CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARNAVAL É UM GRANDE NEGÓCIO

Nos anos 40/50/60, o carnaval de rua em Maceió iniciava 15 dias antes com a Maratona Carnavalesca na Rua do Comércio, tendo uma orquestra de frevo em cada esquina e o corso rolando. Toda noite o Centro da cidade se enchia de foliões e os apreciadores de carnaval ficavam assistindo da calçada o povo dançar e se esbaldar.

No domingo anterior ao carnaval era vez do Banho de Mar à Fantasia pela manhã na Avenida da Paz. Com concurso de Blocos de Frevo levando uma multidão, troças, críticas e bateria de Escolas de Samba.

Há cerca de 15 anos, o carnaval de rua de Maceió desapareceu de repente. Os moradores da cidade começaram a procurar a folia em outros locais, como Recife, Salvador, deixando um vazio na cidade.

CARNAVAL É ECONOMIA CRIATIVA. CARNAVAL É LUCRATIVO

A abrangência da Economia Criativa, que tem como matérias primas a inteligência e a criatividade humanas, recursos que, se bem trabalhados, tendem ao infinito. Sendo assim, com possibilidades praticamente ilimitadas, a economia criativa pode ser considerada revolucionária.

O carnaval constitui-se numa das mais conhecidas expressões culturais do Brasil, pode ser visto como uma síntese da Economia Criativa, uma vez que nas suas diversas formas de manifestação explora de forma extraordinária a inteligência e a criatividade do brasileiro.

Nessas diferentes formas de manifestação carnavalesca estão presentes diversos atores da economia criativa. Na música, desempenham papel fundamental os compositores, os puxadores de blocos, os instrumentistas e, por que não, os próprios espectadores, que consomem (ou baixam pela internet) os CDs com as letras das músicas de carnaval, muitas das quais exploram o riquíssimo folclore nacional. Nos trios elétricos, nos blocos e nas escolas de samba, destaque-se a presença marcante de ritmos, como as marchas, o axé, o samba e o frevo. Passando para os quesitos artes visuais, artes cênicas e dança, assistimos, ano após ano, um show de criatividade, e bom gosto de designers, coreógrafos, estilistas, figurinistas, roteiristas, costureiros, maquiadores, artesãos, bailarinos e passistas.

Na retaguarda, nem sempre percebidos, mas também de papel relevante na preparação e execução dos serviços, estão os publicitários, os decoradores, os gráficos, os profissionais de rádio e TV, os chefs de cozinha e uma enorme gama de colaboradores da cadeia turística, envolvendo os segmentos de transporte, hospedagem, alimentação e entretenimento. Beneficiando-se do fluxo de turistas que acorrem às principais localidades com atrações carnavalescas.

PREJUÍZO DA CIDADE DE MACEIÓ POR NÃO TER CARNAVAL ORGANIZADO

Maceió está perdendo dinheiro e muito dinheiro em não ter carnaval. Durante o carnaval viajam 200 mil maceioenses em busca de folia, se cada um gastar R$ 500,00 durante o carnaval. São R$ 100 milhões que deixam de circular em Maceió. Em um estudo recente, economistas chegaram à conclusão que para cada R$ 1,00 (um real) investido no carnaval existe um retorno de R$ 3,00 (três reais) indiretamente para ambulantes, taxistas, costureiras, fábricas de camisas, rede de hotel e pousada, músicos, restaurantes, bares, montadoras, enfim uma gama de pequenos e médios negociantes. É preciso que os governantes entendam que investindo no Carnaval tem ótimo retorno econômico. Rio de Janeiro, Salvador, Recife e agora São Paulo já descobriram que carnaval é um grande negócio, investem no Carnaval a maior manifestação de cultura popular do brasileiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FESTA DE SANTO AMARO DE PARIPUEIRA

Praia de Paripueira

Pablo Esteban nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, criança bonita de chamar atenção, bebê rosado, lourinho de olhos verdes. Na juventude era cortejado pelo mulherio, as moças e coroas se apaixonavam ao conversar com aquele rapaz elegante, gentil e bonito.

Ao formar-se em engenharia química foi convidado para trabalhar numa indústria instalada em Maceió. Ele apaixonou-se pela cidade, nunca havia imaginado uma cor do mar tão bela, as praias, um paraíso cheio de coqueirais, ficou morando na bela terra do poeta Lêdo Ivo, de quem era fã e já havia lido seus livros. As jovens da cidade caíram em cima de Pablo. Além de bonito e educado, ele tinha um comportamento exemplar. Não era chegado às noitadas, nem às farras com garotas de programa comuns ao pessoal da terra. Era o genro que toda mãe deseja. Sua vida de solteiro não durou muito, apareceu Regina, uma bela morena de cabelos cacheados, lábios grossos e de uma simpatia contagiante. Ele rendeu-se aos encantos da moça e casou-se em numa festa de arromba, como quis Dona Mercedes, sua sogra.

Pablo em pouco tempo fez um pé de meia e construiu uma casa na belíssima praia de Paripueira. Casa grande, cinco quartos, nos fins de semana e nas férias levava seus dois filhos. Passava todo o verão se deleitando na confortável casa. Não perdia a alegre e tradicional Festa de Santo Amaro no início de janeiro, com muita música, bebida, folguedos e quermesse da Igreja.

Quando os filhos se tornaram adolescentes preferiam ficar em Maceió, onde havia boa agitação noturna. Era um desgosto para Pablo. Por conta disso ele transformou a casa numa pousada. Há alguns anos ele a administra em fim de semana. Às vezes Regina prefere ficar em Maceió, entretanto, Pablo não deixa de fiscalizar os serviços na pousada por Dona Cícera, a arrumadeira, e pelo jovem Gerson, administrador, porteiro, faz tudo da Pousada Cruz Alta.

Regina sempre foi ciumenta, mesmo sem Pablo dar motivos. As mulheres olham com admiração e excitação para seu lindo marido, às vezes se insinuando, afinal o cara é um tipão de coroa, porém, o comportamento dele é exemplar.

Pablo, de repente, ficou relaxado com os deveres conjugais junto à esposa. Só faziam amor quando Regina insistia, o que a deixou encucada. Até que, certo dia ela leu numa revista que o primeiro sintoma de um homem que está traindo é a frieza sexual com a esposa.

Regina procurou Audálio, detetive especializado, no Edifício Breda. Depois de um mês de investigação seguindo o suspeito, ele nada encontrou. Mostrou fotografias do marido no trabalho, nas ruas, na pousada, tomando banho de mar, sempre desacompanhado. Durante as noites que ela não o acompanhava, ele dormia sozinho em Paripueira. O experiente Audálio concluiu que o marido estava passando apenas por uma fase sem entusiasmo, embolsou o dinheiro combinado e entregou-lhe as fotos. Regina não ficou contente com as investigações. Ela sentia no corpo e no comportamento a mudança do marido.

No início de janeiro, Regina inventou que não podia acompanhar o marido à Festa de Santo Amaro em Paripueira, pediu desculpas por não ir. Ele disse que não havia problema e partiu feliz da vida para seu paraíso.

Regina percebeu essa alegria no ar. Deixou o maridão viajar. Ao anoitecer, sem avisar, partiu célere em busca de um flagrante do marido com alguma sirigaita. Eram sete da noite quando Regina entrou na pousada perguntando pelo esposo. Dona Cícera e o administrador, o jovem Gerson, disseram que estava no quarto assistindo televisão. Regina bateu à porta com força, Pablo custou a atender. Assim que abriu, a esposa entrou de repente perguntando quem estava com ele, queria conhecer a puta de seu marido. Pablo ficou assustado. Regina procurou no banheiro, armário, guarda-roupa, quando percebeu que ele estava sozinho, começou a chorar. Só parou quando foi consolada pelo paciente marido. Dormiram na pousada, Pablo nessa noite empenhou-se em suas obrigações conjugais.

No dia seguinte, Regina depois do almoço retornou à Maceió. Pegou suas coisas e partiu. Quando dirigia pela estrada, no meio do caminho, lembrou que havia deixado os óculos escuros que havia comprado na Alemanha. Retornou imediatamente. A porta do quarto não estava na chave, ao abrir, surpreendeu-lhe a cena chocante. Seu belíssimo marido estava abraçando o administrador Gerson, alisando seus cabelos, beijando seu rosto. Regina avançou que nem uma leoa deu uma tapa no marido, saiu correndo, tomou o carro retornando para sua casa.

Regina hoje, um ano depois, mudou seu modo de vida, não se sabe se por vingança ou por prazer. Quem quiser encontrá-la todo fim de semana está nas baladas de Maceió, dançando, bebendo, namorando.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE AMOR

No longínquo ano de 1963, eu tinha 23 anos, Tenente do Exército Brasileiro servindo na Bahia, passei as férias de verão, como de costume, em Maceió. Certo dia, minha irmã Rosita convidou-me para visitar o acampamento das Bandeirantes (escoteiras), com mil recomendações para que eu não me enxerisse com as jovens. Quando olhei aquela galeguinha de 15 aninhos, não pude deixar de cantar uns versos da ciranda cochichando em seu ouvido: “Oh menininha você é tão bonitinha… Engraçadinha… Vou me casar com você…”

Anos depois, já como capitão no 20º BC em Maceió, cursava a Faculdade de Engenharia. Solteiro, bonito, com outros amigos, éramos os donos, os boêmios da cidade.

Até que num dia de carnaval em 1969 encontrei aquela bandeirante bonitinha que havia retornado de estudos dos Estados Unidos. Ao me deparar com a galeguinha, senti um relâmpago no corpo que chegou ao fundo da alma, me apaixonei inesperadamente. Logo se cumpriu a premonição da ciranda cantada em seu ouvido. No dia 9 de janeiro de 1970 na Catedral Metropolitana de Maceió casei-me, feliz da vida, com Vânia.

A despedida de solteiro foi no Bar do Miltinho na praça 1º de maio, quando era do povo. Uma noitada maravilhosa e alegre. O bar se encheu de amigos, colegas da faculdade, empresários, militares, pescadores, políticos, amigas, até um padre. De repente chega Téo Vilela com uma Banda de Pífano, cantando: “A minha turma que bebe um pouquinho… no bar do Miltinho… até o sol raiar”.

Entrei na Catedral lotada pelos braços de Dona Zeca, fardado de Capitão. A Banda de Música do 20º BC tocou belas músicas durante a cerimônia elegante. Depois da cerimônia, ao sair da Igreja, os colegas do Exército fizeram a abóbada de aço com as espadas cruzando no ar, uma tradição no casamento militar.

Passaram-se 53 anos daquele casamento alegre, bem humorado. É preciso boa dose de amor e de tolerância para se passar 53 anos juntos. Nada é fácil, não houve céu de brigadeiro o tempo todo. Apareceram algumas turbulências e até rotas de colisão. Durante todo esse tempo nós construímos um belo patrimônio: três filhos e três netos, além de genro e nora.

Nesses anos de convivência tornei-me admirador dessa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia. Essa advogada passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudando e passou no concurso de Promotor de Justiça. Essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos e aos netos. Essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora. Essa mulher forte que não se deixa pisar. Essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular. E incentiva minhas loucas invencionices. Essa mulher animada que cai no passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval. Essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Barra de São Miguel, Paraty, Lisboa. Essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensinando aos netos, dando palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora. Essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes. Essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância e conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando essa bonita e última fase madura da vida.

Essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu Tenente, cantei pra ela: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Sou um homem privilegiado, a única pessoa no mundo que a conhece profundamente, sua gentileza, sua bondade, sua perseverança, sua força. Essa minha mulher-amante, foi e é a timoneira do barco de nossas vidas. Ela aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme durante os maremotos. Hoje navegamos apenas em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares, um porto final além do horizonte.

A inexorabilidade do tempo é fatal, qualquer dia desse eu parto para o além do horizonte. Quando eu não estiver mais a seu lado deixarei lembranças e quero que saiba que ela foi a razão do meu viver. Amar para mim, foi uma religião. Em seus beijos eu encontrei o calor e a paixão.

É uma história de um amor que me fez compreender todo o bem e todo o mal. Quando eu for embora, que se lembre de mim com alegria, cantando: “Já não estás mais a meu lado coração…”.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BOA SORTE EM 2023

Há pouco tempo enviei uma mensagem de ano novo aos amigos com frases humoradas e otimistas; algumas anônimas, outras minhas. Foi sucesso entre meus queridos leitores, que, numa brincadeira, inventaram outras frases e me enviaram. Neste ano resolvi repetir a mensagem adicionada por algumas frases remetidas, até do Chico Buarque. Segue a mensagem:

Amigo, no próximo ano:

Se existir guerra, que seja de travesseiro.
Se for pra prende, que seja o cabelo.
Se existir fome, que seja de amor.
Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó
Se for para esquentar, que seja no sol.
Se for para atacar, que seja pelas pontas.
Se for para enganar, que seja o estômago.
Se for para armar, que arme um circo.
Se for para chorar, que seja de alegria.
Se for para assaltar, que seja a geladeira.
Se for para mentir, que seja a idade.
Se for para algemar, que se algeme na cama.
Se for para roubar, que seja um beijo.
Se for para afogar, que afogue o ganso.
Se for para perder, que seja o medo.
Se for para brigar, que briguem as aranhas.
Se for para doer, que doa de saudade.
Se for para cair, que caia na gandaia.
Se for para morrer, que morra de amores.
Se for para violar, que viole um pinho.
Se for para tomar, que tome um vinho.
Se for para queimar, que queime um fumo.
Se for para garfar, que garfe um macarrone.
Se for para enforcar, que enforque a aula
Se for para ser feliz, que seja o tempo todo.

Recebi vários agradecimentos, entre eles um especial do meu querido escritor Ignácio Loyola Brandão, agora imortal da Academia Brasileira de Letras:

“Carlito, meu amigo.

Mandei para dezenas de pessoas seu texto de bom ano. Um sucesso sem precedentes. Maria Medeiros, atriz portuguesa que mora na França e é uma pessoa incrível, maravilhou-se. Mas a melhor resposta foi a do Chico Buarque. Ele agradeceu e complementou com um lado malicioso.

Se for pra cheirar que seja a flor.
Se for pra fumar que seja a cobra.
Se for pra picar que seja a mula.

Abraços. Ignácio”.

Pronto, agora sou parceiro de Chico Buarque em mensagem de ano novo.

Em 2023 não esqueçam esses recados para adocicar a vida.

Um excelente ano novo, cheio de esperança. Essa que nunca morre.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O NATAL QUE ME HABITA

Dezembro, férias de verão, as festas natalinas faziam a alegria da moçada na Praça Sinimbu ou Praça da Faculdade (Afrânio Jorge). Armavam-se rodas gigantes, barquinhos, tiro ao alvo, alguns palcos para folguedos natalinos rolando por toda noite. As mocinhas desfilavam na calçada em torno da praça enquanto os jovens de blusa gola roulê paqueravam as jovens que passavam num doce balanço a caminho de uma esperança de namorados. Um forte alto-falante anunciava produtos patrocinadores e enviava recado a CR$ 2,00 (dois cruzeiros). Num som gutural o locutor falava enfático: “Alô, alô, Aninha Amorim, você é a garota que mais brilha nessa festa; assinado, você já sabe!”. “Alô, alô menina do vestido de bolinha azul, estou lhe esperando atrás da Igreja às nove horas.”

Época dos namoros bem comportados no portão de casa ou nas festas de clubes descobrindo o prazer de dançar. Música suave excitante, blues e jazz americanos ou baião.

Nas festas de rua, construíam-se a Nau Catarineta, uma carcaça de navio de barro (taipa) no centro da praça, especialmente para dançar a Chegança; folguedo proveniente da Península Ibérica, auto de tema marinho contando as dificuldades da vida marítima, as tempestades, o contrabando, as brigas entre marujos e entre cristãos e mouros. Alguns personagens marcantes da Chegança: o Almirante, o Padre e o Cozinheiro.

Mané das Cachorras, pintor de parede, todo ano era brincante de Almirante na Chegança. A partir do dia 1º de dezembro até terminar a Festa de Rua na Praça Afrânio Jorge no dia de Reis, 6 de janeiro, ele vestia a farda de Almirante quando acordava, perambulava pelas ruas, se sentindo o próprio Almirante de Marinha. Só tirava a farda para dormir. À noite, depois de dançar o folguedo, quem quisesse encontrá-lo era só aparecer no Cabaré da Railda, estava ele fardado de Almirante junto a seu xodó, a Joaninha Boca de Fole.

Em outro palco havia a maior atração, o Pastoril, dança folclórica natalina formada por duas colunas de pastoras, cordão azul e cordão encarnado. As duas torcidas vibravam na plateia, maior competição. No final da Festa, era declarado o cordão campeão quem vendesse mais votos.

As pastoras, com fantasias singelas, saias rodadas, entravam cantando a primeira jornada: “Boa noite, meus senhores todos… Boa noite, senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… que alegremente vamos a Belém…” A primeira pastora do encarnado era a Mestra; a primeira pastora do azul, a Contra Mestra. Entre as duas, a Diana, fantasiada de azul e encarnado cantava batendo no seu pequeno pandeiro: “Sou a Diana… Não tenho partido… O meu partido são os dois cordões…”

Nós jovens, na puberdade, nos intervalos entre as jornadas, chamávamos em cena uma pastora, alguma bonitinha, já moça feita. Ela entrava dançando ao som da música. No palco, colocávamos uma cédula com alfinete, como quem prega uma medalha. Nós gritávamos de emoção: “Viva o cordão encarnado!”, descíamos felizes da vida, excitados, sentindo ainda a jovem em sua mão.

Existe uma enorme diversidade de folguedos natalinos em Alagoas. O professor, pesquisador Théo Brandão, catalogou 36 tipos de grupos folclóricos. Guerreiro, Reisado, Boi, Coco de roda, Baiana, Taieira, Nega da Costa, Pagode, Fandango, Maracatu, entre outros.

Por tudo isso, dezembro me encanta, alguns acham o natal triste, ao contrário, meu natal é alegre, festivo. No mês de dezembro minha casa é decorada com um tema folclórico, inclusive a árvore de natal. Esse ano, o tema é o Reisado, auto popular, formado por grupos de brincantes fantasiados, músicos, cantores que vão de porta em porta, anunciar a chegada do Messias, homenagear os três Reis Magos e fazer louvação aos donos das casas onde dançam, em troca de bebida e comida.

Tornou-se tradicional o café em minha casa na manhã do 24 de dezembro oferecido aos parentes e alguns amigos. Café nordestino com muita poesia, música, depoimentos, orações, dança o guerreiro a alegria reina nos abraços, beijos, gentilezas. Meu natal é o dezembro, é o verão que me habita.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS COPAS QUE ASSISTI (II)

Copa de 1970 – México – É campeão! É tricampeão! Foram esses os gritos que se libertavam da garganta de todo o país. O Brasil ganhou da Itália por 4 a 1 e conquistava pela terceira vez a Copa do Mundo FIFA, no Estádio Azteca, Cidade do México.

Com a conquista, o Brasil encerrou uma campanha de seis vitórias em seis jogos, tornando-se a primeira equipe a ter 100% de aproveitamento nas Eliminatórias e na Copa do Mundo. Além disso, também foi o primeiro time a chegar ao tricampeonato mundial, fato que lhe garantiu a posse definitiva da taça Jules Rimet.

Com todos os jogadores disponíveis para a partida, Zagallo levou a campo o que tinha de melhor para a Seleção. A escalação foi a que mais se repetiu durante o Mundial, com o time-base formado por: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Pelé, Rivellino e Tostão. Final contra a Itália 4 x 1 Para muitos, essa foi a melhor Seleção de todos os tempos.

Jairzinho terminou o Mundial como vice artilheiro, com sete gols, e se tornou o primeiro campeão a marcar em todos os seis jogos da seleção. Pelé voltou a marcar em uma final de Copa do Mundo e se tornou o único jogador três vezes campeão mundial da história. O Rei ainda terminou a competição com seis assistências, um recorde até hoje em passes para gol na mesma edição de um Mundial.

Copa do Mundo de 1974 na Alemanha – Revelou a “Laranja Mecânica”. A equipe da Holanda recebeu o apelido pela cor do uniforme e pela aparente troca de posições dos jogadores em campo que lembrava um carrossel. Mais uma vez a melhor seleção não venceu. Assim como em 54, os alemães ocidentais chegaram a final jogando por resultados para evitar adversários mais fortes. As vitórias convincentes da equipe de Cruyff não foram suficientes para suportar a torcida e a eficiência da Alemanha de Beckenbauer. A seleção brasileira marcou menos de um gol por partida e perdeu a disputa de terceiro lugar para a Polônia.

Copa do Mundo 1978 – Argentina – Com técnico Coutinho à frente, a equipe não teve problemas para se classificar. Venceu quatro e empatou um dos jogos restantes, marcando 17 gols e sofrendo apenas 1. O Brasil viajou para a Argentina com uma equipe cheia de craques – do goleiro Leão – um dos melhores do mundo – ao craque Zico e ao artilheiro Roberto Dinamite. No entanto, a seleção estava prejudicada por diversas contusões e pela falta de conjunto. Na primeira fase, estreou com um 1 a 1 diante da Suécia (gol de Reinaldo), ficou no 0 a 0 com a Espanha e, precisando derrotar a Áustria para se classificar, venceu apenas por 1 a 0. Na fase semifinal, o desempenho brasileiro melhorou sensivelmente. Já era outro time contra o Peru, jogo que venceu por 3 a 0, com gols de Zico e Dirceu (dois). O confronto seguinte foi o mais difícil do Brasil na Copa, contra a arquirrival Argentina. Disputada e violenta, a partida ficou no 0 a 0. Apesar dos bons resultados, o Brasil não se classificou para a decisão. A Argentina fez 6 a 0 no Peru (em jogo que ficou sob a suspeita de ter sido “arranjado”) e ficou com a vaga graças ao saldo de gols. O técnico Cláudio Coutinho, então, cunhou uma expressão que até hoje serve para definir o desempenho brasileiro naquele mundial: “somos os campeões morais”, disse, em referência à controversa e inesperada goleada sofrida pelo Peru diante da Argentina.

Copa do Mundo 1982 – Espanha – A Seleção venceu seus três jogos na primeira fase: 2 a 1 na União Soviética (gols de Sócrates e Éder), 4 a 1 na Escócia (Zico, Oscar, Éder e Falcão) e 4 a 0 na Nova Zelândia (Zico, duas vezes, Falcão e Serginho Chulapa). No triangular da segunda fase, o Brasil passou bem pela Argentina, com vitória por 3 a 1, gols de Zico, Serginho Chulapa e Junior, mas depois perdeu por 3 a 2 para a Itália, com três gols de Paolo Rossi – Sócrates e Falcão fizeram para a equipe verde-amarela. Aquilo que os brasileiros chamam de “Tragédia do Sarriá” foi o jogo mais marcante da Copa do Mundo de 1982. A Itália, com três gols de Paolo Rossi, venceu o Brasil por 3 a 2 e conseguiu um lugar nas semifinais. A Itália foi a campeã. Muitos consideram a equipe do Brasil de 1982, a melhor seleção de futebol de todos os tempos. Deu azar.

Continua na próxima coluna…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS COPAS QUE ASSISTI

Time da Hungria 1954

Sou um curtidor, um apaixonado por Copa do Mundo. Amo essa época de expectativas, de especulações, enfim, dos jogos do Brasil. Não perco um jogo desde criança, seja ouvindo rádio ou assistindo televisão. Jamais compareci a uma Copa ao vivo, no estádio. Tenho lembranças, muitas. Aqui rabisco o que vem rápido à memória, sem muito esforço, histórias das Copas que assisti.

COPA 1950 no Brasil – Menino, 10 anos, eu morava na Avenida da Paz em Maceió. Fiquei fascinado com as tabelas dos jogos que me chegavam às mãos. Acompanhei pelo rádio os jogos do Brasil. Depois das fases iniciais, sobraram quatro times para o quadrangular final. O Brasil bateu de 7 x 1 na Suécia; 6 x 1 na Espanha, ouvindo o Maracanã em peso cantar: “Eu fui às touradas em Madri… E quase não volto mais aqui… Pra ver Peri beijar Ceci…” Finalmente o jogo Brasil x Uruguai, bastava o empate. O Brasil fez o primeiro gol, toda a nação comemorava, eis que de repente apareceu um líder dentro de campo, Obdúlio Varela comandou a virada. Final: Uruguai campeão 2 x 1. Chorei muito, naquela noite não consegui dormir, foi uma punhalada em um menino de 10 anos. O Brasil, 72 anos depois, ainda chora 1950.

COPA 1954 na Suíça – Jovem estudioso, adolescente de 14 anos, toda tarde depois do colégio, recolhia-me a uma puxada no quintal de minha casa. Aquele canto era meu mundo, minhas fantasias. Guardava ou colava na parede recortes de jornais e da Revista do Esporte e de mulheres seminuas. Torcedor do Fluminense, eu acompanhava o time que deu três grandes jogadores para seleção de 1954, Castilho (goleiro), Veludo (goleiro) e Pinheiro. Os jornais traziam reportagens sobre o grande futebol da seleção húngara. Durante a preparação para Copa de 1954, a Hungria massacrava os adversários de 7 x 1 aos 12 x 0. Eram Puskas e Kocsis os donos do mundo. O Brasil teve o azar de pegar a Hungria nas quartas de final, foi derrotado por 4 x 2, voltou para casa. O jogo de decisão foi Hungria x Alemanha. Deu-se o Milagre de Berna. Depois de estar perdendo por 2 x 0, a Alemanha virou, foi a campeã (a Hungria havia ganhado da mesma Alemanha por 8 x3). Recortei da Revista do Esporte uma foto do time alemão, os onze jogadores em pé ao lado do outro, preguei na parede.

COPA 1958 na Suécia – Nesse ano eu cursava a Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Fortaleza, um jovem bonito e charmoso em meus 18 anos. Primeiro jogo, Brasil x Áustria, bebericamos cuba libre na calçada de um amigo ouvindo o rádio gritei, vibrei nos gols do Brasil: 3 x 0. Com a alegria de jovem cadete dancei, bebi, me esbaldei, comemorei a grande vitória no Clube Maguary de Fortaleza. Durante a segunda partida Brasil x Inglaterra meu pelotão fazia exercícios militares em marcha pelas ruas da cidade, ouvi o jogo num rádio portátil dentro da mochila, deu empate 0 x 0. No jogo Brasil x União Soviética desbancamos o futebol científico alardeado pelos comunistas, eles eram favoritos da Copa de 1958. Foi quando estrearam juntos: Garrincha e Pelé no lugar de Dida e Joel. Deu 2 x 0 com uma linda e estonteante exibição de futebol. Desse jogo em diante Pelé reinou: 1 x 0 no País de Gales, 5 x 2 na França e finalmente 5 x 2 na Suécia. A dona da casa aplaudiu em pé. Pela primeira vez Brasil campeão do mundo. Nelson Rodrigues escrevia: “Acabou-se nosso complexo de vira-lata.”

COPA 1962 no Chile – Eu morava na Bahia, era tenente do Exército formado recente na Academia Militar das Agulhas Negras, 22 anos, acompanhei as vitórias e os dramas do Brasil num rádio do quartel do 19° Batalhão de Caçadores em Salvador. Após o jogo final foi uma só comemoração pelas ruas estreitas da cidade com o amigo Ângelo Roberto, o maior pintor bico de pena da Bahia. Pela manhã da segunda-feira, durante a formatura matinal do Batalhão, ainda ouvia os gritos e os cantos de Bi Campeão. Foi usado pela primeira vez o vídeo – tape. Na noite após os jogos, mais outra rodada de cerveja assistindo o jogo pela televisão.

COPA 1966 na Inglaterra – Nessa época, 26 anos, eu, tenente do Exército Brasileiro comandava um Pelotão de Fronteiras da Amazônia, fronteira do Brasil de Roraima com Venezuela e Guiana Inglesa. Onde morei dois anos conhecendo de perto nossa exuberante e riquíssima Amazônia, um período importante e feliz de minha vida, mesmo cheio de problemas políticos e existenciais. O Brasil era favorito, com Garrincha e Pelé a seleção era considerada imbatível. Os cartolas começaram a perder a copa fora do campo. Para valorizar os jogadores brasileiros, em vez de 22, foram convocados 44 jogadores. Uma esculhambação dos dirigentes. Resultado, sem organização, o Brasil não passou da fase classificatória. Ganhou a primeira 3 x 1 da Bulgária, perdeu 3 x 1 da Hungria e a última deu Portugal 3 x 1. Classificado Portugal, Euzébio era novo rei da bola. Torci por Portugal, mas deu Inglaterra na final.

Continua na próxima coluna…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O PATINHO FEIO

Leninha, adolescente, rosto magro, rosado e sardento. Sorriso constante nos lábios. Olhos oblíquos, castanhos, vivos, não ficavam parados. Olhos de criança trelosa, de menina alegre e feliz. Gostava de jogar ximbra, pião, rouba-bandeira. Corria como ninguém. Era a sapeca do bairro de Fernão Velho. Subia em amendoeiras, jaqueiras, nas goiabeiras da redondeza. Parecia estar sempre correndo. Na lagoa, dentro de um maiô apertado, era a líder das meninas, embora gostasse mesmo era de jogar futebol com os meninos. Dentro d’água, ninguém batia, era a mais veloz. Deixava meninas e meninos para trás com suas braçadas contínuas e rápidas. Todos no bairro gostavam daquela diabinha travessa que vivia para brincar, correr e sorrir.

Certa vez pediu para a mãe ajudar no vestir. Queria ficar bonita, estava ficando uma moça, com seios crescidos. Fora convidada para uma festa muito especial.

Rômulo, um rapaz da vizinhança havia passado no vestibular do Instituto Tecnológico da Aeronáutica em São Paulo, exame difícil. Um sonho de todos os jovens daquela época. A família de Rômulo resolveu dar uma festa de despedida em sua bela casa.

Festa histórica. Compareceram todos os vizinhos, familiares, amigos, comemorando o feito de Rômulo. Tocou a “Jazz-band” do brioso 20º Batalhão de Caçadores. A animação, apesar da despedida, foi o ponto alto. Todos se divertiram, beberam, brincaram, comemoraram até o dia amanhecer.

Leninha com um vestido rodado branco bem cintado, se policiava, freando a vontade de correr, de fazer bagunça naquele casarão. Queria parecer uma moça madura, se continha.

Ela tinha uma paixão infantil-adolescente por Rômulo há muito tempo. Quando estavam na lagoa, corria sempre em sua direção para ser notada. Rômulo nem se dava conta de perceber aquela menina. Às vezes em alguma brincadeira ele, em tom de gozação, chamava-a de menina serelepe. Leninha ficava fula de raiva. Mas a paixão não se pode evitar, coisas do coração.

Em seus devaneios românticos, nos intervalos de suas estripulias, ela sonhava ser uma artista de cinema: Rômulo lhe abraçando dizendo que lhe amava e eram felizes para sempre. Sonhos juvenis.

No dia da festa ela se fez bonita, mas sua estampa de menina magra e desajeitada, não ajudava.

Em certo momento Rômulo chamou Leninha. Ela veio toda frajola. Ele apresentou um menino de 12 ou 13 anos:

– Esse meu primo quer brincar, como você é a serelepe daqui, vá brincar de pega com ele.

Ela não aguentou. Aquilo era uma humilhação. Retrucou na hora.

– Não sou serelepe, nem menina. Já sou uma moça e não vou brincar com esse pivete não.

Rômulo gozou Leninha, chegando à ofensa:

– Você é menina sim. Ainda não tirou o mijo das calçolas. Sua Bostinha!!!

– Leninha ficou uma fera, a raiva subiu para cabeça, gritou:

– Vá para o inferno, Bostinha é sua mãe. Quero que você caia de um avião e morra!!!

Leninha partiu correndo. Com lágrimas contidas chegou em casa. Sua mãe notou que ela voltava cedo, perguntou o que havia acontecido. Ela simplesmente deu boa-noite, foi para seu quarto. Só adormeceu quando o dia clareou. Chorou toda noite ouvindo as músicas da festa, pensando na grossura e na saudade de Rômulo que embarcava naquela manhã para São José dos Campos.

O ano custou a passar. O tempo só é rápido quando existem divertimentos, alegrias e felicidades. Para Rômulo foi difícil. Ano de muito estudo, muita ralação, muita luta. Com notas razoáveis ele passou em primeira época. Retornou a Maceió de férias, no final de dezembro.

Houve festa em sua chegada. Seus pais convidaram os amigos e vizinhos. Muita bebida e comida. Rômulo feliz da vida em estar com sua bela família e ser o alvo da atenção de tantos amigos.

De repente Rômulo notou ao longe uma bela mulher. Estava de costas, o rosto aparecia de lado, seu perfil lhe era familiar. Bela jovem. Chamou sua irmã e perguntou quem era a distinta de vestido branco. Rose deu uma gargalhada perguntando se tinha certeza que não conhecia. Ela dirigiu-se até a jovem misteriosa, cochichou alguma coisa no ouvido e veio conduzindo pelo braço a menina-moça. Quando Rômulo a viu de frente e de perto se encantou. O coração bateu forte como nunca havia batido por ninguém. Rose apresentou sorrindo.

– Quero que conheça minha amiga.

Encantado olhando nos penetrantes e ternos olhos da jovem, ele estendeu a mão, falando com brandura:

– Prazer, Rômulo.

A jovem apertou sua mão gentilmente e respondeu sorrindo:

– Muito prazer, Bostinha!!!!

Só nesse momento Rômulo reconheceu e compreendeu que era Leninha, sua vizinha, a menina sardenta serelepe. O patinho feio havia se transformado em uma linda cisne branca.

Passaram o resto da noite conversando. No final da semana os dois estavam namorando de mãos dadas na praça de Fernão Velho. Era o início da mais bonita paixão naquelas férias de verão, tendo o sol, o céu e a lagoa como testemunha.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O BOM PEDREIRO

O fato se deu há algum tempo. Na época eu era engenheiro de uma Construtora, estávamos construindo um hotel na praia de Ponta Verde. Todo sábado, depois de um giro nas obras, pagamento de funcionário, nos juntávamos a bons amigos para uma cerveja de início de fim-de-semana. Certa vez sentado à mesa do Bar do Alípio na Lagoa com amigos, a bebida e comida rolando, quando apareceu o Mestre de Obra apavorado. Acontecera um acidente de trabalho grave. Um pedreiro, realizando trabalho extra, caiu do quinto andar, o seu corpo durante a queda se chocou com andaimes, caixotes de papelão e um monte de areia, o que minimizou o impacto da queda. O pedreiro estava no Pronto Socorro em observação. Imediatamente, me dirigi ao Hospital.

Levaram-me ao acidentado na enfermaria de acidentados. Pedro, excelente pedreiro, deitado numa cama com partes do corpo enfaixada. O médico informou que, milagrosamente ele estava fora de perigo, porém havia um problema, uma sequela da queda. Pedro ao cair no chão bateu com a cabeça, o que causou priapismo. Ignorante, perguntei o que vinha a ser priapismo. O médico explicou ser uma ereção contínua e persistente do pênis, sem necessariamente sentir desejo sexual. Desde que chegou ao hospital não houve possibilidade de murchar. Já havia colocado água fria, álcool, éter; e o pênis continuava indefectivelmente duro.

Depois de prestar assistências burocráticas, retornei imediatamente ao Bar do Alípio contando aos amigos o inusitado ocorrido e as providências tomadas. O assunto do restante da tarde foi o priapismo. Teve um coroa com ideia de se jogar lá do quinto andar na tentativa de revigorar seus apetrechos.

Na segunda-feira um jornal deu a notícia: “Pedreiro cai do quinto andar e se salvou milagrosamente graças a um monte de areia, entretanto, causou uma sequela pouco comum, o priapismo”. O jornalista narrou com detalhes o significado, e que nada havia baixado nas últimas 48 horas. O médico previu no mínimo trinta dias de cama e necessitava ficar em algum hospital particular. Assim Pedro foi transferido para uma Casa de Saúde. A partir desse dia, não houve mais sossego para Pedro. Foi visitado por curiosos, por pessoas interessadas em estudar o fenômeno. Uma turma de estudantes de medicina acompanhou o caso diariamente. Algumas meninas foram de tamanha dedicação que davam plantão à noite. Havia uma espontânea compaixão por aquele doente. Algumas visitas voluntárias, com sacrifício, até dormiam como acompanhante, numa mostra de solidariedade humana.

Os dias passaram. Pedro foi se recuperando dos ossos quebrados, mas o priapismo continuava desafiando a medicina. O “pênis-erectus” permanecia.

Contrataram algumas meninas da Boate Areia Branca do famoso Mossoró. Várias tentativas aconteceram e nada de amolecer. Pedro já se sentia incomodado, mesmo com tanta gente caritativa tentando baixar seu desconforto.

Depois de 17 dias de ininterrupta rijeza, alguém se lembrou de Dolores, respeitada mãe-de-santo, quando jovem trabalhou nas boates de Jaraguá. Ficou muito conhecida dos boêmios pelos seus dotes e serviços completos. Sábia, sem nunca ter lido o Kama-Sutra, fazia um “frango-assado” como ninguém, era mestra. Escondido dos médicos, amigos levaram Dolores. Ela trancou-se com Pedro no apartamento, levou ramos e óleos. Quarenta minutos se passaram quando se ouviu um barulho, baque de um corpo no chão. Os amigos bateram à porta, gritando afobados.

Dolores Sierra abriu a porta e saiu toda faceira, como uma rainha, sorria maravilhosamente, cara desavergonhada. Dentro do quarto, Pedro deitado no chão, olhando a parte afetada, comemorava: “Consegui, consegui. Viva Dolores!”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU PRIMO CUCA

Alberto Lima (Cuca) e Paulo Ramalho, dois meninos da Avenida da Paz, duas saudades imensas.

Beth, Sofia e Gina eram três jovens bonitas, seus nomes foram homenagens às artistas de cinema: Elizabeth Taylor, Sofia Loren e Gina Lolobrígida. As moças não perdiam em beleza para as três celebridades da época. Sua família morava em Jaraguá perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Quando elas, sempre juntas, de biquíni, desciam à praia da Avenida da Paz, nós, mancebos maloqueiros, interrompíamos o futebol, a bola parava para apreciar a entrada triunfal daquelas magníficas moças, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam na sua intenção, como diria Martinho da Vila em seu samba.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho; alto, forte, sua musculatura mantida por contínuos exercícios contrastava com o cérebro do rapaz, do tamanho de uma ervilha. Tucão era conhecido por sua valentia, aliás, por suas brigas. Era o maior arruaceiro do bairro e da zona das putas em Jaraguá. Certa vez brigou com quatro policiais, foi preso, espancado. Passou a detestar qualquer tipo de polícia. Contudo, Tucão tinha um sentimento nobre: o afeto pelas irmãs. De um ciúme doentio, partia para briga quando o chamavam de cunhado ou qualquer comentário que suas irmãs eram “boas”.

Certa vez, meu querido e saudoso primo, Alberto Lima – Cuca se encantou com a mais nova das irmãs e engrenou um namoro com Gina. Namoro casto, como era naquela época, mão na mão, em vez em quando um beijinho. Sempre com a fiscalização ostensiva de Tucão.

Certa noite, depois do namoro comportado com Gina, Cuca ao passar dirigindo devagar pelo Beco Vitória, avistou Julieta, jovem destrambelhada, conhecida como “sabãozeira”, isto é, gostava de uma boa sacanagem, sorriu descaradamente para Cuca que prontamente parou o jipe e ela sentou-se a seu lado, Foram para numa sessão de amor enlevado pela brisa marinha por trás do Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Cuca estava feliz, toda noite namorava de beijinhos com sua amada Gina, depois pegava Julieta no jipe faziam amor sob o carinho da brisa.

Certa noite Beth, a cunhada, percebeu quando Cuca apanhou Julieta no jipe para mais uma sessão de exercícios libidinosos. Na noite seguinte quando ele encostou à casa de Gina, ela estava uma fera, namoro acabado, não admitia ser trocada por uma vagabunda. Nesse momento apareceu Tucão arregaçando as mangas da camisa, cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Cuca na hora tomou um susto, brigar com Tucão, era apanhar na certa, levaria uma surra histórica. Com presença de espírito, ele convidou Tucão para tomar uma bebida e conversar. Beber de graça era tentação irresistível para o arruaceiro. Foram para um bar por perto, serviram cerveja, pinga e tira-gosto. Cuca explicou que Julieta era só para sacanagem, ele gostava mesmo de Gina, namoro para casamento e coisa e tal, no campo da astúcia Cuca ganhava tranquilo do mastodonte.

Aconteceu uma noitada de muita bebida, passaram por bares diferentes. Tucão, aonde chegava, provocava alguém, a sorte é que os provocados tiravam o corpo fora.

Noite adentro e Tucão na maior amizade com Cuca, chamando-o de cunhado. Em certo momento ele inventou de ir à zona das quengas. Cuca esperando que a noitada terminasse, acabou concordando. Partiram rumo à Jaraguá. Ao passar no final da Avenida da Paz, de repente Tucão, bêbado, pediu para parar o jipe e saltou, dirigiu-se a dois policiais, uma dupla de Cosme e Damião que fazia ronda. Cuca não acreditou quando assistiu Tucão se aproximar dos soldados e desfechar um murro em cada soldado, deixando-os no chão, ainda deu ponta pé, recolheu dois capacetes e correu para o jipe. Cuca assustado deu partida e por insistência parou e subiram à Boate Tabariz. Sentados à mesa Tucão colocou o capacete em sua cabeça e colocou o outro na cabeça de Cuca. Pediram cachaça e duas raparigas. Depois da primeira dose Cuca conseguiu tirar o capacete, colocou-o embaixo na mesa, estava apreensivo com aquela loucura do “cunhado”.

Certa hora Cuca foi ao sanitário. Ao retornar percebeu a confusão. Oito policiais xingando e batendo em Tucão, seguro por trás. Cuca saiu do banheiro de fininho, sem ser percebido, desceu a escada íngreme de um salto. Teve sorte, não havia policial no jipe. Deu a partida e chegou em sua casa na Avenida da Paz, aliviado.

No dia seguinte, soube do acontecido por amigos. Tucão brigou com os oitos policiais, levou muita porrada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para 2ª Delegacia, onde lhe deram uma surra inesquecível.

Meu saudoso primo Cuca esqueceu a bela Gina, por muito tempo ficou sem passar perto da casa da jovem nos arredores da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Evitou pelo resto da vida encontrar-se com Tucão, seu cunhado. Porém, lhe sobrou a fogosa, serelepe, Julieta, continuaram refrescando-se pela brisa do mar por trás do Posto de Salvamento na praia do Sobral.