Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.
A que vou narrar pertence ao último grupo.
Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.
O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.
E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.
Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.
Dois jovens. Dois espectros.
Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:
Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.
Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.
Quase dava para ouvir o sol rindo deles.
Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:
— O que significa isso?
E então veio a resposta.
A resposta que não deveria existir.
A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.
A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:
“Somos góticos.
Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”
Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.
Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.
Era o triunfo da contradição.
Era o triunfo da estética sobre a lógica.
Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.
E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:
“Meus filhos, cuidem-se.
Até os mortos suariam nesse calor.”
Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.
Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.
E eu testemunhei isso.
Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.