VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A HISTORIA SE REPETE

A Gripe Espanhola de 1918 se alastrou pelo mundo, inclusive pelo Brasil, fazendo inúmeras vítimas. O Rio Grande do Norte também foi atingido.

Quando eu era adolescente, gostava muito de conversar com uma tia-avó muito idosa, Idila dos Santos Lima, irmã da minha avó-materna, a poetisa Anna Lima. Ela falava muito sobre a Gripe Espanhola (1918), que tinha vitimado duas irmãs suas, muito jovens, Luzia e Olindina.

Tia Idila provinha de uma prole de nove irmãos, incluindo Anna Lima, Dr.Luiz Antônio dos Santos Lima e Dr. Nestor dos Santos Lima. Com o passar do tempo, os irmãos foram morrendo, restando ela, como única sobrevivente.

Apesar do grande número de vítimas, resultante da epidemia da Gripe Espanhola, a história registra a grande luta dos médicos, em busca de soluções, através de remédios que pudessem evitar a ação da “influenza”. As autoridades, preocupadas em evitar o alastramento da gripe, fizeram uso dos jornais em todo o território nacional, para divulgar uma série de medidas consideradas úteis, visando minimizar os riscos de se contrair a doença.

Por coincidência, as recomendações eram quase as mesmas de hoje, no combate à atual Pandemia do COVID-19 (CORONAVÍRUS).

Durante a Gripe Espanhola de 1918 (INFLUENZA), a Inspetoria de Higiene recomendava ao povo:

1- Evitar aglomerações, principalmente à noite.

2- Não fazer visitas.

3- Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta; inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras.

4- Tomar como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino, nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições.

5- Evitar toda fadiga ou excesso físico. O Doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio; também, não deve recebe,r absolutamente, nenhuma visita.

6- Evitar as causas de resfriamento é de necessidade, tanto para os sãos, como para os doentes e convalescentes. As pessoas idosas devem aplicar-se com mais rigor ainda, todos esses cuidados.

Além dessas recomendações que foram publicadas a pedido da Inspetoria de Higiene, os médicos começaram a se manifestar rapidamente, acerca de quais seriam os remédios mais adequados para combater a epidemia que estava se abatendo sobre a população naquele momento.

No dia 19.10.1918, foi publicada no jornal “A República” uma carta enviada pelo Dr. JANUÁRIO CICCO, com recomendações à população natalense, as quais foram republicadas durante vários dias, nos meses de outubro a dezembro, no mesmo jornal. A carta continha um conjunto de medidas prescritas pelo DR JANUÁRIO CICCO, com o objetivo de combater a Influenza, abaixo reproduzida:

“ Sr. Redator de “A REPÚBLICA”,

Acreditando auxiliar a defesa da Saúde Pública, contra a epidemia de gripe ou influenza espanhola que, celeremente, se dissemina por toda a parte, e, por isso mesmo, sem medidas de profilaxia geral, devo aconselhar à população deste estado, o que se fez na França, na memorável epidemia de 1889 e 1890.

Parece ter sido Hochard o divulgador do efeito dos sais de QUININO contra a gripe e este juízo mereceu a confirmação de todos os médicos eminentes. Embora alguns contestassem o valor profilático da QUININA por ser vaso-constritor e portanto, hipertensor e como a gripo-toxina é deprimente e hipertensora, o remédio preferido antes e durante a moléstia é a QUININA, porque ela é ainda anti-térmica, anti-séptica, abrevia a convalescença e se opõe à astenia.

Ninguém espere adoecer para fazer uso dos sais de quinina; é necessário tomá-lo como preventivo, tanto mais quanto o professor Hochard acrescenta serem as formas ligeiras da gripe, sem febre, apenas com coriza e uma simples traqueíte, mas suscetíveis de agravação do que outra qualquer, pela insidiosidade da moléstia e suas complicações.

Ainda como medida de profilaxia individual, é indispensável fazer a desinfecção das fossas nasais e da boca com soluções de fenol (50 centigramas por 1.000 de água), água thenicada (5 gramas para 1.000), fenosalil (2 gramas para 1.000), água oxigenada, etc… Os cuidados da pele são indispensáveis e o uso diário de banhos mornos é aconselhável. A pulverização ou insuflação nas fossas nasais de um antiséptico não irritante (Subnitrato de bismute- 6 gramas, benfoime pulverizado – 6 gramas, ácido bórico – 20 centrigramas, mentol – 10 centigramas) completam as medidas de defesa às cavidades.

À menor indisposição que se sinta, frio, arrepios, mesmo quebrantamento de forças, coriza, guarde-se o leito, não devendo afrontar-se às correntes de vento para atenuar ou evitar como diz o professor G. André, o segundo ou terceiro ato deste drama.

O professor Mossé afirma que o QUININO exerce uma ação preventiva sobre as manifestações da infecção gripal e por este motivo deve ser usada em dose relativamente elevada. E aproveitando as múltiplas propriedades dos sais de quinina, dei às farmácias uma forma pilular, cujo uso será indicado de acordo com a idade.

Não é novidade farmacêutica, mas a QUININA, associada a outros elementos anti-fluxionários, age, levantando as forças vitais contra o bacilo da gripe e anulando a gripo-toxina sobre os centros nervosos.

Não é para reclamar as pílulas que dou aqui instruções de profilaxia, mas sendo a classe desafortunada que maior tributo paga às epidemias, formulei uma receita de fácil aquisição e emprego.

Seria até para louvar se os poderes competentes distribuíssem recursos, mandando um funcionário da inspetoria de higiene em toda choupana fornecer esta ou qualquer outra fórmula farmacêutica contendo QUININA e aconselhando: Cuidados higiênicos nas habitações, evitando as bebidas alcoólicas, os excessos, a fadiga, as aglomerações; escolher uma alimentação sadia, beber água fervida para fugir das complicações intestinais e trazer o ventre desembaraçado. São estas as precauções e os conselhos a seguir, é tudo o quanto se pode fazer à falta de outra profilaxia.

Muito grato pela publicação destas linhas, se asseguro: Vosso amigo e admirador Januário Cicco.”

É interessante notar o valor que, já na época da Gripe Espanhola, se deu ao sal de quinino, tanto no processo preventivo, quanto curativo, o que fez com que este produto atingisse em algumas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, um preço astronômico, provocando uma intervenção do poder público no sentido de frear a especulação, que foi a distribuição do produto por órgãos do governo. Outra tentativa de combater a disseminação da epidemia foi a utilização da vacina destinada ao combate da varíola .

No livro A Gripe Espanhola em São Paulo, escrito por Cláudio Bertolli Filho, consta uma análise de 27 receitas prescritas por médicos que atuaram na capital paulista, onde são identificadas 178 diferentes drogas, com predominância de calomelanos (soluções com baixa concentração de mercúrio), os compostos de quinino, os chás de erva e o fósforo. A primeira substância tinha uma função purgativa, pois o ideário médico da época considerava que a eliminação do bolo fecal e a regularidade das funções intestinais eram o caminho mais acertado para a eliminação das toxinas, produzidas pelo micróbio da Influenza.

Apesar da evolução fantástica da Medicina, atualmente, mais de 100 anos depois da Gripe Espanhola, a Quinina continua sendo usada, agora na luta pela cura do CORONAVÍRUS, associada a outros medicamentos.

Que a Cloroquina tenha êxito!

Dr. Januário Cicco (30 de abril de 1881 · São José de Mipibu-RN / 1 de novembro de 1952 – Natal-RN)

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A QUININA

Reza uma lenda espanhola, que, certa vez, um soldado acometido de Malária, no meio da selva, tremendo de febre, calafrios e morrendo de sede, bebeu da água amarronzada de uma pequena lagoa, onde o tronco de uma árvore havia caído. Depois de matar a sede com essa água marrom, o soldado adormeceu. Só acordou no dia seguinte, sem qualquer indisposição. A febre altíssima e calafrios haviam passado completamente.

A árvore era QUININA.

Os colegas, que já o consideravam quase moribundo, surpreenderam-se quando o viram curado, como por milagre.

O soldado, então, lhes falou da febre, calafrios e sede desesperadora, que sentira no dia anterior, e da água marrom, que bebera, avidamente, até se fartar.

A cura do soldado se espalhou e a Quinina passou a ser usada no tratamento da Malária (ou Impaludismo).

Em 1633, um jesuíta, chamado Padre Calancha, descreveu as propriedades de cura da árvore na Crônica de Santo Agostinho:

“Uma árvore cresce, que eles chamam de árvore da febre, na região de Loxa, cuja casca tem cor de canela. Quando transformada em pó, juntando-se uma quantidade equivalente ao peso de duas moedas de prata, e oferecida ao paciente como bebida, ela cura febre. E tem curado, milagrosamente, em Lima.”

Jesuítas, no Peru, começaram a utilizar a casca da árvore para prevenir e tratar Malária.

Em 1645, o padre Bartolomeu Tafur levou algumas cascas para Roma, onde seu uso espalhou-se entre os clérigos.

Em 1654, a casca peruana foi introduzida na Inglaterra.

A descoberta da Quinina pelo Ocidente data do final do século XVI e início do século XVII, durante a conquista do Império Inca pelos espanhóis, na região do Peru. Nessa época, os invasores espanhóis tomaram conhecimento de uma árvore usada pelos índios para curar febre.

A QUININA é uma árvore medicinal, cujo tronco possui uma casca de poderoso gosto amargo, sendo considerada um dos mais importantes vegetais, usados no combate à Malária, ou Impaludismo.

A importância extraordinária dessa árvore reside na sua casca, considerada como um dos mais valiosos medicamentos, para a cura de febres intermitentes, nevrálgicas, e outras doenças.

Foi o médico genovês, Sebastião Bodos (1663), quem primeiro descreveu a casca da Quinina e mencionou suas propriedades febrífugas. Mas a droga deve o seu maior sucesso à cura da condessa Del Cinchon, esposa do vice-rei espanhol no Peru, acometida de forte febre terçã (própria da Malária). Ao ingerir uma poção feita pelos índios chamada “quina-quina”, a febre cedeu e a continuidade do tratamento a deixou curada.

A partir desse relato, padres jesuítas da missão espanhola levaram o pó para a Europa, para vendê-lo como medicamento para a cura da Malária, que depois ficou conhecido como “pó dos jesuítas”.

Em 1679, o Rei Charles II da Inglaterra foi vitimado por uma forte febre, porém sendo protestante, preferia morrer a tomar um medicamento católico, por melhor que ele fosse.

Surgiu um amigo seu, Robert Talbor, com um medicamento “protestante” que o rei não hesitou em tomar. Ficou curado e, como agradecimento, sagrou Talbor, cavaleiro e médico real.

Alguns anos depois, foi revelado que o remédio “protestante” de Talbor era, na verdade, o “pó dos jesuítas”, apenas em uma formulação diferente.

O mal que acometeu a condessa e o rei, foi, de fato, a Malária. Este nome tem origem na expressão italiana “mala aria” (ar ruim), pois se acreditava que a doença era transmitida pelo ar, contaminado por pântanos e esgotos.

A Malária é causada pelo protozoário Plasmodium falciparum, descrito em 1880, pelo médico francês Charles Louis Alphonse Laveran, sendo transmitida pela picada das fêmeas do mosquito do gênero Anopheles.

Quinina (fórmula química: C20H24N2O2) é um alcalóide de gosto amargo, que tem funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas. O sulfato de quinina é o quinino.

A Quinina entra na composição de numerosos preparados, como: Água Tônica de Quinino, Vinho de Quina, Quinado, Tintura, Xarope e pílulas.

Para uso externo, a quinina serve como dentifrício e adstringente.

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VIVER É UMA ARTE

As escolas, por melhores que sejam, não nos ensinam a arte de viver. Também não produzem nenhum sábio. A sabedoria é como uma planta que brota na mente de alguém, como por milagre, como é o milagre da vida.

A vida é um jogo de baralho. As cartas que recebemos são o nosso destino. A nossa maneira de jogar representa as nossas escolhas.

Pelos caminhos da vida, é comum nos depararmos com pessoas sábias, mas que nunca frequentaram uma escola. Por isso, podemos dizer que nem sempre o analfabeto é burro. Como também podemos dizer que nem sempre o alfabetizado é inteligente.

Certa vez, um homem prepotente, que se sentia acima de todos os homens, precisou entrar num barco, para fazer a travessia de um rio. Logo puxou conversa com o barqueiro, para ver até onde iria o grau de ignorância.daquele homem pobre e tímido, que ganhava a vida fazendo a travessia de viajantes num rio tão agitado.

E perguntou-lhe, de uma só vez:

– Você sabe ler e escrever? Já leu sobre os oceanos e os rios? Já ouviu falar em Matemática, Astronomia, Botânica e Geografia?

Encabulado, o humilde barqueiro respondeu que não sabia ler nem escrever. Também não sabia nada daquilo que ele estava perguntando. Nunca tinha ido a uma escola.

O homem rico deu uma gargalhada e disse, sarcasticamente:

– Que pena! Não aprendeu nada! Nem a ler nem escrever! Você perdeu boa parte de sua vida!

E o sabichão contou ao barqueiro que, além de ser Médico, entendia de outras ciências. Era filho de um fazendeiro rico e tinha estudado nas melhores escolas. E continuou contando grandeza e perguntando coisas ao barqueiro, sabendo que ele não saberia responder. Somente para ter o gosto de humilhar o pobre homem.

E repetiu para o barqueiro:

– Coitado de você! Perdeu boa parte de sua vida!!!

O barqueiro coçou a cabeça, nervoso, demonstrando irritação. Sentiu-se humilhado diante da conversa daquele homem rico e importante. De repente, o barco foi de encontro a uma pedra sofrendo uma avaria. Começou a entrar água no barco e o barqueiro disse para o doutor:

Vosmecê que sabe tudo, também deve saber nadar!!! Tire os sapatos e o paletó, pois vamos ter que ir nadando, e a correnteza está muito forte…

Em pânico, o doutor gritou:

– Não!!! Eu não sei nadar!!!

O barqueiro respondeu:

– Que pena, doutor! Pois o senhor perdeu toda a sua vida!!!

Com muita dificuldade, o barqueiro nadou até a outra margem do rio, puxando o “doutor”, que por um triz não morreu afogado.

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O RAPTO

Ao chegar da escola, Paulinho, dez anos, encontrou uma novidade no quintal da sua casa : Uma bonita galinha pedrês.

Dona Elza, sua mãe, a tinha comprado para o almoço do domingo. Seria preparada ao molho de cabidela, também conhecido por molho pardo.

Paulinho havia deixado de comer galinha, desde o dia em que presenciou a cozinheira da casa, Josefa, matar uma galinha para servir no almoço. O menino ficou traumatizado. Nunca tinha visto uma cena tão grotesca.

Ao ver a nova galinha, Paulinho entrou em pânico, e lhe veio à mente, a empregada cortando o pescoço da galinha e o sangue jorrando, aparado num prato fundo com um pouco de vinagre, e por ela batido com um garfo, para fazer a cabidela, ou molho pardo.

Desta vez, Paulinho jurou para si mesmo que iria salvar a galinha. Era uma galinha cevada, gorda, que nem se defendeu, quando o menino a segurou, levando-a para um esconderijo.

Paulinho pegou um caneco com água para dar à galinha raptada, mas antes disso, molhou a pequena cabeça da ave, dizendo que a estava batizando, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E deu-lhe o nome de Martinha.

Logo que escureceu, Martinha se aninhou no quartinho de depósito, onde Paulinho a escondeu e logo adormeceu.

O menino entrou em casa feliz da vida, jantou com os pais e irmãos e foi logo dormir. Acordou tranquilo, pois sua amiga Martinha estava batizada e protegida num esconderijo. Josefa que procurasse fazer um almoço diferente, sem galinha e sem cabidela.

Somente na hora de pegar a galinha para matar, no domingo pela manhã, a cozinheira notou o seu sumiço. A mulher fez o maior rebuliço, procurando a galinha no quintal, e em cima das árvores. Perguntou a Paulinho se a tinha visto no dia anterior e a resposta foi não.

O menino insinuou que a galinha pudesse ter sido furtada ou tivesse fugido, com o que Josefa concordou. A empregada ainda se culpou, por não ter cortado as asas da galinha, logo que ela chegou.

Dona Elza, quando soube do sumiço da galinha, ficou muito chateada, pois estava desejando comer galinha à cabidela, como também seu marido e filhos, exceto Paulinho .

Desapontada, mandou que a cozinheira providenciasse uma macarronada à bolonhesa, ou seja, com suculento molho de tomate, misturado com carne moída, para substituir a galinha à cabidela, que a família tanto esperava.

Dois dias depois, Paulinho entrou em casa, desconfiado, com a galinha debaixo do braço, para dizer à mãe que ela havia aparecido no quintal. Disse-lhe que ela agora era sua amiga e se chamava Martinha. Fez a mãe prometer que ela nunca iria para a panela.

Pelos olhinhos cheios de lágrimas do filho, Dona Elza compreendeu que ele era o responsável pelo sumiço da galinha. Emocionou-se e respeitou o seu pedido.
Martinha, a galinha pedrês, morreu de velha.

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A INSATISFAÇÃO

O comportamento humano é cheio de manias e esquisitices. Há pessoas que quando não tem problemas, arranjam. A felicidade bate à porta, mas elas estão sempre chutando o balde e jogando a felicidade fora.

Pois bem. Valter e Amarílis formavam um casal perfeito, pois o fator que os unia era o amor. Ele sempre dizia confiar piamente na esposa. Entretanto, não gostava de vê-la produzida, isto é, com roupas sensuais, maquiagem, unhas e cabelos feitos, pois ficava enciumado. Amarílis era belíssima e o marido tinha consciência de que era muito feio.

Ele desconhecia o ditado popular que diz:

“Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Mesmo contrariada, Amarílis era a própria Amélia do compositor Mário Lago, aquela “que era mulher de verdade”. Além de muito bonita, era extremamente virtuosa e simples. Muito feio, baixinho e gordo, Valter era servidor público federal e ela era “do lar”, para sua tranquilidade. O casal tinha dois filhos e a família era feliz.

Levavam uma vida simples. Iam muito ao cinema, e aos domingos iam à Missa das 19 horas.

Amarílis chamava a atenção de todos e causava muita inveja às mulheres. Era morena clara, olhos cor de mel, alta, corpo escultural e cabelos castanhos, lisos e longos.

Aos domingos pela manhã, o casal costumava ir à praia, com os dois filhos pequenos. Quando Amarílis ficava de maiô, todos os olhares convergiam para ela. Os motoristas eram muito gentis e paravam, espontaneamente, para que o casal e os filhos atravessassem a rua. Faziam isso para apreciar a beldade que desfilava à frente deles.

Em todas as conversas com os amigos, Valter tinha a mania, quase neurose, de falar da beleza da sua mulher e da sua feiura. Achava que ela merecia ter casado, com um homem bonito igual a ela. Tinha complexo de feiura e isso o incomodava muito. Ele mesmo, sem querer, despertava o interesse dos amigos por Amarílis.

Certo dia, visitando um amigo, Valter, sempre repetitivo, confessou sentir-se o homem mais infeliz do mundo, por ter uma esposa tão bonita. Disse-lhe que preferia ter se casado com uma mulher feia.

Esse amigo, dessa vez, perdeu a paciência e retrucou:

– Por que você não se separa logo dela e acaba com essa lenga-lenga? Arranje uma mulher feia como você! Parece que o que você quer mesmo é ser CORNO!

Valter nunca mais tocou nesse assunto e se afastou dos amigos.

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A CONFISSÃO

Antero, ainda menino, ingressou no seminário, por imposição da mãe, que era muito carola. Missa diariamente, batina, orações, confissão, comunhão, pregações sobre a fé, esperança e caridade, rezas em Latim, no começo empolgaram o menino, que se sentia num pedacinho do Céu. Depois a empolgação diminuiu.

O Seminário Menor é aberto a jovens com idade entre 11 e 17 anos.

Betânia, 40 anos, viúva há dois anos, semanalmente frequentava a Capela do Seminário São Bento, para se confessar ao Padre Tiago. Desabafava com ele suas mágoas, angústias e dores, pela morte do marido, além das tentações e desejos, que o falecido, nas suas noites de insônia lhe provocava. A mulher confessava ao Padre sua culpa, por não se conformar com a solidão, sentir falta dos carinhos do marido e gostar dos sonhos eróticos que tinha com ele.

O Padre já havia decorado os pecados que a viúva vinha lhe confessar semanalmente. As penitências que lhe aplicava, inclusive orações para que Nossa Senhora do Desterro desterrasse da sua cabeça os maus pensamentos, não eram cumpridas.

A assiduidade com que a viúva ia se confessar na Capela do Seminário chamava a atenção das pessoas, e as más línguas já diziam que a viúva estava assediando o Padre.

Certa vez, Antero, o seminarista que ingressou no Seminário contra a vontade, acordou triste, com crise de saudade de casa e da sua liberdade. Visivelmente deprimido, depois do almoço, afastou-se dos colegas e foi meditar sozinho na Capela do Seminário, fora do horário previsto para meditação, o que não era permitido. Depois de algum tempo, avistou o austero Padre Tiago adentrar à Sacristia. Temendo ser visto pelo Padre, o seminarista escondeu-se no confessionário. O Padre se retirou e antes que Antero saísse do confessionário, Dona Betânia, a viúva, frequentadora habitual das confissões, ajoelhou-se no confessionário e falou:

– Estou aqui de novo, Padre Tiago, para me confessar. Pequei novamente.Não consigo me controlar mais e continuo pecando, desejando sexo e não sei mais o que fazer.

O seminarista entrou em pânico, ao perceber que estava desrespeitando as regras do Seminário. A primeira era ter entrado na Capela para meditar, fora do horário permitido. A segunda, foi se sentar no Confessionário. E agora, aconteceu o pior: estava ouvindo uma confissão, coisa que não cabia a um seminarista. A mulher não parava de falar, e Antero temia o escândalo que ela daria, ao notar que não era o Padre Tiago que estava no confessionário.
Horrorizado e ouvindo os “pecados” da mulher, o seminarista ficou em silêncio. A viúva, estranhando, perguntou:

– Está ouvindo, Padre Tiago? Parece que o senhor está cochilando!!!

O seminarista tossiu e logo resolveu falar:

– Minha senhora, procure logo um homem para se casar, antes que caia em pecado mortal! Eu não sou Padre Tiago. Sou um seminarista.

Antero saiu do confessionário, sob os insultos da viúva, que deu um verdadeiro escândalo na Capela do Seminário, acusando-o de se passar por Padre Tiago.

O caso foi submetido à apreciação de um Conselho, tendo à frente o Reitor do Seminário, resultando na expulsão do seminarista.

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A SUPERAÇÃO

Maria, nascida no interior do Rio Grande do Norte, era “aleijada de nascença”, como se dizia antigamente. Não tinha o braço direito nem as duas pernas. Mesmo com dificuldade, Maria aprendeu a se arrastar e andar sozinha, de joelhos, sempre protegidos por trapos, que, com o passar do tempo, foram substituídos por joelheiras. Era a 5ª filha e a única deficiente, de uma prole que chegou a 10 filhos.

Com a mente perfeita e sonhos próprios das crianças , Maria, mesmo contra a vontade da mãe, que temia que ela fosse vítima de discriminação, conseguiu frequentar uma escola particular, em Areia Branca, onde morava, e logo aprendeu a ler. À tarde, quando as amigas chegavam em sua casa, Maria brincava de dar aulas, procurando transmitir para elas, o que havia aprendido na escola. E assim, surgiu sua vocação para o magistério.

Nessa época, o deficiente físico, quase sempre, era marginalizado, sendo um peso morto para a família. Não era aceito para estudar ou trabalhar., e era excluído do convívio social..

Maria se tornou uma moça graciosa, inteligente e desinibida. Tinha uma personalidade muito forte e não aceitava ser discriminada. Logo cedo, demonstrou independência nos seus atos, dentro de casa. Dizia que queria ser professora e iria lutar por esse ideal. Passava as manhãs na escola particular e aproveitava os intervalos para ler cartilhas e livros de Português, Aritmética e Estudos Sociais.

Aos 12 anos, recebeu o certificado do Curso Primário, das mãos do mestre Albertino, dono do Educandário Padre Anchieta, particular, onde tinha passado a estudar. Mas, em Areia Branca não havia Curso Ginasial.

A família, então, mudou-se para Mossoró, para que os filhos fizessem o Curso Ginasial.. Mas Maria não foi aceita em nenhum colégio, por ser deficiente física.

A solução que a família encontrou foi se mudar para Natal, para que Maria realizasse seu sonho de continuar estudando. Maria trazia na bagagem a esperança de dias melhores. Queria estudar e trabalhar. Antes, porém, teria que fazer o Curso Ginasial. Foi aprovada mais de uma vez no Exame de Admissão ao Ginásio, no Colégio Atheneu, mas na hora da matrícula, era preterida, em virtude da sua deficiência física.. Terminou procurando o Secretário da Educação da época, que, comovido com o problema, determinou que sua matrícula fosse aceita.

Sonhava em fazer o Curso Pedagógico e ser professora em um Grupo Escolar. Enquanto isso, em sua residência, dava aulas particulares.

Depois de concluir o Curso Ginasial, Maria matriculou-se na Escola Normal do Estado, para fazer o Curso Pedagógico, e poder ser professora primária.

Quando cursava o 2º ano do Curso Pedagógico, foi editada a Lei nº 2.889, de 11 de janeiro de 1961, que trata da organização do Ensino Normal, que dispunha:

Art.. 21 – Os candidatos a exame de seleção deverão apresentar diploma de conclusão de Curso Ginasial……bem como satisfazer os seguintes requisitos:

a. Sanidade física e mental;

b. Ausência de defeito físico ou distúrbio funcional que contraindique o exercício da função docente;

c. Qualidades pessoais que o recomendem ao Magistério.” (RIO GRANDE DO NORTE, 1961)

Finalmente, chegou o ano de Maria concluir o Curso Pedagógico (1962). Maria foi escolhida a oradora da turma. Estava muito feliz, pois iria receber o tão sonhado diploma do Magistério.

Já perto da formatura, numa certa manhã, a austera Diretora entrou na classe, para perguntar quem gostaria de receber o diploma com seu nome escrito em letras góticas. Maria levantou seu único braço e respondeu:

– Eu, senhora diretora!

A diretora respondeu rispidamente:

– Você não, Maria! Você não receberá o diploma! A sua condição física não permite!

Maria, ofendida e humilhada, não conseguiu segurar as lágrimas. Saiu caminhando de joelhos, como era o seu caminhar, e se dirigiu à casa de uma irmã , que trabalhava no Palácio do Governo. Depois de alguns minutos, as duas foram expor o caso ao Governador, que se comoveu com a “via crucis” de Maria e revogou a decisão da diretora.

Maria recebeu o diploma, mas continuou impedida de lecionar em escolas públicas e privadas, sob a mesma alegação. Era deficiente física. Faltavam-lhe o braço direito e as duas pernas. Só andava de joelhos..

Diante dessa decepção, Maria continuou ensinando particular. Fundou o Externato Santa Terezinha, de sua propriedade, onde era professora e diretora.

Como era muito dinâmica, ainda se formou em Ciências Econômicas, e em 1976, quando houve eleições municipais, Maria se candidatou a vereadora para a Câmara Municipal de Natal, pelo MDB, ficando na primeira suplência.

É lamentável, que essa grande mulher não tenha alcançado os tempos atuais, quando os deficientes físicos contam com a proteção legal, em todos os aspectos. Portadora de uma mente perfeita e uma inteligência privilegiada, Maria foi excluída do exercício do Magistério, por suas limitações físicas. Uma mulher culta, grande oradora e uma excelente professora.

As peculiaridades de caráter físico podem ser consideradas como características pessoais. As barreiras impostas a Maria, pela própria sociedade, não lhe permitiram realizar seu ideal, que era exercer o Magistério em escolas públicas e privadas.

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A DISCÓRDIA

Conta a Mitologia Grega, que havia no Olimpo, local onde habitam os deuses, uma deusa muito má, cuja presença tirava a harmonia de qualquer ambiente. Era uma deusa invejosa e intrigante, que provocava desentendimentos entre as companheiras. De tão detestável, era chamada de Discórdia.

Júpiter, o rei dos deuses, expulsou Discórdia do Olimpo, e ela resolveu se vingar.

Durante uma reunião realizada na terra, da qual participavam todas as deusas, e para a qual Discórdia não fora convidada, esta atirou para a assembleia uma maçã de ouro, onde estava escrito: “Para a mais bela”.

Essa maçã de ouro passou para a história como “o pomo da Discórdia”.

Discórdia fez isso, para provocar a desarmonia entre as deusas, pois todas se julgavam belas e merecedoras do presente.

Juno, Minerva e Vênus foram declaradas as mais formosas. Mas, como o prêmio era um só, para não ofender as três extraordinárias belezas, nenhum dos deuses do Olimpo quis se comprometer com o julgamento. Foi decidido, então, que um mortal, jovem e belo pastor, chamado Páris, faria a eleição, para escolher a quem caberia o prêmio.

As três deusas ofereceram a Páris preciosos dons. Juno deu-lhe um reino; Minerva prometeu-lhe a vitória numa grande batalha e Vênus ofereceu-lhe por esposa a mais bela mulher do mundo.

No fim do certame, Páris considerou Vênus a mais bela mulher, entregando-lhe o prêmio. Muitos dizem que a escolha foi por causa do famoso cinturão da deusa, ao qual se atribuía a virtude de irradiar graça e beleza, a quem o usasse.

Páris era o filho dos reis de Troia, os quais tinham se desfeito dele, quando era menino, e mais tarde o haviam feito vir ao seu palácio. Nunca pôde esquecer a promessa de Vênus e quando chegou a ser um valente guerreiro e ouviu falar da esplendorosa beleza de Helena, disse para si mesmo: “É essa a mulher que Vênus me prometeu.” Reuniu, então, os seus navios e homens e partiu para o país onde Helena vivia. Aí a encontrou, raptou-a e levou-a com ele para Troia.

Tróia era uma cidade fortificada, capital de um grande e poderoso reino. Helena era a rainha de uma cidade grega, chamada Esparta.

Helena havia sido disputada por muitos pretendentes, mas escolheu Menelau, um rei lendário. Vivia feliz com ele, quando foi raptada por Páris.

E foi assim que teve início a Guerra de Troia, tema do maior, entre os poemas épicos da Antiguidade, os de Homero e de Virgílio.

Menelau apelou aos seus irmãos, líderes da Grécia, para que se unissem a ele, nos esforços para resgatar a esposa.

Houve entre os homens de Páris e os de Menelau, uma terrível guerra, que durou muitos anos. Nessa guerra, Páris terminou sendo morto. Menelau, então, pode retornar a Esparta, resgatando Helena, sua esposa.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

“INCITATUS”

Quando se fala da História Antiga, é difícil separar a realidade da fantasia. É o que acontece quando se discorre sobre a vida do terceiro imperador de Roma, Caio Júlio César Augusto Germânico, conhecido como Calígula, que reinou de 37-41 d.C. Calígula era da dinastia júlio-claudiana e passou para a história como um dos mais cruéis, polêmicos e extravagantes imperadores romanos.

O incondicional amor que esse Imperador nutria por seu cavalo, Incitatus (em latim, Impetuoso), levou-o à loucura de nomeá-lo Cônsul de Roma e Cônsul da Bitínia, uma antiga região do noroeste da Ásia Menor, na costa do Mar Negro. Contam os historiadores que isso era uma afronta ao Senado e às Instituições que ele desprezava, como déspota absoluto.

Incitatus tratava-se de um cavalo de corrida, trazido da Hispânia, de onde, na época, Roma importava cerca de 10.000 cavalos por ano. Hispânia foi o nome dado pelos romanos à Península Ibérica (atuais Portugal, Espanha, Andorra, Gibraltar e uma pequena parte ao sul da França).

De acordo com a biografia de Calígula, de autoria do escritor Suetônio, Incitatus tinha cerca de dezoito criados pessoais, era enfeitado com um colar de pedras preciosas e dormia no meio de mantas de cor púrpura (a cor púrpura era destinada somente aos trajes imperiais, ou seja, era um monopólio real). Foi-lhe também dedicada uma estátua em tamanho real, de mármore, com um pedestal em marfim. Por se tratar de um cavalo de corrida, Calígula exigia, na noite anterior à sua competição, um silêncio absoluto da cidade de Roma, para que não fosse incomodado o sono do animal, com quem o imperador dormia. O castigo, a quem ousasse interromper o silêncio, era a pena de morte.

O cavalo era, na realidade, o verdadeiro imperador, com poderes absolutos.

Verdade ou não, é interessante se conhecer a História Antiga, que foi construindo a História Moderna através dos séculos, para que se reconheça o que a Humanidade conquistou em matéria de liberdade. As possíveis loucuras dos atuais governantes não são nada, se comparadas às loucuras dos antigos imperadores e reis despóticos, tiranos e absolutistas do passado.

Estamos muito distantes do que foram os impérios antigos e suas arbitrariedades. Somente os pessimistas fanáticos não enxergam a realidade.

É importante que nas escolas se ensine a História Antiga, para se entender melhor e apreciar os saltos que a Humanidade deu, à procura de uma dignidade maior das pessoas, de uma visão mais clara dos direitos humanos, e do direito da sociedade de compartilhar o poder com os políticos.

Somente para lembrar os saltos para melhor da história humana, basta recordar que, por exemplo, nos tempos de Calígula e até séculos depois, os pais tinham o direito de vida e morte de seus filhos ao nascer. Podiam concedê-los o direito à vida ou, se não gostassem, podiam sacrificá-los.

O estatuto dos direitos da infância à vida e à necessidade de ser respeitados só tem 25 anos. Por sua vez, a mulher, há menos de um século, era mais um objeto nas mãos do homem do que uma pessoa com direitos. Na Espanha, há pouco tempo as mulheres não podiam viajar sem a permissão de seus maridos, estudar na Universidade, ter uma conta corrente.

Sem contar com os avanços da ciência e da medicina, que nos permitem viver mais do que nunca, demos saltos gigantescos na política e nas ciências sociais. Hoje a palavra escravidão é condenada, e ninguém pode ser punido por suas crenças e seus gêneros, nos países que chegaram a um certo grau de democracia e respeito pela individualidade.

Devemos ser resistentes às tentações dos governantes, de querer voltar aos tempos dos absolutismos. A resistência da sociedade e as lutas pelas liberdades, hoje nos permitem dizer que os tempos atuais são bem melhores, do que aqueles que a História Antiga nos mostra.

Os loucos, ao modo de Calígula, chegam a parecer ficção.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A PRAGA

Décadas atrás, minha tia- avó Idila Lima, solteirona e idosa, costumava às sextas-feiras dar esmolas, na janela da casa onde morava com o irmão, Dr. Nestor dos Santos Lima, na Praça 7 de Setembro, em Natal, onde hoje é o prédio da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte.

Segurando uma bolsa cheia de dinheiro, tia Idila se distraía, fazendo essa caridade. Eram moedas de pequeno valor, mas que, na época, davam para comprar alguma comida. Eram distribuídas moedas de 500 réis, depois de 1 cruzeiro, 2 cruzeiros, etc. Esse gesto provocava o agradecimento dos mendigos.

Tive a oportunidade de ouvir, diversas vezes, um agradecimento de um mendigo cego, ao receber a esmola das mãos de tia Idila, que dizia:

– DEUS TE LIVRE DA PRAGA DO MAU VIZINHO!!!

E tia Idila respondia:

– AMÉM!!!

Nesse tempo, eu era uma adolescente e ainda não conhecia o lado mau da vida.

Em Nova-Cruz, só havia maus vizinhos, na época das campanhas políticas. Eram adversários políticos, que discutiam, defendendo seus candidatos. Depois das eleições, as intrigas eram esquecidas.

Depois de adulta e casada, vi que essa qualidade de gente, o mau vizinho, existe mesmo.

Quando somos nós que temos um mau vizinho, às vezes, o caso torna-se desesperador. Já vi pessoas se mudarem de uma casa, ou apartamento, por causa de um mau vizinho.

Aquele agradecimento que eu ouvia o mendigo cego dizer para tia Idila, ao receber das suas mãos a esmola, nunca saiu da minha memória.

“Deus te livre da praga do mau vizinho!!!” Hoje, na maturidade, cheguei à conclusão de que o mau vizinho é, realmente, a pior praga que existe”.

Logo cedo, convenci-me da existência da praga do mau vizinho, no caso, da má vizinha.

Pois bem. Minha Mãe adorava gatos e criava uma gata Angorá, branca de olhos azuis, a quem chamava de Vélvete. Numa certa manhã, ouvi minha Mãe aos prantos, ao ver sua gata chegar no quintal da nossa casa, cambaleando e completamente sem pelos.

A vizinha, de mal com a vida, odiava a gata, porque ela tinha o costume de pular o muro para o quintal da casa dela. A megera, então, nesse dia, jogou na gata uma panela de água fervendo, o que fez cair todo o seu pelo. A gata morreu em consequência desse ato vil e criminoso.

A mulher negou o ocorrido, mas sua empregada, dias depois, contou à minha Mãe que a patroa vivia planejando dar um fim àquela gata, pois tinha horror quando a via no seu quintal. A gata sempre era enxotada de lá a vassouradas, até que a criminosa pôs em prática o seu plano macabro, jogando-lhe água fervendo.

Tirou na sorte grande, aquele que nunca teve um mau vizinho.

Num prédio onde morei, vi um morador agressivo e bêbado acabar com uma festinha de adolescentes, às 10 horas da noite, jogando baldes d’água nos convidados, diretamente do seu apartamento no 2º andar. A festinha era ao lado da piscina.

Outra vez, esse mesmo homem quis acabar com a comemoração de um aniversário, no salão de festas, mandando um recado pelo porteiro, para que desligassem o som, que o estava incomodando. Eu me meti e mandei-lhe um recado, dizendo que ele devia ir ao centro de velório que havia perto do prédio, para se distrair um pouco, olhando os defuntos que estavam sendo velados. Se ele não gostava da alegria dos vivos, fosse se distrair com a tristeza da morte.

Ainda faltava se cantar o “parabéns pra você”, e, por causa disso, a festa iria se prolongar um pouquinho mais. Era um som antigo, sem muita potência, e que só poderia incomodar os “chatos de galocha”, como ele.

Em edifícios de apartamentos, sempre há um mau vizinho, ou má vizinha, de mal com a vida, cheios de problemas de família, filhos desajustados, e que detestam qualquer manifestação de alegria, por parte dos demais moradores. Essas pessoas tiram a harmonia do prédio. Tornam-se antipáticas e agressivas. Tratam mal aos empregados do condomínio, dando-lhes ordens aos gritos, como se eles fossem seus empregados particulares. Já vi uma vizinha agressiva e violenta, ameaçar de demissão o porteiro do prédio. O homem se recusou a cumprir uma ordem sua de largar a portaria, para ajeitar alguma coisa no apartamento dela, como se o empregado fosse particular e não do condomínio.

Um amigo meu, que morava numa casa, teve seu cachorro envenenado pelo vizinho, que não suportava ouvi-lo latir.

Existem pessoas que carregam uma carga de energia negativa muito grande e acabam transmitindo essa energia consciente ou inconscientemente. Não suportam a felicidade de ninguém.

Os olhos são como lentes que concentram a energia do corpo e da alma, conseguindo transmitir um elevado grau de magnetismo e energia. Todo olhar é poderoso. Pode curar, regenerar, abençoar e até ajudar uma pessoa a prosperar na vida.

Mas quando o olhar vem de uma pessoa invejosa, cheia de ódio, despeito, rancor, raiva, ganância, egoísmo, malquerer, que tem o espírito e o coração impregnados de pensamentos negativos e de destruição, pode, em casos raros, causar a morte a quem seja vítima desta forma de olhar. Isso é o que se chama mau olhado ou olho gordo.

Portanto, Deus nos livre da praga do mau vizinho, ou má vizinha, e da cobra que habita dentro deles!