
Prezados Editodos,
hoje das 19h30 às 20h30, o Cabaré do Berto receberá a tabirense Andréia Miron.
Uma jovem poetisa, cordelista, integrante da APPTA – Associação de Poetas e Prosadores de Tabira.
Andréia Miron já foi presidente da APPTA e faz parte de uma casta especial de mulheres que com seu talento, sua criatividade, retrata a vida do sertanejo.
O Pajeú é um celeiro de gente talentosa e nós ficamos muito felizes de ouvir Andréia falar do seu trabalho, dos seus projetos.
O furdunço começa às 19h30, mas eu vou abrir as portas do Cabaré, pontualmente, às 19h25.
Não carece ficar chutando a porta.. é só fazer uma fila, Maurino na frente e todo mundo atrás dele, puxar uma cadeira, sentar, tomar um caninha, um dose de rum com água de coco e pronto.
Para participar é só clicar aqui
R. O recado está dado, nobre gerente cabarezeiro.
Às sete e meia da noite estaremos todos lá, pra participar de mais um agradável encontro semanal da comunidade fubânica.
Será uma grande alegria ouvirmos a bela e talentosa a tabirense Andréia Miron.
Até mais tarde!!!!
Excelso e nobre Editodosnós:
Segue em anexo o comprovante de depósito do meu dízimo.
Pago com muito prazer a alegria.
Mês que vem tem mais.
Sucesso para o nosso jornal, o melhor das redondezas.
Um grande abraço.
R. Meu caro leitor, sua generosa doação já está na conta desta gazeta escrota.
A secretária Chupicleide e o faxineiro Bosticler começaram o dia hoje relinchando de alegria, pois sabem que o dinheiro das cachaças deste final de semana está garantido.
Brigadão mesmo!
Aproveito para agradecer também aos leitores, Nivaldo França, Fernando A.V.S., Maria Goreti e M.R.T, que fizeram suas doações esta semana.
Vocês são a força que mantém esta gazeta escrota nos ares e que cobrem as despesas com hospedagem e manutenção técnica feita pela empresa Bartolomeu Silva.
Vai voltar tudo em dobro na forma de paz, saúde, tranquilidade, harmonia e longa vida!!!
E vamos fechar a postagem com uma música que Chupicleide estava ouvindo agora há pouco, aqui na redação do JBF.
O talentoso e irreverente grupo Mamonas Assassinas, que nos deixou tão cedo, interpretando a inspirada composição Vira-Vira.
Virgulino Ferreira da Silva usava patente de capitão, isso todo mundo sabe. Segundo lenda, outorgada pelo Padre Cícero do Juazeiro. Em 1926. E não por acaso, dado já ser então um estrategista respeitado. Capaz de infundir tanta confiança nos que com ele estavam que seu pessoal pelejava cantando. Duas das táticas de guerrilha que usou ficaram, inclusive, famosas. Primeiro, nunca deixava mortos do cangaço no campo de batalha. Carregando seus corpos, durante dias, até enterrá-los em locais ermos. As volantes, depois dos tiroteios, encontravam no chão corpos apenas da polícia. Tendo a sensação de que combatiam fantasmas. Segundo, a novos membros do bando, ele dava nome dos que acabavam de morrer. Azulão foram cinco. Candeeiro, Chá Preto, Moderno e Mão de Gréia, pelo menos dois. Baliza dois (e mais um, no bando de José Padre). Quem duvidar pergunte a Fred Pernambucano, que é professor na matéria. Tudo fazendo com que se disseminasse, no imaginário coletivo, a lenda de que ele e seus homens tinham o corpo fechado. De serem imortais.
Pensei nele na data em que tradicionalmente trocamos as angústias do presente e as incertezas do futuro por lembranças do passado. Pode-se aproveitar o dia de finados, como o desse terça passada, para falar por exemplo de crendices e superstições portuguesas ainda tão presentes, sobretudo na gente simples do povo. Como a de que as almas dos afogados passeiam sobre as águas do mar e dos açudes em que se afogaram; ou visitam lugares em que viviam ou foram assassinados; ou de que, nas horas abertas, vagam pelos cemitérios.
Cadáver, para os romanos, era a carne dada aos vermes. Uma palavra formada pelas três sílabas iniciais da expressão romana caro data vermibus (carne dada aos vermes). Paulo Rónai diz que a versão é “fantasiosa”. Quem sabe? Segundo crendice popular, o cadáver passa à eternidade sem as riquezas terrestres. E, por isso, é ainda hoje usual arrancar do morto seus dentes de ouro (para que a alma não retorne, depois, impedida de subir aos céus).
Pela mesma razão, até a primeira Grande Guerra, militares tinham os botões dourados das fardas retirados, na hora do enterro. A tradição portuguesa, por outro lado, manda pôr na boca do morto uma moeda de prata, como que pagando algum tipo de pedágio para a eternidade. Caronte, barqueiro dos infernos, exigia óbolos que, quando não pagos, condenavam o morto a vagar, em suas barcas, por cem anos de solidão. Bom lembrar que mãos soltas atrapalham a subida, razão pela qual é conveniente amarrar pulsos com terços ou rosários. Já pés devem estar sempre voltados para a porta da rua, inclusive no percurso em direção ao túmulo, uma posição que é o inverso daquela com que se entra no mundo. Para dar sorte. Já os poetas, que segundo Pessoa “vêem em tudo o que lá não está” (Caeiro, Ficções de Interlúdio), conseguem enxergar beleza nisso. “Um cadáver não é trono demolido,/ Nem roto altar,/ Apenas prisão deserta” (Duelo), palavras de Salvador Diaz Miron.
Finados vem de fim, do latim finis; e, literalmente, quer dizer acabado, findo, finito. Mas está igualmente ligado ao sentido de perfeição; sendo, assim, também generalizadamente utilizado – finalidade, fino, refinamento. Com o que a ideia de perda acaba se convertendo, naturalmente, em saudade, impregnando-se de eternidade. Lembro mestre Drummond (Memória) dizendo que “As coisas tangíveis,/ Tornam-se insensíveis,/ Na palma da mão,/ Mas as coisas findas/ Muito mais que lindas,/ Essas ficarão”. Que finados é, sobretudo, um momento de confortadora intimidade. Das coisas que ficaram. Como se a mão misteriosa do destino preservasse, em nossas memórias, sobretudo os momentos bons de nossos mortos.
P.S. RELATÓRIOS. Aproveito e melhor explico meu pobre pensar sobre o dito na última coluna, quinta passada. Sobre duas questões, apenas. É o seguinte:
1. Tudo o que foi investigado, na CPI, cumpre apurar. Com zelo. Doa a quem doer. Para que todos assumam as responsabilidades que lhes cabem. Inclusive penais. Nenhuma dúvida, quanto a isso.
2. Entre as investigações que deveriam ser feitas pela CPI, havia episódios de corrupção. E a casa tem 81 senadores. Por isso, com tantos membros sobre os quais não pesa nenhuma suspeita, é (pelo menos) constrangedora a escolha de um réu por corrupção (ele, sua mulher e 3 irmãos), para ser Presidente. E quem é réu em quase 10 processos, também por corrupção, para ser relator. Como dizia Shakespeare (em O Mercador de Veneza), “Ah, se as propriedades, títulos e cargos/ Não fossem fruto da corrupção…/ Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?”. How many be commanded, that command? É isso.
Esta semana, deitado na minha rede de imbira, coçando a carcunda de meus cachorrinhos, fiquei bildando – aqui no glorioso Mato Grosso do Sul, bildar é o mesmo que bisbilhotar, abelhudar, escarafunchar, bispar -, as ditas propagandas da Breck Fraude – Macaquice caeté que se importou dos Zistados Zunidos e que, para estes velhos olhos, acostumados a ver apenas o coxão mole do Sardinha sendo assado, pensei de mim, para comigo mesmo: vai dar merda!
E está dando. Como todo bom caeté, quando surgiu essa história de Breck Fraude – alguns despeitados vão chamá-la de “Black Friday” – só para contrariar. Desde o primeiro movimento de macaquice eu criei o slogan: Breck Fraude…. tudo pela metade do dobro! E explico como cheguei a essa constatação, e como a taba nacional ainda se encanta com espelhinhos, colares de contas e todo tipo de quinquilharia que nos empurram.
Andando aqui, na gloriosa Campo Grande, fiquei bispando os mostruários das lojas, vitrines, tablóides e folhetos com preços dos joujous e balangandãs disponíveis. Eu não sou do tipo que jogo o jabaculê, o lajan, o cascalho, a bufunfa em qualquer badulaque, mas gosto de ficar pescoçoso vendo os demais caetés se digladiando por colar de contas. De fato, fico antechupando os dentes igual a urubu quando vê carniça rezada e encomendada.
E, nessas andanças eu vi a marotagem e a marmotagem dos nossos bucaneiros lojistas e comerciantes que demonstram que estamos a anos luz de vivermos em uma sociedade civilizada, capitalista. Aquele tipo de sociedade cujo lema maior é pacta suma servanda, isto é, cumpra-se os contratos. Volto a repetir: continuamos com o canitar nos catunis, o cocar na cabeça, pintados para a guerra, rodeados ao redor do fogo, moqueando o lombo do Sardinha.
Civilização, respeito aos contratos, seriedade e justeza nos preços? Isso é coisa de extraterrestre, vindo sei lá de onde, de qual parte da galáxia. Em Pindorama o primeiro lema é o dístico de Macunaíma: Ai, que preguiça! O segundo é o que há de pior do mercantilismo bucaneiro: que o comprador se acautele!
Como estava dizendo, nas andanças e pajelanças na ocara campo-grandense fui reparando como os preços de produtos cobiçados pela patuléia, de repente passou a ter um comportamento estranho. Vi celulares novos que custavam X na semana retrasada. De uma hora para outra passou a custar X + X, está sendo vendido por Y, cerca de 57% mais caro que o valor X original, mas com um dizer assim: Black Friday: desconto de 75% no valor do produto.
Calma lá, caeté! Como assim? Algo que custava, pelo menos para mim, já os olhos da cara, de repente passa a custar os olhos, as orelhas e o nariz, está sendo vendido pelos olhos e pelo nariz e diz que está com desconto? Como eu não acredito que o Anhangá está de férias, e muito menos se mete nos nossos assuntos mundanos, a única conclusão a que se chega é que há safadeza nesse assunto. E safadeza più grassa!
Nessa minha dança urubulística ao redor de carniça encomendada, a primeira vontade que tenho é de rir de tamanha pabulagem e gatunice que quem se dá ao trabalho de ser cafiola de lojista. A segunda é a vontade de descer o guatambu, a piúva, a ximbuva nas costas do caeté que se dá o desplante de fazer um carnê com 99 parcelas para pagar um produto que, se ele esperasse uma semana a mais e deixasse passar a breck fraude, iria comprar a preço de bananinha na feira, apesar da bananinha não estar tão barata assim.
O, Deus que me perdoe, consumidor caeté, desde a chegada de Cabral vem sendo passado para trás com essas miçangas e quinquilharias. No começo foram os portugas, depois uszamericanus, agora os Xing ling que vivem empurrando esses pechisbeques para a patuléia. A gente aceita com todos os dentes e faltas de dentes, como se fôssemos a nação mais esperta do mundo. Enquanto isso, enquanto dançamos esperando agarrar um pedaço do fígado do Sardinha, somos roubados, e agradecemos por sermos roubados na caruda.
Vendo como os cafifas de lojas se comportam fico a pensar se a coisa é inata, ou adquirida. Isso porque depois de 16 anos de senvergonhismo ladroístico, a tribo caeté parece que se acostumou a ser passada para trás e passar para trás os demais. Quando assim vejo acontecer, lembro-me: caeté não briga com caeté! Mas parece que só eu sigo essa máxima.
A ideia da Black Friday, surgida nos Zistados Zunidos é boa, pois permite ao lojista se livrar do estoque da primavera/verão para receber a coleção outono/inverno. Nosso Araribóia – na língua caeté é sábio velho – Magnovaldo, que mora lá na florida Flórida pode atestar com mais sustança isso que digo. Acontece que lá os descontos são levados a sério.
Na bananolândia, em caeté castiço, breck fraude, tudo pela metade do dobro, é apenas uma desculpa para que as pessoas enfiem a mão no nosso bolso, enquanto dançamos alegres ao redor de uma fogueira, esperando o chã de dentro do Sardinha ficar pronto e nos banquetearmos nesse festim irracional que teima em não sair de dentro de nós.
Décadas atrás, precisamente no começo da segunda metade do século passado, o uso de dentes de ouro virou moda no Brasil. Os ricos transformavam sua boca num cofre de valores incalculáveis.
Em 1957, Nelson Rodrigues escreveu uma peça que se chamava “Boca de Ouro”, sobre um bicheiro que mandava arrancar todos os dentes e colocar uma dentadura de ouro, para “se alugar”.
Nesse período, pessoas ricas e vaidosas investiam altos valores em dentes de ouro, exibindo sorrisos dourados, o que começou a despertar a cobiça de assaltantes, que se “armavam” com “boticões” (alicates usados por dentistas), no intuito de assaltá-las, violentamente.
Uma ilustre dama da sociedade carioca, cuja boca era considerada uma verdadeira sucursal do maior banco do País, por um triz não perdeu a vida, ao ser atacada por marginais, que a raptaram e, na marra, “extraíram” seus dentes de ouro, de forma inadequada, provocando-lhe hemorragia, além de dores insuportáveis, que a fizeram perder os sentidos.
Os portadores de dentes de ouro, portanto, passavam a correr o risco de sofrer ataques de marginais, na ânsia de se apossarem da fortuna que eles traziam na boca.
Lana, 30 anos e dona de uma grande fortuna, nessa época, ao precisar de tratamento dentário, por vaidade, pediu ao dentista que lhe colocasse alguns dentes e obturações de ouro. Queria ter um sorriso dourado e uma “boca de ouro”. Quando falava, seus lábios pareciam uma porta se abrindo, para deixar à mostra um altar de ouro de uma luxuosa Igreja. A mulher dava suas gostosas risadas, para exibir seus dentes de ouro. Por isso, entrou na mira de marginais, que procuravam o momento adequado para atacá-la.
Certa noite, armados com “boticões”, marginais conseguiram arrombar uma porta da sua casa. Na mesma hora, ouviram entrar um carro na garagem. Era o dono da casa que chegava. Por ter encontrado o portão aberto, e temendo que houvesse ladrão dentro de casa, desceu do carro armado de revólver, atirando para cima e gritando pelos empregados, que prontamente apareceram, também armados. Viu dois bandidos fugindo. Ele e dois empregados, todos armados, percorreram os cômodos da casa e tiveram uma surpresa: Encontraram, debaixo de uma cama, um dos ladrões, escondido. Arrastado pelos empregados, o marginal foi imobilizado, tendo pés e mãos amarrados, enquanto a polícia era aguardada.
O marginal confessou que estava ali, somente, para levar a fortuna guardada na boca de ouro da dona da casa. Ao lado dele, estava a arma: um “boticão”, usado por dentistas.
Por um triz, Lana não foi vítima de uma grande violência, mesmo numa época em que a criminalidade era menor.
Felizmente, esse modismo passou e já não se usa dente de ouro.
Berto,
Não sou intelectual, nem tenho muito estudo, terminei apenas o segundo grau.
Não sei escrever bem mas, não vem ao caso.
O que eu gostaria de saber é se a tua terra, Palmares, é a mesma do Zumbi.
Se for, o mestre Berto tem alguma a dizer sobre o seu dia ter sido escolhido para homenagear os negros.
É merecido?
R. Meu caro, a minha Palmares, localizada na Zona da Mata Sul aqui em Pernambuco, não é a mesma de Zumbi.
Apesar do seu nome, este personagem nasceu mesmo foi nas Alagoas, e seu nome esta ligado à cidade de União dos Palmares, localizada naquele estado.
Clique aqui e veja a história dele no Wikipédia.
Quanto àquilo que você chama de “seu dia”, presumo que seja o dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, quando se comemora um certo “Dia da Consciência Negra”.
E o que um empretajado feito eu, filho e neto de pretos, acha disso?
Digo a você que acho uma tremenda duma besteira.
Uma tabacudice da militância zisquerdóide, aquela mesma que inventou o tal do “politicamente correto”.
Num tem quem me faça chamar um ceguinho de “deficiente visual” ou um neguinho de “afrodescendente”.
Agora só falta mesmo os galêgos dos zoios zazuis inventarem um Dia da Consciência Branca.
E, em seguida, os japinhas de São Paulo começarem um movimento pela criação do Dia da Consciência Amarela.
Desconfio que o Dia da Consciência Morena é o que vai contar com mais gente pra ser celebrado.
Todavia, meu caro leitor, como esta gazeta escrota é um espaço aberto e democrático, nossos leitores fiquem inteiramente à vontade pra contestar o que eu penso sobre isto e baixar o cacete.
E também fiquem à vontade pra dizer o que pensam sobre a criação das tais “quotas raciais”.
Fui empresário durante vinte anos. Me acostumei, como todo empresário brasileiro, a ser tratado como um recurso sempre disponível para cobrir os buracos no orçamento do governo. Faltou dinheiro? Aumenta imposto. Alguma secretaria está sem verba? Cria uma taxa. Precisa agradar algum grupo de eleitores? Inventa uma obrigação, acompanhada de portarias, resoluções, instruções, muita burocracia. As empresas, como um boi velho preso pela canga, simplesmente agüentam. A opinião pública e a imprensa não se interessam muito, com base em uma noção de que todo empresário é milionário e toda empresa tem lucros tão grandes que sempre dá para tirar mais, e ainda sobra muito.
A facilidade de cobrar mais é tanta que às vezes a preguiça fala mais alto e a ordem sai mal-feita. Aí nós vemos a chance de reclamar. É uma luta sofrida, porque o nosso advogado, o advogado do outro lado e o juiz que julga, todos são pagos com nosso dinheiro. Mas, como eu disse, às vezes a coisa é feita tão “nas coxas” que a justiça não consegue negar que aquilo é contra a lei.
Aconteceu comigo duas vezes. Uma delas, com um tal salário-educação. A outra, nem me lembro mais. Mas foram dois casos em que eu como empresário entrei na justiça contra o estado e ganhei. Só que, como na expressão popular, ganhar é uma coisa, levar é outra. Quem deve para o estado, é cobrado sem dó por uma porção de gente, paga com os impostos de todos. Para cobrar, o estado ignora até mesmo princípios que vêm do tempo do direito romano: para vender um imóvel que é seu, por exemplo, você primeiro precisa correr atrás das certidões que dizem que você não deve nada ao governo. Presunção de inocência? Nada disso.
Quando o estado é quem deve, como aconteceu comigo nas duas vezes que citei, ele simplesmente manda o credor para uma fila chamada “fila dos precatórios” e diz “pago quando puder”. De vez em quando, ou “de vez em sempre”, aparece uma conta muito grande, e como dinheiro sobrando na conta é coisa rara em se tratando de governo, acontece da fila ficar parada por meses ou até anos. No meu caso, nas duas questões que ganhei, o dinheiro só chegou depois de uns cinco anos, isso sem contar o tempo do julgamento, que deve ter sido mais uns cinco. Traduzindo: o governo me tomou um dinheiro contrariando as leis que ele mesmo faz, e eu levei dez anos para receber o dinheiro de volta, sem juros, sem multa, apenas com uma correção que às vezes nem compensa direito a inflação, porque os índices também são feitos pelo governo de acordo com os seus interesses.
Vejo agora que a tal da opinião pública está tratando os precatórios como algo “do mal”, um problema que atrapalha o governo e prejudica o país. Consequentemente, muita gente está vendo como positiva a nova PEC que cria mecanismos para atrasar ainda mais os pagamentos e diminuir ainda mais a correção dos valores. A opinião pública não percebe que é ela mesma quem está pagando, porque o dinheiro que o governo cobrou ilegalmente não volta: já foi gasto, com muita rapidez e agilidade. Depois, quando a justiça manda devolver, o que o governo faz é tirar de outro lugar para atender, com toda a má-vontade do mundo, a tal fila dos precatórios.
No fundo, é uma metáfora da nossa sociedade. Não vemos os políticos como empregados da sociedade, mas sim como patrões a quem devemos obediência. Quando muda o governante, o brasileiro se vê como um boi que trocou de dono, e se o novo dono usa o relho com mais força, resta apenas lamentar a sorte.