HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

O NOSSO FORRÓ

Já não se vê nos salões
Nosso forró genuíno
Clamo ao povo nordestino
Honrar nossas tradições.
Não aceite imitações
Ouça Petrúcio e Dió
Flávio lá de Bodocó
Gonzagão e Marinez;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

Escute um xote de pinto
Azulão e mestre Zinho
Santana e Jorge de Altinho,
Não deixe o forro extinto.
Ouça um Côco de Jacinto
Desses que levanta o pó
Escute João Mossoró
Em todo dia do mês;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

Na sua festa junina
Se quiser um clima bom
Convide o mestre Marrom
Com zabumba e concertina.
Pelos salões de Campina
Quero ver um ritmo só
E Deda abrindo o gogó
Cantando com altivez;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

Quero um São João genuíno
Sem sertanejo e axé
Tocando Flavio José
Para o povo nordestino.
Na poeira um dançarino
Dançando qui nem jiló
E o contratante sem dó
Pagando bem os cachês;
Estão querendo de vez
Sepultar nosso forró.

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

NO BOTEQUIM DA ESQUINA

Num batente um pirangueiro
Logo depois da oitava
Vomita um prato de fava
Na frente do bodegueiro.
Numa mesa um cachaceiro
Passa a mão numa menina
Chega a polícia e buzina
O venderão se aborrece;
De tudo isso acontece
No botequim da esquina.

Afogando o seu desgosto
Um tocador enche a cara
Enquanto o garçom prepara
Um peba pra tira-gosto
Um pinguço mela o rosto
Chupando uma tangerina
Disfarçada a cafetina
Sua menina oferece;
De tudo isso acontece
No botequim da esquina.

Um sujeito embriagado
Procurando confusão
Cospe no pé do balcão
Querendo beber fiado
Outro que vem do mercado
Chega fedendo a urina
Reclama da sua sina
Toma uma e adormece;
De tudo isso acontece
No botequim da esquina.

Um menino tange um gato
Que pula em cima da mesa
Outro pagando a despesa
Tirando a mosca de um prato
Um doido todo gaiato
Limpa a boca na cortina
Depois que a farra termina
Velhaco desaparece;
De tudo isso acontece
No botequim da esquina.

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

ASSIM VIVE O MEU HERÓI

O meu herói não se esconde
Por detrás de um terno caro
Vive calejando as mãos
Com tamanho despreparo
Semeando o pão da vida
Sem direito e sem amparo

O meu herói vive triste
Distante da realeza
Onde a mosca da miséria
Sobrevoa a sua mesa
E o sol da desigualdade
Queima o lombo da pobreza

Esse herói tão invisível
Não está entre os políticos
Sofre pelos hospitais
Dando amor aos paralíticos
Arriscando a própria vida
Cuidando dos sifilíticos

Está na sala de aula
Cuidando da educação
Vive combatendo o crime
Correndo atrás de ladrão
Sendo guardião do povo
Auxiliando a nação

Meu herói vive na estrada
Transportando o alimento
Enfrentando até a morte
Tempestade, sol e vento
Longe dos familiares
Pra tirar o seu sustento

Meu herói acorda cedo
Segue firme pra labuta
Num busão abarrotado
De benesse não desfruta
Mesmo com tanto atropelo
Na desanima na luta

Ele não vive escondido
Nas mesas dos tribunais
Condenando os inocentes
Libertando marginais
Vive limpando as sarjetas
Sem ser visto nos jornais

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HIPOCRISIA

A fúria escarnece a fé
O ódio envenena a raça
A soberba vira as costas
À mão que pede na praça
E o vinho da intolerância
Abastece a nossa taça

O fanatismo se agarra
Na mão da hipocrisia
A fome grita socorro
A igualdade é tardia
E a lei algema inocente
No chão de uma cela fria

O palor da face humana
Arde perante a cobiça
A manhã desperta tensa
Como quem sente a carniça
E o cão da impunidade
Mija a saia da justiça

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

NO SÍTIO DE JOÃO BEZERRA

No dia da mentira, um cordel da minha lavra

Eu quero pedir licença
Pra fazer a narração
De um sítio muito famoso
Daqui do nosso sertão
Seu valor não é medido
E assim é reconhecido
O maior da região

O seu dono é João Bezerra
Desse lugar de fartura
Cabra rico e poderoso
Homem de muita bravura
Por ser muito inteligente
Virou o mais influente
No ramo da agricultura

João Bezerra nesse sítio
Tem zelo e muito cuidado
Se for num ano de inverno
Nasce tudo avantajado
Um certo dia eu não minto
Tirou o bico de um pinto
Pra fazer cocho pro gado

Jerimum de trinta quilos
Pra ele é coisa pequena
Batata de três arrobas
Não tem a pesagem plena
Mandioca de dez braças
Manda jogar para as traças
Arrancar nem vale a pena

Cento e trinta garnisés
João engorda num chiqueiro
Cuidando diariamente
Pra lucrar muito dinheiro
Com xerém e fruta pêca
Mesmo num ano de seca
Ele exporta pro estrangeiro

As frangas do seu terreiro
Ninguém acreditaria
Quando estão aborrecidas
Botam três ovos por dia
Isso lá não é problema
Cheio de clara e de gema
Tem forma de melancia

Continue lendo

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

TAPERA

Toda tapera esquecida
Nos confins desse sertão
Deixa um rastro de saudade
A lembrança de um pagão
Que sucumbiu sem defesa
Vítima de inanição

Quem sabe dessa tapera
Saiu um grande doutor
Um renomado juiz
Um conhecido cantor
Porque entre os pedregulhos
Também germina uma flor

Morcegos, ratos, corujas…
Dormem pelos seus escombros
O fantasma da pobreza
Seu dono levou nos ombros
Antro de vidas passadas
Onde dorme os “malassombros”

Na algaroba pendida
Dorme a casaca de couro
Numa estaca do curral
Arreia o chifre de um touro
Que morreu na sequidão
Berrando num bebedouro

Quem morou nesse casebre
Muita precisão passou
Talvez por necessidade
Varias vezes jejuou
Sem ter o pão da família
Olhou pro céu e chorou

Nela não resta sequer
O mugido de uma ovelha
O lodo do tempo cobre
As costas de cada telha
E o sol castigando as varas
Queimando como centelha

Sem ferrolho e sem tramela
O vento escancara a porta
Nos frechais da cumeeira
Despenca uma linha torta
Morrem secos os vegetais
Nos paus pendidos da horta

Museu de recordações
Rancho das desesperanças
Nas pedras dos teus batentes
Brincaram tantas crianças
Mas hoje da tua história
Restam somente lembranças

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

O BOI DA CAJARANA

Já não faço a refeição
Com café, ovo e lasanha
Nem posso comer picanha
Devido a alta inflação.
Em meio a tal recessão
Anda curta a minha grana
Uma penca de banana
Não posso comprar fiado
Eu quero o touro amarrado
No pé da cajarana
Me amarre o boi
No pé da cajarana

O pobre resiliente
Só come cuscuz com tripa
E o governo mete a ripa
No lombo do penitente.
Desiludido e carente
Com os filhos na choupana
Vítima da fome tirana
Se lamenta revoltado
Eu quero o touro amarrado
No pé da cajarana
Me amarre o boi
No pé da cajarana

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

FOI DECLARADO O JEJUM

Cheio de aborrecimento
Amigo é grande a contenda
Quando o pobre vai na venda
Comprar o seu alimento.
Tamanho é seu sofrimento
Com fome não se levanta
Só tem pra comer na janta
A perna de um goiamum
Foi declarado o jejum
Antes da semana santa

Disse Luiz num lugar
Com tamanho despreparo
Se o produto estiver caro
É simples, não vá comprar.
A fome não vai matar
Reclamar não adianta
Meta água na garganta
Vá almoçar jerimum
Foi declarado o jejum
Antes da semana santa

Com o rendimento que ganha
Não come um baião de dois
Quando pega no arroz
Sua tristeza é tamanha.
Se pensa em comer picanha
Olhando o preço se espanta
De carne, nem uma manta
Só se matar um anum
Foi declarado o jejum
Antes da semana santa