PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ÚLTIMO SONETO – Manuel Antônio Álvares de Azevedo

Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!… Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!

Álvares de Azevedo, São Paulo, (1831-1852))

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

LONGE DA VISTA – Guilherme de Almeida

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
longe do coração” – diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
quanto mais longe, mais te quer ao lado;
tanto mais te ama, quanto mais te avista
e, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
– Não sei: longe de ti tudo é deserto
e todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
quando se unissem nossas mãos, querida,
nunca pudessem desunir-se mais!

Guilherme de Andrade de Almeida, Campinas-SP, (1890-1969)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TERRA DO BRASIL – Pedro de Alcântara (D. Pedro II)

Espavorida agita-se a criança,
de noturnos fantasmas com receio,
mas se abrigo lhe dá materno seio,
fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
de volver ao Brasil; de lá me veio
um pugilo de terra: e nesta creio
brando será meu sono e sem tardança.

Qual o infante a dormir em peito amigo,
tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
sereno aguardarei no meu jazigo
a justiça de Deus na voz da história!

Pedro de Alcântara (1825-1891)

Nome completo:

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AS FLORES ESTÃO CHORANDO – Miguel Jansen Filho

Os lilases murcharam . . . As roseiras,
Ao castigo do outono, estão despidas . . .
Hão de viver assim horas inteiras,
Mergulhadas nas sombras esquecidas . . .

Outrora foram elas mensageiras
Das alegres paisagens coloridas . . .
Hoje ostentam nas hastes agoureiras.
A tristeza das rosas fenecidas . . .

Desce a noite orvalhada sobre os mirtos,
A secura das plantas abrandando
Na frouxidão letal dos cravos hirtos!

Enquanto o orvalho se transforma em bolhas
Que pelos ramos murchos vão rolando
Como se fossem lágrimas das folhas! . . .

Miguel Jansen Filho, Monteiro-PB, (1925-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A FORMIGA – Hermes Fontes

E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa,
ó vibrátil, sutil, minúscula formiga!
Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga,
se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!

Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa,
arrastas uma folha – e a arrastada te abriga…
E o requinte que pões em roer o grão da espiga?
E a perícia em bordar as pétalas da rosa?

Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo:
se – Atlas – erguer nas mãos e nos ombros a Esfera,
se – formiga – arrastar um ramo nutritivo;

Ou – sonhador que a própria angústia retempera –
dia e noite viver, qual dia e noite vivo,
ao peso imaterial de uma triste quimera…

Hermes Fontes, Boquim-SE, (1888-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ADORAÇÃO – Guerra Junqueiro

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh’alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!… Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!…

Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Potugal, (1850-1923)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO – Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TECENDO A MANHÃ – João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto, Recife-PE (1920-1999)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DEPOIS DO VENDAVAL – Miguel Jansen Filho

Obumbra-se a manhã! O céu fechado
Desenrola-se em forma de sudário!
O meu pobre jardim desmoronado,
Quase se transformou num triste herbário!

Há em cada amaranto desbotado,
Uma desolação de campanário!
Como se houvesse por ali passado
O espetro de um tufão incendiário!

Num segundo o jardim se recompõe!
O sol desponta e sobre as plantas põe
Miríades de cores luminosas!

A primavera se renova enfim!
Como se Deus descesse em meu jardim,
Benzendo as flores e crismando as rosas! . . .

Miguel Jansen Filho (1925-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RENÚNCIA – Virginia Vitorino

Fui nova, mas fui triste… Só eu sei
Como passou por mim a mocidade…
Cantar era o dever da minha idade,
Devia ter cantado e não cantei…

Fui bela… Fui amada e desprezei…
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade…
Devia ter amado e não amei…

Ai de mim!… Nem saudades, nem desejos…
Nem cinzas mortas… Nem calor de beijos…
Eu nada soube, eu nada quis prender…

E o que me resta?! Uma amargura infinda…
Ver que é, para morrer, tão cedo ainda…
E que é tão tarde já, para viver!…

Virgínia Vitorino, Alcobaça, Portugal (1895-1967)