CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EPIDEMIA DE GONÔ

Bairro boêmio de Jaraguá

Logo após a II Guerra aconteceram problemas com a população boêmia no Nordeste, houve proliferação de doenças venéreas, principalmente a gonorreia, a velha Gonô. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreia e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas, transmitindo moléstias aos soldados brasileiros e à população nativa, foi considera epidemia na época.

Em Maceió houve um trabalho organizado contra as doenças venéreas. O Ministério da Saúde enviou remédios. Surgiram as camisinhas. O Governo enviou verba para uma campanha de prevenção.

O ponto mais visado foi o bairro boêmio de Jaraguá onde as raparigas exerciam seu trabalho. Naquela época as melhores mulheres frequentavam os casarões da Rua Sá e Albuquerque, as mais baratas ficavam no baixo meretrício, o Duque, o Verde e o Sovaco do Urubu, onde hoje é o Centro de Convenções.

Primeira providência: todas as prostitutas passaram por rigoroso exame. O Posto de Saúde da Praça das Graças se encheu de cafetinas e pupilas na fila dos exames, tiravam a carteirinha de serviço com data de exame carimbado, havia espaço para notificar as revalidações.

A procura foi tão grande que abriram outro ponto de exame na Delegacia de Jaraguá, o delegado da época, Cabo Sobral, se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o cabo-delegado fazia ronda diária fiscalizando se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas, exame em dia.

Constatando alguma doença transmissível como gonorréia, cancro, etc… a jovem era obrigatoriamente internadas no Hospital de Doenças Tropicais para tratamento até sarar. Com a cura podia voltar à atividade, ao trabalho.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir a carteira das raparigas, pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram atualizadas no Posto Avançado da Erradicação que havia em Jaraguá, com médicos fazendo novos exames diários e indicando o tratamento adequado se fosse o caso.

A atuação do Cabo Sobral foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com suspeita de doença, ele mandava buscar para rigorosa investigação.

Foi formada uma rede de informações em vários cabarés. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam que eles estivessem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava os acusados para o posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o delegado, além de dar uma bronca no doente fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos” para descobrir a pessoa que transmitiu a doença, e quem transmitiu a essa pessoa.

As investigações eram constantes. Chamava as pessoas transmissoras da doença, citado pelo doente, até chegar aos sadios. O Cabo Sobral obrigava a todos os envolvidos serem tratados adequadamente pelos médicos, baixando ao Hospital nos casos precisos.

Houve até problemas conjugais. O zeloso delegado chegou a enviar esposas dos contaminados para exames específicos. Alguns suspeitos se livravam confessando ter se contaminado no Recife. Se acaso “entregassem” quem passou a doença, podia ser quem fosse o delegado ia pessoalmente buscá-la para os devidos exames. Como geralmente a pessoa estava também infectada, obrigava a confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao final do novelo.

Em uma dessas investigações, Gerusa, uma das meninas mais queridas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu doente. O delegado a fez relacionar todos os parceiros da última quinzena. Na relação, havia gente conhecida, inclusive um capitão do Exército e um deputado. O delegado chamou todos os clientes de Gerusa, via carta entregue em mãos, para que fossem devidamente examinados e tratados.

Teve deferência especial com o deputado e o capitão do Exército. Foi pessoalmente à Assembléia Legislativa e ao 20º BC, juntamente com o médico, para que essas autoridades fossem examinadas. O trabalho imprescindível do zeloso Cabo Sobral conseguiu erradicar as doenças venéreas da cidade trazidas pelos soldados americanos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HOMENAGEM DE RUI GUERRA A GUILHERME PALMEIRA

Guilherme Palmeira, Rui Guerra jantando com suas famílias

Peço licença aos leitores desta coluna para transcrever a carta do engenheiro Rui Guerra, um dos homens mais chegados a Guilherme Palmeira, foi secretário e conselheiro de Guilherme durante anos, um dos técnicos mais capazes, de inteligência brilhante e prática do Estado de Alagoas. Rui escreveu esta suposta carta ao Zé Nunes, ex motorista, “faz tudo” e anjo da guarda de Guilherme durante mais de 40 anos, era amigo de todos os seus amigos, morreu há algum tempo e está no céu.

CARTA AO ZÉ NUNES

Querido Zé Nunes.

Desculpe não ter enviado esta carta pelo Guilherme pois em tempos de Coronavírus tudo fica mais complicado.

Espero que na sua condição de veterano aí possa ajudá-lo na chegada.

Ultimamente nosso amigo tem falado muito em você.

Desconfio até que ele me escondeu que iria visitá-lo.

Imagine que lhe deram um veículo lento e desconfortável, incapaz de servir às nossas ligeiras viagens ao interior.

Você bem lembra que entre uma cidade e outra, uma dose e outra, ele dava um cochilo de meia-hora e já acordava reclamando;

⁃ “Porra que demora é essa, onde ainda estamos?”

Mal sabia que você nunca dirigia abaixo de 120!

Imagine quando trocaram seu veículo e lhe colocaram numa cadeira de rodas.

Aquele cirurgião, que nem do nome sabemos, resolveu operá-lo para retirar suas dores e só fez agravar.

Além das dores que aumentaram, ele ficou sem urinar e teve que usar permanentemente uma SONDA que lhe trouxe um monte de infecções urinárias.

Depois de muita conversa e devido a sua Bexiga Neurogênica, a Suzana conseguiu convencê-lo a fazer um tratamento com um neurologista que lhe aliviou parte das dores.

Como você já deve estar manobrando aí veja se consegue que não lhe hospedem numa ALA onde estejam pessoas com as quais ele nunca concordou, apesar da sua enorme tolerância.

Com todas as virtudes e paciência que tem, bem sabemos que ele nunca concordou com oportunismos nem perseguições.

Seus sucessivos exemplos de vida e solidariedade permitem saber com quem ele gosta de conversar.

Dê-me um jeito de descobrir onde estão: Rui Palmeira, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Aureliano Chaves, arranje um apartamento perto deles e, por favor, mude-se com o Guilherme.

Nestas companhias, com certeza, ele aliviaria a falta que lhe fazem Suzana, Rui, Solange, Nadja e seus amigos fraternos.

Veja se consegue um transporte mais rápido que a cadeira de rodas que ele estava usando, para acalmá-lo nos deslocamentos e passeios que terá que fazer na companhia desses amigos que há tanto tempo ele não vê.

Diga a ele que avisei de sua viagem ao Jorge Bornhousen e Zé Jorge que muito lamentaram sua partida sem uma despedida no Piantela.

Avise também que com sua ausência os amigos sumiram. O Piantela fechou e decidiu que só volta a abrir quando ele regressar.

Por aqui sua velha e leal VARANDA DO GP está meio desorientada sem saber o que fazer.

Lá na frente e depois que o Coronavírus partir, veremos como fazer para matar as saudades da sua ausência.

Diga-lhe que tenho chorado como uma criança.

Voltarei a lhe escrever quando a saudade tornar-se pesada demais.

Seu amigo de sempre Rui Guerra.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (9)

Acordei-me com o som cadenciado e harmonioso da alvorada tocada pelo corneteiro. Amanhecia o dia 1º de abril de 1964, eu tenente do Exército Brasileiro, dormia no quartel na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército, altamente treinada contra distúrbio e guerrilha urbana, sediada na Avenida Visconde de Suassuna, Centro do Recife. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade mauriciana. A Companhia estava de prontidão há mais de uma semana, sem algum militar sair do quartel devido aos acontecimentos políticos da época. O presidente João Goulart acendia uma vela a Deus outra ao Diabo (disse Julião). O processo de desgaste político do presidente espalhou-se sobre a Nação. Jango pensava ter um esquema militar forte comandado pelo General Assis Brasil, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, jurou de pés juntos a Arraes que defenderia a legalidade. Quando a conjuntura mudou, ele também mudou. A situação ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com muitos discursos provocativos às Forças Armadas. Jango estava cutucando a onça com vara curta. As informações que nos chegavam era que Jango daria um golpe transformando o Brasil numa República Socialista Sindicalista.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandantes de pelotão, fez uma preleção.

– Chegaram informações que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O General Assis Brasil deu ordens para uma tropa sediada no Rio marchar de encontro e deter a tropa do General Mourão, acontece que a tropa do Rio aderiu e se juntou à tropa do General Mourão, que ruma ao Rio De Janeiro. O objetivo da intervenção militar será restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965 e evitar um golpe do presidente João Goulart estabelecendo um regime socialista.

O capitão Maia mandou preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento. Informavam que tropas do Estado do Governador Miguel Arraes estavam altamente armadas e bem preparadas por guerrilheiros cubanos e chineses.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, com a cabeça a mil, sabia que haveria uma confrontação naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, ficava distante cinco ou seis quilômetros. Ordenei ao pelotão entrar em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei aos sargentos e soldados sobre a missão, deixei bem esclarecido: atirar só com minha ordem. O pelotão tomou a rua, formação em cunha. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam pelas ruas arborizadas, ouvi vaias e palmas, era o povo dividido. Enquanto o pelotão se aproximava do objetivo, eu continha a emoção, pensando nas informações que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes junto à Julião e Gregório Bezerra tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistei ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive de controlar um sargento que me pedia para dar um tiro para o alto a fim de dispersar a multidão. Mandei o sargento se aquietar, lembrei que o comando era meu exclusivo. Não queria que houvesse uma reação por parte dos manifestantes e terminar numa carnificina de balas dos dois lados. Tentaria um diálogo, se possível. O pelotão se aproximou, dava para ver as fisionomias dos manifestantes, o sargento insistindo, me pedindo para atirar; eu reprendi, NÃO ATIRE!. Chegando mais perto, gritei a voz de comando ao pelotão “Acelerado marche!”. Os soldados passaram da marcha comum ao acelerado, correndo em passos curtos, o que se ouviu um barulho assustador do coturno batendo forte no chão. De repente tive a maior alegria, o maior alívio de minha vida ao perceber a multidão dispersando-se em todas as direções. Invadimos o sindicato, ficaram apenas três manifestantes. Pedi para eles saírem ou teria que levá-los presos, era a ordem. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Disse-lhe “Como não vou lhe matar, esteja preso”. Fiz uma revista geral na sede do sindicato, mandei lacrar os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato, retornei com o resto do pelotão para o quartel da 2ª Cia de Guardas.

O pelotão marchando mais relaxado em duas colunas, uma de cada lado da rua, e o barbudo, sindicalista, andando no meio sozinho. Achei constrangedor, tive pena. Encostei-me e inventei na hora em seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, como Fidel Castro fez em Cuba no Paredón, ao chegar ao quartel você vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você sai correndo!”. O sindicalista olhou para mim, espantado. Perto da esquina, o barbudo, olhava para trás encarando-me com olhar suplicante. Na esquina, puxei-o pelo braço e o empurrei. Ele deu um pique, se escafedeu na primeira rua (ainda hoje deve estar correndo).

Durante o percurso de retorno, de cima dos apartamentos, alguns aplaudiam outros vaiavam. Ao passarmos pela Faculdade de Engenharia, alguns estudantes gritavam provocando: “Viva Arraes!” O sargento me incitava a dissolver os estudantes. Eu neguei, confesso, pensando em meu irmão Lelé, poderia estar entre os estudantes (e não é que estava! Eu soube depois).

No quartel fiz um relatório verbal. Nesse dia ainda cumpri outras missões patrulhando o Recife Velho. À noite, a televisão chamava de Intervenção Militar. Não havia aparecido o termo Revolução, nem Ditadura. Nenhum cientista político, nenhum futurista, nenhum especialista, para usar um termo moderno, seria capaz de imaginar que aquele 1º de abril seria o primeiro dia de Governo Militar ou Ditadura durante os próximos anos. Só sei que foi assim, sem tirar, nem pôr.

ESTA SÉRIE “MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO” SERÁ PARTE DE UM LIVRO DE MEMÓRIA EM COMEMORAÇÃO AOS 80 ANOS DO AUTOR. AGUARDEM DEZEMBRO (SEM CORONAVÍRUS)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (8)

Somos amigos há muitos anos, nossos pais eram amigos, nossos avós e bisavós, somos amigos desde quando éramos índios caetés povoando o litoral alagoano. Quando eu morava no Rio nos anos 50, vez em quando ia à casa de Guilherme Palmeira na Rua Almirante Guilhobel. Depois de um bom almoço dominical, partíamos para o Maracanã assistir vitórias do Fluminense.

As férias de verão em Maceió eram maravilhosamente aproveitadas: praia da Avenida, Pajuçara, réveillon da Fênix, carnaval nas ruas e nos clubes. Bela época dos anos dourados, vivíamos nossa cultura popular, época do cinema novo, da bossa nova. Revolução dos costumes, queríamos também transformar o mundo, como qualquer jovem.

Certa vez no Engenho Prata, São Miguel dos Campos, em conversas e cervejinha gelada, Guilherme Palmeira comunicou ser candidato a deputado estadual nas eleições de 1966, alegria geral. Dias depois Esdras Gomes distribuía adesivos, GP 66. Foi uma vitória retumbante, iniciava naquele momento uma carreira política das mais admiráveis na história das Alagoas.

No final de 1967 eu servia na 9ª Companhia de Fronteira, Roraima, fui promovido a Capitão e transferido para 20º Batalhão de Caçadores em Maceió. Ao chegar em casa pela tarde, coloquei um calção desci à praia da Avenida, depois de um bom mergulho e braçadas naquele mar azul do tamanho do mundo, fiz uma promessa, nunca mais sair de Maceió. Cursei engenharia, deixei a carreira militar e cumpri a promessa.

Naquela época Maceió era uma festa, tempo bom de viver na cidade amada, ensolarada Muitos amigos, muito calor humano, juventude sadia. Formamos um quinteto inseparável: Guilherme Palmeira, Marden Bentes, Eduardo Uchoa e Galba Acioly, solteiros e bonitos, fazíamos a festa aonde chegássemos. Éramos conhecidos entre as melhores famílias, entre as jovens deslumbrantes, como também nos bares e lugares não compatíveis às moças casadoiras. Convidados para batizados, casamentos, aniversários, alegrávamos as noites com bom humor e fidalguia. Jovens boêmios, considerados bons partidos, custamos a casar.

Acompanhei a vida política de Guilherme Palmeira: deputado, governador, senador, prefeito de Maceió. Finalmente Ministro do Tribunal de Contas da União, aposentado se estabeleceu em Brasília, nunca esqueceu sua querida Alagoas. Vez em quando às sextas feiras reúne amigos na varanda do apartamento, praia da Ponta Verde para conversas e uma rodada de uísque.

Em 1988 houve eleição para prefeito de Maceió. Renan Calheiros candidatou-se tendo como vice o deputado Sabino Romariz, o mais votado na Assembleia, era uma chapa imbatível apoiada pelo governador Fernando Collor. Nas pesquisas o IBOPE lá em cima. Como enfrentar Renan? Em uma reunião da oposição, Benedito de Lira deu a sugestão: Guilherme Palmeira para prefeito e João Sampaio, vice. Fiz parte da coordenação de campanha. Fomos à rua, Guilherme visitou toda biboca de Maceió, chegávamos tarde às nossas casas. Afinal o dia da eleição, logo depois a apuração na mão, voto a voto, disputa acirrada. Final maior vibração. Guilherme ganhou por 6.845 votos Fomos para Avenida da Paz comemorar a vitória com uma passeata inesquecível

Guilherme prefeito, eu assumi uma Diretoria da Limpeza Urbana depois fui Secretário de Desenvolvimento Urbano. Travamos campanha e briga contra qualquer tipo de poluição. Descobri que era proibido colocar qualquer tipo de placa ou outdoor na ladeira da antiga rodoviária, anunciei que ia derrubar todas as placas e outdoors. Na véspera, ao término do expediente, recebi um telefonema de um advogado avisando que no dia seguinte ele daria entrada na Secretaria com uma liminar de um juiz cancelando a derrubada dos outdoors. Fiquei a pensar sozinho em meu gabinete. Tomei a decisão, convoquei os funcionários, fiscais, caminhão, para sairmos às seis da manhã, antecipei, derrubamos todos outdoors. Foi lindo aparecer uma mata verde exuberante que estava escondida.

A liminar chegou às minhas mãos no local às nove da manhã, a derrubada já havia acontecido. O juiz mandou me prender. Eu me escondi em uma casa em Paripueira. Guilherme tomou as dores, assumiu ter ordenado aquela ação. Só não fui preso devido ao pulso firme de Guilherme e a competência do advogado Diógenes Tenório de Albuquerque em minha defesa. Lembrei esse fato mostrando a firmeza de caráter, honestidade, amor à sua terra, sapiência e liderança de Guilherme Palmeira, o melhor prefeito da história de Maceió. Desculpe o Rui. Hoje Guilherme vive cercado de amigos que o admiram. Ele orgulhoso do filho, Rui Palmeira, seu herdeiro político na decência e no amor à Maceió.

Esta série de artigos, MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO, será um livro em comemoração aos 80 anos do autor neste 2020.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (7) – AS ÁGUAS DE ABRIL

Eu tinha nove anos, menino, criado livre, leve e solto na praia da Avenida da Paz em Maceió. Certa noite de abril de 1949, eu fiquei apavorado com os relâmpagos, trovoadas e muita chuva forte, batendo no telhado e no chão feito um chicote. Ao mesmo tempo fiquei feliz ao lembrar os caranguejos que sairiam de seus buracos assustados pelos trovões. Durante a tarde eu havia colocado algumas “ratoeiras”, feitas de lata de óleo, nas tocas de goiamuns às margens do Riacho Salgadinho. Já deviam ter caranguejos presos, eu pensava. Noite adentro aumentou o temporal diluviano. O riacho Salgadinho transbordou, as águas cobriram a rua e entraram em nossas casas na Rua Silvério Jorge, onde eu morava. As grandes chuvas de maio estavam acontecendo em abril.

Durante aquela noite uma forte enxurrada desceu veloz do bairro do Tabuleiro, passando pelas ruas e casas chiques do bairro do Farol, num barulho aterrador de água em movimento. O vagalhão avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente: carros, carroças, lixeiras. Derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou descendo feito forte cascata na Rua Barão de Anadia, bairro de Mangabeiras, ouviu-se um forte estrondo, foi um enorme bloco de barreira que se rompera, caindo por trás das casas daquela rua, onde soterrou cerca de 20 residências, mais de 30 moradores mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo–Salgadinho a correnteza cada vez mais volumosa, insustentável, arrastava o que havia em seu corredor. Na foz, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, o vagalhão chegou tão forte que rompeu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, quebrou-se em dois enormes blocos de concreto, arrastados à beira-mar.

Onde havia a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era o transporte urbano mais usado àquela época.

Ao amanhecer foram percebidos os estragos da catástrofe provocados por um volume de chuva nunca visto. Curiosos, usuários do bonde para o trabalho ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela manhã.

A Rádio Difusora dava detalhes da catástrofe, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida da Paz. Depois do café da manhã, eu fui em busca de minhas “ratoeiras”, pensando ter um goiamum preso em cada uma. Procurei-as nos locais onde havia armado na saída do buraco, não encontrei uma sequer. Alguns locais estavam submersos. Retornei à praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição, na varanda, fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos, dois pedaços de ponte levados pela correnteza, como se fossem rochas naturais jaziam à beira mar sendo molhados pelas marolas. Fiquei encantado com os trilhos pregados no dormente, resistindo numa linha curva, o que restou da tragédia.

Esses mesmos trilhos serviram como base de construção de uma ponte de pedestre provisória para usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, o passageiro recebia um tíquete, atravessava a ponte improvisada, tomava outro bonde que o levava ao destino.

Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando, via bairro do Poço.

A meninada inocente aproveitou a tragédia como divertimento. Todo dia nós acompanhávamos as obras de engenharia, a construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos embaixo da ponte estreita de pedestre, em local estratégico, apreciando o que havia por baixo das saias das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção rápida de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Minha rua ficou intensa, acabou-se o bucolismo. A nova ponte de madeira terminou a tranquilidade da rua, entretanto, continuou o divertimento de apreciar bater estacas e a concretagem de pilares e vigas. Foi nossa diversão até terminar a construção. A obra durou cerca de um ano, a nova ponte de concreto foi inaugurada com grande estardalhaço pelo então governador Silvestre Péricles de Gois Monteiro..

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (6)

Não sou saudosista. Saudosista é a pessoa que vive, pensa e se alimenta do passado, sou até moderninho, um oitentão cheio de juventude. Mas gosto de relembrar os acontecimentos, as tradições, as brincadeiras, as festas de outrora. Muitas delas perduraram no tempo e mudaram pela evolução dos costumes e pelo consumismo. Hoje passando em casa a semana santa numa quarentena imposta ao mundo por um vírus que ameaça a humanidade, eu fico a relembrar a semana santa do meu tempo de menino.

Havia uma mistura de religiosidade e brincadeiras divertidas. Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram-lhe um burrico puseram em cima dele suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Ao entrar Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam: Quem é este? E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.”

Assim aprendi nas aulas de catecismo no velho Colégio Diocesano. Essa parte emblemática da história do Cristianismo ficou gravada em minha memória: a marcha triunfal de Jesus em um jerico. Logo depois Ele foi traído e crucificado.

Entretanto, para a juventude dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão saindo à tardinha da Catedral. Os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, era um desfile das moças mais bonitas de Maceió. Nós íamos com o objetivo quase pecaminoso de paquerar essas meninas, andando em fila, contritas, rezando de terço na mão. Um sorriso, um piscar de olho, valia a pena apreciar o arrastar da procissão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne. Dona Zeca, minha mãe, cozinhava as delícias da semana santa: peixe à vontade, carapeba, arabaiana, cavala, camarão, siri, bacalhau, acompanhava o feijão e arroz de coco, além da jerimunzada e o bredo. Até hoje pergunto por que esses maravilhosos manjares são exclusivos da semana santa?

Na noite da quinta-feira era vez de uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para “serrar um velho”. A brincadeira de serrar velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho e serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, um velho serrado não chegava à outra Quaresma, teria menos de um ano de vida. A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e liam um bem humorado testamento em versos. Os velhos ficavam irados. Certa vez levamos uma carreira do pai de um amigo na Pajuçara, ele atirou em nossa direção com uma espingarda de sal. De outra feita, Seu Pádua um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando estávamos lendo seu “testamento”, jogou um penico cheio de xixi e coco pela janela, fedendo, tive que ir para casa tomar um demorado banho.

Durante a Sexta-Feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios tocavam músicas fúnebres. Era proibido ir à praia, até sorrir não podia. As prostitutas fechavam o balaio; o bairro boêmio de Jaraguá ficava deserto. À noite todos iam à igreja, para beijar os pés de Nosso Senhor morto.

Finalmente o Sábado de Aleluia. A meninada preparava um boneco de pano, era o Judas, sempre com um nome de algum político ou alguma figura pública inimiga do povo. Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando e queimando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos pivetes da vizinhança na noite anterior.

Na missa do Domingo da Ressurreição, os padres durante a homilia contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus.

Hoje a ressureição é um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate, tomando vinho.

Essa invencionice comercial, venda de ovo de chocolate, a comida dos Deuses, durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda e o consumismo. A meninada tem o ovo de chocolate e o coelho como símbolos da semana santa. Um período mais apropriado à meditação, à oração, tornou-se a festa do coelho e ovos de chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo; pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, de muitas transas, e chocolate está na lista de alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo, o que acho ótimo, não deixa de ser uma evolução da Igreja.

Essas lembranças dá saudade, amo as tradições de meu povo. Não troco minhas boas recordações da semana santa pelo ovo do coelhinho, e olha que sou chocólatra.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (5)

Ao terminar o curso da Academia Militar das Agulhas Negras em 1961, escolhi Salvador para iniciar a vida de Oficial do Exército, cidade que conhecia apenas dos livros de Jorge Amado e das músicas de Caymmi.

Numa tarde de domingo me vi à frente do quartel do 19º Batalhão de Caçadores, bairro do Cabula. Um prédio de dois pavimentos janelados, paredes cinzentas. Entrei pelo Portão Principal, o oficial de dia levou-me ao primeiro andar onde um quarto estava à minha espera. Guardei minhas roupas, meus pertences, liguei o ventilador, deitei-me na cama de cueca, pensando, fumei um cigarro. Mais tarde, da janela de meu quarto, contemplei um alaranjado pôr-do-sol embelezando meu primeiro dia na Bahia. Naquele momento deu-me uma apreensão, medo do desconhecido que viria pela frente. Porém, eu tinha certeza e confiança que estava bem preparado para exercer a profissão que escolhi e lutei: oficial do Exército Brasileiro.

Nos primeiros dias no quartel já desempenhava trabalhos normais inerentes a um tenente: planejar e executar instrução militar, educação física, exercícios militares em campo, ordem unida, exercícios de tiro e outras funções que me foram impostas na administração do 19º BC. Orgulhava-me ser um bom oficial do Exército Brasileiro

Durante dois anos morando em Salvador tive o privilégio de ganhar amigos que me fizeram conhecer a Bahia mais bonita. Entre eles, o Subcomandante do Batalhão, coronel Diamantino Fiel de Carvalho, carioca, boêmio, homem da noite no Rio de Janeiro, amigo de artistas e celebridades. Quando algum artista se apresentava em Salvador, Diamantino o convidava para um jantar em casa. Assim conheci grandes nomes da música brasileira: Haroldo Barbosa, Elizeth Cardoso, Vanda Moreno, Luís Vieira, Dóris Monteiro, entre outros. Diamantino escrevia esquetes de humor para teatro e TV, inteligente, bem humorado, entretanto, na hora do serviço era de uma exigente, principalmente com os subordinados mais chegados.

Nas noitadas da Bahia eu o chamava pelo nome, Diamantino; no outro dia, com todo o respeito, era o Senhor Coronel. Afeiçoei-me e muito aprendi com essa figura humana extraordinária, militar e artista.

No 19˚ BC conheci um tenente baiano, Ângelo Roberto Mascarenhas. Foi meu guia nas ruas estreitas e enladeiradas da Bahia. Dancei no Tabariz, frequentei a Rua Chile, o Hotel Palace, a Ladeira da Montanha, tomei cachaça no Pelourinho. Na boate Clock dancei e namorei baianas bonitas. Foram farras homéricas na Cidade Baixa, no Mercado Modelo, nas Sete Portas. Amanhecemos dias de serenata no Forte de São Marcelo. Frequentei o terreiro de Mãe Menininha do Gantois que jogou búzios para mim, hoje sei que sou filho de Xangô.

Nas noitadas de boemia conheci a vida simples, musical e cheia de magia do povo baiano, guiado pela mão de Ângelo Roberto, um dos maiores pintores da Bahia, o melhor bico de pena do Brasil.

Ângelo tornou-se irmão, por adoção, nos adotamos. Em 1980 voltei a encontrá-lo e conservei essa amizade até a sua morte. Ele desenhou a capa de quatro dos meus livros. Quando criei a Festa Literária de Marechal Deodoro, convidei-o e ele todos os anos participava, com Marlene, expondo seus maravilhosos quadros na Casa do Marechal. Chorei feito menino quando li a notícia de sua morte ano passado.

Durante minha época de 19º BC me convidavam para festas na Vila dos Oficiais ou dos Sargentos. Certo dia conheci Silene, filha de um Major, a morena mais frajola da Bahia, me encantou seus cabelos lisos, negros, olhos pretos que nem uma graúna. Fui-me chegando como quem nada queria, em pouco tempo namorava a jovem de17 anos; eu 22.

O sogro determinou algumas regras do namoro. Domingo à noite jogávamos baralho. Sempre eu e Silene contra o casal de sogros. Aproveitávamos esse momento namorava por baixo da mesa, com os pés descalços fazíamos carinho um no outro. Certa noite fui ao banheiro, ao retornar peguei as cartas, era minha vez de jogar. Distraído, tirei o pé da sandália, instintivamente comecei a alisar os pés da Silene por baixo da mesa. De repente, senti um puxão do pé que estava embaixo do meu. Pelo olhar do Major, percebi que havia alisado o pé errado. O sogro, a partir desse engano fatídico, olhava-me desconfiado, talvez duvidando da minha masculinidade.

Numa noite encontrei Jorge Amado num restaurante, fiquei feliz, fui conversar com o grande escritor. Uma semana depois, Silene mostrando a Revista Manchete, ela brincava falando que na reportagem o Jorge Amado citou nosso encontro. Eu estranhei. Ao ler a entrevista, Jorge dizia gostar em ser famoso, só o aborrecia quando num restaurante algum bêbado puxava conversar mole.

Bahia terra da felicidade. Ai! que saudade tenho da Bahia….

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTÃO (4)

Meus 80 anos estão sendo comemorados constantemente. Por conta dessa idade magnífica, resolvi contar algumas histórias e fatos marcantes de minha vida. Peço desculpas aos leitores que gostam mais das histórias picantes. Prometo que depois dessa fase de memórias, retornarei com histórias cheias de sacanagem.

Inesquecível a entrada triunfal na Academia Militar das Agulhas Negras. Em frente ao Portão Monumental, estavam formados os novos cadetes vindo das mais diversas cidades do Brasil, de todas as classes sociais, de todas as cores raciais, de todas as religiões, tínhamos em comum a admissão na dificílima seleção intelectual e física para ingressar na AMAN. Éramos jovens orgulhosos em participar daquela solenidade caracterizada pela passagem dos novos cadetes pelo portão especial, ao lado da entrada principal, que só era aberto uma vez por ano e sempre pelo cadete mais novo da turma. Em 1959 teve a honra de ser “cadete claviculário” o mineiro, Cássio Rodrigues da Cunha, (tornou-se um dos mais brilhantes generais do Exército Brasileiro). Logo após a abertura, entramos marchando no asfalto em linha reta até o prédio da Academia. Naquele momento me sentia feliz e orgulhoso.

Fiquei deslumbrado com as instalações da Academia, uma das mais bonitas do mundo. A vida de cadete na AMAN era semelhante à da Escola Preparatória de Fortaleza. Alvorada às 6:00 da manhã, seguida de Educação Física. A novidade foi a equitação, eu nunca havia montado num cavalo, aprendi rápido e muitas vezes em fim de semana cavalgava pelo vale do Paraíba com colegas. O estudo era altamente organizado como em todas as Escolas Militares. No dia de prova o professor entregava as provas, saía da sala de aula, uma hora depois retornava recolhendo as provas. Ninguém colava. Era Código de Honra dos cadetes. O expediente terminava às 17:00 horas, tínhamos opção de assistir a um filme no cinema da AMAN ou dar uma volta na cidade de Resende ou estudar, eram matérias difíceis: Cálculo, Português, Balística, Psicologia, Economia, Geopolítica, Inglês, Física, Química, Pesquisa Científica, Filosofia, Instrução Militar específica, entre outras matérias.

Eu amava ler algum romance no bucólico bosque do riacho Lambari. Foi lá que um dia me contaram a história da construção da AMAN que se tornou lenda.

No início de 1943, tempo de II Guerra Mundial, a construção da AMAN foi paralisada por falta de verba; funcionava a velha Escola Militar do Realengo.

Naquela época uma das diversões dos cadetes era cavalgar nos dias de folga. Oito cadetes amigos costumavam montar nos fins de semana. Oito companheiros inseparáveis saíam sempre juntos, um ajudava ao outro nos estudos, nas dificuldades. Eram irmãos por opção. Em algumas noites costumavam sorrateiramente cavalgar até uma boate de mulheres que havia no subúrbio do Rio de Janeiro. Os oitos cadetes vestiam-se com pelerine (capa militar longa, azul marinho, sem mangas), botas e o quepe a Príncipe Danilo. O mulherio se assanhava quando eles apareciam. Faziam farras homéricas no cabaré. Diversão de alto risco. Se fossem apanhados pela Patrulha Militar pegariam cadeia ou até expulsão.

Certa noite depois de dançar, deitar com as “namoradas” e farrear, os oito cadetes montaram nos cavalos escondidos no mato, em duplas galoparam pela estrada, retornando à Escola Militar de Realengo. Ao passar por uma rua deserta, por volta das 23 horas, perceberam numa esquina escura quatro homens assaltando, batendo num senhor, ele pedia clemência, que não lhe matassem. Os cadetes não precisaram combinar, puxaram as rédeas dos cavalos em disparada para o local do assalto, com destemor e perícia, desmontaram dos cavalos a galope, agarraram os bandidos. Dois cadetes socorreram o cidadão machucado de murros e pontapés, devia ter cerca de 60 anos, os outros prenderam os marginais. Entregaram os facínoras numa delegacia próxima, o velho ferido foi deixado num hospital, ao chegar à Escola deixaram os cavalos nas baias, foram dormir.

Na segunda-feira durante a formatura matinal, o comandante da Escola Militar do Realengo pediu à tropa para que os cadetes que tinham salvado a vida de um cidadão se apresentassem; o filho desse senhor encontrava-se na Escola, queria agradecer pessoalmente. Receosos em pegar uma cadeia, os oito amigos não se revelaram. Depois de o comandante muito insistir e prometer de não haveria punição, os cadetes se apresentaram. Foram levados à presença do velho no hospital. Era nada mais nada menos que Henrique Lage, um dos homens mais ricos do Brasil, donos de empresas, inclusive o Loyd Nacional, companhia de navios que fazia a costa brasileira.

O rico senhor agradeceu aos cadetes e perguntou qual a precisão de cada um, eles escolhessem o que quisessem: uma casa ou carro, ou o que fosse. Os oito amigos pediram para pensar. Reuniram-se, discutiram muito. No dia seguinte foram ao ricaço. Nada queriam para eles, pediam que ele ajudasse a terminar a construção da Academia Militar das Agulhas Negras que estava paralisada. O velho deu a ordem, mandou buscar o mais fino mármore de Carrara na Itália para o revestimento, mandou comprar todo o piso em granito, recomeçaram as obras da Academia por sua conta. Até hoje perdura a suntuosidade daquele belíssimo conjunto arquitetônico. A AMAN é considerada a mais bonita Academia Militar do mundo, graças à digna história dos oito cadetes, hoje anônimos militares reformados de nomes esquecidos, entretanto, o belo gesto, a coragem, o destemor e o amor à Escola, tornaram-se lenda.

A Academia foi base de minha aprendizagem, do meu saber e do amor ao Brasil ao longo desses 80 anos. A Academia ainda deu-me uma das maiores riquezas que conservo todo esse tempo: os colegas que entraram por aquele portão tornaram-se meus irmãos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTA (3)

Esses meus oitentas anos estão me remetendo a fatos marcantes em minha vida. Hoje me lembrei de minha entrada na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza no longínquo ano de 1956. Era um menino.

No primeiro dia distribuíram, para cada aluno, um enorme saco com fardamentos, equipamentos, manuais. Levei o saco nas costas e arrumei no armário, forrei a cama, coloquei minha primeira farda de brim verde: calça, camisa de mangas compridas, por cima de uma cueca samba canção, cinturão, um gorro na cabeça, por fim calcei um coturno preto de laços entrelaçados. Logo o sargento gritava: “Primeiro ano em forma!”. Pela primeira vez entramos em forma. Passamos o dia recebendo instruções de como seria a vida na Escola.

Dia seguinte entramos na rotina: alvorada às 5:30 da manhã. Vestido de calção de educação física, camiseta e tênis a turma foi levada para o campo de futebol onde os tenentes ministraram vários tipos de ginásticas planejadas. Retornamos para o banho. No alojamento vestimos o roupão com o sabonete na mão, corremos para o banheiro coletivo. Logo, fardados, nos levaram para o café da manhã. Satisfeito com a gororoba, marchando, cada turma dirigia-se para as salas de aulas. No primeiro ano só matérias básicas: aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, português, inglês. Ensino puxadíssimo com excelentes professores. Às tardes nos ministravam Instrução Militar.

Foi difícil a adaptação daquele menino da praia de uma infância extraordinária, livre, leve e solta na Avenida da Paz em Maceió. Várias vezes senti vontade de pedir desligamento da Escola, mas ao mesmo tempo a vontade de vencer aqueles obstáculos me dava força.

Certa tarde de sábado fiquei indignado com um trote de um veterano, mandou que eu arrumasse seu armário, engraxasse coturnos, etc. Perdi meu sábado. Delatar jamais. Então eu decidi pedir desligamento e voltar para minha Maceió. Porém, houve uma santa coincidência, na segunda-feira recebi uma carta de mau pai que decidiu minha vida para sempre.

Carlito,

Meu afetuoso abraço. Recebemos a tua carta que nos encheu de alegria ao sabermos da tua satisfação aí na Escola, mas também de saudade do filho querido, que tanta falta tem feito.

Porém, Carlito velho, a vida é assim mesmo; é luta brava, principalmente na carreira que escolhestes.

Temos absoluta certeza, e inabalável fé em Deus, que serás muito feliz.

Não fraquejes ante nenhum obstáculo; enfrenta-o sempre de ânimo forte. Acostuma-te desde agora aos rígidos princípios da disciplina; aceita-a conscientemente, pois ela é a mais bela característica do soldado.

Estuda, dedica-te com muito esmero às tuas obrigações escolares; este hábito salutar será constante na tua vida profissional e fator decisivo na carreira.

O valor de um oficial está em função da sua cultura, do seu saber, do seu carinho aos afazeres profissionais.

Procura, desde já, meu filho, ser “Caxias”. Mas “Caxias” sem intransigência. Correto no cumprimento dos deveres, porém humano, delicado, sereno e leal no tratamento com seus subordinados e companheiros. O oficial que assim procede é respeitado, acatado e querido por todos.

Pensa sempre no bem do Brasil; sirva mesmo de rumo aos teus atos e ações o pensamento constante na grandeza da Pátria querida.

Porém, jamais te cumplicies aos aventureiros da política malsã, que infelizmente ainda infesta o Brasil. Seja sempre digno, mantenha sempre bem alto o alvo de tuas ambições e afetos; porém também sempre te lembres que são injustificáveis as “quarteladas” e a “ditadura”.

São estes, meu filho, os conselhos gerais, que a experiência de mais de trinta anos de serviços do teu pai, que o carinho e o afeto que te dedico, que a vontade imensa de te ver vitorioso na carreira que espontaneamente escolhestes, me inspiram.

São advertências saídas no mais íntimo do meu coração.

Prepara-te, pois, para a vida, meu filho, certo de que nem tudo serão flores. Os espinhos, as ilusões surgirão fatalmente. Mas que nada abata o teu ânimo forte, o teu caráter, a tua dignidade, a tua coragem, o teu ardor cívico, o teu amor à carreira que abraçastes.

Esta a única riqueza que teu pai pode legar.

Guarda com carinho esta primeira carta que te escrevo e que a Divina Providência te faça muito feliz. Tua mãe e teus irmãos te abraçam. A saudade de seu pai.

Mário Lima.

(Tenho essa carta guardada desde abril de 1956)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OITENTA (2)

Ao completar 80 anos, vivo a recordar passagens de minha vida agitada e bem vivida, alguns fatos que ficaram em minha mente e no coração, fazem parte de meu ser. No longínquo de 1955, eu era um adolescente, 15 anos, vindo de uma infância livre, leve e solta, pelos arredores da praia da Avenida da Paz. Naquela época em Maceió havia apenas a Faculdade de Direito, as outras opções de “futuro brilhante” era submeter-se aos concursos do Banco do Brasil ou da Escola Militar. Cheio de empolgação, família de militares, era um crack na matemática, encarei o difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Certa noite de festa de rua de natal na Praça Sinimbu, um amigo, Jarbas Bagdá, deu-me a notícia mostrando o jornal, O Globo do Rio, estava lá meu nome entre os aprovados, era a glória. Corri desembestado para dar a notícia em casa. Dona Zeca, festeira que só ela, improvisou maior festa, meu pai orgulhoso, amigos e parentes, bebidas e comidas à vontade. Altas horas, ao terminar a comemoração familiar, atravessei a Avenida da Paz, andei pela praia de areia fofa com uma garrafa de vinho numa mão, sapatos na outra. A lua iluminava a imensidão do mar. Eu pensava, me perguntando, ”O quê será?”.

Retornei, subi os degraus do coreto, sentei-me no parapeito, olhando para o infinito, não sei de felicidade ou tristeza chorei como menino. Naquele momento estava deixando de ser menino. Ser menino foi uma passagem extraordinariamente bela de minha vida. Logo o dia amanheceu lindamente alaranjando o céu. Dei os últimos goles na garrafa, entre feliz e bêbado, fui dormir.

O Exército deu-me a viagem para Fortaleza em duas etapas: de Maceió ao Recife de trem, e do Recife à Fortaleza, via marítima. Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou-me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Embarquei no trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Élio Wanderley, outros alagoanos aprovados nos exames da EPF. Partimos no famoso Trem das Alagoas às 06:00 horas da manhã com chegada prevista 18:00 horas, nunca cumpria o horário.

Escalas incontáveis, Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares, pequenas cidades perdidas nos canaviais.

Nas estações, desciam e entravam novos passageiros. O trem parava o mínimo tempo, os ambulantes aproveitavam para vender frutas e outras comidas. ”Olha a manga madurinha… Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na hora…Olha a água de quartinha…Chapéu de palha…” Esses ambulantes me impressionaram. Em cada estação pareciam as mesmas pessoas, os mesmos artigos oferecidos. Também havia pedintes. ”Dê uma esmola para o aleijadinho… Um auxílio para quem tem fome”… Os meninos pediam tostões e o ceguinho cantava na viola: ”Seu José, Dona Maria… Tenha pena do ceguinho que não vê a luz do dia…”

O maquinista puxava o apito, o foguista botava lenha, a vistosa Maria Fumaça puxava os vagões como se fora a mãe pata e os patinhos em fila. O trem invadia canaviais, verde cana, cana caiana. O azul do céu encontrava-se com o verde dos morros nos horizontes ondulados. O poeta Ascêncio Ferreira imortalizou essa viagem com o poema, “O Trem das Alagoas”. “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar… Adeus, adeus, mangueiras, coqueiros, cajueiros em flor. Adeus morena dos cabelos cacheados… Vou danado pra Catende com vontade de chegar…Cana caiana, cana roxa, cana fita, cada qual é mais bonita, todas boa de chupar…Vou danado pra Catende, com vontade de chegar. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

O outro mar ainda desconhecido estava longe, viagem cansativa, bancos de madeira dura. Conversávamos, especulávamos o que haveria de ser, três meninos. No fundo do coração batia a saudade de meus pais, de meus irmãos, de meu mundo, de minha praia. Às vezes tinha vontade de chorar, olhava o verde canavial no infinito e disfarçadamente enxugava uma lágrima. Eu era apenas um menino.

Na hora do almoço, fomos para o vagão restaurante. Tomamos bebidas conversando amenidades, a cerveja alegrou o restante de viagem. Era noite quando o trem entrou na última estação, afinal Recife. Primeira etapa da viagem cumprida, a danada da saudade a apertar, não valia chorar.

Ao descer do trem, avistei Seu Marcos, sogro de minha irmã Rosita. Levou-me para sua casa, belo prédio antigo na Rua da Imperatriz, centro do Recife. Tive tratamento de príncipe, no outro dia embarcaria para Fortaleza no navio de guerra Barroso Pereira com futuros colegas. Cansado fui deitar. Com o travesseiro abafei meu choro, minhas lágrimas, meus temores. Adormeci. Nessa noite fiz xixi na cama.