VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O CHOFER

Antigamente, não se falava em “motorista de táxi”. O que havia era “chofer de praça”. E na praça, concentravam-se os carros de aluguel.

O táxi, propriamente dito, apareceu historicamente quando foram aplicadas taxas à sua utilização, através do taxímetro, aparelho mecânico ou eletrônico, que mede o valor cobrado pelo serviço, com base em uma combinação entre a distância percorrida e a tarifa inicial. Foi inventado no século XIX, pelo alemão Wilhelm Bruhn.

Em Natal, o chofer de praça trajava sempre terno cáqui, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos.

Seu Josias era um conhecido chofer de praça de Natal, educado, conversador e simpático, com pouco mais de cinquenta anos. Era um contador de histórias.

Muito supersticioso, não trabalhava no dia em que tinha um sonho mau. Se sonhasse com gato preto, urubu, sapato ou arrancando dente, sabia que, naquele dia, nada para ele ia dar certo, e preferia ficar em casa. Gostava muito de relembrar episódios de sua vida.

Contava que, antes de ser chofer de praça, tinha sido chofer de um caminhão misto e havia feito muitas viagens pelo sertão nordestino, transportando passageiros.

O misto, para quem não sabe, é um caminhão que na sua carroceria havia alguns bancos para o transporte de passageiros, adultos e crianças.

Gostava muito da profissão, até que, num certo dia, em plena viagem, um dos passageiros do misto foi acometido de uma tremenda dor-de-barriga e ele viu-se obrigado a parar o carro na estrada, diversas vezes. O passageiro entrava correndo de mato a dentro, para satisfazer suas necessidades e voltava pálido e envergonhado.

A viagem, nesse dia, sofrera um atraso enorme, o que o deixou bastante contrariado. Numa das paradas solicitadas pelo passageiro, para ir ao mato, disse seu Josias que também desceu e se dirigiu a uma casinha que avistou ao longe, em busca de alguma “meizinha” que curasse essa infeliz dor-de-barriga do seu passageiro. Foi recebido por uma velhinha, que lhe perguntou:

– O senhor já experimentou dar o olho da goiabeira a ele (o chá)?

Disse seu Josias que não gostou da pergunta e respondeu grosseiramente:

– Se depender disso, esse passageiro pode se acabar pelo fundo, feito balaio! A senhora é doida, dona? Vôtes!

O chofer contou que voltou muito contrariado, e meteu o pé no acelerador, enquanto, nessas alturas, o mau cheiro do passageiro empestava a boleia do misto. Ao chegar a Natal, deixou o passageiro no pronto-socorro e foi direto tratar de mandar lavar o carro.

Foi a última vez que dirigiu o misto. Ficou traumatizado com o ocorrido. Afinal, teve de parar o carro umas dez vezes, para que o passageiro corresse para o mato, correndo o risco de se limpar com urtiga. e precisar de socorro médico.

A partir de então, abominou a profissão de chofer de misto, e se tornou motorista de táxi, durante muitos anos.

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FIM DOS FESTEJOS JUNINOS

Hoje, 29 de junho, a Igreja Católica celebra o dia de São Pedro e São Paulo, última data religiosa festiva deste mês. Esta data marca o encerramento dos festejos juninos.

O mês de junho é um mês abençoado, com celebrações religiosas e alegres, em louvor a Santo Antônio (13/06), São João (23/06) e São Pedro (29/6), com direito a festas populares, e à beleza das tradicionais quadrilhas, folguedos, fogos e fogueiras.

Junho é o mês mais alegre do ano, e mais esperado, por suas festividades divertidas, com as famílias reunidas nas calçadas, comidas de milho à vontade, e brincadeiras amenas, sem a violência, bebedeira e luxúria das festas de carnaval.
Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, as fogueiras das noites de Santo Antônio (13/06), São João (23/06) e São Pedro (29/06), aquecem as noites frias de junho e embelezam as ruas.

A pureza das festas juninas não se compara com o que acontece no período de Momo nas grandes cidades.

Não há termos de comparação de junho com fevereiro, o mês do Carnaval, quando as festas são marcadas pela bebida, luxúria e violência, e onde se esbanja muito dinheiro público nos desfiles das escolas de samba.

As festas juninas, tradicionalmente populares, normalmente são “sadias” e saudáveis, marcadas por uma leve conotação religiosa, uma vez que nelas são cultuados santos, como Santo Antônio (13/6), São João (23/6) e São Pedro (29/6), e sem a violência, a bebedeira, e a luxúria espalhadas nas festas de Carnaval.

Repisando, junho é um mês abençoado, uma vez que homenageia três santos cultuados pela Igreja Católica: Santo Antônio, São João e São Pedro.

As festas juninas são bem mais simples do que as festas carnavalescas, quando, na sua maioria e nos ambientes mais ricos, ao que se sabe, reinam bebidas, e coisas mais pesadas.

Quem fecha o período de comemorações juninas é São Pedro, ladeado por São Paulo, por decisão da Igreja Católica.

São Pedro foi um dos apóstolos mais chegados a Jesus, e Paulo foi um dos pregadores mais importantes do Cristianismo. Talvez por esse motivo, os dois santos sejam celebrados na mesma data, 29 de junho.

O dia de São Pedro é marcado, no Calendário Litúrgico do Cristianismo, como o dia mais importante da Igreja Católica. Nessa data, se celebram duas figuras fundamentais do período do surgimento do Cristianismo, São Pedro e São Paulo.

Os dois santos, São Pedro e São Paulo, são considerados os mais importantes dentro do Catolicismo, tendo sido os dois, Sacerdotes que contribuíram, no século I, para o crescimento do Cristianismo no mundo romano.

Dessa forma, são celebrados juntos, por conta da importância que tiveram para o Catolicismo.

Paulo só se converteu depois de perseguir os cristãos.

São Pedro é considerado o primeiro Papa da Igreja Católica e São Paulo, depois de sua conversão, passou a ser considerado um grande líder espiritual da mesma Igreja.

A celebração a eles se junta às celebrações juninas que acontecem ao longo de todo o mês de junho na tradição Católica.

São Pedro e São Paulo, dois sacerdotes distintos, no Catolicismo são celebrados no mesmo dia 29 de junho. Isso se atribui ao mencionado fato de que as relíquias de ambos teriam sido transportadas nesse mesmo dia.

Outros pesquisadores defendem que a data levaria em consideração o dia em que ambos os santos foram martirizados pelo Império Romano.

Existem também alguns historiadores que alegam que o dia 29 de junho era marcado por uma celebração para Rômulo e Remo entre a população romana pagã.

Colocar a festa das duas figuras mais importantes para a consolidação do Cristianismo no mundo romano, seria uma forma de enfraquecer a celebração pagã.

Repisando, São Pedro e São Paulo são considerados fundadores da Igreja Católica.

Tanto São Pedro quanto São Paulo são figuras extremamente importantes na história do Cristianismo. Ambos são considerados fundadores da Igreja Católica e foram essenciais para o crescimento do Cristianismo, no século 1 d.C.

São Pedro foi um discípulos de Jesus e o primeiro a reconhecer que Jesus era o Messias. Ele era um pescador que atuava no Mar da Galiléia, sendo chamado inicialmente de Simão. Adotou o nome de Pedro, depois que passou a seguir Jesus Cristo.

Pedro é considerado o primeiro Papa e fundador da Igreja Católica, com base numa fala de Jesus.

Em Mateus 16:18, o texto bíblico diz: “E também eu te digo que tu és pedra e sobre esta pedra edificarei tua Igreja”.

Esse texto demonstra que Pedro foi determinado diretamente por Jesus como o seu sucessor e líder da sua Igreja. Pedro também ficou marcado por ter negado Jesus por três vezes, após Jesus ter sido preso pelos romanos.

Ele se arrependeu de sua ação e seguiu pregando a mensagem de Jesus, sofrendo intensa perseguição por isso, uma vez que o Cristianismo em seus primórdios era uma religião perseguida pelas autoridades romanas. Foi a Roma para pregar o Cristianismo e lá foi capturado e martirizado em algum momento, entre os anos de 64 e 67.

São Paulo, por sua vez, também conhecido como Paulo de Tarso, foi um dos mais importantes seguidores do Cristianismo naquele período.

Inicialmente, São Paulo se dedicava a perseguir os cristãos, que ele considerava de uma seita religiosa que deveria desaparecer.

No entanto, a tradição cristã conta que ele se converteu após ter tido uma visão de Jesus, depois de ter ficado cego, em decorrência de uma luz ofuscante, vinda do Céu, que atingiu seus olhos, no deserto da estrada de Damasco.

Nesse momento, Paulo, ou Saulo, como Jesus o chamava, passou a ouvir a voz de Jesus:

– “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E Saulo perguntou: “Quem és tu?”
Jesus respondeu:

– Eu sou Jesus, a quem você persegue. – “Levante-se e entre na cidade, e lá lhe será dito o que você deve fazer.”

E ao ser curado da cegueira, Paulo (ou Saulo) converteu-se ao Cristianismo.

Após Paulo se converter, tornou-se um dos maiores pregadores do Cristianismo em seu tempo. Realizou inúmeras viagens missionárias, levando o Cristianismo para diversas partes do território sob domínio romano. Acabou sendo preso pelas autoridades romanas na cidade de Roma e lá foi decapitado em 67 a.C.

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NOITE DE SÃO JOÃO

A tarde se despede e a noite pede licença para chegar. A lua e as estrelas já brincam lá no céu, oferecendo à terra um cenário de alegria e paz.

É a noite de São João, e as fogueiras já estão acesas, para a alegria de crianças e adultos.

As lanternas acesas iluminam os terraços e as bandeirinhas coloridas ornamentam as ruas da pequena cidade de Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei.

A noite de São João, a mais alegre do ano, é esperada com euforia por crianças e adultos.

As donas de casa preparam uma mesa cheia de iguarias como canjica, pamonha, bolo de milho, pé-de-moleque e milho cozido, em louvor a São João, o primo de Jesus Cristo, filho de Santa Isabel .

A mãe de São João Batista é Santa Isabel. De acordo com a tradição cristã, ela era prima de Maria (mãe de Jesus) e esposa do sacerdote Zacarias. Considerada estéril e já em idade avançada, ela concebeu João milagrosamente, após o anúncio do anjo Gabriel.

É na noite de São João, que as moças casadoiras fazem adivinhações, para saberem o nome do rapaz com quem irão se casar. É tiro e queda. Uma adivinhação nunca deu errado.

Adivinhações de São João são brincadeiras clássicas, que animam os arraiais. Diversão típica da cultura nordestina.

Quando a resposta da adivinhação não vem, é mau sinal: Significa que a moça irá ficar no caritó, ou seja, donzela para o resto da vida.

Para acabar a tristeza, sempre houve casamentos na fogueira, batizados, e outros laços de amizade e “parentesco”, firmados em seu redor, que são válidos pela vida toda, de acordo com a Fé de cada pessoa.

Duas pessoas se posicionam de cada lado da fogueira, dão-se as mãos direitas e pronunciam estas palavras “cabalísticas”:

– SÃO JOÃO DISSE…

– SÃO PEDRO CONFIRMOU…

– QUE VOCÊ FOSSE MINHA MADRINHA, E VOCÊ FOSSE MINHA AFILHADA,

– QUE JESUS CRISTO MANDOU…

Trocam de lado e repetem as mesmas palavras, segurando-se as mesmas mãos.

Pronto. O vínculo estava lavrado para sempre. E esse vínculo ainda hoje é respeitado…

As músicas juninas, de Luiz Gonzaga, Zé Dantas, e outros grandes compositores nordestinos, eram cantadas e tocadas a noite toda, por cantores amadores, da nossa terra, acompanhadas por sanfona, zabumba e triângulo, destacando-se xote, forró, arrasta-pé, rancheira e até partes de quadrilhas, com todo o povo dançando no terreiro ou num galpão.

O povo todo, na maior alegria, passava a noite comendo iguarias à vontade, bebendo quentão ou ponche, dançando ou namorando, até raiar o dia.

Eram festas inesquecíveis, que enchiam de alegria adultos e crianças, com a queima de fogo leves, como chuveiros, traques de chumbo, “espanta-coió”, bombinhas inofensivas, enquanto os mais velhos soltavam lindos balões.

Essas festas permanecem em nossas lembranças e em nossos corações, como um marco de amor entre nós e a nossa querida NOVA-CRUZ (RN), a terra onde eu e meus cinco irmãos nascemos. Lá, eu vivi os melhores anos da minha vida, ao lado do nosso Porto Seguro, FRANCISCO BEZERRA SOUTO e LIA LIMA PIMENTEL BEZERRA, e gozando do aconchego dos nossos saudosos avós paternos, Seu Bezerra e Dona Júlia, e dos saudosos tios Paulo Bezerra, Nazinha, Edite e Eulina.

Ressalto aqui, na minha opinião, a música junina mais bonita do grande e saudoso Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, “Olha pro Céu”:

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DIFERENÇAS ENTRE O PENSAMENTO E O RACIOCÍNIO

Há pessoas que pensam, mas não raciocinam. Entre o pensamento e o raciocínio, existe “o oceano atlântico”, uma força chamada impulso, que é responsável pelos relacionamentos.

Já dizia minha saudosa mãe, Dona Lia: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer.” O pensamento é sempre exposto por impulso, e a pessoa destemperada peca por falar tudo o que lhe vem à cabeça, sem medir as palavras e sem raciocínio lógico. A fala irresponsável é movida por impulsos. O ato de pensar é impulsivo, e induz as pessoas ao erro. Quanto mais impulsivas as pessoas, mais palavras impróprias são proferidas. Por isso, antes de pensar, procure raciocinar, e não aja por impulso, como os animais.

O homem inteligente é o que raciocina antes de falar tolices. É o que antes de proferir palavras irresponsavelmente ferinas, param para racionar sobre a reação que do interlocutor poderá advir, diante das palavras ditas impulsivamente.

Há pessoas que gostam imensamente de analisar as outras, mas esquecem de olhar o próprio umbigo. São as mais falantes e que se consideram auto-suficientes. Ninguém sabe de nada. Somente elas são as donas da verdade.

Por isso, só há uma maneira de se manter as amizades: Pôr em prática a máxima “Palavras loucas, ouvidos loucos.” Temos que nos tornar surdos, ou fingirmos que somos, para tolerarmos as agressões involuntárias (será que são involuntárias?). Se você reagir diante de qualquer frase ferina ou crítica que parte de um “amigo”, talvez amigo da onça, que tem o raciocínio excessivamente curto, você estará arranjando inimizades, e a inveja, quando existe, aumenta ainda mais. Essas pessoas não pensam duas vezes antes de vomitar uma frase ou observação grosseira, pouco lhe importando a reação que irão provocar. O remédio para não se contrariar é se afastar delas, e procurar manter amizade com pessoas que não só falem, mas que raciocinem. É difícil, mas ainda se encontra esse tipo de pessoa inteligente, que raciocine antes de falar. É bom se afastar da turma que só pensa, mas não raciocina, limitando-se a criticar e ridicularizar as pessoas que são inteligentes e raciocinam. “Leseiras” à vontade, é o que encontramos e ouvimos por aí. As decepções são imensas. Pessoas que só tem pose, e falam sem raciocinar.

Conversar sobre amenidades é ótimo e faz bem à saúde. Mas ouvir de pessoas ignorantes e indiscretas críticas sobre você ou suas atitudes, é de amargar… Quanto mais convencidas de si, mais impulsivas e mal – educadas se tornam essas pessoas. Acham-se no direito de ser indiscretas, sempre com um riso sardônico nos lábios, vomitando críticas e comentários depreciativos contra alguém, e tentando atingir sua alma, com comentários indiscretos e desnecessários.

Examinam você dos pés à cabeça, sua roupa e adereços. E traz sempre um sorriso de crítica nos lábios. Tudo que você faz, ela acha que faria muito melhor. O que você escreve, ela considera repetitivo, e lhe censura, embora nunca tenha demonstrado sua capacidade de escrever o que pensa.

Esse tipo é o que só pensa, mas é incapaz de raciocinar ou medir suas palavrar, ao criticar alguém.

É o chamado “chato de galocha”.

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O TROVÃO

“Estou com medo do trovão!” Foi meu grito apavorado, após ouvir estrondos, na tarde de um domingo de sol, quando miinha mãe se encontrava deitada no seu quarto, de resguardo do filho caçula, Bernardo, com uma semana de nascido. Essa foi a minha reação de criança. Tremi de medo. Corri chorando para junto dela, que tinha Bernardo nos braços. Era o dia 17 de maio de 1955.

Poucos minutos depois, as comadres de mamãe e alguns amigos de meu pai, começaram a entrar na nossa casa, meio agitados, para contar ao meu pai, em voz baixa, a tragédia que tinha acontecido. Antes fossem mil trovões!

Minha mãe tinha uma afilhada querida, chamada NIDINHA, filha de Seu João Menezes e Dona Nenzinha, e casada com Romildo. NIDINHA estava com um mês de resguardo de um lindo menino, chamado Djair. Na tarde desse domingo, a jovem mãe resolveu caminhar um pouco, levando o filhinho nos braços. Ao seu lado, ia sua irmã Salete, de 9 anos, que segurava a sacola com pertences do bebê e uma sombrinha.

Passando pela fábrica de fogos do sogro, Seu PASSINHO, localizada na então Rua Djalma Dutra, hoje Rua do Fogo, NIDINHA parou para mostrar Djair ao avô. Só deu tempo mesmo de se sentar. Na mesma hora, houve a pavorosa explosão da fábrica, levando todos pelos ares, inclusive 6 empregados que se encontravam fazendo fogos. Nidinha morreu na hora. Seu sogro, o dono da fábrica, teve as pernas decepadas pelo tronco. Salete sofreu sérias queimaduras e o bebê, como por milagre, foi projetado a vários metros de distância, sendo encontrado em cima de uns pés de garrancheira, vivo, mas bastante queimado.

Foi providenciado um trem para transportar os feridos para Natal, num total de 16 pessoas, incluindo o dono da fábrica, que faleceu a caminho. Dizem que, mesmo sem as pernas, Seu Passinho não parou de se preocupar um só instante com os queimados, até dar o último suspiro.

Uma nuvem negra de fumaça cobriu o céu de Nova-Cruz. A cidade escureceu de tristeza. O luto se abateu sobre a cidade.

Não houve como evitar que Dona Lia, minha mãe, do quarto onde se encontrava com Bernardo nos cueiros, escutasse as conversas sobre o incêndio. Ficou em estado de choque, ao saber da morte da afilhada NIDINHA.

O bebê queimado precisava mamar. Somente ela dispunha do leite que lhe atenuaria o sofrimento e contribuiria para lhe salvar a vida. O instinto materno falou alto e ela pediu que lhe trouxessem Djair para mamar no seu seio.

Foi um dia de juízo.

O trauma sofrido por Dona Lia teve sérias consequências. Poucos dias depois do sinistro, foi acometida de uma grave tromboflebite na perna direita, tendo que ser transportada para Natal, onde permaneceu acamada durante 30 dias, em tratamento médico especializado.

Djair cresceu saudável, mas, até ficar rapaz, uma vez por outra, aparecia em seu corpo pequenos tumores infectados, que escondiam vestígios de felpas de madeira. Mora hoje, na Paraíba.

Salete Menezes, minha querida amiga, escapou por um triz. Hoje é casada, tem dois filhos lindos, e mora em Recife (PE).

Essa triste recordação ainda me apavora, nas noites de chuva e trovoada.

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SAUDADE DA TRADICIONAL FEIRA-LIVRE DE NOVA-CRUZ


Antiga feira-livre de Nova-Cruz, na Rua Grande

Antigamente (décadas de 50, 60 e 70), a feira-livre municipal, de Nova-Cruz acontecia às segundas-feiras, na chamada Rua Grande, principal rua da cidade, que ia até a frente da Matriz da Imaculada Conceição. Essa feira contribuiu muito para o progresso da cidade. Atraía feirantes da redondeza e até de cidade vizinhas.

A Rede Ferroviária, que hoje já não existe em Nova-Cruz, cortava a cidade e garantia a sua comunicação com outros centros produtores, fazendo daquela feira o acontecimento de maior importância em toda a região Agreste. Atraía muitos produtores e feirantes.

Lembrando a feira de Caruaru, a feira-livre de Nova-Cruz também tinha uma grande variedade de mercadorias. Tinha fumo de rolo, arreio de cangalha, selas, cabresto de cavalo, farinha, rapadura, aratu, “avoador”, “caico” , ginga, beiju, tapioca, grude, doce americano (geleia de coco), abano, peneira, quartinha, panela de barro, esteira, cesta, balaio, frutas e verduras, coco seco, cereais e até miudezas.

O armazém de secos e molhados do nosso pai, Francisco Bezerra, ficava localizado no melhor ponto da Rua Grande, e era um verdadeiro camarote, de onde se via tudo o que acontecia naquelas imediações.

Havia camelôs fazendo propaganda e vendendo remédios para lombriga, espinhela caída, reumatismo, “difruço” (defluxo ou catarro), “estalecido” (coriza ou gripe), dor nas “oiça” (dor de ouvido), “morróida de botão” (hemorróidas), “comichão nas partes”, azia ou queima na boca do “estrombo” (estômago) frieira, para congestão (AVC) e outras mazelas.

Havia na feira um “doutor”, “especialista” em tirar, com ácido, “sinais de carne”, que hoje seriam considerados “carcinomas”, mas naquela época não se falava nisso. Até pessoas mais esclarecidas se sujeitavam a tirar “sinais”, principalmente no rosto. Meus saudosos tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra, chegaram a tirar aí alguns sinais, e a recuperação foi rápida e perfeita.

Havia um camelô que levava uma mala cheia de óculos de grau para vender na feira, e a mala voltava vazia. A maioria dos feirantes não tinha acesso a oculistas, salvo na capital do Estado, e por isso não hesitavam em comprar óculos sem receita médica. Provavam vários óculos, até que alguns dessem certo. O teste era feito com a leitura das letras miúdas de uma caixinha de fósforos “marca olho”.

No “pé da calçada” do armazém do nosso pai, havia algumas barracas que vendiam refeições. O cardápio era sempre o mesmo: picado (sarapatel), arroz mole e carne de bode guisada, tudo com muito colorau e gordura. O cheiro da comida invadia as nossas narinas, mas nunca provamos o gosto. Os feirantes almoçavam nessas barracas, e tomavam ponche de maracujá, com pedaços de gelo em barra, que vinha de fora, em caixotes, e cobertos com “pó de serra”, para não derreter. Nova-Cruz ainda não tinha energia elétrica nem água encanada. Nessas barracas também havia bolo branco (hoje chamado bolo da moça), broas, sodas, doce americano (geleia de coco) e cocorote.

Outro espetáculo hilário, que também havia na feira, precisamente na calçada do armazém do nosso pai, era o desafio estabelecido entre os ceguinhos que ali pediam esmolas. Eles disputavam o ponto e se agrediam mutuamente, com insultos e cantorias, às vezes, engraçados e picantes.

As cantigas de cego, antigamente, eram verdadeiras manifestações da cultura popular, sem influência de rádio e, muito menos, de televisão. A inteligência, um dom nato, fazia com que eles procurassem emocionar os feirantes, mostrando-se infelizes e desejando o bem àqueles que lhes davam esmolas. Cantavam se acompanhando por um ganzá ou reco-reco.

Havia uma cega, Dona Zefa, que, há anos, pedia esmolas na feira, fazendo ponto na calçada do armazém do nosso pai. Não admitia concorrente. Uma vez por outra, ela entrava em choque com qualquer outro cego que quisesse ocupar o seu espaço.

Num certo dia, apareceu na calçada um ceguinho novato e desconhecido, querendo pedir esmolas perto de Dona Zefa. Mas ela o expulsou aos gritos.
E começou a sua “ladainha”:

– Uma esmola pelo amor de Deus, pra quem não vê a luz do dia !!!

Recebeu a esmola e respondeu cantando:

Deus lhe pague a santa esmola
Quem me deu com alegria,
Nossa Senhora do Ó,
Nossa Senhora da Guia!

Depois, dona Zefa começou a cantar sua cantiga mais engraçada, e que sempre provocava riso nas pessoas que ali estavam:

Sete vezes fui casada
Sete homens conheci
Juro por nossa senhora
Sou virgem como eu nasci!!!”

O ceguinho que tinha sido expulso por ela, mas ainda permanecia ali, respondeu o repente:

Nada disso se “expilica”
Isso tudo é mutreta
Esses homens eram capados
Vosmicê tá com falseta.

Juntou gente para assistir esse desafio, e houve até gargalhadas.

A segunda -feira, em Nova-Cruz, era um dia de alegria, que nos transmitia cultura popular, com show dos feirantes, às vezes verdadeiros artistas, com suas cantorias e desafios, acompanhados por rabeca e ganzá.

A saudade desse tempo feliz, quando todos estavam vivos, não sai do meu coração e do meu pensamento.

Viva Nova-Cruz!!!

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INIMIGAS POLÍTICAS

Antigamente (décadas de 50 e 60), as cidades do interior do Rio Grande do Norte, no período eleitoral, viviam um clima inflamado, com “brigas de comadres” no meio da rua, em defesa dos candidatos da UDN ou do PSD, e às vezes, terminavam indo às vias de fato ou à delegacia de Polícia.

Dona Anália e Dona Izabel eram adversárias políticas ferrenhas e briguentas, uma da UDN e a outra do PSD. Através de insultos mútuos que as duas protagonizavam em suas calçadas, ambas mandavam bananas uma para a outra (através de gestos, o que, naquela época, significava indecência. Além dessa troca de bananas, que na época se usava nas brigas, havia coisa pior: Uma das comadres agredia a adversária, levantando o rabo do gato, acintosamente, e exibindo – o para o lado dela, que estava na calçada. Isso era considerado uma grande ofensa.

Os insultos entre adversárias políticas eram de baixo nível, chegando a insinuações, contra o decoro e a moral das distintas comadres. Às vezes, as discussões chegavam às vias de fato, com empurrões e troca de tapas, que só terminavam com a interferência dos maridos. A baixaria invadia as ruas, predominando, entretanto, o “envio de bananas”, através de gestos.

Havia brigas hilárias entre candidatas a cargos eletivos, adversárias políticas, esposas de candidatos, amigas ou simpatizantes políticas. A baixaria era grande. Só diminuía se os maridos aparecessem para acabar com o furdunço. Até aplausos tinha para a briguenta que mais baixasse o nível da briga.

Certa vez, em plena campanha política para Prefeito e Vice-Prefeito, duas mulheres da sociedade novacruzense, em plena luz do dia, adversárias políticas, uma, candidata à reeleição de um cargo eletivo, a outra, uma professora muito respeitada, trocaram farpas e insultos, em defesa dos seus respectivos candidatos, e acusando os candidatos adversários de serem comunistas e corruptos.

As duas terminaram se agredindo fisicamente, trocando bofetes e empurrões, o que provocou a intervenção de dois fiscais da Mesa de Rendas, que conseguiram, com muita dificuldade, apartar a briga, puxando cada uma delas pela cintura. Os insultos trocados ainda continuaram sendo ouvidos durante alguns minutos, uma chamando a outra de rapariga, o que, naquela época, era a maior ofensa que se podia dizer com uma senhora casada.

A rua ficou cheia de gente, e a briga se espalhou de boca em boca, sendo a melhor notícia do dia, numa época em que ainda não havia televisão nem telefone na cidade.

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O COICE

O coice é o movimento natural de defesa dos quadrúpedes, especialmente equinos (cavalos, burros e mulas), que consiste em golpear com as patas traseiras.

Certa vez, espalhou-se em Nova-Cruz (RN), a notícia de que um conhecido fazendeiro matara com um tiro de revólver seu cavalo de estimação, Maltino, depois de ter recebido dele um coice, que, por um triz, não foi fatal.

A cidade se revoltou contra a violência do fazendeiro, por ter tirado a vida do animal. O ato foi encarado como pura perversidade contra um animal irracional.

Está provado que o animal só ataca para se defender.

A vingança do fazendeiro contra o cavalo de sua suposta estimação, dando-lhe um tiro de revólver por causa de um coice, foi puro ódio e covardia. Poderia o fazendeiro ter se livrado do seu cavalo de outra forma, jamais matando-o. Uma doação, um “presente” ou uma comercialização teria resolvido o problema.

Irracionais que são, os animais só atacam para se defender. Foi o caso do Maltino, que atacou seu dono com um coice, para se defender de alguma agressão, com certeza, recebida naquela hora.

Nos dias atuais, a perversidade satânica está espalhada e a maldade é contagiante. A compaixão por pessoas inválidas ou por animais indefesos não existe mais.

Também há muitos humanos “desumanos”, que são mais violentos do que certos animais. Vivem a dar “coices” em pessoas honestas, tentando destruir reputações e denegrindo imagens.

Essas pessoas que agem assim, mais cedo ou mais tarde, colherão seus frutos. Esses “coices” dos humanos visam destruir a vida e a saúde de pessoas honestas.

Repisando, o coice é a arma de defesa dos equinos, quando são agredidos.

Também há humanos que vivem dando “coices” diferentes, e chegam a matar o próximo, por mera perversidade.

A atitude violenta do fazendeiro não passou de pura perversidade e covardia, diante de um animal irracional.

Evocando a inteligência de George Bernard Shaw, dramaturgo e escritor irlandês (26/Jul/1856 – 2/Nov/1950):

“Quando o homem mata o tigre, é esporte. Mas quando o tigre mata o homem, é ferocidade”.

A frase é uma famosa crítica social sobre a hipocrisia humana e frequentemente aparece em provas de interpretação de texto.

O dramaturgo e escritor irlandês George Bernard Shaw foi vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1925. É amplamente reconhecido por suas obras satíricas e críticas sociais, como Pigmalião.

Nos dias atuais, a perversidade satânica está espalhada e a maldade é contagiante. Está provado que o coice é a arma de defesa dos equinos (cavalos, burros e mulas), que consiste em golpear com as patas traseiras quem lhe causa mal.

Já o humano, às vezes, além de não ter compaixão de um animal, chegando a matá-lo, com facilidade chega a matar outro humano, por inveja, ódio ou vingança.

O caso do fazendeiro que matou seu cavalo de estimação, depois de ter levado um coice, não passa de instinto de perversidade, ódio e covardia.

Repito que está provado, que os animais só atacam para se defender.

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O ENXOFRE ESTÁ NO AR

Como diz a música de Chico Buarque “Meu Caro Amigo”, “a coisa aqui está preta”.

“Meu Caro Amigo” é uma das canções mais icônicas de Chico Buarque, lançada em 1976 no álbum Meus Caros Amigos. Composta em parceria com Francis Hime, a música é uma “carta musical” enviada ao dramaturgo Augusto Boal, exilado em Portugal, relatando de forma irônica e esperançosa a situação do Brasil durante a ditadura militar.

Os boatos e a perseguição dirigida a um homem de bem e sua família, especialmente seus filhos, estão tornando o nosso País um antro de gente ruim, bandidos e ladrões de colarinho branco. O clima está ficando irrespirável, com tanta maldade espalhada pelo ar. Na verdade, “a coisa aqui está preta…”

O arrastão que fizeram com o dinheiro do INSS ficou por isso mesmo. Disse o Poderoso Chefão, que quem foi prejudicado, ou seja, roubado, vai ser ressarcido até o último centavo. Mas não disse quando nem por quem. Mas fiquem calmos! Sabem quando será o ressarcimento?

– No dia em que a galinha criar dentes. Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde! Esperem sentados, porque em pé, cansa…. E a catinga de enxofre, o perfume do diabo, continua no ar…

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendem velas para espantar o Demônio, quando sentem o mau cheiro de flatos espalhados pelo ar. Deve ser o mesmo odor das quadrilhas de ladrões que roubaram o dinheiro do INSS e que estão acabando com a soberania do Brasil. É humilhante demais, os pobres do INSS terem seu pouco dinheiro roubado por ladrões de colarinho branco, que já não tem onde guardar suas botijas de dinheiro roubado. É gente que fede e causa nojo a quem estiver por perto. Para esses ladrões, todo castigo é pouco.

Nos tempos antigos, havia o costume de se riscar um palito de fósforo, para acabar com o mau cheiro de flatulência que empestasse qualquer ambiente.

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico), enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

O odor fétido dos flatos é causado por pequenas quantidades de compostos de enxofre produzidos por bactérias intestinais, especificamente sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico – \(H_{2}S\)), metanotiol (um tipo de mercaptana) e dimetilsulfeto.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais esses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, exalando odor cada vez pior, de ovos podres.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases putrefatos.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.

Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e a catinga de enxofre fez com que o povo se dispersasse.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu, cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Nenem, que morava na Rua do Sapo, tinha fama de soltar gazes irrespiráveis, e era viciada em Comícios Políticos, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz forte de homem respondeu indignada:

– AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU, DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que, aliás, nunca teve, e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, a jovem botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação violenta e passou 15 dias para se curar.

Nunca mais Lúcia quis saber de comício político.

Dona Neném já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném ganhou a fama reiterada de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. A ideia infeliz que a mulher teve de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque”.

Este caso é Verdade e dou Fé.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

EVOCANDO ERLON CHAVES

Filho de um motorista e de uma faxineira, Erlon Chaves foi uma criança prodígio e quebrou o estereótipo do negro sambista. Estudou piano, canto, harmonia e regência, compôs trilhas de filmes, novelas e jingles (incluindo o lendário “Já é hora de dormir”, dos Cobertores Parahyba), gravou e fez turnê com Elis Regina.

Bon-vivant, namorou Vera Fischer, então Miss Santa Catarina 1969, que conheceu quando era o jurado debochado do Programa Flávio Cavalcanti. Mas foi com a inesquecível parceria com Wilson Simonal que conquistou de vez o reino do suingue. Seus arranjos requintados e dançantes ajudaram a consolidar o soul jazz brasileiro.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos atrevidos que não sabiam os seus lugares”, como a eles se referiam os censores. Simonal (acusado de ser informante da ditadura) e Toni Tornado (envolvido em imbróglio no mesmo festival por cerrar o punho como os Panteras Negras).

Abalado emocionalmente após o episódio do FIC, Erlon Chaves nunca mais voltou a se apresentar ao vivo. Faleceu de um aneurisma cerebral em novembro de 1974, aos 40 anos, após passar mal em uma loja de discos no bairro do Flamengo. Comprava uma vitrola portátil para Simonal, então preso.

Com o passar dos anos, foi alimentada uma história de que a morte teria sido ocasionada por uma discussão defendendo o seu soul brother. Seu enterro foi acompanhado por 3 mil pessoas, entre eles Flávio Cavalcanti, Bibi Ferreira, Martinho da Vila e Simonal (sob escolta da polícia).

O músico e produtor Cacau Franco, primo de Erlon Chaves e administrador de seu espólio, revelou à Trip que planeja um tributo ao maestro no segundo semestre, marcando os 40 anos de sua morte. Em fase de captação de patrocínio, a homenagem virá em forma de shows no Rio e em São Paulo e um DVD.

Erlon tinha como amigo-irmão o cantor Wilson Simonal.

Em 1957, com 23 anos, assumiu a regência de Orquestra da TV Tupi, e começou a criar arranjos para diversos artistas, tornando-se requisitado na indústria …

Tanto o maestro Erlon Chaves, quanto o cantor Wilson Simonal foram profundamente afetados e considerados vítimas dos “Anos de Chumbo” da ditadura militar brasileira (1968-1974), embora de maneiras distintas e trágicas.

– Erlon Chaves foi vítima direta de perseguição, racismo e censura após apresentações consideradas “imorais” pelo regime.

– Wilson Simonal teve sua carreira destruída e foi isolado após ser acusado injustamente de delator (X9) da ditadura, um rótulo que o perseguiu após um incidente pessoal com seu contador.

– Em 1970, no V Festival Internacional da Canção (FIC), Erlon apresentou “Eu Também Quero Mocotó”. A performance, que incluía o maestro negro sendo beijado por várias loiras, foi considerada “assédio moral” e “imoral” pelos militares.

– Ele foi preso, algemado e levado para um interrogatório, ficando proibido de exercer sua profissão por 30 dias.

– Relatos indicam que ele foi sequestrado e mantido em cativeiro por agentes da repressão, sofrendo insultos racistas.

– Abalado pela perseguição, Erlon Chaves faleceu de infarto em 1974, aos 40 anos, enquanto comprava uma vitrola para Simonal, que estava preso.

Falando em Wilson Simonal, ele foi o cantor mais popular do Brasil, no início dos anos 70. Mas sua trajetória foi interrompida.

– Acusação de X9: A repercussão desse fato fez com que Simonal fosse rotulado como informante da ditadura (“dedo-duro” ou X9), o que gerou um boicote generalizado da classe artística e da mídia. Condenação: Apesar de ter se declarado a favor do regime para tentar se defender, Simonal foi processado e condenado.

– Reabilitação Póstuma: Após sua morte em 2000, e um documentário de seus filhos, a imagem de Simonal foi revisada, e ele foi inocentado da acusação de ser delator pelo Conselho Federal da OAB em 2003.

Resumindo, Erlon Chaves e Wilson Simonal, ambos grandes artistas, foram “devorados pelo monstro” daquele período, com Erlon sofrendo diretamente a brutalidade física e censura, e Simonal sofrendo a destruição pública de sua reputação.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos”: Wilson Simonal e Tony Tornado.

É lamentável a destruição de talentos no nosso País, em pleno vigor, sendo ridícula a tentativa de resgate posterior, da memória dessas pessoas injustiçadas.

É até um desrespeito às famílias.