MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

OS GÓTICOS DO MEIO DIA

Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.

A que vou narrar pertence ao último grupo.

Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.

O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.

E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.

Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.

Dois jovens. Dois espectros.

Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:

Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.

Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.

Quase dava para ouvir o sol rindo deles.

Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:

— O que significa isso?

E então veio a resposta.

A resposta que não deveria existir.

A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.

A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:

“Somos góticos.
Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”

Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.

Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.

Era o triunfo da contradição.

Era o triunfo da estética sobre a lógica.

Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.

E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:

“Meus filhos, cuidem-se.
Até os mortos suariam nesse calor.”

Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.

Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.

E eu testemunhei isso.

Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A GRANDE ÓPERA DA FALSIDADE

Uma Denúncia Implacável das Festas de Fim de Ano

Há quem diga que dezembro é o mês da luz, da esperança, da fraternidade. Balela. Dezembro é, na verdade, o grande palco onde a humanidade exibe — com orgulho quase comovente — sua capacidade infinita de fingir. É quando a sociedade, já exausta de suas próprias contradições, resolve maquiar-se com purpurina emocional e interpretar, com a profundidade de uma poça d’água, o papel de “ser humano elevado pelas virtudes do natal”.

Uma pantomima coletiva que faria até os deuses gregos gargalharem de pena.

A súbita conversão dos medíocres

É fascinante observar como, no último mês do ano, os mesmos que passaram janeiro a novembro praticando grosserias, indiferença, veneno social e mesquinharia passam por uma metamorfose tão improvável quanto duvidosa.

Do nada, tornam-se anjos barrocos:

— “Feliz Natal, querido!”
— “Que Deus te abençoe!”
— “O importante é o amor!”

Dezembro transforma canalhas em santos de gesso, e hipócritas em poetas de cartão de shopping.

É a única época do ano em que pessoas tóxicas distribuem abraços — como se o calor humano que negaram durante meses pudesse ser compensado com um tapinha nas costas e um sorriso forçado.

As ceias — templos da falsidade refinada

E lá vão todos, vestidos de branco, como se a cor pudesse purificar suas intenções. Sentam-se à mesa para uma refeição que ninguém quer realmente compartilhar, mas todos fingem apreciar. Convive-se durante essas horas com parentes que se evitou o ano inteiro, respondem-se perguntas idiotas com paciência postiça e ri-se de piadas tão mortas quanto o peru da véspera. É uma liturgia tão teatral que faria Shakespeare pedir arrego.

O velho de barba branca — símbolo máximo da alienação sazonal

E no centro desse circo moral está ele: o venerável Papai Noel, uma figura tão logicamente absurda quanto emocionalmente conveniente.

Um velhinho gordo, vestido de lã em pleno calor tropical, que dirige um trenó voador puxado por renas possivelmente alucinadas.

Esse personagem simboliza, com perfeição, o nível de fantasia necessária para sustentar a farsa coletiva.

Afinal, é preciso crer em alguma coisa para justificar toda essa performance artificial — e nada mais apropriado do que um mito importado, descolado de qualquer realidade.

A fé adaptada às conveniências

E como se já não bastasse, o calendário ainda insiste em celebrar um nascimento que — historicamente — não ocorreu no mês celebrado.

Mas aceitar fatos nunca foi o forte dos entusiastas das festas de fim de ano. O importante é a encenação. A aura artificial. O verniz de “espiritualidade”. Não importa que o homenageado provavelmente reprovaria 90% dos excessos cometidos em seu nome.

A verdade incômoda — e inegável

Toda essa farofa emocional serve a um propósito simples: fingir que somos melhores do que realmente somos.

Dezembro é o momento em que a humanidade tenta corrigir, em poucos dias, um ano inteiro de descaso, preguiça moral e egoísmo institucionalizado.

É a estação da hipocrisia em flor. Mas há quem observe tudo isso com a tranquilidade dos que não caem na farsa. Aqueles que preferem a solitude honesta a uma festa ruidosa; o silêncio inteligente a uma conversa vazia; um copo de whisky verdadeiro a um brinde falso. Esses — poucos, raros e lúcidos — sabem que dezembro não é sagrado, iluminado ou transformador. Dezembro é apenas um mês quente demais, barulhento demais, teatral demais e insuportavelmente hipócrita. E que, quando passa, deixa-nos apenas um alívio imenso: o de saber que não precisamos participar do espetáculo grotesco da “bondade temporária” jamais.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL E O LABIRINTO DA POLÍTICA DESUMANA

Há no Brasil uma engrenagem silenciosa, vasta e pegajosa, que gira muito antes da chegada de qualquer governante e continuará girando muito depois da partida de todos eles. Não se trata de esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores ou de qualquer rótulo que a polarização histérica insiste em fabricar. Trata-se de algo mais profundo, mais arraigado e mais perverso: um sistema político concebido para sobreviver a despeito do povo — e não por causa dele.

O problema do Brasil nunca foi a falta de discursos. Discursos sobram. São abundantes, inflamados, revestidos de boas intenções e embalados na sedução fácil da esperança. O problema é que o discurso político brasileiro é, por natureza, um monumento à desumanidade, porque promete humanidade, mas opera na lógica fria da autopreservação.

O sistema político nacional tornou-se um labirinto onde a verdade perde a voz e a mentira ganha gabinete. A moral é elástica, o interesse público é retórico, e o poder se tornou um fim em si mesmo — não uma ferramenta. Quando a política deixa de servir ao povo para servir aos seus próprios operadores, ela se transforma em uma máquina desumana, indiferente, insensível e voraz.

O Ciclo Vicioso do Nada

O Brasil vive, há décadas, um mesmo ciclo repetitivo:

— escândalo → indignação popular → promessas de mudança → eleição → frustração → novo escândalo.

Este processo circular não é coincidência; é método.

É a prova de que o sistema não se renova: ele apenas se rearranja.

A cada quatro anos, troca-se a paisagem, mas a arquitetura permanece idêntica. São os mesmos vícios, as mesmas estruturas, as mesmas brechas legais, a mesma incapacidade crônica de priorizar o essencial. Políticos mudam; o sistema permanece tão intocado quanto uma rocha, e tão frio quanto ela.

A Política da Aparência

Há uma teatralidade no Brasil que transforma a política em espetáculo. Debates viram arenas de gladiadores, não de ideias. Projetos de lei se tornam armas de marketing. Votações se convertem em palcos. O discurso político se distancia da realidade concreta e se aproxima da dramaturgia:

— atores ensaiados,
— falas decoradas,
— narrativas prontas,
— indignações calculadas.

Enquanto isso, o cotidiano da população se deteriora nos becos, nos corredores dos hospitais, nas salas de aula esquecidas, nas estradas esburacadas.

O país real sangra; o país político posa para fotos.

O Estado Mastodonte

Criamos um Estado tão grande, tão lento, tão pesado e tão burocrático, que ele próprio se tornou incapaz de atender às demandas que promete resolver. A máquina estatal brasileira consome mais energia para manter-se de pé do que para servir. É um organismo que respira por aparelhos, alimentado por impostos que drenam o suor da sociedade para sustentar uma estrutura que raramente devolve na mesma proporção.

O povo financia um colosso que o ignora.

E esse é o ponto: o sistema político brasileiro é desumano porque é indiferente.

A Falácia da Representação

Fala-se muito em “representatividade”. Mas o que significa representar um povo que não participa, não é ouvido, não é considerado? A maior falácia do sistema político brasileiro é dizer que representa o cidadão quando, na prática, representa interesses de grupos, lobbies, alianças, acordos subterrâneos e barganhas eternas.

O cidadão comum é lembrado apenas quando vota — e esquecido imediatamente depois.

A representatividade no Brasil é decorativa.

A democracia existe no papel; no cotidiano, ela é um simulacro.

A Corrupção Não é o Problema — É o Sintoma

A corrupção no Brasil não é um acidente, não é um desvio isolado, não é obra deste ou daquele partido. Ela é o efeito natural de um sistema que cria incentivos para a prática e punições tímidas para quem a comete. Focar apenas na corrupção é focar no sintoma e ignorar a doença: a desumanização da política.
É fácil culpar indivíduos; é difícil encarar estruturas.

O Cansaço Nacional

O brasileiro está cansado.

Cansado de promessas.
Cansado de discursos.
Cansado de indignação seletiva.
Cansado de narrativas que mudam, mas práticas que persistem.
Cansado de ser massa de manobra, combustível eleitoral, estatística ambulante.

Esse cansaço não é apatia; é dor.

É a percepção de que o país poderia ser gigante, mas é mantido no chão por correntes invisíveis.

A Urgência da Humanidade

O que falta ao sistema político brasileiro não é uma ideologia milagrosa.
Não é um salvador da pátria.

Não é uma mudança de cor partidária.

O que falta é humanidade.

É a capacidade de olhar para o outro e reconhecer sua dignidade.
É a coragem de colocar o bem comum acima do cálculo eleitoral.
É a ética como princípio, e não como marketing.

Quando uma política deixa de ser humana, ela deixa de ser política e se torna mera gestão de poder.

O Brasil vive exatamente isso.

Conclusão: o Adjetivo que Condena

Se fosse possível resumir toda a falência moral e estrutural do sistema político brasileiro em um único adjetivo, seria este:

Desumano.

Porque desumano é tudo o que nega o outro, ignora o sofrimento, se alimenta da desigualdade e prospera com a injustiça.

E, enquanto não houver um movimento profundo — cultural, ético, estrutural — que recoloque o ser humano no centro da política, o sistema continuará sendo exatamente o que sempre foi: um labirinto sem saída, onde o povo é o único que não encontra a porta.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O HOMEM E O ESPELHO DO ABISMO

Há no homem uma centelha divina e uma sombra abissal. Desde que se ergueu sobre duas pernas e contemplou o firmamento, ele passou a travar uma guerra íntima entre o impulso de criar e o impulso de aniquilar. É o único ser que contempla as estrelas e, ao mesmo tempo, fabrica as armas capazes de apagá-las da memória dos olhos.

Nenhum outro animal concebe a própria destruição com método e cálculo. O tigre mata por instinto; o homem, por argumento. O escorpião fere quando ameaçado; o homem, por ideologia. O instinto natural é breve, o humano é racionalizado. Ele planeja o caos, projeta o colapso e, em nome de uma ideia, arrasta consigo gerações inteiras.

Somos a espécie que descobriu o fogo e, em seguida, construiu o inferno.

A inteligência, esse presente divino, converteu-se em faca de dois gumes. O mesmo engenho que ergueu catedrais, lançou telescópios e decifrou o DNA é aquele que desenhou Auschwitz, Hiroshima e Chernobyl. A mente humana, sedenta de transcendência, muitas vezes se perde na vertigem da onipotência. Queremos ser deuses — e, por isso mesmo, criamos o demônio à nossa imagem.

O abismo não está fora; habita-nos. A cada avanço tecnológico, cresce a sombra do uso que dele faremos. Não há neutralidade nas mãos que tocam o poder. Toda invenção humana é, em si, um espelho: reflete tanto a luz do engenho quanto a escuridão da intenção. A bomba atômica é, talvez, o símbolo supremo dessa dualidade — fruto da mais alta matemática e da mais baixa moralidade.

Somos capazes de criar mundos inteiros dentro de uma tela, mas incapazes de sustentar um olhar compassivo diante da miséria. Criamos redes que unem continentes, mas isolam consciências. A ciência progride em saltos quânticos, e a alma retrocede em abismos morais.

O Homo sapiens tornou-se o Homo contradictorius — sábio e estúpido, criador e verdugo, artista e algoz.

E, no entanto, há algo de sublime nesse conflito.

Porque é justamente nele que reside a possibilidade da redenção.

O horror só é possível porque ainda resta no homem a noção de que há limites — o “embrulho no estômago”, a náusea diante do abismo. Essa reação visceral é o último vestígio de humanidade pura, o sinal de que a consciência não morreu.

Nietzsche alertou: “Quando olhas longamente para o abismo, o abismo olha de volta.” E o homem, fascinado, fixou o olhar. Há séculos fitamos essa escuridão e começamos a reconhecermo-nos nela. Talvez o segredo não seja fugir, mas encará-la com lucidez, reconhecendo o monstro para que ele não nos possua.

A monstruosidade cresce no silêncio da negação; diminui na luz do reconhecimento.

Em cada criação humana pulsa um dilema: servir à vida ou à morte.

A arte é a resposta mais alta à tentação do niilismo. Cada sinfonia é um grito contra o caos; cada poema, uma barricada contra o vazio. A verdadeira ciência é irmã da humildade — quando busca compreender o cosmos, e não dominá-lo. Mas quando o saber se converte em arrogância, o homem deixa de ser criador e passa a ser carcereiro do próprio destino.

Há uma ironia trágica em nossa condição: construímos templos para os deuses e, no mesmo gesto, projetamos a ruína deles. Queremos a eternidade, mas agimos como se o amanhã fosse descartável.

Somos a espécie que inventou o conceito de “futuro” e, paradoxalmente, trabalha para destruí-lo.

E, ainda assim, contra toda evidência, persiste a chama.

Porque, em meio às ruínas, o homem continua criando — e talvez aí resida sua salvação. Criar é negar o nada. É resistir. É afirmar, diante da morte, que ainda há sentido.

Enquanto houver quem compõe uma música, escreve um verso, observa uma estrela, ou acolhe um cão sem dono, o mundo ainda não está perdido.

A destruição é obra de muitos; a criação, de poucos.

Mas é desses poucos que a história se reergue. São eles — os poetas, os sábios, os compassivos — que sustentam o delicado equilíbrio entre o apocalipse e o amanhecer.

O homem é o único animal que chora diante da beleza e, no entanto, empunha a foice contra ela. Mas é também o único que, ao fitar a própria ruína, pode dizer: “basta”. Enquanto houver esse poder — o de interromper o gesto destrutivo e escolher o gesto criador —, há esperança.

A humanidade caminha à beira do abismo.

Mas enquanto houver um olhar capaz de se comover, ainda haverá caminho.

E talvez seja exatamente esse limite — essa náusea ética, esse horror diante do horror — que nos separa do colapso.

A espécie que pode destruir-se por completo é também a única que pode, por decisão moral e consciência, escolher não fazê-lo.

E nisso, paradoxalmente, reside a nossa grandeza.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

COP30: O GRANDE TEATRO DO DESVIO CLIMÁTICO

Veio o grande circo. Palco da esperança ecológica, cartaz publicitário da salvação do planeta — e, no entanto, encenado com luxo, privilégio e inconsistência. A COP30 ergueu-se prometendo salvar a Amazônia, domar o aquecimento global, restaurar a justiça climática. Mas o que vemos, nas entrelinhas da propaganda, é o espetáculo dos desvios — de finalidade, de prioridades, de honestidade.

1. A hipocrisia estrutural

Os delegados chegaram para discutir emissões-zero e descarbonização enquanto as emissões globais continuavam a subir. Os anfitriões brasileiros anunciaram ser “a COP na Amazônia”, símbolo de sustentabilidade — e, simultaneamente, avalizaram leilões de exploração de óleo e expansão de infraestrutura que favorecem o agronegócio e os combustíveis fósseis.

O discurso: “Defender a floresta, proteger o clima”. A prática: reuniões em navios-cruzeiro, hotéis sobrecarregados, taxas de estadia para países pobres maiores que toda a contribuição de alguns para a própria conferência.

2. O custo da exclusão

Uma das grandes piadas desta COP30 é a ideia de “inclusão global”. Mas como incluir quando se exige das delegações diárias de US $ 700 ou mais por noite — enquanto muitos países vulneráveis têm orçamentos reduzidos à míngua?

A cidade-sede, Belém, com 18.000 leitos para estimados 45.000 participantes — problema logístico grave? Sim. Mas grave sobretudo é serem os países mais atingidos pelas mudanças climáticas aqueles que ficam de fora porque “não cabem” no orçamento do espetáculo.

Assim, a salvação do planeta vira convenção de ricos — ou convenção que só incluem aos que podem pagar.

3. Distorção da finalidade: espetáculo versus ação

O que esta COP mais entrega: painéis, discursos, compromissos que soam grandiosos, frases de efeito. Mas onde está a alocação concreta de fundos, a limitação real das emissões, a supervisão eficaz das metas? Os relatórios mostram que apenas 25 países haviam submetido suas novas contribuições nacionais (NDCs) antes da COP30.

Dito de outra forma: chegamos à COP para “salvar o clima”, mas sem que o mecanismo global tenha equilibrado de fato a balança entre promessa e execução. Enquanto isso, a energia predatória segue em ascensão, os combustíveis fósseis seguem financiados, os lucros dos grandes atores permanecem intactos.

4. Luxo, ostentação e descompasso moral

Enquanto o mundo clama por moderação de carbono, se inaugura infraestrutura própria para acomodar delegações: navios-cruzeiro como hotéis temporários, iates e barcos transformados em “soluções de alojamento” — alusão grotesca ao “vamos debater o clima enquanto navegamos no símbolo do luxo”. Para muitos, a COP30 tornou-se o palco do que o comentarista chamou de “climate greenwashing deluxe”, traduzido ao pé da letra como “lavagem verde climática de luxo.”

Não é mero detalhe: é metáfora da falência ética daquilo que deveria ser o mais sério compromisso coletivo da humanidade.

5. O resultado previsível: esperanças perdidas

Há pouco mais que retórica. O cronograma global de US $ 300 bilhões anuais até 2035 foi anunciado no COP29, mas qual o mecanismo concreto para cumprir? Tendências mostram que a ambição falha e que o cronograma será estendido ou recuado.

Enquanto isso, o relógio climático não espera.

Conclusão: O Despertar ou o Acordar Tardio

A COP30 podia ser um monumento de viragem — mas corre o risco de ser apenas mais um símbolo de impotência, com rostos famosos, discursos eloquentes e almoços nababescos, mas sem mudanças reais. A hipocrisia não está nas intenções, nem sequer sempre nos indivíduos. Está na “estrutura”. (Leia-se aqui, o desgoverno). Quando a finalidade original — “reduzir emissões, proteger os vulneráveis, reconstruir a justiça” — se transforma em “login em viagem internacional, encontro de elites, protocolo diplomático”, o resultado não podia ser diferente: espetáculo sem substância.

É hora de exigir que resumam menos, façam mais. Que não se reservem iates e navios-cruzeiro para debater justamente, modo de vida sustentável. Que países vulneráveis tenham assento de verdade, não ingresso de luxo. Que promessa signifique execução, e que metas inalcançáveis deixem de ser promessa de marketing.

Porque se o grande encontro global para “salvar o clima” não for credível, será apenas parte do problema — e não da solução.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A VERGONHA LÚCIDA DOS QUE AINDA AMAM O BRASIL

Há uma vergonha que não vem da covardia, mas da lucidez. Uma vergonha que não é a negação da pátria, e sim o desgosto de quem a enxerga por inteiro — sem filtros, sem slogans, sem o truque sentimental barato do verde-amarelismo de ocasião. É a vergonha de quem ama o Brasil, mas não suporta mais vê-lo desmentir-se todos os dias com a pontualidade de um relógio suíço e a desfaçatez de um carnaval fora de época.

Há uma vergonha que não nasce do ódio, mas do amor.

É a vergonha dos lúcidos, dos que ainda enxergam beleza onde a maioria vê apenas lama. A vergonha de ser brasileiro não é vergonha da terra, do povo, da língua ou da música — é a vergonha de ver um país tão vasto em talento e alma ser conduzido por mentes tão pequenas.

É a vergonha de quem observa, com o olhar cansado, a transformação do discurso público em feira de vaidades, em teatro grotesco, onde se confundem humor e cinismo, simplicidade e ignorância, carisma e demagogia.

Enquanto o Brasil pulsa sob um sol de ouro e música, lá em cima, nos palcos do poder, encena-se a tragédia da mediocridade: o riso fácil, o discurso vulgar, a piada de boteco disfarçada de diplomacia. E quem pensa, quem sente, quem ainda exige grandeza — se recolhe envergonhado, não por ser brasileiro, mas por ser brasileiro demais para suportar o rebaixamento constante do espírito nacional.

Essa vergonha não é covarde; é o contrário. É o eco de um amor não correspondido.

É o grito silencioso dos que sabem que o Brasil podia ser imenso — culturalmente, moralmente, espiritualmente — e, no entanto, insiste em tropeçar nas próprias sandálias, rindo da própria ruína.

Mas há algo de nobre nessa vergonha. Porque ela é o último sinal de que ainda há lucidez, ainda há esperança, ainda há quem queira ver o país de pé — limpo, digno, adulto.

Ter vergonha do Brasil é, paradoxalmente, amar o Brasil de forma mais pura: sem ilusões, sem bandeirinhas, sem slogans, apenas com o desejo de vê-lo enfim tornar-se aquilo que prometeu ser.

Ser brasileiro, hoje, é viver num eterno dilema entre a ternura e o náusea. É amar a música, o idioma, o povo, o céu, e ao mesmo tempo sentir vergonha das criaturas que, por acidente histórico e voto distraído, ocupam o poder. É ver um país de João Gilberto, Guimarães Rosa e Santos Dumont ser representado por bufões que tratam diplomacia como conversa de botequim e tragédias geopolíticas como rodadas de chope.

Vivemos numa república em que a ignorância não é mais um defeito — é um estilo de governo. O populismo tornou-se virtude, a improvisação virou método, e o “deixa comigo que eu resolvo tomando uma cerveja” virou doutrina de Estado. O país parece viver numa crônica de Nelson Rodrigues reescrita por um roteirista da Praça é Nossa.

E o mais espantoso: há quem bata palmas. Há quem chame de “espontaneidade”. Há quem veja genialidade onde há apenas a mais primária das indigências intelectuais.

Não há nada mais trágico do que ver a mediocridade aplaudida de pé.

E nós, que ainda temos a ousadia de pensar, somos tomados por essa vergonha antiga, que é quase amor em estado de desalento. Porque não odiamos o Brasil – odiar seria fácil.

Nós o amamos demais para suportar vê-lo assim, ajoelhado diante de sua própria caricatura.

O brasileiro lúcido é uma figura trágica: ele olha o país e sente, simultaneamente, orgulho e repulsa.

Orgulho pela arte, pela inteligência difusa nas esquinas, pela generosidade do povo anônimo.

Repulsa pelos discursos vulgares, pelas frases de efeito que soam como arrotos de boteco, pelo uso da ignorância como plataforma eleitoral.

É um eterno “sim, mas…” — um amor que se desculpa por existir.

O pior é que o Brasil se acostumou à piada.

A política virou stand-up; a seriedade, ofensa; o pensamento, um luxo supérfluo.

E enquanto os que leem, estudam, refletem e trabalham se recolhem — meio envergonhados, meio exaustos —, o país se diverte com a própria ruína.

Afinal, rir sempre foi o disfarce nacional para o desespero.

Mas há uma elegância silenciosa na vergonha.

Ela é o último resquício da decência.

É a confissão de que ainda há quem espere mais, quem exija mais, quem queira ver o país de pé, limpo, sóbrio e digno.

A vergonha lúcida é, paradoxalmente, o último sinal de esperança — o suspiro dos que não desistiram, mas já não se iludem.

O Brasil é uma promessa que insiste em não cumprir-se.

E nós, os envergonhados, somos os únicos que ainda acreditam que, talvez um dia, ele cumpra.

Até lá, seguimos — com o copo na mão, a ironia nos lábios e a lucidez nos ombros —, brindando àquilo que o Brasil poderia ter sido, se não insistisse tanto em ser apenas o que é atualmente: uma República Banânica.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A NOITE DOS GEMIDOS EQUIVOCADOS

Nunca se sabe quando a vida decide nos pregar uma de suas pequenas, mas inesquecíveis, peças de teatro. Foi numa dessas madrugadas de Propriá, em 1992, que o ordinário se confundiu com o extraordinário, e o silêncio da noite se tornou cúmplice de um mal-entendido digno de um roteiro de comédia.

Minha ex-esposa e eu estávamos, enfim, descansando depois de um dia de cansaço razoável. Marcus Alexandre, nosso amigo recém-retornado de uma longa temporada missionária na Bolívia, também repousava, ou pelo menos tentava.

Pouco depois da 1 da manhã, estranhos sons começaram a perfurar a serenidade da casa. Gemidos, suspiros, exclamações curtas — “ain, ain, ain”, “unhé, unhé!” — seguidos de perguntas que soavam absurdamente sugestivas: “Quer mais, quer??”

Levantei-me e a minha ex-esposa assustada, atrás de mim perguntando o que seria aquilo, pois os barulhos e gemidos se intensificaram e, pouco depois, lá estava o Marcus Alexandre, também acordado, os olhos arregalados de incredulidade e como quem estava pensando: “Que diabos será isso?”

Olhei para o Marcus. Ele me olhou de volta, a expressão inconfundível: “Ôôôôôxi!”. Nenhum de nós precisava de tradução: o cérebro, por um instante, se recusou a processar a realidade.

A curiosidade — ou a imprudência — falou mais alto. Abrimos a porta. E ali, sob a luz pálida da madrugada, a revelação: um jovem casal, sentados nos degraus de acesso à porta de nossa casa. O rapaz, empenhado, entregava nada mais do que um cachorro-quente à namorada, que, por sua vez, era surda-muda. Os sons, ao invés de paixão proibida, eram apenas uma tentativa amorosa e barulhenta de comunicação — e de apreciação do lanche.

O riso foi inevitável. Eu ri tanto que minha garganta quase cedeu; minha ex-esposa, de tanto rir, chorava; Marcus, no outro quarto, tentava recuperar o fôlego entre gargalhadas. Na manhã seguinte, durante o café, ainda não nos recuperáramos. E o assunto, claro, dominou a mesa.

A vida, constatei, tem o poder de transformar a mais inocente das cenas em um episódio memorável. E às vezes, a comédia mora exatamente nos lugares onde menos esperamos — até que o cheiro de cachorro-quente e a inocência de um casal nos lembram que, afinal, o mundo é sempre mais engraçado e gentil do que imaginamos.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

MANUAL DO BOM HIPÓCRITA MODERNO

Quer sobreviver no século XXI sem suar? Senhoras e senhores, bem-vindos ao século XXI: a era em que a hipocrisia deixou de ser vício para se tornar currículo. O hipócrita moderno não é um dissimulado tímido, escondido nas sombras; ele é um artista performático, com perfil verificado e manual de conduta. Eis, portanto, o Manual do Bom Hipócrita Moderno.

Siga estas regras infalíveis do bom hipócrita:

1. Opine sobre tudo: Não importa se não leu, não estudou, não sabe. O silêncio é mortal para a reputação digital. Diga qualquer coisa, mas diga com convicção.

2. Indigne-se seletivamente: Indignação universal é cara; escolha causas que deem visibilidade. Se possível, aquelas que tenham emoji próprio.

3. Seja inclusivo em público, exclusivo em privado: Pregue diversidade nas redes; no churrasco de sábado, convide sempre os mesmos amigos.

4. Apoie minorias — desde que não atrapalhem seu conforto: Poste frases de efeito, mas não ouse abrir mão de privilégios concretos.

5. Adote palavras mágicas: Sustentabilidade, resiliência, empoderamento, equidade. Não precisam significar nada; apenas soam bem.

6. Apague rastros: Hipócritas antigos eram pegos pela memória das pessoas; o moderno confia na memória curta das redes. Delete, poste outra coisa, siga em frente.

7. Primeira regra: fale de tudo, mesmo sem saber nada. A ignorância só é pecado quando silenciosa; com hashtags, ela vira virtude.

8. Segunda regra: indigne-se seletivamente. Guarde energia para causas que deem visibilidade. Melhor ainda se tiverem emoji próprio: arco-íris, punho cerrado, planeta Terra.

9. Terceira regra: pregue diversidade em público, mas mantenha sua bolha intacta em privado. Assim você exibe consciência sem renunciar ao conforto.

10. Quarta regra: use sempre palavras mágicas. Resiliência, empoderamento, equidade. Elas funcionam como perfume: escondem o mau cheiro da incoerência.

11. Quinta regra: pratique o ativismo performático. Poste uma foto com filtro, um texto copiado de Wikipedia e declare-se engajado. Se alguém cobrar coerência, diga que “o importante é levantar a bandeira”.

12. Sexta regra: apague rastros. O passado? Delete. O presente? Poste outra coisa. O futuro? Depende da próxima tendência.

Com esse manual, o hipócrita moderno não apenas sobrevive: ele é celebrado. É convidado para painéis, entrevistas e podcasts. Afinal, nada mais admirado hoje do que a capacidade de vender imagem. E se a máscara cair? Faça cara de vítima. No palco atual, a vítima sempre sai ovacionada.

A hipocrisia, enfim, deixou de ser pecado mortal e virou soft skill. E quem não aprender esse ofício corre o risco de ficar para trás — com a incômoda desvantagem de ainda ter que ser autêntico.

Seguindo esse manual, você não será apenas um sobrevivente: será celebrado como “engajado”. O segredo é simples: não precisa mudar nada — só parecer. E, se for descoberto, faça cara de vítima. Afinal, no mundo atual, até a hipocrisia tem passe livre — desde que bem embalada.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL DA INVERSÃO DE VALORES: A CRISE DE JUSTIÇA E A REVOLTA DO CIDADÃO

Vivemos em um Brasil onde a realidade parece ter sido desconectada do senso comum de justiça. Em meio a um cenário de violência crescente, desigualdade social gritante e decisões judiciais cada vez mais questionáveis, o sentimento de frustração e impotência toma conta de milhões de brasileiros que se veem abandonados por aqueles que deveriam representá-los.

Casos recentes envolvendo a soltura de criminosos acusados de crimes bárbaros, como assassinatos e decapitações, causam indignação pública não apenas pela brutalidade dos atos, mas pela justificativa frágil das decisões. A alegação de que esses indivíduos “não representam perigo à sociedade” beira o cinismo, e deixa clara uma desconexão entre a teoria jurídica e a realidade vivida nas ruas.

O Judiciário brasileiro, que deveria ser o guardião dos direitos e da ordem, tem sido percebido por muitos como seletivo, distante e, em alguns casos, comprometido com interesses que não são os do povo. Decisões contraditórias, ativismo judicial desproporcional e falta de responsabilização criam um ambiente de insegurança jurídica e social.

Paralelamente, o atual governo, que deveria conduzir políticas públicas eficazes e proteger os direitos fundamentais dos cidadãos, demonstra omissão diante de pautas urgentes. Ao ignorar os clamores populares, normalizar a impunidade e fechar os olhos para abusos cometidos em diversas esferas do poder, transmite à sociedade a mensagem de que a justiça é um privilégio de poucos.

Esse cenário aprofunda o sentimento de que vivemos uma inversão de valores: o cidadão honesto é tratado como suspeito, enquanto criminosos recebem tratamentos brandos em nome de um garantismo que, muitas vezes, serve mais como escudo político do que como instrumento de equidade.

Não se trata aqui de clamar por vingança, mas por coerência. O povo brasileiro não pede punições desmedidas, mas sim justiça real, proporcional e acessível. Quando o Estado falha em aplicar a lei com firmeza e equidade, mina-se a confiança social e alimenta-se a descrença nas instituições.

É preciso um movimento de reflexão nacional. O Brasil precisa urgentemente de um pacto entre seus cidadãos, juristas e governantes para resgatar o valor da justiça, da ética e da responsabilidade pública. Ignorar esse chamado é perpetuar o abismo entre a lei e a vida.

A indignação não é apenas um sentimento: é um sinal de que ainda há consciência. E é a partir dela que pode nascer a mudança que tanto esperamos.

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO

O século XXI inventou uma nova Inquisição — só que agora os inquisidores não usam batina nem carregam tochas; carregam hashtags. O politicamente correto se tornou a nova gramática moral: não se trata de respeitar, mas de domesticar. As palavras, antes pontes, viraram minas terrestres: pisa em falso, explode.

A ironia? O politicamente correto nasceu como antídoto contra preconceitos. Mas, em pouco tempo, foi sequestrado pelos sacerdotes do ressentimento. Agora, em vez de libertar, aprisiona. Não se pode rir, não se pode pensar em voz alta, não se pode experimentar ideias. Tudo precisa ser testado num laboratório de assepsia social — onde as frases são passadas em álcool gel antes de chegar ao público.

Resultado: o humor morreu, a espontaneidade foi demitida e a conversa transformou-se num manual de conduta. Ninguém fala: emite comunicados. Ninguém pensa: consulta cartilhas. O medo não é de errar — é de ser filmado errando. Assim nasce a “ditadura soft”: sem tanques nas ruas, mas com censores em cada timeline.

E a vida, como sempre, vinga-se: quanto mais tentam impor pureza, mais cresce a hipocrisia. O politicamente correto não gera bondade; gera máscaras. E, por baixo delas, continuam os mesmos vícios de sempre, só que agora envernizados.

Há ditaduras que se impõem com fuzis, tanques e censores oficiais. Outras, mais sutis, não precisam de exércitos — basta um exército de ofendidos com celular na mão. Essa é a ditadura do politicamente correto: não tem quartel-general, mas controla corações e mentes pela chantagem moral.

O curioso é que nasceu com intenções legítimas. Evitar ofensas, respeitar minorias, refrear preconceitos — quem poderia ser contra? Mas o bom propósito foi sequestrado por patrulhas ideológicas que não diferem muito dos antigos censores. Trocaram a mordaça pelo “cancelamento”, a fogueira pelo “exposed” e o tribunal pela timeline.

Hoje, quem ousa arriscar uma piada, um comentário, uma frase fora do script, pode ter sua vida virada do avesso. O que era erro vira crime, e o que era divergência vira blasfêmia. O humor, essa arte nobre de revelar verdades escondidas, foi condenado à clandestinidade. A espontaneidade virou suspeita. O diálogo, uma coreografia ensaiada de termos autorizados.

O politicamente correto não cria cidadãos melhores; cria cidadãos com medo. É uma ditadura sem quartel, mas com muita delação: todo mundo vigiando todo mundo, como se a virtude dependesse da censura. No fundo, é só mais uma forma de controle — e como toda forma de controle, gera hipocrisia. Por fora, discursos floridos; por dentro, preconceitos intactos.

A verdadeira liberdade não é falar sem pensar, mas pensar sem medo. Se não podemos rir de nós mesmos, se não podemos ironizar o poder, se não podemos nem tropeçar na palavra errada sem correr risco de linchamento moral, então estamos de volta à Idade Média — só que com Wi-Fi.