O Judiciário brasileiro não se vê como poder da República.
Ele se vê como instância metafísica: Não responde; Não explica; Não se corrige.
Ele revela. Revela sentenças como quem revela dogmas, fala em latim morto para cidadãos vivos e exige fé cega em nome da “técnica”. Aqui, justiça não é serviço público. É rito.
1. A TOGA COMO AURA MÍSTICA
A toga não é vestimenta funcional. É fantasia simbólica de infalibilidade. Ela não protege a imparcialidade. Ela blinda o ego. Vestido de toga, o erro vira “divergência interpretativa”. O abuso vira “entendimento consolidado”. A arbitrariedade vira “convicção jurídica”. Machado de Assis gargalharia: “Nada protege melhor o erro do que um vocabulário incompreensível. ”
2. O JUDICIÁRIO NÃO ERRA. ELE ‘MUDA DE ENTENDIMENTO’
Essa é a genialidade semântica do sistema. Se decide A hoje e B amanhã, não é contradição — é “evolução jurisprudencial”. Se pune um e absolve outro em situação idêntica, não é seletividade — é “análise do caso concreto”. O cidadão comum chama isso de injustiça.
O Judiciário chama de sofisticação. Orwell anotaria: “Quando palavras deixam de significar o que dizem, o poder deixa de precisar de força.”
3. A IMPUNIDADE COMO MÉTODO, NÃO COMO FALHA
No Brasil, o Judiciário não é lento por incompetência. Ele é lento por conveniência sistêmica. Processos arrastam-se até: prescrever, cansar, perder interesse público, virar nota de rodapé. O tempo é a arma preferida da toga. Não sangra. Não escandaliza. Mas mata a justiça por asfixia. Millôr pisaria fundo: “Aqui, a justiça tarda porque sabe para quem trabalha. ”
4. CASTA, NÃO CARREIRA
Juiz no Brasil não é função. É estado social permanente. Salários estratosféricos. Auxílios criativos. Férias em abundância. Cobrança mínima. Punição simbólica. E tudo isso defendido com o argumento supremo: “Para garantir independência. ” Tradução honesta: Para nunca prestar contas.
Machado fecharia com veneno: “Chamam privilégio de garantia porque soa menos feio. ”
5. O POVO COMO ELEMENTO INCÔMODO
O Judiciário fala muito em “sociedade”, mas detesta o cidadão real. O povo: não entende a linguagem, não acessa os gabinetes, não influencia decisões, e só aparece nos autos como “parte”. Quando questiona, é acusado de: “desacreditar instituições”, “atacar a democracia”, e “não compreender a complexidade”. Ou seja: a justiça é do povo — desde que o povo não se meta nela.
CONCLUSÃO DO JUDICIÁRIO
O Judiciário brasileiro não caiu em tentação. Ele organizou-se em torno dela. Transformou autoridade em sacralidade. Prestígio em blindagem. Lentidão em estratégia. Legalidade em álibi moral. E esqueceu o detalhe fundamental: Justiça que não pode ser questionada não é justiça — é poder absoluto com vocabulário técnico.