Um sujeito já quase embriagado Bebe cana com cinco raparigas Sem notar a zuada de umas brigas Faz poeira no chão todo animado. Outro chega da farra já cansado Prende o burro no pau de uma latada Sanfoneiro tocou sem ganhar nada Bota o fole no saco insatisfeito; “Desmantelo de tudo quanto é jeito Aparece em bolão de vaquejada”
Cinco horas, o dia amanhecendo Um caboclo reclama da ressaca Um pinguço mijando numa estaca Não faz conta de quem passa lhe vendo. Outro bebe num bar e sai devendo Carregando num copo uma bicada Uma moça vomita embriagada Cai por cima de um carro de confeito; “Desmantelo de tudo quanto é jeito Aparece em bolão de vaquejada”
Imploro em nome da paz Não quero ser assassino Matar nunca fui capaz Nem tive instinto ferino Tire de mim esse carma Nunca peguei numa arma Como posso ir numa guerra? Ter que pegar num fuzil Ferir quem não me feriu Espalhar ódio na terra
Para ferir ser humano Confesso não tenho alma Como posso causar dano? Sendo uma pessoa calma Junto a outros combatentes Ter que matar inocentes Provocar destruição Jogar bomba nas aldeias Destroçar casas alheias A bordo de um avião
O que farei nos conflitos? Cheio de seres perversos Com seus poderes malditos De maldades submersos Ser vítima de mãos vorazes Nas chamas dos camicases Morrer sem pedir socorro Ter que deixar meus filhinhos Sofrer por homens mesquinhos Entrincheirado num morro
Como um soldado guerreiro Não quero subir em pódio Ter fama de fuzileiro Combater ódio com o ódio Matar por causa banal Ser um herdeiro do mal Destruir sonhos e lares Ser porta-voz da injustiça Como arauto da cobiça Derramar sangue nos mares
Será justo eu aceitar Esse pedido tirano? Alguém querer me jogar Neste antro desumano? Matar, chacinar crianças Liquidar as esperanças De um mundo já degradado Botar fogo nos canhões Amedrontar as nações Lançando o fogo cruzado
Se me forçarem a lutar Jogarei as armas fora Sem temer em deserdar Tiro a farda e vou embora Dispensarei as medalhas Fugirei sã das batalhas Porém de cabeça erguida Se a guerra nada constrói Deserdarei como herói Sem ter a honra ferida
Livrai-me dessa má sorte Chega desse pesadelo Prefiro as dores da morte Clamo fazendo esse apelo Podem gritar com alarde Me chamarem de covarde Meu pedido aqui se encerra Não quero essa violência Ferir minha consciência Como assassino de guerra
Do livro Uma lua, um café e um batente, da autoria deste colunista
Sou eu um Zé nordestino Cheio de birra e pantim Comedor de rapadura Com fava quente e “toicim” Sou versos de Fabião Sou Elino Julião Nas unhas do guaxinim
Sou nordestino, não nego Sou Arlindo, sou João Bá Genaro, sou camarão Sou o coroné caruá Eu sou pife de taboca Nas mãos de Zabé da loca Tocando em Taperoá
Eu sou cavalo marinho Sou matuto campesino Sou o reflexo de Valença Num espelho cristalino Vaqueiro e festa de gado Eu sou o barro amassado Pelas mãos de Vitalino
Sou do torrão nordestino Água bebida em cumbuca Sou humor de Ludugero Eu sou ferrão de mutuca Novena no mês de maio Eu sou feira de mangaio Pelos dedos de Sivuca
Sou da terra nordestina Sou raiz de marmeleiro Sou rama de jitirana Sou xique-xique e facheiro Fuba de milho e coalhada Eu sou madeira talhada Nas mãos de Chico Santeiro
Num sistema fracassado O descaso se revela Um cacique se rebela Faz um discurso inflamado. Um país incendiado Vira cinza a cada instante Um governo agonizante Sem projeto e sem aprovo; Um presidente sem povo Um país sem governante.
Sua meta – arrecadar Sem respeito e sem pudor Taxando o trabalhador Que não tem onde morar. Não sai pra nenhum lugar Do povo fica distante Que nem um mero farsante Querendo iludir de novo; Um presidente sem povo Um país sem governante.
Com dinheiro da nação Financia os ditadores Achando pouco os horrores Para o crime estende a mão. O pobre sem solução Olha o preço exorbitante Sem picanha em restaurante Come pão seco com ovo; Um presidente sem povo Um país sem governante.