CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MULHER DE VERDADE

– Você tornou-se uma consumista compulsória, tudo que você vê você quer. Hoje, um carro japonês, semana passada, aqueles brincos de esmeralda, maior vaidade, você só pensa em luxo e riqueza.

Reclamava Haroldo à esposa em tom ameno, paternal, como se estivesse ensinando alguma lição caseira à uma filha. Estavam casados há pouco tempo. Haroldo sentiu um carinho especial por Gracinha desde o dia em que ela bateu à porta do escritório recomendada pelo deputado amigo. Como funcionária era medíocre, entretanto, sua beleza, sensualidade, juventude e doçura encantaram o chefe. Com três meses de emprego eles já se uniam corpo a corpo. Haroldo, 65 anos, comanda a construtora, fiel às diretrizes do Planalto, sabe percorrer os tapetes de Brasília em busca de obras e dinheiro. Rico, bem de vida, sócio laranja do deputado.

O início foi difícil. Ao se formar em engenharia Haroldo abriu a construtora, trabalhar para si, sem patrão, era o sonho. Amélia, primeira esposa, deu-lhe ajuda na organização da empresa, deu-lhe apoio, carinho, e dois filhos. Cozinhava, lavava e de manhã cedo lhe acordava na hora de ir trabalhar. Foi o sustentáculo da família por muitos anos. Nada valeu quando o marido se engraçou e a trocou por uma jovem funcionária, 28 anos, Gracinha.

Estavam conversando na varanda do apartamento em frente à praia. Gracinha, cheia de vida, alegria e astúcia, sabia levar o marido.

– Meu querido, você mesmo pede que me arrume nas festas, faço sucesso nos salões e reuniões sociais. Detesto cozinha, entretanto, na cama você é a melhor testemunha, sabe perfeitamente que jamais arranjará outra igual, mereço seus presentes. Se está com saudade daquela mulher sem vaidade, que preparava seu café na hora de trabalhar, volte para ela.

Haroldo tinha um encantamento pela nova mulher, não contrariava a esposa, achava-a infantil, porém, dava tudo que ela pedia, compensação da idade, da libido minguando.

– Não quero voltar ao passado. É que você faz tanta exigência, não sabe o que é consciência, nem vê que não sou mais rapaz. Ainda trabalho duro para manter o conforto de nosso apartamento de nossa casa de praia. Para mim, mulher só existe uma, sem você eu não vivo em paz. – Abriu-se num sorriso.

Gracinha levantou-se, dirigiu-se à cadeira onde estava Haroldo, abaixou-se, deu-lhe um beijo no pescoço, o decote generoso mostrou a beleza do corpo. O marido se excitou. Ela sentou-se no colo, respondeu cochichando ao seu ouvido:

– Posso ser gastadeira, entretanto, sempre lhe honrei, oportunidade de trair já tive nesses dois anos de casados, muitas cantadas recebi. Nunca reclamei de nossa diferença de idade. Quando você tenta e às vezes não consegue, lhe vejo contrariado, eu consolo, o que há de fazer? Depois com carícias e prazer faço tudo acontecer, com toda vaidade, eu sou mulher de verdade.

Haroldo segurou-a firme, procurou seus lábios, num beijo prolongado se abraçaram se enlaçaram na cadeira. A Lua refletindo no mar e os carinhos da amada deram-lhe sensação de poder, confiança e segurança. Levantou-a pelos braços até a cama. Amaram-se com maestria de Gracinha. Sábia, intuitiva, havia nascida para amar.

Ao terminarem, deitados contemplando o teto do quarto, Gracinha, às gargalhadas, comunicou ao marido.

– Tenho uma surpresa, comprei meu presente do Dia Internacional das Mulheres, duas passagens para Nova York, lua de mel na semana santa. Preciso fazer umas comprinhas, renovar meu guarda-roupa.

Haroldo feliz, sorriu; recebeu um cheiro, dormiu.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PROPOSTA MODERNA

– Meu irmão, há algum tempo precisava falar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar essa mesa.” Disse Marília abraçando Hugo ao encontrá-lo no shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida, Hugo Sanchez puxou uma cadeira, sentou-se, pediu dois chopes no início daquela tarde de sexta-feira. Ela foi direto ao assunto.

– Hugo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são parecidas. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente, aos 40 anos. Nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você falou levemente em casamento. Nada de pessoal contra Kalu, até gosto da moça, 10 anos mais nova, parece equilibrada e sensata. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Uma fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz sobrinha. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.

Hugo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Marília, você agiu bem, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei da bissexualidade de Kalu. Eu até gosto muito de sua sobrinha Geísa, nada me fez perceber essa opção sexual de Kalu, ela gosta de homem, tenho certeza Vou pensar no que fazer. Obrigado minha irmã.

Hugo pediu mais chope, passaram a tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Hugo encontrou Kalu na Barraca Pedra Virada, acompanhada de Geísa, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Geísa em casa, dormiram no apartamento, amaram-se, Hugo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês, bebericar até o final da tarde. Kalu perguntou se podia convidar Geísa.

Tudo bem disse Hugo, mas, quero uma conversa antes. Foi claro e taxativo com a namorada.

– Kalu, estamos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Geísa vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo seu com Geísa, que vocês são um caso, é o boato corrente nas rodas da boemia.

Kalu ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Hugo querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Geísa não é minha parente. Eu estava esperando um momento apropriado para abrir o jogo, lhe confessar. Conversei muito com Geísa, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não sei sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meia louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Adicionar Geísa em nosso relacionamento. Peço apenas a você, conversar com Geísa, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos.

Hugo Sanchez teve um impacto com aquela inusitada proposta. Conversou, passou algumas tardes com Geísa. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, passeando pela bela Cartagena das Índias, Colômbia. O mais caro foram as três passagens de avião.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OBRIGADO JHC, O PARAÍSO VOLTOU

Nós, meninos da Avenida da Paz, mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho, jogávamos a tarrafa aberta, puxávamos cheia de peixes. O siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, mangue, era “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca, no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía da toca, beliscava a isca, fechava a arapuca. Dava um ar de felicidade ao ver a arapuca com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz era uma festa, transformava-se em palco e campo de jogos e brincadeiras. Correr, “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito jovens, no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e roubar a bandeira do time adversário. Havia outros jogos, ximbra (bola de gude), pião, bicicleta, patinete. Mas nossa maior diversão era jogar futebol na areia da praia, de manhã e de tarde, às vezes, em noite de lua, quando fazia um gol depois que a lua aparecia, a partida acabava, era o gol da Lua. Mergulhar naquele mar azul esverdeado e nadar até perto dos navios, era nosso exercício lúdico.

Final do ano chegavam as férias, os jovens que estudavam fora retornavam à vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, inventávamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite sentávamos nos bancos da Avenida contando piadas e aventuras ou saíamos à cata de namoradas nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente.

Os empresários de turismo perceberam que a bela praia da Avenida da Paz era um paraíso, construíram os primeiros hotéis modernos, Luxor e Beira-Mar, havia o belo e antigo Hotel Atlântico. Foi a Avenida da Paz a pioneira do turismo em Maceió nos anos 70. Pouco tempo depois aconteceu a mecanização da lavoura no interior, os fazendeiros e usineiros compraram máquinas, não havia uma política pra fixar o homem no campo, aconteceu a primeira invasão de trabalhadores rurais desempregados, invadiram a capital, se fixaram, criaram favela no Vale Reginaldo-Salgadinho.

Em 1988 a Constituição cidadã previu o usucapião rural, quem morasse num imóvel por mais de cinco anos, teria sua posse. Os fazendeiros preferiram convocar os boias frias e demoliram mais de 20 mil casas de trabalhadores rurais em suas fazendas. Houve a segunda invasão no Vale Reginaldo-Salgadinho poluindo drasticamente o riacho e a praia da Avenida da Paz, a mais bonita de Maceió. Os hotéis fecharam, os prédios foram vendidos para repartição pública. Os moradores da Avenida da Paz se mudaram devido a fedentina dos 17 km do vale do Reginaldo-Salgadinho, com os casebre lançando os dejetos in natura no riacho. Uma pena, nesses quase 50 anos nenhum governador ou prefeito tentou realizar uma obra séria de despoluição do Salgadinho. Só pequenos paliativos. Até que apareceu um Prefeito de coragem, determinado, iniciou a obra “Renasce Salgadinho”. Muitos não acreditaram.

Sábado passado tive a honra em assistir a inauguração do projeto, “Renasce Salgadinho”, deu-me uma alegria, voltei a ser menino, qualquer dia vou mergulhar na mar da Avenida da Paz, a mais bela de Maceió. Obrigado prefeito JHC, obrigado secretário de obras Rodrigo Cunha pelo renascimento do Salgadinho e da belíssima praia da Avenida da Paz. O paraíso voltou. O turismo vai estourar em Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

1º DE ABRIL DE 1964

Acordei-me com o som cadenciado do toque de Alvorada pelo corneteiro do quartel. Tenente do Exército Brasileiro, eu servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro do Recife. Meus soldados estavam bem treinados contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade. A Companhia permanecia de prontidão há mais de uma semana devido aos acontecimentos da época. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. O presidente João Goulart era ambíguo, acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um esquema militar sustentava João Goulart na presidência, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército(Nordeste), havia jurado ao governador Arraes que a tropa estava com ele. Quando a conjuntura mudou, Justino também mudou. A situação política ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com discursos provocativos às Forças Armadas. Jango, foi inábil, estava cutucando a onça com vara curta.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal da tropa, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandante de pelotão, fez uma preleção. Havia notícias confirmadas que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo era restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965. Mandou cada tenente preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, sabia que haveria algum confronto naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei para os soldados sobre a missão: O Exército estava destituindo o Presidente da República para garantir as eleições em 1965. Deixei bem esclarecido: tiro só com minha ordem. O pelotão tomou a rua em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu vi mães colocando meninos para dentro das casas, ouvi algumas vaias, como também palmas das janelas dos edifícios, era o povo dividido. O Pelotão avançava, eu continha a emoção, pensava na informação que me passaram que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistamos ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, ele pedia para dar um tiro para cima afim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Evitava uma reação por parte dos manifestantes e provocar numa carnificina de um tiroteio dos dois lados. Tentaria até diálogo, se possível. O Pelotão se aproximava cada vez mais, dava para ver as fisionomias dos manifestantes. O sargento insistindo em atirar, eu negava, proibia gritando. Tomei uma decisão, dei voz de comando para o Pelotão: “Acelerado marche!” Os soldados iniciaram o avanço em acelerado (quase correndo). De repente tive a maior alegria e alívio de minha vida quando a multidão se dispersou em todas as direções.

Invadimos o prédio do sindicato. Ficaram apenas três sindicalistas. Solicitei para eles saírem ou teria que levá-los presos. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então têje preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar todos os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato. Retornei com o Pelotão para Avenida Visconde de Suassuna, sede da Cia de Guardas.

Durante o percurso, os soldados marchavam em duas colunas na rua, o barbudo, preso, caminhando no meio da tropa. Encostei-me e cochichei uma mentira no seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, quando você chegar ao quartel vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você se manda”!

Ao chegar mais perto da esquina, ele olhou para trás, encarou-me com olhar suplicante. Aproximei-me, segurei-o pela camisa, puxei-o pelo braço e empurrei-o, ele correu em disparada, escafedeu-se na primeira rua. No quartel fiz um relatório verbal. Um ano depois não houve a eleição. Ninguém, nenhum cientista político, nenhum profeta, nenhum futurólogo, acreditaria que aquele dia era o primeiro de uma ditadura prolongada, me desiludi. Deixei o Exército, escrevi um livro: Confissões de um Capitão, no qual conto a verdade que testemunhei.

Depois da redemocratização da nação, por mais que seja governado por um energúmeno, jamais haverá golpe no Brasil. As Forças Armadas estão profissionalizadas. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2023 nunca foi tentativa de golpe. Os militares são altamente organizados para cometerem aquela manifestação bagunçada, sem comando, sem apoio de governadores.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COZINHEIRA DE IPIOCA

– O que é isso Doutor? – Sussurrou Edileuza quando Adolfo beijou de leve seus lábios.

Há mais de dois meses ela foi contratada como cozinheira na casa de Dona Virgínia. Desde a hora que a viu, o patrão teve uma compulsão, atração irresistível a seus lábios carnudos, sensuais. Sentiu imensa vontade de beijar a morena de sorriso branco.

Adolfo desde que se aposentou entregou-se ao lazer, ao ócio. Todos os dias durante a tarde assiste a um filme na televisão ou entra no Facebook. Ler bons livros, tomar um uísque faz parte de suas predileções. Pelo menos uma vez por mês cumpre suas obrigações matrimoniais com Dona Virgínia, vida tranquila, despreocupada, saudável, mas monótona. Ao aparecer a nova empregada deu uma catarse em sua libido, vivia espreitando a jovem, olhando as pernas, o andar e principalmente sonhava com os lábios carnudos da morena.

Certo dia, surpreendeu Edileuza, antes de sair, roubando da geladeira pedaços de carne, frutas e verduras, colocou na bolsa sem perceber que o patrão olhava. Na hora da saída, Adolfo chamou-a mandou abrir a sacola, provas irrefutáveis, o fruto e as frutas do roubo. Ela começou a chorar pedindo por tudo, não dissesse à patroa, era a última vez, devolvia tudo, só tinha aquele emprego para sustentar duas filhas adolescentes, morava num casebre em Ipioca. Chorava, pedindo a Adolfo. Ele se conteve, deu-lhe vontade de abraçá-la. Prometeu não contar se jurasse nunca mais levar um palito da casa! Ela sorriu apertou, alisou a mão do patrão, olhou nos olhos, saiu apressada.

Dia seguinte ao encarar Adolfo, ela piscou o olho, foi um alívio, ficou grata ao patrão, continuou seu trabalho na cozinha. Ela havia percebeu os olhares pidões de Adolfo desde que chegou. Depois do flagrante, quando Dona Virgínia saía Edileuza ficava displicente nos modos de sentar, cruzar pernas, rebolar. Ao falar com o patrão olhava-o nos olhos, provocava-o, ele cada dia mais tentado a fazer uma besteira, o Diabo veste avental.

Numa sexta-feira, Virgínia foi encontrar-se com as amigas, Adolfo chegou da rua alegre, cantando, com fome de anteontem. Ao servir à mesa, uma excelente arabaiana frita, Edileuza abaixou-se mostrando o generoso decote estufado por dois melões morenos, o coroa respirou fundo.

Adolfo foi tomar o cafezinho na cozinha. Edileuza encheu a xícara, açúcar, entregou-a olhando para os olhos da patrão, bem perto um do outro. Adolfo não aguentou, deu um beijo leve em seus lábios. Ela sussurrou com um sorriso maroto – “O que é isso Doutor?” – Ele respondeu com o sangue a ferver, “É só um beijo, apenas um beijo, não se importe fica nisso”. Edileuza deu uma gargalhada contou um segredo – “Minha tia Zefinha costumava dizer: dá certo não com patrão.”

Adolfo deixou a xícara cair, abraçou a morena num ímpeto de jovem abocanhou os lábios mais gostosos, mais sensuais que já havia experimentado em todos os anos de vida. A morena, não se fez de rogada, sabia beijar melhor que qualquer artista de televisão. No chão da cozinha aconteceu a primeira vez. Tia Zefinha tinha razão. Ao terminar, ela despenteada, “o senhor é louco patrão”, cada qual para seu lado como se nada tivesse acontecido, Adolfo entrou no computador, Edileuza continuou a faxina na cozinha. No momento da saída, ele colocou uma nota de R$ 100,00 na bolsa da morena, para o ônibus. Prometeram não fazer mais em casa. Durante a semana num motel é mais apropriado.

Adolfo anda feliz, remoçou, vive de bem, tem maior cuidado, foi um acontecimento em sua vida monótona. Dona Virgínia contagiou-se com o bom humor do marido, anda feliz como nunca. Edileuza continua excelente cozinheira, maior respeito ao patrão, exceto nos momentos de amor numa tarde de folga no motel Star. Adolfo aumentou o salário da jovem em 80%. Acabou-se a vida monótona de todo dia igual aos outros. Espera a tarde de folga na quarta-feira, e passa horas agradáveis com a Cozinheira de Ipioca.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MULHER DA CAPA PRETA

Adalberon cursava a Faculdade de Direito no Recife nos anos 50. Orgulhava-se de ser universitário, vestia-se bem, adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava a Maceió.

No último ano do curso, ele aproveitou as férias juninas. Foi convidado para uma festa de 18 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico fazendeiro, morava numa bela casa na praia de Pajuçara. Decoração suntuosa, mesas espalhadas no quintal, muita bebida e comida. A Orquestra animava o aniversário de Margarida.

Os jovens dançavam no salão iluminado por um vistoso lustre. Adalberon bem vestido em seu terno; como chovia, ele levou sua capa preta longa, deixou-a pendurada no cabide na entrada.

Cumprimentou os donos da casa, a aniversariante, bebeu, comeu. A orquestra tocava uma bonita música quando Adalberon avistou uma jovem loura no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça de vestido cor de rosa. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Rodopiando o salão com um abraço, dançaram. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Ela se chamava Carolina, a melhor amiga de Margarida, a aniversariante. Ele se apresentou dizendo que no final do ano se formava em Direito no Recife. Carolina respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. – “Eu já sabia!”.

O Rapaz ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Faculdade. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Carolina falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da casa apanhou a capa pendurada. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a capa protegendo-a da chuva, correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. De repente Adalberon puxou o rosto de Carolina e deu um beijo ardente em seus frios lábios, percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça Afrânio Jorge, ela tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. A jovem pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa.

Adalberon seguiu-a com olhar até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o rapaz acordou-se com a figura de Carolina gravada na cabeça e no coração. Passou o dia pensando na jovem. Lembrou-se que não havia marcado hora com Carolina. Às sete horas da noite Adalberon estava na Praça olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Carolina. Até que uma senhora se assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Carolina estava em casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de sua filha, contou como havia conhecido, não havia marcada encontro com ela, por isso estava procurando a jovem.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha completado um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história, desmaiou na cadeira.

Quando acalmaram-se, os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até à capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Carolina. Ao se aproximarem deu-se o inesperado assombro: a capa preta cobria o túmulo de Carolina. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher com vestido rosa perambula pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher à noite circulando pelas ruas.

Anos se passaram desse acontecimento, o Doutor Adalberon todos os anos, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar no túmulo de Carolina, onde alguém colocou uma capa de mármore preto por cima da cruz.

A lenda se alastrou na cidade.

O boêmio e carnavalesco, Marcos Catende, morador da região organizou um bloco carnavalesco. Durante o Carnaval o “Bloco da Mulher da Capa Preta” desfila pela cidade, arrastando multidão, com dispersão em frente ao Cemitério.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ESCOLA PREPARATÓRIA DE FORTALEZA

Eu era menino, menino. Tinha me submetido ao difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Naquele tempo, em Maceió só havia a Faculdade de Direito. O jovem ingressar na Escola Militar, ser Oficial do Exército ou entrar no Banco do Brasil era o sonho das famílias da classe média. Foi numa noite de festa de rua, na Praça Sinimbu, que Jarbas Bagdá me deu a notícia: Eu havia passado nos exames. Jarbas com o jornal O Globo, do Rio na mão, mostrou-me a relação. Meu nome ali era a glória, muita emoção, muita vibração. Apenas três candidatos passaram no Estado de Alagoas. Fui correndo para casa dar a notícia. D. Zeca improvisou a maior festa, que durou até altas horas da noite, com amigos e parentes, muita bebida e comida. No final da festa, fui até a Avenida da Paz, andei sem rumo pela praia. A Lua iluminava de prata as águas daquela imensidão do mar. Fiquei a me perguntar: ” O que será?”. Sentei-me no parapeito do coreto, olhando para aquele infinito escuro, apenas a tênue iluminação da Lua, não sei de felicidade ou tristeza, chorei como menino… Estava deixando de sê-lo. Foi o que aconteceu de mais bonita de minha vida… ser menino. Vi o dia amanhecer e fui dormir.

Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Peguei o trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Elio Wanderley, os dois outros alagoanos que passaram nos exames da Escola Preparatória. Partimos no famoso Trem das Alagoas, saiu às seis horas da manhã de Maceió, com chegada prevista no Recife às 18:00 horas, nunca cumprindo o horário.

Escalas incontáveis. Passamos em Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares e mais inúmeras cidadezinhas perdidas nos canaviais de Alagoas e Pernambuco. Nas estações, desciam e entravam novos passageiros, sempre com mala ou saco, o cadeado era um nó. O trem parava o mínimo possível, era o tempo de apreciar os vendedores de frutas, de comidas regionais, uma feira de mangaio: “Olha a manga madurinha. Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na bora… Olha a água de quartinha… Chapéu de palha…” Achava interessante aquele comércio ambulante em cada estação, como se fossem as mesmas pessoas, raramente uma novidade nos artigos oferecidos.

Um belo céu azul quase sem nuvem se encontrava com o verde ondulado dos canaviais nos longínquos horizontes. O poeta pernambucano Ascencio Ferreira imortalizou essa viagem com seu poema, O Trem das Alagoas:

“Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar…. Adeus, adeus. Mangueiras, coqueiros. Cajueiros em Bor. Cajueiros em frutos já bom de chupar. Adeus morena do cabelo cacheado…… Vou danado pra Catende com vontade de chegar… Cana caiana. Cana roxa. Cana fita. Cada qual é mais bonita. Todas boas de chupar… Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

Que mar será? Pensava. Viagem cansativa, bancos de madeira dura. Para amenizar, conversávamos. Especulávamos o que haveria de ser, nós três meninos. Mas, no fundo, eu estava com uma saudade tremenda, minha mãe, meu pai, meus irmãos, minha bonita família, meu mundo, minha praia da Avenida. As vezes a vontade de chorar chegava, olhava o verde canavial no infinito disfarçadamente para enxugar uma lágrima. Era apenas um menino.

Ao Chegar em Recife, embarcamos num navio de Guerra até Fortaleza. 77 jovens de todo o Brasil ingressavam na Escola Preparatória de Fortaleza naquele dia. Era preciso ter raça, ser forte para enfrentar a nova vida. Algumas vezes tive vontade de desistir, mas os colegas incentivavam para terminar o curso, foram seis anos, contando com a Academia Militar das Agulhas Negras de onde me formei tenente do Exército. Depois da formatura os colegas se espalharam pelo Brasil, a maioria seguiu a carreira militar chegando ao generalato, eu deixei o Exército como Capitão. Desde a Escola nos tornamos irmãos. E nesse fim de semana haveremos de nos encontrar e celebrar os 70 anos do ingresso na Escola Preparatória. Serão quatro dias de alegria, muitas histórias, muitas recordações, alguns já se foram, choramos. Ainda sobram veteranos irmãos de armas, conservados no companheirismo, camaradagem, confiança, lealdade, amor e carinho por tantos anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ZINGA BAR

Robertinho dirigia feliz da vida seu Gordini vermelho numa noite de sexta-feira. Solteiro, boêmio, 27 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de motor; trancou o carro, travou-o, dia seguinte viria com um mecânico. Ficou na estrada pedindo carona. Por sorte parou uma Kombi, eram amigos, tinham o mesmo destino.

O Zinga Bar era o ponto da juventude bonita de Maceió. Empreendimento arrojado de Cláudio Brabosa, a construção se estendia à praia de Riacho Doce, o grande sucesso da cidade dos anos 60. Aliás, revolucionário para aquela geração que mudou o mundo. As moças casadouras daquela época só saiam à noite acompanhadas dos pais para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar a mulherada não foi mais a mesma, deu um grito de liberdade frequentando aquele Bar-Restaurante-Boate e outros recantos aprazíveis. Foi quando apareceu a pílula. Dava-se início a revolução sexual das jovens. A virgindade deixou de ser tabu. É bom registrar esse marco histórico nos costumes da cidade.

Ao chegar no Zinga Bar tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo o mar de Riacho Doce. Mesa cheia: três amigos, duas belas jovens e uma coroa, risonha, solteirona, quarentona, tia de uma das jovens. Conversa divertida, maior alegria quando a banda iniciou os acordes, “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Robertinho para dançar. No dancing, bela vista para o mar, juntaram-se o corpo dançando com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou Robertinho, arrochou, rosto e corpo colocados, mudos, o carinho da mão na nuca, a rigidez nas pernas falava mais que qualquer palavra. A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava Robertinho. Certa hora a Banda animou, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, como no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando feito quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Robertinho e Yolanda se atraiam, deu-se o desejo imenso e ânsia louca de beijo na boca.

Ao retornar à mesa, Robertinho cochichou no ouvido do amigo, pediu a Kombi emprestada, voltava logo. O casal se escafedeu, um quilometro a mais, Robertinho encostou a Kombi embaixo de uma árvore, à meia luz de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem.

Retornaram com aquele sorriso maroto dos bem amados satisfeitos, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, fazer amor é necessidade natural como beber um copo d’água para matar a sede. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios desceram à praia foram cumprimentar o dia nascendo, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão.

Dia seguinte Robertinho acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo, mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. A grande surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente, um beijo de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Na segunda-feira nosso boêmio recebeu um telefonema anônimo informando, os quatro pneus “roubados” estavam guardados com o vigia do Zinga Bar. Assim eram as brincadeiras, meio pesadas, da juventude dourada e bem humorada.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O PISTON DE MANULA

Há quem considere Jorge de Lima, O maior poeta da língua portuguesa, foi também excelente romancista. No posfácio do romance Calunga compreendi a musicalidade da região das lagoas. Jorge afirma que os índios caetés acompanhavam os guerreiros na peleja incitando, tocando flautas e gaitas. Ainda hoje entre seus descendentes encontram-se exímios tocadores de pífano.

Depois dessa abertura, conto a história de amor acontecida na pequena cidade de Santa Luzia do Norte, à beira da Lagoa Mundaú. Como não sou de mentir, quem duvidar do meu escrito dou como testemunha, o ator global, poeta, diretor, Chico de Assis, nascido e criado naquela cidade e sobrinho do músico Otaviano de Assis Romeiro, que aos oito anos era excelente tocador de flauta. Otaviano tornou-se famoso como Maestro Fon-Fon no Rio de Janeiro e Europa. Alagoas se orgulha do célebre maestro e do Chico de Assis.

Em Santa Luzia do Norte havia uma pequena orquestra, dirigida pelo Maestro Wanderley, ele convocava os jovens da cidade para tocarem na Banda Municipal. Era uma atração da cidade; nos dias de festas, tocava até em povoados e cidades vizinhas. Durante o carnaval o povo se enchia de alegria com a Banda arroxando no frevo e a moçada alegre, pulando, dançando, cantando.

Certa vez o Maestro Wanderley recebeu a visita do jovem Manula, ele gostaria de tocar na banda. Ao fazer um teste com instrumento de sopro, Wanderley ficou fascinado com o talento do jovem negro, alto e bonito. Depois de um ano tocando na banda, Manula tornou-se atração com o som do piston, timbre focado e brilhante, ele tornava a música mais expressiva. Era o orgulho do Maestro descobridor de talentos.

Perto da casa de Manula, morava Inês, negra bonita, alta, sua beleza chamava a atenção. Ele a conheceu na Festa da padroeira, dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Inês ficou encantada com Manula quando ele tocou solo, a Ave Maria na Igreja. Os dois, daquele dia em diante, começaram a se encontrar, a namorar, sempre com o olhar vigilante dos pais que não queriam o namoro da filha com um músico, sem futuro.

Manula morava com a mãe viúva que recebia uma pensão. Dava para manter uma vida simples. Contudo, Manula tinha ambições e sonhos. Quando estava com Inês se sentia feliz, eram apaixonados, pensavam em casar assim que Manula pudesse sustentar a família. A ambição de Manula era entrar no Exército para tocar na Banda do Quartel e estudar música. As ambições se tornaram cada vez mais difíceis. Não havia emprego na cidade. Ele sempre pensando em Inês. Certa vez, o maestro Wanderley o levou para tocar em Maceió numa “Jazz Band” formada por militares, eles tocavam em festas de aniversários e de clubes. Ele foi aprovado. No final das festas Manula dava um show solo de jazz com piston ou trompete.

Depois da tocada ele retornava de Maceió logo cedo de canoa. Procurava Inês mostrava o que havia ganho no fim de semana. Em pouco tempo, por seu talento, ficou conhecido e nos finas de semana ganhava um dinheirinho, guardava, pensando no casamento com Inês, cada vez mais apaixonado. Certo sábado ele tocava na “Jazz Band” no Clube Fênix, acompanhando o show do cantor alagoano Alcides Gerardi que ficou encantado com o talento, com o som de Manula. Convidou-o a acompanhá-lo numa turnê pelo Brasil. Depois de conversar com Inês, mostrando quanto iria ganhar, partiu para turnê de seis meses Brasil afora. Não tinha tempo de escrever, não havia telefone DDD, Manula ficou meio ano sem ver seu amor.

Depois de seis meses retornou a Santa Luzia do Norte. Ainda navegando na canoa recebeu a notícia, a maior decepção de sua vida. Inês havia casado.

Entrou em casa, abraçou a mãe, meio aéreo, deitou-se na cama, entrou numa depressão profunda, não chorou, mas sentia uma dor profunda dentro das entranhas. Enterrou seu valioso piston no quintal. Todas as manhãs regava o “túmulo” do piston. Assim continuou por muito tempo. Até que chegou o carnaval. Quando a banda arrastava a mocidade pelas ruas, Wanderley teve a ideia, passaram na casa de Manula e tocaram o Vassourinhas, chamaram o grande músico para o Carnaval. Pela primeira vez depois de seu retorno, Manula sorriu. Foi ao quintal, desenterrou o piston, deu três sopros, se juntou aos amigos na frente do Bloco tocando seu som inconfundível. O Carnaval fez milagre, ressuscitou Manula.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS CARIOCAS

– O que tem para se fazer nessa terra numa belo domingo de Carnaval?

Perguntou Adriana às amigas, enquanto enchia a xícara no café do hotel. Beto, ao lado, entrou na conversa das três morenas bonitas. – Desculpe a intromissão, hoje tem o desfile do Bloco da Nêga Fulô, um dos melhores e mais animados blocos de Maceió, vale a pena dar uma olhada, no começo da tarde estará desfilando na orla uma multidão, na verdade são oito blocos juntos, tocando frevo e marchinhas de antigos carnavais.

As cariocas se interessaram, agradeceram, pediram mais informações, ele sentou-se junto a elas, era seu objetivo. Depois que Beto separou-se de Marlene leva a vida nos hotéis paquerando turistas maiores de trinta em busca de diversão ou algumas aventuras fortuitas. Acompanhou as novas amigas à praia, onde conversaram, divertiram-se com as histórias de Beto; um belo homem, bem humorado, alegre e conhecedor de muitas histórias, completara 50 anos no dia anterior. O desfile do Bloco partiria da pracinha dos 7 Coqueiros às 15:00 horas.

As cariocas descontraídas, de biquíni, acompanharam a multidão arrastada pelo Bloco da Nêga Fulô naquela bela tarde de fevereiro. Dançaram, pularam, cantaram, ficaram encantadas com a animação. O frevo na rua, as marchinhas antigas cantadas pelo povo fantasiado ou simplesmente de bermudas. Acompanharam o bloco por mais de três horas se divertindo, um carnaval inesperado. Eram cinco horas da tarde quando o bloco entrou à direita mar adentro sobre o Marco dos Corais. Orquestra do Maestro Elizaubo tocou uma série de frevos, terminando com os Vassourinhas. Cansados sentaram num banco olhando o azul do mar. As meninas fascinadas, não esperavam tantas beleza. Até que foram caminhando para Barraca Pedra Virada, onde tomaram uísque, cerveja, jantaram. Perto das oito horas, Foram ao hotel colocar uma bermuda, o que Beto também o fez em seu pequeno apartamento defronte à praia de Ponta Verde. Foram ao bairro antigo de Jaraguá, ficaram na praça Dois Leões em uma mesa de ambulante, olhando o povo cair no samba, tocava o afinado conjunto “Samba da Periferia”, as cariocas entraram no meio do povo sambando com seus passos miúdos deram um show.

Encontrara-se com eles, tomando uísque, assistindo a animada banda, o Dr. Evaldo, digno membro da Justiça Alagoana, sessentão aprumado, conquistador, leva a vida de solteiro embora seja casado há mais de 30 anos, solicitado pelo pareia, também fez companhia às cariocas fascinado pelo carnaval nordestino. Terminaram a festa, a paquera com o caminhar da noite estava indefinida. Mas na hora de dormir se ajeitara, Beto ficou com Adriana e Thereza no apartamento e Sua Excelência, o juiz, conseguiu entrar no hotel com Rose. Ele não tinha problema, sua santa mulher fora passar o carnaval em Olinda com as filhas, genros e netos. Ele não gostava, achava muito bagunçado o animadíssimo Carnaval de Olinda.

Pela segunda-feira de manhã encontraram-se na praia em frente ao Hotel Ponta Verde, almoçaram no Restaurante Maria Antonieta. Descansaram um pouco. Às 18:00 horas acompanharam o Bloco do Coco de Roda, as cariocas se encantaram com aquele bloco folclórico. Jantaram na Bodega do Sertão. Por acaso encontraram Bernardo, outro cinquentão que se adaptou muito bem com os cinco foliões. Partiram para a noitada alegre e agitada no belo bairro histórico de prédios antigos, Jaraguá. No final da noite, se ajeitaram, Thereza dormiu no apartamento de Bernardo, viúvo há um ano.

Afinal a terça-feira, foram à praia do Francês, tomaram boa cerveja, almoçaram, esperando o Bloco do Siri Mole, do artista plástico, Ovídio Gurgel, que iniciou seu desfile pelas cinco horas. Ao acabar de dançar, pular, frevar; conforme combinado, retornaram a Maceió, em Jaraguá ainda deu tempo de desfilar no Bloco da Nêga Fulô. Dançar na Praça e finalmente foram encerrar o carnaval no primeiro baile, “Grito de Jaraguá”, organizado pelo carnavalesco Dinho Lopes em um restaurante, ficaram até terminar o animadíssimo baile.

Na tarde de quarta-feira, no aeroporto, felizes, com tantas histórias a contar, Thereza perguntou às amigas cariocas.

– Quem disse que não havia carnaval em Maceió? – Para o ano estarei aqui de novo.