CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (5)

Ao terminar o curso da Academia Militar das Agulhas Negras em 1961, escolhi Salvador para iniciar a vida de Oficial do Exército, cidade que conhecia apenas dos livros de Jorge Amado e das músicas de Caymmi.

Numa tarde de domingo me vi à frente do quartel do 19º Batalhão de Caçadores, bairro do Cabula. Um prédio de dois pavimentos janelados, paredes cinzentas. Entrei pelo Portão Principal, o oficial de dia levou-me ao primeiro andar onde um quarto estava à minha espera. Guardei minhas roupas, meus pertences, liguei o ventilador, deitei-me na cama de cueca, pensando, fumei um cigarro. Mais tarde, da janela de meu quarto, contemplei um alaranjado pôr-do-sol embelezando meu primeiro dia na Bahia. Naquele momento deu-me uma apreensão, medo do desconhecido que viria pela frente. Porém, eu tinha certeza e confiança que estava bem preparado para exercer a profissão que escolhi e lutei: oficial do Exército Brasileiro.

Nos primeiros dias no quartel já desempenhava trabalhos normais inerentes a um tenente: planejar e executar instrução militar, educação física, exercícios militares em campo, ordem unida, exercícios de tiro e outras funções que me foram impostas na administração do 19º BC. Orgulhava-me ser um bom oficial do Exército Brasileiro

Durante dois anos morando em Salvador tive o privilégio de ganhar amigos que me fizeram conhecer a Bahia mais bonita. Entre eles, o Subcomandante do Batalhão, coronel Diamantino Fiel de Carvalho, carioca, boêmio, homem da noite no Rio de Janeiro, amigo de artistas e celebridades. Quando algum artista se apresentava em Salvador, Diamantino o convidava para um jantar em casa. Assim conheci grandes nomes da música brasileira: Haroldo Barbosa, Elizeth Cardoso, Vanda Moreno, Luís Vieira, Dóris Monteiro, entre outros. Diamantino escrevia esquetes de humor para teatro e TV, inteligente, bem humorado, entretanto, na hora do serviço era de uma exigente, principalmente com os subordinados mais chegados.

Nas noitadas da Bahia eu o chamava pelo nome, Diamantino; no outro dia, com todo o respeito, era o Senhor Coronel. Afeiçoei-me e muito aprendi com essa figura humana extraordinária, militar e artista.

No 19˚ BC conheci um tenente baiano, Ângelo Roberto Mascarenhas. Foi meu guia nas ruas estreitas e enladeiradas da Bahia. Dancei no Tabariz, frequentei a Rua Chile, o Hotel Palace, a Ladeira da Montanha, tomei cachaça no Pelourinho. Na boate Clock dancei e namorei baianas bonitas. Foram farras homéricas na Cidade Baixa, no Mercado Modelo, nas Sete Portas. Amanhecemos dias de serenata no Forte de São Marcelo. Frequentei o terreiro de Mãe Menininha do Gantois que jogou búzios para mim, hoje sei que sou filho de Xangô.

Nas noitadas de boemia conheci a vida simples, musical e cheia de magia do povo baiano, guiado pela mão de Ângelo Roberto, um dos maiores pintores da Bahia, o melhor bico de pena do Brasil.

Ângelo tornou-se irmão, por adoção, nos adotamos. Em 1980 voltei a encontrá-lo e conservei essa amizade até a sua morte. Ele desenhou a capa de quatro dos meus livros. Quando criei a Festa Literária de Marechal Deodoro, convidei-o e ele todos os anos participava, com Marlene, expondo seus maravilhosos quadros na Casa do Marechal. Chorei feito menino quando li a notícia de sua morte ano passado.

Durante minha época de 19º BC me convidavam para festas na Vila dos Oficiais ou dos Sargentos. Certo dia conheci Silene, filha de um Major, a morena mais frajola da Bahia, me encantou seus cabelos lisos, negros, olhos pretos que nem uma graúna. Fui-me chegando como quem nada queria, em pouco tempo namorava a jovem de17 anos; eu 22.

O sogro determinou algumas regras do namoro. Domingo à noite jogávamos baralho. Sempre eu e Silene contra o casal de sogros. Aproveitávamos esse momento namorava por baixo da mesa, com os pés descalços fazíamos carinho um no outro. Certa noite fui ao banheiro, ao retornar peguei as cartas, era minha vez de jogar. Distraído, tirei o pé da sandália, instintivamente comecei a alisar os pés da Silene por baixo da mesa. De repente, senti um puxão do pé que estava embaixo do meu. Pelo olhar do Major, percebi que havia alisado o pé errado. O sogro, a partir desse engano fatídico, olhava-me desconfiado, talvez duvidando da minha masculinidade.

Numa noite encontrei Jorge Amado num restaurante, fiquei feliz, fui conversar com o grande escritor. Uma semana depois, Silene mostrando a Revista Manchete, ela brincava falando que na reportagem o Jorge Amado citou nosso encontro. Eu estranhei. Ao ler a entrevista, Jorge dizia gostar em ser famoso, só o aborrecia quando num restaurante algum bêbado puxava conversar mole.

Bahia terra da felicidade. Ai! que saudade tenho da Bahia….

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTÃO (4)

Meus 80 anos estão sendo comemorados constantemente. Por conta dessa idade magnífica, resolvi contar algumas histórias e fatos marcantes de minha vida. Peço desculpas aos leitores que gostam mais das histórias picantes. Prometo que depois dessa fase de memórias, retornarei com histórias cheias de sacanagem.

Inesquecível a entrada triunfal na Academia Militar das Agulhas Negras. Em frente ao Portão Monumental, estavam formados os novos cadetes vindo das mais diversas cidades do Brasil, de todas as classes sociais, de todas as cores raciais, de todas as religiões, tínhamos em comum a admissão na dificílima seleção intelectual e física para ingressar na AMAN. Éramos jovens orgulhosos em participar daquela solenidade caracterizada pela passagem dos novos cadetes pelo portão especial, ao lado da entrada principal, que só era aberto uma vez por ano e sempre pelo cadete mais novo da turma. Em 1959 teve a honra de ser “cadete claviculário” o mineiro, Cássio Rodrigues da Cunha, (tornou-se um dos mais brilhantes generais do Exército Brasileiro). Logo após a abertura, entramos marchando no asfalto em linha reta até o prédio da Academia. Naquele momento me sentia feliz e orgulhoso.

Fiquei deslumbrado com as instalações da Academia, uma das mais bonitas do mundo. A vida de cadete na AMAN era semelhante à da Escola Preparatória de Fortaleza. Alvorada às 6:00 da manhã, seguida de Educação Física. A novidade foi a equitação, eu nunca havia montado num cavalo, aprendi rápido e muitas vezes em fim de semana cavalgava pelo vale do Paraíba com colegas. O estudo era altamente organizado como em todas as Escolas Militares. No dia de prova o professor entregava as provas, saía da sala de aula, uma hora depois retornava recolhendo as provas. Ninguém colava. Era Código de Honra dos cadetes. O expediente terminava às 17:00 horas, tínhamos opção de assistir a um filme no cinema da AMAN ou dar uma volta na cidade de Resende ou estudar, eram matérias difíceis: Cálculo, Português, Balística, Psicologia, Economia, Geopolítica, Inglês, Física, Química, Pesquisa Científica, Filosofia, Instrução Militar específica, entre outras matérias.

Eu amava ler algum romance no bucólico bosque do riacho Lambari. Foi lá que um dia me contaram a história da construção da AMAN que se tornou lenda.

No início de 1943, tempo de II Guerra Mundial, a construção da AMAN foi paralisada por falta de verba; funcionava a velha Escola Militar do Realengo.

Naquela época uma das diversões dos cadetes era cavalgar nos dias de folga. Oito cadetes amigos costumavam montar nos fins de semana. Oito companheiros inseparáveis saíam sempre juntos, um ajudava ao outro nos estudos, nas dificuldades. Eram irmãos por opção. Em algumas noites costumavam sorrateiramente cavalgar até uma boate de mulheres que havia no subúrbio do Rio de Janeiro. Os oitos cadetes vestiam-se com pelerine (capa militar longa, azul marinho, sem mangas), botas e o quepe a Príncipe Danilo. O mulherio se assanhava quando eles apareciam. Faziam farras homéricas no cabaré. Diversão de alto risco. Se fossem apanhados pela Patrulha Militar pegariam cadeia ou até expulsão.

Certa noite depois de dançar, deitar com as “namoradas” e farrear, os oito cadetes montaram nos cavalos escondidos no mato, em duplas galoparam pela estrada, retornando à Escola Militar de Realengo. Ao passar por uma rua deserta, por volta das 23 horas, perceberam numa esquina escura quatro homens assaltando, batendo num senhor, ele pedia clemência, que não lhe matassem. Os cadetes não precisaram combinar, puxaram as rédeas dos cavalos em disparada para o local do assalto, com destemor e perícia, desmontaram dos cavalos a galope, agarraram os bandidos. Dois cadetes socorreram o cidadão machucado de murros e pontapés, devia ter cerca de 60 anos, os outros prenderam os marginais. Entregaram os facínoras numa delegacia próxima, o velho ferido foi deixado num hospital, ao chegar à Escola deixaram os cavalos nas baias, foram dormir.

Na segunda-feira durante a formatura matinal, o comandante da Escola Militar do Realengo pediu à tropa para que os cadetes que tinham salvado a vida de um cidadão se apresentassem; o filho desse senhor encontrava-se na Escola, queria agradecer pessoalmente. Receosos em pegar uma cadeia, os oito amigos não se revelaram. Depois de o comandante muito insistir e prometer de não haveria punição, os cadetes se apresentaram. Foram levados à presença do velho no hospital. Era nada mais nada menos que Henrique Lage, um dos homens mais ricos do Brasil, donos de empresas, inclusive o Loyd Nacional, companhia de navios que fazia a costa brasileira.

O rico senhor agradeceu aos cadetes e perguntou qual a precisão de cada um, eles escolhessem o que quisessem: uma casa ou carro, ou o que fosse. Os oito amigos pediram para pensar. Reuniram-se, discutiram muito. No dia seguinte foram ao ricaço. Nada queriam para eles, pediam que ele ajudasse a terminar a construção da Academia Militar das Agulhas Negras que estava paralisada. O velho deu a ordem, mandou buscar o mais fino mármore de Carrara na Itália para o revestimento, mandou comprar todo o piso em granito, recomeçaram as obras da Academia por sua conta. Até hoje perdura a suntuosidade daquele belíssimo conjunto arquitetônico. A AMAN é considerada a mais bonita Academia Militar do mundo, graças à digna história dos oito cadetes, hoje anônimos militares reformados de nomes esquecidos, entretanto, o belo gesto, a coragem, o destemor e o amor à Escola, tornaram-se lenda.

A Academia foi base de minha aprendizagem, do meu saber e do amor ao Brasil ao longo desses 80 anos. A Academia ainda deu-me uma das maiores riquezas que conservo todo esse tempo: os colegas que entraram por aquele portão tornaram-se meus irmãos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTA (3)

Esses meus oitentas anos estão me remetendo a fatos marcantes em minha vida. Hoje me lembrei de minha entrada na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza no longínquo ano de 1956. Era um menino.

No primeiro dia distribuíram, para cada aluno, um enorme saco com fardamentos, equipamentos, manuais. Levei o saco nas costas e arrumei no armário, forrei a cama, coloquei minha primeira farda de brim verde: calça, camisa de mangas compridas, por cima de uma cueca samba canção, cinturão, um gorro na cabeça, por fim calcei um coturno preto de laços entrelaçados. Logo o sargento gritava: “Primeiro ano em forma!”. Pela primeira vez entramos em forma. Passamos o dia recebendo instruções de como seria a vida na Escola.

Dia seguinte entramos na rotina: alvorada às 5:30 da manhã. Vestido de calção de educação física, camiseta e tênis a turma foi levada para o campo de futebol onde os tenentes ministraram vários tipos de ginásticas planejadas. Retornamos para o banho. No alojamento vestimos o roupão com o sabonete na mão, corremos para o banheiro coletivo. Logo, fardados, nos levaram para o café da manhã. Satisfeito com a gororoba, marchando, cada turma dirigia-se para as salas de aulas. No primeiro ano só matérias básicas: aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, português, inglês. Ensino puxadíssimo com excelentes professores. Às tardes nos ministravam Instrução Militar.

Foi difícil a adaptação daquele menino da praia de uma infância extraordinária, livre, leve e solta na Avenida da Paz em Maceió. Várias vezes senti vontade de pedir desligamento da Escola, mas ao mesmo tempo a vontade de vencer aqueles obstáculos me dava força.

Certa tarde de sábado fiquei indignado com um trote de um veterano, mandou que eu arrumasse seu armário, engraxasse coturnos, etc. Perdi meu sábado. Delatar jamais. Então eu decidi pedir desligamento e voltar para minha Maceió. Porém, houve uma santa coincidência, na segunda-feira recebi uma carta de mau pai que decidiu minha vida para sempre.

Carlito,

Meu afetuoso abraço. Recebemos a tua carta que nos encheu de alegria ao sabermos da tua satisfação aí na Escola, mas também de saudade do filho querido, que tanta falta tem feito.

Porém, Carlito velho, a vida é assim mesmo; é luta brava, principalmente na carreira que escolhestes.

Temos absoluta certeza, e inabalável fé em Deus, que serás muito feliz.

Não fraquejes ante nenhum obstáculo; enfrenta-o sempre de ânimo forte. Acostuma-te desde agora aos rígidos princípios da disciplina; aceita-a conscientemente, pois ela é a mais bela característica do soldado.

Estuda, dedica-te com muito esmero às tuas obrigações escolares; este hábito salutar será constante na tua vida profissional e fator decisivo na carreira.

O valor de um oficial está em função da sua cultura, do seu saber, do seu carinho aos afazeres profissionais.

Procura, desde já, meu filho, ser “Caxias”. Mas “Caxias” sem intransigência. Correto no cumprimento dos deveres, porém humano, delicado, sereno e leal no tratamento com seus subordinados e companheiros. O oficial que assim procede é respeitado, acatado e querido por todos.

Pensa sempre no bem do Brasil; sirva mesmo de rumo aos teus atos e ações o pensamento constante na grandeza da Pátria querida.

Porém, jamais te cumplicies aos aventureiros da política malsã, que infelizmente ainda infesta o Brasil. Seja sempre digno, mantenha sempre bem alto o alvo de tuas ambições e afetos; porém também sempre te lembres que são injustificáveis as “quarteladas” e a “ditadura”.

São estes, meu filho, os conselhos gerais, que a experiência de mais de trinta anos de serviços do teu pai, que o carinho e o afeto que te dedico, que a vontade imensa de te ver vitorioso na carreira que espontaneamente escolhestes, me inspiram.

São advertências saídas no mais íntimo do meu coração.

Prepara-te, pois, para a vida, meu filho, certo de que nem tudo serão flores. Os espinhos, as ilusões surgirão fatalmente. Mas que nada abata o teu ânimo forte, o teu caráter, a tua dignidade, a tua coragem, o teu ardor cívico, o teu amor à carreira que abraçastes.

Esta a única riqueza que teu pai pode legar.

Guarda com carinho esta primeira carta que te escrevo e que a Divina Providência te faça muito feliz. Tua mãe e teus irmãos te abraçam. A saudade de seu pai.

Mário Lima.

(Tenho essa carta guardada desde abril de 1956)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTA (2)

Ao completar 80 anos, vivo a recordar passagens de minha vida agitada e bem vivida, alguns fatos que ficaram em minha mente e no coração, fazem parte de meu ser. No longínquo de 1955, eu era um adolescente, 15 anos, vindo de uma infância livre, leve e solta, pelos arredores da praia da Avenida da Paz. Naquela época em Maceió havia apenas a Faculdade de Direito, as outras opções de “futuro brilhante” era submeter-se aos concursos do Banco do Brasil ou da Escola Militar. Cheio de empolgação, família de militares, era um crack na matemática, encarei o difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Certa noite de festa de rua de natal na Praça Sinimbu, um amigo, Jarbas Bagdá, deu-me a notícia mostrando o jornal, O Globo do Rio, estava lá meu nome entre os aprovados, era a glória. Corri desembestado para dar a notícia em casa. Dona Zeca, festeira que só ela, improvisou maior festa, meu pai orgulhoso, amigos e parentes, bebidas e comidas à vontade. Altas horas, ao terminar a comemoração familiar, atravessei a Avenida da Paz, andei pela praia de areia fofa com uma garrafa de vinho numa mão, sapatos na outra. A lua iluminava a imensidão do mar. Eu pensava, me perguntando, ”O quê será?”.

Retornei, subi os degraus do coreto, sentei-me no parapeito, olhando para o infinito, não sei de felicidade ou tristeza chorei como menino. Naquele momento estava deixando de ser menino. Ser menino foi uma passagem extraordinariamente bela de minha vida. Logo o dia amanheceu lindamente alaranjando o céu. Dei os últimos goles na garrafa, entre feliz e bêbado, fui dormir.

O Exército deu-me a viagem para Fortaleza em duas etapas: de Maceió ao Recife de trem, e do Recife à Fortaleza, via marítima. Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou-me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Embarquei no trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Élio Wanderley, outros alagoanos aprovados nos exames da EPF. Partimos no famoso Trem das Alagoas às 06:00 horas da manhã com chegada prevista 18:00 horas, nunca cumpria o horário.

Escalas incontáveis, Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares, pequenas cidades perdidas nos canaviais.

Nas estações, desciam e entravam novos passageiros. O trem parava o mínimo tempo, os ambulantes aproveitavam para vender frutas e outras comidas. ”Olha a manga madurinha… Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na hora…Olha a água de quartinha…Chapéu de palha…” Esses ambulantes me impressionaram. Em cada estação pareciam as mesmas pessoas, os mesmos artigos oferecidos. Também havia pedintes. ”Dê uma esmola para o aleijadinho… Um auxílio para quem tem fome”… Os meninos pediam tostões e o ceguinho cantava na viola: ”Seu José, Dona Maria… Tenha pena do ceguinho que não vê a luz do dia…”

O maquinista puxava o apito, o foguista botava lenha, a vistosa Maria Fumaça puxava os vagões como se fora a mãe pata e os patinhos em fila. O trem invadia canaviais, verde cana, cana caiana. O azul do céu encontrava-se com o verde dos morros nos horizontes ondulados. O poeta Ascêncio Ferreira imortalizou essa viagem com o poema, “O Trem das Alagoas”. “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar… Adeus, adeus, mangueiras, coqueiros, cajueiros em flor. Adeus morena dos cabelos cacheados… Vou danado pra Catende com vontade de chegar…Cana caiana, cana roxa, cana fita, cada qual é mais bonita, todas boa de chupar…Vou danado pra Catende, com vontade de chegar. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

O outro mar ainda desconhecido estava longe, viagem cansativa, bancos de madeira dura. Conversávamos, especulávamos o que haveria de ser, três meninos. No fundo do coração batia a saudade de meus pais, de meus irmãos, de meu mundo, de minha praia. Às vezes tinha vontade de chorar, olhava o verde canavial no infinito e disfarçadamente enxugava uma lágrima. Eu era apenas um menino.

Na hora do almoço, fomos para o vagão restaurante. Tomamos bebidas conversando amenidades, a cerveja alegrou o restante de viagem. Era noite quando o trem entrou na última estação, afinal Recife. Primeira etapa da viagem cumprida, a danada da saudade a apertar, não valia chorar.

Ao descer do trem, avistei Seu Marcos, sogro de minha irmã Rosita. Levou-me para sua casa, belo prédio antigo na Rua da Imperatriz, centro do Recife. Tive tratamento de príncipe, no outro dia embarcaria para Fortaleza no navio de guerra Barroso Pereira com futuros colegas. Cansado fui deitar. Com o travesseiro abafei meu choro, minhas lágrimas, meus temores. Adormeci. Nessa noite fiz xixi na cama.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTA

No carnaval houve uma homenagem aos meus 80

Quando eu era jovem, bem jovem, imaginava um homem de sessenta anos balançando-se numa cadeira confortável, apenas esperando a morte chegar. Hoje cheguei aos oitenta, ultrapassei a barreira de meu prognóstico de vida para um velho homem. Agora, deitado numa rede na varanda de minha confortável casa na praia, leio um poema de meu amigo Lêdo Ivo que gravei na parede da sala.

Na Barra de São Miguel, diante do mar,
só agora aprendi:
o dia mais longo do homem
dura menos que um relâmpago.

O tempo inexorável com fome ávida vai devorando o que resta de uma vida que dura menos que um relâmpago. A alguns homens memórias distantes se consentem. Eu ainda sinto a brisa do mar da praia da Avenida da Paz quando menino. Ainda está gravada em minha mente certa tarde depois de um almoço na casa de minha avó, seus filhos e netos reunidos, sentados em cadeiras de palhinha, embaixo de uma frondosa amendoeira, conversando alegremente sobre todos os acontecimentos daquela cidade. De calça curta com cinco ou seis anos, eu brincava com irmãos e primos, subíamos as escadas do belo coreto branco, pulávamos na areia fofa da praia.

Naquele cenário de um mar azul esverdeado de água cristalina passei minha solta e alegre infância. Na extensa praia jogávamos futebol, olhávamos as moças de maiô, brincávamos de trincheiras, jogando bolas de areia no inimigo, soltávamos ao vento as arraias (pipas) coloridas no céu. À noite o calçadão da Avenida da Paz era uma festa. A mocidade jogava garrafão, brincava de roubar bandeira, gata parida, andar de bicicleta. Ao ganhar um par de patins no natal, coloquei-o na hora, fui à calçada iniciei levando quedas, arranhando os braços até aprender a me equilibrar, que alegria.

Todos os dias pela manhã, tomava o bonde na Avenida rumo ao Centro da cidade onde eu estudava no Colégio Diocesano (Marista). Ao meio-dia, suado, exausto, pegava o bonde de volta, linha Vergel do Lago – Ponta da Terra, ao passar por minha casa descia do bonde andando, uma proeza para encantar as mocinhas sentadas esperando parar no ponto. Com minha curiosidade aguda eu gostava de estudar, era o rei da matemática na sala de aula. Em casa meu pai tinha uma boa biblioteca, comecei a ler bons livros, o Tesouro da Juventude, li todos de Monteiro Lobato, mas fiquei fascinado com O Minotauro. Depois entrei no círculo dos grandes romances da humanidade. Às tardes eu estudava numa puxada que meu pai construiu no fundo do quintal, dava uma passada nos livros, depois seguia para o lamaçal à beira do Riacho Salgadinho colocando “ratoeiras” feitas de lata de óleo nos buracos de caranguejo.

Não havia alegria maior quando depois retornava para olhar as “ratoeiras” e tinha alguma com um goiamum enorme, preso. Levava para casa e deixava-o num engradado de madeira e taipa, para cevar. Quando completava mais de 20 caranguejos cevados minha mãe cozinhava uma bela caranguejada, os amigos se empanturravam. Às vezes organizávamos campeonato de futebol de botão. Geralmente na casa do Lizardo e Mário Jardim onde eles construíram um perfeito campo, liso, sem algum defeito na madeira. Passávamos a tarde e noite jogando botão. As mães de nossos amigos eram como se fossem nossas mães.

Quando o diabo atentava íamos passear pelos sítios da vizinhança roubando manga, caju, melancia, coco, enchíamos o bornal e comíamos, alegres, sentados no meio fio do beco da Avenida para Rua Silvério Jorge. Aos treze anos quando a puberdade apareceu em forma de pelos e cabelos junto com a libido, o assunto era mulher. Com 14 anos arranjei minha primeira namorada no bairro do Farol. À noite, depois do jantar, subia de bicicleta a ladeira do Farol, para passar duas ou três horas namorando junto com a turma, para o pai da moça não desconfiar, em vez em quando segurávamos na mão do outro, cheio de felicidade de menino.

Elizeth Cardoso, que faz centenário este ano, cantava um samba que diz mais ou menos assim: Se eu morrer amanhã… Não levo saudade… Eu fiz o que quis… Na minha mocidade… Amei e fui amado… Beijei a quem eu quis…Se eu morrer amanhã de manhã… Morrerei feliz, bem feliz.

Não, não, nem pensar em morrer, ainda tenho muita coisa a fazer. Acontece que, fazendo um balanço de minha vida nesses oitenta anos, ela foi, e ainda é ótima, apesar de alguns percalços. Só essa infância querida que os anos não trazem mais, valeu a pena, sim senhor, nesses oitenta.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DE COMO CRISTINA, BELA, RECATA E DO LAR, TRANSFORMOU-SE NA DONA DA NOITE

Era uma vez em Maceió, uma jovem, bela, recatada e do lar, marido de tradicional família do açúcar alagoano. Cristina, aluna do Colégio Santíssimo Sacramento, aprendeu costurar, cozinhar, ser rainha da casa. Pai evangélico, a filha saía à rua, às festas, só acompanhada dos irmãos, assim, sua virgindade permaneceu invicta até o casamento. Sua beleza e sensualidade exuberantes chamavam atenção . Numa festa de Carnaval conheceu Antônio Alfredo, mancebo de família rica, estudante de Direito em Coimbra, bonito, másculo, o xodó das mulheres, passava férias na cidade.

Antônio Alfredo encantou-se com Cristina, a bela, iniciaram namoro de portão de casa, horário e vigilância rígidos. Dentro de dois anos casaram-se, apesar da resistência dos pais do noivo, não era bem querer a entrada de uma filha do pastor na família. Antônio, advogado das empresas familiares, se impôs, casou-se, com direito à Lua de Mel na Europa.

Três anos se passaram, o casal bonito chamava atenção. Antônio não queria filho, Cristina frustrada. O ritmo de amor na cama diminuiu, às vezes mais de três meses sem um carinho. Em conversa com a prima Sofia, Cristina ouviu com atenção o relato das peripécias sexuais da prima na cama com o marido. Cristina, ingênua, encantou-se com os detalhes contados, ascendeu uma fogueira em suas entranhas, quase adormecidas.

Certa noite, depois do banho, vestiu minúscula lingerie preta, divina. Antônio ao deitar disse apenas cansado, deitou-se, virou-se para o lado. Ela não admitiu ter se preparado e o marido, sequer notou. Abraçou -o, atacou com volúpia, mãos e bocas entornaram o corpo másculo. Antônio levantou-se, olhou para esposa, repreendeu, “quem faz isso é prostituta, quem lhe ensinou? Você quer ser rapariga? “. Foi dormir em outro quarto.

Cristina chorou, seus instintos desejavam aqueles carinhos ensinados pela prima. Ela se perguntava, era uma tarada? Custou a dormir. Antônio jamais voltou a falar sobre o acontecimento daquela noite.

O casal gostava de passar fim de semana no bucólico sítio da família em Bica da Pedra, beirando a lagoa Mundaú. Certo domingo Cristina teve que retornar à Maceió mais cedo, o motorista foi levá-la. Perto da noite ele pegaria Antônio. Deixou o marido cheio do uísque deitado na rede. Vinte minutos de viagem sentiu a falta da bolsa, naquela época não havia telefone no sítio, resolveu voltar. Ao entrar na casa não havia vestígio do marido, apanhou a bolsa em cima da mesa, de repente ouviu barulho em seu quarto. Ao abrir a porta, um choque inesperado, a cena mais horripilante permaneceu na memória para o resto da vida: O belo Antônio, nu, abraçado ao filho do morador. Cristina soltou um grito de horror, correu, entrou no carro, chorando até chegar em sua casa.

Era noite quando Cristina parou de chorar, tomou um banho, olhou-se no espelho, achou-se bonita. Colocou um belo vestido, pegou um taxi em direção ao Zinga Bar em Riacho Doce, avistou alguns conhecidos, sentou-se à mesa com amigas, a partir dessa noite, escandalizou a província saindo com homens solteiros e casados. Cristina e Antônio tornaram-se comentários em todas as esquinas, bares e lares da cidade.

Certo dia, sem avisar, Cristina viajou ao Rio de Janeiro. Amou a balada carioca dos anos 60/70. Bonita, fez sucesso entre artistas, políticos, desocupados. Arranjou um emprego para se sustentar, expediente a partir do meio dia numa repartição pública. Ela caiu nas noitadas cariocas. A nova vida tornou-a uma boêmia. Fez sucesso, os homens faziam fila esperando sua vez. Até que certo dia um senador se apaixonou, deu-lhe apartamento, joias, um emprego no Senado, letra O, em troca da exclusividade. Os anos passaram, teve dois filhos com o Senador. Hoje, mora em Copacabana, nenhum vizinho sabe a origem, o segredo daquela bela setentona, “viúva” e rica. Da janela de seu apartamento, Cristina olha o mar azul, relembrando sua juventude, bela, recata e do lar. Quando dá saudades vai rever o sítio da Bica da Pedra na lagoa Mundaú.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BANHO DE MAR À FANTASIA

A Avenida da Paz se apinhava de gente de toda espécie e classe social no domingo anterior ao carnaval. A partir das 8 da manhã já começavam a chegar as troças, as fantasias, as críticas e os blocos para o grande desfile do Banho de Mar à Fantasia coordenado pela COC – Comissão Organizadora do Carnaval da Prefeitura de Maceió. Nas imediações da Fênix um palanque dava guarida para uma banda tocar músicas de carnaval e o povo na rua, fantasiado ou não, pulava e dançava até mais tarde no maior calor ô..ô…ô…ô…ô…ô. Depois um mergulho, com fantasia no corpo, na água límpida transparente, esverdeada dos mares da Avenida.

Iniciava o desfile oficial perante o palanque armado com os jurados escolhidos pela COC para entregar a taça de campeão. Primeiramente vinham as críticas e troças com a irreverentíssima turma do Bráulio Leite, Santa Rita, Rubem Camelo, Vadinho, João Moura, Napoleão. Esses não perdoavam governo e governantes. Depois vinham fantasias. Tarzan e sua esposa eram o casal devorador de prêmios, saíam sempre de Tarzan e Jane durante o carnaval, mas no Banho de Mar à Fantasia se fantasiavam como casais famosos: Sansão e Dalila; Marco Antônio e Cleópatra… Fusco, militar da aeronáutica tinha suas tiradas. Certa época o filme do momento era “Amar foi minha ruína”, Fusco saiu de moça grávida, e atrás um cartaz “Amar foi minha ruína”. Lincoln Jobim um especialista, se fantasiava de Seu Fortes, um doido conhecido na cidade que andava com muitos cachorros, Lincoln era um artista, imitava Seu Fortes melhor que o próprio.

O desfile finalizava com a competição entre os blocos carnavalescos: Vulcão, Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua, Vou Botar Fora, Cara Dura, Cavaleiro dos Montes, maior disputa. Depois de passar pelo palanque das autoridades e jurados os blocos continuavam arrastando as multidões na avenida, atravessavam a ponte do Salgadinho e perto do coreto entravam na Rua Silvério Jorge 290, onde o general Mário Lima esperava cada bloco com bate-bate de maracujá, cerveja gelada e um bom tira-gosto para os músicos. Tocavam 4 ou 5 frevos, depois seguiam em frente, outro bloco já estava na porta. Minha casa era uma festa, amigos dançavam, faziam o passo na enorme varanda durante o restante da tarde.

Acompanhávamos os blocos na entrada e saída, uma alegria entre os amigos, figuras das mais conhecidas entravam no embalo, como as badaladas cronistas, Lilian Rose e Maria Cândida, o deputado Guilherme Palmeira, a fina flor do soçaite alagoano, Almir Furtado, Edson Frazão, Marta Mendonça, delegado Aurino Malta, misturavam-se com o povão, era a democracia carnavalesca. Atrás dos blocos mesclava-se engenheiro e servente, médico e enfermeiro, capitão e soldado, filhas de Maria e prostitutas de Jaraguá. Os blocos terminavam de tocar em minha casa ao entardecer, festa antecipada do carnaval. Namoros feitos, outros desfeitos, a alegria do carnaval tomava conta da juventude.

Ao pôr-do-sol o povão voltava para suas casas. Cansados, os blocos recolhiam seus estandartes esperando o carnaval chegar.

Certa vez, no lusco-fusco do anoitecer, Arnaldo, aluno do NPOR, passou todo frajola por mim e Uchoa, dois guerreiros cansados. Ele deu um sorriso de superioridade mostrando sua companheira abraçada pela cintura. Era Guiomar, uma das piniqueiras (assim chamávamos maldosamente as empregadas domésticas) mais disputada, mais paquerada da região. Ele se dirigiu à praia agarrado na cintura fina daquela monumental mulata calipígia e desejada. A inveja é o pior sentimento do mundo. Demos apenas meia-hora. Na calada da noite, a areia fofa da praia absorvendo o barulho, fomos nos achegando em direção onde Arnaldo amava Guiomar.

Eles entretidos não perceberam que chegamos bem perto. Ao ver o casal abraçado, rolando na praia, virando-se, lambuzando-se de areia, demos um grito que assustou nosso amigo e a bela Guiomar: “É a Polícia!!!!”. Arnaldo nu, completamente melado de areia, levantou-se gritando incontinente: “Sou tenente do Exército Brasileiro, sou tenente do Exército!!!”. Só percebeu a brincadeira quando demos uma gostosa gargalhada. Nos retiramos, deixamos os dois pombinhos se amarem. Olhando para trás percebi dois vultos entrando no mar, na água calma e morna da Avenida. Num mergulho o casal tirava a areia do corpo, a fantasia natural de “bife à milanesa”, a derradeira do Banho de Mar à Fantasia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SÃO TRINTA COPOS DE CHOPE…

Juçara quando aparecia de biquíni na praia, os homens encantavam-se. Alegre, liderava a turma jovem em noites frescas nos bancos da Avenida da Paz. Naquela época o ensino público era eficiente, ela passou no vestibular de medicina. Porfírio, colega de faculdade, tornou-se o amigo inseparável. Depois da praia, gostavam de conversar e tomar cerveja no Castelinho, bar instalado no coreto da Avenida. Na primeira cerveja, eles brindavam, batendo os copos, recitando um poema de Carlos Pena Filho.

“São trinta copos de chope… São trinta homens sentados… Trezentos desejos presos… Trinta mil sonhos frustrados… ”

Quando foi realizado um Congresso de Plantadores de Cana em Maceió. Juçara trabalhou como recepcionista. Todas as noites um senhor visitava o estande. Encantou-se com aquela jovem meiga, inteligente e alegre. Esse senhor, fazendeiro em Minas Gerais, separado da mulher, era rico e solitário. Juçara até que simpatizou com o mineiro que lhe prometeu o Céu, a Terra e o Mar se ela o quisesse. O homem apaixonou-se. Dias depois do Congresso ele retornou a Maceió, procurou Juçara. Conheceu os pais, queria casamento. Foi um reboliço na família. Um rico fazendeiro de 40 anos, apaixonado e louco para casar com aquela menina de 18 aninhos, iniciando o curso de Medicina.

Juçara, embora achasse o pretendente inteligente, não tinha amor suficiente para casamento. Outro problema era a faculdade, pois iria morar em uma fazenda no interior. Ela pediu tempo para pensar. Júlio, o fazendeiro apaixonado, deu o tempo que quisesse, ele esperaria por toda vida, seu amor era infinito e paciente.

Quando Porfírio soube que Juçara aceitara o casamento, levou um choque. Foi como se um feixe de flechas tivesse lhe atravessado o tórax, o coração.

Na véspera da viagem, encontraram-se na boca da noite no Castelinho. Juçara estava deslumbrante em um vestido amarelo, quase transparente. Emocionados brindaram à felicidade da noiva. Bateram os copos, recitaram o poema predileto. Quando olharam nos olhos, os dois marearam. A primeira lágrima caiu dos olhos de Porfírio e outras mais caíram, abraçaram-se juntos à mesa. Porfírio não se conteve, sussurrou no ouvido da doce amada: “Lhe amo, lhe amo, lhe amo e nunca lhe esquecerei…”

Juçara, segurando as emoções, confessou a verdade: estava casando por necessidade, o pai tinha câncer, o tratamento para poder sobreviver cinco ou dez anos, era caríssimo. Ele era sua própria vida, daí esse sacrifício. Pediu perdão a seu amado, dizendo que também jamais o esqueceria, e que lhe ajudasse nessa difícil decisão. Não sabia se certa ou errada. Seu pai, que não imaginava a história verdadeira, deu sua vida batalhando por ela, merecia essa loucura pragmática.

Certo momento, Juçara pediu para passear pelo calçadão da Avenida. De mãos dadas, feitos dois namorados, seguiram mudos, pensativos. O céu estava negro, escuro, um milhão de cintilantes estrelas. Em certo momento pararam. Impulsionados pelo amor e os hormônios, desceram à praia. Ao chegarem à areia morna, olharam-se, abraçaram-se. Ele beijou e lambeu o longo pescoço da amada, enquanto ela sussurrava seus ais e num grito abafado pediu: “Quero você, quero você, me possua…”

Anos se passaram, Porfírio pouco viu Juçara quando ela passava alguns dias em Maceió. Só aproximou-se uma vez para dar os pêsames no enterro de seu pai.

Durante o carnaval passado, Porfírio, coroa enxuto e alegre, bom folião, brincava entre amigas no Bloco da Nêga Fulô, de repente tomou maior susto ao deparar-se com uma mulher exuberante que dançava e pulava à sua frente. Era Juçara no esplendor de sua maturidade, pulando e cantando as marchinhas de carnavais antigos. Brincaram juntos, felizes da vida, terminaram a noite embriagados se enrolando na praia de Ponta Verde. Marcaram encontro no outro dia no Bar do Alípio às cinco da tarde.

Porfírio, o viúvo mais paquerado da cidade, no dia seguinte às 10 para cinco ele estava sentado no deck da Lagoa Mundaú, esperando a amada. Juçara desceu de um táxi com elegância e beleza, tinha no corpo colado o mesmo velho vestido amarelo de anos atrás, havia guardado e nunca usado. Aproximou-se sorrindo, deu um beijo em sua face, sentou-se a seu lado. Porfírio controlou a emoção, reconheceu o vestido. Juçara desabafou pela primeira vez na vida. Contou o sofrimento que teve com o marido mineiro, bem mais velho, extremamente ciumento, mesquinho, raparigueiro, “qualidades” que só apareceram depois do casamento. Proibiu-a de ir à cidade sem sua companhia, nem sequer para assistir um cinema. Tem dois filhos, sua felicidade, seu amparo para aguentar aquele homem violento, que às vezes bêbado dava-lhe murros e tapas, ainda acusando-a não ser virgem quando casaram-se, como se fosse um crime. Há seis meses teve coragem saiu de casa, separou-se do velho marido, mora em Belo Horizonte e quer voltar a estudar medicina.

O reflexo dourado da Lagoa Mundaú era um espetáculo de brilho e cores cintilantes tremeluzindo a água calma, cortada por canoas de velas brancas.

Quando o Sol começava a se esconder, a baixar lá para o fim do mundo para a noite chegar; aconteceu um beijo, terno, carinhoso, como se fossem velhos amantes. O garçom encheu os copos de cerveja, eles sorriram felizes, brindaram, recitando alto: “São trinta copos de chope… São trinta homens sentados… Trezentos desejos presos… Trinta mil sonhos frustrados…”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O PRESENTE DE LUZIA

Pedrinho chegou à puberdade como todo jovem com muito hormônio, a libido aperreando, sexo despertando, entretanto, suas duas paixões continuavam: velejar e nadar. Ele morava perto do Iate Clube Pajussara onde guardava o barco; desde cedo aprendeu o manejo das velas, campeão juvenil de snipe. Descia o barco da garagem, sozinho, velejava pela enseada, bordejava, virava, encantava-se com o mar verde esmeralda, às vezes azul turquesa, amava ficar na solidão enorme do mar.

Todo dia acordava cedo, vestia o calção de banho, atravessava a rua, corria, mergulhava na água tranquila, pequenas marolas, nadava rumo ao infinito, de repente retornava, às vezes acompanhado de botos ao lado como se fossem batedores protegendo o jovem nadador. Depois do mergulho matinal, Pedrinho tomava um bom café, colocava os livros na pasta, pegava bonde ou ônibus rumo ao Colégio Diocesano.

Pela tarde, descansava do almoço, estudava as matérias do dia um puxado construído no quintal, depois caía no mundo: jogar futebol na praia, ximbra, botão, muitos amigos, juventude livre e solta na praia de Pajuçara.

Certa tarde, Pedrinho foi guardar seus livros na puxada junto ao quarto de empregada. Teve vontade de ir ao banheiro entrou no quarto, ao abrir a porta, tomou um susto ao ver Luzia, a copeira, nua como veio ao mundo tomando banho no chuveiro, deu-lhe uma paralisia ao olhar a bela mulher completamente nua, precisou algum tempo para sair do banheiro. Emocionado retornou à puxada para terminar os deveres de casa, em sua cabeça, em seus pensamentos, na sua libido estava forte a imagem do corpo de Luzia. Sertaneja, 27 anos, abandonada pelo marido, trabalhava em casa de família para poder sustentar um filho que morava com os avós em Dois Riachos.

Pedrinho saiu do delírio erótico quando Luzia falou quase cochichando: “pode ir, já acabei”, deu um sorriso entre maroto e sem vergonha. Na tarde seguinte Pedrinho comia uma doce pinha na varanda do quintal, Luzia se achegou provocando, “Vá guardar seus livros, vou tomar banho, pode olhar, mas só olhar, está ouvindo?” O jovem ficou excitado, esperou Luzia entrar no quartinho, apanhou seus livros, dirigiu-se ao quintal, olhava para os lados, desconfiado, como quem pratica um mal feito, seu coração aos pulos, chegou perto da porta, abriu, ficou encantado, o sangue ferveu nas veias ao ver Luzia embaixo do chuveiro se esfregando. Pedrinho retornou ao seu quarto, sua mente via apenas Luzia esfregando coxas e nádegas com sabugo de milho. Naquela tarde homenageou Deus Onã.

Os banhos de Luzia ficaram em segredo entre os dois, toda tarde havia essa liturgia erótica no quintal. Passaram mais de três semanas nesse ritual. Pedrinho não suportou o segredo, se gabando contou a Juvêncio, seu melhor amigo, o que estava acontecendo às tardes no quintal. Juvêncio queria também ver mulher nua; com a recusa do amigo, chantageou, ameaçou espalhar para rua toda. Na tarde seguinte, Luzia tomou um susto ao ver os dois jovens abrirem a porta do quartinho, toda ensaboada, gritou, “feche a porta.”Ela não gostou, a partir desse dia trancava a porta à chave para tomar banho. Uma tristeza para o adolescente. Pedrinho “ficou de mal” do amigo Juvêncio por mais de dois meses. A imagem de Luzia alimentava os sonhos, as fantasias de Pedrinho, ele a olhava com ar de pidão, ela sorria matreiro e não mais permitiu que ele a visse tomando banho.

No dia do aniversário de Pedrinho, sua mãe caprichou num bolo de velas, convidou os amigos, saiu cervejinha, cuba libre, dançaram ao som de Ray Conniff. Final da festa, hora de dormir, ao subir para seu quarto, Pedrinho esbarrou-se com Luzia limpando a sala, ela sorriu oferecida e falou baixinho: “amanhã vou lhe dar meu presente, me espere às oito horas da noite na praia por trás dos Sete Coqueiros.”

No dia seguinte não saía da cabeça o encontro marcado, passou todo tempo pensando em Luzia. Faltavam 15 minutos para oito horas Pedrinho já estava sentado na areia branca por trás dos 7 Coqueiros. O céu estrelado brilhava na escuridão da lua nova, viu os minutos passarem, ansioso. Eram mais de oito e meia quando ouviu um psiu, sentiu um abraço por trás. Luzia deitou-o na areia, cochichou no ouvido: “é meu presente de aniversário.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MASSAGEM

Dona Mercedes morreu no dia que completou 51 anos de casada. O Coronel Eustáquio enterrou a esposa na Fazenda Olho D’água das Flores, onde passaram suas vidas com muito amor, carinho e respeito. Mercedes era uma mulher ativa, de opiniões, deixava o marido pensar que ele mandava, entretanto, ele só fazia o que ela queria. No último desejo, pediu para ser enterrada junto ao túmulo do filho embaixo de uma enorme aroeira num morrete perto dos currais.

Assim foi feito. Os cinco filhos vieram de Maceió e enterraram a matriarca junto ao seu amado filho Bruno, que havia morrido aos 19 anos.

A morte da mulher foi outro baque na vida do coronel. Com 72 anos ele monta todo o dia um cavalo e sai fiscalizando, dando ordens pelo extenso pasto do gado nos arredores. Formou seus filhos: três advogados, uma assistente social e uma médica. Sua mágoa e preocupação é que nenhum deles, incluindo genros e netos, tem vocação para fazendeiro. O filho mais novo, Bruno, foi seu braço direito, seu orgulho, amava administrar as terras e o gado, não quis estudar, tinha um gênio briguento, gostava de cachaça e mulheres. Morreu de numa queda de cavalo, correndo uma vaquejada, estava bêbado derrubou o boi, mas caiu do cavalo. Quando ele lembra Bruno, dá uma dor no coração de saudade, era o filho querido, o companheiro nas andanças pela fazenda.

Depois que Dona Mercedes morreu o coronel Eustáquio enclausurou-se na fazenda. Só viajava a Maceió às quartas-feiras. Nunca foi mulherengo, mas gostava de se aliviar, como dizia, com uma garota de programa.

Havia dois anos da morte da esposa quando no final de ano a família se reuniu para o natal e aniversário do patriarca, 25 de dezembro. Festa tradicional da família, animada com filhos, netos, agregados e convidados. Na festa, Natália, a filha médica, notou que o coronel andava cansado. Exigiu que ele fizesse um checape.

Edgar, o genro, figura simpática, boa conversa, do ramo de comércio de imóveis e carros, as más línguas falam que seu casamento com a médica teve também um olho nos bens do velho, fazia tudo para agradar ao sogro. Ofereceu-se para acompanhar o velho coronel aos médicos indicados pela doutora. Foram dez dias entre consultas e exames. O doutor urologista examinou os resultados. Depois de apalpar o ventre, pediu ao coronel para ficar na posição que Napoleão perdeu a guerra, e fez o famoso toque retal. Constatou que a próstata estava volumosa e inflamada. Passou-lhe antibiótico e determinou ao Coronel para vir toda semana tomar aquela massagem na próstata, até diminuir o tamanho e acabar a inflamação.

À noite a filharada e os netos foram visitá-lo em seu confortável apartamento na orla da Jatiúca. Ele confidenciou para os filhos, que estava constrangido com o tratamento, que não ia mais levar dedada de médico nenhum. Seu fio-fó era órgão de saída, nada de entrada. Com determinação avisou que não voltaria ao consultório, tomaria apenas o remédio.

A doutora Natália, ao dormir, conversou com o marido sua preocupação com o pai, a massagem na próstata era necessária. Edgar homem de desembaraços e de soluções, nunca põe dificuldades, prometeu resolver o problema.

No outro dia pela manhã foi conversar com o do doutor urologista, acertando os detalhes de seu plano. Sua atendente bonita, sabia fazer massagem na próstata, veio a calhar. Com a conivência do doutor prosseguiu a estratégia. Na quarta-feira foi visitar o sogro levando recado do doutor que ele podia ser atendido também por uma massagista especial. Depois de muito relutar, o coronel foi espiar a massagista que estava no carro esperando. Ficou encantado com a beleza daquela morena simpática que lhe sorriu pecaminosamente. Com a jura do genro de não contar nem para a filha, o velho se deixou levar para um local apropriado. O que houve entre as quatro paredes, ninguém sabe. A próstata do coronel já deve ter curado há muito tempo, mas ele prossegue o tratamento. Fica feliz quando amanhece a quarta-feira, vem para Maceió, radiante, dia da massagem com a bonita Michelle que engorda seu salário em R$ 200, 00 toda semana.