CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CONTINUA NO RAMO

Há alguns anos apareceu na província de Maceió, um cidadão bem falante, terno impecável, roupas de grife, cabelos bem cortados, era conhecido pelo sobrenome, Karafiol. O distinto senhor montou uma empresa de consultoria dirigida especialmente aos grandes empresários, usineiros e companhias. Ele propunha negócios com vantagem inimagináveis em baixar impostos nas transações de importações de maquinarias e equipamentos. Os empresários logo se interessaram na possibilidade de baixar impostos contrataram a empresa de consultoria, “Marilda Karafiol”. Os resultados foram os melhores possíveis, Karafiol conhecia os tapetes, os bastidores de Brasília, dos impostos de importação, conseguiu baixar alguns impostos com malandragem, legislação duvidosa, propina e mulher. Tornou-se herói entre os abastados, os donos das Alagoas. No primeiro ele deu muito lucro às empresas. Karafiol frequentava a mais alta roda da cidade, seja em clubes, restaurantes ou alcovas, seu nome era sempre lembrado como cidadão de altos negócios. Um cara que consegue baixar imposto nesse país merece prêmio. Ele amava a vida entre os socialites, gostava também de um carteado, sempre jogava nas rodas particulares, as melhores e bem frequentadas mesas de baralho. Tinha uma compulsão pelo jogo, vício, jogava alto.

No segundo ano abriu uma empresa de taxi com um amigo alagoano muito conhecido e conceituado, na época era a melhor frota de taxi na cidade. Karafiol, exemplo de empresário e honestidade se dizia alagoano por opção, proclamava aos berros o amor a essa cidade. Um vereador chegou a propor o título de cidadão de Maceió, ganhou o prêmio de empresário do ano, em troca de algum valor ao cronista que organizava esse prêmio. Certo partido político convidou-o a se filiar, teria uma vaga garantida na Assembleia Legislativa, com o apoio dos empresários; ele ficou de pensar, era uma boa oportunidade.

No final do terceiro ano de consultoria, apareceu uma oportunidade de reduzir custos de imposto adquirindo uma maquinaria especial, diminuindo a mão de obra. Os empresários foram visitados por Karafiol que mostrava como poderia reduzir custos. Ele fez cálculos de redução de impostos, o custo do investimento compensava essa redução. Karafiol foi de empresário em empresário, mas precisava ter uma boa quantidade em dinheiro em mãos para propinas e outros custos costumeiros nas transações em Brasília. Nas suas visitas arrecadou U$ 300 mil de um, U$ 400 mil de outro, mais U$ 200 mil de outro, há quem diga que Karafiol arrecadou em torno de U$ 8 milhões de dólares das empresas alagoanas e pernambucanas. Ele havia comprado 20 Chevrolet OPALA na concessionária, aumentando a frota de taxi de sua empresa, uma mostra que ele estava cada vez mais arraigado à terra.

Na véspera de ele viajar para Brasília e Rio de Janeiro a fim de resolver o mais alto negócio dos empresários nordestinos, ele compareceu à casa de um amigo para alta jogatina de pôquer. Às três horas da manhã Karafiol havia perdido mais de R$ 20.000,00. Como tinha que embarcar no avião às oito horas, precisava de dinheiro vivo, passou um cheque de R$ 20 mil saldando a dívida do jogo e outro de R$ 10 mil arrecadando o dinheiro que havia na mesa dos parceiros, ele precisava do dinheiro para viajar. Todos aceitaram sorrindo a troca dos dois cheques, ninguém jamais suspeitaria, desconfiaria que os cheques daquele homem extraordinário não tinham fundos.

Na segunda-feira o dono da casa que bancava o jogo ao depositar o cheque no mesmo banco, teve a triste notícia que não havia fundo para cobrir os cheques, e que Karafiol havia raspado todo dinheiro da conta. Foi um Deus nos acuda. Houve uma reunião urgente dos empresários. Nunca mais Karafiol pisou em Alagoas, aquela noite do jogo, foi a última vez que o viram. Embolsou todo dinheiro, até hoje está desaparecido. Os magnatas alagoanos foram à polícia, contrataram detetives em Maceió, Brasília, Rio e São Paulo, gastaram uma enormidade em passagens e hospedagens, ninguém até hoje conseguiu uma pista sequer, foi o maior golpe até agora dado em dinheiro privado. Corre uma versão que Karafiol fez uma cirurgia plástica no rosto. Dizem que está irreconhecível, se candidatou, gastou uma grana, elegeu-se Deputado Federal por São Paulo, quer dizer, continua no ramo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU SONHO NO DIA DO NORDESTINO, 8 DE OUTUBRO

Tive um fantástico e alegre sonho no Dia do Nordestino: o povo feliz, reunido, dançando na praia, comemorava a Independência do Nordeste. Nas Alagoas a festa varou a noite, continuou por mais 19 dias. Foi armado um palco no coreto da Avenida da Paz, de repente, entrou um animado e colorido pastoril cantando e acenando para o povo. De um lado a coluna do cordão encarnado, com sete pastoras, moças charmosas e bonitas com vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. A outra coluna, o cordão azul, mais sete meninas, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões dançava a única Diana vestida de minissaia de chita. Todas sorriam, era Festa da Independência. “Boa noite meus senhores todos… Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… Que alegremente vamos a Belém…”

A festa continuou revezando no palco, dia e noite, exuberantes grupos da cultura popular: Guerreiro da Viçosa, com suas fantasias coloridas e chapéu cheio de espelhos. Eles cantavam: “Guerreiro cheguei agora… Nossa Senhora é nossa defesa…” Dançaram fandangos, bumba meu boi, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança e outras danças populares nordestinas. No início da Avenida da Paz acontecia um agitado e divertido desfile de carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou dia e noite. A moçada se esbaldava se empolgava com frevos e marchinhas, ia ao delírio quando arrochava o frevo Vassourinhas. O dia foi despertando, a orquestra desceu à praia. De repente os foliões entraram na água cristalina naquela luminosa manhã. A cor do mar era escandalosamente de um azul-esverdeado, dourada pelo sol da madrugada. Os mergulhos lavaram as roupas, as fantasias, e as almas do povo. A música continuou, o povo dançou e cantou. A Festa da Independência durou vinte dias. Estendeu-se por todas as praias da cidade. O povo dançou na praia de Pajuçara, onde o mar beija as areias, com mais alma e mais amor. A Ponta Verde fervia nos arredores do acarajé do Alagoinha com três bandas e quatro trios elétricos. Na Jatiúca o povo gritava cheio de esperanças por dias melhores. No litoral norte a festa continuou, na praia de Ipioca foi organizado um corso de jangada, todas enfeitadas, fantasiadas de azul e verde, as cores da nova República Nordestina. De repente apareceu Elba Ramalho cantando a música de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova: 

“Já que existe no Sul esse preconceito 
Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato 
Já que existe a separação de fato 
É preciso torná-lo de direito 
Quando um dia qualquer isso for feito 
Todos os dois vão lucrar imensamente 
Começando uma vida diferente 
Da que a gente até hoje tem vivido 
Imagine que o Brasil ser dividido 
E o Nordeste ficar independente”

O patrono da nação nordestina foi escolhido por unanimidade, Luiz Gonzaga. No sonho continuavam lindos e eróticos movimentos de Elba se rebolando e cantando: 

“O Nordeste seria outro país 
Vigoroso, leal, rico e feliz 
Sem dever a ninguém no exterior 
Jangadeiro seria o senador 
O cassaco-da-roça era o suplente 
Cantador-de-viola o presidente 
E o vaqueiro era o líder do partido 
Imagine o Brasil ser dividido 
E o Nordeste ficar independente”

No sonho aparecia toda pujança e a beleza de nossa cultura. Nossos bravos homens e mulheres escreveram a Constituição Nordestina:

Artigo Primeiro: Todos são iguais perante a lei e perante todos.

Artigo Segundo: O amor é considerado utilidade pública.

Artigo Terceiro: A esperança será marcada por uma faixa verde na bandeira para ninguém perdê-la ou esquecê-la.

Artigo Quarto: O medo é abolido de todos os corações.

Artigo Quinto: Todos têm direito à saúde, educação, moradia, emprego, arte, cultura, felicidade e sexo.

Artigo Sexto: A desonestidade, a mentira e a hipocrisia são banidas do país para sempre.

Artigo Sétimo: São inimputáveis: os índios, os menores, os bêbados e as putas.

Foi decretado que a fraternidade, a igualdade e a honestidade constituiriam a base da Nova Nação Nordestina. Os homens de bem foram conclamados a voltar de onde estivessem, onde terão fartura e paz. E finalmente o povo era obrigado a ser feliz. E Elba continuava cantando: 

“A bandeira de renda cearense
Asa Branca era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagine o Brasil ser dividido
E o Nordeste ficar independente”

Foi quando alguém aumentou o volume da televisão e me acordei com o Jornal Nacional. Pô!!!

Obs – Agradeço a Ivanildo Villanova e Bráulio Tavares o uso de sua poesia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O SENHOR DAS LAGOAS

Eu era menino, de calça curta, aurora de minha vida, meu pai gostava de passeios com a família. Fazíamos piquenique no Gogó da Ema, em Fernão Velho na casa do primo Pedrinho. Muitas vezes embarcávamos numa canoa ou na lancha do horário, partindo do Porto das Lanchas no Trapiche, navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco ou Bica da Pedra.

A canoa enorme feita de tronco de árvore cabia toda família. A criançada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa, na popa e perto do mastro. Todos a bordo iniciava a navegação rumo ao povoado de Coqueiro Seco, onde amigos do meu pai nos esperavam com um delicioso almoço.

O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrons, como se fossem manchas. Eu ficava extasiado, embevecido com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Deliciava-me mergulhando a mão acariciada pela água corrente do navegar. Água límpida e raiada pelo sol da bonita manhã.

Tio Béu era o mais animado dos adultos, gostava de contar casos e piadas durante o percurso. Ele cantava emboladas e nós acompanhávamos.

“Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” Vinha o coro da meninada: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… Tio Béu continuava: “Eu dei um beijo no sovaco da veia, minha boca encheu de peia, quase morro de lançar…” Uma alegria.

A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola na “ribeira”, mergulhando nas águas limpas da lagoa. Depois do suntuoso almoço, a meninada voltava para o banho de lagoa, onde nadava e brincava de caldo e pescaria. Na volta, a meninada ficava desconfortável no fundo da canoa amontoada de manga, melancia, banana, fruta-pão, jaca e outras frutas. Às vezes, a travessia da lagoa tinha outro destino: o sítio de um primo, Pedro Lima, onde existe uma fonte de água provinda de uma fenda de uma enorme pedra. Um banho maravilhoso que deram o nome apropriado de Bica da Pedra.

Meu pai tinha um amigo que gostava de conversar à noite em minha casa. Era um homem alto, com olhar inquieto e bondoso. Seus assuntos invariavelmente passavam pelas lagoas, preocupação, luta constante de sua vida e o CSA. Pela primeira vez ouvi alguém se referir à preservação da natureza. Paulo Pedrosa, na prática, foi o primeiro ambientalista das Alagoas. Essas são algumas reminiscências da minha infância, ligadas às grandes e belas lagoas.

O tempo passou, fiz caminhos e andanças pelo Brasil afora; voltei para Alagoas, mas só tive consciência dos grandes problemas das lagoas a partir dos anos 80, quando as questões ambientais tornaram-se importante.

Nesses últimos anos houve um desastre criminoso nas lagoas. Usinas de açúcar jogaram tibornas e águas de lavagem de cana. As cidades, sem sistema de esgotamento sanitário, ainda hoje despejam dejetos in natura e lixos nas águas das nossas sagradas lagoas. Autodestruição, um crime inominável. Em todo esse tempo, só uma voz havia esbravejado, esperneado, gritado e ecoou sem que ninguém ouvisse ou se preocupasse pelo crime que o homem ambicioso cometia. Essa voz solitária era de Paulo Pedrosa. Um senhor com visão que dedicou seus 96 anos à sua grande paixão: as bonitas e inigualáveis lagoas das Alagoas.

Paulo Pedrosa também foi um vitorioso industrial, montou uma fábrica de mosaico no bairro de Jaraguá. Ainda nos legou duas grandes figuras da arte e cultura alagoana: sua filha Tânia Maya Pedrosa Moreira, pintora naif e maior colecionadora de arte popular do Brasil e seu filho, coronel José Fernando Maya Pedrosa, historiador, militar de brilhante carreira no Exército Brasileiro. O saudoso Paulo Pedrosa, homem dedicado à causa das lagoas merece uma homenagem. Sua impertinência, sua dedicação e seu amor foi importante na preservação das lagoas. Devemos essa homenagem, nunca feita, ao ambientalista Paulo Pedrosa, “O Senhor das Lagoas”.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O RAPOSA FELPUDA

Leocádio está preocupado com a situação nacional. Se a pandemia não acabar antes de do dia 15 de novembro ele vai perder sua maior diversão, a campanha eleitoral. Durante a campanha ele passa no mínimo dois meses viajando com seu chefe, um político de alta linhagem, vamos chamá-lo de “Raposa Felpuda”. E o melhor, fica livre da esposa, mandona, braba que o leva no cabresto nesses 27 anos de casados. Durante a campanha eleitoral ele se entrega de corpo e alma, se gaba que seu patrão é pé quente, não perde eleição.

Leocádio trabalha muito e farreia como pode na campanha, driblando a vigilância de sua esposa mandona, com a desculpa de trabalho para o chefe.

O que não deixa de ser verdade, pois o patrão é incansável nos acordos políticos, nas trocas de favores, incluindo noitadas com raparigas. Leocádio é o homem de contato com as mulheres. Administra as farras da equipe, sempre sobra alguma quenga para ele. Nosso amigo tem um cargo comissionado, só comparece à repartição para pegar o contracheque e racha o ordenado com outro assessor. O “Raposa” tem o dobro de assessores permitidos, usa o artifício da rachadinha: um recebe o pagamento e divide com outro. O trabalho de Leocádio é estar perto do chefe, ele é pau para toda obra, gosta do trabalho, ama organizar as farras nas viagens.

Leocádio conhece todos os políticos, seja deputado, prefeito, ou senador, falam com ele na maior intimidade, assessor muito querido, respeitado, arquivo vivo, sabe histórias da nossa política de corar de vergonha esses caras de Brasília. É discreto, não ouve, não fala, não vê.

Durante a última campanha, depois de exaustiva caminhada em três municípios, a caravana do “Raposa” de seis carros desembarcou numa churrascaria. Juntaram algumas mesas enquanto serviam o churrasco. Ainda estavam servindo quando apareceu outra comitiva, de um famoso deputado, metido a cavalo do cão. Tomaram assento, juntaram-se. Na hora da cerveja o “Raposa Felpuda” comentou.

– Estou há mais de uma semana em campanha, é estafante e não peguei uma mulher nesses dias. Hoje estou a fim de uma rapariga.

Olhou para Leocádio e pediu sorrindo.

– Meu assessor predileto, você que conhece do assunto, arranje umas garotas bonitas, telefone e traga de Maceió um caminhão de quengas, para uma farrinha hoje à noite.

– Oxente! Vou pessoalmente cuidar desse assunto. Levantou-se, entrou no carro rumo à Maceió.

A moçada ficou às gargalhadas com as histórias do “Raposa”, são sempre engraçadas as histórias de políticos.

Leocádio partiu já ligando o celular e marcando. Em Maceió alugou dois táxi para acompanhá-lo, não parava no celular, trabalho eficiente catando o material solicitado, não podia falhar, afinal sua reputação estava em jogo.

A comitiva do “Raposa” estava numa caminhada à noite por uma cidade, quando chegou Leocádio e mais dois táxis cheios de raparigas. Oito mulheres desembarcaram sorrindo, encantando com suas belezas. Quengas bonitas de primeira qualidade.

– Pronto chefe, missão cumprida. Não deu para trazer um caminhão, mas trouxe oito raparigas da melhor qualidade. Meu celular trabalhou, consegui arrecadar essas belas mulheres.

Rumaram a uma bela casa na fazenda de um colega deputado na zona da mata. Foi o maior bacanal já realizado naquelas bandas. A mansão com um jardim gramado, árvores e uma piscina ao centro. Da varanda se avistava a piscina, era noite de lua, ambiente propício para brincar feito menino. As raparigas se escondiam no jardim, depois de gritar, AGÚ, os homens iam à caça, procurando, vasculhando os lugares, quando alguém achava uma escondida, tinha de tocá-la, condição para ganhar o prêmio, podia usar da quenga à vontade. Depois de brincar de esconde-esconde, mergulharam na piscina. A festa foi até o dia amanhecer. O sol raiou esplêndido na fazenda, a manhã iluminou os guerreiros do voto com suas presas deitados na grama do jardim.

Por esse e outros trabalhos, Leocádio continuará no cargo por muito tempo, sua eficiência e eficácia no assunto são inigualáveis, um arquivo vivo. Todo dia ele lê o jornal torcendo que a pandemia acabe pra que a campanha seja no corpo a corpo nas visitas às cidades e não apenas nas redes sociais como parece que será. De qualquer maneira o “Raposa” não perde eleição, sabe botar voto na urna.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

GALEGUINHO

Ninguém sabe de onde veio. A mãe o abandonou no bairro do Jacintinho, ele não havia completado dez anos. Era um menino experto, bonito, olhos azuis, vivos. Ficou a vagar pela cidade, sua pele alva e cabelos louros compridos chamavam a atenção, devia ter vivido em lugar bem pobre para bandas do sertão, o sotaque revelava. Só lembrava que seu pai fugiu da seca e sua mãe largou-o na cidade. Não reclamava. Ser menino de rua parecia melhor que o sofrimento da seca, da falta d’água, de comida, da morte do gado e de gente. Na cidade tinham, pelo menos, as lixeiras com sobras de comidas.

O menino enjeitado andou durante alguns dias pelas ruas de Maceió, dormindo embaixo de marquises, encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria conhecer novos amigos, logo se tornou um líder entre os menores que perambulavam pelo centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Viviam de pouca esmola, do que achavam no lixo, e de alguns roubos fortuitos. Todos gostavam do Galeguinho, assim chamavam os amigos de rua, sem escola, sem casa, sem documentos.

Galeguinho assim que viu a praia e o mar pela primeira vez, ficou encantado, fascinado. Sentou-se na praia da Jatiúca e contemplou o mar azul esverdeado por muito tempo, até que se encorajou e entrou no mar, estranhou a água salgada, feliz, brincou com as ondas, as marolas. Quando dava fome, pedia comida aos banhistas sentados nas cadeiras tomando banho de sol com uma sombrinha ao lado. Sempre conseguia matar a fome, a Irmã do Acarajé do Meliá, lhe dava um reforçado acarajé. O Galeguinho tomou o bairro da Jatiúca como lar, dormia embaixo das barracas de praia. Amava o mar, encantou-se com os surfistas deslizando na onda. Certa vez, João, percebeu aquele garoto quase todos os dias olhando, admirando os surfistas, perguntou se já havia pegado surf numa onda, diante da negativa, João ofereceu sua prancha, ensinou o básico. O Galeguinho entrou no mar, na primeira onda equilibrou-se e veio à beira mar. A partir desse dia tornou-se amigo de João e um dos melhores surfistas do Posto Sete.

Foi crescendo como se fosse morador do bairro, fazia bico nos estacionamentos lavando carro, simpático flanelinha que nunca teve local certo de dormir.
Dagmar, dedicada assistente social estava realizando para Prefeitura, um levantamento de meninos de rua que dormiam na orla, quando conheceu o Galeguinho, teve simpatia pelo menino alegre, louro, cabelo escorrido até os ombros, vestes maltrapilhas. Dagmar fez uma entrevista, ficou abismada, ele sequer lembrava seu nome, depois de cinco anos esqueceu, só o chamavam de Galeguinho, não sabia a idade, era analfabeto.

Dagmar lhe fez uma proposta: limpar o quintal de sua casa, fazer outros serviços em troca de comida. Ele aceitou. Era uma casa num conjunto perto da Jatiúca. Ele trabalhou, limpou e arrumou o quintal durante todo o dia, almoçou e além do jantar, ganhou um bolo. Dagmar, solteirona, sentiu forte empatia, um afeto maternal pela criança. O Galeguinho recebeu o enorme bolo com alegria, dirigiu-se ao velho ponto de encontro e dividiu o bolo com os amigos, fizeram uma festa. A partir daquele dia, o menino cheira-cola, aparecia de vez em quando de manhã cedo na casa de Dagmar para algum serviço.

Dagmar havia completado 40 anos no dia que conheceu o Galeguinho, dizia para si mesma que foi um presente de Deus. Mulher sofrida teve o coração despedaçado, noiva durante 12 anos de um médico, na véspera do casamento, ele fugiu com uma aluna da Faculdade. Um trauma para Dagmar, ainda hoje mulher bonita, vistosa, nunca quis outro namorado. Desde sua decepção amorosa mora sozinha na casa que herdou dos pais.

Esse menino veio preencher sua carência afetiva, com pouco tempo ele ficou morando no quarto de empregados, almoçava com a única empregada, tornou-se secretário para compras e outros afazeres. Dagmar ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava o alfabeto, a contar, até que o matriculou no Colégio Diocesano onde os Irmãos Maristas têm curso para os necessitados que não podem pagar colégio.

Galeguinho é alegre por natureza. Dagmar descobriu que seu sonho era ter uma prancha de surf. Assim que ganhou uma, o jovem saiu feliz da vida para surfar na praia do Posto Sete. De bom coração nunca abandonou os amigos de rua, quando vai ao surf, seus amigos pegam carona na prancha. Ainda leva comida para distribuir. O Galeguinho é alma boa.

Tornou-se um forte e belo rapaz, típico surfista. Estudioso, quer um dia fazer vestibular de Direito, ser advogado, o que torna mais feliz sua mentora, Dagmar.

Galeguinho deixou a dependência de empregada, agora dorme em seu próprio quarto. Mostra sempre sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, que lhe deu o que um jovem da classe média pode ter. Para Dagmar é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho. Nas refeições divide com ele a mesa. Segundo línguas ferinas, invencionice dos que não tem o que fazer, durante a noite, divide também a gostosa cama forrada de colcha de linho e travesseiros de marcela. Dagmar anda na maior felicidade, tem apenas um problema: administrar o ciúme das paqueras que dão em cima do belo surfista Galeguinho.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RAPADURA, OURO NORDESTINO

Na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza aprendi a ser adulto aos 16 anos com a vida espartana de disciplina e ordem, cuja maior glória era conseguida na banca de estudo das salas de aulas. Entramos apenas 77 jovens vindos de toda parte do Brasil, era início do longínquo ano de 1956. Adaptação difícil para um menino de vida livre, leve e solta na praia da Avenida. O maior enfrentamento foi o ensino rígido, com matérias básicas como: português, aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, inglês e outras matérias curriculares, além da instrução militar e educação física.

Tinha de estudar muito, só passava quem soubesse. Não havia cola (o professor entregava a prova, saía da sala, só retornava para recolher na hora determinada, ninguém colava, era parte do nosso Código de Honra, não escrito). O dia do cadete estudante iniciava às seis horas da manhã com o toque da alvorada, imediatamente todos faziam a higiene pessoal, arrumavam as camas, limpavam banheiros e privadas. Vestiam a farda, ficavam prontos para mais um dia de estudo e instruções que só terminava com o toque de silêncio pelo corneteiro às 22 horas.

Havia momentos de lazer, principalmente nos fins de semana. Sem pai, nem mãe, nem irmãos, os colegas tornaram-se nossa nova família. Uma amizade fortalecida entre os irmãos de armas que conviveram juntos por seis anos, incluindo a Academia Militar das Agulhas Negras, conseguimos o objetivo maior: ser oficial do Exército Brasileiro. Essa irmandade entre cadetes da mesma turma é indissolúvel e respeitosa. Alguns colegas deixaram a carreira pelo meio, fui um deles, deixei a carreira militar como capitão. Porém, a maioria continuou com muito esforço e estudo cursando a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, Estado Maior, Escola Superior de Guerra, entre inúmeros cursos. Difícil é chegar a general, dos 77 colegas de 1956 apenas dois galgaram ao posto de general.

Quando termina o curso da Academia Militar das Agulhas Negras os novos oficiais são distribuídos para servir nos mais diversos e longínquo locais do Brasil: Cucuí na Amazônia , Cruz Alta, Cuiabá, e outras cidades melhores e piores, dependendo da classificação. Eu fui servir no 19º BC em Salvador.

O tempo passou, os colegas dispersaram, até que em 1994 o General Rômulo Bini, comandante da guarnição de Natal resolveu organizar um encontro de nossa turma. A partir daquele ano, essas reuniões tornaram-se constantes trazendo alegria e muitas recordações, brincadeiras, passamos a ser cadetes novamente. Este ano haveria uma reunião em Maceió dos OITENTÕES, a maioria daqueles meninos de 1956 completa 80 anos em 2020, mas a pandemia não deixou, ficou adiada para 2021.

Foi numa dessas reuniões que Rocha, aluno 108, laureado primeiro de turma, Porta-Bandeira da Escola Preparatória, contou-me a história da bomba. Confirmada pelo coronel Wanderley, o maior goleiro que passou pela Academia Militar.

Wanderley, paulista de Lorena, foi um dos colegas da Escola de Fortaleza. No tempo de Ceará ele apaixonou-se pela comida nordestina: carne de sol, peixe frito, frutas regionais, mangaba, pinha, e principalmente a rapadura.

No final dos anos 60, eram capitães. Rocha de Engenharia servia na Fabrica de Material Bélico em Piquete e Wanderley de Infantaria, servia no 5º RI de Lorena, cidades próximas. O fato se deu na época de repressão e terrorismo em alta escala, principalmente em São Paulo, onde aconteceram vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso da fuga do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN.

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, onde mora, trouxe, como sempre, deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. Rocha, apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou um soldado e entregou-lhe o pacote de rapaduras embrulhadas em palha de milho, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley. Deu partida no carro rumo a Piquete.

Nesse momento o tenente, oficial de dia observava o movimento pela janela, percebeu quando o soldado recebeu o pacote. O tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado colocar o embrulho no chão do pátio, mandou tocar alarme geral e gritava: Cuidado é uma bomba !

Soldados que estavam dentro do quartel, tomaram posições estratégicas, atrás de colunas e paredes, vigiando, ao longe, a ”bomba”, imóvel, soberba no meio do pátio.

O quarteirão foi interditado, o transito desviado, ninguém podia se aproximar do quartel. Logo a mídia tomou conhecimento, encheu os prédios vizinhos de câmara de televisão de onde filmavam a bomba no meio do pátio, esperando especialista de São Paulo para desativá-la.

Naquela tarde, o Capitão Wanderley vinha de uma pescaria e notou um movimento estranho, se dirigiu ao quartel. Os soldados contaram o que estava ocorrendo ao capitão. Wanderley entrou no quartel, ao olhar o pacote da bomba, reconheceu os abençoados pacotes que o Capitão Rocha lhe trazia. Contou sua versão sobre a rapadura ao tenente, que nessa altura não admitia outra hipótese, era uma bomba.

Os soldados abrigados por trás das colunas ficaram apavorados com a aproximação do capitão em direção ao pacote. Wanderley nem ligou os gritos de atenção, só pensava na deliciosa rapadura. A expectativa e o silêncio tomaram conta dentro e fora do quartel nos edifícios. Wanderley chegou junto, acocorou-se segurando o pacote, foi abrindo pelos lados, tirou as palhas de bananeiras até aparecer algumas barras douradas de rapadura, o ouro nordestino. Com os dedos quebrou um pedaço, levou-o a boca, saiu mastigando, andando devagar, com o pacote no sovaco, deixando a plateia pasmada e a imprensa frustrada.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AULAS PARTICULARES

Professor de talento e vocação como Tobias é raro. Dedica sua vida ao magistério, ensina em colégios e faculdades. Um dos professores mais antigos da Universidade. Ainda não se aposentou por amar a nobre profissão, seus cabelos grisalhos dão-lhe respeitabilidade, como ele gosta.

Austero, não admite falta ou atraso de alunos, em sua matéria só passa quem souber, no seu entender o professor tem a responsabilidade de mostrar a importância da disciplina durante a vida profissional. Tobias jamais aceitou as prevaricações descaradas de certos professores em aventuras com alunas, como é o costume de alguns colegas.

Acontece que o demônio aparece sem deixar perceber. Muitas vezes o capeta surge travestido em uma mulher bonita, ele é treloso e sabe das fraquezas humanas. O satanás incorporou-se em Dalila, aluna bonita, cabelos pretos, longos, olhos grandes, amendoados, sobrancelhas cerradas, pele macia, uma perdição. Ela parece não ser desse mundo, é galáctica, como dizem os homens de olho nela.

Há algum tempo Tobias notou estranho o comportamento de Dalila, usando vestidos sensuais em demasia, passou a tirar dúvidas das aulas com o professor no final da aula. Tobias se prontificava, entretanto, sentia-se incomodado com a proximidade e o perfume da aluna. Ele ficava com o sangue fervilhando quando a aluna se achegava mais perto vestindo saia curta, exibindo as belas pernas com uma borboleta tatuada na batata esquerda. Aquela tatuagem deixava Tobias emocionado. A diabinha sentiu a fraqueza do professor, durante as aulas sentava-se na primeira fila, abria as pernas com classe e sensualidade. Ela mostrava a calcinha exclusivamente para ele.

Dalila perturbou o professor durão, ela não saía de sua cabeça, em casa pensava nas pernas abertas e a calcinha branca. E a tatuagem? À noite sonhava com um enxame de borboletas voando ao seu redor

Certa tarde, após a aula, a jovem pediu para tirar uma dúvida. Ele explicou, tirou a dúvida da moça. Aproveitou que estavam sozinhos e falou que havia um assunto importante. Foi direto ao assunto.

– “Dalila, você sempre foi uma moça comportada, discreta; de um tempo para cá tenho notado mudança em seu comportamento, principalmente seus vestidos curtos, suas calças justas, não sou contra, sou um liberal na política e no viver, não me intrometo com a vida dos outros, acontece que sua nova maneira de proceder me tira a atenção. Quero lhe pedir dois favores: que se vista mais composta e assista as minhas aulas nas últimas bancas. Faça-me esse favor!”

Tobias falou rápido esperando alguma resposta da aluna, contudo, ficou sem ação ao ver Dalila levantar-se, caminhar até a porta da sala de aula, trancá-la à chave, retornar sorrindo, ato contínuo abriu o zíper ao lado da saia, deixando-a cair. Tobias não resistiu quando a moça o abraçou, deitaram-se por trás do birô. Amaram-se como dois animais, ali na sagrada sala de aulas.

Ao terminar ele sentiu-se culpado, vexado. A aluna cochichou em seu ouvido: “Quero mais amanhã, sei que você não trabalha nas quartas-feiras, lhe espero na Avenida da Paz, em frente ao coreto às três horas. OK?”.

Ele emudeceu olhando Dalila se afastar, abrir a porta, e desaparecer. O comportado professor passou o resto do dia e a noite pensando naquele pecado. Quando o diabo atenta, difícil se controlar. Na tarde seguinte, em frente ao coreto, estava Dalila mais bela que nunca. Levou-a ao motel, ficou louco com a aluna na cama.

Passaram a se amar quando podiam durante a semana. Aos sábados e domingos descanso, ele casado, ela ajudava ao pai no restaurante. Até que certa manhã, depois de três meses e meio de amor ardente e bom consumo de viagra, Tobias ficou surpreso quando sua Deusa, a diaba, entrou na sala de aula com roupa composta, mal cumprimentou o professor. Assim continuou pelo resto da semana.

Em um momento propício, Tobias tomou coragem, pediu um particular. Perguntou o motivo daquela mudança, daquele distanciamento, ele estava louco de paixão, querendo amor. Dalila respondeu com tranquilidade, sem algum remorso.

-“Não me leve a mal, eu desejava experimentar um amor maduro. Posso dizer que gostei de tudo, Tobias. Acontece que vou me casar em fevereiro, precisava dessa experiência. Meu futuro marido é mais jovem, bonito, rico. É um primo tem uma enorme fazenda em Monteiro, lá na Paraíba. Só conversa sobre boi e cavalo. É extremamente conservador, diz que fazer sexo anal e oral com a esposa é falta de respeito. Foi quando eu tive a ideia de antes de casar fazer uma experiência, uma aventura descompromissada com alguém que entendesse do assunto. Escolhi bem, agradeço suas experientes carícias. Seus dedos, suas mãos, seus lábios, marcaram todo meu corpo, momentos deliciosos e inesquecíveis, entretanto, pretendo ser fiel a meu marido, não vou repetir. Obrigada por tudo, professor, o senhor foi maravilhoso”

No dia da formatura Tobias recebeu um formal aperto de mão e um piscar de olho maroto de Dalila, como agradecesse as aulas particulares do professor.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ÀS OITO DA MANHÃ

George foi convidado para trabalhar como Chefe de Gabinete de amigo eleito deputado federal em 1950. Viajou de malas e bagagens com esposa e as filhas, Karina 16 anos e Karla 14. Ele alugou um apartamento em Copacabana perto da residência do deputado. A família ficou encantada com o Rio de Janeiro, a capital do Brasil. As filhas logo ganharam amigas e amigos, gente bonita de Copacabana, o bairro de melhor qualidade de vida do país. O deputado foi reeleito mais três vezes. George e família se acostumaram na Cidade Maravilhosa. A esposa e as filhas, ao completarem 18 anos, ganharam emprego efetivo na Câmara de Deputados, com direito a frequentar faculdade e a vida social intensa, principalmente a noturna. Em plena época da bossa nova e no cinema novo, o Rio era a capital cultural do país. Poetas, artistas, escritores, atores, sonhavam morar no Rio, mostrar e viver de sua arte. As filhas de George e as do deputado frequentavam altas rodas.

Certa vez, um diplomata apaixonou-se por Karina na Boate Vogue, um templo da boemia do Rio que se incendiou, uma tragédia para a vida noturna da cidade. Pouco tempo depois, Vicente, o diplomata, casou-se com Karina, foram trabalhar em Roma. Karina morou dois anos na cidade eterna, vivia viajando com as amigas, conhecendo cidades da Europa. Até que num retorno de viagem encontrou seu lindo diplomata com um pareia em sua cama. Foi um trauma. Vicente tentou convencê-la que o relacionamento era só sexo, ele era bissexual, muitos casais modernos aceitavam aquela maneira de viver. Mas a alagoana não aceitou, deu-lhe maior desprezo e retornou ao Rio onde reassumiu seu bom emprego, comprou um apartamento em Ipanema e continuou fazendo o que mais gostava: a boemia; adorava as noitadas cariocas.

Karina estava há três anos sem ver sua terra, deu-lhe saudades. Nas férias de verão tomou um avião, pousou em Maceió e hospedou-se na casa do Tio Aderbal, construída em frente à praia de Ponta Verde. Fizeram uma festa em sua chegada. Karina encantou-se com a nova urbanização da cidade e com o jovem primo Aderbalzinho, bonito aos 17 anos, corpo de atleta, jogava voleibol no CRB. A prima tomou-o como acompanhante nos passeios na Lagoa Mundaú, Bica da Pedra, Catolé, nas praias, sempre havia uma programação. Aonde Karina chegava os homens ficavam fascinados pela carioca, moderna, usando biquíni, Ela fustigava fantasias na mente masculina. Altamente paquerada, recebeu muitas cantadas. Entretanto, o melhor programa era o mergulho na praia de Ponta Verde, água morna, um azul-esverdeado. Ao chegar à praia estendia a toalha, abria a sombrinha, deitava-se queimando a pele. Aderbalzinho jogava futebol com os amigos encantados com aquela figura feminina, depois se deliciavam homenageando o Deus Onã.

Na casa do Tio Aderbal havia sempre hóspedes no mês de janeiro, os quartos eram improvisados, Dona Milu tinha maior prazer em receber os parentes na casa nova da Ponta Verde. A hora do jantar era uma festa. Karina sempre ao lado dos primos se divertindo.

Certa noite Aderbalzinho acordou-se com vontade de fazer xixi, de pijama foi ao banheiro, atravessou o primeiro quarto onde jovens dormiam em colchões, ao atravessar o segundo quarto, tomou um susto, Karina deitada de bruços, apenas de calcinha preta. Ele diminuiu os passos apreciando a maravilha, foi ao banheiro, retornou mais devagar, deu vontade de cair sobre o corpo perfeito, iluminado pela fresta da janela. Foi difícil dormir.

Pela manhã, na hora do café, Karina cochichou no ouvido de Aderbalzinho: ela tinha visto o primo à noite, quando passou para o banheiro lhe olhando, lhe tarando. Ele ficou vermelho com a história. Naquele momento Karina convidou-o para um mergulho, adorava o mar logo cedo, a água morna. Desceram os dois à praia, correram e mergulharam, brincaram de jogar água um no outro. Karina se aproximou do primo, abraçou-o, passou a mão por baixo, ele já estava excitado. Ato contínuo, ela tirou o biquíni, colocou no ombro. Fizeram amor dentro d’água tendo apenas como testemunhas alguns peixinhos nadando entre o casal. Raras pessoas andavam pela praia àquela hora. No dia seguinte repetiram, Aderbalzinho levou uma boia para facilitar. Até o final das férias, Karina e o priminho não perderam uma manhã de amor nas águas tranquilas da praia de Ponta Verde.

Muitos anos se passaram. Hoje Aderbalzinho, oitentão, mora num edifício construído onde foi sua casa. Ele não se lembra do nome de sua primeira namorada, nem do primeiro beijo. Entretanto, nunca esqueceu os banhos de mar alucinantes com a priminha às oito da manhã.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ESPANHOLAS DO ÚLTIMO VERÃO

Pietra e Letícia moram na bela cidade de Segóvia na Espanha, onde o inverno é rigorosíssimo, neva durante três meses. Amigas desde a infância, elas alimentavam o sonho de passar férias onde tivesse mar e sol tropical. Agora, quarentonas e divorciadas resolveram realizar o sonho, viajar ao Brasil. Pesquisaram sobre o país, a alegria de viver, noites tropicais e homens cativantes.

Compraram passagem de avião de Madri ao Rio de Janeiro, onde passaram três dias em excursões conhecendo os principais pontos turísticos da Cidade Maravilhosa. No quarto dia embarcaram num cruzeiro marítimo para o Nordeste Brasileiro, cheio de belas praias, no luxuoso transatlântico G Mistral. Desembarcaram na primeira cidade, Salvador, onde o guia levou-as ao candomblé, negros e mulatos dançando, o encantamento da religiosidade dentro de um pacote de turismo, entretanto, nada aconteceu em termos paqueras, até que tentaram. Ao sair de Salvador o navio fez escala em Maceió. Após o café da manhã as espanholas assistiram do tombadilho o atraque do navio, ficaram fascinadas com o azul do céu nunca visto, nem em sonho.

A luminosa manhã alegrou seus corações. Apreciaram, ao longe, o casario da orla da cidade. Ao desembarcarem no cais, uma Banda de Pífano, mulheres rendeiras e um grupo folclórico de Guerreiros fizeram a recepção. Quando tocou o frevo Vassourinhas, elas se assanharam num carnaval improvisado com outros turistas. Resolveram caminhar pelos arredores procurando praias, até que descortinou, Pajuçara, cenário jamais visto pelas espanholas, o mar azul turquesa com matizes verdes, uma linha de coqueiros verdes viçosos, pareciam sentinelas. Desceram à praia, areia alva, andaram descalças à beira-mar, a marola fazia carinho. De repente foram abordadas por um jovem moreno, alto, com foto na mão, oferecendo passeio de jangada às piscinas naturais bem perto, mar adentro. Acertaram o preço. Zé Hilton, o jangadeiro, gentilmente ajudou-as na subida da jangada. As duas estavam felizes com aquele momento inusitado. De biquíni, sentada à beira da jangada, Pietra colocou a mão dentro d’água e sentiu o massagear da correnteza da água. Letícia, do outro lado, encantava-se com o corpo seminu do jangadeiro. Zé Hilton, moreno, alto, bermuda rota ao joelho, sem camisa, dava rumo à vela. Tinha os músculos bem talhados do tempo que era pescador com seu pai. Agora ganhava mais com turista, de onde tirava seu sustento.

Ele navegou cerca de 300 metros, jogou a âncora, maré seca, a água batia abaixo do peito. Zé Hilton ajudou às espanholas a descerem da jangada. Na vez de Letícia houve um movimento da maré, seus corpos se juntaram. Deu um frio na espinha da espanhola. Mergulhando na piscina natural, ela ainda sentia a virilidade daquele moreno, deu-lhe um arrepio no corpo. As duas turistas conversavam, elas aproximaram da jangada, com um espanhol arrastado, conseguiriam se entender. Queriam ficar mais afastadas dos turistas. Zé Hilton em 10 minutos de velejo ancorou a jangada em um local distanciado, como se fosse um pedaço de paraíso particular. As espanholas surpreenderam, tiraram o biquíni, ficaram nuas, mergulharam. O jangadeiro estava fascinado com a beleza das gringas, também mergulhou. Elas se aproximaram do jangadeiro, Letícia puxou-o com as mãos e beijou-lhe na boca. O resto da tarde foi dedicada ao amor à três, tendo apenas o Sol, o Céu, o Sal como testemunha.

Eram dezesseis horas quando a jangada retornou à praia. As espanholas pagaram o preço acertado, incluindo tira-gosto e bebidinhas. O navio partiria para o Recife às vinte e uma horas. Depois do jantar, sentadas no convés conversando sobre a maravilhosa aventura nas águas salgadas e cristalinas entre as pedras, Letícia teve a ideia, e imediatamente correram ao camarote, arrumaram as malas, avisaram ao comandante, assinaram um termo de responsabilidade desistindo do resto da viagem, desembarcaram à noite, hospedaram-se numa pousada, onde ficaram mais 17 dias, só retornaram à Segóvia quando o surto de Pandemia chegou à Maceió. Zé Hilton está sem trabalho, mas não consegue esquecer as espanholas do último verão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RÁS GONGUILA

A história oficial conta a vida dos políticos, artistas, comerciantes, industriais e intelectuais que fazem a história de uma cidade. As figuras mais simples, os descamisados, os trabalhadores humildes, os boêmios, os desempregados, que têm igual importância na vida cultural, econômica e política da cidade, são anônimos coadjuvantes na história, quando aparecem.

No século passado, um negrão forte, alto, tornou-se uma figura importante e inesquecível, mas, não tem seu nome registrado na história oficial. Rás Gonguila era seu nome. Ele dizia ser príncipe africano, descendentes de Reis e Rainhas da Etiópia, seus antepassados foram trazidos escravos para o Brasil. Gonguila tinha maior orgulho de seus ancestrais, fazia questão de seu título nobiliárquico africano, Rás, príncipe etíope.

O Negão era bom engraxate e tinha um ponto na Rua do Comércio. Era cheio de cliente: funcionários, poetas, amigos; ficavam esperando sua vez, conversando potocas. A cadeira de graxa do Negão tornou-se ponto de encontro.

Gonguila tinha alma alegre, divertido, carnavalesco, criou e comandou o “Bloco Cavaleiros dos Montes”. Todo ano desfilava a frente do bloco arrastando multidão com uma orquestra tocando frevos e marchas vibrantes. A moçada caía no passo. Naquela época um bloco de carnaval nivelava a sociedade, pulavam e dançavam juntos: pedreiros, engenheiros, médicas, enfermeiras, desempregados, filhinhos de papai, puta, soldados, todo tipo de gente.

O Negão morava na Ponta Grossa, líder nato, respeitado. Na época não havia associação de moradores, nem interesse escuso por parte desses homens abnegados, eles queriam apenas a sobrevivência de sua comunidade.

Uma eleição, Theobaldo Barbosa, assessor de Arnon de Mello, falou com o chefe, candidato a governador, que havia feito contato com um cabo eleitoral, a maior liderança do bairro da Ponta Grossa e Vergel do Lago. Arnon pediu para visitá-lo. O encontro foi marcado para 20 h. de uma sexta-feira num galpão. Na noite marcada lotou de gente. Havia mais de 600 pessoas.

Arnon, Theobaldo, Zé Barbosa, desceram do carro ao lado do mal iluminado galpão, onde a turma estava esperando. Arnon admirou a estatura avantajada do líder, vestido de branco, negro de lábios grossos e nariz chato, Na hora Arnon esqueceu seu nome e perguntou em voz baixa para Theobaldo, o nome do Negão. Gonguila aproximava-se dos políticos, Theobaldo cochichou no ouvido de Arnon: o nome é Gonguila!

O Negão estendeu a mão a Arnon, dando “Boa Noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos. Teve excelente votação no Vergel e Ponta Grossa, redutos do seu inimigo, o governador Silvestre Péricles, de quem ganhou a eleição.

Candidatos a vereador, prefeito, deputado, até presidente, disputavam o apoio do líder. Na campanha de presidente houve um comício na Ponta Grossa pró Getúlio Vargas perto do cine Lux. O comício foi organizado em cima de um caminhão, o som era um enorme microfone. Vários oradores, brilhantes políticos compareceram para discursar. Alguns candidatos a deputado buscavam os votos daquele populoso bairro. Em certo momento anunciaram o líder comunitário da Ponta Grossa, Rás Gonguila, entregaram o microfone ao Negão. Ele não se fez de rogado, arrochou a voz:

– “Amigos da Ponta Grossa, O Doutor Getúlio sempre foi um homem que trabalhou para o povo e para os trabalhadores do Brasil. Getúlio é o maior brasileiro vivo, e merece nosso voto…”

Um cachaceiro, colega de copo de Gonguila, assistia o comício embaixo do caminhão. Impressionado com tantos elogios ao Dr. Getúlio, do chão, ele gritou debochado, com voz de bêbado:

– Dá o cu a ele, Gonguila!!!!!!

Gonguila parou sua fala, olhou para baixo, apontou para o amigo e gritou no microfone:

– Como o seu, e o dele!!!!

O animador puxou o microfone de Gonguila, continuou o comício:

– Depois das brilhantes palavras de nosso Rás Gonguila, vamos ouvir agora o deputado Ari Pitombo!

Assim era o Negão: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de analfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança, honestidade, e amor à cidade, era organizador de festas populares. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.