CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COMPANHEIRA DE VIAGEM

Cheguei à rodoviária do Recife faltando cinco minutos para quatro da tarde, rapidamente comprei a passagem, desci correndo a escada, fui o último passageiro a embarcar, coloquei a pequena valise em cima, no porta-malas. Acomodei-me na poltrona. Cumprimentei com um sorriso minha vizinha de viagem, o ônibus deu a partida, pegou a estrada rumo a Maceió. Aproveitando os últimos raios do sol, uma luminosidade razoável, comecei a ler o livro do Mário Vargas Llosa, “Elogio da Madrasta”. A vista cansou com o lusco-fusco do entardecer. Fechei o livro, arriei a poltrona, tempo de pensar no romance que escrevo em minha cabeça. Nesse momento a vizinha da poltrona tirou o fone do ouvido, puxou conversa.

– Eu lhe conheço, leio suas divertidas crônicas aos domingos, adoro.

Percebi que não era uma adolescente como havia imaginado, a vizinha de bordo devia estar na faixa de 25 anos. Morena, olhos e cabelos negros, uma moça bonita. Pelas roupas vestidas e maneira de falar calculei ser de família classe média. Respondi à companheira de viagem.

– Que bom você gostar do que escrevo. A maior alegria de um escritor é o reconhecimento, fico feliz em encontrar uma leitora como você.

– Agora me diga, como o senhor arranja tantas histórias todos os domingos, elas são verdadeiras?

– Olha menina, algumas são verdadeiras 100%, outras tem 80% de verdade, outras 40%, as que não são baseadas em fatos reais eu as inventei. Tenho uma fértil imaginação desde menino quando lia histórias em quadrinhos e assistia filmes de cowboy.

– Aquela história da loura tarada da praia da Jatiúca é hilária, e também aquela outra…

Minha companheira de viagem passou um bom tempo contando, às gargalhadas, várias das minhas histórias. Depois falou sobre meus livros, ela sabia de toda minha vida. Fiquei contente em ter uma leitora tão bem informada. Interrompi Michelle, era seu nome, perguntei o que fazia na vida. Ela não se fez de rogada.

– Estudo Direito, tenho certeza que serei uma boa advogada, gosto de falar. Sou dedicada, quero vencer na vida. Além de ser uma profissão fascinante, a advocacia tem mais chances de concursos públicos. Termino esse ano, minha meta é trabalhar e estudar sempre para concurso, quem sabe se não serei uma juíza ou desembargadora?

– Acho a profissão de advogado muito interessante, sou engenheiro.

– Eu sei, sei de muita coisa de sua vida. Casado, três filhos.

Deu uma gargalhada debochada.

– Uma amiga comum me disse que o senhor é um bom boêmio.

– Senhor não, me chame de você, Sou um menino no corpo de um coroa.

– Na minha Faculdade sou líder, reconheço minhas virtudes, depois de me formar quero trabalhar, trabalhar muito, aprender a profissão no dia a dia. Não me importa de viajar, enfrentar tribunais, sou despachada e corajosa.

Proseando passamos boa parte do percurso, conversas amenas, até política. A moça me impressionou pela vivacidade e inteligência. A viagem tornou-se rápida, logo o ônibus entrava em Maceió. Ao passar por Jacarecica, peguei minha valise, me preparei para descer na parada mais perto da Jatiúca. Ainda deu tempo de uma última pergunta à companheira de viagem. Onde trabalhava? Ela foi de uma franqueza espontânea.

– Não tenho emprego definido, sou recepcionista de casamento e festas, trabalho numa empresa sem carteira assinada, só ganho quando acontece o evento. Se o senhor tiver algum lançamento de livro, ou outros tipos de eventos, eu cobro barato. Preciso de ajuda, veja o que o senhor pode fazer por mim.

O ônibus parou, desci para pegar um táxi, dei um até logo com a mão vazia. Ainda percebi o sorriso simpático e maroto de minha companheira de viagem enquanto o ônibus, soltando fumaça, desaparecia na escuridão da noite. Eu queria lhe dar meu novo romance, nem peguei o telefone da minha simpática companheira de viagem.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DEODATO, O ESCULTOR DOS SANTOS

Existem muitos talentos nordestinos fazendo artes pelo Brasil. Emigraram para ter sucesso no Sul Maravilha. Deodato, por exemplo, o maior escultor do Brasil, santeiro de alta cepa, Só tornou-se celebridade depois de se fixar em São Paulo

Meu amigo nasceu e se criou na Levada, tomou banho na lagoa Mundaú. Moleque andarilho na cidade de Maceió dos anos 40. Ainda menino, crescidinho, tinha apelido de varapau, por sua altura. Seu primeiro emprego, aos 12 anos foi no matadouro municipal como espantador de urubu. Passava o dia com uma palha correndo, enxotando urubus famintos nos restos de comida.

Despontou seu talento artístico nas brincadeiras. Deodato costumava moldar barro, construindo casinhas e bonecos. Certo dia foi vender sua escultura de barro na Feira de Passarinho, arranjou clientes e alguns trocados. Dr. Théo Brandão descobriu o menino escultor e incentivou-o a continuar seu belo trabalho em barro, depois esculpiu na madeira. Graças ao Dr. Théo seu trabalho começou a ser conhecido. Foi convidado para uma exposição em São Paulo, onde ficou. Foi entrevistado nos programas de TV, ficou famoso. Vez em quando retornava a Maceió, me procurava, eu amava as histórias de Deodato, sua maneira engraçada de conta-las.

Quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial, Deodato prontamente se apresentou para lutar contra os Fascistas. Por sua infelicidade, aliás, felicidade, não foi escolhido pela Força Expedicionária Brasileira-FEB. Contudo, deixou seu nome na história do 20º Batalhão de Caçadores sediado em Maceió. Fez curso, foi promovido a cabo, ficou conhecido como Cabo Vareta, tornou-se uma lenda.

Durante a Guerra fez parte de um Pelotão Especial organizado pelo Sargento Madalena para patrulhar a zona do meretrício de Jaraguá. Resolviam os casos sem armas, acabavam brigas na porrada. Naquela época havia muitos soldados americanos destacados na base militar, os maiores encrenqueiros, mas, tinham medo do Pelotão Especial. Diz Deodato: “Dei muita porrada em americano folgado.”

Certa vez o quartel estava acampado perto da Lagoa Mundaú. Numa madrugada, Deodato e o soldado Zé Miguel estavam de serviço, faziam ronda numa noite escura de verão, Perto da margem da lagoa ouviram vozes, cantoria. Chegaram perto, era uma ladainha. As rezadeiras velavam o corpo de um rapaz afogado. Eles se aproximaram, foram recebidos pela família, tomaram alguns goles de cachaça. Zé ao verificar o sapato do morto ficou interessadíssimo, novinho em folha. Quando a reza acabou, os amigos do defunto se recolheram, ao amanhecer levariam o corpo para o cemitério, deixaram o cabo e o soldado à vontade. Zé Miguel ficou, de olho no sapato do defunto. Deodato continuou a ronda sozinho. Certo momento parou, ficou escondido atrás de um pé de pau, observando. Quando Zé Miguel iniciou a desatar o cadarço do sapato, Deodato atirou uma pedra, passou zunindo na cara do amigo. Zé ficou assustado, continuou a desatar o sapato. O cabo Vareta atirou outra pedra, acertou na barriga do defunto, Zé se assustou. Deodato lançou a terceira, a pedra maior apagou o candeeiro ao lado do corpo, Deodato aproveitou o escuro, gritou com voz cavernosa:

– Tire a mão do meu sapato cabra safado!!

Zé Miguel desembestou numa disparada sem parar, cabelos arrepiados. Uma hora depois Deodato chegou ao acampamento, perguntou com a cara mais lisa: “Que brancura é essa, Zé?”.

Zé Miguel estava ensanguentado, com o uniforme rasgado. Apavorado havia atravessado um obstáculo militar, cerca de arame farpado.

– Vareta, o defunto falou, me esculhambou!

Chorava o Zé ainda tremendo de medo, olhos arregalados.

– Bem feito, quem mandou mexer com almas do outro mundo!!!!

Disse Deodato, enquanto discretamente voltava para o local onde estava o velório vazio. Chegou sorrateiro, aliviou ο incômodo peso do sapato no defunto, experimentou.

– Era número 43, caiu como uma luva em meus pés.

Contou-me Deodato às gargalhadas. Saudades de meu amigo que hoje deve estar no céu esculpindo e os santos posando.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ALEMÃ REVOLUCIONÁRIA

A bonita Hellen Merkel nasceu na Alemanha, chegou ao Brasil ainda menina, seu pai, gerente de uma fábrica no Paraná adotou Curitiba como sua. Na juventude Hellen tornou-se rebelde, adorava vestir camisa com foto de Che Guevara, boina vermelha de lado, sentia-se uma revolucionária, típica guerrilheira de botequim, frequentava os melhores e piores bares da cidade discutindo o fim do capitalismo e a vitória final do mundo socialista soviético. Entretanto, em sua casa não dispensava boa comida, roupas de grifes para festas burguesas que dizia detestar, e ar condicionado no quarto para os dias de calor. Experimentou a maconha. Entregou sua virgindade a um companheiro revolucionário, colega da Faculdade de Medicina, um bonito argentino de nome Belizário.

Contudo, tinha uma paixão forte pelo seu professor. O Dr. Amadeus também sangue alemão na veia, ficou apaixonado pela meiguice e determinação de sua aluna na Faculdade de Medicina. Divorciado, 17 anos mais velho que a jovem Hellen. Houve dificuldade da família em aceitar o casamento. Ela grávida, logo teve seu primeiro filho.

A diferença de idade entre os dois foi-se acentuando com o tempo, enquanto Hellen cuidava do corpo e da saúde, Amadeus deixou-se levar pelo sedentarismo, criou uma notável barriga consequência das cervejas diárias. Vivia de um consultório médico pouco frequentado e da aposentadoria de professor. Enquanto Hellen se tornou uma das mais competentes pediatras da cidade.

Foram mais de 22 anos de convivência, com respeito mútuo, criaram dois filhos. Mas, o diabo atenta, às vezes aparece em forma feminina. Não é que Amadeus se engraçou de uma pilantra, ficou de caso com uma jovem de 20 anos. Encantou-se com a mulher nova, bonita e carinhosa. A jovem ganhou presentes caros, as joias deram razoável baixa na conta corrente do Gordo.

Não foi difícil Hellen descobrir a traição. Conversou com Amadeus, deu-lhe uma chance para largar a sirigaita. Ele passou dois meses afastado da moça, entretanto, a força do satanás foi maior, o Gordo, voltou a encontrar-se com a jovem.

Hellen não aguentou a situação, reuniu os filhos em casa, contou o que estava acontecendo. Resolveu tirar umas férias sozinha, viajaria para um lugar tranquilo, pensar o que fazer de sua vida, tinha 45 anos, idade crítica para tomar decisões e mudar de vida, precisava refletir em paz.

Escolheu Recife, Hellen sempre teve um encanto especial por essa cidade e não conhecia. Chegou ao hotel numa ensolarada tarde, atravessou a avenida, sentou-se num banco para apreciar o mar azul esverdeado, sentiu-se bem. Pela manhã caminhou sozinha na areia da praia de Boa Viagem, o espírito necessitava isolamento, pensar nela mesmo. Na segunda manhã, após a caminhada, sentou-se num banco da barraca, pediu água de coco. Um jovem de bermuda e camiseta prontamente abriu o coco com três golpes, colocou um canudo e entregou-lhe sorrindo.

Hellen teve inveja da simplicidade, da felicidade que irradiava o jovem, notou o belo corpo do moreno, cheio de músculo, espadaúdo. Puxou conversa. Cicinho contou sua vida, era garçom por enquanto, havia dado baixa de cabo do Exército, pescador nas horas vagas, agora ajudava o pai na barraca de praia de onde a família tirava a sobrevivência. 28 anos, dois filhos, solteiro, não queria mulher lhe prendendo. Conversaram bastante. Nos outros dias Hellen depois da caminhada não dispensava o bate papo com o alegre amigo Cicinho, percebeu que havia despertado dentro dela algum ânimo adormecido. Foram-se cinco dias entre conversas, às vezes, confidencia; ao olhar o novo amigo nos olhos, perturbava-se. Num entardecer, passeando pela calçada, notou um ambulante vendendo camisa de Che Guevara, alegrou-se, comprou uma; num ímpeto, trocou a camisa num banheiro, sentiu-se bem, era novamente a revolucionária dos velhos tempos, estava feliz, vontade de cantar, de controvérsias, de insensatez. De repente, caminhou em direção à barraca. Ao ver Cicinho em pé olhando o mar, aproximou-se do amigo, sorriu-lhe, olhou nos olhos, abraçou-o, beijou sua boca. À noite foram para o hotel, dormiram juntos quatorze dias seguidos.

Ao chegar a Curitiba, Amadeus a esperava no aeroporto, Em casa conversaram, o Gordo arrependido, pediu perdão, prometendo não procurar mais a sirigaita. Hellen o perdoou com uma condição, vez em quando viajar sozinha para meditação, para o Recife.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VELHO E O MAR DE MACEIÓ

Seu Rodolfo acordou-se quatro da manhã na cama de colchão de palha, enlaçou Santinha pelas pernas, falou ao ouvido: “Está na hora”. Enquanto a esposa dirigia-se à cozinha preparando café, macaxeira, inhame, peixe frito, Seu Rodolfo dirigiu-se à casinha (o banheiro sanitário construído no quintal das casas, chamava-se casinha), depois de ter-se aliviado, pegou um pedaço de jornal, limpou-se, jogou fora o jornal datado da época (1942), sem ler a manchete impressa, “Submarino alemão visto em praias do Nordeste pode atacar o litoral brasileiro”. Depois do café pegou um saco de carne do sol, farinha e banana, outro com linhas, anzóis, peixes de isca, colocou a tarrafa no ombro, saiu de casa caminhando pelo bairro boêmio de Jaraguá até a praia, ouvia ao longe músicas de amor dos cabarés retardatários.

Perto do Bar da Tartaruga junto aos trapiches, deixou as sacolas na jangada, foi ao bar, cumprimentou outros colegas. Nas mesas alguns boêmios, prostitutas com lábios manchados pela noitada. Rodolfo tomou café com o compadre Moacir, dono do Bar. Ao sair o amigo desejou boa pescaria. Seu Rodolfo, desamarrou a jangada colocou dois rolos de coqueiro por baixo, empurrou a jangada até flutuar na água. Subiu a vela de pano branco parecendo um ritual militar. Molhou o pano com água salgada, tomou o remo como leme, navegou a jangada qual cisne branco mar adentro. O sol vermelho apareceu como se fosse uma cabeça de criança nascendo, alaranjou as nuvens, o mar tornou-se azul. A vista de Maceió ao longe era apenas uma fileira de casas pequeninas. Seu Rodolfo dirigiu a jangada ao local onde havia bons cardumes, conhecia cada canto do mar. A bússola era o olhar e a direção do vento, sabia navegação empiricamente, aprendeu com a vida no mar desde cinco anos, seu pai também foi pescador.

Seu Rodolfo, em torno dos 50 anos, pele encardida, parecia mais velho, a vista anuviada pela constante exposição ao Sol. Amava o mar, alegrava seu trabalho, cada peixe puxado uma vitória da arte da pesca. Retornava por volta das três da tarde, tratava os peixes com peixeira no Bar da Tartaruga, colocava os samburás no ombro, caminhava gritando na Avenida da Paz, “peixe fresco”, “olha o camorim”, “carapeba”. Seu Rodolfo tinha boa freguesia, inclusive minha mãe. Era amigo da família.

Naquela manhã a sorte estava a seu lado, ainda não era meio dia os caixotes da jangada estavam apinhados de xaréu, arabaiana, bijupirá, carapeba, garassuma, pescados por linhas jogadas ao mar e tarrafas. De repente ele sentiu um puxão em uma linha, alegrou-se pensando: peixe grande. Deu mais linha para cansar o peixe, logo depois puxava, era preciso paciência, astúcia para brigar contra o enorme peixe, sentia pelo puxão. Duas horas depois continuava a briga do peixe com o velho Rodolfo. O cansaço chegou em ambos os lados, Seu Rodolfo estava atrasado em sua tarefa diária na cidade, entretanto, nada lhe abalava, preferia a luta com o peixe grande. Com imensa força concentrada conseguiu puxar o peixe grande para cima da jangada, ainda se batendo. Rodolfo imediatamente cortou suas guelras, ficou contemplando embevecido a maravilha pescada, valente peixe, calculou 30 kg. Antes de cortá-lo, mostraria aos amigos na beira do cais.

Amarrou o peixe grande na jangada, desfraldou novamente a vela em direção à praia. Não havia dez minutos de navegação quando sentiu uma pequena onda levantar a jangada, percebeu alguma coisa estranha acontecendo; novas ondas, o mar ficou revolto em torno da jangada. Seu Rodolfo pensou, deve ser baleia, aparece a qualquer momento, sem medo comandava a jangada quando inesperadamente emergiu perto da jangada um navio diferente, parecendo um enorme charuto. Seu Rodolfo ficou na espreita, o navio-charuto depois de emergir totalmente, parou, não se avistava ninguém. De repente uma portinhola abriu-se por cima, saíram três homens de calção preto, pele rosada, ouros como nunca havia visto. Os homens falavam, ele não entendia. Depois de algum tempo, comunicando-se por meio de gesto, Seu Rodolfo compreendeu, os galegos queriam trocar peixe por materiais e comidas. Com lástima, entrou no negócio o peixe grande, o velho pescador recebeu enorme quantidade de queijo, presunto, sapatos, botas, cigarros, encheu a jangada. Logo depois o navio-charuto submergiu, desapareceu no mar.

Essa história do submarino alemão foi contada em 1950 a mim, a meu irmão Betuca e ao tio Nilo no Coreto da Avenida pelo velho Seu Rodolfo, calçado ainda com bota alemã, tomando goles de cachaça, dando gargalhadas. Sentiu apenas não ter podido mostrar o peixe de 30 quilos, fazendo inveja aos companheiros pescadores

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MINHAS QUERIDAS FESTAS JUNINAS

Ele chegava alegre com dois ou três pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala da imensa varanda de minha casa, contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. O Major Mário Lima sentia prazer, satisfação em distribuir os fogos aos filhos. Aos menores cabiam: traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos: foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas, peidos de veia, e o melhor, os vulcões. Na véspera de São João, perto de escurecer dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente à minha casa. Lançava álcool por cima dos troncos, acendia o fogo com um fósforo. O fogaréu começava chispando faísca, iluminava a rua. Os adultos sentados nas cadeiras na calçada, conversavam, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja e olhavam a meninada correr e soltar seus fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava:

A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão…

Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos uma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que a moça iria casar. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiava no tronco de uma bananeira, no dia seguinte puxava a faca manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular por cima das brasas, um de cada lado, seríamos “compadres” para o resto da vida. Um dos momentos mais esperados era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enormes faíscas coloridas.

Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava um mês antes, com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube Pajussara. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comandando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos da dança em francês: “Em avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais, felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos ensaios, a paquera era maravilhosa. Iniciavam namoros entre os componentes da quadrilha. Afinal a noite de glória, a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a maior plateia do mundo. Enchíamos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam no enorme salão.

No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa reservada era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocava a noite toda. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara. Quando terminava a animada festa, nós, jovens moradores da Avenida da Paz, caminhávamos rumo às nossas casas, cantando ainda com energia cheio de hormônios, geralmente de mãos dadas com a namorada da vez. Abraçados, um beijo roubado, cantando pela noite iluminada pelos postes da luz boêmia:

“Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa…

A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes a chuva acontecia, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o dia amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado pelo sol nascente com roupa e tudo que tivesse no corpo. Alegres, cansados, cada qual partia molhado para sua casa. Era a despedida, acabava as festas juninas tão amadas e tão esperadas durante o ano inteiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NORDESTE INDEPENDENTE

O povo feliz, com alma lavada e enxaguada, dançava na praia da Avenida da Paz, celebrando a Independência do Nordeste. A festa varou a noite, continuou por mais uma semana. No palco armado um vistoso pastoril cantava acenando para o povo.

De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas, bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, outras sete jovens, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas coloridas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões, dançava a Diana de minissaia, dividida entre azul e encarnado. Atrás da Diana, ao fundo, o pastor, segurando um cajado feito bengala com uma estrela incrustada na ponta. Todos dançavam, todos sorriam, era Festa da Independência.

A primeira pastora do encarnado- a Mestra- era a guerreira Heloísa Helena; a Diana, que não tem partido a afinadíssima cantora Leureny Barbosa; e a Contra-Mestra, primeira pastora do cordão azul com seu saiote rodado, a valorosa Kátia Born. Elas pareciam ter vinte aninhos iguais às outras pastoras. Atrás da Diana dançava o pastor, pelos trejeitos afeminados reconheci Lolita, um famoso fresco do Recife que costumava dizer: “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Cantavam a primeira jornada do pastoril:

Boa noite meus senhores todos; Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas, Que alegremente vamos a Belém…

E o povão, embaixo do palco, enlouquecia quando as pastoras rodavam levantando os saiotes coloridos, mostrando as pernas. Eram mulheres-meninas com suas bonitas e empinadas bundas cobertas apenas por uma minúscula calcinha. A moçada ia ao delírio, ajudada pelo artista, poeta Chico de Assis, animando ao microfone:

Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva a Independência!

Sem deixar de olhar para as pastoras o povão respondia: – VIVA!

Durante toda a noite apresentaram-se fandangos, folguedos, folias, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, guerreiro e outras danças populares nordestinas.

No Museu Théo Brandão acontecia um agitado e divertido baile de carnaval. A orquestra do maestro Elizaubo Wanderberg tocou durante toda noite. O povão se esbaldava se empolgava com as músicas, ia ao delírio quando a orquestra arrochava no frevo Vassourinhas. Afinal o dia foi despertando, a orquestra desceu à rua, deu algumas voltas na Avenida, puxando os foliões em direção à praia.

O povo dançava na extensa praia de areia branca, cantando música de Edécio Lopes: Subi a ladeira do Farol… Fiquei no mirante a olhar… Os raios dourados do sol… No azul imenso do mar… Olhei a cidade sorriso… E vi Maceió tão feliz… Mostrando tanta riqueza… Ao povo desse país

Continuavam os gritos: “Viva a Independência”. “Viva o Nordeste!”.

De repente os foliões entraram na água cristalina e morna naquela luminosa manhã. O mar de um esverdeado com matizes azuis, levemente dourado pelo sol da madrugada convidava ao mergulho. O povo de roupa e fantasia, lavava sua alma. A música continuou.

De repente emergiram das águas tranquilas, os Deuses do mar: Yemanjá, Netuno, o Príncipe Submarino e algumas belíssimas sereias com caras e rabos humanos, alegres pelo carnaval inesperado. Como no Olimpo deuses e homens se misturaram, caíram na folia. Deuses brasileiros, deuses nordestinos, Deuses da alegria e do amor. A festa da Independência do Nordeste durou uma semana.
De repente acordei-me. Triste com a realidade, percebi que tudo foi apenas um sonho, um feliz sonho sonhado.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ÁGUAS DE 1949

Ponte do Salgadinho partida ao meio

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levavam ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CASA DA AMIGA FRANCESA DO GOVERNADOR

Manifesto de solidariedade ao governador Costa Rego -1926

Pedro da Costa Rego foi Governador das Alagoas na época da Velha República. Austero, elegante, inteligente, duro em suas ações e cobranças administrativas. Era um homem rigoroso, sensível, gostava de coisas finas, música, teatro, inclusive viajar.

Em uma viagem, conheceu Mademoiselle Sigaud, bonita atriz cheia de charme e de salamaleques. A francesa impressionou nosso Governador, que a convidou para visitar Alagoas. Mlle. Sigaud adorou o mar de Maceió. Ficou estabelecida de cama e mesa na Rua Silvério Jorge, perto da praia da Avenida da Paz, onde pelas manhãs tomava seu banho salgado, como se chamava o banho-de-mar naquela época.

No dia 15 de dezembro de 1926, segundo ano de governo, o Governador dirigiu-se ao casarão da Rua Silvério Jorge, onde esperava sua amiga Mlle. Sigaud. Após um belo jantar, ficou a ouvir piano, ele gostava de Mozart, fumando caros charuto. Recebeu o amigo, secretário, conselheiro, Adalberto Marroquim para conversas políticas, administração e coisas da vida; sentados tomando fresca na varanda.

Mal sabia o Governador que Severino, um dos seus guardas, havia sorrateiramente entrado no quintal da casa vizinha e se posicionado numa mangueira mais próxima, sentado em um tronco, de onde se avistava o governador. Estava ali para matá-lo; contratado por um inimigo político.

Quando Severino resolveu dar o tiro fatal com seu fuzil, moveu-se, balançou alguns galhos, o movimento brusco despertou a atenção dos gansos da casa do vizinho (Dr. Ezequias da Rocha – depois Senador da República). Os gansos correram fazendo maior zoada com cantorias e trinados, como se estivessem dando um alarme. A cantoria dos gansos chamou a atenção de todos. Os guardas de segurança correram, viram e reconheceram Severino quando se evadia. Fugiu na escuridão da noite. Na mesma noite toda cidade estava sabendo do atentado frustrado.

– “Mais uma vez os gansos salvaram a humanidade. A primeira no Capitólio de Roma, agora, na Rua Silvério Jorge.” Gozavam os intelectuais e boêmios no Bar Colombo, na tarde seguinte quando iniciavam a noitada.

Severino foi preso. O atentado teve uma enorme repercussão no Estado e em todo o país. Várias manifestações de apoio a Costa Rego foram realizadas. No dia 23 de dezembro, uma enorme concentração fez um desagravo, caminharam da Catedral à Praça dos Martírios. Uma multidão ouviu discursos, iniciado pelo presidente da Academia Alagoana de Letras, Demócrito Gracindo (pai do ator Paulo Gracindo) que emocionado esbravejou: “Não é a boca de ouro da lisonja, nem mesmo a palavra inflamada da paixão partidária que ouvis; é o comércio que paga imposto, o operário humilde que não aprendeu a mentir, o pescador indômito…” O povo na praça delirava.

Na terça-feira (28) houve a reconstituição do crime. Compareceram além das autoridades, jornais de todo o Brasil e internacionais. A casa da Silvério Jorge tornou-se famosa, entrou para a história.

Passaram-se alguns anos e o Capitão Mário Lima, do Exército comprou a casa da Rua Silvério Jorge. Dona Zeca, numa linda manhã de sol, no dia 27 de fevereiro de 1940, deu à luz ao terceiro filho, uma sorridente, corada e encantadora criança. Assim eu nasci na famosa casa, onde morei minha infância, juventude e grande parte de minha vida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PAULINHA E SEUS DOIS MARIDOS

Como se fosse uma bomba, explodiu a notícia: Paulinha largou o marido e fugiu com seu “Personal Training”. Por mais de um mês foi o assunto nos salões de beleza, nas fofoqueiras de plantão, vizinhos, amigos e parentes. Como, uma jovem que nem Paulinha, bem educada, religiosa, prendada, teve essa insana atitude? Ninguém se conformava com o fato. Armando, bom marido, não merecia o chifre destampado em sua testa. Entretanto, ele parecia calmo, aceitou a fugida de Paulinha.

O pai de Paulinha, agora aposentado, foi um homem trabalhador, gerenciava uma usina de açúcar. Paulinha, filha única, teve todo carinho da família, estudou no Colégio Madalena Sofia, rígida educação social e religiosa. Como toda jovem da classe média, não teve problemas financeiros em sua educação. Conheceu Armando na Faculdade de Direito, formaram-se juntos, namoraram, casaram. O casamento navegava em águas mansas, em céus de brigadeiro, o único problema, não engravidar, os amigos de Armando zombavam. Entretanto, a falta de filho não impedia do casal se amar, ter respeito e carinho, um pelo outro. Armando do tipo caseiro, nunca prevaricou. Paulinha trabalhava no escritório de advocacia, curtia a vida com o marido, cuidava seu corpo toda noite numa academia de ginástica, aliás, corpo bonito, sensual.

Até que, numa noite apareceu um novo treinador na academia, o sangue de Paulinha ferveu, disparou seu coração ao ver Estevão, bem perto ele fazia as correções dos exercícios, não era bonito, nem feio, tinha uma cara máscula, sensual, ossos do rosto sobressaídos. Estevão passou algum tempo corrigindo falhas de posturas, quando tocava seu corpo dava uma sensação de volúpia em nossa amiga. Paulinha saia meio trêmula da ginástica. Durante a noite sonhou correndo na esteira, de repente apareceu por trás um cavalo com cara de homem e a agarrou. Acordou-se molhada. Acontece que, Estevão, também ficou impressionado com Paulinha, fazia força para tirá-la do pensamento ao lembrar a aliança no dedo. Certa noite na academia foi animada para os dois, conversaram bastante. Assim se passaram os dias. Paulinha pensava em Estevão e vice-versa. Até que, numa noite, depois de um banho na academia, ao entrar no carro num local afastado, Paulinha ouviu por trás de seu ouvido, “-Me dá uma carona”? Ela se assustou e sorriu, Estevão entrou no carro estacionado em local ermo, se abraçaram, se beijaram, ali mesmo fizeram amor.

– Que loucura, que loucura, eu amo meu marido! Mas quero você, quero você, seu filho de uma puta!

Gritava Paulinha enquanto beijava e abraçava o novo amor.

Passaram mais dois meses, até que Paulinha resolveu contar tudo a Armando, dor na consciência. Ele teve a reação esperada, quebrou o que havia na sala, feriu a perna ao dar um pontapé na televisão. Passaram o fim de semana discutindo, ela enfática, reafirmava que lhe amava, entretanto, não podia viver sem Estevão.

Na segunda-feira Paulinha resolveu sair de casa, foi morar no apartamento do treinador. Armando aceitou a separação. O tempo é o senhor da razão, já dizia o Presidente, e da conformação, entretanto, a gostosa Paulinha nunca deixou de encontrar-se com o ex-marido, na verdade ela realmente amava os dois. Nutria o amor bem comportado de seu amado de juventude, seu marido.

Dois anos se passaram, com muita habilidade Paulinha aproximou Armando de Estevão, se deram bem, hoje bebem juntos uma cervejinha na praia. Porém Armando continuou a morar sozinho em seu apartamento.

Em história de amor tudo pode acontecer, as más línguas afirmam convictas que Estevão, um bom coração, permite a mulher se encontra com Armando no seu apartamento para uma rodada de amor. Paulinha barbarizou, bigamizou, tem dois maridos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA TARDE INESPERADA

– Seu Vicente, como vai? Está lembrado de mim?

Laurinha falou sorridente saindo do Shopping. Ele a olhou, reconheceu a bonita senhora, não sabia de onde, para acabar a dúvida gentilmente perguntou.

– Claro que recordo, a idade atrapalha pormenores, de onde mesmo que lhe conheço, menina?

– Obrigada pelo menina. Sou a Laurinha, fui professora de reforço escolar de sua filha mais nova, a Cacilda, por um ano. Lembra? Como vão os netos? O senhor era apegado com ao mais velho, o Francisco, deve estar um rapaz. Estou morando em São Paulo há oito anos.

– Laurinha, você está uma mulher bonita, vejo que o clima de São Paulo faz bem à saúde e à beleza.

– O senhor sempre gentil. Não é o clima, é a oportunidade de ganhar melhor. Tenho um emprego bom, ensino numa boa escola, por isso me trato, vou à academia e uso outras artimanhas das mulheres.

Nessa altura, os dois chegaram ao estacionamento, Vicente, acercou-se do carro, perguntou o destino de Laurinha. Ela pegaria um ônibus para o Prado, estava hospedada na casa da irmã. Vicente gentil, e certamente com outras intenções, ofereceu-se para levá-la. Laurinha recusou, não precisava se incomodar. Vicente insistiu, estava à toa na vida, sem ter o que fazer, aposentou-se há pouco tempo, tornou-se o vagabundo das tardes.

Ela colocou os embrulhos no banco traseiro, sentou-se à vontade, a saia encurtou mostrando ainda ser uma mulher desejável, o tempo não foi tão cruel com Laurinha. Ele deu a partida, o carro rolava maciamente no asfalto, olhou de banda para ela, gostou do que viu. Laurinha foi a primeira a retornar conversa.

– E Dona Celina, como vai? Ainda gosta de jogar cartas com as amigas toda tarde?

– Sim, tem a compulsão pelo jogo.

– Para compensar seu vício. Desculpe a franqueza, o senhor ainda gosta de garotas? Lembro uma vez que chegou em casa com a camisa suja de batom, que maldade de sua amiga. Dona Celina fez escândalo.

– Ainda tenho esse vício, entretanto, nunca deixei meus deveres matrimoniais. Os filhos cresceram, são independentes, hoje vivo para os netos. O Francisco tem 15 anos, a Adriana 13, e o Dudu 8 aninhos. Sou um avô babaca, esse é o melhor termo, faço tudo que eles pedem. E você? Conte sua vida, quero saber o que fez em São Paulo para se tornar uma mulher tão bonita. Naquela época eu tive uma atração enorme por você, era uma jovem atraente, mas, tinha receio de confusão em casa. Estou fascinado, a mulher de hoje é mais bonita do que a jovem de ontem.

– Eu notava seus olhares Seu Vicente, vou confessar um segredo, eu também tinha atração pelo senhor, era um homem bonito, charmoso, aliás, ainda é. Já tem 60 anos?

– Tenho mais minha querida, Laurinha, somos dois adultos, não precisamos muito de conversa jogada fora, vou lhe fazer uma proposta. Há muitos anos nos conhecemos, descobrimos que numa época nos desejamos, não deu. Por isso pergunto: Vamos passar a tarde num motel, em busca do tempo perdido e fazer tudo que der vontade?

– Por que não? Respondeu calma Laurinha. Ao entrar no apartamento os dois se abraçaram, se amaram, se beijaram, como dois seres maduros cheios de desejos. Uma tarde gloriosa de amor. Inesquecível.

Os dois conversaram lembrando fatos da vida passada, muita história. Nunca mais havia passado momentos tão agradáveis, afinal, felicidade é momento, aquele foi marcante.

Ao levar Laurinha para casa, propôs novo encontro, que bom ela ter aparecido. Perguntou quando poderia vê-la. Ela o olhou nos olhos.

– Retorno a São Paulo amanhã, tenho um filho, sem marido. Quem sabe um dia?

Beijou-lhe o rosto. Antes de entrar na casa da irmã, olhou para Vicente, sorriu. Estava feliz.