VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A PRIMEIRA MULHER

“Tentada por uma serpente, o animal mais ardiloso que Deus criou, Eva comeu do fruto proibido da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”, para adquirir entendimento, e fez com que Adão também o comesse.” – Genesis 3

Devido ao fato de Eva ter partilhado com Adão o fruto da árvore proibida, justificou-se por longos anos no cristianismo uma suposta inferioridade da mulher. Principalmente, porque, após o pecado original, Deus disse que a mulher seria governada pelo marido.

Para Eva, a primeira mulher que Deus criou, usando uma costela de Adão, ser expulsa do Paraíso foi uma tragédia. A maldição de Jeová tombou, principalmente, sobre ela e seu destino. E sobre sua felicidade na terra. A partir de então, iria sofrer as dores do parto, para a multiplicação da espécie. Era sobre ela que iriam recair as penas, os trabalhos e os cuidados da vida doméstica. Em suma, era sobre ela que iriam pesar as preocupações do vestuário e a mudança cotidiana da folha de parreira. Por isso, foi com o coração em pedaços que Eva deixou, para sempre, aquele abençoado domínio do Senhor, o Paraíso.

Expulsos do Éden, onde não havia tristeza, Adão e Eva baixaram a cabeça, e partiram tristes, humilhados e abatidos, para a horrível solidão do degredo. Logo que ultrapassaram os limites do grande jardim das delícias, nossa primeira mãe não pôde mais abafar o pranto. E pela primeira vez, Eva chorou. Caiu na dura realidade do Paraíso perdido. Seus belos olhos se encheram de lágrimas, como se fossem violetas tocadas pelo orvalho. E à medida que ela e Adão iam andando, suas lágrimas iam caindo uma a uma, dos seus grandes olhos, e assinalavam na areia, como pérolas do mesmo colar, as curvas do seu caminho. Porém, no dia seguinte, ao amanhecer, o rosto da primeira mulher iluminou-se de uma divina felicidade.

Marcando os seus passos no Deserto, a areia parecia semeada de pequenas flores em forma de estrela, brancas como a inocência e cheirosas como um imenso jardim.

E assim, das lágrimas da primeira mulher, nasceram as flores.

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A HEROÍNA

Nos meados do século passado, depois de passar seis meses em Lisboa, em visita aos pais, Dalva regressava, enfim, ao Brasil, louca de saudade do marido e não vendo a hora de cair nos seus braços. Viajava num navio repleto de passageiros, de diversas nacionalidades.

No restaurante do navio, conversando com o imediato, Dalva ficou sabendo que ali viajavam mais de 1.000 pessoas, entre passageiros e tripulantes.

O navio parecia uma cidade flutuante, onde Dalva não conhecia ninguém.

Os passageiros de 1ª classe, na maior parte argentinos, passavam a maior parte do tempo, bebendo e jogando.

No tombadilho, passageiros ingleses, que se dirigiam ao Rio e a Buenos Aires, fumavam, discretamente.

Durante o almoço, a saltitante e atraente senhora percebeu que o comandante, um bonito “marujo” britânico, tinha os olhos fixos nela. Ela desviou o olhar, mas continuou sentindo-se observada. Ficou incomodada com isso, pois era uma senhora casada e de respeito. Mesmo assim, sentiu-se envaidecida, por atrair o olhar de um homem tão bonito, onde havia tantas mulheres mais bonitas e jovens.

À noite, Dalva não desceu para o jantar.

No dia seguinte, durante o almoço, o comandante continuou a olhá-la insistentemente, a ponto de esquecer o whisky que tomava.

Era um inglês bonito, alto, forte, louro, bigode, pele corada e olhos azuis. Aparentava beirar os 50 anos.

A insistência do olhar do homem irritou Dalva, mas, ao mesmo tempo, massageou seu ego, ao sentir que, com 49 anos, ainda “dava um ponche”.

Após o jantar, o comandante desceu da casa de comando ao tombadilho. Aproximou-se de Dalva e lhe falou em inglês. Declarou-se apaixonado por ela, desde o primeiro minuto em que a viu.

Ela fez o possível para não ser indelicada. Disse-lhe que era casada e que o marido estava a esperá-la no Brasil. Mas, de nada adiantou. Dalva ficou tensa com a insistência do comandante, mas sua autoestima aumentou, consideravelmente.

No dia seguinte, o comandante passou o dia quase todo a persegui-la, insistindo em declarar sua paixão violenta.

Nessa época, não se falava em assédio sexual e as mulheres normais sentiam-se envaidecidas, quando eram cortejadas. Certos galanteios eram bem-vindos.

À tarde, no salão de música, o comandante se aproximou de Dalva, com os olhos inchados pela insônia e pelo desejo, e lhe declarou novamente a paixão violenta que ela lhe despertara. Convidou-a para ir, à noite, ao seu camarote. Disse-lhe, com voz trêmula e olhar apaixonado, que se ela não fosse lá até meia noite, meia hora depois ele seria capaz de meter o navio a pique, em pleno oceano, e não escaparia ninguém.

Dalva se viu entre a cruz e a espada. Sem saber se a ameaça era coisa séria ou brincadeira, se aconselhou com anjos, arcanjos e todos os santos do mundo e tomou a mais séria decisão da sua vida:

Evitou a morte de mais de mil pessoas, indo ao camarote do comandante e satisfazendo aos seus desejos.

Esse segredo, ela guardou para sempre, como um sonho “das mil e uma noites”.

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A BANDA

Seu Luiz Murá era um senhor sessentão, sempre de bem com a vida e muito bem humorado. Contador antigo, fazia “a escrita” de vários estabelecimentos comerciais, e frequentava sempre a Receita Federal para pegar informações. Muito bem relacionado, todos gostavam dele, do seu alto astral e do seu grande senso de humor.

Carmen Pimentel era fiscal da Receita Federal, cargo que passou a se chamar, posteriormente, Auditor Fiscal dos Tributos Federais.

Nessa época, estava no auge o grande sucesso de Chico Buarque, “A Banda”, e era a música mais tocada nas rádios de Natal.

Carmen Pimentel estava em pleno expediente na Receita Federal, quando entrou na sua sala Seu Luiz Murá, o contador, com sua costumeira pasta na mão. Como Carmen era especialista em “Imposto de Renda”, era a ela que seu Murá sempre se dirigia para pedir orientações. Ela tinha amizade pessoal com o contador e o atendia muito bem.

Como também era muito bem humorada, numa tarde em que Seu Luiz Murá foi lhe fazer consultas sobre declaração de imposto de rendas, Carmen, funcionária antiga, perto de se aposentar, quis brincar com o contador e cantou baixinho um trecho da música “A Banda”:

“O velho fraco esqueceu o cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou….”

Imediatamente, Seu Luiz Murá respondeu à provocação, como se respondesse a um desafio, cantando outro trecho da mesma música “A Banda”:

“…E a moça feia debruçou na janela,
Pensando que a banda tocava pra ela…”

Os funcionários da Receita Federal que ouviram a resposta de Seu Murá não se contiveram, e a gargalhada foi geral. Seu Murá tinha presença de espírito e não ficou por baixo na provocação de Carmen. A simpatia por Seu Murá ainda aumentou mais depois desse episódio.

* * *

Republicada atendendo a pedido do leitor Boaventura Bonfim.

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O BOM E O “BOMBOM”

Fazer o bem sem olhar a quem, é bíblico. Mas se a caridade for propagada, passa a ser exibicionismo.

“Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Sermão da Montanha – MT 5.1-2)

Ajudar alguém, eventualmente, é uma coisa. Mas assumir os problemas dos outros, é outra. Há pessoas que não passam sem ter problemas. E quando não tem, arranjam. Depois, querem que os outros resolvam.
Ninguém tem obrigação de assumir os problemas de ninguém. É aí que está a diferença entre ser bom e ser “bombom.”

Os invejosos não pensam nas pedras que você encontrou pelos caminhos até chegar onde chegou. Nem na dor que você sentiu, ao machucar seus pés nas pedras. Nem nas lágrimas que você derramou, ao ver seus sonhos desfeitos.

Pois bem.

Seu Jorge, dono de uma pequena fazenda, e sua esposa Efigênia moravam numa cidade do interior nordestino. O casal tinha dois filhos. Muito caridosos, marido e mulher combinavam em tudo e viviam em harmonia. A casa deles estava sempre de portas abertas aos necessitados, como se não tivessem chaves nem tramelas.

Era comum, ao amanhecer o dia, pessoas famintas se encontrarem à sua porta, pedindo o café da manhã. Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na calçada, à espera de comida. O casal não negava um prato de alimento a ninguém, ou uma ajuda em dinheiro, para um remédio ou outra coisa necessária.

Com o passar do tempo, oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Até pessoas empregadas, mas sem escrúpulos, tentavam tirar proveito do casal, usando de ardil para conseguir dinheiro “emprestado”, o que terminava em calote.

Com a hospitalidade típica do nordestino, o casal tinha prazer em hospedar, em sua casa, pessoas amigas e parentes.

O fazendeiro ajudava aos necessitados, sem alarde e, simplesmente, pelo espírito de caridade. Não era político nem cabo eleitoral.

Entretanto, pessoas sovinas e invejosas, que dão adeus de mão fechada, e são incapazes de dar uma esmola, achavam pouco o que ele fazia e instigavam os pobres para que lhe pedissem muito mais. Diziam que o fazendeiro era muito rico e devia ajudar ainda mais.

Isso chegou aos ouvidos do casal, que ficou indignado com a maldade humana.

Depois de uma conversa confidencial com o padre da Paróquia, pedindo orientação de como deveria agir para se livrar dos aproveitadores, o casal ouviu este conselho:

– Ajudar às pessoas necessitadas é exercer a caridade. Vocês são verdadeiros cristãos. Dar comida a quem não tem condições de se manter, é uma gesto sublime. Mas não se deixem explorar por pessoas más, verdadeiros golpistas.

O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser “bombom”. Quem se faz de mel, as abelhas comem.

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O FORMIGUEIRO

Sentado em seu gabinete, diante do seu birô, o poderoso senador recebe o “enxame” de correligionários, em audiência. A situação do seu partido era a melhor possível. Por isso, com alegria no rosto e orgulho no coração, fazia questão de receber um a um, os portadores de boas-novas e fuxicos.

As eleições para renovação da Câmara e recomposição do Senado se aproximavam e atemorizavam o velho senador politiqueiro, que não queria perder sua poderosa máquina eleitoral. Para isso, sempre se conduziu bem, não hesitando em atropelar amigos e se contemporizar com certos adversários. Sentia-se vitorioso e forte, como um homem que nunca se curvou a ninguém e a todos esmagou pelo caminho.

Enquanto ouvia as informações, trazidas pelo “formigueiro” que lhe garantia o prestígio, entrou no seu gabinete, com intimidade, um antigo senador, afastado das lides partidárias. Era um velho companheiro, que preferiu gozar em sossego os proventos da sua aposentadoria, e que continuava desfrutando de considerações especiais.

– Você, por aqui?!!!- exclamou o “Poderoso Chefão”, tirando o charuto cubano da boca, cheia de enormes dentes, que lembravam um animal feroz.
 O visitante sentou-se satisfeito e aguardou sua vez de conversar com o velho amigo, confidencialmente.

Até que o senador lhe perguntou o motivo da sua visita, e ele entrou no assunto:

– O que me traz aqui, amigo, é a situação de Josivaldo, meu afilhado. Ele precisa entrar para a Câmara e o seu apoio é fundamental. Se ele contar com o seu apoio, já é meio caminho andado. Conto com você.

O senador, acostumado a esse tipo de pedidos, lançou para o teto uma baforada do charuto que fumava e perguntou se o protegido do amigo tinha vocação para a política e se era um homem íntegro.

A resposta foi “sim”.

O senador continuou:

– Então, creio que não há nada contra ele. Vamos fazer o que for possível para que ele seja eleito.

Olhando nos olhos do velho companheiro, o senador percebeu uma certa preocupação e perguntou qual a razão do seu temor de que Josivaldo, seu protegido, não consiga se eleger para deputado.

Encabulado, o velho companheiro falou:

– O problema, amigo, é que ele é casado com uma mulher feia como um bicho!!! É de assombrar!!!

Com essa informação, a fisionomia do senador, que até então se mostrava risonha e satisfeita, mudou de expressão. O homem franziu a testa, unindo o bigode com a cabeleira, acendeu outro charuto, e, com ar preocupado, falou:

– Amigo, agora deu o diabo!!! Mas vamos ver!!!

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A ABSTINÊNCIA

Tomaz, 58 anos, contador e boêmio de carteirinha, só chegava em casa depois da meia noite. Há anos, tinha o hábito de, todas as noites, perambular por vários bares, onde encontrava os amigos de copo e de farra.

Rita, sua esposa, ao vê-lo chegar, aos tombos, perguntava de onde ele estava vindo, e a resposta grosseira era sempre a mesma:

– De um cabaré!!!

A mulher sofria muito com isso e se limitava a chorar.

De repente, os filhos fizeram um apelo ao pai, para que mudasse de vida. Fizeram isso em solidariedade à mãe, que não estava bem de saúde, sofrendo com problemas de hipertensão e diabetes.

Preocupado, Tomaz prometeu aos filhos e à mulher, que, daquele dia em diante, seria mais presente em casa.

Esse sacrifício, ele jurou para si mesmo que faria, para evitar que o estado de saúde da esposa evoluísse e a levasse a óbito. Ele não se perdoaria, se isso acontecesse.

Entretanto, Tomaz nunca imaginou que fosse tão difícil cumprir esse propósito de se afastar dos “bares e esquinas da vida.” Não sabia onde buscar força, para se controlar e abandonar a vida de boemia, junto aos amigos.

Mas, agora, que a mulher se encontrava doente, ele jurou mudar de vida, prometendo deixar a bebida e os bares em segundo plano. Queria começar vida nova, como bom chefe de família.

Quis provar a si mesmo que era um homem de responsabilidade. E resolveu fazer a “prova de fogo”, na sua primeira noite sem bebedeira.

Jantou em casa e logo saiu para dar uma volta. Passou devagar pela frente do seu botequim preferido e, de longe, cumprimentou os colegas de copo.

Satisfeito por ter resistido ao primeiro teste, passou pelo segundo botequim, terceiro, quarto, quinto, e assim por vários outros, resistindo à tentação de entrar.

Voltou para casa, satisfeito e falando consigo mesmo:

“Sim , senhor…Nunca pensei que você tivesse tanta força de vontade, seu Tomaz!!!”

No dia seguinte, acordou irritado com tudo e com todos. Era a crise de abstinência.

Depois do jantar, saiu novamente, para aliviar a cabeça. Passou pelos bares, salivando de vontade de beber, mas se controlou. Quando voltava para casa, sentiu-se satisfeito por não ter bebido. De repente, sofreu uma tentação, quase diabólica, e resolveu voltar, falando sozinho:

– Você merece um troféu, Tomaz! Vou lhe pagar um whisky! E entrou num botequim, chegando em casa, nessa noite, ainda mais bêbado, do que nas noites anteriores.

A decepção de Rita foi grande.

Tomaz não conseguiu cumprir a promessa feita aos filhos e à mulher.

Continuou bebendo todos os dias até perder a saúde.

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MUDANÇA DE HÁBITOS

Aposentada e viúva, Maria Rosa se habituou a ir com sua filha, todas as manhãs, à academia, e à tarde, dia sim, outro também, ao rodízio de shoppings. Depois do jantar, adotou o hábito de escrever no computador, ate meia noite, ou até o sono chegar.

Nos finais de semana, ela e algumas amigas, quase todas aposentadas, independentes e descasadas pela lei de Deus (viúvas), ou pela lei dos homens, não perdiam as danças da AABB, onde é sócia. Vez por outra, pintava alguma festa fora da AABB, e lá iam as “andorinhas” se divertir. Se não tivessem par para dançar, a animação era a mesma, pois elas dançavam mesmo sozinhas e soltas. O importante era a descontração. Todas elas, filhos criados e bem resolvidas, levavam uma vida de dar inveja às mulheres mal casadas, que arrastam casamentos desastrosos, apenas por conveniência.

De repente, não mais que de repente, no começo de 2020, a TV anunciou, em rede nacional, que um terrível vírus letal, o Covid-19, assomara às portas do Brasil, vindo do estrangeiro, e já estava fazendo vítimas.

Ainda bem que o Dr. Dráuzio Varela, no programa do Faustão, tranquilizou a população, opinando que o vírus que estava invadindo o Brasil seria apenas “uma gripezinha”.

Ledo engano. O Covid-19 terraplanou a população e, em poucos meses, ceifou milhares de vida, causando sofrimento e dor às famílias brasileiras.

O terrível vírus já se alastrara pelo mundo inteiro, e a luta pela cura, travada pela ciência, não obtinha êxito, nos casos avançados.

E deu-se o pânico. Medidas sanitárias alertavam a população, a fim de conter a disseminação do Covid-19. Tornou-se obrigatório o distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos com sabão ou álcool em gel, e, por fim, o fechamento de academias, clubes, repartições públicas, templos religiosos, e do comércio formal, incluindo shoppings, restaurantes e bares, e o informal, como camelôs, vendedores ambulantes, inclusive pipoqueiros e vendedores de cachorro-quente, que alimentam a família com o apurado do dia.

Isso enlouqueceu a população. Quem tinha a cabeça boa, passou a sofrer de depressão. Quem já tinha depressão, destrambelhou, e piorou de vez. Nunca se procurou tanto terapeuta, e nunca se tomou tanto antidepressivo no Brasil. Também nunca se tomou tanta Ivermectina e Cloroquina, como tratamento precoce.

E a Ciência entrou em campo, em busca de uma vacina contra o Covid-19.

A imprensa funerária, nos noticiários, informava, com ênfase, o número crescente, diário, de mortos pelo Covid-19, aumentando cada vez mais o terror da população. As crises de pânico aumentaram, resultando, inclusive, em casos de suicídios.

A partir do mês de março de 2021, com a chegada das vacinas contra o Covid-19, a população sã foi convocada a se vacinar. A imunização ainda não se completou, mas o poder público está se esforçando para que todos os brasileiros estejam vacinados até o final do ano.

O Covid-19 ainda continua ceifando vidas e os hospitais continuam cheios. Porém, com a vacinação, o povo criou alma nova. E a luta continua. Abriram-se “as portas da esperança.”

E as viúvas e descasadas, confinadas em casa por quase dois anos, que antes da pandemia saíam sempre, para espantar o fantasma da solidão, continuam sem perspectiva do “alvará de soltura.”

Mesmo já vacinadas, ainda continuam usando máscaras, e evitando aglomerações. Aguardam, ansiosas, que os tempos mudem e o lazer volte a existir, com a liberdade e segurança de antes. E que o fantasma do Covid-19 fique, apenas, como mais uma tragédia, na história da humanidade.

O distanciamento social, imposto pelas autoridades sanitárias, deixou traumas que perdurarão durante muito tempo.

E a “mídia funerária” continua aterrorizando a população, pois a vacina não garante a imunidade 100%.

Cada qual se defende como pode.

Esta semana, Maria Rosa, que é louca por música, deu um “lance de mestre”. Para espantar o estresse, comprou uma sanfona nova e bem mais leve do que a sua antiga e encostada, de 120 baixos, já “velhinha”. A distração de Maria Rosa, agora, é tocar sanfona, que voltou a ser o seu xodó, sem desprezar o teclado.

Pelo menos, ela se distrai, preenche o tempo e esquece a vontade de sair de casa, até que termine a vacinação em Natal. As festas da AABB ainda não recomeçaram. E o remédio é esperar.

Afinal, a música é o alimento da alma. Tocar um instrumento, melhora a vida interior.

Repetindo o Escritor Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros, música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.

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SOBRE AS ONDAS

O garoto Ítalo Ferreira, nascido e criado na praia de Baía Formosa (RN), município do litoral leste do Estado do Rio Grande do Norte, filho de Luiz Ferreira e Catiana Ferreira, desde os seis anos de idade, apaixonou-se pelo Surfe. Gostava de brincar com as ondas, e o mar povoava seus sonhos.

Enquanto o pai trabalhava na praia, permitia que o filho brincasse, com a tampa da caixa de isopor, onde estavam os peixes, à sua vista e da mãe.

Nessa idade, o garoto já revelava sua vocação para o Surfe.

Muitas tampas de isopor se quebraram, com a brincadeira do filho, sem que o pai se aborrecesse. Afinal, o garoto ainda não possuía uma prancha.

Aos 8 anos, o menino ganhou, de um amigo do seu pai, uma prancha usada, com a ponta quebrada, que para ele teve o sabor de nova. E, usando o dom que Deus lhe deu, sem treinador, passou a enfrentar as ondas de Baía Formosa, com habilidade de chamar a atenção.

Aos 11 anos, Ítalo recebeu, de presente do pai, uma prancha de Surfe, ainda na embalagem, zerada, comprada com dificuldade, mas com muito amor. A felicidade que o homem viu estampada no rosto do filho compensou o sacrifício.
Se o garoto ficou feliz, o pai ficou ainda mais.

Pouco tempo depois, Ítalo já era vencedor de campeonatos locais.

Apesar de surfar todos os dias, o menino sempre frequentou a escola, e a prática de esporte nunca atrapalhou seus estudos.

Ítalo sofria com a falta de apoio, estrutura de treinamento e equipamento para as competições, pois o poder público, raramente, ajuda aos jovens atletas.

Mas, um verdadeiro milagre aconteceu:

Aos 12 anos, Ítalo foi descoberto por Luiz “Pinga” Campos, então diretor de marketing da Oakley, uma das mais importantes marcas de Surfe do mundo. Impressionado com o desempenho de Ítalo, durante um evento para amadores na praia de Ponta Negra, em Natal, Pinga o convidou para se juntar à sua equipe, a qual já contava com surfistas consagrados, como Adriano de Souza, Jadson André e Miguel Pupo, hoje seus colegas na elite do Surfe mundial.

Sendo conhecido como um grande gestor de carreiras de atletas, mais uma vez, Pinga mostrou sua competência, ao assumir a responsabilidade pela carreira do garoto Ítalo Ferreira, o pequeno prodígio de Baía Formosa.

Em 2019, o Surfe teve uma grande revelação, e um dos títulos mais marcantes e inesperados. Ítalo Ferreira, que havia entrado no CT em 2015, foi o grande campeão mundial de surf da WSL, depois de uma final épica, nos tubos de Pipeline e Backdoor, contra Gabriel Medina.

E agora, nas Olimpíadas Mundiais de 2021, que acontecem em Tóquio (Japão), Ítalo Ferreira, representando o Brasil na modalidade de Surfe, consagrou-se campeão mundial, conquistando medalha de ouro.

Salve ÍTALO FERREIRA, aquele garoto praiano, nordestino, que sonhava sobre as ondas do mar, e que hoje, aos 27 anos, é o atleta mais importante do nosso País, na modalidade de Surfe.

Salve BAÍA FORMOSA, RIO GRANDE DO NORTE, BRASIL!!!

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A INSATISFAÇÃO

Há pessoas insatisfeitas e mal-humoradas, que reclamam de tudo e de todos. Essas pessoas não poupam os ouvidos de ninguém e estão sempre apontando defeitos em alguém ou em alguma coisa. São pessoas irritadas, por natureza. Só se satisfazem, quando provocam alguém e forçam uma resposta contraditória, capaz de dar início a um bate-boca. Geralmente, essas pessoas são mal resolvidas, frustradas, que erraram nas suas escolhas e querem se vingar do mundo. Quando não encontram alguém para Cristo, como se diz no interior nordestino, “dão coice no vento.”

Pois bem. Benício Silva, fazendeiro rico do interior nordestino e engenheiro agrônomo aposentado, era desse tipo. Insatisfeito e mal humorado. Reclamava de tudo e de todos. Dizia detestar política, mas não deixava de ler jornais e revistas, além de não desprezar um bom livro, atual ou antigo.

Com filhos casados e netos, morando fora, o fazendeiro passava a maior parte do tempo na companhia da esposa e dos empregados, e raramente recebia visitas de amigos ou parentes.

Apontava os defeitos do governo federal, estadual ou municipal, dos partidos políticos, ministros, senadores, deputados e vereadores, e até do Papa, Bispos e padres.

Enfim, achava que somente ele era supremo, e que somente ele tinha capacidade de fazer tudo bem feito e de ser honesto.

Depois do almoço, deitava-se numa rede armada no alpendre de sua casa, para ler algum jornal ou revista, mas logo adormecia. À tardinha, se levantava, para fazer sua caminhada no pátio da fazenda, e ao mesmo tempo admirar a passagem do seu enorme rebanho, quando era tangido para o curral.

Enquanto caminhava, meditava sobre o sentido da vida, a criação do mundo, seus arrependimentos e frustrações, sempre atribuindo a causa dos seus desacertos a outras pessoas e à sua falta de coragem na hora de fazer escolhas.

Tinha ideias próprias sobre a existência humana, e chegava a dizer que se tivesse feito o mundo, seria tudo diferente. e não haveria injustiça.

À noite, junto com a esposa, costumava ler a Bíblia, pausadamente, focalizando, de preferência, os Salmos de Davi. Esse hábito sempre existiu, desde a infância dos três filhos (dois meninos e uma menina).

Numa certa tarde, ao fazer sua caminhada pelo pátio da fazenda, Benício, dominado por ideias reacionárias lidas num jornal matutino, se perdeu em pensamentos, revoltado contra as “coisas erradas do mundo”.

Observando a passagem do seu enorme rebanho, achou uma injustiça o boi, que é tão forte e pesado, tem patas, chifres, orelhas e cauda, ser condenado a caminhar sempre na terra, enfrentando a quentura ou a lama, enquanto os pássaros, que são leves, voam livres e soltos, pela amplidão do espaço.

Atrás do rebanho vinham revoadas de pássaros, num espetáculo deslumbrante.

As andorinhas sobrevoaram o pátio da fazenda, chamando a atenção de Benício. Ao vê-las a voejar, Benício chegou a blasfemar:

– Está tudo errado! O mundo foi muito mal feito. Quem devia voar era o boi, que é um animal pesado! E não os pássaros, que não pesam quase nada! Mas são eles que voam, leves e soltos, se locomovendo rapidamente e dominando os ares!

Nesse momento, uma andorinha que voejava sobre o pátio, deixou cair sobre a cabeça calva e descoberta do irritado fazendeiro, alguma coisa que lhe fazia sobrecarga no intestino. Instintivamente, ele passou a mão na cabeça e, olhando seus dedos brancos daquela “sujeira”, caiu de joelhos, pedindo perdão a Deus:

– Perdão, meu Senhor e meu Deus! Quem sou eu para julgar a criação do mundo! Tudo o que no mundo existe foi feito com perfeição, acerto e sabedoria!

Em lágrimas, o fazendeiro levantou-se, limpando a mão, enojado e dizendo:

– Graças a Deus, não foi um boi!…

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MACARRÃO COM LOMBO

Em Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei, durante a minha infância e juventude, não havia água encanada nem luz elétrica.

No dia-a-dia, a carne consumida nas refeições era a carne-de sol, na época, chamada de “carne-seca.” Somente às sextas-feiras, no açougue, havia carne verde (gado recém abatido). O preço da carne era um só, inclusive o filé, excetuando-se apenas a carne com osso, que era a mais barata. Não se dava valor a filé. Era uma carne como outra qualquer. Tanto fazia filé, como chã de dentro, chã de fora, alcatra, picanha, patinho etc.

Particularmente, Dona Lia, minha saudosa Mãe, não gostava de filé, por considerá-lo uma carne sem consistência. Sempre preferiu chã de dentro, alcatra ou patinho.

Dona Lia tinha predileção por macarrão. Ela mesma fazia a massa, manualmente, usando farinha de trigo, ovos, e água para unir. Deixava-a descansar um pouco e depois a abria, com um rolo de madeira, sobre um quadrado de mármore, salpicado de farinha de trigo.

Aberta a massa, ela a cortava, com o auxílio de uma faca, em tiras largas, e as colocava para secar, sobre um pano de prato estirado sobre a mesa, também salpicado de farinha de trigo. Depois de seco, o macarrão era posto para cozinhar em água fervendo, com um pouco de sal, por uns vinte minutos, e depois escorrido.

Nessas alturas, a molha (se chamava molha, mesmo) do macarrão já estava no fogo. Era feita com manteiga, massa de tomate e um pouco da graxa do lombo de chã de dentro, por ela preparado, com esmero, e que já estava pronto, na panela. Posto o macarrão numa travessa, era colocada sobre ele a suculenta molha, queijo parmesão ralado em casa e rodelas de ovos cozidos. Em outra travessa, era colocado o lombo, regado com a sua própria graxa, e enfeitado com batatinha cozida, chamada, na época, de “batata inglesa.”

Movida pela saudade, hoje acordei com vontade de almoçar macarrão com lombo, do jeito que Dona Lia fazia. Mãos à obra.

Preparei o lombo de chá de dentro, da forma que eu, muitas vezes, a vi preparar, usando os temperos tradicionais (sal, pimenta do reino, alho, vinagre, tomate, pimentão, cebola e um pouquinho de colorau). Nada de modismos. Coloquei um pacote de macarrão para cozinhar, largo e de boa marca, mas que não chegava nem perto do que ela fazia. Entretanto, com a molha (ou molho), queijo parmesão ralado e rodelas de ovos cozidos, deu para disfarçar.

O queijo parmesão, que agora se compra ralado, já não tem o mesmo gosto do de antigamente, ralado em casa.

O macarrão e o lombo ficaram apetitosos.

Mas, faltava o principal: O toque de Dona Lia, que tinha as mãos de fada e cozinhava divinamente.

Quis comer com gosto, imaginando-a à mesa, ao nosso lado, mas a realidade falou mais alto e a saudade tomou conta do ambiente. Não parou de chover nos meus olhos.

E a falta que ela me faz doeu, ainda mais forte, dentro de mim.