CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MARECHAL BOCA

Sinésio Souza Lima é seu nome, os pais esforçaram-se para educar sete filhos. Durante a juventude, enquanto os amigos mais abastados, após o namoro bem comportado, de mãos dadas no portão da namorada virgem, subiam os degraus dos cabarés de Jaraguá, pagando descarrego e prazer com alguma mariposa do amor, Sinésio procurava aventuras com as jovens empregadas domésticas, geralmente vindas do interior tentando melhoria de vida, trabalhando em casas das famílias burguesas. As mais salientes saíam à noite em busca de aventuras, faziam ponto nas praças da cidade, gostavam de rapazes, estudantes, não cobravam pela noite de amor atrás de um muro ou na praia da Avenida da Paz. Sinésio, frequentador assíduo da Praça Centenário, conhecia, era íntimo das peniqueiras (assim eram chamadas maldosamente as empregadas domésticas – hoje seria crime), havia uma Associação no Farol, a famosa UCPM, União dos Conquistadores de Peniqueiras de Maceió, onde os sócios se reuniam contando aventuras, conquistas. Todos tinham postos, eram promovidos conforme o relato das aventuras, Sinésio tinha a maior patente, Marechal da UCPM. Por ser bom de lábia, cantadas açucaradas, prometendo o que não cumpriria, as empregadas apelidaram nosso amigo de Boca, assim ficou conhecido em todos os redutos da cidade.

Sinésio amava as domésticas, certa vez teve um caso prolongado, quase um ano com uma bonita morena. Maria Cícera trabalhava na casa de um médico na Rua Itatiaia. Os pais de Sinésio ficaram preocupados quando Cicinha apareceu grávida, um Deus-nos-acuda, falaram em casamento, aborto nem cogitar. A criança nasceu, Cicinha entregou-a aos pais de Sinésio que criaram o menino como filho fosse, o oitavo. Seus pais aconselharam, ele fez que ouvia, continuou em busca de suas queridas. Sinésio nunca perdeu o encantamento, a veneração pelas empregadas.

Ele casou-se com 31 anos, constituiu família, entretanto, não dispensava uma saída, uma voltinha quando podia acontecer. Sempre respeitou, à muito custo, as empregadas de sua casa, fez muita força, às vezes resistindo provocações de estar sozinho em casa com uma bela jovem. Fora de casa, dava umas saídas à noite para reunião com a turma no Shopping, mas, continuou exímio caçador de doméstica.

Certa vez, Marília, sua amada esposa, professora da Universidade, teve problema com uma empregada, dispensou-a e marcou entrevista numa agência. Numa segunda-feira, depois do jantar, a campainha tocou. Sinésio foi atender, deveria ser a nova empregada. Ao abrir a porta tomou um susto deparou-se com uma de suas conquistas amorosas. Rosa ao ver Sinésio não conseguiu segurar o espanto, saiu-lhe naturalmente um grito de espanto, “Boca?”. Ele assustou-se, perguntou o que queria, ela balbuciou, “sou a nova empregada, a agência me mandou”. Dona Marília se aproximava, ouviu o diálogo de espanto entre os dois, conhecia a fama do marido das brincadeiras dos amigos, dispensou Rosa na hora, não serve, disse. Ao fechar a porta perguntou, que história é essa de Boca, ela é sua amiguinha? Conta tudo, vai, quero saber. Boca? É assim que elas lhe chamam?

Sinésio recuperou-se do susto, defendeu-se.

– Não é nada que você está pensando, me respeite, você ouviu mal, ela falou “Boa”, de boa noite, como você é maldosa. Sou um homem sério, me respeite.

Deixou Marília em dúvida, o fato caiu no esquecimento. Por via das dúvidas, a esposa contratou uma matrona de 56 anos, exímia cozinheira.

Sinésio, agora aposentado, foi eleito síndico do prédio, está implantando a coleta seletiva de lixo no edifício, na primeira reunião para informações e procedimentos com todas as secretárias (é assim que se chamam hoje as empregadas domésticas) dos apartamentos, Sinésio ficou fascinado, deu-lhe uma recaída ao ver mais de vinte “secretárias” a seu redor no decorrer da reunião. Pelo olhar, sentiu atração por duas. Sentiu-se no paraíso. Depois de vários anos, o Marechal Boca volta a atacar, já tem planos, sem perceber que o mundo mudou.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEMANA SANTA

Meus netos estão se empanturrados de chocolate para alegria da Nestlé e da Garoto. Essa invencionice comercial, venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. O ovo de chocolate e o coelho tornaram-se símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período apropriado à meditação, à oração, reverteu-se em festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, e chocolate é alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo.

Gosto das tradições, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois jumentos puseram em cima deles suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!”. Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam: “Quem é este cara?” E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.”

Assim aprendi nas aulas de catecismo no Colégio Diocesano (Marista). Essa parte da história de Cristo é muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois, traído e crucificado.

Entretanto, para moçada dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Ela iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, desfile de meninas bonitas, a moçada assistia a procissão na intensão de paquerar as belas alunas. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena se postar à beira da calçada assistindo a procissão se arrastando que nem cobra pelo chão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne, em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau ou arabaiana ao molho de camarão, feijão e jerimum ao coco, bredo; uma delícia. Pena que esses deliciosos manjares dos Deuses só venham à mesa na semana santa.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A moçada juntava-se em bando, cinco a seis moleques para “serrar velho”. A serração do velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Na Antiguidade reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho, na noite da quinta-feira santa serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado não chegava à próxima Quaresma. Na minha juventude fazíamos o ritual bem parecido.

Cantávamos alto tipo “incelênça” na porta de um velho conhecido:

“- As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”.

“- Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e líamos um bem humorado testamento em versos.

Os velhos ficavam irados. Levamos muitas carreiras. Seu Pádua, um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando cantávamos seu “testamento” jogou um penico cheio de xixi, me molhou da cabeça aos pés. Corri para casa, tomei um banho e retornei ao local do crime, onde os amigos estavam às gargalhadas.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios só tocavam músicas clássicas ou fúnebres, era proibido ir à praia, até sorrir. As prostitutas fechavam as portas dos cabarés de Jaraguá, e o balaio; nem pensar numa fortuita noite de fornicação.

Finalmente o sábado de aleluia. A moçada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público.

Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos vizinhos, dos pivetes.

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje acontece um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate e tomando vinho. Uma festa de celebridades.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

LENDAS ALAGOANAS – LENDA DA BARONESA

Em um cemitério de Paris, numa lápide havia um epitáfio:

“DULCE FARNESI de SFORZA, Baroneza de Rosenville, fidalga italiana, descendente dos Doges de Veneza. Casada com o nobre francês Barão Julien de Rosenville, senhor do Castello de L’ Etoille. Morreu numa lagoa da região de Pernambuco em terras dos Brasis, 1511.”

Alfredo Brandão, escritor e pesquisador alagoano, procurou desvendar o fato, e numa viagem à Itália, pesquisou sobre a genealogia dos nobres italianos. Depois de exaustivas pesquisas conseguiu reconstituir a história.

* * *

“Numa festa em Veneza, o Barão de Rosenville conheceu Dulce. A moça desfilava em uma gôndola, fantasiada de rainha do Adriático. O barão apaixonou-se perdidamente pela beleza, meiguice e bondade da jovem. Nessa época, toda a Europa falava do descobrimento da terra de Santa Cruz. O barão casa-se com Dulce e resolve viajar para a terra recém-descoberta. Por dois anos, habitou no litoral de Pernambuco junto à enorme lagoa Manguaba (Alagoas fazia parte da Capitania de Pernambuco, na época). Ali mandou construir uma casa senhorial – um galpão de madeira em forma de castelo – e junto a este foi edificado um fortim de pedras. O Barão comercializava pau-brasil, fornecendo a madeira aos traficantes, seus conterrâneos, que atracavam a nau no porto dos franceses (hoje praia do Francês). O Barão gostava de caçar durante o dia. À noite, estudava as estrelas, enquanto Dulce bordava. Os marinheiros e os índios tocavam viola e dançavam ao ar livre.

A jovem Baronesa encantou-se com a região. Adorava a Lagoa Manguaba, os passeios de canoa, tudo lhe lembrava Veneza, sua terra natal. A moça era doce como seu nome indicava. Sempre a sorrir, alegre e esvoaçante, gostava de montar em seu cavalo, que trouxera da Bretanha, vestida de amazonas, cabelos esparsos ao vento. Ela lembrava assim uma ninfa dos bosques, uma aparição das florestas, uma iara das lagoas. Os indígenas caetés tornaram-se amigos dos franceses, principalmente do casal.

Um dia, Dulce resolveu improvisar uma festa aquática, idêntica às de Veneza. Convidou os indígenas caetés da região, que compareceram em suas canoas adornadas de flores silvestres. Julien não pôde assistir à festa, tendo que ir à nau de D. Rodrigo D’Acunã, que nesse dia seguia para a Europa com um carregamento de pau-brasil. Foi despedir-se de sua amada, maravilhando-se com o que viu: Dulce pronta para partir para a lagoa, com seu séquito de moças caetés, belíssima, fantasiada de rainha dos índios. Vestia uma túnica branca. Presa à cintura delgada havia uma tanga de penas de arara. Sobre a cabeça, um cocar de plumas alvas. Nas orelhas, dois muyrakitãs de pedras verdes. Um simulacro de tatuagem, com as cores do jenipapo e urucum, de pintinhas azuis e rosadas, o colo alvo e os braços nus. O Barão não resistiu, abraçou-a e beijou-a ali mesmo em frente a todos.

Quando o cortejo da rainha passava em frente à barra, o vento Nordeste soprou rijamente. A maré enchente arrastou as canoas para o meio da lagoa onde se espalhava o encantamento da planta cheia de flores. Súbito, todos gritaram. A canoa da Baronesa afundara e desaparecera no turbilhão das águas e das plantas.

Quando o Barão soube da tragédia, louco de dor, auxiliado pelos seus marinheiros e os indígenas caetés, procurou o corpo da Baronesa durante o resto da tarde e durante toda a noite. Pelo amanhecer, viram no meio da lagoa um ajuntamento de flores alvas, pintadas de roxo e azul, tal qual Dulce se tatuara. Os índios mergulharam e, logo depois, trouxeram à tona a sua Baronesa, morta, muito pálida, mas muito bela ainda. O Barão, em sua dor, regressou à Europa, onde enterrou o corpo da amada em Paris. Triste e solitário, terminou seus dias no castelo de L’ Etoille. Os índios caetés, a partir desse acontecimento, deram à flor o nome de baronesa.”

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A ERRADICAÇÃO DA VELHA GONÔ

Durante a II Guerra Mundial aconteceram problemas com a população boêmia no Nordeste, houve proliferação de doenças venéreas, principalmente a gonorreia, a velha Gonô. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreia e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas, transmitindo moléstias à população nativa, foi considera epidemia na época.

Em Maceió houve um trabalho organizado contra as doenças venéreas. O Ministério da Saúde enviou remédios. Surgiram as camisinhas. O Governo enviou verba para uma campanha de prevenção.

O ponto mais visado foi o bairro boêmio de Jaraguá onde as raparigas exerciam seu trabalho. Naquela época as melhores mulheres frequentavam os casarões da Rua Sá e Albuquerque e adjacências

Todas as prostitutas passaram por rigoroso exame. O Posto de Saúde da Praça das Graças se encheu de mulheres na fila dos exames, tiravam a carteirinha de serviço com data de exame carimbado, havia espaço para notificar as revalidações.

A procura foi tão grande que abriram outro ponto de exame na Delegacia de Jaraguá. O delegado da época, Cabo Boaventura, se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o cabo-delegado fazia ronda diária fiscalizando se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas em dia.

Constatando alguma doença transmissível como gonorreia, cancro, etc., a jovem era obrigatoriamente internadas no Hospital de Doenças Tropicais para tratamento. Com a cura podia voltar à atividade, ao trabalho.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir a carteira das raparigas, pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram atualizadas no Posto Avançado da Erradicação de Jaraguá, com médicos fazendo exames diários e indicando o tratamento adequado se fosse o caso ou internando a portadora de DST (doença sexuais transmissíveis).

A atuação do Cabo Boaventura foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com suspeita de doença, ele mandava buscar para rigorosa investigação.

Foi formada uma rede de informações em vários cabarés. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam que eles estivessem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava o acusado para o posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o delegado, além de dar uma bronca no doente fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos” para descobrir a pessoa que lhe transmitiu a doença, e quem transmitiu a essa pessoa.

As diligências eram constantes. As pessoas transmissoras da doença eram intimadas a comparecerem à Delegacia até chegarem aos sadios. O Cabo Boaventura era rigoroso nas investigações.

Houve até problemas conjugais. O cabo obrigava ao portador da doença confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao final do novelo.

Em uma dessas investigações, Laurinha, uma das jovens mais requisitadas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu doente. O delegado a fez relacionar todos os parceiros da última quinzena. Na relação, havia gente conhecida, inclusive um capitão do Exército e um deputado. O delegado intimou todos os clientes de Laurinha, via carta entregue em mãos, para que fossem devidamente examinados e tratados.

Teve deferência especial com um deputado e um capitão do Exército. O cabo Boaventura visitou pessoalmente a Assembleia Legislativa e o 20º BC, juntamente com o médico, para que essas autoridades fossem examinadas. O trabalho imprescindível do zeloso Cabo Boaventura conseguiu erradicar as nefastas doenças venéreas da cidade trazidas pelos soldados americanos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VIVA AS MULHERES

Ricardo Diegues, digníssimo Promotor de Justiça no Sertão Pernambucano tinha sessenta e poucos anos quando enviuvou. Acostumado com ótima companhia de cama e carinho feminino, não durou sua viuvez, logo paquerou uma bela morena sertaneja, cantora amadora nas festinhas da cidade, Ana Maria, 21 anos, tinha sonho em ser cantora profissional e famosa. Enquanto não chegou a fama namorou o coroa mais disputado em todo sertão. Ricardo, além de ser um homem parrudo, bonito, era excelente companheiro com seu bom humor, sua sabedoria, Eram felizes, a namorada não reclamava dos afagos, da competência, da constância e dos ensinamentos do companheiro, apesar da diferença de idade viviam no cotidiano básico, normal, claro que a ajuda da azulzinha melhorava a vida do casal.

Até que um dia, sempre tem um dia… Aninha desconfiou que havia alguma coisa no ar. O sexto sentido feminino funcionou, resolveu seguir os passos do Dr. Ricardo e o pegou em flagrante no seu carro numa estrada deserta embaixo de uma jaqueira se enganchando com uma mulher mais velha, uma coroa bem cuidada.

Em casa, durante a separação, Aninha fez aquela célebre pergunta: “O que ela tem que não tenho?” O sessentão com a sabedoria dos mais vividos, acariciando as faces da jovem respondeu: ”Experiência e estrada de vida!”

Deus quando elaborou o projeto do Mundo colocou a mulher como a criatura mais semelhante à sua imagem. Uma mulher depois dos 40 anos é o estágio mais avançado do ser humano, perto do sublime, do divino. Nessa fase a mulher alcança o auge da sabedoria, da experiência, da sensibilidade, da sensualidade, do despudor.

A mulher amadurecida é apetitosa que nem manga espada madurinha, daquelas que dá vontade de descascar e abocanhar, uma mulher madura não precisa descascar, já está pronta.

A jovem de 20 anos lê o Kama-Sutra, a coroa de 50, pratica. Nada contra a juventude, é o encanto dos olhos, fantasia de desejos, êmulo do sentido. Quanto ao sexo feminino aprecio de Nabokov a Balzac.

No mundo moderno viver a vida não é mais privilégio exclusivo dos jovens. A nova geração de coroas continua trabalhando, amando, em todos os lugares, nos lares, nos bares, nos mares, encarando a vida, dançando, sorrindo, sentindo. Os mais velhos não se entregam, querem viver, apreciar os encantos, as magias, os mistérios mais simples da vida. A mulherada de nossa geração muito contribuiu na mudança dos costumes, um presente de nossa vida.

A maior revolução da história da humanidade não foi a Queda da Bastilha, nem a Revolução Russa, foi a das mulheres no século passado, ganhando seus merecidos lugares dentro da sociedade.

Venceram preconceito, intolerância. No dia que as mulheres tiverem mais poder, mais comando; quando tiverem as rédeas do mundo, a humanidade será mais bela, mais gentil, mais generosa, mais tolerante. Vejam o exemplo onde existe opressão contra as mulheres, onde reina o machismo exagerado, nos países como Irã, Iraque, Afeganistão, campeia a violência.

Prestemos homenagens à geração dessas mulheres maduras e corajosas, fizeram a revolução sexual e feminina no final dos anos 60. O mundo não foi mais o mesmo graças à coragem dessas mulheres belas, cheias de charme, que estão aí em sua plenitude.

Além disso, a mulher madura tem o instinto maternal mais exacerbado. A mulher que é mulher, não basta ser boa na cama, tem que fazer o papel da companheira, namorada, amante. A vida floresce na mulher aos quarenta, cinquenta, sessenta, setenta e tantos anos. Nada melhor, nada tão atraente quanto a sexualidade, a experiência, da mulher madura, gostosa que nem uma pinha madurinha da Palmeira dos Índios.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

WALDEMAR FOSSE MÃE

Waldemar aportou em Maceió nos anos 60, vindo de Santo Amaro da Purificação, terra de celebridades: Caetano e Bethânia. Muitos baianos, naquela época, vinham tentar vestibular de engenharia em Alagoas pensando ser mais fácil. Waldemar penou com duas tentativas seguidas. Na terceira conseguiu entrar na faculdade. Hoje é engenheiro aposentado da rede ferroviária.

Naquela época Waldemar morava no Hotel Atlântico, praia da Avenida da Paz. Em vez de estudar, vivia na praia organizando “baba”, pelada, como chamam os baianos, e paquerando as meninas pudicas que vestiam comportados maiôs.

Ele não teve coragem de falar para os pais ter sido reprovado no vestibular. Deram uma festa de arromba quando retornou à fazenda do velho. Todos crentes que nosso amigo retornava para Maceió para cursar engenharia.

Assim Waldemar passou dois anos em Maceió vagabundeando com uma boa mesada. Ele gostava de se exibir com os amigos, pagando uma conta aqui, outra acolá. Fez boas amizades por conta disso e de sua simpatia.

Acordava-se por volta das nove horas da manhã. Tomava o café matinal no Hotel Atlântico e descia à praia da Avenida com uma bola couraça. Na extensa areia dura da praia dava um chute na bola para o alto, era o sinal que havia chegado, começava o baba entre os desocupados que ficavam esperando pela pelada do “Baiano”. Depois da pelada e de um bom banho de mar com direito a algumas braçadas para estirar os músculos, Waldemar procurava alguma paquera. Era esse seu ponto fraco: mulheres.

Namorou algumas jovens bonitas da cidade, mas seu habitat era a zona de Jaraguá, frequentava religiosamente os cabarés. Waldemar, o dono da zona, ficou íntimo de Mossoró, o rei da noite. Era o queridinho de todas as raparigas. Além de bom pagador, tratava todas com carinho e respeito. Isso enfeitiçou as quengas acostumadas com muitos clientes grosseiros.

Numa noitada na Boate Tabariz, ele contou numa roda de amigos, a história do seu apelido: “Waldemar Fosse Mãe”.

Quem não tem uma prima, uma tia jovem, uma parenta que de quando em vez, se hospeda em sua casa? Pois Waldemar também tinha na época de sua adolescência. Sua tia Leninha passava alguns dias na fazenda da irmã, em Santo Amaro da Purificação. No mês de janeiro a fazenda se enchia de parentes e aderentes. Tia Leninha tinha o privilégio em ter um quarto exclusivo, bem junto ao principal banheiro da casa grande. Certa noite, Waldemar acordou-se com a bexiga cheia. Para entrar no banheiro tinha de atravessar o quarto da tia Leninha. Ao abrir cuidadosamente a porta, Waldemar teve um susto quando viu sua amada tia deitada em decúbito dorsal, apenas de calcinha preta, dormindo como um neném. Com o coração disparado, o sangue fervendo, andou na ponta dos pés em direção ao banheiro sem perder de vista aquela bunda magnífica coberta apenas por uma minúscula calcinha. Entrou no banheiro, fez o serviço, retornou no mesmo ritual. Pecou sozinho entre os lençóis de sua cama.

Dia seguinte no café da manhã, sua tia cochichou no ouvido: “Eu lhe vi, ontem à noite!” Waldemar não conseguiu sossegar o espírito, durante todo o dia vinha-lhe a imagem da tia deitada na cama, o detalhe da calcinha de renda preta lhe excitava, lhe deixava louco.

O ritual se repetiu por mais três noites. Ele levantava-se, passava pelo quarto da tia, ficava contemplando aquela beleza. Só sossegava na cama entre suas mãos. Tia Leninha, durante o dia, continuou provocando com olhares lânguidos e sorrisos marotos.

Na quinta noite, Waldemar estava a ponto de bala, só pensava na tia. Havia passado da meia-noite quando ele abriu a porta do quarto. Sua tia estava deitada, nua em pelo. Ele endoidou, não conseguiu conter-se, quando se deu, estava por cima da tia Leninha, que o segurou repreendendo: “Sou sua tia, menino!!””

Ele virou-a. Antes de beijar na boca, deu um grito sussurrante: “FOSSE MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!”. A tia lhe abraçou às gargalhadas, arranhando suas costas.

Pela manhã, feliz da vida, contou sua aventura, entre juras de segredo, em maior confidência, a seu amigo mais íntimo, Carlos Romeu, “Boca de Ponche”. A partir desse dia toda Santo Amaro da Purificação soube da história. E nosso herói ficou conhecido até hoje como “Waldemar Fosse Mãe”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARNAVAL É COISA SÉRIA

“Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou… E no entanto é preciso cantar…”

A Marcha da Quarta-feira de Cinzas de Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes ecoa em todo Brasil depois de quatro dias de Carnaval. Há quem diga que as coisas no Brasil só funcionam depois do Carnaval. Pode até ser na Ilha da Fantasia, Brasília, onde Podres Poderes vivem nababescamente. Mas o brasileiro comum, do grande empresário ao operário, dia 2 de janeiro já estão no batente para sustentar sua vida e pagar os impostos.

Mas voltemos ao Carnaval. As Escolas de Samba e Blocos estão se reunindo pensando no Carnaval de 2025. Isso mesmo Carnaval é coisa séria, é emprego e renda. Em muitos locais profissionalizaram carnavalescos e planejadores de captação de recursos. Os ingleses há pouco tempo inventaram o termo Economia Criativa, ou seja a economia, o dinheiro gerado pela criatividade humana e o Carnaval Brasileiro é a síntese dessa Economia Criativa, onde pequenos empresários, tipo: ambulantes, taxistas, costureiras, músicos, montadores, pousadas, hotéis, restaurantes e outros são os maiores beneficiários. Carnaval é um grande negócio, que digam as cidades de São Paulo, Rio, Salvador, Recife, entre outras que começaram a se estruturar durante o Carnaval.

Há oito anos que um grupo de foliões formaram blocos para desfilar no domingo de carnaval na orla de Maceió. Nosso carnaval se restringe a esses Quixotes que há oito anos não deixaram a peteca cair, pelo menos no domingo de carnaval. Nos outros dias de carnaval Maceió fica uma tristeza. A burguesia, mais de 200 mil habitantes, viaja para assistir os carnavais de outras cidades. A estrutura carnavalesca da cidade para os 800 mil habitantes que ficam em Maceió é pífia, o maceioense não tem direito à maior manifestação cultural popular do brasileiro, a alegria fugaz que se chama carnaval.

Esse ano de 2024 também viajei, não pude recusar o convite da Diretoria da Escola de Samba Beija-Flor que desfilou com o tema: “Um Delírio de Carnaval de Maceió de Rás Gonguila.” Homenageando Maceió e o meu amigo, carnavalesco dos anos 50/60, Gonguila.

Comprei passagens e hospedagens. Minha esposa e uma filha me acompanharam na aventura carnavalesca. Ao chegar ao Rio de Janeiro fui ao Barracão da Beija-Flor na Cidade do Samba, uma descomunal estrutura para as Escolas de Samba. Fiquei impressionado. Durante o carnaval dei um bordejo nos bairros mais badalados, Copacabana, Leblon e Ipanema, nunca vi tantos blocos. Os cariocas se fantasiam para desfilarem nos blocos, ou para ir à praia ou tomar chope nos restaurantes. As cariocas charmosíssimas veste um biquíni e uma flor no cabelo, estão fantasiadas. Nunca vi tantas mulheres bonitas e bundas tão maravilhosas.

Afinal domingo à noite o desfile da Beija-Flor, fantasiado de Guerreiro me colocaram em cima do carro alegórico representando a cultura alagoana, junto com Cacá Diegues, Márcio Canuto, Yara Pão, Setton Neto, Guga Rocha, entre outros.

Tive muitas emoções em minha vida, mas nunca igual a desfilar num carro alegórico da Beija-Flor com as alas de sambistas fantasiadas de folguedos alagoanos. O desfile das Escolas de Samba do Rio é considerado o maior espetáculo da Terra. Dançando e cantando o samba enredo inspirado em minha amada cidade: “Em Maceió, o Paraíso deu à luz a um menino… à beira-mar nascia um Rei… Que o senhor das ruas deu o seu caminho…”

O sambódromo lotado cantava e aplaudia, eu era apenas um entre os 3.500 componentes da Beija-Flor. Cheguei a pensar que todas as palmas eram para mim, bela e louca ilusão explodiu meu coração, chorei de emoção…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DOMINGÃO DE CARNAVAL

Quem foi quem disse que em Maceió não tem carnaval?

Olha aí o que copiei do site da Prefeitura de Maceió. Serão 4 dias de carnaval todas as noites no bairro histórico de Jaraguá.

“Em Maceió, a população e os turistas já podem se preparar para viver os quatro dias de frevo e folia na cidade mais bonita do Brasil. O histórico bairro de Jaraguá irá se conectar com a cidade de Nilópolis – RJ e receberá o QG do Rás Gonguila.

Com uma programação diversa, os artistas locais serão os responsáveis por agitar a folia de Momo. De sábado (10) a terça (13) o público contará com orquestras de frevo, bandas de samba, pagode, axé e muito mais. Durante os quatro dias de festa, a Rua Sá e Albuquerque terá o frevo ecoando das 16h às 18h. Já na Praça Dois Leões, as bandas estarão presentes garantindo a folia. Na terça-feira, já no clima de despedida, haverá um arrastão do trio elétrico, que sairá do Estacionamento de Jaraguá, passará pelo Coreto e irá finalizar voltando para o local de início, daquele jeito massa de Maceió. Além disso, para torcer e festejar a Maceió de Rás Gonguila na Beija-flor de Nilópolis, haverá a transmissão do desfile no dia 11, a partir das 23h, e da apuração do votos na quarta-feira de cinzas.”

ROGÉRIO DYAS – No sábado comanda a folia no Bom Parto com os Blocos do Bobo e Sururu na Lama

DOMINGÃO NA ORLA

Já no domingo dia 11 de fevereiro o Bloco da Nega Fulô prepara-se para mais uma edição, prometendo muita animação e inclusão.

Fundado em 2016, o Bloco da Nêga Fulô tem se destacado como uma opção alternativa e acolhedora para os foliões locais, atuando com o objetivo de resgatar a tradição do Carnaval de rua em Maceió. Neste ano, o desfile irá acontecer no dia 11 de fevereiro, domingo de carnaval, e terá concentração na Praça Sete Coqueiros, a partir das 14h. O desfile do Bloco da Nega Fulô proporciona um espetáculo descontraído com uma banda animada, pé no chão e um mini trio elétrico. O evento atrai uma média de 500 pessoas a cada ano, consolidando-se como uma celebração familiar e livre de incidentes. Em 2024, o tema do desfile será “O Circo Vem Aí” e a grande homenageada será Peró Andrade, artista que dedicou sua vida ao circo, trabalhando arduamente tanto dentro quanto fora dos picadeiros. A homenagem visa reconhecer o valioso legado de Peró para a comunidade circense.

O desfile também contará com uma ala especial dedicada aos cadeirantes, o que reforça o compromisso do bloco com a inclusão social e a acessibilidade, proporcionando uma experiência de Carnaval para todos os participantes.

Os blocos “Mamãe Eu Quero”, “Bloco dos Bonecos”, “Sonho Encantado” e “Só Vai Quem Chupa” irão se juntar ao Bloco da Nêga Fulô nesta grande festa carnavalesca no dia 11 de fevereiro, formando o Domingão de Carnaval na Orla.

Não existe corda, nem exigência de camisas dos blocos, todos podem entrar na folia. Haverá um concurso da melhor fantasia. Saída dos blocos às 14.30 da pracinha dos 7 Coqueiros.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BANHO DE MAR À FANTASIA

Em Maceió, os carnavais de outrora eram a suprema alegria, alto astral fazia bem ao espírito e à cabeça dos foliões dessa terra bonita, onde todos se conheciam, se amavam. No carnaval a ordem era cair no passo, dançar o frevo, sambar, se esbaldar, curtir, namorar.

A temporada carnavalesca começava com o chique Réveillon do Clube Fênix, logo após vinha o esperado Baile de Máscaras, só entrava com fantasias e máscaras obrigatórias ou traje a rigor. Os foliões pulavam até o Sol raiar e um banho de mar amanhecendo o dia na praia da Avenida da Paz. Enquanto a moçada esperava o carnaval, aos sábados tinham as festas pré-carnavalescas: Noite no Havaí, Preto e Branco, Baile Tricolor. Os surdos e tamborins começavam a esquentar nessas festas, onde a paquera era escancarada.

Durante a quinzena anterior ao carnaval, a Prefeitura organizava uma animada Maratona Carnavalesca toda noite na Rua do Comércio, com corso de carros rodando e muito frevo. As jovens desfilavam sentadas nos para-lamas dos carros, jipes e caminhonetes. Em cada esquina havia uma orquestra tocando o frevo. Ali se misturava a burguesia, a classe média, o povão, os estivadores, as empregadas, soldados, pedreiros, lavadeiras. A Maratona Carnavalesca emendava com o carnaval, só terminava quarta-feira de cinzas.

No domingo anterior ao carnaval a Avenida da Paz lotava de gente de toda espécie e classe social. A partir das oito da manhã começavam a aparecer as troças, as fantasias, as críticas, os blocos de frevo, as Escolas de Samba para o grande desfile do Banho de Mar à Fantasia coordenado pela COC – Comissão Organizadora do Carnaval da Prefeitura de Maceió. Nas imediações do Clube Fênix um palanque dava guarida para uma banda tocar músicas de carnaval e o povo na rua pulava e dançava até mais tarde no maior calor. Depois de passar pela Comissão Julgadora, alguns fantasiados caiam no mar, um mergulho com fantasia no corpo, na água límpida do mar da Avenida da Paz.

Iniciava o desfile oficial perante o palanque com os jurados escolhidos pela COC para entregar as taças de campeão. Primeiramente vinham as críticas e troças com a irreverentíssima turma do Bráulio Leite, Santa Rita, Rubens Camelo, Vadinho, Alipão, João Moura, Pitão, Napoleão. Esses não perdoavam governo e governantes. Depois vinham fantasias. Tarzan e sua esposa eram o casal devorador de prêmios. Havia um grande folião, Fusco, militar da aeronáutica sempre gozava um enredo de um filme da época. Certa vez, o filme do momento era “Amar foi minha ruína”, Fusco fantasiou-se de moça grávida, e nas costas, um cartaz: “Amar foi minha ruína”. Lincoln Jobim um especialista, fantasiava-se de Seu Fortes, um louco conhecido na cidade, maltrapilho, à sua volta alguns cachorros, Lincoln era um artista, imitava Seu Fortes melhor que o próprio.

O desfile finalizava com a competição entre os blocos carnavalescos: Vulcão, Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua, Vou Botar Fora, Cara Dura, Cavaleiro dos Montes, Amigo da Onça, disputa era acirrada.

Depois de passar pelo palanque dos jurados e receberem prêmios, os blocos continuavam arrastando as multidões pela avenida, atravessavam a ponte do Salgadinho e perto do coreto entravam na Rua Silvério Jorge, onde o general Mário Lima, em sua casa, esperava cada bloco com bate-bate de maracujá, cerveja gelada e um bom tira-gosto para os músicos. O bloco tocava 4 ou 5 frevos, depois seguiam em frente; outro bloco já estava na porta. Minha casa era uma festa, amigos dançavam, faziam o passo na enorme varanda durante o restante da tarde-noite.

Figuras das mais conhecidas entravam no embalo, badaladas senhoras, misturavam-se com o povão, era a democracia carnavalesca. Atrás dos blocos pulavam engenheiros e serventes, médicos e enfermeiras, capitão e soldado, filhas de Maria e prostitutas. Os blocos terminavam de tocar em minha casa ao anoitecer, antecipando o carnaval. Namoros feitos, outros desfeitos, a alegria do carnaval tomava conta da juventude.

À noite o povão voltava para suas casas. Cansados, os blocos recolhiam seus estandartes esperando o carnaval chegar na próxima semana.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

QUEM SERÁ O BENEDITO DA BEIJA-FLOR?

O Samba Enredo de 2024 da Escola de Samba Beija-Flor, começa com o refrão cantando o coroamento de Benedito:

“Aqui é Beija-Flor doa a quem doer
Do gênio sonhador, a gana de vencer
Tá no meu peito, tá no meu grito
Escola de respeito que coroa Benedito.”

Quem será o Benedito? O próprio enredo da Beija-flor esclarece:

“Uma delícia de carnaval na Maceió de Rás Gonguila”

Com um samba para lá de animado, enaltecendo a cultura popular, a Escola de Samba Beija-Flor esse ano homenageia a cidade de Maceió e um de seus carnavalesco: Benedito dos Santos ou Rás Gonguila, um homem amado pelo povo, dedicou sua vida à cultura popular. Um líder em seu bairro, Ponta Grossa, criou e desfilava comandando o Bloco Cavaleiro dos Montes e durante as festas natalinas ele alegrava o povo com apresentação dos folguedos populares, pastoril, coco, samba de roda, guerreiro, chegança e outras danças da Soberania Popular.

Meu amigo era um ser humano especial, inesquecível. Engraxate com banca na Rua do Comércio; Rás Gonguila, negrão forte, alto, espadaúdo, tornou-se uma figura popular. Ele se dizia príncipe africano, descendente de Reis e Rainhas da Etiópia, fazia questão de ser reverenciado pelo título nobiliárquico africano: Rás (príncipe etíope). Sua ancestralidade vem da Etiópia e da República dos Palmares, onde os escravos fujões formaram uma comunidade na Serra da Barriga. O Negrão era bom, os clientes faziam fila, esperando a vez para sentar na cadeira na Rua do Comércio. Eram funcionários, poetas, amigos; ficavam na fila, conversando potocas. A cadeira de graxa de Rás Gonguila tornou-se ponto de encontro.

O Negrão, líder popular, era Rei na periferia, respeitado, ouvido e querido. Naquele tempo não havia associação de moradores, eles se reuniam em busca da sobrevivência, da melhoria de qualidade de vida e diversão de sua comunidade.

Certa vez, Theobaldo Barbosa, político sagaz, inteligente, coordenador da campanha para governador de Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello), falou para o chefe, que havia feito excelente contato a maior liderança dos bairros da Ponta Grossa e Vergel do Lago, um negro forte chamado Gonguila. Marcaram uma reunião numa noite de sexta-feira. O galpão lotou de gente, pescadores, marisqueiros da lagoa Mundaú, havia mais de 400 pessoas.

Arnon e Theobaldo desceram do carro. Arnon admirou a estatura elegante do líder, Gonguila vestido de branco. No momento ele esqueceu o nome do Negrão e perguntou em voz baixa para Theobaldo, que cochichou no ouvido de Arnon: Gonguila!

O Negão aproximou-se e estendeu a mão a Arnon, dando “boa noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo gentilmente: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!,” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negrão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos.

Em Maceió no domingo anterior ao carnaval acontecia o Banho de Mar à Fantasia na Avenida da Paz, com desfile de blocos, escolas de samba, troças. Depois do desfilar perante a Comissão Julgadora, Gonguila rumava para minha casa com o Bloco Cavaleiros dos Montes, onde estava esperando bebida e comida para os músicos. A orquestra tocava 3 ou 4 frevos, a juventude dançava e cantava no amplo terraço de minha casa. Em seguida saía e entrava outro bloco, até o anoitecer minha casa era uma festa.

Assim era o Benedito: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de semianalfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança e amor à cidade. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Rás Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.

O poeta Jucá Santos e o jornalista Alves Damasceno nos legaram o belo frevo canção: “Evocação de Alagoas, que termina com esses versos saudosos:

“…os coqueirais de Altavilla…E o “Cavaleiro dos Montes”… Quero evocar sem demora…Na imagem de Rás Gonguila” .

Nesse carnaval de 2024 a Escola de Samba Beija-Flor vai cantar a cultura popular e a Soberania Popular do Benedito. Vai arrasar na Sapucaí com belíssimas fantasias inspiradas no folclore alagoano. E eu lá desfilando e cantando com emoção.