VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O VALOR QUE O NOME TEM…

Meu saudoso tio Paulo Bezerra, um verdadeiro “sábio” nova-cruzense, com a mente cheia de ideias empreendedoras, mas de poucas posses, dizia sempre:

“QUEM TEM DE TER, TEM QUE SE DANA. MAS QUEM NÃO TEM DE TER, SE DANA E NÃO TEM.”

Pois bem. Joaquim, um português trabalhador e com espírito empreendedor, realizou o antigo sonho de se mudar para o Brasil, onde tentaria ganhar a vida. Juntou todas as suas economias e se estabeleceu numa capital nordestina.

Seu primeiro empreendimento foi uma padaria, sonho que sempre alimentou, como bom português. Mas, não obteve sucesso. Abriu um mercadinho, também não deu certo.

Como a cidade tinha um elevado índice de prostituição, Joaquim conseguiu um sócio e os dois investiram num motel, ao qual deram o nome “fantasia” de “Motel Nossa Senhora dos Prazeres”.

O nome provocou a revolta da população católica da cidade, e o Clero impetrou um mandado de segurança, obtendo o fechamento imediato do motel.

Dois anos depois, Joaquim resolveu investir novamente num motel, com um nome diferente, que não ferisse o espírito religioso e conservador dos moradores da cidade.

Após ouvir a opinião de alguns amigos, o proprietário resolveu “batizar” o novo motel com um nome que não tivesse qualquer relação com santos, anjos ou arcanjos. Dessa forma, estaria evitando um novo problema com a população católica e com a Igreja.

Tomou, então, as medidas necessárias, para instalação do novo empreendimento, e marcou a data da inauguração. Para garantir o sucesso do evento, expediu, previamente, convites e cortesias, para as pessoas mais influentes da cidade, especialmente os homens.

Joaquim guardou segredo quanto ao nome do novo motel, fazendo suspense e deixando para revelar a surpresa na hora da solene inauguração. Tinha certeza de que, desta vez, o motel seria um sucesso e o nome agradaria a “gregos e troianos”.

No dia da inauguração, a cidade amanheceu com diversos “outdoors” espalhados em suas ruas, onde se podia ler a seguinte frase:

“PAI, LEVA A MÃE TAMBÉM PARA O MOTEL…”

As pessoas conservadoras não gostaram desse apelo e se posicionaram contra a irreverência do proprietário.

A conselho de amigos, na festa de inauguração, haveria, até, uma bênção, ministrada por um padre novato na cidade, com ideias de “vanguarda” e modernista.

Finalmente, chegou o grande momento, com um público presente, bem acima do esperado. Até as beatas resmungonas deram o ar de sua graça, atraídas pela notícia de que haveria uma bênção, ministrada pelo novo padre da cidade, que, ao que se dizia, era um verdadeiro portento.

Iniciada a solenidade de inauguração, houve a bênção e o descerramento da cobertura da grande placa luminosa, onde se destacava o nome “MOTEL FADOS E FODAS”.

As pessoas mais atentas não contiveram o riso, ao aparecer o nome do motel, iluminado e em letras garrafais., podendo ser visto à longa distância.

Como Joaquim era português, quis homenagear o Fado, música típica de sua terra. Não obstante, não atentou para o fato de que “Foda”, no Brasil, é tida como uma palavra obscena e desrespeitosa.

Mais uma vez, o empreendimento de Joaquim foi de “água abaixo.” A população conservadora da cidade ficou, novamente, indignada com o nome do motel, e o desrespeito que isso representava às famílias decentes.

Houve um “abaixo-assinado”, encaminhado à autoridade competente, e a história se repetiu, sendo, novamente, determinado o imediato fechamento do motel.

Para desespero de Joaquim, o “MOTEL FADOS E FODAS” funcionou apenas vinte e quatro horas.

Um fracasso total, causado pela infeliz escolha do nome.

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EM ALGUM LUGAR…

Em plena Pandemia do Covid-19, Manoel, um homem revoltado com a paranoia funerária e a roubalheira do dinheiro público, estava numa calçada, conversando com um amigo, lamentando a situação em que os brasileiros estão vivendo:

– Na Democracia, o governo, legitimamente eleito pelo povo, é quem governa. Mas, no Brasil, o exercício do poder do Presidente está sendo atravancado pelo mal encarado grupo dos onze.

A autoridade máxima do nosso País é achincalhada a toda hora, até mesmo por apresentador e entrevistador de TV (Globolixo). O Presidente levou uma facada e, até hoje, o crime não foi devidamente esclarecido, por manobras do grupo dos onze. Em que país nós estamos?!!!

O policial, que estava ao lado, se insurgiu contra o cidadão:

– “Teje” preso! O senhor é comunista!

O homem reagiu:

– Pelo contrário, sou contra o comunismo, regime de força, autoritário e desumano! É o comunismo que está atrapalhando o governo.

– “Teje” solto! Desculpa!

A conversa continuou:

– A imprensa não tem liberdade. A regra é: “Pode falar de quem quiser, contanto que não fale do grupo dos onze.”

Mas, vivemos na Democracia.

As prisões estão abarrotadas. Muitos presos não tem culpa formada; muitos nem sabem por que estão jogados no xadrez. Esses presos fazem parte da plebe ignorante. Suas famílias passam fome.

Mas o grupo dos onze é complacente com os presos que tem culpa formada, dentro do crime organizado.

O policial aumentou o tom de voz:

– “Teje” preso!

O cidadão respondeu:

– Tou falando do comunismo, Autoridade. É no comunismo que tudo isso acontece. Sou anticomunista.

– Pois, “teje” solto.

O cidadão continuou:

– Há jornalistas sendo punidos injustamente, enquanto o grupo dos onze continua desmoralizando o Presidente. A toda hora, ele é intimado a prestar esclarecimentos sobre os atos que pratica, mesmo em função do cargo para o qual foi legitimamente eleito.

– “Teje” preso! – disse mais uma vez o policial.

O cidadão insistiu:

– Autoridade, sou democrata e amo o meu País! Isso tudo o que eu disse foi com o comunismo. Credo em Cruz!

– “Teje” solto.

E continuou o cidadão:

– O pior de tudo é a fome, com o povo sem trabalho, dependendo de esmola do governo. Pra completar, tendo que usar máscara, além do confinamento em casa, sem direito à liberdade de ir e vir. O povo sofrendo, enquanto uma elite de privilegiados fica cada vez mais rica.

– “TEJE” PRESO! – gritou o tira. – Agora, é coincidência demais!!!

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O COLAR DE DIAMANTES

Entre o sublime e o ridículo, não há mais do que um passo; e esse passo, Maria Antonieta dançou durante toda a vida.

Um colar de diamantes, muito valioso, que dois joalheiros, Boehmer e Bassenge, haviam feito na época de Luiz XV, terminou sobrando, não por falta de beleza, mas pelo alto preço cobrado.

Ofereceram, depois, o colar ao seu sucessor, Luis XVI, na esperança de que ele o comprasse para a rainha Maria Antonieta. Porém, já coberta de jóias, ao saber do preço do colar, a rainha deu ao rei esta resposta:

– Com um milhão e seiscentas mil libras, teremos dois navios com sessenta canhões! Temos mais necessidade de navios que de diamantes.

Laporte, um advogado interessado na comissão oferecida pelos joalheiros, procurou a desonesta condessa La Motte, para que ela pressionasse Maria Antonieta a comprar a joia, que já havia recusado.

A condessa pediu para ver a joia, e logo arquitetou um golpe para ficar com ela.

Comunicou aos joalheiros que conseguira um comprador muito rico para o colar. Logo ele entraria em contato com eles, para o acerto da compra e forma de pagamento.

Ao chegar de uma viagem, o Cardeal Rohan foi procurado pela condessa La Motte, que lhe exibiu uma suposta carta de Maria Antonieta, pedindo-lhe para comprar a joia para ela, cujo valor seria pago de sua bolsa particular, uma vez que o Rei Luiz XVI não aprovaria mais a compra.

Precisava, entretanto, de um intermediário, que, por sua personalidade, fortuna, amizade e discrição, inspirasse confiança e a deixasse despreocupada quanto ao segredo.

O Cardeal acreditou na farsa absurda. Sem hesitar, empenhou sua honra, posição, fortuna e dignidade à palavra de La Motte, à simples vista de uma pretensa carta da rainha, cuja letra ele nem sequer conhecia.

Em 24 de janeiro de 1785, ele foi ver o colar. A 29 de janeiro, no palácio de Estrasburgo, os joalheiros compareceram para assinatura do contrato, com pagamento em dois anos, de seis em seis meses, totalizando um milhão e seiscentas mil libras.

A primeira prestação deveria ser paga em 1 de agosto. A entrega do colar seria em 1 de fevereiro.

O Cardeal escreveu por seu próprio punho essas cláusulas, e “submeteu-as à aprovação da rainha”, por intermédio da condessa La Motte.

A condessa “levou” o papel e “trouxe” já assinado. À margem, diante de cada cláusula, estava a palavra “aprovado”. Embaixo, a assinatura “Marie-Antoinette de France”.

A 1 de fevereiro, o Cardeal levou, pessoalmente, a joia para Versalhes, no domicílio de Mme. De La Motte, onde a rainha deveria mandar buscá-la. A condessa fez questão que ele assistisse à entrega do colar ao enviado da rainha.

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O ANJO

Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas.

Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque, o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.
Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões!

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar!

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MÁSCARA NEGRA

“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão.
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão……….”

A festa profana mais bonita do Brasil é o Carnaval. Festejado por ricos e pobres, é diferente das festas de Natal e Ano Novo, que somente os ricos podem festejar.

Em 1967, Zé Kéti e Pereira Matos compuseram a música carnavalesca “Máscara Negra”, em ritmo de marcha-rancho, que ainda hoje faz sucesso.

Gravada pelo próprio Zé Kéti e, depois, por Dalva de Oliveira (no álbum “A Cantora do Brasil), a canção venceu o Primeiro Concurso de Músicas para o Carnaval, recém-criado pelo Conselho Superior de Música Popular Brasileira do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, então presidido por Ricardo Cravo Albin.

Carnaval significa “festa da carne”. Aconselhados a se abster de consumo de carne e relações sexuais na Quaresma, os cristãos se fartavam de churrasco, nos três dias anteriores à Quarta-Feira de Cinzas.

De festa religiosa, o Carnaval transformou-se em folguedo profano, de rua, em que se brincava com o rosto coberto pela fatídica máscara negra, do diabo ou de políticos, e com brincadeiras engraçadas. Não havia violência. Os homens sempre brincavam vestidos de mulher e as mulheres com trajes imperiais.

Também nos salões, a máscara negra estava presente, nas figuras de Pierrot, Colombina e Arlequim, três personagens de um triângulo amoroso, baseado numa comédia italiana do século XVI. Pierrot vive um amor não correspondido por Colombina e ela é apaixonada por Arlequim. Os três são empregados de uma família rica e tradicional italiana e fazem uma sátira social da época.

O Carnaval foi introduzido no Brasil pelos portugueses, no século XVII, com o nome de Entrudo, que significa os três dias que precedem a entrada da Quaresma. A diversão pendia para a violência. Os foliões atiravam, uns nos outros, água, pó, cal e tudo o que tivessem às mãos.

O primeiro baile de Carnaval ocorreu no Rio de Janeiro, em 1840. Confetes e serpentinas tornaram a festa menos violenta.

Em 1846, surgiu o Zé Pereira, com grupos de foliões tocando bumbos e tambores. Vieram, em seguida, os cordões, ranchos e blocos.

As quadrinhas anônimas deram lugar a composições, especialmente criadas para a festa, graças a Chiquinha Gonzaga, com seu “Abre-alas”, em 1899. E os ritmos se diversificaram, surgindo o samba, marcha-rancho, frevo, batucada e outros.

A primeira escola de samba, fundada em 1929, no Estácio, chamava-se “Deixa Falar”.

Antigamente, nas principais cidades do Brasil, havia blocos carnavalescos, cordões, bailes, desfiles e carros alegóricos. Em avenidas e praças, adultos e crianças misturavam-se na alegria. Não havia violência nem drogas. Ninguém corria o risco de ser assaltado. Havia, apenas, excessos na bebida e “porres” de lança-perfume.

Com o progresso tecnológico, o Carnaval adquiriu o caráter de folia (do francês, folie), que significa “loucura”. E o império da televisão tomou conta da festa de Momo.

O folguedo popular transformou-se em festa para ricos e poderosos, onde predominam a nudez e o prazer imediato do sexo e das drogas. Gera empregos e lucros estrondosos para o Turismo. Há uma grande competição na disputa de prêmios, com relação a fantasias, blocos e escolas de samba.

Como uma verdadeira catarse, o Carnaval, nos dias atuais, passou a provocar emoções e descargas dos sentidos, dando margem à violência.

Por essa transformação do Carnaval, a festa tornou-se perigosa, e hoje agoniza em muitas cidades brasileiras. Passou a ser um feriadão. As pessoas passaram de participantes a meros telespectadores, pois a televisão transmite tudo o que a ela se refere.

As fantasias do corpo foram tiradas e guardadas na mente de muitos foliões. É mais comum, agora, no Carnaval, os telespectadores assistirem à nudez das mulatas, salpicada de purpurina e confete, em casa, no conforto de suas poltronas e sem risco de violência.

Este ano, não tem Carnaval. A alegria que arrastou foliões pelo Brasil afora, no Carnaval de 2020, despediu-se do povo, prometendo voltar “no próximo ano”, 2021. E o povo foi feito de palhaço. “Mais de mil palhaços no salão…”. O Corona Vírus já havia chegado ao Brasil, desde dezembro de 2019, mas somente os governantes sabiam. Os foliões caíram na armadilha do Carnaval. Verdadeiros palhaços da ilusão, nas garras do poder público.

O brasileiro continua pagando um preço muito alto por essa desonestidade dos governantes, que nada fizeram para evitar a Pandemia, que continua ceifou milhares de vidas inocentes.

Somente agora, depois de dizimadas inúmeras pessoas, aos poucos, num “duelo de Titãs”, a vacinação foi iniciada. E a disputa pela paternidade da Vacina contra o terrível Vírus continua.

Este ano, o espírito de Momo encontra-se aprisionado, em orações, pelas vítimas do COVID-19, a praga que, há mais de um ano, surgiu do nada, para castigar a humanidade. Os inocentes pagam pelos pecadores.

Quanto riso, quanta alegria! “Mais de mil palhaços no salão”…Foi o que ocorreu no Carnaval de 2020, com a presença do Corona Vírus camuflada pelo poder público, enquanto os foliões, verdadeiros palhaços, brincavam o Carnaval, sem saber que a morte estava à espreita. “Mais de mil palhaços no salão…”. Frase que se tornou fatídica, 54 anos depois da composição de Zé Kéti.

Com a vinda da Pandemia do Corona vírus, a “Máscara Negra” da música se popularizou e se introduziu na indumentária diária do povo brasileiro e das mais importantes nações, em cores diversas.

A máscara em si não é mais assunto de carnaval. Na mutação dos tempos, uma fase de terror se apossou de nós.

Mesmo usando máscara e álcool gel, conforme recomendou a Ciência, desde o começo da Pandemia, um número aterrorizante de médicos, enfermeiros e outros profissionais da Saúde, além de outras categorias de pessoas, tiveram suas vidas ceifadas pelo Covid-19.

Arlequins, Pierrôs e Colombinas, espalhados pelo Brasil, hoje pedem passagem para chorar os seus mortos.

“Ó abre-alas, que eu quero passar…”

* * *

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MARIA ANTONIETA

Maria Antônia Josefa Joana de Habsburgo-Lorena nasceu em 2 de novembro em 1755.

Nascida Arquiduquesa da Áustria, Maria Antonieta era filha do Imperador Francisco I, do Sacro Império Romano-Germânico, e da Imperatriz Maria Teresa da Áustria.

Nascida na corte vienense, recebeu a educação habitual das arquiduquesas austríacas. Estudou música, etiqueta, dança e foi instruída na fé católica.

A Imperatriz da Áustria, Maria Teresa, sua mãe, desejava selar a paz com seu histórico inimigo, a França. Para isso, nada melhor que um casamento entre as duas casas reais mais poderosas da Europa: os Habsburgos e os Bourbons franceses.

Na segunda metade do século 18, a França passava por problemas delicados. O mais rico reino da Europa mantinha-se em constantes guerras com seu vizinho, para evitar o expansionismo austríaco.

Assim, quando Maria Teresa, a imperatriz austríaca, manifestou o desejo de casar sua filha com o herdeiro francês, a corte de Versalhes dividiu-se entre prós e contras austríacos.

O rei Luís XV viu uma oportunidade para acalmar os ânimos entre os dois reinos e, finalmente, selar a paz.

Em maio de 1770, aos 14 anos, Maria Antônia deixa a Áustria e vai para a França, onde seria a esposa do Delfim Luís Augusto (futuro Luís XVI). A partir de então, entraria para a História com seu nome afrancesado: Marie Antoniette ou Maria Antonieta, em português.

Inicialmente, os esposos se tratavam de forma fria e distante. Devido a um impedimento físico do Delfim, o casamento demorou sete anos para se consumar.

Entretanto, Maria Antonieta estava mais ocupada em sobreviver às fofocas da corte francesa de Versalhes. Nesse ínterim, descobriu os prazeres da adolescência, passando noites em festas, e desenvolveu o gosto pelo jogo, o que lhe acarretou dívidas que eram pagas pelo esposo.

Com sua beleza, sua juventude e sua alegria de adolescente, a futura rainha logo daria motivos para que se tecesse contra ela uma rede de calúnias, que a atormentariam durante toda a sua vida.

Maria Antonieta era amante da natureza, da liberdade, da simplicidade, e mesmo da negligência. Detestando o fausto e a etiqueta, ela cometia o erro de acreditar que o seu fascínio de mulher valia mais do que o seu poder de rainha; que o prestígio da sua juventude e da sua bela cabeleira loura ofuscava e substituía o prestígio da sua coroa. Viram-na, muitas vezes, desdenhar da etiqueta, zombar de seus deveres e fugir, sempre que podia, da pompa solene das cerimonias oficiais, para se refugiar na intimidade da vida privada.

Mais tarde, a futura rainha deu-se conta de que, para sobreviver em Versalhes, seria preciso astúcia política e que se cercasse de fiéis colaboradores.

Com a morte do rei Luís XV, os dois jovens subiram ao trono. As pressões para que produzissem um herdeiro aumentaram. A esta altura, o rei Luís XVI já havia sido operado e o casal real teve quatro filhos.

Quando assumiu o trono junto ao seu esposo, Maria Antonieta tentou influenciá-lo, ao nomear seus protegidos, para ministérios e cargos de confiança na corte. Também insistiu para que a paz com a Áustria fosse mantida, a todo custo.

Em 1788, com a convocação da Assembleia dos Estados Gerais, o Terceiro Estado decidiu permanecer reunido e dotar a França de uma Constituição. Também conseguiram o suporte de membros do Primeiro e do Segundo Estado.

Contudo, o rei Luís XVI não conseguiu controlar os gastos do Estado francês, envolvido na guerra de independência dos Estados Unidos.

Somando-se a isso, nesses anos, um inverno rigoroso e más colheitas, houve um grande aumento na carestia de vida. A população passou a descontar na rainha austríaca, sua revolta, acusando-a de mundana e perdulária.

O monarca tentou reformar as instituições, convocando os Estados Gerais em 1788, mas a elite se recusou a pagar impostos.

A situação piorou ainda mais, quando em 1789 houve a Queda da Bastilha.

Maria Antonieta apoiou que a família real fugisse, mas foram interceptados na cidade de Varennes e levados presos a Paris.

O rei Luís XVI foi julgado e guilhotinado em 21 de janeiro de 1793. Em 16 de outubro, Maria Antonieta teria o mesmo fim.

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ESTACIONAMENTO PROIBIDO

Há anos, Josivaldo, profissão CD (come e dorme) e “filhinho do papai”, estacionou o carro em local proibido. Um Guarda de Trânsito aproximou-se de prancheta na mão e lhe exigiu a apresentação da Carteira de Habilitação e os documentos do carro.

Visivelmente alcoolizado, Josivaldo negou-se a atender ao pedido, mostrando-se ofendido e dizendo ser filho de gente muito importante. Proferiu impropérios contra a autoridade de trânsito, chamando a atenção de quem por ali passava.

Ao sentir-se apoiado pela plateia que se formara, o infrator se encheu mais ainda de razão. Aumentou o tom da voz e também os insultos contra o guarda, chegando a dizer:

– “Otoridade de apito na boca, vai te “rear”!!!

O Guarda, então, chamou uma viatura policial e conduziu o infrator à Delegacia Distrital.

O Comissário de plantão, mal humorado, quis saber o que tinha havido.  Relatando a ocorrência, o guarda ressaltou que aquele homem havia estacionado seu veículo em local proibido, e se negara a apresentar os documentos de praxe. Além disso, o desacatara, xingando-o e mandando que fosse “se rear.”

O Comissário encarou o infrator, que logo também o desacatou:

– Estaciono meu carro onde eu quiser… A rua é pública. Se estiver achando ruim, vá se “rear” também!!!

A vontade do Comissário foi aplicar ao malandro um corretivo, trancafiando-o no xadrez.

Com o Livro de Ocorrências na mão, perguntou ao infrator seu nome completo. A resposta foi:

– MARCOLINO SARNEY!…

O superior do Comissário, ao ouvir o sobrenome do infrator, “Sarney”, gritou:

– Liberem o homem, imediatamente!

A ordem foi cumprida e o infrator foi levado à sala do superior, que, muito nervoso, desculpou-se:

– O senhor está coberto de razão, por ter se chateado com o guarda de trânsito. Ele errou, ao tratar o senhor tão mal, por causa de uma infração tão leve… Ele vai ser punido, por “abuso de autoridade!”… O senhor é um homem fino e é da família do Presidente!!! Queira desculpar!!!

Nesse ínterim, o Guarda de Trânsito, cabisbaixo, já ia se afastar, quando o Comissário perguntou:

– Pra onde o senhor está indo?

Humilhado, o Guarda respondeu:

– Estou indo “me rear”, obedecendo às ordens do infrator importante, antes que a coisa complique pro meu lado… Ele mandou que eu fosse “me rear” e é o que vou fazer, sim, senhor.

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo.”

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O SONHO DE SER NOBRE

A Aristocracia significa o governo dos virtuosos. É aristocrata, aquele que é membro do grupo dos melhores, mais virtuosos e mais ricos, de uma cidade.

O termo foi criado para descrever sociedades hierarquizadas, pelo nascimento ou herança de sangue familiar, ou pelo patrimônio herdado.

Está provado que a herança patrimonial pode predispor alguém a ter mais virtudes. Entretanto, alguém pode nascer pobre e melhorar de vida, por esforço próprio, arregaçando as mangas e indo à luta pela sobrevivência.

Conheci pessoas que aprenderam a ler, escondidas atrás das portas, ouvindo os filhos dos patrões receberem aulas particulares.

Pois bem. O Sr. Jordano era um burguês de meia-idade, que enriqueceu como vendedor de tecidos. Muito ingênuo e sentindo-se rico, passou a perseguir o ideal de sair da classe média e ser aceito como fidalgo, na aristocracia.

Para isso, providenciou roupas novas e suntuosas, deliciando-se quando o ajudante do alfaiate, ironicamente, o tratou como “Vossa Excelência”. Além disso, apesar da idade, dedicou-se a aprender as artes, que deveriam ser dominadas por um aristocrata, como a dança, a música, o esgrima e a Filosofia.

Durante as aulas, o Sr. Jordano demonstrava ser possuidor de um raciocínio muito lento, com grande dificuldade no aprendizado. Os professores mostravam-se decepcionados com isso.

A lição de Filosofia se transformara numa aula básica de linguagem, e o Sr. Jordano se mostrou muito feliz e surpreso, ao descobrir que, mesmo sem saber, sempre falara em prosa.

A esposa do Sr. Jordano, muito observadora, começou a perceber que o marido estava se tornando ridículo, e passou a insistir para que ele voltasse à sua velha e despretensiosa vida burguesa. O marido não lhe deu ouvidos, e continuou tentando ascender à aristocracia.

Observando o comportamento ridículo do Sr. Jordano, um nobre. falido e mau- caráter, dele se aproximou, tentando se aproveitar e aplicar-lhe um golpe.

Diante do comportamento abobalhado do Sr. Jordano, o aproveitador, fazendo-se de amigo, passou a alimentar seus delírios e sonhos aristocráticos, fazendo logo com que ele pagasse suas dívidas.

O Sr. Jordano tencionava casar sua filha com algum nobre. No entanto, a jovem se apaixonou por um burguês, que a pediu em casamento, tendo o Sr. Jordano se oposto ao enlace.

Com a ajuda de um empregado, o pilantra e falso amigo do Sr. Jordano, usando de disfarces, apresentou-se perante ele, como filho do Sultão da Turquia. Radiante de felicidade, o Sr. Jordano consentiu que sua filha se casasse com o suposto príncipe estrangeiro. E ficou ainda mais feliz, quando o falso Sultão o informou que, na qualidade de pai da noiva, ele também seria agraciado com um título de nobreza, numa cerimônia especial.

Celebrada a falsa e ridícula cerimônia, o novo “fidalgo” passou a gastar todo o patrimônio herdado do seu pai, até que a Madame Jordano o obrigou a retornar à vida simples, que eles sempre levaram.

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O CIRCO

Há décadas, na minha querida Nova-Cruz (RN), uma vez por outra chegava um Circo, que armava perto da nossa casa, na Rua Barão do Rio Branco. O mais alinhado deles era o Circo Copacabana.

Nessa época, não havia televisão e a distração do povo, à noite, era se sentar nas calçadas para conversar. Com a chegada do Circo, a monotonia da cidade era quebrada e se notava o semblante alegre das pessoas.

À estreia, a cidade em peso comparecia, incluindo o Prefeito, o Delegado, o Juiz de Direito, o Promotor e o Médico, todos com suas respectivas famílias.

No Circo Copacabana, o espetáculo era divido em duas partes. A primeira era composta de atrações de palco e picadeiro. Aí se incluíam palhaços, trapezistas, equilibristas e malabaristas. No palco, cantores maravilhosos e a grande sanfoneira Alda Lima, que do seu instrumento de trabalho arrancava as mais belas canções, cantando e encantando a plateia.

A segunda parte do espetáculo circense era uma peça de teatro da melhor qualidade, drama ou comédia, onde os artistas se revelavam grandes atores. Foi no palco do Circo Copacabana, que assisti, pela primeira vez, “O Ébrio”, “Coração Materno”, “A Megera Domada” (de William Shakespeare), “O Solar dos Urubus”, “A Canção de Bernadete”, “Marcelino Pão e Vinho”, “A Paixão de Cristo” “O Burguês Fidalgo” (de Molière), e outras grandes peças que fazem parte da dramaturgia brasileira.

Os Circos antigos, apesar da falta de luxo, tinham muito mais valor cultural do que os atuais, pois incentivavam a arte da dramaturgia, encenando peças de importantes autores, nacionais e internacionais. O apresentador, geralmente, era o dono do Circo. Com a emoção estampada no rosto e na voz, solenemente, ele anunciava a segunda parte do espetáculo e a peça teatral a ser encenada, dizendo o nome do autor.

Os aplausos eram estrondosos!!!

Nessa época, em Nova-Cruz, não havia violência. Essas doces lembranças se referem a um tempo feliz, quando a maldade ainda não tinha nascido!

Ainda meninota, assisti no Circo Copacabana, na companhia dos meus pais e irmãs, a uma comédia engraçadíssima, que minha Mãe sempre relembrava e da qual nunca esqueci. O nome era “O Solar dos Urubus”.

Começava com vários homens de capa preta, dançando em forma de trenzinho, ao som de “Olhe a Conga”: “Olhe a conga/Olhe a conga/ Mulher bonita de mim não zomba.”

A história se passava num bordel decadente, transformado em Palácio, mas conhecido como “Solar dos Urubus”, por atrair muitos urubus ao telhado, uma vez que, nas imediações, havia um matadouro público. Localizado numa ilha fictícia, chamada Bananal, era lá que estava instalada a capital do País. Ali, abundavam melancias, bananas e abacaxis.

O regime político que ali imperava era um confuso regime monárquico.

O palácio era habitado pela família real e frequentado por ministros, generais, conspiradores, um esfaqueador, compositores, maestros, professores e músicos. Pelas ruas, havia muitos vendedores ambulantes, lavradores, amantes do rei e o povo em geral.

A ilha era cercada de tubarões por todos os lados e em todos os sentidos. Lá, se desenrolava uma verdadeira aventura política de capa e espada, reunindo humor e aventura.

Os filhos do Rei eram ingênuos, quase abobalhados, e tinham o raciocínio lento. O mais velho, Luan, queria, porque queria, ser arqueiro. Vestia-se de Guilherme Tell (um herói lendário do início do século XIV, de disputada autenticidade histórica, que se pensa ter vivido no cantão de Uri, na Suiça) e, quase todos os domingos, mandava amarrar um homem a uma cadeira, com uma fruta na cabeça, nos jardins do Solar, onde o povo podia assistir à sua demonstração de “arco e flecha”. Começou com uma maçã, fruta nobre e antiga, que já existia, até mesmo, no paraíso. Como a fruta era pequena, ele sempre errava o alvo e atingia o homem.

Pela sequência de “erros” cometidos, o Rei ordenou-lhe que usasse uma fruta maior como alvo.

Cachos de banana, abacates e abacaxis foram usados, terminando com melancias. De nada adiantou.

Em busca de fortes emoções, Luan exigiu que, a partir daquele dia, com a ordem do Rei, fosse amarrado à cadeira, não mais um homem do povo, mas o Primeiro Ministro.

E numa manhã de domingo, para mais um desastroso espetáculo de “arco e flecha”, nos jardins do Solar dos Urubus, estava o Primeiro Ministro amarrado à cadeira, com uma melancia na cabeça.

O povo assistia a esse “espetáculo”, sob grande tensão, sabendo que o abobalhado herdeiro do trono não acertaria o alvo, nem pra remédio.

Na outra extremidade do jardim, estava o “arqueiro”, vestido de Guilherme Tell, esticando um bonito arco, pronto para disparar a flecha. Entretanto, ao ser disparada, a flecha atingiu o coração do homem amarrado, provocando-lhe uma grande explosão de sangue. A morte do Primeiro Ministro foi imediata. A melancia permaneceu intacta.

Friamente, Luan disse para o Rei, que havia falhado, mais uma vez.

O pai o repreendeu, dizendo-lhe que procurasse praticar um esporte diferente, que não pusesse em risco a vida humana.

O filho chorou, acusando o pai de estar tirando o seu estímulo, certamente, por querer transformá-lo num jogador de futebol, e também de ter esquecido de que o esporte, a caça, a competição e a luta faziam parte da boa educação de um herdeiro do trono.

Protestando, o Rei lembrou ao filho, que, naquele dia, tinha sido morto o sexto Primeiro Ministro da Corte, vítima da sua inabilidade como arqueiro. E isso poderia desencadear uma crise no país.

O rapaz respondeu que ninguém precisava saber dos seus “pequenos insucessos” e que o Rei deveria pôr a culpa no povo. E que nada o faria desistir do seu esporte favorito, o “arco e flecha”.

Contemporizando, o Rei ordenou-lhe que usasse uma fruta ainda maior. No caso, só faltava uma jaca, coisa que o rapaz detestava. E ele explodiu de raiva.

Então, o pai lhe permitiu usar como alvo qualquer outra fruta, desde que fosse na cabeça de um homem do povo. Mas, ele não aceitou, alegando que um homem do povo não lhe daria qualquer emoção, pois não valia nada.

Cedendo à imposição do filho, o Rei sugeriu que, nessa nova fase de exercícios de “arco e flecha”, ele usasse, amarrado à cadeira e com uma melancia na cabeça, o Ministro da Educação. O rapaz não gostou da ideia, dizendo que ali em Bananal, o Ministro da Educação não servia para nada.

E tudo continuou na mesma algazarra.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A PICHAÇÃO

O Colégio Estadual da cidade havia sido recentemente restaurado e pintado, e o Diretor, muito austero e zeloso, estava radiante. Era o início do ano letivo e o colégio fazia gosto de ver. Os alunos do I e II Graus estavam felizes com a beleza do educandário.

Cumprindo ordem do Diretor, os inspetores de classe fizeram um apelo aos alunos, para que evitassem colocar as mãos sujas nas paredes do colégio, a fim de que a pintura não fosse danificada. Entretanto, logo na primeira semana de aula, o Diretor tomou conhecimento de que um dos banheiros masculinos havia sido pichado a carvão, com desenhos obscenos e palavrões.

O Diretor ficou revoltado e quis punir o culpado, pelo ato de vandalismo. Pela intensidade da pichação, estava claro que o autor contou com a cumplicidade de alguém. A letra de forma tornava difícil a identificação do autor.

O Diretor reuniu todos os alunos e ameaçou aplicar uma suspensão coletiva, caso o culpado não se apresentasse. Ao mesmo tempo, não achava isso justo, pois conhecia o comportamento de alguns alunos, e tinha certeza de que eles seriam incapazes de um ato desse tipo contra o Colégio. O fato é que os palavrões foram escritos com a mesma letra.

O Diretor não se cansava de analisar os palavrões escritos. Num dado momento, o mestre teve uma intuição. Sem medo de errar, identificou o culpado. Encontrou um detalhe nas palavras escritas, que clareou sua mente. Não tinha mais qualquer duvida! Estava claro que o autor da pichação era Orestes, um dos alunos conhecidos pela sua rebeldia dentro dos movimentos estudantis da época. Para quem não tivesse a experiência do Diretor, aparentemente, o culpado poderia ser qualquer outro aluno que pertencesse a esse grupo da rebeldia. Mas, havia um detalhe na forma de escrever, que chamou a sua atenção. E sua intuição não falhava. Jamais ele faria uma injustiça a alguém, especialmente a um aluno. O Diretor não tinha mais qualquer dúvida. Estava identificado o culpado.

O aluno Orestes Souza era fanho, e, por coincidência, entre os palavrões escritos nas paredes do banheiro, estava “BUNCETA”, reproduzindo exatamente a entonação da voz do fanho. E “BUNCETA” estava escrito diversas vezes, como se a palavra estivesse sendo pronunciada por um fanho. A argúcia do Diretor levou-o a deduzir que somente um fanho escreveria essa palavra assim.

Chamado à Diretoria, Orestes, o aluno fanho, em lágrimas, confessou que havia sido ele mesmo o autor da pichação.

Mesmo pedindo desculpas e mostrando-se arrependido, foi punido com três dias de suspensão.