VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

SAUDADE DA TRADICIONAL FEIRA-LIVRE DE NOVA-CRUZ


Antiga feira-livre de Nova-Cruz, na Rua Grande

Antigamente (décadas de 50, 60 e 70), a feira-livre municipal, de Nova-Cruz acontecia às segundas-feiras, na chamada Rua Grande, principal rua da cidade, que ia até a frente da Matriz da Imaculada Conceição. Essa feira contribuiu muito para o progresso da cidade. Atraía feirantes da redondeza e até de cidade vizinhas.

A Rede Ferroviária, que hoje já não existe em Nova-Cruz, cortava a cidade e garantia a sua comunicação com outros centros produtores, fazendo daquela feira o acontecimento de maior importância em toda a região Agreste. Atraía muitos produtores e feirantes.

Lembrando a feira de Caruaru, a feira-livre de Nova-Cruz também tinha uma grande variedade de mercadorias. Tinha fumo de rolo, arreio de cangalha, selas, cabresto de cavalo, farinha, rapadura, aratu, “avoador”, “caico” , ginga, beiju, tapioca, grude, doce americano (geleia de coco), abano, peneira, quartinha, panela de barro, esteira, cesta, balaio, frutas e verduras, coco seco, cereais e até miudezas.

O armazém de secos e molhados do nosso pai, Francisco Bezerra, ficava localizado no melhor ponto da Rua Grande, e era um verdadeiro camarote, de onde se via tudo o que acontecia naquelas imediações.

Havia camelôs fazendo propaganda e vendendo remédios para lombriga, espinhela caída, reumatismo, “difruço” (defluxo ou catarro), “estalecido” (coriza ou gripe), dor nas “oiça” (dor de ouvido), “morróida de botão” (hemorróidas), “comichão nas partes”, azia ou queima na boca do “estrombo” (estômago) frieira, para congestão (AVC) e outras mazelas.

Havia na feira um “doutor”, “especialista” em tirar, com ácido, “sinais de carne”, que hoje seriam considerados “carcinomas”, mas naquela época não se falava nisso. Até pessoas mais esclarecidas se sujeitavam a tirar “sinais”, principalmente no rosto. Meus saudosos tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra, chegaram a tirar aí alguns sinais, e a recuperação foi rápida e perfeita.

Havia um camelô que levava uma mala cheia de óculos de grau para vender na feira, e a mala voltava vazia. A maioria dos feirantes não tinha acesso a oculistas, salvo na capital do Estado, e por isso não hesitavam em comprar óculos sem receita médica. Provavam vários óculos, até que alguns dessem certo. O teste era feito com a leitura das letras miúdas de uma caixinha de fósforos “marca olho”.

No “pé da calçada” do armazém do nosso pai, havia algumas barracas que vendiam refeições. O cardápio era sempre o mesmo: picado (sarapatel), arroz mole e carne de bode guisada, tudo com muito colorau e gordura. O cheiro da comida invadia as nossas narinas, mas nunca provamos o gosto. Os feirantes almoçavam nessas barracas, e tomavam ponche de maracujá, com pedaços de gelo em barra, que vinha de fora, em caixotes, e cobertos com “pó de serra”, para não derreter. Nova-Cruz ainda não tinha energia elétrica nem água encanada. Nessas barracas também havia bolo branco (hoje chamado bolo da moça), broas, sodas, doce americano (geleia de coco) e cocorote.

Outro espetáculo hilário, que também havia na feira, precisamente na calçada do armazém do nosso pai, era o desafio estabelecido entre os ceguinhos que ali pediam esmolas. Eles disputavam o ponto e se agrediam mutuamente, com insultos e cantorias, às vezes, engraçados e picantes.

As cantigas de cego, antigamente, eram verdadeiras manifestações da cultura popular, sem influência de rádio e, muito menos, de televisão. A inteligência, um dom nato, fazia com que eles procurassem emocionar os feirantes, mostrando-se infelizes e desejando o bem àqueles que lhes davam esmolas. Cantavam se acompanhando por um ganzá ou reco-reco.

Havia uma cega, Dona Zefa, que, há anos, pedia esmolas na feira, fazendo ponto na calçada do armazém do nosso pai. Não admitia concorrente. Uma vez por outra, ela entrava em choque com qualquer outro cego que quisesse ocupar o seu espaço.

Num certo dia, apareceu na calçada um ceguinho novato e desconhecido, querendo pedir esmolas perto de Dona Zefa. Mas ela o expulsou aos gritos.
E começou a sua “ladainha”:

– Uma esmola pelo amor de Deus, pra quem não vê a luz do dia !!!

Recebeu a esmola e respondeu cantando:

Deus lhe pague a santa esmola
Quem me deu com alegria,
Nossa Senhora do Ó,
Nossa Senhora da Guia!

Depois, dona Zefa começou a cantar sua cantiga mais engraçada, e que sempre provocava riso nas pessoas que ali estavam:

Sete vezes fui casada
Sete homens conheci
Juro por nossa senhora
Sou virgem como eu nasci!!!”

O ceguinho que tinha sido expulso por ela, mas ainda permanecia ali, respondeu o repente:

Nada disso se “expilica”
Isso tudo é mutreta
Esses homens eram capados
Vosmicê tá com falseta.

Juntou gente para assistir esse desafio, e houve até gargalhadas.

A segunda -feira, em Nova-Cruz, era um dia de alegria, que nos transmitia cultura popular, com show dos feirantes, às vezes verdadeiros artistas, com suas cantorias e desafios, acompanhados por rabeca e ganzá.

A saudade desse tempo feliz, quando todos estavam vivos, não sai do meu coração e do meu pensamento.

Viva Nova-Cruz!!!

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INIMIGAS POLÍTICAS

Antigamente (décadas de 50 e 60), as cidades do interior do Rio Grande do Norte, no período eleitoral, viviam um clima inflamado, com “brigas de comadres” no meio da rua, em defesa dos candidatos da UDN ou do PSD, e às vezes, terminavam indo às vias de fato ou à delegacia de Polícia.

Dona Anália e Dona Izabel eram adversárias políticas ferrenhas e briguentas, uma da UDN e a outra do PSD. Através de insultos mútuos que as duas protagonizavam em suas calçadas, ambas mandavam bananas uma para a outra (através de gestos, o que, naquela época, significava indecência. Além dessa troca de bananas, que na época se usava nas brigas, havia coisa pior: Uma das comadres agredia a adversária, levantando o rabo do gato, acintosamente, e exibindo – o para o lado dela, que estava na calçada. Isso era considerado uma grande ofensa.

Os insultos entre adversárias políticas eram de baixo nível, chegando a insinuações, contra o decoro e a moral das distintas comadres. Às vezes, as discussões chegavam às vias de fato, com empurrões e troca de tapas, que só terminavam com a interferência dos maridos. A baixaria invadia as ruas, predominando, entretanto, o “envio de bananas”, através de gestos.

Havia brigas hilárias entre candidatas a cargos eletivos, adversárias políticas, esposas de candidatos, amigas ou simpatizantes políticas. A baixaria era grande. Só diminuía se os maridos aparecessem para acabar com o furdunço. Até aplausos tinha para a briguenta que mais baixasse o nível da briga.

Certa vez, em plena campanha política para Prefeito e Vice-Prefeito, duas mulheres da sociedade novacruzense, em plena luz do dia, adversárias políticas, uma, candidata à reeleição de um cargo eletivo, a outra, uma professora muito respeitada, trocaram farpas e insultos, em defesa dos seus respectivos candidatos, e acusando os candidatos adversários de serem comunistas e corruptos.

As duas terminaram se agredindo fisicamente, trocando bofetes e empurrões, o que provocou a intervenção de dois fiscais da Mesa de Rendas, que conseguiram, com muita dificuldade, apartar a briga, puxando cada uma delas pela cintura. Os insultos trocados ainda continuaram sendo ouvidos durante alguns minutos, uma chamando a outra de rapariga, o que, naquela época, era a maior ofensa que se podia dizer com uma senhora casada.

A rua ficou cheia de gente, e a briga se espalhou de boca em boca, sendo a melhor notícia do dia, numa época em que ainda não havia televisão nem telefone na cidade.

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O COICE

O coice é o movimento natural de defesa dos quadrúpedes, especialmente equinos (cavalos, burros e mulas), que consiste em golpear com as patas traseiras.

Certa vez, espalhou-se em Nova-Cruz (RN), a notícia de que um conhecido fazendeiro matara com um tiro de revólver seu cavalo de estimação, Maltino, depois de ter recebido dele um coice, que, por um triz, não foi fatal.

A cidade se revoltou contra a violência do fazendeiro, por ter tirado a vida do animal. O ato foi encarado como pura perversidade contra um animal irracional.

Está provado que o animal só ataca para se defender.

A vingança do fazendeiro contra o cavalo de sua suposta estimação, dando-lhe um tiro de revólver por causa de um coice, foi puro ódio e covardia. Poderia o fazendeiro ter se livrado do seu cavalo de outra forma, jamais matando-o. Uma doação, um “presente” ou uma comercialização teria resolvido o problema.

Irracionais que são, os animais só atacam para se defender. Foi o caso do Maltino, que atacou seu dono com um coice, para se defender de alguma agressão, com certeza, recebida naquela hora.

Nos dias atuais, a perversidade satânica está espalhada e a maldade é contagiante. A compaixão por pessoas inválidas ou por animais indefesos não existe mais.

Também há muitos humanos “desumanos”, que são mais violentos do que certos animais. Vivem a dar “coices” em pessoas honestas, tentando destruir reputações e denegrindo imagens.

Essas pessoas que agem assim, mais cedo ou mais tarde, colherão seus frutos. Esses “coices” dos humanos visam destruir a vida e a saúde de pessoas honestas.

Repisando, o coice é a arma de defesa dos equinos, quando são agredidos.

Também há humanos que vivem dando “coices” diferentes, e chegam a matar o próximo, por mera perversidade.

A atitude violenta do fazendeiro não passou de pura perversidade e covardia, diante de um animal irracional.

Evocando a inteligência de George Bernard Shaw, dramaturgo e escritor irlandês (26/Jul/1856 – 2/Nov/1950):

“Quando o homem mata o tigre, é esporte. Mas quando o tigre mata o homem, é ferocidade”.

A frase é uma famosa crítica social sobre a hipocrisia humana e frequentemente aparece em provas de interpretação de texto.

O dramaturgo e escritor irlandês George Bernard Shaw foi vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1925. É amplamente reconhecido por suas obras satíricas e críticas sociais, como Pigmalião.

Nos dias atuais, a perversidade satânica está espalhada e a maldade é contagiante. Está provado que o coice é a arma de defesa dos equinos (cavalos, burros e mulas), que consiste em golpear com as patas traseiras quem lhe causa mal.

Já o humano, às vezes, além de não ter compaixão de um animal, chegando a matá-lo, com facilidade chega a matar outro humano, por inveja, ódio ou vingança.

O caso do fazendeiro que matou seu cavalo de estimação, depois de ter levado um coice, não passa de instinto de perversidade, ódio e covardia.

Repito que está provado, que os animais só atacam para se defender.

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O ENXOFRE ESTÁ NO AR

Como diz a música de Chico Buarque “Meu Caro Amigo”, “a coisa aqui está preta”.

“Meu Caro Amigo” é uma das canções mais icônicas de Chico Buarque, lançada em 1976 no álbum Meus Caros Amigos. Composta em parceria com Francis Hime, a música é uma “carta musical” enviada ao dramaturgo Augusto Boal, exilado em Portugal, relatando de forma irônica e esperançosa a situação do Brasil durante a ditadura militar.

Os boatos e a perseguição dirigida a um homem de bem e sua família, especialmente seus filhos, estão tornando o nosso País um antro de gente ruim, bandidos e ladrões de colarinho branco. O clima está ficando irrespirável, com tanta maldade espalhada pelo ar. Na verdade, “a coisa aqui está preta…”

O arrastão que fizeram com o dinheiro do INSS ficou por isso mesmo. Disse o Poderoso Chefão, que quem foi prejudicado, ou seja, roubado, vai ser ressarcido até o último centavo. Mas não disse quando nem por quem. Mas fiquem calmos! Sabem quando será o ressarcimento?

– No dia em que a galinha criar dentes. Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde! Esperem sentados, porque em pé, cansa…. E a catinga de enxofre, o perfume do diabo, continua no ar…

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendem velas para espantar o Demônio, quando sentem o mau cheiro de flatos espalhados pelo ar. Deve ser o mesmo odor das quadrilhas de ladrões que roubaram o dinheiro do INSS e que estão acabando com a soberania do Brasil. É humilhante demais, os pobres do INSS terem seu pouco dinheiro roubado por ladrões de colarinho branco, que já não tem onde guardar suas botijas de dinheiro roubado. É gente que fede e causa nojo a quem estiver por perto. Para esses ladrões, todo castigo é pouco.

Nos tempos antigos, havia o costume de se riscar um palito de fósforo, para acabar com o mau cheiro de flatulência que empestasse qualquer ambiente.

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico), enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

O odor fétido dos flatos é causado por pequenas quantidades de compostos de enxofre produzidos por bactérias intestinais, especificamente sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico – \(H_{2}S\)), metanotiol (um tipo de mercaptana) e dimetilsulfeto.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais esses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, exalando odor cada vez pior, de ovos podres.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases putrefatos.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.

Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e a catinga de enxofre fez com que o povo se dispersasse.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu, cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Nenem, que morava na Rua do Sapo, tinha fama de soltar gazes irrespiráveis, e era viciada em Comícios Políticos, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz forte de homem respondeu indignada:

– AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU, DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que, aliás, nunca teve, e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, a jovem botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação violenta e passou 15 dias para se curar.

Nunca mais Lúcia quis saber de comício político.

Dona Neném já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném ganhou a fama reiterada de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. A ideia infeliz que a mulher teve de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque”.

Este caso é Verdade e dou Fé.

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EVOCANDO ERLON CHAVES

Filho de um motorista e de uma faxineira, Erlon Chaves foi uma criança prodígio e quebrou o estereótipo do negro sambista. Estudou piano, canto, harmonia e regência, compôs trilhas de filmes, novelas e jingles (incluindo o lendário “Já é hora de dormir”, dos Cobertores Parahyba), gravou e fez turnê com Elis Regina.

Bon-vivant, namorou Vera Fischer, então Miss Santa Catarina 1969, que conheceu quando era o jurado debochado do Programa Flávio Cavalcanti. Mas foi com a inesquecível parceria com Wilson Simonal que conquistou de vez o reino do suingue. Seus arranjos requintados e dançantes ajudaram a consolidar o soul jazz brasileiro.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos atrevidos que não sabiam os seus lugares”, como a eles se referiam os censores. Simonal (acusado de ser informante da ditadura) e Toni Tornado (envolvido em imbróglio no mesmo festival por cerrar o punho como os Panteras Negras).

Abalado emocionalmente após o episódio do FIC, Erlon Chaves nunca mais voltou a se apresentar ao vivo. Faleceu de um aneurisma cerebral em novembro de 1974, aos 40 anos, após passar mal em uma loja de discos no bairro do Flamengo. Comprava uma vitrola portátil para Simonal, então preso.

Com o passar dos anos, foi alimentada uma história de que a morte teria sido ocasionada por uma discussão defendendo o seu soul brother. Seu enterro foi acompanhado por 3 mil pessoas, entre eles Flávio Cavalcanti, Bibi Ferreira, Martinho da Vila e Simonal (sob escolta da polícia).

O músico e produtor Cacau Franco, primo de Erlon Chaves e administrador de seu espólio, revelou à Trip que planeja um tributo ao maestro no segundo semestre, marcando os 40 anos de sua morte. Em fase de captação de patrocínio, a homenagem virá em forma de shows no Rio e em São Paulo e um DVD.

Erlon tinha como amigo-irmão o cantor Wilson Simonal.

Em 1957, com 23 anos, assumiu a regência de Orquestra da TV Tupi, e começou a criar arranjos para diversos artistas, tornando-se requisitado na indústria …

Tanto o maestro Erlon Chaves, quanto o cantor Wilson Simonal foram profundamente afetados e considerados vítimas dos “Anos de Chumbo” da ditadura militar brasileira (1968-1974), embora de maneiras distintas e trágicas.

– Erlon Chaves foi vítima direta de perseguição, racismo e censura após apresentações consideradas “imorais” pelo regime.

– Wilson Simonal teve sua carreira destruída e foi isolado após ser acusado injustamente de delator (X9) da ditadura, um rótulo que o perseguiu após um incidente pessoal com seu contador.

– Em 1970, no V Festival Internacional da Canção (FIC), Erlon apresentou “Eu Também Quero Mocotó”. A performance, que incluía o maestro negro sendo beijado por várias loiras, foi considerada “assédio moral” e “imoral” pelos militares.

– Ele foi preso, algemado e levado para um interrogatório, ficando proibido de exercer sua profissão por 30 dias.

– Relatos indicam que ele foi sequestrado e mantido em cativeiro por agentes da repressão, sofrendo insultos racistas.

– Abalado pela perseguição, Erlon Chaves faleceu de infarto em 1974, aos 40 anos, enquanto comprava uma vitrola para Simonal, que estava preso.

Falando em Wilson Simonal, ele foi o cantor mais popular do Brasil, no início dos anos 70. Mas sua trajetória foi interrompida.

– Acusação de X9: A repercussão desse fato fez com que Simonal fosse rotulado como informante da ditadura (“dedo-duro” ou X9), o que gerou um boicote generalizado da classe artística e da mídia. Condenação: Apesar de ter se declarado a favor do regime para tentar se defender, Simonal foi processado e condenado.

– Reabilitação Póstuma: Após sua morte em 2000, e um documentário de seus filhos, a imagem de Simonal foi revisada, e ele foi inocentado da acusação de ser delator pelo Conselho Federal da OAB em 2003.

Resumindo, Erlon Chaves e Wilson Simonal, ambos grandes artistas, foram “devorados pelo monstro” daquele período, com Erlon sofrendo diretamente a brutalidade física e censura, e Simonal sofrendo a destruição pública de sua reputação.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos”: Wilson Simonal e Tony Tornado.

É lamentável a destruição de talentos no nosso País, em pleno vigor, sendo ridícula a tentativa de resgate posterior, da memória dessas pessoas injustiçadas.

É até um desrespeito às famílias.

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ROSA DE MAIO

“Rosa de Maio” é uma famosa canção brasileira composta por Custódio Mesquita e Evaldo Ruy (às vezes grafado Ewaldo Ruy).

Essa música ficou eternizada nas vozes de intérpretes como Carlos Galhardo (gravação de 1947), Orlando Silva (1944) e Altemar Dutra.

É uma valsa lenta de estilo romântico, comum no repertório da era de ouro do rádio brasileiro.

Maio é considerado o Mês de Maria Santíssima e por isso, pela tradição católica, é o mês escolhido para realização de casamentos.

Mesmo assim, nem tudo são flores no mês de maio, pois acontecimentos lamentáveis ocorrem subitamente, sem aviso prévio, em qualquer dia ou hora, como a tragédia que vitimou o grande brasileiro Ayrton Sena, em 1 de maio de 1994, ficando essa data marcada para sempre, como uma data muito triste no nosso País.

Essa ocorrência dolorosa provocou uma comoção nacional, e o Brasil chorou, ao ver um grande ídolo sucumbir, levando com ele todos os seus sonhos.

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AS AVES NA CANÇÃO NORDESTINA

As aves ocupam um lugar central na música nordestina brasileira, funcionando frequentemente como metáforas para a seca, a saudade, a resistência do sertanejo e a beleza da fauna da Caatinga.

O grande Luiz Gonzaga, cognominado o “Rei do Baião”, foi fundamental em imortalizar diversas espécies em suas composições.

Aqui estão as principais aves citadas na canção nordestina:

Asa Branca (Patagioenas picazuro): Símbolo máximo do sertão, eternizada por Luiz Gonzaga, a Asa Branca representa a migração forçada pela seca e a esperança do retorno com a chuva.

Assum Preto (Tiaris fuliginosus): Cantado por Gonzaga, representa a tristeza e a escuridão, muitas vezes associadas a sertanejos cegos ou à própria melancolia do sertão.

Carcará (Caracara plancus): Ave de rapina que representa a força, a inteligência e a resistência do sertanejo, foi popularizada na voz de Nara Leão e na cultura nordestina.

Gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon): Conhecida como “cancão”, é considerada a “voz da caatinga” e figura em canções que retratam a paisagem seca.

Avoante ou Pomba-de-bando (Zenaida auriculata): Ave comum que forma grandes bandos no Nordeste, frequentemente mencionada em canções sobre a migração de aves na região.

Corrupião/Sofreu (Icterus jamacaii): Conhecido pelo seu canto melódico e plumagem amarela e preta, é uma ave emblemática da Caatinga.

Rolinha “Fogo Apagou” (Columbina squammata): Citada por Gonzagão, seu nome onomatopéico traz a atmosfera do sertão.

As canções que mencionam essas aves, especialmente as de Luiz Gonzaga, narram a migração do homem sertanejo, a esperança por chuvas e a dura realidade da seca no Nordeste. Muitas dessas aves, hoje, sofrem com a caça e a destruição de seu habitat.

Aves em Canções brasileiras:

É impossível falar de aves na música brasileira sem citar Asa Branca, canção eternizada pelo “rei do baião”, que retrata a severa seca do Sertão. Graças aos versos de Luiz Gonzaga, a Asa Branca se transformou no símbolo do Sertão. A música narra a migração do nordestino, fugindo do terror da seca, para não morrer de fome.

“A VOLTA DA ASA BRANCA”, outra canção belíssima do Grande Luiz Gonzaga, traz ao nordestino a esperança de ver a chuva cair de novo para que ele possa voltar para o Sertão.

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O PALPITE

Como toda cidade do interior nordestino, Nova-Cruz (RN) tinha seus tipos folclóricos, como o bêbado, o jogador contumaz de carteado, o mentiroso nato, o gaiato, o pidão caloteiro, que não pagava nem promessa a santo, o cachaceiro, o corno confesso mas apaixonado, conhecido como corno manso, e o viciado em jogo do bicho.

Certo dia, Seu Anísio, o entregador de pão em Nova-Cruz (RN), que, todas as tardes, com um enorme cesto na cabeça, fazia a entrega de pão quente de porta em porta, inclusive na casa da minha avó paterna, Dona Júlia, acertou no jogo do bicho. A notícia se espalhou…

Eu era menina e todas as tardes aguardava com ansiedade a chegada do pão, abicorando, com a certeza de que a minha avó iria me dar um pão doce, como sempre fazia. Eu adorava esse pão doce, bem diferente dos pães doces sofisticados de hoje, que só tem boniteza.

Pois bem. Seu Anísio, o entregador de pão, gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, coisa pouca, no grupo e na milhar. Raramente acertava, mas quando isso acontecia, a alegria era grande. O melhor do jogo é ganhar.

Pela primeira vez, seu Anísio arriscou jogar uma nota graúda de 20 cruzeiros, pois o palpite foi forte e ele tinha certeza de que iria acertar. Depois de passar a noite sonhando com muito pão espalhado pela rua, Seu Anísio pulou da rede logo cedo e se organizou para “arriscar na sorte”. Sentia que o universo iria conspirar a seu favor.

Acertou no TIGRE, no grupo e na milhar. Para ele, que só jogava alguns trocados, foi um dinheiro bom, que lhe garantiu a feira do mês.

Todos os seus conhecidos quiseram saber quem lhe deu o palpite. Reticente, ele, aos poucos, contou que o palpite veio de um sonho que ele teve na noite anterior.

Contou que havia sonhado que a rua onde morava estava cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como pão é feito com farinha de trigo, Seu Anísio interpretou que o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava.

Tratou logo de ir jogar no grupo e na milhar. Decidiu que naquele dia o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava. E arriscou todas as moedas que tinha em casa no “TRIGUE”.

Um amigo lhe perguntou de onde ele tirou esse palpite. A resposta foi rápida:

– Ora, homem de Deus, eu sonhei a noite toda com a minha rua cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como o pão é feito de farinha de “trigre”, o bicho tinha que ser “Trigre”. Aí joguei no “trigre, 22”..

A notícia se espalhou e todos os dias, pela manhã, chegava alguém batendo palmas em sua casa, pedindo-lhe palpite para jogar no bicho.

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A IMPORTÂNCIA DO ESPAÇO VITAL

Quando se fala em espaço vital, entende-se que se trata do espaço que a humanidade necessita para viver.

Realmente, a qualidade de vida dos seres humanos está ligada ao espaço vital que lhe é posto à disposição pelos governantes. Está ligado ao tema dos direitos humanos, saúde mental e qualidade de vida. A sobrevivência da humanidade depende do espaço vital de que dispõe.

Na realidade, a expressão “espaço vital” é uma cobrança à nossa sociedade, para que o ser humano tenha condições de vida, no meio de tanta erva daninha, podendo respirar livremente, resistindo às influencias da nossa sociedade, e até do ar que respiramos.

A superpopulação requer cada vez mais um maior espaço vital, para dar melhor qualidade de vida à humanidade.

A qualidade do espaço vital é de suma importância para os indivíduos e as comunidades. É responsável pela boa ou má qualidade de vida.

O conceito de espaço vital (em alemão: Lebemsraum), foi concebido por Friederich Ratzel, nos seguintes termos:

“Toda a sociedade, em um determinado grau de desenvolvimento, deve conquistar territórios onde as pessoas são menos desenvolvidas. Um Estado deve ser do tamanho da sua capacidade de organização.

Friedrich Ratzel propôs uma Antropogeografia, como um ramo da geografia humana, que estudaria o espaço de vida dos agrupamentos humanos. Ao sistematizar os conhecimentos políticos aplicados pela geografia, Ratzel contribuiu decisivamente para o surgimento da geografia política, que no início do século XX foi acrescida do termo geopolítica (dado por Rudolf Kjillèn).

O geógrafo alemão Friederich Ratzel visitou a América do Norte, no início de 1873 e se impressionou com a doutrina do destino manifesto nos EUA. Ratzel simpatizava com os resultados do “Destino Manifesto”, mas ele nunca usou o termo. Em vez disso, contou com a Tese da Fronteira de Frederick Jackson Turner. Ratzel promoveu colônias ultramarinas para o Império Alemão, mas não uma expansão em terras eslavas. Depois, alguns alemães reinterpretaram Ratzel para defender o direito da raça alemã de expandir na Europa. Essa noção foi, mais tarde, incorporada à ideologia nazista. Harriet Wanklyn argumenta que os políticos destorceram a teoria de Ratzel para objetivos políticos. Daí, a origem dos colonizadores.

Origem dos colonizadores alemães dos territórios conquistados no Leste.

O espaço vital seria o espaço necessário para a expansão territorial de um povo, no caso, o povo alemão. Não apenas a restauração das fronteiras de 1914, mas também a conquista da Europa Oriental, espaço onde as necessidades, relativas à dominação territorial e recursos minerais desse povo seriam supridas. Quem também fazia parte, como se fosse um “trato”, era a Itália, que por ficar do outro lado do “espaço vital” era de grande interesse alemão. O interesse alemão e italiano nesta expansão justificava-se em certa medida pelo fato de os dois países serem retardatários na expansão marítima europeia, e ao contrário da França e da Inglaterra, não tinham vastos domínios coloniais. O “possibilismo”, de Vidal de la Blache, serviu como uma resposta antagônica ao espaço vital, ao considerar que havia maneiras de desenvolver economicamente o espaço vital em um limitado espaço geográfico. O líder nazista desejava atacar a União Soviética no verão de 1940, logo após a queda da França.

Adolf Hitler considerava que a “raça ariana” (que segundo ele, era superior) deveria permanecer unida, e para uni-la ao Império Alemão deveria possuir um território maior. Esse território era onde o povo germânico morava, porém foi dividido. Era chamado de “Espaço Vital Alemão”. Tal argumento foi amplamente discutido em seu livro Mein Kampf, e utilizado como discurso de justificativa da marcha alemã sobre a Europa a começar pela anexação da Áustria, que antes pertencia à Confederação Germânica e antes disso ao Sacro Império Romano-Germânico. Hitler queria invadir Sudetos, que compunham a região mais industrializada da Tchecoslováquia, mas havia um problema: as potências França e Inglaterra tinham assinado um acordo com a Tchecoslováquia, que prometia protegê-la em caso de ataque estrangeiro.

Todas as guerra a que estamos assistindo tem como alvo principal o ESPAÇO VITAL.

As guerras atuais tem, na maioria dos casos, uma relação direta ou indireta com a luta pelo espaço vital (Lebensraum), frequentemente rebatizado na geopolítica moderna como disputa por territórios estratégicos, recursos naturais ou hegemonia regional. Embora o termo “espaço vital” seja historicamente associado ao expansionismo nazista, o conceito geográfico de garantir território para recursos, segurança e sobrevivência econômica permanece central em muitos conflitos modernos.

O espaço vital trata da necessidade de o Estado ter o direito de atuar sobre uma área geográfica (território) que garanta condições de sobrevivência de uma determinada sociedade. Este conceito foi formulado no contexto da II Revolução Industrial e no momento em que a Alemanha passava a exercer ação geopolítica na Europa.

Atualmente, o conceito de espaço vital (Lebensraum) é tratado predominantemente como um conceito histórico e geopolítico clássico, associado à necessidade de território para a sobrevivência e desenvolvimento de uma população, mas também é discutido em dois contextos distintos:

– Refere-se à teoria formulada por Friedrich Ratzel no final do século XIX, que defendia que o Estado é um organismo vivo que precisa de território (espaço) para crescer e garantir recursos para sua população. Esta teoria foi distorcida pelo nazismo para justificar a expansão territorial alemã (o “Espaço Vital Alemão”) antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

– Trata-se do “espaço vital psicológico”, definido como a totalidade de fatos que determinam o comportamento de um indivíduo em um determinado momento, não sendo um espaço físico, mas sim um espaço mental onde as influências ambientais e pessoais se cruzam.

Em debates contemporâneos, a noção de espaço vital evoluiu para o controle de recursos e influência econômica, focando na interdependência e no desenvolvimento de áreas de influência em vez de conquista territorial direta.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, sinto uma saudade imensa da minha infância e juventude em Nova-Cruz, que, para mim, será sempre a minha “aldeia”. A Nova-Cruz, de um tempo em que a maldade não tinha nascido, e quando a vida era um doce mel, com a família toda reunida, sob as bênçãos de Deus e do nosso porto seguro, Francisco e Lia.

A Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos, com a entrada de Jesus em Jerusalém, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria.

O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se dizia palavrões, e quase não havia brigas na cidade. Era um período de reflexão, e esperança de um mundo melhor.

Nesse tempo, durante a Semana Santa, a religiosidade pairava sobre a cidade e o povo lotava a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, para participar dos ritos religiosos.

O ar que se respirava era melancólico, diante da expectativa de que Jesus morreria crucificado na Sexta-Feira da Paixão.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.

As comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco, de presente, feitos em Casa de Farinha, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.

Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, se relembra a traição de Judas Iscariotes, um dos Doze Apóstolos de Jesus Cristo.

“Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei. Ajustaram com ele trinta moedas de prata. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus ( MT 26, 14- 16)”

Judas representa todas as forças do mal, que se opõem aos planos maravilhosos de Deus.

À tarde, a Igreja ficava lotada, e os fiéis participavam do Ofício das Trevas.

Algumas pessoas, por ignorância ou fanatismo religioso, naquele dia, não tomavam banho, achando que iriam pecar e ficar entrevadas, por castigo de Deus.

Esses medos faziam parte da crendice popular, espalhada pelos recantos mais atrasados do Nordeste.

Em uma das Missões de Frei Damião, em Nova-Cruz, foi desmistificada essa crendice, e o santo Frade, no fim de suas pregações, falava:

“Todo mundo pra casa, tomar banho, inclusive na Quarta-Feira de Trevas. Não quero ninguém aqui fedendo a bacorinha!” (porco novo).

A Vigília Pascoal faz parte do Tríduo Pascoal, onde vivemos os passos de Jesus, rumo ao Calvário, ao Sepulcro e à Ressurreição. Esse Tríduo começa com a Quinta-Feira Santa, pela conhecida Missa do Lava-Pés”, por meio da qual, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio, com uma recomendação:

“Fazei isso em minha memória” (Lc 22, 19).

Na Quinta-Feira Santa, portanto, se comemora o Lava-Pés e a Última Ceia de Jesus com seus apóstolos, segundo o relato dos evangelhos canônicos. É quando se revive a traição de Judas, durante a Última Ceia. É o começo do martírio de Jesus, que, enxotado e levando chibatadas dos guardas, carregaria sua Cruz, para ser crucificado e morto na colina “Calvário”.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus Cristo estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o dia do “Beija”.

Nesse dia, minha mãe jejuava, alimentando-se apenas de pão e água, assim como outras pessoas católicas.

Paralelamente, na Sexta-Feira da Paixão, havia uma grande preocupação das famílias, de esconder suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos quintais nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.

O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e, às vezes, faziam isso por brincadeira.

Por preceito religioso, nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e abstinência de bebidas alcoólicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois, não se tirava leite naquele dia, “sob pena” de, ao invés de leite, o animal jorrar sangue. As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas. Os bares e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.

Adultos e crianças pobres, de casa em casa, faziam um apelo, na Quinta- Feira Santa e Sexta Feira da Paixão, pedindo esmolas:

– Uma esmolinha, pelo amor de Deus, pra minha mãe jejuar no dia d’oje!

Na Sexta-feira da Paixão, até a natureza silencia. O Cordeiro é imolado. Jesus, morre na Cruz, rezando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Sábado de Aleluia era um dia diferente e menos triste, uma vez que se revivia, e ainda se revive, a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo.

Havia a malhação de Judas, em praça pública, o que divertia crianças e adultos. Era um dia de alegria e Esperança, pois o Padre, na missa da madrugada, celebraria a Aleluia, em louvor à Ressurreição de Jesus Cristo.

Ainda por causa da crendice popular, havia pessoas ingênuas, que temiam que a Aleluia não fosse “encontrada” e o mundo se acabasse. Achavam que a Aleluia, cântico de alegria e ação de graças, ligado ao tempo da Páscoa e Ressurreição de Cristo, era uma pinta de sangue, dentro do livro de orações do Padre.

O sino da Igreja da Imaculada Conceição repicava, em regozijo pela Ressurreição de Cristo, enquanto o Padre celebrava a “Aleluia”, entoando cânticos de louvor.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada. Ao amanhecer, é o Domingo de Páscoa, ou Passagem, a festa da Ressurreição de Jesus Cristo.

A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes do Cristianismo. A Ressurreição de Jesus Cristo, prova que Ele é o Filho de Deus, feito homem.

De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.

No tempo da minha infância e juventude em Nova-Cruz, não se falava em Ovos de Páscoa, nem se dava presente de chocolates a ninguém. O mercado de chocolates era muito precário. E Ovos de Páscoa, lá, era utopia.

Terminava a Semana Santa e a saudade batia, pois os estudantes voltavam às aulas, inclusive aqueles que estudavam na capital potiguar. O fluxo de pessoas que passavam a semana Santa em Nova-Cruz era grande, Iam rever os parentes que lá residiam.