VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

CORRUPIÃO DO NORDESTE

O concriz, ou corrupião do Nordeste, é um pássaro que imita o canto de todos os outros pássaros e, às vezes, aprende a falar como o papagaio.

Décadas atrás, morava no sertão da Paraíba um poderoso e prepotente chefe político, “coronel” Matias, casado com Dona Elsa. O casal tinha quatro filhos.

Nas férias escolares, Ritinha, 17 anos, a filha mais velha, que estudava na capital, chegava, para alegria dos pais e irmãos. Muito bonita e mimada, a moça gostava de passear pela fazenda e se encantava com as plantações.

Num certo período de férias, Ritinha se tomou de amores por um concriz amestrado, ou corrupião, que pertencia a Joca, um antigo carpinteiro da cidade. O pássaro tinha o canto belíssimo e a todos encantava.

A moça pediu ao carpinteiro que lhe vendesse o concriz, mas recebeu um não. O homem lhe disse que o seu concriz não estava à venda, e que era um pássaro de estimação. Para ele, era como se fosse um filho.

O concriz imitava canários, patativas, assobiava, pousava no ombro do carpinteiro e coçava sua orelha com o bico.

Durante dias seguidos, Ritinha insistiu com Joca para que lhe vendesse o pássaro, e a resposta era a mesma. O carpinteiro não aguentava mais a presença da jovem e a sua insistência. Muito mimada, a moça estava acostumada a ter todos os seus desejos satisfeitos. E assim, terminou tirando a paciência do carpinteiro, que cortou a conversa e levou a gaiola com o pássaro para dentro da oficina, demonstrando sua irritação.

No dia seguinte, logo cedo, Ritinha veio novamente à carpintaria, com jeito dengoso e a mesma insistência para comprar o concriz. Diante das repetidas recusas do carpinteiro, ela reagiu, dizendo que seu pai, lhe autorizara a insistir, pois o concriz seria tratado bem melhor na casa dele, que era um homem muito rico.

Humilhado, Joca sentiu que o “coronel” Matias estava querendo usar seu autoritarismo, para forçá-lo a vender o seu concriz de estimação, e assim satisfazer o capricho de uma jovem mimada e caprichosa.

Sentindo que o concriz, objeto de sua ternura, estava lhe fugindo das mãos, o carpinteiro, com o coração partido, resolveu tomar uma atitude drástica. Abriu a porta da gaiola e retirou de lá o pássaro encantador, que, nesse instante, aproveitou para lhe fazer um carinho com o bico. Num gesto delicado e de despedida, o carpinteiro beijou a cabecinha do concriz, e diante do olhar estupefato da jovem, deixou que ele batesse suas asinhas e voasse.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O INVASOR

Josué era useiro e vezeiro na “arte” de invasão de imóveis abandonados, apropriando-se deles e depois locando-os ou vendendo-os. Vivia de golpes, e enriquecimento ilícito. Dizia-se “protetor” de imóveis abandonados . Agia assim, por má índole e falta de caráter, pois era de família abastada.

Vivia à procura de um sócio honesto “como ele”, para o seu “ramo de atividade”.

Certa tarde, em uma de suas passagens por uma pequena cidade, Josué estava conversando numa venda e disse para algumas pessoas que ali estavam:

– Senhores, este lugar é o melhor do mundo para se morar, pois a violência e as trapaças ainda não chegaram aqui.

Sebastião, o dono da venda, envaidecido com o elogio, falou:

– Bem, seu Josué, é verdade que aqui tem muita gente boa e decente. Mas também tem gente ruim. Aposto que o senhor ainda não ouviu falar em Zaqueu, que está preso.

– Não, seu Sebastião. Nunca ouvi falar.

O Xerife, que estava presente, completou:

– Mas já vai sair esta semana. Só pegou 30 dias de cadeia; se morasse noutro país, já tinha sido enforcado. É ladrão fino.

Josué gravou na mente o nome desse Zaqueu e planejou conhecê-lo. Seria o sócio ideal, que vive procurando.

Muito traquejado em fazer amizade com malandro, Josué , dias depois de Zaqueu sair da cadeia, fez amizade com ele, e convidou-o para um passeio pela pacata periferia local, onde, sentados em um tronco, falaram de negócios.

O que Josué, na verdade, queria era um parceiro com um ar inofensivo de matuto, para seu sócio, na aplicação de golpes por aí afora. Zaqueu era o tipo de sócio que Josué procurava. Era alto, magro, claro e bem parecido, e tinha cara de pessoa boa. Disse-lhe o que pretendia e o encontrou disposto a agarrar aquela oportunidade de trabalho, coisa difícil para quem tinha estado preso, mesmo somente por trinta dias.

Deixando de lado os pequenos pecados, Josué perguntou a Zaqueu o que ele já tinha feito para tirar vantagem de trouxas. Queria saber se ele era inteligente e astucioso e sabia enrolar os bestas. Pediu que ele contasse algumas das suas façanhas.

O delinquente perguntou:

– Não te contaram? Não existe outro homem nessas montanhas, branco ou negro, capaz de roubar animais como eu, sem ser visto, ouvido ou apanhado.

– A ambição é um sentimento admirável num homem! – disse Josué.

Então, tendo combinado os serviços que iriam fazer, Josué e Zaqueu viajaram para a capital. No caminho, ao passar por outra cidade, Josué viu que havia um grande Circo armado. Ali mesmo eles desceram do ônibus e se dirigiram a uma pousada, onde cada qual ocupou um quarto. A cidade estava cheia de gente para ir à estreia do Circo. Josué nunca conseguira ver um Circo, no interior, sem se aproximar, para tirar vantagem dos pacatos frequentadores. Queria sempre recolher algum dinheiro fácil, que gira em torno do circo. Ao chegar à Pousada, foram logo providenciar uma roupa melhor para Zaqueu. O alfaiate lhe vendeu um terno azul, com um colete estampado e brilhoso, e uma gravata vermelha. Era a primeira vez que Zaqueu vestia alguma coisa que não fosse o macacão de brim e as botinas do seu uniforme de montanhês.

Naquela noite, Josué foi para perto do Circo e armou um joguinho com três conchas de noz e uma bolinha. Zaqueu seria o chamariz da jogatina. Recebera de Josué algumas notas falsas para jogar e Josué guardou um monte delas para pagar os prêmios. Josué armou a mesa e começou a mostrar às pessoas como era fácil descobrir qual noz escondia a bolinha. Os iletrados caipiras se amontoaram num círculo à volta de Josué, roçando ombros e provocando uns aos outros, para ver quem começava a apostar. Este seria o momento para Zaqueu fazer sua entrada e começar o jogo, ganhando notas falsas de dez e cinco reais, para atrair os caipiras. Mas, nada de Zaqueu aparecer.

Sem um chamariz viciado em jogo, a multidão se dispersou e todos entraram no Circo, sem que houvesse nenhuma aposta. Josué, indignado, fechou o jogo e voltou para a pousada. O sócio não havia chegado. Quando Josué já estava quase dormindo, foi surpreendido por um barulho de criança chorando. Ele abriu a porta do quarto e avistou a dona da pousada. Perguntou se ela não podia dar um jeito do bebê se calar e a mulher respondeu que o que ele estava ouvindo era o grunhido de um porco, que o amigo dele tinha trazido da rua há poucos minutos.

Indignado, Josué foi ao quarto de Zaqueu e o encontrou de pé, com a lâmpada acesa, enchendo de leite uma panela no chão, para um leitão branco rosado que não parava de grunhir.

Furioso, Josué falou:

– Como é que é, Zaqueu? Você me deixou na mão, na hora do trabalho, hoje à noite e o joguinho fracassou! Como é que você explica a presença deste porco aqui? Me parece uma traição!

– Não fique zangado comigo, Josué! – pediu Zaqueu – Já lhe disse que eu tenho o hábito de roubar animais, e porcos, principalmente. E esta noite, quando vi a oportunidade de roubar este leitão, numa tenda do Circo, não resisti.

– Bem – disse Josué- talvez isto seja uma doença. Existem atividades muito mais lucrativas. Emporcalhar a vida com um animal estúpido, desagradável, pervertido e barulhento como esse, é coisa que vai além da minha compreensão.

Eu vou voltar para a cama. Veja se consegue que ele faça silêncio!

Josué passou a noite em claro, contrariado por ter arranjado um sócio tão tratante. Levantou-se muito cedo e foi comprar um jornal. Logo na capa leu um anúncio em tamanho grande, dizendo:

“Paga-se cinco mil dólares de recompensa pela devolução, vivo e com saúde, de Bebé, famoso e aclamado porco, educado na Europa, que se perdeu ou foi roubado ontem à noite, de uma das tendas do circo The Brothers. – Procurar o Sr. Amaro Jorge, Gerente Comercial.”

Josué dobrou o jornal e o escondeu no bolso de dentro do paletó. Foi ao quarto de Zaqueu e ele estava acabando de dar ao porco o resto de leite que sobrara.
Muito eufórico, Josué falou:

– Bom dia!– Então, estamos todos de pé? E o nosso porquinho está tomando seu cafezinho da manhã? Diga, Zaqueu, o que você pretende fazer com o porquinho?

Zaqueu respondeu:

– Vou embalá-lo e despachá-lo para Mamãe, lá em Montebelo.

– É um belo porco – disse Josué, amavelmente.

– Você ontem o chamou-o de coisas bem diferentes. – disse Zaqueu.

Josué, então, mudou de conversa e disse gostar muito de animais, principalmente porcos.

Disse que tinha uma criação de porcos na sua fazenda, no interior de São Paulo, e que colecionava porcos raros. E ofereceu 200 dólares por ele.

Admirado, Zaqueu respondeu que não queria vendê-lo Era um porco de raça nobre e iria ficar com ele. Se fosse um porco comum, venderia.

Temendo que Zaqueu já tivesse sabido do anúncio do jornal, Josué insistiu na compra do porco. Mas Zaqueu repetiu que aquele porco seria um presente para sua Mãe. Disse que nem por 600 dólares o venderia. Josué, então, lhe ofereceu 800 dólares. Surpreso, Zaqueu aceitou a proposta e disse que por 800 dólares, sufocaria qualquer sentimento no seu coração.

Josué tirou de dentro da roupa o dinheiro e contou 40 notas de 20 dólares, entregando a Zaqueu. Depois de levar o porco para o quarto de Josué, Zaqueu lhe disse que iria ao alfaiate comprar mais umas roupas, já que estava com dinheiro.

Josué ficou sozinho para fazer o que quisesse. Contratou, então, um carroceiro que passou pela pensão e amarrou o porco dentro de um saco, dirigindo-se ao Circo.

Encontrou o gerente numa pequena tenda, sentado atrás de uma janela, aberta como guichê. Com um olhar esperto e uma viseira preta na testa, o homem ouviu Josué dizer que viera fazer a entrega do porco e pegar a recompensa anunciada no jornal. Os 5 000 dólares.

O homem saiu de trás do guichê e disse a Josué para segui-lo. Entraram numa tenda, onde estava deitado na palha, um enorme porco negro (barrão), com um laço rosa no pescoço; estava comendo umas maçãs que um homem lhe dava.

– Diga, Sérgio – perguntou o gerente – Alguma coisa errada com a oitava maravilha, esta manhã?

– Não! – respondeu o homem- Está com muito apetite!

E o gerente do Circo perguntou a Josué de onde ele tinha tirado essa ideia de vir lhe devolver um porco. Josué abriu o jornal e lhe mostrou o anúncio em destaque.

– Falso! – disse o gerente do Circo. – Você mesmo viu “a mundialmente famosa maravilha suína do reino dos quadrúpedes”, comendo com sagacidade e apetite sua refeição matinal. Nada de porco perdido ou roubado. Bom dia.

Josué deixou cair a ficha. Levara um golpe do “sócio”. Irado, voltou para a carroça, pagou ao carroceiro e pediu que levasse o porco bem pra longe dele, pois detestava porcos.

Em seguida, dirigiu-se à redação do jornal. Queria ouvir o que já era óbvio. Encontrou o encarregado dos classificados no guichê e, com o jornal na mão, perguntou:

– Para decidir uma aposta: o homem que botou este anúncio, era um muito gordo, baixo e de óculos?

– Não, não era – disse o homem. – Ele era muito alto e magro, cabelos cor de palha de milho e se vestia com uma roupa exagerada.

Na hora do jantar, Josué, arrasado, voltou à pousada, pagou a conta e pela manhã prosseguiu a viagem, interrompida pela visão do Circo.

Diz o ditado popular: “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.”

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A VERGONHA

Antigamente, todo religioso na idade madura era gordo e tinha fama de comilão. Por isso, no interior nordestino, era comum alguém que havia comido demais, dizer, em tom de brincadeira: Estou empanzinado! Comi que só um padre!!!

Dom Serafim era um monge gordo e comilão, que, no Mosteiro onde morava, era uma espécie de pai para os mais novos. Já na idade madura, dizia sempre que uma das coisas de que mais gostava na vida era quando se via diante de um prato de comida. Mas, na mesma hora, dizia que só comia por hábito ou vício. Isso provocava riso nos monges mais novos, e, muito brincalhão, Dom Serafim também dava suas risadas. Todos sabiam que ele era mesmo um glutão.

Pois bem. Dom Serafim chamava a atenção dos mais jovens, com a sua forma exagerada de comer. Seu prato era o maior de todos e ele comia com avidez, como se estivesse saboreando as melhores iguarias do mundo. Diz o ditado popular que o melhor tempero que existe é a fome. Para ele, não existia o pecado da gula.

Muito bem humorado, Dom Serafim dizia sempre que tinha sonhado comendo coisas boas, como um pernil de porco e a metade de um carneiro assados, faisão dourado etc. sozinho e numa só refeição. Todos os dias, ele tinha um sonho para contar, relacionado com iguarias deliciosas, que, no Mosteiro, somente o Abade e o Prior tinham o privilégio de comer.

Os monges jovens se divertiam com Dom Serafim, embora, não perdessem oportunidade de censurá-lo ao Abade. Na verdade, no Mosteiro, a alimentação oferecida aos monges era muito pobre e leve. Diferente da alimentação do Abade, do Prior e seus amigos.

Dom Serafim sentia tanta fome que juntava as sobras dos pratos dos colegas para comer, com a desculpa de que era pecado estragar comida. Não deixava uma só migalha em seu prato.

Com o tempo, os monges mais jovens, que iam chegando no mosteiro, passaram a ridicularizá-lo, comparando-o a um porco faminto, e faltando-lhe com o devido respeito.

Um certo dia, traiçoeiramente, os monges fizeram uma reclamação por escrito ao Abade diretor do Mosteiro, contra o comportamento de Dom Serafim.

Após receber uma convocação, o reclamado compareceu perante a autoridade maior do Mosteiro, que lhe expôs:

– Dom Serafim, seus colegas fizeram-me uma representação contra atitudes suas, que constituem uma grande vergonha para um monge. Acusam-no de ser esfomeado e comer feito um porco, aproveitando até as sobras dos pratos dos outros monges.

– O que o senhor diz sobre essa acusação? Fale, Dom Serafim! Não sente Vergonha de uma acusação dessa?

Humilhado, o monge respondeu:

– Sou o monge mais antigo e mais calmo do vosso Mosteiro. Se sou injuriado, sofro calado; não reajo às humilhações e deboches a que me submetem. Que outra oposição me fazem, fora essa, de ser comilão. Pai Abade?

– Só existe essa acusação contra o senhor. Respondeu o Abade.

O Monge continuou:

– De que deverei me envergonhar, Pai Abade? De procurar saciar minha fome? Onde se encontra, agora, a Vergonha no mundo? Estamos na situação daqueles que carregam pedras nas costas e cada um só enxerga as costas do companheiro, sem olhar para suas próprias costas. Se eu comesse comidas requintadas, lautas iguarias, como comem os senhores importantes, os chefes e diretores, certamente eu ficaria bem alimentado e não sentiria tanta fome. Mas, comendo iguarias pobres e leves, de fácil digestão, não me parece vergonhoso tentar, ao meu modo, saciar minha fome.

O Abade, que vivia suntuosamente, com o Prior e outros amigos, fartando-se de lautos almoços, jantares, lanches e sobremesas, compreendeu o que queria dizer o monge. Temendo ser por ele apontado, logo o absolveu, permitindo-lhe que continuasse a comer a mísera comida de sempre, de acordo com a sua vontade.

No dia seguinte, na hora do almoço, Dom Serafim subiu ao púlpito do refeitório e com delicadeza, pediu que todos os monges prestassem atenção à uma pequena fábula que iria contar. Encabulados, os delatores ouviram atentos, as suas palavras:

– Certo dia, encontraram-se o Vento, a Água e a Vergonha. Conversaram muito e mataram a saudade.

A Vergonha, então, perguntou ao Vento e à Água:

– Irmãos, quando voltaremos a nos encontrar, tão pacificamente como hoje?

O Vento respondeu:

– Minhas irmãs, cada vez que me quiserem reencontrar, para gozarmos o prazer de estar juntos, olhem por qualquer porta aberta ou rua estreita, que logo me encontrarão, pois é ali a minha residência. E tu, Água, onde moras?”

A Água respondeu:

– Eu estou nos mais baixos pauis, entre aqueles caniços; mas, por mais seca que seja a terra, sempre lá me encontrarão.

E a Água quis saber:

– E tu, Vergonha, onde moras?

A Vergonha respondeu:

– Eu mesma não sei onde moro. Sou muito pobre e sou sempre enxotada por todos. Se olharem entre os grandes, não me encontrarão, porque eles não querem me ver e zombam de mim. Se olharem entre as mulheres, tanto casadas como viúvas e donzelas, também não me encontrarão, pois todas fogem de mim, como se eu fosse um monstro. Se olharem entre os religiosos, longe deles estarei, pois eles me expulsam, com bastões e galhas. Por isso, até agora, nunca tive onde pousar. Se eu não puder acompanhar vocês, perderei toda a minha esperança!

Ouvindo isto, o Vento e a Água sentiram compaixão e acolheram a Vergonha em sua companhia. Mas não ficaram juntos por muito tempo, porque se levantou uma forte tempestade. E a Vergonha, separada do Vento e da Água, não tendo onde pousar, afundou-se no mar.

Eu tenho procurado a Vergonha em muitos lugares, e continuo procurando, mas não consegui encontrá-la. Ninguém sabe notícia dela.

Por isso, continuarei com meus costumes, fazendo o que gosto. E vocês continuem com os seus!

A Vergonha sumiu do mundo.

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A VERDADE

Numa capital cheia de sol, nasceu Adamastor, que não era príncipe, não era rico, nem filho de político. Socialmente, não tinha qualquer importância. “Gente que a gente não vê, porque é quase nada”.

Nasceu e se criou nessa capital litorânea, aconchegante, para onde fluíam pessoas de outras cidades, tirando as possibilidades da vida das pessoas, que tinham nascido ali. E dessa forma, a cidade era cheia de mendigos e parasitas, meios de vida que não tem concorrência.

Os prédios da capital, no centro, tinham vários andares, o que mostrava a riqueza dos proprietários. Nos subúrbios, não passavam de um andar, sem que por isso deixassem de gerar riqueza.

Na capital, pelas ruas, havia centenas de automóveis em alta velocidade, matando gente, enquanto matavam o tempo.Também havia antigos cabarés, jornais, partidos políticos, e Sedes de Governo.

Adamastor, mesmo não tendo importância social alguma, era de boa família. Tão boa, que tinha até bons sentimentos. E agia sempre de acordo com a sua vontade, não sendo preso às normas ditadas pelos seus co-cidadãos.

A mãe de Adamastor, logo cedo, notou que o filho tinha um defeito gravíssimo: Só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira.

Alarmada, tentou modificar o temperamento do filho, mas foi impossível. Adamastor era diferente, no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar e na forma como se dirigia aos outros.

Enquanto usava calças curtas, os amigos da família consideravam-no um menino precoce e antipático. Depois de rapaz, passou a ser considerado irreverente e grosseiro.

Entre outras esquisitices, Adamastor pensava livremente e por conta própria. Assim, a família via Adamastor como um contestador do regime de governo. Os professores se indignavam, porque ele tinha ideias próprias e aprendia tudo ao contrário do que eles lhe ensinavam. Os colegas o detestavam.

Entretanto, a mãe de Adamastor, como toda mãe, descobriu no filho uma grande qualidade: Adamastor não fazia nada do que fazia, por maldade. Era questão de temperamento e inteligência privilegiada.

Ao contrário do que parecia, seu filho era extraordinariamente bom. Aliás, somente os olhos maternos enxergavam isso.

Um parente o aconselhou a se tornar bacharel em Direito, tentando convencê-lo:

-Bacharel é o princípio de tudo. Não se precisa estudar muito. Seja bacharel! Você terá tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo ser subserviente e adulador, você chegará a deputado ou ministro.

Indignado, Adamastor contestou:

-Mas, eu não sou subserviente nem adulador. Não quero ser nada disso. Eu quero trabalhar!

O parente insistiu:

-Você quer ser um eterno vagabundo? Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: Dinheiro, prestígio, e posição social. Trabalhando, sem ser bacharel, você vai ser um Zé-ninguém. Um empregado medíocre. Vai trabalhar para os outros, quando podia trabalhar para você mesmo.

Adamastor respondeu:

-Eu discordo de você, e assunto encerrado!

A pedido de sua mãe, Adamastor procurou mostrar que tinha capacidade de trabalhar. Arranjou um emprego numa loja, mas foi logo despedido, sem qualquer explicação.

Mudou de emprego diversas vezes, sem dar certo em lugar nenhum, mesmo sendo honesto e tendo disposição para qualquer serviço.

A fama de Adamastor era gostar muito de trabalhar. Sempre ia além das ordens que recebia do chefe. Isso, os colegas de trabalho não suportavam, pois achavam que ele queria se sobressair. E o intrigavam com o chefe, ate que fosse despedido.

Ele ria e encarava tudo com naturalidade. Via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e não ficava calado. Censurava o que achava errado e dizia tudo o que queria.

Em todos os lugares onde trabalhou, fosse em indústria, loja comercial ou fábrica, sentiu a rejeição dos colegas, sendo logo despedido. O motivo era sua excessiva dedicação ao trabalho, o que irritava os preguiçosos.

Desiludido com a maldade humana, Adamastor chegou à conclusão de que só vence na vida quem diz sim. E o caminho que faz mais sucesso é o da bajulação e da hipocrisia. Esse caminho, ele jamais percorreria.

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“ESPERANDO GODOT”

De repente, o mundo parou. “Fez-se do amigo próximo o distante; fez-se da vida uma aventura errante; de repente não mais que de repente.” (Soneto da Separação – Vinícius de Moraes).

O vírus chinês, fabricado em laboratório, por um “erro de cálculo” macabro, proposital ou não, alastrou-se pelo mundo como uma praga, e a feliz expectativa do Ano Novo, o “Ano Gêmeo”, 2020, teve sua chegada atrapalhada pelo COVID-19, ou Coronavírus.

O povo brasileiro foi enganado pelos Governadores e Prefeitos, pois, sabedores da chegada dessa praga, desde o final de 2019, esperaram passar o Carnaval, para divulgar a presença do COVID-19, ou Coronavírus, no Brasil, que veio para dizimar vidas humana.

Os Governantes não pensaram na vida dos brasileiros, e não equiparam os hospitais e Unidades de Saúde, com leitos, UTIS, respiradores etc, suficientes, para tratar os possíveis doentes de Coronavírus.

No Rio Grande do Norte, 2019 foi o ano em que foram fechados diversos hospitais no interior (O de Canguaretama, por exemplo, e em Natal, o Hospital Ruy Pereira).

Em Natal, o elefante branco, em que se transformou o Estádio Arena das Dunas, continua no mesmo lugar, suntuoso e imponente, local onde estão petrificados bilhões de reais, fora os que foram embolsados pelos empreendedores desonestos. Está servindo agora, para shows de qualidade duvidosa e feiras de artesanato.

Está provado que, no final do ano de 2019, os governantes de todo o Brasil já tinham conhecimento da existência do Coronavírus. Entretanto, acharam por bem esconder o problema, até que passasse o Carnaval, em nome da ganância pelos bilhões gerados pelo turismo carnavalesco e sexual, fonte de renda advinda dos dias do reinado de Momo. Esconderam da população a notícia do Coronavírus e adiaram a quarentena para depois do Carnaval. Isso, sem pensar nas vidas humanas que seriam dizimadas, mas apenas visando o lucro estrondoso, advindo do Carnaval, principalmente nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Os brasileiros, principalmente, os nordestinos mais pobres, só tomaram conhecimento da terrível pandemia que se alastrava pelo País, quando o monstro do Coronavírus, já começava a fazer suas vítimas, dizimando a população, desenfreadamente.

O sofrimento do povo, diante dessa terrível Pandemia, soma-se à solidão imposta pelo isolamento social e ao desespero e pavor de contaminação. Nesta quarentena, que já ultrapassou o prazo estipulado inicialmente, e hoje já caminha para uma verdadeira “oitentena”. O povo não aguenta mais essa “prisão domiciliar”, mesmo sem tornozeleiras. O desengano e a depressão estão tomando conta das pessoas, que se sentem presas em casa.

Estamos no 6º mês do tão festejado e esperado Ano Gêmeo (2020), e a Ciência , até aqui, não chegou a um denominador comum, no que diz respeito à descoberta do remédio certo, capaz de curar o Coronavírus, nem inventou ainda a Vacina milagrosa, capaz de erradicá-lo do solo brasileiro.

Estamos ainda, em pleno pico da pandemia, que continua, fazendo inúmeras vítimas, de todas as idades. Entre elas, incluem-se médicos, enfermeiros, maqueiros, auxiliares de enfermagem e outros profissionais da área da Saúde, que trabalham na linda de frente dos Hospitais e Unidades de Saúde Pública e Privada.

Repito que o povo foi traído, miseravelmente, pelos políticos, que ao invés de preparar hospitais e Unidades de Saúde com UTIS e respiradores, para receber os doentes de Coronavírus, preferiram passar os meses de janeiro e fevereiro veraneando e brincando o carnaval.

Os nossos Governantes ainda não se conscientizaram, de que a moeda mais valiosa de um País é o seu povo. com Saúde e Educação. No momento crucial que atravessamos, a maior obrigação dos Governadores e Prefeitos, é, antes de tudo, salvar vidas, empregando de forma transparente e honesta as verbas federais milionárias, enviadas pelo Governo Federal aos Estados e Municípios, afetados pela Pandemia.

O descaso e a desorganização dos governantes refletem na falta de leitos, UTIS, respiradores etc, para os doentes de Coronavírus. A ordem médica é para que o doente fique em casa e só se dirija às Unidades Hospitalares, quando o quadro se agravar. Isso, para não superlotar os hospitais públicos, onde faltam leitos e tudo o que é necessário para o tratamento dos doentes do Coronavírus, apesar das verbas milionárias, que estão sendo enviadas pelo governo federal.

Enquanto milhares de pessoas estão morrendo, vitimadas pelo Coronavírus, outras estão se salvando, graças ao uso da Cloroquina, que tem como base o sulfato da Quinina (ou Quinino), planta medicinal usada pelos índios, na cura da Malária, e que foi usada, com êxito, em Natal, no tratamento da Gripe Espanhola de 1918. Conta a história, que o Dr. Januário Cicco, médico norte-riograndense, prescreveu uma fórmula à base de Quinino, que mandou aviar em farmácia, em forma de pílulas, para que os sanitaristas distribuíssem nas choupanas, para tratar as pessoas pobres, acometidas da terrível gripe.

O fato é que o povo brasileiro continua esperando “Godot”, (numa comparação com a peça “Esperando Godot”, escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), considerada um dos principais textos do “teatro do absurdo”.. Acontece que Godot, a solução para todos os problemas, era citado a toda hora, mas nunca chegou. Inclusive, baseado na peça, foi feito o filme “Esperando Godot “. De acordo com o enredo, em um lugar indefinido, dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita no filme por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar: “nada a fazer”. Eles lá se encontram para esperar um sujeito de nome Godot, que nunca chegou.

Que não seja esse o caso que estamos vivendo. Os brasileiros continuam aguardando a vitória da Ciência sobre o cérebro macabro do Frankenstein chinês.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AS COMPRAS

Impaciente e nervoso com o “confinamento” compulsório, decorrente da pandemia do Coronavírus, que já ultrapassou a “sessentena”, Martinho, servidor público aposentado, para se distrair, resolveu ir a um supermercado, que tem fama de que, lá, “tudo é mais barato”.

O homem foi a esse supermercado, muito mais por curiosidade e compulsão de comprar, do que por necessidade. Em sua casa, a despensa estava sortida, não faltando nada, que justificasse o sacrifício de enfrentar filas.

Usando a obrigatória máscara de proteção à boca e nariz, Martinho posicionou-se na fila, para entrar no supermercado, o que acontecia de um em um freguês. Isso demorou uns 40 minutos . Ao chegar sua vez de entrar, foi abordado por um segurança, que o “convidou” a higienizar as mãos com álcool gel, cuja garrafa ali estava à disposição dos fregueses.

Livre do segurança, Martinho pegou um carrinho de compras e embrenhou-se por tudo o que era gôndola com mercadorias. À medida que olhava para as prateleiras, seus olhos piscavam cada vez mais. E cada vez mais, Martinho ia enchendo o carrinho de produtos variados, inclusive vinhos, queijos e carnes. Realmente, ali era tudo mais barato, embora algumas marcas fossem desconhecidas.

Com o carrinho esborrotando de produtos alimentícios, incluindo frutas e biscoitos variados para os netos, o homem achou pouco e pegou outro, para comprar produtos de limpeza e higiene.

Consumidor compulsivo e viciado nas “parcelinhas” do cartão de crédito, Martinho esbaldou-se nas compras, como se estivesse sozinho no supermercado. Nem atentava para a quantidade enorme de pessoas simples, que também faziam compras, observando a lista que traziam nas mãos e empurrando seus carrinhos.

Ao encerrar as compras, por já ter lotado o segundo carrinho, foi que Martinho percebeu que as filas dos caixas pareciam quilométricas. Entrou em uma delas, empurrando os dois carrinhos. Logo a fila aumentou, também, atrás dele. Foi aí que percebeu os olhares de revolta dos fregueses, sobre os seus dois carrinhos, exageradamente cheios de produtos variados. Dariam para o resto do ano.

O homem sentiu que estava sendo olhado com censura e indignação, e ouviu alguns xingamentos, por causa do grande volume de produtos que estava comprando.

Assustado, sua primeira vontade foi sair dali depressa e devolver às prateleiras todos os produtos que havia pegado. Mas, com isso, perderia mais um tempão. Outra vontade, foi abandonar ali os dois carrinhos, fingindo que iria pegar um produto, do qual havia esquecido. Mas, mesmo irritado e indeciso, terminou aguardando a sua vez.

Os xingamentos contra Martinho aumentaram e quando chegou sua vez no caixa, ele já estava com os nervos em pandarecos. Praticamente, rebolou as compras, no espaço a elas destinado para registro, de forma tão apressada, que o caixa lhe pediu para colocar os produtos com mais calma.

Nessa hora, Martinho ouviu alguém dizer:

– Esse cara vai demorar mais de uma hora no caixa!!!

E ouviu o tumulto que se formou contra ele. Sabia que o valor das suas compras iria dar o que falar, e deu mesmo.

A fila toda ficou sabendo, que o valor ultrapassou, bastante, o valor do salário mínimo. Os fregueses que estavam perto dele, fizeram questão de olhar de perto a tela registradora e cochicharam uns com os outros.

Martinho escutou um homem, com aparência sofrida, dizer:

– Ah, infeliz! Um homem rico desse, vem comprar aqui, só pra atrapalhar!

Sentindo a agressividade dos fregueses da fila em que estava, Martinho saiu do supermercado, mais nervoso do que estava em casa. Empurrando os dois carrinhos, e quase correndo, teve medo de ser agredido, assaltado ou linchado.

Ainda bem, que não viram seu carrão no estacionamento.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A FEROCIDADE

“Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade.” – George Bernard Shaw

Certa vez, apareceu em Gubbio, cidade da Itália, um enorme lobo, que devorava pessoas e animais. Os moradores da cidade, apavorados, trancaram-se em suas casas, não saindo nem mesmo para o trabalho.

Francisco, um dos moradores, e muito religioso, ao tomar conhecimento dos ataques da fera, e de que os homens estavam preparando uma armadilha para matá-la, resolveu interferir, indo sozinho enfrentá-la, munido apenas da sua Fé em Deus.

Depois de muito caminhar, Francisco avistou a fera, que, ao vê-lo de longe, caminhou em sua direção, com a enorme boca escancarada.

Fazendo um largo Sinal da Cruz e usando a sua Fé em Deus, Francisco viu o lobo fechar a boca, parar e baixar a cabeça. E sem demonstrar qualquer receio, chamou-o em sua direção, dizendo:

– Venha cá, irmão Lobo! Estou aqui para lhe ordenar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não me faça nenhum mal, nem mais a qualquer outro homem!

Você tem matado e devorado animais, e ousado matar homens, feitos à imagem do Senhor, merecendo, por isso, a forca, como qualquer ladrão ou traiçoeiro assassino.

Mas, estou aqui para estabelecer a Paz, entre você e os moradores da cidade.

De agora em diante, você não mais fará mal a criaturas do Senhor e todos o perdoarão pelo mal que já praticou. Nem homens nem cães tornarão a persegui-lo.

Eu lhe prometo que os moradores desta terra se obrigarão a alimentá-lo todos os dias. Bem sei que a fome é a responsável pelos seus crimes.

O lobo, então, aproximou-se mansamente de Francisco e lambeu-lhe os pés, num sinal de que aceitava aquele pacto de Paz.

Sério e emocionado, Francisco lhe ofereceu a mão muito magra e branca, na qual o lobo colocou a pata direita, dando-lhe, assim, um sinal da sua boa-fé. Com os olhos cheios de lágrimas e a voz apertada pelos soluços, Francisco acrescentou:

-Meu irmão Lobo…eu o convido, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, a me seguir, sem receio, para celebrar esta Paz!

E o lobo seguiu Francisco até o centro da cidade, onde os cidadãos, estupefatos, os viram chegar, lado a lado.

Francisco, então, falou para todos:

“Escutai, irmãos:

O irmão Lobo prometeu-me, de agora em diante, viver em paz com vocês e nunca mais os atacar. E vocês lhe devem prometer que, de hoje em diante, lhe darão o que comer, diariamente. Eu ficarei fiador pelo irmão Lobo e fiador também pela promessa de vocês, para que todos vivam em Paz!

O lobo se ajoelhou diante de Francisco e baixou a cabeça, com movimentos de submissão, em sinal de que cumpriria todas as suas promessas. E levantando a pata direita, colocou-a na mão de Francisco, para regozijo e admiração da multidão que a tudo assistia.

E todos louvaram a Deus, por lhes haver mandado Francisco, que, por suas grandes virtudes, tinha transformado a ferocidade do lobo em amor.

Celebrada a Paz, o lobo passou a viver na cidade, caminhando, mansamente, de porta em porta, sem fazer mal a ninguém. Era muito bem alimentado pelo povo, e podia andar por todos os lugares, não havendo cão que contra ele ladrasse.

Lamentavelmente, essa Paz só durou dois anos, pois Francisco se mudou da cidade, para evangelizar em outras regiões, e o povo logo esqueceu das promessas feitas. Não tardaram a surgir pessoas más, que instigaram os moradores a fechar as portas ao lobo e deixar de alimentá-lo, conforme o prometido.

Um certo dia, com paus, pedras e gritos de raiva, acompanhados de latidos de cães, o lobo foi enxotado para fora da cidade, e também perseguido a tiros. Só salvou a pele, graças à ligeireza da fuga e à proximidade da mata e das escarpas pedregosas, por onde subiu sem fôlego, sangrando em diversas partes do corpo.

Decepcionado com aquela traição, o lobo se perguntava como pudera acontecer aquilo. Nada fizera de errado, nem quebrara a sua solene promessa.

O lobo se viu sozinho, sem ter Francisco para protegê-lo e sem ter mais quem lhe desse a comida prometida.

O seu estômago não mudara. Era grande e exigente. Depois de tantos sustos, pedradas e correrias, pedia reforço. Estava faminto…

Outra vez, a cidade se viu em polvorosa. Outra vez, os rebanhos voltaram a ser dizimados, e as lágrimas voltaram a inundar os olhos de muitos habitantes, pela morte de algum parente.

O lobo era, outra vez, a fera insaciável e sanguinária, o pavor daquela região.

E todos responsabilizavam Francisco, pelos novos ataques do lobo. Por isso, a ele recorreram.

Com o coração partido, Francisco convocou o lobo para censurá-lo e obrigá-lo a dar explicações da sua enorme culpa.

A uma considerável distância, temendo nova traição, o lobo falou, somente para Francisco:

“Senhor…Ouvi a vossa palavra e jamais feri a lei que me foi imposta. Aqui mesmo, vivi estes dois anos de trégua…Vivi em calma, mas não satisfeito. Tinha o estômago confortado, mas o espírito em confusão. O homem que, segundo vossas palavras, foi feito à imagem de Deus Nosso Senhor, é mil vezes pior do que a pior fera da mata. Tendo tudo ao seu alcance, procura sempre conquistar mais, e o faz pelo caminho mais condenável. Para isso, usa, ora o embuste, ora a mentira, não hesitando em empregar a força.

Sorri para o irmão, desejando a sua desgraça. Beija a mão do poderoso, e pisa a cabeça do miserável e pequeno. Tendo os frutos dos pomares, feitos por Deus, persegue, mata e estraçalha os animais, para comer-lhes a carne rubra. E cria outros, com o mesmo fim interesseiro e assassino!

E a mim, que um naco qualquer poderia contentar, davam-me comida podre e que nem um chacal aceitaria; e agora, nem isso, preferindo dar-me pedradas, pauladas e tiros… A mim, que não fui feito à imagem de Deus e que só devo comer carne…A mim, que ouvi as vossas palavras e respeitei a vossa Paz…

E é a mim que falais, a mim que vindes pedir contas, pela quebra da promessa feita!

Deveis pedir contas a eles, os humanos! A eles, sim, irmão Francisco! A eles, que, tendo tudo, sempre querem mais! A eles, que prometem com os olhos e com a boca e faltam com o coração! A eles, que, mesmo tendo sido feitos à imagem de Nosso Senhor, são mais monstruosos e temíveis do que eu ou qualquer outro animal feroz!”

Terminando de se justificar perante Francisco, e vendo entre os seus seguidores, muitos que se agachavam à procura de uma pedra, o lobo recuou e fugiu para a floresta, de onde jamais tornou a sair. Partiu desiludido dos homens e das suas leis.

São Francisco de Assis, o protetor dos animais, e que com eles se comunicava, ao ver o lobo partir para a floresta em disparada, permaneceu alguns minutos meditando. Completamente desolado e em lágrimas, reconheceu a grande verdade que havia brotado das palavras do irmão Lobo.

Realmente, a verdadeira fera era o homem, e era para ele que o seu discurso deveria ser dirigido.

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A PRAGA E A PREGA

Esse confinamento compulsório é erroneamente chamado de “quarentena”, pois quarentena refere-se a um isolamento de quarenta dias.

Particularmente, já cumpri mais do que uma quarentena (isolamento compulsório), esperando que seja erradicada a pandemia do Coronavírus.

Esse confinamento fez-me vasculhar coisas guardadas em gavetas e na memória. Coisas importantes, só para mim. Registro de momentos felizes e tristes, há muito tempo adormecidos, mas que uma vez por outra aparecem nos meus sonhos.

Minha Mãe, quando tinha algum problema de saúde que a obrigava a se manter em repouso, impedindo-lhe de sair de casa, às vezes, impaciente, dizia:

– Ô prega na minha vida!!! Tanta coisa que eu tenho para fazer!!!

Hoje, ela já não se encontra entre nós. Mas, se viva fosse, certamente, atravessando essa pandemia, iria sentir-se prisioneira, sem poder, nem mesmo ir à Igreja, assistir às Missas dominicais.

Com medo de me contaminar com o Coronavírus, essa praga que, fatidicamente, está contribuindo para o controle da superpopulação mundial, ultrapassei a quarentena. Continuo cumprindo as ordens, por sinal, inconstantes, do Governo do Estado, com relação ao isolamento.

Na verdade, essa pandemia está sendo uma gorda loteria premiada, para a POLITICALHA, que está pegando nas verbas destinadas à Saúde Pública. Está, também, provocando depressão e enlouquecendo a população, com estatísticas alarmantes, algumas, comprovadamente, contraditórias.

No Brasil, para uns, essa praga é um castigo do Céu; uma lição para os hereges, componentes da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira (ou simplesmente Mangueira), cujo enredo do último carnaval, teve como ponto culminante a execração e o ultraje da figura de Jesus Cristo, o Homem mais importante da História da Humanidade. Houve uma afronta gritante, aos Cristãos e aos princípios religiosos.

A Mangueira, com esse enredo podre, uma verdadeira ode ao satanismo, pensava que iria conquistar o 1º lugar. Ledo engano. Com esse enredo desrespeitoso e chocante, ridicularizando e execrando a figura de Jesus Cristo, essa tradicional Escola de Samba (Mangueira), não só deixou de conquistar o 1º lugar, como perdeu uma legião de antigos torcedores, que se decepcionaram e se revoltaram com o infeliz enredo.

Entre esses torcedores revoltados, deveria estar a minha Mãe, católica praticante e temente dos castigos de Deus.

Eu ficava feliz, ao ver a alegria da minha Mãe, assistindo pela televisão, ao desfile da Mangueira.

Certa vez, perguntei-lhe:

– Por que a senhora torce pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira? Eu torço pela Beija-Flor!

A resposta veio em cima da bucha:

– Ora, minha filha! Tem coisa melhor no mundo, do que uma manga rosa madura???

Minha mãe era inteligentíssima e muito espirituosa. Não tinha maldade e tinha resposta para tudo.

Quando havia a Loteria Esportiva, às vezes, por influência minha, ela fazia um joguinho básico, ao gosto dela.

Certa vez, o Vasco da Gama, jogando no Rio de Janeiro (em casa), perdeu para o Maringá Futebol Clube, do Paraná. Foi a maior Zebra do ano. Dos poucos pontos que acertou, minha Mãe acertou essa Zebra.

Quando conferi o jogo dela, rindo, eu lhe disse:

– Mamãe, a senhora acertou a Zebra!!! A maior Zebra do ano! A senhora torce pelo Maringá? A resposta dela foi ótima:

– Torço, porque eu adoro a música “Maringá Maringá…depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste…”

O brasileiro costuma dizer, que o Ano Novo só começa mesmo depois do Carnaval. Até então, pessoas viajam para as praias para veranear, outras viajam de férias para outros estados ou até para o exterior.

Apesar de já estarmos no mês de maio, 5º mês deste ano de 2020, o brasileiro ainda não pôde dizer que o Ano Novo, “vida nova”, começou. Os planos para este novo ano estão congelados. Mas Deus proverá!

O Coronavírus representa uma verdadeira praga, para quem estava aguardando, que o Ano Novo começasse logo depois do Carnaval.

E as palavras da minha Mãe, continuam soando aos meus ouvidos:

– Ô prega na minha vida!!!

Estou sem sair de casa, aguardando a notícia da erradicação da terrível praga do Coronavírus. Já sonhei, até, com um comboio, que por aqui passava, levando de volta o Coronavírus, para as profundezas do inferno chinês, de onde nunca deveria ter saído.

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BICHO VOADOR

Muitos grupos indígenas vivem isolados, tentando manter a sua autonomia, ou para fugir da morte. Deslocam-se para as áreas mais preservadas, que por vezes são de unidades de Conservação ambiental, ou Terras Indígenas já demarcadas. Os índios tem sido massacrados, desde o “descobrimento” do Brasil, o que, na verdade foi uma invasão, pois a terra descoberta já era por eles habitada.

Tem ocorrido frequentemente, a criação de unidades de Conservação, em áreas de localização de povos isolados, ao invés de demarcá-las como terras indígenas. No Maranhão, os grupos isolados perambulam por terras indígenas já demarcadas. Mesmo assim, estão ameaçados de extinção, devido à permanente invasão e exploração ilegal de madeira nessas terras. Os crimes de genocídio, que são aqueles praticados com a intenção de aniquilar um povo, tem sido, relativamente, frequentes na Amazônia, nas últimas décadas, com a construção de estradas e hidroelétricas.

Pois bem. Décadas atrás, quando os índios eram somente índios, e, com razão, como ainda hoje acontece, temiam a aproximação do “homem branco”, usavam como transporte somente a canoa. Os médicos sanitaristas de todo o Brasil organizavam expedições e se embrenhavam na selva amazônica, para o trabalho assistencial.

Armavam acampamentos, tratavam dos índios doentes, faziam parto, distribuíam remédios e davam orientações.

Os índios viviam nas suas respectivas etnias isoladas, para fugirem da maldade dos saqueadores de suas terras e de suas vidas. Algumas etnias, ainda hoje, vivem isoladas na selva amazônica, sem qualquer contato com os homens brancos, que só lhe querem fazer o mal. Não admitem que eles se aproximem de suas ocas e mostram-se violentos diante de qualquer tentativa de aproximação. Não conhecem o açúcar, o sal, nem o sabão. Sua alimentação se restringe a peixe e farinha de banana verde. Tem a saúde muito frágil.

Os expedicionários chegavam à região dos índios, num pequeno avião. Quando o avião pousava, os índios se escondiam. Morriam de medo daquele “bicho pesado e voador”. Somente o índio Tupinambá se aproximava para ver de perto o avião.

Esse índio destoava dos demais, e gostava de se aproximar do homem branco, para ver de perto o avião. Seu deslumbramento era perceptível. E sempre dizia a quem estava por perto, que “índio querer passear no “bicho voador.”

O médico da expedição, depois de ouvir isso repetidas vezes, resolveu chamar o índio para fazer uma pequena viagem. Dessa forma, satisfazer-lhe-ia o desejo de andar naquele “bicho pesado e voador.”

O Piloto iria fazer um voo de reconhecimento sobre a mata. Tupinambá ficou muito contente com o convite e aceitou na hora. Não saiu de perto do avião, até a hora de realizar seu sonho.

E lá se foram o piloto, o médico e o índio, que ria de felicidade, feito uma criança.

Quando o avião decolou, para fazer medo ao índio, o piloto, por maldade, falou para o médico:

-Olhe, Doutor! Nós estamos sobrevoando o local onde, no ano passado, caiu um avião igual a esse. Não escapou ninguém!!!

Ouvindo isso, o índio entrou em pânico e perguntou:

“Bicho voador poder cair?!!!” O piloto e o médico sorriam, se divertindo com a reação do índio, que gritava e pedia socorro. Queria porque queria sair do avião à força.

Nunca mais Tupinambá chegou perto do avião, nem falou com os expedicionários.

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O PESADELO

Depois de vários dias sem frequentar, compulsoriamente, salão de cabeleireiro, shoppings, supermercados, restaurantes etc. o que faz parte da minha rotina, continuo confinada, para evitar a contaminação do CORONAVÍRUS.

Como sempre ouvi minha mãe dizer que “quem não toma conselho, raramente acerta”, prefiro cumprir as determinações do poder público. Com a Saúde, não se brinca.

A minha distração são meus livros, o computador, a televisão e o celular.

Não aguento mais os noticiários agourentos da televisão, com prognósticos aterrorizantes sobre a pandemia que se alastra, também, pelo Brasil.

De tanto ouvir notícia ruim, comecei a ter pesadelos. O último que tive, foi que eu acordava pela manhã, sozinha, e as minhas estantes estavam completamente vazias. Não encontrava um só livro, em nenhum lugar do apartamento. Era uma época em que não havia computador, televisão e muito menos telefone.

Acordei em pânico e corri para a minha pequena biblioteca. Os livros estavam todos lá. Tudo intacto. Respirei aliviada, quando vi que tinha sido um pesadelo.

A nossa memória armazena “informações”, que, quando dormimos, às vezes se libertam e ocupam nossa mente. Freud explica.

Pois bem. Depois desse pesadelo, lembrei-me de um filme que eu e meu marido (de saudosa memória) assistimos na década de 70, “FAHRENHEIT 451”, na sessão de “Cinema de Arte”, no Cine Rio Grande, em Natal.

Nessa época, os Shoppings ainda não existiam, com suas inúmeras e geladas salas de projeção. Os tradicionais cinemas de Natal, como o Cine Rio Grande e Cine Nordeste, eram muito mais aconchegantes.

Esse filme, “FAHRENHEIT 451”, dirigido por François Truffaut e estrelando Oskar Werner e Julie Christie, foi um sucesso de bilheteria.

É uma adaptação do livro de Ray Bradbury (1920-2012), publicado pela primeira vez em 1953. Escrito nos anos iniciais da Guerra Fria, o livro é uma crítica ao que Bradbury viu como uma crescente e disfuncional sociedade americana. Trata-se de uma sociedade do futuro, uma cidade fictícia, onde todos os livros são proibidos; opiniões próprias, contra o sistema, são consideradas antissociais e o pensamento crítico também é proibido. Essa cidade baniu todos os materiais de leitura e o trabalho dos bombeiros é manter as fogueiras a 451 graus, a temperatura que o papel queima.

O personagem central, Guy Montag, trabalha como “bombeiro”, o que no enredo. significa “queimador de livro”. O número 451 é a temperatura, em graus Fahrenheit, da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius.

O bombeiro segue a profissão de seu pai e de seu avô, e tem a certeza de que seu trabalho (queimar livros e a casa que os abriga, bem como perseguir as pessoas que os detém) – é a coisa mais certa que existe.

Ele sempre se lembra de um fato ocorrido na sua infância, quando faltou luz e sua mãe acendeu uma vela, no escuro, proporcionando a todos uma luz estranha, mas sob a qual ele se sentiu muito bem.

Qualquer pessoa flagrada lendo livros era, no mínimo, confinada num hospício. Os livros ilegais, encontrados e queimados, eram obras famosas, principalmente de autores como Walt Whitman (poeta, ensaista e jornalista norte-americano), Willian Faulkner (escritor norte-americano, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1949), e outros.

Os leitores procuravam gravar, mentalmente, seus livros preferidos, antes que fossem queimados.

O autor do romance conta que o mesmo foi escrito nos porões da biblioteca Powell, na Universidade da Califórnia, em uma máquina de escrever alugada. Sua intenção original, ao escrever o romance, era mostrar seu grande amor por livros e bibliotecas, e frequentemente se refere a Montag, o bombeiro, como uma alusão a ele mesmo.

A história é encerrada, com leve tom otimista. É dito que a sociedade que Montag conheceu foi quase totalmente dizimada, e uma nova sociedade estaria nascendo de suas cinzas, com um destino ainda desconhecido.

Nesse novo mundo, as pessoas que liam livros antes, de forma oculta, começam a revelar-se, explicando a todos os demais, de onde vieram e de que forma o conhecimento que detém poderá transformar a vida de todos, de modo positivo.