CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ELEIÇÕES DE 1950

Silvestre Péricles de Gois Monteiro foi um governador honesto, trabalhador e poeta. Contudo, arbitrário; um caudilho, anticomunista, muitas vezes violento em suas imposições políticas. No dia 3 de outubro de 1950 estavam marcadas eleições gerais. Silvestre lançou seu candidato a governador, Campos Teixeira. Naquela época não havia pesquisa, mas ele dizia ter mais de 80% dos votos em Alagoas. Os caciques da oposição, UDN, com eleição garantida para deputado, não se arriscaram a candidatar-se contra Campos Teixeira. Foi quando apareceu um jovem jornalista, que com ousadia e audácia topou a candidatura afirmando que ganharia a eleição para governador do Estado. Arnon de Mello entrava assim para história das Alagoas. Candidato à Constituinte de 1945, Arnon perdeu; teve 1.300 votos. Atrás de Silvestre (6.105), Rui Palmeira (3.232), Freitas Cavalcanti (2.388). Na frente de Carlos Prestes (1.093) e Graciliano Ramos (62).

A campanha eleitoral de 1950 foi uma das mais violentas na história das Alagoas. Como todo déspota, Silvestre não admitia discordância. Quando os jornalistas da oposição criticavam o governo com veemência, ele ficava possesso e dava o troco. Mandou dar surra no jornalista Donizete Calheiros (ficou paralítico), empastelar um jornal, tocar fogo no caminhão dos estudantes que pichavam os muros com propaganda de Arnon. A campanha foi um período de tiros, mortes, chacina na cidade de Mata Grande, várias pessoas de uma família morreram. O irmão de Silvestre, Senador Ismar de Gois Monteiro, seu inimigo político, levou três tiros numa tentativa de assassinato. O clima era de total intranquilidade.

Numa noite de brisa, eu estava em minha casa lendo revistas em quadrinhos, menino, esperto, adolescente precoce, maloqueiro da praia da Avenida da Paz, quando bateram na porta de minha casa. Atendi e me surpreendi com um grupo de homens vestidos de paletó branco, e apenas uma mulher. Eles perguntaram pelo Coronel Mário Lima, comandante do 20º Batalhão de Caçadores. De repente meu pai chegou cumprimentando os visitantes. Era a cúpula da UDN que pedia abrigo para realizar uma reunião; e minha casa foi o único local que acharam seguro para discutirem as estratégias de campanha e denunciar o clima de intranquilidade. Meu pai os recebeu, deixou-os à vontade na sala.

Eram os membros da oposição, que Silvestre chamavam-no de “udeno-comunistas”. Discutiram durante toda noite. Curioso, fiquei admirando, prestando maior atenção ao debate sobre as opiniões e medidas a serem tomadas. O que mais me impressionou foi a participação atuante e determinada, cheia de opiniões da única mulher do grupo, Dona Leda Collor de Mello, esposa de Arnon; naquela época lugar de mulher era na cozinha. Fui dormir e deixei os políticos, Rui Palmeira, Freitas Cavalcanti, Melo Mota, Carlos e Mário Gomes de Barros, Ezequias da Rocha, Oséas Cardoso, entre outros, discutindo até a madrugada, com o apoio da água gelada, cafezinho, doce de mangaba, bolo e refresco de cajá de Dona Zeca.

Essas reuniões se repetiram. Meu pai tomou essa posição em receber os políticos em nossa residência para evitar mais violências. Ele comunicou o fato ao governador Silvestre e ao General Comandante da 7ª Região. Se responsabilizando pela acolhida aos políticos receosos de uma reprimenda. Arnon de Mello estava crescendo eleitoralmente na capital e no interior, o que levava os governistas ao desespero. A eleição se aproximava e a garantia das tropas do Exército solicitada pela oposição não chegava ao 20° BC. O General Góes Monteiro, irmão de Silvestre, eminência parda da República, candidato a Senador em Alagoas, segurou a ordem de envio de tropas para garantir a eleição no interior.

Foram expedidos radiogramas para a 7ª Região Militar informando que estavam sendo preparadas fraudes e violências durante a eleição, que iria haver derramamento de sangue. Somente às duas horas da manhã do dia 3 de outubro (dia da eleição), chegou do Recife, ordem para garantir as eleições em Alagoas. O 20º Batalhão de Caçadores permanecia de prontidão com a tropa organizada, preparada para ser distribuída nos municípios mais complicados. Havia um problema: não existiam viaturam suficiente para o deslocamento imediato dos soldados para todo Estado.

O coronel Mário Lima requisitou caminhões, camionetes que passavam em frente ao quartel; embarcaram todos os soldados para o interior. O Exército garantiu a eleição.

Apurados os votos, Arnon teve 56.962 votos contra 36.338 de Campos Teixeira. O general Góes Monteiro, candidato a senador, pensava ser uma eleição fácil, debochou, não fez campanha: perdeu para um médico, obscuro político de Sertãozinho (hoje Major Izidoro), Ezequias da Rocha.

Final de novembro, em uma inspeção do general comandante da 7ª Região à guarnição de Maceió, o coronel Mário Lima acompanhou o general comandante em visita de praxe ao governador Silvestre. Depois da conversa protocolar, quando retornavam pela sala, Dona Constança, mãe de Silvestre, sentada em uma cadeira de balanço, provocou, alto: “Esse Exército de merda fez meu filho perder a eleição”. Os militares fingiram não ouvir. Sorrindo desceram as escadas do Palácio dos Martírios.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM DOUTOR DE PRINCÍPIOS

Na juventude, Petrúcio encantava às jovens. Ainda hoje, esbanja charme. As mulheres suspiram admirando o porte de homem atlético. Vendo-o jogar no Jaraguá Tênis Clube.

Em sua carreira de médico tem comportamento exemplar, nunca correspondeu aos assédios das clientes, é respeitador, ético em sua profissão, jamais se envolveu com alguma paciente.

Certa tarde em seu consultório, apareceu nova cliente, Caterine. Ao entrar, a bela mulher passou o olhar em volta, ambiente limpo e bem decorado. Sorriso nos lábios cumprimentou o doutor.

– Já nos vimos, jogando tênis, não é? Qual o problema? – Perguntou o Doutor.

– Uma dor por aqui. – apontou a área do ventre.

Petrúcio fez uma série de perguntas preenchendo a ficha médica, surpreendeu-se com a idade da mulher, 45 anos, nacionalidade francesa, falava bem o português, parecia ter 30, bem conservada, loura de pele rosada, olhos azuis. Ao terminar pediu para descalçar os sapatos e subir na balança. Petrúcio continuou a escrever, ao levantar a vista, o coração bateu forte. Caterine estava em cima da balança apenas de calcinha de renda vermelha. Seu corpo bem delineado e a sensualidade exuberante deixou o doutor com o sangue fervendo. Petrúcio aproximou-se, nervoso, mediu o peso e altura daquela mulher extraordinariamente bela, deu-lhe vontade imensa de abraçar-lhe. Controlou-se, pediu para ela vestir-se e retornar à cadeira.

O Doutor prescreveu exames, tomografia e radiografia do ventre. Ela recebeu a requisição, olhou nos olhos do doutor, perguntou:

– Não vai fazer o toque vaginal?

O médico controlou-se, afirmou não ser preciso, com o resultado dos exames ele avaliaria com precisão o que estava de anormal com ela.

Caterine sorriu olhando para o doutor, segurou sua mão, confessou.

– Doutor, falando bem claro, eu tenho uma fantasia. Desde que lhe vi jogando no Jaraguá Tênis Clube, tive uma atração imediata. O senhor chegou de jaleco, deu-me uma imensa vontade de fazer amor em seu consultório. Sou casada, não tenho problemas com o marido, hoje provoquei essa oportunidade única, quero você apenas uma vez, satisfazer minha fantasia, penso nós dois nos abraçando, rolando no chão de seu consultório.

– Dona Caterine, por favor, a senhora é uma belíssima mulher, provocou-me uma atração enorme, se a senhora quiser, no Rio, no Recife, no Japão, na Alemanha, no motel de Jacarecica, podemos nos encontrar. Eu invento uma viagem. Vamos passar uma lua-de-mel em Fortaleza? Só não posso no meu consultório, tenho um profundo respeito por minha profissão, meu consultório é um lugar sacro santo, onde exerço a medicina, a ética me proíbe qualquer relacionamento com paciente. Por favor, não torne difícil para mim, você é bela, sensualíssima, gostosa. Compreenda, Se eu quebrar os princípios da medicina ficarei profundamente magoado comigo mesmo, por favor.

– Minha fantasia é lhe amar no consultório, é ser abraçada pelo Doutor de jaleco, fora disso, não quero.

Levantou-se, deu meia volta, ao se aproximar da porta trancou-a a chave, virou-se, num átimo deixou o vestido cair, puxou e segurou a calcinha vermelha de renda pelos dedos. Petrúcio partiu rápido, chamou-a de louca, ajudou apressadamente a vesti-la, pediu não retornar ao consultório. A cliente saiu pisando forte, aborrecida. O Doutor fechou a porta, respirou fundo, deu quatro murros na parede, sangrou a mão.

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A VEADINHA

Antigamente todos conheciam os homossexuais da cidade, lembro do Ramona, Vicentão, Porreta, contavam-se nos dedos, hoje a fauna se espalhou, assumiram de uma vez, poucos ainda escondem a homossexualidade. Eu acho certo, esconder sua sexualidade é hipocrisia.

O mais autêntico de todos durante minha juventude, foi meu querido amigo, Luizinho. Na adolescência despertou sua atração pelo sexo masculino. Aos 18 anos chamado para o Exército, sentiu-se no paraíso arrodeado de homens viris. Ao descobrirem sua preferência, deram sua baixa do Exército

Luizinho causou escândalo em Maceió, assim que saiu do Exército seu pai o colocou para trabalhar numa grande loja da família na Rua do Comércio, função de comprador, reposição de estoque. Certa vez apareceu um carioca, alto, bonito, olhos azuis, bem falante, vendia todo tipo de relógio, despertador, relógio de ponto, de braço. Luizinho teve uma emoção ao ver o representante, fez o pedido costumeiro da loja. Puxou conversa com o vendedor. O simpático carioca, malandro, percebeu a queda de Luizinho, aceitou o convite para jantar. No restaurante da Fênix pediram melhor vinho, melhor comida, comeram, beberam, Luizinho apelidou o vendedor. Era “Blue Eyes” para lá, “Blue Eyes” para cá. Terminaram dormindo no Hotel Califórnia, onde o representante estava hospedado. Um mês depois ele retornou, Luizinho ficou eufórico quando o viu entrar na loja, dizia aos amigos estar apaixonado. O cara voltou nos meses seguintes. Cinco meses de retorno, o carioca, lamuriou-se, a firma ia colocá-lo na rua, talvez fosse última viagem, não havia conseguido fechar o número mínimo de pedidos exigido pela empresa. Luizinho emocionado mandou o carioca preencher o pedido de quantos relógios quisesse para a loja. O malandro, não se fez de rogado, fez um pedido substancioso. Luizinho assinou, o amante feliz, viajou com o gordo pedido e o bolso cheio de cruzeiros, presente de seu amor, prometendo voltar o mais breve possível. Na outra semana chegou uma encomenda na loja, um caminhão, carga inteira de relógios, um bom dinheiro a ser pago à vista, conforme contrato. Seu Luizão, o pai, ficou desesperado, teve que cumprir o compromisso, mudou a função do filho na loja. Passaram-se cinco anos para vender todos os relógios. O carioca nunca mais pisou em Maceió.

Meu primo, Fernando, negociante de animal, toda tarde vendia cachorro, gato, tatu, enjaulados. Fazia ponto na Rua do Comércio. Certa vez ele levou uma veadinha numa gaiola, corda fina no pescoço, chamava atenção, entretanto, ninguém comprou a bichinha, ele baixou preço. Quem queria uma veadinha em casa? Foi quando um desocupado da Rua do Comércio falou no ouvido do Fernando.

– O Sr. Luizão, dono da loja São Vicente tem um veado em casa, quem sabe se ele não compra essa veadinha para juntar ao veado de sua casa?

Ideia melhor impossível, Fernando colocou a gaiola do animalzinho no ombro levou-a para loja. Depois de esperar quase uma hora, Sr. Luizão atendeu, ouviu a conversa de vendedor.

– Olha Seu Luizão, tenho bela veadinha de apenas dois meses trouxe para o senhor, bem barata.

– O que vou fazer com uma veadinha?

– Para fazer companhia ou cruzar com o veado que o senhor tem em casa.
No mesmo momento levou um murro na cara, saiu cambaleando puxando a veadinha.

Só entendeu o acontecido, quando viu os gozadores às gargalhadas na Rua do Comércio. Alguém explicou

– O veado filho de Luizão é o Luizinho, homossexual assumidíssimo.

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O MASSACRE DE JARAGUÁ

O fato se deu há muitos anos, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro de Jaraguá vivia uma efervescência econômica, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma só família. Augusta era uma jovem bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte e rude. Todos admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, trepava em árvore, corria na praia, faceira, a todos encantava, mas só um à ela agradava: Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem com 19 anos, forte musculatura, corpo forjado carregando sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça Dois Leões. Quando o Cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se. Ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo, o Cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 14 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações flutuavam, singravam, na enseada da praia da Avenida, cada qual com sua decoração, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça e na Igreja. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos fizeram uma festa na casa de Augusto, pai da jovem mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, via a animação na casa de Augusto, ficou com ciúme e despeito quando percebeu pela janela, Gumercindo dançando o coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, com mais dois policiais, tentou entrar na casa de Augusto, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O Cabo quis alterar, apareceram mais de dez estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, Sobral, o cabo arruaceiro, retornou com mais quatro policiais. Foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixerada na barriga deixou um policial morto na rua.

Sobral levou o soldado morto. Foi à Delegacia Regional, armou mais de 20 homens. Montados a cavalos subiram à Praça Dois Leões atirando e matando quem estava pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos. Na praça, os ambulantes que nada tinham a ver com a história correram para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram, atiraram nos inocentes.

No dia seguinte, o governador foi ao local da chacina, estava escandalizado, entretanto, mandou juntar os cadáveres, mais de dez, em carroça de bonde, e enterrar no Cemitério de Jaraguá, algumas famílias acompanharam os mortos.

Nenhuma notícia saiu em jornais, nada foi registrado. Para abafar o caso, a Igreja, a cúria, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou trancada por mais de dez anos. Mas o povo não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá. Quase nada tem escrito sobre o Massacre de Jaraguá.

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A BOMBA

Nos anos de chumbo quando havia uma guerra no Brasil e ninguém sabia, era censurada nos jornais e televisão. Quando o baiano Carlos Mariguella, guerrilheiro, comunista, marxista, leninista, organizou a luta armada contra a ditadura, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionário com a finalidade de implantar a ditadura proletariado no Brasil. Com a proliferação de assaltos a bancos arrecadando dinheiro e assaltando quartéis roubando armas para a Revolução do Proletariado, os quartéis do Exército dobraram a vigilância, as visitas eram revistadas, dentro dos quartéis tornou-se uma neura.

Nessa época dois colegas de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras, eram capitães. O Rocha servia na Fábrica de Material Bélico na cidade de Piquete e o Wanderley servia no 5º Regimento de Infantaria de Lorena, cidades vizinhas, bem próximas. Vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN acabava de acontecer, o terrorismo em São Paulo era constante

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, como sempre, trouxe deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley que adorava as iguarias nordestinas.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. O capitão Rocha, um tanto apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou o soldado sentinela e entregou um pacote de rapaduras embrulhadas, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley.

Nesse momento o tenente, oficial de dia, que observava de sua janela, viu quando alguém entregou um embrulho à sentinela logo depois deu partida e acelerou o carro. Imediatamente, o jovem tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado sentinela colocar o embrulho no chão, no meio do pátio. Mandou tocar alarme geral; desesperado o tenente gritava: Cuidado é uma bomba!! É uma bomba!!!!!!

Os soldados que estavam no quartel, bem treinados, tomaram logo suas posições estratégicas, sob o comando de sargentos e cabos, entrincheirados, atrás de colunas e paredes. Ficaram a vigiar ao longe a “bomba”, imóvel, soberba e inatingível no centro do pátio.

O quarteirão foi interditado, o trânsito desviado para outras ruas e impedindo qualquer pessoa de se aproximar do quartel. Enquanto isso, o embrulho, no meio do pátio, solitário, fazia temor a toda população, que espreitava das varandas dos prédios da vizinhança.

Logo a mídia tomou conhecimento, estavam na expectativa todos jornais da região. As TVs de São Paulo a caminho. Jornalistas e fotógrafos se penduravam em prédios vizinhos. Era aguardado a qualquer momento um sargento sapador especialista em desarmar bombas vindo de São Paulo.

Foi nesse clima que o Capitão Wanderley, voltando calmamente de uma pescaria, sentiu o movimento estranho, dirigiu-se ao quartel.

Os soldados que faziam o controle do trânsito, contaram o caso da bomba, deixando o capitão passar. Wanderley foi se chegando, quando percebeu a bomba mais de perto, emocionado, reconheceu os abençoados inúmeros pacotes que ganhava do amigo Rocha. Wanderley procurou o tenente, contou sua versão sobre o pacote, nessa altura, o tenente não admitia outra hipótese, era uma bomba. Os soldados continuaram abrigados no maior anseio, e ficaram apavorados quando Wanderley, com água na boca, pensando na deliciosa rapadura, aproximou-se do embrulho. A expectativa e o silêncio tomavam conta da multidão, dentro e fora do quartel, que acompanhava a insensatez, o “maluco” do capitão.

Num gesto contínuo, Wanderley ficou de cócoras, apanhou o pacote e foi abrindo pelos lados, tirando o papel espesso, as palhas de bananeiras até aparecer uma bonita barra dourada de rapadura, ouro nordestino. Com os dedos, indicador e mindinho, quebrou um pedaço, levou-o a boca, deu uma bela dentada, colocou o pacote nas axilas e saiu andando devagar, calmo como ele próprio. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os beiços diante de uma enorme plateia pasmada, incrédula no que via acontecer, todos boquiabertos soltaram um uníssono e exclamativo, Oh!!!!!!!

Foi um alívio geral, a paranoia daqueles tempos era contagiante.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HOJE É DIA DELA, VÂNIA

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu pequenos coqueiros morrendo na praia da Jatiúca, comprou três pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade? Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pôde e o que não pôde até o final de seus dias? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e no zap, aproveitando a fase madura da vida?

Quem é essa mulher que desde menina gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até em New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu, tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”? Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosas. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, perto, outros mares ou o porto final além do horizonte.

Obs: Essa crônica repetirei todo mês de agosto até terminar a tinta.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA NOITE NO HOMERINHO

Foi numa noitada alegre o lançamento de meu novo romance HELENA DA RUA DAS ÁRVORES, a plateia bem acomodada lotou o Theatro Homerinho, nova pérola de Jaraguá, sonho louco construído com sangue, suor e lágrimas por Ivana Iza, um presente que a bela atriz deu à cidade de Maceió. Assinei os autógrafos enquanto os convidados chegavam. Por intermédio da professora Virgínia Miller, 27 alunos do CEJA (curso noturno) – Paulo Freire ganharam um exemplar e assistiram a “entrevista-show”. Por duas horas, o ator Chico de Assis entrevistou, recitou, cantou; eu e Weldja Miranda contamos histórias do bairro boêmio de Jaraguá e da Avenida da Paz. Weldja deu uma canja cantou com o coração belas canções de amor, a plateia adorou. Foi um show divertido em local maravilhoso, meus amigos aprenderam um pouco sobre o bairro boêmio de Jaraguá, divertiram-se com as histórias. Terminamos no Bar Lampi no Beco das Raparigas comentando o show, conversando até altas horas. Peço licença para repassar postagem da professora Virginia e a opinião do Dr. Fernando Gomes, pesquisador, escritor, cirurgião plástico sobre o romance, me comoveram.

A Turma do CEJA Paulo Freire foi pela primeira vez ao Theatro Homerinho, também foi a primeira vez para maioria que estiveram em um teatro. Ficaram emocionados por participar de um lançamento de livro e terem recebido de presente o romance “Helena da Rua das Árvores” autografado. Eles passaram pelo coquetel no Beco da Rapariga, para fazer uma foto de todos com o Carlito Lima, o autor. Foi como uma aula de História da Cidade. Virgínia MIller, professora.

A Metafísica dos Afetos das Personagens da Maceió de Carlito Lima. Em Helena da Rua das Árvores, Carlito Lima — o nosso ilustre Velho Capitão — realiza uma sutil e profunda mudança em sua trajetória literária. Acostumados à sua verve bem-humorada, ao tom festivo e à vivacidade com que retrata a alma maceioense, vemos aqui o momento em que o riso largo dá lugar à serenidade e à reflexão próprias da maturidade.

Sob o olhar da história e da literatura, a personagem Helena vai além da ficção: torna-se o centro de uma meditação poética sobre a brevidade da vida e a passagem do tempo. O Velho Capitão conduz essa narrativa com enorme sensibilidade, como quem pisa com respeito o solo sagrado da memória e dos afetos mais profundos. Ao desacelerar o tom festivo e iluminar os sentimentos essenciais, o escritor confere à existência humana uma nobreza singular. Na Maceió de Carlito Lima, não se trata apenas de contemplar a vida urbana por meio de suas crônicas, mas de valorizar o próprio caminho do homem sobre a terra através da beleza e do respeito à história vivida. Um feito literário que honra as nossas letras. Bravo, Carlito!

— Fernando Antônio Gomes de Andrade. Historiador, Médico e Acadêmico da AAL.

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ROUBO DO OPALA VERMELHO

Emílio é engenheiro, trabalhador e inteligente, homem realizado e casado com Sandra, advogada, procuradora do Estado. Formam um belo casal de bem com a vida, se amam, fizeram três bonitos filhos.

Só existe um probleminha: Sandra padece de um mal incurável, é desligada, distraída. O que já perdeu de óculos e celulares, dava para montar uma loja.

Há algum tempo, quando os carros eram coloridos, Sandra deu uma batida em seu carro, distração. Enquanto consertava, pegou um emprestado na loja de carros usados de seu irmão. Ele cedeu um Opala Vermelho, velho. Sandra chegou em casa com o carro emprestado. Na quarta-feira de manhã Sandra foi fazer a feira no supermercado, precisava abastecer a casa na praia de Barra de São Miguel na semana santa.

Depois de todas as compras possíveis no supermercado, cheia de pacotes nos carrinhos, ficou a procura de seu carro no estacionamento, nunca lembrava onde estacionava. Até que viu ao longe um Opala vermelho. A porta estava meio emperrada para abrir, mas conseguiu, colocou as compras no banco traseiro, deu o arranque e foi para casa.

Na hora do almoço, Emílio combinou para ela ir à Barra na frente, as crianças estavam ansiosas. Ele só desocupava no dia seguinte, tinha muito trabalho em casa. Era melhor ela viajar no seu carro, um belo Toyota. Ele ficava com o Opala emprestado.

Na quinta-feira, logo após o almoço, Emílio com dificuldade deu a partida no Opala, em direção à Barra, satisfeito da vida, dentro de uma velha bermuda e uma camisa leve, mais velha ainda. Esqueceu o celular, até que achou uma boa, não ser incomodado para resolver problemas, os sócios que se virassem, queria curtir o feriadão sem problemas, sem aporrinhação. Amava sua casa, sua praia, sua mulher, sua família.

Quando passou pelo Posto Policial de Marechal Deodoro, um guarda mandou parar. Ele prontamente obedeceu, mostrou as carteiras e os documentos do carro que estavam no porta-luvas. O guarda examinou, olhou nos olhos de Emílio.

– Por favor queira saltar, esse carro é roubado.

Emílio ficou surpreso e incrédulo olhando para o guarda, dirigiu-se para o interior do Posto. Tentou se explicar, dizendo ser engenheiro, que o carro era do cunhado, tinha emprestado à sua esposa. Muita explicação dá para desconfiar. O policial pediu a carteira de engenheiro. Ele não usava, ficava em casa guardada. O policial pelas roupas que Emílio vestia, desconfiou, era suspeito. Mandou aguardar, chamou o Detran, o Departamento de Furto, ele que esclarecesse os fatos a esses senhores. Sem o celular, não dava para Emílio se comunicar, achou que resolveria a bronca.

Ficou à espera do Detran, enquanto xingava o cunhado por ter emprestado um carro roubado. Quase duas horas depois, apareceu o pessoal do Detran. Emílio prestou os esclarecimentos, mas não teve muito crédito. Os policiais pediram para recolher o carro e que ele o acompanhasse até o Detran. Emílio foi dirigindo o Opala com um policial ao lado, e atrás, escoltando, um carro da Polícia.

No Detran teve que se explicar de novo a outros policiais, que o acharam também suspeito, mandaram aguardar, estavam se comunicando com o proprietário do carro. Emílio estava fulo de raiva do cunhado, sem poder comunicar-se com ninguém; suspeito, os policiais não deixaram telefonar. Um policial, disse ter certeza que ele pertencia a uma quadrilha de puxadores de carro, que atuava em Arapiraca.

Esperou até chegar o proprietário do Opala vermelho, um cidadão magro cheirando a cachaça, feliz por ter encontrado seu santo carro.

O proprietário foi a fonte salvadora, esclareceu o acontecido: ele estacionou o seu Opala no supermercado, quando Sandra viu um Opala vermelho, pensou ser o dela. Sua chave abriu a porta e deu a partida, foi embora levando o carro alheio. O Opala dela ainda está estacionado no supermercado, ele viu.

Tudo esclarecido, desculpas pedidas de ambas as partes, Emílio partiu num táxi ansioso para Barra, estava anoitecendo. Queria chegar logo, irado com a distração de Sandra. Ninguém iria acreditar. Ao chegar na Barra Sandra brincava com as crianças na calçada quando o táxi parou em frente a sua casa. Sandra não notou a fisionomia do marido, na maior alegria perguntou.

– Porquê chegou a essa hora? Não sabe o que perdeu, a praia hoje estava maravilhosa!!!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARLITO LIMA LANÇA O ROMANCE ‘HELENA, DA RUA DAS ÁRVORES’

Com a licença de meus queridos leitores, transcrevo o texto do jornalista Lula Castello publicado no blog Notícias do Centro.

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A todo vapor em sua produção literária, Carlito Lima lança mais um romance, ‘Helena – da Rua das Árvores’, a abordar uma grande paixão de adolescência que ressurge na vida dos protagonistas já idosos. Contextualizado em Maceió, Alagoas, além de viagens pelo Brasil e pelo mundo, com a essência desse contador de histórias. O lançamento do livro acontecerá no dia 14 de agosto, a partir das 17h, no Theatro Homerinho, no histórico bairro de Jaraguá.

Na contracapa, palavras do cineasta Cacá Diegues assim descrevem a obra: “Esse romance tem uma força telúrica, mantém o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ficção de Carlito e em sua “cultura local” é justamente a busca pela liberdade”.

Helena passou sua infância e adolescência na rua das Árvores, no bairro do Centro, em Maceió. Viveu intensamente a cidade e sua época. Após 40 anos de casada, filhos já adultos, enviuvou e, ainda no enterro, encontrou o amor da adolescência, Bernardo. Ela com 67 anos e ele com 70, nem esperaram o luto baixar, e juntos passaram a conviver intensamente. Um romance rico em nuances históricas da vida e do lugar.

Para a escritora Vera Romariz, Carlito Lima, nesse romance, “trilha um inusitado caminho romanesco em sua obra, repleta de textos pitorescos com uma construção reiterada de um tom e espaço memorialístico do espaço alagoano”, e que “as gargalhadas simpáticas e de motivação sensual do velho capitão cedem um discreto lugar à consciência tardia da maturidade; nesse sentido, o tom tristonho e amoroso que envolve a personagem Helena reitera uma consciência melancólica da finitude e de seus males inevitáveis. Mas esse elemento tecido pela autoria é introduzido na trama narrativa de modo delicado, quase amoroso, como se o escritor temesse pisar sem delicadeza em memória e pessoas queridas. Como não respeitar a dignidade que, pelas mãos do autor, se remete ao inevitável percurso humano na terra?”, pontua Romariz, “Nesse livro, a gargalhada cede lugar ao domínio dos afetos necessários, que embelezam e dignificam a existência humana. EVOÉ, Carlito!”, concluiu a escritora.

Orelhas do Livro

– “Carlito, meu mestre, grande escritor e memorialista, com muitos cheiros, carinho e admiração eternos. Querido amigo, agradeço seu último livro com três lindas histórias femininas. Me pergunto como você conseguiu se colocar tão bem na pele das mulheres. Genial. Carinho e admiração por você, Carlito Lima, imenso brasileiro e escritor tão apaixonante, contribuição maior à memória de nosso país. Bravo!” “Mary Del Priore – Carioca, historiadora, escritora, professora universitária.”

– “O talento, a competência e a dedicação do escritor Carlito Lima, secretário de cultura da cidade histórica de Marechal Deodoro, em Alagoas, realizaram, no último fim de semana, a 3a FLIMAR. Gente de todo o país, do Rio Grande do Sul ao Amapá, e da América Latina, compareceu: jornalistas, escritores, conferencistas, poetas, cantores, grupos de teatro, folclore. Durante cinco dias, diante de suas igrejas barrocas, sobrados patinados e praças de pedras seculares, a cidade tornou-se um anfiteatro da cultura a céu aberto.” – “Sebastião Nery- um dos mais polêmicos e inteligentes jornalistas do Brasil.”

– “Chico Anísio era quem adotava a seguinte frase, em referência à pessoa que julgava importante: “Se você não conhece o fulano de tal, não sabe o que está perdendo”. Pela amizade fraterna que me liga a Chico, aproprio-me sem constrangimento dessa joia de referência e homenagem para identificar e eleger Carlito Lima como a figura mais interessante e inteligente da vida literária e boêmia de Maceió. Com a devida permissão de Chico Anísio, volto a usar o refrão de sua sabedoria de gênio, em louvor à inteligência e à alagoanidade do Velho Capita. “Se você não conhece o Carlito Lima, não sabe o que está perdendo”. “Aldemar Paiva –Artista nordestino”

Lançamento – Dia 14 de agosto Theatro Homerinho – Rua Sá e Albuquerque, 450, Jaraguá

17 às 20 h – Sessão de autógrafo – 20 às 22 h- Chico de Assis entrevista: Carlito Lima e Wedja Miranda – Tema Jaraguá – Avenida

22 h – Coquetel no Bar Lampi – Beco das Raparigas – Jaraguá

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O GRAMADO DA PAJUÇARA

Praia de Pajuçara 1970

A Organização Mundial da Saúde – OMS – tem como parâmetro o mínimo de 12,00 m² de área verde por habitante para que uma cidade seja razoavelmente oxigenada, ventilada, boa qualidade de vida. No Brasil existem cidades com 50,00 m² de área verde por habitante, como Curitiba, e a nordestina João Pessoa é recordista nacional com 60,00 m².

Maceió carece de muitas praças, parques e jardins; nossas áreas verdes não alcançam o raquítico número 6,00 (seis) m² por habitante. Ainda bem que temos o mar e a brisa para amenizar, Maceió seria um inferno de quente e abafado.

Tudo na vida tem uma causa. Aqui nessa nossa bendita e linda cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, os governantes têm a mania criminosa de doar áreas do município para entidades e até para particulares, diminuindo nossa área verde, área pública, pulmão da cidade.

Numa rápida lembrança cito: a Praça Napoleão Goulart que o Clube Fênix, o clube mais rico do Estado, anexou a seu patrimônio. A Praça 13 de Maio, local de encontro da comunidade do Poço, marco de várias gerações, foi doada ao Sesc para construir sua sede. No loteamento da Avenida João Davino, uma bela e enorme área verde foi doada ao Clube dos Sargentos, onde construíram sua sede.

É preciso fazer um esforço para aumentar essas áreas verdes, plantando mais árvores nas ruas, cuidando melhor das praças e jardins; assim Maceió será além da mais bela, a mais gostosa e fresca capital do Nordeste, basta atingir esse índice mínimo de 12,00 m² por habitante.

Domingo passado, comendo meu imperdível acarajé no Alagoinha, encontrei duas amigas da velha guarda. A conversa foi a lembrança do bucólico e saudoso Gramado da Pajuçara, deu-me uma dor no coração, até de indignação, hoje, aquela aprazível e bonita área foi tomada por um enorme posto de gasolina. Quem deu nosso pedaço de juventude? Quem derrubou nosso munguzá?

O Gramado da Pajuçara, no início da Rua Jangadeiros Alagoanos, era uma belíssima e gostosa área verde, toda gramada, arborizada, onde a juventude dos anos 60/70 jogava voleibol, conversava, cantava e principalmente era o ponto de encontro das paqueras, dos namoros. Célebres amores dessa terra começaram no Gramado.

Embora eu morasse na Avenida da Paz, dava incursões pelo Gramado, amava passar as tardes, as noites, paquerando ou mesmo jogando naquele bucólico tapete verde feito de grama macia, onde nas noites de Lua deitávamos olhando para o céu e a própria Lua, ao som de um violão, curtindo uma bonita serenata. Do gramado, às vezes, partíamos para as jangadas no mar, rumo às, ainda desconhecidas, piscinas naturais da Pajuçara. Onde o mar beija as areias com mais alma e mais amor, como diria o poeta Aldemar Paiva.

Uma amiga com sua brilhante memória lembrou uma paródia da música carnavalesca, EVOCAÇÃO, composta pelas belas meninas (Vânia Papini), assíduas frequentadoras do Gramado, a gente assim cantava:

“Felipe, Pedro Rolete, Guilherme, Moacir, Cadê Fernando Totó? Cadê Carlinhos? Mário Jorge? Carlos Cunha? Faixa Branca?
Dos assaltos saudosos…
Na alta madrugada partiam do Gramado pras farras desatinados.
E era um sucesso… das férias ideais, na Terra dos Marechais.
Adeus, adeus, minha gente, que já brincamos bastante,
As férias terminaram, as aulas começaram,
E muita gente está distante…”

Gramado da Pajuçara, marco cultural, social, encantamento dos amores da nossa geração. Ponto de encontro, de lazer, de uma juventude que não morreu, que ainda vive em nossos corações e mentes dos que ainda têm capacidade de amar. Hoje, o bucólico gramado virou Posto de Gasolina É de fazer chorar, e como dói.!