Como toda cidade do interior nordestino, Nova-Cruz (RN) tinha seus tipos folclóricos, como o bêbado, o jogador contumaz de carteado, o mentiroso nato, o gaiato, o pidão caloteiro, que não pagava nem promessa a santo, o cachaceiro, o corno confesso mas apaixonado, conhecido como corno manso, e o viciado em jogo do bicho.
Certo dia, Seu Anísio, o entregador de pão em Nova-Cruz (RN), que, todas as tardes, com um enorme cesto na cabeça, fazia a entrega de pão quente de porta em porta, inclusive na casa da minha avó paterna, Dona Júlia, acertou no jogo do bicho. A notícia se espalhou…
Eu era menina e todas as tardes aguardava com ansiedade a chegada do pão, abicorando, com a certeza de que a minha avó iria me dar um pão doce, como sempre fazia. Eu adorava esse pão doce, bem diferente dos pães doces sofisticados de hoje, que só tem boniteza.
Pois bem. Seu Anísio, o entregador de pão, gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, coisa pouca, no grupo e na milhar. Raramente acertava, mas quando isso acontecia, a alegria era grande. O melhor do jogo é ganhar.
Pela primeira vez, seu Anísio arriscou jogar uma nota graúda de 20 cruzeiros, pois o palpite foi forte e ele tinha certeza de que iria acertar. Depois de passar a noite sonhando com muito pão espalhado pela rua, Seu Anísio pulou da rede logo cedo e se organizou para “arriscar na sorte”. Sentia que o universo iria conspirar a seu favor.
Acertou no TIGRE, no grupo e na milhar. Para ele, que só jogava alguns trocados, foi um dinheiro bom, que lhe garantiu a feira do mês.
Todos os seus conhecidos quiseram saber quem lhe deu o palpite. Reticente, ele, aos poucos, contou que o palpite veio de um sonho que ele teve na noite anterior.
Contou que havia sonhado que a rua onde morava estava cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como pão é feito com farinha de trigo, Seu Anísio interpretou que o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava.
Tratou logo de ir jogar no grupo e na milhar. Decidiu que naquele dia o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava. E arriscou todas as moedas que tinha em casa no “TRIGUE”.
Um amigo lhe perguntou de onde ele tirou esse palpite. A resposta foi rápida:
– Ora, homem de Deus, eu sonhei a noite toda com a minha rua cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como o pão é feito de farinha de “trigre”, o bicho tinha que ser “Trigre”. Aí joguei no “trigre, 22”..
A notícia se espalhou e todos os dias, pela manhã, chegava alguém batendo palmas em sua casa, pedindo-lhe palpite para jogar no bicho.
Quando se fala em espaço vital, entende-se que se trata do espaço que a humanidade necessita para viver.
Realmente, a qualidade de vida dos seres humanos está ligada ao espaço vital que lhe é posto à disposição pelos governantes. Está ligado ao tema dos direitos humanos, saúde mental e qualidade de vida. A sobrevivência da humanidade depende do espaço vital de que dispõe.
Na realidade, a expressão “espaço vital” é uma cobrança à nossa sociedade, para que o ser humano tenha condições de vida, no meio de tanta erva daninha, podendo respirar livremente, resistindo às influencias da nossa sociedade, e até do ar que respiramos.
A superpopulação requer cada vez mais um maior espaço vital, para dar melhor qualidade de vida à humanidade.
A qualidade do espaço vital é de suma importância para os indivíduos e as comunidades. É responsável pela boa ou má qualidade de vida.
O conceito de espaço vital (em alemão: Lebemsraum), foi concebido por Friederich Ratzel, nos seguintes termos:
“Toda a sociedade, em um determinado grau de desenvolvimento, deve conquistar territórios onde as pessoas são menos desenvolvidas. Um Estado deve ser do tamanho da sua capacidade de organização.”
Friedrich Ratzel propôs uma Antropogeografia, como um ramo da geografia humana, que estudaria o espaço de vida dos agrupamentos humanos. Ao sistematizar os conhecimentos políticos aplicados pela geografia, Ratzel contribuiu decisivamente para o surgimento da geografia política, que no início do século XX foi acrescida do termo geopolítica (dado por Rudolf Kjillèn).
O geógrafo alemão Friederich Ratzel visitou a América do Norte, no início de 1873 e se impressionou com a doutrina do destino manifesto nos EUA. Ratzel simpatizava com os resultados do “Destino Manifesto”, mas ele nunca usou o termo. Em vez disso, contou com a Tese da Fronteira de Frederick Jackson Turner. Ratzel promoveu colônias ultramarinas para o Império Alemão, mas não uma expansão em terras eslavas. Depois, alguns alemães reinterpretaram Ratzel para defender o direito da raça alemã de expandir na Europa. Essa noção foi, mais tarde, incorporada à ideologia nazista. Harriet Wanklyn argumenta que os políticos destorceram a teoria de Ratzel para objetivos políticos. Daí, a origem dos colonizadores.
Origem dos colonizadores alemães dos territórios conquistados no Leste.
O espaço vital seria o espaço necessário para a expansão territorial de um povo, no caso, o povo alemão. Não apenas a restauração das fronteiras de 1914, mas também a conquista da Europa Oriental, espaço onde as necessidades, relativas à dominação territorial e recursos minerais desse povo seriam supridas. Quem também fazia parte, como se fosse um “trato”, era a Itália, que por ficar do outro lado do “espaço vital” era de grande interesse alemão. O interesse alemão e italiano nesta expansão justificava-se em certa medida pelo fato de os dois países serem retardatários na expansão marítima europeia, e ao contrário da França e da Inglaterra, não tinham vastos domínios coloniais. O “possibilismo”, de Vidal de la Blache, serviu como uma resposta antagônica ao espaço vital, ao considerar que havia maneiras de desenvolver economicamente o espaço vital em um limitado espaço geográfico. O líder nazista desejava atacar a União Soviética no verão de 1940, logo após a queda da França.
Adolf Hitler considerava que a “raça ariana” (que segundo ele, era superior) deveria permanecer unida, e para uni-la ao Império Alemão deveria possuir um território maior. Esse território era onde o povo germânico morava, porém foi dividido. Era chamado de “Espaço Vital Alemão”. Tal argumento foi amplamente discutido em seu livro Mein Kampf, e utilizado como discurso de justificativa da marcha alemã sobre a Europa a começar pela anexação da Áustria, que antes pertencia à Confederação Germânica e antes disso ao Sacro Império Romano-Germânico. Hitler queria invadir Sudetos, que compunham a região mais industrializada da Tchecoslováquia, mas havia um problema: as potências França e Inglaterra tinham assinado um acordo com a Tchecoslováquia, que prometia protegê-la em caso de ataque estrangeiro.
Todas as guerra a que estamos assistindo tem como alvo principal o ESPAÇO VITAL.
As guerras atuais tem, na maioria dos casos, uma relação direta ou indireta com a luta pelo espaço vital (Lebensraum), frequentemente rebatizado na geopolítica moderna como disputa por territórios estratégicos, recursos naturais ou hegemonia regional. Embora o termo “espaço vital” seja historicamente associado ao expansionismo nazista, o conceito geográfico de garantir território para recursos, segurança e sobrevivência econômica permanece central em muitos conflitos modernos.
O espaço vital trata da necessidade de o Estado ter o direito de atuar sobre uma área geográfica (território) que garanta condições de sobrevivência de uma determinada sociedade. Este conceito foi formulado no contexto da II Revolução Industrial e no momento em que a Alemanha passava a exercer ação geopolítica na Europa.
Atualmente, o conceito de espaço vital (Lebensraum) é tratado predominantemente como um conceito histórico e geopolítico clássico, associado à necessidade de território para a sobrevivência e desenvolvimento de uma população, mas também é discutido em dois contextos distintos:
– Refere-se à teoria formulada por Friedrich Ratzel no final do século XIX, que defendia que o Estado é um organismo vivo que precisa de território (espaço) para crescer e garantir recursos para sua população. Esta teoria foi distorcida pelo nazismo para justificar a expansão territorial alemã (o “Espaço Vital Alemão”) antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
– Trata-se do “espaço vital psicológico”, definido como a totalidade de fatos que determinam o comportamento de um indivíduo em um determinado momento, não sendo um espaço físico, mas sim um espaço mental onde as influências ambientais e pessoais se cruzam.
Em debates contemporâneos, a noção de espaço vital evoluiu para o controle de recursos e influência econômica, focando na interdependência e no desenvolvimento de áreas de influência em vez de conquista territorial direta.
Todos os anos, quando chega a Semana Santa, sinto uma saudade imensa da minha infância e juventude em Nova-Cruz, que, para mim, será sempre a minha “aldeia”. A Nova-Cruz, de um tempo em que a maldade não tinha nascido, e quando a vida era um doce mel, com a família toda reunida, sob as bênçãos de Deus e do nosso porto seguro, Francisco e Lia.
A Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos, com a entrada de Jesus em Jerusalém, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria.
O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se dizia palavrões, e quase não havia brigas na cidade. Era um período de reflexão, e esperança de um mundo melhor.
Nesse tempo, durante a Semana Santa, a religiosidade pairava sobre a cidade e o povo lotava a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, para participar dos ritos religiosos.
O ar que se respirava era melancólico, diante da expectativa de que Jesus morreria crucificado na Sexta-Feira da Paixão.
Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.
As comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco, de presente, feitos em Casa de Farinha, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.
Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, se relembra a traição de Judas Iscariotes, um dos Doze Apóstolos de Jesus Cristo.
“Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei. Ajustaram com ele trinta moedas de prata. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus ( MT 26, 14- 16)”
Judas representa todas as forças do mal, que se opõem aos planos maravilhosos de Deus.
À tarde, a Igreja ficava lotada, e os fiéis participavam do Ofício das Trevas.
Algumas pessoas, por ignorância ou fanatismo religioso, naquele dia, não tomavam banho, achando que iriam pecar e ficar entrevadas, por castigo de Deus.
Esses medos faziam parte da crendice popular, espalhada pelos recantos mais atrasados do Nordeste.
Em uma das Missões de Frei Damião, em Nova-Cruz, foi desmistificada essa crendice, e o santo Frade, no fim de suas pregações, falava:
“Todo mundo pra casa, tomar banho, inclusive na Quarta-Feira de Trevas. Não quero ninguém aqui fedendo a bacorinha!” (porco novo).
A Vigília Pascoal faz parte do Tríduo Pascoal, onde vivemos os passos de Jesus, rumo ao Calvário, ao Sepulcro e à Ressurreição. Esse Tríduo começa com a Quinta-Feira Santa, pela conhecida Missa do Lava-Pés”, por meio da qual, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio, com uma recomendação:
“Fazei isso em minha memória” (Lc 22, 19).
Na Quinta-Feira Santa, portanto, se comemora o Lava-Pés e a Última Ceia de Jesus com seus apóstolos, segundo o relato dos evangelhos canônicos. É quando se revive a traição de Judas, durante a Última Ceia. É o começo do martírio de Jesus, que, enxotado e levando chibatadas dos guardas, carregaria sua Cruz, para ser crucificado e morto na colina “Calvário”.
Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus Cristo estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o dia do “Beija”.
Nesse dia, minha mãe jejuava, alimentando-se apenas de pão e água, assim como outras pessoas católicas.
Paralelamente, na Sexta-Feira da Paixão, havia uma grande preocupação das famílias, de esconder suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos quintais nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.
O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e, às vezes, faziam isso por brincadeira.
Por preceito religioso, nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e abstinência de bebidas alcoólicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois, não se tirava leite naquele dia, “sob pena” de, ao invés de leite, o animal jorrar sangue. As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas. Os bares e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.
Adultos e crianças pobres, de casa em casa, faziam um apelo, na Quinta- Feira Santa e Sexta Feira da Paixão, pedindo esmolas:
– Uma esmolinha, pelo amor de Deus, pra minha mãe jejuar no dia d’oje!
Na Sexta-feira da Paixão, até a natureza silencia. O Cordeiro é imolado. Jesus, morre na Cruz, rezando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).
Sábado de Aleluia era um dia diferente e menos triste, uma vez que se revivia, e ainda se revive, a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo.
Havia a malhação de Judas, em praça pública, o que divertia crianças e adultos. Era um dia de alegria e Esperança, pois o Padre, na missa da madrugada, celebraria a Aleluia, em louvor à Ressurreição de Jesus Cristo.
Ainda por causa da crendice popular, havia pessoas ingênuas, que temiam que a Aleluia não fosse “encontrada” e o mundo se acabasse. Achavam que a Aleluia, cântico de alegria e ação de graças, ligado ao tempo da Páscoa e Ressurreição de Cristo, era uma pinta de sangue, dentro do livro de orações do Padre.
O sino da Igreja da Imaculada Conceição repicava, em regozijo pela Ressurreição de Cristo, enquanto o Padre celebrava a “Aleluia”, entoando cânticos de louvor.
A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada. Ao amanhecer, é o Domingo de Páscoa, ou Passagem, a festa da Ressurreição de Jesus Cristo.
A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes do Cristianismo. A Ressurreição de Jesus Cristo, prova que Ele é o Filho de Deus, feito homem.
De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.
No tempo da minha infância e juventude em Nova-Cruz, não se falava em Ovos de Páscoa, nem se dava presente de chocolates a ninguém. O mercado de chocolates era muito precário. E Ovos de Páscoa, lá, era utopia.
Terminava a Semana Santa e a saudade batia, pois os estudantes voltavam às aulas, inclusive aqueles que estudavam na capital potiguar. O fluxo de pessoas que passavam a semana Santa em Nova-Cruz era grande, Iam rever os parentes que lá residiam.
A fábula é uma antiga narração com intuitos morais. Segundo a literatura, elas já eram usadas nos livros sagrados, onde apareciam sob a forma de parábolas. As mais célebres são as escritas por um escravo chamado Esopo, que nasceu em Amorium, pequena aldeia de Phrygia, em 620, e morreu em 560 A.C. Esopo foi escravo de dois filósofos, Xanto e Idmo; este último emancipou-o.
Esopo adotou um método para as suas narrativas, mais claro e mais simples que o dos filósofos: fez falar os animais e as coisas inanimadas, para dar lições aos homens.
Segundo conta a história, Creso, rei de Lydia, chamou Esopo à sua corte e encheu-o de benefícios. Esopo chegou a viajar pelo Egito e Pérsia, e estava em Athenas, quando Pisistrato a avassalava. Ao ver o que os athenienses sofriam sob o jugo d’aquele tirano, Esopo compôs a fabula das rãs descontentes que pediam um rei.
De volta à corte de Creso, este o mandou-o a Delphos para fazer um sacrifício a Apolo. Aos seus habitantes, desagradou a fábula que ele lhes compôs, sobre as aparências flutuantes sobre a água, que de longe parecem alguma coisa e de perto nada são. Por isso, atiraram-no do alto de uma rocha. Toda a Grécia lastimou a morte de Esopo. Em Athenas erigiram-lhe uma estátua.
Uma das famosas fábulas de Esopo: O BURRO VESTIDO COM PELE DE LEÃO:
Um certo burro vestiu uma pele de leão que encontrou no caminho e encheu de susto todos os animais, que fugiam ao vê-lo. O asno felicitava a si mesmo, por se ver tão temido e respeitado. Até seu amo, que o andava procurando por o julgar perdido, se atemorizou quando o viu de longe; mas depois, reparando numa das suas grandes orelhas que aparecia por debaixo da pele do leão, tirou-lhe o disfarce, deu-lhe uma sova, pôs-lhe a albarda, e montou nele.
Moral:
“SE O IGNORANTE PRETENDE MOSTRAR-SE SÁBIO, A ORELHA O DESCOBRIRÁ, COMO ACONTECEU COM O BURRO DA FÁBULA.”
Ao chegar da escola, Paulinho, dez anos, encontrou uma novidade no quintal da sua casa: Uma bonita galinha pedrês.
Dona Elza, sua mãe, a tinha comprado para o almoço do domingo. Seria preparada ao molho de cabidela, também conhecido por molho pardo.
Paulinho havia deixado de comer galinha, desde o dia em que presenciou a cozinheira da casa, Josefa, matar uma galinha para servir no almoço. O menino ficou traumatizado. Nunca tinha visto uma cena tão grotesca.
Ao ver a nova galinha, Paulinho entrou em pânico, e lhe veio à mente, a empregada cortando o pescoço da outra galinha e o sangue jorrando, aparado num prato fundo com um pouco de vinagre, e por ela batido com um garfo, para fazer a cabidela, ou molho pardo.
Desta vez, Paulinho jurou para si mesmo que iria salvar a nova galinha. Era uma galinha cevada, gorda, dócil, que nem se defendeu, quando o menino a segurou, levando-a para um esconderijo.
Paulinho pegou um caneco com água para dar à galinha raptada, mas antes disso, molhou a pequena cabeça da ave, dizendo que a estava batizando, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E deu-lhe o nome de Martinha.
Logo que escureceu, Martinha se aninhou no quartinho de depósito, onde Paulinho a escondeu e logo adormeceu.
O menino entrou em casa feliz da vida, jantou com os pais e irmãos e foi logo dormir. Acordou tranquilo, pois sua amiga Martinha estava batizada e protegida num esconderijo. Josefa que procurasse fazer um almoço diferente, sem galinha e sem cabidela.
Somente na hora de pegar a galinha para matar, no domingo pela manhã, a cozinheira notou o seu sumiço. A mulher fez o maior rebuliço, procurando a galinha no quintal, e em cima das árvores. Perguntou a Paulinho se a tinha visto no dia anterior e a resposta foi não.
O menino insinuou que a galinha pudesse ter sido furtada ou tivesse fugido, com o que Josefa concordou. A empregada ainda se culpou, por não ter cortado as asas da galinha, logo que ela chegou.
Dona Elza, quando soube do sumiço da galinha, ficou muito chateada, pois estava desejando comer galinha à cabidela, como também seu marido e filhos, exceto Paulinho .
Desapontada, mandou que a cozinheira providenciasse uma macarronada à bolonhesa, ou seja, com suculento molho de tomate, misturado com carne moída, para substituir a galinha à cabidela, que a família tanto esperava.
Somente dois dias depois, Paulinho entrou em casa, desconfiado, com a galinha debaixo do braço, para dizer à mãe que ela havia aparecido, desconfiada, no quintal. Disse-lhe que ela agora era sua amiga e se chamava Martinha. Fez a mãe prometer que ela nunca iria para a panela.
Pelos olhinhos cheios de lágrimas do filho, Dona Elza compreendeu que ele era o responsável pelo sumiço da galinha. Emocionou-se e respeitou o seu pedido.
No dia 22 de março de 1992, a Organização das Nações Unidas – ONU instituiu o Dia Mundial da Água, além de promover a Declaração Universal dos Direitos da Água, através da RES/64/292 de Julho de 2010, garantindo por lei o direito ao ser humano de usufruir de saneamento básico e acesso à água limpa e segura.
O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano, e os nomes dos meses utilizados vieram dos deuses.
O nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo, estabelecido pelo imperador romano Júlio César.
Escrevendo a história dos nomes dos meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.
JANEIRO e FEVEREIRO DE 2023 já passaram. Estamos em Março, o terceiro mês, considerado o mês das águas.
MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra.
No desfile imaginário dos deuses romanos, Marte (Março) passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga.
Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, e a chuva vinha.
Atualmente, março de 2026, continuamos ameaçados por um desfile fictício, onde o deus da guerra, Marte, nos ameaça, puxado por cavalos, que representam o ódio, a vingança e a censura. E a força das águas tem destruído vidas no Sul do País.
Falando nas águas do mês de março, ressaltamos a belíssima canção de Antônio Carlos Jobim, “Águas de Março“, uma verdadeira metáfora da imagem da passagem da vida cotidiana, sem interrupção, e sua inevitável progressão rumo à morte – como as chuvas do fim de março, que marcam o final do verão, no sudeste do Brasil.
A letra aproxima a imagem da “água” a uma promessa de vida, uma renovação.
O tema dessa composição começou a ser trabalhado por Tom Jobim, ao violão, no seu sítio do Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, região Serrana do Rio de Janeiro. De acordo com depoimento de Thereza Hermanny, esposa de Tom à época, a inspiração para “Águas de Março” surgiu ao final de um dia cansativo de trabalho de onde surgiram os primeiros versos “é pau, é pedra, é o fim do caminho”. Assim como quem estava cansado mesmo e querendo descansar.”
No ano anterior à composição de “Águas de Março“, Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas – na opinião de Chico e Ruy – instigou o aparelho repressivo do regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e as suas cartas, violadas.
Segundo Tom, a questão foi resolvida “de uma maneira bastante brasileira”, quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: “Olhe, o senhor não queira se meter com polícia… Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor…” E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. “Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção”.
Para a revista Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de “Águas de Março“, o médico lhe disse que iria morrer de cirrose. E ele escreveu: “É um resto de toco, é um pouco sozinho’”.
Em 1992, para o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu “Águas de Março” em um período em que estava numa grande fossa. Parecia que tudo havia acabado para ele, e que não lhe restava nada a fazer. Por isso, se entregava à bebida.
A letra de “Águas de Março” é estruturada em um único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular, no presente do indicativo em, praticamente, todos os versos – exceto no refrão, transformado em plural (“São as Águas de Março …”. Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas, além do uso de antítese (“vida”, “sol” / “morte”, “noite”), pleonasmo (“vento ventando”), paronomásia (“ponta” / “ponto” / “conto” / “conta”).
Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral, podem referir-se à cena do sítio: “pau”, “pedra”, “resto de toco”, “peroba-do-campo”, “nó na madeira”, “caingá”, “candeia”, “matita perê”, o que enquadra “Águas de Março” em um repertório de canções ecológicas.
A letra é uma profunda reflexão do sentido da vida.
ÁGUAS DE MARÇO
É o pau, é a pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho É um caco de vidro, é a vida, é o sol É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol É peroba no campo, é o nó da madeira Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira É o mistério profundo, é o queira ou não queira É o vento vetando, é o fim da ladeira É a viga, é o vão, festa da cumeeira É a chuva chovendo, é conversa ribeira Das águas de março, é o fim da canseira É o pé, é o chão, é a marcha estradeira Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão É o fundo do poço, é o fim do caminho No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando É a luz da manha, é o tijolo chegando É a lenha, é o dia, é o fim da picada É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada É o projeto da casa, é o corpo na cama É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã É um resto de mato na luz da manhã São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José É um espinho na mão, é um corte no pé São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração É pau, é pedra, é o fim do caminho É um resto de toco, é um pouco sozinho É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã É um belo horizonte, é uma febre terça São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração
Pau, erda Im, inho Esto, oco Oco, inho Aco, idro Ida, ol Oite, orte Aço, zol São as águas de março fechando o verão É a promessa de vida no teu coração
Na feira municipal de Nova-Cruz (RN), que acontecia às segundas-feiras, entre várias pessoas e situações hilárias, havia também o “homem da cobra”. O apelido não era porque ele falasse muito, como falava o homem da “cobra” ou da cobrança, de antigamente, mas, simplesmente, porque ele chegava à feira portando uma mala, que era o cativeiro de uma cobra. Essa cobra era o seu ganha-pão. Dela ele tirava o seu sustento e o da sua família. Tratava-se de uma Jiboia, de pouco mais de um metro de comprimento.
Ao chegar à feira, ele tirava a Jiboia da mala, exibia aos feirantes, falando alto, e chamando a atenção de todos para a sua coragem, diante daquela serpente perigosa. Enrolava a cobra no pescoço, segurando-a pelos dois extremos, a cabeça e o rabo. Depois, enrolava a cobra nas pernas, e dava um verdadeiro “show” circense.
Enquanto isso, o seu ajudante passava o chapéu e recebia alguns trocados da plateia, que se deliciava com o perigo que o homem da cobra corria. Não se sabe se a plateia torcia pela cobra ou pelo seu dono. A exibição da Jiboia era sempre um sucesso.
Para comover e provocar a caridade pública, o homem da cobra contava, em voz alta, o seu infortúnio. Dizia ter perdido a esposa, de parto, tendo em casa seis filhos menores para alimentar.
Essa narrativa emocionava os feirantes, que procuravam ajudá-lo com algum dinheiro.
A Jiboia era asquerosa e causava medo. O local onde o seu dono a exibia ficava distante do armazém do nosso pai, Francisco Bezerra.
Mesmo não sendo venenosa, a Jiboia é uma serpente perigosa, por matar por constrição, envolvendo e esmagando sua presa. Mata por asfixia ou sufocamento. Alimenta-se de pequenos roedores, como camundongos e ratazanas jovens. Quando maiores, a Jiboia pode ser alimentadas de coelhos, lebres, ratazanas adultas e aves (frangos). Facilmente, pode ser encontrada no Brasil e pode ser criada em cativeiro.
Os trocados recebidos da plateia garantiam ao homem da cobra a compra de mantimentos para sua família. No final da feira, o chapéu estava cheio de “trocados”, e ele saía com o seu ajudante em direção a um caminhão velho, onde o motorista os aguardava.
Num certo dia, durante a exibição, a cobra escapuliu das mãos do seu dono e fugiu. Deu-se, então, o pânico entre os curiosos, que assistiam àquele espetáculo. O homem da cobra, que parecia um artista de circo, ficou desesperado.
Como sempre, aparece um “salvador da pátria”. Um feirante apontou para o lado para onde a cobra tinha se encaminhado. O dono, seu ajudante e outros homens, mais que depressa, correram ao seu encalço. Finalmente, viram quando a cobra entrou no quintal da nossa residência. Por sorte, estávamos todos no armazém. Em casa estava, apenas, a nossa fiel escudeira, Carmelita, que se encontrava na cozinha preparando o jantar. A mulher teve uma crise histérica, chegando a dar um “chilique”, quando ouviu o alvoroço dos homens na calçada, querendo entrar no nosso quintal à procura da cobra.
Quando a notícia chegou ao armazém do nosso pai, a cobra já havia sido capturada pelo seu dono, que não teve mais condições de voltar à feira.
O espetáculo do homem da cobra, na feira de Nova-Cruz, terminou aí…
O tempo passa, e não me saem da cabeça as noites de Céu estrelado da Nova-Cruz da minha infância, o mais bonito céu, que já vi na minha vida.
Quando eu era menina, gostava de ouvir Matina, nossa vizinha, avó da minha amiga Salete Menezes, contar histórias de Trancoso, para nós, suas amigas.
Todas as noites, eu, Salete e Auxiliadora sentávamos ao redor de Matina, esperando que ela nos contasse suas histórias incríveis, num tempo remoto, quando Nova-Cruz não tinha água nem luz, e as histórias de Matina preenchiam as nossas noites.
Inúmeras histórias Matina nos contava, num repertório inesgotável, que, por incrível que pareça, ainda hoje me causam arrepio.
As marcas que a história do “Sete Estrelas” me deixou foram tantas, que, mais de meio século depois, à noite, durante o mês de maio, ainda tenho medo de olhar para o Céu estrelado, com medo de me deparar com a maldição do “Sete-Estrelas”.
Matina nos contava que, durante o mês de maio, era mal sinal se avistar no Céu estrelado o “Sete Estrelas”. Quem visse essa constelação no céu estrelado durante o mês de maio, teria morte certa naquele ano.
Matina contava a história e citava vários nomes de pessoas, vítimas da maldição do “Sete Estrelas”, por terem olhado para o céu durante o mês de maio e avistado a temível constelação.
Eu me impressionei com isso, quando era criança, e ainda hoje, tenho medo de olhar para o céu estrelado, nas noites do mês de maio, com medo de ter a visão maldita do “Sete Estrelas”. Ela dizia que isso era fato comprovado!!!
Como a infância marca a nossa alma!!!
Na verdade, o “Sete Estrelas” é uma bonita constelação, conhecida como Plêiades, e localizada na constelação de Touro.
“É um grupo de estrelas visíveis a olho nu e possui várias significações culturais, incluindo alegorias e mitologias em diferentes tradições, como a bíblica e indígena.”
O Sete Estrelas também é conhecido como a constelação do “Cruzeiro do Sul”, que se encontra no céu do Hemisfério Sul.
É uma das constelações mais reconhecíveis e é frequentemente utilizada como referência para a orientação da navegação.
O Cruzeiro do Sul é composto por quatro ou cinco estrelas principais e é uma das 88 constelações reconhecidas pela União Astronômica Internacional.
Além de sua importância astronômica, o Cruzeiro do Sul também possui um significado cultural significativo, sendo um símbolo em várias bandeiras e nações do Hemisfério Sul.
O Carnaval aumentou ainda mais o número de alegrias escandalosas.
A cada dia que se passa, um ser humano é tratado como se humano não fosse, por tiranos desalmados e sem sentimento de caridade. Mas o mundo dá muitas voltas e quem planta o mal não pode colher o bem.
Não espere que as pessoas adivinhem o que você pensa ou quer.
Já passou o Carnaval e as máscaras foram retiradas.
Defender a liberdade implica em defender quem a defende.
A liberdade de perguntar deve apenas ter limite na liberdade de não responder.
Liberdades absolutamente iguais.
O que impede a Reforma Política: pensa-se mais nas próximas eleições do que nas próximas gerações. Nada mais óbvio.
Empresas não são o povo. Eleição não pode ser um investimento econômico. O Estado não pode ser um balcão de negócios.
O financiamento privado das campanhas eleitorais beneficia os homens de bens.
E afasta da política o homem de bem.
A liberdade de pensamento é direito personalíssimo, não cabendo aos tiranos tentar arrancar, sob tortura, os vários pensamentos e portas que a vida oferece ao ser humano.
O esquecimento alimenta a corrupção. O corrupto sabe que o seu escândalo particular logo será absolvido por um novo escândalo nacional. É o que vemos nos dias atuais.
Existir é a arte de fazer escolhas sobre todos e tudo, pois escolher é a tarefa que a vida nos impõe.
O desenvolvimento sustentável sem desenvolvimento social, não se sustenta. Nem se desenvolve.
Liberdade é sonhar, exprimir e agir. É querer mudar as coisas. É lutar para fazer o que se acha certo. É não ter medo de ousadia.
Os dias passam e Jesus Cristo continua sendo crucificado todos os dias!
Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.
Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas.
Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.
Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.
Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.
Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.
Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.
Merece destaque, o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.
Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.
Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.
A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.
Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.
As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.
O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.
Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.
O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.
José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.
Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.
A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.
Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.
As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.
Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.
Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser. Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…
Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens.
A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões!
Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.
O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!
Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.