DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

LÉSBIA – Cruz e Sousa

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo…

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso…

João da Cruz e Sousa, Florianópolis-SC (1861-1898)

DEU NO X

DEU NO X

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

VOLTANDO À BOEMIA

Ilustração do artista plástico Paulo Byron

Fiz tudo para ficar,
Não deu certo, vou embora.

Mote do poeta Daudeth Bandeira

Desprezei a boemia,
Dos amigos me afastei
E nunca mais frequentei
O campo da freguesia
Pra que minha companhia
Estivesse a toda hora
Sendo a base de escora
Da tua forma de amar.
Fiz tudo para ficar,
Não deu certo, vou embora.

O futebol do domingo
Até deixei de assistir,
Só para contigo ir
À quermesse jogar bingo.
Nunca mais bebi um pingo
De cachaça “Nova Aurora”
Pra não ver minha senhora
Dar sermão pra eu parar.
Fiz tudo para ficar,
Não deu certo, vou embora.

Hoje estou no meu limite,
Vou voltar pra mim de novo,
Pouco importa se o povo
Queira dar qualquer palpite.
Vou atender o convite
Da boemia de outrora,
Só o violão agora
Pode me acompanhar.
Fiz tudo para ficar,
Não deu certo, vou embora.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Almerinda Gama

Almerinda Farias Gama nasceu em 16/5/1/1899, em Maceió, AL. Advogada, escritora, jornalista, poeta, tradutora e sindicalista nas horas deo lazer. Foi uma das primeiras mulheres negras a ter participação destacada na política brasileira e pioneira no combate ao patriarcalismo. Costumava dizer que “A inteligência não tem sexo” e “Eu sempre, por instinto, me revoltei contra a desigualdade de direitos entre homem e mulher”.

Filha de Eulália da Rocha Gama e José Antônio Gama, ficou órfã do pai aos 8 anos e foi morar com uma tia em Belém do Pará. Já quase adulta fez curso de datilografia e pouco depois frequentou a Escola Prática de Comércio. Aos 21 anos passou a escrever crônicas para o jornal A Província. Aos 24 casou-se com o primo, o escritor Benigno Farias Gama, que escrevia para vários jornais, falecido 2 anos depois. Logo percebeu que o salário pago aos homens era o dobro daquele pago às datilógrafas.

Em 1929 mudou-se para o Rio de Janeiro e filiou-se à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), presidida pela bióloga Bertha Lutz, que a incentivou a criar o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos, reconhecido em 1933. Na FBPF a pauta predominante era o direito ao voto feminino, conquistado em 1932. Outra conquista foi a criação de uma data para a comemoração do “Dia das Mães”, com o Decreto nº 21.366, de 5/5/1932, consagrando o segundo domingo de maio para a celebração da data no Brasil.

Pouco depois passou a colaborar com O Jornal, com a coluna “Para a mulher no lar”, onde escreveu diversos artigos sobre a falta de estímulos para a publicação de livros escritos por mulheres sobre, incluindo uma carta aberta ao escritor Humberto de Campos, contrário ao ingresso de mulheres na ABL-Academia Brasileira de Letras. Participou da Assembleia Constituinte de 1933, junto com a deputada Carlota Pereira de Queiroz, como delegada classista representando o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e a Federação do Trabalho do Distrito Federal. Candidatou-se a deputada federal em 1934, sem êxito. Em sua propaganda política dizia-se “Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

Devido à sua atuação nas lutas pelo ensino obrigatório e gratuito, foi homenageada com seu nome dado ao “Ginásio Almerinda Gama”, dirigido por Laurentino Garrido, em São João do Meriti. Em seguida passou a dirigir o Partido Proletário Socialista, ao lado de Plínio Gomes de Melo, Vasco de Toledo, Waldemar Rikdal, João Vitaca e Orlando Ramos, entre outros. Permaneceu na direção do Partido até 1937, quando o Partido foi extinto com o golpe do Estado Novo. Por esta época concluiu o curso de Direito, em meados de 1935.

Junto a estas atividades, foi professora e tradutora dos idiomas francês, inglês e espanhol e publicou algumas coletâneas de poemas – Zumbi (1942) e O dedo de Luciano (1964), além de contos e crônicas em revistas e jornais do Rio de Janeiro. Em 1943, foi contratada como escrevente do 9º Ofício de Notas, onde trabalhou até 1967. Em 1984, concedeu ao CPDOC da FGV-Fundação Getúlio Vargas uma longa entrevista para o projeto Velhos Militantes, publicado em livro, pela Editora Zahar, em 1988.

Pouco antes de completar 100 anos, faleceu em 31/3/1999 em São Paulo. Em 2016 a Prefeitura de São Paulo instituiu o “Prêmio Almerinda Farias Gama”, para distinguir iniciativas na área das comunicações ligadas à defesa da população negra. Como biografia temos a dissertação de Mestrado em História na Universidade de Brasília, realizada por Patrícia Cibele Tenório, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999): feminismo, sindicalismo e identidade política, em 2020.

No canal Youtube temos dois belos documentários sobre sua trajetória:

ABVP – Almerinda, uma mulher de trinta

Almerinda, a luta continua

DEU NO X

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FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

LEITURAS OPORTUNAS

Durante as minhas últimas miniférias juninas, devidamente assessoradas pela Sissa, sempre presente e fiscalizante, resolvi consultar, por e-mail, alguns companheiros de viagem terrestre, total de 32, das Ciências Humanas, residentes em doze estados brasileiros, sobre leituras que muito os impactaram. De notoriedades diferenciadas, carreiras profissionais envolvendo ensino, pesquisa, escriturâncias, debates e militâncias, suas indicações me conduziram a momentos de muita certeza no tocante ao futuro da humanidade. Apesar dos inúmeros angustiantes instantes contemporâneos, quando os acinzentamentos provocados pelas ambições de um neoliberalismo que se está agigantando para um ambicionado todo um sempre nada promissor, recebi respostas entusiasmentes.

As leituras abaixo eleitas, dentre as citadas mais de cinco vezes, bem demonstram o atual momento leitoral brasileiro, a refletir anseios de uma sociedade que se vê necessitada de uma compreensão mais consistente do seu todo e das suas partes, incluindo os versos e os reversos das situações econômicas, sociais, religiosas, militares e políticas de um mundo em renascença. Enumero-as, abaixo, em nenhum momento levando na devida consideração a ordem de magnitude das leituras citadas.

1. Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, editora Global, com uma apresentação de Roberto Da Matta, atualmente Professor Emérito da Universidade de Notre Dame, EEUU. Livro muito beneficiado, segundo o próprio DaMatta, pelas notáveis coordenações de Edson Néry da Fonseca, Guillermo Giucci e Enrique Rodriguez Larreta, quando da elaboração crítica de Casa Grande & Senzala. Diz DaMatta: “O que tenta Gilberto demonstrar, correndo o risco de ser chamado reacionário e um ideólogo de um escravismo doce, é que o sistema funcionava hierarquicamente. As diferenças não corriam em paralelo, mas faziam parte de uma geometria social de inclusão, uma figura na qual os senhores englobavam, mas eram também englobados por seus escravos, com os quais mantinham laços de interdependência”.

2. O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow, Difel – narrativa jornalisticamente inteligente, com sinais de muita pesquisa investigatória, contando o entrevero acontecido entre Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, em outubro de 1946, quando de uma das reuniões da Associação de Ciências Morais de Cambridge, que contava, na ocasião, com a presença de Bertrand Russell, para quem “suas avalanchas (de Wittgenstein) fazem as minhas parecerem meras bolas de neve”.

3. O terceiro texto – Nas Sendas do Judaísmo, Walter Rehfeld, Perspectiva – me deixou mais próximo de Saulo Gorenstein, Arão Parnes, Estellinha Parnes, Germano Haiut e tanto outros queridos irmãos hebreus. O texto do Rehfel, destinado a pequenos cursos, ensaios, palestras e artigos publicados na Resenha Judaica, é fonte erudita – sem pedantismos academicistas – para se ampliar o conhecimento sobre o Judaísmo, suas origens, sua filosofia, suas maneiras de ser e de ter, naturalmente. Um excelente requisito para se ler com mais clarividência o estudo de Jacques Attali não muito recentemente lançado pela Futura sob título Os judeus, o dinheiro e o mundo, com prefácio de Henry Sobel.

4. O quarto texto é oportuno, numa hora de novas ebulições ministeriais. Lançado pela Autêntica, e intitulado A economia política da mudança – os desafios e os equívocos do início do governo Lula -, contém análises que certamente contribuirão para a implementação de debates eleitorais de alto nível, onde o futuro brasileiro seguramente sobrepairará sobre os disse-me-disses e mimimis das campanhas políticas. O mote dado pelo João Antônio de Paula, organizador: “Queremos fazer uma crítica solidária, de esquerda, mas não há como fugir dos problemas, não dá para abrir mão da crítica”. O exemplo do Titanic não pode ser esquecido pelos “com-certezas” da cúpula governista, que se imaginam caminho único para espraiar vida mais decente para todos os segmentos sociais.

5. Muito apreciaria ver os amigos fubânicos lendo um dos livros citados, páginas que me deixaram bem mais alegre e esperançoso, apesar das imensas perspectivas negativistas que ainda pairam sobre nosso continente: Diderot e a Arte de pensar livremente, Andrew S. Curran, São Paulo, Editora Todavia, 2022, 388 p. Um estudo exemplar sobre um ser humano encantador. Uma personalidade cada vez mais independente, trezentos anos depois da sua desencarnação. Uma leitura binoculizadora para os pensantes de todos os níveis de espiritualidade, jogando na lata do lixo existencial os negativismos nunca incultos e sectários nunca metidos a merdantários (mandatários de merda).

Vale a pena dar uma mergulhada em todos os livros mais citados, sempre rabiscativamente.