VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O ANJO

Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas.

Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque, o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.
Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões!

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar!

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UMA FLORISTA CEGA

Há muitos anos, em Natal (RN), Maria de Lourdes Lopes, uma florista cega, requereu aposentadoria ao antigo Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), com base na Lei nº 6.179/74, sendo o pedido indeferido. Ela recorreu à Junta de Recursos da Previdência Social, segunda instância administrativa, que tinha como Presidente o saudoso Dr. Epitácio Lira Aquino de Andrade, obtendo deferimento. Na época, eu era Curadora de Acidentes do Trabalho, na referida Junta.

A Procuradoria do INPS, de ofício, interpôs recurso ao Egrégio Conselho de Recursos da Previdência Social, alegando “ser vedado ao privado da visão a confecção de flores, no caso artificiais, pelo não conhecimento do seu cromatismo”.

As contrarrazões do recurso foram elaboradas, discretamente, pelo próprio Presidente do Colegiado, que se compadeceu diante da visível miséria em que a cega vivia.

E assim se pronunciou o saudoso Dr. Epitácio Lira Aquino de Andrade, nas contrarrazões ao recurso:

“Olvidou-se o recorrente, em tal assertiva, de que os cegos tem guias.

Os cegos também sonham e, sonhando, veem. E vendo, no sonho, devem transmitir ao seu guia, aquilo que desejam para armar e criar o seu ofício, inclusive as cores, privilégio das floristas; festa para os olhos sem nuvens, muito embora, não raro, sustento único e parco dessas artistas da escuridão patética, porque não tem a sensação e a beleza da sua criação.

Não se queira, senhores julgadores, no caso em lide, arrepiar a história.

LEONARDO DA VINCI escreveu: “Aconteceu-me um dia pintar uma figura verdadeiramente divina… (A GIOCONDA). E ANDRÉ MALRAUX, na sua obra “Quando os Robles se Abatem”, completa: “No seu tempo essa figura deve ter-lhe surgido como uma verdadeira revelação, porque a ressurreição das formas antigas era inspirada pelas estátuas, e as estátuas não tinham olhar…portanto, não podiam ter alma.” E completa, o famoso escritor: “A mulher mortal, de olhar divino, triunfa sobre as deusas sem olhar.” É uma opinião.

E a Justiça, de olhos vendados, simbolizada numa mulher imortal? E esse simbolismo querendo significar, dizer, de uma imparcialidade, que só existe nos espíritos clarividentes, que são poucos!

Há manifestações pictóricas no átrio que dá acesso à Capela Sistina, no Vaticano, onde se pode surpreender o olhar, que é vida, é movimento, muito embora, na estática.

O MOISÈS, de Michelangelo, é tão vivo na sua imobilidade austera, com os seus olhos esculpidos no mármore, que, segundo os felizes mortais que o contemplaram, parecia que eles luziam para dizer: eu os estou vendo!

Beethoven, surdo, sentia pela alma os acordes das suas maravilhosas criações.

E por que não uma MISERÁVEL NORDESTINA- carente de tudo e especialmente da luz da visão- não poderia exercer um trabalho de artesã, assim como o pianista, o violinista, – etc, no seu ramo?

A impiedade que manda o dever – e manda? – cobra muito caro das almas nobres que o exercem com a inexorabilidade, quase diríamos, pagã dos sacrifícios.

Senhores julgadores:

Impetra uma cega, não em nome do direito, mas da JUSTIÇA, que essa Douta Turma acolha o decisório da Junta de Recursos da Previdência Social, do Rio Grande do Norte, mantendo o deferimento do seu benefício.”

(Logo abaixo, o polegar da cega, florista, de nome Maria de Lourdes Lopes – Processo nº 418-200/001333/79)

E a MISERÁVEL NORDESTINA foi aposentada, graças ao empenho e engenhosidade do próprio Presidente da JRPS/ RN, DR. EPITÁCIO LIRA AQUINO DE ANDRADE, que já não se encontra entre nós.

A decisão da JRPS foi mantida pelo CRPS, e a florista foi aposentada, não em nome do Direito, mas em nome da JUSTIÇA.

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A SABEDORIA DOS ANIMAIS

Quem diz que os animais não pensam, na minha opinião, está redondamente enganado. Eles tem faro, e por isso, tanto pensam quanto raciocinam.

Os humanos pensam, mas nem sempre raciocinam. Há pessoas que pensam, mas tem o raciocínio curto.

Há animais inteligentes, como os cachorros e os gatos.

Sou testemunha de que Koruga, o gato preto, angorá, da minha tia Carmen, conhecia que ela estava se aproximando de casa, pela zoada do motor do carro. Por volta das cinco horas da tarde, o gato ficava pulando junto à janela, querendo subir para vê-la chegar do trabalho, no seu primeiro fusquinha. Abriam a janela para o gato subir, e ele ficava todo faceiro, com o olhar fixo na esquina da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, por onde o carro viria. Parecia estar querendo dar-lhe as “boas vindas”, depois do trabalho. Era uma cena linda.

Certo dia, minha tia cismou que o gato estava sendo maltratado por uma serviçal da casa, pois enquanto ele dormia numa poltrona da sala, a moça se aproximou e ele despertou. Nisso, o gato saiu correndo em disparada, como se estivesse apavorado.

Minha tia botou na cabeça que iria descobrir o porquê desse pavor. Não deu outra. Poucos dias depois, flagrou a moça enxotando Koruga da cozinha, às vassouradas.

Tia Carmen deu um show de “carões” na empregada, e dispensou-lhe do trabalho de cuidar do gato. Disse-lhe que não admitia que ninguém maltratasse seu gato, nem o enxotasse da cozinha debaixo de vassouradas. Não houve pedido de desculpas que a comovesse. A moça prometeu que não faria mais isso.

Não houve jeito dela voltar a confiar na moça. Sabia que a maldade humana não tem cura. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o gato voltaria a ser maltratado pela serviçal.

Koruga tinha bom gosto. Era louco por sardinhas enlatadas, e minha tia o acostumou a esse alimento, que estava presente em qualquer refeição que ele fizesse.

Era um bichano fino e muito bem tratado. Uma vez por outra, o veterinário o consultava em casa, receitando-lhe o que havia de melhor, para mantê-lo saudável, com saúde perfeita. E Koruga viveu muitos anos.

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O ALFAIATE

Nicanor ficou rico, costurando roupas masculinas. Alfaiate de mão cheia, aprendeu esse ofício, ainda rapaz, ajudando a um antigo alfaiate da cidade. Começou pregando botões, fazendo costuras de mão e alinhavos. Anos depois, de ajudante, passou a dono da alfaiataria. Nesse tempo, as máquinas de costura eram manuais ou de pedal. Com a sua arte, conseguiu juntar dinheiro e, vivendo com simplicidade, tornou-se um homem razoavelmente rico.

Já coroa, casou-se e constituiu família, com uma prole de quatro filhos. Mesmo cheio de dinheiro, Nicanor continuou com “um pé preso na senzala”, como diz o ditado popular. Sem estudo e convivendo com pessoas simples, mal assinava o nome e tinha um vocabulário muito pobre. Faltava-lhe o traquejo social e a cultura geral que a leitura proporciona. Faltava-lhe também o bom gosto na maneira de se vestir. Ao falar, perdia-se nas palavras, mas não se perdia nas ideias. Mesmo rico, Nicanor continuou sendo um homem simples.

Era tímido e sabia manter a distância entre ele e os seus clientes ricos.

Um dos seus clientes, padrinho do seu filho, convidou-o para se associar aos Clubes da cidade, a fim de se entrosar mais com as pessoas. e fazer novas amizades. Afinal, ele tinha dinheiro suficiente para frequentar a mesma roda social dos seus fregueses.

Aconselhou-o a arranjar um “personal stylist”,professor de etiquetas, para lhe ensinar a ser traquejado.

A primeira orientação desse “professor” foi de que ele providenciasse roupas de boas marcas, de cores berrantes e chamativas, para se vestir com mais elegância.

Sua esposa, Esmeralda, não aprovou nada disso, pois era muito simples e tímida. Mas, o marido não lhe deu ouvidos. Ele, então, foi na onda do compadre e se associou ao Clube Comercial e ao Lions Clube da cidade. Reuniões, festas, mensalidades e novas amizades. Nicanor passou a frequentar uma academia e se matriculou num curso de dança de salão. Seu sonho era aprender a valsar.

Contratou um professor de Português para lhe dar aulas, mas não houve jeito de Nicanor aprender nada mais do que já sabia. Continuou falando errado e lendo e escrevendo pouco e ruim. Leitura lhe dava sono. Jamais seria um autodidata.

Nicanor terminou desistindo de tudo, ao ver que estava gastando muito, e o custo-benefício não compensava. Preferiu continuar na sua vida simples de antes. Nada de novo no “front”. Leitura lhe dava sono. Vida social, academia e aula de dança, tudo isso custava dinheiro, o dinheiro do seu trabalho. Era mais barato, continuar fazendo suas caminhadas, junto com Esmeralda, sua esposa. Essa mudança de hábitos estava mexendo com o seu bolso. Afinal, tudo o que ele conquistou foi fruto de anos e anos de trabalho na sua alfaiataria. Nicanor nasceu pobre, mas não queria ver a sua família terminar a vida pobre. Desistiu de ser chique e voltou à sua vida normal, para felicidade geral da família e para o bem de suas finanças.

Nicanor lembrou-se de um dos conselhos de sua saudosa mãe:

“Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.

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COISAS DA VIDA

Tiana sofreu muito com a morte repentina de Patrocínio, seu marido durante dez anos. Os dois já casaram maduros, ela com 42 anos e ele com quase 60. Ele era aposentado da Rede Ferroviária Federal e o casal morava em João Pessoa (Pb). Tiana era natural de Nova-Cruz (RN), onde tinha familiares, e em datas festivas, ela e o marido estavam sempre lá. Viviam bem financeiramente e sempre em harmonia. Com a morte do marido, e sem filhos, Tiana ficou muito depressiva e sozinha.

Era alta e bonitona, com tendência a ser gorda. Depois de viúva, começou a engordar mesmo e tornou-se obesa. Tinha 1.70 m, e passou a pesar quase 100 quilos. Tornou-se o que se diz no interior, “um mulherão”.

Um ano depois, Arlinda, sua melhor amiga, residente em João Pessoa (Pb) e casada com um funcionário público estadual da Paraíba, também enviuvou. Suas duas filhas já eram casadas, e ela também se viu mergulhada na mesma solidão de Tiana.

As duas amigas, viúvas ainda “casáveis”, meses depois, começaram a sair juntas para a Igreja, depois para teatros, shoppings, restaurantes e cinemas. Logo resolveram fazer excursões ao Sul do Brasil. Gostaram tanto que se programaram para uma viagem ao exterior. Isso serviu para que as duas saíssem da rotina e se convencessem de que a vida continua. Ambas cumpriram suas respectivas missões de esposas dedicadas, e agora estavam prontas para usufruir a liberdade e a boa situação financeira de que dispunham. Aos poucos, foram recuperando a autoestima e tornaram-se vaidosas, na esperança de superar a fria solidão da viuvez. De repente, os olhos das duas voltaram a brilhar, apesar das boas lembranças e da saudade que sentiam dos falecidos maridos.

Arlinda era mais atirada, mais bonita e mais jovem do que Tiana. Por obra do destino, reencontrou um ex-namorado do seu tempo de juventude, agora divorciado, e os dois começaram a namorar.

Tiana era conservadora e se policiava muito. Jurava que jamais se casaria novamente. Apesar de muito simpática, não era atraente, e sua obesidade a prejudicava. Era ruim de dieta e por isso não conseguia perder peso.

Ao ver Arlinda se aprumar com um ex-namorado do tempo da sua juventude, Tiana sentiu inveja, apesar de não demonstrar. Compensava essa frustração, dizendo sempre que a coisa melhor do mundo era a liberdade. Nessas alturas, por brincadeira, dizia que se Patrocínio, seu falecido marido, quisesse voltar lá do Céu onde estava, ela seria a primeira a dizer:

-Homem, pela caridade, não invente de voltar não! Fique aí mesmo!!!

Sentindo-se em segundo plano, por ter praticamente perdido a companhia da amiga Arlinda, agora em um relacionamento sério, Tiana foi passar uns dias em Nova-Cruz. Quem sabe, se sua felicidade não estaria ali!!!

A ocupação de Tiana, em Nova-Cruz, era bater papo à tarde toda com duas ou três amigas, embaixo de um Ficus Benjamina, que há em frente à casa de sua irmã. O assunto era homem e tudo o que com ele se relacionasse. Ávida por arranjar um namorado com quem pudesse refazer sua vida conjugal, Tiana estava disposta a investir nessa ideia.

Pensando em solucionar sua carência afetiva, tinha na cabeça sua proposta amorosa já estabelecida e não escondia das amigas. Queria um homem até 60 anos, que soubesse ler e escrever, fosse sadio, com tudo funcionando nos conformes, para lhe fazer companhia e para ela amar e querer bem! Não fazia questão de dote. Não precisava trazer nem a mala. Podia vir somente com a roupa do corpo, que ela fazia questão de comprar tudo novo! Estava disposta a dar casa, carro, comida, plano de saúde e roupa lavada, e ainda uma boa mesada.

Foi nesse estado de ansiedade, que, em Nova-Cruz, Tiana foi apresentada a um viúvo de 68 anos, cuja mulher tinha morrido há poucos meses. As informações que lhe deram sobre ele foram as melhores possíveis. Aposentado do serviço público estadual, tinha duas filhas já casadas, que moravam na capital. Bebia “socialmente” e gostava “um pouquinho” de jogo de cartas. Tinha sido um bom marido.

O primeiro encontro de Tiana com Epaminondas foi uma decepção. Ele era baixinho, magrinho e usava óculos com lentes do tipo fundo de garrafa. O homem demonstrou ser galanteador e inconveniente, pois disse logo que tinha adorado o seu físico. Gostava de mulheres carnudas e corpulentas. As mulheres assim tinham mais personalidade e eram determinadas. Achava que mulher tinha que ter carne, pois quem gosta de osso é cachorro e arqueólogo.

Tiana ficou sem jeito e não gostou do modo debochado e grosseiro como o suposto futuro pretendente falou. Também não se sentiu, nem de longe, atraída por ele. Não houve entre os dois a falada química nem o brilho do olhar. Não simpatizou com o viúvo e preferiu descartá-lo.

Para completar, de outra fonte, havia chegado aos seus ouvidos a informação de que ele era um jogador contumaz e um alcoólatra inveterado. Dessa forma, Tiana escapou de fazer uma besteira. Por um triz, não caiu nas garras desse viciado em jogo e em bebida. Depois desse susto, pensou muito e decidiu encarar a solidão desoladora da viuvez, e não mais insistir em “procurar sarna para se coçar”. Lembrou-se das palavras bíblicas, que sua saudosa mãe gostava de repetir:

“Nem só de pão vive o homem.”

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DEDO EM GATILHO

Dona Gersina, viúva juramentada, não via o tempo passar, enquanto ela caminhava para a velhice, sem se dar conta da realidade.

Viúva há mais de quarenta anos, aquietou-se quanto ao assunto “2ªs núpcias”, depois de algumas decepções sofridas, com tentativas de golpes contra ela. Pensava que o tempo ia parar, mas não parou. Hoje, alquebrada e triste, olha para trás e vê quanto tempo perdeu na vida, para dar satisfação aos outros.

Adotou a premissa de sua santa Mãe, já no reino celestial há alguns anos, quando tentava conformá-la em permanecer viúva, dizendo-lhe sempre a frase fatídica e centenária “nem só de pão vive o homem.” Se bem que , brincando, digo eu: um pãozinho recém saído do forno, é bem-vindo, seja com manteiga, geleia ou queijo.

Quanto mais o tempo passa, mais mazelas aparecem em dona Gersina. Uma hora é artrose, outra é artrite, dor nas costas, nas pernas, o que misturando tudo resulta no conhecido reumatismo. Já teve que fazer cirurgia de vesícula, histerectomia, e até hipertensão e diabetes tipo 2 lhe apareceram. Tornou-se hipocondríaca e tem medo de doença.

Amante da boa música, dona Gersina tem em casa violão, teclado e sanfona, que toca amadoristicamente, desde mocinha.

Ultimamente, a mulher amanheceu o dia com a mão esquerda incomodando, como se tivesse sofrido um traumatismo. Notou o 2º quirodáctilo dobrado e dolorido. Mais que depressa, preparou-se para ir fazer uma consulta no Centro de Traumatismo de Natal, pois doença não se guarda. Em lá chegando com sua filha, pegou uma ficha preferencial e logo foi atendida.

Do tipo de mulher que só confia em médico “curioso“ e conversador, Dona Gersina não foi com a cara do doutor. Cara fechada e de pouca conversa, o médico de plantão limitou-se a examinar as duas mãos da paciente, sem lhe fazer qualquer pergunta sobre sua idade, nem sobre sua saúde de modo geral. Não perguntou nem se ela sofria de diabetes ou hipertensão, como sempre acontece. Limitou-se a lhe prescrever uma caixa de anti-inflamatório e requisitar uma ultrassonografia das mãos. Disse-lhe o médico que para mostrar o resultado da ultrassonografia, ela marcasse consulta com um ortopedista, especialista em Mãos.

Resumindo: Esta é uma amostra do atendimento da Saúde para quem possui plano. Imaginem para quem não tem.

O anti-inflamatório prescrito traz um alerta: Contraindicado para hipertensos. Por coincidência, Dona Gersina é portadora de hipertensão há anos. Lógico que não vai misturar esse anti-inflamatório com os remédios que toma para diabetes e hipertensão. A consulta foi perdida.

Insatisfeita com o atendimento inconsistente, superficial e relâmpago, na saída, Dona Gersina perguntou ao médico, que já havia aberto a porta para ela sair, se aquele incômodo no seu dedo tinha nome. De cara fechada e ríspido, segurando a porta, o homem de branco respondeu:

-Ora, a senhora já está perto de 80 anos!!! Só disse isso, “e bênção”. Bonitão, quarentão, ruivo e mal educado; sobrenome italiano, e só.

Dona Gersina saiu decepcionada. Consultou-se numa Farmácia, e está dando certo.

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AS NOVEMBRADAS

Este texto nada tem a ver com “A NOVEMBRADA”, manifestação popular ocorrida em Florianópolis em 30 de novembro de 1979, durante a visita do presidente João Figueiredo.

Pois bem. Esta é uma história extraída da vida real.

Marieta tinha trauma do mês de novembro, pois quando tinha quatro anos, no interior onde morava, viu um irmão seu, aos sete meses, morrer, em novembro, por falta de assistência médica. Poderia ter acontecido em qualquer mês, mas aconteceu no mês de novembro. Também viu outros parentes morrerem no mês de novembro. Para completar a sua cisma, viu também seu marido morrer, subitamente, no mês de novembro. Por uma consequência natural, Marieta não gostava do mês de novembro.

Certo dia, Marieta conversava em família sobre coisas da vida, quando, de repente, foi interrompida por Joel, seu noivo, que entrara “pé ante pé”, como costumava fazer, quando queria ouvir as suas conversas. Ele não suportava que a noiva, viúva há alguns anos, relembrasse o passado, e falasse sobre entes queridos que já haviam partido. Sua voz forte ecoou na sala:

-“Está aí você, mais uma vez, com suas novembradas…”

Era exatamente o mês de novembro, quando fazia seis anos do falecimento do marido de Marieta, Antonino.

Essa explosão de brutalidade fez ruir por terra o respeito e a confiança que Marieta nutria por Joel. Ele, mais de uma vez, já havia demonstrado ser grosseiro e dominador. O fato de ser bem empregado e ganhar bem nada representava, diante da sua grosseria e falta de educação doméstica. Marieta já discutira com ele sobre isso, mas, dessa vez, ele ultrapassou todos os limites. Não respeitou a presença dos familiares da noiva e a tratou grosseiramente, deixando-a envergonhada.

Marieta caiu na realidade e viu que o seu casamento com Joel seria um desastre, pela incompatibilidade de gênios e pela clara diferença da educação doméstica que os dois haviam recebido.

Afinal, ela estava conversando normalmente com familiares, e falava do passado, sem perceber que ele havia entrado sutilmente.

Na realidade, Marieta jamais deixaria de relembrar pessoas queridas, que já haviam partido, deixando muita saudade. Dessa vez, ela não perdoou Joel e pôs um ponto final no noivado, não aceitando mais as suas desculpas esfarrapadas de que agia assim por amor e ciúme.

Os familiares que estavam presentes ficaram chocados com a brutalidade do noivo da prima, mas se mantiveram calados. Nesse dia, surgiu da parte de Marieta uma grande decepção, ao perceber que Joel era desprovido de bons sentimentos. Naquele mesmo dia, terminou o noivado, não aceitando mais as costumeiras desculpas, quando Joel jurava que iria se controlar e deixar de ser ciumento.

Há pessoas egoístas e intolerantes, que contestam qualquer conversa com a qual não concordem. Não sabem ouvir ninguém e querem ser donas da verdade. Não suportam ouvir qualquer lamentação e relembranças sobre pessoas queridas que já partiram e deixaram saudade.

Quem se irrita ao ver alguém lamentar o vazio e a saudade deixados por um ente querido, não merece compaixão quando cai no sofrimento. São pessoas “feitas de ferro”, frias e indiferentes ao próximo, capazes de viverem apenas momentos “felizes” descartáveis, que jogam no primeiro lixo que encontram à sua frente. O sofrimento alheio causa a essas pessoas frias e insensíveis apenas irritação. Solidariedade humana, para elas não existe.

O egoísmo desse tipo de pessoas é tão intenso, que ao ouvirem um filho pequeno chorar, elas tentam abafar o pranto, tapando-lhe a boca com a mão. Essas pessoas são torturadoras e não tem noção de compaixão ou solidariedade humana.

Joel, o noivo que Marieta arranjou, anos depois de viúva, era muito ciumento e não suportava quando ela puxava esse assunto. Não admitia que ela falasse de saudade nem dos mortos. Apelidou as conversas de Marieta sobre fatos tristes e antigos, ocorridos no mês de novembro, de “novembradas”. Cortava qualquer conversa sua relacionada com essas ocorrências e quando ela insistia no assunto, ele dizia:

– LÁ VEM VOCÊ COM AS SUAS NOVEMBRADAS.

Certo dia, farta da estupidez de Joel, Marieta protestou:

– Eu não suporto mais a sua ignorância e falta de sensibilidade!!! E ponto final.

E o relacionamento terminou aí.

As más escolhas são responsáveis pelo sucesso ou fracasso de um relacionamento.

Diz o ditado popular que azeite não se mistura com água.

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A NOITE DE NATAL

A Noite de Natal é sagrada para todos os lares. Noite de encanto e mistério para as crianças e de terno e carinhoso desvelo para os pais.

Antigamente, os presentes para as crianças eram simples, limitando-se a bonecas para as meninas e carrinhos e jogos para os meninos.

Atualmente, os presentes são caríssimos, com vantagem disparada para os celulares e brinquedos eletrônicos.

Mergulhando no passado, encontramos a inocência das crianças, que sonhavam com presentes simples e de fácil aquisição por parte dos pais.

Antigamente, no profundo silêncio da noite, quando tudo repousava na calma e bem-estar do sono, nas belas cabecinhas infantis surgia, na véspera de Natal, a resplandecente imagem do Menino Jesus, que lhes sorria e lhes apontava os mais lindos e engraçados brinquedos. Eram bonitas bonecas, empertigados soldados, esquisitos palhaços, airosos cavalos com abundantes crinas; ruidosos tambores e estridentes cornetas. Tudo isso agradava às crianças, como também esplêndidos doces, caixas de confeitos e chocolates, latas de biscoitos e um mundo de desejadas guloseimas que fizeram a ventura dos nossos primeiros anos.

Os meninos colocavam embaixo das camas seus chinelos ou sapatos, pensando na grande surpresa da manhã seguinte. Os presentes sempre agradavam, pois eram dados por “Papai Noel”.

Reinava a inocência das crianças e o sono chegava logo cedo.

Diz uma antiga lenda:

“Tinha eu oito anos”, disse certo escritor, “e lembro-me que, na manhã do dia de Natal, depois de ter saltado apressadamente da cama para ver o que o Menino Jesus tinha posto no meu sapato, fui encontrar duas grossas moedas de dez tostões. O meu desapontamento foi terrível. Por que o Menino Jesus, que distribui por todas as chaminés tão bonitas lembranças, me daria um presente tão repugnante?

Instintivamente, me veio a ideia de que o meu pai , no intuito de desvanecer a minha fé em tal lenda, tivesse metido no meu sapato aquele repugnante dinheiro. Ele deve ter se sentido feliz, pois conseguiu realizar os seus desejos, já que da minha mente, a partir de então, desapareceu a visão do Menino Jesus tão nosso amigo, e, pela primeira vez, entrou na minha alma o veneno da dúvida.”

Essa lenda, na sua cândida invenção, encerra um drama familiar, onde havia um tesouro de afetos em jogo, brotados dos corações dos pais. Quantos sonhos destruídos na cabeça de uma criança que acreditava em Papai Noel!

No Natal, em alguns países, os meninos costumam arrumar presépios, que é o lugar onde nasceu Jesus, colocando-os numa paisagem que representa o país de Bethleem, por cujos caminhos surgem os Reis Magos, com incenso, ouro e mirra, em homenagem ao Deus Menino; pastores tocando flauta e uma multidão de homens e animais que bebem num pequenino lago, cavalos, cães e galinhas, figuras que dão vida à paisagem. O chão coberto de musgo verde aparece rodeado de montanhas nevadas (de farinha).

Este é um costume que vem da Idade Média, e que se tornou costume popular por São Francisco de Assis.

Em muitos países, há o hábito de se arrumar a árvore de Natal. Há sítios em que todas as famílias, sejam ricas ou pobres, arranjam o seu ramo de pinheiro e o enfeitam de brinquedos e luzes.

Escritores e poetas contam histórias interessantes sobre a origem desse costume. Falam -nos das belas coisas que aparecem na gelada e dura terra na noite de Natal, da Rosa de Jericó que se abriu debaixo dos pés da Virgem Maria, das árvores que se vestiram de linda folhagem e deliciosos frutos.

A comemoração do Natal é essencialmente familiar.

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PAIXÃO POR CAVALOS

O presidente brasileiro conhecido por sua paixão por cavalos foi João Figueiredo. Ele governou o Brasil de 1979 a 1985 e era famoso por sua frase: “Prefiro o cheiro de cavalo ao cheiro do povo”. Figueiredo era um grande entusiasta de cavalos e frequentemente participava de eventos equestres.

Num passado remoto, o único ser de quem Frederico, o Grande da Prússia gostava apaixonadamente era o seu cavalo, o mais formoso corcel que se possa imaginar, cavalo digno de um rei e tão inteligente que abrandou e conquistou o coração do monarca.

Um dia, em que o monarca estava muito aborrecido e atarefado, como sempre acontecia, o que não era raro, soube que o seu cavalo favorito estava doente.

Num acesso de fúria, sentindo a sua própria insignificância, por não poder salvar a vida do seu cavalo, apesar de ser um grande monarca, fez apregoar que aquele que lhe desse a notícia da morte do seu cavalo predileto seria enforcado.

Passaram-se alguns dias e o estado do nobre animal era sempre o mesmo, mas, numa manhã, quando os pajens faziam uma visita às cavalariças, encontraram o moço da estrebaria que lhes disse que o cavalo tinha morrido.

Quem se atreveria a dar a notícia ao rei? Quem ia correr o risco de ser enforcado?

Ali ficaram, conversando e discutindo vários planos até que chegou a hora de redigir o boletim para ser entregue à Sua Majestade. Naquele momento um dos escudeiros disse ao moço de estrebaria que não tivesse medo que ele próprio se ia apresentar ao rei.

“Olá!” disse o rei Frederico. Como está o cavalo?

“Senhor”, respondeu o escudeiro, “o cavalo continua no seu lugar. Está deitado e não se mexe. Não tem forças e não come. Também não bebe, não dorme, nem respira, nem…

“Então, exclamou impacientemente o rei, meu cavalo predileto morreu!!!…”

“Vossa Majestade disse a verdade”, respondeu tranquilamente o escudeiro.

A fala do Rei fez os empregados respirarem aliviados.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A VOLÚPIA DA DESTRUIÇÃO

Nunca pensei que neste mundo, criado por Deus, houvesse tanto ódio enrustido, tanta falsidade e tanto fingimento. O ser humano se contaminou de ódio e da volúpia da destruição. Uma força satânica tenta destruir a humanidade.

A religião não consegue frear a maldade que o ser humano esconde na alma. Pessoas que só transparecem bondade, de repente expelem ódio e vomitam terríveis infâmias sobre seres humanos quase mortos, sem compaixão e desprovidas do sentimento de caridade.

Conheci pessoas que não exibiam religião, mas guardavam dentro de si o sentimento da caridade, e praticavam o bem, sendo incapazes de levantar uma infâmia contra alguém.

DR. LUIZ ANTÔNIO SOUTO DOS SANTOS LIMA, médico, tio da minha saudosa mãe, Lia Lima Pimentel Bezerra Souto, se dizia ateu, e foi um dos homens mais caridosos que Natal conheceu. No tempo em que só existia paciente particular ou indigente, esse santo ateu separava um dia da semana, no seu Consultório na Rua Gonçalves Leite, Cidade alta, para atender, exclusivamente, pessoas indigentes, paupérrimas, vindas de Nova-Cruz (RN), encaminhadas pela minha mãe. Dr. Luiz Antônio acompanhava o tratamento dos doentes e fornecia todos os remédios e tratamento, até a cura completa, quando era possível. Foi ele quem doou o primeiro aparelho de radioterapia ao Hospital do Câncer em Natal. Era irmão da poetisa Anna Lima, minha avó materna.

Não é o fato de se dizer religioso que influi na bondade humana. Há muitos “jazigos caiados” que se confundem na multidão.

Há muita gente que estufa o peito e se diz humano e caridoso, enquanto é capaz de vomitar infâmias sobre um moribundo que se encontra em leito de morte.

Pelo que tenho visto e ouvido, Cristo continua sendo crucificado todos os dias. Parece que o espírito do mal atua entre os políticos, que adoram o dinheiro.

Nunca pensei que Cristo continuasse diariamente morrendo na cruz, ofendido e humilhado, sendo crucificado todos os dias, e constantemente condenado à morte. Não imaginava que a humanidade fosse tão sádica, tão má e tão perversa.

O sentimento da caridade nos era pregado pela minha querida mãe, todos os dias. Antes de tudo, dizia ela, devemos ter caridade para com os nossos semelhantes. Infelizmente, nos dias atuais, esse sentimento desapareceu. É difícil, nos dias atuais, se encontrar pessoas caridosas e solidárias. A vaidade impera, a loucura pelo dinheiro é imensa, e o flagelo dos desvalidos não é visto pelos pobres de espírito.

A humanidade tornou-se indiferente ao sofrimento humano. Torce sempre pela Paixão de Cristo e não quer ver ninguém bem. Quando mais rico o homem, mais indiferente ao seu semelhante.

A humanidade torce sempre pela paixão de Cristo, e os maus se deliciam sempre com as dores dos outros.

Os abutres negros e emplumados disputam suas presas, com a ânsia louca de vê-las destruídas.

A volúpia da destruição é inerente a eles.