CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ORDENER CERQUEIRA

Ordener foi meu ídolo. Eu adorava e dava gargalhadas ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista competente, eficiente professor da Universidade, com consultório na Rua Boa Vista. Tinha alma de boêmio e muitos amigos. Certa vez Aldemar Paiva trouxe o famoso Capiba para um fim de semana em Maceió. Ordener acompanhou os passeios, inclusive ofereceu um almoço em sua casa na praia de Riacho Doce. Retornando ao Recife Capiba confessou a Aldemar Paiva que Ordener era a figura humana mais engraçada que conheceu.

Ordener, jovem adolescente foi um bom estudante no Liceu Alagoano. Havia um professor de história acostumado a dar aula sentado na cadeira, não levantava para pegar um giz. A narrativa histórica era chata, tediosa. O professor tinha a mania de colocar a mão na primeira gaveta do birô enquanto discorria a monótona aula. O preguiçoso professor passava o tempo de aula num blábláblá monocórdio provocando sono nos alunos, sempre com a mão enfiada na gaveta.

Certo dia, no quintal da casa de Ordener apareceu um baita goiamum, azulado e brabo, com uma pata do tamanho de seu casco. Ele conseguiu pegar e amarrar o caranguejo pelas patas, acondicionou, embrulhou em fibras de tronco de bananeira e guardou-o em sua pasta escolar. Na manhã seguinte levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula do professor preguiçoso, Ordener desembrulhou e soltou o brabo caranguejo na primeira gaveta, fechando-a.

Quando o professor iniciou a aula, sentado na cadeira, imediatamente, num reflexo, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. Naquele instante soltou um estridente grito enquanto puxava o braço com um baita goiamum com a enorme pata travada no dedo indicador. Ele gritava de dor, pedia socorro, enquanto a alunada caiu às gargalhadas. Acudiram o professor que aproveitou e não deu mais aula, prometendo expulsar o meliante que aprontou aquela brincadeira.

Ordener cursando a faculdade foi convidado para atuar no Teatro Universitário, ensaiou durante um mês uma peça sacra a ser encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Jesus, e o amigo, Luís Alves, fazia o papel de Lázaro. Depois de vários ensaios chegou o dia da estreia, um sábado à noite no Teatro Deodoro.

Ninguém era de perder um sábado. Nem ele, nem Luís. Passaram o dia encheram a cara num Bar da Ponta Grossa. Chegaram para atuar às sete da noite no Teatro Deodoro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado. Não havia fala para o Lázaro; seu papel era ficar como morto até quando Jesus (Ordener) o mandasse levantar e nesse momento Lázaro (Luís) levantava e andava ressuscitado.

O Teatro Deodoro cheio, não havia vaga sequer no balcão A peça iniciou e prosseguiu até que aconteceu a cena dos amigos. Luís (Lázaro) deitou-se no chão como morto e Ordener (Jesus) falou alto, fazendo o milagre:

– Levanta-te e anda Lázaro!

Lázaro (Luís) continuou deitado, sem sequer mexia. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto:

– Levanta-te Lázaro!

Lázaro continuou sem se mover. Ordener impaciente, sentindo a apreensão da plateia chutou as costas de Luís e gritou mais alto ainda:

– Levanta-te Lázaro!

Até que perdeu a paciência e saiu o impropério:

– Levanta seu filho de uma puta!

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público pedindo perdão comunicando:

– O Lázaro está bêbado!

Foi uma gargalhada geral. Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores que foram expulsos do Grupo de Teatro Universitário.

Meu tio Napoleão, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao seu consultório. Chegamos por volta das onze da manhã na Rua Boa Vista. Napoleão sentou-se numa cadeira na sala de espera, eu me aproximei e bati à porta. A me ver Ordener ficou feliz e perguntou a razão da visita; eu respondi ser uma surpresa. Naquele momento ele tratava os dentes de um cliente deitado na cadeira de boca aberta. Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, sorrindo, perguntando pela surpresa saiu da sala. Foi emocionante quando apontei para meu tio Napoleão. Ao reconhecer o amigo de juventude a alegria foi tamanha que se abraçaram chorando. O encontro emocionou aos clientes que aguardavam serem atendidos.

Ordener tirou a bata branca, abraçado ao ombro de Napoleão, descemos para comemorar o encontro. Sentamos no Bar do Chope, onde emocionados brindamos algumas doses de cachaça acompanha por cerveja bem gelada. Em poucos momentos apareceu a atendente lembrando que o cliente ainda estava lá de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos clientes, não mais atenderia naquele dia.

Terminamos o encontro por volta das quatro horas da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando acompanhado pelo violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…” Ordener Cerqueira foi dentista e professor dos mais competentes e um dos boêmios mais queridos da cidade. Suas histórias ainda são contadas boca a boca em toda Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DEODATO, O SANTEIRO

Artista alagoano, nascido na Levada. Conquistou o mundo com suas hábeis mãos, transformando madeira crua em belas esculturas.

Desde menino, moleque, andava pelos bairros, perambulando pelas ruas da cidade, que um dia iria se tornar sua paixão. Ao completar 13 anos descobriu sua vocação ao transformar um monte de barro em uma casa de farinha e foi vendê-la na Feira de Passarinho quando conheceu o antropólogo Dr. Théo Brandão que se encantou com o trabalho daquele jovem.

Sua vida repleta de muitas histórias e alegrias tornou-o um homem feliz. Foi Cabo do Exército Brasileiro em plena Segunda Guerra Mundial. Passou algum tempo como militar. Ao dar baixa do Exército arranjou um emprego no aeroporto de Maceió, era “espantador de urubu”, seu trabalho era dar carreira e não deixar os urubus perto da pista de pouso.

Até que resolveu afinal arriscar seu futuro no Rio de Janeiro: embarcou na terceira classe de um velho navio ITA no porto de Jaraguá.

No Rio de Janeiro se fez conhecido pelas peças de madeiras esculpidas. Morou no Morro da Mangueira e tornou-se carnavalesco. Conviveu com Cartola e Zica, tornou-se amigo de sambista de tradição. Ajudou nas alegorias e enfeites da Escola, desfilou no carnaval.

De espírito inquieto mudou-se para São Paulo em busca de melhor reconhecimento. Desempregado, tentou de tudo, foi boxeador valendo-se dos ensinamentos do Tenente Madalena com quem aprendeu a lutar boxe no Exército. Sua vida foi uma luta. Competiu no campeonato paulista de boxe por mais de uma temporada. Sobrevivia para poder trabalhar na madeira. Até que um dia descobriu a paixão de sua vida: Deodato esqueceu a luta, namorou Maria Lúcia, uma jovem guerreira, tornou-se companheira.

Casado, nosso herói aquietou-se e dedicou-se apenas a sua arte. Com ajuda de amigos e muita briga com fiscais da Prefeitura fundou a feira de artesanato da Praça da República. Deodato tinha razão e uma visão futura. Hoje a Feira da Praça da República é grande atração turística da cidade de São Paulo.

O ilustre alagoano nunca esqueceu sua terra, mesmo quando começou a ser reconhecida sua maravilhosa arte. Ficou famoso em São Paulo, no Rio e adjacências. Teve convite e foi para o Programa do Jô Soares, Argentina e Uruguai.

O Fantástico fez uma inesquecível matéria ao vivo com Deodato, o santeiro, aliás, o milagreiro.

A Igreja do Butantã encomendou um Cristo em madeira. Deodato caprichou, comprou um enorme tronco. Com menos de um mês esculpiu um belo Cristo de 3,5 metros de altura. A madeira ainda não estava completamente seca, saía um pouco de resina das talhas. Os padres acharam tão bonito que resolveram levar o Cristo para o altar da Igreja antes da madeira curtir.

Foi um sucesso. Os fieis frequentavam a Igreja para olhar aquela linda escultura do Cristo enorme. De repente uma beata descobriu nos pés e nas mãos de Cristo um líquido vermelho escorrendo. A Filha de Maria não teve dúvida, nem raciocinou quando gritou no átrio: “Milagre! Milagre! Cristo está sangrando!”.

Deu-se um clima de espanto quando o povo admirava o correr do líquido vermelho. Logo chegou reportagem dos jornais e televisão. Ninguém explicava o fenômeno, só um milagre justificava.

Até que o Fantástico foi gravar o “milagre” e Deodato tentou explicar o fato real, esclareceu que aquele líquido vermelho era resina. Mas o povo não quis saber da explicação. A massa tem necessidade de “milagres”.

Certa vez, uma senhora estava com o pescoço torto e duro. Na rua reconheceu Deodato como o santo que esculpiu Cristo que sangrou. De repente atacou gritando e beijando os pés do “milagreiro”, abraçou-o pela canela. Deodato aborrecido gritou para a senhora: -“Me largue”.

Na emoção a senhora entendeu mal e gritou: “Milagre!”. No mesmo instante a dor no seu pescoço passou e voltou a ficar mole. Foi um reboliço. Muitos foram testemunhas do milagre. Os repórteres dos jornais registraram a história do Santo Deodato, o milagreiro, a fama ficou até hoje em São Paulo.

Deodato nunca esqueceu sua Maceió e a lagoa Mundaú. Quando viajava à terra visitava aos amigos. O Prefeito de Marechal pediu e ele esculpiu aquela maravilhosa estátua equestre do Marechal Deodoro na entrada da cidade.

Infelizmente, um dos mais notáveis artistas do Brasil, nascido no bairro da Levada em Maceió, foi chamado para esculpir um bando de santo que deve ter no céu. Estou imaginando o trabalho que meu querido amigo, que não sabia dizer não, esculpindo o batalhão de santos do céu. Aqui na terra restou um boneco de carnaval que todo ano, desfila no Bloco do Siri Mole do artista Ovídio Gurgel, seu pareia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O APOSENTADO

Fernando José chegou em casa ao entardecer, sentou-se no sofá, abraçou Margarida, declarou feliz à esposa.

– Foi meu último dia de trabalho, me sinto cansado, a aposentadoria do Banco dá para viver sem atropelos financeiros. Quero viajar, brincar com os netos, andar na orla, nadar na Academia, assistir cineminha pela tarde, ler muito. Escrever minhas memórias, quase 70 anos. Tenho muitas histórias, dentro de dois anos lanço meu primeiro livro. Não trabalharei mais para ninguém, vou ser um jovem e feliz idoso aposentado, caminhante da praia da Jatiúca!

– Ótimo, vou lhe dar uma tarefa, levar seu neto, Fernandinho, toda quinta-feira de quatro às seis da tarde na aula de inglês. – Disse a filha, Denise, chegando e ouvindo a confissão do pai.

– Terei a maior satisfação, pode deixar comigo.

Na quinta-feira Fernando pegou Fernandinho em seu edifício. Entrou na escola de inglês segurando a mão do neto, sala ampla, onde se ramificavam quatro corredores com salas de aula, Fernandinho, nove anos, esperto, logo achou sua turma, desde os seis anos estuda inglês, um craque. O avô olhou o relógio, achou a sala aconchegante, resolveu esperar sentado numa confortável poltrona, pegou uma revista ficou a ler algumas reportagens. De repente uma senhora bem vestida sentou-se na poltrona ao lado, ele sentiu o perfume, deu-lhe uma deliciosa leveza dentro do ser, conhecia o aroma delicioso, a madame usava “Fleur de Rocaille”, seu perfume preferido, amava aquela fragrância desde o namoro com Vilma, uma paulista no início dos anos 70. Tórrida e inesquecível paixão. Muitas vezes se embriagou cheirando a nuca da namorada. Viveram juntos dois anos assim que entrou no Banco do Brasil foi trabalhar em Macapá, longínqua e bela capital do Estado do Amapá. Lá conheceu a paulista.

Fernando estava em devaneios quando ouviu um pigarro, nesse momento baixou a revista, olhou, contemplou a bela coroa, idade indefinida entre 40 e 50 anos, talvez 60. Quem sabe idade de uma mulher? Elegante, exalava suavemente Fleur de Rocaille. Atração à primeira vista. Sorriu, iniciou uma conversa leve.

– Esperando o filho?

– Não, neto, tenho essa missão, trazer o neto às aulas de inglês, prefiro ficar lendo, esperando a aula terminar. – respondeu a gostosa coroa.

Continuaram a conversa, vovô viu a vovó, gostou, nasceu uma química entre os dois. Ao terminar a aula, despediram-se.

Durante a semana Fernando sentia Fleur de Rocaille por onde andava, na sala, na cozinha, chegava-lhe o perfume. Na quinta-feira seguinte, tomou banho demorado, vestiu camisa nova, perfumou-se, espargiu Azarrô em seu corpo. Ao chegar à escola de inglês com o neto, era intenso o movimento de alunos, pais, avós, professores. Percebeu a nova amiga, sentou-se perto, deu um olá, ela responde um adeus em dedos, logo estavam conversando.

Passaram-se três semanas, ficaram íntimos, conheciam a vida um do outro. Fernando convidou Amanda, assim se chama a viúva, para tomar um sorvete na Bali, ao caminhar, no segundo quarteirão avistou uma placa num edifício, “Aluga-se apto quarto e sala mobiliado – chave na portaria”, ele precisava para um primo que chegava do Rio. Foram conhecer o apartamento. Ao se verem sozinhos, propositalmente ele encostou o braço em Amanda, ela sentiu um choque, eletricidade química, segurou a mão do vovô aposentado, apertou, virou-se, se abraçaram, se beijaram. Fernando se embriagou em tanto cheirar a mulher perfumada, deixaram o sorvete para outro dia.

Já se passaram quatro meses do primeiro encontro, toda quinta-feira Fernando deixa Fernandinho na aula de Inglês e sobe para o apartamento que ele mesmo alugou . Toma o fortificante azul diluído em meio copo d’água, coloca uma música dos anos dourados esperando a viúva bater à porta. Quando Amanda entra, ele sente o perfume Fleur de Rocaille penetrar nas narinas. Abraça, beija, funga o cangote da viúva. Depois relaxado, conversando com a namorada, espera a hora de terminar a aula. Leva Fernandinho à sua casa e num lapso agradece à filha.

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COLÉGIO DIOCESANO

Após o banho de mar matinal na Praia da Avenida da Paz, eu tomava um café reforçado da Dona Zeca quase na hora de pegar o bonde para o Colégio Diocesano. Havia um ponto de parada de bonde perto de minha casa, na esquina, defronte à belíssima mansão de Seu Paulo Tenório. Eu, menino cheio de vigor, preferia pegar o bonde em movimento ao passar em frente à minha casa. Pulava dando impulso com um pé, juntava o outro firme no estribo, a mão segurava o barrete vertical, viajava em pé, mesmo com vagas nos bancos, equilibrando uma pesada bolsa de livros e cadernos na outra mão. O bonde paquidérmico andava lentamente, eu sentia, amava a carícia do vento no rosto. O cobrador passava experto, uniforme desalinhado e inefável quepe, as notas de dinheiro arrumadas entre os dedos facilitando o troco aos passageiros, mandava sair do estribo e sentar nos bancos. Nós, meninos livres e teimosos, não obedecíamos.

O motorneiro (condutor) acelerava o bonde rangendo nos trilhos, tocando “Tim-Tim”. Entrava pela Praça Sinimbu, Rua do Imperador, dobrava por trás da Assembleia, subia a Rua do Comércio, finalmente chegava nosso destino, o majestoso e bonito casarão, Colégio Diocesano, onde hoje é a Secretaria de Agricultura.

Às sete da manhã, impreterivelmente, tocava o sino, os alunos entravam enfileirados na sala. Depois de rezar três ave-marias e um padre-nosso, iniciava a primeira aula. Assistíamos às aulas pensando no intervalo, recreio de dez minutos, mal dava para tomar água, jogar ximbra, pião, trocar figurinhas. O sino batia novamente acabando a alegria fugaz, retorno à sala de aula.

O Colégio tinha um ensino bem organizado, todos os colegas daquele tempo ficaram bem encaminhados pelo excelente nível de educação. Alguns colegas disputavam o primeiro lugar nas notas. Outros também se distinguiam nas aulas práticas de oratória, mostravam seus dotes brilhantes. Eu era bom na matemática. Fui aluno particular do professor Benedito na Praça das Graças, onde três vezes por semana, assistia às aulas noturnas do excelente professor Benedito que ficou na história da cidade.

Fui aluno marista de 1948 a 1955, sete anos, um bom tempo de aprendizado. Devo parte da minha educação politicamente correta aos Irmãos Maristas, havia aula de civilidade e religião. A outra parte de minha educação mais escrachada, anárquica, devo à vida livre nas praias, praças, mares, lagoas e ruas de Maceió.

Nossa turma teve como “lente” (responsável) durante o curso Colegial o irmão Bráulio, grande liderança sobre professores e alunos. Incentivador do esporte, treinador de nossa classe, campeã alguns anos de futebol do Colégio. Eu era um jogador medíocre, mas estava sempre escalado ou na reserva do time. Os jogos do campeonato eram pela tarde no campo do Colégio, uma área entre o prédio e o muro cheia de oitizeiros centenários, jogávamos à sombra. Quando a bola batia em uma árvore, continuava valendo. Houve um caso do goleiro Marcos Mello ter feito uma bela defesa quando chutou a bola para frente, ela bateu em uma árvore e voltou entrando na trave, o gol foi validado.

Havia um irmão, sempre mal humorado, vivia enfezado, francês, velho ranzinza, professor de francês e matemática, reclamava e censurava a nossa educação, insistia em nos comparar com a educação dos meninos franceses, seus conterrâneos. Era crítico dos nossos costumes. Certo dia, no intervalo de aula, um colega de turma, um tremendo gozador, hoje sério e recatado cidadão, escreveu no quadro-negro uma quadra que dizia mais ou menos assim: “Irmão Júlio vai morrer buchudo… Sem poder cuspir… Com um pirulito na boca… Sem poder engolir… E com um filho na barriga… Sem poder parir”. Quando o velho irmão entrou na sala de aula, leu os versos, soltou um grito, xingando de mal educados, cafajestes. Naquele momento teve um ataque, ficou vermelho que nem um pimentão e desmaiou na cadeira. Pensamos que estava morto, foi um corre-corre, com tapinhas na bochecha, água no rosto, ele voltou ao normal.

Era uma turma eclética deu bons profissionais que fizeram a história e construíram a cidade de Maceió no século XX.

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MISS PARIPUEIRA

Convicta dentro de sua insanidade, Ambrosina se orgulhava clamando aos quatro cantos da cidade: “Eu sou a Miss Paripueira”. Vestida de saias e blusas chamativas, enfeitada de colorares, diversas pulseiras enchiam seus pequenos braços. Baixinha e amável tinha paixão por sua peruca, amarrava uma fita na testa; os óculos escuros era peça imprescindível durante o dia e a noite.

A molecada gostava daquela figura excêntrica, que em sua imaginação ouvia música, cantava e dançava, marcava passos como uma bailarina, a dança estava no seu sangue, na sua índole, na sua loucura.

Nasceu não se sabe quando na comunidade de Paripueira, belíssima praia, atração turística do Nordeste, antigo recanto de poucos privilegiados, mar azul esverdeado. Marolas beijando os pés à beira-mar, andar dentro d’água ao fundo é um passeio, depois de alguns momentos mar à dentro, a água permanece pouco acima da cintura. Artistas, letrados, loucos e veranistas moram naquele paraíso promovido a cidade, perto da capital, um bairro de Maceió.

Ambrosina Maria da Conceição, era uma mulher saudável casou-se, teve filhos, até que um dia desatinou, sentiu-se linda, coroou-se Miss Paripueira. Em janeiro na famosa Festa de Santo Amaro era a alegria da meninada, divertida com seus colares, suas roupas coloridas e um sorriso constante na boca como se tivesse debochando do mundo, tornou-se símbolo da cidade. Nos carnavais ela percorria a maratona carnavalesca na Rua do Comércio em Maceió, o Banho de Mar à fantasia na Avenida da Paz e gostava de acompanhar os blocos pela cidade.

Ficava triste e irada quando a meninada a chamava de Sabiá, canela de Sabiá, perdia a alegria, se zangava, pegava pedra e pau sacudia na garotada. Certa vez acertou uma pedra no olho de um jovem, o levaram para no Hospital, o pai, influente político foi à Delegacia deu queixa do ocorrido, exigiu a prisão de Miss Paripueira. Entretanto, alguns moradores defenderam aquela criatura, não fazia mal algum. Para assegurar a liberdade levaram-na num jipe para Maceió, escondendo Ambrosina na casa de um primo no bairro do Poço. Morou algum tempo na capital. Todos os dias ela se arrumava com vestidos chamativos, seus inefáveis óculos escuros, a bolsa espalhafatosa e desfilava pela Rua do Comércio no centro da cidade. Empolgava-se em sua loucura ouvindo o povo aclamar, gritar: “Miss Paripueira!” Envaidecida, agradecia com uma reverência abaixando o corpo, dava uma volta, um adeus com a mão, continuava em frente, era a mulher mais bonita e mais feliz do mundo.

Em sua cabeça toda população lhe olhava, lhe admirava. Entretanto, seu maior prazer era dançar, quando ouvia música, a baixinha saía nos passos bem marcados, tinha ginga e balanço. Durante o carnaval ficava à frente dos blocos, seja o Vulcão, o Cavaleiro dos Montes, o Vou Botar Fora, Miss Paripueira era sempre bem vinda fazendo o passo no seu estilo alegre, contagiante. Sempre agradecendo à multidão, aos fãs, delirava em sua cabeça ao ouvir gritar: Miss Paripueira, Miss Paripueira.

Não se sabe o fim da doce, encantadora, louca, extravagante criatura que em sua época teve um pedaço do reino do mundo nas cidades de Maceió e Paripueira. Não se sabe onde ou quando morreu. O povo não a esqueceu, artistas anônimos lhe prestaram algumas homenagens anônimas.

Na entrada da cidade havia um bar com o nome de Miss Paripueira e um seu retrato pintado na parede com cores chamativas. O cineasta e ator José Marcio Passos dirigiu e produziu um curta documentário, “Meu Nome é Miss Paripueira”, exibido em 1978 no Festival de Cinema Brasileiro de Penedo.

Mais recente, na era da Internet nas redes sociais existe um grupo: “Eu sou fã de Miss Paripueira”. Em um carnaval houve um concurso de fantasia exclusiva de Miss Paripueira, foi um sucesso apareceram mais de 20 mulheres fantasiadas. Celso Brandão, premiado fotógrafo alagoano tem uma série de retratos de Ambrosina, nossa pacata e alegre cidadã. Não podemos relegar ao esquecimento os heróis e heroínas, famosos anônimos, de nossa cidade.

Obs. Essa crônica fará parte do livro: “FAMOSOS HÉROIS ANÔNIMOS”, historias biográficas de figuras simples ou loucas de nossa cidade.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MOSSORÓ

Uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios, praças e jardins; ela é feita, sobretudo, de seus cidadãos que a fazem funcionar; seja um taxista, um ambulante, um garçom, ou qualquer figura simples que trabalha para ganhar o pão de cada dia, ao mesmo tempo trabalha para o funcionamento de sua comunidade, de sua cidade. O povo é a alma de uma cidade. Os homens importantes como governador, prefeito ou vereador estão já inscritos na história oficial com livros mostrando as obras e serviços dessas autoridades. Aqui no meu cantinho quero contar um pouco de alguns simples cidadãos que se fizeram conhecidos na cidade, depois o tempo o fez esquecer, quero registrar alguns famosos anônimos esquecidos, como, por exemplo, Benedito Alves dos Santos, o Mossoró, o mais popular e controvertido dono da noite do século passado em Maceió.

Negro, alto, de sorriso largo, Benedito na juventude foi pintor de parede. Gostava de contar que a primeira cerveja de sua vida, ele tomou em minha casa ao terminar um trabalho de pintura. O meu pai ofereceu uma rodada de cerveja.

Nos anos 60 Mossoró iniciou a trabalhar numa boate em Jaraguá. A partir daí não parou mais, tornou-se o maior proxeneta das Alagoas. Enricou com o agenciamento de mulheres. Conta-se que em 1969 a mulher do Secretário de Segurança, ao passar por Jaraguá de manhã, viu um boêmio retardatário chegar-se ao meio fio, abrir a braguilha e fazer xixi na rua. A madame ficou impressionada, exigiu a retirada das boates do bairro de Jaraguá.

Mossoró tinha uma boa poupança. Além de dirigir a casa, ele trocava dólar; foi o primeiro cambista da cidade, com a determinação de mudar-se de Jaraguá, construiu a Boate Areia Branca no bairro do Canaã. A casa tornou-se o reduto dos boêmios dos anos 70/80.

Contam-se muitas histórias folclóricas do Mossoró. Quando construíram o Estádio Rei Pelé, o Trapichão, ele comprou duas cadeiras cativas: uma para ele, outra para o enorme rádio que sempre levava para ouvir a radiação dos jogos do CSA. Suas cadeiras eram das melhores, vizinhas a do austero Governador Afrânio Lages. Certo tarde, Mossoró encontrou-se com o governador Afrânio em visita às obras no centro da cidade. O Negão não perdeu o rebolado, cumprimentou o governador mostrando intimidade:

– Como está Governador? Vai amanhã por lá?

Os auxiliares do Professor Afrânio tiveram dificuldades em esclarecer que Mossoró havia perguntado se ele iria ao jogo no estádio Rei Pelé e não à Boate Areia Branca, como alguns pensaram maldosamente.

Outras histórias tornaram-se lendas. Na construção dos banheiros da boate o engenheiro especificou revestimento de azulejo. Numa visita à obra Mossoró mandou retirar todos os azulejos brancos já assentados, reclamando que não havia acertado “branculejo”, e sim, azulejo, azul da cor do seu CSA.

O Negão tornou-se um homem de fino gosto. Só usava camisa de seda, sapatos italianos impecavelmente engraxados, correntes de ouro, relógio rolex de ouro incrustado com pedras preciosas. O uísque era do bom e um charuto para dar a importância que ele aparentava. Os ricos de Maceió só trocavam dólar com ele. Mossoró se gabava da amizade com a fina flor da burguesia alagoana. Aprendeu a comer e beber do melhor.

Certa vez, ele estava de boca aberta para o dentista que examinava os dentes, ouviu o diagnóstico que precisava colocar uma nova dentadura inferior. Mossoró assim que pode abrir a boca foi bem claro:

– Doutor, sou rico. Não quero nada inferior, por favor, bote tudo superior.

As histórias com Benedito Alves dos Santos dão um livro.

A última vez que vi Mossoró foi em sua bela residência na Ponta Verde, fui acompanhado de um candidato no tempo de eleição, pedir votos. Ele tinha bom coração, ajudava aos mais necessitados do bairro Canaã, como também ajudava suas meninas, que lhes chamavam carinhosamente de “Pai Véio”.

Outro dia passando pelo Canaã, encontrei tudo diferente, a extensa casa da boate foi transformada em uma caquética pensão “familiar”. No espaço da Casa Areia Branca estabeleceu-se com um acanhado bar, onde vende cachaça e cerveja. Nas paredes do bar algumas fotografias de gente famosa, no fundo fotografias das equipes daquela época do CSA. Com a revolução sexual, os costumes mudaram, hoje já não existem boates, nem figuras de dono da noite e das raparigas como o lendário Mossoró.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA NÊGA ODETE

Ao entardecer do dia 20 de dezembro de 1928, dentro de uma casa de porta e janela na Rua São Luiz no Farol, ouviu-se um choro avisando ao mundo o nascer de Odete Augusto dos Martírios, a negra mais bonita e charmosa que perambulou por Maceió no século XX.

De mãe pobre e pai fujão, foi criada pela avó no bairro da Levada. Cresceu uma menina alegre, cativante. Tinha o carinho da avó e as ruas, as praças, a lagoa Mundaú para brincar, pescar e catar sururu. Criou-se livre, sem estudar, correndo e percorrendo toda biboca da cidade.

Tornou-se uma moça bonita, rosto oval, cabelos negros, olhos penetrante. Corpo roliço, bem moldado, cheio de curvas acentuadas na cintura, formosa calipígia de ébano. Sua pele macia e sedosa dava um calafrio ao contato. Odete despertava desejo nos homens e mulheres quando caminhava em rebolado natural cadenciado como se flutuasse ouvindo música.

Ainda não havia completado 15 anos, quando Floro, um belo rapaz, acadêmico de direito, filho de um rico comerciante, ficou encantado com a negra bonita cheia de sensualidade. Foi em seu encalço. Assediou Odete por mais de um mês, prometeu amor, carinho e agrado. Até que numa noite de lua seus corpos se unirem embaixo de uma jaqueira no morro do Tom Mix pelas bandas da praia do Sobral. Floro deflorou Odete. A negra gritou como uma selvagem, doeu, gostou. Em casa, sua avó notou o sangue, e esbravejou: não era mais moça, tinha perdido a honra, não queria sua neta quenga! Reclamou da vida de pobre.

Durante a noite Odete chorou e lembrou os momentos de carinho, sentiu novamente a sensação de seu corpo penetrado. Tomou uma decisão: trabalhar, ser independente. Como uma analfabeta podia arranjar emprego?

Informaram que uma família estava precisando de uma empregada doméstica. Odete bateu na casa na Praça Sinimbu. Foi atendida pela dona, que gostou da moça negra, simpática, carne firme, disposta no trabalho. Ensinou-lhe a cozinhar. A jovem aprendeu rápido, tornou-se exímia cozinheira. Odete morou e trabalhou com essa família por muitos anos.

Sentia-se independente com o pequeno salário. Tinha um quarto na casa, comida e era livre, solteira, podia fazer o que bem quisesse. Ao anoitecer, depois do dia de trabalho, disposta, cheirosa, dentro de um vestido de chita, pintava-se para sair em busca de diversão nas noites. Fazer o que mais gostava: amor. Os homens se encantavam, prometiam. Nunca recebeu dinheiro de algum parceiro. Era seletiva. Gostava de homem novo e bonito. Estudantes ficavam à espreita a partir das sete da noite na Praça, tentando uma oportunidade de uma noite com Odete. Depois de ela escolher o privilegiado, conversava, não gostava de homem burro ou bruto. Se agradasse do escolhido, partiam para a morna areia da praia da Avenida da Paz ou para o gramado do sítio da Sinhá perto do Riacho Salgadinho.

Foi se espalhando pela cidade a história da negra alegre de belo sorriso, dentes brancos, lábios grossos, loba do amor. Muitos homens desejaram Odete, muitos homens foram rejeitados. Odete se transformou num mito, numa das figuras mais populares de Maceió. Não tendo condições de frequentar clubes, partia para as boates do bairro boêmio de Jaraguá apenas para dançar ao som dos conjuntos tocando os boleros da época. Muitos parceiros de dança queriam levá-la para o quarto, ela recusava, queria apenas dançar. Os únicos locais que aceitavam uma empregada, negra, analfabeta no salão de dança, eram as boates em Jaraguá. Noite alta ela agradecia ao dono da casa, descalça, cansada, com os sapatos pendurados entre os dedos, caminhava pela noite na rua em direção a seu quarto na Praça Sinimbu.

Por ser livre e independente, Odete era confundida tida como prostituta pelas mulheres da cidade. Ela jamais aceitou um centavo de algum homem. Viveu solteira pelo resto da vida. Uma mulher que se ofertou ao amor. Leila Diniz, branca, rica, se deu e se dedicou aos homens no Rio, foi aclamada musa de Ipanema. Odete, pobre, negra, se deu e se dedicou aos homens, foi detratada com mentiras maldosas.

Odete no fim da vida morava em um quartinho perto da Praça Afrânio Jorge, sozinha, como sempre viveu. Apesar das sequelas da idade, sentia alegria na alma. Essa é a história verdadeira da Nêga Odete, mito e fantasia de muitos homens nos anos 50/60 na cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, nossa bela Maceió. Um ano antes de sua morte foi entrevistada no Bar da Zefinha.

Tenho gravada essa preciosa entrevista que será publicada no livro: FAMOSOS ANÔNIMOS DA HISTÓRIA DE MACEIÓ. Aguardem.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

WALDEMAR FOSSE MÃE

Waldemar aportou em Maceió nos anos 60, vindo de Santo Amaro da Purificação, terra de celebridades: Caetano e Bethânia. Muitos baianos, naquela época, vinham tentar vestibular de engenharia em Alagoas pensando ser mais fácil. Waldemar penou com duas tentativas seguidas. Na terceira conseguiu entrar na faculdade. Hoje é engenheiro aposentado da rede ferroviária.

Naquela época Waldemar morava no Hotel Atlântico, praia da Avenida da Paz. Em vez de estudar, vivia na praia organizando “baba”, pelada, como chamam os baianos, e paquerando as meninas pudicas que vestiam comportados maiôs.

Ele não teve coragem de falar para os pais ter sido reprovado no vestibular. Deram uma festa de arromba quando retornou à fazenda do velho. Todos crentes que nosso amigo retornava para Maceió para cursar engenharia.

Assim Waldemar passou dois anos em Maceió vagabundeando com uma boa mesada. Ele gostava de se exibir com os amigos, pagando uma conta aqui, outra acolá. Fez boas amizades por conta disso e de sua simpatia.

Acordava-se por volta das nove horas da manhã. Tomava o café matinal no Hotel Atlântico e descia à praia da Avenida com uma bola couraça. Na extensa areia dura da praia dava um chute na bola para o alto, era o sinal que havia chegado, começava o baba entre os desocupados que ficavam esperando pela pelada do “Baiano”. Depois da pelada e de um bom banho de mar com direito a algumas braçadas para estirar os músculos, Waldemar procurava alguma paquera. Era esse seu ponto fraco: mulheres.

Namorou algumas jovens bonitas da cidade, mas seu habitat era a zona de Jaraguá, frequentava religiosamente os cabarés. Waldemar, o dono da zona, ficou íntimo de Mossoró, o rei da noite. Era o queridinho de todas as raparigas. Além de bom pagador, tratava todas com carinho e respeito. Isso enfeitiçou as quengas acostumadas com muitos clientes grosseiros.

Numa noitada na Boate Tabariz, ele contou numa roda de amigos, a história do seu apelido: “Waldemar Fosse Mãe”.

Quem não tem uma prima, uma tia jovem, uma parenta que de quando em vez, se hospeda em sua casa? Pois Waldemar também tinha na época de sua adolescência. Sua tia Leninha passava alguns dias na fazenda da irmã, em Santo Amaro da Purificação. No mês de janeiro a fazenda se enchia de parentes e aderentes. Tia Leninha tinha o privilégio em ter um quarto exclusivo, bem junto ao principal banheiro da casa grande. Certa noite, Waldemar acordou-se com a bexiga cheia. Para entrar no banheiro tinha de atravessar o quarto da tia Leninha. Ao abrir cuidadosamente a porta, Waldemar teve um susto quando viu sua amada tia deitada em decúbito dorsal, apenas de calcinha preta, dormindo como um neném. Com o coração disparado, o sangue fervendo, andou na ponta dos pés em direção ao banheiro sem perder de vista aquela bunda magnífica coberta apenas por uma minúscula calcinha. Entrou no banheiro, fez o serviço, retornou no mesmo ritual. Pecou sozinho entre os lençóis de sua cama.

Dia seguinte no café da manhã, sua tia cochichou no ouvido: “Eu lhe vi, ontem à noite!” Waldemar não conseguiu sossegar o espírito, durante todo o dia vinha-lhe a imagem da tia deitada na cama, o detalhe da calcinha de renda preta lhe excitava, lhe deixava louco.

O ritual se repetiu por mais três noites. Ele levantava-se, passava pelo quarto da tia, ficava contemplando aquela beleza. Só sossegava na cama entre suas mãos. Tia Leninha, durante o dia, continuou provocando com olhares lânguidos e sorrisos marotos.

Na quinta noite, Waldemar estava a ponto de bala, só pensava na tia. Havia passado da meia-noite quando ele abriu a porta do quarto. Sua tia estava deitada, nua em pelo. Ele endoidou, não conseguiu conter-se, quando se deu, estava por cima da tia Leninha, que o segurou repreendendo: “Sou sua tia, menino!!””

Ele virou-a. Antes de beijar na boca, deu um grito sussurrante: “FOSSE MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!”. A tia lhe abraçou às gargalhadas, arranhando suas costas.

Pela manhã, feliz da vida, contou sua aventura, entre juras de segredo, em maior confidência, a seu amigo mais íntimo, Carlos Romeu, “Boca de Ponche”. A partir desse dia toda Santo Amaro da Purificação soube da história. E nosso herói ficou conhecido até hoje como “Waldemar Fosse Mãe”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PIU-PIU

Rua do Comércio onde Piu-piu atuava toda tarde – Maceió – anos 50

Todo povo tem a história oficial de seus heróis escritas em volumosos compêndios. História repleta de gente importante: governadores, generais, deputados, senadores, ricos comerciantes. Como modesto observador da vida, prefiro contar sobre figuras mais modestas que me marcaram profundamente e viveram nessa cidade de Maceió. Minha memória é recheada de gente com quem convivi ou simplesmente conheci e tornaram-se inesquecíveis. Uma delas foi Piu-piu, um muriciense elegante, constantemente trajando paletó arrumado, de fazer inveja a lordes ingleses.

Eu tinha cerca de dez anos, meu pai levava a filharada para o centro da cidade no fim da tarde para tomar uma cerveja com amigos no Café Colombo. E nós, meninos, nos fartávamos de sanduíche de fiambre com queijo do reino e um saboroso caldo de cana moído na hora. Nas tardes, a Rua do Comércio se apinhava de gente, outros se encontravam nos bares: intelectuais, boêmios, políticos e desocupados da cidade. Uma dessas figuras marcantes que não faltava uma tarde na Rua do Comércio era um senhor elegante, alto, forte e falastrão, conhecido como Piu-piu. Impecavelmente vestido, todos os dias ele comparecia de terno ou jaqueta com botões dourados, calças bem passadas, uma bota preta de cano longo completava a vestimenta.

O charuto dava um ar de esnobe ao comerciante. Piu-piu apesar de trajes tão distintos vivia de um pequeno comércio: venda e compra de antiguidades, objeto de artes, ouro, prata e joias. Dava para sustentar sua pequena família e seu inigualável guarda-roupa. Ele era impecável na arrumação pessoal. Cabelos bem penteados com brilhantina Glostora, barba bem feita. O bigode denso de cabelos crespos e ruivos, grosso, bem frisado, as pontas de curvas perfeitas faziam meia lua subindo como se apontasse para o céu, digno de um príncipe hindu ou de um kaiser alemão. Diziam que o bigode do Piu-piu era frisado por ferro de engomar.

Nosso herói morava entre o Prado e Ponta Grossa, porém, às tardes ele vivia no centro da cidade. Além das túnicas e ternos ele aparecia de chapéu Panamá, as mãos reluzentes de anéis de todos os tipos, seus dedos eram dourados e brilhantes. Na Rua do Comércio, impreterivelmente às 14 horas desfilava sua elegância e pretensa arrogância, pois se dizia brigador, disposto a qualquer luta, andava armado com punhal e um revólver.

Seu bigode era atração, ele tinha orgulho, uma verdadeira adoração na manutenção daqueles dois tufos intocáveis. Muito lhe contrariou quando jovens estudantes lhe colocaram o apelido de Bigode de Arame. Muitas vezes correu atrás de estudantes que gritavam “Bigode de Arame”, empunhando o punhal que levava constantemente na cintura, por baixo do paletó.

Um fato marcante na vida de Piu-piu e na história de nossa cidade ficou comentado por muitos anos nas rodas do Comércio. Fato brilhantemente contado pelo historiador Félix de Lima Júnior no livro Maceió de Outrora.

Alagoas vivia um momento de intensa intriga política, o que nunca foi novidade. Dois grupos políticos se digladiavam: O do Senador Fernandes Lima, de quem Piu-piu era amigo pessoal e o grupo do austero governador Costa Rego, homem duro, apesar de seu amor e pendor às artes, tratava os inimigos com repressões constantes.

Certa tarde na Rua do Comércio o nosso valente Piu-piu disse não ter medo de ninguém, nem mesmo do governador e destemperou impropérios, atacando o governador Costa Rego em um discurso improvisado nos arredores do Café Colombo.

Dois dias depois ele estava parado em frente ao Relógio Oficial, quando cinco homens desceram do bonde vindo de Jaraguá. Dois deles derrubaram Piu-piu, outros dois seguraram pelos braços e pernas, e o último homem com uma tesoura foi cortando, arrancando o suntuoso bigode, fio por fio, sem que o valente Piu-piu desse qualquer gemido. Não deu um piu. Os amigos ficaram indignados daquela briga: cinco contra um. A polícia só chegou quando o serviço acabou. Arrancaram o bigode mais famoso do Estado. A região do lábio superior de Piu-piu ficou deformada. Ele só retornou à Rua do Comércio muito tempo depois, quando conseguiu regenerar seu bigode de arame. Tornou-se herói.

A rapaziada do Liceu Alagoano aproveitou o fato para versejar e cantou seus versos no Comércio: “O navio apitou… A canoa virou… O bigode do Piupiu… Marroquim arrancou”. Piu-piu, Marcolino Ribeiro da Silva, morreu aos 98 anos em Maceió no dia 5/3/65.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NEVER MORE

Há três anos viajei à Disneylândia por insistência de meus amados netos. Passei alguns dias na terra do Mickey e Pato Donald. Essa tal de Disneylândia não passa de um imenso supermercado de fantasia infantil construído na cidade de Orlando. Estranhei a temperatura, a previsão entre 12 a 25º centígrados furou, deu todos os dias 5 (cinco) graus, quase morro de frio, uma Sibéria para um nordestino rato da praia de Jatiúca. Tudo é longe. O acesso aos parques temáticos fazia-se apenas de carro, alugamos uma van que deixávamos estacionada numa área especial.

Um trenzinho circulava levando os visitantes aos parques. A entrada custava na época U$ 89,00 por pessoa; impossível conhecer todos os parques em uma semana. Meus netos adoraram o Magic Kigdom, Harry Portter, Sea Word entre outros. Gostei apenas do EPCOT CENTER, uma extensa área com divisórias separando as regiões de 12 países. Degustei um pouco da comida e bebida de todo o mundo, saí meio de porre.

Orlando é uma cidade central da Flórida, um estado “comprado” à Espanha, aliás, os estados limítrofes sul dos Estados Unidos pertenceram à Espanha. Califórnia, Texas, foram incorporados aos USA em tenebrosas transações internacionais, a maioria das cidades conservam nome hispânicos, Los Angeles, San Francisco, San Diego, etc…

No final dos anos 60 o desenhista Walt Disney comprou uma imensa área em Orlando, construiu uma máquina de dinheiro vendendo sonhos infantis. A Disneylândia foi inaugurada 1971, deu certo, construíram mais parques temáticos. A cidade de pouco mais de 200 mil habitantes vive à base do turismo planejado, profissional, produto típico do capitalismo organizado americano, tudo é pago, até contemplar a natureza no Lago Buena Vista. Os parques, hotéis, restaurantes, shoppings, outlets, ficam distantes, não existe possibilidade de ônibus. Incrível, não encontrei uma livraria nos Shoppings ou na cidade.

Gente de todo mundo gastando dólares, muitos dólares. Num “Outlet” perguntei a um mineiro se a “ilha” onde vendia travesseiros lhe pertencia, sorriu de minha inocência. Todas as lojas do “Outlet” são de um grupo de comerciantes judeus, 250 lojas vendendo todo tipo de artigos em promoção, turistas de diversas nações comprando, escandinavos, francês, americanos, ingleses, indianos, paulistas, colombianos, palestinos e muitos americanos deixando seus dólares. A Disneylândia não passa de máquina urbana sugando o dinheiro do mundo. Impressiona a qualidade de vida dos habitantes, todos têm carros enormes chupadores de gasolina, entendi porque de olho no petróleo do mundo os USA fomentam tantas guerras. O dia que o petróleo acabar, acaba a farra gastadora da “way of life” americana.

Surpreendeu-me a população americana, gente de todo os Estados Unidos tem a Disney como objeto de consumo. A maioria supergorda, geração do “fastfood”, hamburgo, batata e muita fritura. A obesidade na juventude é questão de saúde pública no país.

A mão de obra subemprego como, camareira, lojista, taxista geralmente são dos hispânicos, muitos estão irregulares. Um taxista marroquino, me confidenciou, estava há dois anos nos USA, trabalhava para juntar dinheiro e voltar para Marrocos, ainda solteiro, entretanto, pretendia casar-se quatro vezes como permite o Alcorão. Suas mulheres vão andar de véu, só mostrarão o rosto para o marido. Sugeriu que eu lesse o Alcorão onde está a verdade do Universo, só terá vida eterna quem obedecer aos seus ensinamentos. Vou comprar um volume, fiquei interessado no capítulo das mulheres, quem sabe? Um dia posso precisar.

Como bom avô, tomei conta dos netos enquanto os adultos iam às compras. No hotel organizei concurso de piadas, ensinei jogos educativos: porrinha, dados, carteado, pôquer, buraco, ficaram viciados no “sete e meio”. A convivência, a alegria, a felicidade dos netos compensaram os dias na Terra do Mickey. Voltar? “Never more!”.