PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VENCEDOR – Augusto dos Anjos

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem.
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

 

GUSTAVO GAYER

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

CARTA DE APRESENTAÇÃO

No limiar do século XX, quando não existiam contraceptivos capazes de comedir os robustos índices de natalidade, e o preconceito de cor era tão explícito quanto irreprimível, o útero piauiense reforçou a sua prole partejando mais um rebento. O descendente viera ao mundo bendito por dentro e desventurado por fora. Bendito por que viera sob o signo da genialidade; desventurado por que chegara tatuado pelo desfavor de dois atributos de notório desprestígio: a negritude e a pobreza.

Pertencente ao proletariado, portanto serviçal do patriciado, não pôde esse filho arrebanhar estudo que lhe permitisse, sequer, assinar o nome. Porém, outro recurso lhe veio em socorro, dando-lhe nova perspectiva: a poesia. Refiro-me ao poeta, violeiro e repentista, gênio da cantoria, o negro Domingos Martins da Fonseca (1913-1958), nascido no distrito de Santa Luzia, município de Miguel Alves, Piauí. Domingos Fonseca foi o maior cantador lírico ao som da viola, emparelhado apenas a Pinto do Monteiro e aos irmãos Batista Patriota.

De fama desaproveitada em seu chão natalício, Domingos deliberou por romper a fronteira do seu território; desatou a rede, puxou a viola pelo braço e pôs-se à vida errante. Encantando plateias Brasil afora, aportou no Teatro Santa Isabel, Recife, 1948, onde se sagrou cabal vencedor do Festival de Cantadores, ocasião em que, altivo, fora distinguido pelo cognome de “armazém do improviso”. Ainda que os seus pares o considerasse o mais lírico dentre todos, professava-se unicamente cantador de dores. Em 1956 publicou “Poemas e Canções”.

Cantou para várias emissoras, destacadamente as rádios: Nacional do Rio de Janeiro e Bandeirantes de São Paulo. Também cantou para notáveis, a exemplo do governador Alberto Silva, General Mascarenhas de Morais e tantos outros. Ainda que os seus méritos tenham lhe feito credor de muitos preitos, apenas uma rua lhe faz homenagem na capital piauiense: “Rua Poeta Domingos Martins da Fonseca”, bairro Cristo Rei, Teresina.

Certa feita, durante um desafio de viola, ouvira de um vate de cor branca, seu oponente, o seguinte desacato: “Domingos, além de ser pobre é tão triste a tua cor”.

Para desafrontar-se do agravo Domingos redarguiu:

Falar de nobreza e cor
É um grande orgulho seu
Morra eu e morra um nobre,
Enterre-se o nobre e eu,
Que amanhã ninguém separa
O pó do nobre do meu!

Noutra ocasião, durante uma cantoria, pegou uma “deixa” e exaltou os favores com que o CRIADOR distingue as suas criaturas:

Nós viemos de Deus, o CRIADOR,
E aqui somo do pai as criaturas,
Que depois de melhores e mais puras
Voltarão para as mãos do seu autor.
E vivemos aqui do seu favor:
Do seu ar, do seu sol, da correnteza,
Dos seus campos, dos mares, da beleza;
Da família e do pão com que se cria,
Para que repitamos todo dia:
Quanto é grande o poder da Natureza.

Pronto, caro leitor, dou por encerrada a tarefa, a que me impus: apresentar esse brasileiro, negro, de temperança sem par. Os que lhe desconheciam a existência, eis, portanto, esses breves apontamentos, que põem luz a uma biografia que jaz oculta sob as páginas do catálogo do esquecimento. O fiz a partir de folhas dilaceradas e bolorentas que as esgaravatei junto a inexpressivos alfarrabistas do Nordeste, que as conservam porque nisto se comprazem. Desse poeta sobrerrestaram lembranças boas de serem lembradas, e a saudade da sua incomum arte de versejar.

Ao dar por concluída esta CARTA DE APRESENTÇÃO, espero não ter cometido exagerações, que inspirem suspeição ao crédito do apresentado, nem omissões, que possam apoucar-lhe os méritos.

Muito me comprazeria ser possuidor de um tostão da riqueza poética de Domingos Fonseca, mas quem nasceu para polca não chega a tango argentino.

DEU NO JORNAL

VÃO OBRAR MENOS

O ditador da Coréia do Norte, Kim Jong Un, pediu aos cidadãos do país que comam menos pelo menos até 2025.

A situação no país é de crise alimentar, piorada depois que o regime fechou a fronteira com a China para tentar conter o contágio com a Covid-19.

* * *

Os coreanos, que já comem pouquíssimo, agora vão comer menos ainda se atenderem ao pedido do ditador, que come fartamente e vive de rabo cheio dentro do palácio do governo.

Vai diminuir muito a produção de merda naquele pobre país, sempre produzida de cócoras, como de costume.

O grosso da merda ficará por conta das medidas do herdeiro tiranete.

Medidas bostosas, claro. Como são todas aquelas tomadas por dirigentes comunistas.

RODRIGO CONSTANTINO

COMO NÃO CONDUZIR UMA ENTREVISTA

Tanto na Jovem Pan como na RedeTV, além da minha própria live TudoConsta, já tive que entrevistar muita gente, muita autoridade, inclusive gente de quem discordo totalmente. Já entrevistei ministro do STF, governador, senador e prefeito com posturas que considero absolutamente condenáveis.

Em minhas perguntas, procurei extrair respostas objetivas sobre temas polêmicos, tirando o entrevistado da zona de conforto. Mas sempre mantive a educação, o respeito, lembrando também quem é o entrevistado e quem é o entrevistador, ou seja, meu papel é jogar a pergunta e deixar o outro desenvolver sua linha de raciocínio.

É difícil, porém, levar uma entrevista adiante quando alguém quer só lacrar em cima do entrevistado. Se o objetivo não é obter respostas sobre determinados assuntos, mas sim expor o entrevistado ao ridículo, tentar desqualificá-lo ou tirá-lo do sério para jogar para sua plateia, então não haverá uma entrevista, e sim um espetáculo politiqueiro de péssima categoria.

Não dá para confundir jornalismo, que tira os entrevistados poderosos da zona de conforto, com pura “lacração”, oportunismo e tremenda falta de educação, que coloca inclusive a casa que recebe o entrevistado numa situação delicada de baita constrangimento.

Além disso, há um mínimo de liturgia do cargo que se exige ao tratar com autoridades. Mesmo que se trate de alguém informal, como o Presidente Bolsonaro. Mesmo que se trate de um programa informal, mais escrachado. Para tudo há limite, ou deveria haver. Eu não trataria um governador como “cara” numa entrevista, jamais!

É preciso apontar ainda o duplo padrão: a “lacrosfera” aplaude se um dos seus conseguir tirar Bolsonaro do sério, promovendo um barraco no lugar da entrevista, e ainda tenta justificar que foi apenas jornalismo, fazendo perguntas difíceis. Mas o mesmo tratamento nunca seria concedido a um entrevistador que agisse da mesma forma com um ministro supremo.

Aliás, sabemos o que aconteceria nesse caso: o jornalista seria chamado de blogueiro bolsonarista, sua fonte de espiã e ele estaria com mandado de prisão e extradição por “atacar” uma instituição democrática. Um peso, duas medidas. A esquerda, incluindo a tucana, não liga a mínima para princípios.

Por fim, vale notar a diferença de reação. Bolsonaro simplesmente se retira ao ver o jogo sujo e o barraco. Lula, quando foi chamado de bebum por um jornalista gringo, tentou expulsá-lo do país. E Doria, ao ver um jornalista levar dados incômodos ao ar, ligou para a emissora, entrou ao vivo e tentou desqualificar o jornalista, pedindo sua cabeça e o rotulando de “negacionista” e “vassalo de Bolsonaro”.

O jornalista era eu, mas não recebi a solidariedade e o apoio dos meus pares por “tirar uma autoridade poderosa da zona de conforto”. Ao contrário: esses jornalistas que hoje saem em defesa do moleque lacrador ficaram caladinhos, mesmo sabendo da pressão que o governador faz em cima dos veículos de comunicação para retirarem o microfone de seus críticos e desafetos.

A PALAVRA DO EDITOR

AMANHÃ JÁ É NOVEMBRO!

Domingo, 31 de outubro de 2021.

Fechou a semana, fechou o mês.

Já se passaram 304 dias e estão faltando apenas 61 dias para fecharmos este ano de 2021 e entrarmos em 2022.

O pagamento mensal à empresa Bartolomeu Silva, responsável pela hospedagem e pela assistência técnica prestada 24 horas por dia a esta gazeta escrota, foi feito ontem.

Pagamento coberto integralmente pelas doações feitas este mês por nossos leitores.

Agradeço a generosidade de Boaventura Bonfim, Magda Valladares, Aluísio Sales e Manuel C. Neto, que fizeram seus depósitos nesta semana que hoje finda.

Fiquem certos que vai voltar tudo em dobro pra vocês, na forma de muita saúde, vitalidade, paz, luz, alegria e longa vida.

E, para alegrar e encher de beleza o nosso dia, vamos repetir, atendendo a pedidos, uma gostosa roda de choro. 

Um excelente domingo para toda a comunidade fubânica!!!

PERCIVAL PUGGINA

CENSURA

Milhões de cidadãos se sentem frustrados e impotentes. O produto natural é uma indignação que flui para as redes sociais, seu único espaço de expressão. Ali, ninguém é poupado. Os que patrulham a retórica alheia só leem e só veem ódio, fake news e articulações antidemocráticas quando as críticas se voltam ao Supremo.

Durante votos que pareceram discursos na sessão do TSE que julgou a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, as redes sociais ganharam evidência. A palavra censura só não foi pronunciada porque tem carga negativa, mas ela esteve ali, suspensa como lâmina de guilhotina justiceira. Disseminar ódio tem sido acusação frequente contra as redes sociais. Muitos comunicadores já foram calados; outros calaram-se.

É tênue a linha que separa a indignação do ódio. A indignação expressa inconformidade e impotência; é o sentimento dos injustiçados. Nos espaços próprios da cidadania e nos devidos limites, costuma significar dignidade ofendida, ou repulsa. Não deve descambar para o ódio porque este afeta o discernimento e pode conduzir a ações condenáveis. Mas se tem revelado conveniente confundir os dois sentimentos, chamando de ódio o que é pura indignação manifestada com emoção que a expresse.

O debate político, os desabafos dessa natureza nas redes sociais, não são do tipo acadêmico, dialéticos, como pareceu ser o desejo do ministro Roberto Barroso. Ao contrário, são manifestações que se parecem mais tensas, como ocorre nos parlamentos, por exemplo.

Por outro lado, ao longo de décadas, testemunhei e denunciei o ódio (neste caso, sim), expresso em violência e chamando à violência, como nas invasões do MST, nas vidraças quebradas e nos ônibus e catracas incendiados pelos que querem tarifa zero no transporte público, nas ações do exército do senhor Stédile, nas forças do senhor Vagner Freitas (CUT), nos black blocs e nos Antifas, que em sua primeira aparição na Av. Paulista já entraram numa fumaceira, queimando contêineres de lixo.

“Não há mais tempo para conversa e bons modos. (…) O que estamos esperando para cruzar o rio?” (Roberto Requião, na Fundação Perseu Abramo, 2009). “Na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção” (Benedita da Silva, no mesmo evento).

Recuando no tempo, o Fórum Social Mundial transbordou amor à humanidade, mas os mais veementes aplausos, em verdadeira euforia, tomavam conta do auditório quando a revolução entrava na pauta com a presença de veteranos revolucionários das FARC, de Cuba, da Argélia, da Argentina e a cada menção a Che Guevara. Foram décadas de ódio e de apreço e compadrio com regimes odiosos.

Não se zela pela democracia atacando sua essência, a liberdade de opinião.

DEU NO JORNAL

NOS OVOS

Imagens do ministro da infraestrutura, Tarcísio de Freitas, viralizaram, ontem, ao bater o martelo com muita força no momento do anúncio do arremate do leilão da nova concessão da rodovia Presidente Dutra.

O Grupo CCR venceu o leilão do trecho da Rio-Santos, na BR-101 entre Rio de Janeiro e Ubatuba (SP), que estava com o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Assim, a empresa renovou sua posse da concessão do trecho por mais 30 anos.

O ministro publicou o momento da batida do martelo em seu perfil no Twitter.

Ao postar, escreveu: “R$ 15 bilhões em obras na Dutra e na Rio-Santos e redução de 35% no pedágio atual para o usuário. O maior leilão rodoviário da nossa história. Hoje foi dia”.

Alguns internautas passaram a chamar o ministro de Thorcísio, ligando-o ao herói Thor.

* * *

Quando olhei o vídeo onde o ministro aparece batendo o martelo com força, um pensamento me veio à cabeça.

Eu imaginei que, no lugar daquela placa em cima da mesa, estivesse os culhões de uma meia dúzia de canalhas e cabras safados que conheço.

O primeiro da fila seria Cabeça Lisa.

O segundo seria Lula.

O terceiro seria…

Ah… fico por aqui.

Deixo o resto por conta da imaginação de vocês.

* * *

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O REI DA COCADA PRETA

A maravilhosa “coada preta” vendida por Hugo

Durante vários anos, naquela casa, lembro bem – pois era um dos viventes, por ser neto dos “donos” – o café, fosse matinal, vespertino ou da noite, era “temperado” com pedaços de rapadura. Até então, não conhecíamos o açúcar branco.

A rapadura era transformada num melaço que, por sua vez ajudava na torrefação dos grãos do café. Aquele melaço era colocado num “tacho” (uma bacia de barro), onde eram depositados os grãos do café torrado. E separado por instantes. Às vezes era levado ao sol – nunca entendi por que, nem para que.

Horas depois, aquele café, junto com o melaço, era levado ao pilão, onde era socado e, dali transformado no “pó de café”. Uma delícia, diga-se de passagem, e é assim que se faz na roça ainda hoje.

Na preparação do café, uma lata dependurada num arame suspenso e amarrado ao teto, continha a quantidade necessária de água colocada para a fervura. Acrescentava-se dois ou até três pedaços de rapadura. Rapadura em pedaços passou a ser a sobremesa preferida das crianças, porque era a única – e era guardada na camarinha da Avó.

A mudança forçada de Queimadas para a capital, teve muito mais de “fuga” que outra coisa. A ausência das chuvas era acentuada prejudicando a produção da agricultura familiar, obrigando o abate dos animais domésticos criados em parceria com o proprietário das terras. Feijão e arroz guardados sob sete chaves para o novo plantio, eram retirados da despensa para o consumo diário, o mesmo acontecendo com a farinha de mandioca.

Quem viveu ou vive na roça sabe que abater uma galinha, um pato, um porco ou um caprino para consumo próprio, é algo que só se recorre em última instância. Ou, às vezes, para evitar que o animal morra por algum mal. As galinhas são sempre especiais, por porem ovos – o que significa “produzir” e aumentar a ninhada. Mas, há sempre aquele momento em que o abate se torna inevitável.

Naquele ano de chuvas raras e lavoura inexistente, só havia socorro mais fácil no consumo dos animais domésticos. Frango, quase sempre. Galinha, quase nunca. Frango não põe ovos. Galinha, sim.

Eis que chegou o dia da mudança. Um caminhão fretado de um amigo saiu da capital com destino a Queimadas, numa sexta-feira, por volta das 14 horas ou “quando o sol começou a esfriar”.

Na BR, um percurso aproximado de 50 Km que levaria, no máximo, sessenta minutos no percurso. Saindo da BR e pegando um trecho de estrada vicinal de aproximadamente 6 Km e, depois, mais uns 2 Km de uma picada aberta pelo avô para facilitar o acesso do caminhão. Na BR, nos 50 Km aproximados, o caminhão levou quase três horas. Depois, na estrada vicinal com cerca de 6 Km, levou mais de uma hora. Atolou na areia espessa em umas três ou quatro oportunidades e, para sair dali precisou do auxílio de paus e tábuas.

Maior tempo foi gasto na travessia da picada. Os pneus, ainda usando câmaras de ar, precisaram ser trocados em pelo menos quatro oportunidades, até que foi resolvido que a continuidade dependeria de que todos aqueles tocos da picada fossem arrancados. Mãos à obra!

A noite chegou e não esqueceu de trazer consigo, todas as dificuldades conhecidas. Agora o caminhão não tinha mais os estepes necessários para possíveis trocas. Tivemos que esperar o amanhecer do novo dia, quando todos os demais tocos foram finalmente arrancados, permitindo a chegada do caminhão até a casa da avó.

Com o dia claro e todos os problemas resolvidos, finalmente a mudança aconteceu. Tivemos, como primeiro novo endereço, uma casa em construção. Grande, com vários cômodos, mas sem água canalizada, sem instalação elétrica e sem portas ou janelas.

Era um novo horizonte que aparecia e se desenhava pela frente. Aos poucos, fomos colocando portas e janelas, sem esquecer que as despesas precisavam atender, também, a alimentação diária e as demais necessidades básicas. Todos precisavam trabalhar para ajudar. Era uma real oportunidade de recomeçar uma vida nova.

As crianças precisavam ir à escola. E foram.

Horácio, o mais velho, continuou os estudos, passando a frequentar o Ginásio Municipal; Elias, o segundo, preferiu trabalhar, enquanto chegava a época de servir ao Exército. Preferiu a Aeronáutica.

Hugo, o terceiro, foi matriculado num Grupo Escolar.

Frequentava a escola no período matinal. Chegava de volta à casa, invariavelmente, após as primeiras horas da tarde. Dormia, acordava e estudava para resolver as tarefas escolares.

À medida que o tempo passava, as coisas se acomodavam e os problemas antigos iam sendo resolvidos. Mas nunca deixavam de aparecer os novos.

Eis que, certa tarde, Hugo conheceu um vizinho e acabou por se tornar amigo. O novo amigo tinha pai em boa situação financeira e algumas manias prontamente atendidas. Uma dessas era colecionar figurinhas, num álbum. Foi ali, no folhear do álbum, que nasceu o interesse de Hugo em também comprar um álbum e colecionar as figurinhas.

Mas, de onde sairia o dinheiro?

Não demorou muito, e a engenharia infantil funcionou.

Hugo precisava “fazer dinheiro” de alguma forma. Quebrou o cofrinho de cerâmica, contou todas as moedas amealhadas por meses. Mas ainda não era chegada a hora de comprar o álbum, muito menos as figurinhas.

Resolveu empreender. Comprou dois cocos e duas rapaduras. Fez cocadas e vendeu. Ganhou o apoio e o incentivo da mãe. Vendeu todas as cocadas.

Dois dias depois repetiu a operação. Separou o “lucro”.

E assim, foi fazendo, até que, com o “lucro” que tivera, finalmente conseguiu comprar o álbum. E ainda ganhou um pacote de figurinhas de bônus.

Hugo conseguia vender todas as cocadas, todos os dias.

Todos gostavam das “cocadas pretas”.

Hugo, de frente com uma necessidade, enfrentou o problema com muita disposição, contando com apoio dos pais.

Ali nascia mais um “Rei da Cocada Preta”.

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO