VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

OLHA PRO CÉU

De acordo com os historiadores, as festas juninas (Santo Antônio (13/6), São João (24/6) e São Pedro (29/6) tiveram origem no culto aos deuses pagãos, mas depois sofreram influências do catolicismo.

Celebradas no Brasil desde o século XVII, as Festas Juninas ou Joaninas constituem a segunda maior comemoração realizada pelos brasileiros, perdendo apenas para o Carnaval.

Com a chegada dos portugueses ao Brasil, as festas que já existiam na Europa também aqui desembarcaram. Aos poucos, houve uma fusão dos costumes trazidos pelos portugueses com as tradições sertanejas e elementos próprios do interior do nosso País.

Comidas típicas, danças e enfeites, utilizados nas festas juninas, são hoje uma junção de partes da cultura africana, europeia e indígena.

O mês de junho representa a “safra” dos sanfoneiros e dos trios de forró “pé-de-serra” (sanfona, triângulo e zabumba).

Não existe forró eletrizado que supere o forró “pé- de- serra”. Principalmente, para as festas juninas.

Barulho é uma coisa e a boa música é outra.

Sem estourar os ouvidos de ninguém, como, geralmente, faz o forró eletrizado, o forró “pé de serra” faz o povo delirar, principalmente, com o lirismo das músicas do saudoso compositor e cantor brasileiro Luiz Gonzaga do Nascimento (13.12.1912 – 02.08.1989), imortalizado como o Rei do Baião.

Tocando e cantando o verdadeiro forró, com letras cheias de lirismo e encanto, como na música “Olha pro Céu”, o grande compositor Luiz Gonzaga continua vivo, eternizado pelas suas belas músicas, algumas feitas em parceria com Zé Dantas, Humberto Teixeira, João Silva e outros grandes compositores.

As músicas de Luiz Gonzaga são insuperáveis. O lirismo das suas marchinhas e quadrilhas juninas é marcante e encantador.

As quadrilhas tradicionais, com seus trajes matutos, e ao som de músicas próprias para as festas juninas, eram um delírio.

As atuais quadrilhas estilizadas são um fracasso. Irritantes, e com trajes “chocados” de uma só vez. Os trajes são todos iguais, e mais parecem escola de samba.

“Olha Pro Céu” (Luiz Gonzaga – José Fernandes) é um poema lindíssimo e por isso se perpetuou através do tempo.

Assim são as músicas de Luiz Gonzaga, como: Polca Fogueteira, Lascando o Cano, Pagode Russo, Fogueiras de São João, São João na Roça, Fogo sem Fuzil, Quero Chá, Matuto de Opinião, Assum Preto, Asa Branca, Vem Morena, Choromingô, e outras.

Na etimologia popular, a origem da palavra “forró” está associada à expressão da língua inglesa “for all” (para todos). Para essa versão, conta-se que no início do século XX, os engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco, para construir a ferrovia Great Western, sempre promoviam bailes abertos ao público, ou seja “para todos”. O termo passou a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos.

Outra versão da mesma história substitui os ingleses pelos americanos fixados em Natal, no período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar foi instalada em Parnamirim (RN). As festas na base aérea eram constantes e os americanos disponibilizavam ônibus para levar as moças da sociedade natalense para os bailes que promoviam. Daí surgiram namoros e muitos casamentos de jovens potiguares com soldados americanos.

Atualmente, o forró é a dança mais popular do Nordeste brasileiro e a que provoca maior animação entre as pessoas jovens. As tradicionais festas juninas só são autênticas, quando abrilhantadas por conjunto de forró pé-de´serra, com sanfona, triângulo e zabumba.

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O VIRA-LATA

O cachorro de rua, chamado “vira-lata”, é o mais fiel que existe, quando arranja um dono que se propõe a tratá-lo com dedicação e carinho. Durante décadas, esse tipo de cachorro sem raça, nascido e criado na rua, foi alvo de preconceito.
O dramaturgo Nelson Rodrigues, de saudosa memória, popularizou a expressão “complexo de vira-lata”, numa demonstração gritante de discriminação.

Dona Lia, minha saudosa Mãe, dizia que o cachorro de olhar mais terno que existe é o vira-lata. E é também o mais amigo do dono.

Convém salientar que as ruas nivelam as pessoas. Elas acolhem o bem e o mal, o Céu e o Inferno. As ruas desconhecem a erudição. Aceitam palavras de baixo calão e chulas, que terminam inseridas nos dicionários.

O vira-lata é um cão de rua, sem coleira e sem patrão. Dorme na sarjeta e quando escuta corneta, corre atrás do batalhão ou da banda.

O Escritor Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 – 1923) conta no seu poema intitulado “O Fiel”, a emocionante história de um cachorro que vivia e sobrevivia nas ruas.

Para sobreviver, garimpava sobejos nas lixeiras dos bares e restaurantes. Era acostumado ao vento e ao frio. Durante as chuvas fortes, abrigava-se nos portais e vestíbulos, mas era sempre enxotado a pedradas e pontapés. Mesmo assim, ele era incapaz de morder alguém. Olhava para as pessoas como quem pedia desculpas por existir.

Certo dia, um pintor boêmio e solitário deparou-se com esse cachorro de rua, de olhar triste, e se identificou com ele. Levou-o para casa e se propôs a cuidar dele, em troca da companhia. Passou a chamá-lo de Fiel.

E falou para si mesmo: Eu sou igual a este cachorro. Sem família e sem amigos. Agora vou ser amigo dele e ele vai ser meu amigo.

Depois de alguns anos passados juntos, dividindo por igual privações e dores, o pintor, por obra do destino, foi contemplado com a glória, que o libertou da miséria. Livres dos aperreios financeiros, ele e Fiel passaram a desfrutar de uma vida tranquila e alimentação farta.

O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo.

Mas o pintor, inebriado com a riqueza, enveredou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava a presença.

A indiferença do pintor entristecia cada vez mais o olhar do cachorro. Os animais sentem quando são rejeitados. E os olhos tristes do animal denotavam que ele entendia perfeitamente o desprezo que o seu dono passara a sentir por ele. Velho e desprezado, o cachorro muitas vezes chegou a ser castigado pelos criados, sem ter feito nada de certo ou errado. Levava pontapés, e foi preterido de acompanhar o dono nos seus passeios pelas ruas. Os pelos começaram a cair e tornou-se rabugento, por falta de trato..

Certo dia, chegando em casa embriagado, tarde da noite, e encontrando o cachorro dormindo no seu quarto, o pintor se voltou contra ele, irado:

– Que fazes aqui, animal lazarento? Hei de pôr fim à tua teimosia agora mesmo!!!

Mas, fingindo calma, continuou:

– Ó meu querido amigo fiel, de tantos anos, tão velho e doente, vamos passear!

E na escuridão da noite, seguiram os dois em direção ao cais. O comportamento do pintor assustou o cachorro, que se recusou a andar, mas foi forçado pelo dono. O cachorro pressentia que alguma coisa funesta o esperava. Repetia-se, no fiel animal, a cena do beijo de Judas em Jesus Nazareno.

Bruscamente, o pintor arremessou o cão às águas profundas e geladas, mas junto se foi o gorro de memoráveis lembranças, do qual ele tanto se orgulhava.

De volta à casa, o pintor exclamava indignado:

“Por causa desse cão lazarento, perdi o meu gorro de estimação, que me trazia tão boas recordações! Eu devia tê-lo envenenado!!!, Pagarei uma grande recompensa a quem conseguir encontrar meu gorro!!!

Deitou-se, mas, não conseguiu dormir, contrariado por ter perdido o gorro. Ao amanhecer o dia, sentiu bater a porta; ergueu-se e foi abrir. Recuou, cheio de espanto e horror. Era o amigo fiel, a quem ele traíra miseravelmente.. Era o cão que voltava arquejante, encharcado, a tremer e a uivar no último estertor. E o cão tombou fulminante, deixando cair da boca o gorro do diabólico pintor.

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NOITE SEM ESTRELAS

Num passado remoto, chegava ao Estado de São Paulo, de navio, um amontoado de retirantes nordestinos, flagelados pela seca, com destino à lavoura do Café.

Entre eles, havia um sexagenário cego, Genaro, que não conseguia ver nem ser visto, por ser do tipo de gente que a gente não vê, “porque é quase nada”. Sua dolorosa e indesejável deficiência visual o tornava um “eu sozinho”. As pessoas pobres de espírito se afastavam dele, como se a cegueira pegasse.

A bem da verdade, a deficiência visual do cego o tornava totalmente incapaz para o trabalho na lavoura. Por isso, sua inclusão entre os retirantes era inadmissível.

De um modo geral, os retirantes não gozavam de tratamento digno por parte dos funcionários em serviço. Eram vistos por eles como carga indesejável e mal cheirosa, que lotava o navio.

Não eram considerados passageiros, mas apenas fardos de couro fresco, com carne magra por dentro, provocada pela fome, e pela triste carga do trabalho sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, irmão da “bucha do canhão”.

Ao ser notada a sua deficiência visual, o cego Genaro foi interpelado pelo funcionário responsável pelo setor de imigração e explicou sua presença entre os retirantes como um grande equívoco de despacho. Seu destino seria o “Asilo dos Inválidos da Pátria”, no Rio, mas pregaram nas suas costas a papeleta do “Para a agricultura”, e ele foi “jogado” entre os retirantes destinados ao trabalho na lavoura do café. Como não tinha olhos para se guiar nem olhos alheios que o guiassem, estava vivendo o triste destino dos desvalidos e invisíveis.

– Por que para o Asilo dos Inválidos da Pátria, no Rio? Perguntou-lhe o funcionário. É voluntário da Pátria?

– Sim, respondeu o cego. Fiz cinco anos de campanha no Paraguai e lá apanhei a doença que me pôs a noite nos olhos. Depois que ceguei, caí no desamparo. Um cego não serve para nada.

E a amargura extrapolou do peito do cego, numa chuva de lágrimas.

E reclamou suspirando, falando consigo mesmo e revirando os olhos esbranquiçados:

– Se o meu capitão soubesse da minha situação, viria ao meu socorro…Eu o perdi de vista, mas não o perdi da memória. Não tenho a menor chance de me comunicar com ele. Se o encontrasse, tenho certeza de que até meus olhos voltariam a enxergar…

– Não tem família?- perguntou o funcionário.

– Tenho uma menina, que não conheço.. Quando ela veio ao mundo, nos meus olhos já havia trevas. Daria o que me resta de vida para vê-la, ao menos um instante.

E o cego continuou mergulhado na tristeza infinita da sua noite sem estrelas.

A conversa impressionou o funcionário, que a levou ao conhecimento do Major, Diretor da Imigração.

Ao tomar conhecimento de que o cego Genaro participara da campanha do Paraguai, como soldado de 70, o Diretor interessou-se pelo caso e foi pessoalmente procurá-lo.

– Então, meu velho, é verdade que participaste da campanha do Paraguai?

O cego ergueu a cabeça, tocado pela voz amável.

– Verdade, sim, meu patrão . Vim no 13 e logo depois de chegar ao Império do Lopez (Francisco Solano Lopez) entrei em fogo. Tivemos má sorte. Na batalha de Tuiuti, nosso batalhão foi dizimado como um milharal em tempo de chuva de pedra. Salvamo-nos eu e uma porção de camaradas. Fomos, então, incorporados ao 33 paulista, a fim de preencher os claros, e nele fiz o resto da campanha.

O Major, Diretor da Imigração, também era veterano da guerra do Paraguai, e por coincidência servira no 33. Por isso, interessou-se, pela história do cego, passando a interrogá-lo com veemência:

– Quem era o teu capitão?

– Um homem que, se eu o encontrasse, minha vida tomaria outro rumo e ele faria tudo para que eu recuperasse a visão… Um verdadeiro santo… .

– Como se chamava?

– Capitão Bocaiuva de Sales.

O major, ao ouvir esse nome, sentiu suas carnes trêmulas e um arrepio imenso. Respirou fundo e continuou:

– Conheci seu capitão. Foi meu companheiro de Regimento. Era um homem péssimo e grosseiro para com os soldados.

O cego, até ali vergado em atitude humilde de mendigo, ergueu o busto corajosamente e, com a voz trêmula de indignação, protestou:

– Pare aí! Não blasfeme! Não ofenda um homem santo como o meu capitão. Ele era um pai para os soldados! Perto de mim, ninguém o injuria!!! Convivi com ele durante anos, como sua ordenança e nunca o vi praticar o menor ato de maldade contra ninguém!

O tom firme do cego comoveu o Major. e ele percebeu que nem a miséria conseguira apagar do peito do velho soldado as fibras heroicas da lealdade.

O major se conteve por um momento, mas logo prosseguiu na provocação, para ver até onde iria a lealdade do cego ao seu idolatrado capitão:

– Capitão Bocaiuva de Sales era um covarde!!!…

Num assomo de ira e indignação, as feições do cego Genaro se transformaram. Seus olhos anuviados pela catarata revolveram-se nas órbitas, num terrível esforço para ver a cara do infame detrator. Sua vontade era atacá-lo, como fazem as feras. Mas, por não ser ninguém, procurou se conter.

Pela primeira vez na vida, Genaro sentiu a infinita fragilidade dos cegos. E caiu em si, com a alma esmagada. Sua cólera transformou-se em dor e a dor fez correr dos seus olhos um rio de lágrimas. E chorando, murmurou com a voz embargada:

– Não se insulta assim um cego…

Mal pronunciara estas palavras, sentiu-se apertado nos braços do major, também em lágrimas, que dizia:

– Abraça, amigo, o teu velho capitão! Sou eu o antigo Bocaiuva!

Confuso e desorientado diante do rumo tomado pela conversa, e receoso de uma insídia, o cego vacilou, sem acreditar no que estava ouvindo.

– Dúvidas?!!! – exclamou o Major – Dúvidas de quem te salvou a nado na passagem de Tebiquari?

Ao ouvir aquelas palavras mágicas, os receios do cego Genaro se dissiparam como fumaça. Livre de dúvidas e chorando como uma criança, abraçou-se aos joelhos do Major Bocaiuva de Sales, exclamando, como se estivesse sonhando:

– Achei meu capitão! Achei meu Pai! Minhas desgraças se acabaram!!!…

E realmente, a roda viva do cotidiano carregou a tristeza do cego Genaro pra lá, Sua vida mudou da água para o vinho.

Internado num Hospital às expensas do Major Bocaiuva, seu antigo Capitão, foi submetido à cirurgia de catarata e recuperou 100% a capacidade visual.

Foi à janela e sorriu para a luz que inundava a natureza. Sorriu para as árvores, o céu, os pássaros e as flores!

Sentia-se ressuscitado, pois, antes, estava morto em vida.

Não cansava de repetir:

– Eu não dizia, que se reencontrasse o meu capitão, até a luz dos meus olhos eu teria de volta? Foi Deus quem me reaproximou do capitão!!!

E Genaro, recuperado da cegueira, voltou para o Ceará, nadando de felicidade e repetindo frases do cearense José de Alencar, um dos maiores escritores brasileiros ((1829-1877):

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.”

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OS FANTOCHES

O inferno fica no centro da Terra. Esta era a opinião dos antigos sábios, que nós não somos obrigados a aceitar. Como prova disso, eles citavam a existência de vulcões, como o Vesúvio e o Etna, que desempenhavam o papel de chaminés da cozinha de “monsieur” Satanás.

Há quem diga que o inferno ocupa, na realidade, a mais bela estrela do firmamento, chamada Vênus e que brilha com um esplendor vivo e puro. Diziam que era dali que Satanás reinava e governava. E dali ele descia à Terra para desempenhar as suas funções de tentador e perturbador da ordem pública.

O diabo é casado com uma poderosa dama, de nome Dinorá.

O mármore, o verso e a tela tem sempre reproduzido uma terrível imagem do “anjo do mal”, como uma espécie de “titan” de rosto tristonho e fatal, com enormes asas de morcego, armadas de agudas garras.

A fisionomia de Satanás apresenta uma expressão mais zombeteira do que sinistra.

Que idade tem “monsieur Satanás?

Esta questão não tem resposta e não pode ser resolvida matematicamente.

O anjo do mal é anterior à criação do mundo.

Quando Adão e Eva se instalaram na terra, já Satanás tinha atingido a idade viril, e a prova que deu foi comprometer a primeira mulher. Já devia ter mil e tantos anos.

Satanás é alto, elegante, orgulhoso, e a magreza lhe realça a distinção.

Seus olhos grandes, negros e espertos lançam olhares ameaçadores às pessoas que o rodeiam e que ele tem como súditos. A boca bonita, apesar de sardônica, mostra num sorriso habitualmente zombeteiro, dentes muito brancos e grandes.

As mãos do demônio não apresentam o menor vestígio de garras. Mas, quando estas mãos agarram uma pessoa, é muito difícil soltar, para não dizer impossível.

Os pés de Satanás são compridos e de peito alto, nada fedidos, e sempre calçados com irrepreensível elegância. Sua Majestade infernal é o primeiro a andar na moda e é quem dá o tom aos elegantes do seu reino.

Isso é fácil, pois o inferno está povoado de alfaiates e sapateiros, – e também de costureiras e modistas.

O diabo usa sempre joias do melhor gosto. Adora estas frioleiras brilhantes e preciosas, talvez por causa do charme que exerce sobre as almas femininas e até masculinas.

Madame Diabo, a formosa diabinha Dinorá, que, segundo alguns descrentes, habita o palácio real do planeta Vênus, tem como secretário o fiel Flor de Enxofre, o mais bonito, o mais espirituoso e talvez o mais pervertido de todos os diabinhos do inferno. Madame Diabo o protegia e sentia por ele uma ternura quase maternal.

Todas as vezes que Madame Diabo tinha seus frequentes acessos de ciúme de Satanás, Flor de Enxofre era encarregado da perigosa e delicada missão de vigiar e seguir os passos do seu marido.

Por mais de uma vez, surpreendido em flagrante delito de espionagem pelo terrível monarca, Flor de Enxofre sofreu severas correções, sem se queixar. Tinha loucura por Madame Diabo.

Certo dia, Madame Diabo puxou o marido pela mão e o conduziu até uma mesa redonda, repleta de figurinhas de madeira, confeccionadas por um artesão com prodigiosa arte. Os bonecos de pau representavam homens e mulheres de todas as idades, vestidos de trajes de todas as profissões e de todos os países do mundo.

O criador deste grande número de bonecos dera prova de ser possuidor de um grande talento. Não eram enormes figurinhas grosseiramente talhadas num pedaço de pau, iluminadas de cores vivas e cruas, mas verdadeiros personagens em miniatura, exprimindo no rosto um sentimento ou uma paixão, e cujos olhos pareciam vivos.

– Olha! – Exclamou o diabo – São fantoches!

– Com toda a certeza – respondeu Madame Diabo. – São fantoches.

– E o que quer fazer com isto, querida esposa? – Perguntou o diabo, ao que a mulher respondeu:

– Sei que você gosta de teatro. Quero lhe dar espetáculos cômicos, para que se alegre sempre. Estes fantoches são os meus atores.

Disse o “monsieur” diabo:

– Mas, minha formosa rainha, os seus espetáculos se parecem com esses divertimentos de feira, em que irreverentemente me põem em cena, com o polichinelo e o comissário!

– Que quer, meu amigo?!!! Não posso dar-lhe a comédia italiana, mas faço o que posso para remediar essa falta.

Satanás olhou para Madame Diabo, a fim de ver se estas palavras não ocultavam alguma traição, mas o rosto risonho da bela esposa exprimia a mais perfeita serenidade.

O diabo retrucou:

– Onde se esconde o seu teatro?

Madame Diabo pediu-lhe que aguardasse e logo iria conhecê-lo. Pediu-lhe também que escolhesse, entre os “atores” daquela companhia, certo número de personagens.

Satanás era um gentil galanteador. Submetia-se aos caprichos da rainha, por mais absurdos que lhe parecessem. Por isso, tirou de cima da mesa muitos comediantes pequeninos, de madeira.

Dinorá meteu-os numa enorme bandeja forrada de cetim.

Na bandeja, foram instalados sucessivamente os seguintes fantoches:

1 – Um janota arrumadinho e pretensioso, totalmente calvo;

2 – o Demônio Ouro, representado pela figura de um sujeito, cujo rosto consistia numa moeda de ouro reluzente e enorme;

3 – um cavalheiro de rosto sombrio;

4 – um sujeito magro, empregado numa agência bancária;

5 – um ancião de bela presença e de cabelos brancos;

6 – um grande número de mulheres muito formosas, de cabelos de todas as cores;

7 – um grande número de homens, pertencentes à alta categoria do janotismo;

8 – o Diabo Amor, conhecido pelas asas, pela aljava e que era carregado nas costas, pendente do ombro e pelas setas tradicionais.

Satanás parou e perguntou a Madame Diabo se o número de fantoches já seria o bastante e ela respondeu que escolhesse mais alguns.

Então, Satanás, tomou, sem os contar, punhados de fantoches e deitou-os na bandeja.

Em seguida, Madame Diabo lhe deu o braço e os dois subiram por uma escada em espiral interminável, que ia dar na grande torre do Palácio. Atrás deles, seguiam o mágico da Corte e o artesão que confeccionara os fantoches. Subiram até o último batente e atingiram a plataforma de uma torre alta como os cumes das mais altas montanhas.

Do cume dessa construção gigantesca, dominava-se o mundo inteiro, e o globo terrestre desenhava-se no espaço, como a lua se desenha para nós no firmamento azul.

– Safa! Exclamou o diabo, ao chegar ao último degrau.

Disse Madame Diabo:

– Agora, você vai ver se os meus pequeninos atores sabem desempenhar, ou não, os seus papeis.

Satanás repetiu a pergunta que já formulara antes de subir à plataforma.

– Onde está, então, o seu teatro?

Madame Diabo estendeu a mão para a Terra e disse:

– Ei-lo…

E ao mesmo tempo, pegou um dos fantoches e o atirou através do espaço. A figurinha, em vez de cair como lhe prescreviam as leis físicas, a uma pequena distância da base da torre, voou pelo espaço e desapareceu no fim de alguns segundos.

Todos os demais fantoches tiveram a mesma sorte. Satanás assistia a esta singular experiência e não compreendia nada.

Quando já não havia figurinhas na bandeja, Satanás exclamou:

– Por onde estão os seus atores dispersos?!!! Onde estão, e como você os tornará a encontrar?

– Eles irão entrar em cena imediatamente. Olhe as cenas acontecendo!!! -Respondeu a rainha.

Ao mesmo tempo, Madame Diabo entregou ao marido um dos óculos do mágico. Satanás aproximou-o do olho direito, aprumou-o para os lados da Terra e soltou um grito de surpresa!!! Os pequenos personagens escolhidos por ele e jogados na terra estavam se movendo indistintamente. Atirados para os ares por ele e a esposa, esses personagens já não eram homúnculos ou pigmeus, mas verdadeiros homens e mulheres vivos e reais…E não só os via trabalhar, mas também os via falar e maltratar os mais fracos.

O que o diabo viu e ouviu, foi dele mesmo se arrepiar, diante da capacidade de praticar o mal dos fantoches. A maldade se apoderou deles, e se perpetuou até os dias atuais.

Como os óculos eram de ver ao longe, a vista do diabo alcançou os nossos tempos.

E os fantoches passaram a reinar na terra, praticando o mal e perseguindo as pessoas inocentes.

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GAIOLA DE OURO

São dignas de pena, crianças criadas em apartamentos de luxo, verdadeiras gaiolas de ouro, com janelas obrigatoriamente gradeadas e onde elas não tem o mínimo contato com a natureza. Convivem mais com as babás e creches, do que com os pais.

Conheço crianças que só comem mel em vez de açúcar, alimentos integrais, não comem guloseimas como chocolates, e que são policiadas por mães neuróticas para que não engordem. Crescem pálidas, e raquíticas, sem resistência física, pois as mães as privam das melhores comidas, como se elas fossem doentes.

Junte-se a isso, o fato dessas crianças não terem direito a colocar os pés no chão dentro de casa, e não terem acesso a nenhum quintal, onde possam estar em contato com areia, sol, chuva ou sereno. Não adquirem “anticorpus” e por tudo adoecem.

Essas crianças ricas não conhecem a felicidade de brincar num quintal, correr descalças na terra seca do chão, jogar bola, subir em árvores, colher frutas maduras, tomar banho de chuva, sentar no chão, dar topadas, cair e ralar os joelhos, mesmo arrancando chaboques,

Não veem os passarinhos voando e cantando, ao vivo e a cores, fora da televisão.

Quando, desde cedo, não vão para as luxuosas creches, onde passam o dia todo, os meninos ricos ficam entregues às babás. nem sempre qualificadas. Sentam-se em um quarto atapetado, arrodeado de brinquedos eletrônicos, sem apego a nenhum deles, diante da fartura de opções que tem ao seu dispor.

Não imaginam que, fora daquele mundo artificial de fantasias, existe um mundo natural, onde a natureza coloca fruteiras variadas, pássaros com seus cantos maravilhosos, sol, chuva, e uma terra seca para eles brincarem à vontade.

Quase sempre, usam sapatos ortopédicos, pois a mãe tem medo que seus pés entortem. E só conhecem as árvores, que passam apressadas atrás do vidro do carro do pai.

Certa vez, um menino rico ganhou um belo pássaro importado, que vivia preso em uma gaiola caríssima, e se alimentava do melhor alpiste e água fresca. Ele não entendia porque razão o pássaro vivia triste e não cantava, apesar da gaiola bonita e boa alimentação. Era a falta da liberdade, que Deus deu ao pássaro para voar.

Na inocência do menino rico, o leite vinha das caixinhas da padaria e não das vacas. Tinha muitos brinquedos, bolas coloridas, mas sempre brincava sozinho, dentro do quarto atapetado. Só via a rua através das grades de sua janela. Ouvia na televisão histórias que falavam de assaltos, sequestros, balas perdidas, e ficava com medo do mundo lá de fora.

Na realidade, as “gaiolas de ouro” geram pobres meninos ricos. São meninos tristes e “policiados” pelos pais ou babás 24 horas por dia.

Não tem liberdade nem contato com a natureza. Não comem cuscuz com ovo, a base da alimentação do menino pobre, e que dá sustança. Mas comem granola e outros alimentos sofisticados, da moda.

Enquanto isso, os meninos pobres, sem conforto em casa, não notam que são pobres, pois a maior riqueza que eles tem é a liberdade. Jogam bola, tomam banho de rio, sobem nas árvores e comem frutas frescas. E até acompanham a chamada do palhaço do Circo: “Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor”!

Hoje, o menino pobre cresceu, cheio de sonhos de ganhar muito dinheiro, para comprar toda a felicidade que ele já tinha e não sabia. Trabalhou muito, juntou dinheiro, construiu uma casa, mas teve que colocar grades.

O menino rico cresceu querendo ser livre. Somente depois de homem feito, pôde correr descalço e descobrir que a felicidade estava nas coisas simples.

Vivo hoje a saudade do quintal da casa dos meus pais .e dos meus avós paternos em Nova-Cruz (RN), onde na minha meninice, eu subia nas goiabeiras e pinheiras, e ali mesmo comia goiaba e pinha à vontade.

A modernidade veio para destruir o lirismo dos quintais, das conversas nas calçadas e das esquinas.

Lana Bittencourt – POBRE MENINO RICO – Vargas Júnior-Oscar Bellandi – Ano de 1955

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BALANÇARAM O PÉ DE FAVA

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendiam velas para espantar o Demônio, quando sentiam flatos espalhados pelo ar.

Foi aí que começou o famoso costume de se riscar um fósforo, para acabar com o mau cheiro da flatulência..

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico) e enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais desses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, fazendo portanto com que estes gases cheirem ainda pior.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.
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Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e o povo se dispersou.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Neném Calango, mulher cinquentona, viciada em comício e desbocada, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz de homem respondeu:

–  AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que nunca teve e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação, que levou uma semana para ir embora.

Dona Neném Calango já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném Calango ganhou a fama de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. Sua ideia infeliz de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque ”.

Este caso é Verdade e dou Fé.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

MUNDO CÃO

Em 1962, o documentário italiano Mondo cane (Mundo Cão) foi lançado em Cannes e virou uma febre internacional, por inaugurar um novo gênero de narrativa. Parecido com documentário de ficção, e representando temas e cenas sensacionalistas, esse filme popularizou a expressão “mundo cão“.

É um documentário sobre coisas bizarras do mundo inteiro, e o primeiro “blockbuster”, palavra de origem inglesa, que indica um filme (ou outra expressão artística) produzido de forma exímia, sendo popular para muitas pessoas .do gênero na História. A partir de então, surgiram outros documentários chocantes mostrando coisas absurdas.

O cineasta Marcos Jorge, autor de Mundo Cão, traduziu a epígrafe desse documentário :

“As cenas que vocês vão ver são verdadeiras e filmadas sem truques. Se, às vezes, serão amargas, é porque muitas coisas são amargas nesta terra. O dever do cronista não é adocicar a realidade, mas descrevê-la objetivamente”.

Os temas de “Mundo Cão” são difíceis de digerir. A trama se passa quando ainda ocorria o extermínio de animais sadios no âmbito do município de São Paulo. “Santana é um funcionário do Departamento de Combate às Zoonoses e trabalha recolhendo cachorros perigosos das ruas. Com uma mulher evangélica e dois filhos, leva uma rotina tranquila, até que seu caminho se cruza com o de um rottweiler. Ele terá que se ver com o dono do cão, Nenê, envolvido com atos ilícitos”.

O conflito principal surge da impossibilidade do diálogo. “Os dois homens se encontram, um deles já está furioso, e o outro fica nervoso também. Eles trocam palavras, mas nenhum tenta entender o ponto de vista do outro. Tudo nasce disso, do diálogo que não se estabeleceu entre o Santana e o Nenê.”

Apesar de antigo, o documentário “Mundo Cão” reflete o momento atual do País, em que as pessoas estão “homologando” em vez de dialogar. Uma vez estabelecido o diálogo, você deixa de considerar o outro como um objeto, alguém sem importância. Ele assume subjetividade e personalidade. Dialogar faz com que você se aproxime do outro ser humano.

Pois bem. O Império Etíope, também conhecido como Abissínia, se enquadra muito bem nesse “Mundo Cão”. Ocupou os territórios da Etiópia e da Eritreia, existindo aproximadamente de 1270 (início da dinastia salomônica) até 1974, quando a monarquia foi deposta por um golpe de estado. Foi, na sua época, o mais antigo estado do mundo, e, além da Libéria, o único cuja independência resistiu com sucesso à Partilha da África pelas potências coloniais do século XIX.

Os Massais são um grupo étnico de seminômades, que vive no Quênia e no norte da Tanzânia. Devido aos seus costumes distintos e residência próxima aos parques de caça da África oriental, eles se situam entre os grupos étnicos africanos mais bem conhecidos internacionalmente. Famosos como pastores e guerreiros, preservam seus costumes e tradições culturais. A vida deles gira em torno do gado, como comprova a base de sua alimentação, leite com sangue.

É uma sociedade patriarcal em que o homem pode ter quantas mulheres conseguir sustentar. Suas vidas são marcadas pela passagem de diversos rituais, sendo o mais importante o da circuncisão, quando o garoto passa a ser considerado um homem. As meninas também vivenciam um ritual semelhante, em que seu clitóris é “retirado”, para serem consideradas mulheres.

Na tribo abissínia dos “massais”, o filósofo Ludwig encontrou um estranho costume: Durante as festividades, os chefes guerreiros fazem introduzir um boi vivo na sala do banquete, para carneá-lo, poupando-lhe as artérias e deixando-o esvair-se em sangue, sob os olhos estarrecidos dos convidados. Parece cena do “Mundo Cão”.

A descrição desta cena nos faz refletir se será mais cruel devorar uma nação viva, ou um animal que entra para o matadouro inconsciente do que o espera.

O Brasil, como nação livre e capaz de determinar-se por si mesma, está sendo tratado à semelhança do boi abissínio.

Condotiero (em italiano: Condottiere) é um chefe mercenário que controla uma milícia, sobre a qual tem comando ilimitado, e estabelece contratos com qualquer Estado interessado em seus serviços. Enquanto se julgam delfins e herdeiros, os chefes supremos estão carneando vivo o regime e só poupando as artérias para que estas, imprensa, parlamento e garantias constitucionais, deem ao povo a ilusão de que está viva a soberania nacional, quando, na verdade, ela morreu com a própria arma que lhe deram para defender-se.

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A VOLTA

Neste momento preocupante para o povo brasileiro, em que todos os dias assistimos Jesus Cristo ser crucificado, desejamos intensamente que a banda volte a passar, cantando coisas de amor.

A humanidade precisa de amor, numa dose cavalar, capaz de nos reumanizar, nos corrigir e nos vacinar contra o ódio e a tirania. Precisa-se de uma vacina contra a volúpia da destruição dos mais fracos, ofendidos e humilhados.

Um amor que nos vacine contra a maldade, a opressão, a humilhação, a tortura psicológica, e tudo o mais que estamos vivenciando.

A coroa de espinhos de Cristo continua sendo posta na cabeça de pessoas inocentes.

Se Luiz Gonçalo ainda fosse vivo, estaria implorando hoje para ver novamente a banda passar, “cantando coisas de amor”.

Na época em que Chico Buarque de Holanda, aos 22 anos de idade, gravou A Banda (1966), Luiz Gonçalo já era sessentão. Contador antigo, fazia a escrita de vários estabelecimentos comerciais de Natal e ia sempre à Receita Federal, trocar ideias sobre as eventuais mudanças relativas à Declaração de Imposto de Renda.

Sempre de bem com a vida, bem-humorado, inteligente e educado, Luiz Gonçalo era muito bem relacionado, e os funcionários da Receita Federal o recebiam muito bem.

Carmen Pimentel, minha tia, era fiscal da Receita Federal, cargo que passou a se chamar posteriormente, Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil. Era funcionária antiga, já perto de se aposentar.

Nessa época, estava no auge o grande sucesso de Chico Buarque de Holanda, A Banda, a música mais tocada nas rádios de Natal.

Numa certa tarde, Carmen estava em pleno expediente na Receita Federal, quando Luiz Gonçalo entrou na sua sala, com a costumeira pasta executiva na mão. Ele sempre se dirigia a ela, quando precisava fazer alguma consulta relacionada ao Imposto de Renda. Amiga pessoal do contador, Carmen tinha satisfação em atendê-lo. Como também era muito bem humorada, ao vê-lo, Carmen, por brincadeira, cantarolou um trecho da música A Banda, que diz:

“O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou…”

Imediatamente e sem sair do tom, Luiz Gonçalo respondeu à provocação da amiga, cantando outro trecho da mesma música. “A Banda”:

“A moça feia debruçou na janela,
Pensando que a banda tocava pra ela…”

Os funcionários da Receita Federal que ouviram a resposta de Luiz Gonçalo não se contiveram , e a gargalhada foi geral.

O contador, com sua presença de espírito, não ficou por baixo diante da provocação de Carmen, que também riu muito, diante da merecida resposta que ouviu. Ela não imaginava que Luiz Gonçalo também soubesse cantar A Banda.

Carmen Pimentel, muitos anos depois de aposentada, ainda ria, quando se lembrava desse fato.

O momento atual, de tanta maldade, opressão, autoritarismo e sede de vingança, me traz à memória o lirismo da música de Chico Buarque de Holanda, A Banda, que tanta alegria e esperança leva aos corações de adultos e crianças.

A felicidade imensa com que é recebida a passagem dessa banda tão simples, tão brasileira e repleta de lirismo, é a comprovação da carência de amor pela qual o povo brasileiro passa.

A Banda de Chico não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra, nem convida a matar o inimigo, pois ela não tem inimigos. Essa banda é feita de amor e só festeja o amor. Prefere rasgar corações, fazendo penetrar neles “o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente”, como fala o poeta português Luís de Camões.

Encontro na banda o remédio para todas as tristezas, pois a alegria que ela proporciona atinge meninos e velhos, feios e bonitos, fracos e fortes. Se a banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e até a lua cheia surgir, é porque é possuidora de uma beleza generosa e de uma força superior. Há nela, uma indicação clara, para todos que tem responsabilidade de mandar e os que são mandados; os que estão contando dinheiro e os que nada tem; os vingativos, os que tem facilidade de perdoar e os ambiciosos.

As coisas do amor abrangem um vasto terreno nas relações humanas. A Banda consegue alvoroçar a cidade, atrair o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro, e todos que a veem passar. Por uns minutos, todos se sentem felizes.

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. Abrangem um vasto terreno, nas relações humanas.

Se depois que a banda passou, “o que era doce acabou”, que venha outra banda, que nunca deixe de musicalizar o povo brasileiro.

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A SEMANA SANTA, NA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE

O apelo que sempre guardei na memória:

“UMA ESMOLINHA, PRA MINHA MÃE JEJUAR NO DIA D’OJE!!!”

Eram as crianças de Nova-Cruz pedindo esmolas na Semana Santa.

Na sala da nossa casa em Nova-Cruz (RN), ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.

Paralelamente, na Sexta-Feira, havia uma grande preocupação das famílias, de esconderem suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos galinheiros nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.

O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e faziam isso por danação. Às vezes, o furto era compartilhado pelos próprios filhos dos donos da casa.

As comadres da minha mãe, que residiam na área rural, traziam-lhe beijus de goma com coco de presente, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.

A Semana Santa, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria. Para começar, não havia aula durante essa semana. O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se chamava nome feio, e quase não havia briga na cidade. Era um período de reflexão e esperança de um mundo melhor.

Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, a Igreja ficava lotada de fiéis à tardinha, para se assistir a cerimônia do Ofício das Trevas. Os fanáticos e sujos acreditavam que o banho tomado nesse dia poderia deixar a pessoa “entrevada” para o resto da vida.

Mas, Frei Damião, numa das Santas Missões que fez em Nova-Cruz, acabou com esse tabu, que assombrava o povo do mato. Durante as Missões, no intervalo das missas, mandava que todos fossem para casa tomar banho, para não voltarem fedendo a paturi (produto do cruzamento de pato com marreca).

Na Quinta-Feira Santa, quando se revive a traição de Judas durante a Última Ceia, sentia-se na cidade o clima de tristeza, Era o começo do martírio de Jesus, que carregaria sua Cruz até ser crucificado e morto.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era a cerimônia do “beija”.

Nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e a abstinência de bebidas alcoólicas.

As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas.

Os clubes sociais e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.

O sábado de Aleluia revive a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus.. A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada.

A RESSURREIÇÃO DE CRISTO é o acontecimento mais importante da humanidade!

A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes para o cristianismo. De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.

Hoje, os costumes mudaram e a Semana Santa se transformou num feriadão igual ao carnaval.

Na praia da Pipa, onde o turismo do Rio Grande do Norte se concentra, os dias da Semana Santa são dias de intensa euforia, festas, danças e muita música eletrônica.

Apesar da banalização dos costumes, os ritos religiosos continuam sendo celebrados na Igreja Católica, durante toda a semana Santa, começando no Domingo de Ramos.

O antigo preceito de jejum de carne vermelha durante a Semana Santa, que é substituída pelo peixe, bacalhau e camarão, continua presente na mesa dos ricos, sejam católicos ou não. Esse hábito se dá por luxo e tradição, dificilmente por religiosidade.

Enfim, os tempos mudaram. O povo mais simples continua frequentando os ritos da Semana Santa nas Igrejas, enquanto os ricos, por comodidade, preferem assistir tudo pela televisão, isso quando não viajam para o turismo religioso.

E a saudade bate forte no meu peito, na Semana Santa. Vejo Dona Lia, minha querida e saudosa Mãe, dando o toque final no feijão de coco, arroz de coco, uma fritada de sardinha com batatinhas, ou um ensopado de bacalhau, com batatinhas e azeite de oliva.

Quanto mais o tempo passa, mais aflora essa saudade. E ninguém tinha morrido.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

UM SONHO LINDO

O passado sempre nos volta em sonhos. E nada mais gratificante do que passarmos a noite revivendo momentos felizes dos tempos idos e vividos, quando no sonho estão presentes figuras queridas e inesquecíveis.

Tenho por hábito pôr em prática o que Freud ensina, em “Além da Alma.” Quando o sonho é bom, ao acordar, registro-o num caderno que trago sempre ao lado da minha cama.

Hoje, sonhei com minha mãe, cantarolando “Garoto da Rua”, uma das suas músicas preferidas (1947 – composição de Renê Bittencourt e gravação de Augusto Calheiros).

Ao acordar, ouvi a música mais de uma vez e de repente me veio à memória a beleza de “Nós, os Meninos de Palmares”, primeiro capítulo do livro “A Prisão de São Benedito e Outras Histórias”, obra prima do consagrado escritor Luiz Berto. O livro é belíssimo desde a capa, as orelhas escritas pelo autor, e a fabulosa apresentação do poeta Orlando Tejo.

Sobre a Prisão de São Benedito e Outras Histórias, escreveu o poeta Orlando Tejo, em artigo publicado na Revista A REGIÃO, Recife, 1983:

“Há alguns meses, porém, A Prisão de São Benedito e outras histórias”, o mais opulento livro que já li em seu gênero, possibilitou-me a visão clara e geral do universo palmarense.

Nunca os tipos populares de nenhum lugar mereceram perfis literários mais precisos. Nenhum deles é caricaturado. São todos fotografados com a exatidão da arte que se pode exigir de um mestre. Luiz Berto os faz desfilar em assombrosa passarela universal, cada um deles com seus cacoetes humanos e suas características congênitas, fundo do riquíssimo cotidiano local que, em verdade, não é diferente do dia a dia de nenhuma outra cidade interiorana. Todas as cidades possuem os mesmos doidos, os mesmos boêmios, os mesmos aleijados, as mesmas prostitutas, as mesmas presepadas; e os bares, o cabaré, a noite, o clima de vida, o folclore, enfim, são clichês.

Tipos populares, portanto, não são privilégios de lugar nenhum. Ocorre, todavia, que somente Palmares deu um Luiz Berto. E isso explica o fenômeno. É o mesmo que pensarmos o que seria a Bahia sem Jorge Amado.”

Diz o Escritor Luiz Berto que não é poeta. “Nós, os meninos dos Palmares”, entretanto, é poesia pura; puro lirismo, característica dos poetas. Os meninos de Palmares eram “apontadores de estrelas”, “gáveas ao vento’, e “bebiam até a última gota naquele pote de felicidade.” Colocações poéticas lindíssimas!

Teimo em dizer, que o Escritor Luiz Berto é um dos maiores poetas que eu conheço. Seus escritos são poemas em prosa.

O garoto da rua, de que fala a composição de Renê Bittencourt, tinha a mesma alma dos meninos de Palmares, os mesmos sonhos, a mesma liberdade e as mesmas aspirações. Era um craque na bola de meia e andava com o bolso pesado de bolas de gude.

“Nós, os meninos de Palmares” é o retrato de uma infância feliz, que marcou uma época em que a maldade não tinha nascido.

Augusto Calheiros GAROTO DA RUA