HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

RESSACA DE VAQUEJADA

Um sujeito já quase embriagado
Bebe cana com cinco raparigas
Sem notar a zuada de umas brigas
Faz poeira no chão todo animado.
Outro chega da farra já cansado
Prende o burro no pau de uma latada
Sanfoneiro tocou sem ganhar nada
Bota o fole no saco insatisfeito;
“Desmantelo de tudo quanto é jeito
Aparece em bolão de vaquejada”

Cinco horas, o dia amanhecendo
Um caboclo reclama da ressaca
Um pinguço mijando numa estaca
Não faz conta de quem passa lhe vendo.
Outro bebe num bar e sai devendo
Carregando num copo uma bicada
Uma moça vomita embriagada
Cai por cima de um carro de confeito;
“Desmantelo de tudo quanto é jeito
Aparece em bolão de vaquejada”

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

APELO DE UM CONVOCADO À GUERRA

Imploro em nome da paz
Não quero ser assassino
Matar nunca fui capaz
Nem tive instinto ferino
Tire de mim esse carma
Nunca peguei numa arma
Como posso ir numa guerra?
Ter que pegar num fuzil
Ferir quem não me feriu
Espalhar ódio na terra

Para ferir ser humano
Confesso não tenho alma
Como posso causar dano?
Sendo uma pessoa calma
Junto a outros combatentes
Ter que matar inocentes
Provocar destruição
Jogar bomba nas aldeias
Destroçar casas alheias
A bordo de um avião

O que farei nos conflitos?
Cheio de seres perversos
Com seus poderes malditos
De maldades submersos
Ser vítima de mãos vorazes
Nas chamas dos camicases
Morrer sem pedir socorro
Ter que deixar meus filhinhos
Sofrer por homens mesquinhos
Entrincheirado num morro

Como um soldado guerreiro
Não quero subir em pódio
Ter fama de fuzileiro
Combater ódio com o ódio
Matar por causa banal
Ser um herdeiro do mal
Destruir sonhos e lares
Ser porta-voz da injustiça
Como arauto da cobiça
Derramar sangue nos mares

Será justo eu aceitar
Esse pedido tirano?
Alguém querer me jogar
Neste antro desumano?
Matar, chacinar crianças
Liquidar as esperanças
De um mundo já degradado
Botar fogo nos canhões
Amedrontar as nações
Lançando o fogo cruzado

Se me forçarem a lutar
Jogarei as armas fora
Sem temer em deserdar
Tiro a farda e vou embora
Dispensarei as medalhas
Fugirei sã das batalhas
Porém de cabeça erguida
Se a guerra nada constrói
Deserdarei como herói
Sem ter a honra ferida

Livrai-me dessa má sorte
Chega desse pesadelo
Prefiro as dores da morte
Clamo fazendo esse apelo
Podem gritar com alarde
Me chamarem de covarde
Meu pedido aqui se encerra
Não quero essa violência
Ferir minha consciência
Como assassino de guerra

Do livro Uma lua, um café e um batente, da autoria deste colunista

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

VIVA O POVO NORDESTINO

Sou eu um Zé nordestino
Cheio de birra e pantim
Comedor de rapadura
Com fava quente e “toicim”
Sou versos de Fabião
Sou Elino Julião
Nas unhas do guaxinim

Sou nordestino, não nego
Sou Arlindo, sou João Bá
Genaro, sou camarão
Sou o coroné caruá
Eu sou pife de taboca
Nas mãos de Zabé da loca
Tocando em Taperoá

Eu sou cavalo marinho
Sou matuto campesino
Sou o reflexo de Valença
Num espelho cristalino
Vaqueiro e festa de gado
Eu sou o barro amassado
Pelas mãos de Vitalino

Sou do torrão nordestino
Água bebida em cumbuca
Sou humor de Ludugero
Eu sou ferrão de mutuca
Novena no mês de maio
Eu sou feira de mangaio
Pelos dedos de Sivuca

Sou da terra nordestina
Sou raiz de marmeleiro
Sou rama de jitirana
Sou xique-xique e facheiro
Fuba de milho e coalhada
Eu sou madeira talhada
Nas mãos de Chico Santeiro

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE

UM PRESIDENTE SEM POVO

Num sistema fracassado
O descaso se revela
Um cacique se rebela
Faz um discurso inflamado.
Um país incendiado
Vira cinza a cada instante
Um governo agonizante
Sem projeto e sem aprovo;
Um presidente sem povo
Um país sem governante.

Sua meta – arrecadar
Sem respeito e sem pudor
Taxando o trabalhador
Que não tem onde morar.
Não sai pra nenhum lugar
Do povo fica distante
Que nem um mero farsante
Querendo iludir de novo;
Um presidente sem povo
Um país sem governante.

Com dinheiro da nação
Financia os ditadores
Achando pouco os horrores
Para o crime estende a mão.
O pobre sem solução
Olha o preço exorbitante
Sem picanha em restaurante
Come pão seco com ovo;
Um presidente sem povo
Um país sem governante.

HÉLIO CRISANTO - UMA LUA, UM CAFÉ E UM BATENTE