CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ANJAS

Dioclécio era conhecido como unha de fome, idolatrava dinheiro, diariamente contabilizava suas aplicações na bolsa. Certa noite ele sentiu-se mal, suava frio, chamou o filho. Foi levado desfalecido à emergência do Hospital, diagnosticaram um enfarto e providenciaram operação de urgência. O caso de Dioclécio foi grave. Ficou em coma induzida pós-operatório durante uma semana.

Durante o coma teve sonhos constantes, repetidos, que ficaram gravados no inconsciente: eram dois enormes pássaros brancos revoando em círculo por sobre ele, em certo momento se transformavam em duas mulheres aladas, seminuas, com véus soltos envolvendo um corpo sensual. Voavam e se encostavam ao doente provocando agradável excitação. As visitas percebiam os efeitos desse sonho erótico sob o lençol do comatoso.

Dioclécio teve alta com rigorosa dieta, menos trabalho e evitar preocupação. Ele não abriu mão de visitar sua fazenda predileta em Penedo, à margem do Velho Chico. Era o prazer de sua vida.

Mês passado ele foi a Penedo dirigindo sozinho seu belo carro. Ao passar pela ponte por cima das águas verdes e cristalinas da Lagoa Mundaú, percebeu que duas jovens, uma morena, outra alourada, vestidas com shorts jeans, mochilas nas costas, pediam carona.

Ficou admirado com ele próprio quando freou o carro. As moças foram se chegando e perguntaram para onde ele ia e se podia dar carona.

– “Para Penedo, e vocês? Por acaso são assaltantes?”

As meninas entrando no carro sorriram:

– “E o senhor, por acaso é estuprador? Estamos também indo para Penedo!”

Dioclécio teve uma empatia instantânea com as jovens. Sorria e divertia-se com as conversas.

Na estrada de repente, um susto: um caminhão desgovernado vindo em sentido contrário passou rente ao carro, depois de atravessar o acostamento capotou em uma barreira. Ele parou o carro, respirou fundo, pelo susto, quase que o caminhão bate na frente. Foi socorrer o motorista. Não precisou, ele saiu da cabine, ileso, com um forte cheiro de cachaça. O cara estava bêbado.

Dioclécio prosseguiu a viajem, de repente encarou as jovens pelo espelho retrovisor. Elas comentaram, se ele não tivesse parado naquele momento da carona o carro teria sido esmagado pelo caminhão. As jovens salvaram Dioclécio de um grave acidente que iria acontecer.

Walquíria e Gabriela eram divertidas cantavam e contavam histórias. Na praia do Miaí, Deoclécio tirou o carro do asfalto, entrou na extensa praia de areia dura que serviu de estrada até a entrada para Penedo.

-“É a estrada mais bonita do mundo”, dizia. “De num lado um exuberante verde coqueiral e do outro o mar azul-esverdeado.” Nesse dia o céu estava limpo, azul. Parou para tirar fotos em um navio afundado à beira-mar. Elas pediram a um jangadeiro para fotografá-los imitando os personagens do filme Titanic. Dioclécio em pé na proa entre as duas jovens como recheio de um sanduíche, os três de braços abertos encostavam-se. Ele ficou excitado e veio-lhe a imagem do seu sonho no coma: os pássaros brancos.

Hospedaram-se no Hotel S. Francisco. Marcaram encontro à noite, foram jantar na Rocheira. Comeram jacaré, tomaram cerveja e uma boa cachacinha apreciando a bucólica paisagem noturna do Velho Chico refletindo as luzes da barroca, bela e velha Penedo.

No final da noitada retornaram hotel, andando e cantando pelas ruas estreitas da cidade. Ao chegar, dormiram no mesmo apartamento, fizeram amor, se amaram, amor a três, “ménage a trois”. Nos mais intensos momentos de prazer afloravam-lhe as imagens do sonho: duas mulheres aladas e nuas. Dormiu feliz entre as jovens e sonhou com os pássaros alados.

Ao acordar, as moças não estavam na cama. Na portaria lhe informaram que elas seguiram sem destino. Deixaram um bilhete: “Querido, cuide-se, ame a vida que é o maior bem de um ser humano. Beijos Walkíria e Gabriela.”

Dioclécio era um descrente das coisas do além. Hoje é convicto que aquelas jovens, eram anjos, walquírias nômades, andarilhas. Não foi por acaso que a carona aos anjos evitou sua morte embaixo do caminhão desgovernado.

Hoje Dioclécio olha o mundo com outra escala de valores. Deixou de ser unha de fome, ajuda aos menos favorecidos. Tornou-se um ser humano generoso.

Recentemente recebeu, via correio, um envelope pardo sem nome do remetente, selo carimbado de Campina Grande. Continha uma fotografia tirada no navio.

Dioclécio de braços abertos, sozinho, as duas jovens não aparecem na foto. Deu-lhe um arrepio no corpo, emocionou-se e chorou.

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O DEDO DURO

Bar do Chope, no fundo a Igreja do Livramento

O fato se deu no auge do regime militar quando acontecia a Guerra do Araguaia no campo e a Guerra Urbana na cidade. Alguns radicais resolveram pegar em armas para derrubar a ditadura militar e implantar a ditadura do proletariado. O Brasil vivia um clima de receio do chamado “dedo duro”, apelido dado a quem delatava os supostos inimigos do regime.

Nessa época apareceu no Bar do Chope, ponto boêmio de Maceió, Eleutério Villa Velha. Ninguém sabia sua procedência e nem certeza que era coronel. No início da tarde, ele chegava puxando de uma perna, com um jornal embaixo do braço, cumprimentava os frequentadores do bar, tomava uma cadeira, abria um jornal e danava-se a ler. Impressionava por ser jornal de grande circulação no sul: O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo, Eleutério conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. Isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias misteriosas sobre o coronel cada vez mais circulavam entre os amigos de bar. Uns diziam que o coronel Vila Velha mancava por consequência da explosão de uma granada. Outros tinham certeza que ele era coronel da Aeronáutica, e mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam em ele ser informante, gente importante naqueles tempos, também chamado de “dedo duro”. Os boêmios desavisados deviam tomar cuidado e não conversar sobre política. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Seria cadeia certa.

Eleutério alimentava o mistério, ele adorava fazer aquele papel, às vezes exagerava nas histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando o coronel chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Eleutério, sério, colocava o jornal sobre mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial.

– Ontem jantei com o Paes (coronel comandante do 20º BC – quartel do Exército), infelizmente não posso revelar detalhes, mas digo uma coisa, meus amigos, aqui para nós, favor não vão dizer que fui eu que informei, confio em vocês. Lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra soldados do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados. Nenhuma notícia pode sair nos jornais.

Os colegas de copo e mesa ficavam admirados, de fato, esse tipo de notícia não era publicada; o que dava maior credibilidade ao Coronel Vila Velha. Era coronel para cá, coronel para lá.

Na verdade Eleutério tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia com fanfarronice no Bar do Chope.

Certa tarde ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 ou 12 jovens bebiam e conversavam perto de sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Eleutério se juntou aos amigos e começou sua história. Os bêbados ficavam emocionados.

– Estão vendo aqueles jovens sentados à mesa, tomando chope, são todos comunistas. O magro é o Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro é o Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio, o Aldo Rebelo, o Roland Benamor, o Geraldo Majella, o Iremar Marinho. Estão tramando subversão. Serão presos nos próximos dias.

Os desocupados de plantão ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do coronel.

Até que num fim de tarde quando a “galera” puxava um chope, ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Houve uma correria frenética na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique que havia assassinado, descarregado o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente ao Bar do Chope.

Quando serenou um pouco, os bêbados gritaram: “Coronel prenda o assassino. Coronel prenda o assassino, ele ainda está lá de revolver na mão,” O coronel, de repente, despareceu. Encontraram Eleutério encolhido embaixo de uma mesa por trás de uma mureta. O colega de copo exigiu sua interferência naquele brutal assassinato, ele respondeu, gaguejando, tremendo, ainda acocorado.

“Não… não sou co..coronel não, nem informante, nem dedo duro, sou funcionário aposentado!”

Ao correr para o banheiro Eleutério não pode esconder: estava com a calça suja. Cagou-se de tanto medo. Depois desse acontecimento nunca mais, “coronel Vila Velha”, o dedo duro, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.

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A VINGANÇA DA VIÚVA

Malaquias estava sentado trabalhando, conferindo os carimbos de certidões, de repente sentiu-se mal, suando frio, gritou para seus colegas:

– Socorro! Estou com dor no peito. Estou com…

Não terminou a frase, sua cabeça pendeu, caiu de bruços em cima do birô. Deitaram Malaquias no chão, afrouxaram a roupa, uma jovem fez respiração boca-a-boca. Quando a ambulância chegou, já estava morto.

Malaquias era um homem sério, austero, decente, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Tinha 48 anos, 26 dedicados ao serviço, nunca faltou um dia à repartição. Um homem formal, não bebia, nunca fumou. Tinha um físico magro de dar inveja aos amantes da malhação. Mas seu coração era fraco devido a uma picada do besouro barbeiro da época de sua bela e divertida infância na amada cidade de União dos Palmares.

Todos esses predicados enchiam de orgulho à esposa. Lúcia de Fátima afirmava convicta: -“Homem sério e decente é Malaquias, por ele ponho a mão no fogo”. Os amigos concordavam. Apenas algumas amigas mais íntimas, diziam para si mesma que Fátima poderia queimar as mãos. Malaquias tinha apenas um problema com a família: gostava de pescaria. Em fim de semana, muitas vezes, viajava com amigos para pescar no litoral das Alagoas.

O campo santo Parque das Flores estava cheio de amigos e curiosos. O defunto era popular, foi candidato a vereador por cinco vezes seguidas. Em uma eleição chegou a ter 456 votos. Ele se orgulhava quando deputados pediam seu apoio em época de eleição.

Lúcia de Fátima estava arrasada, muita comoção no cemitério. Os amigos abraçavam, consolavam. Por conta do estado emotivo, ela não percebeu que uma senhora desconhecida chorava além do normal. Muitos notaram quando uma mocinha de seus treze anos aproximou-se do caixão depositou uma rosa, teve acesso de choro e chamou Malaquias de pai. Essa senhora tirou a jovem discretamente.

Ao terminar a missa de sétimo dia, a viúva foi procurada Pela senhora, morena, bonita, cabelos escorridos, olhos irritados vermelhos.

– Dona Fátima, eu me chamo Berenice, preciso falar com a senhora, assunto de seu interesse, aliás, de nosso interesse.

A viúva, que estava abraçada à sua única filha, Rosilene, de treze anos, convidou-a para tomar café em sua casa com os amigos. Os parentes mais próximos tomaram o lauto café da manhã, lembrando Malaquias que deveria estar no céu àquela hora.

Depois que todos saíram, Fátima chamou a senhora para conversar na varanda. Berenice entrou no assunto, direta, sem preparar a viúva:

– Dona Fátima a senhora precisa saber agora, não se pode adiar. Eu e Malaquias há muito tempo temos uma relação amorosa. Tenho duas filhas com ele. A mais velha, Rosali, é essa que está na sala conversando com sua filha. São irmãs, incrível, nasceram quase no mesmo dia.

Fátima arregalou os olhos, desnorteada com a imprevisível notícia. Foi um choque como se tivesse levado um coice no estômago. Não admitiu. Não podia acreditar. Respondeu aos berros para Berenice.

– Mentirosa, ponha-se para fora! Não manche o nome de meu marido!

A amante sem fazer barulho disse apenas com firmeza:

– A Senhora precisava saber. Eu aceitei a relação de ser amante porque amava Malaquias. Ele não era um santo, como a senhora pensa. Tome meu cartão, telefone-me quando acalmar. Meu advogado vai procurar a senhora.

Saiu levando sua filha que havia adorado a nova amiga, sua meia irmã.

Pela tarde, Genilda, uma amiga, bateu à porta. Fátima atendeu se lamentando, chorando:

– Descobri a traição! Eu era corna e não sabia!

Genilda teve um choque. Começou a chorar e inesperadamente confessou com voz baixa.

– Desculpe Fátima! Agora que você descobriu, quero dizer que não tive culpa. Malaquias quando me via começava a falar aquelas coisas bonitas. Era um finório na lábia. Juro que dei a primeira vez porque prometeu parar com aquelas cantadas. Peço perdão, pelo amor de Deus.

Fátima ficou afônica, atônica e estarrecida com a nova descoberta. Botou Genilda para fora de casa. Chorou o resto do dia. Inconformada com as histórias amorosas do marido ficou reclusa em sua casa. Passou um tempo sem receber ninguém, com vergonha de ter sido uma idiota. Uma incontrolável raiva de Malaquias apoderou-se de sua alma. Rasgou todos seus retratos.

Na noite da missa do 30º dia, ela reapareceu, escandalizando. Entrou na Igreja com um vestido vermelho, bem decotado e justo, transparecendo suas bonitas pernas. Chocou mais ainda, quando, no final da missa, convidou as amigas para dar uma volta na noitada da cidade.

A partir dessa noite Fátima se liberou. Deu e dá para quem quer. Recusou um colega de trabalho, Julião, que fez uma chantagem entregando-lhe um bilhete discretamente. – “Eu vi ontem o Ronaldo entrando à noite em sua casa. Quero também uma noitada de amor. Senão conto para todo mundo. Assinado: Você já sabe”. Ao ler a chantagem procurou Julião, ao vê-lo, rodou a bolsa e tacou-lhe na cara. Falou alto para todos ouvirem.

– Eu dou para quem quiser. Menos para você seu babaca!

E saiu às gargalhadas.

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A ILHA DA FITINHA

Noaldo Dantas, paraibano, jornalista e poeta, publicou o texto: “O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS”, que se tornou o poema das Alagoas.

“Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro era alagoano. Em verdade não se cria um Estado com tantas belezas, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas: “Ô São Pedro pegue o estoque de azul mais puro e jogue dentro das manhãs encharcadas de sol, faça do mar um espelho do céu, polvilhando de jangadas brancas; quero os entardeceres sangrentos no horizonte, e aquelas lagoas e rios que estávamos guardando para uso particular, coloque-as nesse paraíso…”

Um desses paraísos que Deus guardou para uso particular é o Rio São Francisco, caminho que anda por entre inúmeras ilhas, coqueirais, manguezais, água corrente entre matizes azuis e verdes e vai bater no meio do mar. É lá que Deus entra em férias, segundo o cineasta Cacá Diegues.

Tempos atrás em uma das ilhas do rio, aconteceu uma história de amor que se imortalizou na imaginação popular, passando de boca a boca até nossos dias. Na cidade de Penedo, à beira do Velho Chico, havia um rapaz chamado Pedro, trabalhador, alto e forte. Era tirador de coco de profissão, enrolava uma peia no corpo, subia o coqueiro que nem uma lagartixa. Com o facão dava cortes fazendo cair os cachos cocos que o cambiteiro recolhia ao depósito. Pedro era o melhor tirador de coco da região, alegre, gostava de uma sanfona e de uma festa. Certa vez foi tirar cocos na ilha do Coronel Antônio Bento. Juliana, filha do Coronel, estava na ilha ficou observando, admirada da destreza de Pedro subindo nos coqueiros.

Em certo momento ele pediu um copo d’água, Juliana trouxe água gelada, conversaram, olharam nos olhos, apaixonaram-se naquele momento. Havia um problema: o pai proibiu o namoro de sua filha com um tirador de coco. Pedro prometeu à amada mudar de vida, ganhar dinheiro para poder sustentar uma família. Danou-se a trabalhar, tirando e comercializando coco em toda região do baixo São Francisco. Depois de um ano, melhorou de vida, foi falar com o pai da moça para consentir o namoro. Coronel Antônio Bento recusou, e foi taxativo: sua única filha só se casaria com doutor de anel no dedo. Não havia gastado tanto dinheiro com a educação da menina para casar com um reles tirador de coco. A mãe, Dona Maroca, mulher sensível e inteligente, tinha simpatia pelo o amor de Juliana e seu primeiro amor, Pedro dos Cocos.

Em Penedo, Juliana arranjou uma maneira de encontrar-se com Pedro, com o discreto apoio de Dona Maroca. Certa noite ao chegar de viagem, o Coronel Antônio Bento flagrou sua filha abraçada com Pedro. “- Não admito”, gritou e mandou Juliana recolher-se. Dentro de casa fez a maior zoada, prometeu colocar a filha interna no Colégio Santíssimo Sacramento de Maceió. E como castigo, mãe e filha, acompanhadas da criadagem, iriam passar o restante do verão na casa da Ilha. Não queria ver na redondeza o pilantra sem eira nem beira que desmoralizou a família, tomando liberdade escandalosa com sua filha.

No dia seguinte, duas canoas partiram do porto de Penedo até a Ilha. As mulheres ficaram na casa grande com a proteção dos empregados, o coronel não tinha hora nem dia para chegar. Triste com os acontecimentos e pensando no seu amor, Juliana toda manhã vestia o maiô azul, ia à praia estreita da ilha entre o coqueiral e tomava banho de rio. Depois de uma semana, numa bela manhã de sol, ao mergulhar, Juliana ouviu um assovio, arrepiou-se, sentiu a presença de seu amado. Procurou pelos lados, só teve certeza que era Pedro quando avistou seu vulto entre os arbustos aquáticos. Abraçaram-se. Entre beijos prometeram juras de amor.

Com receio do pai, arquitetaram um plano: Pedro passaria toda manhã pela ilha, só atracaria sua canoa quando Juliana amarrasse uma fitinha vermelha na palha do coqueiro envergado para o rio, era sinal que o coronel não estava na ilha. Assim os namorados passaram o resto das férias. O coração de Pedro batia de emoção quando via a fitinha na palha. Encostava a canoa nos arbustos, Juliana vinha encontrá-lo, eles namoravam sozinhos nas águas transparentes e correntes do Rio São Francisco. Certo dia as águas transparentes tornaram-se turvas, vermelhas, sangue e sêmen se diluíram na correnteza do Velho Chico.

As férias acabaram, houve choro, Juliana viajou para o colégio em Maceió, interna, pensando um dia fugir com Pedro. No mês de abril ela adoeceu, vomitando, o médico experiente, diagnosticou: é menino. Não se pôde esconder a gravidez, quando o pai soube da verdade, cobriu-se de ódio queria matar Pedro. Depois da ira, do desabafo e a conversa apaziguadora de Dona Maroca, o Coronel baixou a brabeza. Mandou chamar o tirador de coco para uma conversa. Pedro enfrentou com dignidade e coragem a situação. E não é que o sogro começou a simpatizar com o genro! Fizesse logo o casamento para barriga não aparecer. Foram três dias de festa na Ilha, Coronel Antônio Bento trouxe até músico do Rio de Janeiro para tocar. O mais animado era Pedro tocando sanfona e dançando com a esposa no maior amor do mundo.

Juliana e Pedro tiveram 12 filhos, ao primeiro deram o nome de Antônio Bento Neto. O povo da região conta para seus filhos e netos a história de amor da Ilha da Fitinha. Dizem até que o compositor, João do Vale, inspirou-se no casamento para fazer a música:

Coroné Antônio Bento… No dia do casamento… Da sua filha Juliana… Ele não quis sanfoneiro… Foi pro Rio de Janeiro… Convidou Benê Nunes… Pra tocar, olê, lê, olá, lá

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A COMEMORAÇÃO DA TORCEDORA

Orla da Ponta Verde onde sucedeu o fato

Tibúrcio acordou-se na maior ressaca nessa quinta-feira. Estava feliz com a vitória do Fluminense na noite anterior. Afinal Campeão da Taça Rio 2020. Levantou-se, olhou na cozinha de seu apartamento de solteiro um monte de garrafas e copos, deixou para lavar depois, tomou um suco de laranja. Eram dez horas da manhã, vestiu a camisa tricolor, colocou uma máscara, e mesmo nessa pandemia, desceu à praia para uma caminhada.

Andava contemplando o marzão naquela bela e luminosa manhã de julho. Avistou ao longe, à beira-mar, uma moça de vestido verde, com uma faixa branca como se fosse um cinto, descalça, dançando sozinha com o fone no ouvido. Pequenas marolas batiam em suas canelas, molhando a ponta do vestido. Tibúrcio olhava admirando à jovem dançar, se requebrar, tendo apenas o mar como companheiro. Ele sorriu, devia ser uma bêbada maluca e continuou sua andança mais meia hora e voltou. Ao passar novamente pelo local da dançarina notou que ela retornava ao calçadão. Quis o destino, ou o diabo, ou o Sobrenatural de Almeida, que a moça cruzasse com Tibúrcio. Ele teve um susto quando a jovem, ao avistá-lo com a camisa do Fluminense, abriu os braços e cantou alto, sorrindo:

– “Sou tricolor de coração… sou do time tantas vezes campeão”.

A alegre torcedora aproximou-se e deu um abraço em Tibúrcio. Sorrindo comentaram o jogo, o sufoco. Depois de algum papo, sentaram num banco olhando para o mar. Os dois se entenderam, maior empatia, eram tricolores doentes. A moça entre 30 a 35 anos, da mesma faixa etária do Tibúrcio. Conversaram mais de uma hora sobre o Fluminense. Valéria é advogada, carioca, viajou à Maceió para resolver pendências de sua firma, sem data para retornar ao Rio devido à pandemia. Certo momento, a garota tricolor convidou-o para tomar uma cerveja, precisava comemorar e muito esse título. Atravessaram a rua, na loja de conveniência do posto entornaram meia dúzia de cerveja.

Tibúrcio observou que em sua roupa havia apenas o verde do vestido e o branco da faixa, faltava o vermelho-grená. Valéria deu uma gargalhada, apertou a mão do amigo, cochichou no ouvido para ele prestar atenção. Sentou-se em sua frente, num gesto altamente discreto e sensual levantou o vestido, bem devagar, apareceram lindas pernas, as coxas, e finalmente a calcinha. Tibúrcio percebeu que a calcinha era vermelho grená. Ficaram às gargalhadas. Valéria estava hospedada em um apartamento de temporada, convidou o amigo tricolor a subir. Ao entrar no apartamento, a carioca puxou-o para dentro do banheiro, ainda vestidos, abriu o chuveiro, abraçaram-se, beijaram-se, encharcados amaram-se, feito dois animais.

Eram quatorze horas quando Tibúrcio saiu do apartamento. Valéria dormia o sono dos justos, dos amantes, dos campeões. Ele deixou um bilhete pedindo para telefonar quando acordasse. Depois do jantar, sem alguma notícia de sua tricolor, Tibúrcio resolveu aparecer no apartamento de Valéria. Comprou flores vermelhas, subiu, antes de tocar a campainha na porta, seu celular chamou. Era Valéria, perguntando quando ia vê-lo. Ele respondeu: agora, e apertou a campainha. Ao abrir a porta, ela ficou radiante com a surpresa, abraçou-o, beijou-o, arrastou seu tricolor. Não saíram, passaram a noite na varanda, bebendo uísque, se amando com carinho e alegria. Eles fizeram a maior comemoração do Fluminense campeão da Taça Rio 2020.

Na sexta-feira pela manhã foram à praia da Barra de São Miguel. Ao passar pela Prefeitura, Tibúrcio mostrou à Valéria a bandeira do município que tinha as cores: verde, branco e vermelho. Tibúrcio contou a história que se tornou lenda e ninguém sabe ao certo se é verdade ou invencionice do povo. A Barra quando se emancipou de S. Miguel não tinha bandeira, a secretária de educação levou o problema ao novo prefeito. Ele gostava de desenhar passou a noite desenhando três opções para a Câmara de Vereadores escolher. Aconteceu o incrível, a bandeira escolhida foi a parecida, semelhante à bandeira do Fluminense. O casal ainda está comemorando a vitória do campeão da Taça Rio, 2020; até que a pandemia acabe.

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ACONTECEU COM O NEREU

Nas vésperas do carnaval eu saboreava um arabaiana ao molho de camarão acompanhado de cerveja gelada na Barraca Pedra Virada, esperando o pôr do sol da praia da Ponta Verde, quando Nereu aproximou-se e sentou-se a meu lado. Era fim de tarde, notei que o amigo havia tomado alguns uísques além da cota. Nereu, meio embriagado, estava a fim de desabafar, confessou-me fatos detalhados de sua vida. Não parou de falar, nem para respirar.

– Meu querido amigo como você já deve estar sabendo dos boatos que correm na cidade, eu gostaria de contar minha versão da história. Você é um homem moderno e tenho certeza que vai entender.

No início dos anos 90, eu tinha cerca de 20 anos, arribei do Ceará, minha terra, vim trabalhar em Maceió. Gostei, por aqui fiquei, constitui família, considero-me alagoano. Passei parte de minha vida me reprimindo, essa é a questão. Quando eu bebia tinha vontade de tocar nos amigos, entretanto, me segurava, tinha medo da desmoralização, do escândalo. Desconfiava de minha ambiguidade sexual desde menino, eu amava brincar de troca-troca durante minha puberdade em Sobral, cidade onde nasci e me criei.

Toda vez que bebia além do normal, dava-me uma comichão e vontade de segurar no pau dos outros, de dar o rabo; eu me segurava e isso me atormentava.

Para resolver a situação tive que escolher entre ser homem ou baitola e me fiz macho: namorei a Helena, aquela jovem morena da praia de Pajuçara, cobiçada por muitos, entretanto ela me quis. Com pouco tempo de namoro e noivado, nos casamos, logo nasceram dois filhos. Eu pensava que estava livre dos desejos que me atormentavam, mas, em vez em quando a comichão aflorava. Certa vez, conheci um jovem carioca, Romeu, rolou um amor, eu fiquei em vida dupla. Depois que Romeu retornou ao Rio, comecei a fazer programa com garotos. Tive problemas e muita briga com Leninha, era o inconsciente.

Depois de vinte anos de casados e muito desentendimento, nos separamos. Helena hoje me detesta. Onde ela estiver, com a língua solta, me destrata, me esculhamba. Eu fico com pena de meus filhos, eles me amam.

Há quatro anos frequento uma psicóloga competente, ela puxou tudo de mim, depois de algum tempo de tratamento, a doutora me preparou para assumir minha bissexualidade. Foi o que de melhor aconteceu em minha vida, nada pior que as coisas não resolvidas. Hoje não importo para o que pensem, sou bicha, baitola, adoro dar. Sou homossexual assumido e não vejo problema. Aliás, sou bissexual, gosto também de mulher, vez em quando.

Estou agora na linha de frente na luta os homossexuais, tornei-me batalhador da causa das minorias sexuais tão discriminadas. O único problema é a aceitação de meus dois filhos; sei que é difícil, mas o tempo é o senhor da razão, já dizia o Presidente. Serei um homem mais feliz quando os filhos me aceitarem como sou.

Nereu não parou de falar, eu escutando, conversa de xiita engajado na luta. Pensando, tirei uma conclusão: jamais Nereu retornará à categoria dos machos, está de cabeça feita, tem convicção de sua opção sexual, a psicóloga ajudou muito ao cearense.

Ele deu-me uma explicação de uma forma científica. Não entendi muito, confesso. Segundo a psicóloga:

As pessoas não mudam sua sexualidade durante a vida, ela vem do berço, algumas assumem a homossexualidade cedo, outros assumem durante o período de incerteza, de indefinição de identidade sexual, na adolescência. Outros homossexuais não assumem, são os enrustidos.

Fiz que entendia a informação científica de meu amigo porque naquele momento apareceu à mesa outro desocupado, o Xavier. Mudou o assunto.

Amigo leitor ou leitora, vocês entenderam? A história do Nereu serve para os dois casos. Então, se você tiver vontade de abraçar um amigo com mais força, não se acanhe, é normal. Sair do armário, assumir foi o melhor que aconteceu com Nereu. Stanislaw Ponte Preta já dizia nos anos 60, que o terceiro sexo já estava em segundo lugar. Não se constranja, hoje o mundo é outro, peça ajuda a um psicólogo, faça como meu amigo. Se for solteiro ou solteira, talvez até arranje um bom casamento.

Finalizo os escritos, esclarecendo que eles não têm intensão de caçoar. Homossexualismo é coisa séria e esta história é baseada em um fato contado pelo próprio personagem. Tenho muitos amigos e amigas homossexuais, que gosto e respeito. E garanto que o mundo sem homofobia, ficaria bem mais fraterno e cor de rosa.

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A INVASÃO DAS GUARAÇUMAS

Mar da Avenida da Paz (Foto: Marola)

O extenso calçadão da praia da Avenida da Paz, arborizado com amendoeiras e jardins gramados, foi o palco da nossa mocidade, onde toda noite a juventude fazia uma festa; andando de bicicleta, patins e patinetes, jogando ximbra (bola de gude), rodando pião, brincando de rouba-bandeira ou gata-pirada empurrando um aos outros nos bancos de concreto até sobrar apenas um, o vencedor. Às vezes um namoro, um aperto nas meninas, a puberdade florescia. Nas noites das quartas-feiras os moradores sentavam-se nos longos bancos de madeira embaixo do coreto para ouvir música clássica, popular e jazz. Era a retreta da Banda do Exército Brasileiro, às vezes da Polícia Militar.

Nesse paraíso havia uma praia extensa de areia branca, nosso campo de futebol. Depois do jogo, mergulhávamos e nadávamos até o fundo do mar perto dos navios fundeados. No retorno, muitas vezes os botos nos acompanhavam como estivessem nos protegendo, brincavam, mergulhavam e emergiam, soltando um som gutural como se estivessem conversando com os jovens nadadores. Ao sairmos do mar íamos em direção às paqueras que esperavam numa sombrinha tomando banho de sol ou jogando baralho. Como era gostoso entrar no mar com a namorada, os dois segurando na boia de pneu de caminhão e as pernas se cruzando embaixo d’água.

À tarde quando a maré estava cheia, a moçada partia para o trapiche que entrava mar adentro no início da praia de Jaraguá. Era uma espécie de ancoradouro, de píer, com um trilho em cima e na ponta, onde o mar era fundo, havia um sólido armazém de telhado de zinco, onde empilhavam sacos de açúcar para transbordo, por balsas, aos navios. Nós nadávamos até o armazém, subíamos pelas palafitas de madeiras grossas e pelas grades do imenso portão, logo alcançávamos o telhado de zinco quente. Ao olhar a imensidão do mar e dos coqueirais em volta, nos sentíamos os donos do mundo. Em seguida, o mergulho: com o corpo retesado nos jogávamos ao mar, era uma queda de segundos, 15 metros de altura, um vento gostoso passava na barriga até batermos e afundarmos na água. Imediatamente subíamos para outro salto.

Quando aparecia o vigia, todos nós mergulhávamos. Ao cair dentro d’água, alguém puxava, os outros continuavam a saudação: “O galo canta… o macaco assovia… banana de jegue… no cu do vigia.” Certa tarde um colega pulou e não retornou, ficamos mergulhando para tentar trazer o Tony para superfície e nada, desesperados chamamos os bombeiros que tentaram resgatar o corpo com embarcação e mergulhadores. Nunca foi encontrado o corpo de nosso amigo. Foi tristeza geral, nossos pais proibiram essa brincadeira, mas dentro de um mês os meninos da Avenida estavam pulando novamente do zinco do trapiche.

Toda manhã, antes de pegar o bonde para o Colégio Marista, eu dava um mergulho no meu mar. Certa vez notei que a água não estava com a cor verde azulada habitual, a superfície tremeluzia, alguma coisa estranha acontecia, quando cheguei à beira mar estavam diversos pescadores jogando redes, anzóis, tarrafas. Era um enorme cardume de guaraçumas que invadiu a enseada da praia da Avenida. Dei o mergulho, notei vários peixes nadando à beira mar. Um arrastão chegava com os pescadores puxando, a rede estava cheia, quase estourando de tanto peixe. Fui ao Colégio, quando retornei perto do meio dia, a praia estava cheia de gente com caniço e samburá.

O cais do porto repleto de pescadores profissionais e amadores jogando suas varas, suas redes. No dia seguinte continuou a inexplicável invasão das guaraçumas. Quase toda população de Maceió levou caniço ou tarrafa para praia e para o cais. À noite a enseada da praia da Avenida tornou-se uma festa: fachos acesos à beira do cais e nas canoas dentro d’água. As guaraçumas atraídas pelo fogo dos fachos pulavam e caíam dentro da canoa.

Ate hoje ninguém soube explicar este fenômeno. Por algum tempo a miséria havia acabado. Havia guaraçuma para quem quisesse: o pobre, o rico, o miserável, menino, velho e mulher. Maceió se fez em festa. Foram treze noites, treze dias, o mar ficou cinzento de tanto peixe pular, cardumes e mais cardumes renovavam-se invadindo a enseada. Fenômeno inexplicável e extraordinário.

Nessa época os negociantes de automóveis encheram Maceió com um novo tipo de jipe, vendido em grande quantidade, logo chamados de guaraçumas. Até hoje, o jipe 1954 é chamado de Guaraçuma pelos colecionadores.

A Gazeta de Alagoas publicou uma reportagem no dia 28 de abril de 1954, dizia assim: ABUNDÂNCIA E PESCA – “O pescado guaraçuma afluiu em quantidade espetacular à praia da Avenida da Paz. Gente muita se fez da pescaria, aproveitando o extraordinário volume de peixes surgidos ali. Muita gente pobre serviu-se à farta desse gênero de alimentação. Nesses últimos dias houve na cidade peixe de muito boa qualidade e extremamente barato. Muito pescado vendido a preço irrisório…”

Muitos técnicos tentaram explicar esse fenômeno: pesquisadores da UFAL, engenheiros de pesca do Recife. Veio gente da Bahia e até do Japão. Cada qual com uma teoria diferente. Eu gostava de conversar com um amigo, Cabo Jorge, motorista do comandante da Polícia, (meu pai). O Cabo era pai de santo de um terreiro pras bandas da praia de Ipioca, e me deu a seguinte explicação sobre a invasão das guaraçumas: “Foi Yemanjá, a rainha do mar, quem presenteou a cidade com 13 dias de fartura com muito peixe, para compensar ela ter levado o Tony que está vivendo com ela no fundo do mar.” Ainda hoje acho a teoria do velho Cabo Jorge a mais plausível.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A PROMOÇÃO

Historicamente, o Estado de Alagoas sempre teve como suporte econômico a fabricação do açúcar. A zona da mata onde ficam as Usinas de Açúcar é um tapete verde de canavial. Era emprego garantido para os trabalhadores rurais até que um dia chegou a mecanização com possantes máquinas e tratores, desempregando muita gente. Como não houve uma política de fixação do trabalhador rural no campo, eles emigraram para capital em busca de emprego. Muitos construíram favelas no Vale do Reginaldo-Salgadinho, lançando os dejetos humanos no riacho. No decorrer dos anos essa favela aumentou; hoje são mais de 20 mil casebres que tornam o Riacho Reginaldo-Salgadinho um esgoto a céu aberto, poluindo o mar e a praia da Avenida da Paz.

As jovens que chegavam do interior encontraram poucos empregos, para sobreviver havia uma solução: ser empregada doméstica. A procura foi tanta que a burguesia, a classe média, chegava a ter três ou quatro empregadas a troco da alimentação, da dormida e um pequeno salário. Essas empregadas geralmente jovens, e como tal, gostavam de sair, frequentar as festas populares, brincar o carnaval, sempre alegres e faceiras. Gostavam também de namorar, seus hormônios funcionavam bem. À noite passeavam nas praças onde apareciam pretendentes e outros aproveitadores. Geralmente essas jovens do meio rural eram mais liberais que as preconceituosas jovens da classe média que guardavam a virgindade para o casamento.

Nessa época, os jovens tinham uma namoradinha estudante dos colégios de freira. Depois do jantar eles partiam para namorar no portão da casa, com direito a uma volta na calçada. Quando dava nove ou nove e meia, o severo pai aparecia e pigarreava. Era sinal para a jovem entrar, deixando o namorado excitadíssimo pelo xumbrego, com três opções: Recolher-se em casa para se masturbar; subir aos bordéis para um descarrego, dependia da grana; a terceira opção era partir à cata das empregadas domésticas que desfilavam na praça, bonitinhas e cheirosinhas. Elas não eram enganadas, sabiam que o jovem não estava afim de casamento, queria diversão. E arrastavam para locais mais escuros, compatíveis. Elas tinham pontos preferidos: praça do Centenário no Farol; praça Deodoro no Centro e em torno da Avenida da Paz, à noite muitos jovens vadiavam na areia morna da praia da Avenida.

O politicamente correto ainda não existia. Nas casas geralmente havia apenas um banheiro e nos quartos, embaixo da cama, colocava-se um penico para necessidade noturna. Alguém, um dia, chamou uma doméstica de “peniqueira” e a alcunha pejorativa pegou. As jovens empregadas não gostavam desse apelido. Porém, banalizou-se. Na praça Centenário alguns jovens, depois das onze, reuniam-se para contar aventuras e conquistas. Chegaram a criar uma associação, os sócios deram o nome de UCPM, União dos Conquistadores de Peniqueiras de Maceió. Era bem organizado. As reuniões aconteciam na garagem da casa de um primo, na Rua Comendador Palmeira. O regulamento elaborado por um estudante de Direito, foi lido e aprovado pelos sócios fundadores. Havia uma escala hierárquica entre os sócios com os postos militares. O jovem entrava como soldado, à medida que contasse conquistas noturnas, ganhava promoção, decidida pelos sócios presentes. Formou-se uma hierarquia rígida entre sócios, de soldado ao general comandante. Toda sexta-feira na garagem de meu primo havia reunião e gostosas gargalhadas, sempre com respeito às domésticas, a causa e inspiração viva daquela associação.

Meu amigo Ávila era Major, muito atuante, não perdia reuniões, era o primeiro da lista na promoção a coronel. Foi quando ele começou a namorar a bonita vizinha, um sonho antigo. Quando estavam na praia, ou no cinema, ou ficavam sentados num banco da praça, em vez em quando passava um amigo e o cumprimentava batendo continência: “Boa noite Major”. A namorada ficou cismada perguntou sobre aquela continência; Ávila desconversava. Até que um dia a namorada, conversando com a cunhadinha, tocou no assunto; a irmã de Ávila abriu o jogo, contou todos os pormenores da UCPM e porque seu irmão tinha o posto de Major.
À noite, na porta da casa da namorada, ela não o deixou tocar em sua mão, e contou que sabia tudo sobre a UCPM, e seu posto de Major. Ávila segurou a mão da namorada e prometeu com convicção:

– Minha querida eu ainda sou Major, é a maior injustiça da UCPM, garanto, lhe prometo como daqui para o final do mês eu serei promovido a Coronel.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CACHORRO QUE CHORAVA

Alagoas é um celeiro de bons jornalistas. A imprensa honesta, batalhadora e competente faz parte de nossa história. Tenho Ricardo Rodrigues como um dos melhores jornalistas atuantes e mais éticos. Foi ele que me relembrou o caso do cachorro que chorava. Um fenômeno que abalou, assanhou a cidade e o Brasil nos idos dos anos 70.

Ao completar 10 anos, Ricardo ganhou um lindo cachorro de se pai, Arlindo. Não pertencia a alguma raça específica, ou seja, era um legítimo vira-lata. Colocaram o nome de Johnson, em homenagem ao presidente dos USA. O cachorro ficou bonito danado, cresceu com muito apego ao dono.

Certa vez, durante a madrugada, arrombaram a porta e roubaram algumas bebidas e comidas no Bar de Seu Arlindo que se tornou ponto de encontro da boemia em Jaraguá. Ele resolveu levar o cachorro para dormir no bar, Ricardo esperneou, não queria deixar o cachorro. Johnson tornou-se patrimônio, cria e mascote do Bar do Arlindo. Os fregueses tinham maior carinho pelo cão-vigia.

O bar era frequentado por artistas e boêmios de Maceió. Seu Arlindo colocava música na possante vitrola Phillips, e a moçada curtia Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso e outros grandes cantores da época enquanto dava um trato na cerveja e na branquinha.

Certa noite, Seu Arlindo notou Johnson chorar, o cachorro uivava quando tocava uma música específica; não eram todas. Finalmente descobriu: Johnson chorava apenas quando tocava a música de Altemar Dutra: “Vida Minha”.

Johnson tornou-se atração do bairro boêmio de Jaraguá. Quando aparecia um desavisado, os assíduos frequentadores apostavam como o cachorro chorava ao ouvir música. Alguns desatentos pagaram garrafas, caixas de cervejas para os malandros.

O fato se espalhou por toda cidade de Maceió. Entrou pelo Poço, Mangabeiras, Ponta da Terra, Pajuçara, até no Tabuleiro. Todos queriam conhecer o cachorro que chorava. O Bar do Arlindo de repente se encheu. Gente do povo, deputado, senador, coronel, capitão, ficavam pasmados com o choro de Johnson.

Sociólogos, filósofos, professores da UFAL tentaram explicar o fenômeno. Muitas páginas foram escritas em tese de mestrado sobre o cachorro que chorava. Teorias fizeram trabalhar os tipos das máquinas de datilografias da época.

Certa noite apareceu o jornalista Bernardino Souto Maior. Ao ouvir o uivo do cachorro ao som da música do Altemar Dutra, foi taxativo com Arlindo:

-“Vou levar você e o cachorro para o Programa Flávio Cavalcante.”

Naquela época, na TV Tupi de São Paulo, o Programa Flávio Cavalcante, tinha a maior audiência no Brasil. Havia um quadro chamado “Fora de Série”, onde Flávio apresentava histórias interessantes, fenômenos e outras gaiatices. Não deu uma semana, Bernardino entrou no Bar do Arlindo:

– “Prepare uma jaula para o cachorro. Aqui estão nossas passagens para São Paulo. Vamos viajar amanhã e entrar no ar ao vivo no domingo.”

Numa fria madrugada de sexta-feira no Aeroporto Campo dos Palmares, entraram no avião: Arlindo, Bernardino e o já famoso Johnson.

Na hora do programa todos estavam nervosos, era ao vivo. Se o cachorro falhasse, seria um vexame televisionado para todo o Brasil. Até que chegou o momento. Flávio Cavalcante com sua empáfia de apresentador estrelado iniciou:

-“E agora meus amigos de todo o Brasil. Vou apresentar Johnson, o cachorro que veio das Alagoas. Um sentimental cachorro que chora quando ouve Altemar Dutra.”

Entraram no palco da TV: Bernardino e Seu Arlindo com Johnson. Depois de algumas perguntas, e fazer o suspense, se o cachorro ia chorar ou não, finalmente Flávio manda rodar a música. Maior expectativa. Quando se ouviu: “Eu acordei chorando…e tu não acreditaste…vida minha…..”, o nosso querido Johnson irrompeu em uivos. Chorou com lágrimas caindo como se fosse um personagem de novela mexicana.

A plateia e todos os expectadores ligados na TV deliraram. Maior sucesso, muitos aplausos. Johnson era a nova sensação do Brasil. Por conta disso, no outro dia, Johnson foi convidado para gravar no programa da Cidinha Campos.

Quando os três retornaram à Maceió, no aeroporto havia jornalistas, rádios pedindo entrevistas. Seu Arlindo continuou com sua birosca sob a vigilância do famosíssimo Johnson.

Na quinta-feira daquela semana, uma multidão foi assistir na televisão do Bar do Arlindo o Programa Cidinha Livre, tinha sido gravado. Durante a apresentação, quando iniciou a música “Vida Minha”, Johnson irrompeu no choro duplamente, ao vivo e na televisão.

Muitos quiseram comprar nosso herói canino. Veio proposta do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro. Um milionário de New York mandou uma oferta fabulosa. Mas Seu Arlindo preferiu conservar Johnson junto a ele, fazendo guarda em seu bar e brincando com o filho Ricardo.

Nunca mais um alagoano foi tão aplaudido em rede de televisão nacional. Difícil um sucesso como o do inesquecível Johnson, o cachorro que chorava.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

À BEIRA DA ESTRADA

Apolinário dirigia devagar rumo a Caruaru quando avistou, ao longe, um pequeno carro estacionando no acostamento. Ao parar, desceu uma mulher olhando o pneu traseiro murcho. A jovem senhora iniciou uma série de inúteis pontapés. Apolinário parou seu carro, e foi acudir à dama solitária.

Ela chutava o pneu, e chorava. Ele pediu calma, estava ali para ajudar. A distinta respirou fundo, voltando a si como se estivesse em transe.

Apolinário levantou o carro rodando o macaco, retirou o pneu furado, colocou o estepe. Enquanto realizava a troca, a madame não deu uma palavra. Ela percebeu que não tinha retribuído a gentileza do senhor. Pediu desculpas, disse que estava com a cabeça cheia de problemas e com ódio no coração. Que ele perdoasse. Apresentou-se como Flávia.

– Muito Prazer, Apolinário. Olhe aqui minha amiga, nenhum ódio vale a pena, aconselhou o gentil homem.

– Minha raiva é grande. Vontade de matar. De qualquer maneira, desculpe e obrigado. Respondeu a morena com a alma infeliz.

Apolinário logo chegou à Caruaru. Ele queria curtir as peças de artesanato, a cultura popular do Nordeste. Viajava para distrair-se.

Almoçou no hotel, descansou. Ao entardecer fez uma visita à feira, aos pontos de folclore, recordando a finada Marilda que gostava tanto da Feira de Caruaru, foram 23 anos de casamento.

Jantando no Restaurante Chapéu de Couro, percebeu que a senhora do carro, a irada Flávia, estava em uma mesa tomando uísque, desacompanhada.

Ele estava terminando o jantar, quando percebeu uma pessoa encostar à frente da mesa. Apolinário levantou a cabeça, era a moça zangada, estava sorrindo. Perguntou se podia sentar. Apolinário puxou uma cadeira, ato contínuo ela sentou-se elegante e iniciou a conversa:

– Pensei no que você falou. É verdade, raiva mata, deixa o coração ferido. E a vida é uma só. Vou tentar superar a bordoada que recebi, e não se fala mais nisso. Agora conte sua vida. Quem é você, cavalheiro gentil?

Apolinário resumiu sua vida. Era de Maceió, estava em viagem solitária pelo Nordeste, sem roteiro predeterminado. Queria refletir sobre sua nova vida, viúvo há seis meses. Não tinha data marcada para voltar.

Flávia achou a história muito interessante. Conhecia bem Alagoas, contou reminiscências, parte da infância morando em Maceió. Enquanto ela falava Apolinário analisou a companheira acidental.

Devia ter entre 35 a 40 anos, pele bem cuidada, morena. O braço parecia porcelana. Rosto redondo, cabelos pretos escorridos, bem tratados. Olhos negros vivos como se estivessem acesos, penetrantes, por cima de um nariz levemente achatado. Exalava sensualidade e mistério. Sentiu que havia um grande problema em sua alma, daí esse rancor. Notou uma marca de aliança na mão esquerda. Seria casada?

Ficaram naquela mesa por mais de duas horas em conversa descontraída, alegre, com o acompanhamento do velho uísque. De repente, Flávia olhou nos olhos de Apolinário, pegou-o pela cabeça, puxou-o, deu-lhe um beijo na boca. Correspondida, ficaram a chupar línguas. Ela pediu sorrindo.

– Quero ir pra cama com você, agora! Tem que ser agora, antes que desista, não quero desistir.

Rápido ele pagou a conta. Sem esperar pelo troco saíram. Entraram no carro de Apolinário, partiram em busca de um motel à beira da estrada. Flávia durante o percurso beijava seu pescoço, alisava-o, não se falaram.

Ao entrar no quarto do hotel, ela pediu, “Beije aqui meu amor!”

Apolinário obedeceu, fizeram amor até mais tarde.

Depois do êxtase, corpos separados, enquanto ele olhava para o teto, sentiu que Flávia chorava, e aumentava o choro. Estava desesperadamente histérica, lamentando-se, pedindo desculpas como se estivesse falando com outra pessoa.

– Seu bosta! Você foi o culpado, você me traiu!

Apolinário conseguiu acalmá-la. Flávia contou sua vida.

Era casada, dois filhos já rapazes, morava no Recife. No dia anterior, ao entrar no escritório, flagrou o marido transando com a secretária no tapete Uma prima, que implorou um emprego. Em casa o marido tentou justificar. Flávia não conseguiu dormir. Pela manhã pegou alguma roupa e partiu no seu carro rumo à fazenda de uma amiga no sertão. Ninguém sabia onde ela estava. Desligou celular e partiu, com toda raiva, ódio no coração. Estava planejando matá-lo, quando encontrou Apolinário, percebeu que não era a solução. No restaurante, bebendo, armou outro tipo de vingança. Foi o ódio que impeliu transar com ele. Estava arrependida, com sentimento de culpa, mas a raiva não havia passado.

Ele ouviu com atenção enquanto trocava de roupa, e admirava aquele belo espécime de mulher.

Já vestidos, ele abraçou-a, deu um cheiro nos cabelos.

– Agora vá dormir no hotel. Amanhã visite sua amiga, depois volte para sua família, você é uma pessoa especial. Não se sinta culpada pelo que aconteceu. A raiva é uma emoção cruel, muito forte, você agiu impulsionada pelo sentimento de vingança. O que aconteceu foi melhor que mandar matá-lo, tenho certeza. O segredo é nosso, ninguém precisa saber o que houve entre nós. Eu amei essa noite, jamais esquecerei.

Saíram do motel até o carro de Flavinha. Ela alisou a cabeça do parceiro, deu-lhe um beijo na boca. Olhou em seus olhos e cochichou: “Amei lhe conhecer, essa noite marcou minha vida.” Desceu do carro do amigo e sem olhar para trás, caminhou lentamente em direção a seu carro. Deu a partida e desapareceu na estrada escura