títulos aos meus espetáculos.

Gosto de me apresentar no Teatro porque a resposta do trabalho é imediata: a satisfação pelos aplausos. No teatro, escrevi e apresentei: “O Gordo ao vivo”, espetáculo que no Rio e São Paulo, ficou em cartaz durante um ano.

Considero-me um “produtor artístico”, além de humorista e escritor. E aproveitando, devo dizer que conheci o Boni na cama! Ele estava doente.

Sobre minha “quilografia”, atesto que já cheguei a pesar 160 quilos. Fiz dieta e fiquei com 80.

Finalizando devo dizer que, quanto mais famoso for o personagem, mais difícil fica de se entrevistar.

Jô Soares foi um artista completo e um dos maiores ícones da televisão brasileira. Atuou como humorista, entrevistador, escritor, diretor e ator por mais de 60 anos. Consagrou-se no humor com personagens marcantes e revolucionou as madrugadas com os programas de entrevistas que apresentou, primeiro no SBT e depois na Globo, além de escrever best-sellers, dentre eles, “O Xangô de Baker Street”.

Entre as décadas de 1960 e 2000 – o auge da fama – criou e representou vários personagens de grande sucesso, nos programas televisivos Jô Show, Família Trapo, Satiricom, Planeta dos Homens e Viva o Gordo, além dos programas de entrevistas já mencionados: Jô Soares Onze e Meia e o Programa do Jô, nos quais apresentou dezenas e dezenas de convidados, dentre personagens ou celebridades, nacionais e internacionais.

Precisando realizar um programa do seu jeito, sem interferências e em época de muitos programas de humor na Globo, depois de 17 anos naquela equipe transferiu-se para apresentar um espetáculo de humorismo e entrevistas no SBT, tornando-se o precursor da modalidade conhecida como talk-show, no Brasil.

E em abril de 2000 retornou, após um “acordão” entre Sílvio Santos e Roberto Marinho, depois de 12 anos no SBT, para apresentar o “Jô Soares Onze e Meia, que ficou no ar até dezembro de 2016.

Jô soube introduzir nos programas de entrevistas, boas doses do seu incomparável humor, além de dar sua contribuição para a História do Rádio, do Teatro e da Televisão brasileira.

O que lamento é nunca haver estado com Jô Soares, para uma prosa tipo “Cara a Cara”.