SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TRISTEZA – Virgínia Vitorino

Nos dias de tristeza, quando alguém
Nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
Às vezes, nem sequer nós respondemos:
Faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
Sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
Pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
Do que este de não se ter alguém no mundo
Que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino, Alcobaça, Portugal (1895-1967)

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J.R. GUZZO

DEMOCRACIA GRÁTIS

O Congresso brasileiro é ruim? Sim, o Congresso brasileiro é muito ruim. Ruim? Para falar sinceramente, é pior do que ruim; podem chamar de péssimo que ele atende. Feita essa primeira constatação, há uma segunda: este é o único Congresso que temos. Não dá para chamar o Parlamento da Suécia, por exemplo, e pedir que ele faça as nossas leis. Também não dá, pelas mesmas razões, para terceirizar a tarefa em favor do Congresso da Venezuela. (O PT, PSOL, etc., pelo que vivem dizendo, iriam gostar muito, mas realmente não vai dar, pelo menos por enquanto.)

É um problema e tanto. O Brasil é uma democracia, pelo que está escrito na Constituição, e na democracia brasileira quem faz as leis são a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. E se elas forem ruins? Paciência: todo mundo vai ter de aguentar. “Estado de direito” é isso. Só deputados e senadores eleitos em voto livre, secreto, universal e obrigatório pela população estão autorizados a escrever e aprovar leis. O Poder Executivo tem de cumprir o que foi aprovado e o Poder Judiciário tem de julgar se a lei aprovada está sendo cumprida. Não está escrito, em nenhum lugar, que as leis devem ser boas; apenas que o Congresso tem o direito e a obrigação de fazer cada uma delas.

Também não se prevê na Constituição nenhum mecanismo de controle de qualidade em relação aos deputados e senadores. O sujeito pode ser um Churchill ou um Tiririca, tanto faz; se for maior de idade, passar no teste de alfabetização e receber os votos necessários para ser eleito, está dentro, e tem o direito legal de aprovar ou recusar o que lhe der na telha. A Constituição não diz que a ministra Rosa Weber, digamos, tem de gostar da lei para ela valer; pode ser uma pena, mas o que se vai fazer? É assim.

Tudo isso parece muito claro, mas não é. Na vida real, pelo menos, não é, pois não está acontecendo com o Congresso nada do que a Constituição diz que deve acontecer. A Câmara dos Deputados aprovou, de forma legítima e legal, uma lei sobre o pagamento de emendas parlamentares. Não valeu nada. A ministra Weber não concordou com o texto aprovado e o Supremo Tribunal Federal, muito simplesmente, vetou a lei que os deputados tinham acabado de colocar em vigor.

As emendas parlamentares são uma aberração, e lei nova sobre ruindade velha só piora o que nunca prestou. Mas são fruto direto da democracia brasileira, tal como ela está organizada; é o preço que se paga pelo estado de direito. O STF quer uma democracia grátis – ou obediente a ele. Só está produzindo desordem.

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GUILHERME FIUZA

MEXA-SE

A revolução digital é pródiga. O avanço civilizatório decorrente dela é inquestionável. A conexão planetária imediata se traduz em ganhos econômicos, culturais e humanitários. A revolução digital melhora a vida. Ou era para melhorar.

Claro que haveria efeitos colaterais. Nenhuma transformação desse tamanho se dá sem que algo também seja perdido. Na Revolução Industrial, por exemplo, o formidável processo de automação trouxe o aumento do sedentarismo. Hoje, é até engraçado lembrar a campanha do “Mexa-se” nos anos 1970 – com jingles na TV tentando sensibilizar a população para a importância de se exercitar. Isso mais de década antes da disseminação dos microcomputadores de uso pessoal, que jogariam boa parte da movimentação humana para dentro de uma tela – ainda na pré-história do iPhone.

E agora? Com uma tela na palma da mão que contém praticamente o mundo inteiro, o que aconteceu com a movimentação humana? Continuou decaindo, claro, mas por outro lado os antídotos do velho “Mexa-se” evoluíram – e também está hoje na palma da mão um vasto cardápio de suor induzido. Então para onde foi a atrofia?

É uma pergunta que dá até medo de tentar responder. Sendo assim vamos só especular, de forma inconsequente, para ninguém confundir isso aqui com manifesto. Nem com veredito. Até porque a epidemia de vereditos sumários na palma da mão pode ter a ver com a tal atrofia. Será? Quem não pensa sentencia. Quem não pode ordena. Quem não sabe ensina.

Calma, são só provocações. Releia acima o nosso pacto de inconsequência e relaxe.

Mas… Será que não temos uma pista aí? Com quantos paus se faz uma canoa, se a canoa pode ser virtual? O que acontece com o ser humano quando ele passa a não precisar do trabalho braçal da mente? E se aquele vasto cardápio de suor induzido passa a oferecer também convicções à la carte, prontas para o consumo? O que acontece com o senso comum quando o indivíduo adere maravilhado à automação das convicções? E se a formação da consciência estiver sendo substituída pela mimetização? E se o pensamento tiver perdido espaço para a repetição?

Calma. Se as provocações acima não te incomodaram, talvez nada disso esteja acontecendo. Ou talvez você esteja suficientemente mecanizado. Ou talvez as premissas acima estejam erradas. Ou talvez o cardápio de convicções instantâneas seja mesmo um sucesso e você só consiga pensar se esse papo é de direita ou de esquerda, se merece like ou deslike, se compartilha ou denuncia, se tem mais gente aplaudindo ou dizendo que é fake news, enfim, o processo normal a partir do qual você emergirá com a sua convicção triunfal e indestrutível.

Ou talvez a sua capacidade de pensar esteja intacta e as provocações acima é que estejam fadadas a morrer na praia.

Praia lembra lockdown. Que experiência impressionante. Um chamado ético para a imobilização das sociedades em nome do bem comum. A mobilização pela imobilização. Uma espécie de “Mexa-se” ao contrário. Recolha-se. Isso protegerá a saúde da coletividade. A exata engenharia sanitária dessa medida extrema – e sua eficácia aferível – nunca apareceu. E o senso comum nunca a exigiu. Se existe mesmo um cardápio de convicções, ele deve ter sido essencial para a construção dessa harmonia em torno do nada. Cada tempo com seu consenso.

A convicção emana do iPhone. O iPhone emana do legítimo anseio por praticidade e conforto. A paz digital pode ser um estágio evolutivo – em que a universalização do poder individual depende da uniformização. Repetir é o novo pensar? Ser ou não ser?

Do iPhone emana o passaporte. Da injeção emana a cidadania. Como no lockdown, o senso comum não exigiu o passaporte da eficácia. A nova ética dispensa a lógica. O indivíduo está fascinado com seu poder universal. Dispor da vida alheia com uma simples checagem de iPhone é bom demais. Bloqueio sanitário é migalha se você tem o direito à vida na palma da sua mão.

Ou talvez não seja nada disso. Fica calmo. Se as especulações acima são inócuas, você não tem nada a perder. Se não são, mexa-se.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARISA DE MATTOS LIMA – CONTAGEM-MG

Senhoras e senhores,

Não sei o que vocês acham, mas eu penso que uma providência tem que ser tomada.

O presidente do Brasil é um sujeito muito desbocado, muito mesmo, e vive falando palavrões.

Estamos diante de um péssimo exemplo para os nossos jovens.

Precisamos acabar com este absurdo. Vocês concordam?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SAUDADE NÃO MATA – SÓ AJUDA A VIVER

Selecionado “Cacareco” que derrotou a seleção alemã na Ilha do Retiro

“Nado está melhor do que Garrincha.”

(A declaração do técnico da seleção alemã Helmut Schoen)

O goleiro era Dudinha, que se transferira do Central para o Sport, contando o restante da equipe com: Gena (Náutico), Alemão (Sport), Baixa (Sport) e Jório (Santa Cruz); Gojoba (Sport) e Ivan (Náutico); Nado (Náutico), Bita (Náutico), Pelezinho (Sport) e Lala (Náutico). Eram sete pernambucanos, dois maranhenses, um paraibano e um paulista. No transcorrer da partida entraram mais dois pernambucanos: Toinho, do Náutico, substituiu Jório, e Nino, também do Náutico, entrou no lugar de Pelezinho.

O meio-campo acertou. Naquele tempo jogava-se no 4-2-4. Alimentando o ataque estava Ivan, que fazia o mesmo serviço no quase tricampeão Náutico, enquanto o volante rubro-negro Gojoba ficava na marcação, porém, um pouco mais adiantado.

O também rubro-negro Pelezinho, maranhense como Gojoba, descia um pouco para buscar o jogo. Na frente, Bita, um atacante de altíssimo nível, atento, criativo e oportunista, possuindo assim, todas as virtudes do goleador. Os alemães tinham informações sobre o potencial do chamado Homem do Rifle e procuraram marca-lo de perto.

Na extrema-direita, para abrir a defesa, Nado, irmão de Bita, e grande driblador. Só que nado não fez a partida que se esperava e mesmo assim levou Schoen a considera-lo em melhor fase do que Garrincha. Vale salientar que foi de uma falta cometida em Nado que o jogo se decidiu.

Aos 39 minutos do segundo tempo, Nado foi derrubado nas imediações da grande área, criando mais um momento de expectativa na Ilha do Retiro. Ele mesmo se encarregou da cobrança. Companheiro de Nino, emérito cabeceador que substituíra Pelezinho, Nado cruzou fechado. O goleiro alemão Mangletz afastou de soco, e Gojoba, que vinha de trás, completou para a rede.

A Ilha do Retiro foi ao delírio. Dali para a frente foi só segurar o placar, pois só faltavam seis minutos. Pernambuco dobrava o time alemão, para felicidade de Rubem Moreira, que dava assim a resposta aos cartolas da CBD.”  – Lenivaldo Aragão e Fernando Menezes. Jornal do Comércio, 22 de maio de 2000.

Hoje resolvi dar um passeio pelo futebol. Desde 1965 estou envolvido com o futebol. Nunca fui jogador. Fui Árbitro profissional, atuando na então FCD (Federação Cearense de Desportos) e, depois, na Federação Carioca de Futebol.

Tenho visto e discordado com a desmoralização que a FIFA está empurrando goela à baixo das confederações, com a obrigatoriedade da implantação do VAR que, no Brasil – país de hábitos diferentes do resto do mundo – não está “ajudando” em nada. Pelo contrário, está tirando a autoridade do Árbitro central que, ainda que esteja a dois metros de algum lance e tenha a sua própria interpretação e decisão, tem que ouvir e adotar o que o VAR determina. Uma merda.

Quanto ao futebol propriamente dito, na noite de quinta-feira vimos uma sofrível seleção brasileira confirmar a classificação para a próxima Copa do Mundo, atuando diante adversários que nunca ofereceram resistência alguma. E isso fez com que todos passassem a acreditar que a conquista de mais um mundial será uma barbada.

O Brasil está praticando o futebol onde o mais importante é a “posse de bola” e a juventude passou a elogiar mais o jogador que “faz a assistência (passe final)” que o próprio goleador. O que se vê, sempre e em todos os jogos, é um toque lateral ou um toque para trás. Sem verticalidade, sem objetividade e, claro, sem gols.

Tenho visto, também, com muita preocupação a situação técnica e administrativa-financeira de clubes que algum dia foram a razão de ser do futebol brasileiro: Santos, Cruzeiro, Botafogo, Vasco, Grêmio, São Paulo. Não tem sido diferente a penúria de Náutico, Santa Cruz e Sport Club Recife, além de Esporte Clube Bahia e Vitória.

O futebol brasileiro também passou a ser vítima do “politicamente correto” e, hoje, o que mais se vê, são protestos e mais protestos contra alguém que, indignado com a qualidade do futebol que seu time de preferência está praticando, rotula esse ou aquele jogador de “macaco” de “negro” ou algo semelhante. Uma verdadeira babaquice – e os babacas perdem tempo procurando uma solução. Mas, continuam afirmando e acreditando na teoria de Darwin.

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