VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AS GATAS

Uma gata branca, da raça Angorá, com um olho verde e o outro azul, entrou em nossa casa, em Nova-Cruz (RN), por livre e espontânea vontade, e lá ficou. Bem acolhida pela minha mãe, recebeu o nome de Vélvete, Passou a fazer companhia a Verinha, outra gata branca, da mesma raça, que minha mãe criava.

Gata angorá branca: um olho verde outro azul

As duas gatas tornaram-se muito amigas e, às vezes, escapuliam para passear. Quase sempre, voltavam prenhas e se aboletavam pela casa, sem dar satisfação de suas proezas. Deram cria mais de uma vez, e os gatinhos eram disputados pelas amigas da minha mãe.

Pois bem. Certo dia, as duas gatas sumiram pela manhã, somente retornando à tardinha. Verinha entrou em casa, sozinha e assustada. No quintal, estava Vélvete, deitada ao pé do muro, completamente sem pêlo, gemendo baixinho, como quem pedia socorro.

Numa cena de cortar coração, minha mãe chorou de pena da gata e também de revolta, contra quem tivera a coragem de praticar um ato tão perverso. Alguém tinha jogado água fervendo em Vélvete, tirando-lhe todo o pêlo. Logo ficamos sabendo, através da empregada da vizinha, que a autora desse ato vil fora sua própria patroa. Adiantou que a mulher odiava gatos e costumava enxotar a vassouradas, qualquer um que entrasse no seu quintal. E jurava de morte todos os gatos que apareciam lá, inclusive as duas gatas da minha mãe.

Gata mourisca

Vélvete e Verinha gostavam de passear em cima do muro do quintal da nossa casa, e, uma vez por outra, pulavam para o quintal da vizinha. Voltavam correndo e apavoradas, sem ninguém saber por que. Até que a empregada da vizinha descobriu que a mulher enxotava as gatas a vassouradas. Mas, nesse dia fatídico, ao invés das vassouradas, a megera armou-se com uma panela de água fervendo, para jogar nas gatas. Verinha foi mais ágil e fugiu, mas Vélvete foi atingida.

Ao ouvir as lamentações e o choro de Dona Lia diante daquela maldade, a vizinha ainda teve o cinismo de se solidarizar com ela, mostrando-se também indignada e rogando praga a quem tivesse feito aquela maldade. Não imaginava que a sua empregada houvesse cochichado tudo com a empregada da nossa casa.

Foi um dia de juízo. A gata ficou mofina, sem aceitar comida e terminou morrendo.

Tempos depois, apareceu dormindo em cima da cisterna da nossa casa, uma gata rajada. Dona Lia logo se tomou de amores por ela e a “batizou” de Belinha. Bem alimentada, a gata vivia passeando, mas sempre voltava. Entrava, em busca de comida e gostava de dormir em cima da cisterna.

Gata branca angorá

Certo dia, minha mãe a viu dormindo, novamente, em cima da cisterna, depois de ter andado sumida durante alguns dias. Carinhosamente, alisou a cabeça de Belinha e lhe falou baixinho:

“Linda de Vovó!!!”

Belinha abriu os olhos e sorriu para ela, com um sorriso aberto e expressão de felicidade. Daí por diante, sempre que minha Mãe a agradava, a gata abria um sorriso encantador.

E ai de quem ousasse duvidar disso. Ela respondia veementemente:

– Podem acreditar! Belinha sorriu pra mim!

O cachorro que Roberto Carlos cria espera por ele no portão e lhe sorri latindo. E ele conta isso numa música… Todo mundo acredita e aplaude.

Pois, Belinha, uma pobre gata nordestina, também sorri pra mim…

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HOMENAGEM ÀS MÃES

Por uma convenção delicada e poética, o segundo domingo de maio é consagrado às Mães. 

É por isso que hoje, dia 9 de maio de 2021, homenageio aqui todas as mães, na figura inesquecível de Dona Lia, minha saudosa e querida Mãe.

O “Dia das Mães” é um dia de alegria para uns, e de profunda saudade para outros. Mas, antes de tudo, é um dia de reflexão, agradecimento e louvor a Deus.

Trago no coração um cravo branco, que representa a saudade da minha Mãe, transformada em flor.

Aos olhos de minha alma, desfila, no dia das Mães, uma legião de abnegadas criaturas, dignas de respeito, admiração, e, às vezes, também de pena. São as Mães.

No meu pensamento, vão passando, uma por uma.

Homenageio as Mães, na verdadeira acepção da palavra:

Mães batalhadoras, que lutam desesperadamente pela felicidade dos filhos, e os defendem como verdadeiras leoas;

Mães, que ainda hoje tem gravado na retina, o primeiro sorriso que iluminou o rosto do seu filho, agora já adulto;

Mães que, neste momento, estão curvadas sobre o leito do filho enfermo, implorando a Deus que lhe salve a vida;

Mães jovens, quase meninas, vítimas do problema da prostituição infantil, que embalam no berço um ser pequenino, e sempre cantam com vontade de chorar;

Mães aflitas, que, chorando, esperam que seus filhos saiam da prisão, onde cumprem pena, por crimes que elas não acreditam que tenham cometido. A miséria os arrebatou de seus braços, jogou-os nas ruas, e os transformou em temidos marginais;

Mães que, prematuramente, perderam seus filhos, e tentam abafar a sua dor, com gemidos e lamentos. Sei que elas os veem em sonhos, e os acariciam num doce enlevo. Mas, quando despertam, tornam a mergulhar na dolorosa saudade;

Mães velhinhas, que passeiam, tropegamente, os seus últimos anos, ou seus últimos dias, pelos pátios silenciosos e tristes dos asilos. Os filhos as esqueceram e lhes deram uma morte antecipada.

Quando a mãe beija o filho, sua alma se ajoelha. Há no seu beijo a multiplicação da vida e o calor dos grandes ideais. Se o filho sofre, seu beijo tem o sabor de todas as consolações, pois a mãe absorve, integralmente, as suas dores.

Se o filho está feliz, seu beijo é de alegria; anima-o, nesse instante, com um turbilhão de esperanças. Somente seus lábios sabem dizer a verdade e proferir palavras que salvam e abençoam.

O coração dessas mães é um relicário precioso, onde está guardado o mais puro dos amores.

No dia das Mães, o olhar de todas elas se enche de luz e esperança. Há, em torno delas, um murmúrio constante, um sussurro de vozes amigas, que ecoam em seus corações.

E elas acreditam que seja a voz dos seus filhos, que, perto ou distante, repetem:

– A BENÇÃO, MINHA MÃE!

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OS LENÇÓIS

Na sua venda, que na verdade era um armazém de Secos e Molhados, Francisco, meu pai, vendia em grosso e a varejo.

No grande depósito, entre diversas mercadorias, ele estocava açúcar da Usina “Estivas”, comprado em sacas de 60 quilos, feitas de tecido de algodão rústico. À medida que o açúcar ia sendo despejado num depósito de madeira com tampa, para ser vendido a granel, ou seja, no peso, as sacas vazias eram levadas para nossa casa por dona Lia, minha mãe, que as colocava de molho e depois de bem lavadas, secas e passadas, as transformava em panos de chão, para serem usados na limpeza doméstica.

Como eram muitas sacas, minha mãe costumava doá-las, ainda sujas de açúcar às pessoas que lhe pediam. Algumas donas de casa usavam essas sacas, para confeccionar lençóis e fronhas, para uso da família, e ainda panos de prato, tudo isso ornamentado com bonitos bordados, feitos pelas donas de casa habilidosas nessa arte. Segundo elas, não havia lençóis mais macios do que esses feitos com sacas de açúcar, de puro algodão.

Nesse tempo, a roupa de cama era costurada em casa, numa máquina de costura, quase sempre da marca “Singer”, movida a pedal. Não havia máquina a motor, já que ainda não havia energia elétrica na cidade. Comprava-se em peças um tecido de algodão, apropriado para esse fim (bramante).

Antigamente, últimas décadas do século passado, quando ainda não havia chegado o estrondoso desenvolvimento tecnológico, os armazéns ou “vendas” existiam em cada esquina. Esses pequenos mercados eram a maior, e, às vezes, a única fonte de venda de mantimentos para a população, principalmente nas cidades do interior do Estado.

Nesse tempo, os dias eram calmos e não havia violência. As mães podiam mandar um filho sozinho a alguma venda, comprar alguma coisa de última hora e pedir ao dono para anotar na caderneta.

Esse era o único sistema de crediário que havia na época. Era muito seguro e, dificilmente, um freguês não cumpria a obrigação de pagar a caderneta, no dia em que recebia “o ordenado”.

Era um tempo em que a desonestidade ainda não tinha nascido. A palavra empenhada valia mais, do que o papel e a letra.

O dono da venda, geralmente, sabia de cor os dias em que cada freguês recebia seu ordenado (palavra usada para “salário” ou “vencimento”, naqueles tempos). Com tranquilidade, esperava o pagamento das dívidas do mês, para aquela data.

As crianças iam àquelas vendas aconchegantes, “compravam” o que a mãe havia pedido, e mais um chocolate ou um drops, com a sua autorização. Ficava tudo anotado na “caderneta”.

Nas cidades do interior, todos se conheciam pelo nome, e todos confiavam uns nos outros.

Nas vendas, ou “armazéns de Secos e Molhados”, havia sempre uma balança sobre o balcão, para pesar as mercadorias, que seriam vendidas a granel.

Com o tempo, as balanças antigas foram substituídas pelas da marca “Filizola”, mais modernas e bonitas, com o marcador do peso à mostra, em ponteiros. Os antigos “pesos”, aos poucos, foram abolidos.

A “Caderneta”, portanto, era o “cartão de crédito” de antigamente. Todas as pessoas da cidade tinham conta corrente em alguma venda ou armazém. Compravam o mês todo e pagavam quando saía o “ordenado”. Os calotes quase não existiam. Também não existia o supérfluo, que hoje, com as “parcelinhas” do verdadeiro “cartão de credito” “enlouquece” os compradores compulsivos e desordenam as finanças da família.

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O BRINQUEDO

Paulina, uma menina de 5 anos de idade, perde os pais e o seu cachorrinho de estimação, em um ataque aéreo sobre a França, quando fugiam de Paris, ocupada pelos nazistas, durante a Segunda Guerra.

Ao se perder do grupo de refugiados, a órfã, completamente desvairada, vagando pelo campo e levando nos braços seu cachorrinho morto, é recolhida por Michel, um menino de dez anos, que a leva à fazenda dos pais, onde morava.

Enquanto seus pais estavam ocupados, ajudando aos necessitados, esqueciam de que o filho também precisava deles. Paulina e Michel criaram o seu próprio universo.

A órfã amargava a morte dos pais e do seu cachorrinho, Toli, seu único brinquedo. As perdas se fundiam numa só, provocando uma gigantesca dor, que lhe dilacerava a alma.

Na fazenda, onde foi acolhida pelos pais de Michel, a menina foi aconselhada por ele a enterrar o cachorro, antes que entrasse em decomposição. Juntos, procuraram um local discreto, entraram num terreno onde havia um moinho em ruínas, e lá, enterraram os restos mortais do cachorrinho.

Penalizado com a tristeza de Paulina, Michel fez com ela um pacto de que, naquele local, eles fariam um cemitério para os pequenos animais, que encontrassem mortos pelos caminhos. Esse segredo seria somente deles.

E os dois se empenharam numa “missão”, à procura de cruzes, para ornamentar as covas do cemitério de animais. Encontraram um velho cemitério de humanos e de lá retiraram cruzes dos antigos túmulos, levando-as para o cemitério secreto. Ali, passavam os dias, enterrando alguns animais que encontravam mortos, e brincando.

As duas crianças passaram a ter uma forte ligação fraternal, comungando do mesmo pensamento em relação à morte, com certo temor, respeito e, talvez, até com sentimento de admiração. Havia entre elas, uma identidade de almas, que somente a espiritualidade seria capaz de explicar.

A Cruz, o mais marcante símbolo da cristandade, na cabeça das crianças, seria apenas um elo de ligação entre a vida e a morte. Lembrava os momentos da vida, felizes e infelizes.

Acostumaram-se com a morte, por já terem estado frente à frente com ela, escapando como por milagre, nesses tempos de guerra.

Tornaram-se grudadas uma na outra, em face da escassez de amor que sentiam diante da vida; ela, por ser órfã de pai e mãe; e ele, em virtude dos pais terem esquecido de que o filho era quem mais precisava de atenção, amor e carinho. Muito mais do que os necessitados, a quem eles ajudavam todos os dias. Michel não era tratado com carinho pelos pais, como desejava. E o menino sofria com isso.

A morbidez gerada nessas crianças, pelos males da guerra, e a falta de orientação, as tornaram indiferentes a certos valores, como o respeito aos túmulos dos humanos do velho cemitério. As raras pessoas, que visitavam os antigos túmulos dos seus mortos, passaram a estranhar o sumiço das cruzes, mas não imaginavam que aquilo fosse obra de crianças, pois, normalmente, crianças não se interessavam por cemitérios.

O caso de Paulina e Michel era diferente. Os traumas da guerra fizeram com que eles se familiarizassem com as perdas. Na inocência própria das crianças, acostumaram-se a brincar com animais mortos, como consequência da carência afetiva e do sofrimento, que desde cedo conheceram.

Abriam as covas mais antigas, dos animais por eles enterrados, e até brincavam com os ossos que encontravam.

Não tinham noção da gravidade do que faziam.

A Cruz, símbolo religioso que representa a morte e o fim da vida, também não era brinquedo para crianças.

O resultado dessa brincadeira, no fim do dia, era o violento retorno da tristeza e o sentimento de abandono, no caso de Michel. No caso de Paulina, batia a saudade, e a vontade de ter seus pais e o seu cachorrinho de volta.

E os dois choravam juntos, olhando para o Céu, à espera de uma milagrosa aparição.

Somente saudade era o que a menina sentia.

E Paulina se apegou a Michel de forma doentia, dependendo dele emocionalmente. Quando ele se afastava, vendo-se sozinha, ela chamava por ele, quase em pânico, sentindo-se insegura e abandonada.

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VERDES VALES

No começo do século XX, no pequeno vilarejo “Verdes Vales”, onde morava, Toni, um trabalhador de mina de carvão, agora com mais de cinquenta anos, em lágrimas, se preparava para deixar sua terra natal para sempre. Sentia-se decepcionado com a vida, pois todas as pessoas que conheceu e amou estavam mortas ou haviam se mudado dali.

Ao juntar seus poucos pertences, na cesta em que sua mãe costumava trazer as compras da feira, jorraram da sua memória, lembranças de sua infância, quando a fuligem do carvão, extraído das minas, ainda não havia destruído o verde do seu vale.

Nos primórdios do capitalismo, a precariedade das condições de trabalho e o amadurecimento da consciência operária tiveram sérias consequências.

Passavam pela lembrança de Toni, centenas de mineiros deixando a mina, depois de passar pelo caixa e receber a paga da semana. Eles desciam pela rua, margeada por muitas casas conjugadas, todas iguais, cuspindo fumaça pelas chaminés. Ali havia uma fábrica com vila operária, coisa muito comum em situações em que o empreendimento capitalista se estabelecia num vale verde, distante dos centros urbanos. O dono precisava garantir suprimento de força de trabalho.

Toda a família de Toni era de mineiros. O pai, Gildo Moura, e os 5 irmãos adultos estavam entre as centenas de operários, que desciam a rua, em direção à mina, ao amanhecer. No fim do dia, a mãe, Dona Dulce, os aguardava na porta de casa, como também as esposas dos outros mineiros. Ao avistar o marido e os filhos na multidão, a mulher sentava-se num banquinho, estendia o avental e recebia nele o dinheiro que traziam. Aparentemente, ela era a guardiã da renda familiar, mas, na verdade, a poupança era controlada também pelo marido. A sobrevivência da família dependia do dinheiro do pai e dos 5 filhos.

O irmão mais velho se casou com uma bela jovem, Margarida, e houve uma grande festa, com muita comida e bebida.

No dia seguinte, os operários foram surpreendidos por um aviso, afixado na porta da fábrica, de que a paga por turno seria reduzida. Houve revolta e protesto, mas Gildo Moura, o porta-voz dos operários, pai de Toni, convenceu a todos ignorar o aviso e trabalhar normalmente.

O vilarejo vivia em função da mineradora, que empregava todos os seus homens. Os mineiros não tinham sindicato; apenas o porta-voz, que levava as reclamações ao patrão. Todos confiavam em Gildo, por ser o mineiro mais velho e mais experiente.

Ao chegar em casa, o pai encontrou os cinco filhos com os ânimos acirrados. Informaram-lhe que o corte de salário era decorrente do fechamento de uma mina próxima, e por isso tinha gente querendo trabalhar por qualquer preço. O pai perguntou aos filhos onde iriam arranjar poder para pressionar o patrão, e o mais velho, Ivo, respondeu que teriam que fundar um Sindicato.

Contrariado, o pai perguntou de onde eles tinham tirado essa ideia socialista. E deu por encerrado o assunto. Não houve diálogo entre pai e filhos, tendo em vista os valores tradicionais.

A mudança nas relações trabalhistas, dos mineiros com o dono da mina, ocorreu como num passe de mágica. De repente, estabeleceu-se a crise, com o corte da metade dos salários, o que causou uma revolta geral, exceto por parte do porta-voz. Ele ainda acreditava na generosidade do patrão, até que o homem fez valer o despotismo do mercado, reduzindo os salários, em função do aumento da oferta da mão de obra na região. E o pior: Puniu o porta-voz, por ter ido apresentar-lhe a reclamação dos operários. Colocou o velho mineiro para trabalhar ao relento, sob a chuva pesada, contando os carrinhos de carvão que saiam da mina. Isso revoltou a todos, principalmente aos seus 5 filhos mineiros.

No jantar, eles disseram ao pai que a punição fora injusta, e que ele morreria, quando chegasse o inverno. Mas, o velho e orgulhoso pai os proibiu de usar sua situação humilhante para “fazer política”. Ainda insistiu em dizer que confiava no patrão e que tinha certeza de que nenhum dos antigos mineiros seria demitido.

Houve uma grande tensão entre pai e filhos, vindo à tona valores tradicionais, como também a impessoalidade das relações de trabalho, agora mediadas por um sindicato, sob o jugo do mercado atual. A tensão resultou no abandono do lar pelos cinco filhos, na mesma noite. Apenas ele, Toni, o caçula, permaneceu com os pais.

No dia seguinte, os operários entraram em greve, liderada pelo Sindicato, cujos dirigentes permaneciam na clandestinidade.

Transcorridas várias semanas, sem que se resolvesse o problema salarial, a situação começou a provocar discórdia entre os operários, em razão da fome e do desespero. A maioria se voltou contra o velho Gildo, o porta-voz, por ter se posicionado contra a greve. Uma reunião sindical foi convocada, para discutir a punição a ele, mas sua esposa, Dulce, acompanhada de Toni, o filho caçula, foi até lá e ameaçou de morte aquele que fizesse alguma coisa contra seu marido.

Na volta para casa, ela e o filho caíram num rio. Os mineiros escutaram os gritos de socorro e vieram retirá-los. Toni perdeu os movimentos das pernas. O prognóstico foi de que passaria dois anos sem andar. A mãe também ficou de cama por alguns dias.
O infortúnio inesperado acabou reaproximando pais e filhos e também a família do resto do coletivo operário. Mais uma vez, a tradicional solidariedade aproximou os que se haviam dividido na greve.

A greve terminou depois de meses, e só pôde durar tanto, em razão do sindicato e seu fundo de greve. Na verdade, greves longas eram típicas dos primórdios do sindicalismo, quando a intransigência patronal testava os limites da resistência operária, através da fome e do desespero. E depois, por meio de retaliações aos grevistas.

Os trabalhadores voltaram ao trabalho, sem a alegria de sempre. Nem todos conseguiram passar pelo portão da mina. Os que ficaram de fora descobriram que não haveria mais trabalho para eles no vale. Dentre os que ficaram de fora, estavam os dois membros mais jovens da família de Gildo.

Os dois, então, comunicaram à família que iriam se mudar dali, à procura de trabalho. E ao anoitecer, deixaram a casa dos pais.

Toni voltou a andar, e se preparou para prestar exame para a escola pública nacional. Foi aprovado e teve ótimo desempenho, classificando-se para a universidade. O pai perguntou-lhe se queria ser médico ou advogado. e para seu desapontamento, o rapaz escolheu trabalhar na mina e ficar no vale com a família.

Pesou em sua decisão, um grande acidente na mina, no qual mais de 100 mineiros ficam presos, e entre os mortos estava o irmão mais velho, Ivo, o líder sindical.

Houve uma grande decadência nas condições de vida do vale e nas condições de trabalho na mina. Operários experientes foram substituídos por crianças e adolescentes, ganhando um décimo dos adultos, cujos salários já estavam baixos, em razão do desemprego nas regiões vizinhas. E receberam o aviso de que seriam substituídos por pessoas que aceitassem salários menores. Muitos resolveram emigrar, à procura de melhores condições de vida.

Outro grande acidente veio, de novo, comprovar que o trabalho na mina é perigoso e fatal. Desta vez, matou o patriarca Gildo Moura, cujo corpo foi recuperado pelo filho Toni e outros colegas mineiros.

Cansado de decepções, e sentindo-se vencido, Toni relembra a tragédia de sua família, mais de 30 anos depois, após idas e vindas ao vale. Desta vez, ele diz e repete para si mesmo, que está saindo para nunca mais voltar, já que todas as pessoas que amou ou conheceu já tinham morrido ou se mudado. Só lhe restavam agora as recordações de um tempo feliz, quando todos estavam vivos e quando o seu vale ainda era verde.

O cenário da cidade operária de Verdes Vales era, agora, o de uma cidade empobrecida e totalmente deteriorada, pela incessante emissão de fuligem das chaminés carvoeiras, asfixiantes e opressivas.

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“FAZER PINTO”

Nasci e me criei em Nova-Cruz (RN) e sempre ouvi este termo, extraído da sabedoria popular, “fazer pinto”. Significava furto pequeno de dinheiro, quase sempre feito por filhos, que queriam comprar alguma coisa e os pais não concordavam. Quando os pais notavam que tinham sido lesados, os filhos eram punidos com carões e proibições de sair de casa.

No entanto, se o furto de dinheiro, mesmo de pequeno valor, fosse feito entre pessoas estranhas, não era aceito como “um pinto”, nem “danação” de adolescente. Tinha a conotação de crime previsto no Código Penal.

Se um empregado fizesse “pinto” no caixa do patrão, no mínimo, estaria despedido.

Moças e rapazes se gabavam de “fazer pinto” na carteira do pai ou na bolsa da mãe, para pagar alguma coisa do seu interesse, sempre de valor pequeno.

Em suma, “fazer pinto” estava ligado a surrupiar pouco dinheiro, de alguém da família, aos poucos, e sem que a pessoa lesada percebesse logo.
Fazer pinto ficou conhecido como o ato de subtrair dinheiro em casa, do pai ou da mãe, em pequeno valor, para gastar com alguma coisa supérflua. Quando os “pintos” saíam do âmbito familiar, e eram vultosos, o caso mudava de aspecto e o autor levava nome de ladrão. “Fulano enriqueceu dos “pintos” que fazia no trabalho.” “Sicrano ganhava muito bem, fora os “pintos” que fazia.”

Américo Pinto, boêmio cearense, que há anos morou em Natal, repetia sempre: “Sou Pinto, mas não faço “pinto.”

Pois bem. Um rapaz bonito e boçal casou-se com uma moça feia, filha única de um grande vendedor de galináceos, que fornecia galinhas às casas particulares, hospitais, hotéis etc.

O rapaz, que antes era pobre e andava mal vestido, do dia pra noite, apareceu com roupas elegantes, e passou a frequentar a alta sociedade, gastando muito com bebidas caras, festas etc. Tornou-se um gastador compulsivo e vaidoso.

Quando as pessoas que o conheceram pobre, lhe perguntavam a origem da sua fortuna, insinuando que ele só podia ter sido sorteado na loteria federal, ele ria e dava sempre a mesma resposta:

-São os “pintos”.

E era verdade. A fonte do farto dinheiro que ele “rasgava” era oriunda da venda dos pintos da criação do sogro. Estava criando coragem, para se apossar também, do dinheiro da venda das galinhas.

Para ele, não era crime “fazer pinto”. Era a mesma coisa de “fazer dinheiro”.

Na cabeça do desonesto, quando muito, “fazer pinto” é um pecado venial. Porém, os mais antigos não admitem isso e consideram pinto uma desonestidade.

“Fazer pinto” não deixa de caracterizar um furto, mesmo em pequenas proporções. Daí o ditado popular: “cesteiro que faz um cesto, faz um cento”. Quem costuma “fazer pinto” é um ladrão em potencial.

O oitavo Mandamento da Lei de Deus está relacionado a furto ou roubo, caracterizando-os como crime. Roubar não é apenas tirar os bens de uma pessoa. Roubar também é não pagar o salário devido, ou pedir emprestado, sem devolver. Quem furta comete uma injustiça, ao se locupletar com aquilo que não lhe pertence.

Na realidade, Pinto era uma moeda de Portugal, também chamada CRUZADO NOVO, e valia 480 réis fortes. Vigorou do século XVIII a XIX. Muito citada na literatura portuguesa, essa moeda significava dinheiro miúdo.

Portanto, em Portugal, “pinto” não tinha nada a ver com a cria da galinha, nem tão pouco com pequeno furto. Pinto era dinheiro vivo e miúdo. Ali, fazer, tirar ou criar pinto era conseguir de qualquer maneira, honesta ou não, as moedas reluzentes de 480 réis portugueses.

A partir dessa moeda portuguesa, criou-se, no Brasil, a expressão corriqueira “fazer pinto”, com a conotação de “pequeno furto.”

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FARRAPO

Ele era um garoto órfão de pai e mãe, criado “como Deus criou batatas”. Praticamente, era mantido pela caridade pública. Seu almoço era um pedaço de pão, que alguém sempre lhe dava. Suas roupas eram verdadeiros farrapos, dados por alguma alma caridosa. Seu nome de batismo era João Batista, mas nem ele mesmo se lembrava, pois todos o chamavam de “farrapo”, referindo-se às roupas rotas que vestia.

Aos dois anos, quando perdeu os pais num acidente de carroça, passou a contar com a proteção da avó materna, que faleceu um ano depois. Restou-lhe, para o proteger, Donana, uma vizinha velha e cansada, que vivia na mais profunda miséria.

Muito criança ainda, Farrapo se acostumou a sair de casa todas as manhãs, para mendigar o pão de cada-dia. Ficava perambulando pelas ruas, levando no ombro uma velha mochila, onde colocava as esmolas recebidas. Como ainda era muito pequeno e raquítico, a única coisa que lhe restava era a mendicância. Ainda não tinha idade nem resistência física para nenhum trabalho. Escola, naquela época, era utopia.

Farrapo ficava deslumbrado, ao ver os meninos ricos da cidade, brincando nos parques e nos jardins de suas casas, com seus brinquedos maravilhosos. Eram coisas que ele nunca tivera, nem mesmo em sonho.

Parava para assistir as brincadeiras, evitando ser visto, e procurando sempre se esconder atrás de alguma árvore. O garoto ficava extasiado, imaginando-se no lugar dos meninos ricos, e sentindo até uma leve sensação de felicidade. Uma cena igual àquelas cantadas por Chico Buarque de Holanda, em “Até pensei” – “a felicidade morava tão vizinha, que, de tolo, até pensei que fosse minha…”. Demorava horas nesse enlevo.

Farrapo ficava admirando os carrinhos de plástico, os cavalos de pau, os velocípedes, as bolas e outros brinquedos, que ele jamais teria. Ele via a meninada, corada e bem nutrida, correndo e brincando, e ouvia, uma vez por outra, uma delas gritar:

– Babá! Babá!

Farrapo imaginava que “Babá” também fosse um brinquedo, que os meninos estavam pedindo.

Num certo dia, quando a alegria da meninada se espalhava sobre o gramado de uma casa muito rica, Farrapo se aproximou e ficou apreciando a brincadeira. Enfiou o rosto entre duas plantas, sem que ninguém o visse, e permaneceu olhando aquela felicidade, que estava tão perto dele. De repente, uma das serviçais que brincavam com as crianças foi esconder uma enorme bola, exatamente, no local onde ele se encontrava. Ao perceber a aproximação da moça, o garoto mudou o local do seu esconderijo. Mas a filha dos donos dessa casa rica, que havia se afastado das outras crianças, avistou-o entre as trepadeiras e dele se aproximou. Então, a menina lhe perguntou:

– Onde está sua Babá?

Farrapo respondeu:

– Eu não tenho. Não tenho brinquedo nenhum …

E a menina rica, que estava com um livro de estórias nas mãos, perguntou-lhe:

– Quer pra você? Ele tem muita figura bonita!

– Eu quero!… Respondeu Farrapo, com os olhos brilhando de felicidade.

E a menina rica lhe entregou o livro, sem que ninguém percebesse.

Farrapo saiu em disparada, correndo velozmente, e apertando contra o peito o único brinquedo da sua vida. Um mimo, que aquela menina rica lhe havia dado. Ao chegar à sombra de um frondoso cajueiro, por onde sempre passava, ele sentou-se no chão, fechou os olhinhos, e, abraçando fortemente o presente recebido, murmurou, cheio de felicidade:

– Ganhei uma “BABÁ!!! É a minha BABÁ!!!

Deitou-se ali mesmo, inebriado de felicidade, e adormeceu, certo de que o seu presente era o que as crianças ricas chamavam de Babá…

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LEMBRANÇAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, sinto uma saudade imensa da minha infância e juventude em Nova-Cruz, que, para mim, será sempre a minha “aldeia”. A Nova-Cruz, de um tempo em que a maldade não tinha nascido, e quando a vida era um doce mel, com a família toda reunida, sob as bênçãos de Deus e do nosso porto seguro, Francisco e Lia.

A Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos, com a entrada de Jesus em Jerusalém, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria.

O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se dizia palavrões, e quase não havia brigas na cidade. Era um período de reflexão, e esperança de um mundo melhor.

Nesse tempo, durante a Semana Santa, a religiosidade pairava sobre a cidade e o povo lotava a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, para participar dos ritos religiosos.

O ar que se respirava era melancólico, diante da expectativa de que Jesus morreria crucificado na Sexta-Feira da Paixão.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.

As comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco, de presente, feitos em Casa de Farinha, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.

Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, se relembra a traição de Judas Iscariotes, um dos Doze Apóstolos de Jesus Cristo.

“Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei. Ajustaram com ele trinta moedas de prata. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus ( MT 26, 14- 16)”

Judas representa todas as forças do mal, que se opõem aos planos maravilhosos de Deus.

À tarde, a Igreja ficava lotada, e os fiéis participavam do Ofício das Trevas.

Algumas pessoas, por ignorância ou fanatismo religioso, naquele dia, não tomavam banho, achando que iriam pecar e ficar entrevadas, por castigo de Deus.

Esses medos faziam parte da crendice popular, espalhada pelos recantos mais atrasados do Nordeste.

Em uma das Missões de Frei Damião, em Nova-Cruz, foi desmistificada essa crendice, e o santo Frade, no fim de suas pregações, falava:

“Todo mundo pra casa, tomar banho, inclusive na Quarta-Feira de Trevas. Não quero ninguém aqui fedendo a bacorinha!” (porco novo).

A Vigília Pascoal faz parte do Tríduo Pascoal, onde vivemos os passos de Jesus, rumo ao Calvário, ao Sepulcro e à Ressurreição. Esse Tríduo começa com a Quinta-Feira Santa, pela conhecida Missa do Lava-Pés”, por meio da qual, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio, com uma recomendação:

“Fazei isso em minha memória” (Lc 22, 19).

Na Quinta-Feira Santa, portanto, se comemora o Lava-Pés e a Última Ceia de Jesus com seus apóstolos, segundo o relato dos evangelhos canônicos. É quando se revive a traição de Judas, durante a Última Ceia. É o começo do martírio de Jesus, que, enxotado e levando chibatadas dos guardas, carregaria sua Cruz, para ser crucificado e morto na colina “Calvário”.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus Cristo estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o dia do “Beija”.

Nesse dia, minha mãe jejuava, alimentando-se apenas de pão e água, assim como outras pessoas católicas.

Paralelamente, na Sexta-Feira da Paixão, havia uma grande preocupação das famílias, de esconder suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos quintais nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.

O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e, às vezes, faziam isso por brincadeira.

Por preceito religioso, nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e abstinência de bebidas alcoólicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois, não se tirava leite naquele dia, “sob pena” de, ao invés de leite, o animal jorrar sangue. As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas. Os bares e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.

Adultos e crianças pobres, de casa em casa, faziam um apelo, na Quinta- Feira Santa e Sexta Feira da Paixão, pedindo esmolas:

– Uma esmolinha, pelo amor de Deus, pra minha mãe jejuar no dia d’oje!

Na Sexta-feira da Paixão, até a natureza silencia. O Cordeiro é imolado. Jesus, morre na Cruz, rezando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Sábado de Aleluia era um dia diferente e menos triste, uma vez que se revivia, e ainda se revive, a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo.

Havia a malhação de Judas, em praça pública, o que divertia crianças e adultos. Era um dia de alegria e Esperança, pois o Padre, na missa da madrugada, celebraria a Aleluia, em louvor à Ressurreição de Jesus Cristo.

Ainda por causa da crendice popular, havia pessoas ingênuas, que temiam que a Aleluia não fosse “encontrada” e o mundo se acabasse. Achavam que a Aleluia, cântico de alegria e ação de graças, ligado ao tempo da Páscoa e Ressurreição de Cristo, era uma pinta de sangue, dentro do livro de orações do Padre.

O sino da Igreja da Imaculada Conceição repicava, em regozijo pela Ressurreição de Cristo, enquanto o Padre celebrava a “Aleluia”, entoando cânticos de louvor.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada. Ao amanhecer, é o Domingo de Páscoa, ou Passagem, a festa da Ressurreição de Jesus Cristo.

A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes do Cristianismo. A Ressurreição de Jesus Cristo, prova que Ele é o Filho de Deus, feito homem.

De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.

No tempo da minha infância e juventude em Nova-Cruz, não se falava em Ovos de Páscoa, nem se dava presente de chocolates a ninguém. O mercado de chocolates era muito precário. E Ovos de Páscoa, lá, era utopia.

Terminava a Semana Santa e a saudade batia, pois os estudantes voltavam às aulas, inclusive aqueles que estudavam na capital potiguar. O fluxo de pessoas que passavam a semana Santa em Nova-Cruz era grande, Iam rever os parentes que lá residiam.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

“COCO VELHO É QUE DÁ AZEITE…”

A sabedoria popular é rica em adágios, que mexem com pessoas que já dobraram o “cabo da boa esperança” e estão na “pior” idade. Em contrapartida, os velhos revidam os gracejos, afirmando com convicção:

“Coco velho é que dá azeite”;

“A cavalo velho, capim novo”;

“À égua velha, cerca nova.”

“Maracujá só presta quando está murcho” (da música “Rela-bucho”, de Elino Julião);

“Panela velha é que faz comida boa” (da música “Panela Velha”, de Sérgio Reis);

Essas músicas engraçadas não deixam de conter uma homenagem ao pessoal “das antigas”.

Pois bem. Todo boato tem um fundo de verdade.

Eu era menina em Nova-Cruz, e presenciava uma antiga empregada da nossa casa raspar coco seco, já estragado, e levar ao fogo numa pequena panela, para fazer azeite e “hidratar” os cabelos encarapinhados. Era o “hidratante” caseiro que ela usava e por isso estava sempre com os cabelos alisados e lustrosos.

A jovem, afrodescendente, dizia que quanto mais velho o coco, mais azeite ela “apurava” no fogo”, para cuidar das suas madeixas. E o cabelo preto da empregava lustrava, de fazer inveja, com o uso contínuo de azeite de coco velho, de fabricação própria. Se o coco fosse novo, dizia ela que não servia, pois quase não dava azeite.

Sempre que ouço alguém se lastimando por ter entrado na “pior” idade, me lembro de Zefa, e repito o antigo adágio popular (de origem portuguesa), pra mim o melhor de todos: “Coco velho é que dá azeite.”

Quantas pessoas queridas partiram antes do tempo, deixando seus sonhos e amores, sem terem alcançado o progresso tecnológico, e tudo de bom que a vida continua nos oferecendo…É pensando nisso, que não ouso reclamar da passagem do tempo. O ideal seria que passasse mais devagar.

Dizer que o velho lembra rabugem, é uma ignomínia. Depende do “velho”, pois cada caso é um caso. Não foi em vão que Maurício de Sousa criou a figura do Cascão, que ensina a higiene pessoal às crianças. O idoso pode manter a mesma performance e elegância que teve na juventude, e alguns homens se tornam ainda mais charmosos na maturidade. Só não pode deixar de sonhar.

Nada é mais triste do que a morte de uma ilusão. Quando as ilusões se acabam, se pode continuar existindo, mas não se pode continuar vivendo.

A velhice, em si, é um estado de espírito. Nada de decadência, “enferrujamento”, ou frangalhos. A vida é uma dádiva divina, e o homem tem o direito de escolher entre viver com dignidade, sem querer competir com os jovens, ou tentar mascarar os anos, imitando os jovens e se tornando ridículo nos hábitos e escolhas.

O envelhecimento não é notado, quando se tem uma boa qualidade de vida, com saúde bem cuidada, alimentação saudável e cuidados médicos, a título de prevenção.

Devemos viver, como se cada dia fosse “O primeiro dia do resto da nossa Vida”(Título do romance de Kate Eberlem, encantador, revigorante e extremamente verdadeiro).

Devemos valorizar todos os momentos que a vida nos oferece, e aceitar com resignação, mesmo “aos trancos e barrancos”, as provações e percalços que encontramos pelos caminhos. A Vida não é o “ontem” nem o “amanhã”, mas apenas o “hoje”. Quanto mais nos chegarmos às pessoas queridas, incluindo-as na nossa vida, mais momentos de felicidade teremos.

Depois, de nada adiantará chorar sobre o leite derramado. Estamos todos no mesmo barco.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A MODINHA

A música, assim como o circo, é o pão que alimenta o pensamento do povo, ajudando-o a esquecer, mesmo por alguns momentos, as agruras da vida, e renovando-lhe a esperança de um futuro melhor.

Desde criança, aos três ou quatro anos de idade, me apaixonei pelas “modinhas”, com que minha mãe me ninava.

Ainda lembro, com saudade, do dedilhado do meu avô paterno, MANOEL URSULINO BEZERRA, em Nova-Cruz, se acompanhando ao violão, enquanto cantava suas modinhas preferidas, ajudado por Dona Lia (minha Mãe). Entre outras, as modinha preferidas eram:

– “Praieira” ou “Serenata do Pescador” (de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros -considerada o “hino nacional potiguar”) – “Praieira dos meus amores/ encanto do meu olhar/ Quero contar-te os rigores……”)

-“Sertaneja” (René Bittencourt – “Sertaneja, se eu pudesse/ e Papai do Céu me desse/ o espaço pra voar”…….)

-“Nênias” (Vicente Celestino – “Murcharam no jardim os crisântemos/ as magnólias se despetalaram….”)

-“O Pajem” (autor desconhecido – “Pesadas trevas, úmidas caíam/ e o castelo real silente estava……);

-“Ontem ao Luar” (Catulo da Paixão Cearense- “Ontem ao luar/ Nós dois em plena solidão/ Tu me perguntaste/ o que era a dor de uma paixão…”)

Eu me emocionava também com as músicas da “Hora da Saudade” , que meu pai sintonizava no rádio à bateria.

As belas melodias, cheias de lirismo e “dor de amor”, sempre me encantaram.

Durante a minha adolescência, o rádio, com seus discos e cantores novos, apagaram quase tudo o que de original se cantava em Nova-Cruz e em Natal.

À medida que o tempo passou, as modinhas foram ficando esquecidas. Em algumas rádios, ainda se podia ouvir, tarde da noite, programas como “A Hora da Saudade”.

A Modinha é uma canção, composta de melodia e versos, e tem a necessidade da voz humana para expressá-los.

A verdadeira modinha é sempre um poema musicado em tom menor, com conotações tristes. É um gênero musical de canção sentimental brasileira e portuguesa, cultivada nos séculos XVIII e XIX.

A Natal antiga, incluindo o começo do século XX, caracterizou-se por um grande número de poetas, e músicos que compunham as melodias.

Em Natal, antigamente, cidade pobre em divertimentos, havia o hábito da serenata, favorecido pelo clima tropical, que proporcionava luares inspiradores e estimulantes. A sua beleza, estendida entre o mar, o rio Potengi e o alviverde das dunas, completava a inspiração dos poetas.

Havia os saraus familiares e serenatas ao luar, com seresteiros e trovadores.

Os instrumentos usados para acompanhar as modinhas eram o cavaquinho e o violão. O bandolim era usado por mulheres.

Natal foi um dos melhores centros de poetas e músicos, produtores de modinhas. O povo sentia necessidade de versejar e cantar.

A modinha marcou época, por seu caráter urbano. Sua música é bonita, aconchegante e triste, tanto no que se refere á parte melódica, quanto rítmica e harmônica.

Os temas da modinha não refletiam o ambiente rural, e as composições eram essencialmente urbanas. Mesmo assim, a divulgação pelo interior era grande.

Quando as modinhas eram cantadas em saraus, o teor das poesias era compatível com o ambiente. Também eram cantadas por mulheres, sem ofender o recato da época.

Já a modinha “seresteira” podia ser mais livre, mais amorosa e dava mais vazão ao conteúdo emocional da poesia.

O seresteiro, geralmente, tinha um objetivo definido, pois cantava à janela da amada e lhe transmitia uma mensagem pessoal e sentimental. O conteúdo falava de “declaração de amor”, “decepção amorosa”, “paixões violentas”, “paixões sem amanhã” ou “traições amorosas”.

As serenatas, normalmente, eram incentivadas pelo consumo de bebidas, e eram feitas tarde da noite.

Em noites de lua cheia, grupos de amigos vagavam pelas ruas, cantando à porta de famílias conhecidas, muitas vezes avisadas com antecedência. Fosse pobre ou rica, a casa abria suas portas e os seresteiros eram recebidos com comida e bebida, o que fazia com que retomassem forças para continuar fazendo outras visitas. Assim, passavam a noite, até os primeiros clarões da madrugada.

Os excessos vividos pelos poetas e músicos seresteiros (“pândegos”, como eram chamados), os conduziam à debilidade orgânica, principalmente à Tuberculose, a chamada “doença dos poetas”, que, naquela época, era fatal.

Com a evolução, ou “revolução”, musical, houve uma fase de transição e as velhas modinhas, já alteradas em sua estrutura melódica e harmônica, transformaram-se na atual canção brasileira.

A produção musical da Natal, na época da modinha, faz com que ela mereça destaque no cenário da música brasileira.

A música brasileira atual só precisa de ritmo. Uns cantam, outros batucam e dançam. Com raríssimas exceções, não há termos de comparação entre o que, atualmente, se vê na mídia, e o cenário musical de antigamente, quando se musicava a pura poesia.