PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

À MERETRIZ – Patativa do Assaré

Se alguém te chama de perdida e louca
Não acredites, pois não é verdade,
Há quem procure cheio de ansiedade
A graça e o riso que tu tens na boca.

Foste menina, já usaste touca,
Foste donzela, tinhas virgindade,
Tudo é fugaz e tudo é brevidade
De qualquer forma, a nossa vida é pouca.

Nunca lamentes teu viver de puta,
Entre os pomares tu também és fruta,
Alguém te estima e com fervor te quer.

No chão, na cama ou dentro de uma rede
Tu és a fonte de matar a sede
Do desgraçado que não tem mulher.

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AO CRISTO – Vespasiano Ramos

Ó Luz Celeste! Essência! Ó Bondade!
Soberano de todos os soberanos;
esperança dos míseros humanos,
Jesus, – Misericórdia e Caridade!

Cristo-Amor! Cristo-Luz! Cristo-Piedade!
Divino apagador dos desenganos;
Tu que foste há quase dois mil anos,
sacrificado pela Humanidade,

prometeste voltar! Não voltes, Cristo!
Serás preso, de novo, às horas mudas,
depois de novos e divinos atos,

porque, na Terra, deu-se, apenas isto:
– Multiplicou-se o número de Judas
e vai crescendo a prole de Pilatos!…

Joaquim Vespasiano Ramos, Caxias-MA (1884-1916)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MUSA IMPASSÍVEL I – Francisca Júlia

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Francisca Julia César da Silva Münster, Eldorado Paulista-SP (1871-1920)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A E I O U – Alphonsus de Guimaraens

À memória de Artur Rimbaud

Manhã de primavera. Quem não pensa
Em doce amor, e quem não amará?
Começa a vida. A luz do céu é imensa…
A adolescência é toda sonhos. A.

O luar erra nas almas. Continua
O mesmo sonho de oiro, a mesma fé,
Olhos que vemos sob a luz da lua…
A mocidade é toda lírios. E.

Descamba o sol nas púrpuras de ocaso.
As rosas morrem. Como é triste aqui!
O fado incerto, os vendavais do acaso…
Marulha o pranto pelas faces. I.

A noite tomba. O outono chega. As flores
Penderam murchas. Tudo, tudo é pó.
Não mais beijos de amor, não mais amores…
Ó sons de sinos a finados! O.

Abre-se a cova. Lutulenta e lenta,
A morte vem. Consoladora és tu!
Sudários rotos da mansão poeirenta…
Crânios e tíbias de defunto. U.

Alphonsus de Guimaraens, Ouro Preto-MG (1870-1921)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

EU QUERO – Patativa do Assaré

Quero um chefe brasileiro
Fiel, firme e justiceiro
Capaz de nos proteger,
Que do campo até à rua
O povo todo possua
O direito de viver.

Quero paz e liberdade
Sossego e fraternidade
Na nossa pátria natal
Desde a cidade ao deserto,
Quero o operário liberto
Da exploração patronal.

Quero ver do Sul ao Norte
O nosso caboclo forte
Trocar a casa de palha
Por confortável guarida,
Quero a terra dividida
Para quem nela trabalha.

Eu quero o agregado isento
Do terrível sofrimento,
Do maldito cativeiro,
Quero ver o meu país
Rico, ditoso e feliz,
Livre do jugo estrangeiro.

A bem do nosso progresso,
Quero o apoio do Congresso
Sobre uma reforma agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária.

Finalmente, meus senhores,
Quero ouvir entre os primores
Debaixo do céu de anil
As mais sonorosas notas
Dos cantos dos patriotas
Cantando a paz do Brasil.

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O ÚLTIMO NÚMERO – Augusto dos Anjos

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A Idéia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o último Número cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Incriado:

Bradei: – Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “E tarde, amigo!

Pois que a minha antogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MUDEZ – Francisca Júlia

Já rumores não há, não há; calou-se
Tudo. Um silêncio deleitoso e morno
Vai-se espalhando em torno
Às folhagens tranquilas do pomar.

Torna-se o vento cada vez mais doce…
Silêncio… Ouve-se apenas o gemido
De um pequenino pássaro perdido
Que ainda espaneja as suas asas no ar.

Ouve-me, amiga, este é o silêncio, o grande
Silêncio feito só de sombra e calma,
Onde, às vezes, noss′alma,
Penetrada de mágoas e de dor,
Se dilata, se expande,
E seus segredos íntimos mergulha…
Prolonga-se a mudez: nenhuma bulha;
Já se não ouve o mínimo rumor.

Esta é a mudez, esta é a mudez que fala
(Não aos ouvidos, não, porque os ouvidos
Não conseguem ouvir esses gemidos
Que ela derrama, à noite, sobre nós)
À alma de quem se embala
Numa saudade mística e tranquila…
Nossa alma apenas é que pode ouvi-la
E que consegue perceber-lhe a voz.

Escuta a queixa tácita e celeste
Que este silêncio fala a ti, tão triste…
E hás de lembrar o dia em que tu viste
Perto de ti, pela primeira vez,

Alguém a quem disseste
Uma frase de amor, de amor… ó louca!
E que, no entanto, só mostrou na boca
A mais brutal e irônica mudez!

Francisca Julia César da Silva Münster, Eldorado Paulista-SP (1871-1920)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CANTIGA PARA NÃO MORRER – Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

José Ribamar Ferreira, o Ferreira Gullar, Sâo Luís-MA (1930-2016)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A CAVALGADA – Raimundo Correia

A lua banha a solitária estrada…
Silêncio!… Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada…

E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha…

E o silêncio outra vez soturno desce…
E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha…

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DESDÉNS – Raimundo Correia

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz… O sândalo se evola;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas…
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola…

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)