O Estado brasileiro é uma criatura curiosa. Não é exatamente um Estado moderno, tampouco um Estado arcaico: é um híbrido barroco, exuberante na forma, confuso na função e voraz na arrecadação. Ele não governa — administra o próprio inchaço. Não planeja — reage. Não serve — exige. Seu talento mais refinado não é a eficiência, nem a justiça social, nem o desenvolvimento sustentável. Seu verdadeiro dom é outro, muito mais sofisticado: extrair recursos da sociedade com a elegância de um elefante numa loja de cristais — e depois explicar, com ar professoral, que a culpa é do contexto internacional. O Estado brasileiro gosta de ser grande para arrecadar, mas, é notavelmente pequeno quando chega a hora de entregar. Grande para tributar, miúdo para educar; obeso para cobrar e anêmico para devolver. É um Leviatã tropical que devora impostos com apetite pantagruélico e, ao final, arrota planilhas, discursos e promessas recicladas.
A alquimia fiscal: transformar suor em fumaça
Aqui, o cidadão trabalha como se fosse suíço; paga impostos como se fosse escandinavo, mas recebe serviços como se estivesse num experimento sociológico malsucedido. O dinheiro entra — isso entra.
Entra pelos impostos diretos, indiretos, ocultos, embutidos, disfarçados, empilhados, cumulativos e criativos. Entra no pão, na luz, no remédio, no transporte, no simples ato de existir. Respirar no Brasil é quase um fato gerador. E depois… ele evapora. Evapora em estruturas inchadas, em cargos redundantes, em consultorias etéreas, em programas mal desenhados, em obras eternamente inacabadas — verdadeiros monumentos à procrastinação institucional. Se a física permitisse, o Brasil já teria criado o primeiro buraco negro fiscal, onde tudo entra e nada, absolutamente nada, retorna.
O discurso oficial: a liturgia da desculpa eterna
Quando questionado, o Estado não se constrange. Pelo contrário: ele explica. Explica que:
• o problema é a herança do passado;
• o passado é sempre recente;
• o futuro exige sacrifícios;
• e o sacrifício, curiosamente, nunca é dele.
O cidadão é convocado a compreender, colaborar, contribuir e calar. Afinal, segundo a teologia estatal, o imposto é um ato de fé: você paga hoje acreditando que, um dia, talvez, quem sabe, algo volte — nem que seja sob a forma de um discurso emocionado em cadeia nacional.
Eficiência? Não exageremos.
A ideia de eficiência no Brasil costuma causar certo desconforto institucional, como se fosse um conceito estrangeiro, exótico, quase indecoroso. Aqui, eficiência soa suspeita. Planejamento assusta. Avaliação de resultados ofende. Mérito causa urticária. O Estado prefere o conforto do improviso permanente. Improvisar permite errar sem culpa, gastar sem controle e explicar sem consequências. É o eterno “estamos trabalhando nisso”, frase que no Brasil equivale a um mantra budista: não resolve nada, mas acalma quem diz.
O pacto silencioso (e perverso)
Forma-se então um pacto implícito:
• o Estado finge que governa,
• o cidadão finge que acredita,
• e ambos seguem exaustos.
Só que o cansaço não é simétrico. O Estado engorda; o cidadão emagrece. O Estado acumula poder; o cidadão acumula boletos. O Estado fala em justiça social; o cidadão faz contas no supermercado com uma calculadora emocionalmente devastada.
Conclusão: uma supernova mal resolvida
O problema não é apenas econômico.
É moral, estrutural e civilizacional. Um Estado que cresce sem entregar não é protetor — é parasitário. Um governo que arrecada sem eficiência não é social — é predatório.
E uma sociedade que normaliza isso acaba vivendo num eterno estado de sobrevivência tributária. O Brasil não precisa de mais impostos. Precisa de menos retórica, menos gigantismo, menos fome arrecadatória — e infinitamente mais responsabilidade. Até lá, seguimos: o planeta girando, o Universo indiferente, e o cidadão brasileiro pagando — sempre pagando — para sustentar um Leviatã que confunde grandeza com peso.
O buraco é mais embaixo….
Há tempos. Isso aqui nunca será um país sério.
Muito bem escrito o texto! Muito bom!!!
Obrigado pela atenção.