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O COPOM PEDE MAIS TEMPO

Editorial Gazeta do Povo

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo

Por unanimidade, como o mercado financeiro esperava, o Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central promoveu outra redução mínima da taxa Selic na reunião encerrada na última quarta-feira. Os juros básicos da economia caíram 0,25 ponto porcentual, para 14,50% ao ano. O comunicado divulgado após a reunião mostra que, embora os diretores do BC vejam espaço para a redução nos juros devido à desaceleração da atividade econômica no Brasil, ainda há muitas razões para cautela, especialmente devido ao prolongamento do conflito no Oriente Médio – mas as incertezas domésticas também pesam na conta.

O principal fator é externo. Um mês e meio depois da última reunião, Estados Unidos e Irã ainda parecem longe de um acordo de paz, e as idas e vindas no Estreito de Ormuz, ora liberado, ora bloqueado, desorganizam o mercado mundial de petróleo e seus derivados. É o caso, por exemplo, do combustível de aviação: em meados de maio, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) começou a falar em racionamento e a Agência Internacional de Energia afirmou que, caso o abastecimento não se regularize, a Europa enfrentaria escassez do combustível a partir do fim de maio, levando a cancelamentos generalizados de voos. O Copom fala em “efeitos [da guerra] sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”, e na “falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados”.

A cautela também é justificada, diz o Copom, enquanto o colegiado acompanha “como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros”. Lula não deu o menor sinal de que planeja puxar o freio no gasto público, especialmente em ano eleitoral; nesta semana, a ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (que se desincompatibilizou do cargo para, provavelmente, disputar uma vaga no Senado) afirmou que “a água bateu no nariz” – quando estava no governo, ela havia minimizado a crise fiscal, afirmando que o ajuste ficaria para 2027. E, mais recentemente, o salto no endividamento e na inadimplência levou para a casa dos brasileiros as consequências do estímulo governamental irresponsável ao consumo como ferramenta para manter a economia aquecida.

O Copom afirma que o longo período de juros altos de fato freou a atividade econômica e ajudou a trazer a inflação para dentro do limite de tolerância da meta depois de passar quase todo o ano de 2025 acima desse limite – uma redução de que os governistas tentaram se apropriar, embora o mérito fosse apenas da autoridade monetária. Em outras condições, havia abertura para reduções mais robustas nos juros. No entanto, diante de tanta incerteza pressionando as expectativas de inflação, os diretores do BC optaram pela redução mínima, e escolheram não antecipar nenhuma tendência para a próxima reunião, marcada para meados de junho.

A prudência se justifica: não há como acelerar o afrouxamento monetário sem conhecer o desfecho do conflito no Oriente Médio e suas consequências, imediatas e duradouras, sobre o mercado internacional de petróleo; internamente, o resultado de outubro fará toda a diferença, pois uma reeleição de Lula é certeza da continuação da irresponsabilidade fiscal que forçou o Copom a subir os juros no passado, enquanto um outro governo pode priorizar o ajuste fiscal que a esquerda não quis fazer. Com a decisão desta semana, o BC faz o que pode para não punir demais a economia enquanto espera definições importantes para dar um rumo mais definitivo à política monetária.

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