CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O MEMORIAL DA RAPARIGA DESCONHECIDA

Peço permissão a meus queridos leitores, para hoje transcrever fragmentos da matéria do jornalista Fábio Fujita publicada na revista Carta Capital – As fotos que ilustram esta postagem são da noite de aposição da placa.

Em um uma esquina da Rua Rocha Cavalcante, no bairro de Jaraguá, em Maceió, uma placa reluz: “Memorial da Rapariga Desconhecida – Uma homenagem à mulher que preservou e nos legou Jaraguá. Dedicado por todos os filhos de uma mãe”.

Logo tu, Jaraguá? Quem poderia imaginar… Na origem de um bairro de tão imponentes endereços, pudesse haver uma homenagem tão singela a uma anônima de vida fácil? Ninguém além do escritor Carlito Lima, mentor da placa, assinada pela Confraria do Sardinha, “turma formada por escritores, jornalistas, intelectuais, boêmios, políticos e outros desocupados”, ele explica. Houve até solenidade no descerramento da placa.

A homenagem, segundo Lima, é justíssima. As prostitutas, explica, foram as principais responsáveis pela preservação dos prédios antigos do bairro erguidos no início do século passado, uma preciosidade arquitetônica da capital alagoana. Por ao menos sete décadas, o alto, médio e o baixo meretrício ocuparam os casarões do pedaço.

No início, Jaraguá atraiu empresas e moradores mais abastados por causa do desenvolvimento portuário. Mas, além do comércio, o cais costumava atrair também marinheiros. E estes as prostitutas. E estas os cafetões e um bando de desocupados.

“Região portuária é chamariz de biroscas e raparigas, e logo as casas avarandadas de dois andares foram transformadas em lupanares ocupados pelas mariposas do amor”, poetiza Carlito, sobre a transformação do lugar na famosa zona. “Todas as casas que serviram como boates de raparigas acabaram conservadas, ainda que involuntariamente”, ele garante, antes de citar casos similares como o Recife Antigo, O Pelourinho, o Mangue, no Rio de Janeiro, e La Boca, em Buenos Aires.

Para o escritor Carlito Lima, antigo morador da Avenida da Paz, linda praia no início do bairro de Jaraguá, o próprio conceito de “rapariga” soa anacrônico aos rapazolas dos novos tempos.

A zona do Jaraguá era dividida em três partes. Havia a área frequentada pela fina flor da elite da capital. Nos cabarés mais refinados, o Tabariz e a Alhambra eram famosos, onde se encontravam as mulheres mais belas, muitas “importadas” da Bahia, Rio, Argentina. Os estabelecimentos de segunda, como o Duque de Caxias e o Verde, eram um misto de bares e alguns quartos sem banheiro. “Mais adiante tinha o Sovaco do Urubu, que, aí sim, era zona de última categoria. O camarada passava na porta, pegava gonorréia”, brinca o escritor.

Fora o Memorial da Rapariga Desconhecida, hoje em dia não há marcas em Jaraguá do passado de epopéias libertinas. As prostitutas deixaram o bairro no fim dos anos 60, depois de um incidente que envolveu a esposa de um influente senhor.

Segundo Lima, apesar de morarem preferencialmente em Pajuçara e Ponta Verde, as famílias ricas eram obrigadas a atravessar Jaraguá para chegar ao centro da cidade. Habituada a fazer compras no primeiro horário da manhã, a mulher do nobre cidadão cruzava o bairro quando viu um “vagabundo, que certamente bebera a noite inteira”, baixar as calças, exibir suas partes pudendas e se aliviar nas imediações. Uma agressão à moral e aos bons costumes.

O “coronel”, claro, não gostou da história e usou seu poder para conseguir a imediata remoção dos lupanares de Jaraguá. As raparigas foram transferidas para o distante bairro de Canaã e levaram consigo toda a sorte de beberrões, arrivistas, poetas e notívagos.

O sujeito que fez corar a dama da sociedade nunca foi identificado. Nem se sabe se sofreu algum tipo de punição exemplar.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BARRA DE DONA LEONITA

Barra de São Miguel, 30 km ao sul de Maceió, é uma das praias mais bonitas do Brasil, tornou-se município no final da década de 1960 e eu fui candidato à prefeito em 1972, eleito, exerci o cargo entre 1973 e 1977. Tive duas alegrias: uma quando tomei posse, outra quando passei o mandato. Foi minha primeira e única experiência política.

Barra de São Miguel foi revelada ao Brasil e ao mundo pela prefeita que me antecedeu, uma senhora nativa, batalhadora. Dona Leonita Cavalcante. Viúva corajosa conseguiu educar seis filhos, Angélica, Manduca, Júlia, Isabel, Rosinha e Miriel. Tornaram-se pessoas trabalhadoras, brilhantes, graças à dedicação e ao amor daquela extraordinária mulher. A Prefeita morava em uma enorme casa, estilo barroco, piso de tijolos batido, ajanelada, no centro da cidade. Fim de semana recebia a família e os amigos. A casa se enchia de agregados. A moçada aproveitava a praia, uma extensa passarela de areia fina e branca servindo de tapete para água do mar. Encravada mar adentro uma faixa de pedras, de arrecifes naturais, complementava a beleza cênica. Na enchente da maré, a água transbordante forma pequenas cachoeiras, espetáculo apaixonante.

Na hora do almoço Dona Leonita servia deliciosas comidas em uma mesa enorme, antiga, de madeira grossa. O almoço preparado pela própria Leonita tinha o sabor divino de suas mãos: carapeba, arabaiana ao molho de camarão, fritada de siri, e o indelével, delicioso, sacro-santo arroz de polvo.

Durante a noite os jovens convidados carteavam baralho acompanhado de cerveja até o amanhecer, ou aportavam em algum bar com muitas conversas, biritas, inacreditáveis histórias bem humoradas. Dona Leonita, mamãe grande, cuidava muito bem de suas filhas, das amigas, e dos rapazes. Controlava, tinha disciplina. Ai de quem desobedecesse às regras determinadas.

Certa manhã, partimos de Maceió para Barra em caravana, quatro carros, incluindo o de Dona Leonita e sua cunhada Dona Moema que lhe acompanhava.

No caminho passamos pela bela cidade barroca de Marechal Deodoro, resolvemos calibrar com algumas cervejas. Os carros estacionaram em frente a um bar com uma enorme sinuca, perto da casa onde o Marechal Deodoro da Fonseca nasceu. A moçada revezava na sinuca e cerveja: os irmãos Bentes, Edson Frazão, Alfredo Zagalo, Guilherme Palmeira, Esdras Gomes, Manduca e as filhas da Dona Léo e outros convidados.

Jogamos, bebemos intermináveis saideiras. De repente apareceu um menino chato, peru de jogo. Ficou grudado na borda da mesa de sinuca, peruando e atrapalhando as jogadas. Depois de mandar, várias vezes o menino se afastar da sinuca, Frazão, com sua irreverência intempestiva e irresponsável, disse para o garoto chato: “Ôh menino, tem o que fazer não? Aqui nessa cidade tem Delegado? Pois vá dizer a ele, que ele é corno!”

O menino desapareceu. Meia hora depois, por sorte, Angélica avistou quatro soldados, um gordo senhor e o menino, descendo a ladeira vindo na direção do bar. Ela percebeu a situação, alertou que o delegado estava chegando com a Polícia. Foi um desespero para esconder Frazão. O Magro se enfiou no sótão do bar, calado, permaneceu escondido.

O delegado apareceu brabo perguntando quem o tinha chamado de corno. O infrator ia ser preso por ofensa à autoridade. Dona Leonita interferiu, disse que o rapaz falou de brincadeira, e que tinha voltado para Maceió. O delegado, amigo de nossa Prefeita, depois de muita conversa, tomou outro rumo.

Alguém veio nos informar: o delegado havia bloqueado as saídas da cidade, estava revistando todos carros. Dona Leonita teve a idéia: deitaram o magro Frazão no chão traseiro do carro, coberto por uma manta. Conseguiram passar pelo ofendido delegado que olhava atentamente enquanto o carro passava pelos policiais.

À noite estávamos em três rodas de jogo de baralho na casa da Barra, quando bateram na porta. Era o delegado de Marechal Deodoro com a Polícia. Dona Leonita foi atender, Frazão escondeu-se ligeiro no banheiro do fundo do quintal. O diálogo foi difícil, o delegado foi informado que o indivíduo estava hospedado naquela casa, só saía com ele preso, não podia ficar desmoralizado, foi chamado de corno; ofensa mortal naquela época.

Foram horas de conversa, de negociação. Afinal Dona Leonita usou seus melhores argumentos: serviu à comitiva um gostosíssimo arroz de polvo, uma deliciosa fritada de maçunim, acompanhando cerveja bem gelada. O gordo delegado com olhar glutão foi esvaziando todos os pratos com cerveja. Dona Léo com conversa e comida, venceu. O delegado partiu de bucho cheio, sonhando com o divino arroz, com promessa de castigo por parte da Prefeita ao ofensor e de um jantar especial para ele na próxima semana.

Dona Leonita deixou de lado o coração bondoso, deu uma espinafração no magro Frazão. Ele ficou sério, ouviu tudo caladinho.

Hoje Barra de São Miguel é um local chique, atração turística do Brasil e do mundo, uma das praias mais bonitas do Nordeste. Todo novo rico, constrói ou compra uma casa na Barra de São Miguel.

A prefeitura é disputadíssima, o novo prefeito é o ex senador Benedito de Lira, pai de Arthur, o presidente da Câmara.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ENTERRO DO COLAÇO

Foi numa comemoração da Anistia Política no final de 1979 em um bar no aprazível bairro da Mangabeiras que conheci uma das figuras marcantes da cidade de Maceió, Rubens Colaço, presidente do Sindicato dos Rodoviários, militante político, dirigente do Partido Comunista Brasileiro e boêmio inveterado. Ele estava sentado junto à minha mesa, quando alguém me apresentou como capitão, aproximou-se, deu-me a mão, conversamos até altas horas. Fizemos uma boa amizade, apesar das contradições políticas.

Certo dia apareceu em Maceió, Paulo Cavalcante, deputado pernambucano, ex-preso político no quartel onde eu servi como tenente em 1964, a 2ª Companhia de Guardas no Recife. Paulo pediu aos companheiros de partido para ter algum contato com seu ex-“carcereiro”, o tenente Lima. Rubens Colaço logo me telefonou. Juntos com Geraldo Majella e Alberto Jambo, passamos o fim de semana mostrando as belezas de Maceió a Paulo Cavalcante. Depois de rodar pelas praias urbanas fomos à praia do Francês, passeio de lancha na Lagoa com direito a banho no Broma. Bons papos, boas cervejas, peixe e camarão, comunista gosta de coisa boa. Paulo Cavalcante recordou muitas histórias durante sua prisão na Companhia de Guardas. Escreveu um livro, “O Caso Conto Como O Caso Foi”. Tornou-se meu amigo.

Assim consolidei minha amizade com Colaço. Muitas vezes encontrava-me com o velho guerreiro nos bares da cidade; sempre um excelente papo de humor, esvaziando copos. Certa vez um lavador de carro encontrou no chão do meu fusca uma dentadura. Como eu havia tomado umas cervejas com Rubens no dia anterior, fui até sua casa. Encontrei-o banguela. Ficou radiante que nem menino quando avistou sua amada dentadura. Entreguei-a enrolada em um pano, ele segurou-a, olhou-a com carinho, sorriu e no mesmo instante colocou-a na boca. Voltou a ter aquele sorriso maroto.

Anos depois Colaço morreu, houve uma comoção entre os moradores de Jaraguá, do Poço, Ponta da Terra, Mangabeiras e adjacências. Os estivadores do cais do porto pararam de trabalhar mais cedo para homenagear Colaço. Os pobres, os descamisados, os sem terra, sem teto, perdiam seu pai, seu irmão, seu farol, seu guru. O velório estava cheio, amigos dentro e na calçada, sempre tomando uma pinguinha.

Sua casa estava repleta de gente do povo, choravam a morte de um homem que se dedicou sua vida às causas do trabalhador, assim discursavam. A cachaça e a cerveja rolando. O choro e a emoção aumentavam com os discursos. Intelectuais, políticos, desocupados, até um padre e uma cafetina se apinhavam na casa. Seus amigos de copo e de luta prestavam a última e dolorosa homenagem. Os discursos sucediam e atrasaram a saída do enterro. Passava da hora de seguir para o cemitério de Jaraguá. Ninguém disposto a fechar o caixão. Até que alguém mais sensato advertiu que havia chegado o momento; a família acatou.

Ao segurar na tampa do caixão, um dos chorosos amigos, cheio de cachaça na cabeça, pediu para adiar o enterro, ficar mais um pouco com Colaço.

Formou-se uma calorosa discussão. Fizeram reunião na sala ao lado. Depois de muito discutir, um líder do PCB irritado com os companheiros bêbados, insistentes, saiu da sala, desabafou num rompante.

– Tudo bem façam o que quiserem. Peguem o defunto com caixão e tudo e enfiem no cu.

Deu-se um mal estar. A família do morto resolveu levá-lo naquela hora. Tamparam o caixão, foram em direção à sua última morada. O féretro seguiu caminhando, alguém na frente orientava o percurso. Ao entrar no cemitério, mandaram entrar à direita. Nesse momento, um fiel amigo, cheio da cachaça, gritou:

– Parem o enterro! O companheiro Rubens nunca entrou à direita quando vivo, sempre foi coerente com seus princípios e não será agora depois de morto que ele vá entrar à direita. Rubens Colaço só entra à esquerda.

Ouviram-se alguns vivas e o enterro prosseguiu sempre entrando à esquerda pelas ruas estreitas do cemitério, essa manobra durou mais de uma hora, até que afinal o caixão parou em frente à cova pronta para receber o líder Colaço.

Hoje ele deve estar à esquerda de Deus pai todo poderoso.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CASA DAS ALAGOAS

Não houve planejamento, nem roteiro, parávamos onde bem entendíamos, dormíamos no primeiro hotel ao anoitecer, quando alguém se cansava na direção, outro assumia, assim nós quatro amigos: Eu, o artista plástico Di Menezes e os irmãos, Luciano e Marden Bentes viajamos de carro rumo a umas férias no Rio de Janeiro, corria a maravilhosa década de 1970.

Ao final de um dia nos hospedamos no Hotel Bahia à beira da estrada. Na portaria havia um quadro negro escrito a giz o preço: “QUARTO COM PINICO: CR$ 5,00”. “QUARTO SEM PINICO: C$ 4,00”. Perdi a foto dessa pérola brasileira.

Chegamos ao Rio, cansados nos dirigimos ao apartamento do Cáu (Cláudio Lima), Rua São Salvador, Flamengo, considerado como embaixada de Alagoas. Sempre havia um colchão para um hóspede amigo.

Naquela época funcionava a Casa das Alagoas, uma associação assistencial aos alagoanos radicados no Rio de Janeiro. Ponto de encontro para matar saudades e unir a tribo caeté. Roberto Mendes tinha sido eleito presidente da associação, ganhou uma eleição disputadíssima contra Ronaldo Lessa. Roberto sabendo de nossa ida programou um roteiro de festas para aquele fim de semana.

No sábado estava marcado um pré-carnavalesco, baile “Vermelho e Preto” no Clube de Regatas Flamengo. Embaixo do edifício fervilhavam botecos, bares, ponto de encontro da esquerda festiva, bares cheios. A juventude ia se achegando, começavam as paqueras. Para o baile era obrigatório vestir-se com roupas vermelho e preto. Depois de algumas doses num botequim partimos para a sede do Flamengo.

Roberto Mendes, organizado, comprou os ingressos antecipadamente. Na hora da entrada faltou ingresso para César, carioca, morou em Alagoas, amigo nosso, sentia-se alagoano. O Clube cheio, não havia mais ingressos à venda.

Ficamos matutando como resolver o problema da entrada de César, procuramos cambista ou quem quisesse vender um ingresso, nada. O tempo passando, nós, agoniados, perdendo o baile cheio de mulheres bonitas.

De repente Roberto observou um caminhão fazendo manobras, tentando entrar pelo portão lateral, ele gritou, “Encontrei a solução! Venha cá César!”. Partiram em direção ao caminhão. Confabularam com o motorista. Roberto voltou alegre, tudo resolvido: Soltaram uma grana, colocaram nosso amigo por trás do caminhão frigorífico que levava gelo à festa.

Entramos satisfeitos, acompanhados por lindas cariocas. A orquestra tocava o hino do Rio de Janeiro:

“Cidade Maravilhosa… Cheia de Encantos mil… Cidade Maravilhosa… Coração do meu Brasil …”

O baile fervia animado. Depois de algumas voltas no salão me deparei com César no bar tomando conhaque puro, camisa molhada, batia o queixo. Vinte minutos dentro do frigorífico do caminhão; quase morre congelado. Empurrei o carioca para o salão, sambamos até o dia amanhecer com as charmosas rubro-negras.

No domingo pela manhã, marcamos encontro na Praça General Osório. Maior expectativa, desfile da Banda de Ipanema. Roberto havia providenciado uma ala dos alagoanos. Nossa fantasia: sunga de banho de mar, tamanquinho de praia e uma toalha em volta do pescoço para abastecer de lança-perfume.

Começamos a esquentar as baterias num bar perto da praça. Uma festa o reencontro com velhos amigos. O bar lotado, nossa mesa das mais concorridas, cariocas bonitas, namoradas, paqueras. Era só alegria, felicidade e carnaval.

Em certo momento César sentiu fortes cólicas, talvez consequência da friagem do frigorífico, foi se esvair no acanhado e sujo banheiro. Depois dos serviços, depois de ter obrado, ele retornou à mesa. Logo pagamos a conta, levantamos para nos juntarmos à Banda e sairmos dançando e cantando, quando pela primeira vez alguém reclamou:

– “Eita fedor de merda! Alguém pisou em bosta!”

Olhamos nos solados dos tamancos, nenhum vestígio de cocô. Nessa altura havia uma multidão na Praça General Osório. A Banda animada tocava o samba:

“Nesse carnaval não quero mais saber… de brigar com você… vamos brincar juntinhos… água na boca para quem ficar sozinho… as nossas brigas… não podem continuar… porquê nosso amor não pode se acabar…”

Nosso grupo animado, ala cheia de mulheres bonitas, contrastava com o cheiro de merda no ar. Até que a fonte fedorenta foi descoberta: César, na hora do serviço, não notou que um tolete, merda pura, caiu dentro da sunga. Ele vestiu-a novamente. Infestou-se de cocô, meio bêbado não percebeu.

A Banda de Ipanema acabou-se à noite. Programamos terminar a farra no Restaurante Alkazar em Copacabana. Enfrentamos um ônibus lotado, muita gente em pé, se acotovelando. A certa altura um passageiro gritou:

– “Motorista pare! Alguém cagou dentro do ônibus!!!”

Resumindo a história, o motorista parou numa Delegacia. César se delatou, foi preso, descemos e ficamos na Delegacia em solidariedade ao cagão. O delegado soltou César depois de um banho com sabugo.

Terminamos a noitada às gargalhadas no Alkazar com as namoradas cariocas, relembrando as façanhas até o fim da noitada. Era o início de férias no Rio de Janeiro no tempo de Roberto Mendes, presidente da Casa das Alagoas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VELHO E O MAR

Quatro da manhã, como todos os dias, Seu Rodolfo acordou-se, ainda deitado na cama de colchão de palha, enlaçou Santinha pelas pernas, falou ao ouvido, “Está na hora”. Enquanto a esposa dirigia-se à cozinha preparando café, macaxeira, inhame, peixe frito, Seu Rodolfo dirigiu-se à casinha (banheiro sanitário construído no quintal das casas, chamava-se casinha), depois de ter-se aliviado, limpou-se com um pedaço de jornal e jogou no lixo. O jornal datado da época (1942) tinha a manchete de primeira página impressa, “Submarino alemão torpedeia mais um navio no litoral nordestino”. Depois do café arrumou um bisaco com farinha, carne do sol, banana e laranja; outra sacola com linhas, anzóis, iscas, colocou os fardos e a tarrafa nos ombros e dirigiu-se à praia.

Sua casa ficava nos arredores do bairro boêmio de Jaraguá, ao longe se ouvia música de amor dos cabarés retardatários. Perto do Bar da Tartaruga, junto ao primeiro trapiche de açúcar, Rodolfo acomodou as sacolas na jangada, foi ao bar, cumprimentou outros colegas, nas mesas estavam alguns boêmios acompanhados por prostitutas de lábios pintados de carmim, viravam a noite. Rodolfo tomou café com o compadre Moacir, dono do Bar. Ao sair, o amigo desejou boa pescaria. Seu Rodolfo desamarrou a jangada colocou dois rolos de coqueiro por baixo, empurrou-a até entrar na marola.

Como num ritual militar, hasteou as velas de pano branco. Molhou o velame estirado com água do mar, tomou o remo como leme, rumou a jangada mar adentro. O sol vermelho apareceu como se fosse uma cabeça de criança nascendo, alaranjou as nuvens, o mar tornou-se azul. A cidade de Maceió, ao longe, parecia apenas uma fileira de casas pequeninas. Seu Rodolfo dirigiu a jangada a um local onde havia bons cardumes, conhecia cada canto do mar. A bússola era o olhar e a direção do vento, sabia navegação empiricamente, aprendeu com a vida no mar desde cinco anos, seu pai também foi pescador.

Seu Rodolfo levava sol na pele encardida, completava 50 anos naquele dia, parecia mais velho, já tinha a vista anuviada pela constante exposição ao Sol. Amava o mar e seu trabalho, cada peixe puxado dentro do mar era uma vitória da vida diária. Retornava por volta das três da tarde, abria e tratava o peixe com peixeira no Bar da Tartaruga, colocava-os em um samburá, caminhava gritando na Avenida da Paz, “peixe fresco”, “olha o camorim”, “carapeba”. Seu Rodolfo tinha boa freguesia, inclusive minha mãe. Era amigo das famílias nos arredores da Avenida.

Naquela manhã a sorte estava a seu lado, ainda não era meio dia os caixotes estavam quase cheios de xaréu, arabaiana, bijupirá, carapeba, garassuma, pescados pelas linhas jogadas ao mar e tarrafas. De repente ele sentiu um puxão em uma linha, alegrou-se, pensando ser peixe grande. Deu mais linha para cansar o bicho, logo depois puxou e sentiu ser um enorme peixe, era preciso paciência, astúcia para brigar contra um peixe daquele tamanho, sentia pelo puxão, duas horas depois continuava a briga do peixe grande contra o velho Rodolfo. O cansaço chegou a ambos.

Seu Rodolfo estava atrasado em sua tarefa diária na cidade, entretanto, nada lhe abalava, preferia a luta com o peixe grande. Depois de muito embate, Rodolfo resolveu dar toda força que tinha no momento, lutou cerca de meia hora até conseguir puxar o peixão para cima da jangada. Vitória. Rodolfo ficou contemplando embevecido o maravilhoso pescado, amou aquele peixe valente que brigou por mais de três horas. Calculou que o peixe tinha entre 30 e 35 quilos, ficou contemplando com orgulho sua façanha heroica. Antes de cortá-lo, mostraria aos amigos na beira do cais. Os pescadores iriam morrer de inveja.

Rodolfo amarrou o peixe grande num pau da jangada, desfraldou novamente a vela em direção à praia. Não havia meia hora de navegação quando sentiu uma onda levantar a jangada, percebeu algo estranho acontecendo. Novas ondas, o mar ficou revolto em torno da jangada. Seu Rodolfo pensou, deve ser baleia, aparece a qualquer momento, sem medo comandava a jangada quando inesperadamente emergiu perto da jangada um navio parecendo um enorme charuto. Seu Rodolfo ficou na espreita, o navio-charuto depois de ficar fora d’água, parou. Não se avistava ninguém.

De repente uma portinhola abriu-se, saíram três homens vestidos apenas de calção preto, pele rosada, louros como nunca havia visto. Os homens falavam, ele não entendia. Depois de algum tempo, comunicando-se por meio de gesto, Seu Rodolfo compreendeu, os galegos queriam trocar seus peixes por materiais e comidas em conserva. Com lástima, entrou no negócio o peixe grande, o velho pescador recebeu enorme quantidade de queijo, presunto, sapatos, botas, cigarros, encheu a jangada. Logo depois o navio-charuto desapareceu no fundo do mar. Seu Rodolfo se lastima até hoje em ter entregado o peixe grande. Quando tomava uma cachaça, chorava, lembrando o peixe grande, que muita gente ainda gozou como história de pescador.

Essa história, Seu Rodolfo, calçado com botas pretas militares, tomando cachaça no coreto da Avenida da Paz, contou a mim, meu tio Nilo e meu irmão Betuca, em 1952, eu tinha 12 anos. Inesquecível.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O XIXI DO TENENTE

Ele era tenente, alto, forte, atleta, campeão de vôlei e basquete. Mas gostava mesmo de outro jogo mais maneiro, um carteado. Aos domingos sempre almoçava em minha casa, assim que chegava entrava na rodada domingueira de um pôquer baratinho, que meu pai jogava com alguns vizinhos. Eu, no início da adolescência, admirava aquele tenente desenvolto, risonho e franco. Porém, a maior admiração era o que ele tinha de mais bonito, mais precioso, sua gentil e alegre esposa. Quando o tenente sentava para jogar, ela dizia não entender como podiam perder uma praia tão bonita como a da Avenida da Paz. E me chamava para acompanhá-la, dar um mergulho. Aos domingos eu ficava em casa de propósito, à espera do jovem casal e desse convite.

Ela me abraçava pelo ombro e descíamos à praia, sentávamos na areia branca e fina embaixo da sombrinha. A Deusa era olhada e desejada por todos os homens de todas as idades. Ficavam contemplando o ritual, a divina tirava devagar a blusa e o short até aparecer seu biquíni sempre em tecidos floridos. Acredito que tenha sido o primeiro biquíni usado nas praias de Maceió. Estirava a toalha na areia, pegava um livro e deixava que o Sol e os olhos pecaminosos dos homens, inclusive os meus, tomassem conta daquele corpo perfeito, pernas esguias douradas de penugens lourinhas oxigenadas, como se fossem enfeites, dava um irresistível desejo de alisá-las.

Ela pedia que lhe chamasse quando estivesse na hora do almoço para dar o último mergulho e irmos juntos para casa. Na hora do futebol, eu deixava aquela mulher deitada ia bater minha pelada. Ficava me gabando, fazendo inveja em ter uma amiga carioca. Os amigos e os mais velhos queriam saber tudo sobre aquele monumento. Antes do almoço mergulhávamos juntos, ficávamos na brincadeira de dar caldo um no outro, cruzando nossas pernas embaixo d’água ela gostava daquele jogo, de propósito alimentava minhas fantasias.

Havia um grande advogado em Maceió, com fama de competente e mulherengo. Certo dia a bela criatura teve que recorrer ao doutor sobre uma herança. O famoso causídico, por sinal um tremendo canalha, passou a maior cantada em nossa Deusa. Ela discreta, com classe se esquivou, terminou a conversa, foi embora, prometendo nunca mais voltar àquele escritório. Só porque vestia roupas leves, sensuais, andava de biquíni nas praias e nos clubes, era uma moça extrovertida, típica carioca, o doutor fez um erro de avaliação e continuou assediá-la por telefone ou quando a via. Mas a moça era honesta, aguentou quanto pôde o assédio. Até que um dia, acabou a tolerância, contou toda a hist6ria para seu tenente, alto, forte e bonito.

Ele mandou a esposa marcar um encontro na própria casa dizendo que o marido viajaria. No dia, na hora, sem atrasar um minuto o advogado bateu à porta. Logo ao entrar, ela constrangida, mandou-o sentar-se. Mas o doutor estava com a cabeça virada, agarrou-a, sem preliminares, que a situação exige.

No momento em que tentava abraçá-la, apareceu o tenente na sala empunhando uma pistola 45. O susto deu um branco literalmente no doutor, ficou da cor de papel, gaguejava tentando explicar. O medo foi enorme, o doutor borrou-se na calça, e pedia suplicante: “Não me mate, não me mate.” Ajoelhou-se chorando.

O tenente disse-lhe que o mandaria às profundas do inferno, onde jamais cantaria uma mulher honesta. O famoso advogado chorava e gemia, pedia perdão. O tenente deixou prolongar por um tempo a expectativa, gozando do choro do conquistador. Certo momento ele pediu a mulher trazer-lhe um copo grande na cozinha. Pegou o copo, desabotoou a braguilha e num jato forte fez xixi dentro do copo. Levantou o copo cheio com a mão esquerda e a pistola com a direita, disse alto em bom tom: “Não lhe mato, mas você vai beber o meu xixi.”

O doutor não teve dúvida pegou o copo, colocou os lábios na borda e tomou aquele liquido amarelo, quente e espumante. Quando terminou, ele tremia de medo, de pavor. Nesse momento o tenente foi ríspido: “Vá embora seu filho de uma cadela e nunca mais cruze comigo ou com minha mulher, na próxima vez, sem perdão, meto uma bala nos seus cornos.”

Eu ouvi essa história contada pelo próprio tenente a meu pai. Sentado perto dos dois, eu organizava a coleção de selos como quem não quer nada, prestando atenção à história. No domingo seguinte desci à praia mais cedo. Quando a musa apareceu na praia me deu um alô com as mãos perguntando: “Onde está meu cavalheiro que não me esperou?”

Aproximou-se abrindo os braços, me abraçou forte. Ao deitar-se na areia, fascinado olhei suas apetitosas pernas, lembrei-me da história. Pensei. “Se o tenente descobre meus desejos, vou terminar comendo cocô.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEU FORTES

O Riacho Salgadinho-Reginaldo corta uma extensa parte da cidade de Maceió desaguando na bela praia da Avenida da Paz, no tempo de minha juventude era uma das diversões favoritas pescar e nadar naquele riacho limpo sem alguma poluição. Suas margens eram cobertas de manguezais e outros tipos de vegetação ribeirinha. Quando a maré enchia, as águas salobras se dispersavam pelos arredores, chegando aos fundos de quintais das casas aos redores, formando um terreno salobro apropriado para o “habitat” de caranguejo goiamum azulado, com pata maior que o casco.

Um dos divertimentos da meninada era encaixar “ratoeiras” feitas de latas de óleo nos buracos dos caranguejos e esperar o goiamum penetrar para morder a isca de limão. Para garotada não havia maior felicidade encontrar a “ratoeira” fechada e um goiamum dentro, preso. Imediatamente colocava o bicho para cevar dentro de um caixote de ripas. Quando completava cerca de vinte bem cevados, colocava-os dentro de uma enorme panela com água fervendo, era dia da caranguejada para alegria da meninada.

Nas imediações da ponte do trem havia um sítio com muitas vacas produzindo leite em seus grandes úberes. Essa vacaria fornecia o sustento do proprietário, Seu Fortes, senhor respeitável que gostava de ler, simpatizante do comunismo stalinista da União Soviética e do presidente Getúlio Vargas. O homem teve tantas decepções depois da Segunda Guerra Mundial que um dia abandonou as vacas, e encheu o sítio de cachorros, estava endoidando. Alguns dias mais tarde, ele endoidou de vez.

Numa manhã eu estava colocando “ratoeiras” de caranguejos nas áreas vizinhas, entrei em seu sítio. No momento que vi a “ratoeira” desarmada corri para apanhá-la, de repente senti uma paulada na cabeça, me virei; era Seu Fortes irado gritando me chamando de ladrão. Saí correndo, nunca voltei para pegar minha preciosa “ratoeira”.

Seu Fortes cada dia mais doido continuou morando em uma casinha do pequeno sítio, vendeu ou deu as vacas, para dar lugar a mais de trinta cachorros, vira-latas legítimos. Vivia de ajuda dos parentes.

A molecada pegou o “fraco” de seu Fortes, quando via o doido caminhando às margens do Salgadinho ou na Avenida da Paz discursando para ninguém, com um séquito de cachorros, gritava escondido o que mais lhe fazia raiva:

– Comunista!

Seu Forte virava-se de um lado para outro procurando de onde vinha a provocação levantava seu tabique de pau que mais parecia uma borduna de índio, gritava para quem quisesse ouvir:

– Comunista é a puta que pariu!

Irado, jogava pedras nas pessoas de onde vinha o insulto. Certa vez ele acertou uma pedra em um menino, o pai deu queixa na polícia. Nós meninos fomos chamados para depomos na delegacia, confessamos que aporrinhávamos o pouco juízo do coitado.

Em 1954, durante uma crise política no Brasil, o presidente da República Getúlio Vargas deu um tiro no coração, houve uma comoção geral em todo o país. A população estava de luto dentro da alma, até os adversários de Getúlio se comoveram.

Certo dia, a meninada jogava ximbra (bola de gude) na Avenida da Paz, quando apareceu Seu Fortes com sua cachorrada, o doido parou perto da ponte do Salgadinho gritando aos ventos seus discursos. Nesse momento, um dos meninos, deixou de jogar, olhou para o Seu Fortes de longe e gritou com toda força da garganta:

– Seu Fortes! Assassino do Getúlio!

Quando ele ouviu a afronta, seu rosto ficou vermelho, o queixo começou a tremer, rodopiou o corpo, procurando de onde tinha vindo aquele despropósito. De repente começou a jogar os braços para cima com seu tabique e gritava para os passantes assustados:

– Assassino de Getúlio é a puta-que-o-pariu seus filhos de uma puta!

Ao nos ver às gargalhadas, catou algumas pedras, partiu para cima jogando o que podia em nossa direção. A meninada correu com medo do doido, a partir daquele dia apareceu outra maneira de aporrinhar seu juízo fraco, chamá-lo de comunista e assassino de Getúlio.

Seu Fortes foi um dos doidos inesquecíveis da cidade de Maceió nos anos dourados!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BEZERRÃO

A História sempre foi contada e registrada pelos vencedores da maneira que bem entenderam. Os livros nos ensinam os feitos, as obras e a vida dos grandes homens que governaram por certa época; são os governadores, prefeitos, senadores, deputados, juízes, alguns jornalistas e literatos. Sou apenas um modesto contador de história que por não se atrever a descrever o heroísmo de tão peculiar casta construtora da nação, me contento a narrar aventuras de figuras simples que me impressionaram e marcaram sua passagem no cotidiano da cidade e certamente não ficaram registradas em livros ou jornais da época.

Gente que conheci perambulando pelo centro da cidade desde menino, como foi o caso de Bezerrão, um investigador da Polícia, considerado “velha guarda” da corporação. Ninguém sabia seu primeiro nome, todos o chamavam por Bezerrão. Morava no Prado, na Rua da União, nos fundos da Rede Ferroviária do Nordeste, antiga Great Western, quando ainda pertencia aos ingleses.

Toda tarde Bezerrão, vestido num terno de brim ou linho branco, paletó de quatro botões, plantava-se na Praça do Pirulito pedindo carona aos carros que passavam para o centro da cidade. Alguma alma caridosa levava nosso herói para comparecer a seu “plantão” diário nas rodas de conversa fiada que se formavam no trecho entre o Café Colombo, o Bilhar, passando pelo Salão Elite do Zezé e a Assembleia Legislativa. Quem quisesse achar Bezerrão bastava procurá-lo nesse corredor da Rua do Comércio, infalivelmente estava lá nosso respeitado policial.

Alto, forte, físico avantajado, vozeirão assustador, metia-se em tudo que era roda que houvesse nos bares e nas ruas, como se aquele pedaço pertencesse a ele. Conversar, bater papo era sua distração. Opinava sobre qualquer assunto, gostava de dar “pitacos”, soltar “tiradas”, frases de efeito, algumas de sua autoria que impressionavam ou divertiam a todos. Na verdade havia muita sabedoria em sua filosofia. Ele costumava repetir um dito aprendido com um italiano proprietário de uma loja de calçados na Rua do Comércio. Quando se falava de mulher gaieira, traidora, Bezerrão soltava a frase misturando português e italiano:

– “Si tuto cornuto fosse lampioni, mamma mia, quanta iluminacioni !” .

Não tinha preconceitos ou acanhamento, entrava em qualquer roda, dava opiniões sobre tudo. Querido e festejado, principalmente dos boêmios, políticos e desocupados que o instigava a contar fanfarronices. O problema era desligar Bezerrão, quando começava a falar.

Certa vez em passagem pela Assembleia Legislativa aproximou-se de um grupo de deputados formado por Teotônio Vilela, Remi Maia, Luiz Coutinho, Elízio Maia, que pararam a conversa quando Bezerrão se achegou. Teotônio com sua franqueza foi logo despachando:

– “Bezerrão, estamos conversando um particular sobre problemas políticos.”

Bezerrão antes de ir embora, não se conteve, perguntou:

– “É que passei uns dias numa fazenda e estou com uma dúvida e quero que os senhores deputados me tirem essa dúvida: Por que a cabra que come capim quando faz cocô saem aquelas bolinhas pequenas, enquanto a vaca que também come capim, o cocô é enorme e espalhafatoso?” Como os deputados ficaram calados, ele rematou.

– “Os senhores não entendem de merda, avaliem de política!”

Retirou-se faceiro e gozador, ouvindo a gostosa e escancarada gargalhada de Teotônio, e a sisudez dos outros deputados que não gostaram da folga do policial.

Como investigador era ídolo dos mais jovens, os quais Bezerrão não perdoava com trotes e gozações. Certa tarde atiçou um policial novato para desarmar um cidadão que tomava sossegadamente cerveja em uma mesa no Café Colombo. O cidadão era o Capitão Camarão do Exército, conhecido na cidade como boêmio e encrenqueiro.

Quando o jovem policial perguntou ao senhor pacato, tomando cerveja, se estava armado; o Capitão retirou uma 45 (arma exclusiva do Exército) da cartucheira, colocou a pistola em cima da mesa e fez a pergunta ameaçadora.

– “Estou armado! E daí?”

O jovem ficou embaraçado sem saber o que fizesse naquele momento. Bezerrão foi em socorro, contou ao Capitão que tinha sido o mentor daquela “brincadeira”. Os três juntos ficaram até tarde da noite bebendo por conta do militar, que apesar de ser chegado a uma confusão, era um tremendo boa praça, querido no meio boêmio da cidade.

Na Rua do Comércio o pessoal adorava ouvir suas tiradas e iam ao delírio quando, por exemplo: um frequentador daquela rodinha do Café Colombo, recentemente eleito vereador, agora metido à autoridade, passou ao longe sem parar, sem se achegar, como fazia sempre antes das eleições. Bezerrão, não se conteve, gritou para o vereador ouvir do outro lado da rua.

– “Cavalcante! Agora como vereador você está metido à merda. Cuidado. Se tudo que subisse não caísse, o céu estava cheio de taboca de foguetes.”

Bezerrão, filósofo do povo, figura imortal, fez história nas ruas da cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, na Maceió de outrora. Sua filosofia ainda está atual quanto à de Platão desde os anos 400 Antes de Cristo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM NEGRO CHAMADO JAIME

Bar do Relógio e Hotel Bella Vista

Alguns cidadãos se destacam em certa época depois caem no esquecimento, entretanto, figuras populares que fazem a história real de uma cidade ficam gravadas, tornam-se inesquecíveis em nossa memória e fazem parte da história oral passada por gerações, muitas vezes não registradas em livros ou jornais da época

Ao passar pelo centro da cidade lembrei-me do Nêgo Jaime (desculpe-me o movimento afro, era assim que o chamávamos). Forte, mais de 1,90 metros, elegante, vestido sempre em um terno de linho branco, enfermeiro da Rede Ferroviária, boêmio, calmo como um budista, contudo, não levava desaforo para casa.

Certa vez, no Bar do Relógio, ponto da boemia, de virada de noite de Maceió, dois marinheiros bêbados tomavam a saideira para retornarem ao navio. Ao avistarem o Nêgo Jaime solitário em uma mesa, um dos marinheiros, com ar de superioridade, entregou-lhe uma dose de cachaça, “Toma Nêgão, quero ver se você é bom”. Jaime na maior paciência, disse que estava apenas de cervejinha, no outro dia tinha que trabalhar. O marinheiro bêbado insistiu, provocando, “Você não é homem Negão?” Jaime levantou-se calmamente, aproximou-se do marinheiro, deu-lhe um violento murro na cara e iniciou verdadeira batalha.

Os marinheiros eram bons de briga, entretanto, Jaime ficou com o diabo no corpo. Mais de meia hora entre murros e golpes, O Negão bateu com raiva, quase mata um dos marujos. Levaram para o Pronto Socorro com a cara e o corpo cheios de pancadas. No dia seguinte cinco marinheiros ficaram rondando o Bar do Relógio, perguntando onde Jaime trabalhava, queriam matar o Negão. Precisou um sério entendimento entre a Capitania dos Portos e a Rede Ferroviária. Só houve sossego quando o navio partiu.

Jaime não era desordeiro, nem arruaceiro, era debochado e gostava de umas biritas, o que atraia os provocadores. Toda sexta-feira, antes de comparecer à zona boêmia de Jaraguá, ele tomava umas cervejinhas no Bar da Maravilha. Numa dessas noites chegaram três playboys de lambreta e provocaram Nêgo Jaime, quieto em sua mesa. Ele se retirou elegantemente, deixou os provocadores, foi para os braços de Lourdinha na Boate Tabariz. Na sexta-feira seguinte Nêgo Jaime apareceu no Bar Maravilha segurando o paletó entre os dedos, ao sentar-se colocou seu paletó branco pendurado na cadeira ao lado, pediu cerveja e ficou observando o movimento.

De repente apareceram os quatro “playboy” fazendo maior zoada. Ao sentarem iniciaram a perturbar: “Olha aí o Picolé de Onça todo de branco”. “Macaco de branco fica mais feio”. Jaime segurou seu paletó pelos dedos, aproximou-se na maior calma, nem conversou, rodou o paletó na cara do primeiro que caiu no chão, ao se levantar levou outra paletozada, ficou estatelado, o Nêgão virou-se e mandou o paletó num lourinho metido a James Dean que se arriou no calçamento. Desesperados, os playboys montaram nas lambretas, partiram sem destino. Nunca mais apareceram às sextas-feiras no Bar Maravilha. Nêgo Jaime mostrou sua estratégia ao dono do bar ao descosturar a manga do paletó e tirar pedras pesadas arrumadas dentro das mangas, criativo, inventou uma arma.

Jaime tinha um chamego com a Nêga Jandira, dona de um bar e de uma bela bunda, todo ano eles desfilavam pela Escola de Samba Unidos do Poço. Jandira era a porta estandarte, bonita, sabia requebrar sua maravilhosa bunda deixando a moçada com água na boca. No carnaval, a Unidos do Poço desfilava para valer, queria ganhar o terceiro campeonato seguido, Jandira fazia evoluções com o estandarte no ar, delirantemente aplaudida pelo povo na Rua do Comércio, ao passar pelo palanque, defronte ao Cine São Luiz, Jandira deu tudo de si, Nêgo Jaime dançando, acompanhava mais atrás sua amiga a evoluir.

De repente apareceu um popular, como disse o jornal, não aguentou, atravessou a corda de segurança, passou a mão na bunda da Jandira e agarrou-a à retaguarda. Foi preciso Jaime destravá-lo do abraço traseiro, deu-lhe um murro, o tarado caiu de costas em frente à bilheteria do Cine São Luiz. Mesmo com esse inusitado acontecimento, como foi noticiado, os jurados compreenderam o desvario do tarado, deram à Escola de Samba Unidos do Poço o título de tricampeã do carnaval alagoano.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CINEMA, A EMOCIONANTE ARTE DE CONTAR HISTÓRIA

Quando a televisão apareceu os derrotistas previram o fim do cinema e da rádio, mal sabiam da força de comunicação e de informação que tinham e têm até hoje os filmes e as rádios, claro que mudaram as tecnologias, a poderosa televisão também mudou para sobreviver e continuar com a forte concorrência.

Em Maceió nos anos 50 havia vários cinemas. O mais moderno e movimentado era o Cinearte na Rua do Comércio, centro da cidade. No bairro da Pajuçara o Cine Rex era a distração das adjacências. Perto do Mercado reinava o Cine Ideal. Esses três cinemas pertenciam a um senhor conhecido na cidade, morador da praia de Pajuçara numa casa bem colorida, estilo art nuveau, infelizmente derrubada pela devastação imobiliária. Pressionado pela concorrência esse senhor vendeu-os à maior rede nacional de cinema, Luiz Severiano Ribeiro. No bairro da Ponta Grossa, Moacir Miranda, um amante do cinema, chegou a rodar alguns filmes, presenteou os moradores com o aprazível Cine Lux, o maior cinema da cidade. Como também a família Voss construiu o Cine Plaza no bairro do Poço. Além desses citados havia o Cine Royal por trás do Teatro Deodoro e o Cine Sururu, um “poeira” em Bebedouro, ao ar livre, no quintal da casa do proprietário; o espectador além de comprar ingresso levava sua cadeira. Quando chovia suspendia a seção. Esses eram nossos templos da maravilhosa Sétima Arte, assistíamos ao que havia de melhor em arte cinematográfica depois de um ou dois anos de sua estreia nos cinemas do Sul Maravilha.

O Cinearte, o mais antigo, nas décadas de 20 e 30 teve o primeiro nome, Cine Floriano, mudou para Capitólio e finalmente Cinearte. No final da década de 50 era obrigatório o uso de paletó para assistir às soirées (noite). Filmes em preto e branco, tela quadrada, cadeiras de madeiras, muitos ventiladores; ao escurecer as portas laterais eram abertas para amenizar o calor. Foi a época de grandes filmes: “Rebeca, a Mulher Inesquecível”; o clássico “Casablanca”, e as chanchadas nacionais de Oscarito e Grande Otelo.

Aos domingos pela manhã no Cine Ideal era vez dos filmes de cowboys, Roy Rogers, Zorro, e outros heróis. Imperdíveis eram as séries que terminavam sempre com o mocinho em situação de perigo e o indelével final escrito: “Voltem na próxima semana”.

As sessões da tarde, as matinês, eram geralmente cheias de alunos fugidos das aulas. Nas chiques soirées do Cinearte, o jovem comparecia interessado no filme e nas paqueras, ao encontrar no saguão com alguma paquera cochichava em seu ouvido pedindo para guardar o lugar. Quando o filme começava se a cadeira ao lado estivesse vaga, era o sinal, o rapaz sentava-se, era início de namoro. A moça só deixava segurar a mão. Beijar, depois de dois meses.

Havia um bom programa depois do filme, passear pela Rua do Comércio olhando vitrines das grandes lojas: A Brasileira, A Radiante, Lojas Tupy, Nova Aurora e tomar um sorvete na Gut-Gut, Danúbio ou DK1. Geralmente retornava para casa caminhando de mãos dados recebendo a brisa fresca da Avenida da Paz.

Certa época houve uma modernização nas instalações dos cinemas em todo o Brasil: poltronas acolchoadas e ar condicionado. Como também nova tecnologia nos filmes: tecnicolor e o cinemascope. Foi a época de grandes filmes americanos românticos: “Suplício de Uma Saudade”, “Pic-Nic”, “Vertigo”, “Tarde Demais para Esquecer”, “Candelabro Italiano”. Uma revolução que os cinemas de Severiano Ribeiro ofereceram ao Brasil. Apenas aqui em Maceió, o Cinearte continuava com cadeiras de madeiras, ventiladores, sem o mínimo conforto. Foi quando houve uma atitude de cidadania encabeçada pelos estudantes de Direito, fizeram manifestações, assinaram crônicas, nada abalou à administração do cinema. Até que resolveram partir para ação. Planejaram um movimento pacífico chamado de FILA BOBA. Os estudantes faziam uma enorme fila em todas as sessões, cada estudante ao chegar ao guichê perguntava pelo preço do ingresso, ouvia a resposta, não comprava, imediatamente saía da fila dando lugar ao próximo e entrava novamente no final da fila. Dessa maneira pouca gente conseguiu entrar no cinema.

Os estudantes queriam apenas a melhoria de conforto que a Luiz Severiano Ribeiro proporcionou nos cinemas do Brasil. A notícia chegou aos jornais, rádios e televisão, começou a se espalhar por toda cidade, os estudantes de engenharia, medicina e odontologia aderiram. A FILA BOBA aumentou, dobrava dois quarteirões na Rua do Comércio. Depois de uma semana de boicote, sem baderna, sem vandalismo, sem clientela, o Cinearte fechou para reforma. Reabriu meses depois com o nome de São Luiz, com poltronas estofadas, ar condicionado, cinemascope. Foi uma bela vitória da cidadania e da inteligência. Os Shoppings acabaram com os cinemas de bairros oferecendo salas superconfortáveis. Porém, nesse tempo de pandemia as salas fechadas, estamos nos valendo dos serviços de “streaming” na televisão. Eu assisto pelo menos a um filme por dia. E viva o cinema, a mais linda arte de contar história.