

Leonardo Coutinho

O ditador da Nicarágua se chama Daniel Ortega. Desde 2017, ele tem como vice-ditadora a sua mulher, Rosario Murillo. A dupla é barra pesada. Desde que assumiu a presidência pela segunda vez, depois de um lapso de 17 anos, Ortega não mede esforços para se perpetuar no poder. Ele foi presidente de 1979 a 1990 e desde que foi eleito em 2006 jamais aceitou qualquer tipo de possibilidade de algum mortal vir a substituí-lo. No domingo passado, o casal venceu mais uma eleição. Ou melhor, um simulacro de eleição. Depois de mandar prender todos os concorrentes, Ortega e Murillo celebraram a vitória que teve eco no Brasil. O PT soltou uma nota na qual saudava as eleições nicaraguenses como “uma grande manifestação popular e democrática deste país irmão”.
A solidariedade petista pegou mal. Muito mal. Como pode o partido que se apresenta como o salvador da democracia no Brasil ser avalista de uma ditadura plena, instalada sem nenhum tipo de dissimulação, por um companheiro de todas as horas? Nem a desfaçatez típica de parte expressiva da esquerda que vê normalidade democrática nos regimes de Cuba e Venezuela foi suficiente para relativizar o que Ortega e Murillo se tornaram. Estamos a menos de um ano da eleição presidencial e ao parabenizar um ditador-amigo, o PT colocou a própria cara e a do ex-presidente Lula para fora da janela. Bem sob a luz do sol. Além de avexar a militância, o afago também tira votos.
A solução petista foi apagar a nota e dizer que ela não havia sido autorizada pela chefia. A presidente do PT, a deputada federal Gleisi Hoffmann, postou no Twitter que a direção do partido não tinha nada a ver com aquilo. O “não autorizar” não deve ser lido como discordar do conteúdo do apoio a Ortega. O que o PT quer dizer é que a nota era inoportuna, pois, afinal, para que se expor transparentemente quando se avizinha uma eleição presidencial e o partido tenta se vender como um partido guardião da democracia?
Aqui está a íntegra da manifestação de Gleisi Hoffmann: “Nota s/ eleições na Nicarágua ñ foi submetida à direção partidária. Posição PT em relação qq país é defesa da autodeterminação dos povos, contra interferência externa e respeito à democracia, por parte de governo e oposição. Nossa prioridade é debater o Brasil c/ o povo brasileiro”.
Em momento algum a presidente do PT classificou os atos de Ortega como ditatoriais ou antidemocráticos. Falou em “autodeterminação” e “respeito à democracia”. Apesar de ter reduzido o autor da nota, o secretário de Relações Internacionais do PT, ao nível de estagiário aloprado, Gleisi Hoffmann não disse nada que alterasse o conteúdo da nota que ele escreveu e depois ela mandou esconder.
E nem poderia ser diferente.
Em julho de 2017, Gleisi Hoffmann foi a Manágua – a capital da Nicarágua – para participar da reunião do Foro de São Paulo. Em seu discurso, ela agradeceu “aos companheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional por auspiciar este encontro e saudamos os triunfos eleitorais mais recentes de Daniel Ortega na Nicarágua”. Além das já clássicas declarações de amor ao regime cubano, a petista não se esqueceu de se derreter por Nicolás Maduro: “O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do PSUV, seus aliados e ao presidente Nicolás Maduro frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”.
Enquanto Gleisi Hoffmann e outros petistas graduados confraternizavam com Ortega, Maduro e todo o parque de dinossauros da esquerda latino-americana, na Venezuela o povo protagonizava longos dias de protestos de rua contra o regime. O PSUV e Maduro colecionavam, naquele momento em que ela discursava, a marca infame de 124 pessoas mortas pela repressão do aparato estatal e paraestatal chavista. Um saldo de 2 mil feridos e mais de 5,4 mil presos. Mas para o PT se tratava de “violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”. Isso é ser amante da democracia?
Em 2018, quando Ortega afundou de vez a Nicarágua no lodaçal do autoritarismo, o povo também foi para rua. O nicaraguense foi ainda mais brutal que seu assemelhado venezuelano. Suas forças policiais mataram 328 pessoas e feriram outras 2 mil. Mais de cem jornalistas foram forçados a viver no exílio. Mas tem gente que acha que isso é luta com o imperialismo.
O PT, Gleisi Hoffmann, Lula e os seus satélites – como o Psol e Guilherme Boulos – mantiveram-se firmes e em silêncio. Assim como a Venezuela era uma democracia porque Maduro havia sido eleito, as coisas pareciam seguir muito bem na Nicarágua de Ortega. Lula só disse que deu conselhos para Ortega não “renunciar à democracia” muito recentemente, por sinal, depois de ele ter quebrado a cara ao justificar a repressão policial promovida pelo regime cubano nos protestos registrados na ilha em julho passado.
Outro que resolveu descolar um pouquinho de Ortega é Boulos. Quando perguntado sobre o fato de Daniel Ortega ter prendido os opositores e ter montado uma eleição de fachada, ele disse o seguinte: “Eu não vejo que o processo que está ocorrendo na Nicarágua seja democrático. Aliás, a prisão em série de opositores por argumentos bastante questionáveis, com acusações bastante questionáveis para viabilizar uma vitória eleitoral foi algo que a gente denunciou aqui no Brasil quando prenderam o Lula num processo (…) para o Bolsonaro ganhar eleição. Da mesma forma que eu não considerei aquela atuação democrática, não considero a de Nicarágua democrática”. Uhuuuu… que avanço.
Só que não.
O psolista não mudou. O passo que ele aparentemente deu para a frente ao reconhecer que os atos de Ortega não são democráticos foi anulado pelos outros dez que ele deu para trás. Ao justificar o apoio que membros do Psol dão à Nicarágua como resultado de uma “diversidade interna” que “mostra a pujança e a democracia do partido” é de lascar.
Boulos ainda piorou. De forma sinuosa, ele busca um paralelismo entre o Brasil e a Nicarágua que só existe na cabeça de quem – por amor ou interesse – é incapaz de chamar as coisas pelo nome que elas têm. A Nicarágua é uma ditadura. Para ele, quando Ortega mandou sete candidatos rivais para a cadeia para tirá-los da eleição, fez algo idêntico ao que se passou no Brasil quando da prisão de Lula, no âmbito da Lava-Jato. O mais duro é que ele pagou um media training para fazer essas barbaridades parecerem inteligentes.
Em junho, quando Ortega começou a perseguição contra os pré-candidatos opositores, esta coluna tratou do tema e de uma foto. Se contabilizarmos nela o número de pessoas que foram exiladas, presas, perseguidas e mortas por alguns dos personagens presentes nela, os números seriam de arrepiar.
Tratando apenas de Maduro e Ortega – e os protestos, em 2017, na Venezuela, e em 2018, na Nicarágua -, chegamos ao saldo de 452 mortos e 7,4 mil presos. Se Lula, Boulos e Dilma, que posam na mesma foto, olhassem para elas com este número na cabeça, eles veriam que fazem parte de um retrato horroroso. De uma fotografia na qual a Democracia não está presente.
Mote desta colunista:
Patrimônio cultural
É o repente brasileiro.
Agora o nosso repente
Foi mesmo reconhecido
O registro é merecido
E a classe ficou contente
Porque o IPHAN sabiamente
Deu mais um passo certeiro
E falou pro mundo inteiro
Que o repente tem aval:
Patrimônio cultural
É o repente brasileiro.
Berto,
Há pouco a ABL – Academia Brasileira de Letras elegeu Fernanda Montenegro, nossa grande atriz.
Agora elegeu Gilberto Gil, um grande compositor e cantor.
Nada contra estes artistas.
Mas para competir com nomes como estes, os escritores não têm chance alguma.
Lembro que em 2003, quando Moacyr Scliar entrou na ABL, ele mesmo sugeriu que a eleição para ingressar nesta Academia fosse feita do modo direto entre os leitores.
Hoje essa ideia se faz melhor do que na época.
Ou, então, poderia se criar uma Academia Brasileira de Música para eleger Milton Nascimento, Maria Bethania, Alceu Valença, Gilberto Gil, Caetano Veloso…
Ou uma Academia Brasileira de Artes, incluindo tudo que é artista.
O que acha da ideia ?
R. Amigo Brito: esta situação curiosa, eleger artistas e músicos para uma academia de letras, vai ser mudada no próximo dia 25.
Meu estimado amigo José Paulo Cavalcanti, colunista deste JBF e renomado jurista brasileiro, com vários livros publicados, é candidato a uma vaga da Academia Brasileira de Letras.
Agora sim, a Academia terá a oportunidade de eleger um verdadeiro homem de letras!
José Paulo é autor do clássico “Fernando Pessoa: uma quase autobiografia”, publicado pela Editora Record, que ganhou o Prêmio Jabuti de 2012 e o Prêmio José Ermírio de Moraes.
Um livro que teve mais de 50 mil exemplares vendidos.

Em Portugal, José Paulo ganhou o Prêmio Dario Castro Alves e foi saudado pelo então presidente Mário Soares. Naquele país, o livro ficou um mês na lista dos mais vendidos.
Na Italia, ganhou o Prêmio Il Molinello.
A obra foi publicada também na Romênia, Israel, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos.
Só isso. Apenas isso.
E tem um detalhe curioso sobre esta obra: quando de sua publicação, ela foi considerada pela Academia Brasileira de Letras, por unanimidade, como “o livro do ano”.
Viu a coincidência? Um excelente presságio para a candidatura do nosso confrade à ABL.
Veja este trecho da uma notícia publicada no jornal O Globo, no dia 3 deste mês de novembro:
No dia 25, a mais acirrada das eleições da temporada: seis candidatos disputam a vaga deixada pelo advogado Marco Maciel (1940-2021). São eles: José Paulo Cavalcanti, Ricardo Cavaliere, Godofredo de Oliveira Neto, Luiz Coronel, Camilo Martins e Leandro Gouveia.
Aliás, esta matéria de O Globo tem coisas e relatos bem interessantes e curiosos sobre a ABL e as suas eleições.
Vale a pena saber. Leia a matéria completa clicando aqui.
Pois então, desta vez a Academia Brasileira de Letras terá a oportunidade de eleger um verdadeiro homem de Letras, um escritor que indubitavelmente merece preencher a vaga que está em aberto.
Nós aqui da comunidade fubânica, estaremos todos torcendo pela sua vitória.
Uma informação curiosa: José Paulo e sua esposa, a também escritora Maria Lectícia, já são membros da Academia Pernambucana de Letras.
Um casal de acadêmicos.
Um caso singular.

Casal José Paulo e Maria Lectícia aqui na casa deste Editor