CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARTA AO RONALD

Meu querido amigo, meu irmão.

Hoje é sábado, nove horas da noite, sentei-me em minha vistosa varanda, sozinho, abri a garrafa de John Walker Blue, levantei o copo em direção à lua deslumbrante iluminando o mar e a praia da Jatiúca, antes do primeiro gole fiz um brinda a você, meu querido Ronald. Nesse momento minha mão trêmula de 81 anos tenta escrever-lhe uma carta em forma de garranchos. Amanhã passo ao computador, o brinquedo preferido na senilidade. Hoje cedo uma força estranha exortou-me à sua lembrança, são muitas e consigo transformar as saudades em boas recordações. Pela manhã fui resolver um problema em Bebedouro. Deu-me uma dor no coração ao ver o bairro que você nasceu e tanto amou. Está arrasado. Parece que um furacão passou destruindo os telhados ou que alguma bomba desviada da Síria explodiu o belo e histórico bairro. Bebedouro em ruínas é de fazer chorar. Em outras eras foi o bairro mais chique da cidade; imponente, com casarões, colégios e prédios de elegante arquitetura. Foi-se uma parte da história viva de nossa cidade. Você, Ronald, foi o bebedourense mais apaixonado pelo bairro, junto ao Major Bonifácio. Ano passado em uma palestra na Festa Literária de Fernão Velho você emocionado, orgulhoso, olhos mareados contou sua infância livre e solta no amado bairro belo e nobre. No entanto uma bomba subterrânea em forma de mineração irresponsável penetrou no subsolo da região. Ganância da fábrica química Braskem em busca da Salgema fez ceder o solo, acabando com seu bairro de Bebedouro, tão rico de cultura e história que tanto envaidecia seu sentimento de pertencimento. É de fazer chorar, meu amigo, Ronald.

Antes do almoço parti para o Acarajé do Alagoinha, esperando amigos contumazes sentei-me à mesa. Ao tomar a primeira cerveja, olhando ao redor da praça, veio-me a sua imagem. Que papos maravilhosos e inteligentes junto com Carlinhos Méro, desde literatura, política, sacanagem ou nossa Academia Alagoana de Letras e assistir ao desfile de bonitas mulheres passando, que não somos de ferro. O Caiubi me trouxe acarajé, outra cervejinha e recordou o Dr. Ronald que ele queria tanto bem. Você nem imagina quantas pessoas se encontram comigo, sabendo de nossa amizade, comentam pesarosos sua ida. Dr, Ronald querido da comunidade de Maceió, fazia parte da estrutura viva da cidade. Sem falar nos seus alunos, seus pacientes que lhe idolatravam. Você será, por muitos anos, reconhecido e amado pelo tratamento humano aos enfermos de todas as classes sociais.

Sinto falta não só da presença do amigo predileto, sinto falta de seus escritos inteligentes, sua verve sutil, crônicas graciosa, elegantemente debochadas, às vezes ferinas, satíricas. Ah! Como eu me deliciava com suas crônicas. Com mais uma cerveja e acarajé veio-me detalhes de sua eleição na Academia Alagoana de Letras, campanha divertida. Eu você e a Nadja em seu apartamento telefonando para os acadêmicos pedindo votos. Foi uma linda e merecida vitória, você venceu disparado. Logo se tornou uma liderança dentro de nossa Academia. Sua cultura, sua inteligência, sua medicina estão fazendo falta às Alagoas. Será difícil um substituto à sua altura.

Aqui da varanda, em noite clara vejo alguns coqueiros balançando, como balança minha cabeça ao encarar mais outra dose desse uísque fantástico que não dá ressaca. Na verdade ainda não digeri sua partida, é difícil Ronald. Meu consolo foi ter privado de sua amizade, de sua inteligência, sua força em horas cruéis junto com Nadja. Resta pouco tempo para nos encontramos. Eu seguirei em forma de cinzas jogadas ao mar da Avenida quando chegar a hora. A inexorabilidade do tempo é a única certeza. Vânia está aqui perto, manda-lhe um abraço. Pedi, ela entrou no Youtube, o som alastrou-se com a divina música, La Vie em Rose. Parece que estou lhe vendo com um microfone cantando sua música predileta: “Quand il me prend dans ses bras.. Qu’il me parle tout bas.. Je vois la vie en rose…Il me dit des mots d’amour… Des mots de tous les jours..Et ça me fait quelque chose….”

Outro uísque, as lembranças me emocionam, faz bem deixar as lágrimas rolarem, ouvindo músicas que enlevam a alma. Minhas letras já não são mais garranchos, será tarefa difícil traduzi-las no computador. Vou ficando por aqui, me despeço recitando um poema de John Donne, meu poeta inglês preferido, que diz mais ou menos assim: “Nenhum homem é uma ilha, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Os sinos dobram por mim, por Nadja, filho, nora, neto, Claiton, Socorrinho, dobram por seus amigos. Até mais ver meu querido amigo. Não se esqueça! Reconheça-me. Eu chegarei em cinzas molhadas no mar da Avenida da Paz. Ainda entorno outra dose antes de dormir. Beijo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CIDADÃO DE MACEIÓ

Mar de Pajuçara

Desculpem meus leitores, hoje não vou escrever. Vou homenagear um amigo, companheiro de profissão, engenheiro, e de cervejinha aos domingos na Barraca Pedra Virada, cronista da cidade, também gostava de versejar. Foi embora nesses tempos horríveis de tantas mortes. Reproduzo seus versos de amor rabiscado na mesa do bar. Para finalizar um texto de uma mineira que visitou a cidade.

* * *

CIDADÃO DE MACEIÓ. – José Arnaldo Lisboa Martins. (engenheiro e poeta)

Quando DEUS criou o mundo. E resolveu descansar
Veio aqui pra Maceió. E não queria voltar

Fez daqui seu paraíso. Deu-lhe um lindo céu de anil
Transformou nossas lagoas. Nas mais lindas do Brasil

Criou nelas nove ilhas. E um viçoso manguezal
Fez praias de areias alvas. De Ipioca ao Pontal

Fez um mar esverdeado. Um luar encantador
Um coqueiral verdejante. E um povo de valor

Foi até nossos mirantes. Viu praias e o coqueiral
Ficou dizendo baixinho: “Eu nunca vi coisa igual!”

Ele muito se orgulhava. Das coisas boas que fez
E citava Maceió. Onde passou mais de um mês

Gostou muito de peixada. De camarão e pitu
De caranguejo e siri. De lagosta e sururu

Tomou banho em Pajuçara. Encantou-se com a beleza
E chamava a linda praia. Pupila da natureza

Nos domingos ensolarados. Nas piscinas naturais
DEUS passava o dia inteiro. E não esquece jamais

Acordava bem cedinho. Na Jatiúca a andar
Na Manguaba e Mundaú Ele adorava pescar

Andou de lancha e jangada. E num veloz jet-sky
E disse pra Adão e Eva:. “Vou deixar vocês aqui!”

Ao terminar seu descanso E aproveitar do melhor
Ele mesmo se intitulou: CIDADÃO DE MACEIÓ

* * *

O MAR DE MACEIÓ SUPERA TODAS AS EXPECTATIVAS – Cláudia Tonaco

Bem que Sebastião Nery tentou me avisar que o mar de Maceió era maravilhoso, de águas quentes e limpas, mais de nada adiantou sair de casa preparada levando na bagagem todos aqueles objetivos e elogios rasgados preferidos pelo ilustre jornalista baiano. Por mais que estejamos preparados à experiência que se tem ao chegar em Maceió é muito maior e, de tão incrível, da até para chamá-la de um verdadeiro choque sensorial.

O que mais poderia descrever o fato de acordar sai em direção à praia e dar de cara com um mar que ate então você jamais viu? O mar de Maceió não é qualquer um. Depois de conhecer o esplendor do mar de Alagoas, a gente entende que todos os outros se transformaram em protótipos. Maceió tem o que poderia se chamar de um mar definitivo.

Olhar para aquela beleza liquida é como ser atropelado como vagalhão luminoso e, a partir daí, começa a flutuar num paraíso de águas. Quem conhece as Praias do Francês, Ponta Verde, Maragogi e a fantástica Praia do Gunga sabe muito bem do que eu estou falando.

Na capital de Alagoas o maior prazer é sentar e deixar a paisagem perfeita entra pela retina: os coqueiros inclinados na areia dançando com o vento, a harmoniosa mistura musical da brisa com as outras quebrando ao fundo, o colorado preciso dos guarda-sóis combinando com as toalhas e trajes de banho e o branco das velas enfurnadas rasgando o mar e o céu, dois dos azuis mais belos que existe na face da Terra.

O sol de Maceió aprendeu as regras da hospitalidade com o povo alagoano e, misturado à brisa fresca, toca os banhistas de maneira delicada e generosa. E ao fundo surge aquela imensidão verde-azul-turquesa real radiante, às vezes fosforescendo, que ganha cores de prata na lua-cheia e toques de ouro no amanhecer ou no pôr-do-sol.

Em Maceió, as férias se transformam numa regalia para os cinco sentidos e os visitantes mergulhados num mundo que aguça a percepção e a sensibilidade. Eu não quero outro em minha vida. Daqui para frente, quando pensar em mar, estarei sempre pensando no de Maceió.

Artigo publicado na coluna VIAGENS GERAIS no jornal O TEMPO de Minas Gerais.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BAIANINHAS AVANÇADAS

Seu Magalhães, alto funcionário federal, foi transferido da cidade de Salvador para trabalhar em Maceió. Além da mudança trouxe a família. A mulher Luíza e as filhas, três moças bonitas: Betinha, Licinha e Lourdinha, três baianinhas modernas.

Magalhães alugou um sobrado nos arredores da Ladeira do Farol. Com pouco tempo ambientou-se com gente importante da cidade. Tornaram-se frequentadores assíduos de sua casa algumas figuras da política, do comércio e da justiça alagoana. Autoridades civis, militares e eclesiásticas, não perdiam a feijoada de sexta-feira na casa de Magalhães.

Graças à modernidade e o modo acolhedor de sua bonita esposa e filhas, Seu Magalhães, com pouco tempo morando na cidade, já era considerado o maior corno de Maceió.

Sua casa era uma festa. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados. Como também amigos que as meninas faziam na escola, na praia, na rua.

Dona Luíza e suas diletas filhas tinham um comportamento bem avançado para aquela época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Magalhães eram dadas às coisas muito mais avançadas. Elas inventaram a moda de “ficar”. Não tinham namorados fixos; o primeiro a chegar tinha direito de arrastar para onde fosse melhor passar algum tempo no xumbrego. Era namoro de alta rotatividade.

Os que tinham carro levavam vantagem. Mesmo assim, sobrava carinho para os mais jovens, os universitários, os jovens que faziam a alegria da cidade.

Eu havia chegado de férias em Maceió. Fardado de cadete do Exército da Academia Militar das Agulhas Negras tomei um ônibus na Avenida da Paz para me apresentar no 20º BC. Quando parou em um ponto na Rua do Sol entrou uma moça de pele rosada, cabelos castanhos cacheados, com um decote chamativo. Olhou para os passageiros do ônibus, sorriu, dirigiu-se e sentou-se a meu lado. Com um sorriso franco iniciamos uma alegre e interminável conversa. Assim fui convidado e passei a ser assíduo frequentador da casa de Seu Magalhães nas feijoadas das sextas-feiras. Era muito bem tratado.

Durante a semana, a casa era tranquila, a madame e as filhas arranjaram empregos na Assembleia Legislativa e no Tribunal. De qualquer forma às noites eram animadas.

Naquela época em Maceió havia o elegante Baile de Máscaras um mês antes do carnaval no Clube Fênix Alagoana, o mais aristocrático da cidade. Era um baile chique. Só entrava fantasiado ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite. Festa animada, bonita e tradicional.

Como era em benefício a um Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso apenas para sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa, todos podiam comprar. As fantasias também eram suntuosas.

Durante o Baile, eu notei que junto a mesa de minha família havia uma mesa com um grupo de odaliscas animadas comandada por um marajá. Falaram comigo animados, mas só descobri que era Seu Magalhães, a mulher e filhas, quando a Licinha passou por mim, me arrastou para o meio do salão, dançamos, nos divertimos com as marchinhas e frevos tocados pela Banda do Passinha. Eu, solteiro, dava volta nas beiradas do salão e a Licinha cumprimentava os figurões num aceno de mão. Eles ficaram intrigados tentando descobrir quem era aquela Odalisca de barriga tão bonita, a máscara sobre o rosto não dava para reconhecer. Quando deu meia noite, alguns foliões tiraram a máscara inclusive, o Magalhães e família.

À medida que os sócios do Clube Fênix que eram sócios também da casa do Magalhães perceberam a mesa animada das odaliscas, o harém, ficaram preocupados. Muitos eram casados, noivos, outros estavam com a namorada no baile. Foi um reboliço. Alguns senhores evitavam passar pela mesa das Odaliscas, região de provável conflito árabe.

Certo momento eu percebi que um dos diretores foi conversar com Seu Magalhães. Ele levantou-se, caminharam para um jardim discreto no lado de fora do ginásio. Passaram quase uma hora conversando, enquanto isso as baianinhas assanhadíssimas, sem máscaras, rodavam pelo salão, cumprimentavam os amigos, sem cerimônia, algumas esposas perguntaram quem era aquela sirigaita. .

Seu Magalhães retornou à mesa, confabularam. Em pouco tempo a família se retirou do clube sem chamar atenção. Praticamente expulsaram a família das baianas do clube. Contudo, Seu Magalhães nem estava aí, nem se sentiu humilhado, fez um cálculo do valor da mesa comprada, dos gastos com as fantasias, bebidas e pediu o triplo do gasto total para sair do clube. O dinheiro foi rapidamente arrecadado, um magnata do comércio de automóveis, não podia aparecer, completou o resto que faltava.

Quando Magalhães saiu, houve um alívio por parte dos senhores da alta roda. Dançaram despreocupados pelo resto da noite com suas madames. A família de Seu Magalhães foi para casa, feliz da vida, havia dançado por mais de três horas no Clube da Alta Burguesia e receberam o dinheiro que o pai dividiu para os cinco. Na sexta-feira seguinte, como se nada tivesse acontecido, todos estavam na feijoada do Magalhães, o maior corno da cidade.

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TOROCA

Walter Pitombo Laranjeiras, Toroca, figura de destaque no Estado de Alagoas, conhecido nas altas e baixas rodas, peça insubstituível no mundo dos esportes. Jogou bem voleibol, inclusive na seleção alagoana e brasileira. Entretanto, sua vocação foi ser técnico de voleibol feminino. Há mais de 50 anos treina as equipes do CRB. Inúmeras vezes campeão como treinador da seleção, muitas de suas pupilas chegaram a titular da seleção brasileira. Nesses últimos 50 anos, Alagoas esteve no topo do voleibol nacional graças ao treinador Toroca. Severo, considerado durão na condução do time em campo, porém, no voleibol não pode haver relaxamento, as atletas têm que estar sempre em momento de tensão.

Outra paixão de Toroca é o Clube de Regatas Brasil, o CRB. Ele foi presidente várias vezes. No final da década de 60, eleito presidente do clube, convidou-me a participar de sua diretoria, não me fiz de rogado, tomei posse como Diretor Social. Juntos, fizemos um bonito trabalho, organizando festas e atividades sociais. Contudo, o grande sucesso de nossa gestão foi a boate do CRB aos sábados à noite. A moçada e a coroada dançavam se esbaldando ao som do afinado conjunto LSD. Os componentes do conjunto afirmavam ser Luz, Som e Dimensão, para não confundir com o ácido lisérgico, droga altamente consumida naquela época. A afinadíssima Leureny Barbosa era vocal, Lino outro componente, na guitarra, um jovem tocava um som moderno arrasava também cantando, de nome incomum, Djavan.

No intervalo, descanso dos músicos, havia alguma atração. Certa vez, Toroca contratou um mágico. O cara era bom, muito aplaudido com suas fantasias mágicas no escurinho da boate. Estranho apenas, que em vez de tirar coelho da cartola, o mágico tirava um pato branco, bonito e lustroso. Com muito aplauso o “Mandrake” terminou o espetáculo.

Ao iniciar o segundo tempo da boate, fui procurado pelo mágico, estava desesperado, havia sumido seu querido e lustroso pato branco. Fomos em busca, todos procurando, em cada canto da sede do CRB havia um funcionário vasculhando, até cheirando, nenhuma pista do pato. O mágico se aborreceu quando um funcionário, por ignorância ou gozação, perguntou: – O senhor não é mágico? Faça o pato aparecer!

Chegamos à conclusão que o pato havia fugido, só assim poderia ter sumido. Iniciamos busca pela rua, pela praia; nenhum indício, ninguém viu algum pato passar, que dirá um pato branco.

O mágico inconformado, aborrecido, tinha compromisso no dia seguinte pela manhã, espetáculo em Caruaru. Recebeu o cachê, despediu-se, agradecendo nossos préstimos. Irado, junto à sua gostosa ajudante, deu arranque no carro, pensando no trabalho de amestrar outro pato, chorava, não sei se de raiva ou saudade do querido pato branco.

A boate continuou animada, namorados dançando lentamente na escuridão da luz vermelha, na leveza da música afinada e sensual do LSD. Ninguém àquela altura imaginaria que estava dançando ao som de um dos músicos mais importantes da história da música brasileira, Djavan.

Ao terminar a boate, cerca de duas horas da manhã, um garçom procurou a mim e ao Toroca, tinha um recado de amigos que estavam à nossa espera no Restaurante Galo de Campina, anexo à sede do CRB, onde se comia o melhor galeto assado da cidade.

Eu e Toroca descemos e entramos no restaurante lotado, logo percebemos em uma animada mesa, felizes, risonhos, tomando cerveja, os amigos, Hélio Miranda, Betuca, Clailton, Lelé, Frazão, Quico e Beto Prazeres. Hélio gentil, reverente ofereceu cadeira: “Senhores diretores sentem-se, são nossos convidados”. Agradecemos tomando uma cerveja geladinha comentando o sucesso da boate e do espetáculo do mágico. Pena o pato ensinado, tão branquinho ter fugido, alguém deve ter achado pela praia de Pajuçara.

Não demorou, para nossa surpresa apareceu o garçom “Pescoço” equilibrando uma vistosa travessa de metal. Acolchoado de farofa, laranjas, maçãs; deitado em decúbito ventral, majestosamente, um suculento, dourado e apetitoso pato assado.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VERÃO DA CHAINA

Praia da Avenida da Paz – anos 50

O bairro de Bebedouro no início do século XX era o mais chique, o mais festeiro, o mais rico, da cidade de Maceió. Muitas mansões, bonitos palacetes, colégios embelezando o bairro. (Infelizmente a BRASKEM afundou a história da cidade junto com o bairro por uma descabida e funesta mineração.)

No final da 1ª Guerra Mundial, o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos comemorou o fim da guerra construindo a Avenida da Paz. Terminada a obra, a Avenida começou a desbancar Bebedouro, a burguesia, a classe média, transferiu-se para a praia da Avenida da Paz construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, depois passou a ser chamado de banho de mar. A mulherada moderninha vestia maiô até o joelho e caía na água. Maior sucesso e provocação entre os homens. Para algumas mulheres, era um escândalo, uma sem-vergonhice, usar aqueles trajes indecentes. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas com maiô mostrando a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”.

Nos anos 30 o maiô diminuiu o tamanho, subindo à metade das coxas. Quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na bela praia da Avenida.

Nos meados da década de 50 eu era um jovem maloqueiro de praia da Avenida. Nadava singrando a calmaria do mar. Pulava da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogava futebol na areia dura, molhada, pescava nas jangadas, puxava rede. Entretanto, o que nós jovens mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar na praia olhando, que nem jacaré, as belas mulheres que se estendiam deitadas na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de pervertidos. Naquela época, meninos com cara de santinho trafegavam pelas rodas de conversa na praia com as moças descontraídas. Quando entravam na água, não havia quem segurasse.

Gaguinho era um mestre. Ele aproximava-se das moças, deitava de bruços, cavava uma cova adaptada a sua mão, e ali dava estímulo às suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua gostosa irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Certo verão ela apareceu! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã descia à praia e como se fosse uma liturgia, estendia uma toalha, enfiava o pau da barraca na areia e armava a sombrinha, tirava a blusa devagar, como se tivesse preguiça, aparecia a parte superior do biquíni diminutamente cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, descia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassá-lo por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Ainda em pé, dobrava o short, a blusa, arrumava-os num monte junto à sombrinha. Deitava lentamente de bruços, deixando o sol acariciar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o maravilhoso espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual erótico da musa dos cabelos de fogo.

A Deusa amarrava sua cachorrinha de nome Chaina no pau da sombrinha. Às vezes a cachorrinha se soltava e corria pela praia para alegria da moçada que corria até capturá-la e entregava a Chaina à Musa, recebia os agradecimentos, olhando de perto as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de banhistas aumentou nos mares da Avenida.

Hoje, ao caminhar pela praia da Jatiúca apreciando os corpos das jovens deitadas dentro de uma mínima tanga, fez-me lembrar a ruiva, a musa da Praia da Avenida durante aquele inesquecível verão dos anos 50. O Verão da Chaina.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ALAGOAS DOS PRAZERES

Praia da Jatiúca – Foto Manoel Nobre

Ontem, 16 de setembro, foi o dia da emancipação política do Estado de Alagoas. Fomos Pernambuco desde o descobrimento, desde as Capitanias Hereditárias (317 anos). O donatário da Capitania importou-se mais com as vilas de Olinda e Recife, deixou o sul da capitania ao Deus dará. Os franceses perceberam a região abandonada, construíram o Porto dos Franceses (onde hoje é a praia do Francês) e durante 60 anos danou-se a derrubar nossa Mata Atlântica extraindo e contrabandeando o valiosíssimo Pau Brasil para os países ricos da Europa.

Os franceses foram os primeiros ladrões que aqui despontaram. Eles exploraram a mão de obra dos índios caetés em troca de espelhos e bugigangas. Não construíram uma casa, não interessavam colonizar, só roubaram nossas riquezas. No final do século XVI, Duarte Coelho, o donatário da Capitania de Pernambuco, se mancou, deu uma sesmaria a seu sobrinho para expulsar os franceses e iniciar a colonização do sul da Capitania de Pernambuco (Alagoas) criando três vilas: Porto Calvo, Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul ( hoje Marechal Deodoro) e Penedo.

A partir do século XVII, a comarca de Alagoas desenvolveu sua economia e cultura. Porém, só foi emancipada em 1817 quando estava economicamente independente, quando havia formado o sentimento de pertencimento e teve uma desavença com o governo pernambucano. Surgiu a Província de Alagoas com capital a cidade de Alagoas ( hoje Marechal Deodoro)

Alagoas é berço da República proclamada e consolidada pelos Marechais Deodoro e Floriano. Alagoas das letras e das artes de Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Djavan, Aurélio Buarque, Cacá Diegues. Alagoas do esporte com a Marta, Dida. Alagoas que sempre teve destaque político nacional para o bem ou para o mal. O Estado tem uma vigorosa história política. Um fato marcante e importante aconteceu em Alagoas. Ariano Suassuna costumava dizer que para se conhecer o Brasil verdadeiro tem de conhecer a história da República dos Palmares, onde escravos fujões negros se organizaram na Serra da Barriga, no hoje município de União dos Palmares e viveram em comunidade organizada por mais de 100 anos.

Tropas coloniais portuguesas depois de vários ataques conseguiu destruir o grande Quilombo liderado por Zumbi, o primeiro herói brasileiro. A República de Palmares durou quase todo o século XXVII, chegou a ter cerca de 30 mil habitantes, escravos negros fugidos, organizados. Palmares resistiu a vários ataques e representou durante cem anos um grande incômodo às autoridades portuguesas, foi a primeira sinalização de brasilidade oriunda da África..

Para finalizar essas poucas linhas, quero homenagear meu Estado transcrevendo um texto, uma poesia, do paraibano Noaldo Dantas que veio a serviço a Maceió, encantou-se com a cidade, adotou-a como sua pátria e ficou em Alagoas para sempre.

O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS – Noaldo Dantas

Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro, era alagoano. Em verdade, não se cria um estado com tanta beleza, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas. Ô São Pedro, pegue o estoque de azul mais puro e coloque dentro das manhãs encarnadas de sol; faça do mar um espelho do céu polvilhado de jangadas brancas; que ao entardecer sangre o horizonte; que aquelas lagoas que estávamos guardando para uso particular, coloque-as neste paraíso. E tem mais, São Pedro: dê a seu estado um cheiro sensual de melaço e cubra os seus campos com o verde dos canaviais. As praias… Ora, as praias deverão ser fascinantemente belas, sob a vigilância de altivos e fiéis coqueirais. Faça piscinas naturais dentro do mar; coloque um povo hospitaleiro e bom; e que a terra seja fértil e a comida típica melhor que o nosso maná. Dê o nome de Alagoas e a capital, pela ciganice e beleza de suas noites, deverá chamar-se Maceió, e a padroeira, Nossa Senhora dos Prazeres.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

APARIÇÃO IMPROVÁVEL

Na fila da Sorveteria Danúbio, Jorge Garcia contemplava os belos cabelos da senhora em sua frente. De repente, a mulher virou o rosto, ele reconheceu Vilma, ficou feliz ao rever o amor de sua juventude.

Alegria e um abraço apertado. Foram sentar à mesa, deliciaram-se com o sorvete de mangaba e a companhia do outro. Há muitos anos não se viam.

– E aí, Jorge, continua mulherengo?

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Vilma. Depois de tantos anos, sou um setentão e você está beirando. Mulher casada, respeito muito, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade. Depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você ter-me abandonado. Não tiro a razão.

– Nosso amor foi lindo, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminei o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha, a Verinha. Imperdoável.

– Lembra na praia da Avenida? Eu colocava a boia de pneu de caminhão dentro d’água, você estirava seu corpo fazendo os braços de remo, eu me segurava na borda da boia. Por baixo as coisas aconteciam. Ninguém percebia. À noite eu subia às casas de raparigas de Jaraguá, descarregava meu desejo incontido pensando em você.

– Menino sem-vergonha! Como a gente era feliz!

– Como está o Gerson, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há mais de 30 anos?

– Vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo. Casei com Gerson por ser um bom rapaz, minha mãe queria, mas, a escolha foi minha. Construímos nossa família. São dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Gerson tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de quatro anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo. Os filhos independentes, eu não quero aperreá-los.

Jorge Garcia apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passar quase um mês no navio COSTA MARU parte do cais do porto de Maceió para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.

Despediram-se com beijo no rosto e um vasto sorriso.

À noite Gerson chegou tarde e meio bêbado. Na hora de dormir, Vilma alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Empurrou-a. virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, chorando baixinho, Vilma correu ao banheiro, sentou-se na privada e caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou para nunca mais chorar por Gerson.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia só, os filhos independentes. Pensou no que restava de um futuro hipócrita e humilhante junto a Gerson.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Gerson. Tomou um táxi.

O navio Costa Maru repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Jorge Garcia contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela aparição improvável de sua vida: Vilma sorrindo, feliz, liberta.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CHACINA NA IGREJA NOSSA SENHORA MÃE DO POVO

Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo

Ya-Rá-Guá (enseada do ancoradouro) é o nome indígena originário do bairro de Jaraguá, o Marco Zero, onde começou a cidade de Maceió. Quando o mundo entrou na era da industrialização, navios de toda parte fundeavam no ancoradouro natural na enseada de Jaraguá. Naquela época o bairro teve um enorme desenvolvimento urbano e econômico devido ao efervescente comércio. Jaraguá vivia na euforia de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados para o consumo da população. O ancoradouro natural tinha uma ponte de desembarque e Jaraguá tornou-se um dos portos mais movimentados do Brasil.

Em torno da Praça Dois Leões, onde se encontra a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma família. Augusta era uma menina sapeca, corria pelos sítios perto do Riacho Salgadinho, corria na praia, subia nas amendoeiras da Avenida da Paz, a todos encantava. Ao completar dezesseis anos era a moça mais bonita das redondezas, chamava atenção sua beleza e sensualidade. Todos queriam namorar Guta, mas, ela só se agradava de Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem aos dezenove anos, corpo forjado carregando sacos de açúcar na ponte de desembarque; depois se tornou embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça Dois Leões, quando o cabo avistou a moça de roupa domingueira; encantou-se, ficou deslumbrado com Augusta. Todo domingo o cabo passou a admirar a jovem em direção à missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitiu a negativa. Ele cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família.

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações singravam na enseada da praia da Avenida da Paz em Jaraguá. Os barcos enfeitados competiam na ornamentação, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça Dois Leões. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava com a música de um conjunto. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados Os amigos lotaram a casa de Augusto, pai da aniversariante, Augusta, a moça mais bonita da cidade, celebrava seus dezessete anos.

O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, para onde não foi convidado. Deu-lhe um despeito quando olhou pela janela Gumercindo dançando coco de roda com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, tentou entrar na casa de Augusto, foi barrado na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, policial arruaceiro, retornou com mais três policiais. Foram rechaçados e iniciaram uma briga, murros e pontapés, deu-se uma briga generalizada. Uma facada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram retirada ao quartel. Reuniu os soldados que se encontravam no momento. Fez um discurso emocionante, incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Armou mais de 20 soldados, montaram a cavalos, dispararam em direção à Praça Dois Leões. Entraram galopando na praça, atirando em quem estivesse pela frente. Ao moradores pularam muro da casa, fugiram da sanha dos policiais.

Na casa de Augusto correram pelo estreito portão do fundo do quintal. Dois músicos guardavam seus instrumentos, foram feridos pelas balas dos policiais. Na praça, os ambulantes, que nada tinham a ver com a história, correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram na igreja, a cavalo, atirando indiscriminadamente.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 20, fossem ajuntados em uma carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

O massacre foi abafado pela imprensa. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente abafando o caso e determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por mais de quinze anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram. Ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do insano massacre da Igreja Nossa Senhora Mão do Povo no bairro histórico de Jaraguá. Acontecido há muitos anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

APOSENTADORIA MERECIDA

Gabriel desde que se casou morou no bairro do Farol. Quando os filhos cresceram pressionaram para morar orla.

Devido aos tempos modernos, aos apelos da família, à qualidade de vida, finalmente Gabriel comprou um apartamento na Ponta Verde, perto da praia. Para família foi uma alegria, para ele um sacrifício. Trocar uma casa confortável com jardim e mais um quintal com duas frondosas mangueiras, por um apartamento de quatro quartos, foi difícil a adaptação. Mas, a família acima de tudo. O casal ficou com uma suíte, dois quartos para os filhos e um quarto transformado em gabinete. Gabriel armou um computador para se distrair. Aposentado recentemente do Banco do Brasil, era hora de desfrutar a boa vida.

Organizado, fez a programação diária. Pela manhã caminha na orla, encontra amigos da conversa fiada e fica olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Às tardes são preenchidas no shopping, cinemas, livraria. À noite assiste um pouco à televisão e recolhe-se ao gabinete. Entra no computador para pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para amigos. Já plantou várias árvores, tem dois filhos, agora cismou em escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira tem uma ampla vista lateral do prédio vizinho.

Num dos apartamentos ao lado, uma jovem que mora com o pai, chega da Faculdade por volta das onze da noite. A moça é um encanto: estatura média, cabelos louros escorridos ao ombro, nariz afilado, lábios grossos. Seu corpo é um monumento, seios duros, pontiagudos, cintura fina. A bunda é delirantemente bem torneada. O espelho da porta do guarda-roupa reflete todos os movimentos no quarto.

Assim que ela chega, se enrola numa toalha e vai ao banho antes de dormir. Sai do banheiro se enxugando, abre o guarda roupa e veste um lingerie curto antes de deitar. Gabriel fica num excitamento de menino. Muitas vezes depois dessa cena, ele vai ao quarto, acorda sua amada Helena.

Certo fim de tarde, Gabriel pegou o carro para ir às compras. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé, com os livros abraçados ao peito, esperando ônibus. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Gabriel freou o carro no reflexo. Perguntou sinalizando com o indicador se ela ia à cidade. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a curta saia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade no Farol. Gabriel mentiu: também ia para o Farol. Foram conversando amenidades, mas o coração do coroa estava disparado. Afinal chegaram.

Naquela noite Gabriel ficou esperando, ansioso, a chegada de sua musa da janela. A espera compensou, a jovem tirou a roupa bem devagar, coisa que nem um strip-tease. Deixou Gabriel ensandecido. Ao dormir acordou Helena.

Na tarde seguinte Gabriel passou com o carro e frustrou-se. Dois dias depois, se emocionou quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou mais bonita que nunca. Vilma, assim se chama, 21 anos, faz Direito, mulher prática, pragmática. Em certo momento ela foi direta, sorrindo para Gabriel.

– Eu acho que você está me paquerando. Pensa que não percebo você toda noite na janela me olhando? Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Gabriel estremeceu de alegria. Virou o rosto, encarou-a com largo sorriso.

– Mas menina, você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona sei quem é você, casado e aposentado. Sou muito direta. Vou lhe fazer uma proposta, indecente: saio com você para gente se divertir, vadiar, uma vez por semana, e você paga minha faculdade todo mês. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde. Às nove horas, depois de minha última aula. Estarei esperando nessa esquina.

Gabriel, emocionado, parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás.

O difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa às oito horas daquela noite. Ele arriscou:

– Helena, está passando um filmaço no Cine Pajuçara. Topa?

Ficou esperando a resposta. Quando ela disse estar sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava de ele ir sozinho.

Às nove horas Vilma se aproximou do local, entrou no carro. No motel quase Gabriel teve um infarto se tantas formas de amor, a jovem sabia tudo. Uma mestra com 21 aninhos.

O aposentado Gabriel aumentou sua despesa no orçamento mensal. Feliz da vida, às tardes das quartas-feiras Vilma já fica esperando no carro do coroa estacionado na esquina. Depois rumam aos bons motéis da praia de Jacarecica. Toda a noite ele não se cansa em vê-la, fica deliciando-se com o strip-tease, preenchendo o tempo de sua aposentadoria merecida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias?

Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu pequenos coqueiros morrendo na praia da Jatiúca, comprou três pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido?

Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve?

Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e no zap, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 73 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, perto, outros mares ou o porto final além do horizonte.