MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Chega dezembro ao fim, e com ele essa curiosa suspensão da realidade que acomete a humanidade entre o dia 26 e a primeira ressaca de janeiro. É um período em que pessoas absolutamente normais — algumas até inteligentes — passam a acreditar que a simples troca de um número no calendário tem poderes metafísicos de redenção moral, reorganização existencial e milagres comportamentais instantâneos. O Ano Novo, essa entidade abstrata e injustamente responsabilizada, transforma-se no grande bode expiatório da preguiça acumulada, da falta de disciplina crônica e, sobretudo, da ausência completa de autocrítica ao longo dos últimos doze meses.

De repente, todos vão mudar. É comovente. E profundamente falso.

O sujeito que passou o ano inteiro odiando acordar cedo jura, de taça de espumante na mão, que agora “vai correr todas as manhãs”. Não porque goste de correr, claro — mas porque viu um reel de alguém correndo ao nascer do sol, com legenda motivacional e trilha épica. O corpo continua o mesmo; a ilusão é que ganhou tênis novo. A criatura que nunca abriu um livro que não tivesse capa plastificada promete que “este ano vou ler mais”. Nunca especifica o quê, quando ou por quê. Ler mais virou um conceito metafísico, não uma prática concreta. Um ideal platônico da estante: bonito de longe, intocado de perto.

Há também o clássico voto da dieta. Esse é antigo, quase litúrgico. Come-se como um romano decadente até o dia 31 à noite e, à meia-noite, ocorre o milagre da conversão nutricional. A lasanha vira pecado. O pão, um inimigo moral. O açúcar, uma traição à pátria. Tudo isso dura, com sorte, até o dia 7 de janeiro — quando alguém descobre que força de vontade não se fabrica em promoções de fim de ano. Não podemos esquecer o voto financeiro:

“Agora vou me organizar.”

Dito pelo mesmo indivíduo que não sabe onde foi parar o salário de novembro, mas que conhece perfeitamente o limite do cartão. Organização financeira, nesse contexto, significa esperar que o universo colabore.

E há, claro, a promessa mais ambiciosa de todas:

“Este ano vou ser uma pessoa melhor.”

Melhor como?

Mais paciente? Menos arrogante? Mais honesta consigo mesma?

Não importa. O conceito de “pessoa melhor” permanece convenientemente vago, porque vaguidão é o melhor esconderijo para a inércia. Sem critérios, não há fracasso — apenas uma sensação difusa de que “ainda não deu tempo”. O que ninguém admite — porque estraga a festa — é que o problema nunca foi o ano velho. Nem o signo. Nem Mercúrio. Nem a energia do universo. O problema é muito menos místico e muito mais prosaico: mudar dá trabalho, e trabalho exige constância, silêncio, repetição e desconforto — tudo aquilo que não rende postagem bonita. O Ano Novo, no fundo, virou um ritual de autoengano coletivo. Uma missa laica em que se confessa sem arrependimento real, promete-se sem intenção prática e absolve-se antes mesmo do primeiro erro. É uma forma elegante de adiar a responsabilidade para fevereiro, março… ou para “quando as coisas melhorarem”.

Mas há uma verdade inconveniente, dessas que não combinam com fogos de artifício: quem não mudou numa terça-feira qualquer de abril dificilmente mudará num domingo festivo de janeiro.

Mudança real não faz barulho. Não usa roupa branca. Não brinda à meia-noite.

Ela começa num dia comum, sem plateia, sem anúncio, sem promessa grandiosa — e, sobretudo, sem necessidade de justificar-se para ninguém.

Talvez o gesto mais revolucionário deste Ano Novo seja não prometer nada.

Ou melhor: prometer pouco, calado, e cumprir no anonimato.

Isso sim seria verdadeiramente novo.

Mas, claro…

Não fica tão bonito na foto.

7 pensou em “ANO NOVO: O GRANDE FESTIVAL DA PROMESSA IMPROVÁVEL

  1. Valeu Maurino. Ano novo, problemas antigos. Muda pouco…. mas, é bom que janeiro comece com um colunista fresco.. o mais fresco colunista do JBF.

    • Saudações, JRM!!!
      Obrigado por suas palavras. E só para deixar registrado, eu “estreiei” ano passado e com esse, já são, acho, que uns vinte textos.

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