PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SANTA – Hermeto Lima

Essa que passa por aí, senhores,
de olhos castanhos e fidalgo porte,
é a princesa ideal dos meus amores,
a mais franzina pérola do Norte.

Contam que, numa noite de esplendores,
a essa que esmaga o coração mais forte
hinos cantaram e jogaram flores
as estrelas, em mágico transporte.

Acreditais, talvez, ser fantasia!…
Eu vos direi que não… Em certo dia,
quando ela entrou na festival capela,

eu vi a Virgem mergulhada em pranto,
e o Cristo de Marfim fitá-la tanto,
como se fosse apaixonado dela!

Hermeto Lima, Belém do Pará-PA, (1875-1947)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DE UM LADO CANTAVA O SOL – Hermes Fontes

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!

De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim…

Hermes Fontes, Boquim-SE, (1888-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DE VOLTA – Jayme Guimarães

Fomos… E quem nos visse pensaria:
– Que almas felizes! que casal ditoso!
– Como ele vai a estremecer de gozo!
– E ela, como é formosa! que alegria!

Voltei sozinho e ao meu passar ouvia:
– Que olhar magoado!… Como vai choroso!
E uma voz que sangrou meu peito ansioso:
– Louco daquele que no Amor confia!

Falena! a luz de um riso eis-te perdido!
Foste cheio de Fé, voltas descrido,
e o desengano teu caminho junca…

– “Hás de esquecê-la”! ouvi dizer ao lado…
Meu coração responde, estrangulado:
– Odiá-la, sim, mas esquecê-la, nunca!

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TEU LENÇO – Guimarães Passos

Esse teu lenço, que possuo e aperto
de encontro ao peito, quando durmo, creio
que hei-de, um dia, mandar-to, pois roubei-o
e foi meu crime, em breve, descoberto.

Luto, contudo, a procurar quem certo
possa nisto servir-me de correio;
tu nem calculas qual o meu receio
se, em caminho, te fosse o lenço aberto…

Porém, ó minha vivida quimera,
fita as bandas que habito; fita e espera,
que, enfim, verás, em trêmulos adejos,

em cada ponta um beija-flor pegando,
ir o teu lenço pelo espaço voando,
pando, enfunado, côncavo de beijos!

Sebastião Cícero dos Guimarães Passos, Maceió-AL (1867-1909)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

OS CISNES – Júlio Salusse

A vida, manso lago azul, algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido, para nós, constantemente,
um lago azul, sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos, indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia, um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde talvez a água se tisne,

que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne!…

Júlio Salusse, Bom Jardim-RJ, (1872-1948)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Esse mesmo que vem, invariavelmente,
parodiar o sol e associar-se à lua,
quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões acende e continua
outros mais a acender, imperturbavelmente,
à medida que a noite, aos poucos, se acentua
e a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita!
Ele, que doura a noite e ilumina a cidade,
talvez não tenha luz na choupana que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
crenças, religião, amor, felicidade,
como esse acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima, União dos Palmares-AL, (1895-1953)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

FOLHA RUBRA – Hermes Fontes

Meu ser é a comunhão de dois seres diversos.
Dois seres — um, a Carne, outro, o Espírito… E, assim,
esses dois seres — dois pequenos universos —
para castigo meu, se unificaram em mim.

Carne e Espírito… Enquanto o Espírito faz versos
e sonha, a Carne, onde arde o sangue de Caim,
forceja, ousa remir os instintos, imersos
neste letargo, nesta escravidão sem fim.

É o Espírito contra a Carne… A ânsia, a nevrose!…
E eu, morrendo a esperar que a alma se desencarne
e se volatilize a essência em novo ser!…

E o corpo, livre da alma, estremeça, ame, goze
a Carne pela Carne e para a Carne… a Carne
até se decompor e desaparecer!…

Hermes Fontes, Boquim-SE, (1888-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

 OLHOS ALEGRES – Luís Edmundo

Há uma lágrima, sempre, atenta em nossos olhos:
branca, redonda, clara, adamantina, pura;
e, assim como no mar os traiçoeiros escolhos,
ela, escondida, a flor das pálpebras procura.

E, aí fica parada; os íntimos refolhos
da nossa alma reflete, e, quando uma ventura
em riso nos entreabre os lábios, com doçura,
ela, a lágrima, fica a nos tremer nos olhos.

Tu, que és moça e que ris, e não sabes da mágoa
do mundo, tem cuidado! Olha essa gota d’água;
se não queres, da vida, achar-te entre os abrolhos,

ri, mas ri devagar, que a lágrima traiçoeira,
talvez, vendo-te rir assim, dessa maneira,
trema e caia, afinal, um dia dos teus olhos!

Luís Edmundo, Rio de Janeiro, (1878-1961)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AUTO-RETRATO – Bocage

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, médio na altura,
Triste de cara, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento.
Inimigo de hipócritas, e frades.

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VISITA À CASA PATERNA – Luís Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
o fantasma, talvez, do amor materno,
tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
e, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala… (O se me lembro! e quanto!)
em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe… O pranto

jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de?
— Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade…

Luís Guimarães Junior, Rio de Janeiro, (1847-1898)