DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AS SEM-RAZÕES DO AMOR – Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O GUETO

Criança “presa” no gueto alemão

Hoje, especialmente, deixamos o “nosso sertão” de lado, e trataremos de algo que, ao contrário da vida na roça, não nos apraz em nada. De acordo com a nossa visão e entendimento, trataremos do gueto não-alemão, mas igualmente nazista instalado na capital brasileira.

Tentamos fazer um paralelo com um filme – excelente e, por isso, uma fotografia de uma realidade vivida por seres humanos – que vi inúmeras vezes (Canal 71, pago, sem ser Netflix).

Também vejo, sempre que posso, os filmes “A Ponte do Rio Kwai”, “Adoráveis mulheres” e “O Profissional”. Não me canso de ver, e, a cada vez que vejo, me parece novo e sendo visto pela primeira vez.

Hoje quero falar do magnífico “A lista de Schindler”, dirigido pelo genial Steven Spielberg, fielmente produzido a partir do que escreveu Steven Zaillian. Interpretações igualmente magnificas de Liam Neeson e Bem Kingsley.

Filme produzido, editado e lançado em 1993, tendo como enredo o holocausto vivido pelos judeus na Segunda Guerra Mundial.

Pois, exatos 30 anos após, eis que nos dias 8 e 9 de janeiro deste ano de 2023, separado pelo Oceano Atlântico e situado na região Centro Oeste do Brasil, cria-se e revive-se um novo gueto.

Não. Não é um novo filme. É uma realidade, agora com novo diretor, que em quase nada se assemelha ao Steven Spielberg e, pasmem, novos atores – entre esses, crianças e idosos coadjuvantes.

Enquanto criminosos presos, julgados e condenados recebem tratamento diferenciado (visita íntima, alimentação balanceada, salários e até a famosa “saidinha temporária”), no gueto de Brasília, um contingente de pessoas levadas por “infiltrados” acabaram pagando o pato.

Sabe-se que, com o objetivo de “ajudar” e apoiar alguém que luta pela liberdade, senhoras da faixa etária superior aos 60 anos estavam no acampamento “autorizado e protegido” pelas FFAA – tanto isso é verdade que, em mais de uma oportunidade, policiais do Distrito Federal foram prender aqueles manifestantes e foram expulsos pela PE (Polícia Especial) do Exército. Pois, essas senhoras, para não ficarem a sós, convidaram os maridos para ajudar na feitura de lanches – e essas pessoas acabaram sendo detidas, presas sem julgamento e confinadas no gueto. E não foi por soldados alemães.

Como se isso não fosse suficiente (desrespeito total ao tal “Estatuto do Idoso” e de outras leis), tudo acontecendo em condições precárias e com alimentação igual para todos – tem, entre esses, alguém que, por motivos de saúde, faz regime alimentar diferenciado.

Enfim, tudo poderia parecer mais um bom filme de Steven Spielberg. Mas, infelizmente, não é. É a atual realidade brasileira.

DEU NO X

MILITÂNCIA NA RUA: BACURINHAS AO VENTO !

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

ABRINDO VELHAS GAVETAS

Mote de Jhon Oliver:

Até chorei de emoção
Revendo os velhos retratos.

Revirei os meus guardados
Pra fazer uma faxina…
Como a vida nos ensina
Com os nossos próprios dados!
Mesmo estando descorados
Pela força dos maus tratos
Do tempo, Pôncio Pilatos
Das coisas do coração,
Até chorei de emoção
Revendo os velhos retratos.

daVi gaLon

Numa gaveta emperrada
Que só abri por macete,
Achei um velho bilhete
Da primeira namorada.
Uma foto descorada
Em frente à Matriz de Patos,
Outra mostrava Os Nonatos
Num Festival no sertão.
Até chorei de emoção
Revendo os velhos retratos.

Wellington Vicente

DEU NO JORNAL

NICOLÁS MADURO, O PROCURADO E PERIGOSO VEM AÍ

Leonardo Coutinho

O cartaz que ilustra essa coluna é real. O ditador Nicolás Maduro é procurado pela Justiça dos Estados Unidos desde o ano de 2020. As autoridades americanas oferecem 15 milhões de dólares por informação que leve à sua prisão. Tudo indica que Maduro estará em Buenos Aires para o encontro da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) – a versão bolivariana da Organização dos Estados Americanos, fundada em 2010 sob os auspícios de Hugo Chávez, Raúl Castro, Cristina Kirchner, Evo Morales e, claro, Luiz Inácio Lula da Silva.

As autoridades argentinas prepararam um esquema de segurança especial para Maduro, que tem hospedagem prevista no país até o dia 23 de janeiro. A líder opositora Patricia Bullrich entrou com um pedido na Justiça argentina para que Maduro seja preso ao pisar em Buenos Aires. Segundo ela, o ditador – independentemente da ordem de captura emitida pelos Estados Unidos por crime de tráfico de cocaína (sim, Maduro é acusado de tráfico de cocaína) – deveria ser preso e julgado pelos crimes contra a humanidade que ele e seu regime cometem. Um movimento jurídico baseado em argumentos que já foram aplicados contra outros ditadores como o chileno Alberto Pinochet, mas que no caso de Maduro deverá ficar restrito ao âmbito meramente político.

Maduro é esperado em Buenos Aires como uma das estrelas do evento. Seu desembarque na capital argentina terá o mesmo significado apoteótico que seu criador e mentor Hugo Chávez imprimia em suas várias demonstrações de não-subordinação a qualquer regra. No caso em questão, Maduro mostrará ao mundo que a recompensa de 15 milhões de dólares oferecida pelos Estados Unidos só serve para enfatizar que ele e seus amigos estão pouco se lixando para Justiça. Mais especificamente a Justiça dos Estados Unidos reconhecida por ter sido (aqui o tempo verbal é importante) implacável com traficantes latino-americanos que despejam toneladas de drogas no território americano.

O desprezo de Maduro para com o seu povo, a região, as leis e a Justiça pode ser explicado pelas suas vitórias ao longo de quase uma década à frente de um regime reconhecidamente brutal. Maduro trincou os dentes e encarou seus opositores dentro e fora da Venezuela. Ele prendeu, torturou, matou. E daí? Ele não foi o primeiro e nem o único a sobreviver no poder com esse currículo de brutalidades.

Focando apenas em exemplos latino-americanos, antes dele vieram Fidel Castro e seus gerontocratas que até hoje estão no poder. Evo Morales, perseguiu, prendeu, matou e atualmente está engajado na promoção de uma guerra com o objetivo de dividir e roubar um pedaço do Peru (e se der certo, um naco do Chile também).

Em outubro passado, Maduro conseguiu algo inédito. Conseguiu que os Estados Unidos libertassem seus sobrinhos presos em flagrante por tráfico de drogas, em uma operação da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, em 2015. A operação foi tratada como “troca de prisioneiros”. A administração Biden celebrou que o regime chavista libertou sete cidadãos americanos que estavam presos na Venezuela. Mas não há como equiparar a situação de quem foi preso, julgado e condenado por um sistema judicial independente com quem foi praticamente sequestrado por uma ditadura, onde o Poder Judiciário funciona como linha auxiliar do regime.

O desembarque impune de Maduro na Celac vem acompanhado de outros dois movimentos relevantes. O primeiro é de escala regional. O presidente Lula, que é um dos pais da criatura, é outra estrela da edição atual da Celac. Sua participação marca o retorno do Brasil ao bloco. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro virou as costas para a iniciativa.

O segundo evento relevante tem escala global. A possível vinda do presidente chinês Xi Jinping. Os argentinos esperam o desembarque do chinês, que viria dar a sua benção para o renascimento do bloco com o retorno de seu membro mais musculoso, que é o Brasil.

A presença de Xi na Argentina pode ser lida como um salto da Celac – que surgiu como alternativa à Organização dos Estados Americanos, como dito no início da coluna, mas também como força antagônica aos Estados Unidos e Canadá, que “mandam demais” na OEA. Xi, que lidera um avanço sem precedentes da China sobre a região – sobretudo na Argentina – dará seu aval e suporte ao bloco.

Os bolivarianos estão de volta e vieram com tudo. Os sinais de que a China os alimentará eram evidentes, mas muitos fazem questão de não enxergar.

DEU NO JORNAL

LÁ E CÁ

No Peru, protestos esquerdistas que não reconhecem a nova presidente provocam destruição e 54 pessoas já foram mortas.

Mas ninguém, lá ou aqui, chama isso de “atos antidemocráticos”, nem os acusa de “golpistas”.

* * *

Canhoto é tudo a mesma bosta em qualquer parte do mundo.

Tanto lá quanto cá.

O fedor é o mesmo em qualquer canto onde eles apareçam.

Num tem nariz que aguente!!!

DEU NO X

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O DESTINO DO POSEIDON

O SS Poseidon era um navio de ficção que numa viagem de final de ano, 29 de dezembro de 1968, virou devido a um maremoto. Vi este filme algumas vezes na TV aberta e, um dia desses, na SKY. De uma porrada de gente que curtia a viagem neste transatlântico, apenas dez passageiros conseguiram sobreviver. Guardadas as devidas proporções, tudo indica que embarcamos no Poseidon brasileiro em 31/10/2022. Não quero ser “profeta do apocalipse”, como diz Raul Seixas, mas a economia vive de sinalização e os sinais emitidos desde aquela data possuem menos alcance que os sinais de fumaça usados pelos índios nos filmes de faroeste.

O ano começou com uma inquietação das empresas fora de qualquer escopo esperado. A impressão que tenho é que estamos naquelas montanhas russas radicais, verticais, com 110 metros de altura que nos faz chegar ao solo com velocidade aproximada de 57 m/s, isto é, 203 km/h. Começamos o ano perdendo empregos formais, com empresas saindo do mercado, ou reduzindo sua participação, e a gente pode apontar algumas razões simples para isso, sendo a primeira delas, a absoluta falta de confiança na economia brasileira em 2023 e o motivo, mais do que claro, é a opção do atual governo em favorecer a distribuição de renda, com dinheiro que não tem, ao invés de fortalecer o sistema produtivo para gerar emprego, renda e dignidade.

Não custa lembrar que tivemos empresas encerrando suas atividades como o caso da Ford, em janeiro de 2022, mas um ano antes ela tinha sinalizado que deixaria o Brasil. Qual o motivo básico? O mesmo motivo que está fazendo a WHB Automotive, localizada no município de Glória do Goitá, aqui em Pernambuco, também encerrar suas atividades após dez anos. O mesmo motivo que fez, no passado, diversas empresas localizadas nos polos industrial de Paulista e do Curado, região metropolitana do Recife, encerrar suas atividades. Estou falando de empresas como Philips, Romi, Tintas Coral, Hering, Pirelli, etc.

As empresas citadas receberam incentivos fiscais para se instalar no Nordeste. Quem é mais velho deve se lembrar da briga de Antônio Carlos Magalhães com o governo gaúcho para instalar a Ford na Bahia. A empresa recebeu isenção de muita coisa, teve terreno doado em consignação, a porra a quatro. Acabou o período de incentivos, os custos de produção ficam no mesmo patamar dos custos de produção da unidade de São Paulo e com um agravante de que o Nordeste fica mais distante do mercado consumidor. Sai do mercado e pronto. O desemprego é responsabilidade do governo e não dela. Os incentivos da WHB eram de dez anos. Coincidência? Não.

O caso mais emblemático desse início de ano, sem dúvidas, é o das Lojas Americanas. Nos primeiros dias do ano, o cara que ia assumir o controle gerencial das Americanas descobre um rombo de R$ 20 bilhões no balanço. Os balanços de uma empresa retratam o passado e como eles são fechados, definitivamente, até março do ano seguinte, o rombo das Americanas vai se ampliar muito. Trata-se de uma fraude, resta saber quando começou porque um rombo de pelo menos R$ 40 bilhões não dá para ser cavado num período de um ano sem que chame a atenção. Não é como prêmio de mega sena acumulada que o cara pode ficar rico num minuto. A ideia era simples: mascara o endividamento bancário na conta de fornecedores porque isso possibilita a obtenção de novos empréstimos bancários para financiamento do capital de giro. Dá-se início ao chamado “efeito Ponzi”, onde se paga uma dívida um banco com dinheiro emprestado por outro. Mesmo a gente voltando para o período da pandemia, alguns dos casos em questão não indicam que tudo começou no ano passado. A DOK que atua no ramo de calçados tem um rombo de R$ 400 milhões. É muito para ser sacado em apenas um ano.

Essas lojas de departamentos possuem uma característica comum: o custo operacional é muito alto. Algumas vezes chega a ser mais de 70% da receita bruta porque eles compram tudo que vendem. Algumas vezes determinado produto não tem o giro necessário para fazer caixa e quase todas elas são lojas âncoras dos grandes shoppings centers, cujo metro quadrado é caro, e elas ocupam um espaço gigantesco. Então, possuem também custos administrativos elevados e isso compromete a margem de lucro (uma empresa bem administrada pode chegar a uma margem de 10%, mas…).

Durante a pandemia as empresas tiveram custos e não tiveram receitas suficientes para cobri-los. De onde vai tirar recursos? Uma opção é retirar das reservas de lucros, mas isso é perigoso porque menos lucro afasta o acionista. Pode vender imobilizado, mas isso também chama a atenção porque seria um indicativo de necessidade de caixa urgente. Pode reconhecer o prejuízo e aumentar o capital social, mas o é melhor é maquiar o balanço que aguenta tudo, até mesmo emitir notas fiscais frias para gerar “recebíveis” e demonstrar pujança financeira. Além do mais, ninguém vai preso. Nem os técnicos de auditoria que atestam a lisura dos dados contábeis. A PwC Auditoria era responsável pelo parecer dos balanços da Petrobras e também das Americanas. Só pelo caso da Petrobras, já deveriam ter o registro cassado pelo conselho.

Uma coisa que está passando despercebida é que o governo estourou o teto dos gastos para pagar R$ 600,00 de Bolsa Família. Não se fala em orçamento para seguro desemprego e com a tendência de alta, alguém precisa explicar com quais recursos essa política será aplicada.

A desconfiança com a economia brasileira ajuda esse cenário nefasto. Um governo sem política econômica, acusando o governo anterior de ter deixado um rombo de R$ 300 bilhões quando isso se trata de renúncia fiscal – e apesar dela, o Brasil aumentou a arrecadação. O presidente já sinalizou que prefere uma taxa de inflação maior e se não fosse a autonomia do banco central, que ele diz ser bobagem, pode crer que o macaco adestrado que estaria na cadeira de presidente faria tudo pra atender. Crescimento Econômico com inflação é coisa de Delfim Neto e o que interessa é o crescimento real, ou seja, aquele descontado da inflação. Precisa ser muito filho da puta pra desejar inflação que afeta mais intensamente quem é pobre ou que está fora da força de trabalho.

Trocou-se os instrumentos afinados de uma orquestra e contrataram músicos que não sabem ler uma partitura, tocam apenas de ouvido, ou como se diz aqui no Nordeste “emprenham pelo ouvido”. Essa orquestra está animando o salão de festas do Poseidon, sem ser uma ficção. Será que irão escapar 50,9% dos passageiros?