VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A BACIA

Agenor Maria foi marinheiro tatuado. Estava no navio “Vital de Oliveira, torpedeado em águas da Bahia, durante a 2ª guerra. Salvou-se por milagre, pois 30% dos seus colegas morreram. Comboiou, no destróier “Maranhão” (contratorpedeiro), os navios brasileiros que faziam a rota Rio-África durante todo o ano de 1944 e, em 1945 voltou para São Vicente, no Seridó (RN), sua terra natal.

Agricultor, candidatou-se e foi eleito vereador pelo PSD (1954-1958).

Fundou a Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte em 1960, quando já estava entrosado na política.

Foi eleito deputado estadual em 1962, pelo PDC (Partido Democrata Cristão) e, após a extinção dos partidos políticos, foi candidato, em 1966, a deputado federal, pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), obtendo 13.045 votos e ficando como suplente. Quando Aluízio Alves pediu licença, Agenor Maria assumiu.

Na crise de dezembro de 1968, o Congresso foi fechado. Tudo cercado de soldados, Agenor Maria, saindo do “corredor polonês”, olhou para trás, viu as duas conchas do edifício do Congresso, desenhadas no horizonte imenso de Brasília, e fez uma jura:

– SÓ VOLTO AQUI, SE FOR PARA A OUTRA BACIA.

A maior ascensão da carreira política de Agenor Maria aconteceu em 1974, quando, com o apoio de Aluízio Alves (Angicos-RN), extraordinária força política do MDB no Rio Grande do Norte, elegeu-se Senador da República (1975-1983).

Em 1974, uma hora da manhã, na boleia do seu caminhão, levando mercadorias de João Pessoa para Currais Novos, quando passava pelo posto de Parnamirim (RN), um portador o aguardava com uma carta do deputado Henrique Eduardo Alves, chamando-o a Natal no dia seguinte, para uma reunião.

O assunto tratado nessa reunião foi quase uma intimação, para que ele fosse candidato a senador pela Oposição. Agenor Maria aceitou e foi eleito.

No dia da posse, no Senado, em Brasília, o nordestino vitorioso, ex-marinheiro tatuado e agricultor, que trabalhava honestamente transportando mercadorias no seu caminhão, por ele mesmo dirigido, olhou de longe o edifício do Congresso, viu as duas conchas de Oscar Niemeyer desenhadas no horizonte azul e lembrou-se do juramento feito seis anos atrás:

– CUMPRI MINHA JURA! VOLTEI MESMO PARA A OUTRA BACIA, A BACIA EMBORCADA!

A oposição venceu dezesseis das vinte e duas disputas para o Senado, quando Agenor Maria foi escolhido para representar os potiguares na Câmara Alta do país, até ser eleito deputado federal pelo PMDB, em 1982.

Agenor Maria era considerado uma das grandes forças políticas do Seridó, e do Rio Grande do Norte no Congresso Nacional. Durante o período em que esteve, tanto no Senado, como na Câmara, defendeu a agricultura e os trabalhadores, sempre mostrando-se preocupado com a situação econômica, pela qual o Brasil estava passando, e ainda com a situação de outras áreas importantes.

Agenor Nunes de Maria, natural do Rio Grande do Norte, filho de Antônio Inácio de Maria e Júlia Nunes de Maria, nasceu em São Vicente (RN), em 16.08.1924 e faleceu em Natal (RN), em 14.06.1997.

Um homem íntegro, simples, agricultor, e com grande vocação política. Sua atuação engrandeceu a história política do Rio Grande do Norte. Se vivo fosse, hoje estaria entre os “fichas-limpas” do Brasil. Vereador, deputado estadual, deputado federal e senador(1075-1983) pelo Rio Grande do Norte, esse homem “do povo” não se deixou corromper pela volúpia do poder.

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A VILÃ

Maria Linhares, 69 anos, mulata, alta e um pouco gorda, era dona de uma vila de quartos de aluguel, no bairro da Ribeira, em Natal, década de 70 do século passado.

Muito moralista, com voz firme e forte, tinha suas regras. Alugava quartos somente a casais sem filhos. Às 22 horas, fechava o portão de ferro do “condomínio”, com um cadeado e ninguém mais entrava, salvo se arrodeasse e pulasse o muro.

De acordo com o seu regulamento, era proibido se tomar banho nos quartos, pois na vila só havia um pequeno banheiro coletivo, onde se levava água em um balde. Ali também havia um aparelho sanitário, feito de tijolos e coberto por uma tábua, onde circulavam baratas por dentro e por fora. Nos quartos, sempre apareciam escorpiões, prontos para atacar. Era um ambiente muito pobre e insalubre.

De pouca conversa, Maria Linhares vivia pensativa e triste, com os olhos fixos no nada, em que o destino a transformou. Quem a conhecesse nessa altura da vida, não poderia imaginar o passado criminoso que ela escondia.

Pois bem. Na mocidade, essa mulata bonita, descendente de angolanos, fora empregada doméstica e protagonista de amores e tragédias. Apaixonou-se por Daniel, o filho do seu patrão e os dois viveram uma aventura amorosa clandestina, que, somente para ela, foi um amor fatal. Meses depois, chegou-lhe aos ouvidos a notícia de que o rapaz estava noivo de uma jovem de nome Arlete, e o casamento já estava marcado.

Desesperada, a mulher passou a odiar a jovem Arlete e a paixão que sentia por Daniel tornou-se uma obsessão, mesmo o rapaz tendo posto um ponto final no caso.

Como cozinheira da casa dos pais de Daniel, Maria Linhares também foi encarregada de cuidar da casa nova, já mobiliada, onde ele e Arlete iriam morar depois de casados.

Arlete trabalhava numa loja do futuro sogro, na Rua Dr. Barata, no Bairro da Ribeira. Morava com os pais, irmãs e a tia Otília, jovem e solteira, sua amiga e confidente, no bairro da Cidade Alta. Levava uma vida tranquila e feliz, com o casamento já próximo.

Fingindo querer agradar, Maria Linhares sugeriu a Arlete que fosse até a casa nova, para ver a mobília comprada por Daniel e dar sua opinião sobre a arrumação.

Muito ingênua, a jovem prometeu que logo iria.até lá. Não imaginava que a empregada fosse apaixonada por seu noivo e já tivesse havido um caso entre eles.

A jovem, então, combinou com a tia Otília para, no sábado vindouro, na volta da praia, irem até à sua casa nova, para ver a mobília que Daniel havia comprado.

Na manhã do sábado, 24 de outubro de 1942, Arlete e a tia Otília, depois do banho de mar na Praia do Morcego, hoje Praia do meio, se dirigiram a pé à casa nova, na Av. Getúlio Vargas, esquina com a Rua Joaquim Fabrício, no alto do bairro de Petrópolis.

A empregada as esperava ansiosa, e expressou grande alegria ao vê-las. Arlete resolveu entrar no banheiro, para tomar um banho de água doce, e tirar do corpo o sal da água do mar.

Quando Arlete entrou no banheiro, imediatamente, Maria Linhares chamou Otília para ver a garagem. Lá, as aguardava um homem do tipo lombrosiano (tipo de pessoa com as características físicas definidas por Cesare Lombroso, como sendo as do criminoso nato) e aspecto apavorante. O homem agarrou Otília, enlaçando seu pescoço com um pano e apertando o laço, ajudado pela empregada, e sufocando a jovem, até matá-la por estrangulamento. Com a ajuda de Maria Linhares, o corpo de Otília foi, rapidamente, arrastado e jogado na vala que já estava cavada no fundo do quintal.

Depois de alguns minutos, Arlete saiu do banheiro e chamou pela tia. Maria Linhares respondeu, atraindo-a para a garagem e dizendo que ela e Otília estavam lá. E a jovem dirigiu-se à garagem. Logo à porta, o monstro avançou para ela, que deu um grito de pavor, ouvido pelos vizinhos. Mas, imediatamente, seu grito foi abafado com um pano enlaçado ao seu pescoço, que a sufocou. Novamente, com a ajuda de Maria Linhares, o laço foi apertado até matar Arlete estrangulada, como acontecera com a sua tia Otília.

O cúmplice de Maria Linhares, após o estrangulamento, despojou o cadáver de Arlete das joias que ela estava usando. Tirou-lhe os anéis, o relógio e, do pescoço, tirou um trancelim de ouro.

Era essa a sua paga, pela participação no crime de vingança, arquitetado por Maria Linhares, sua grande amiga.

Em seguida, os dois assassinos deram início à “cerimônia” do enterramento dos cadáveres. Ao pé do muro do quintal, já haviam cavado a areia frouxa do morro, e já estava feita a vala, que supunham ser a última morada das duas jovens, Otília e Arlete. Ao enterrarem o cadáver de Otília, deixaram, também, na cova, os óculos que ela usava.

Lançaram areia sobre os corpos, cobrindo-os completamente, e deixaram o quintal sem qualquer vestígio do enterramento.

A única testemunha desse duplo e bárbaro homicídio foi o cajueiro, de sombras amplas em todo o redor.

Os dois assassinos cuidaram de espalhar folhas do cajueiro sobre a cova. O caso estava consumado.

Depois de terminado o ritual macabro, o cúmplice se retirou, levando consigo as joias que embolsara. E Maria Linhares foi logo cuidar de lavar o chão da garagem e apagar as manchas de sangue que ficaram.

No dia seguinte, domingo, o cúmplice voltou a procurar Maria Linhares, para devolver as joias, pois, em todas estava gravado o nome de Arlete. Não poderiam ser vendidas. Em troca, ele exigiu da mulher um alto valor em dinheiro.

Tudo continuava em segredo, e os dois assassinos estavam certos de que, dentro de pouco tempo, o caso cairia no esquecimento. Achavam que a impunidade deles estaria garantida.

Mas o crime, cedo ou tarde, seria descoberto, pois os vizinhos da casa nova onde iriam morar Arlete e Daniel, viram a entrada das duas jovens, mas não viram a saída. Além disso, o grito de pavor de Arlete, ao ser atacada pelo monstro, foi ouvido por algumas pessoas.

Maria Linhares cumpriu a pena de 33 anos de reclusão, na Penitenciária de Natal. Confessou seus crimes, denunciou o cúmplice Felinto Saldanha, e inocentou Daniel, o noivo de Arlete.

Maria Linhares, no Rio Grande do Norte, foi a primeira condenada que cumpriu integralmente a pena que lhe foi aplicada pela Justiça.

Em Natal, naquela época, o nome “Maria Linhares” virou um dogma de maldade e perversidade satânica.

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URUBUTINGA

Urubutinga é uma espécie de urubu gigante, de cabeça amarelo-avermelhada. É um abutre, ou corvo. Existe em grande quantidade em Babaneira, país que, por coincidência, lembra um outro, bastante conhecido.

.Há na mídia, uma desmoralizante onda de boatos, que visa destruir a paz e tranquilidade de Babaneira. Mas é fato público e notório, que o seu Magno governante zela por seu povo pobre, ordeiro e acomodado. Mesmo assim, o Grande, Legítimo e Eleito governante recebeu um “silencioso” em sua boca, por ordem emanada do Solar Urubutinga, onde habitam os maiores urubus do reino animal. Ali, todos se sentem urubus-reis.

A felicidade reina em Babaneira, graças ao nosso Magno governante de boca amordaçada. Enquanto isso, o Solar Urubutinga, onde todos se julgam suprassumos da legalidade, cada vez mais cai no descrédito do povo.

Em Babaneira, não há desemprego, não há fome, não há epidemia. O bem-estar e liberdade de comunicação do povo é livre. “Você pode casar com quem quiser, desde que case com Zezinho”. Deu pra entender??? Ou quer que eu desenhe???

As cadeias estão, praticamente, vazias, entregues às moscas. Presos, somente PPP: Preto, Pobre e Puta. Corruptos e traficantes trafegam e traficam livres, leves e soltos. A ordem do Solar Urubutinga é que eles tenham passe livre nas suas comunidades, e não sejam detidos nem vigiados, salvo quando houver “caso grave”. Ai de quem for contra os infratores da lei. Serão mortos e sepultados em vala coletiva, tipo aquelas que aguardam os mortos do vírus assassino.

Em Babaneira, a ordem superior não emana do governante de boca amordaçada, mas desse recanto, onde fica o suprassumo da legalidade fantástica e global. Os traficantes e a mais alta cúpula da violência, que aterroriza e mata a população desarmada e indefesa, estão livres leves e soltos. O “dindin” escondido pelos ladrões de colarinho branco jamais será devolvido. É o lema adotado e permitido pelo Solar de Urubutinga.

E para se continuar vivendo nesse paraíso, deve-se estar sempre alerta, trancando-se em casa, e afastando-se daqueles que queiram quebrar essa saudável e harmoniosa paz!.

Babaneira é o céu! É um mar de rosas! Nela não há insatisfeitos! Babaneira é a “Valsa do Imperador”!!!

Por Ordem do Solar Urubutinga, a palavra “OPOSIÇÃO” foi abolida do Dicionário e do Vocabulário. E aqueles que insistirem no assunto, serão Abolidos e Trancafiados, tendo seu material de trabalho sequestrado e apreendido, seja eletrônico, cibernético ou antiquado.

A situação econômica do Solar Urubutinga é a melhor possível. Altíssima verba pública custeia a lagosta, vinhos do mais alto custo e requinte, caviar e tudo o mais, que um seleto grupo de urubus, habitualmente, degusta.

Babaneira quer enxugar a máquina pública, começando por fechar hospitais, ou desativando leitos hospitalares, equipamentos superfaturados, respiradores, ventiladores, tudo adquirido sem licitação à terra do “olho estreito”.

Com os hospitais fechados, se alguém adoecer e se o vírus mortífero permanecer entre a população, a responsabilidade será jogada nas costas do Ministério da Saúde. Quem ficar doente, que fique em casa e se cure sozinho, se for possível.

De uma hora para outra, em Babaneira, tudo resolveu entrar em crise. O abacaxi, a banana e a melancia, além de outros produtos Hortigranjeiros, espontaneamente, resolveram sabotar a economia.

A culpa é somente, e exclusivamente, do Ministro da Economia, que resolveu trocar a monocultura pela policultura. No tempo em que só se cultivava banana, duvido que houvesse esse tipo de crise no governo..

A desculpa sempre é de que fatores alheios à vontade dos governantes, como chuva em excesso, secas horrendas e pragas monstruosas de insetos subnutridos concorreram para o fracasso da economia.

Babaneira quer investir no Turismo. Mas no inferno verde, atualmente, há o perigo de mosquitos, peste, febre tifo e outras febres.

A população de Babaneira corre o risco de nova epidemia, do vírus mortal que ainda não foi erradicado. O perigo é que somente a Supremacia seja vacinada e imunizada.

Até o Ministro da Saúde, se houver, também corre o risco de não ser vacinado.

Um perigo que ronda a população de Babaneira:

De agora em diante, os cidadãos dessa terra, que apresentarem sinais de febre tifo, febre amarela, sarampo, varíola, cólera, ou outra doença tropical epidêmica serão confinados em suas residências. Já os moradores de rua, como tem acontecido, serão envenenados por algumas facções “filantrópicas”. É mais fácil serem fuzilados do que vacinados. Isso mesmo. Não serão vacinados.

Os membros do Solar Urubutinga, em recente reunião, entre um gole e outro de champanhe com tira-gosto de banana, conversaram animadamente, festejando o progresso de Babaneira, a terra da banana encantada e dos mistérios perdidos.

Coronavírus? Que delírio! Nem na nossa Idade Média houve isso!

Aliás, nem Idade Média Babaneira teve.

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A SOLIDARIEDADE

Quando Nova-Cruz (RN) não tinha energia elétrica nem água encanada, o desconforto da população era grande. O banho diário era com água de cacimbão, salobra (salgada).

A água doce, potável, usada para beber e cozinhar, era trazida num trem, do Rio Piquiri (Canguaretama-RN), uma vez por semana. Na Estação Ferroviária, formava-se uma fila de carregadores de galões de água doce, para levar as residências. Quando o inverno era bom, dava para se juntar água da chuva nas cisternas, e isso ajudava muito. Mas, se não houvesse inverno, o transtorno era grande.

Só quem sabe o que é a falta d’água permanente é quem já sofreu na pele.

A água encanada e a energia elétrica, de Paulo Afonso, demoraram muito a chegar a Nova-Cruz, cidade situada no agreste potiguar, fronteira com a Paraíba. É uma região muito seca, às margens dos rios periódicos, Curimataú e Bujari, que raramente tem água. A última grande cheia que houve foi na década de 1960.É la que estão fincadas as minhas raízes.

A cidade sempre sofreu com a falta d’água.

No início da década de 1970, houve uma grande estiagem e a falta d’água em Nova-Cruz gerou um verdadeiro caos. A água passou a ser um líquido ainda mais difícil de se encontrar. Isso foi muito vantajoso para os proprietários de carros-pipa, que abasteciam as casas das pessoas que podiam pagar. Mas a pobreza sofreu muito.Toda a população amargou um longo período de seca. Nesse tempo, água mineral era uma ilustre desconhecida, em Nova-Cruz.

Nessa época, na cidade, já havia uma agência do Banco do Brasil, que, por sinal contava com uma enorme cisterna, cujo volume d’água extrapolava às suas necessidades. Mas a população não tinha acesso a essa água.

Por trás da agência do Banco do Brasil, ficava a famosa Rua do Sapo, zona do baixo meretrício, onde ficavam os cabarés de Nova-Cruz. Ali, a boemia se encontrava com as paixões sem amanhã . Entretanto, as prostitutas já estavam quase sem condições de “trabalhar”, em virtude da falta d’água e da consequente dificuldade de higienização.

O problema da Rua do Sapo chegou aos ouvidos do Sr. Tenório, gerente do Banco do Brasil. Compadecido com o sofrimento e o prejuízo das prostitutas, o gerente, dono de uma grandeza de espírito ímpar, discretamente, e sem temer a língua dos falsos moralistas, foi até à Rua do Sapo, que ficava por trás do Banco, para ver de perto a intensidade do problema social, que estava sendo gerado. Queria se inteirar, pessoalmente, do problema que “as meninas” estavam passando. E o sofrimento delas incomodou o gerente do Banco, deixando-o penalizado. Então, publicamente, sem receio de comentários maldosos, o Sr. Tenório resolveu ajudá-las, tomando uma decisão corajosa e humana.

Por conta própria, o gerente do Banco comprou vários metros de tubos de encanamento, registros de passagem, torneiras, joelhos etc. e pagou a um encanador de Nova-Cruz para, por cima do muro do prédio do Banco, distribuir, diariamente e num horário previamente combinado, água para as sofridas prostitutas.

Graças à atitude generosa e justa, do então gerente do Banco do Brasil de Nova-Cruz, a vida na Rua do Sapo voltou ao normal, .

Somente em 1978, último ano administrativo do segundo mandato do saudoso Prefeito José Peixoto Mariano, realizou-se o sonho dos nova-cruzenses: O então governador do Rio Grande do Norte, Tarcísio Maia, inaugurou o sistema de abastecimento d’água em Nova-Cruz, oriunda do rio Piquiri (Canguaretama-RN).

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A PAPA

Há várias décadas, em Natal, eu e meu saudoso marido, com poucos meses de casados, fomos visitar a avó materna dele, bastante idosa e um pouco esclerosada.

Fiquei admirada e sem entender nada, quando a filha dela, trouxe-lhe um prato de papa e ela recusou, indignada, dizendo:

– Leve a papa de Zé Anselmo pra lá! Você quer me matar?!!!

Com muito carinho e paciência, a filha conseguiu convencê-la a comer a papa, sua comida predileta e costumeira, na hora da ceia. Segundo ela, com o princípio da esclerose, a idosa passou a rememorar fatos ocorridos há muitos anos. E o caso da “papa de Zé Anselmo” era um deles.

Pedi ao meu marido para me contar que caso foi esse, que fazia a avó dele ter tanto medo de comer papa. E fiquei sabendo a história da “papa de Zé Anselmo.”

Pois bem. Há vários anos, em Natal, (julho de 1952), o cidadão José Anselmo morreu, vítima de uma papa envenenada, juntamente com a cunhada solteira que morava dentro de casa, e o gato de estimação.

O pior é que quem fazia, diariamente, essa papa, era sua dedicada esposa, que, segundo a opinião pública, nesse caso, estava acima de qualquer suspeita. Havia, também, as más línguas, que a ela atribuíam a autoria do crime, por haver descoberto um relacionamento entre sua irmã e ele.

De família ilustre, José Anselmo era alto funcionário dos Correios e Telégrafos e a família residia numa bonita casa no Bairro da Cidade Alta.

Quem comeu da papa começou a vomitar e os socorros médicos foram inúteis. O veneno violento venceu a batalha e em poucos minutos José Anselmo, a irmã da sua esposa e o gato estavam mortos. A Perícia Médica constatou que a papa estava envenenada, tendo sido encontrado dentro da casa, um pilão, com restos do veneno que ali fora pilado.

A cidade ficou estarrecida, diante dessa tragédia, aparentemente, familiar, mas sem provas da autoria. Como era natural, a maior suspeita recaía sobre a viúva, que fizera a papa e dela não comera. Apesar disso ser um álibi, não dava para ser totalmente aceito. Mas a opinião pública, em peso, apontava a mulher como culpada, pois teria agido por ciume e vingança, em face do suposto relacionamento da sua irmã com seu marido.

José Anselmo era considerado um homem duro, acusado de agir com rigor como chefe dos Correios e Telégrafos, o que dava chance do crime ter sido praticado por pessoas alheias à sua família. Anos atrás, tinha sofrido grave atentado de morte, na sua casa em Angicos (RN), onde foi Inspetor dos Correios.

Entretanto, o fato de José Anselmo ter morrido envenenado, dentro da sua própria casa, com uma papa feita pela esposa, justificava as suspeitas.

Outro detalhe intrigante, é que a esposa de José Anselmo foi a única pessoa a não comer da papa. Até a empregada foi envenenada, ao comer um pouco da “raspa” do papeiro. Levada ao hospital, por sorte, sobreviveu.

O Inquérito prosseguiu em sigilo, e foram ouvidos vários membros da família, inclusive a filha do casal, de nome Irma Alves de Souza, que compareceu em juízo, acompanhada do advogado Claudionor Telógio de Andrade, na presença do Dr. Onofre Lopes, então médico legista, e do delegado de Ordem Social, Dr. José Emerenciano.

No dia 10 de agosto de 1952, a polícia informou: O inquérito não encerrou e serão ouvidos outros nomes envolvidos.

As notícias mostravam que a revolta não diminuiu em momento nenhum, no âmbito da família de José Anselmo.

Toda a cidade queria saber quem matou José Anselmo. Mas, a exemplo das grandes histórias policiais, pairava sempre uma incógnita, sobre quem poderia ter interesse na sua morte. A sua viúva continuava a ser a principal suspeita, levando-se em consideração o suposto envolvimento da sua irmã com ele. Marfisa teria agido por ciúme e vingança. Nesse caso, seriam falsos seu choro constante e o luto fechado que ostentava. Mas, na hipótese do criminoso se tratar de pessoa estranha à família de José Anselmo, todo esse sentimento poderia ser verdadeiro.

Mas, como isso poderia ter ocorrido, se a papa envenenada fora feita na sua própria casa?

As investigações locais mostraram-se inoperantes e o mistério continuou. Mais de um ano depois do crime, precisamente no dia 19 de agosto de 1953, o jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro (RJ), publicou:

“Cooperação da polícia carioca no esclarecimento do crime”.

Tudo indica que essa medida foi exigência do Senador Georgino Avelino, parente ilustre de José Anselmo, a vítima.

Uma vez que o inquérito policial local nada apontara, vieram então, para Natal, dois detetives da polícia carioca, para as novas investigações: Tibúrcio Bezerra dos Santos e Oreste Jupiciara Xavier. Exatamente, onze meses depois do crime, em 25 de junho de 1953.

O tempo comprova que nada foi descoberto, e o processo foi “cozinhado em fogo lento”, como aconteceu com a papa.

E o caso ficou na história, rotulado como um crime perfeito, se é que existe.

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DOIS DESTINOS

Durante a Segunda Guerra Mundial (1942), instalou-se no Rio Grande do Norte a maior base militar norte-americana, fora dos Estados Unidos. Natal, que contava aproximadamente com 55.000 habitantes, recebeu o acréscimo de cerca de 10 mil pessoas, incluindo soldados americanos. Esse fato provocou na cidade uma mudança brusca de hábitos e costumes.

Natal tornou-se “americanizada”, absorvendo novos hábitos e costumes, como a Coca-cola, o Cuba-libre (Rum com Coca-cola) chicletes, o hábito da mulher fumar e beber abertamente, o foxtrote e outros ritmos musicais.

Dois bairros tradicionais de Natal foram os mais atingidos por essas mudanças. O primeiro foi o Bairro da Cidade Alta, o mais antigo de Natal. O outro foi o Bairro da Ribeira, que se tornou o mais frequentado pelos americanos, em razão do Grande Hotel, ponto de encontro de políticos, e pela sua vida boêmia. O Grande Hotel foi até usado como moradia por soldados norte-americanos.

Inaugurado em 1939, o Grande Hotel foi construído em função dos frequentes pousos de hidroaviões de empresas aéreas, que utilizavam o estuário do Rio Potengi em Natal como escala em viagens entre a Europa e a América do Sul. Havia a necessidade de um hotel mais moderno e amplo, para acomodar viajantes especiais.

Após um curto período, no qual a ocupação ficou escassa, o Grande Hotel foi arrendado ao empresário Theodorico Bezerra, que já possuía cinco pequenos hotéis e entendia do ramo em evidência.

A economia local passou por uma grande transformação. O custo de vida aumentou, e o dólar virou moeda corrente no lugar do mil -réis. Muita gente fez fortuna e os americanos foram muito enganados por pessoas inescrupulosas, no comércio de Natal. Chegaram a comprar coruja por papagaio e urubu por pássaro raro. Havia o preço para vender a americano e o preço para vender ao nativo.

Em meados do século XIX, o Bairro da Ribeira elevou sua importância comercial em Natal. Nesse local foi construído o Porto da cidade, a principal porta de entrada e saída de mercadorias e pessoas.

Um dos maiores ícones da prostituição em Natal foi a paraibana Maria Oliveira Barros, conhecida como “Maria Boa”, figura que entrou para a história. Seu luxuoso Cabaré se consagrou em Natal.

As prostitutas que lá trabalhavam eram bonitas, diferenciadas e selecionadas pela proprietária. Eram obrigadas a se submeter a exames de saúde preventivos, regularmente, para evitar doenças venéreas. Nessa época as prostitutas eram também obrigadas a apresentar o “Love Card”, para exercer a profissão.

Recatada e discreta, Maria Boa era autodidata e gostava de ler. Não frequentava eventos sociais, nem tampouco tinha amigas dentro da sociedade natalense. Chegou a Natal na década de 1940 e se dizia empresária. Nasceu em 24.06.1920, e foi proprietária do Cabaré, que se tornou passagem obrigatória, dentro da iniciação sexual da vida dos homens natalenses.

Ao chegar a Natal, Maria Oliveira Barros demonstrou grande visão nos negócios, e inaugurou sua casa de prazeres, no período em que reinava na cidade ampla prosperidade, advinda da fixação da base militar americana em Parnamirim. Aproveitando o fluxo de soldados e grandes personalidades políticas registrados na época, Maria Boa fazia questão de ostentar glamour em seu estabelecimento.

Tornou-se uma “grande dama” de negócios em Natal, e fazia questão de se manter longe de olhos indiscretos.

A boa qualidade dos serviços, prestados em seu Cabaré, era uma das exigências de Maria Boa. Podia-se sentir sua interferência desde a escolha das profissionais, à arquitetura do ambiente da casa.

Respeitada por suas atitudes extremamente discretas, era olhada com respeito por onde passava. Sua companhia significava status para quem tivesse a honra de desfrutá-la. Por trás da suntuosidade do seu estabelecimento “comercial”, reinava a figura discreta e influentemente poderosa de Maria Oliveira Barros, que avalizava títulos nos bancos para alguns figurões locais.

Segundo os historiadores, Maria Boa tinha cultura geral e, além de irradiar simpatia, também se interessava por livros e cinema. Nessa época (décadas de 40 a 50), Natal era muito influenciada pelas películas de Hollywood, algumas trazidas pelo próprio Exército Norte-Americano. A jovem foi fortemente influenciada pela moda americana, que observava nos filmes.

O Cabaré de Maria Boa era um casarão luxuoso, localizado no bairro da Cidade Alta. Seu quadro de profissionais era constituído de “moças” de grande beleza, aparentemente finas e com certo nível cultural. Seus conhecimentos eram proporcionados pela própria Maria Boa, em aulas que eram realizadas uma vez por semana.

Uma peculiaridade desse famoso Cabaré é que, bem antes de se falar em “turismo sexual”, ele já era uma referência turística na cidade. Alguns viajantes, que chegavam a Natal, eram frequentemente convidados a conhecer as admiráveis moças de Maria Boa.

Havia uma grande preocupação por parte de Maria Boa, com tudo o que dizia respeito às “moças” que trabalhavam em sua casa. Ao saírem à rua, vestiam roupas recatadas, longe da vulgaridade. A empresária não permitia que saíssem de casa desarrumadas. Muito discreta em seus hábitos, isso transparecia em suas relações comerciais e em seu Cabaré.

Mesmo com toda a discrição mantida por Maria Boa e no seu “estabelecimento comercial”, certa vez, este foi alvo de um abaixo assinado, produzido por alguns moradores adjacentes ao local, com o intuito de fechar o estabelecimento. Tal ação foi refutada por outros vizinhos que não se sentiam incomodados com a presença do cabaré. O caso foi levado à Justiça e Maria Oliveira Barros ganhou a causa, garantindo a permanência do prostíbulo. Contudo, a presença do cabaré continuava incomodando uma pequena parcela dos vizinhos do estabelecimento, caracterizando, assim, seu permanente caráter marginal na sociedade.

Enquanto o Cabaré de Maria Boa, na Cidade Alta, esbanjava luxo e riqueza, as prostitutas que habitavam o Beco da Quarentena, no decadente Bairro da Ribeira, se consumiam em pobreza e miséria. O lugar era frequentado por homens de baixo poder aquisitivo. Alguns eram de conduta duvidosa e briguentos. Esses homens frequentavam o Beco da Quarentena, porque lá os prostíbulos eram mais baratos e a boemia era popular. Ali se encontravam prostitutas, cafetões e gigolôs, que serviam de inspiração aos poetas e escritores.

Com relação aos destinos diferentes, das prostitutas do extinto “Cabaré de Maria Boa”, e daquelas que habitavam o “Beco da Quarentena”, vem-nos à memoria antigos versos de um poeta anônimo:

“Até nas flores se encontra a diferença da sorte; há umas que enfeitam a vida, e outras que enfeitam a morte.”

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A SORTE

Na primeira década do século passado, havia no Palácio do Governo do Rio Grande do Norte, um contínuo chamado Alcântara. Nessa época (1906 a 1909), o Presidente da Republica era Afonso Pena, e estava agendada sua vinda ao Estado. Ao tomar conhecimento dessa visita, o contínuo pediu ao Governador Alberto Maranhão, para fazer parte da comitiva que iria esperar o Presidente na Estação Ferroviária de Nova-Cruz, fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba.

O pedido do contínuo foi acatado, mas, mesmo assim, o Secretário achou um absurdo essa liberalidade. Afinal, Alcântara era um simples contínuo e estaria ocupando o lugar de algum político ou de mais algum puxa-saco importante. Era muito cabimento do contínuo, querer integrar a comitiva que iria esperar o Presidente da República, em visita oficial ao Governador do Rio Grande do Norte.

Indignado, o Secretário chamou o contínuo em seu gabinete e disse-lhe:

– O Governador deu permissão, então você vai na comitiva, para esperar o Presidente da República. Mas, preste atenção:

Antes do trem chegar na estação, você salta no triângulo, que é o ponto de manobra dos trens, na entrada das estações.

O trem do Governador chegou adiantado. Alcântara saltou no triângulo. Pouco depois, o trem trazendo o Presidente entrou no triângulo, para fazer a manobra. Alcântara, sozinho, subiu, foi entrando e deu de cara com o Presidente da República. E foi a primeira pessoa a dar as boas-vindas à “Sua Excelência”. Muito cordial e simpático, Alcântara foi logo mostrando-lhe a cidade pela janela. Quando o trem do Presidente chegou à Estação Ferroviária, o Governador, o Secretário do Governador, os puxa-sacos do Governador e os demais integrantes da comitiva levaram um grande susto. Alcântara, o contínuo do Palácio do Governo, apareceu na porta do trem, ao lado do Presidente da República e foi quem o apresentou às autoridades estaduais.

Seguiram todos para Natal, numa viagem cansativa e cheia de poeira, quando o progresso tecnológico era uma utopia.

Cansado, o Presidente Afonso Pena chegou ao Palácio do Governo e pediu logo um banho. De repente, entreabriu a porta do banheiro, chamou alguém e perguntou:

– Onde está o Alcântara?

Alcântara apareceu, entrou no banheiro e logo saiu. Ninguém entendeu nada. Chamado mais duas vezes pelo Presidente, Alcântara atendeu aos pedidos, e, novamente, logo saiu.

No dia da partida, à beira do cais ( o Presidente voltou de navio), o Presidente Afonso Pena chamou Alcântara , deu-lhe um abraço, e lhe falou alguma coisa no ouvido. Alcântara sorriu, saiu e não disse nada a ninguém. Os curiosos ficaram “doentes” de raiva.

Um mês depois, o Diário Oficial publicava um ato do Presidente Afonso Pena, nomeando o contínuo Alcântara, Administrador do Porto de Santos , no Estado de São Paulo. Foi um escândalo, no Rio Grande do Norte.

No bolso do paletó, Alcântara carregava uma garrafinha de conhaque francês, tamanho portátil. E Afonso Pena apreciava muito um golinho de conhaque francês.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O SERESTEIRO

Manuel era um homem muito pobre, negro e inofensivo, que gostava de cantar, sozinho, no silêncio da noite, quando caminhava de volta para o seu barraco.

Normalmente triste e dono de uma bonita voz, quando bebia, Manuel mudava o humor e se transformava num grande seresteiro solitário. Só cantava músicas românticas, e entre uma frase e outra, às vezes, protestava contra a sociedade em que vivia, na qual, os ricos eram cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. E era aí que ele se enquadrava.

Manuel fazia biscates, mas às vezes se via obrigado a mendigar. Era gentil e muito grato às pessoas que o ajudavam e lhe arranjavam biscates. À medida que a noite ia chegando, ele sentia o peso da penúria em que vivia, sua solidão e a falta de perspectiva de melhorar de vida. Pobre, sem estudo e sem família, Manuel, quando não encontrava quem lhe pagasse bebida, logo cedo voltava para o barraco em que vivia, fechava a porta, e se entregava aos seus pensamentos, até adormecer.

Certa noite, já muito tarde, depois de se despedir de um amigo que lhe pagara alguma bebida, Manuel parou na sua praça preferida, em frente à belíssima mansão de um importante político, e ficou a admirá-la. Na sua embriaguez, gostava de apreciar aquela obra de arte, talvez, pensando até que fosse sua, como diz a música “Até Pensei”, de Chico Buarque.

Nessa noite, muito inspirado, ao parar na praça, Manuel começou a cantar “Noite Cheia de Estrelas” (Vicente Celestino – 1931) para a sua musa imaginária, que diz:

Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho

…….

Lua, manda tua luz prateada
Despertar a minha amada!
Quero matar os meus desejos…
Sufocá-la com meus beijos”

………..

O “seresteiro” fez uma pausa, sorriu e disse alguns impropérios, sempre revoltado. Nesse ínterim, um homem rico que morava perto da mansão, que não passava necessidade nenhuma e que não tinha tolerância com ninguém, muito menos com os pobres, chamou a polícia, alegando que o mendigo estava desrespeitando os moradores.

Sem perceber a chegada da polícia, que jamais entenderia o sonho de um pobre e solitário seresteiro, Manuel, o mendigo, foi agarrado por trás e derrubado por um policial de tamanho avantajado. O homem o imobilizou, colocando seu pesado joelho sobre o pescoço do mendigo, impedindo a sua respiração e sufocando-o. Enquanto isso, mais dois policiais o algemaram. O mendigo foi levado pela viatura policial, já morto por asfixia.

Manuel, o pobre seresteiro solitário, das noites desertas da sua triste vida, foi levado na viatura policial, com o seu corpo inerte, enquanto sua alma ainda cantava, subindo para o Céu.

* * *

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

FEIJÃO COM ARROZ

Sonhei que estavam faltando feijão e arroz em todos os supermercados de Natal. Mas, ouvia no rádio a notícia de que, naquela manhã, estaria chegando ao porto de Natal um navio, transportando esses dois produtos, diretamente da China. A partir das 13 horas, o feijão e o arroz estariam nas prateleiras dos supermercados. Alimentação básica do nordestino, o feijão e o arroz fortificam e dão sustança.

No supermercado, os fregueses, usando máscaras, aguardavam ansiosos que os dois produtos fossem postos nas prateleiras. O limite para compra seria de 2 quilos de cada produto, por pessoa.

De repente, houve um grande alvoroço, pois iam colocar nas prateleiras o feijão e o arroz, vindos da China, Pátria do Corona Vírus.

Os fregueses mudaram de cor, quando souberam da procedência dos dois produtos, ligando-os ao terrível vírus, fabricado em laboratório da China. Apesar da enorme fila, ninguém teve coragem de tocar, nem de leve, nas embalagens dos dois produtos chineses. A fila “congelou”, sem sair do canto, até que, no final, apareceu um herói, que gritou:

– Saiam da frente, que eu quero comprar feijão e arroz! Pouco importa que tenham vindo da China ou da Baixa da Égua! E empurrando o carrinho do supermercado, o homem pôde levar a quantidade de feijão e arroz que bem quis, enquanto os outros fregueses continuavam acuados, com medo do “Corona Vírus”, que devia estar dentro das embalagens.

De repente, houve outro tumulto, com empurrões, pancadarias, correrias e até desmaios, pois os indecisos resolveram também comprar os produtos chineses.

O ser humano é um “animal” invejoso. Quando os fregueses viram o “herói” enfrentar o vírus chinês e ter coragem de encher o carrinho do supermercado de feijão e arroz, voltaram-se contra ele e tentaram agredi-lo. A luta foi em vão. O “herói”, único freguês que não pensou duas vezes ao comprar os produtos chineses, reagiu à altura e entrou em luta corporal com um dos agressores, conseguindo fugir da multidão. Os caixas ainda estavam vazios, e isso contribuiu para que ele pudesse pagar os produtos normalmente, sem limite de quantidade.

Graças a ele, o supermercado conseguiu vender todo o carregamento de feijão e arroz, de procedência chinesa.

Em meia hora, o arroz e o feijão sumiram das prateleiras. A revolta dos que não conseguiram comprar explodiu. O gerente, com medo da fúria dos fregueses, reuniu os empregados e pediu um voluntário, para avisar ao povo que o feijão e o arroz haviam acabado.

A revolta dos fregueses aumentou ainda mais. O supermercado fechou as portas, para forçar a saída dos fregueses revoltados.

De lá, foram protestar numa praça, para combinar o que fazer diante dessa falta de feijão e arroz. Com certeza, esses produtos não estavam sendo vendidos em farmácias, padarias nem açougues. Alguém, então, sugeriu:

– Vamos todos reclamar na Governadoria! A Governadora deve ter lá um estoque de feijão e arroz escondido, junto com as pipocas Bokus.

E saíram em passeata para a Governadoria, com gritos de protesto contra a Governadora.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O COFRE

Guilherme, alfaiate falido, resolveu costurar máscaras protetoras e cuecas, para sobreviver à crise provocada pela Pandemia do COVID-19. A Quarentena e o isolamento social compulsório provocaram muitos problemas, entre comerciantes e autônomos, resultando em falência, perdas de emprego, depressão e desespero, fora os óbitos e contaminação, provocados pelo terrível vírus.

Depressivo, em decorrência da quebra da sua alfaiataria, a “menina dos seus olhos”, além de um “bem de família”, passado de pai para filho, Guilherme tentava, agora, garantir a sua sobrevivência e dos seus familiares, confeccionando as convencionais máscaras, nos padrões exigidos pelas autoridades sanitárias. Paralelamente, passou a confeccionar, também, para vender, cuecas confortáveis, lisas e estampadas, com desenhos sensuais e frases românticas.

Seus clientes da alfaiataria e amigos, sabendo da dificuldade financeira que ele atravessava, passaram a lhe prestigiar. Seu atelier era pequeno e só contava com uma antiga costureira auxiliar.

Anos atrás, assistindo a um telejornal, Guilherme se surpreendeu, com a notícia de que um assessor de um deputado estadual cearense fora preso, num determinado aeroporto, portanto US$ 100 mil (cem mil dólares) dentro da cueca.

Outra vez, ouviu a notícia de que a Polícia Rodoviária Federal prendera três suspeitos de furto, também, com muitos reais escondidos nas respectivas cuecas.

Há anos, o Brasil assistiu, a prisão, pela Polícia Federal e Receita Federal, de um empresário, réu de uma determinada “operação”, que tentava entrar no País, com mais de 360 mil euros não declarados. A polícia ainda descobriu que esse homem, também, portava maços de dinheiro vivo escondidos na cueca.

Essas lembranças fizeram nascer em Guilherme uma grande vontade de fabricar um tipo de cueca, que contivesse uma espécie de “cofrinho”, próprio para esconder dinheiro. Isso evitaria assaltos. Encarou essa ideia fixa, como um sinal, para que ele se inspirasse e pusesse em prática a confecção desse novo modelo de cueca.

Ao amanhecer o dia, Guilherme passou para um papel o modelo que tinha na cabeça. Lembrou-se da passagem bíblica, onde Adão e Eva, ao serem expulsos do Paraíso, viram que estavam nus, o que fez com que Adão cobrisse as partes pudendas com folhas de parreira. Na cabeça de Guilherme, Adão, o primeiro homem, foi o inventor da primeira cueca.

E Guilherme ficou com a ideia fixa de costurar cuecas-cofres para vender. Tinha certeza de que o novo produto teria sucesso, igual ao do cotonete (tira-cera), que quem inventou ficou rico para o resto da vida.

O novo modelo de cueca teria um segredo conhecido, somente, pelo dono. Seria confeccionada em camada dupla de um tecido impermeável, resistente e flexível, com um grande bolso costurado no fundo da peça, com um fecho delicado (ri-ri), com capacidade de esconder uma razoável fortuna em euros, dólares ou reais.

E o sonho de Guilherme tornou-se realidade. A cueca-cofre foi um sucesso, em face do alto grau de insegurança que rodeia a atual população do País.