O CENTRO DA TERRA

Quando alguém perguntava, aos antigos sábios, onde ficava o Inferno, de pronto, eles respondiam:

– O INFERNO FICA NO CENTRO DA TERRA.

E citavam a existência dos vulcões.

Nessa época, os vulcões eram temidos, como se fossem a cozinha do Inferno. E ninguém queria ser condenado a arder numa fornalha.

Séculos se passaram e o inferno, até hoje, continua sendo no centro da terra, povoado por assassinos, ladrões, estupradores, pedófilos, assaltante etc.

O tempo levou consigo os sábios de antigamente, que tinham inspiração divina. Mas a resposta deles, com relação à localização do inferno, ainda prevalece.

Nos dias atuais, a televisão e a Internet trazem para dentro de nossas casas, notícias piores do que a erupção de um vulcão. São verdadeiras comédias humanas, tragédias que aterrorizam crianças, adultos e idosos.

Acordamos com as notícias do inferno dentro de nossas casas. Além da violência das ruas, entre os humanos, aumentou assustadoramente o índice de violência doméstica, assaltos e crimes de toda espécie. Desapareceu a tranquilidade do povo, que vive assustado, mesmo quando trancado em apartamentos de luxo e condomínios fechados, verdadeiras “gaiolas douradas”.

Paralelamente, tem aumentado o índice de desastres ecológicos, acidentes aéreos e tragédias que destroem vidas humanas.

O homem está acuado, com medo, e preso em gaiolas de ouro, enquanto os bandidos estão soltos, invadindo bancos e escolas, dizimando vidas humanas.
O povo brasileiro está cansado de sofrer.

A tragédia de Brumadinho (MG), que, para os entendidos, foi anunciada previamente, mostrou que, para os ricos, uma vida humana não tem o menor valor.

E de quebra, hoje, o Brasil foi surpreendido com o massacre ocorrido em uma Escola Pública de Suzano (SP). Dois assassinos, ex-alunos, armados até os dentes, contra uma escola totalmente desarmada e de portas abertas. Mais uma tragédia, que chocou o povo brasileiro.

O povo anseia por notícias boas! Chega de indecência na televisão e nas ruas, vídeos imorais, violência nas redes sociais e baixaria!

Chega de se tentar tirar leite de pedra, procurando atrapalhar o novo Governo do Brasil, legitimamente eleito!

Apesar do sofrimento do povo brasileiro, ainda houve, em São Paulo, no ultimo carnaval, uma Escola de Samba, cujo samba-enredo homenageou o Demônio e humilhou Jesus Cristo, com coreografia agressiva à religião católica. Nota ZERO para essa Escola de Samba.

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DEU A LOUCA NO MUNDO

A palavra moda vem do latim “modus” e significa costume, maneira ou comportamento.

A evolução da moda e dos costumes, ao longo de décadas, indiretamente, tem contribuído para a degeneração dos valores morais da sociedade.

Entretanto, “para os anormais, tudo é normal”.

O modernismo atual resultou no culto ao que é “antinatural” e ao que se opõe aos costumes e aos princípios morais. Essa mudança conseguiu fazer, numa grande parte da população, uma verdadeira lavagem cerebral, no que se refere a tudo aquilo que envolve respeito à moral e aos costumes. No começo, houve um choque entre os costumes tradicionais e o modernismo considerado “indecente”, pelas pessoas conservadoras. Mas a maioria é quem manda…

Antigamente, no nordeste brasileiro, a moda chegava atrasada. Mas com a globalização, o modismo passou a influenciar as pessoas, imediatamente.

A televisão é uma verdadeira escola de novos hábitos e costumes, e a juventude tende a seguir os seus ensinamentos.

Pois bem. Certa vez, no início da década de 60, presenciei Dona Lia, minha saudosa mãe, que costurava muito bem, ficar sem graça, ao receber a visita de uma sobrinha que tinha chegado da capital. A jovem, de 17 anos, estava vestida com uma mini blusa de mangas compridas e uma calça bastante colada ao corpo, de cintura baixíssima, que mostrava o umbigo e boa parte do torso. Para Dona Lia, isso era falta de pudor. Ela considerava o umbigo uma parte sagrada do corpo, pois estava ligada ao parto.

Horrorizada com a exposição do umbigo da sobrinha, Dona Lia, muito franca, não se conteve e disse:

– Minha filha, você se vestiu tão bem, mas deixou de fora seu umbigo?!!!

Resposta da sobrinha:

– É calça “Saint-Tropez”, tia! É a última moda!!!

Dona Lia respondeu que considerava aquela roupa uma indecência. Para ela, o umbigo era quase uma parte genital. Era falta de pudor, deixá-lo à mostra.

A resposta da jovem veio com estupidez:

– A SENHORA É DE 12… “ (Xingamento usado, na época, pelos jovens, para agredir as pessoas mais velhas e conservadoras) .

Deu uma rabissaca e deixou a tia falando sozinha.

Minha mãe ficou chocada com isso. Nunca imaginou que fosse chegar o dia em que as moças se cobririam todas, mas deixariam à mostra o umbigo. Nunca tinha visto uma indecência tão grande!!!

Pouco tempo depois, surgiram outros modismos que escandalizaram Dona Lia, como o “monoquíni”, “fio dental” “exposição de barriga grávida” (adotada pela saudosa atriz Leila Diniz) e a nudez mostrada na televisão.

Coisas muito piores, como as que acontecem atualmente, incluindo a desvirtuação total dos valores morais, ela não chegou a ver.

A cintura baixa foi uma novidade dos anos 1960, na forma da calça saint-tropez, que mostrava escandalosamente toda a região do umbigo. A parte da frente da calça, que tinha normalmente 30cm, passou a ter entre 10 e 20cm, alongando o desenho do torso. Este corte de calças durou mais alguns anos como parte da cultura hippie, nos anos 1970. A região francesa onde foi lançada essa moda, emprestou seu nome ao novo tipo de calça.

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O HOMEM NA LUA

A chegada do homem na Lua, que completará 50 anos no dia 20 de julho do corrente ano, marcou um dos ciclos da corrida espacial, disputada entre os Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

A Apolo 11 foi um voo espacial tripulado norte-americano, responsável pelo primeiro pouso na Lua.

A ficção se confundiu com a realidade. Na tarde de 16 de julho de 1969, a nave Apollo 11, que foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA), levou à órbita da Lua os astronautas Neil Armstrong, Edwin “Buzz” Aldrin e Michael Collins. Quatro dias depois, Armstrong entrou para a história, como o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar.

O comandante Neill Armstrong e o piloto Buzz Aldrin pousaram o módulo lunar Eagle em 20 de julho de 1969 às 20h17min UTC. Armstrong foi, portanto, o primeiro homem a pisar na Lua seis horas depois já no dia 21, seguido por Aldrin vinte minutos depois. Os dois passaram aproximadamente duas horas e quinze minutos fora da espaçonave e coletaram 21,5 quilogramas de material para trazer de volta à Terra. Michael Collins pilotou sozinho o módulo de comando e serviço Columbia na órbita da Lua, enquanto seus companheiros estavam na superfície. Armstrong e Aldrin passaram um total de 21 horas e meia na Lua até reencontrarem com Collins.

“Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade” – foram as palavras proferidas pelo astronauta Neil Armstrong, equanto descia do módulo aterrissado na superfície lunar, em 20 de julho de 1969. Ele tornou-se o primeiro ser humano a caminhar sobre a Lua, seguido pelo astronauta Edwin Buzz Aldrin, seu companheiro de missão. Esse momento histórico foi televisionado para o mundo todo. Cerca de um bilhão de pessoas assistiram a essa memorável cena, testemunhando o que viria a ser uma das maiores conquistas tecnológicas de todos os tempos e um marco do progresso científico. A chegada do homem ao solo lunar foi uma conquista obtida na corrida entre os Estados Unidos e a Rússia ( na época ainda União Soviética), as duas potências econômicas que disputavam, em meio à Guerra Fria, a superioridade científica, tecnológica e cultural.

Os soviéticos saíram na frente, com o lançamento do satélite espacial Sputinik, em 1957 e no mesmo ano foram os primeiros a enviar seres vivos, como a cadela Kudriavka, e, logo depois, o astronauta Yuri Gagarin, ao espaço em 1961.

Sete anos depois, os norte-americanos comemoraram o pioneirismo, ao circunavegar a Lua e, no ano seguinte, a missão Apolo 11, tripulada por Michael Collins, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, fincou a bandeira dos EUA na superfície da Lua, aos olhos estarrecidos dos telespectadores do mundo todo.

Em 1968, foi lançado o filme de ficção científica “2001: A Space Odyssey (2001: Uma Odisseia no Espaço), produzido e dirigido por Stanley Kubrick, coescrito por Kubrick e Arthur C.Clarke, baseado parcialmente no conto ” “The Sentinel” do próprio Clarke. Um romance do mesmo nome, escrito concomitantemente com o roteiro, foi publicado logo após o lançamento do filme.

O filme lida com os elementos temáticos da evolução humana, existencialismo, tecnologia, inteligência artificial e vida extraterrestre.

A trilha sonora é belíssima, resultado da associação feita por Kubrick entre o movimento de satélites e os dançarinos de valsas, o que o levou a usar a valsa Danúbio Azul, de Jonhann Strauss II, e o famoso poema sinfônico de Richardd Strauss, Also sprach Zarathustra, para mostrar a evolução filosófica do Homem, teorizado no trabalho de Friedrich Nietzsche de mesmo nome.

Esse filme assombrou o mundo, e o sucesso foi enorme.

Pois bem. Em Nova-Cruz (RN), interior nordestino, conheci um senhor. Seu Josivaldo, ferroviário aposentado, que não acreditava em notícia de rádio, jornal ou televisão.

Analfabeto de pai e mãe, para ele qualquer notícia extraordinária era pura mentira.

Josivaldo era um homem muito sério e mal humorado. Certas coisas lhe pareciam absurdas. Parecia que em sua volta tudo fedia.

Foi assim com a notícia da chegada do homem na lua.

Ele esbravejava, para todo o mundo ouvir:

– Uma notícia mentirosa dessa, quem inventou devia ser preso. É coisa de Satanás!!!

Para Seu Josivaldo, certas coisas lhe pareciam absurdas. Uma delas foi a chegada do homem na Lua. Parecia que em sua volta tudo rodava. E com essa notícia de que o homem fora à Lua, quem saíu de órbita foi Seu Josivaldo. Desorientou o juízo mesmo. E não parava de gritar:

– Essa foi a maior mentira de todos os tempos!!! Deus ia permitir uma coisa dessa? Como é que o homem furou a Lua pra entrar???

E Seu Josivaldo morreu com mais de 90 anos, sem acreditar que o homem foi à Lua. Descrente como ele, ainda existe muita gente no interior nordestino.

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O TELEGRAMA

Violante Pimentel

Minha mãe me contou. Era um começo de noite em Nova-Cruz (RN), quando meu pai chegou do trabalho, trazendo um telegrama vindo de Natal.

À luz de candeeiro, ele leu o telegrama em voz alta, onde viu escrito: “PROFESSOR CELESTINO MORREU.”

Minha mãe, filha de Celestino Pimentel, tomou o telegrama, leu novamente, e gritou: Não foi meu pai que morreu!!! Aqui está escrito “PROFESSOR CLEMENTINO MORREU”.

Muito choro na sala, principalmente da minha avó Júlia, prima/irmã de Clementino Câmara e das tias que tinham estudado em Natal, na sua casa.

Sempre ouvi minha avó falar com muito carinho desse primo/irmão, que ficou órfão de pai aos dois anos de idade, e de mãe, aos nove. Apesar do pai ter sido senhor de engenho, dono de terras e escravos, depois de sua morte, a família passou sérias dificuldades.

Clementino Câmara Nasceu na Praia de Pipa, em Tibau do Sul (hoje, Município de Goianinha), a 17.01.1888

Dona Júlia, minha avó paterna, dizia que Clementino aprendeu a ler atrás da porta, ouvindo aulas particulares.

Ainda garoto, em Natal, começou a trabalhar como serralheiro e depois como operário de fábrica de tecidos (Patronos e Acadêmicos, V. II, p. 194 – Veríssimo de Melo).

Aos 17 anos, em Natal, matriculou-se num Externato, completando sua alfabetização..

Começou a ensinar aos próprios colegas de classe, que tinham mais dificuldade em aprender.

Aos 18 anos, ensinava particular nas residências e também na casa onde morava em Natal, na antiga Rua dos Tocos, cuja sala foi transformada em sala de aula.

Já casado, numa das aulas particulares, mandou para casa, por mau comportamento, o aluno JOÃO CAFÉ FILHO Motivo: Ao ser chamado à atenção, o aluno, muito insubordinado, deu “uma banana” à dona Hilda, esposa do professor. Na época em que não se dizia palavrão, esse gesto significava uma grande irreverência. Professor Clementino nunca imaginou, que, décadas depois, esse aluno insubordinado chegaria à Presidência da República do Brasil, como chegou (Café Filho foi presidente do Brasil entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Filho de Presbítero da Igreja Presbiteriana, foi o único potiguar e o primeiro protestante a ocupar a Presidência da República do Brasil (junto com Ernesto Geisel).

Professor Clementino Câmara tornou-se autodidata, dedicando-se à leitura de jornais e se interessando pela História do Brasil e do Rio Grande do Norte.

Firmando-se como professor particular, fez boas amizades e conseguiu emprego num jornal da cidade, chegando a trabalhar como redator. Tempos depois, foi convidado para lecionar no Atheneu Norte-Rio-Grandense e posteriormente na Escola Normal, onde chegou a exercer o cargo de diretor. Sua disciplina era História e Geografia do Rio Grande do Norte.

Publicou as seguintes obras: “Revelações”, “Geografia e História do Rio Grande do Norte”, “Décadas”e “Romance do Atheneu”.

Clementino Câmara, além de professor, consciente das funções que exercia e da dedicação com que assumiu o magistério durante toda a sua vida, tinha dois posicionamentos não aceitos pela Igreja católica, nem pela forma de governo da época. Ele havia assumido sua função de intelectual, junto à Maçonaria e à Igreja Presbiteriana. Os dois posicionamentos se opunham aos princípios religiosos dominantes.

Pesquisou a linguagem popular e os costumes do povo do agreste, do campo e das praias, fazendo anotações, que se tornaram preciosas em sua vida literária. Transformou sua longa pesquisa em livro, ao qual deu o título de “GERINGONÇA DO NORDESTE.” (1937)

Esse livro merece uma especial atenção, pelo fato de ter sido censurado durante o Estado Novo. O livro buscava tratar a questão do estudo realizado por Clementino Câmara, sobre os termos falados pelas classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste. Na verdade, era um grande dicionário de gírias populares e que, por se tratar de um patrimônio intelectual da cultura potiguar, deveria ser publicado pelo governo do Estado, com base na lei estadual 145, que versava sobre o custeio de publicação de livros escritos por autores potiguares.
A recusa veio, então, pelo interventor Rafael Fernandes Gurjão, por meio do parecer emitido por uma comissão que julgara o livro como “ INADEQUADO E ATÉ PERIGOSO” para os jovens que porventura o lessem.

Por falta de sorte, o requerimento foi parar nas mãos do Cônego Amâncio Ramalho, Diretor do Departamento de Educação do Estado e guardião dos interesses do Estado Novo, em se tratando de política educacional. O trabalho foi jogado no Arquivo Público Estadual, como se fosse lixo.

Em 1986, conforme relata Geraldo Queiroz (op. cit., p. 17 a 21), localizou-se um processo no Arquivo Público Estadual datado de 4.10.1937, no qual Professor Clementino Câmara, invocando a lei estadual nº 145, de 6 de agosto de 1900, de incentivo à cultura, sancionada pelo então Governador Alberto Maranhão (V. “MARANHÃO, Alberto Frederico de Albuquerque”, Século XIX), solicita a publicação de um estudo sobre as classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste, onde colhera elementos para constituir um vocabulário típico e que, assim entendia, logo seria incorporado ao léxico. O Governador, à época Rafael Fernandes, que em pouco tempo seria Interventor, indeferiu o requerimento, face ao parecer contrário recebido. Entre outros argumentos, alegava-se o realismo de certas expressões que não podiam cair em mão de pessoas de pequena idade. (Na verdade, Dr. Edgar Barbosa, um dos Membros da Comissão, aprovara-o, reputando-o como ótimo glossário de modismos, dos mais completos que já se editaram no Brasil. Acompanhando-o, apenas sugerira a exclusão de alguns termos; o terceiro membro, Sr. Véscio Barreto, omitira-se e o Cônego Amâncio Ramalho, na condição de Diretor do Departamento Estadual de Educação, encaminhara a decisão).

Cinquenta anos depois, “post mortem”, ironicamente, seu trabalho seria reconhecido. Clementino Câmara, primeiro ocupante da Cadeira nº 19 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, é nome de rua, de escola e de Loja Maçônica, em Natal. Faleceu, em Natal, a 18 de setembro de 1954. Levou para o túmulo essa mágoa.

Mas, se isso serve de consolo, cinquenta anos depois, seu trabalho foi encontrado no Arquivo Público Estadual, resgatado e estudado por um aluno de pós-graduação da UFRN, que o usou como tese. Após aprovação da tese pela Comissão Especial da UFRN, o livro do Professor Clementino Câmara, GERINGONÇA DO NORDESTE foi publicado, com o subtítulo A FALA POPULAR DO POVO, onde na capa figura apenas o nome do autor Geraldo Queiroz, e já está na 2ª Edição (Natal -2009).

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A INTRIGA

Violante Pimentel

Bartolomeu passou muito tempo no Rio de Janeiro e, já beirando os 60 anos, voltou para sua terra natal, no interior do Rio Grande do Norte. Boêmio e seresteiro, reencontrou vários amigos da sua juventude e os encontros em mesa de bar tornaram-se diários. Voltou do Rio de Janeiro, chiando e com uma boa economia financeira, fruto do seu trabalho em um Jornal. Veio disposto a viver a vida com que sempre sonhou: “Sombra e água fresca”. Queria, agora, somente tomar suas cervejas, conversar com os amigos e curtir serestas, onde ele mesmo era o melhor violonista e cantor.

Divorciado, preferiu permanecer sozinho, sem qualquer relacionamento sério. Bom de copo e de conversa, os amigos sempre aguardavam, com ansiedade, a sua chegada.

Certo dia, Bartolomeu sentiu um incômodo no pescoço e, muito assombrado com doença, foi depressa à casa do Dr. Simplício, um médico antigo da cidade, que há anos estava aposentado. O Dr Simplício, disse-lhe que não estava mais clinicando, mas, por delicadeza, apalpou o pescoço de Bartolomeu, constatando alguns gânglios. Contundente, o médico sugeriu, então, que ele fizesse uma consulta com um médico moderno, na capital do Estado. Podia não ser nada e podia ser muita coisa. Por isso, era melhor prevenir do que remediar.

Bartolomeu ficou decepcionado com o Dr. Simplício e considerou uma grosseria o fato dele ter se recusado a lhe receitar qualquer remédio. E falou:

– O que é isso, Dr. Simplício? Um médico bom, como o senhor sempre foi, não esquece nunca o que aprendeu no exercício da sua profissão. Não está vendo que eu não vou sair daqui para me consultar a um médico novo, que ainda não tem a sua experiência?

Bartolomeu reclamou tanto que o médico saiu do sério. e falou aborrecido:

– Olha Bartolomeu, para mim é difícil dar um diagnóstico sem os exames que se fazem necessários. Por isso, eu insisto com você, para que vá a um médico em Natal, especialista em pescoço.

Bartolomeu não concordou com a sugestão do Dr. Simplício e disse que não iria a nenhum outro médico, muito menos em Natal. Já tinha passado muito tempo longe de sua terra e de seu familiares, e não se afastaria mais dali por motivo nenhum.

Nessas alturas, o nervosismo tomou conta de Bartolomeu e ele perguntou ao médico:

– Se for câncer, quanto tempo terei de vida, doutor? Pode dizer, pois não tenho medo de morrer!!!

Já irritado com a insistência de Bartolomeu, o médico sentenciou:

– Se for câncer, no máximo, seis meses.

Bartolomeu saiu arrasado da casa do Dr. Simplício. Não foi a nenhum centro adiantado para se consultar e continuou no interior, com a sua vida normal, de boemia e boas conversas com os amigos. Passou a usar no pescoço, todos os unguentos caseiros que lhe arranjavam, e aos poucos seu pescoço normalizou.

Quase um ano depois, Bartolomeu, completamente em forma, resolveu voltar à casa do Dr. Simplício, que lhe sentenciara, se fosse câncer, “no máximo, seis meses de vida”. Lógico, que não era câncer. Sorte de Bartolomeu.

O velho médico costumava passar as tardes na janela de sua casa, olhando o movimento da rua. Quando Bartolomeu vinha se aproximando, Dr. Simplício o reconheceu, saiu da janela e a fechou bruscamente. Humilhado, Bartolomeu foi ao encontro dos amigos que o esperavam no bar e contou a decepção por que tinha passado. Literalmente, o médico batera a janela na sua cara.
Um dos amigos saiu-se com essa tirada:

– Não se engane não, Bartolomeu. Esse Dr. Simplício ficou intrigado com você, somente porque você não morreu!!!

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A SOMBRINHA

Violante Pimentel

Rosilda e Josimar eram casados há bastante tempo e já caminhavam para as Bodas de Ouro. As duas filhas já estavam casadas e haviam lhes dado dois netos.

Certa vez, Rosilda tinha saído de casa para assistir a Missa das 6:30 h, como costumava fazer todas as manhãs. Deixara o marido dormindo e todo coberto. A Igreja não ficava muito longe e dava para ir a pé.

Quando já tinha percorrido mais da metade do caminho, o tempo fechou e, como ainda era cedo, Rosilda resolveu voltar ligeiro, para buscar a sombrinha. Ao chegar em casa, abriu o portão da garagem e entrou. Qual não foi sua surpresa, ao encontrar Josimar e a empregada da vizinha deitados no chão da garagem, transando loucamente. Ao vê-la, Josimar, nervoso, disse a célebre frase:

– Não é nada disso do que você está pensando!!!

Revoltada, Rosilda foi para a calçada, gritando para quem quisesse ouvir:

– Venham ver a cena que encontrei na minha própria casa! Olhem que tipo de marido eu tenho há 45 anos e não sabia!!! Ele é indigno de ter uma esposa como eu!!! Canalha!!! Bandido!!!

A empregada da vizinha saiu na carreira, antes que levasse uns bofetões de Rosilda.

Desesperada, a mulher telefonou para as duas filhas casadas, contando o que o pai delas tinha aprontado. Desde quando ele vinha fazendo isso, ela não podia imaginar!

Dentro de pouco tempo, as filhas chegaram e encontraram a mãe em estado de choque, dizendo que tinha vontade de matar “esse cabra safado”!!! Enquanto isso, o gostosão, safenado e beirando os setenta anos, chorava de vergonha, trancado no escritório.

As filhas tentaram acalmar a mãe, dando-lhe uma garapa e até uma dose de “Coramina”.

Josimar era tão sonso, que, nem de banda, olhava para outra mulher, por mais bonita que fosse. Dizia sempre que, para ele, só existia Rosilda. Os dois eram considerados um casal exemplar.

Depois dessa decepção, Rosilda, dona de um gênio muito forte, separou-se de Josimar, que chegou a lhe pedir perdão de joelhos. As filhas imploraram à mãe que o perdoasse, mas não houve jeito.

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NÃO POSSO VIVER SEM ELA

Violante Pimentel

Estou só, e as lembranças não me deixam sossegada. Procuro desviar o pensamento, mas o redemoinho das recordações me perturba a mente.

Quero contornar essa ausência, neutralizar as lembranças, mas para mim é impossível. Sonhei com ela ontem, e hoje passei o dia todo sofrendo com saudade. Emocionalmente, sempre dependi dela, mas foi impossível continuarmos juntas. Ela enfraqueceu, tornou-se frágil, sem forças, incapaz de me enlaçar com firmeza. Não podia mais me envolver com o seu calor. Impossível evitar o final.

O tempo passou e chegou o momento da separação. Tive que substituí-la por outra. A cada minuto que passa, mais me dói a solidão. À medida que a noite avança, minha inquietação vai aumentando. Está demorando a amanhecer…

A noite está fria e a lua se escondeu com os seus mistérios. As estrelas, em solidariedade à lua, também se esconderam. As recordações longínquas ocupam minha mente. Sua quentura, seu aconchego e até o seu cheiro estão encravados em mim. Ardo de saudade dela, e chego a murmurar:

MINHA QUERIDA E ANTIGA COLCHA DE FLANELA, VOLTA PRA MIM!!!

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O NOIVADO

Violante Pimentel

Dona Nazinha , viúva, tinha uma filha única, Maria das Dores. Ficava louca de preocupação quando Felisberto, seu futuro genro, chegava em sua casa para “noivar”, todas as noites.

Nesse tempo, anos 60/70 do século passado, era tradição as jovens casarem virgens. Também não saíam sozinhas com o pretendente, nem para assistir Missa. Todo cuidado era pouco, e as mães não confiavam nem nas ”batatinhas”.

Astuciosa como todas as mães, Dona Nazinha, para acalmar sua neurose, instalou o seu velho piano na sala de visitas, e no horário nobre do namoro da filha, permanecia executando alguma partitura musical do tempo do “ronca”. Às vezes, para tormento do casal, a distinta senhora resolvia cantar, com sua voz estridente e feia, acompanhando-se pelo instrumento de estimação. Às suas costas, a filha e o noivo, no sofá, namoravam como podiam.

Certa noite, a educada senhora demonstrou cansaço e resolveu deixar o casal a sós, longe da sua fiscalização. Justificou-se, alegando estar com dor de cabeça e que iria tomar um analgésico para repousar. Não se rendeu, e de cinco em cinco minutos, posicionava-se perto da sala, para olhar como estava o “namoro” e ouvir o que os dois pombinhos conversavam. Mas, logo teve uma decepção. Cismada com o silêncio dos namorados, adentrou à sala e viu o casal em pé, abraçado, e num beijo de “desentupir pia”. Os dois nem sequer perceberam a presença de Dona Nazinha, que voltou para o quarto em pânico.

Mais que depressa, a mulher pegou um despertador e programou para que “despertasse” a cada 15 minutos, na entrada da sala. Na cabeça de Dona Nazinha, isso seria uma forma de interromper o que o casal estivesse fazendo. A cena se repetiu por várias noites, até que o noivo, não aguentando mais o controle da futura sogra, resolveu antecipar o casamento.

Para decepção de Dona Nazinha, cinco meses depois do enlace, sua filha foi mãe e ela foi avó de um menino. O impacto da mulher foi grande. Sentiu-se traída miseravelmente pela filha e pelo genro. Viu que fizera papel de idiota, ao tentar fiscalizar o noivado da filha e preservar a sua virgindade.

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O “CINE ÉDEN”

Violante Pimentel

Paulo Bezerra era o retrato vivo da generosidade. Foi um dos maiores empreendedores de Nova-Cruz, na metade do século passado. Nessa época, na cidade, não havia agência bancária, e os financiamentos para instalação de empresas eram uma
utopia.

Paulo Bezerra era baixinho, (1,55) e franzino, mas dono de um grande coração. Era um sonhador e acreditava no futuro. Suas ideias eram ímpares, e ele não contava com assessoria técnica, para lhe dar orientações. Foi o dono do 1º cinema de Nova-Cruz, o “CINE ÉDEN”, cujo palco também serviu à apresentação de peças teatrais e shows. Nesse palco, houve encenação da peça O Avarento, de Moliére, com a troupe do grande artista Procópio Ferreira, além de apresentações de outras companhias de teatro, conhecidas nacionalmente…

Além de ter sido o dono do primeiro cinema de Nova-Cruz, Paulo Bezerra também foi dono de uma Gráfica, a única da redondeza, e de um enchimento de bebida, onde ele mesmo fabricava, artesanalmente, Vinho de Jurubeba, que, na época, tornou-se famoso na região..

O Cine Éden possuía um prefixo musical, que anunciava o início do filme. “Estrondava” no recinto a Ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes. A plateia fazia silêncio total, igual ao que deveria ser feito durante a execução do Hino Nacional. O filme, propriamente dito, era antecedido de episódios de seriados, como TARZAN e JIM DAS SELVAS.

A torcida e a gritaria da plateia infantil e juvenil eram grandes. Eufóricos, todos torciam pelos seus heróis.

Os projetores não passavam o filme inteiro, e havia intervalos, para que o “rolo” da fita fosse trocado. Fora a troca normal dos rolos de filmes, havia interrupções da projeção, porque a toda hora as fitas se quebravam, A gritaria da plateia era grande, e Ernesto, o encarregado da projeção dos filmes, era xingado de fdp a toda hora. Quando recomeçava a projeção, Ernesto era louvado e aplaudido.

Os filmes de Carlitos e os de “O GORDO E O MAGRO”, além dos clássicos com Jonh Wayne, Gary Cooper, Bette Davis, Robert Mitchum e outros, garantiam a frequência dos amantes do cinema

Lindalva, esposa de Paulo Bezerra, era a vendedora dos “ingressos”, ou “bilheteira”. A ordem do marido era de que a bilheteria fosse fechada, logo que acabasse a fila de compradores. Simultaneamente, era aberto o portão lateral, que dava acesso à platéia 2, para que a turma da pracinha, que ficava ao lado da Igreja Matriz e em frente ao cinema, pudesse entrar, gratuitamente. Era a “hora dos lisos”, que ocupavam a plateia 2, mais perto da tela, e onde assistiam o filme sentados em bancos, ao invés de cadeiras. A intenção de Paulo Bezerra era beneficiar os pobres e descamisados. Entretanto, a afluência maior, na “hora dos lisos”, era de “pirangueiros”, que preferiam se arriscar a saírem do cinema com torcicolos, por ficarem mal sentados e olhando para cima, do que pagar ingresso para a Platéia !, onde havia cadeiras. .

Nova-Cruz teve a honra de ter sido berço de Paulo Bezerra, um homem generoso e preocupado com os pobres, que poderia muito bem ser cognominado de “Pequeno Grande Homem”.

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