CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CARTA DE APRESENTAÇÃO

No limiar do século XX, quando não existiam contraceptivos capazes de comedir os robustos índices de natalidade, e o preconceito de cor era tão explícito quanto irreprimível, o útero piauiense reforçou a sua prole partejando mais um rebento. O descendente viera ao mundo bendito por dentro e desventurado por fora. Bendito por que viera sob o signo da genialidade; desventurado por que chegara tatuado pelo desfavor de dois atributos de notório desprestígio: a negritude e a pobreza.

Pertencente ao proletariado, portanto serviçal do patriciado, não pôde esse filho arrebanhar estudo que lhe permitisse, sequer, assinar o nome. Porém, outro recurso lhe veio em socorro, dando-lhe nova perspectiva: a poesia. Refiro-me ao poeta, violeiro e repentista, gênio da cantoria, o negro Domingos Martins da Fonseca (1913-1958), nascido no distrito de Santa Luzia, município de Miguel Alves, Piauí. Domingos Fonseca foi o maior cantador lírico ao som da viola, emparelhado apenas a Pinto do Monteiro e aos irmãos Batista Patriota.

De fama desaproveitada em seu chão natalício, Domingos deliberou por romper a fronteira do seu território; desatou a rede, puxou a viola pelo braço e pôs-se à vida errante. Encantando plateias Brasil afora, aportou no Teatro Santa Isabel, Recife, 1948, onde se sagrou cabal vencedor do Festival de Cantadores, ocasião em que, altivo, fora distinguido pelo cognome de “armazém do improviso”. Ainda que os seus pares o considerasse o mais lírico dentre todos, professava-se unicamente cantador de dores. Em 1956 publicou “Poemas e Canções”.

Cantou para várias emissoras, destacadamente as rádios: Nacional do Rio de Janeiro e Bandeirantes de São Paulo. Também cantou para notáveis, a exemplo do governador Alberto Silva, General Mascarenhas de Morais e tantos outros. Ainda que os seus méritos tenham lhe feito credor de muitos preitos, apenas uma rua lhe faz homenagem na capital piauiense: “Rua Poeta Domingos Martins da Fonseca”, bairro Cristo Rei, Teresina.

Certa feita, durante um desafio de viola, ouvira de um vate de cor branca, seu oponente, o seguinte desacato: “Domingos, além de ser pobre é tão triste a tua cor”.

Para desafrontar-se do agravo Domingos redarguiu:

Falar de nobreza e cor
É um grande orgulho seu
Morra eu e morra um nobre,
Enterre-se o nobre e eu,
Que amanhã ninguém separa
O pó do nobre do meu!

Noutra ocasião, durante uma cantoria, pegou uma “deixa” e exaltou os favores com que o CRIADOR distingue as suas criaturas:

Nós viemos de Deus, o CRIADOR,
E aqui somo do pai as criaturas,
Que depois de melhores e mais puras
Voltarão para as mãos do seu autor.
E vivemos aqui do seu favor:
Do seu ar, do seu sol, da correnteza,
Dos seus campos, dos mares, da beleza;
Da família e do pão com que se cria,
Para que repitamos todo dia:
Quanto é grande o poder da Natureza.

Pronto, caro leitor, dou por encerrada a tarefa, a que me impus: apresentar esse brasileiro, negro, de temperança sem par. Os que lhe desconheciam a existência, eis, portanto, esses breves apontamentos, que põem luz a uma biografia que jaz oculta sob as páginas do catálogo do esquecimento. O fiz a partir de folhas dilaceradas e bolorentas que as esgaravatei junto a inexpressivos alfarrabistas do Nordeste, que as conservam porque nisto se comprazem. Desse poeta sobrerrestaram lembranças boas de serem lembradas, e a saudade da sua incomum arte de versejar.

Ao dar por concluída esta CARTA DE APRESENTÇÃO, espero não ter cometido exagerações, que inspirem suspeição ao crédito do apresentado, nem omissões, que possam apoucar-lhe os méritos.

Muito me comprazeria ser possuidor de um tostão da riqueza poética de Domingos Fonseca, mas quem nasceu para polca não chega a tango argentino.

2 pensou em “JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

  1. Prezado Jacob Fortes
    Que tua luz nunca se perca
    Nos deste um grande presente
    Um texto que narra acerca
    De um dos maiores vates
    Que vale muitos quilates
    Que cantou prazer e dor
    Foi pobre, filho da seca
    Mas Domingos da Fonseca
    Foi um grande cantador

    Paulo Moura

Deixe uma resposta