CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MUSA DA JANELA

Francisco morou a vida, toda no bairro da Farol, onde nasceu. Depois de casado, os filhos, esposa pressionaram a se mudar para bela orla. Devido aos tempos modernos, Francisco comprou um apartamento na praia de Ponta Verde. Trocou a casa confortável de 400 m², enorme jardim, rosas, orquídeas penduradas em frondosa mangueira, por um apartamento de três suítes. O casal se instalou numa suíte, uma filha solteira, em outra, uma suíte frente ao mar foi transformada em gabinete. Colocou birô, computador para trabalhar, escrever. Francisco aposentou-se do Banco do Brasil, trabalhou em várias cidades, sempre com um pé em Maceió.

Hoje tem a vida que pediu a Deus. Pela manhã caminha na orla, encontra amigos, olhando biquínis e saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Preenche as tardes no shopping, cinemas, livraria; gosta de ler. Depois do Jornal Nacional, Francisco recolhe-se ao escritório, abre o computador, pesquisa, lê jornais, envia e-mails e escreve, cismou de escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua confortável cadeira em frente ao computador, tem ampla visão sobre os apartamentos do prédio vizinho. Às vezes ele desliga a luz, para apreciar melhor o panorama desde sua janela indiscreta. Aprendeu quando serviu no Exército, observar é ver sem ser visto.

Numa janela do prédio vizinho com apartamentos de um quarto, uma jovem chega em torno das 23:00 horas, ele fica espiando atentamente, enquanto sua querida esposa Helena dorme cedo. A moça é um encanto, estatura baixa, cabelos castanhos escorridos até o ombro, corpo perfeito, seios duros, cintura fina, delirante região glútea bem torneada e protuberante.

A jovem tira a roupa devagar, enrola-se numa toalha, vai ao banho noturno. Ao sair do banheiro, abre a toalha, nua como Deus a fez, veste uma minúscula lingerie, deita-se ouvindo rádio, lê, fecha a janela, antes de dormir. Francisco, excitado, ás vezes, acorda sua amada Helena para o descarrego.

Certa noite, Francisco pegou o carro, foi às compras no Supermercado. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé, com livros abraçados ao peito, cruzarem os olhos, ela sorriu, Chico freou o carro no reflexo, Perguntou sinalizando com o indicador se ela aceitava carona. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a mini saia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que para a Faculdade no CESMAC, Francisco mentiu também ia para aquelas bandas. Conversaram amenidades, entretanto, o coração do jovem coroa estava disparado feito um menino. Chegaram à Faculdade.

Naquela noite Francisco esperou ansioso a chegada de sua musa da janela. Compensou a espera, a jovem ao chegar, tirou a roupa bem devagar, coisa que nem profissional faz com tanta sensualidade.

Na noite seguinte, à mesma hora, Francisco passou com o carro, frustrou-se, não a encontrou. Na noite seguinte, emocionou-se quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou. Vilma, assim se chama, 21 anos, faz Faculdade de Direito, perdeu a mãe cedo, vive com o pai, um sacrificado, levam uma vida de parcimônia. Certo momento ela foi direta, sem dó, olhando Francisco dirigir.

– Eu acho que você está me paquerando. Não é? Pensa que sou boba? Vejo você toda noite na janela me olhando. Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Francisco surpreendeu-se, tentou se acalmar virou o rosto, encarou-a com um um largo sorriso.

– Menina, você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona, vou lhe fazer uma proposta indecente. Transo com você, e você paga minha faculdade. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde, às 9:30, depois de minha última aula. Fico lhe esperando nessa esquina.

Francisco parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás.

Ele retornou para casa. O difícil foi arranjar uma desculpa para sair naquela noite.

Ele arriscou para a esposa.

– Helena, está passando um filme iraniano no cinema de Arte. Topa?

Ficou esperando a resposta. A mulher estava sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava ele ir sozinho. Quando deu 9:30 horas da noite Vilma se aproximou do local, ele estava plantado. No motel quase teve um infarto quando saiu do banheiro ao deparar com a bela jovem, deitada na cama, preparada para o amor.

O aposentado Chico está com mais despesa no orçamento. Entretanto, feliz da vida, espera as noites das quartas-feiras para ter nos braços a jovem acadêmica de Direito. Toda a noite não se cansa em vê-la, fica observando ao longe pela janela indiscreta. Helena adora ser acordada para o descarrego.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FESTA DO NORDESTE INDEPENDENTE

O imperador Pedro II, certa vez, prometeu: “Venderei todas as joias de minha coroa, mas resolverei os problemas do Nordeste”. Finalmente depois de tanto tempo, na campanha eleitoral desse ano, um jovem deputado mineiro, um piá, com coragem e inteligência conseguiu mostrar com depoimentos dos próprios nordestinos a situação de miséria do povo há mais de séculos. Foi a peça mais interessante nessa eleição de 2026, seja qual for o resultado.

Impressionado com o trabalho do deputado mineiro, fui dormir e sonhei com um Nordeste desenvolvido, sem analfabeto, o povo com emprego e renda, a família morando em sua casa com água e saneamento, fartura e saúde. O Nordeste havia se tornado um país independente.

Sonho fantástico, o povo feliz, reunido, dançando na praia da Avenida da Paz, comemorava a Independência. Aqui nas Alagoas a festa varou a noite, continuou pelo outro dia e mais dias. Foi armado um palco na praia, de repente entrou um animado e colorido pastoril cantando e acenando para o povo. De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas e bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, mais sete meninas, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões dançava a única Diana vestida de minissaia de chita, dividida entre as cores azul e encarnado. E cantavam a primeira jornada:

“Boa noite meus senhores todos, Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… Que alegremente vamos a Belém.”

A moçada ia ao delírio, ajudada pelo animador, o poeta Aldemar Paiva, que gritava no microfone:

Viva a cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva o Nordeste! Viva a Independência!!!!!

A festa continuou com o homem da cultura popular Ranilson França apresentando um exuberante grupo de Guerreiro da Viçosa, com suas fantasias coloridas e chapéu cheio de espelhos. Eles cantavam: Guerreiro, cheguei agora, Nossa Senhora é nossa defesa… Foram se apresentando fandangos, folguedos, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, boi e muitas outras danças populares nordestinas.

No Clube Fénix acontecia um agitado e divertido baile de frevo carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou durante toda noite. O dia foi despertando. A orquestra saiu do ginásio para a rua, puxando os foliões em direção à praia. Continuavam os gritos: “Viva a Independência! Viva o Nordeste!” A festa da Independência durou dez dias. Estendeu-se por todas as praias da cidade. O povo dançou na praia de Pajuçara, onde o mar beija as areias, com mais alma e mais amor.

A partir da Bahia até o Maranhão estava formado um novo país. O delirante sonho continuava com um show de Elba Ramalho no Marco Zero do Recife, cantando os versos de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova.

“Já que existe no Sul esse preconceito… Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato… Já que existe a separação de fato… É preciso torná-lo de direito… Quando um dia qualquer isso for feito… Todos os dois vão lucrar imensamente… Começando uma vida diferente… Da que a gente até hoje tem vivido… Imagine o Brasil ser dividido… E o Nordeste ficar independente.”

Nesse momento, caí da cama, acordei. Mas ficou a esperança de um dia o povo nordestino, tão rico em sua cultura popular, tenha uma vida digna, todos com casa, água, saneamento, emprego, alfabetizados e saudáveis. Só isso. E que os governantes cuidem dos nordestinos, estão esperando melhoria de vida desde o tempo do Império, desde Dom Pedro II.

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TÕNIA RENDEIRA

A sexta-feira não havia amanhecido, o povoado do Pontal da Barra dormia. No quarto escuro, Yara, barriguda, pesada, levantou-se quando as primeiras nuvens iniciaram a alaranjar-se. Ouvia-se apenas o barulho das marolas da lagoa e o vento batendo nas palhas dos coqueiros. Manduca acordou-se ainda madrugada era a melhor parte do dia para pescar. A esposa preparou café com macaxeira frita, pão torrado e ovos para marido e seu companheiro de pesca, Zé Doidão, um menino retardado mental, pelos 11 anos, conhecia a lagoa como ninguém. Tomaram o café reforçado, desceram ao quintal, abriram a portinhola da cerca baixa. Ao puxaram a lona de cima da canoa, ouviram o chamado de Yara.

– Manduca, acho que vai ser agora, as dores estão chegando a todo instante.

Ele correu à casa de Dona Guilhermina, parteira de alta competência, anos de experiência. A comadre penetrou casa adentro trazendo o material, mandou Yara tirar a roupa, colocou a chaleira para ferver. Com Manduca assistindo em poucos instantes tirou a menina da barriga da mãe. Yara, deitada com a criança enrolada, conseguiu comentar.

– Foi rápido demais, parece que essa menina estava com pressa de chegar ao mundo.

Zé Doidão saiu de porta em porta contando em seu linguajar confuso que nascera um neném na casa de Seu Manduca. Em pouco tempo os vizinhos sabiam que Yara dera à luz a uma menina. As amigas entraram na casa sem cerimônia. Yara deitada na cama, olhava com carinho a filha, feliz em ter parido aquela criança tão bonita. Dona Zeca, mãe de Manduca, perguntou qual o nome da criança. Yara olhou para o marido como se pedisse apoio, respondeu sorrindo.

– Antônia, igual a meu pai, Seu Antônio, criatura maravilhosa, bondosa que me criou cheio de amor, desde que minha mãe morreu.

Manduca completou.

– Minha filha Antônia vai ser médica ou advogada. Viva Tônia. Antônia Pereira Lins!

Desistiu da pesca naquela sexta-feira. Festeiro, foi comprar os condimentos para preparar uma caldeirada de peixe, outra de sururu, haveria uma farra com as visitas que certamente viriam conhecer Tônia. No espaçoso quintal colocou dois cavaletes e completou com tábuas por cima. Estava pronta a mesa. Em poucos instantes apareceu, Jacy, irmã de Yara, seu marido, Pedro Lampião, estava trabalhando, era o Comandante da Lancha do Horário. Pela manhã partiu navegando do cais das lanchas na Praça Pingo D’Água, percorreria as pequenas cidades e povoados à beira das lagoas, embarcando e desembarcando cargas e passageiros.

Jacy, grávida de poucos meses, ajudou a preparar as comidas com outras amigas, enquanto Manduca providenciava bebidas, gelos e complementos. Em momentos aumentou o movimento na casa.

Yara não se cansava de olhar sua pequena Tônia, pensava: O que será dessa coisa linda? O que a vida prepara para meu amor? Tônia na paz de criança dormindo, vez em quando abria o choro, Yara dava-lhe o peito, ela sugava com força. O ventilador de teto abrandava o calor.

A residência era geminada como todas as outras da rua principal. Uma porta, duas janelas. A casa pertencia a Dona Zeca, viúva do Sargento Agamenon da Força Expedicionária Brasileira – FEB, morreu em 1943 nos campos de batalhas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial lutando contra o Fascismo. A casa era estreita, porém, tinha espaçoso comprimento, da rua principal à beira da Lagoa. A sala da frente foi transformada em loja, seguia um corredor com três quartos e um banheiro. No fundo havia uma sala de estar, ao lado, uma escada circular dava para dois quartos no segundo andar. Seguida a sala, uma boa cozinha e área de serviço; à beira da lavanderia descia oito degraus para o vasto quintal cercado à beira da Lagoa Mundaú. A família vivia da pesca do Manduca e das peças de renda, feitas artesanalmente por Dona Zeca e Yara. Davam para sustentar a casa.

Naquele 27 de janeiro de 1950, a casa de Manduca encheu-se de amigos, como ele esperava. Comida e bebida à vontade; vez em quando o pai carinhoso entrava no quarto admirando a beleza da criança. Encantava-se com Tônia dormindo junto à mãe. Yara sorria, achava graça na adoração do pai à primeira filha.

OBS – TEXTO INICIAL DO MEU NOVO ROMANCE “TÔNIA RENDEIRA”, LANÇAMENTO BREVE.

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DIA DOS NAMORADOS NO ZINGA BAR

Haroldo dirigia feliz seu Gordini vermelho, era noite de sexta-feira, véspera de Santo Antônio, dia dos namorados. Solteiro, boêmio, 25 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de carro, resolveu trancá-lo, travá-lo, dia seguinte viria com um mecânico. Com o dedo polegar ficou a pedir carona aos carros em direção ao Zinga. Parou uma Kombi, eram vários amigos, tinham o mesmo destino.

O Zinga Bar foi um empreendimento arrojado de Cláudio Barbosa, a construção estendia-se à praia de Riacho Doce, o grande sucesso da cidade dos anos 60, aliás, revolucionário para aquela geração que mudou o mundo. As moças casadouras naquela época só saiam à noite acompanhadas dos pais para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar as jovens de Maceió não foram mais as mesmas, deram um grito de liberdade frequentando aquele Bar-Restaurante-Boate. Dava-se início a revolução sexual das moças de Maceió. A virgindade deixou de ser tabu.

Tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo o mar de Riacho Doce. Mesa cheia, além dos amigos e Haroldo, completavam mais três belas jovens e uma coroa risonha, à beira dos cinquenta. Conversa divertida, maior alegria. Quando a banda iniciou os acordes de “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Haroldo para dançar. No dancing romântico, bela vista ao mar, se juntaram iniciando o arrastar com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou Haroldo, arrochou, rosto e corpo colocados, mudos, o carinho da mão na nuca, falavam mais que qualquer palavra, plena excitação. A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava as pernas de Haroldo. A Banda animou no São João, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, como no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Haroldo e Yolanda se atraiam. Deu-se o desejo imenso, ânsia louca de beijo na boca. Haroldo pediu a Kombi emprestado por uns instantes. O casal entrou na Kombi, dois quilometro a mais Haroldo encostou a Kombi embaixo de uma árvore, ao luar de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem, era dia dos namorados.

Retornaram com aquele sorriso maroto de felicidade dos bem amados satisfeitos, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, fazer amor é natural como tomar um copo d’água para matar a sede. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios foram cumprimentar o dia nascendo andando na praia, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão.

Dia seguinte Haroldo acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo, mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. A grande surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente do dia dos namorados, beijo de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Um dia dos namorados inesquecível.

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AS ELEIÇÕES DE 1950

Silvestre Péricles de Gois Monteiro foi um governador honesto, trabalhador e poeta. Contudo, arbitrário; um caudilho, anticomunista, muitas vezes violento em suas imposições políticas. No dia 3 de outubro de 1950 estavam marcadas eleições gerais. Silvestre lançou seu candidato a governador, Campos Teixeira. Naquela época não havia pesquisa, mas ele dizia ter mais de 80% dos votos em Alagoas. Os caciques da oposição, UDN, com eleição garantida para deputado, não se arriscaram a candidatar-se contra Campos Teixeira. Foi quando apareceu um jovem jornalista, que com ousadia e audácia topou a candidatura afirmando que ganharia a eleição para governador do Estado. Arnon de Mello entrava assim para história das Alagoas. Candidato à Constituinte de 1945, Arnon perdeu; teve 1.300 votos. Atrás de Silvestre (6.105), Rui Palmeira (3.232), Freitas Cavalcanti (2.388). Na frente de Carlos Prestes (1.093) e Graciliano Ramos (62).

A campanha eleitoral de 1950 foi uma das mais violentas na história das Alagoas. Como todo déspota, Silvestre não admitia discordância. Quando os jornalistas da oposição criticavam o governo com veemência, ele ficava possesso e dava o troco. Mandou dar surra no jornalista Donizete Calheiros (ficou paralítico), empastelar um jornal, tocar fogo no caminhão dos estudantes que pichavam os muros com propaganda de Arnon. A campanha foi um período de tiros, mortes, chacina na cidade de Mata Grande, várias pessoas de uma família morreram. O irmão de Silvestre, Senador Ismar de Gois Monteiro, seu inimigo político, levou três tiros numa tentativa de assassinato. O clima era de total intranquilidade.

Numa noite de brisa, eu estava em minha casa lendo revistas em quadrinhos, menino, esperto, adolescente precoce, maloqueiro da praia da Avenida da Paz, quando bateram na porta de minha casa. Atendi e me surpreendi com um grupo de homens vestidos de paletó branco, e apenas uma mulher. Eles perguntaram pelo Coronel Mário Lima, comandante do 20º Batalhão de Caçadores. De repente meu pai chegou cumprimentando os visitantes. Era a cúpula da UDN que pedia abrigo para realizar uma reunião; e minha casa foi o único local que acharam seguro para discutirem as estratégias de campanha e denunciar o clima de intranquilidade. Meu pai os recebeu, deixou-os à vontade na sala.

Eram os membros da oposição, que Silvestre chamavam-no de “udeno-comunistas”. Discutiram durante toda noite. Curioso, fiquei admirando, prestando maior atenção ao debate sobre as opiniões e medidas a serem tomadas. O que mais me impressionou foi a participação atuante e determinada, cheia de opiniões da única mulher do grupo, Dona Leda Collor de Mello, esposa de Arnon; naquela época lugar de mulher era na cozinha. Fui dormir e deixei os políticos, Rui Palmeira, Freitas Cavalcanti, Melo Mota, Carlos e Mário Gomes de Barros, Ezequias da Rocha, Oséas Cardoso, entre outros, discutindo até a madrugada, com o apoio da água gelada, cafezinho, doce de mangaba, bolo e refresco de cajá de Dona Zeca.

Essas reuniões se repetiram. Meu pai tomou essa posição em receber os políticos em nossa residência para evitar mais violências. Ele comunicou o fato ao governador Silvestre e ao General Comandante da 7ª Região. Se responsabilizando pela acolhida aos políticos receosos de uma reprimenda. Arnon de Mello estava crescendo eleitoralmente na capital e no interior, o que levava os governistas ao desespero. A eleição se aproximava e a garantia das tropas do Exército solicitada pela oposição não chegava ao 20° BC. O General Góes Monteiro, irmão de Silvestre, eminência parda da República, candidato a Senador em Alagoas, segurou a ordem de envio de tropas para garantir a eleição no interior.

Foram expedidos radiogramas para a 7ª Região Militar informando que estavam sendo preparadas fraudes e violências durante a eleição, que iria haver derramamento de sangue. Somente às duas horas da manhã do dia 3 de outubro (dia da eleição), chegou do Recife, ordem para garantir as eleições em Alagoas. O 20º Batalhão de Caçadores permanecia de prontidão com a tropa organizada, preparada para ser distribuída nos municípios mais complicados. Havia um problema: não existiam viaturam suficiente para o deslocamento imediato dos soldados para todo Estado.

O coronel Mário Lima requisitou caminhões, camionetes que passavam em frente ao quartel; embarcaram todos os soldados para o interior. O Exército garantiu a eleição.

Apurados os votos, Arnon teve 56.962 votos contra 36.338 de Campos Teixeira. O general Góes Monteiro, candidato a senador, pensava ser uma eleição fácil, debochou, não fez campanha: perdeu para um médico, obscuro político de Sertãozinho (hoje Major Izidoro), Ezequias da Rocha.

Final de novembro, em uma inspeção do general comandante da 7ª Região à guarnição de Maceió, o coronel Mário Lima acompanhou o general comandante em visita de praxe ao governador Silvestre. Depois da conversa protocolar, quando retornavam pela sala, Dona Constança, mãe de Silvestre, sentada em uma cadeira de balanço, provocou, alto: “Esse Exército de merda fez meu filho perder a eleição”. Os militares fingiram não ouvir. Sorrindo desceram as escadas do Palácio dos Martírios.

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UM DOUTOR DE PRINCÍPIOS

Na juventude, Petrúcio encantava às jovens. Ainda hoje, esbanja charme. As mulheres suspiram admirando o porte de homem atlético. Vendo-o jogar no Jaraguá Tênis Clube.

Em sua carreira de médico tem comportamento exemplar, nunca correspondeu aos assédios das clientes, é respeitador, ético em sua profissão, jamais se envolveu com alguma paciente.

Certa tarde em seu consultório, apareceu nova cliente, Caterine. Ao entrar, a bela mulher passou o olhar em volta, ambiente limpo e bem decorado. Sorriso nos lábios cumprimentou o doutor.

– Já nos vimos, jogando tênis, não é? Qual o problema? – Perguntou o Doutor.

– Uma dor por aqui. – apontou a área do ventre.

Petrúcio fez uma série de perguntas preenchendo a ficha médica, surpreendeu-se com a idade da mulher, 45 anos, nacionalidade francesa, falava bem o português, parecia ter 30, bem conservada, loura de pele rosada, olhos azuis. Ao terminar pediu para descalçar os sapatos e subir na balança. Petrúcio continuou a escrever, ao levantar a vista, o coração bateu forte. Caterine estava em cima da balança apenas de calcinha de renda vermelha. Seu corpo bem delineado e a sensualidade exuberante deixou o doutor com o sangue fervendo. Petrúcio aproximou-se, nervoso, mediu o peso e altura daquela mulher extraordinariamente bela, deu-lhe vontade imensa de abraçar-lhe. Controlou-se, pediu para ela vestir-se e retornar à cadeira.

O Doutor prescreveu exames, tomografia e radiografia do ventre. Ela recebeu a requisição, olhou nos olhos do doutor, perguntou:

– Não vai fazer o toque vaginal?

O médico controlou-se, afirmou não ser preciso, com o resultado dos exames ele avaliaria com precisão o que estava de anormal com ela.

Caterine sorriu olhando para o doutor, segurou sua mão, confessou.

– Doutor, falando bem claro, eu tenho uma fantasia. Desde que lhe vi jogando no Jaraguá Tênis Clube, tive uma atração imediata. O senhor chegou de jaleco, deu-me uma imensa vontade de fazer amor em seu consultório. Sou casada, não tenho problemas com o marido, hoje provoquei essa oportunidade única, quero você apenas uma vez, satisfazer minha fantasia, penso nós dois nos abraçando, rolando no chão de seu consultório.

– Dona Caterine, por favor, a senhora é uma belíssima mulher, provocou-me uma atração enorme, se a senhora quiser, no Rio, no Recife, no Japão, na Alemanha, no motel de Jacarecica, podemos nos encontrar. Eu invento uma viagem. Vamos passar uma lua-de-mel em Fortaleza? Só não posso no meu consultório, tenho um profundo respeito por minha profissão, meu consultório é um lugar sacro santo, onde exerço a medicina, a ética me proíbe qualquer relacionamento com paciente. Por favor, não torne difícil para mim, você é bela, sensualíssima, gostosa. Compreenda, Se eu quebrar os princípios da medicina ficarei profundamente magoado comigo mesmo, por favor.

– Minha fantasia é lhe amar no consultório, é ser abraçada pelo Doutor de jaleco, fora disso, não quero.

Levantou-se, deu meia volta, ao se aproximar da porta trancou-a a chave, virou-se, num átimo deixou o vestido cair, puxou e segurou a calcinha vermelha de renda pelos dedos. Petrúcio partiu rápido, chamou-a de louca, ajudou apressadamente a vesti-la, pediu não retornar ao consultório. A cliente saiu pisando forte, aborrecida. O Doutor fechou a porta, respirou fundo, deu quatro murros na parede, sangrou a mão.

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A VEADINHA

Antigamente todos conheciam os homossexuais da cidade, lembro do Ramona, Vicentão, Porreta, contavam-se nos dedos, hoje a fauna se espalhou, assumiram de uma vez, poucos ainda escondem a homossexualidade. Eu acho certo, esconder sua sexualidade é hipocrisia.

O mais autêntico de todos durante minha juventude, foi meu querido amigo, Luizinho. Na adolescência despertou sua atração pelo sexo masculino. Aos 18 anos chamado para o Exército, sentiu-se no paraíso arrodeado de homens viris. Ao descobrirem sua preferência, deram sua baixa do Exército

Luizinho causou escândalo em Maceió, assim que saiu do Exército seu pai o colocou para trabalhar numa grande loja da família na Rua do Comércio, função de comprador, reposição de estoque. Certa vez apareceu um carioca, alto, bonito, olhos azuis, bem falante, vendia todo tipo de relógio, despertador, relógio de ponto, de braço. Luizinho teve uma emoção ao ver o representante, fez o pedido costumeiro da loja. Puxou conversa com o vendedor. O simpático carioca, malandro, percebeu a queda de Luizinho, aceitou o convite para jantar. No restaurante da Fênix pediram melhor vinho, melhor comida, comeram, beberam, Luizinho apelidou o vendedor. Era “Blue Eyes” para lá, “Blue Eyes” para cá. Terminaram dormindo no Hotel Califórnia, onde o representante estava hospedado. Um mês depois ele retornou, Luizinho ficou eufórico quando o viu entrar na loja, dizia aos amigos estar apaixonado. O cara voltou nos meses seguintes. Cinco meses de retorno, o carioca, lamuriou-se, a firma ia colocá-lo na rua, talvez fosse última viagem, não havia conseguido fechar o número mínimo de pedidos exigido pela empresa. Luizinho emocionado mandou o carioca preencher o pedido de quantos relógios quisesse para a loja. O malandro, não se fez de rogado, fez um pedido substancioso. Luizinho assinou, o amante feliz, viajou com o gordo pedido e o bolso cheio de cruzeiros, presente de seu amor, prometendo voltar o mais breve possível. Na outra semana chegou uma encomenda na loja, um caminhão, carga inteira de relógios, um bom dinheiro a ser pago à vista, conforme contrato. Seu Luizão, o pai, ficou desesperado, teve que cumprir o compromisso, mudou a função do filho na loja. Passaram-se cinco anos para vender todos os relógios. O carioca nunca mais pisou em Maceió.

Meu primo, Fernando, negociante de animal, toda tarde vendia cachorro, gato, tatu, enjaulados. Fazia ponto na Rua do Comércio. Certa vez ele levou uma veadinha numa gaiola, corda fina no pescoço, chamava atenção, entretanto, ninguém comprou a bichinha, ele baixou preço. Quem queria uma veadinha em casa? Foi quando um desocupado da Rua do Comércio falou no ouvido do Fernando.

– O Sr. Luizão, dono da loja São Vicente tem um veado em casa, quem sabe se ele não compra essa veadinha para juntar ao veado de sua casa?

Ideia melhor impossível, Fernando colocou a gaiola do animalzinho no ombro levou-a para loja. Depois de esperar quase uma hora, Sr. Luizão atendeu, ouviu a conversa de vendedor.

– Olha Seu Luizão, tenho bela veadinha de apenas dois meses trouxe para o senhor, bem barata.

– O que vou fazer com uma veadinha?

– Para fazer companhia ou cruzar com o veado que o senhor tem em casa.
No mesmo momento levou um murro na cara, saiu cambaleando puxando a veadinha.

Só entendeu o acontecido, quando viu os gozadores às gargalhadas na Rua do Comércio. Alguém explicou

– O veado filho de Luizão é o Luizinho, homossexual assumidíssimo.

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O MASSACRE DE JARAGUÁ

O fato se deu há muitos anos, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro de Jaraguá vivia uma efervescência econômica, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma só família. Augusta era uma jovem bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte e rude. Todos admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, trepava em árvore, corria na praia, faceira, a todos encantava, mas só um à ela agradava: Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem com 19 anos, forte musculatura, corpo forjado carregando sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça Dois Leões. Quando o Cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se. Ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo, o Cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 14 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações flutuavam, singravam, na enseada da praia da Avenida, cada qual com sua decoração, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça e na Igreja. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos fizeram uma festa na casa de Augusto, pai da jovem mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, via a animação na casa de Augusto, ficou com ciúme e despeito quando percebeu pela janela, Gumercindo dançando o coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, com mais dois policiais, tentou entrar na casa de Augusto, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O Cabo quis alterar, apareceram mais de dez estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, Sobral, o cabo arruaceiro, retornou com mais quatro policiais. Foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixerada na barriga deixou um policial morto na rua.

Sobral levou o soldado morto. Foi à Delegacia Regional, armou mais de 20 homens. Montados a cavalos subiram à Praça Dois Leões atirando e matando quem estava pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos. Na praça, os ambulantes que nada tinham a ver com a história correram para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram, atiraram nos inocentes.

No dia seguinte, o governador foi ao local da chacina, estava escandalizado, entretanto, mandou juntar os cadáveres, mais de dez, em carroça de bonde, e enterrar no Cemitério de Jaraguá, algumas famílias acompanharam os mortos.

Nenhuma notícia saiu em jornais, nada foi registrado. Para abafar o caso, a Igreja, a cúria, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou trancada por mais de dez anos. Mas o povo não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá. Quase nada tem escrito sobre o Massacre de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BOMBA

Nos anos de chumbo quando havia uma guerra no Brasil e ninguém sabia, era censurada nos jornais e televisão. Quando o baiano Carlos Mariguella, guerrilheiro, comunista, marxista, leninista, organizou a luta armada contra a ditadura, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionário com a finalidade de implantar a ditadura proletariado no Brasil. Com a proliferação de assaltos a bancos arrecadando dinheiro e assaltando quartéis roubando armas para a Revolução do Proletariado, os quartéis do Exército dobraram a vigilância, as visitas eram revistadas, dentro dos quartéis tornou-se uma neura.

Nessa época dois colegas de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras, eram capitães. O Rocha servia na Fábrica de Material Bélico na cidade de Piquete e o Wanderley servia no 5º Regimento de Infantaria de Lorena, cidades vizinhas, bem próximas. Vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN acabava de acontecer, o terrorismo em São Paulo era constante

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, como sempre, trouxe deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley que adorava as iguarias nordestinas.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. O capitão Rocha, um tanto apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou o soldado sentinela e entregou um pacote de rapaduras embrulhadas, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley.

Nesse momento o tenente, oficial de dia, que observava de sua janela, viu quando alguém entregou um embrulho à sentinela logo depois deu partida e acelerou o carro. Imediatamente, o jovem tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado sentinela colocar o embrulho no chão, no meio do pátio. Mandou tocar alarme geral; desesperado o tenente gritava: Cuidado é uma bomba!! É uma bomba!!!!!!

Os soldados que estavam no quartel, bem treinados, tomaram logo suas posições estratégicas, sob o comando de sargentos e cabos, entrincheirados, atrás de colunas e paredes. Ficaram a vigiar ao longe a “bomba”, imóvel, soberba e inatingível no centro do pátio.

O quarteirão foi interditado, o trânsito desviado para outras ruas e impedindo qualquer pessoa de se aproximar do quartel. Enquanto isso, o embrulho, no meio do pátio, solitário, fazia temor a toda população, que espreitava das varandas dos prédios da vizinhança.

Logo a mídia tomou conhecimento, estavam na expectativa todos jornais da região. As TVs de São Paulo a caminho. Jornalistas e fotógrafos se penduravam em prédios vizinhos. Era aguardado a qualquer momento um sargento sapador especialista em desarmar bombas vindo de São Paulo.

Foi nesse clima que o Capitão Wanderley, voltando calmamente de uma pescaria, sentiu o movimento estranho, dirigiu-se ao quartel.

Os soldados que faziam o controle do trânsito, contaram o caso da bomba, deixando o capitão passar. Wanderley foi se chegando, quando percebeu a bomba mais de perto, emocionado, reconheceu os abençoados inúmeros pacotes que ganhava do amigo Rocha. Wanderley procurou o tenente, contou sua versão sobre o pacote, nessa altura, o tenente não admitia outra hipótese, era uma bomba. Os soldados continuaram abrigados no maior anseio, e ficaram apavorados quando Wanderley, com água na boca, pensando na deliciosa rapadura, aproximou-se do embrulho. A expectativa e o silêncio tomavam conta da multidão, dentro e fora do quartel, que acompanhava a insensatez, o “maluco” do capitão.

Num gesto contínuo, Wanderley ficou de cócoras, apanhou o pacote e foi abrindo pelos lados, tirando o papel espesso, as palhas de bananeiras até aparecer uma bonita barra dourada de rapadura, ouro nordestino. Com os dedos, indicador e mindinho, quebrou um pedaço, levou-o a boca, deu uma bela dentada, colocou o pacote nas axilas e saiu andando devagar, calmo como ele próprio. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os beiços diante de uma enorme plateia pasmada, incrédula no que via acontecer, todos boquiabertos soltaram um uníssono e exclamativo, Oh!!!!!!!

Foi um alívio geral, a paranoia daqueles tempos era contagiante.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HOJE É DIA DELA, VÂNIA

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu pequenos coqueiros morrendo na praia da Jatiúca, comprou três pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade? Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pôde e o que não pôde até o final de seus dias? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e no zap, aproveitando a fase madura da vida?

Quem é essa mulher que desde menina gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até em New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu, tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”? Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosas. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, perto, outros mares ou o porto final além do horizonte.

Obs: Essa crônica repetirei todo mês de agosto até terminar a tinta.