CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM NEGRO CHAMADO JAIME

Bar do Relógio e Hotel Bella Vista

Alguns cidadãos se destacam em certa época depois caem no esquecimento, entretanto, figuras populares que fazem a história real de uma cidade ficam gravadas, tornam-se inesquecíveis em nossa memória e fazem parte da história oral passada por gerações, muitas vezes não registradas em livros ou jornais da época

Ao passar pelo centro da cidade lembrei-me do Nêgo Jaime (desculpe-me o movimento afro, era assim que o chamávamos). Forte, mais de 1,90 metros, elegante, vestido sempre em um terno de linho branco, enfermeiro da Rede Ferroviária, boêmio, calmo como um budista, contudo, não levava desaforo para casa.

Certa vez, no Bar do Relógio, ponto da boemia, de virada de noite de Maceió, dois marinheiros bêbados tomavam a saideira para retornarem ao navio. Ao avistarem o Nêgo Jaime solitário em uma mesa, um dos marinheiros, com ar de superioridade, entregou-lhe uma dose de cachaça, “Toma Nêgão, quero ver se você é bom”. Jaime na maior paciência, disse que estava apenas de cervejinha, no outro dia tinha que trabalhar. O marinheiro bêbado insistiu, provocando, “Você não é homem Negão?” Jaime levantou-se calmamente, aproximou-se do marinheiro, deu-lhe um violento murro na cara e iniciou verdadeira batalha.

Os marinheiros eram bons de briga, entretanto, Jaime ficou com o diabo no corpo. Mais de meia hora entre murros e golpes, O Negão bateu com raiva, quase mata um dos marujos. Levaram para o Pronto Socorro com a cara e o corpo cheios de pancadas. No dia seguinte cinco marinheiros ficaram rondando o Bar do Relógio, perguntando onde Jaime trabalhava, queriam matar o Negão. Precisou um sério entendimento entre a Capitania dos Portos e a Rede Ferroviária. Só houve sossego quando o navio partiu.

Jaime não era desordeiro, nem arruaceiro, era debochado e gostava de umas biritas, o que atraia os provocadores. Toda sexta-feira, antes de comparecer à zona boêmia de Jaraguá, ele tomava umas cervejinhas no Bar da Maravilha. Numa dessas noites chegaram três playboys de lambreta e provocaram Nêgo Jaime, quieto em sua mesa. Ele se retirou elegantemente, deixou os provocadores, foi para os braços de Lourdinha na Boate Tabariz. Na sexta-feira seguinte Nêgo Jaime apareceu no Bar Maravilha segurando o paletó entre os dedos, ao sentar-se colocou seu paletó branco pendurado na cadeira ao lado, pediu cerveja e ficou observando o movimento.

De repente apareceram os quatro “playboy” fazendo maior zoada. Ao sentarem iniciaram a perturbar: “Olha aí o Picolé de Onça todo de branco”. “Macaco de branco fica mais feio”. Jaime segurou seu paletó pelos dedos, aproximou-se na maior calma, nem conversou, rodou o paletó na cara do primeiro que caiu no chão, ao se levantar levou outra paletozada, ficou estatelado, o Nêgão virou-se e mandou o paletó num lourinho metido a James Dean que se arriou no calçamento. Desesperados, os playboys montaram nas lambretas, partiram sem destino. Nunca mais apareceram às sextas-feiras no Bar Maravilha. Nêgo Jaime mostrou sua estratégia ao dono do bar ao descosturar a manga do paletó e tirar pedras pesadas arrumadas dentro das mangas, criativo, inventou uma arma.

Jaime tinha um chamego com a Nêga Jandira, dona de um bar e de uma bela bunda, todo ano eles desfilavam pela Escola de Samba Unidos do Poço. Jandira era a porta estandarte, bonita, sabia requebrar sua maravilhosa bunda deixando a moçada com água na boca. No carnaval, a Unidos do Poço desfilava para valer, queria ganhar o terceiro campeonato seguido, Jandira fazia evoluções com o estandarte no ar, delirantemente aplaudida pelo povo na Rua do Comércio, ao passar pelo palanque, defronte ao Cine São Luiz, Jandira deu tudo de si, Nêgo Jaime dançando, acompanhava mais atrás sua amiga a evoluir.

De repente apareceu um popular, como disse o jornal, não aguentou, atravessou a corda de segurança, passou a mão na bunda da Jandira e agarrou-a à retaguarda. Foi preciso Jaime destravá-lo do abraço traseiro, deu-lhe um murro, o tarado caiu de costas em frente à bilheteria do Cine São Luiz. Mesmo com esse inusitado acontecimento, como foi noticiado, os jurados compreenderam o desvario do tarado, deram à Escola de Samba Unidos do Poço o título de tricampeã do carnaval alagoano.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CINEMA, A EMOCIONANTE ARTE DE CONTAR HISTÓRIA

Quando a televisão apareceu os derrotistas previram o fim do cinema e da rádio, mal sabiam da força de comunicação e de informação que tinham e têm até hoje os filmes e as rádios, claro que mudaram as tecnologias, a poderosa televisão também mudou para sobreviver e continuar com a forte concorrência.

Em Maceió nos anos 50 havia vários cinemas. O mais moderno e movimentado era o Cinearte na Rua do Comércio, centro da cidade. No bairro da Pajuçara o Cine Rex era a distração das adjacências. Perto do Mercado reinava o Cine Ideal. Esses três cinemas pertenciam a um senhor conhecido na cidade, morador da praia de Pajuçara numa casa bem colorida, estilo art nuveau, infelizmente derrubada pela devastação imobiliária. Pressionado pela concorrência esse senhor vendeu-os à maior rede nacional de cinema, Luiz Severiano Ribeiro. No bairro da Ponta Grossa, Moacir Miranda, um amante do cinema, chegou a rodar alguns filmes, presenteou os moradores com o aprazível Cine Lux, o maior cinema da cidade. Como também a família Voss construiu o Cine Plaza no bairro do Poço. Além desses citados havia o Cine Royal por trás do Teatro Deodoro e o Cine Sururu, um “poeira” em Bebedouro, ao ar livre, no quintal da casa do proprietário; o espectador além de comprar ingresso levava sua cadeira. Quando chovia suspendia a seção. Esses eram nossos templos da maravilhosa Sétima Arte, assistíamos ao que havia de melhor em arte cinematográfica depois de um ou dois anos de sua estreia nos cinemas do Sul Maravilha.

O Cinearte, o mais antigo, nas décadas de 20 e 30 teve o primeiro nome, Cine Floriano, mudou para Capitólio e finalmente Cinearte. No final da década de 50 era obrigatório o uso de paletó para assistir às soirées (noite). Filmes em preto e branco, tela quadrada, cadeiras de madeiras, muitos ventiladores; ao escurecer as portas laterais eram abertas para amenizar o calor. Foi a época de grandes filmes: “Rebeca, a Mulher Inesquecível”; o clássico “Casablanca”, e as chanchadas nacionais de Oscarito e Grande Otelo.

Aos domingos pela manhã no Cine Ideal era vez dos filmes de cowboys, Roy Rogers, Zorro, e outros heróis. Imperdíveis eram as séries que terminavam sempre com o mocinho em situação de perigo e o indelével final escrito: “Voltem na próxima semana”.

As sessões da tarde, as matinês, eram geralmente cheias de alunos fugidos das aulas. Nas chiques soirées do Cinearte, o jovem comparecia interessado no filme e nas paqueras, ao encontrar no saguão com alguma paquera cochichava em seu ouvido pedindo para guardar o lugar. Quando o filme começava se a cadeira ao lado estivesse vaga, era o sinal, o rapaz sentava-se, era início de namoro. A moça só deixava segurar a mão. Beijar, depois de dois meses.

Havia um bom programa depois do filme, passear pela Rua do Comércio olhando vitrines das grandes lojas: A Brasileira, A Radiante, Lojas Tupy, Nova Aurora e tomar um sorvete na Gut-Gut, Danúbio ou DK1. Geralmente retornava para casa caminhando de mãos dados recebendo a brisa fresca da Avenida da Paz.

Certa época houve uma modernização nas instalações dos cinemas em todo o Brasil: poltronas acolchoadas e ar condicionado. Como também nova tecnologia nos filmes: tecnicolor e o cinemascope. Foi a época de grandes filmes americanos românticos: “Suplício de Uma Saudade”, “Pic-Nic”, “Vertigo”, “Tarde Demais para Esquecer”, “Candelabro Italiano”. Uma revolução que os cinemas de Severiano Ribeiro ofereceram ao Brasil. Apenas aqui em Maceió, o Cinearte continuava com cadeiras de madeiras, ventiladores, sem o mínimo conforto. Foi quando houve uma atitude de cidadania encabeçada pelos estudantes de Direito, fizeram manifestações, assinaram crônicas, nada abalou à administração do cinema. Até que resolveram partir para ação. Planejaram um movimento pacífico chamado de FILA BOBA. Os estudantes faziam uma enorme fila em todas as sessões, cada estudante ao chegar ao guichê perguntava pelo preço do ingresso, ouvia a resposta, não comprava, imediatamente saía da fila dando lugar ao próximo e entrava novamente no final da fila. Dessa maneira pouca gente conseguiu entrar no cinema.

Os estudantes queriam apenas a melhoria de conforto que a Luiz Severiano Ribeiro proporcionou nos cinemas do Brasil. A notícia chegou aos jornais, rádios e televisão, começou a se espalhar por toda cidade, os estudantes de engenharia, medicina e odontologia aderiram. A FILA BOBA aumentou, dobrava dois quarteirões na Rua do Comércio. Depois de uma semana de boicote, sem baderna, sem vandalismo, sem clientela, o Cinearte fechou para reforma. Reabriu meses depois com o nome de São Luiz, com poltronas estofadas, ar condicionado, cinemascope. Foi uma bela vitória da cidadania e da inteligência. Os Shoppings acabaram com os cinemas de bairros oferecendo salas superconfortáveis. Porém, nesse tempo de pandemia as salas fechadas, estamos nos valendo dos serviços de “streaming” na televisão. Eu assisto pelo menos a um filme por dia. E viva o cinema, a mais linda arte de contar história.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

JATIÚCA

Iniciei uma trilogia: três romances contando a história de uma família da classe média alta desde o ano de 1921 quando aportou em Maceió o colombiano Pablo Marquez. O primeiro livro com o título de MANGUABA (lagoa das Alagoas) é passado entre 1921 e 1964, está com 1ª edição esgotada, sendo reeditada. O segundo livro MUNDAÚ (outra lagoa das Alagoas) as histórias abrangem 1965 a 1979 – esse segundo livro foi lançado online para todo o Brasil pela Editora Aletria de Belo Horizonte. Finalmente o terceiro livro da trilogia abarca entre 1980 e 1994 está na 203ª página em meu computador; será lançado este ano com o título de JATIÚCA, praia linda de Maceió, onde moro.

Hoje andei no calçadão tomando banho de sol por quase uma hora, recordei como era distante do centro esse bairro, essa praia. No final dos anos 60 a belíssima orla era apenas um imenso coqueiral, cheio de plantas, cheio de matos. Destacava-se apenas o Sítio Jatiúca do Dr. Théo Brandão, uma das figuras mais importantes no folclore e na cultura alagoana. Havia uma casa recuada. Certa noite, como diretor social do CRB, levei a miss Alagoas, ao sítio Jatiúca para Dr. Théo dar sugestão do traje típico para o desfile da jovem no concurso de Miss Brasil. Nossa miss brilhou no Rio de Janeiro com a fantasia de Diana do Pastoril, ideia do nosso maior folclorista. Naquela noite, Dr. Théo me explicou a origem do nome de seu sítio. Havia muito carrapato (mamona) na região, na língua indígena chamado de Jatiúca, ele então deu esse nome ao sítio. Anos depois a região foi transformada no bairro mais badalado dessa cidade, bairro da Jatiúca.

O bairro teve início nos anos 70 com a construção do grande conjunto habitacional Castello Branco. A COHAB comprou um extenso terreno para o empreendimento, abriu ruas paralelas e uma Avenida no centro do loteamento desembocando na praia. Nessa época do milagre econômico eu estudava engenharia, com outros colegas conseguimos estágio na fiscalização da construção dos blocos de apartamentos, foi quando aprendi a construir.

Fui testemunha de um fato esclarecedor sobre o nome da avenida central, a Avenida Amélia Rosa. A Construtora Silva ganhadora da concorrência tocava a obra, um fornecedor de material de construção para puxar o saco do Seu Silva, pediu a um vereador que a Avenida principal do empreendimento se denominasse Amélia Rosa, nome de uma velha senhora de Arcoverde, Pernambuco, que nunca pisou nas Alagoas, mas tinha o merecimento de ser mãe de Seu Silva, o dono da construtora. Até hoje ninguém sabe, ninguém viu a senhora Amélia Rosa em Maceió. Já tentaram mudar o nome, a Câmara de Vereador de Maceió rebatizou como Avenida Antônio Gomes de Barros. O povo acostumado com a Amélia, resistiu, o novo nome não emplacou. Amélia Rosa é mais fácil e fruto de uma tenebrosa puxada de saco, ferramenta corriqueira na política universal.

Hoje Jatiúca é o bairro mais charmoso da cidade. Nele moram figuras proeminentes das Alagoas, como o ex presidente Fernando Collor, o ex governador Téo Vilela e esse imodesto escritor que tecla no computador se inspirando na bela vista do mar verde azulado olhando de sua janela. Com vários hotéis e restaurantes é área do mais alto teor boêmio. Um dos primeiros bares da badalação foi o “Bye Bar Brasil”, empreendimento de uma figura maravilhosa da noite, Paulinha da Palmeira dos Índios, terra de Graciliano. O nome do bar é uma clara alusão ao famoso filme “Bye Bye Brasil” do cineasta Cacá Diegues.

Certa vez Cacá, amigo de infância, esteve em Maceió e desejou conhecer o famoso bar. À noite juntamente com Vera Arruda, Miltinho, Celso Brandão, Elinaldo Barros sentamos em uma estratégica mesa no Bye Bar Brasil. Local agradável, chope, bom tira-gosto, boa conversa. Apresentei Paulinha ao Cacá. Ele pediu que ela sentasse ao lado e falou com ar sério: o nome do filme Bye Bye Brasil, ou similares, não poderia usado sem um contrato, Paulinha teria que pagar uma indenização e que seu advogado em Alagoas, Dr. Guilherme Braga, iria procurá-la para acerta o pagamento por uso indevido do nome.

Paulinha perdeu a graça, preocupada foi atender ao caixa. Depois de meia hora, Cacá percebeu a tristeza da dona do bar, chamou-a, sorrindo disse que tinha uma proposta: o nome Bye Bar Brasil continuava, entretanto, o amigo Carlito Lima a partir daquela data até o final do ano beberia chope de graça no bar. Paulinha percebendo a brincadeira aliviou-se, respondeu que naquele caso preferia pagar a indenização. Sentou-se em nossa mesa, o papo foi quase à madrugada. Fomos os últimos a sair, o sol estava nascendo por trás dos coqueiros da Jatiúca.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEUS QUERIDOS RÉVEILLONS

Nos anos dourados, 50/60, em nossa cidade, na virada de ano, ainda não havia festa de fogos de artifícios na orla. As festas populares eram de rua, na Praça Afrânio Jorge ou Sinimbu, onde se armavam palcos para o pastoril dançar e apresentações dos exuberantes folclores: chegança, guerreiro, reisado. O povão comemorava a passagem de ano nas barracas com a família ou em casa

A classe média organizava a festa da virada de ano nos clubes. Eu, como um bom morador da Avenida da Paz, festejava o ano novo no animadíssimo Réveillon do Clube Fênix Alagoana. Baile chique, homens trajavam smokings pretos com gravatas borboletas, faixas na cintura e as mulheres em cintilantes vestidos de bailes longos. Ao romper o ano novo no salão nobre do clube, os abraços não davam para quem queria. Momentos de alegria, beijos, chapeuzinho e apito. Também um bom momento para rever amigos que estudavam ou moravam fora.

O baile era animado pelas melhores orquestras do Brasil, Tabajara de Severino Araújo, até a Casino de Sevilha. Muito charme, champanhe, comidinhas e moças bonitas desfilando em seus vestidos prateados, deslumbrantes. A mesa de meu pai era constantemente visitada para abraços e doses de uísque. Eu não parava, dançando com uma moça bonita ou cumprimentando os amigos. Tomava um bom uísque nas mesas mais animadas de Benedito Bentes, Teotônio Vilela, Jorge Quintela, Ardel Jucá. Cerca de duas horas da manhã a orquestra suspendia a música para anunciar a rainha do Clube Fênix. As jovens desde o início desfilavam informalmente, como se nada quisessem, eram candidatíssimas ao cetro de rainha.

Os metais sinfônicos tocavam músicas da época, bolero, chá-chá-chá, casais de namorados dançando de rosto e corpo colados no salão. Pelas quatro da manhã, de repente: uma, duas, três batidas de bombo anunciava o carnaval. A moçada e as senhoras de belos vestidos longos e cintados, os homens de smokings caíam no passo com o Vassourinhas ou cantando com alegria as marchinhas de Capiba.

“Mandei fazer um buquê para minha amada, mas sendo ele de bonina disfarçada…o brilho da estrela matutina…adeus menina linda flor da madrugada….” (escute a música no final da postagem…)

Iniciava o ano novo com um animado carnaval. Nada mais alegre, mais feliz. Ao despontar o dia, o Maestro Passinha descia com a orquestra em direção à praia tocando as mais belas canções e frevos de carnaval acompanhado pelos foliões bem vestidos. Amigos de braços dados, namorados aos beijos continuavam a festa vendo surgir um ano novo, amanhecendo o dia cantando e dançando embaixo das amendoeiras da Avenida, com direito a mergulho de roupa no mar calmo de uma luminosa manhã. Surgiam novas esperanças..

Namorados ainda bêbados, alegres, com o paletó do smoking aberto, o vestido caprichosamente costurado durante meses para o baile do réveillon, mergulhavam no mar ainda alaranjado pelo sol nascente, saudavam Iemanjá, Netuno e a vida. O réveillon dos anos dourados, da gente dourada, acabava na praia, como se fora a abertura do carnaval.

No primeiro dia do ano, depois de uma virada carnavalesca, eu acordava tarde, vestia um velho calção de banho, descia à praia da Avenida. Nas rodinhas de conversa, de paquera, embaixo das sombrinhas, o assunto era o réveillon, quem namorou, quem acabou o namoro, a rainha não merecia, tinha moças mais bonitas, essas conversas de jovens saindo da adolescência.

Na hora do almoço as meninas iam para casa, enquanto nós jovens, sadios, com força e vigor, continuávamos o primeiro dia do ano tomando uma cachacinha nos bares da praia em Jaraguá, perto dos trapiches, frequentados pelas raparigas amantes de banho de mar, às vezes, subíamos as escadas dos casarões para desejar um feliz ano novo às jovens que faziam vida nas pensões do bairro boêmio.

Os homens em suas imaginações férteis, às vezes maldosas, criam previsões infactíveis, como: o fim do mundo; um cometa destruirá a terra nos próximos anos; a existência de uma teia de aranha cobrindo o nosso planeta e outras babaquices. No final de 1959 um astrólogo do sul do país espalhou que o homem negro na passagem para 1960 iria virar macaco. Foi criado um verdadeiro terror, quem era realmente negro, analfabeto, ficou bastante preocupado com essa possível transformação em macaco. A brincadeira de mau gosto correu como uma onda em Maceió. Um amigo, Gerson, negro que nem um tição, melhor jogador de futebol da praia, me confidenciou, estava com medo da chegada do dia 31 de dezembro. Eu custei a convencê-lo que não passava de uma galhofa de péssimo gosto. Houve um clube que decorou o salão com bananeiras e bananas, foi o Réveillon da Banana.

Nelson Ferreira grande compositor pernambucano pegou essa notícia esdrúxula e compôs um frevo, muito tocado durante carnaval, dizia mais ou menos assim:

“Dizem que em sessenta… Negro vai virar macaco… Vejam só a grande confusão… Se for verdade essa Operação Macaco… Penca de banana vai custar um milhão.”

Terminava a música se lastimando que o Brasil ia perder Pelé e Didi. Hoje, certamente, Nelson Ferreira seria crucificado.

Assim eram nossos réveillons, cheios de charmes e histórias fantásticas. Um excelente 2021, que todos sejam vacinados, e que amanhã tudo volte ao normal, deixa o ano acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar…

* * *

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Depois de três anos de muito estudo, privação e ralação, afinal Bentinho terminava o curso na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Seu destino era a Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formaria oficial do Exército. Naquele ano houve em Fortaleza uma “Maratona de Matemática”. Bentinho bom na matéria tirou 1º lugar. Ganhou uma passagem à Europa pela PANAIR.

Ao chegar á Maceió mostrava a passagem com orgulho, seu prêmio, tinha agora uma sonhada viagem à Europa. O programa de férias era simples como são as coisas boas da vida. Bentinho acordava cedo, vestia um velho calção de banho, descia para a praia da Avenida da Paz, jogava futebol, mergulhava no azul do mar, namorava Ana Lúcia. Encerrava o dia com boa noitada na boemia de Jaraguá.

Certa tarde convidou a namorada para assistir no Cine São Luiz, o filme, “Suplício de uma Saudade”. Ao sair do cinema passearam pela Rua do Comércio apreciaram vitrines das lojas: A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada vitrine da Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara dourada. Entraram na joalheria. Bentinho colocou a tiara na cabeça de Ana Lúcia, ficou emocionado com a beleza. Ao ver o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes. A tiara ficou catalogada nos sonhos impossíveis.

Na véspera de Natal a juventude convergia à festa de rua na Praça da Faculdade, Praça Afrânio Jorge, no Prado. Bentinho amava assistir os folguedos natalinos, pastoril, chegança, guerreiro, reisado, o belo folclore de sua terra. Perto da meia-noite cada qual se reunia com a família em casa para a distribuição e troca de presentes. Depois da ceia as famílias vizinhas assistiam a missa no coreto da Avenida da Paz.

Bentinho emocionou-se ao ver Ana Lúcia na missa, estava mais linda, exuberante, deslumbrante, cabelos castanhos longos, o sorriso mostrava a alegria de sua alma. Ele se aproximou, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.

Ao desembrulhar o papel, apareceu uma linda caixa. Ana Lúcia abriu, emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreendida. A emoção lhe deixou atônita ao perceber a cintilante, a belíssima tiara da Joalheria Machado. Colocou-a de imediato na cabeça, uma rainha. Ela soube depois, seu amado havia se sacrificado, vendeu a preciosa passagem para Europa e comprou o desejado e impossível presente. Ana Lúcia feliz, radiosa, mostrava a todos sua belíssima tiara. Qual mulher não fica louca de felicidade por uma loucura de amor?

Depois da missa se afastaram, ficaram conversando num banco da Avenida, quase deserta, com beijos e carinhos excitantes. Eram quase três horas da manhã quando a namorada convidou Bentinho para um passeio na praia, curtir as estrelas, noite escura de lua nova, molhando os pés na marola e sapatos nos dedos. Em certo momento abraçaram-se, ela devagar se sentou na morna areia, tomou-lhe a mão, puxando-o. Ele sentou-se ao lado e ouviu a mais bela declaração de amor.

“- Bentinho, eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei essa semana escolhendo um presente para você nesse Natal. Foi difícil, tudo que imaginava você merecia mais. Na hora de dormir ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida, eu mesma. Nesse Natal quero lhe dar meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama, me respeita, também é tarado por mim. Meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua…”

Abraçaram-se na areia branca. Com muitos carinhos soltaram os desejos presos, lascívia cheia de ternura. O vento soprou em direção ao mar, apenas Yemanjá, os botos, as carapebas, tainhas, arraias, ouviram os gritos de dor e de gozo de uma rainha de tiara dourada.

Os dois ainda estavam deitados na areia, abraçados, quando o Sol apareceu como um Rei. Despontou no horizonte bem longe uma cabeça vermelha como se fosse uma criança nascendo. Nuvens brancas tornaram-se raiadas, alaranjadas, avermelhadas, o mar tremeluziu dourado. Uma luminosa manhã apareceu alegre despertando a cidade. Os amantes se levantaram, abraçados, descalços. Com os sapatos entre os dedos, cada qual a caminho de sua casa. Felizes.

Os raios de sol iluminaram na praia a marca encarnada de amor nos lençóis de areia branca, sangue e areia; sangue rubro impregnado na areia alva. Um dia bonito de verão surgiu; testemunhando uma história de amor. Uma História de Natal.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O NATAL DO CENTENÁRIO DA AVENIDA DA PAZ

As Capitanias Hereditárias foram a primeira medida reais de colonização tomada pelos portugueses em relação ao Brasil. Com as capitanias, foi implantado um sistema de divisão administrativa por ordem do rei português D. João III, em 1534. A América Portuguesa foi dividida em 15 faixas de terra, e a administração dessas terras foi entregue a cada um dos donatários. A capitania de Pernambuco em cujo território incluía a região que hoje é o Estado de Alagoas tinha como donatário Duarte Coelho que inicialmente preocupou-se apenas com Recife e Olinda. Os sabidos franceses com suas naus corsárias passaram por essa bela região e verificaram que era abundante em Pau Brasil. Construíram o Porto dos Franceses onde hoje é a belíssima praia do Francês, daí o nome, e ficou por mais de 40 anos roubando o Pau Brasil descaradamente e levando para Europa em suas embarcações de madeiras. Eles não construíram uma casa, não houve colonização francesa na região, era apenas roubo.

Tardiamente o donatário da capitania de Pernambuco se mancou, expulsou os franceses e construiu o povoado de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, onde hoje é a cidade de Marechal Deodoro. O porto dos franceses foi aberto para o comercio. O povoado passou a vila em 1611 e depois os nomes da vila foram diminuindo para Alagoa do Sul, depois, apenas Alagoas. Quando em 1817 nossa província de emancipou politicamente de Pernambuco tomou o nome de Província de Alagoas com capital na cidade de Alagoas (hoje Marechal). Acontece que por volta do século XVIII veio a Revolução Industrial no mundo e as embarcações de madeiras, as naus, foram substituídas pelos navios de ferro, os vapores.

Quando esses vapores vieram comercializar em nossa região não podiam atracar no porto dos franceses, de madeira, muito frágil, entretanto, encontraram um ancoradouro natural em pedras dentro do mar fazendo uma curva na enseada de Jaraguá. Os grandes navios aportaram nesse ancoradouro e Jaraguá iniciou uma efervescência de desenvolvimento refletido na cidade de Maceió que teve um surto de desenvolvimento ficando maior que a cidade de Alagoas (Marechal). Em 1839 a capital da Província de Alagoas foi transferida para a cidade de Maceió, sob o protesto do povo da antiga capital, chegaram a planejar uma guerra para não deixar levar o grande cofre da Prefeitura. Maceió cresceu muito com dois núcleos populacionais: o bairro de Jaraguá e o povoado do Centro gerado de um engenho de açúcar construído onde hoje é a Praça Pedro II, em frente à Igreja da Catedral. Ligaram os dois núcleos urbanos construindo um aterro e a praia de Jaraguá passou a se chamar, praia do Aterro.

Entre 1914 e 1918 rebentou a 1ª Grande Guerra Mundial, Alagoas não foi à Guerra, mas, quando se deu o armistício, quando a guerra acabou em 1918, o então prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos festejou com a população a paz mundial na praia do Aterro com as Bandas Filarmônicas Santa Cecília e Carlos Gomes de Marechal Deodoro e muita cachaça. Um verdadeiro carnaval comemorando a paz entre os povos, a paz mundial. Naquela festa o prefeito prometeu a população que ali na praia do aterro construiria uma Avenida bonita à beira mar e daria o nome de Avenida da Paz. Como o prefeito era um homem de palavra diferente desses políticos de hoje em dia, construiu a bela Avenida Paz que foi inaugurada em 1920.

E nesse ano de 2020, a poeta, artista, produtora, Mirna Porto, com sua sensibilidade resolveu realizar o Natal do Centenário da Avenida da Paz, com uma festa belíssima, muita música, muita animação, claro que tomando todos os cuidados possíveis nessa época de pandemia, entre 15 de dezembro e 5 de janeiro. Está de parabéns a cidade de Maceió, a centenária Avenida Paz continua tão bela quanto em 1920 quando foi entregue ao povo. A festa do centenário está sendo realizada no coreto, que foi construído em 1928 pelo, então prefeito Jaime de Altavilla, e continua até dia 5 janeiro. Mesmo nesse tempo de pandemia, um bom Natal para todos maceioense e os agradecimentos a essa mulher forte, decidida, sensível, essa artista que já deixou seu nome na história da cultura alagoana, Mirna Porto.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MORENA DA GRUTA DE LOURDES

Na década de 60 era um vasto terreno. Tudo era mata e uma pequena gruta. A família Breda, uma das mais tradicionais da cidade de Maceió, chegou, construiu sua mansão e começou a lotear o imenso terreno, vendendo por preços módicos. O velho Breda quis homenagear sua esposa, dona Lourdes e Nossa Senhora de Lourdes, e daí surgiu o nome do novo bairro: Gruta de Lourdes.

As famílias de classe média começaram a se interessar pelo local, e foram construindo suas casas, já obedecendo à arquitetura moderna, separada uma das outras por muros, com jardins, garagem e quintal. Também doou terreno para a construção do primeiro grupo escolar. E o bairro foi crescendo.

Jardim do Horto na Gruta de Lourdes é um empreendimento urbano dos mais bonitos e bem planejados da cidade. Nesse aprazível local de ótima qualidade de vida moram os abastados; médicos, engenheiros, promotores, fazendeiros, grandes comerciantes. Apenas sortudos da vida residem nesse paraíso. Entre eles encontra-se o médico e fazendeiro, Dr. Nerivaldo do Amaral. Sua santa esposa, Salete, o tem como um Deus, ou melhor, um santo imaculado, um bom samaritano, imagem conseguida em anos de convívio.

De fato, Nerivaldo é um homem trabalhador. Seu patrimônio foi construído com muito suor. Honesto nos negócios, sempre procurou justiça em suas decisões e na sociedade. Não joga, nem fuma, bebe um pouquinho.

Um cidadão não pode possuir apenas qualidades, seria um absurdo histórico e sociológico. Todos têm algum defeito, o Dr. Nerivaldo também tem seu ponto fraco. Seu calcanhar de Aquiles é uma morena, menina nova e carinhosa. Com truques e artimanhas, ele consegue camuflar suas aventuras. Salete nem desconfia e põe a mão no fogo por seu marido.

Certo dia, ao sair do Jardim do Horto para o trabalho, entrando na Avenida Fernandes Lima em direção ao consultório, parou no sinal vermelho do semáforo, ao lado ambulantes vendiam frutas e verduras. Apareceu de repente uma moça oferecendo macaxeira da melhor qualidade, barata, dizia a morena com vestido leve e solto, cabelos encaracolados, olhos negros que ao encontrarem os de Nerivaldo pareceram sair faíscas. Nosso médico teve tempo de comprar um feixe de macaxeira, logo deu partida no carro quando o sinal verde abriu passagem.

No dia seguinte ao passar pelo mesmo sinal procurou e avistou a morena da cor do pecado que lhe sorriu ofertando um feixe de macaxeira. Ele deu uma nota de R$ 20,00 e alegrou a jovem mandando guardar o troco.

Continuou comprando macaxeira diariamente. Teve de explicar à esposa, comprava para ajudar sobreviver uma família faminta. Salete deu-lhe um cheiro com amor, enaltecendo a generosidade do marido.

Nerivaldo nunca esperou as coisas caírem do céu, sempre as fez acontecerem. No início de uma tarde de uma sexta-feira de verão, quando a bela morena dos olhos de graúna se aproximou, em poucas palavras ele se abriu, disse o que queria. Marcou encontro no ponto de ônibus próximo, às sete da noite.

No retorno do trabalho, na hora marcada, ele foi se aproximando do local, marcha lenta numa avenida de alta velocidade, percebeu que a jovem estava no ponto combinado. Invadiu-lhe uma alegria indisfarçável de aventureiro, freou o carro, a morena entrou, sorriu sentando a seu lado.

Dr. Nerivaldo ficou deslumbrado com a beleza daquela mulher sem pintura, parecia porcelana marrom. O rosto oval coberto pelos cabelos encaracolados abrigava dois olhos negros, brilhantes e desafiantes como se chamuscassem pequenos raios. Boca carnuda sorridente dava o toque sensual das mestiças. Maria da Pureza, 22 anos, nascida em um povoado de Lagoa da Canoa (terra de Hermeto Pascoal). Bastava isso para o Dr. Nerivaldo, nada mais quis saber.

Quebrando o gelo com conversa divertida, o doutor passeou com o carro durante mais de 10 minutos até chegar num motel do Tabuleiro. Pegaram a melhor suíte, bem decorada, cheia de espelhos, impressionou Pureza, ela admirava: Que bonito, que bonito!

Nerivaldo abraçou a morena, beijando-a no pescoço, no rosto, na boca. Num rompante carinhoso desabotoou os laços por cima dos ombros, o vestido de chita caiu-lhe aos pés, mostrando o corpo perfeito, torneado, curvas sensuais, seios pontiagudos, pareciam dois cuscuz de chocolate. Noite inesquecível. De madrugada partiu para a fazenda, aonde deveria estar desde a noite anterior.

O Doutor não pode mais viver sem Pureza, a morena da Gruta, que continua a morar numa casa singela, por trás do condomínio dos ricos. Por imposição de Nerivaldo ela agora estuda à noite, aprendeu a ler, não vende mais macaxeira, está trabalhando numa empresa de um amigo servindo cafezinho e fantasias aos homens. Entretanto, permanece fiel a seu protetor, o bom “samaritano”, Dr. Nerivaldo do Amaral residente no Jardim da Gruta.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARTA A JHC

Caro Prefeito eleito de Maceió, João Henrique Caldas:

Machado de Assis em seu célebre romance apresenta a Teoria de Quincas Borba na frase que ficou famosa “Ao vencedor as Batatas”. Essa frase indica que apenas as disputas, as guerras (e as eleições) levam um grupo à vitória, e nesse caso o vencedor é simbolizado com o ganho das batatas, ou seja, aquele que mais apto venceu a concorrência do meio. Significa que pela disputa da Prefeitura de Maceió, as batatas, a “batata quente” está em suas mãos. Foi uma vitória de repercussão nacional por ter vencido o candidato apoiado pelo governador Renan Filho e o pai, senador Renan Calheiros. Eu votei no meu querido amigo, Alfredo Gaspar, um homem honrado, e continuo cidadão de Maceió, por isso quero desejar uma excelente administração à frente de minha cidade, essa linda.

“A democracia é o mais complicado dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela”, dizia o nobre inglês, herói da 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill. No início da República Brasileira, os eleitos tinham força de donos do Estado, quase ditadores. Felizmente a democracia evoluiu às duras penas, hoje no Brasil o sentimento de pertencimento do cidadão é latente, o amor à cidade não é privilégio.

Trocando em miúdes, quero dizer que o senhor foi eleito para administrar Maceió, é quem vai definir as prioridades e escolher seus auxiliares dentro dos compromissos políticos, assim é a democracia. Os compromissos com o povo durante a campanha eleitoral são tão importantes quanto os compromissos com quem o apoiou. E o senhor é prefeito de toda a cidade e de todos os cidadãos, mesmo os que não votaram na sua chapa (com um vice do quilate de Ronaldo Lessa), continuam cidadãos e proprietários da cidade que a partir de 1º de janeiro o senhor governará.

E como cidadão maceioense, o maior título que obtive na vida quando nasci no bairro histórico de Jaraguá, tomando banho de mar na praia da Avenida, por essas mal traçadas linhas vou iniciar minhas reinvindicações para melhorar a qualidade de vida do povo.

Hoje a Europa vive praticamente do Turismo, é a maior força econômica do mundo. E nossa belíssima cidade tem a vocação do turismo; já existe uma política econômica e bom trabalho nesse setor, mas há muito que fazer. Por exemplo, o turismo cultural, as agências de receptivos fixam-se apenas nas praias, encantando os turistas com a cor do mar. Não existe o turismo cultural, embora tenhamos dentro da cidade um Corredor Histórico, um roteiro pronto para ser explorado: Iniciando no Espaço Pierre Chalita, logo depois o bairro histórico de Jaraguá com a Praça Dois Leões, a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo onde num passado distante houve uma chacina dentro da Igreja com mais de 20 mortos, essa história ficou abafada para população.

Ainda em Jaraguá está o belo prédio do Arquivo Público, o IPHAN, o Museu de Imagem e Som (MISA), a Associação Comercial e vários prédios antigos barrocos. Continuando o corredor descortina a centenária Avenida da Paz (1920-2020) com o coreto, o Memorial da República e mais adiante o Museu de Folclore Théo Brandão. Entrando em direção ao Centro a Praça Sinimbu temos a casa do poeta Jorge de Lima e o Espaço Cultural da UFAL. Subindo a ladeira encontramos a Praça Dom Pedro II, a Assembleia Legislativa, a Biblioteca Estadual e a Catedral. Seguindo a Rua do Sol logo se vê o maravilhoso Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, o museu de nossa história. Adiante a Praça dos Martírios. Igreja dos Martírios, O Museu Pierre Chalita e o Museu do Palácio Floriano Peixoto (MUFA).

Terminaríamos o passeio histórico na Praça Deodoro onde fica a Academia Alagoana de Letras, o belo prédio do Tribunal de Justiça e o centenário Teatro Deodoro, onde haveria um show de nosso folclore. Fica a sugestão, ideia do Douglas Apratto. Mas para que o turismo aconteça profissionalmente é preciso um trabalho de saneamento acabando com as línguas sujas das praias e despoluindo a praia da Avenida da Paz, a mais bonita praia do Brasil. Robusteça a economia com o turismo, Prefeito, será a redenção econômica da cidade, que todos tenham usufruto dessa economia. Paro aqui, minha coluna tem pouco espaço. Um abraço no João Caldas, amigo de velhas datas. Muita coisa a ser feita nessa cidade, olhe para os pobres e calce as sandálias da humildade, são as batatas quentes do vencedor.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ELEIÇÃO DE 1950

Silvestre Péricles era um governador honesto, trabalhador, contudo, arbitrário, um caudilho, às vezes violento em suas imposições políticas. No dia 3 de outubro de 1950 estavam marcadas eleições gerais. Silvestre lançou seu candidato a governador, Campos Teixeira. Naquela época não havia pesquisa, mas ele dizia ter mais de 80% dos votos. Os caciques da oposição, da UDN, com eleição garantida para deputado, não se arriscaram a candidatar-se contra Campos Teixeira. Foi quando apareceu um jovem jornalista, com ousadia e audácia topou a candidatura afirmando que ganharia a eleição para governador do Estado. Arnon de Mello entrava assim para história das Alagoas. Candidato à Constituinte de 1945, Arnon perdeu; teve 1.300 votos. Atrás de Silvestre (6.105), Rui Palmeira (3.232), Freitas Cavalcanti (2.388). Na frente de Carlos Prestes (1.093), Graciliano Ramos (62).

A campanha eleitoral de 1950 foi uma das mais violentas na história das Alagoas. Como todo déspota, Silvestre não admitia crítica. Quando os jornalistas da oposição criticavam o governo com veemência, ele ficava possesso e dava o troco. Mandou dar surra no jornalista Donizete Calheiros, empastelar um jornal, tocar fogo no caminhão dos estudantes que pichavam os muros com propaganda de Arnon. A campanha foi um período de tiros, mortes, chacina na cidade de Mata Grande, várias pessoas de uma família morreram. O irmão de Silvestre, Senador Ismar de Góes Monteiro, seu inimigo político, levou três tiros numa tentativa de assassinato. O clima era de total intranquilidade.

Numa noite de brisa de agosto, eu estava em minha casa lendo revistas em quadrinhos, menino de 10 anos, experto, maloqueiro da praia da Avenida da Paz, quando bateram palmas no portão. Atendi e me surpreendi com um grupo de político, em torno de uma dúzia, a maioria com paletó branco e apenas uma mulher. Perguntaram-me pelo Coronel Mário Lima, comandante do 20º Batalhão de Caçadores. De repente meu pai chegou cumprimentando os visitantes, seus amigos. Era a cúpula da UDN que pedia abrigo para realizar uma reunião, o único local que acharam seguro para discutirem as estratégias de campanha e denunciar o clima de intranquilidade foi minha casa. Meu pai os recebeu, deixou-os à vontade na sala.

Os membros da oposição, que Silvestre chama de “udeno-comunistas”, discutiram durante toda noite. Eu, menino curioso fiquei admirando, prestando maior atenção ao debate sobre as medidas a serem tomadas. O que mais me impressionou foi a atuação determinada e cheia de opiniões da única mulher do grupo, Dona Leda, esposa de Arnon de Mello; naquela época lugar de mulher era na cozinha. Fui dormir e deixei os políticos, Rui Palmeira, Freitas Cavalcanti, Melo Mota, Carlos e Mário Gomes de Barros, Ezequias da Rocha, Oséas Cardoso, entre outros discutindo até a madrugada, com o apoio da água gelada, cafezinho, doce de mangaba, bolo, e refresco de cajá de Dona Zeca.

Essas reuniões se repetiram. Meu pai, tomou essa posição em receber seus amigos políticos na nossa residência para evitar mais violências. Ele comunicou o fato ao governador e ao General Comandante da 7ª Região. Ele se responsabilizava pela acolhida aos políticos receosos de uma reprimenda.

Arnon de Mello estava crescendo eleitoralmente na capital e no interior, o que levava os governistas ao desespero. A eleição se aproximava e a garantia das tropas do Exército solicitada pela oposição não chegava ao 20º BC. O General Góes Monteiro, irmão de Silvestre, eminência parda da República, candidato a Senador em Alagoas, segurou a ordem de envio de tropas para garantir a eleição no interior.

Foram expedidos radiogramas para a 7ª Região Militar–Recife, informando que estavam sendo preparadas fraudes e violências durante a eleição. Eram duas horas da manhã do dia 3 de outubro, quando chegou a ordem para garantir as eleições em Alagoas. O 20º BC permanecia de prontidão com a tropa organizada para ser distribuída nos municípios. Havia um problema: não existia viatura suficiente para o deslocamento imediato dos soldados para todo Estado. O coronel Mário Lima requisitou caminhões, camionetes que passavam em frente ao quartel; embarcaram todos os soldados para o interior. O Exército garantiu a eleição. Apurados os votos, Arnon teve 56.962 votos contra 36.338 de Campos Teixeira. O general Góes Monteiro candidato a senador, pensou ser uma eleição fácil para ele, não fez campanha, perdeu para um médico, obscuro político de Sertãozinho (hoje Major Izidoro), Ezequias da Rocha.

No mês de novembro, em uma inspeção do general comandante da 7ª Região à guarnição de Maceió, o coronel Mário Lima acompanhou o general comandante em visita de praxe ao governador. Depois da rápida conversa quando retornavam pela sala, Dona Constança, mãe de Silvestre, sentada em uma cadeira de balança, provocou: “Esse Exército de merda fez meu filho perder a eleição”. Os militares fingiram não ouvir. Sorrindo desceram as escadas do Palácio dos Martírios.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TRÊS PASSAGENS

– “Geraldo, há algum tempo precisava conversar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar uma mesa?” Disse Luzia abraçando o irmão, ao encontrá-lo no shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida no início daquela tarde de sexta-feira, Geraldo sentou-se e pediu dois chopes. Luzia olhou-o, sorriu-lhe e foi direto ao assunto.

– “Geraldo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmão caçula desde que nasceu. Nossas afinidades sempre foram visíveis, nos entendemos com apenas um olhar. Por isso quero essa conversa. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente aos 40 anos, nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você insinuou em breve um casamento. Sua namorada, Maria da Graças, parece equilibrada e sensata, embora seja bem mais nova que você. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal e eu tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Fonte fiel confidenciou-me: ela é sapatona, ou melhor, bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz prima. Desculpe eu tocar em sua vida particular. Sabendo do fato, seria uma imperdoável traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.”

Geraldo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

-“Obrigado Luzia, você agiu como uma irmã querida, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei de Graça. Eu até gosto de sua prima Fátima, nada me fez perceber essa opção sexual de minha namorada, ela gosta de homem, tenho certeza, na cama é um arraso. Vou pensar no que fazer, é caso grave, não sei se dá para conviver sabendo que sua mulher gosta de outra mulher. Obrigado minha irmã.” Geraldo pediu mais chope, passaram o resto tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Geraldo encontrou-se com Maria das Graças na Barraca Pedra Virada, orla da Ponta Verde, acompanhada de Fátima, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Fátima em casa, dormiram no apartamento, amaram-se. Geraldo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês. Graça perguntou se podia convidar Fátima.

– “Tudo bem” – disse Geraldo – “porém, quero uma conversa com você”. Foi claro e taxativo com a namorada.

– “Graça, temos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Fátima vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo entre vocês duas, é o boato corrente nas rodas da cidade”.

Graça ouviu olhando nos olhos do namorado, depois baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– “Geraldo querido, é verdade! Eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual e Fátima não é minha prima. Estava esperando um momento apropriado para conversar sobre essa situação. Conversei muito com Fátima, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não imagino sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meio louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Quero continuar nosso relacionamento como está, cada qual em seu lugar. Peço-lhe apenas que você conheça melhor a Fátima, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação entre nós três, sem compromissos”.

Geraldo teve um impacto com aquela inusitada proposta, pediu um tempo para pensar. Conversou e passou algumas noites com Fátima. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos passeando na bela cidade de Buenos Aires, o mais caro foram as três passagens de avião.