CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HAVIA BALÕES NO AR

Ele chegava alegre com dois ou três pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala da imensa varanda de minha casa contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. Ele sentia prazer, satisfação ao distribuir os fogos para os filhos. Aos menores cabiam: traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos: foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas e peidos de veia, e o melhor os vulcões. Perto de escurecer dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente a minha casa. Jogava álcool por cima, tocava fogo com um fósforo. O fogaréu começava, a fogueira chispando faísca, iluminava a rua. Os adultos sentados nas cadeiras na calçada, conversava, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja e olhavam a meninada correr e soltar seus fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava: A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão… Dança Joaquim com Zabé, Luiz com Yaiá… Dança Janjão com Raquer e eu com Sinhá…Traz a cachaça Mané! Eu quero ver, quero ver paia avoar…

Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos uma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que iria casar a moça que deixava pingar a vela. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiava no tronco de uma bananeira no dia seguinte puxava a faca marcada, manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular juntos as brasas, um de cada lado, e ser “compadre” para o resto da vida. Um dos momentos mais esperados era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enorme faíscas com pontos coloridos.

Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava um mês antes, com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comandando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos da dança em francês: “Em avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos treinos, a paquera era maravilhosa até o final depois de várias noites ensaios no salão do Iate iniciavam namoros entre os componentes da quadrilha, muitas vezes o próprio par. Afinal a noite de glória a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a plateia do maior teatro do mundo. Enchíamos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam o enorme salão cheio de mesas.

No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa reservada era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocava a noite toda. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara. Quando terminava a animada festa, nós, meninos moradores da Avenida da Paz, vínhamos andando e cantando ainda com energia de jovem cheio de hormônios, geralmente de mãos dadas com a namorada da vez. Abraçados, um beijo roubado, cantando pela noite iluminada pelos postes da luz boêmia: “Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa… Porque era noite de São João… Havia balões no ar… Xote, baião no salão… E no terreiro o teu olhar… Que incendiou meu coração…” A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes aparecia a chuva, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o dia amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado pelo sol nascente com a roupa e tudo que tivesse no corpo. Alegres, cansados, cada qual partia, molhado para sua casa. Era a despedida, acabava as festas juninas tão amadas e tão esperadas durante o ano inteiro.

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O DOQUE DE JARAGÚA

No final do século XIX os ricos comerciantes de Maceió construíram casarões avarandados em frente aos trapiches da praia do aterro em Jaraguá. Fachada com dois andares, ornamentadas com varandas, balaustradas em ferro batido, desenhos arabescos, moderno estilo arquitetônico europeu. Esses casarões serviam para moradias e estabelecimentos comerciais e tomava quase toda a Rua Sá e Albuquerque.

A enseada de Jaraguá por ser um local adequado, um ancoradouro natural, foi contemplada com uma ponte de embarque de navios e barcaças, além dos trapiches existentes mar adentro que também serviam à exportação do açúcar fabricado pelos engenhos daquela época.

A Ponte de Jaraguá estimulou o movimento comercial da região, e houve um desenvolvimento urbano efervescente no bairro e na cidade. Foi o argumento decisivo para transferência da capital da cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro) para Maceió.

Cais, porto, ancoradouro, ponte de embarque, navios e marinheiros atraem biroscas, bares e cabarés. A região comercial de Jaraguá transformou-se em ponto boêmio. Os moradores dos casarões, famílias das mais distintas e conservadoras se mudaram para outros bairros, abandonando as belas moradias para o comercio pela manhã e a boemia durante a noite.

Os casarões transformaram-se em casas noturnas. Boates ocuparam os patamares superiores, enquanto no térreo conservaram as empresas de negócios, de exportação.

Esses lupanares abrigavam mulheres refinadas. Selecionavam as mais bonitas para os grandes comerciantes, políticos e barões. Jovens de serventia foram importadas da Europa, França, Bahia e do sertão nordestino.

Essas raparigas passaram mais de 60 anos nos casarões, trabalhando com o suor de seu corpo. Fazendo a vida na mais velha das profissões. Ao mesmo tempo, involuntariamente, conservaram suas moradas, seus pontos de trabalho, os casarões do bairro de Jaraguá.

Para homenagear as moças que preservaram e legaram para outras gerações os casarões de Jaraguá, alguns boêmios da cidade resolveram afixar o MEMORIAL À RAPARIGA DESCONHECIDA em um beco do bairro, conhecido pelo intenso movimento noturno de Beco das Raparigas, perpetuando o agradecimento dos boêmios e dos artistas que amam aqueles casarões. Gesto merecedor e reparador.

Em minha juventude fui um curioso frequentador daqueles cabarés, mesmo que, só para tomar uma cerveja ou ouvir música dos conjuntos tocando para clientes se divertirem. Com as jovens aprendi a dançar bolero, mambo, tango, rock and roll.

Os nomes das casas eram expressivos: Alhambra, Tabariz, Night and Day. Nas ruas circulares ficava a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada pela população pobre. Duque de Caxias e o Verde eram os “randevus” mais conhecidos da ZBM.

Quando os bairros nobres de Pajuçara, Ponta Verde se tornaram mais habitados pela burguesia, houve uma forte pressão das madames para tirar a zona de Jaraguá. Sentiam-se incomodadas. Ao se deslocarem até ao centro, inevitavelmente passavam pelo corredor de prostíbulos.

Em 1969 o Secretário de Segurança Pública mandou transferir todos os cabarés de Jaraguá para região do Canaã no Tabuleiro dos Martins.

A partir desse momento alguns casarões de Jaraguá foram demolidos pelas imobiliárias e construtoras. Construíram prédios de gostos duvidosos: BRADESCO, COMISPLAN.

Um grupo de intelectuais e artistas liderados por Ênio Lins, Pierre Chalita e Solange Lages, se movimentou e conseguiu o tombamento do bairro de Jaraguá.
Não fosse esse movimento da comunidade artística, nada mais restaria dos casarões. O que as raparigas conservaram por mais de 60 anos, estava para ser derrubado em poucos meses.

Hoje, o bairro de Jaraguá está restaurado. Mas, falta um projeto para um movimento noturno que atraia os turistas e nativos. E a Prefeitura está sensível em transformar o bairro em uma grande atração turística cultural. Iniciou recentemente uma intervenção urbana no Beco das Raparigas, com bancos, fontes luminosas, um local agradável para uma boa conversa.

Por conta dos velhos tempos, por participar na recuperação do velho bairro boêmio, a Liga de Blocos Carnavalescos de Maceió, comandada por Edberto Ticianeli, conferiu-me o título de DUQUE DE JARAGUÁ. O qual uso em meus escritos, em minha identidade. O diploma de Duque fica visível na parede de minha sala, homenagem ao bairro onde nasci e me criei.

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MENINOS DA AVENIDA II

Nós meninos da Avenida, quase da mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do Riacho, jogávamos a tarrafa aberta que enchia de tainhas. E o siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, se prestava à vivência, ao “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía, beliscava a isca e fechava a arapuca. Uma vibração, uma felicidade, quando a gente via a lata com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo do gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz se transformava em palco e campo de jogos. Correr brincando “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito meninos (as), no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e trazer a bandeira fincada para o nosso campo sem ser tocado pelo adversário. Quando alguém era tocado pelo adversário tinha que parar ficar imóvel até um amigo vir e tocar de novo, “soltar” o amigo. Ganhava quem trouxesse primeiro a bandeira do adversário pro seu campo. Jogo de astúcia e velocidade.

Havia outros jogos como ximbra (bola de gude), pião, o vitorioso tinha direito de, com o próprio pião amarrado com a enfieira, tentar com a ponta quebrar o casco do pião adversário. Na época o filme O Cangaceiro fazia sucesso e a Vanja Orico cantava o sucesso: “O meu pião é feito de goiabeira… ele só roda com a ponteira… na palma de minha mão… dança morena. no meio desse salão…requebrando o corpo todo… no ronco desse pião.”

Nosso paraíso não era apenas a praia. Nossos pais gostavam de passear nas lagoas. Embarcávamos numa enorme canoa navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco. A meninada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa e na popa. O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrons, como se fossem manchas. Nós ficávamos extasiados, embevecidos com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Enfiávamos a mão dentro da lagoa, deixando a ser acariciada pela água corrente. Tio Béu cantava alto as emboladas e nós acompanhávamos: “Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” A moçada fazia o coro: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola, mergulhando nas águas limpas da lagoa.

Frequentávamos o Clube Fênix Alagoana, onde a elite de Maceió se divertia. Nas noites das segundas-feiras havia cinema no salão nobre numa tela adaptada. Final da fita, nos bancos da Avenida, comentávamos sobre os bons filmes que assistíamos na Fênix. Geralmente filmes de cowboy, Rio Vermelho, com John Wayne, inesquecível. No centro da cidade havia o Cine Arte (São Luiz) quase sempre assistíamos a matiné, depois descíamos caminhando à Avenida da Paz, passando junto ao Arcebispado tomávamos um divino suco de maracujá com pão doce.

Final do ano chegavam as férias, os meninos que estudavam fora retornavam para a vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, tínhamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite ficávamos nos bancos da Avenida ou saíamos à cata de namoradas, nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente. A turma dos meninos da Avenida dos anos 50 foi se dispersou no tempo e no espaço. Hoje somos oitentões alegres ou um retrato na parede, cheio de saudade.

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OS MENINOS DA AVENIDA I

Coreto da Avenida da Paz

Puxando a mais antiga memória, meu pai me levando à praia com um filho na corcunda e outro pelas mãos. Corríamos e mergulhávamos no mar tranquilo com pequenas marolas de águas cristalinas. Os moradores da Avenida da Paz eram amigos, uma irmandade. Da infância tenho gravadas as retretas da Banda do Exército no coreto da Avenida, concerto às quartas-feiras. Nós, meninos, ficávamos calados, encantados ouvindo as músicas clássicas e populares, depois começava a algazarra. Todas as noites os adultos colocavam cadeiras na calçada, tomar fresca e falar da vida do povo, enquanto nós meninos, bem comportados, sentados no chão em torno de uma tia, ouvíamos histórias de trancoso aguçando nossa imaginação. Maceió era uma festa.

Os moradores da Avenida da Paz faziam parte da elite econômica e social da cidade. Porém, nós jovens éramos democratas em nossas amizades, os donos da praia, podia ser preto ou branco, pobre ou rico, moradores de todos os bairros. Nossa escala de valores era jogar bem futebol, nadar até alto mar, contar histórias picantes, ser amigo bem humorado e presepeiro. Gerson, negrinho, filho da lavadeira, era admirado pela turma por sua destreza como goleiro e suas histórias safadas contadas com graça. Um líder.

O futebol na areia era o jogo predileto. Começávamos jogando Zorra (Linha de Passe). Quando havia jogadores suficientes, dois capitães escolhidos na hora tiravam o par ou ímpar e cada qual escolhia os jogadores alternadamente, as equipes se equilibravam. O campo era a areia da praia, as traves duas estacas enfincadas no chão, não havia camisa, nem juiz, nem falta, nem impedimento, nem VAR. A bola rolava, na hora do gol corria para o abraço.

Geralmente havia empurrões e briga, fazíamos as pazes depois do jogo. Se o jogo era na parte da manhã, ao acabar, mergulhávamos no mar de água transparente, nadávamos até as casas parecerem pequeninhas, às vezes ajudávamos a puxar as redes dos pescadores, o arrastão. Quando a pelada era à tarde, jogávamos até escurecer; em noite de lua, só terminava a partida com o Gol da Lua, o primeiro gol depois da lua aparecer.

No início da enseada da Avenida da Paz havia alguns trapiches. Uma espécie de cais fincado com palafitas de troncos grossos, estendendo-se mar adentro. Na extremidade do mar, havia um galpão de madeira, coberto com telhados de zinco, um trapiche, armazém de mercadorias. Quando a maré estava cheia, nós, maloqueiros da Avenida, nadávamos até o galpão, subíamos pelas palafitas ao telhado de zinco quente, onde havia uma deslumbrante vista da enseada da Avenida.

De cima do zinco mergulhávamos ao mar, o corpo esticado, uma deliciosa carícia no peito, no ventre, até o impacto com a cabeça na água límpida e cristalina. Quando aparecia o vigia, todos pulavam, e nadando a molecada gritava uníssona: O galo canta… O macaco assobia… Banana de jegue… No cu do vigia! O vigia era um velhinho abusado, chegou a prender alguns dos campeões de salto ao mar dos anos 50.

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CLAUDINHA, A CUIDADORA DO CLIMA BOM

Antônio ficou radiante ao conseguir emprego na transportadora de valores. Passado o período de capacitação, deram-lhe fardamento, iniciou seu trabalho com atenção e medo de assaltantes. Ao retornar em seu bairro, fardado, sentia-se o próprio coronel de Polícia, até brigas e pendengas entre moradores ele era consultado. Comprou uma moto barata de segunda mão assumindo o débito no banco, para onde escorria metade de seu salário. Numa festa conheceu Claudia, menina, 17 anos, se apaixonou, namorou, engravidou e casou-se. Foram morar numa casa de porta e janela do pai da noiva, no Clima Bom. Tonho não deixou Claudinha trabalhar para cuidar do filho. Pedro.

Passaram-se seis anos, o casal sobrevivendo, até que Antônio deu para beber, vivia reclamando da vida, comportamento estranho, deixou de procurar a esposa na cama, ela que gostava tanto da vadiagem. Nessa época Claudinha havia arranjado um emprego de doméstica na casa de um ricaço na orla. Limpava, passava e cozinhava, a patroa descobriu-a como excelente cozinheira. Melhorou a situação econômica. Pedro estudando, entretanto, a cachaça e o distanciamento do marido entristecia a bela Cláudia. Certa tarde ela apanhou o filho mais cedo na escola, estava febril, ao chegar à sua casa teve o maior choque de sua vida, ficou atônita ao abrir a porta do quarto, e deparar-se com Tonho abraçado a um motoboy conhecido no bairro. A maior decepção, humilhação e traição que uma mulher pode ter. No mesmo dia exigiu a saída do marido de casa, chorou a noite toda. Levantou-se de madrugada, olhou-se no espelho, prometeu a ela mesma, recuperar sua vida, tinha o amor de Pedro para lhe dar força.

Com um ano de separação a dor amenizou. Cláudia, bonita, era assediada por muitos homens, preferiu, embora gostasse tanto da vadiagem, fechar-se, não queria namorado por enquanto. Até o patrão mostrava tinha uma quebra de asas pela bela empregada, ela fingia não entender as insinuações.

No dia que Seu Silvestre, o patrão, completou 67 anos, ele teve um derrame, um AVC, foi uma catástrofe na casa de Dona Graça. Ela e os dois filhos deram a assistência devida no hospital. Ao voltar para casa, o velho precisou de uma enfermeira para ajudar no banho, no vestir-se, no comer. O empresário falava com dificuldades, mas dava para entender. Cismou com as enfermeiras, toda semana trocava de assistente. Certo dia na falta da enfermeira, Claudinha ajudou Seu Silvestre a tomar o banho, enxugou-o, vestiu-o. O velho ficou surpreso com a delicadeza, a suavidade de gestos da empregada, gostou daquele cuidado, disse que Cláudia havia nascido para cuidar de idoso.

A partir daquele momento chamava pela empregada durante o dia, inclusive no banho de sol em cadeira de roda, só queria a jovem cozinheira. Claudinha dava conta da cozinha, da casa e do patrão, ficou cansativo. Inclusive, em suas folgas de sábado à tarde e domingo, nas crises de raiva de Seu Silvestre, Dona Graça a chamava com urgências. Ela o acalmava. O velho só aceitava a assistência da cuidadora improvisada. Quando Claudinha se recusou a trabalhar nas folgas foi um Deus no acuda. A senhora entendeu que seu marido, não só gostava do jeito de Cláudia, ele estava encantado, talvez apaixonado pela jovem. Seu Silvestre entrou em um acordo com a empregada: propôs lhe dar um carro, pagar a escola de Pedro e aumentar o salário quatro vezes, desde que ela lhe desse total dedicação. Claudinha não abriu mão de sua folga nos domingos e assim ficou acertado.

Em véspera de completar os 70 anos, Silvestre havia melhorado sua mobilidade com ajuda da fisioterapia. Ele conforma-se com sua situação de semiparalítico, tem em casa uma grande mulher, Dona Graça, que o ajuda muito, e uma cuidadora eficiente, suave; cuja delicadeza minimiza o sofrimento.

Pelo menos duas vezes na semana Dona Graça passa a tarde em compras no Shopping, é a tarde do banho de banheira demorado. Seu Silvestre se sente feliz imerso na água morna, trancado no banheiro com Claudinha, a eficiente cuidadora do Clima Bom.

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A FEIOSA DA PITANGUINHA

Rosa, Hortência e Margarida, as três, nome de flor, filhas da professora Jacira e de Seu Jeremias, funcionário público exemplar, morreu inesperadamente de um infarto em sua caminhada matinal subindo a Ladeira da Moenda, no bairro da Pitanguinha, perto da casa de Djavan. Um grande choque para família e amigos.

Ulisses, amigo irmão de Jeremias, inconsolável e prestativo tentou consolar a viúva desde o cemitério. Como dispõe de tempo, seu trabalho é uma sinecura na Assembleia Legislativa, tratou dos papéis da pensão da viúva. Foi um longo trabalho nos cartórios e repartições. Passaram-se quase três meses nesse vai e vem, o que consolidou uma amizade, um bem querer entre os dois. Jacira apesar de sessentona é conservada, bonita e desejável. Os dois terminaram se entendendo num motel da praia de Jacarecica. Passaram mais de um ano encontrando-se furtivamente, até que resolveram contar à família. Afinal Ulisses é um homem livre, divorciado, sem filho. Mesmo sem a aprovação unânime da família, Ulisses juntou seus trapos e foi morar na casa da bela coroa Jacira, viúva de seu amigo Jeremias, cujo retrato colorido enfeita a parede da sala, sorrindo aos visitantes.

As filhas mais novas, Hortência e Margarida já estavam casadas quando o pai morreu, viviam com seus maridos e filhos em apartamentos perto da orla. Jacira ficou morando na casa da Pitanguinha com a filha Rosa e seu problema. Apesar de um corpo escultural, um traseiro atraente, Rosa é feiosa, tem a boca troncha e alguma dificuldade em falar, problema advindo de um parto complicado. Ela cresceu e estudou numa escola da Pitanguinha, sofreu humilhação, zombaria, o que hoje chamam de bullying. Obviamente tem complexo de inferioridade e de feiura. Penou muito na escola e na rua. Durante a adolescência teve vontade de se matar algumas vezes. Rosa sempre aguentou calada sua amargura. Fez vestibular e formou-se em Assistente Social, a profissão que poderia ajudar aos outros, foi sua decisão.

Mesmo feia teve namorados quando descobriu um dom de nascença: deslumbrar, enfeitiçar um homem na cama. Operária do amor, ela cria instintivamente mais posições que o Kama Sutra; os namorados se extasiavam. Certo engenheiro propôs casamento, ela recusou, não queria ter decepção amorosa. Assim foi vivendo. Rosa fez concurso, e em pouco tempo, era uma das melhores funcionárias da Secretaria de Educação. Tem o prazer em chegar na hora e trabalhar com dedicação. Sente-se compensada com o trabalho.

Quando Jeremias morreu, Rosa, quase quarentona, morava com eles na casa da Pitanguinha, tinha um quarto bem cuidado e trancado. Sentiu muito a morte do pai a quem tinha uma verdadeira paixão. Dona Jacira, mais seca, entretanto, adora a filha feiosa. Rosa quando soube da ligação amorosa entre Jacira e Ulisses, compreendeu a necessidade de a mãe ter um companheiro, não criou problemas como as outras filhas criaram. Jacira trouxe Ulisses para morar em sua casa. Rosa se deu bem com o “padrasto”. Ulisses lhe tem atenção e carinho especial. Ela gosta de servir uísque e preparar tira gosto para ele e amigos nos fins de semana na calçada de casa. Certo dia, Ulisses trouxe uma novidade. Contou cochichando, com certo receio, o assunto era tabu, ninguém comentava.

– Rosinha, eu conheci um doutor cirurgião plástico, mesmo sem consentimento mostrei-lhe sua fotografia. Ele afirmou convicto que poderá com uma cirurgia plástica dar um jeito em sua boca, não ficará normal, mas vai melhorar bastante a aparência. Você topa?

No dia seguinte Rosa foi à consulta com o doutor, fez os exames necessários, raspou suas economias do banco e submeteu-se à operação delicada de longa duração. Dentro de um mês, foram retiradas as ataduras de seu rosto. Ela ao se olhar no espelho irradiou sua alma de felicidade. Não que estivesse bonita, havia melhorado bastante sua feição.

Rosa tornou-se amiga íntima e confidente de Ulisses. O tempo passou e a amizade entre os dois se estreitou cada vez mais, até que certo dia aconteceu o inevitável. Agora, um ou dois dias na semana eles passam momentos num motel. Rosa, lascívia, ótima no serviço, capricha no que sabe fazer de melhor; deixa Ulisses extasiado, relaxado, feliz, depois de uma tarde de amor. Jacira desconfia, tem quase certeza; generosa, faz que nada sabe e deixa a vida repartir seu homem com a filha sofrida, Rosa, a feiosa da Pitanguinha.

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OS DOCES DE MINHA INFÂNCIA

A arte culinária é peculiar, tem características próprias de cada artista da gastronomia; é uma cultura forte e típica. Nesta cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, Maceió, as comidas estão entre os melhores prazeres. Saborear um bom prato faz parte de nosso lazer, de nossa cultura. Lembrando que o Bispo Don Pero Fernandes Sardinha foi devidamente devorado em apreciado banquete antropofágico pelos nossos ancestrais, os índios caetés, nas areias brancas da praia de Barra de São Miguel.

Minha juventude foi marcada por doces e salgados inesquecíveis. Ainda tenho em minha mente, em meu paladar, alguns pratos feitos em casa por minha mãe, Dona Zeca, excelente cozinheira. Ela caprichava nos almoços dominicais: caruru, galinha ao molho pardo, carapeba, cavala, arabaiana ao olho de camarão ou feijoada de feijão mulatinho incrementada com charque, toucinho, tripa de porco, linguiça, carne do sol, couve, jerimum, quiabo, maxixe. Havia pratos, hoje preparados em óleo vegetal, na época cozidos com banha de porco: o sarapatel, o fígado e o bife de panela. Sem esquecer o cozido, as macarronadas, peixadas e camarãozadas de todo tipo.

Quando íamos ao centro da cidade, invariavelmente lanchávamos na sorveteria da moda, Bar e Sorveteria Elegante, em frente ao Beco do Moeda, frequentado pela classe média emergente que sentava às mesas de ferro com tampo de mármore. No cardápio de lanches havia sorvetes de frutas regionais: mangaba, manga, pinha, laranja cravo, sapoti, mamão, abacaxi, melancia, coco, cana, além de pudins maravilhosos; tudo servido em taças de metal niquelado. Ainda no centro da cidade eu adorava o chocolate caseiro em barras, duas cores, vendido pelo Seu Portela na loja especializada em óculos que vendia mais chocolate que óculos. Não esquecendo a Sorveteria Xangai de Seu Fon, na Rua da Alegria, oferecendo o deliciosíssimo sorvete de chocolate crocante e sorvete de creme.

Acrescento à lista os ambulantes que passavam na praia da Avenida da Paz. Depois do almoço ficávamos à espera de Seu Primitivo empurrando o carrinho de sorvete. Sempre dois sabores: coco e maracujá, coco e mangaba, coco e cajá, coco e goiaba; ele raspava o sorvete com uma colher enchendo o carlito (casquinha). Era nossa predileta sobremesa. Ao entardecer, o China aboletava o tabuleiro de quebra-queixo embaixo de alguma amendoeira na Avenida da Paz; tínhamos guardados os tostões contados especialmente para uma “taiada” desse doce precioso. Encantávamo-nos com a rapidez do corte vertical, um pouco inclinado; ele entregava o quebra-queixo em pedaço de papel colorido, gostosa cocada dura queimada com pedaços de amendoim.

A moçada se deliciava com o algodão doce, rodado na hora numa panela com fogo, onde esquentava o açúcar fazendo enorme nuvem de algodão. Complementava tomando um raspadinho: gelo raspado dentro de um copo cheio de garapa de coco, maçã ou misto, uma delícia. E o caldo de cana caiana! Uma divindade!

Na praia defronte ao coreto havia um futebol organizado. Depois do banho de mar, os jovens iniciavam papos e paqueras sentados na areia. Invariavelmente aparecia o Juarez empurrando o carrinho de sorvete XAXADO, uma delícia feita de frutas nordestinas. Juarez parava na roda oferecendo seu delicioso sorvete e picolé: “Quem vão quererem? Quem vão quererem? Podem pedirem!”. Juarez vendia fiado, na hora do almoço passava na casa de cada um com a conta do sorvete consumido; ele conhecia todos, meninos e meninas da Avenida.

As tardes da Rua do Comércio eram imperdíveis, jovens encostados nos automóveis (limpando carro) curtiam as jovens, flertando, paquerando, marcando encontro nas Sorveterias DK-1 ou Gut-Gut, onde tomávamos saborosos sorvetes de frutas de todas as qualidades; era o ponto de encontro favorito da moçada bonita.

Quando as lojas da Rua do Comércio cerravam as portas, eu descia rumo à minha casa com uma parada obrigatória na esquina do trilho de ferro, ao lado do Arcebispado, saboreava um suco de maracujá com pão doce. Nunca ninguém no mundo até hoje conseguiu fazer um suco igual àquele, o sumo da divindade. Os deuses da gula em vez de água devem beber aquele maracujá.

É preciso um estudo mais profundo sobre comidas, salgados e doces dos anos dourados. Fazem parte de nossa história, de nossa cultura.

A modernidade acabou com os doces de minha infância, hoje proliferam no mundo as lanchonetes dos Shoppings esquentando sanduíches congelados com gosto de sola de sapato. Estão espalhadas no mundo as sofisticadas fábricas de obesidade inventadas pelos americanos. Saudades dos doces de minha infância.

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O DIA EM QUE SALVEI A ORLA DE MACEIÓ

Há não muitos anos, eu tinha o salutar costume de saborear sorvetes em companhia de meu dileto amigo Geraldo Majella nas tardes de brisa fresca da paria de Pajuçara. Sentávamos à mesa da Sorveteria Bali e nos deliciarmos com sorvete de pinha, mangaba, tangerina, entre outras delícias de frutas nordestinas. Botávamos em dia as novidades, conversas intermináveis de vários assuntos; desde literatura, cultura, política e políticos acostumados com o poder e privilégio eram nosso alvo certeiro. Um ambiente alegre cheio de mulheres bonitas em suas roupas minúsculas saindo da praia para refrescar o corpo amorenado pelo Sol, deliciando-se com um sorvete.

Certa tarde, percebemos o levantamento de um tapume de obra no calçadão da orla. Como sou contrario a qualquer tipo de construção ou barraco que impeça a vista ao mar. Atravessei a avenida, curioso em saber sobre o que seria construído. O Mestre deu-me as informações precisas. A PETROBRÀS havia feito um acordo com a Prefeitura para construir ao longo da orla, até a praia de Jatiúca, 6 (seis) postos de combustíveis; em compensação a PETROBRÁS asfaltaria as ruas Maceió. No momento fiquei zonzo como tivesse levado um soco no estômago, pensando em seis postos de combustíveis na orla construídos no calçadão da orla. Fiquei triste, matutando o que fazer. Em casa, minha mulher, Promotora Pública, deu-me a ideia, e eu, como simples cidadão, dei entrada no Ministério Público na denúncia abaixo.

EXMO. SR. PROCURADOR GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE ALAGOAS.

Carlos Roberto Peixoto Lima, brasileiro, casado, engenheiro, CPF 005.586.484-87, residente à Rua Princesa Isabel 415, nesta cidade de Maceió, vem formular à Vossa Excelência a seguinte denúncia:

– A PETROBRÁS está iniciando obras de um Posto de Combustível no calçadão da orla marítima da Pajuçara, em frente ao Colégio Imaculada Conceição. Esta localização da obra fica numa área verde de nossa cidade. Além disso, é um recanto de lazer da população, é um terreno pertencente ao povo de Maceió, localizado na maior atração turística da cidade, a enseada da praia da Pajuçara. Deveria ser uma área sagrada pela sua beleza cênica.

– Como se não bastasse, o Código de Postura do Município prevê a localização de Postos de Combustíveis a uma distância mínima de 500 metros de qualquer escola. A referida obra está sendo construída a menos de 100 metros do Colégio Imaculada Conceição.

– No local, o Mestre da obra me informou que houve um acordo, aprovado pela Câmara de Vereadores, dando a permissão de uso da área da orla à PETROBRÁS, legalizando a obra de construção de seis Postos de Combustível. Em compensação a PETROBRÀS fornecerá asfalto para pavimentar a cidade de Maceió.

– O fato acima relatado está provocando revolta e indignação popular. Além de todos os dissabores para nós, cidadãos, esses seis postos, comprometerão umas das maiores fontes de renda de nosso Estado, o Turismo. Solicito, portanto, à V. Exa., as medidas cabíveis para anular esse convênio altamente prejudicial à nossa cidade. Como está descrito nessa denúncia.

Carlos Roberto Peixoto Lima (Carlito)

Na semana seguinte assisti feliz da vida, tomando um sorvete de manga na Bali, a derrubada do tapume. O Ministério Público invalidou o acordo da construção dos 6(seis) Postos de Combustíveis na orla de nossa amada Maceió. Graças a um pequeno gesto de cidadania.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

JANGADEIROS ALAGOANOS

Há poucos anos, antes da pandemia, recebi em Maceió, três casais amigos; colegas de turma, aos quais tenho estima de irmãos desde que cursamos a Academia Militar das Agulhas Negras. Fomos a um passeio à Foz do Rio São Francisco. Acomodamo-nos numa confortável van que recolhia outros turistas. Ao passar pela Rua Jangadeiros Alagoanos, provoquei o guia perguntando o porquê do no nome daquela rua. Ele prontamente respondeu que era uma homenagem à Escola de Samba Jangadeiros Alagoanos daquele bairro; Pajuçara. Não me contive, pedi licença ao guia e educadamente afirmei que ele estava equivocado e de microfone em punho contei a história:

– Em 1922 no Centenário da Independência do Brasil aconteceram muitas comemorações na capital do país. O Rio de Janeiro se engalanou e construiu uma Exposição do Centenário da Independência. Naquela época os jornais e revistas do Sul chegavam com mais de uma semana no Nordeste.

Um pescador, conhecido líder, de nome Umbelino, ousado e festeiro, leu uma reportagem sobre a programação do Centenário no Rio de Janeiro e lhe deu uma vontade enorme de conhecer a capital da República. Passou três dias matutando como faria aquela viagem, até que surgiu a ideia de viajar pelo mar em sua jangada de seis paus e uma vela. Experiente mestre fez os cálculos, concluiu que a jangada aguentaria navegar cerca de 2.000 km pela costa. Convidou três pescadores, homens rústicos que enfrentavam o mar diariamente antes do sol amanhecer. Fizeram algumas reuniões de planejamento na casa de Umbelino. A notícia se espalhou pelos homens de beira de cais, pelo bairro boêmio de Jaraguá e afinal toda cidade. Alguns amigos se prontificaram a ajudar.

No dia 27 de agosto, dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira da cidade de Maceió a jangada de seis paus, uma vela, sem algum instrumento de navegação, nem uma bússola sequer, partiu da enseada de Jaraguá levando os quatros jangadeiros corajosos. Houve um clima de festa: muitas jangadas, barcos, acompanharam com foguetório a jangada INDEPENDÊNCIA mar adentro rumo ao Rio de Janeiro para festejar o centenário da Independência na capital do país. Rumaram pelo o litoral Sul. No dia 6 de setembro a jangada atracou em Salvador, como havia planejado. Reabasteceram e seguiram a viagem prevista para trinta dias. Acontece que o litoral baiano estava brabo, em certo ponto o temporal foi tamanho que os jangadeiros foram jogados ao mar. Perderam toda provisão, roupas e a preciosa vela. Nadando os quatros heróis puxaram a jangada até a praia. Sorte que havia um povoado; os baianos ajudaram como puderam aos jangadeiros, até uma nova vela ofereceram. Os experientes pescadores esperaram bom tempo, retornaram a viagem. Acontece que o mar e o céu não estavam para brincadeira, vieram mais outros temporais atrapalhando a navegação. Eles chegaram a Porto Seguro no início de outubro, o planejamento já havia furado. Enfrentaram o mar novamente com algumas paradas em povoados e cidades costeiras. Até que no dia 2 de dezembro entraram na Baía da Guanabara depois de 98 dias de viagem. Desembarcaram no cais do Arsenal da Marinha, com muito aplauso a população já esperava os aventureiros. No dia seguinte, colocaram a jangada num caminhão e levaram os quatro jangadeiros alagoanos ao Palácio do Catete, onde foram recebidos pelo presidente Arthur Bernardes. A jangada ficou no Rio de Janeiro, era a principal atração do Pavilhão de Exposições das Festas do Centenário da Independência. Os jornais do sul noticiaram o fato largamente, transformando os jangadeiros alagoanos em heróis nacionais. A jangada depois foi doada ao Museu Histórico Nacional. Os jangadeiros retornaram a Maceió a bordo de um navio do Lloyd Brasileiro. Foram recebidos com muita festa na enseada de Jaraguá. Muitas homenagens, dentre elas a Rua do Horizonte passou a se denominar Rua Jangadeiros Alagoanos. E em 1972 foi fundada a Escola de Samba Jangadeiros Alagoanos.

Depois de minha exposição fui aplaudido pelos turistas, entreguei o microfone ao guia. Durante a viagem, toda vez que ele prestava informação, me perguntava se estava certo. Pelo menos, um dia, tive a honra de ser guia turístico, graças a brava história dos destemidos Jangadeiros Alagoanos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEMANA SANTA

Meus netos estão se empanturrando de chocolate para alegria da Nestlé e da Garoto. Essa invencionice comercial, venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. O ovo de chocolate e o coelho tornaram-se símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período apropriado à meditação, à oração, reverteu-se em festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, e chocolate é alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo.

Sou apegado às tradições, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois jumentos puseram em cima deles suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Entrando Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam Quem é este? E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.” Assim aprendi lendo a Bíblia.

Essa parte da história de Cristo é muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois, traído e crucificado. Entretanto, para moçada dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Ela iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, desfile de meninas bonitas, a moçada assistia a procissão na intensão de paquerar as belas alunas. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena se postar à beira da calçada assistindo a procissão se arrastar pelo calçamento.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne, em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau, arabaiana, camarão, feijão e jerimum ao coco, bredo; uma delícia. Pena que esses deliciosos manjares dos Deuses só venham à mesa na semana santa.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para “serrar velho”. A serração do velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Na Antiguidade reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho, na noite da quinta-feira santa serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado não chegava à outra Quaresma. Na minha juventude fazíamos o ritual bem parecido.

A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e líamos um bem humorado testamento em versos. Os velhos ficavam brabos. Levamos muitas carreiras. Seu Pádua, um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando cantávamos seu “testamento” jogou um penico cheio de xixi e me molhou da cabeça aos pés. Corri para casa, lá tomei um demorado banho e retornei ao local do crime, onde os amigos estavam às gargalhadas.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios só tocavam músicas clássicas ou fúnebres, era proibido ir à praia, até sorrir. As prostitutas fechavam as portas dos cabarés de Jaraguá, e o balaio; nem pensar numa fortuita noite de fornicação.

Finalmente o sábado de aleluia. A moçada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público.

Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos vizinhos, dos pivetes.

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje acontece um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate e tomando vinho. Uma festa de celebridades.