CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ÁGUAS DE 1949

Ponte do Salgadinho partida ao meio

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levavam ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CASA DA AMIGA FRANCESA DO GOVERNADOR

Manifesto de solidariedade ao governador Costa Rego -1926

Pedro da Costa Rego foi Governador das Alagoas na época da Velha República. Austero, elegante, inteligente, duro em suas ações e cobranças administrativas. Era um homem rigoroso, sensível, gostava de coisas finas, música, teatro, inclusive viajar.

Em uma viagem, conheceu Mademoiselle Sigaud, bonita atriz cheia de charme e de salamaleques. A francesa impressionou nosso Governador, que a convidou para visitar Alagoas. Mlle. Sigaud adorou o mar de Maceió. Ficou estabelecida de cama e mesa na Rua Silvério Jorge, perto da praia da Avenida da Paz, onde pelas manhãs tomava seu banho salgado, como se chamava o banho-de-mar naquela época.

No dia 15 de dezembro de 1926, segundo ano de governo, o Governador dirigiu-se ao casarão da Rua Silvério Jorge, onde esperava sua amiga Mlle. Sigaud. Após um belo jantar, ficou a ouvir piano, ele gostava de Mozart, fumando caros charuto. Recebeu o amigo, secretário, conselheiro, Adalberto Marroquim para conversas políticas, administração e coisas da vida; sentados tomando fresca na varanda.

Mal sabia o Governador que Severino, um dos seus guardas, havia sorrateiramente entrado no quintal da casa vizinha e se posicionado numa mangueira mais próxima, sentado em um tronco, de onde se avistava o governador. Estava ali para matá-lo; contratado por um inimigo político.

Quando Severino resolveu dar o tiro fatal com seu fuzil, moveu-se, balançou alguns galhos, o movimento brusco despertou a atenção dos gansos da casa do vizinho (Dr. Ezequias da Rocha – depois Senador da República). Os gansos correram fazendo maior zoada com cantorias e trinados, como se estivessem dando um alarme. A cantoria dos gansos chamou a atenção de todos. Os guardas de segurança correram, viram e reconheceram Severino quando se evadia. Fugiu na escuridão da noite. Na mesma noite toda cidade estava sabendo do atentado frustrado.

– “Mais uma vez os gansos salvaram a humanidade. A primeira no Capitólio de Roma, agora, na Rua Silvério Jorge.” Gozavam os intelectuais e boêmios no Bar Colombo, na tarde seguinte quando iniciavam a noitada.

Severino foi preso. O atentado teve uma enorme repercussão no Estado e em todo o país. Várias manifestações de apoio a Costa Rego foram realizadas. No dia 23 de dezembro, uma enorme concentração fez um desagravo, caminharam da Catedral à Praça dos Martírios. Uma multidão ouviu discursos, iniciado pelo presidente da Academia Alagoana de Letras, Demócrito Gracindo (pai do ator Paulo Gracindo) que emocionado esbravejou: “Não é a boca de ouro da lisonja, nem mesmo a palavra inflamada da paixão partidária que ouvis; é o comércio que paga imposto, o operário humilde que não aprendeu a mentir, o pescador indômito…” O povo na praça delirava.

Na terça-feira (28) houve a reconstituição do crime. Compareceram além das autoridades, jornais de todo o Brasil e internacionais. A casa da Silvério Jorge tornou-se famosa, entrou para a história.

Passaram-se alguns anos e o Capitão Mário Lima, do Exército comprou a casa da Rua Silvério Jorge. Dona Zeca, numa linda manhã de sol, no dia 27 de fevereiro de 1940, deu à luz ao terceiro filho, uma sorridente, corada e encantadora criança. Assim eu nasci na famosa casa, onde morei minha infância, juventude e grande parte de minha vida.

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PAULINHA E SEUS DOIS MARIDOS

Como se fosse uma bomba, explodiu a notícia: Paulinha largou o marido e fugiu com seu “Personal Training”. Por mais de um mês foi o assunto nos salões de beleza, nas fofoqueiras de plantão, vizinhos, amigos e parentes. Como, uma jovem que nem Paulinha, bem educada, religiosa, prendada, teve essa insana atitude? Ninguém se conformava com o fato. Armando, bom marido, não merecia o chifre destampado em sua testa. Entretanto, ele parecia calmo, aceitou a fugida de Paulinha.

O pai de Paulinha, agora aposentado, foi um homem trabalhador, gerenciava uma usina de açúcar. Paulinha, filha única, teve todo carinho da família, estudou no Colégio Madalena Sofia, rígida educação social e religiosa. Como toda jovem da classe média, não teve problemas financeiros em sua educação. Conheceu Armando na Faculdade de Direito, formaram-se juntos, namoraram, casaram. O casamento navegava em águas mansas, em céus de brigadeiro, o único problema, não engravidar, os amigos de Armando zombavam. Entretanto, a falta de filho não impedia do casal se amar, ter respeito e carinho, um pelo outro. Armando do tipo caseiro, nunca prevaricou. Paulinha trabalhava no escritório de advocacia, curtia a vida com o marido, cuidava seu corpo toda noite numa academia de ginástica, aliás, corpo bonito, sensual.

Até que, numa noite apareceu um novo treinador na academia, o sangue de Paulinha ferveu, disparou seu coração ao ver Estevão, bem perto ele fazia as correções dos exercícios, não era bonito, nem feio, tinha uma cara máscula, sensual, ossos do rosto sobressaídos. Estevão passou algum tempo corrigindo falhas de posturas, quando tocava seu corpo dava uma sensação de volúpia em nossa amiga. Paulinha saia meio trêmula da ginástica. Durante a noite sonhou correndo na esteira, de repente apareceu por trás um cavalo com cara de homem e a agarrou. Acordou-se molhada. Acontece que, Estevão, também ficou impressionado com Paulinha, fazia força para tirá-la do pensamento ao lembrar a aliança no dedo. Certa noite na academia foi animada para os dois, conversaram bastante. Assim se passaram os dias. Paulinha pensava em Estevão e vice-versa. Até que, numa noite, depois de um banho na academia, ao entrar no carro num local afastado, Paulinha ouviu por trás de seu ouvido, “-Me dá uma carona”? Ela se assustou e sorriu, Estevão entrou no carro estacionado em local ermo, se abraçaram, se beijaram, ali mesmo fizeram amor.

– Que loucura, que loucura, eu amo meu marido! Mas quero você, quero você, seu filho de uma puta!

Gritava Paulinha enquanto beijava e abraçava o novo amor.

Passaram mais dois meses, até que Paulinha resolveu contar tudo a Armando, dor na consciência. Ele teve a reação esperada, quebrou o que havia na sala, feriu a perna ao dar um pontapé na televisão. Passaram o fim de semana discutindo, ela enfática, reafirmava que lhe amava, entretanto, não podia viver sem Estevão.

Na segunda-feira Paulinha resolveu sair de casa, foi morar no apartamento do treinador. Armando aceitou a separação. O tempo é o senhor da razão, já dizia o Presidente, e da conformação, entretanto, a gostosa Paulinha nunca deixou de encontrar-se com o ex-marido, na verdade ela realmente amava os dois. Nutria o amor bem comportado de seu amado de juventude, seu marido.

Dois anos se passaram, com muita habilidade Paulinha aproximou Armando de Estevão, se deram bem, hoje bebem juntos uma cervejinha na praia. Porém Armando continuou a morar sozinho em seu apartamento.

Em história de amor tudo pode acontecer, as más línguas afirmam convictas que Estevão, um bom coração, permite a mulher se encontra com Armando no seu apartamento para uma rodada de amor. Paulinha barbarizou, bigamizou, tem dois maridos.

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UMA TARDE INESPERADA

– Seu Vicente, como vai? Está lembrado de mim?

Laurinha falou sorridente saindo do Shopping. Ele a olhou, reconheceu a bonita senhora, não sabia de onde, para acabar a dúvida gentilmente perguntou.

– Claro que recordo, a idade atrapalha pormenores, de onde mesmo que lhe conheço, menina?

– Obrigada pelo menina. Sou a Laurinha, fui professora de reforço escolar de sua filha mais nova, a Cacilda, por um ano. Lembra? Como vão os netos? O senhor era apegado com ao mais velho, o Francisco, deve estar um rapaz. Estou morando em São Paulo há oito anos.

– Laurinha, você está uma mulher bonita, vejo que o clima de São Paulo faz bem à saúde e à beleza.

– O senhor sempre gentil. Não é o clima, é a oportunidade de ganhar melhor. Tenho um emprego bom, ensino numa boa escola, por isso me trato, vou à academia e uso outras artimanhas das mulheres.

Nessa altura, os dois chegaram ao estacionamento, Vicente, acercou-se do carro, perguntou o destino de Laurinha. Ela pegaria um ônibus para o Prado, estava hospedada na casa da irmã. Vicente gentil, e certamente com outras intenções, ofereceu-se para levá-la. Laurinha recusou, não precisava se incomodar. Vicente insistiu, estava à toa na vida, sem ter o que fazer, aposentou-se há pouco tempo, tornou-se o vagabundo das tardes.

Ela colocou os embrulhos no banco traseiro, sentou-se à vontade, a saia encurtou mostrando ainda ser uma mulher desejável, o tempo não foi tão cruel com Laurinha. Ele deu a partida, o carro rolava maciamente no asfalto, olhou de banda para ela, gostou do que viu. Laurinha foi a primeira a retornar conversa.

– E Dona Celina, como vai? Ainda gosta de jogar cartas com as amigas toda tarde?

– Sim, tem a compulsão pelo jogo.

– Para compensar seu vício. Desculpe a franqueza, o senhor ainda gosta de garotas? Lembro uma vez que chegou em casa com a camisa suja de batom, que maldade de sua amiga. Dona Celina fez escândalo.

– Ainda tenho esse vício, entretanto, nunca deixei meus deveres matrimoniais. Os filhos cresceram, são independentes, hoje vivo para os netos. O Francisco tem 15 anos, a Adriana 13, e o Dudu 8 aninhos. Sou um avô babaca, esse é o melhor termo, faço tudo que eles pedem. E você? Conte sua vida, quero saber o que fez em São Paulo para se tornar uma mulher tão bonita. Naquela época eu tive uma atração enorme por você, era uma jovem atraente, mas, tinha receio de confusão em casa. Estou fascinado, a mulher de hoje é mais bonita do que a jovem de ontem.

– Eu notava seus olhares Seu Vicente, vou confessar um segredo, eu também tinha atração pelo senhor, era um homem bonito, charmoso, aliás, ainda é. Já tem 60 anos?

– Tenho mais minha querida, Laurinha, somos dois adultos, não precisamos muito de conversa jogada fora, vou lhe fazer uma proposta. Há muitos anos nos conhecemos, descobrimos que numa época nos desejamos, não deu. Por isso pergunto: Vamos passar a tarde num motel, em busca do tempo perdido e fazer tudo que der vontade?

– Por que não? Respondeu calma Laurinha. Ao entrar no apartamento os dois se abraçaram, se amaram, se beijaram, como dois seres maduros cheios de desejos. Uma tarde gloriosa de amor. Inesquecível.

Os dois conversaram lembrando fatos da vida passada, muita história. Nunca mais havia passado momentos tão agradáveis, afinal, felicidade é momento, aquele foi marcante.

Ao levar Laurinha para casa, propôs novo encontro, que bom ela ter aparecido. Perguntou quando poderia vê-la. Ela o olhou nos olhos.

– Retorno a São Paulo amanhã, tenho um filho, sem marido. Quem sabe um dia?

Beijou-lhe o rosto. Antes de entrar na casa da irmã, olhou para Vicente, sorriu. Estava feliz.

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UCPM

Nos anos 50/60, Maceió vivia uma época áurea de tranquilidade, excelente qualidade de vida, parecia uma enorme família. Nós adolescentes formávamos turmas de bairros, inventávamos brincadeiras, jogos, festas de rua onde a moçada torcia no pastoril pelo azul ou encarnado, ou nos campos de futebol pelo CRB ou CSA. Havia a turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, do Gramado da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras. Todas tinham um time. Era grande a rivalidade entre os jovens no futebol na areia da praia, nas festas, nos clubes e nas namoradas. Contudo, todas as turmas convergiam para as mesmas praias: Avenida ou Pajuçara; mesmos clubes: Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; mesmos colégios: Diocesano, Liceu, Guido ou Batista. Resultava numa integração de amizade. Todos se conheciam na província de Maceió.

Apesar de morador na praia da Avenida da Paz, eu circulava por toda cidade com minha bicicleta. Certa vez eu namorava uma bela morena na Praça Centenário. Depois do jantar subia de bicicleta pela Ladeira da Catedral pedalando, na ânsia de abraçar a morena.

Minha namorada era gêmea. Um dia a irmã veio me avisar que ela estava doente, de repente resolveu tomar seu lugar, calada, segurou minha mão. Não percebi, abracei e beijei a cunhada. Caminhamos pelas ruas escuras do Farol, vez em quando parando, xumbregando, sem saber que beijava a irmã gêmea da namorada. Quando foi para casa, sorrindo me contou o engano proposital,

Tornou-se um segredo.

Certa noite, no Parque Gonçalves Ledo, encontrei um amigo. Depois de um papo informal, convidou-me para reunião de uma associação que a turma do Farol tinha criado com muita imaginação e bom humor. Assisti a reunião, gostei, fui aprovado e tornei-me sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, (naquela época nós adolescente chamávamos de Peniqueira, sem menosprezar, a empregada doméstica).

Tinha regulamentação. Havia uma escala hierárquica. Os sócios para ganharem pontos e serem promovidos, relatavam as aventuras, as conquistas com as empregadas domésticas. Conforme o tipo da aventura e o número de conquistas, ganhava-se pontos e promoção aos postos dentro da hierarquia, como se fosse militar. Cheguei a Capitão no Exército, mas não consegui ser Tenente na UCPM. Havia alguns amigos dedicados. José foi galgado ao posto de Marechal por merecimento. Este posto tornou-se cargo privativo; era o comandante, chefe geral. Apenas dois associados conseguiram promoção a general. Por coincidência, esses dois generais da UCPM, moram hoje no mesmo edifício na praia de Ponta Verde.

Naquela época namorada era só beijinhos, abraços, no máximo. Quando dava 10 da noite a namorada entrava em casa. Nós pobres mortais jovens, saíamos excitadíssimos do xumbrego. A solução era descarregar nas profissionais dos casarões de Jaraguá, ou ir à cata das gentis empregadas, generosas, amadas, inigualáveis. Geralmente morenas do interior, do sertão, aonde a seca matava. As moças vinham para a cidade por uma vida melhor. Na capital tinha pouco emprego, para sobreviver elas tinham dois caminhos: a prostituição ou ser empregada doméstica. Sempre cheirosinhas, saíam de casa perfumadas em busca de amor e carinho.

A mais famosa e bonita era a Nega Odete, parecia uma rainha africana, a rainha de Sabá, lábios carnudos, bunda rebitada e riso debochado. Trabalhava numa casa na Praça Sinimbu. À noite dedicava-se de corpo e alma, literalmente, ao que mais gostava, ao que mais sabia fazer, o amor. Era a Vênus Calipígia de ébano dos sonhos da juventude da Praia da Avenida, uma rainha. Não queria compromisso, nem cobrava, ela escolhia seu parceiro. Toda a noite arranjava um namorado. Sua cama de amor eram as plantas ralas da praia, olhando o céu com um milhão de estrelas. A maioria da juventude da Avenida da Paz perdeu a virgindade nas areias mornas da praia, nos braços e sabedoria da Nega Odete.

É necessário uma homenagem, um reconhecimento aos serviços prestados pela divina criatura, que merecia uma estátua na Praça Sinimbu, junto ao Joãozinho Mijão. É merecedora da gratidão de várias gerações.

Bendita juventude, bendita UCPM, bendita Nega Odete.

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O SEGREDO

Afinal Alexandre é ou não é corno? A história é controversa, afinal sua mulher foi franca, confessou ao marido, estava apaixonada por um colega de trabalho, nada havia consumado, ela deixou a casa. Aparecida desapareceu da vida de Alexandre. O ex marido ficou em depressão, dor-de-corno, a autoestima mergulhou. O Pior é que Alexandre relaxou nos negócios, venda de carros usados. Começou a beber todo dia, estava beirando à sarjeta. O tempo é o senhor da razão, dizia o Presidente, quatro meses depois, Alexandre apagou mais a imagem de Aparecida de sua mente. Continuou vendendo carros usados. O ganho dá para se divertir em algumas noitadas. Atualmente, garotas de programa é seu brinquedo predileto. Não sai mais de três vezes com a mesma garota. Apenas Michelle lhe enfeitiçou, jovem Afrodite, Deusa do amor, nasceu para o serviço.

Passaram-se tempos da separação, Alexandre vivia bem, sem amarração, solteiro. Porém, sua irmã mais velha ficava preocupada, achando que todo ser humano veio à terra para se acasalar, inventava festas convidava moças, coroas disponíveis, Alexandre esnobava, casamento jamais.

Até que um dia se engraçou de Luzia, morena bem conservada, ultrapassando os quarenta, ninguém sabia ao certo sua idade. Amiga da irmã, que conseguiu fazer o namoro. Alexandre afinal gostou de uma companhia, mulher bonita, o tempo não foi tão cruel com Luzia. Começaram a sair, cinema, praia, mãozinhas dadas, um beijo, namoro à antiga, passaram-se dois meses para entrar no corpo a corpo. Alexandre ficou encantado com a sabedoria da nova companheira, a coroa bonita é carinhosa, fez o homem gemer sem sentir dor.

Luzia contou sua vida; casou-se nova, grávida, nasceu a filha, a alegria da casa, todos encantados com aquela menina bela e sabida; hoje uma jovem, Antônia, de 19 anos. Certo dia, o pai foi convidado para um bom emprego no sul, Usina de Açúcar em Minas Gerais, aceitou. Com menos de um ano se enrabichou com uma mineira de Juiz de Fora, nunca mais retornou à casa. Manda uma pensão mixuruca, Luzia teve que trabalhar, economizar bastante para se sustentar. Antônia ainda não se formou, estuda contabilidade à noite, tem seus negócios de venda, Avon, ganha um pouco. Como toda jovem gosta de uma balada noturna. Luzia marcou um jantar num restaurante para Alexandre conhecer a futura enteada. Ele foi o primeiro a chegar, pediu uma dose de uísque, bebericou feliz da vida, estava gostando de Luzia, mulher educada, assim estava pensando quando ouviu a voz da namorada, boa noite, ele se virou, tomou maior susto, não conseguiu esconder a surpresa ao perceber, Antônia, a filha, era uma das garotas de programa, a preferida, Michelle, seu nome de guerra. Ele conseguiu se recuperar da surpresa estendeu a mão, muito prazer. Sentaram-se à mesa, iniciaram a conversa. Luzia ficou animada ao apresentar Antônia. Conversaram bastante. Depois do jantar a filha pediu licença, tinha compromissos.

No outro dia Antônia telefonou, marcou encontro com Alexandre, foi direta.

– Meu querido amigo, que susto nós passamos, minha mãe jamais imagina meus programas, pensa apenas que gosto da boemia. Confesso estava ansiosa para lhe conhecer, sem nunca imaginar ser o Xandão. Minha mãe depois que lhe conheceu mudou completamente, tornou-se alegre, é uma mulher feliz, fala em Alexandre o tempo todo, ela lhe ama, lhe adora. Vocês formam um belo casal, vim lhe implorar, não acabe esse namoro por minha causa, garanto, deixarei os programas, seja qual for o preço, eu não quero atrapalhar a felicidade de minha mãe, de vocês, esqueça o que passamos.

– Antônia, minha enteada, gosto de Luzia, vamos nos juntar, não se preocupe. Quanto à você, a mulher mais lasciva, mais sensual, que encontrei, não dá para esquecer. Será nosso segredo. Vamos nos comportar como pai e filha. Entretanto, fica o aviso, se você der, eu como.

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O ASSALTO

Dona Zulmira teve dois filhos, dois Zé: Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamou o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, até hoje os mais íntimos só o chamam de Zé Pequeno, sem cerimônia. Tornou-se um ótimo comerciante, chegado às mulheres, era solteirão convicto até a chegada de Jandira, uma gostosa prima, há muitos anos morando no Rio de Janeiro. Zé Pequeno ficou encantado com aquela vistosa mulher, loura, vestido decotado, divertida, sem meias palavras dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Escandalizou a família e o bairro. Era segredo o trabalho daquela jovem no Rio. Entretanto, Zé Pequeno sabia o que queria, sem preconceitos, terminou casando-se com a bela Jandira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres no Zé Pequeno. Com sete meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, fuxicando. Sua distinta estava de abraços com um rapaz, um surfista da praia da Jatiúca. Zé pegou-a saindo do motel. Não houve acordo, houve escândalo. Foi a crônica da galha anunciada.

Zé Pequeno passou um tempo se entregando aos cabarés. Certo dia entrou na sua loja de material de construção, Angelita, colega de infância, pouco estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casava novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Angelita tem butique de moda jovem, ganha para seu sustento. Tiveram dois filhos. Entretanto, tem duas manias incuráveis: ciúme doentio pelo baixinho, seu marido, e neurótica da violência urbana. Ela lê tudo sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe de todas as histórias contadas no rádio, televisão e jornais. No fundo, ela ama o alarmismo da imprensa, parece que faz bem à sua mente, se alimenta de fatos tenebrosos. Reconta as histórias preferidas.

Numa bela tarde de sábado, Angelita foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A violência existe, entretanto, a maioria dos crimes está na faixa entre 16 e 26 anos, entre os traficantes, eles se matam por pontos de venda e lideranças. De repente perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado e quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres se pronunciaram. Angelita pensou, tentou relembrar algum caso com algum amigo, não lembrou. Foi para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi realmente assaltado, frustrante para sua neura.

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores garotas de programas da cidade. Apanhou a jovem, bonita, alta. Janice, a alcoviteira, sabia o gosto do cliente. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ZÉ Pequeno escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou. Foi ao Pronto Socorro, sutura, alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Imediatamente dirigiu-se à Delegacia de plantão, deu parte, abriu um Boletim de Ocorrência, tinha sido assaltado, levaram o carro, com ele dentro. Pararam na praia de Ipioca, deram-lhe uma coronhada, desmaiou. Acordou-se depois de algum tempo, levaram carteira, dinheiro, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio um fluxo de felicidade e alegria de dentro de Angelita, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido, logo saiu contando para toda vizinhança como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Angelita. Seu grande ídolo agora é o marido.

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MULHER DE VERDADE

– Você tornou-se uma consumista compulsória, tudo que você vê você quer. Hoje, um carro japonês, semana passada, aqueles brincos de esmeralda, maior vaidade, você só pensa em luxo e riqueza.

Reclamava Haroldo à esposa em tom ameno, paternal, como se estivesse ensinando alguma lição caseira à uma filha. Estavam casados há pouco tempo. Haroldo sentiu um carinho especial por Gracinha desde o dia em que ela bateu à porta do escritório recomendada pelo deputado amigo. Como funcionária era medíocre, entretanto, sua beleza, sensualidade, juventude e doçura encantaram o chefe. Com três meses de emprego eles já se uniam corpo a corpo. Haroldo, 65 anos, comanda a construtora, fiel às diretrizes do Planalto, sabe percorrer os tapetes de Brasília em busca de obras e dinheiro. Rico, bem de vida, sócio laranja do deputado.

O início foi difícil. Ao se formar em engenharia Haroldo abriu a construtora, trabalhar para si, sem patrão, era o sonho. Amélia, primeira esposa, deu-lhe ajuda na organização da empresa, deu-lhe apoio, carinho, e dois filhos. Cozinhava, lavava e de manhã cedo lhe acordava na hora de ir trabalhar. Foi o sustentáculo da família por muitos anos. Nada valeu quando o marido se engraçou e a trocou por uma jovem funcionária, 28 anos, Gracinha.

Estavam conversando na varanda do apartamento em frente à praia. Gracinha, cheia de vida, alegria e astúcia, sabia levar o marido.

– Meu querido, você mesmo pede que me arrume nas festas, faço sucesso nos salões e reuniões sociais. Detesto cozinha, entretanto, na cama você é a melhor testemunha, sabe perfeitamente que jamais arranjará outra igual, mereço seus presentes. Se está com saudade daquela mulher sem vaidade, que preparava seu café na hora de trabalhar, volte para ela.

Haroldo tinha um encantamento pela nova mulher, não contrariava a esposa, achava-a infantil, porém, dava tudo que ela pedia, compensação da idade, da libido minguando.

– Não quero voltar ao passado. É que você faz tanta exigência, não sabe o que é consciência, nem vê que não sou mais rapaz. Ainda trabalho duro para manter o conforto de nosso apartamento de nossa casa de praia. Para mim, mulher só existe uma, sem você eu não vivo em paz. – Abriu-se num sorriso.

Gracinha levantou-se, dirigiu-se à cadeira onde estava Haroldo, abaixou-se, deu-lhe um beijo no pescoço, o decote generoso mostrou a beleza do corpo. O marido se excitou. Ela sentou-se no colo, respondeu cochichando ao seu ouvido:

– Posso ser gastadeira, entretanto, sempre lhe honrei, oportunidade de trair já tive nesses dois anos de casados, muitas cantadas recebi. Nunca reclamei de nossa diferença de idade. Quando você tenta e às vezes não consegue, lhe vejo contrariado, eu consolo, o que há de fazer? Depois com carícias e prazer faço tudo acontecer, com toda vaidade, eu sou mulher de verdade.

Haroldo segurou-a firme, procurou seus lábios, num beijo prolongado se abraçaram se enlaçaram na cadeira. A Lua refletindo no mar e os carinhos da amada deram-lhe sensação de poder, confiança e segurança. Levantou-a pelos braços até a cama. Amaram-se com maestria de Gracinha. Sábia, intuitiva, havia nascida para amar.

Ao terminarem, deitados contemplando o teto do quarto, Gracinha, às gargalhadas, comunicou ao marido.

– Tenho uma surpresa, comprei meu presente do Dia Internacional das Mulheres, duas passagens para Nova York, lua de mel na semana santa. Preciso fazer umas comprinhas, renovar meu guarda-roupa.

Haroldo feliz, sorriu; recebeu um cheiro, dormiu.

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PROPOSTA MODERNA

– Meu irmão, há algum tempo precisava falar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar essa mesa.” Disse Marília abraçando Hugo ao encontrá-lo no shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida, Hugo Sanchez puxou uma cadeira, sentou-se, pediu dois chopes no início daquela tarde de sexta-feira. Ela foi direto ao assunto.

– Hugo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são parecidas. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente, aos 40 anos. Nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você falou levemente em casamento. Nada de pessoal contra Kalu, até gosto da moça, 10 anos mais nova, parece equilibrada e sensata. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Uma fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz sobrinha. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.

Hugo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Marília, você agiu bem, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei da bissexualidade de Kalu. Eu até gosto muito de sua sobrinha Geísa, nada me fez perceber essa opção sexual de Kalu, ela gosta de homem, tenho certeza Vou pensar no que fazer. Obrigado minha irmã.

Hugo pediu mais chope, passaram a tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Hugo encontrou Kalu na Barraca Pedra Virada, acompanhada de Geísa, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Geísa em casa, dormiram no apartamento, amaram-se, Hugo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês, bebericar até o final da tarde. Kalu perguntou se podia convidar Geísa.

Tudo bem disse Hugo, mas, quero uma conversa antes. Foi claro e taxativo com a namorada.

– Kalu, estamos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Geísa vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo seu com Geísa, que vocês são um caso, é o boato corrente nas rodas da boemia.

Kalu ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Hugo querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Geísa não é minha parente. Eu estava esperando um momento apropriado para abrir o jogo, lhe confessar. Conversei muito com Geísa, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não sei sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meia louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Adicionar Geísa em nosso relacionamento. Peço apenas a você, conversar com Geísa, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos.

Hugo Sanchez teve um impacto com aquela inusitada proposta. Conversou, passou algumas tardes com Geísa. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, passeando pela bela Cartagena das Índias, Colômbia. O mais caro foram as três passagens de avião.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OBRIGADO JHC, O PARAÍSO VOLTOU

Nós, meninos da Avenida da Paz, mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho, jogávamos a tarrafa aberta, puxávamos cheia de peixes. O siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, mangue, era “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca, no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía da toca, beliscava a isca, fechava a arapuca. Dava um ar de felicidade ao ver a arapuca com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz era uma festa, transformava-se em palco e campo de jogos e brincadeiras. Correr, “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito jovens, no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e roubar a bandeira do time adversário. Havia outros jogos, ximbra (bola de gude), pião, bicicleta, patinete. Mas nossa maior diversão era jogar futebol na areia da praia, de manhã e de tarde, às vezes, em noite de lua, quando fazia um gol depois que a lua aparecia, a partida acabava, era o gol da Lua. Mergulhar naquele mar azul esverdeado e nadar até perto dos navios, era nosso exercício lúdico.

Final do ano chegavam as férias, os jovens que estudavam fora retornavam à vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, inventávamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite sentávamos nos bancos da Avenida contando piadas e aventuras ou saíamos à cata de namoradas nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente.

Os empresários de turismo perceberam que a bela praia da Avenida da Paz era um paraíso, construíram os primeiros hotéis modernos, Luxor e Beira-Mar, havia o belo e antigo Hotel Atlântico. Foi a Avenida da Paz a pioneira do turismo em Maceió nos anos 70. Pouco tempo depois aconteceu a mecanização da lavoura no interior, os fazendeiros e usineiros compraram máquinas, não havia uma política pra fixar o homem no campo, aconteceu a primeira invasão de trabalhadores rurais desempregados, invadiram a capital, se fixaram, criaram favela no Vale Reginaldo-Salgadinho.

Em 1988 a Constituição cidadã previu o usucapião rural, quem morasse num imóvel por mais de cinco anos, teria sua posse. Os fazendeiros preferiram convocar os boias frias e demoliram mais de 20 mil casas de trabalhadores rurais em suas fazendas. Houve a segunda invasão no Vale Reginaldo-Salgadinho poluindo drasticamente o riacho e a praia da Avenida da Paz, a mais bonita de Maceió. Os hotéis fecharam, os prédios foram vendidos para repartição pública. Os moradores da Avenida da Paz se mudaram devido a fedentina dos 17 km do vale do Reginaldo-Salgadinho, com os casebre lançando os dejetos in natura no riacho. Uma pena, nesses quase 50 anos nenhum governador ou prefeito tentou realizar uma obra séria de despoluição do Salgadinho. Só pequenos paliativos. Até que apareceu um Prefeito de coragem, determinado, iniciou a obra “Renasce Salgadinho”. Muitos não acreditaram.

Sábado passado tive a honra em assistir a inauguração do projeto, “Renasce Salgadinho”, deu-me uma alegria, voltei a ser menino, qualquer dia vou mergulhar na mar da Avenida da Paz, a mais bela de Maceió. Obrigado prefeito JHC, obrigado secretário de obras Rodrigo Cunha pelo renascimento do Salgadinho e da belíssima praia da Avenida da Paz. O paraíso voltou. O turismo vai estourar em Maceió.