Um tanto ausente das páginas de nossa querida gazeta, retorno após cuidados com a saúde e com demandas urgentes que não avisam quando desejam aparecer, com sói acontecer com as urgências. Desde já agradeço a generosidade de meus esparsos leitores.
Confesso que diversas vezes iniciei o texto desta coluna, pretendendo tratar de algum susto do momento, mas sempre que começava era atropelado por algum absurdo ainda maior, sempre surpreendido pela constatação de que o anterior não fora o ponto mais baixo que a indigente moralidade nacional poderia chegar.
Pensei em fazer um compilado dos últimos e inacreditáveis acontecimentos, a maioria deles parido pelas castas superiores da política e dos poderes da república, mas desisti para não abusar da paciência e da saúde dos colegas. Ademais, penas mais competentes que a minha já escreveram largamente sobre o assunto.
Portanto, permitam-me dividir uma experiência pessoal, que servirá de mote ao que pretendo tratar:
Tenho um amigo de infância, dessas amizades que desde o início sabemos eternas. Pois bem, este amigo tem muitas qualidades invejáveis, inclusive é poeta e ótimo escritor. Porém, o que mais admiro; invejo mesmo, não é nenhum de seus muitos talentos, mas o dom que ele tem para dormir.
Isso mesmo, trata-se de um verdadeiro dom. Aloisio (este é o seu nome) dorme, profundamente, em qualquer lugar ou circunstância. Por mais complicada que esteja a vida; os problemas enfrentados ou o barulho ao redor ele dorme o sono dos justos. E dá trabalho, muito trabalho para ser acordado. Em mais de uma ocasião perdeu avião por dormir além da hora. Entre amigos, sempre perguntamos: o que é preciso para o Aloisio acordar?
Mencionei meu amigo para fazer uma pergunta cuja possível resposta me causa temor: O que será preciso para o Brasil acordar? Sim, como Aloisio, o país dorme o sono dos justos, enquanto ao redor e em suas próprias entranhas os absurdos gritam a plenos pulmões.
A cúpula do judiciário ultrapassa todos os limites constitucionais; pune inocentes com crueldade assemelhada à tortura; invade prerrogativas de outros poderes e tem alguns de seus membros envolvidos naquele reputado como o maior escândalo bancário da história e, diante da lama que se aproxima, impõe sigilo total sobre aquilo que toda a população deveria saber, seguindo em uma espiral descendente sem fim. E o país dormindo…
Uma ditadura sanguinária massacra a população que grita por liberdade; um ditador assassino é deposto, preso e levado à julgamento por uma potência estrangeira, isso a poucos quilômetros de nossa fronteira, e o que faz nosso presidente e seu entorno? Apoia os ditadores, em alinhamento ao que existe de pior no mundo, fingindo não saber que pode ser o próximo. E o país dormindo…
As contas públicas, premidas por gastos irresponsáveis e inúteis, cujo único resultado visível é o luxo usufruído pelo casal real e seus amigos, explodem com estrondo ensurdecedor, deixando um precipício cuja beirada está logo à frente. O ministro da fazenda, atual “cárrego dos arreios do Rei”, chicoteia a população com impostos extorsivos e mesmo assim o abismo se aprofunda. Vamos todos cair. E o país continua dormindo…
O Crime organizado toma do Estado e subjuga a população de grandes áreas do território e se infiltra em todas as esferas dos poderes constituídos, conduzindo o país a passos largos para se tornar um narcoestado, enquanto governantes e segmentos dos meios artísticos e intelectuais se alinham aos criminosos e atacam as forças de segurança. Mesmo assim o país continua dormindo.
O sono do meu amigo é um dom. O sono do país é uma maldição que nos condena a um eterno rebaixamento moral, ético e institucional. Enquanto o país dorme, perde-se estrepitosamente a honra, a liberdade, a segurança e o futuro. Nem isso o faz acordar. O que precisará acontecer?
Intervenção estrangeira? Ruína econômica? Quebra da ordem social? Nem quero pensar em algo assim; confesso temer a resposta. Só espero que quando isso ocorrer o avião não tenha partido e ainda haja tempo.
Acorda, Brasil, o tempo urge!