VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A TREPADEIRA

A árvore trepadeira que se chama vulgarmente Cipó matador tem, segundo assevera A. St’Hilaire (botânico francês), um tronco direito, porém delgado e fraco, necessitando do apoio de outras árvores mais robustas.

Segundo os botânicos, o surgimento das trepadeiras foi uma resposta evolutiva às plantas de caules frondosos, fortes e grossos. A disputa por radiação solar estava levando essas plantas a evoluírem, tornando-as cada vez mais altas, com copas cada vez mais frondosas e com crescimento cada vez mais rápido. As ancestrais das trepadeiras, por outro lado, não conseguiam concorrer com estas plantas e começaram a usar as mesmas como suporte para o seu desenvolvimento. Valendo-se de menos recursos energéticos, nutricionais e solares, as trepadeiras foram evoluindo, agarrando-se às árvores frondosas e alimentando-se da sua seiva, a ponto de cobri-las totalmente, abafando-as e matando-as.

Um advogado, que há anos morava no Amazonas, retornou a Natal e abriu um escritório de advocacia. Logo nos primeiros meses, os clientes foram aparecendo.

Dentro da seriedade que lhe era peculiar, Dr. Pedro, o causídico, tinha senso de humor e gostava de conversar. Contava fatos pitorescos, relacionados ao Amazonas, tema que fazia brilhar os seus olhos.

Dizia que o que mais agradava ao seu espírito de advogado era quando funcionava na defesa de um réu, perante o Tribunal do Júri. Para tanto, considerava-se um excelente orador e articulador. Gostava de comentar nas rodas de amigos e colegas, os inúmeros debates, já travados com advogados de renome.

Havia grande interesse dos seus amigos e colegas em vê-lo atuar no Júri, pois conheciam sua fama de grande tribuno. E sua estreia em Natal foi um sucesso. Entretanto, meses depois, começaram a notar que o causídico estava se tornando repetitivo nas suas teses de defesa. Criara um chavão e o repetia em todos os júris em que atuava.

Esse chavão consistia em comparar o sofrimento de um réu em julgamento, com o sofrimento de uma árvore hospedeira de uma trepadeira, tal qual o falado “cipó matador do Amazonas”.

Contava o advogado:

“No Amazonas, existe uma trepadeira, que se desenvolve como hóspede de uma grande árvore, servindo-se de sua seiva e arrochando-a de forma tão violenta, que a árvore não resiste e morre por asfixia.”

Para melhor entendimento dos jurados, comparava o Promotor de Justiça à trepadeira ou cipó matador, e a árvore, ao réu sendo atacado e morrendo pela dificuldade imposta pelo Promotor à sua defesa.

Esse chavão foi se tornando conhecido, a ponto de apelidarem o causídico de “cipó matador do Amazonas”, coisa que, se ele soubesse, jamais perdoaria ao autor dessa falta de respeito.

Sempre que o Dr. Pedro ia defender um réu no Tribunal do Júri, os adeptos de apostas se movimentavam. Uns apostavam na repetição do conhecido chavão. Outros apostavam que dessa vez, ele iria fazer uma defesa diferente, e não repetiria o chavão.

Feitas as apostas, ficavam todos aguardando o desenrolar do discurso do advogado de defesa. Alguns já se consideravam perdedores das apostas, quando, de repente, o discurso de Dr. Pedro era intercalado com o mesmo “recado”:

“Senhores jurados: estive vários anos na região Amazônica, lugar onde predominam as maiores árvores existentes na face da terra. A floresta amazônica é, sem dúvida, a mais exuberante floresta equatorial do mundo. Mesmo assim, de vez em quando, imensas árvores centenárias são sufocadas e mortas, por um tipo de planta trepadeira, também chamada de “cipó matador”, que se alimenta de sua seiva, e se trança de uma forma tão fechada sobre elas, que as leva à morte. Uma vez ou outra, há um grande relâmpago e cai um raio sobre a trepadeira, matando-a. É como se o relâmpago viesse em socorro da grande árvore que estava sendo sugada pela trepadeira. Daí por diante, aquela árvore que está sendo morta pelo sufoco, ressurge como um milagre da natureza e volta a florescer, exuberante como antes.

Estamos numa situação equivalente. De um lado, estou defendendo o meu constituinte, que coloco no lugar da árvore agonizante, sofrendo e resistindo à imensa violência de quem, aparentemente, não tinha condições de destruí-lo. Do outro lado, o ilustre Promotor de Justiça, que parece ser aquela insignificante planta, conhecida como “cipó matador”, apertando sempre o meu constituinte, já sufocado e sem chance de defesa.”

Essa argumentação desenvolvida por Dr. Pedro tornou-se uma constante, em todos os seus discursos nos Tribunais onde atuasse como advogado de defesa. Daí por diante, o defensor do réu apelava, cada vez mais, para o sentimentalismo dos Jurados, atento aos argumentos acusatórios do representante do Ministério Público.

No final, ganhava a aposta quem houvesse confiado na repetição do chavão da trepadeira, ou “cipó matador do Amazonas”.

Voltando aos dias atuais, ano de 2020, o ano gêmeo tão esperado, chego a pensar que algum “cipó-matador” abraçou o mundo e a ciência, agindo de forma traiçoeira, e jogando na humanidade o CORONAVÍRUS, que continua fazendo vítimas. Parou tudo por certo tempo, mas não parou o processo eleitoral, sendo o povo induzido a enfrentar as urnas, “sem correr risco de contaminação”. O Vírus, de conluio com os políticos, deu uma trégua aos brasileiros, durante o processo eleitoral, que ainda não terminou.

Como em alguns Estados, o povo aguarda o 2º turno das eleições municipais, as promessas e abraços continuam.

Convém alertar o eleitor que irá votar no 2º turno, que não aceite dos candidatos abraços apertados e demorados, pois eles podem absorver sua energia, chegando a sufocá-lo ou coisa pior, tal qual fazem as trepadeiras ou cipós- matadores com as grandes árvores.

Essas demonstrações de carinho dos candidatos, visando agradar o povo para chegar ao poder, podem ser maléficas. Eles podem estar utilizando o eleitor em benefício próprio, subindo nas suas costas e lhe dando migalhas.

Vale a pena evocar o pessimismo do imortal poeta Augusto dos Anjos:

“a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

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TEMPO DE POLÍTICA

O Brasil é um País muito grande, que luta para ser um grande País. Mas uma andorinha só não faz verão.

Precisamos de políticos honestos, que ajudem ao Presidente da República, na árdua tarefa do cargo que ocupa.

Antes do descobrimento do Brasil, como conta a História, os portugueses já cortavam os mares no caminho do Oriente, em direção às Índias. Numa dessas idas e vindas, houve aquela história das calmarias, e o Brasil foi descoberto. Mas, os portugueses tropeçaram nos índios, querendo torná-los invisíveis e usurpando a terra que eles sempre ocuparam. A “terra à vista”, já pertencia aos índios.

E, atualmente, os índios já aprenderam a dar nó no sapato e na gravata, apesar das intempéries que eles tem enfrentado.

Ainda estamos no meio da pandemia do Coronavírus. Aproximam-se as eleições municipais e o número de candidatos à reeleição para Vereador é impressionante. Maior ainda é o número de novos candidatos, que, no horário eleitoral gratuito, pedem votos, sem demonstrar, na sua maioria, as mínimas condições de representar o povo na Câmara Municipal. Os antigos Vereadores não querem abrir mão das regalias, que gozam há anos, e se agarraram ao poder, com unhas e dentes, sem querer passar o mandato à frente.

O problema do Brasil é que há carência de políticos dignos, em todas as esferas do poder. O Rio Grande do Norte está sem norte. Vai longe o tempo em que os políticos da terra defendiam o bem comum, sem desvio de dinheiro público, como acontece agora, vergonhosamente.

A Pandemia do Covid-19 continua atacando. Mas, para que possa haver Eleição, o vírus concordou em dar alguns dias de trégua, para que o povão vá às urnas votar, sem medo, e, antes disso, não perca as passeatas e comícios, onde há muita aglomeração, sendo dispensadas as máscaras e também o álcool- gel. Um “cessar fogo” capcioso e irresponsável.

“Mas na hora de votar, não esqueça a máscara, álcool-gel e a sua própria canetinha…”

Agora, aterrissou em Natal um estranho no ninho, senador petista, candidato a prefeito. Sem supostas raízes no Rio Grande do Norte, o candidato é “companheiro” de partido da governadora e de uma ex-vereadora, atual deputada federal. O “salvador da pátria” já prometeu, no horário eleitoral, se for eleito, transporte urbano 100/% gratuito para todos, benefício extraordinário à população de Natal. Onde estava esse benfeitor esse tempo todo?

Nesta época de eleições, os candidatos prometem realizar o bem comum. Mas a “amnésia pós-eleições”, uma doença antiga, ainda não foi erradicada do Brasil. Em primeiro lugar, eles. E em segundo, eles.

O povo sofrido de Natal já não acredita nas promessas dos candidatos a prefeito e a vereador, feitas na TV, no horário eleitoral. Essas promessas provocam riso. Ainda bem que sorrir faz bem à saúde.

Continuamos sendo tratados como palhaços.

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DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

João Fernandes Campos Café Filho (03.02.1899 -RN – 20.02.1970- RJ) foi um advogado e político brasileiro, tendo sido o 18.º Presidente do Brasil entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Também foi o 13.º Vice-presidente do país entre 1951 e 1954, função que assumira paralelamente com a de Presidente do Senado Federal.

Nascido no Rio Grande do Norte, Café Filho, Vice-Presidente, assumiu a Presidência da República com o suicídio de Getúlio Vargas.

Pouco tempo depois, mandou chamar seu grande amigo Rubem Braga ao seu Gabinete, dizendo que estava precisando dele.

Surpreso, o grande cronista chegou ao gabinete de Café Filho e disse:

– Café, você só pode estar louco, ao dizer que está precisando de mim. Está havendo um engano. Quem precisa de você sou eu. Você virou Presidente da República, está bem empregado e com sua vida arrumada. Quanto a mim, estou duro, desempregado e precisando trabalhar. Quero um emprego qualquer. Não escolho serviço.

Um mês depois, Rubem Braga embarcou para o Chile, como Adido Cultural do Brasil. Foi lá que escreveu algumas das suas melhores crônicas.

Na mesma época, chegou ao Gabinete de Café Filho, sem marcar “audiência”, diretamente de Natal, seu amigo de infância e colega de turma na escola primária, José Antônio Areias Filho, o popular Zé Areia (1900-1972). No tempo da Guerra, trabalhou como barbeiro no Campo de Parnamirim. Ex-Rei Momo e um dos maiores boêmios de Natal, Zé Areia era dono de uma inteligência notável, grande senso de humor e muito querido.

De pouco estudo, barbeiro, vendedor, biscateiro e, principalmente, humorista nato, Zé Areia tinha resposta pra tudo e uma língua afiada. Era um boêmio, querido pelos amigos, sem cerimônia de incomodá-los e até de lhes aplicar pequenos golpes, considerados hilários, verdadeiros pecados veniais. Essas pequenas tramoias não chegavam a afastá-lo dos amigos “selecionados”, como ele dizia. Uma das suas constantes vítimas foi o saudoso Deputado Djalma Marinho, escolhido por Zé Areia para seu permanente fiador, nas locações de casas para morar.

Certa vez, Zé Areia procurou o dono de uma casa na Praia do Meio, que estava para alugar. O proprietário foi taxativo, dizendo:

– Só alugo com fiador.

Zé Areia procurou o deputado Djalma Marinho, seu amigo do peito, e pediu-lhe uma carta de fiança, sendo rapidamente atendido.

Transcorridos noventa dias, Zé Areia não pagou um só centavo do aluguel e o proprietário procurou Djalma Marinho, o fiador, para que lhe pagasse a dívida. No dia seguinte, Djalma mandou chamar Zé Areia e reclamou, ressentido:

– Mas Zé, de novo?!!! O dono da casa que você alugou me telefonou cobrando os três meses de aluguel que você não pagou!!! Como seu fiador, vi-me obrigado a pagar…

E Zé Areia, cínico, com fingida indignação, respondeu:

– Deputado, tenha paciência! Pra que é que serve fiador? Ainda bem que o senhor não me deixou passar vergonha!!!Era só o que me faltava! Eu sei selecionar meus fiadores!!!

No tempo da Guerra, trabalhou como barbeiro no Campo de Parnamirim. Ex-Rei Momo e um dos maiores boêmios de Natal, Zé Areia era dono de uma inteligência notável, grande senso de humor e muito querido.

A sua vida confunde-se com a de uma Natal provinciana e as suas tiradas divertiam Natal.

Durante a 2ª Guerra, trabalhou como barbeiro no Campo de Parnamirim. Aplicava golpes nos norte-americanos, vendendo-lhes, por exemplo, corujas por papagaios.

Depois da 2ª Guerra, Zé Areia voltou à sua antiga miséria. Não tinha emprego e vivia de vender qualquer coisa que encontrava.

A chegada do seu amigo Café Filho à Presidência da República representava para ele o fim de sua vida dura, pautada por ele mesmo.

Depois de levar um grande “chá de espera”, Zé Areia adentrou ao gabinete do Presidente Café Filho, externando sua felicidade em vê-lo ocupar o mais alto cargo do País. Depois do grande abraço, aproveitou para lhe cobrar o cumprimento da promessa que lhe fizera, há anos, de lhe arranjar um bom emprego, quando chegasse a ocupar um cargo importante.

Café Filho recebeu Zé Areia sem euforia, mas ratificou a promessa do emprego. Disse-lhe que voltasse no dia seguinte e procurasse José Monteiro de Castro, Chefe da Casa Civil.

A decepção de Zé Areia foi enorme. O emprego era de Seringueiro, na Amazônia.

Indignado, voltou para Natal, mas deixou para o “amigo” Café Filho, um bilhete, onde dizia:

“João, em nossa terra, quem tira leite de pau é buceta….
Assinado: José Areia”

Esse caso entrou para o folclore político do Rio Grande do Norte, e, até hoje, enriquece a memória satírica de Zé Areia.

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A FLOR DA LUA

Margaret Mee nasceu em 1909 em Chesham, no condado de Buckingham, na Inglaterra. Quando jovem, frequentou as principais Escolas de Arte de sua terra natal. Em 1952, com seu segundo marido, o artista gráfico Greville Mee, veio a São Paulo visitar sua irmã. Acabaram ficando no país e, em 1956, Margaret embarcou rumo ao rio Gurupi, em sua primeira expedição amazônica.

No Brasil, foi professora de Arte na Escola Britânica de São Paulo (conhecida como Saint Paul’s School), tornando-se uma especialista em botânica pelo Instituto de Botânica de São Paulo, em 1958. Explorou a floresta tropical, a partir de 1964, pintando as plantas que via e colecionando algumas para posterior ilustração. Criou quatrocentas pranchas de ilustrações em guache, quarenta sketchbooks e quinze diários.

Perseguia o sonho de ver desabrochar a Flor da Lua, um cacto que só existia na Floresta Amazônica. Possuidora de grandes olhos azuis e enorme cabelo louro, dividido em duas tranças, usava laços verdes na cabeça, em homenagem ao verde da floresta. Maquiava os olhos, para realçar ainda mais a sua beleza.

Encantava-se com os espinhos e flores encontrados na Floresta Amazônica e se preocupava com a sua preservação. Como pintora, passava para suas telas toda a beleza das flores e botões que via de perto, nas expedições das quais participava. Sua mala com pincéis, tintas e telas fazia parte da sua bagagem.

No Rio de Janeiro, o casal residiu numa casa de três andares em Santa Tereza, dentro de um enorme jardim, que era uma mini floresta. Lá apareciam cobras e formigas, que ela não permitia que o IBAMA fosse resgatar. Participou de 15 expedições à Floresta Amazônica, pesquisando plantas, protegendo espécies raras, que estavam prestes a ser destruídas pelos indígenas, para no solo cultivarem mandioca ou construírem choças miseráveis para moradia.

Segundo seus relatos, os índios dispunham de retroescavadeiras e machados de pedra, e com facilidade decepavam as árvores, preparando o solo para plantações.

Achava dinheiro uma coisa suja. Escreveu o livro “Flores da Floresta Amazônica” e ofereceu ao Presidente Geisel, pedindo para que ele o lesse, alertando-o para a importância da Floresta Amazônica e rogando pela sua preservação.

Margaret foi considerada uma das maiores ilustradoras botânicas do século 20. Em 15 viagens à Amazônia, produziu cerca de 400 pinturas da flora tropical, como orquídeas, bromélias, helicônias, entre outras plantas. Parte desse material pode ser vista no seu livro “Flores da Floresta Amazônica”, que inclui ainda trechos de seus diários.

Um trecho de seu diário revela a admiração com que observava a natureza: “Entramos na floresta sozinhas, seduzidas por um campo de plantas maravilhosas: pontas brilhantes e vermelhas de Heliconia glauca […] e a bela orquídea Gongora maculata, com sua longa inflorescência e seu poderoso perfume aromático, equivalente a centenas de lírios.”

Margareth observava o desabrochar das flores na floresta, dormindo em redes armadas entre as árvores, e chegou a ser hóspede de tribos indígenas.

Certa vez, o Cacique de uma tribo, de quem ela chegou a ser hóspede, pediu-lhe de presente as suas duas enormes tranças, das quais ela se orgulhava. Assustada, Margareth respondeu que se ela cortasse as tranças, o marido a deixaria. O índio ficou pensativo e desistiu do pedido.
Expunha seus quadros no BOX de Londres.

Apaixonada pela Floresta Amazônica, em maio de 1988, já aos 79 anos, Margaret Mee participou da sua última expedição, a 15ª. Finalmente, alcançou o seu ideal de pintar a Flor-da-Lua. Depois de horas navegando entre arbustos espinhentos e ásperos em uma canoa, quase ao fim do dia ela atingiu o remoto local onde a flor a esperava – e ilustrou as primeiras imagens dela no hábitat.

Margareth Mee morreu na Inglaterra, em 30.11.1988, vítima de um acidente automobilístico. Em sua honra, foi fundada a “Margaret Mee Amazon Trust”, organização para educação, pesquisa e conservação da flora amazonense, promovendo intercâmbio para estudantes de botânica e ilustradores de plantas brasileiros, que desejam estudar no Reino Unido ou conduzir pesquisa de campo no Brasil.

No carnaval de 1994, no Rio de Janeiro, a famosa ilustradora botânica e pintora foi homenageada pela Escola de Samba “Beija-Flor de Nilópolis”, cujo enredo foi “Margareth Mee, a Dama das Bromélias” assinado pelo então Carnavalesco Milton Cunha.

“Margaret era uma ecologista quando esse termo ainda nem existia e defender a natureza não estava na moda”, conta Gilberto Castro, velho amigo e proprietário do barco usado em algumas de suas incursões pela Amazônia.

Um ano depois da morte de Margaret Mee, seu marido Greville Mee foi ao Amazonas, cumprir o último desejo da mulher: lançar suas cinzas sobre as águas escuras do rio Negro.

Por onde passava o barco, que conduzia o cortejo fúnebre, a vegetação acompanhava, e ia se fechando, formando um imenso tapete de folhas e pétalas, como se Margareth estivesse assistindo a tudo, o que provocou em todos uma grande emoção.

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POLÍTICA HILÁRIA

Dinarte de Medeiros Mariz (Serra Negra do Norte-RN – 23.08.1903 – Brasília – DF – 09.07-1984) era filho de Manoel Mariz Filho e Maria Cândida de Medeiros Mariz.

Foi governador do Rio Grande do Norte de 1956 a 1961, e Senador da República de 1955-1956 e de 1963-1984.

Apesar do pouco estudo, era dono de uma visão política extraordinária e de uma inteligência fabulosa.

Era uma excelente pessoa humana. Tinha resposta para tudo e queria agradar a todos.

Influenciou a política local por mais de meio século.

Durante o seu governo, foi criada a UNIVERSIDADE DO RIO GRANDE DO NORTE.

No folclore político do Rio Grande do Norte, há casos hilários envolvendo o seu nome, que merecem registro.

Tenente Ananias é um município do interior do Rio Grande do Norte. Situa-se na região do Alto Oeste Potiguar, a uma distância de 413 quilômetros de Natal, capital do Estado. Tenente Ananias foi emancipado de Alexandria na década de 1960. O nome do município é uma referência a Ananias Gomes da Silveira (1863-1950), que foi combatente e tenente das forças-armadas do Brasil.

Vista da cidade de Tenente Ananias-RN

Quando Dinarte Mariz assumiu o cargo de governador do Rio Grande do Norte, os prefeitos do interior começaram as visitas e reivindicações de melhorias para os seus respectivos municípios.

O prefeito do município de Tenente Ananias era um deles. Deu várias viagens a Natal para falar com o governador, mas sempre havia um imprevisto e Dinarte Mariz nunca estava no Palácio, quando ele chegava.

Certa vez, o chefe de gabinete pediu ao governador que resolvesse logo o problema de Tenente Ananias. Dinarte Mariz respondeu:

– Quer saber de uma coisa? Mande redigir logo a portaria promovendo esse homem! Quero que saia amanhã no Diário Oficial!

Aperreado, o chefe de gabinete disse:

– Governador, Tenente Ananias é um município do Rio Grande do Norte! O prefeito de lá quer conversar com o senhor!

Um cabo eleitoral, fazendeiro rico, tinha um vaqueiro muito fiel, apesar de abobalhado, que sonhava em ser sargento da polícia. Quando Dinarte assumiu o governo, “cumpriu” a promessa, dando ao vaqueiro do amigo uma farda de sargento, que passou a ser usada diariamente, só dentro da fazenda.

Ao assumir o governo do Rio Grande do Norte, Dinarte Mariz recebeu a visita de um compadre do interior, fazendeiro e dono de um “curral eleitoral” acompanhado do seu afilhado. O homem lhe cobrou o cumprimento da promessa que lhe fizera de arranjar um emprego muito bom para o rapaz.

Dinarte chamou o chefe de gabinete e perguntou qual era o melhor emprego do Estado. A resposta foi que o melhor emprego do Estado, cargo em comissão, era o de Consultor Jurídico. O governador mandou que fosse preparado o ato de nomeação do filho do seu amigo para o referido cargo. Pouco depois o chefe de gabinete voltou e disse ao governador que não poderia redigir o ato de nomeação do rapaz, porque ele não era bacharel em direito, como a lei exigia. O rapaz só sabia ler e escrever.

Resposta do governador:

– Redija dois atos de nomeação: um para ele ser bacharel em direito e o outro para que seja Consultor Geral do Estado.

O chefe de gabinete disse que isso era ilegal e se recusou a redigir os atos. E foi exonerado na hora.

Uma comadre do Governador Dinarte Mariz foi nomeada para o magistério, com mais de 70 anos. O Governador foi alertado para a nulidade do ato, e a professora foi aposentada, compulsoriamente, no dia seguinte.

Esses causos, ainda hoje, correm de boca em boca.

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A SOGRA

Esta é a estranha história de Jacques Besson, condenado à pena de morte, pela prática de homicídio contra um ex-patrão.

Em 1836, o conde de Chamblas, dono do castelo e do domínio homônimo, localizado perto de Saint-Étienne-Lardeyrol, morreu um ano depois de sua filha ter se casado com M. de Marcellange, um jovem nobre Bourbonnais (natural de uma província histórica central da França, que corresponde ao atual departamento de Cher. Esta área destaca-se pela riqueza literária, sendo berço de autores célebres).

Pouco antes de sua morte, o conde, que apreciava muito seu genro, cedeu-lhe a propriedade e sua administração.

M. Marcellange, dono de um grande coração, decidiu, então, repatriar sua sogra, Marguerite de Chamblas, que havia sido expulsa da propriedade pelo marido, em consequência de repetidos adultérios. A condessa, dotada de uma bela renda, pôde, então, continuar sua vida mundana e amorosa em paz.

Voltando à antiga propriedade, a condessa/mãe viu aí a oportunidade de recuperar o domínio anterior, já que não demorou a colocar a filha contra o genro, tentando convencê-la de que ele não combinava com ela, pois não era de sangue nobre.

Com efeito, M. de Marcellange, que amava a vida camponesa, se envolveu de corpo e alma no campo, colocando a “mão na massa”, chegando, habitualmente, a jantar com seus empregados e rezar a oração da noite junto com eles.

Sua sogra acabou convencendo a filha Theodora a se juntar a ela, em sua mansão particular de La Roche-Négly, na cidade de Puy. As duas foram passar uma temporada na referida mansão, enquanto o marido de Theodora lutava para pagar suas despesas, com a única renda fornecida pela propriedade Chamblas.

Da sua mansão, a velha condessa continuou a assediar o genro, maculando sua reputação e suas habilidades gerenciais e aumentando o número de processos judiciais para usurpação do seu título de nobreza.

Marcellange também teria sido vítima de uma tentativa de envenenamento, durante uma visita à esposa e à sogra.

A sogra infernizou tanto a vida de Marcellange, que ele desistiu de tudo e se preparou para retornar à sua propriedade em Bordons, Allier, sua terra natal. O caso poderia ter terminado aí.

Mas, na véspera da sua partida, em 1 de setembro de 1840, por volta das 8 e meia da noite, cumprindo um piedoso e antigo hábito, Marcellange acabava de rezar com os criados a oração da noite, quando foram ouvidas várias detonações e as vidraças voaram em estilhaços.

Marcellange foi morto instantaneamente, caindo sobre as cinzas da lareira.

A investigação que se iniciou reuniu vários testemunhos: um homem teria sido visto atravessando um campo, rifle na mão, vindo de Le Puy em direção ao castelo.

Entretanto, todos os olhos estavam voltados para o Hôtel de La Roche-Négly, onde as duas condessas estavam hospedadas e, em particular, para Jacques Besson, um ex-empregado da vítima, que havia sido excluído da administração da propriedade.

Passaram-se vários meses, sem que fossem descobertos os possíveis assassinos ou mandantes do crime. Os sussurros eram grandes, em torno da autoria. Porém, ninguém se atrevia a indicar os suspeitos. Parecia que a cidade estava diante do crime perfeito, o que, na realidade, não acontecia.

Na verdade, as mandantes estavam muito perto. Mas, eram consideradas acima de qualquer suspeita, Muitos indivíduos foram presos para averiguações, mas logo foram postos em liberdade, por insuficiência de provas.

Mais de quinhentas testemunhas foram inquiridas. Mas ninguém ousava falar, ninguém ousava repetir em voz alta as estranhas suspeitas que se contavam em voz baixa, e corriam de boca em boca, na região aterrorizada:

“Mme. de Chamblas teria mandado assassinar o marido por um dos seus ex-empregados, de nome Jacques Besson.” Mas nenhuma das duas senhoras de Chamblas (sogra ou esposa da vítima) foi apontada como suspeita do crime.

Depois de dezenove meses de uma instrução minuciosa, a Justiça seguiu seu curso, mandando prender Jacques Besson. Com base em depoimentos formais, o réu foi condenado à morte, pelo Tribunal do Júri de Loire, sem responder se era culpado ou inocente. Mas a sentença foi anulada, por vício de forma e o processo teve novo andamento pelo foro de Rhône.

Antes da audiência de julgamento, as senhoras de Chamblas, que a justiça cometera a fraqueza de não apontar como cúmplices, sumiram da cidade, como quem fugia do perigo do réu abrir a boca e confessar que fora usado por elas para executar o crime.

Maitre Rouher defendera Jaques Besson, perante o Tribunal do Júri de Loire, no primeiro julgamento.

No novo Júri, em Rhône, Maitre Lachaud foi seu defensor. As paixões estavam tão acirradas, os ódios tão violentos, que Lachaud, ao sair da sessão, precisou ser protegido por soldados, contra a hostilidade da multidão.

Jacques Besson foi, novamente, condenado à morte. Caminhou para o cadafalso sem tremer, recusando-se a entregar à justiça o segredo desse terrível drama.

Quando interrogado sobre a autoria do crime, a resposta era sempre a mesma:

“Para que serviria eu falar? Nunca fui ninguém. “ – dizia aos magistrados que o cobriam com perguntas. –“ Isso não me salvaria e seria envolver muitas outras pessoas no negócio.”

O condenado foi para o cadafalso, preferindo guardar fidelidade sobre as mandantes do crime. Essa atitude do réu contrariou Lachaud, que tinha certeza de que o crime fora praticado por encomenda.

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MINHA DOCE COSTUREIRA

Órfã de mãe aos 4 anos de idade, com 5 irmãos, Lia foi criada pelo pai e pela madrasta.

Como estavam em crescimento, as crianças eram contempladas com roupas grandes e folgadas, para não ficarem logo perdidas, como dizia a madrasta.

Quando os dois irmãos mais velhos atingiram a idade para o serviço militar, foram cursar a Escola Naval, no Rio de Janeiro, por iniciativa do pai.

Engajados na Marinha de Guerra, Luiz, o primogênito, ao receber seu primeiro soldo, passou a enviar uma mesada para as quatro irmãs, em Natal.

Lia já estava com 13 anos. Avisou à madrasta, que, com a sua parte, queria comprar um corte de tecido para costurar um vestido, ela mesma. A madrasta foi contra, dizendo que a enteada não sabia costurar, o que era verdade. Lia insistiu e comprou o tecido para fazer sua roupa nova.

Pegou um dos seus vestidos enormes, que a madrasta mandava costurar, desmanchou, recortou e usou como molde sobre o tecido comprado. Diminuiu o tamanho do novo vestido e aprimorou, conforme o impulso do talento que lhe aflorava.

Para surpresa da madrasta e das irmãs, o vestido ficou bonito e na medida certa, sendo considerado formidável. Daí em diante, Lia tornou-se sua própria costureira e das suas irmãs. As auxiliares domésticas, com o tempo, tornaram-se suas freguesas.

Lia tornou-se uma grande costureira. Vivia entre linhas e retalhos, numa antiga máquina “Singer”, movida a pedal, alinhavando sonhos e costurando verdadeiros mimos. Naquela época, as costuras de mão, como chuleados, bainhas, casas, colocação de botões, colchetes e pressões eram um trabalho à parte. Máquina a motor, com “ponto de ouro” não havia nem em sonho.

Mesa, fita métrica, tesoura, alfinetes, agulhas e linhas faziam parte do universo de trabalho de Lia. E a máquina de costura, locomotiva dos seus sonhos, era sua maior amiga.

Lia tinha uma Caderneta de Anotações, onde registrava as medidas das suas freguesas: Larguras do busto, cintura, quadris, comprimento da saia, largura e altura do braço e punho, eram as medidas básicas.

Sempre costurava cantarolando modinhas, mas, às vezes, era surpreendida calada e pensativa.

Com pouco mais de 20 anos, Lia conheceu um primo da madrasta, comerciante e residente em Nova-Cruz, no agreste potiguar, surgindo entre os dois um amor à primeira vista. O rapaz, poucos dias depois, a pediu em casamento. Lia aceitou e se preparou para casar e ir morar em Nova-Cruz, onde o progresso passava muito longe. A cidade não tinha energia elétrica nem água encanada. Os esgotos eram a céu aberto.

Uma única exigência, Lia fez ao futuro marido: O bangalô que ele mandara construir em Nova-Cruz, onde fixariam residência, teria que ter um aparelho sanitário de louça. Nessa época (1940), isso era luxo. O que se usava nas casas do interior era “sentina” (vaso sanitário rústico, feito de barro, com apoio para os pés, onde o usuário ficava de cócoras).

Em nome do amor, Lia enfrentou a mudança de vida, da capital para o interior, trocando o conforto pelo desconforto.

Concluída a casa e celebrado o casamento, Lia começou vida nova, vendo realizado seu sonho de se casar por amor e poder constituir uma família. O casal gerou uma prole que seria de seis filhos, se o 5º, de nome Galdino, não se tivesse encantado aos sete meses de vida.

Com o casamento, a costureira deu lugar à dona de casa, esposa e mãe. Passou a costurar somente para a família, nas horas vagas.

Lia e todos os irmãos sabiam falar Inglês, pois aprenderam com o Pai poliglota, Celestino Pimentel, Professor Catedrático da língua Inglesa.

Anos depois, em Nova-Cruz, aceitou o convite para ensinar Inglês, no Colégio Nossa Senhora do Carmo, da Congregação Franciscana. Nesse tempo, não havia concurso, nem maiores exigências para o exercício do magistério.

Lia também ajudava ao marido na sua venda, diariamente, na parte da tarde, e onde ele dava tempo integral.

Sempre foi uma mulher atuante. Participava de todos os eventos sociais e religiosos da cidade, inclusive das festinhas do Colégio Nossa Senhora do Carmo, onde costumava recitar ou fazer saudações nas datas comemorativas, como o Dia das Mães.

Muito carismática e dona de uma educação requintada, Lia conquistou Nova-Cruz e elegeu essa terra abençoada, também, como sua terra natal.

Nunca foi candidata a cargo eletivo, mas vivia tentando “armar quebra-cabeças”, para ajudar as pessoas mais necessitadas.

Anos depois, já na maturidade, chegou a receber o título de Cidadã Nova-Cruzense, outorgado pela Câmara Municipal.

Francisco e Lia viveram um amor único e definitivo, vibrando com o sucesso dos filhos e sofrendo com eles, quando alguma coisa os fazia sofrer.

E com o cuidado de quem costurava uma colcha de retalhos, Lia estampou nessa maravilhosa peça o seu sonho realizado: um lar cheio de amor, ornamentado pelos filhos, aos quais ela e Francisco ensinaram os princípios morais para consolidação do caráter, e as virtudes da caridade, generosidade, lealdade e da gratidão, as quais formam o caminho da felicidade, muito mais do que bens materiais.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AS ANDANÇAS

Dona Maroca, a maior fofoqueira da “rua de baixo”, de tanto falar mal das filhas dos outros, pagou a língua, com o troco que lhe foi dado pelas suas duas filhas, Zefinha e Biloca, de 17 e 18 anos. Para ela, entre suas andanças e “paranças”, falando mal e reparando a vida dos outros, aquilo era uma afronta! Era o cúmulo dos cúmulos. Uma agressão incomensurável das duas filhas contra a santa e extremada mãe, que o que tinha de conservadora, tinha de linguaruda. A mulher anotava numa caderneta, as datas de casamento das filhas das amigas, para conferir se tinham casado grávidas.

Eis o crime das duas jovens: As duas filhas saíram para um “assustado” na casa de uma amiga, e só chegaram em casa às 7 horas da manhã, em um “baby” (antigo Buggy bugre baby), alegres e embriagadas. O dono do “baby” mal esperou que elas descessem do carro e arrancou em disparada, fazendo “cavalo de pau.”

Dona Maroca deu um escândalo com as filhas, chegando até a dar-lhes uns “safanões.” As duas protestaram, dizendo que o rapaz que tinha vindo deixá-las era um amigo da turma e que a festa tinha rolado até de manhã.

Indignada, Dona Maroca passou o dia resmungando e, vez por outra, insultava as filhas:

– Esse rapaz que veio deixar vocês é capado? Os outros que estavam na tal festa, também são capados???

Zefinha e Biloca, combinaram de deixar a mãe falar até se cansar. Passaram a dar calado por resposta.

Quando a onda baixou, as duas jovens se recolheram ao quarto, com sono e cansadas do “farrão” que tinham feito, na companhia dos amigos e amigas.

Horas depois, Dona Maroca flagrou uma das filhas, com voz doce ao telefone, dizendo:

– Pois é. A velha está intolerável! Mas a gente tapeia ela. Às 7 horas, estaremos lá.

Dona Maroca detestou ser chamada de “velha”. Bruscamente, tomou o telefone de Biloca. Em socorro à irmã, Zefinha apareceu e interrompeu a briga. Foi o começo da tormenta.

A “velha” vociferava, que o comportamento das duas era uma vergonha. Dizia que elas eram duas pestes e que preferia que tivessem nascido mortas.

– Maldita hora que o pai de vocês arribou com outra e deixou vocês comigo! -gritou.

Zefinha encarou a mãe:

– A senhora pensa que eu estou disposta a viver ouvindo desaforos? A Senhora precisa deixar de ser dominadora. Nós já somos adultas!

A mulher avançou para as duas filhas respondonas, enchendo-as de tapas e empurrões.

As duas jovens correram para a rua, enxotadas pela mãe:

– Fora, todas duas! – disse a mulher, sentindo-se desacatada.

Descontrolada, a mãe passou a proferir impropérios:

– Vão dar o que quiserem dar, mas, bem longe daqui! Não ponham mais os pés nesta casa!

As jovens deixaram a casa, que também era delas, sob a intensa fuzilaria da ira maternal, levando cada uma sua valise, com alguns apetrechos. Foram empurradas até a porta da rua, sob os olhares de vizinhos, que sem escrúpulos, a tudo assistiam “de camarote”. Tremiam e choravam, envergonhadas com a humilhação que a própria mãe lhes impusera. Na porta da rua, a mãe fez um verdadeiro comício contra filhos, dizendo que “filho é miséria! Filho é a peste bubônica!!!”

A vizinhança, ao final, se revoltou. Nenhuma mãe tem o direito de dizer essas coisas com os filhos. E essa mãe desnaturada expôs as duas filhas “às feras”, quando se sabe que até os animais defendem suas crias.

A mulher conseguiu destruir a autoestima das duas jovens, que, sem saber que rumo tomar, terminaram na casa de uma amiga, montadas numa máquina de costura, confeccionando roupas para fora, e ganhando dinheiro. Gastando o mínimo possível, e juntando dinheiro num cofrinho, com o tempo, conseguiram alugar uma casinha. Continuaram costurando e ganhando dinheiro para o próprio sustento. Tornaram-se conhecidas na cidade e superaram a mágoa que guardavam da mãe.

Perdoar é mais sublime do que doar. A doação, quase sempre, é material. Mas o perdão é a voz do coração, que chora de pena, da pessoa que teve a infelicidade de cometer um ato injusto, passando a amargar a dor do arrependimento e do remorso.

Quando a índole é boa, seja qual for a dificuldade enfrentada, a corrupção e a prostituição jamais encontrarão abrigo.

As duas filhas perdoaram a Mãe e nunca deixaram de ajudá-la, quando ela precisou.

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LACHAUD

Charles Alexandre Lachaud, célebre criminalista francês, nasceu em Treignac, no departamento de Corrèze, a 25 de fevereiro de 1818. Estudou no liceu de Balzas e em 1836 viajou para Paris, a fim de fazer os seus estudos de Direito. Depois, voltou para a sua terra e abriu banca de advocacia em Tulle.

Certo dia, inesperadamente, um grande processo-crime veio tirar Lachaud da obscuridade, e jogá-lo na glória e na fama.

Pois bem. Nos primeiros dias de janeiro de 1840, Madame Lafarge (em solteira, Marie Capelle), era presa na sua quinta do Glandier, perto de Tulle, onde seu marido, proprietário de fundição, acabava de falecer.

Filha de um antigo coronel do Império e aparentada com as mais ilustres famílias da época, a jovem era odiada pela sogra, que a perseguiu até a sua morte, e, com ódio feroz, acusava-a de ter envenenado o marido com arsênico e de ter furtado diamantes de uma de suas amigas.

Essa dupla e terrível acusação, dirigida contra uma dama da alta sociedade, jovem, bela, distinta e inteligente, teve uma grande repercussão. O caso, rapidamente, tornou-se um processo célebre.

Madame Lafarge (ou Marie Capelle) já ouvira Lachaud, num processo criminal, perante o júri de Corrèze. Ainda não o conhecia, mas, a partir de então, foi seduzida pela sua eloquência, a tal ponto de prometer a si mesma a ele recorrer, se algum dia precisasse de um advogado. Nessa época, Lachaud tinha pouco mais de 22 anos.

Logo depois de presa, Madame Lafarge escreveu a Lachaud, rogando-lhe que assumisse a sua defesa, pois era testemunha do seu talento admirável. Tinha-o ouvido num processo criminal, perante um Júri em Corréze e ele a fizera chorar. Nessa ocasião, dizia ela, vivia feliz e risonha. Hoje, estava triste e sempre chorando. Terminava a carta, pedindo-lhe que restituísse o seu sorriso, fazendo brilhar a sua inocência aos olhos de todos. E assinava: “Marie Capelle” (seu nome de solteira).

Entretanto, a família de Madame Lafarge já tinha escolhido como seu defensor, outro importante advogado, Maitre Paillet, da Ordem dos Advogados em Paris. Mesmo assim, a acusada não quis abandonar o advogado que escolhera e exigiu que o seu jovem defensor auxiliasse o seu ilustre colega.

A partir de então, o nome de Lachaud ficou associado ao “processo Lafarge”, embora ele só estivesse atuando na parte referente ao furto das joias.

E Lachaud defendeu Madame Lafarge dessa acusação, com todo o seu coração e todo o seu talento.

Ele também era jovem, cheio de ardor e dedicação, possuía tesouros de talento e de eloquência em reserva, e queria gastá-los. E, assim, consagrou-se inteiramente à defesa dessa jovem de 24 anos, cujo fascínio e beleza seduziam a quantos a cercavam.

Apesar do talento e esforços de Lachaud, auxiliando a defesa feita pelo advogado Maitre Paillet, contratado pela família da acusada, Madame Lafarge foi declarada culpada e condenada a trabalhos forçados, pelo resto da vida.

Após a condenação, Madame Lafarge não se desacreditou. Conservou os seus partidários e os seus defensores.

Na prisão de Tulle, recebia mais de 6.000 cartas por ano: cartas de dó, ofertas de auxílios pecuniários e, sobretudo, declarações de amor ou pedidos de casamento, feitas por ingleses ricos ou americanos excêntricos.

Durante o seu cativeiro, escreveu um livro intitulado “Horas de Prisão”, que, segundo os historiadores, contém belíssimas páginas.

Em 1852, finalmente, escreveu ao príncipe Luiz-Napoleão, presidente da República, não para lhe pedir graça, mas justiça. Na carta, dizia que era inocente e que há doze anos se desesperava diante da justiça dos homens. Mas, agora apelava para ele, o Príncipe, que representava a justiça divina na face da terra. Dizia não estar implorando a liberdade da ventura, mas recorrendo ao meio de oferecer a Deus o triunfo do seu direito. Invocava também a figura do seu falecido pai, que se vivo fosse, só encontraria um nome bastante grande para transformar um ato de clemência num ato de justiça. E esse nome era o dele, o Príncipe Luiz-Napoleão. E finalizava a carta, rogando-lhe Graças pela memória e pela honra do seu pai, que o conhecia, e Justiça para ambos.

Napoleão concedeu a graça implorada e Madame Lafarge voltou ao seu casarão de Glandier, que ficara deserto durante mais de doze anos.

Na prisão, alimentara ingênuas ilusões de que, ao sair de lá, seria recebida com flores em sua aldeia e que em sua homenagem o povo faria uma recepção triunfal.

Para sua decepção, nada disso aconteceu. Os habitantes de Glandier receberam-na muito mal, e quando ela passeava pela aldeia, ouvia o povo murmurar, à sua passagem, as palavras: “Ladra! Envenenadora!”

Madame Lafarge não gozou longamente de sua liberdade e faleceu algum tempo depois de sua saída da prisão. No seu leito de morte, reuniu os amigos fieis e, diante do sacerdote, fez essa declaração suprema: “”Vou comparecer perante Deus para ser julgada. Diante dele, protestarei a minha inocência!”

Faleceu em 1853 e, durante vários anos, Lachaud nunca deixou de cuidar do seu túmulo, com um piedoso respeito e nele sempre mandava depositar flores.

O célebre criminalista sempre julgou Madame Lafarge inocente, antes, como depois de sua condenação. Sua convicção sobre isso era inabalável. Considerava-a uma vítima da tirania diabólica da sogra. Para ele, ela fora esmagada por uma fatalidade, mais cruel do que todas as sombrias fatalidades que pudessem existir. Dizia que essa mulher era dona de um coração prodigioso, que o compreendeu, num momento em que ele ainda estava se encontrando. E que depois da condenação, ela chegou a lhe dizer: “Meu amigo, sinto-me bem feliz, por minha desgraça ter favorecido o seu destino!”

Em 1844, depois de inúmeros triunfos, Lachaud se mudou para Paris, e ainda que chegasse precedido de sólida reputação, os seus começos foram penosos, entre o numeroso corpo de advogados que ali atuavam.

Pouco tempo depois, casou-se com a filha do acadêmico Ancelot, que acabava de se arruinar numa desastrosa exploração do teatro de vaudeville. Lachaud reuniu todos os credores de seu sogro, responsabilizou-se por todas as dívidas deste e saldou-as integralmente. Esse foi um dos muitos gestos que marcaram a generosidade delicada e inesgotável de Lachaud.

O grande criminalista não tardou a conquistar, entre os advogados de Paris, o lugar que lhe cabia. Advogou, principalmente, perante o Tribunal do júri. Era para lá que tendiam a sua natureza e o seu talento.

Lachaud morreu em 9 de dezembro de 1882. Ao sentir que estava no fim, pediu para ser transportado para o seu escritório, à rua Bonaparte, onde tantas misérias tinham vindo procurar consolo, e onde tantas confidências dolorosas lhe haviam sido feitas.

Morreu com os olhos fitos num quadro, representando uma mulher jovem, de uma beleza grave e melancólica, de longos cabelos anelados e grandes olhos negros. Era o retrato daquela, a quem ele devotara um culto apaixonado, cuja defesa fora a ideia fixa de sua vida. Era o retrato de Madame Lafarge (ou Marie Capelle), protagonista do crime que o tornou famoso.

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A BACIA

Agenor Maria foi marinheiro tatuado. Estava no navio “Vital de Oliveira, torpedeado em águas da Bahia, durante a 2ª guerra. Salvou-se por milagre, pois 30% dos seus colegas morreram. Comboiou, no destróier “Maranhão” (contratorpedeiro), os navios brasileiros que faziam a rota Rio-África durante todo o ano de 1944 e, em 1945 voltou para São Vicente, no Seridó (RN), sua terra natal.

Agricultor, candidatou-se e foi eleito vereador pelo PSD (1954-1958).

Fundou a Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte em 1960, quando já estava entrosado na política.

Foi eleito deputado estadual em 1962, pelo PDC (Partido Democrata Cristão) e, após a extinção dos partidos políticos, foi candidato, em 1966, a deputado federal, pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), obtendo 13.045 votos e ficando como suplente. Quando Aluízio Alves pediu licença, Agenor Maria assumiu.

Na crise de dezembro de 1968, o Congresso foi fechado. Tudo cercado de soldados, Agenor Maria, saindo do “corredor polonês”, olhou para trás, viu as duas conchas do edifício do Congresso, desenhadas no horizonte imenso de Brasília, e fez uma jura:

– SÓ VOLTO AQUI, SE FOR PARA A OUTRA BACIA.

A maior ascensão da carreira política de Agenor Maria aconteceu em 1974, quando, com o apoio de Aluízio Alves (Angicos-RN), extraordinária força política do MDB no Rio Grande do Norte, elegeu-se Senador da República (1975-1983).

Em 1974, uma hora da manhã, na boleia do seu caminhão, levando mercadorias de João Pessoa para Currais Novos, quando passava pelo posto de Parnamirim (RN), um portador o aguardava com uma carta do deputado Henrique Eduardo Alves, chamando-o a Natal no dia seguinte, para uma reunião.

O assunto tratado nessa reunião foi quase uma intimação, para que ele fosse candidato a senador pela Oposição. Agenor Maria aceitou e foi eleito.

No dia da posse, no Senado, em Brasília, o nordestino vitorioso, ex-marinheiro tatuado e agricultor, que trabalhava honestamente transportando mercadorias no seu caminhão, por ele mesmo dirigido, olhou de longe o edifício do Congresso, viu as duas conchas de Oscar Niemeyer desenhadas no horizonte azul e lembrou-se do juramento feito seis anos atrás:

– CUMPRI MINHA JURA! VOLTEI MESMO PARA A OUTRA BACIA, A BACIA EMBORCADA!

A oposição venceu dezesseis das vinte e duas disputas para o Senado, quando Agenor Maria foi escolhido para representar os potiguares na Câmara Alta do país, até ser eleito deputado federal pelo PMDB, em 1982.

Agenor Maria era considerado uma das grandes forças políticas do Seridó, e do Rio Grande do Norte no Congresso Nacional. Durante o período em que esteve, tanto no Senado, como na Câmara, defendeu a agricultura e os trabalhadores, sempre mostrando-se preocupado com a situação econômica, pela qual o Brasil estava passando, e ainda com a situação de outras áreas importantes.

Agenor Nunes de Maria, natural do Rio Grande do Norte, filho de Antônio Inácio de Maria e Júlia Nunes de Maria, nasceu em São Vicente (RN), em 16.08.1924 e faleceu em Natal (RN), em 14.06.1997.

Um homem íntegro, simples, agricultor, e com grande vocação política. Sua atuação engrandeceu a história política do Rio Grande do Norte. Se vivo fosse, hoje estaria entre os “fichas-limpas” do Brasil. Vereador, deputado estadual, deputado federal e senador(1075-1983) pelo Rio Grande do Norte, esse homem “do povo” não se deixou corromper pela volúpia do poder.